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GELEIA GERAL Dezembro de 1968

Entrevista especial com Caetano Veloso

Um olhar tropical sobre “Tropicalia ou Panis et Circensis”, o álbum manifesto

Entrevistas com Julio Medaglia e Glauber Rocha

Moda,dicas, horoscopo e muito mais


Cartas do Leitor Está virando bagunça! Ano passado, Sérgio Ricardo querendo ser aplaudido ao cantar que “Beto bom de bola”... Achei que a completa falta de noção não pudesse ser superada, mas, este ano, Caetano dá seu showzinho. Como se não bastasse aquela roupa de plástico brilhante e colorido, tem coragem de cantar sob o som das guitarras barulhentas d’Os Mutantes e convidar Johnny Dandurand para fazer sua bela contribuição com gritos incompreensíveis. Caetano ainda se acha no direito de falar que nós que não estamos entendendo nada... Na verdade, o alienado é ele! (Fernando Pontes, Campinas) Adorei a edição passada! Nada como retratar a sociedade brasileira, mas, principalmente, trazer as informações preciosas do mundo inteiro. Estou muito encantada com a simplicidade da revista e a gama de novidades. Vocês estão com o meu apoio. (Christina Oliveira, Rio de Janeiro) A reportagem sobre o Comunismo foi esclarecedora. Gostaria de ler uma reportagem sobre a UNE, tenho grandes dúvidas a respeito desse novo ideal. (Roberto da Silva, Belo Horizonte) Adoro a revista! Ela é um presente para o Brasil. [Carla Macedo, Cuiabá] Todo mês, eu peço para minha vizinha ler a revista para mim e este mês tive a oportunidade de escrever com ela para agradecê-los. Adoro ter acesso às notícias do mundo, e, hoje em dia, gostaria muito de aprender a ler. (João Pinheiro, Rio de Janeiro)

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EDITORIAL Acreditamos que os meios de comunicação em território brasileiro devem adaptar-se de acordo com a sociedade, e, nas atuais circunstâncias, é necessário ter conosco uma informação trazida pelos moldes da linguagem escrita. Foi com esse desejo que nossa equipe, desde setembro, iniciou as publicações mensais sobre as melhores notícias e eventos do Brasil. Tudo para levar a você, povo brasileiro, as informações acerca da nossa realidade social. Nesta edição, tentamos colocar em nossas páginas brancas cores vivas e alegres que conseguissem expressar a alegria cultural da Tropicália e as suas intervenções sociais. Após o último Festival Internacional da Canção e as primeiras publicações do que é o Tropicalismo, trazemos para vocês esse novo olhar sobre a sociedade e a nova maneira de se fazer arte. Uma arte sem medo de desafios. O Brasil ficou empolgado com a nova forma de compor e o original modo de fazer a diferença que nasce com ela. Agora, chegou o momento de revelar o que os jovens artistas querem trazer com a Tropicália. Sabemos que o futuro brasileiro quer liberdade expressiva e luta por uma realidade social justa, com isso ouvimos e concedemos voz a novos artistas que lutam por essas expressões. Leitores, esperamos que sintam a alegria da música, do teatro e cinema tropicalistas em nossas páginas e percebam os novos horizontes abarcados por esses belos artistas. Estamos ansiosos com receptividade de vocês e estamos à espera das cartas.

Equipe: Ana Beatriz Miranda Ana Julia França Elisabete Ferreira Ingrid Ramalho Iuri Cesário Karine Dourado Liana Cajal Marina Cazilda Sarah Rodrigues

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Cartas dos leitor..................................... Editorial................................................... No país das bananas: Tropicália, cultura e política.................................

“Changer la vie”..................................... Irreverência em ação!.............................

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Tropi... o que? Tropi... quem? Tropiqual! – Hélio Oiticica.........................

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Entrevista: Caetano Veloso.............................

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Um olhar tropical sobre “Tropicalia ou Panis et Circensis”, o álbum manifesto............

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A benção tropicalista sobre a música viva de Jorge Ben Jor......................................................................

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Entrevista: Julio Medaglia.............................................

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Um olhar sobre O Rei da Vela..........................................

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Cinema Novo e a influência de “Terra em Transe......................................................................................

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Entrevista: Glauber Rocha...................................

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Tropicália, moda em movimento.........................................

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Indicações..............................

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Vá conferir.....................

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Horóscopo...................

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No país das bananas: Tropicália, cultura e política Reportagem: Elisabete Luciana Morais Ferreira, bacharel em Letras e Ana Beatriz Miranda, cientista social.

Q

uando

um

país

presencia o surgimento de um movimento cultural, fica difícil de dissociá-lo das mudanças políticas e sociais que o acompanham. No caso da Tropicália, se quisermos entendê-la com mais propriedade, fazer esta separação se mostra até mesmo sem propósito: como pensar este agitado movimento sem pensar em todos os outros movimentos nacionais e internacionais que desembocaram no seu estopim? A aproximação entre Tropicália, cultura e política parece inevitável; assim sendo, por que não fazemos uma retrospectiva de alguns marcos importantes do ano de 1967 e deste presente ano? Sinta-se o leitor convidado a conectar os pontos para tentar visualizar como o movimento tropicalista se insere neste contexto em que vivemos. *** “Quer fazemos

dizer que nós parte do tropicalismo? Mas o que é isso? Tropicalismo vem de onde?” - esta foi a reação de Gilberto Gil ao ler a coluna de Nelson Motta (jornal Última Hora) que rotulou publicamente e de vez o movimento. E não nos limitemos à música: esta “cruzada tropicalista”, como bem sabemos, não se

encontra somente na área musical, mas também no teatro (com Zé Celso), no cinema (c0m Glauber Rocha), nas artes plásticas (Oiticica) e na literatura. O que liga todos estes movimentos artísticos? Quanto mais buscamos entender isto, mais próximos nos encontramos da ideia de que a discussão da identidade nacional é o motor propulsor destas manifestações, ainda que este ainda não seja enxergado claramente como o projeto oficial do grupo. O que sabemos é que os tropicalistas estão interessados em descobrir qual é a forma nova de comunição para um público novo. A saudável disjunção entre os tropicalistas e seu tempo gera esta aproximação entre o povo e os intelectuais, por meio da comunicação de massa, como música, teatro, telenovelas e programas de televisão, para tratar de assuntos tais como a própria realidade brasileira. Claro que a ideia de problematizar a identidade nacional não é novidade, especialmente num país (outrora colônia) dotado de uma tradição literária como o nosso. O romantismo de José de Alencar ou de Gonçalves Dias, por exemplo, já tinha suas propostas do que seria o Brasil. Se para estes o

brasileiro é aquele indivíduo com uma certa língua própria, que tem suas origens miticamente ligadas a uma essência indígena e que vive em alguma zona de intermédio entre o urbano e o regional, na Tropicália a coisa muda de aparência. Aqui as tensões podem até ser românticas, mas suas soluções certamente não o são: não se trata de caracterizar uma identidade “pura” livre de influências estrangeiras, mas sim de saber aclimatar todas estas influências que nos compõem. Ora, aí encontramos semelhança com outro movimento artístico de nossa história. É a proposta modernista de ver o Brasil sob outra ótica, a antropofágica. A lei do “só me interessa o que não é meu” e a lei da “expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos, de todas as religiões” do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade se evidenciam neste movimento tropical. O “mundo interior” e o “mundo exterior” não parecem se divisar tanto na arte modernista quanto em nossa nova produção cultural. Além disso, a combinação entre o arcaico e moderno - uma das chaves estéticas para compreender estes movimentos - é clara e se realiza em diversos

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momentos da Tropicália. Mas, como é de se suspeitar, esta não é a única interpretação de Brasil, nem é nova: Macunaíma de Mário de Andrade já realizou esta combinação, assim como Serafim Ponte Grande de Oswald. Bom, que “o poeta come amendoim”, este “falado pela língua curumim” (como anunciam os versos de Mário de Andrade), disso já sabemos. O que muda nesta combinação de arcaico e moderno são os materiais dessa combinação, que agora implicam o sonoro, o visual e o verbal simultaneamente. E diferentemente do típico caráter vanguardista que vigorava no início do século, o Tropicalismo não tenta a ruptura com a tradição juramentada, não impõe a novidade a custo do abandono do que já está cristalizado. Não; embora sejam realmente inovadores na nova gramática que apresentam, os garotos tropicalistas estão tão abertos ao nosso folclore, à Bossa Nova, à música melodramática de Vicente Celestino, ao erudito e aos costumes quanto estão sintonizados com as mais recentes novidades estrangeiras, como o Electric lançamento de Ladyland de Jimi Hendrix desse ano ou de Sgt.

Pepper’s Lonely Hearts Club Band no ano passado. Da mesma forma, Zé Celso não se importa em levar à Europa a apresentação da peça O Rei da Vela, a peça escrita por Oswald, e deglutir toda a crítica

exterior receber.

que

puder

*** Enquanto isso, lá fora, uma grande agitação política toma conta do mundo. Os Estados Unidos, em guerra contra o Vietnã, são também palco do assassinato do líder negro Martin Luther King. Propostas revolucionárias invadem a França (em maio deste ano), numa série de greves estudantis. Na Tchecoslováquia, um período de tentativa de “desestalinização” e liberalização política irrompe na estrutura política do país. Estes constituem alguns acontecimentos que acompanhamos recentemente, que de alguma forma refletiram na produção tropicalista. A começar pelo movimento que vem sendo denominado por alguns críticos como c ontracultura, que teve seu ápice - podemos afirmar com as edições do Verão do Amor, um conjunto de manifestações sociais em várias partes do mundo. Este fenômeno, que batizou o que entendemos pelo movimento hippie (aqui nos referimos ao evento do Verão do Amor ocorrido em San Francisco, em janeiro!), vem reunindo jovens revolucionários de esquerda reivindicantes de uma nova consciência contra a guerra, contra a violência e a corrupção, juntamente com a adesão a um estilo de vida psicodélico e aberto às drogas, como o LSD. Este novo padrão comportamental aflorado nos EUA, que tem tudo a

ver com os referidos acontecimentos políticos generalizados (no sentido de combater a violência vide as manifestações contra a guerra do Vietnã -, defender a liberdade de expressão), muito influenciou, aqui no Brasil, a nossa Tropicália. O cabelo crescido de Caetano, suas roupas coloridas e as atitudes desalinhadas apontam para um sintoma de contracultura. Lembremonos da figura do cantor no programa especial de Chacrinha que ocorreu em 8 de abril, em que ele se encontrou trajado a rigor com seu vestido estampado de banana, cantando de braços abertos. Os beatniks e figura de Allen Ginsberg parecem curiosamente evocados em seu look, assim como uma gama de tantos elementos a psicodelia vinda do exterior, a Bossa Nova de cá, a influência da Jovem Guarda - que compõem a sua imagem criativamente pensada por seu empresário-produtor Guilherme Araújo. E disso os tropicalistas não abrem mão: de criar uma imagem, da consciência de que o disco que produziram coletivamente foi feito para ser vendido mesmo , de perceber que não há inovação que não leve em conta a tradição também, e outras propostas que conhecemos. Soou estranho ao leitor colocarmos Jovem Guarda, Bossa Nova, Tropicália, os hippies, até mesmo a música de protesto, no mesmo balaio? É isto mesmo, não se engane! Nesta nossa

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“cruzada”, todas as influências e componentes identitários são deglutidos e transformados numa linda aquarela de significados plurais, tal como é a realidade de nosso país. Aliás, as aparentes dicotomias, como Tropicália versus música de protesto se mostram esvaziadas de sentido e industrialmente fabricadas se pensarmos na estrutura mercadológica capitalista em que nos inserimos. Ou não será o espetáculo e o capital os principais motivadores de guerrinhas ideológicas elaboradas por emissoras de televisão que promovem grandes festivais da música brasileira, almejando altos índices de audiência e repercussão? Mas tudo bem, não há problema em se assumir

enquanto um elemento inserido no sistema econômico capitalista, assumir que muito do que é feito é produzido visando à venda e à comercialização. Até porque, na conjectura atual, aquele que se julga fora do capitalismo é o que mais se insere nele, como os próprios hippies. E olha só que curiosa a combinação, nos tropicalistas, entre a hippie, atitude antimercadológica e rebelada contra o sistema, e a consciência de que não há como inovar rompendo radicalmente com seu sistema ou com a tradição de sua nação. Curiosíssimo! *** De todo modo, para que nosso público consiga processar aos poucos tantas relações que

procuramos fazer aqui, algumas reportagens e matérias que seguem nesta edição especial de retrospectiva da Tropicália podem ajudá-lo a esclarecer alguns pontos ainda obscuros dentro deste tema. Como ponto inicial, então, devemos ter em mente que este movimento cultural não se dissocia da tradição artística do país em que se insere, das relações sociais que estabelece e das agitações políticas nacionais e internacionais com as quais dialoga. O mais interessante é que estes novos artistas conseguem ser uma “antena” de seu tempo, sem abrir mão da preocupação formal de sua produção

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“Changer la vie” Reportagem: Liana Cajal

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recisamos mudar a vida’. Este verso do poeta Arthur Rimbaud se repetiu incessantemente na França durante este ano. Indignados com a universidade contemporânea, estudantes iniciaram tímidos protestos para a reforma do sistema educacional. Logo, ganharam corpo. Uniramse ao proletariado. No dia 13 de Maio, juntaram um milhão de pessoas nas ruas de Paris. Dia 25, do mesmo mês, começavam a maior greve da história: contavam com quase dez milhões de grevistas! Nos Estados Unidos à oposição à guerra do Vietnã. Na China, a Revolução Cultural. Na América Latina, a revolta negro-americana. Na África, a luta armada. O espírito revolucionário tomou conta de todos os continentes. Na Europa não poderia ser diferente. A juventude universitária francesa queria mudar de vida! A manifestação, que começou com o objetivo de mudar o sistema educacional universitário, ganhou proporções inimagináveis. Juntaramse ao proletariado para acabar com o

capitalismo, para mudar o sistema, para mudar o mundo. Em maio, eram dez milhões. Com o desenvolvimento desenfreado do capitalismo, a universidade deixou de ser um local tão elitizado. A academia francesa servia, assim, para transformação da massa universitária em futuros trabalhadores. A formação era em uma educação burguesa que transforma os estudantes em meros instrumentos de exploração dos detentores do capital. A juventude, então, se rebela. Fazendo com que o sistema educacional, que não havia mudado durante décadas, entrasse em crise. O movimento se pautou na recusa de uma universidade a serviço do capital, na defesa dos interesses dos trabalhadores no interior da universidade e na aliança entre intelectuais e trabalhadores. Em panfletos, podíamos perceber a consolidação desses princípios: “O que nos interessa é combater a universidade burguesa, é desmontar a grande máquina de opressão intelectual”.

“Queremos transformar a universidade radicalmente para que de agora em diante ela forme intelectuais que lutem ao lado dos trabalhadores e não contra eles”. “Até agora havia-nos imposto uma educação burguesa cujo conteúdo não podíamos contestar. Preparavam-nos desse modo para sermos futuros quadros e os instrumentos de vossa exploração. [...] Contestamos o próprio objetivo do ensino. Entre os vossos problemas e os nossos existem semelhanças profundas. Quem decide as normas e as cadências? Quem decide os objetivos de produção? A regra é por todo o lado a mesma, só nos pedem que executemos as obras da hierarquia”. A juventude universitária estava, então, com o proletariado. Agora, mais do que mudar o sistema de ensino, a luta era contra o regime político. As necessidades da população só poderiam ser garantidas quando o capitalismo fosse derrubado. “A humanidade só será feliz quando o último capitalista for

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enforcado com as tripas do último esquerdista”. Em 13 de maio, o movimento sai às ruas de Paris. Era um milhão de pessoas pedindo que a educação não servisse ao capitalismo. Pedindo para que este regime político acabasse. Além disso, o proletário começa uma greve, a maior já registrada. Em 25 de maio eram 10 milhões de trabalhadores que paravam a máquina produtiva da França. necessários, afinal a educação burguesa, vigente antes do movimento, era voltada para a formação de trabalhadores do modo de produção fordista. Com certeza os reflexos ainda serão muitos: é a maior greve da história! O recado da França para o Brasil vem por intermédio de Caetano. Os franceses nos ensinaram a dizer não, a dizer não ao não. Afinal, é proibido proibir.

O movimento já obteve resultados: a reforma educacional fez com que fossem criadas universidades pluridisciplinares. Além disso, instaurou-se o sistema de créditos, permitindo que os estudantes pudessem

escolher matérias em um leque de disciplinas optativas. Favorecendo, assim, a interdisciplinaridade e o pensamento, antes não ao não. Afinal, é proibido proibir.

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Irreverência em ação! Por Elisabete Ferreira

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uem se interessa

por programas artísticos que passam na TV ou gosta de frequentar os clubes e festas mais agitados da cidade, já sabe que sempre que os tropicalistas aparecem em peso em algum evento, alguma grande polêmica decorrerá disso. O grupo é ousado, não tem medo das críticas e da exposição pública. Contudo, muitos críticos, geralmente os mais conservadores, já se irritam com a postura e colocação destes artistas, considerando que estes jovens só aparecem na mídia pelo oba-oba e pela festa. Realmente, tudo pode parecer, à primeira vista, uma grande loucura generalizada: Os Mutantes fantasiados nos festivais, Rita Lee vestida de noiva, o frenesi de Caetano nos palcos, o excesso de cores. Não é à toa que as imagens que vimos em setembro no FIC custam a sair da cabeça. Nele, Caetano, Gil e Os Mutantes enfrentaram as vaias, ovos e os tomates lançados pelo público, na apresentação de “É proibido proibir”. A plateia da ocasião pareceu não engolir aquela atitude dos músicos, assim como não foi menos traumática a apresentação de “Questão de ordem”, defendida por Gil no

mesmo festival, e que foi desqualificada por desagrado geral da plateia e do júri. Mas Caetano, em resposta a toda agressividade que recebeu da plateia, respondeu com mais agressividade ainda: inventou uma dança erótica, simulando o ato sexual; também Os Mutantes revidaram dando as costas à plateia, sem parar de tocar. No entanto, quem deu a palavra final foi o próprio Caetano, em seu happening que já se tornou icônico: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? (...) Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!” e alfinetou os jurados: “o júri é muito simpático, mas é incompetente”. E não estavam longe outros momentos de apresentações violentas dos músicos. A repercussão do FIC paulista só motivou ainda mais os tropicalistas: em 4 de outubro, houve mais uma performance, desta vez na boate carioca Sucata. A temporada de shows que aí ocorreram não tardou de ser chamada de “noite de loucuras”, embora os próprios tropicalistas prefiram a denominação “um festival marginal” – note a referência à bandeira de Oiticica com os dizeres “Seja marginal, seja herói”. Novamente, nestas apresentações, os tropicalistas interpretariam as canções

mais vaiadas do FIC passado. Seja como for, durante os nove dias de shows, que receberam as reações mais variadas advindas da plateia, a boate ficou lotada e sempre bem frequentada. Outra baderna organizada veio com a estréia de “Divino, Maravilhoso”, programa que foi ao ar na TV Tupi no dia 28 de outubro. No cenário, quatro painéis exibindo imagens de uma boca, seios e dentaduras, tudo em cores primárias. O grande número de improvisos, a anarquia, as danças e o choque nos remetem aos shows da boate Sucata, num clima geral de perplexidade que tomou conta até dos técnicos da TV Tupi. Caetano, em um dos programas, plantou bananeiras; em outro, chocou, para os padrões na

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brasileira, em seu visual, revelando um peito nu sob um casaco militar e um colar de dentes; Gil apresentou “Batmacumba” aos risos, dançando no palco. A repercussão do programa vendo sendo tamanha que muitas famílias repudiaram esta provocação, pedindo sua censura e interrupção da transmissão. Mas há quem defenda a atitude tropicalista e veja um sentido nisto tudo, visão que adotamos aqui em nossa própria revista. Para provar nosso ponto, tomamos emprestada a fala de Fernando Faro, o executivo de TV com

nossa

mais coragem que já vimos: “(...) se os artistas tropicalistas foram discutidos, isso é um sinal de popularidade. Se foram agredidos, é porque se comunicaram com mais força. Se eles irritam, causam perplexidade, é porque essa comunicação foi feita fora dos códigos”.

televisão

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Tropi... o que? Tropi... quem? Tropiqual! Por Liana Cajal

A

clamando a Bossa,

a mata, a Bahia e a mulata, Caetano, finalmente,dá nome ao movimento. De papel crepom e prata, eles são os tropicalistas agora. O movimento: Tropicália. O movimento: nós. O nome, apesar de lembrar, não é de tropical. Foi Luiz Carlos Barreto que, em 1967, sugeriu que Caetano denominasse sua canção de Tropicália, remetendo a exposição do artista carioca Hélio Oiticica. de A exposição Oiticica veio da necessidade de caracterizar um estado brasileiro da arte de vanguarda, confrontando-o com os grandes movimentos da arte mundial. Para isso, organizou uma

exibição crítica e cheia de referências, formou uma representação de inúmeras representações. Tropicália era um labirinto! O participante penetrava no ambiente e vivenciava diferentes sensações. Experiências táteis, olfativas, visuais e sonoras propiciadas pelos diferentes objetos. Plantas, areais, araras, poemas-objeto, capas de Parangolé compunham a passagem. No final, um aparelho de TV, sempre ligado e no escuro, para absorver o participante. Tropicália era um ambiente de transformação de comportamentos e desconstrução de experiências. Era uma cena que misturava o tropical com o tecnológico. Oiticica quebrava as expectativas e as referências,

descolonizava o sujeito e, por isso, o multiplicava. A música de Caetano e o movimento, agora denominado, também são assim. O receptor não ouve simplesmente a música, ele penetra ele a penetra e sofre da mesma ação. Ele é protagonista da crítica, ele participa do movimento. É, também, um tropicalista.

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Entrevista: Caetano Veloso Por Ana de Oliveira

e do politicamente correto na época. Também sobre o preconceito contra o rock e o iê-iê-iê, que, embora não em interessassem tanto princípio, tinham uma vitalidade que a gente foi descobrindo. Bethânia já havia me chamado a atenção pra Roberto Carlos. Tudo isso entre 65 e 66.

Geleia Geral: Antes do de “Alegria, lançamento alegria” e “Domingo no você e Gil já parque”, falavam da necessidade de um movimento de renovação da música popular brasileira. Caetano Veloso: A gente já falava nisso em 66. Você pode ler na contracapa do disco Domingo: “vou cantar essas canções que compus tempos atrás à vontade porque hoje estou pensando em coisas e projetos completamente diferentes.” Gil já tinha feito até umas reuniões no Rio com os outros compositores e músicos para tentar transmitir o novo modo de ver. Ele marcou na casa de Sérgio Ricardo, chamou Edu Lobo, Chico Buarque, o irmão de Sérgio Ricardo, várias pessoas. Gil queria que todos participassem, mas o pessoal não entendeu. A gente vinha pensando nessas questões já fazia um bom tempo. Eu vinha conversando muito com Rogério Duarte sobre a falta de capacidade de aventura do criador de música popular no Brasil, sobre os resguardos dentro do mundo do bom gosto

GG: Quando você ouviu pela primeira vez o termo Tropicália? CV: Num almoço em São Paulo, dito por Luiz Carlos Barreto, em 1967. O disco já estava praticamente pronto, e a música já estava gravada, mas não tinha título. Luiz Carlos pediu pra cantar as músicas novas – naquela época se cantava muito com violão em reuniões assim. Quando eu cantei essa, ficou maravilhado. Achou parecida com o filme Terra em Transe e com a obra de um artista do Rio, Hélio Oiticica, chamada “Tropicália”. Dizia que eu devia dar esse título à música. Respondi que não conhecia nem a pessoa nem a obra, e que não ia botar o título de uma coisa de outra pessoa na minha música. A pessoa podia não gostar... Manoel Barenbein, produtor do disco, adorou e escreveu na lata: Tropicália. Era provisório, mas ficou lá. você não achava GG: Mas bonito o nome Tropicália? CV: Até que é uma palavra bonita. Mas é o nome de outra coisa. E depois essa coisa de tropical… Naquela época, queria evitar isso. que o termo GG: Parece Tropicália sempre agradou a mais do que você Tropicalismo, não é? CV: É. “ismo” já dá uma idéia meio chata, mas mesmo assim me acostumei depois.

significado da GG: Que palavra Tropicalismo você percebia e rejeitava? CV: Tropicália parece uma coisa viva, que está acontecendo. Tropicalismo parece uma escola, um movimento num sentido mais convencional. A palavra Tropicalismo apareceu na imprensa num texto de Nelsinho Motta e noutro de Torquato Neto, parecido com o de Nelsinho. Até hoje acho simpáticos ambos os textos, mas equivocados e ingênuos, tal como achava na época. Eu não sentia tanta atração pela ideia de Tropicalismo, porque botar esse nome parecia que a gente queria fazer um negócio dos trópicos, no Brasil e do Brasil. Não queria que fosse esse o centro da caracterização do movimento, porque ele queria ser internacionalista e antinacionalista. Tendia mais pra o som universal, outro apelido que a gente ouviu e adotou também durante um período, mais pra ideia de aldeia global, de Marshall MacLuhan, muito presente na época. A gente tinha muito interesse nas conquistas espaciais, no rock’n’roll, na música elétrica e eletrônica, enfim, nas vanguardas e na indústria do entretenimento. Tudo isso era vivido como novidade internacional que a gente queria abordar assim desassombradamente. Mas hoje acho que foi o nome mais certo possível. texto do GG: Num livro Expresso 2222, Antonio Risério diz que a “Tropicália foi básica e essencialmente coisa da cabeça de Caetano”. Jamais nenhum tropicalista disse outra coisa. Você concorda ou isso foi exagero de Risério? CV: Talvez seja um pouco de exagero de Risério. Num dos prefácios da coletânea de poemas de Torquato,

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Acho que talvez Risério tivesse dito isso porque não gostou de ver Décio dizer aquilo. Também não gostei. Porque não está certo, quer dizer, seria uma injustiça comigo e com Torquato. GG: Então qual teria sido a nascente da Tropicália? CV: Eu diria que é mais o resultado da aproximação das personalidades de Gilberto Gil e minha. Sem ele eu não faria nem música, quanto mais essa coisa toda dentro da música. Ainda assim, uma vez que eu já estava dentro, sobretudo por causa de Gil, só desencadeei esse movimento tão responsável pela questão da música popular no Brasil porque o próprio Gil estava muito excitado pra que algo acontecesse. nesse sentido Dizer que a Tropicália é exclusivamente da minha cabeça peca contra essa verdade. GG: Eu disse a Gil: você, Gil, uma antena, e Caetano a liderança. Você concorda? CV: É, talvez. Tenho uma capacidade de fazer a articulação final dos elementos. Muitos foram trazidos por mim mesmo, mas muitos não. Muita coisa eu trouxe das conversas com Bethânia, muitas das conversas com Rogério, que só aconteceram porque eu sou quem eu sou, com os meus próprios pensamentos, o que eu observava e sentia. Mas a organização desses elementos todos num projeto foi intuição de Gil. Gil propôs falar. Falar dos Beatles e da cultura de massa. GG: Além disso, Gil propôs das coisas de falar Pernambuco que ele tinha visto e com as quais tanto se entusiasmou. CV: Justamente. A arte popular pernambucana e a questão propriamente social e política do Brasil no momento. Como ele sentiu a partir de Pernambuco. Essa mistura de vontade de atuar na história com a audição da Banda de Pífaros de Caruaru e a consciência do que significavam os Beatles na cultura de massas, essa

conjunção incendiou a cabeça de Gil.

fundamental porque trouxe esse primeiro estímulo.

GG: Como você respondeu a esse estímulo de Gil? CV: Logo que me senti engajado no que ele propunha, como já vinha pensando em muitas dessas coisas, organizei esse estímulo numa estrutura intelectual coerente. Porque Gil tem essas intuições. Ele é muito articulado, muito brilhante, mas é mais de rompantes. De repente se fecha e para, como se não tivesse mais nada a ver com aquilo, para depois se entusiasmar de novo. Eu não, criei uma linguagem coerente pra isso e, nesse sentido, exerci uma liderança mais visível por ter feito a articulação final da proposta.

GG: O que vocês absorveram da relação com os eruditos, Rogério Duprat, Júlio Medaglia, Damiano Cozella e Sandino Hohagen? CV: Isso veio depois. Eles apareceram quando a gente foi pra São Paulo, com repertório e ideias desenvolvidas. Eu já estava ensaiando “Alegria, alegria” com os Beat Boys quando encontramos Julio Medaglia, que me levou a Augusto de Campos. O que Augusto e o seu grupo queriam fazer com poesia estava próximo do trabalho de vanguarda desses músicos. Mas naquele momento eles estavam interessados em serem os mais anti-eruditos nas atitudes e nas conversas, sobretudo Rogério Duprat, que colaborou mais significativamente com os tropicalistas. Embora não fosse nada desprezível o trabalho de todos. Eles vinham de um grupo erudito muito bem formado, que queria justamente quebrar com a criação de uma obra séria. Eles eram pós-John Cage. Especialmente Rogério, que já queria fazer música pop como músico erudito de vanguarda, embora trouxesse a técnica toda de quem era maestro. Também era o caso de Julio Medaglia, que era mais regente, enquanto Rogério era um compositor mais importante. Ele se postava de maneira muito descontraída do ponto de vista cultural. Por isso, não houve uma doutrinação estética na nossa relação.

GG: Qual foi o papel de Maria Bethânia na Tropicália? CV: Ela foi um estopim quando disse que assistia todo domingo ao programa de Roberto Carlos e que eu deveria fazer o mesmo. Ela me disse que a Jovem Guarda tinha muito mais vitalidade do que o nosso ambiente de pós-bossa nova, bom gosto e tudo, que era muito defensivo. Como também aqueles slogans de esquerda, aquelas músicas… Todo mundo com medo do iê-iê-iê. De repente as pessoas não estavam ouvindo o que se passava. Eu morava no Solar da Fossa e, pra ser sincero, nem suportava televisão. Mas por causa do conselho de Bethânia procurei ver aos domingos, quando podia, na casa da avó de Dedé, o programa de Roberto Carlos, e percebi que Bethânia tinha razão. GG: De certo modo, você também já sentia essa inquietude ambiente meio naquele estagnado da música popular brasileira? CV: Sentia isso quando ouvia o que os meus amigos faziam, o seu tipo de crítica às coisas, essas limitações do bom gosto e da estilização que se aprovava. Eu tinha vindo da Bahia fazia pouco tempo, e Bethânia foi

GG: O que rendeu à tropicália a aproximação com os concretos, Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos? CV: A experiência de acompanhar os embates que eles tiveram que travar, depois que nos conheceram, em defesa crítica do Tropicalismo. Isso trouxe novos atritos entre o grupo deles com o resto da intelectualidade brasileira e, também, no próprio meio da criação de música popular. Augusto foi o primeiro defensor crítico do

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do Tropicalismo. Antes que o movimento começasse, e antes que nos conhecêssemos, ele já tinha escrito um artigo profético sobre o que faríamos. As suas traduções dos poemas de E. E. Cummings e dos textos de James Joyce, o livro sobre Sousândrade, o ABC da Literatura, de Ezra Pound, tudo isso foi importante. Mas o essencial foi o contato com Oswald de Andrade que aconteceu através deles. O meu disco já estava pronto, o repertório do de Gil também, mas à luz do pensamento, da poesia e da ficção de Oswald... Tudo o que a gente estava fazendo ganhava um sentido mais preciso e eu me sentia reconfirmado nas minhas intuições. O Oswald foi um presente de uma precisão absoluta que Augusto nos deu. GG: Qual foi a importância de Rogério Duarte? CV: Ele foi anterior as nossas experimentações tropicalistas. Ele nos influenciou, a mim principalmente, pra que tudo se tornasse possível. Não foi como Augusto, Rogério Duprat ou Julio Medaglia, que já viram a coisa pronta. Eu não chegaria aonde cheguei se

não tivesse tido as conversas todas que tive com Rogério. GG: E Guilherme Araújo? CV: Foi igualmente importante. GG: Tanto quanto Rogério Duarte? CV: É. Porque também foi anterior e também influiu muito nas decisões, mas pelo lado oposto ao de Rogério. O próprio Rogério dizia: “Eu nunca posso me entender com o Guilherme porque ele é o empresário e eu sou o desempresário.” GG: Como surgiu a idéia de o discofazer manifesto Tropicália ou Panis et Circensis? CV: Acho que a ideia partiu de mim. Quem tocou mais esse disco fui eu. GG: É o disco tropicalista de que você mais gosta, não é? CV: É. Assim que ficou pronto, Gil não gostou, mas eu adoro. GG: O que você recorda do agressivo debate com os estudantes da Faculdade de Arquitetura da USP (FAU), em 68? CV: Os estudantes

organizaram um debate sobre Tropicalismo e convidaram Torquato, Gil, Décio, Augusto e a mim. Na porta, os garotos entregavam um panfleto contra o Tropicalismo, um texto de Augusto Boal escrito talvez pra Feira de Opinião, e entregaram até pra gente. Lá dentro, em vez de deixar a gente falar e fazer o debate como tinham proposto, jogavam banana e bombinhas de São João na nossa cara. Foi duro. Mesmo assim discutimos, tentamos superar a agressão. Algumas pessoas na plateia contiveram os mais exaltados. Mas todo mundo era unanimemente contra nós. Todas as perguntas tentavam nos botar na parede, mas respondemos muito bem porque, modéstia à parte, tratava-se de uma mesa de pessoas muito inteligentes. GG: Houve posteriormente algum encontro/confronto entre os tropicalistas e os seus opositores daquele episódio? CV: Nunca ouvi um depoimento que dissesse: “Eu estava ali! Vaiei e depois reconheci isso ou aquilo”. As pessoas que foram covardes naquele momento continuaram covardes pro resto da vida.

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GG: E o Festival Internacional da Canção, em 1968, no qual você e os defenderam “É Mutantes Proibido Proibir”? CV: Eu não queria botar música ali. Não gostava desse festival da TV Globo, no Rio. Achava mais legal o da Record. Sem sombra de dúvida, achava o ambiente de São Paulo muito melhor do que o do Rio. GG: O que lhe parecia tão terrível nos festivais do Rio? CV: A total incapacidade de admitir que alguma coisa nova ou diferente pudesse acontecer, característica muito violenta do Rio. Naquela época, isso era asfixiante. Em São Paulo havia uma sensação de território virgem, uma capacidade de surpresa e confiança, uma pureza de olhar de que o Rio era incapaz. No Rio havia o tom que há nas cortes, nas capitais de países onde o mundo cultural ficou centralizado.

GG: Certa indisposição ou má vontade... CV: É, um tom blasé. E São Paulo oferecia aquela energia sem muita sutileza na percepção. A reação, por exemplo, dos meninos da FAU, é negativa. Mas muito ingênua, muito pura. O Festival da TV Globo, no Maracanãzinho, era uma confusão porque se chamava internacional, mas era no Brasil. As plateias do Maracanã, além de muito grandes pra se definirem, eram também cariocas no sentido de que não estavam acompanhando com atenção a nitidez de determinadas posições. Vaiavam umas coisas, aplaudiam outras, uma coisa disforme. Por isso eu não queria participar, mas os organizadores convenceram Guilherme a tentar nos convencer. Então pensei em pegar uma música e fazer um happening pra arrebentar. GG: Você não gostava da música “É proibido proibir”? CV: Não! Achava “É proibido proibir” uma música boba. Não queria usar esse refrão porque era o que os

estudantes de Paris tinham escrito na parede em maio de 68. Apareceu na revista Fatos & Fotos, Guilherme achou bonito. Também achei, mas daquele tipo de bonito meio fácil, meio enjoativo. GG: Um bonito surrealista de uma frase que é um paradoxo, não é? CV: É. Tem certa graça, mas não se pode extrair muita coisa dali. Há uma alegria de brincar de dizer que é “proibido proibir” porque uma coisa nega a outra e o paradoxo nunca para de girar. Só que não é o meu jeito de fazer as coisas. Transformando a música num happening, salvava a situação. Fiz isso de uma maneira bem escandalosa e aí veio uma vaia brutal, que aproveitei pra dizer tudo o que eu pensava sobre a atitude daquela juventude de esquerda. Fiz um discurso inflamado na segunda apresentação da música. Eles vaiavam e jogavam coisas pra cima da gente.

poucas palavras, GG: Em como você definiria a Tropicália? CV: A Tropicália é simplesmente um esforço no sentido de defender o que era essencial na Bossa Nova. '

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Um olhar tropical sobre “Tropicalia ou Panis et Circensis”, o álbum manifesto Por Elisabete Ferreira e Ana Beatriz Miranda

E

m outubro do ano

passado, no III Festival da Record, as interpretações de “Alegria, Alegria”, por Caetano Veloso, e de “Domingo no Parque”, por Gilberto Gil, inauguraram uma nova linguagem musical na música brasileira, cujos signos eram a guitarra elétrica e as transformações na concepção de cultura de um país imerso em contradições. Outros momentos também marcaram a inovação dos músicos tropicalistas que desejavam visualizar o Brasil com outras lentes, como o próprio lançamento do álbum Caetano Veloso, que se inicia com a faixa “Tropicália”. Porém, somente em maio deste ano esta nova linguagem musical começa a encontrar um meio ideal de conjugação entre as ideias de Brasil destes incipientes artistas e a forma estética que traduzisse estes pensamentos: a elaboração do álbum Tropicalia ou Panis et Circensis. Já era hora da estética tropicalista firmar um contundente manifesto na área musical, uma vez que nas outras esferas artísticas ela já encontrara suas principais obras expoentes: a Tropicália, de Helio Oiticica nas

artes plásticas; Terra em Transe de Glauber Rocha no cinema; e Pan América, livro de José Agripino de Paula, na área da literatura. No caso deste nosso LP-manifesto, tratase de uma obra coletiva que conta com as participações de Caetano Veloso, Gal Costa, Nara Leão, Gilberto Gil e Os Mutantes Rita Lee, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista -, aliadas à presença de Torquato Neto e de Capinan, ao som diferente de Tom Zé e à regência musical de Rogério Duprat (um verdadeiro George Martin brasileiro!). Nesta edição especial de retrospectiva tropicalista, faremos um passeio detalhado em algumas das faixas que compõem este álbum manifesto, observando a composição estética e os pontos fortes de cada canção. Para quem não o conhece, seja bem-vindo ao passeio; aos que já ouviram este LP (tendo amado ou odiado), sintamse convidados a redescobrir características e curiosidades que talvez tenham passado despercebidas. Uma obra coletiva Quando compramos um LP novo, é natural que o nosso primeiro olhar se volte mais à sua capa do que às músicas em si que o

compõem. Aqui no Tropicalia ou Panis et Circensis, isso não é um problema: a composição da própria fotografia da capa já é interessante por si só. Ao contrário do que muitos pensam, a sessão de fotos do grupo tropicalista que originou a capa não se realizou a partir de um conceito muito definido; foi fruto de uma espécie de “happening” na casa de Oliver Perroy, o fotógrafo convidado por Rogério Duprat para realizar a sessão. No resultado final, muito se deve ao acaso: o fato de Nara Leão e Capinan não conseguirem participar a tempo da sessão, de modo que têm suas presenças marcadas por meio dos quadros com suas fotografias; a sugestão de Guilherme Araújo (o Brian Epstein do grupo) a Tom Zé de que ele segurasse uma bolsa, para parecer que estivesse chegando do Nordeste naquele momento; a ideia fixa de Duprat em inserir na foto um penico que encontrara na casa de uma tia, segurando-o como uma xícara de chá. Para a escolha do figurino, Rita Lee e Guilherme Araújo palpitaram para que os tons de verde e amarelo sobressaíssem, que só comporiam um look mais tropical caso as bananeiras de papel

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crepom feitas pelos artistas não tivessem sido cortadas do design final. Aliás, qualquer semelhança deste produto final com a capa do álbum dos Beatles, Sgt. Pepper’s

Lonely Hearts Club Band, do ano passado, não é mera coincidência; também podem ser feitas as leituras de que a foto final reproduz os retratos patriarcais tradicionais, de que Gal e Torquato representariam um casal interiorano, entre outras conjecturas. Seja como for, nosso primeiro olhar para o LP já visualiza a maneira grupal como seus elementos vão se construindo. E da mesma maneira seguem as faixas do disco. Apesar de as músicas serem executadas por diferentes artistas, em diferentes estilos musicais, há um fio condutor que une todas as partes, que reside tanto no fato de as faixas se sequenciarem sem interrupções quanto na combinação em atrito de vários segmentos: a música standard americana, o rock, a música cafona, a macumba, o arcaico e o moderno, a Bossa Nova, o clima marcial e o sossego, e segue a lista. E este sincretismo agitado (não justaposto, não harmônico) destes nossos elementos identitários, num movimento que põe à mesa as contradições de um país que reproduz o arcaico no moderno, plasma as alegorias de uma sociedade que realmente é

composta destes elementos ou não somos uma miscelânea cultural? E dessa forma, uma canção puxa outra, como se dialogassem, de modo que o álbum deve ser ouvido como um todo ininterrupto - uma obra -, se inserindo num

continuum que nem chega à demarcação da Bossa Nova, nem se lança ao protesto cru da canção de protesto. É um pouco dos dois ao mesmo tempo, e é também muitas outras coisas, porque é polifônico.

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Alegoria de Brasil A faixa inaugural do LP é “Miserere Nóbis” (Gilberto Gil e Capinan, intepretada por Gilberto), de cujo título poderíamos esperar algo em tom menor, digno de uma missa contida. Mas não: a canção é viva, seus os signos estão em agitação; sempre que tentamos encontrar a sua essência pura, vem mais um som, um outro verso que arrebata o que vamos estabelecendo de concreto. O tom sacro de órgãos e de pequenos sinos que abre a canção logo é invadido pelo clima marcial, que se funde com um violão quase tão intenso quanto o de uma música de Vandré. O “miserere” pode ser interpretado não só como um simples “rogai por nós”, mas como uma posição de luta contra a passividade gerada pelo “miserê” da realidade brasileira. Ao ouvir a primeira canção do álbum, somos transportados da posição de conforto (silenciosa) à realidade agitada e composta de vários elementos. Logo percebemos que a música traz um processo de gradação - “já não somos como na chegada” - e combina elementos opostos: o vinho e sangue, o fino e a pobreza. A miséria aparece junto com a fartura: uma favorece a existência da outra, quase que num movimento retroalimentar. E todas estas coisas estão mediadas pela violência, seja social, seja a violência do “Fê, u - fu/ Zê, i, lê - zil”. A tese? A de que a construção da modernização não vem do

nada. Ela surge do arcaico, da tradição (aqui representada pelo próprio rito religioso) e da reação ao que é seu contemporâneo. Mal acabam os sons de tiros de canhão e logo surge um tom melodramático de um arranjo de cordas da canção de Vicente Celestino (interpretada por Caetano Veloso), “Coração Materno”. Aqui, há o aproveitamento de uma cultura rural tida como rebaixada, que se contrasta com outros elementos modernos do LP. A narrativa cafona que acompanha o drama da música arranjada por Duprat e o fim irônico com fundo de chiste parecem nos indicar que a própria canção não deve ser levada a sério. Mas “Coração Materno” é mais do que uma simples paródia da expressão rural brasileira. A canção não só adere ao Regionalismo, mas refuncionaliza esta tradição e a adota sob um novo prisma: a perspectiva de um Brasil urbano lidando com a cultura de massa. A canção subsequente, “Panis et Circencis” é da autoria de Caetano e Gil e é interpretada pelo grupo Os Mutantes. Nesta canção, considerada um dos ápices do LP, surge novamente o embate dialético do arcaico e do moderno. O secular e o desejo de ruptura, o “nascer e morrer”, são representados quando os costumes presos na “sala de jantar” são perturbados pelos ruídos de talheres e de copos quebrados, como símbolo do

ruído de uma possível revolução. Um coro de estrutura harmônica dá lugar a um som psicodélico e entregue às experimentações. Só não há tentativa de rompimento com a tradição porque aqui a ideia é clara: a novidade só se constrói em cima de um passado, se inserindo ela também numa tradição, e esta é a contradição que se deseja evidenciar. Duas canções depois, em “Parque Industrial”, de Tom Zé, está presente essência semelhante à da canção “Tropicália” de Caetano Veloso, ou seja, o retrato satírico de um Brasil marcado por bandeirolas, aeromoças e um “céu de anil”. Nacional e internacional não estão dissociados: há recortes do Hino Nacional Brasileiro e do jingle Melhoral, assim como há a presença estrangeira deflagrada pela expressão “Made in Brazil”. O que vem de fora já é automaticamente o que vem de dentro, que se modifica segundo as leis antropofágicas de nossa cultura. E nossa cultura é justamente esta “Geléia Geral” que vamos esboçando, título da música de Gil e letra de Torquato que segue o disco. Pode-se dizer que esta canção praticamente resume a proposta do disco, ao condensar de maneira alegórica os ícones do Brasil e de sua viva cultura: a figura da mulata, o bumba-meu-boi, Oswald de Andrade, o Carnaval, a selva, o baião e o rock. Também contribuem para o arranjo

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a inserção das citações da ópera O Guarany (Carlos Gomes), e das canções “All the Way” (sucesso na voz de Sinatra) e o recente hit de Miriam Makeba, “Pata Pata”. Assim, todas as propostas musicais se encontram reunidas em mais uma “canção-manifesto”, que encerra o primeiro lado do LP. Abrindo o lado B está “Baby”, música de Caetano interpretada por Gal Costa, que talvez seja a canção mais conhecida do álbum. Aqui a lírica encontra uma concepção romântica à la Jovem Guarda, sem deixar de perceber os problemas cotidianos à sua volta (a economia), a cultura e o contexto político. “Baby” também parece consciente da influência estrangeira que ocorre no país, que se dá pelas próprias modificações presentes na língua. Encaminhando mais para o final do álbum, “Enquanto Seu Lobo Não Vem” (de Caetano) marca presença com seu passeio por uma floresta que acaba por se deparar com o concreto da cidade, numa alusão à obra de Oiticica. Acusada atualmente, de forma injusta, de ser uma música “alienada”, esta faixa deve ser examinada com cautela e atenção, uma vez que revela estar em plena sintonia com as mudanças que envolvem a sociedade. Cabe agora uma última observação, desta vez sobre “Bat Macumba”, música que se diferencia das demais por ser a única a realizar a proposta concretista. Seus versos,

formando um grande K, sugerem a visualização simultânea dos códigos verbal, sonoro e virtual. Nesta faixa também se evidencia fortemente o elemento da religiosidade, associada ao elemento cultural da macumba. Se fizermos um esforço, também podemos ver aqui a estrangeira: esta pode estar na sugestão de “Batman” no próprio título da canção. Mas o disco, obviamente, não termina aí. O fim de sua última canção, “Hino ao Senhor do Bonfim”, é composto pelos tiros abafados de canhão que sugerem o clima marcial ditado por sua primeira música. Assim, lá vamos nós ao “Miserere Nóbis” outra vez... Disco-monumento Apesar das divergências de opinião a seu respeito, a impressão geral que se tem de um disco como Tropicalia ou Panis et Circensis é a de que este é um disco diferente de todos os outros da música brasileira. O discomonumento vai se construindo e aponto seu projeto ao longo de suas faixas; na verdade, as coisas não se mostram muito definidas nem mesmo em seu título (que é transitivo, ficando à escolha do ouvinte). Com este LP, a Tropicália retoma a linha evolutiva da música popular brasileira deixada por João Gilberto, conseguindo realizar um grande feito: a problematização em torno da modificação evidente da relação entre produtores e consumidores de arte neste

mundo contemporâneo; e, principalmente, o reavivamento de uma discussão, já debatida por modernistas (e, anteriormente, por autores românticos) a respeito do que seria de fato nossa identidade nacional. A resposta que encontraram? Tudo não passa de uma grande “Geléia Geral”.

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A benção tropicalista sobre a música viva de Jorge Ben Jor Por Elisabete Ferreira

P

assagem

livre

entre a Bossa Nova, Jovem Guarda e a Tropicália: esta é a presença de Jorge Ben Jor. A produção musical do artista não possui contra-indicações e é a única exceção no nosso meio cultural, uma vez que é respeitado e acolhido por todos os movimentos musicais brasileiros. E justamente este fato de transitar sem preconceitos por todos os segmentos musicais, deglutindo todos os elementos como constituidores de nossa identidade, é que o aproxima dos nossos artistas tropicalistas. A semelhança entre Tropicália e Jorge Ben começa no interesse pela Bossa Nova. Jorge, assim como a maioria dos jovens de hoje e assim como Caetano e Gil, despertou o gosto pela música ouvindo a doce voz de João Gilberto, embalado no ritmo bossa-novista tão único. Porém, também surgem, em sua formação musical, as influências de Luiz Gonzaga, Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto. O resultado de suas primeiras músicas? Algo que não se trata nem da Bossa Nova, nem do samba tradicional; seu som é moderno e único, uma

mistura única e inconfundível deste compositor que sintetiza em suas músicas um Brasil plural. E agora, com a crescente consagração da Tropicália como um movimento inovador, Jorge Ben é apontado consensualmente como um convidado quase obrigatório das manifestações. A presença de Ben Jor no programa Divino, Maravilhoso, apresentado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, é prova de sua aprovação entre os tropicalistas. E este não foi o único programa que contou com a presença do cantor: sua presença enquanto compositor também se mostrou em O Fino da Bossa de Elis, na Jovem Guarda de Roberto Carlos e até mesmo em O Pequeno Mundo, de Ronnie Von. Elis Regina, como sabemos, gravou em seu programa o primeiro grande sucesso de Jorge Bem, “Mas Que Nada”. Mas foi com o arranjo inovador de Sérgio Mendes e nos Estados Unidos da América que “Mas Que Nada” deu maior visibilidade ao cantor e à própria música brasileira. Embora a sociedade brasileira tenha demorado para conceder

seu aceite a esta canção moderna, mundialmente já se aponta para o sucesso da composição de Jorge Ben Jor e para a riqueza de nossa música. Por esses motivos, a produção musical de Jorge Ben - ou “este samba que é misto de maracatu”-, enquanto for produzida, receberá a autenticação tropicalista, justamente porque Ben Jor já é todo tropicalista desde sua concepção. Isso se estende tanto às raízes comuns entre os dois (a Bossa Nova) quanto à ideologia que guia suas composições: as cores que pintam o Brasil, a prosa do cotidiano, as particularidades de nosso povo e a festividade crítica de nossas tradições. Ainda que ele não seja enquadrado tradicionalmente como um tropicalista, esta é uma carreira que vale a pena ser observada, especialmente por aqueles que amam a poesia e vivacidade de Caetano e Gil. Mas Ben Jor é único, e realmente não pode - e nem deve - se restringir a um único movimento e nem a um único momento da música brasileira. Seu som é diferente e universal, e é a cara do Brasil. Salve Jorge!

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Entrevista: Júlio Medaglia Por Ana de Oliveira Geleia Geral: Como você e os seus parceiros, músicos ligados à vanguarda europeia, começaram a se interessar pela música popular brasileira? Júlio Medaglia: Nós tivemos a cabeça feita por Hans Joachim Koellreutter, que fez com que a nossa geração tivesse uma relação cultural mais ampla. É claro que a música popular nos interessava, assim como o teatro, o cinema expressionista, tudo o que havia na época e fora dela, inclusive música anterior a Bach. Mas, a partir de João Gilberto, sentimos que a música popular ganhou mais presença no pensamento Ainda mais brasileiro. nesses anos 60. GG: Como se deu a sua aproximação com o grupo baiano? a música da JM: Fiz peça Isso Devia Ser Proibido, de Bráulio Pedroso, com Walmor Chagas e Cacilda Becker. Foi a única vez na sua carreira que Cacilda cantou. A peça era uma espécie de cabaré brechtiano, entre outras coisas uma crônica da ligação de Cacilda com o teatro brasileiro. Caetano foi assistir e no dia seguinte bateu no meu apartamento da Lapa com uma fitinha, querendo que eu fizesse o arranjo de uma música. Era “Tropicália”, mas o nome ainda não estava certo. Então conheci Gil e Manuel Barembein, o produtor do disco. Ficávamos em casa conversando sobre as coisas da época. Logo em seguida à gravação, explodiu o Tropicalismo.

GG: Foi você que apresentou Caetano e Gil aos poetas concretos? Eu já tinha JM: Sim. trabalhado com os concretos, Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e com o diretor do Teatro Oficina, Zé Celso Martinez Corrêa. Aproximei o pessoal de música popular do pessoal da chamada cultura superior. GG: Além do arranjo de “Tropicália”, você realizou outros trabalhos dentro dos moldes tropicalistas? JM: A experiência do Tropicalismo já tinha se dado anos atrás na música erudita. Quando fiz a música da peça Galileu Galilei, de Brecht, dirigida por Zé Celso, coloquei sambinhas e marchas-rancho no meio. uma visão GG: Dê-nos da cultura panorâmica musical do pós-guerra. JM: Nos anos 60, os festivais europeus eram um ímã da cultura de vanguarda. A Alemanha colocou todas as suas rádios e orquestras pra fazer música contemporânea. John Cage, o líder da vanguarda norte-americana, foi um dos mais corajosos revolucionários dessa época. Depois da Segunda Guerra, o dodecafonismo e a música serial voltaram à cena. Schönberg chegou a ter uns poucos dias de glória. No fim dos anos 50, a música seguia um construtivismo milimétrico, que correspondia, por exemplo, à sofisticação do cool jazz e à música de câmara popular de João Gilberto. Aí se tentava

eliminar o acaso e trabalhar com o mínimo de elementos. Era o que o concretismo fazia na poesia e na pintura: despojamento total, sem nenhuma redundância. Chegou um ponto em que esse construtivismo passou a influenciar a cultura como um todo. Nos anos 60, os próprios líderes construtivistas quiseram explodir os seus princípios para fundar novas experiências. A explosão da música trouxe uma quantidade de novos elementos, inclusive com o uso dos meios de comunicação de massa. GG: Então Caetano e Gil corresponderam à tendência da época de misturar componentes, questionar códigos, explodir sistemas? JM: Na música popular brasileira, eles corresponderam à música de happening dos Estados Unidos e da Europa. GG: Como foi a explosão do rock? JM: O rock começou como música quadradinha de dois minutos e meio com acordes perfeitinhos pra dançar, mas logo explodiu pra ser uma proposta muito mais ampla. A pintura invadiu a música com cores psicodélicas e capas de discos deslumbrantes. No Brasil, o Tropicalismo foi essa abertura com a música se libertando de todos os vínculos pra abarcar muitos componentes culturais, não só musicais. GG: Como se dava a criação no meio tropicalista? JM: Confunde-se loucura com criação musical. Esta é matemática. Faz-se um arranjo com pinça e lupa,

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num frio debate de engenheiros. O resultado é que parece porra-louca. GG: Mas houve algo muito interessante que aconteceu ao acaso: o discurso de Dirceu na introdução da música “Tropicália”. baterista Dirceu, JM: O testando o seu microfone, começou a fazer de brincadeira um discurso sobre o Brasil, que poderia ter sido um gesto tropicalista de Caetano, por exemplo. Quando notei aquilo, disse a Gaos, o técnico, que estimulasse Dirceu a falar mais. Então ele soltou os cachorros: “Quando Pero Vaz de Caminha viu que as terras brasileiras…” Logo em seguida acionei a orquestra e os efeitos. Foi um acidente sintonizado com a época. Muita gente boa não entendeu a abrangência do Tropicalismo. Sobre o discurso de Dirceu, até o mestre Guilherme Araújo disse: “Tem que acabar com essas gracinhas aí!” Mas Guilherme sabia conduzir os artistas. GG: Qual era a sua visão do rock que os Mutantes faziam? JM: Eles não faziam rock, e sim uma paródia do rock. Os Mutantes são grandes criadores, com eles o rock acontece de uma forma agressiva. Num texto que escrevi para a revista Veja em 69, sobre o terceiro disco dos Mutantes, eu goleava os Beatles: “Vocês ainda vêm encher o saco com esses violininhos…” Felizmente, depois veio o Sargent Pepper’s. GG: O Brasil dos anos 60 era conservador demais pra entender a Tropicália?

JM: Qualquer país é conservador. Não sei de nenhum revolucionário que tenha encontrado o caminho aberto. Igor Stravinsky, que viveu em Paris, capital cultural do início do século XX, fez a “Sagração da Primavera”, tão importante quanto a Divina Comédia, de Dante. Na prémiere, atiravam cadeiras no palco. Os próprios músicos faziam gracinhas na orquestra e tiveram que fugir pelos fundos do teatro. Beethoven, Satie, João Gilberto... Os inovadores nunca são bem recebidos. GG: Como você vê as e as sequências do consequências Tropicalismo na cultura brasileira atual? JM: Hoje em dia os esforços culturais são todos individuais. Naquela época, ideias convergentes acabavam formando um movimento. Os próprios tropicalistas viraram pop stars de primeira qualidade em relação ao pop mundial. Eles eram a área da inteligência da música popular brasileira, enquanto Tom Jobim, por exemplo, era a área da sensibilidade. Ele fazia uma canção que repetia trinta vezes a mesma nota e o mundo caía de joelhos. Um talento assim, só Mozart ou Satie. Mas os tropicalistas, e mais Chico Buarque e Capinan, eram a provocação, que fez com que a música colaborasse inclusive para a reabertura do processo político brasileiro. Quando Caetano saiu da prisão, me contou que um general lhe disse que, demolindo os conceitos culturais, políticos e sociais daquela maneira, eles estavam usando a forma mais moderna de subversão. Até os militares sabiam que aquela

revolução não estava em cada setor e sim no comportamento em geral. Mas, com o tempo, cada um foi pro seu lado, como se nada tivesse acontecido. GG: Então você acha que os tropicalistas de ontem estão desatentos hoje? JM: Hoje, quando o lixo tomou conta da mídia, os provocadores daquela época assistem a tudo e ainda vão entregar troféus pro pessoal da indústria cultural mais cafajeste do mundo. Chitãozinho e Chororó são grandes cantores, mas a sua música é digna de bordéis de quinta. E todos esses pagodes não valem uma pausa de um samba de Cartola, Nelson Cavaquinho ou Nelson Sargento. Fomos habituados a uma época em que o melhor da música popular brasileira circulava nos meios de comunicação. Hoje, o que se faz de bom acontece em palcos subterrâneos, enquanto a indústria cultural massacra a sensibilidade brasileira com o pior lixo sonoro, que vem bem embalado pelo profissionalismo. Eu não assisto a isso de camarote. Fui pro Amazonas fazer a melhor orquestra sinfônica do país, com músicos do mundo todo. Tento fazer o melhor com artigos e entrevistas, mas não tenho a força que esse pessoal tem, não é? GG: E Tom Zé? Você não acha que Tom Zé continua provocativo? JM: Esse sim. Esse continua me surpreendendo. Caetano e Gil fazem coisas bonitas sim, mas quando vejo Tom Zé na TV levo um susto. GG: O que lhe parece ter sido o substrato estéticocrítico-revolucionário da Tropicália? JM: O Tropicalismo colocou o erudito em convívio com o popular, o supervalor ao

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lado do desvalor, porque mil valores caracterizam a personalidade brasileira. Trouxe pro presente coisas consideradas do passado, sim pra nos autoalimentarmos dela. Depois da Tropicália, a música tinha que ser uma coisa gigantesca, porque nela cabia tudo, tanto a Filarmônica de Berlim quanto um analfabeto tocando berimbau, tanto Miles Davis quanto Vicente Celestino. GG: Que análise você faz sobre a evolução da música popular brasileira? JM: Em todas as décadas ímpares, e quando está fraca de ideias, a música brasileira vira bolero. Anos 30: boleros, mas bons, com Orlando Silva, etc. Anos 50: Cauby Peixoto, Ângela Maria, Maysa, Dalva de Oliveira. Anos 70: Caetano voltou e toda uma geração foi lhe pedir desculpas por tê-lo

como Cartola ou Elizete Cardoso. Desmistificou conceitos de qualidade, mostrando que não só João Gilberto como também exilado. Ele deu uma de Carmen Miranda, rebolou e deu a volta por cima. Mas, fora isso, boleros: Ângela Rô Rô, Simone, Marina… Nos anos 80, demos uma subida: Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Premeditando o Breque. E os anos 90 são os boleros das duplas caipiras. Eu me envergonho da música do Brasil, o país mais rico do mundo em matéria-prima musical. Já nos anos 70 não havia vestígio do Tropicalismo. Se levassem adiante as ideias tropicalistas, teriam que trabalhar muito. Agora que há liberdade, onde é que está a produção cultural? O músico brasileiro precisa acabar com a preguiça e ter uma consciência cultural mais responsável. A música

Vicente Celestino são Brasil. Nós os eruditos não fomos pra música popular brasileira fazer média e brasileira não é mais caixinha de fósforos do botequim, como no tempo de Noel Rosa. É por isso que os americanos, com a sua música boa e ruim, mandam no mundo.

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Um olhar sobre O Rei da Vela Por Ana Miranda

Heloísa na tentativa de juntar os interesses da burguesia com a falida aristocracia do café, mas a economia não é salva. Aberlado II trai o antigo patrão e tornase o herdeiro do falido império.

O

A

no passado, o teatro Oficina reinaugurou sua casa de espetáculos com a primeira leitura cênica d’O rei da vela, que foi escrito em 1933 por Oswald de Andrade. O diretor, José Celso Martinez Corrêa, escolheu a peça porque ela possibilitou um novo olhar acerca da realidade brasileira e apresentou uma nova forma de se fazer teatro. A história de um industrial de velas, arruinando sob o peso de empréstimos ao imperialismo estadunidense, retrata o subdesenvolvimento brasileiro, alvo de uma mentalidade tacanha, autoritária e erigida sobre aparências. Aberlado I casa-se com

rei

da

vela

carrega a cura contra a cegueira do povo brasileiro em relação aos seus direitos civis. O texto construído trinta e quatro anos antes de sua encenação causou tanto apreço e manifestação quanto causaria em sua época; e, por sua atualidade, consequentemente demonstrou que ainda vivemos num período de estagnação. Com o olhar grosso, antropofágico, cruel, implacável e negro de Oswald de Andrade, o roteiro conseguiu abarcar todo um século de trevas em que lutava para nascer. O Brasil vive uma vergonhosa realidade nacional. Oswald de Andrade relatou a vida do homem recalcado do Brasil, o qual é produto do clima, da economia escrava e da moral desumana que faz milhões de

ignorantes. A soma dada entre personagens, espaço, tempo e narração constitui a realidade escura e amarga de nosso povo. A cenografia forte e agressiva, criada por Hélio Eichbauer, com a trilha sonora de Caetano Veloso, Damiano Cozzella e Rogério Duprat montam a encenação dedicada a Glauber Rocha, diretor Terra em Transe. de Convergem, assim, as propostas estéticas que estruturam o tropicalismo como movimento abrangente. A montagem traz procedimentos paródicos, satiriza a ópera, a revista musical, a comédia de costumes e abusa de símbolos que marcam uma sexualidade explícita. Assim, a encenação do Oficina tornou-se o centro de referência de vários artistas que estão dando corpo ao movimento tropicalista através de desdobramentos na música, nas artes plásticas e na literatura.

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Cinema Novo e a influência de “Terra em Transe” Por Ana Júlia França Monteiro

O

premiado filme

de Glauber Rocha, “Terra em transe”, foi lançado há mais de um ano, mas seus efeitos ainda são sentidos até agora em país onde o Estado quer calar o povo. Apesar de sua proibição, por ser considerado “subversivo” pelo governo do Marechal Castello Branco e ofensivo à Igreja, a obra conseguiu alcançar parte da população e passar a imagem da realidade que estamos vivendo hoje. O filme com causou choque nos espectadores conservadores que viram o que acontecia no país fictício Eldorado choque de partidos, de tendências políticas, de interesses econômicos, violentas disputas pelo poder - queria abrir o tema "transe", ou seja, a instabilidade das consciências, pois vivemos num momento de crise. O diretor baiano retratou aspectos que o

brasileiro vivencia atualmente, políticos demagogos e populistas, déspotas no poder, causando escândalo e marcando um momento importante do chamado Cinema Novo que surgiu na última década, além de ter conquistado diversos prêmios, nos Festivais de Cannes, de Havana, de Locarno, entre outros O Cinema Novo teve seu início há alguns anos, com uma proposta diferente do cinema Vera Cruz, que era cheio de pompa e artificialidade. Como disse Glauber Rocha “o cinema novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas consequentes de sua insistência”. Rocha não poderia explicar melhor. Calcado na promessa de contar a verdade e utilizando-se de originalidade na criação, o Cinema Novo

vem trazendo mudanças no modo de produção da indústria cinematográfica e denuncia as mazelas da sociedade brasileira numa mistura composta de jovens jornalistas e intelectuais interessados em transmitir uma mensagem à população. Entre os primeiros títulos desse novo estilo cabe destacar “Cinco vezes Favela”, “Porto das Caixas”, “Vidas Secas” e “Ganga Zumba”, obras que alcançaram repercussão e alguns prêmios no exterior, além de nomes de precursores como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra e Cacá Diegues. Mas foi em 1964 que o novo modo de fazer cinema começou a se consolidar melhor. “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, também de Glauber Rocha, não conquistou prêmios nos festivais europeus, mas com certeza foi um dos

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filmes que ficou marcado na mente dos críticos. Rocha não amenizou nem quando a obra foi encomendada por seu amigo José Sarney, que o convidou para realizar um documentário sobre sua posse como governador do Maranhão. “Maranhão 66”, nas próprias palavras de Sarney, mostrava as mazelas e a profunda miséria que do Nordeste, fazendo com que sua voz soasse como a de um fantasma por trás das cenas. Esse movimento nada mais é que a expressão de alguns poucos que ainda possuem meios e podem se expressar com sua arte. O país vive novos tempos e ainda é possível transmitir mensagens com música, cinema e teatro. “Terra em Transe” faz isso, bem como outras obras do Cinema Novo, e mostra que não só de uma opinião é feita um país, que existem várias maneiras de pensar sobre as realidades e mesmo aqueles que são

bem intencionados, como o político populista, podem terminar sendo suprimidos por outras forças.

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Entrevista: Glauber Rocha humilde que precisa se liquidar de suas amarras. Estamos vivendo uma poluição cultural, e nós das artes, devemos nos libertar disso. GG:

O

que você classificaria como poluição

edição desse mês entrevistou Glauber Rocha depois do grande sucesso dos seus filmes “Barravento”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe”. Conheça um pouco das influências e dos filmes desse novo nome do cinema nacional.

cultural? GR: Essa cultura polida pela influência estrangeira, que na verdade busca um domínio ideológico do mercado intelectual do público brasileiro. Mas isso de colonização cultural é um problema complexo do Brasil. Devemos criar uma consciência nacional porque o cinema é o espelho intelectual, cultural, filosófico da nação.

Geleia Geral: Por que a escolha do sertão como ambiente para os seus filmes? Glauber Rocha: O cinema tem a função digna de mostrar o homem ao homem. Devemos abandonar a ideia de exterior e pensarmos no Brasil, no nosso sertão, nos nossos rios, nas nossas matas, no homem

GG: Podemos observar que a música exerceu uma grande importância nos filmes. Por que esse padrão? GR: A música tem um papel importante não só nos meus filmes. Isso é tão essencial quanto o diálogo e a fotografia. Em “Terra em Transe”, por exemplo, utilizei canções africanas, o que

A

eu já também já tinha feito em “Barravento” como forma de evocar um lugar, uma atmosfera. GG: Observamos uma relação em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe”, isso foi proposital? GR: Sim, acho que “Terra em Transe” é uma continuação natural de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. No final do primeiro filme é dito que “o sertão vai virar mar” e o segundo começa com imagens do mar. Chega-se pelo mar à cidade e, no fim, acabamos num deserto onde não há música da esperança como em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, mas sim o ruído das metralhadoras que se sobrepõe a musica do filme. GG: “Quais são os outros artistas que, em sua opinião, vêm propondo uma mudança na cultura brasileira?” GR: Na música, Caetano Veloso e Gilberto Gil, na literatura, Jorge Amado, e no teatro, José Celso Martinez. Eles são os verdadeiros pensadores brasileiros, buscam uma arte livre e aberta, saravá. A função do artista é violentar!

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Tropicália, moda em movimento Por Elisabete Ferreira

P

ara

quem

se

acostumou até agora com uma década relativamente “neutra” no que se refere à moda, em que muitas mulheres vivem amarradas a um vestuário de tailleurs retilíneos, tons pastéis e uma cartela reduzida de cores, e os homens se contentam a um conjuntinho calça, camisa ou terno, sempre em tonalidades e tecidos discretos, a Tropicália pode ser definida como uma revolução no modo de se vestir. Um movimento e um momento, diríamos até um estado de espírito, que revela nossa brasilidade! O movimento tropicalista trouxe uma série de elementos a um vestuário sisudo demais, dando continuidade à ousadia da Jovem Guarda, que abriu alas para um festival de cores e inovações na escolha das roupas. Se para o movimento jovem-guardista a onda é usar bota com

saias curtas, cores vivas e um cabelo com corte moderno, aqui a onda são as calças mais folgadas, cores mais berrantes e tudo calcado em uma tendência ousada de usar as mais diversificadas estampas, sem medo de errar. Ora usando ternos tradicionais, ora usando roupas de plástico, eles são os tropicalistas: o que vale aqui é a lei da mistura! 111 Com a irreverência, a audácia e a vontade de mudar o mundo, os tropicalistas transformam a estética com seu jeito de se vestir, trazidos da cultura hippie: cabelos longos, encaracolados, roupas soltas e coloridas, uma liberdade na vivência do corpo e da própria sexualidade, além de uma postura política libertária por excelência. O Tropicalismo faz o país descobrir a modernidade, o gosto pela cultura brasileira, sem perder de vista as pontes com o mundo novo que desabrocha, sobretudo na moda. Para quem se interessa em seguir esta tendência, aqui vão algumas dicas: coloque um vestido de noiva à la Rita Lee, um óculos redondo estilo hippie e uma coroa na cabeça e você já tem um look. Caso queira algo diferente, talvez você goste de usar

uma longa bata (ou vestido?) estampado de bananas, com os cabelos soltos ao vento, como ensina Caetano Veloso. Para um visual mais Jovem Guarda, Nara Leão vem com suas golas rolês e minissaias; mas para um visual mais gritante, se espelhe n’Os Mutantes, fantasiados de feiticeiros. Mas não se esqueça de abusar nas cores, nas referências a Marylin Monroe ou a Carmen Miranda: o importante é ser brasileiro!

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Indicações ao leitor Música O LP que promete mudar a história Nesta edição, falamos bastante do álbum Sgt.

Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, lançado no ano passado. Não é por acaso! Embora o rock ainda não seja amplamente divulgado aqui no Brasil, vale a pena fazer um esforço para conferir o irreverente LP da banda britânica, que vem causando um alvoroço mundo afora. As faixas que indicamos são a genial “A Day In The Life” e, é claro, a música que dá

título ao álbum.

Personalidades Gal Costa Quem conhecia a tímida menina Maria das Graças, que não gostava muito de grandes aparições, com certeza ficou admirado com sua participação carismática no Festival da Record desse ano cantando “Divino, Maravilhoso”. A nova postura de Gal Costa, mais agressiva e imponente, aponta para um futuro brilhante em sua carreira. Vamos ficar de olho nesta nova estrela em ascensão!

Tom Zé O autor de “São Paulo, Meu Amor” (interpretada durante o mais recente festival da Record), também merece destaque por sua habilidade em compor letras inteligentíssimas e sagazes. Quem não acredita, que dê uma olhada na letra de “2001”, a música defendida pelos Mutantes no mesmo festival. Tom Zé se mostra um tropicalista em essência e sua “loucura” vem chamando a atenção de muita gente.

Vá Conferir! Brasília: IV Festival de cinema brasileiro Encerramento do festival com os documentários, Folia do Divino, de Eliseu Visconti Cavalleiro, e Capitu, de Paulo César Saraceni. Às 21h. Em seguida, entrega dos prêmios. Rio de Janeiro: A gravura brasileira Cento e cinquenta e dois gravadores brasileiros numa visão panorâmica da gravura do Brasil. Praça Marechal Âncora. São Paulo: VI Salão do Automóvel Todos os veículos produzidos pela Indústria nacional! Com a presença de grandes artistas. Ibirapuera.

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Horoscopo Sagitário:

Se ainda estiver em seu inferno astral, tome cuidado principalmente nas relações amorosas. Caso contrário, aproveite a nova fase para renovar as amizades. Momento oportuno para mudanças profissionais.

estão dispostos a te ajudar. Touro: Seja fiel ao seu parceiro. Você passará por um momento de grandes provações na vida profissional e deverá aceitar os problemas de

Capricórnio: O momento é favorável para mudanças. Se não está contente com o emprego, peça demissão. Se o namoro não está bem, termine. É um momento para renovações! Inove! Aquário: use cores fortes, não abuse do rosa escuro, pois não lhe cairá bem! Sua vida amorosa será resolvida com o auxílio de seus verdadeiros amigos. Então, procure-os.

problemas incomodam.

que

te

Leão: Tempo de espera. Não abuse da bondade alheia, pois nesse período ninguém é confiável. Utilize das cores neutras, mantenha os cuidados com o corpo e não deixe a vaidade de lado. Virgem: Cuidado com a impaciência, esta será sua grande inimiga. Atente-se com as roupas e dê valor a estética, pois você será julgado profissionalmente por sua aparência e postura.

cabeça erguida. Entreguese ao novo!

Peixes: Corra atrás dos seus ideais profissionais, e não se esquente com a vida amorosa! Não é momento de se apaixonar, seu coração está em momento de calma e espera.

Gêmeos: Época de grande fertilidade e propícia para encontrar o amor ideal. Cuide da aparência e equilibre-se emocionalmente para usufruir tudo o que este momento poderá te proporcionar.

Aries: Está na hora de usar sua determinação para superar os problemas profissionais! Não desista e lembre-se que seus amigos são confiáveis e

Câncer: Época propícia para retomar amizades antigas e renovar laços que se perderam. Não inove no âmbito profissional, porém, resolva os

Libra: A balança está equilibrada, porém, o equilíbrio é frágil. Cuidado com as amizades, mas, se sabe que elas são verdadeiras, aproveite o momento para viver novas aventuras. Arrisque-se. Escorpião: cuidado para não morrer com o próprio veneno. Entenda que a vingança não te levará a lugar nenhum e ainda poderá prejudicar as pessoas mais próximas e mais amadas por ti. Use roupas claras para restabelecer o equilíbrio.

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Revista final 02  
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