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AO LEITOR

A obra de Villa-Lobos O tema principal desta edição da revista DOMINGO é música. E a música em destaque é a do maestro Villa-Lobos. Neste ano é lembrado o cinquentenário de morte do músico brasileiro. A sua obra está eternizada não apenas por se tratar de peças eruditas, mas porque ele conseguiu incrementar a ela toda a brasilidade e o potencial da música brasileira. Essa é a principal característica de Villa-Lobos. Para isso, a jornalista Izaíra Thalita foi buscar informações junto ao professor de Música da Uern Isac Rufino. Ele também faz parte do grupo Camerata, que inclui em seu repertório músicas de Villa-Lobos. Mudando um pouco de assunto, um tema que merece ser sempre abordado e enfatizado: a violência contra a mulher. A entrevista desta semana é com a professora-doutora Fernanda Marques de Queiroz, que se dedica à pesquisa sobre esse tema. O Núcleo de Estudos da Mulher Simone de Beauvoir, do qual ela faz parte, pretende chocar a sociedade mossoroense nesta semana com um evento nas praças da cidade no Dia Mundial de Combate à Violência contra a

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ENTREVISTA Com a professora e coordenadora do NEM, Fernanda Marques

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FOTOGRAFIA Livro do fotógrafo Ricardo Crisóstomo traz seus olhares pelo mundo

• Edição C&S Assessoria de Comunicação • Editor-geral William Robson • Reportagem Izaíra Thalita • Diagramação Ramon Ribeiro

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Mulher. A professora explica como. Nesta entrevista, Fernanda Marques fala também da dificuldade de implantação da lei Maria da Penha e revela que a maior parte das mulheres vítimas de violência morre por armas brancas. Realmente é um assunto que merece constante reflexão, ainda mais quando se sabe que os casos de violência contra a mulher continuam elevados. E, por fim, uma reportagem sobre a enurese infantil. Nada mais é que o xixi na cama. Pode ser um problema que os pais não conseguem resolver. Os médicos explicam que até os cinco anos a criança fazer xixi na cama é normal, mas que depois disso é preciso procurar um especialista. Eles explicam que a partir dos seis anos, a criança já deve ter um controle da bexiga, evitando assim o que eles chamam de "micção involuntária". .

MÚSICA O cinquentenário da morte de Villa Lobos, um dos maiores compositores brasileiros

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COLUNA Um Dia na História lembra a Proclamação da República

• Projeto Gráfico Augusto Paiva • Impressão Gráfica De Fato • Revisão Stella Samia e Gilcileno Amorim • Fotos Fred Veras, Carlos Costa e Marcos Garcia • Infográficos Neto Silva

Um abraço, William Robson Editor-chefe

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SAÚDE Como lidar com a enurese infantil?

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CULINÁRIA O domingo fica melhor com nossas dicas de receitas Redação, publicidade e correspondência Av. Rio Branco, 2203 – Mossoró (RN) Fones: (0xx84) 3315-2307/2308 Site: www.defato.com/domingo E-mail: redacao@defato.com

DOMINGO é uma publicação semanal do Jornal de Fato. Não pode ser vendida separadamente.

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CONTO/JOSÉ NICODEMOS

ROUPA DE ALUGUEL Sem fortuna nem emprego de prestígio, Arnaldo frequentava a sociedade. Era-lhe notável, nessa qualidade, a fina educação. Desde menino procurara ser gente, o sentido aqui da procura de bons ambientes, não se amoldava aos modos e costumes do bairro pobre onde morava. Em razão do que nunca fora visto com bons olhos pelas gentes do bairro - sujeitinho besta, diziam. Auxiliar de escritório depois de contínuo, o que vale dizer salário pequeno, no entanto vestia-se bem, cuidava da aparência. Não era, nesta parte, como na educação, nada inferior aos rapazes da sociedade com os quais mantinha amizade. Era, como se diz, da casa do juiz da comarca, Dr. Dionélio, que lhe queria como a filho. Esse menino promete. Arnaldo, porém, tinha desgosto de ser tão pobre, achava que não merecia essa condição, doía-lhe ver o pai dormindo toda noite fora de casa, vigia de

uma firma de algodão. Sabia, entretanto, dissimular seu desgosto por trás de uma alegria comedida, e o seu nascimento, pelos modos educados. Notáveis, como disse. Festa de e dos quinze anos da filha do Dr. Dionélio, e era só no que se falava na cidade, o luxo. Presentes à festa as mais altas figuras do Estado, o governador, o presidente do Tribunal de Justiça, mas Arnaldo não deixou de ser con-

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Sabia, entretanto, dissimular seu desgosto por trás de uma alegria comedida, e o seu nascimento, pelos modos educados. Notáveis, como disse

vidado, pessoa de casa. Por aí, feriu-lhe o coração, ainda mais, o desgosto da sua pobreza, não tinha como comprar o terno adequado. Meio encabulado, mas não tinha outro jeito, foi à loja de roupas de aluguel, queria um terno para festa de quinze anos, mas que fosse sem uso, no que foi de logo atendido por Dona Julieta, a

dona, que lhe tinha a maior consideração - um rapaz pobre que queria ser gente na vida. Pronto, resolvida a situação. Quanto ao presente de aniversário, um amigo avisou-lhe que deixasse com ele, não se preocupasse. A festa foi, naturalmente, no clube elegante da cidade, orquestra mandada vir do Rio de Janeiro, tudo um luxo só. Ali no meio das importâncias sociais, Arnaldo se olhou no terno de aluguel, sentiu vergonha, teve um assomo íntimo de tristeza à percepção de sua condição na sociedade. Era assim como um embuste, ou coisa parecida, mas tudo a mesma coisa. Era um pobretão. Mas não nascera, já não se dirá para acomodar-se à pobreza ambiental, senão que para o convívio nos meios sociais convenientes. Devia ter nascido no berço errado. E, sem elaboração intelectual, que não era disso, rapaz de pouca instrução, começou a ruminar suas ideias relativas aos fatos humanos - na verdade nada nos pertence de forma definitiva, a própria vida, que um dia acaba. Vivemos num mundo em tudo parecido, se não a mesma coisa, com uma loja de roupas de aluguel. E, convencido dessa realidade, que lhe calhou no mais lá dentro, o mundo uma loja de roupas de aluguel, dançou, feliz, a valsa dos quinze anos de Dilma.

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E N T R E V I S TA / F E R N A N D A M A R Q U E S

'A maioria das mulheres assassinadas

morrem por armas brancas' Fernanda Marques de Queiroz é doutora e professora do curso de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Há dez anos ela realiza pesquisas, estuda a violência contra a mulher em Mossoró e no país, integra e coordena o Núcleo de Estudos da Mulher Simone de Beauvoir (NEM/UERN). Nesta semana, o núcleo estará nas praças da cidade com programação em torno do Dia Mundial de Combate à Violência Contra a Mulher, que a partir da arte, deve chocar a população. A professora Fernanda fala nesta entrevista das pesquisas realizadas pelo NEM, sobre as dificuldades de implantação na prática da Lei Maria da Penha no Rio Grande do Norte e, principalmente, do número de mulheres que morrem vítimas de violência. Por Izaíra Thalita

DOMINGO - Professora, está chegando o Dia Mundial de Combate à Violência contra a Mulher. Por que é tão importante lembrar as pessoas que existe este dia e da denúncia diante de atos de violência? FERNANDA MARQUES - A gente acha importante este dia, apesar de que nós não temos o que comemorar porque temos índices altíssimos de violência, mas ele vem sendo lembrado como sinal de alerta desde 1960, quando três mulheres foram brutalmente assassinadas pela Ditadura da República Dominicana, por lutarem por melhores condições de vida para as mulheres. O dia 25 de novembro faz alusão a essas mulheres brutalmente assassinadas e que ainda se mostra uma realidade atual. Por isso, a gente busca dar algum tipo de visibilidade a essa violência contra a mulher neste dia e esse ano o Núcleo de Estudos da Mulher (NEM), com demais entidades, promove a Semana de Combate à Violência em Mossoró e nossa programação neste ano visa realizar uma exposição que choca, realmente, a sociedade, em vários locais da cidade, para estarmos alertando essa violência contra a mulher, um problema gravíssimo, tanto de saúde pública porque ela hoje representa a segunda causa de internação de mulheres em hospitais, como também é uma grave violação aos Direitos Humanos. A gente faz várias atividades para mostrar à sociedade que a violência é algo inconcebível, que temos uma

Lei desde 2006 que é a Maria da Penha para proteger as mulheres. COM a Lei Maria da Penha, o número de casos de violência aumentou ou diminuiu? Como o NEM percebe a iniciativa de denúncia das mulheres após a Lei? NÃO é que o número de casos de violência aumentou, mas, as mulheres se sentiram mais protegidas para procurar a Delegacia de Defesa da Mulher. Existem pesquisas em todo o Brasil de que as denúncias têm aumentado em torno de 107%. Aqui na nossa cidade o aumento está em torno de 50% a 60%. Então, o núcleo percebe que as mulheres se sentem muito mais encorajadas, apoiadas quando têm a seu favor uma lei específica. Antes não havia uma lei que punisse, de fato, o agressor. Você tinha uma lei em que bastava pagar uma

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cesta básica ou prestar um serviço à comunidade, que o homem não era fichado, não era processado na Lei 9.099/95. Agora temos essa lei, porém ainda percebemos um distanciamento muito grande entre o que está previsto na lei e a efetivação dessa. As nossas pesquisas mostram que o mesmo com os serviços que a cidade tem como a Delegacia de Defesa da Mulher, o Juizado de Violência Doméstica e Familiar, ainda faltam muitas coisas: não se tem uma delegacia com plantão 24 horas, nem funciona nos finais de semana, o Juizado ainda funciona em sede provisória com poucos profissionais, não temos uma Casa Abrigo, não temos uma Defensoria Pública para defender e acompanhar os processos das mulheres, enfim, faltam muitas políticas públicas. A gente acha que


é importante ter a lei, mas que a luta é muito grande para implementá-las. VOCÊ falou que a morte de mulheres em consequência da violência é uma coisa muito presente. Há um perfil dessas mortes e dos agressores? O PERFIL dessas mulheres que sofrem violência geralmente é o perfil que não aceitam esse tipo de comportamento que é esperado das mulheres. Quando uma mulher morre fruto da violência, 90% dos casos das que são assassinadas são fruto da violência conjugal. São mulheres que buscam romper com essa imposição, o modelo de mulher tradicional, que tem de ficar em casa, que só ela tem a obrigação de cuidar dos filhos, a gente costuma dizer que ela busca romper com esse modelo que chamamos de machista e patriarcal, esse modelo de gênero desigual que traz enormes prejuízos para as mulheres e por isso sofrem mais violência. Quando se amoldam a esse perfil de mulher subordinada, submissa às agressões são menores com certeza. Já as mulheres que tentam romper, dizer não a esse modelo, sofrem muito mais a violência e elas podem romper com essa violência, denunciar, podem se separar a parti de várias estratégias. Em nosso Estado, em nossa cidade, muitas das mulheres assassinadas, quando vamos buscar a história delas, a gente percebe isso. Nós pretendemos numa próxima pesquisa nossa, pensamos em reconstituir a história dessas mulheres, mas o que nós já sabemos é que a maioria já tinha denunciado várias formas de violência e a impunidade é

grande. Mesmo agora com a Lei Maria da Penha e a partir da história de uma ex-aluna que está movendo um processo contra o agressor que só depois de dez meses é que ela foi ouvida pelo Juizado após a denúncia na DEAM. Então, você tem esse perfil de mulheres que buscam romper e que se insubordinam e isso desestimula as mulheres. Os processos são muitos para pouca gente, faltam profissionais, nós só temos um juiz com doze denúncias por dia, uma delegada e sabemos que são profissionais comprometidos com a causa, mas que estão no limite, atuando de maneira precária porque, apesar de termos governantes mulheres, tanto a nível estadual quanto municipal, ainda não há esse olhar diferenciado para a questão da violência contra as mulheres. Professora e em relação a essa programação que está sendo preparada para o dia mundial, de que forma se pretende chocar a sociedade? NOSSA programação, diferente de outros anos, será uma exposição em que nós vamos usar a arte porque ela sensibiliza e ela chama a atenção. O nosso tema esse ano é "O Machismo Mata - Não à violência contra a Mulher". Então, nosso painel se chama retratos da violência. É um painel que será construído em três momentos: o primeiro as armas da violência, onde vamos expor paus, pedras, machados, tesouras, facões, enfim, as armas que ferem e matam as mulheres e encenaremos uma pequena esquete teatral onde a gente vai trabalhar "as armas que matam". O primeiro momento é esse, o segundo são retratos mesmo, de mulheres brutalmente assassinadas. São fotos reais onde nós iremos garan-

tir com a tarja o sigilo dessas mulheres, mas são fotos de mulheres brutalmente assassinadas. Porque as mulheres assassinadas, fruto da violência masculina, não são assassinadas com armas de fogo, mas principalmente com armas brancas, crimes brutais. O terceiro momento é mostrar que existem saídas e aí vamos falar da Lei Maria da Penha, existe a delegacia, o movimento feminista, os grupos organizados, o Juizado, a sociedade que tem de estar alerta. O nosso painel choca mesmo e, enquanto realizávamos a construção, juntava pessoas aqui no NEM para ver os retratos. A gente quer realmente chocar, sabemos que as fotos são fortes, mas precisamos mostrar que é real. Quando você ouve que uma mulher foi morta por violência masculina, ela não foi morta com um tiro fatal, mas na grande maioria dos casos morre com requintes de crueldade. Há cinco anos, uma professora aqui da Uern teve uma morte brutal, teve traumatismo craniano, estava grávida de cinco meses e ainda foi jogada do quinto andar. São todos crimes bárbaros e o que percebemos é que para os agressores, não basta matar a mulher com um tiro, eles acabam também esquartejando, desfigurando o rosto - que é a sua identidade ou na barriga. Vamos trabalhar com dados, com esquete viva de alunas que vão mostrar as armas, muitas parecem até inofensivas como um batedor de carne, uma faca de cozinha, mas que são usadas para matar. Na nossa cidade, a gente teve esse ano já seis assassinatos, todos muito brutais, nenhum com arma de fogo, todos com muitas lesões, pauladas, marteladas, armas fabricadas em

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casa para matar a mulher como pegar uma colher de pau e encher de pregos para rasgar o rosto da mulher, crimes premeditados. É preciso mostrar essa crueldade, que é alto na nossa cidade e que precisamos cobrar mais também. VOCÊ falou dos movimentos e do engajamento para buscar ajuda. Mas, há uma organização para se cobrar que esses agressores realmente cumpram o período de pena, ou há vigilância para que haja punição aos agressores? NÓS do movimento feminista sempre estamos alertando aos poderes públicos contra a impunidade. Na medida do possível, estamos fazendo pesquisas tanto na delegacia quanto no juizado, acompanhando audiências de homens agressores, estamos fazendo pesquisas também ouvindo estes homens inclusive oriento dois trabalhos que estão ouvindo os homens, o que eles pensam da violência, porque eles agiram assim, as implicações de serem processados pela Lei Maria da Penha nas suas vidas. Percebemos que muitos homens banalizam essa violência, dizendo que não dá em nada, alguns homens que são funcionários públicos temem mais por causa da possibilidade de perder o emprego, mas a maioria não se arrepende, outros acham natural porque viram o pai, o avô baterem nas companheiras e há uma naturalização desse problema pelos homens, pela sociedade como um todo. E AS AMEAÇAS são denunciadas também tanto quanto à violência física? A AMEAÇA hoje é o crime mais denunciado em Mossoró, quase o dobro

da violência física porque as mulheres estão acreditando que quem diz chega a fazer e ninguém vai chegar a praticar uma violência logo de cara sem antes ameaçar. Isso serve como um alerta. A ameaça é um tipo de violência psicológica, é a que mais destrói a autoestima das mulheres. UMA vez fizemos uma matéria sobre uma pesquisa que à época mostrava que a violência não está apenas entre as mulheres de classe baixa, mas em todas as classes sociais. Isso é uma constatação mesmo? NO GERAL toda a mulher está potencialmente vítima. Agora, a gente tem dados de que as mulheres de classe média e alta também sofrem violência, mas elas denunciam bem menos. De 80 a 90% das denúncias não só aqui, mas a nível de Brasil são de mulheres pobres. POR QUE isso? PORQUE as mulheres de classe média alta têm outros subterfúgios. Elas contratam advogados, se separam, estão nas terapias de casais, elas têm maior facilidade e acesso a serviços - que não são públicos porque estes praticamente não existem - serviços particulares, porque têm medo de se expor. Por isso a denúncia é mínima. Mas a gente acredita que elas sofram violência sim e muitas vezes caladas, por medo da perda do status. Já a mulher pobre não tem nada a perder a não ser a vida, porque são frutos dessa desigualdade social, com dificuldades de sobreviver, elas vão ter vergonha de quê mais? Só lhes resta a polícia para retratar essa violência. As mulheres de classe média têm os consultórios, as terapias, as viagens, têm familiares em outros estados com condições financeiras que elas podem ir para

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lá e a gente sabe que há mesmo o medo de se expor. QUAIS serão os próximos passos do NEM nesta questão da pesquisa e combate à violência doméstica? NÓS estamos sempre na ativa com relação à violência. Denunciamos casos, acompanhamos mulheres porque o nosso núcleo é de pesquisa e extensão por isso também orientamos, encaminhamos mulheres, fazemos palestras nas escolas, em rádios divulgando a Lei Maria da Penha, nós estamos sempre atuando em defesa da mulher e no combate à violência. Temos uma parceria muito grande com a DEAM e demais órgãos como o CREAS Mulher que é um serviço que funciona na cidade de Mossoró, de assistência social, jurídica e psicológica às mulheres que sofrem violência e que fomos nós do NEM que capacitamos os profissionais para atuar com estas mulheres, enfim, estamos numa atuação contínua. Outra coisa importante é que o NEM está envolvido agora com uma pesquisa nacional sobre violência contra a mulher e nós iremos coordenar essa pesquisa no Estado. Criou-se no país um consórcio formado pelas cinco maiores universidades do Brasil para formar o "Observatório sobre a aplicação da Lei Maria da Penha", sediado hoje entre Bahia, Porto Alegre e Brasília. Estamos indo fazer um treinamento de 15 a 18 de novembro em Salvador para coordenar estes trabalhos no RN para saber sobre a aplicação da Lei aqui. Infelizmente, esta pesquisa só vai ser feita em Natal, achamos ruim não entrarmos em Mossoró, mas podemos ter uma ideia dessa aplicação na capital.


LIVRO

Olhos pelo

mundo

O fotógrafo Roberto Crisóstomo lança livro de fotografias que realizou em suas viagens por vários países

Uma viagem para qualquer lugar pede que se faça algum registro fotográfico dos melhores momentos, das mais belas paisagens e lugares. Imagine que se para a maioria das pessoas é essencial registrar esses momentos através de fotografias, para um fotógrafo profissional o difícil é escolher as melhores imagens dentro de um conjunto de fotos arrebatadoras. Isso porque um fotógrafo profissional vê beleza em imagens que possivelmente poucos veriam. Enxerga nos cenários mais simples grandes oportunidades de registro em forma de fotografia. Esse foi o desafio de Roberto Crisóstomo, com o seu primeiro livro, "Olhares do Mundo". O livro é uma mostra da coletânea de fotografias registradas em vários lugares do Brasil, América do Sul, América do Norte, Europa, Norte da África, Oriente Médio e Ásia, durante os últimos 20 anos, pelo fotógrafo Ricardo Chrisóstomo. No próximo dia 10 de dezembro, ele estará em Mossoró, para lançar o livro de fotografias na Livraria Siciliano, no Mossoró West Shopping.

lho Mundo, o amarelo escaldante do deserto de Saara, as mantas vermelhas dos monges tibetanos, a fumaça turva dos incensários budistas, o colorido dos mercados flutuantes da Tailândia, dentre outras tantas belezas da humanidade. Para o autor, o livro não se limita apenas a compartilhar e divulgar essas belas imagens fotográficas, mas, principalmente, sensibilizar as pessoas sobre a importância da preservação das diversas culturas existentes no mundo inteiro, onde estiverem, perto ou distantes de nós.

MUITAS CORES Ao todo, são 250 imagens fotográficas, entre elas seis das Sete Novas Maravilhas do Mundo. Além de compartilhar belas paisagens de mais de 30 países, o livro retrata as experiências de viagens e os conhecimentos acumulados sobre as diversas culturas dos vários povos que habitam o planeta e expõe as particularidades de tais culturas. Crisóstomo enfatiza no seu trabalho as cores características dos lugares, destacando os verdes mares do litoral cearense, a brancura dos bancos de areia das praias potiguares, o colorido das vestimentas incas nos altiplanos andinos, os reflexos das geleiras da Patagônia, o azul translúcido das águas caribenhas, a tonalidade gris dos monumentos medievais do Ve-

O AUTOR Ricardo Chrisóstomo é cearense, radicado no Rio Grande do Norte há 25 anos. Graduado em Engenharia Mecânica e, pós-graduado em Administração de Empresas e Gestão Ambiental, respectivamente, pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), trabalha no desenvolvimento dos campos de petróleo da bacia potiguar desde o início da década de 1980. Aderiu à arte da fotografia ainda na fase adolescente, registrando os contrastes do litoral e sertão nordestino, utilizando uma câmera fotográfica "mono reflex", com revelação em filme preto-e-branco. De lá para cá não parou. Sempre com uma máquina fotográfica na mão, registrou as belezas de vários lugares e regiões do Brasil e do mundo, revestindo com a sua personalidade gente, terras, mares, geleiras e desertos.

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Autodidata, aprimorou sua habilidade na arte da fotografia através do domínio dos ajustes manuais de suas câmeras fotográficas e da observação de várias fotos premiadas em livros e revistas especializadas. No último mês de julho, o autor teve um projeto aprovado pelo Núcleo de Artes Visuais da Capitania das Artes da Prefeitura de Natal, a Exposição Fotográfica Cores do Mundo, a qual ficou aberta ao público durante 30 dias na galeria Newton Navarro e recebeu mais de 500 visitantes. Em setembro passado, essa exposição também esteve aberta ao público no Teatro Porto de Ama, recebendo a visitação de vários estudantes do ensino médio e superior das redes pública e privada do município de Macau.


MÚSICA

Brasilidade na

música erudita No cinquentenário de morte do compositor e maestro Heitor Villa-Lobos, um pouco da vida e da obra deixada por um dos gênios da música erudita "Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que eu transponho instintivamente para tudo que escrevo". (Heitor Villa-Lobos)

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Todos os dias novos nomes na música em diversos estilos surgem em todas as partes do mundo. É uma característica desse tempo que os talentos venham surgir de maneira instantânea, veloz, mas que também são esquecidos e caem no ostracismo da velocidade e da instantaneidade dos tempos modernos. É cada vez mais difícil imaginar como fazer com que um trabalho artístico ou intelectual permaneça, mesmo após a morte entre os melhores em sua área. Por isso é válido reconhecer a importância de nomes que não só fizeram diferença em sua época, mas que mesmo após a morte, são tidos como referência de qualidade em suas áreas. Paraserlembradoereferenciadomesmocinquenta anos depois de sua morte, é preciso ter mudado e inovado em muitos aspectos e foi isso que o compositor e maestro Heitor Villa-Lobos fez. Nesta semana, dia 17 de novembro, é o cinquentenário de morte do músico que inovou e emprestou à música erudita uma "brasilidade" através de sonoridades e instrumentos que tornaram suas composições apreciadas no Brasil e no mundo.


Para entender a sua importância, basta ouvir o que se aprende e ensina sobre o maestro Heitor Villa-Lobos na formação em música. Na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), o professor de Música Isac Rufino, que é também o diretor do Conservatório de Música Dalva Stella, é quem apresenta um perfil das características que fazem do compositor um homem inesquecível para a história da música erudita brasileira. "Ele é considerado um dos maiores compositores no cenário musical brasileiro porque ele inovou em vários aspectos. Lobos buscava trazer para as suas composições uma brasilidade. Para isso, ele viajou pelo país e incorporou vários elementos e instrumentos que encontrou no interior. Com isso ele conseguiu traduzir uma alma brasileira para a música erudita que se tornou um diferencial, reconhecida no mundo", explica o professor. Rufino explica que Villa-Lobos demonstrava as influências e a grande admiração que tinha pela obra de Johann Sebastian Bach e foi, após encontrar essa "brasilidade", que numa forma de homenagear o mestre compôs nove conjuntos denominados "Bachianas Brasileiras", onde estão inseridas as suas composições mais conhecidas, entre elas "Tocata ou Trenzinho Caipira" e "Ária". Na música de Villa-Lobos há sons que demonstram elementos da natureza como pássaros, rios e folhas, mas há elementos musicais ricos que quebram o ritmo e que surpreendem quem ouve as músicas. "Em o 'Trenzinho Caipira', que está inserido dentro da Bachiana no 2, através dos sons e da velocidade da música que se trata de um trem partindo da estação, su-

bindo e descendo montanhas, com curvas, fazendo ainda o barulho da máquina", ressalta o professor Isac Rufino. Foi por essas inovações que entre 1915 e 1920 Villa-Lobos, na época casado com a pianista Lucília Guimarães, passou a receber críticas nos jornais contra "a modernidade de sua música". Em uma de suas entrevistas ele afirmou: "Não escrevo para ser moderno. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias". Não faltou muito para que se tornasse também um representante da Música na Semana de Arte Moderna, onde ele apresentou a obra "Danças Características Africanas". O professor Isac Rufino explica que Villa-Lobos gostava muito de compor para instrumentos de cordas - violão, violino, violãocelo - os famosos prelúdios. No entanto, é também algo que não chega às novas gerações. "A música erudita não está na mídia com tanta evidência e a obra de Villa-Lobos se torna essencial mais aos estudantes de música. Esperamos que com o retorno da dis-

ciplina de música nas escolas, a sua obra e a de outros compositores possa ser conhecida pelas gerações", ressalta. Entre os títulos mais importantes que o compositor recebeu antes de morrer aos 72 anos, está o de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova Iorque e o de fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Música. Em 1986, Heitor Villa-Lobos teve sua efígie impressa nas notas de quinhentos cruzados. CAMERATA DE CORDAS Um exemplo de que a obra de Villa-Lobos é pré-requisito na formação de jovens músicos ainda hoje é a presença de suas composições nos repertórios das orquestras sinfônicas no Brasil e também no exterior. Em Mossoró, a obra de Villa-Lobos está presente na Camerata de Cordas. "A Camerata é uma grande representante da nossa música. A obra de Villa-Lobos se torna obrigatória em qualquer repertório de música erudita pelas inovações, pela qualidade e por ter uma linguagem que ainda hoje é considerada atual. Acho difícil que surjam hoje gênios do nível de Villa-Lobos e é por isso que sua obra será sempre uma referência", completa o professor. VILLA-LOBOS NO CINEMA Para conhecer mais da vida e obra do músico e compositor, é possível ver sua história em livros, na Internet e até no cinema. O maestro foi retratado nos filmes 'Bachianas Brasileiras: Meu nome é Villa-Lobos' (1979), O Mandarim (1995) e 'Villa-Lobos - Uma vida de Paixão' (2000), além de aparecer pessoalmente no filme da Disney, 'Alô Amigos' (1940), ao lado do próprio Walt Disney. Camerata de cordas do Conservatório de Música da Uern possui no repertório composições de Villa-Lobos

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Inspiração no Brasil

BREVE RESUMO DE ALGUMAS DE SUAS PRINCIPAIS COMPOSIÇÕES: Ária A mais popular das melodias villa-lobianas, nitidamente inspirada nas serestas, foi composta em 1938, com texto de Ruth Valadares Correa e dedicada a Arminda Villa-Lobos. Ruth Valadares Correa - que era também cantora - foi responsável pela estréia da obra, em 1939, sob a regência de Villa-Lobos, no Rio de Janeiro.

Tocata - Trenzinho Caipira Se em primeiro lugar em popularidade encontra-se a "Ária" da "Bachianas Brasileiras Nº 5", é o último movimento da "Bachianas Brasileiras Nº 2", a "Tocata" - mais conhecida como "O Trenzinho do Caipira" - que ocupa a segunda posição. Uma de suas obras mais características demonstra um original colorido orquestral, presente em muitas das partituras do compositor e busca dar a velocidade de um trem em partida. A música evidencia a forte impressão que lhe causou a música sertaneja, ouvida em suas viagens pelo interior do Brasil.

Uirapurú É das primeiras obras-primas de Villa-Lobos, e dá início a uma linguagem orquestral tipicamente villalobiana. A partitura retrata o ambiente da selva brasileira e seus habitantes naturais - os índios -com uma impressionante riqueza de detalhes. O argumento que serviu de base para a composição desse poema sinfônico é de autoria do próprio autor, e conta a história de um pássaro (o uirapuru, que na mitologia indígena é considerado o 'deus do amor') que se transforma em um belo índio, disputado pelas índias que o encontram. Um índio ciumento, não suportando aquela adoração, flecha-o mortalmente. Ao retornar à sua condição de pássaro torna-se invisível e dele se ouve apenas o canto que desaparece no silêncio da floresta.

A Maré Encheu O folclore infantil sempre foi um elemento importantíssimo na produção villa-lobiana. Prova disso são suas incontáveis obras, direta ou indiretamente impregnadas das canções que, por gerações, têm sido perpetuadas. A "Maré Encheu" é um dos muitos exemplos do refinamento que o compositor emprestava à simplicidade daquelas melodias.

Kankikis Um número de três - "Farrapós", "Kankukus" e "Kankikis" -, foram originalmente compostas para piano solo, entre 1914 e 1915, e receberam de Villa-Lobos o subtítulo "Danças dos Índios Mestiços do Brasil". O compositor diz ter se inspirado em temas dos índios Caripunas, do Estado do Mato Grosso, cuja raça seria formada do cruzamento com negros. É a partir das "Danças" que começa a delinear-se a linguagem villa-lobiana, que viria a se consolidar nos anos 20 com suas viagens à Europa. Durante a Semana de Arte Moderna, as "Danças Características Africanas" foram apresentadas para octeto (flauta, clarinete, piano e quinteto de cordas), numa transcrição do próprio Villa-Lobos. Fonte - Museu Villa Lobos - (http://www.museuvillalobos.org.br)

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COLUNA

UM DIA NA HISTÓRIA

Lindercy Lins - Prof. Depto. História - Campus Central/Uern - lindercy@hotmail.com

15 de novembro de 1889 Proclamação da República Federativa dos Estados Unidos do Brasil A coroa sem rei ou o rei sem coroa? Certamente, o leitor lembrará as três principais causas do fim da monarquia brasileira, a começar pela questão religiosa, cujo fator foi o desentendimento entre Igreja Católica e dom Pedro II; a questão militar, o lento desfecho do conflito envolvendo militares e "casacas" (políticos civis), cujo início procedeu à Guerra do Paraguai (1870), cujo Império, no afã de vencer os paraguaios, criou, repentinamente, um grande exército com incumbência de "dar cabo" às tropas de Solano López, após seis anos de intensos conflitos, o Brasil saiu-se vencedor, no entanto criou uma força militar unida, ideologizada e disposta a defender o que eles conceituaram de modelo de pátria positivista, com a qual o regime monárquico não se enquadrara. Além disso, a questão abolicionista, uma das maiores contradições da história política brasileira, pois a lei Áurea, medida com grande impacto popular, foi devastadora para a sustentabilidade institucional da monarquia, porque reuniu de uma só tacada no Partido Republicano (criado em 1870) setores antes rivais: republicanos históricos e proprietários rurais, anteriormente monarquistas, tornaram-se "republicanos" pelo descontentamento com a abolição dos escravos. Além disso, acrescentem-se outros fatores como a simpatia de dom Pedro II pela República, especulava-se também sobre a saúde do imperador, pois este era visto como moribundo em razão da diabetes, o que provocava receio do povo por um provável 3° reinado a ser ocupado por um francês, o marido da princesa Isabel, Conde D'Eu, figura antipaticíssima pela população por ser proprietário de cortiços no Rio de Janeiro, "explorador dos pobres", conforme ouvia-se nas ruas. De fato, poucos imaginavam a continuidade da monarquia nos estertores de dom Pedro II. A quartelada saltimbanca ou a República de Dom Quixote O Império demonstrava sinais de esgotamento, sabia-se do desejo da jovem oficialidade pela República. Uma medida ado-

tada pelo governo foi o isolamento de militares ilustres a fim de desestimular os mais jovens à conspiração. O feitiço voltou-se contra o feiticeiro, ou seja, acabou por atiçar ainda mais os brios dos militares, sob o pretexto acalorado de que a Corte pretendera acabar com o Exército. Marechal Deodoro da Fonseca, líder incontestável do Exército, figura esguia, de olhar visionário, fazia lembrar o herói de Cervantes, como aponta a historiadora Isabel Lustosa, acabara de retornar do isolamento em Mato Grosso. De volta ao Rio, envolve-se nas conspirações republicanas, crendo no extraordinário boato da dissolução do Exército pelo ministro Visconde de Ouro Preto. O dia do golpe fora preparado no dia 11 de novembro de 1889. Alguns entusiastas do novo regime afirmavam que o golpe deveria ocorrer ainda naquele ano, a fim de celebrar o centenário da Revolução Francesa. Definiu-se 15 de novembro, uma sexta-feira, como data da conspiração. No dia 14, Deodoro sofrera crise de asma. Pensouse em adiar o golpe para o dia 18, no entanto o major Sólon Pinheiro soltara boato sobre a prisão do bem-quisto Marechal. Foi o suficiente para a mobilização das tropas em frente ao Palácio do Governo. Deodoro, surpreso, partira ao encontro dos soldados ainda na madrugada do dia 15. Ninguém sabia exatamente o que estava para ocorrer. O nosso Dom Quixote adentrou o Palácio e, sob discurso efusivo, depôs o ministro Ouro Preto, por este não tratar condignamente o Exército. Detalhe: dom Pedro II nem se encontrava presente na Corte, pois estava em Petrópolis; soube de boa parte do golpe por meio de telegramas. Até aquele momento, a República não fora sequer citada, a não ser por alguns oficiais, imediatamente silenciados por Deodoro. A indecisão sobre o futuro daquela ação durou por toda a sexta-feira. De casa e acamado, o marechal respondia os telegramas sobre as ações. Pressionado e irritado com as atitudes do demissionário Ouro Preto, decide então pela República. Apenas na tarde do dia 16, a Família Real recebeu telegrama informando da deposição dos Bragança e a proclamação da República. Abúlico, o rei despede-se dos súditos ali presentes e parte com sua comitiva ao exílio.

gemônico, tampouco poder-se-ia definila, visto que uma teia de grupos com diversos interesses tentou, cada um ao seu modo, implementar um rumo no porvir do 15 de novembro. Militares, sustentando-a como uma "ditadura patriótica", ao modelo do progresso com ordem; cafeicultores, "republicanos históricos", defendendoa como federalista; setores médios, ligados a figuras como Silva Jardim, ardilosos defensores dos princípios franceses, cujo lema tricolor era vocativo de reformas sociais profundas pelo novo regime; dentre muitas ideias censuradas ou apagadas pela história dos vencedores. Resumo: o governo provisório republicano foi a união de setores militares com os conservadores produtores rurais, resultando na burlesca expressão "República dos Estados Unidos do Brasil", macaqueando os estadunidenses, deixando a população senão "bestializada" com o novo, pusilânime pelo novo regime. De fato, aos pobres e miseráveis nada mais pungente que a perfumaria da mudança de regime. "Às favas a monarquia e a república", gritavam uns; e para outros a expressão "tanto faz" caíra bem, pois sua vida, evidentemente, não mudara com o golpe republicano.

Eis a República? Para a infelicidade de muitos, a República proclamada não fora um projeto he-

Retrato equestre do Marechal Deodoro da Fonseca. Henrique Bernadelli. 1900

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SAÚDE

Controle do

xixi na cama Na área médica a enurese infantil indica um problema: crianças que após os primeiros cinco anos ainda continuam fazendo xixi na cama. É fundamental para os pais entenderem o porquê disso Todo mundo passa por essa experiência: deixar de fazer xixi na cama é uma demonstração de que a primeira fase de quando se está na infância, de total dependência, vai ficando para trás. Mas é sinal de muito mais coisas, como a de perceber que o desenvolvimento da criança está ocorrendo normalmente porque ela já consegue prever o momento em que a bexiga está muito cheia, e que ela consegue ativar o esfíncter que prende a urina e não a deixa escapar, mesmo durante o sono. Por isso, há um período em que fazer xixi na cama é algo comum às crianças e também um indicador de que algo está errado. "A criança fazer xixi na cama é considerado algo normal até os 4, 5 anos de idade. A partir dos 6 anos já não é normal", explica o médico pediatra Paulo Alfredo Simonetti, que também é professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Estado (UERN). Quando passa dos cinco anos já se considera que a criança tenha "enurese infantil", que é justamente a micção involuntária a partir de uma idade na qual já se deveria ter adquirido o controle da bexiga. Segundo o pediatra, as causas são diversas, mas um dos principais motivos é o genético. Em 97% dos casos de crianças que têm enurese, seus pais também tiveram o mesmo problema na infância. Outras causas estão relacionadas a infecções urinárias e problemas neurológicos. Há também crianças que não conseguem controlar os esfincters (um músculo que controla o grau de amplitude de um determinado orifício - esfíncter uretral e o anal). "A bexiga e o intestino ficam um atrás do outro. Quando um distende muito, algumas crianças não conseguem juntar

Pediatra e professor da Faculdade de Medicina, Paulo Alfredo Simonetti: compreensão dos pais evita problemas psicológicos

fezes e urina ao mesmo tempo", explica o médico. No entanto, é o aspecto psicológico que, de acordo com o médico, pede mais cuidados. "Toda criança que tem enurese tem algum tipo de problema de comportamento. Alguns pais começam a dizer que a criança não faz por preguiça e provocam na criança uma grande ansiedade. Outras pessoas na família tomam atitudes coercitivas que geram mais ansiedade e quando ela não consegue o problema vai aumentando", explica, ressaltando ainda que é fundamental relembrar que a enurese é involuntária e por isso a criança não deve ser castigada ou culpabilizada. Da mesma forma, a naturalização do problema também não ajuda: "A criança também passa a ter proble-

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mas no convívio com os colegas, tem vergonha de dormir na casa de estranhos ou de amigos, prolongando um desconforto. A enurese pode ser de uma causa orgânica e os pais não sabem", reforça. MEDIDAS O primeiro passo para resolver o problema é identificar que a criança que passou dos cinco anos e continua fazendo xixi na cama precisa ser levada ao pediatra. O médico irá fazer exames para verificar como está a situação anatômico-funcional da bexiga da criança. "Tem pessoas que têm bexiga muito estreita e por isso não seguram muita quantidade de urina, outras não têm pressão na válvula que prende a urina na bexiga, outras não lançam o hormônio denominado vasopressina, que faz


com que se acumule mais urina enquanto dormimos e nestes casos exige uma intervenção com medicamento", explica.

que acorda a criança. É uma espécie de "babá eletrônica" do xixi, pode ser encontrada na Internet.

SENSOR DE XIXI Uma das alternativas interessantes é o uso de um sensor que está disponível no mercado. É colocado na roupa da criança e ao menor respingo emite um som

PRA QUE DEMORAR? Se a ajuda do especialista ocorrer ainda no começo do problema, algumas medidas como beber menos líquido à noite, acordar a criança para levá-la ao banhei-

ro, entre outras ajudam a resolver. "Para nós adultos parece um problema simples, mas, imagine o desconforto pra uma criança que cresce com enurese infantil. Muitas vezes ela desenvolve vários problemas psicológicos ao longo da infância por causa disso, quando a ajuda do pediatra pode resolver o problema mais rapidamente", completa Simonetti.

Veja algumas dicas práticas que ajudam a criança a evitar o xixi na cama: NA MAIORIA DAS CRIANÇAS, A ENURESE TRATA-SE SEGUINDO ESTAS RECOMENDAÇÕES: - O quarto da criança deverá sempre ficar o mais próximo possível do banheiro, de modo a facilitar o acesso; - Os pais não devem encorajar o uso de fraldas; - Elogie os dias secos em que a criança não fez xixi na cama, mas não o culpe nos dias molhados; - Pode proteger o colchão onde a criança dorme; Deixá-la dormir no colchão molhado não vaia 'ensiná-la' a evitar a enurese. - Estimule a criança a ingerir líquidos durante o dia para que possa reconhecer a sensação de bexiga cheia; - Reduzir a ingestão de líquidos à noite; - No mercado há um sensor que pode ser colocado na roupa da criança e dispara um alarme para que acorde ao menor sinal de xixi. Ajuda a condicionar a criança antes que ela urine a cama.

MEDICAMENTOS - Se optar por recorrer ao uso de fármacos, deve fazê-lo com a prescrição de um médico pediatra; - Estes medicamentos fundamentam a sua ação na produção de um efeito antidiurético. - O mais comum é a desmopressina, que pode ser administrada por via oral ou intranasal. - O seu uso só é recomendado em crianças com mais de 5 anos de idade, devendo a dose ser adequada ao seu peso e administrada sob vigilância médica. - Estes fármacos têm como efeitos secundários a hiponatremia (baixa de sódio) e, consequentemente, convulsões e retenção de água. - Na consulta de pediatria, a dose é ajustada de acordo com a evolução da criança, à qual é pedido o preenchimento de um calendário onde deverá apontar os dias em que não ocorrem "acidentes", de modo a avaliar os progressos alcançados. Fonte: Dr. Paulo Alfredo Simonetti

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ARTIGO/PEDRO FERNANDES

LER O DOM QUIXOTE Depois de "Crime e castigo", de Dostoievski, essa me foi a obra mais cara à leitura, entretanto, me parece ser essa a característica do clássico: a de marcar seu leitor por todas as vias possíveis, como se a leitura, para ser tida realmente como tal, devesse nos jogar no seu calabouço e de lá nos arrastar aos poucos, trazendo-nos, dessa experiência, carregados de uma nova camada de humanidade agarrada à nossa figura. Como disse certa vez, num texto anterior a este sobre "Os sertões", de Euclides da Cunha, renovo aquelas imagens de grande teatro para o clássico de Cervantes. Composto numa época de transição, clara sátira ao fadado romance de cavalaria, entretanto, sem reduzir-se a tanto, "O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha" nos coloca diante de uma grande arena, que é a Europa medieval povoada de tipos que vão desde o mais popular e picaresco ao sofisticado e grave; "Dom Quixote" é, sem dúvida, uma grande aventura da linguagem, conforme entendeu Michel Foucault, e da tênue relação entre ficção e realidade. Tudo entrançado pelo fio do humor, que, não são raras as vezes que o leitor deverá rir-se com as "desaventuras" do Quixote e de seu escudeiro. Muitas são as cenas e episódios possíveis de destaque. Fora a clássica cena da luta do Engenhoso Fidalgo com os moinhos de vento e da de suas loucuras e cavalhadas em penitência a sua Dulcineia Del Toboso, não dá para deixar de mencionar a cena da queima dos livros da biblioteca do D. Quixote, ainda no início da primeira parte do livro, como uma das mais significativas. Os livros, em sua grande maioria de cavalaria, são os acusados de serem os que haviam levado o sossegado Alonso Quijano, o Bom, à loucura da cavalaria andante; na cena a sobrinha, a ama e o padre, figuras que moravam junto com D. Quixote, dão corda a empreitada do fim dos tais. Longe de se reduzir à opinião do próprio Cervantes, que era o do fim daquela "forma de literatura", muito em voga na época, a cena que finda na queima dos livros tem em si uma série de sentidos. Primeiro, ela é empreendida por duas mulheres, as que na época não tinham acesso à leitura dado os meios de cerceamento da Igreja e do Estado, muito bem representados aqui na figura do padre, que é quem sentencia e quem julga o que é boa prosa e o que não é. Em seu juízo, as ações aqui processadas vêm denunciar os espartilhos amarrados com todas as formas de censura, principalmente a empregada a torto e a direito pela Igreja, que na época, sob a instituição da Inquisição juntamente com o controle do Estado tinha o interesse de jul-

gar o que seria propício e adequado ao entretenimento ou ao desvirtuamento dos leitores. Por extensão, claro está uma denúncia ao crime de silenciamento e contra a memória, afinal, mesmo não vendo Cervantes com bons olhos a extensa produção de livros de cavalaria, é da leitura deles, e isso é claro no intenso diálogo intertextual que essa obra mantém com as do gênero, que ele escreve o "Dom Quixote"; certamente, não tinha ele o interesse de uma caça e queima no plano de uma realidade empírica. Além do mais, a própria biologia do "Quixote" vem corroborar para essa interpretação, bastando que se cite que a obra foi, por várias vezes, censurada pelos inquisidores e para ter sua circulação passou ainda pelo crivo de uma "licença" concedida pela Coroa. O leitor também há de notar o cuidado, exacerbado até, que a novela tem, em todo seu decorrer, de louvar o cristianismo frente a outros credos, como o Islã, e demonstrar o caráter de respeito para com o Império, desde as extensivas dedicatórias postas na abertura de ambas as partes da obra. É também na cena de queima dos livros que se apresenta o tão conturbado debate instalado desde Platão e seu "Banquete": o da relação entre prosa e poesia, de que esta estaria mais para o fingimento (fingimento que nos conhecidos versos do português Fernando Pessoa, contemporaneamente, viria ser ironizado: "O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que a fingir que é dor / a dor que deveras sente", instalando uma poética do fingimento necessário para ser-se poeta), enquanto que a prosa teria um compromisso com o real empírico, compromisso que seria levado a fundo quando mais tarde se consolidaria aquilo que a historiografia literária chama de estética realista. Ainda nessa cena outro debate se é instalado, um debate que remonta desde a invenção da imprensa por Gutenberg, quando os livros passaram a ser produzidos em maior escala e, destarte, a constituir um universo simbólico na esfera social, que é, o nem sempre harmonioso em torno da relação entre a crítica e o texto literário. Isso quando do "julgamento" pelo padre de uma obra do próprio Cervantes. É nesse momento também que nos é possível tirar encaminhamentos para um conceito, que só viria se formar contemporaneamente nos estudos do texto, que é o de metatexto - uma vez que é o próprio autor que, pela boca da personagem, tenciona uma reflexão em torno do próprio texto. Haverá vários outros momentos dessa obra em que se processam tais relações, principalmente, quando na segunda parte, que Cervantes já a escreve bem depois de publicada a primeira. Remonte-se para o caso os vários momentos em que são as próprias personagens que se postam à leitura da primeira parte da obra. Impossível de não lembrar aqui de outra queima de livros, a do filme "Fahrenheit 415", e das manobras operadas pela Igreja em "O nome da rosa", de Umberto Eco.

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No mais, acho que devo reparar na capacidade que tem "Dom Quixote" de, com toda a sua fantasia e loucura, envolver, por elas mesmas, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, todos os que dele estão próximos ou se aproximem: a mentira forjada pela sobrinha e pela ama, quando o Quixote dá contas de que sua biblioteca desaparecera, é um bom exemplo disso; cito ainda as proezas encenadas pelo duque e sua corte, na segunda parte da obra e pergunto se há loucura maior que a de dar corda e concretizar, como se fossem fatos reais, todas as façanhas imaginárias do Cavaleiro da Triste Figura; e, não posso deixar de citar a figura maior nesse jogo real-imaginário na novela, a do Sancho Pança, que ao se deixar levar pela ambição do governo de uma ilha, pactua, mesmo que, a contragosto algumas vezes, de todas as desaventuras de seu amo. E, para finalizar essa galeria, relembro a armação fabricada pelo bacharel Sansão Carrasco, que é impelido pela sobrinha, pela ama e pelo padre, sonhadores com a volta do fidalgo para o sossego de casa. É essa a cena que desencadeia o final do "Dom Quixote", em que ele, derrotado nessa última batalha, já no seu leito de morte, renega sua condição de cavaleiro, esquecendo-se mesmo de todo seu projeto "pastoril" planejado com Sancho Pança na volta para sua terra. Estratégia ou não do narrador cervantino, essa cena vem inscrever para os anais da literatura a imortalidade da personagem, uma vez que nesse seu ato de negação reside a esfera de uma autoafirmação enquanto cavaleiro andante. São por cenas como essas aqui citadas que a leitura do "Dom Quixote" diretamente reitera o papel da obra de arte literária, o de recuperar em nós a necessidade de imaginação e fantasia criadora, elementos fundamentais para não perdermos essa essência do que somos, humanos, ainda mais num mundo como o contemporâneo, cujas forças de alienação e maquinização dos sujeitos são tão vibrantes. Pedro Fernandes O. Neto é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras da Uern


CULINÁRIA

Bolo pudim INGREDIENTES PUDIM: 3 ovos 1 lata de leite condensado 2 latas de leite (use a de leite condensado como medida) MASSA DO BOLO: 3 ovos 1 xícara (de chá) de açúcar 1/2 xícara (de chá) de margarina 1/2 xícara (de chá) de leite 1 e 1/2 xícara (de chá) de farinha de trigo peneirada 1/2 xícara (de chá) de chocolate em pó 1 colher (de sopa) de fermento

MODO DE PREPARO PUDIM: Bata todos os ingredientes no liquidificador e reserve MASSA: Bata na batedeira os ovos, o açúcar e a margarina até formar um creme liso; Aos poucos, acrescente o leite alternando com a farinha e o chocolate peneirados; Por último, acrescente o fermento e misture delicadamente; Despeje a massa em uma forma redonda sem furo no meio de 30 cm diâmetro untada e enfarinhada e cubra com o pudim reservado; Asse em forno médio pré - aquecido em, 30 minutos, aproximadamente; Deixe esfriar e sirva

Carne moída a putanesca Pudim de pão INGREDIENTES 300 ml de leite de coco 1 leite condensado 300 g de pão amanhecido 1 colher de manteiga 5 ovos 200 g de açúcar

MODO DE PREPARO Bata tudo no liquidificador Coloque em forma de furo, untada com caramelo, ou outras opções (cobertura de sorvete qualquer sabor) Asse por 30 minutos em banho-maria

INGREDIENTES 500 g de carne moída (patinho); 10 azeitonas pretas sem o caroço; 1 colher (sopa) de alcaparras; 1 colher (sopa) de orégano (ou o quanto baste); 1 colher (sopa) de manjericão (ou o quanto baste); 1 dente de alho picado; 3 tomates sem as sementes (cortados em cubos); 5 colheres (sopa) de azeite de oliva; 1 cebola grande (cortada em cubos); 2 tabletes de caldo de carne; 1 colherinha (2 g) de ajinomoto

MODO DE PREPARO Coloque o azeite na panela, deixe-o ficar moderadamente quente; Acrescente a cebola e o alho refogando-os até começarem a dourar; Agora refogue a carne moída e acrescente os dois tabletes de caldo de carne e o aji-nomoto; A carne deve secar totalmente (não acrescente água e não tampe a panela) ficando bem moreninha; Agora é hora de acrescentar os tomates picados, as azeitonas pretas sem caroço e as alcaparras; Mexa bem e para finalizar acrescente o orégano, o manjericão e a pimenta calabresa, mexa mais um pouco e é só servir Jornal de Fato

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Revista Domingo 15 de Novembro de 2009  

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