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Memorial: a minha história

Izabella Ravizzini Jordão de Oliveira, nascida em 15 de junho de mil novecentos e noventa e cinco, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Veio ao mundo como uma criança muito querida e, de acordo com a mãe, todos no bairro de Água Santa queriam conhece-la. Geminiana, ama falar e escrever. Mas falar ou escrever sobre mim mesma continua sendo um desafio. Apesar de sempre ouvir histórias sobre o quanto eu fui uma criança tranquila, desde que minha memória me permite alcançar, lembro de ser comunicativa e agitada. Sempre gostei de desenhar, brincar, conversar e fazer novos amigos. Me recordo de começar conversas me apresentando de um jeito distinto: sou Izabella “com zê e dois éles”. Graças à muito boa influência da família, também sempre fui apaixonada por câmeras e música. Filha única de dois pais que trabalham fora, fui criada também por minha tia e tio, com a ajuda de meus primos, meus amados padrinhos. Uma família amada nunca me faltou. Depois de anos brincando de pique-esconde, queimado, futebol, carrinho e também de boneca na vila que nasci, veio a pré adolescência. Quando paro e penso na minha infância, me sinto grata por não ter tido celular ou computador até os 12 anos. Mas depois que os dois entraram em nossas vidas, nada nunca mais seria o mesmo. Por um lado, foi uma época de muita felicidade e aprendizados. Mas infelizmente é nesse período da vida em que nós, mulheres, passamos a compreender que o mundo pode ser muito cruel conosco. Nossos corpos se desenvolvem e com eles as pressões da sociedade. Me lembro distintamente de me sentir desconfortável com as brincadeiras da escola, me sentir pressionada para ser isso ou aquilo, cobranças de todos os lados, tudo agravado pelo mundo da internet. Aos poucos, fui parando de fazer tantos amigos, e passando a escolher melhor quem ficaria ao meu lado. Só muitos anos depois fui compreender todos os detalhes da minha adolescência, e o porque de no final ter comigo apenas poucas amigas, mulheres. Foi nessa época que minha ansiedade se desenvolveu, não coincidentemente. Mas também foi nessa época que desenvolvi o que viria ser uma das coisas que mais me definem: a capacidade de ser fã. Começou com minha amada banda RBD (todos nós, crianças de 94 e 95 passamos por isso, né?) e se desenvolveu para muitos outros artistas. Meu maior passatempo era passar horas alimentando blogs sobre esses artistas, aprendendo novas músicas, descobrindo cada dia algo novo. Com isso, fui me interessando cada vez mais em aprender novas línguas. Afinal de contas, precisava saber cantar tudo perfeitamente nos shows. Aperfeiçoei meu inglês e meu espanhol e me sentia muito orgulhosa de saber cada letra e cada tradução, sem pensar duas vezes. Foram muitos e muitos shows, recepções em aeroporto e hotéis, muitos álbuns e revistas. Tive a felicidade de conhecer alguns dos meus artistas favoritos e perder as contas de quantos shows assisti. Para mim, não tem momento mais feliz do mundo. Não há nenhuma adrenalina que se compare assistir ao vivo aquela música que te toca. Com os anos aprendi a gostar de um pouco de tudo, de pop internacional ao latino, de rock ao hip-hop e aprecio até mesmo o nosso funk carioca. A música e a vida de fã me ajudaram a passar por momentos


difíceis e, por esse motivo, quero passar o resto dos meus dias perto desse universo, nunca esquecendo o quanto a música pode mudar vidas. Aos 15 anos entrei para o ensino médio na Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, um momento marcante na minha formação profissional e pessoal. Como fiz todo o ensino fundamental em uma mesma escola, perto de casa e com as mesmas pessoas, ir para um colégio na região central da cidade e conhecer pessoas de outras realidades foi importantíssimo para abrir minha mente. Tive professores incríveis que me apresentaram a um mundo completamente novo, fiz amizades inesperadas e conquistei meu primeiro estágio, no setor de telecomunicações da UFRJ. Sinto que saí do ensino médio uma pessoa nova, nos meus primeiros passos da vida adulta. Em 2014 passei para a UFRJ no curso de Relações Internacionais, o que almejava desde os 12 anos. Até então, a maior decepção que tive foi não me encaixar no curso que tanto sonhei. Tranquei o período no final do ano e decidi tentar o vestibular mais uma vez. O ano de 2015 foi mais marcante do que qualquer outro para mim. Tive a oportunidade de passsar 3 meses morando em Londres com a minha madrinha, aonde eu tive experiências incríveis. Pude viajar pela Europa sozinha, algo que nem nos meus sonhos mais profundos eu imaginei que estaria fazendo aos 20 anos de idade. Devo tudo isso à ela e aos meus pais, que mesmo através das dificuld ades fizeram de tudo para me proporcionar as experiências de vida que eles não puderam ter. Infelizme nte, nesse mesmo ano perdi o meu segundo pai. Meu tio, que me ensinou tantas lições, que adicionou tanto ao meu conhecimento musical, meu conhecimento da vida, que me criou junto com meus pais. Foi um baque gigantesco, mas foi nesse momento que decidi que faria de tudo para entrar na universidade mais uma vez e seguir seus passos: cursar Comunicação Social. Em 2016 entrei mais uma vez na UFRJ, dessa vez na Escola de Comunicação. Hoje, faço parte do curso de jornalismo. Desde pequena eu busquei uma vida que me fizesse sair da rotina. Sempre tive pavor de passar minhas semanas dentro de um escritório, fazendo todos os dias as mesmas coisas. No meu futuro espero trabalhar com uma comunicação que me permita aprender todos os dias algo novo, principalmente na área da cultura. Quero poder conhecer pessoas e seus costumes, conhecer lugares e línguas, conhecer cada dia mais novas formas de arte. Acredito na capacidade do ser humano de fazer o bem e se destacar do mundo cruel que criamos. Acredito na minha força, e na força de tantas outras mulheres que lutam para superar os obstáculos que nos são apresentados. Acredito em ajudar e ao invés de julgar, pois cada pessoa é única e possui uma história que desconhecemos. Escrevo esse memorial de coração aberto, mas sei que mesmo assim não poderia colocar em palavras todas as experiências que tive nesses vinte e dois anos de vida. Tenho sorte por hoje estar no caminho que escolhi, mesmo que ainda convivendo com as incertezas. Sorte por ter tantas oportunidades. Sorte por ter minha família, minhas amigas, um amor e minhas músicas. Sigo aprendendo e lutando, todos os dias. E quero que seja assim pelo resto da vida.

Memorial: a minha história  

Por Izabella Ravizzini. Um pouco da minha história de vida, contada até setembro de 2017. Apresentada à disciplina de Técnicas de Reportagem...

Memorial: a minha história  

Por Izabella Ravizzini. Um pouco da minha história de vida, contada até setembro de 2017. Apresentada à disciplina de Técnicas de Reportagem...

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