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Uma força eterna: perfil do bibliotecário Marcos Antonio dos Santos Em um sábado de junho, Marcos Antonio dos Santos me recebe em sua casa na Zona Norte do Rio com um sorriso no rosto, apesar de estar vestindo uma camisa da seleção de Portugal, que acabara de ser eliminada da Copa do Mundo. Velho conhecido da família, Marcos aceitou de imediato conceder uma entrevista, “mas só depois dos jogos”, já que está acompanhando todos religiosamente. Nascido em 1964 no bairro do Grajaú, se mudou ainda muito jovem para Água Santa, depois de os pais se separarem. E foi no bairro que ganhou o apelido “Tadeu” de um amigo torcedor do America FC, por conta da semelhança com o jogador Tadeu Ricci, que jogava pelo clube na época. O apelido se popularizou e qualquer um que o conhecesse pela vizinhança o chamava pelo novo nome. E foi nesta mesma vizinhança que ele viria a conhecer Rubmar, um de seus melhores amigos, meu tio, e a variável que nos uniu nesta conversa. Tadeu – como eu mesma sempre o conheci – fala alto e bem humorado, mesmo quando conta de tempos difíceis de sua vida. Hoje há 27 anos limpo, o bibliotecário foi dependente químico na juventude. O álcool entrou na sua história muito cedo, por volta dos 13 anos de idade, e por toda a adolescência se instalou em uma adicção profunda. Com uma memória particularmente afiada, ele se recorda de datas e conversas específicas, mas não consegue se lembrar, por exemplo, quando exatamente conheceu Rubmar. Ainda assim, conta com clareza o exato momento em que sua mãe o levou para um escritório na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, aos 17 anos, no dia 23/02/1991. Ela foi pessoalmente pedir ao reitor que contratasse o filho, para que ele pudesse se afastar do álcool. “Ele me perguntou ‘e você rapaz, quer esse emprego?’ e eu disse ‘eu não, minha mãe que está me enchendo o saco’” conta, gargalhando. “Ele me disse que me contrataria, então, porque eu precisava dar paz para minha mãe.”

O envolvimento com a cocaína veio depois. Trabalhando na universidade, esteve em todos os tipos de ambientes, festas e comícios. Compartilhava com o amigo Rubmar o engajamento político e a luta pela democracia, meio à ditadura militar no Brasil. Infelizmente, também tinham a adicção como fator comum. Mas Marcos nunca fala desses momentos com tristeza ou amargura, pelo contrário. Divide a seriedade do assunto com a leveza do bom humor, contando histórias como a de quando ele e o amigo empurraram até em casa uma moto que


ficou enguiçada a cerca de 7km de distância, na rua 24 de Maio, parando para beber em todos os bares do caminho.

Como curso natural da vida, a dependência química traz com si problemas físicos e psicológicos para o adicto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a dependência química como uma doença crônica e progressiva. Ela piora com o passar do tempo, é primária, que gera outras doenças e pode ser fatal. “É como se você estivesse subindo numa escada rolante que desce, uma luta diária, você não pode nunca parar. Se parar, a escada desce e você também”, Marcos apontou. Mas esse esclarecimento só chegou a sua vida no ano de 1991. Depois de 10 anos trabalhando na UERJ e lidando com a adicção, algumas fobias e o desempenho afetado no trabalho ficavam claros para alguns colegas. O funcionário Luiz Neri foi o primeiro a “plantar a semente” da irmandade dos Narcóticos Anônimos na vida de Marcos. A terrível sensação de só estar bem com o álcool chegou a um ponto insustentável, mas “Tadeu” tinha medo de ser rejeitado.

No dia 24/01/1991, ele encontrou a irmandade na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Grajaú. “Eu iria para a primeira reunião com o Luiz numa sexta, mas alguma coisa me fez sair de casa naquela quinta e andar até chegar naquela igreja”. Coincidência, obra de uma força superior ou não, naquele dia um grupo da NA se reunia ali. “Lá eu encontrei um novo tipo de ser humano… porque pra mim só existiam os doidões ou os caretas, mas lá tinha essa nova pessoa que não era nem um nem outro”. O primeiro passo dos estudos da irmandade é admitir a impotência perante à adicção. Ouvindo aquelas pessoas contarem suas experiências, Marcos teve uma identificação imediata. “Pensei se eles não estavam me observando, porque eu estava morando ali perto na época né? Tudo que eles falavam parecia com a minha história”. Integrado ao grupo, ele se viu renascer – exatamente assim que ele descreve sua passagem, um renascimento. Uma nova vida que lhe entregou uma força eterna. Limpo, Marcos também “plantou a sementinha” da recuperação em seus amigos, incluindo Rubmar. “O afastamento acabou sendo inevitável, porque eles poderiam me fazer mal e eu, para eles, era um chato”. Ainda assim, com a mesma sensibilidade que lhe foi apresentada antes, ele ajudou o amigo.

Em sua guinada de vida, se formou em biblioteconomia pela Unirio e prestou concurso para a mesma UERJ que trabalhara desde jovem. Se casou e foi pai de duas filhas, hoje com 15 e 23 anos. Depois de 10 anos de recuperação, ele aceitou trabalhar para a UERJ na cidade de


Resende, no sul do estado. Ficou na cidade por 13 anos, até que aceitou voltar para a capital depois da separação com a esposa. Em sua casa atual, com a nova companheira, recebe as filhas no final de semana e cuida de seus animais de estimação – uma cadela e um número de gatos ainda desconhecido.

O dependente químico é passível de estigmatização extrema da sociedade. Por falta de compreensão ou por um preconceito velado, é comum vermos políticas públicas ineficazes para o tratamento destas pessoas. Isso reforça a importância da presença de grupos de apoio independentes, que possam auxiliar o adicto a renovar sua vida em todas as instâncias. Se referindo aos métodos da irmandade, Marcos diz que “parar de usar as drogas é um meio, mas não é o fim”. A finalidade, como ele aponta, é mudar todos os hábitos compulsivos ou tóxicos da pessoa. A adicção não se manifesta somente no álcool ou nas drogas ilícitas, mas em outros comportamentos também. No caso de Marcos, se manifestou no esporte. Na época em que seu primeiro casamento entrou em crise, ele conta que sabia não só toda a pontuação dos times do “brasileirão”, mas também como iam praticamente todos os campeonatos pelo mundo, fosse de futebol, ou de tênis… Hoje, apesar de estar vidrado na Copa do Mundo, parece que este comportamento compulsivo melhorou muito. Ele só não perde um único jogo do Flamengo, seu clube do coração.

Infelizmente, a presença nas reuniões do NA se tornou escassa na vida de Marcos. Ele conta que se sente como um “barco à deriva, não afundando… mas indo com a maré”. Nunca mais sentiu o impulso de usar drogas ou beber, mas não comparece às reuniões há muito tempo e hoje está se conscientizando para mudar isso. Atualmente trabalhando em um campus da UERJ em Petrópolis, ele pensa em se mudar para lá com a companheira Ester. Tem uma relação muito presente com as filhas e, apesar de ser fumante, está saudável. Contudo, o acompanhamento do grupo é importante para que ele – e todos os ex dependentes – esteja em paz consigo mesmo, trabalhando também a sua saúde mental. “Eu tenho consciência de que hoje eu preciso mais de Narcóticos Anônimos do que quando eu saí das drogas. Porque lá atrás eu não tinha mais quase nada a perder. Hoje eu tenho muitas coisas, tantas que eu nunca nem imaginei conquistar”.

Uma força eterna: Perfil do bibliotecário Marcos Antonio dos Santos  

Perfil jornalístico apresentado à disciplina Redação Jornalística II, pela Escola de Comunicação da UFRJ. Junho/2018

Uma força eterna: Perfil do bibliotecário Marcos Antonio dos Santos  

Perfil jornalístico apresentado à disciplina Redação Jornalística II, pela Escola de Comunicação da UFRJ. Junho/2018

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