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MUSEU NACIONAL/UFRJ

INVENTÁRIO ICTIOFAUNÍSTICO E DEFINIÇÃO DE ESPÉCIES INDICADORAS DE QUALIDADE DE ÁGUA NA BACIA DO RIO DAS PEDRAS Coordenação: Paulo Andreas Buckup Supervisão: Anita Diederichsen e Paulo Petry Março de 2010 SEGUNDO RELATÓRIO Resultados do Inventário e Proposta de Espécies Indicadoras 1.

Introdução

O presente resumo apresenta os principais resultados a serem incluídos no segundo relatório previsto no projeto “Inventário Ictiofaunístico e definição de espécies indicadoras de qualidade de água na bacia do Rio das Pedras”, conforme Termo de Referência relativo ao Contrato de Prestação de Serviços celebrado entre o Instituto de Conservação Ambiental The Nature Conservancy do Brasil - TNC e a Associação Amigos do Museu Nacional – SAMN. O objetivo do projeto é realizar um inventário da ictiofauna na região do Rio das Pedras, formador no rio Piraí, um tributário do médio rio Paraíba do Sul desviado artificialmente para a bacia do rio Guandu, e propor um protocolo de levantamento e monitoramento para o Programa Produtor de Água. Neste resumo apresentam-se os principais resultado do trabalho de campo realizado na região, incluindo uma proposta de índices de qualidade do ambiente aquático baseados na categorização de espécies de peixes indicadores. 2.

Atividades de Campo

As atividades de campo foram realizadas no período de 10 a 14 de junho de 2009 por uma equipe de cinco pesquisadores do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, acompanhados de um motorista. Os componentes da equipe foram selecionados de forma a incluir pelo menos quatro pesquisadores com significativa experiência em coleta científica de peixes de riachos. Conforme previsto na proposta apresentada no primeiro relatório, foram amostradas 10 localidades na área de estudo, sendo três localizadas no rio Papudos, quatro no rio das Pedras e três no rio Piraí, a jusante da confluência dos rios Papudos e das Pedras (Figura 1). Adicionalmente, para fins comparativos, foi realizada a amostragem de um trecho do córrego da Floresta, tributário da bacia do rio Coutinhos, localizado na área periférica da cidade de Lídice. Os dados de campo, incluindo as coordenadas geográficas e altitude obtidas por GPS utiilizando datum WGS84, foram anotados em fichas de campo padronizadas conforme modelo em uso no Setor de Ictiologia do Museu Nacional. Além de medições de pH e Página 1 de 21


condutividade foram registradas observações qualitativas relativas a correnteza, tipo e quantidade de vegetação, substrato e tipo de paisagem. A coleta foi realizada com a utilização de redes de arrasto (picarés) de pequeno porte (2 m, 3 m e 5 m), puçás de 35 X 90 cm equipados com tela tipo mosquiteiro de polietileno de alta resistência e cabo de ferro, e tarrafa de malha de 12 mm entre nós adjacentes em monofilamento de nylon dotada de rufos. Visando obter estimativas de abundância relativa das espécies capturadas o esforço de coleta foi padronizado em uma hora de atividade contínua da equipe de coletores. As atividades de coleta foram conduzidas de forma realizar uma amostragem exaustiva da ictiofauna acessível através de métodos ativos de coleta manual. Para isto, todos os ambientes disponíveis foram explorados utilizando-se as técnicas usuais de coleta, incluindo a realização de arrastos com picaré junto às margens, arrastos de meia-água com picaré em poças e remansos, uso de puçás junto a vegetação marginal, rolagem de pedras com puçás e picarés instalados a jusante do ponto de rolagem, bloqueio de corredeiras com agitação da água e do fundo a montante do ponto de bloqueio, raspagem do substrato com puçás e uso de tarrafa em poções e canais com profundidade superior a 50 cm. O material coletado foi fixado em formalina 10%, acondicionados em bolsas plásticas rotuladas com a numeração de campo correspondente à ficha de campo, e posteriormente triado e identificado em laboratório. Visando o melhor aproveitamento científico do material coletado, algumas subamostras (1, 8% dos indivíduos coletados) foram fixadas etanol anidro, visando a realização de eventuais estudos de cunho molecular. Todo o material coletado foi depositado na Coleção Ictiológica do Museu Nacional. Os números dos lotes são apresentados no item 4.b (abaixo). 3.

Caracterização das Estações de Amostragem

Os locais amostrados são apresentados a seguir. A numeração seqüencial da localiades situadas dentro da área de estudo corresponde àquela utilizada no Relatório 01 e constante na Figura 1. O código de localidade refere-se ao código mnemônico utilizado para referenciar a localidade no presente relatório. Algumas descrições e informações sobre coordenadas foram atualizadas com base nas atividades de campo. Todas as localidades apresentaram rápida correnteza, água transparente, e foram avaliadas como inseridas em paisagens 100% antropizadas. Rio Piraí: Ponto 01: Rio Piraí, cerca de 200 m a montante da ponte da rodovia RJ 155 Número de campo: SIMN209061204 Código da localidade: Piraí 1 Coordenadas: S22 50 24.0 W44 12 08.8 Altitude: 542 m Data e horário da amostragem: 12/06/2009, 15:00h Profundidade máxima da amostragem: 1,3 m pH: 8,05 Condutividade: 18 µS Página 2 de 21


Quantidade de vegetação marginal: moderada. Substrato: areia Mata de galeria: presente. Atividades antrópicas predominantes: pecuária, urbano Características: Rio largo, em trecho de baixada com fundo de areia, fluxo laminar. Ponto 02: rio Piraí, 1,7 km ao sul de Lídice, junto à ponte de concreto de Várzea do Inhame Número de campo: SIMN209061203 Código da localidade: Piraí 2 Coordenadas: 22 51 16,7 S 44 11 55,6 W Altitude: 544 Data e horário da amostragem: 12/06/2009, 11:20h pH: 8,7 Condutividade: 22 µS Quantidade de vegetação marginal: pouca. Substrato: pedras, cascalho, areia Atividades antrópicas predominantes: agricultura, urbano Características: Trecho de baixada com fundo de seixos e pedras, fluxo turbulento. Ponto 03: Rio Piraí, junto à pinguela da Várzea do Inhame Número de campo: SIMN209061203 Código da localidade: Piraí 2 Coordenadas: 22 50 55,6 S 44 11 44,9 W Altitude: 547 Data e horário da amostragem: 12/06/2009, 13:20h Profundidade máxima da amostragem: 1,4 m pH: 7,55 Condutividade: 16 µS Quantidade de vegetação marginal: moderada. Substrato: pedras, cascalho, areia Mata de galeria: ausente. Atividades antrópicas predominantes: pecuária, avicultura Características: Trecho de baixada com fundo de areia, cascalho e pedras, sob forte pressão antrópica. Leito alterado por pequenos represamentos, que formam alternância de áreas de fluxo laminar e degraus de fluxo turbulento. Margens com depósitos de areia aluvial sob forte processo de erosão.

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Figura 1 - Localização dos pontos de amostragem da ictiofauna da bacia do rio das Pedras.

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Rio das Pedras: Ponto 04: Rio das Pedras, próximo à Escola Municipal Rio das Pedras Número de campo: SIMN209061201 Código da localidade: Pedras 1 Coordenadas: 22 51 58,7 S 44 12 06,6 W Altitude: 554 m Data e horário da amostragem: 12/06/2009, 09:27h Profundidade máxima da amostragem: 1,0 m Quantidade de vegetação marginal: pouca. Substrato: rochas, pedras, cascalho, areia. Mata de galeria: ausente. Atividades antrópicas predominantes: lazer Características: Trecho de corredeiras situado ente a confluência com o rio Papudos, a jusante, e a cachoeira que marca a exposição de rochas da base do rio das Pedras, a montante. A área amostrada inclui as corredeiras com fundo de cascalho nas proximidades da ponte de acesso à Escola Municipal Rio das Pedras. As cachoeiras a montante são utilizadas como balneário e área de lazer. A área é desprovida de mata ciliar. Ponto 05: Rio das Pedras na Fazenda Conceição de Maria Número de campo: SIMN209061301 Código da localidade: Pedras 2 Coordenadas: 22 52 30,6 S 44 11 48,4 W Altitude: 555 m Data e horário da amostragem: 13/06/2009, 10:45h Profundidade máxima da amostragem: 1,6 m pH: 9,35 Condutividade: 14 µS Quantidade de vegetação marginal: pouca. Substrato: rochas, pedras, cascalho, areia. Mata de galeria: presente. Atividades antrópicas predominantes: pecuária Características: Rio largo, com trecho de remanso entre dois trechos de corredeiras, sobre fundo de cascalho, localizado a jusante da confluência da desembocadura do Córrego Paiero no rio das Pedras. Junto ao remanso há rochas e areia, com formação de pequena praia. Numa das margens há exuberante vegetação nativa, porém o restante da área é ocupado por pastagens. O trecho localiza-se no primeiro degrau da encosta percorrida pelo rio das Pedras. Ponto 06: Trecho médio do rio das Pedras Número de campo: SIM209061302 Código da localidade: Pedras 3 Coordenadas: 22 53 34,0 S 44 11 30,5 W Altitude: 784 m Data e horário da amostragem: 13/06/2009, 11:00h (estimado) Quantidade de vegetação marginal: pouca. Substrato: rochas, pedras, cascalho, areia. Mata de galeria: presente. Atividades antrópicas predominantes: agricultura, pecuária Características: Trecho encachoeirado, com fundo de cascalho. No trecho a montante há rochas, pequenas quedas de água e ilhas, proporcionando diversidade de Página 5 de 21


habitats. O trecho localiza-se no segundo degrau da encosta percorrida pelo vale do rio das Pedras. Ponto 07: Trecho alto do rio das Pedras, ponte na comunidade de rio das Pedras, próximo a propriedade de Davi Chaves Número de campo: SIMN209061102 Código da localidade: Pedras 4 Coordenadas: 22 54 11,2 S 44 11 10,6 W Altitude: 857 m Data e horário da amostragem: 11/06/2009, 13:35h Profundidade máxima da amostragem: 0,6 m pH: 8,05 Condutividade: 14 µS Quantidade de vegetação marginal: pouca. Substrato: pedras, cascalho, areia. Mata de galeria: presente (parcialmente). Atividades antrópicas predominantes: pecuária, urbana Características: Trecho encachoeirado, com fundo de cascalho grosso, próximo a zona semi-urbanizada. A área inclui trecho desprovido de mata ciliar junto à ponte de concreto existente no local e pequenos cursos d´água localizados na margem direita do rio. A montante da área amostrada existe um trecho coberto por densa mata ciliar. O trecho localizase no terceiro degrau da encosta percorrida pelo vale do rio das Pedras. De acordo com a folha topográfica 1:50.000 do IBGE, este trecho de nascente do rio das Pedras denomina-se córrego do Morro. Rio Papudos (alto Piraí): Ponto 08: Margem do baixo rio Papudos ou Piraí Número de campo: SIMN209061002 Código da localidade: Papudos 1 Coordenadas: 22 52 23,7 S 44 12 38,6 W Altitude: 558 m Data e horário da amostragem: 10/06/2009, 17:10h Profundidade máxima da amostragem: 1,0 m Quantidade de vegetação marginal: pouca. Substrato: pedras, cascalho, areia. Mata de galeria: ausente. Atividades antrópicas predominantes: pecuária, extração de areia Características: Trecho de várzea, com fundo arenoso, marginado por rochas na margem esquerda. No local há atividade de extração de areia. Observações: De acordo com folha topográfica do IBGE, este trecho do rio é considerado parte do próprio rio Piraí. Ponto 09: Confluência rio Papudos e córrego Alto da Serra Número de campo: SIMN209061001 Código da localidade: Papudos 2 Coordenadas: 22 52 40,8 S 44 13 35,6 W Altitude: 566 m Data e horário da amostragem: 10/06/2009, 15:05h Profundidade máxima da amostragem: 0,5 m Página 6 de 21


pH: 7,15 Condutividade: 10 µS Quantidade de vegetação marginal: pouca. Substrato: pedras, cascalho, areia. Mata de galeria: presente. Atividades antrópicas predominantes: agricultura, pecuária. Características: Rio largo, sobre corredeiras de pedras e fundo arenoso , na confluência dos rios Papudos e Córrego Alto da Serra. O ponto localiza-se imediatamente a jusante do trecho de encosta da Serra do Sinfrônio. Ponto 10: rio Papudos, no cruzamento de estrada vicinal, local de antiga ponte destruída, no alto da Serra do Sinfrônio Número de campo: SIMN209061101 Código da localidade: Papudos 3 Coordenadas: 22 54 20,1 S 44 13 38,3 W Altitude: 948 m Data e horário da amostragem: 11/06/2009, 11:05h Profundidade máxima da amostragem: 0,6 m Quantidade de vegetação marginal: pouca. Substrato: rochas, pedras, cascalho. Mata de galeria: presente. Atividades antrópicas predominantes: ausentes. Características: Trecho encachoeirado, com em fundo formado por pedras e rochas, localizado e exuberante mata reconstituída naturalmente. Fluxo torrencial com forte gradiente altitudinal. Bacia do rio Coitinhos: Ponto 11: córrego da Floresta (tributário da margem esquerda do rio Coitinhos) no trecho entre antiga represa da Pousada Recanto das Águas e queda d´água a montante. Número de campo: SIMN209061401 Código da localidade: Coitinhos Coordenadas: 22 49 28,5 S 44 12 39,3 W a 22 49 32,5 S 44 12 27,5 W Altitude: 581 m Data e horário da amostragem: 14/06/2009, 08:25h Profundidade máxima da amostragem: 0,4 m pH: 8,9 Condutividade: 18 µS Quantidade de vegetação marginal: moderada. Substrato: pedras, cascalho, areia. Mata de galeria: presente. Atividades antrópicas predominantes: ocupação urbana. 4.

Resultados do Trabalho de Campo a. Diversidade e Abundância

Foram coletados 1278 exemplares de peixes. A captura média de exemplares por amostra foi de 116,2 exemplares e revelou a presença de 23 espécies de peixes na bacia do rio das Pedras. A diversidade variou entre 4 e 15 espécies por localidade, compondo uma média de 9,3 espécies por localidade (Figura 2). Na bacia do rio das Pedras e do rio dos Papudos os Página 7 de 21


menores valores de riqueza de espécies foram observados nas localidades situadas nos trechos mais próximos às nascentes, o que é o esperado para rios e riachos em geral. Embora a diversidade de espécies geralmente apresente correlação positiva com a qualidade do ambiente aquático, é necessário considerar que o número de espécies varia naturalmente ao longo dos cursos de água, correlacionando-se negativamente com a proximidade de cabeceiras. Além disto, a presença de espécies generalistas e de grande tolerância à poluição aquática pode incrementar a diversidade em trechos moderadamente impactados. No eixo do rio das Pedras a riqueza de espécies aumenta progressivamente de 6 espécies em seu trecho mais alto até o máximo de 15 espécies no ponto Piraí3. A partir do ponto Piraí3 a diversidade diminui progressivamente a jusante, o que pode ser interpretado como o efeito das atividades agro-industriais e urbanas existentes nas proximidades da cidade de Lídice.

Figura 2 - Riqueza de espécies nas estações de amostragem da bacia do Rio das Pedras

A abundância média por localidade foi de 12,5 indivíduos por espécie. A abundância de cada espécie nas localidades amostradas é apresentada na Tabela 1. Os menores valores de abundância foram observados nas proximidades da cidade de Lídice e na bacia do rio Coitinhos (Figura 3). Este padrão parece ser o resultado da combinação dos efeitos negativos de impacto ambiental decorrentes da ocupação humana nas proximidades do centro urbano e dos efeitos do maior afluxo de nutrientes decorrente das atividades humanas existentes na bacia do rio das Pedras, destacando-se a carga de nutrientes originárias das atividades agroindustrias e ocupação da terra nas proximidades do ponto Piraí3.

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Tabela 1 - Abundância de peixes região da bacia do rio das Pedras. Bacia Coit. Espécie

Flo1

Papudos

Pedras

Acentronichthys leptos Astyanax intermedius

22

Piraí

15

Astyanax sp.

14

7

2

1

15

81

1 51

30

21

1

18

Geophagus brasiliensis

3

50

1

10

6

3

4

4

3

1

33

1

38

Harttia loricariformis

3 2

3

3

7

51

9

25

1

Hypostomus sp.

1

13

23

2

14

8

17

27

2

3

8

6 5

5

5

14

27

144

1

2

29

3

3

Oreochromis sp. Pareiorhina rudolphi 84

1

29

2

3

5

24

72

116

96

2 1

Imparfinis sp. 1

115

1

1

Oligosarcus hepsetus

297

12

1

Hemipsilichthys gobio

Phalloceros harpagos

41

1

Characidium sp. af. C. alipioi

Harttia carvalhoi

GERAL 4

1

Characidium lauroi

Neoplecostomus microps

TOTAL

Pap1 Pap2 Pap3 Ped1 Pedr2 Ped3 Ped4 Pir1 Pir2 Pir3

96 15

4

11

1

1

Rhamdia sp. af. R. quelen

1

7

1

1

3

13

10

7

1

31

3

36

12

16

4

39

Rineloricaria sp. "p"

1

5

7

Trichomycterus sp. 1

16

1

3

2

1

Trichomycterus sp. 2 cf. T. travassosi

Total geral

2

11

4

Trichomycterus sp. 3 Trichomycterus sp. 4

1

366

Pimelodella sp.

3

1

1

2 109

55

112

18

103

186

1

2

206

190

5 80

71

150

1280

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Figura 3 - Abundância de indivíduos nas amostragens realizadas na bacia do Rio das Pedras.

b. Caracterização das espécies coletadas As espécies coletadas são apresentadas a seguir conforme a classificação sistemática adotada por Buckup et al. (2007). Ordem Characidormes Família Crenuchidae Characidium lauroi Travassos, 1949 Trata-se de espécie listada na categoria Vulnerável na lista de espécies ameaçadas de extinção do Estado do Rio de Janeiro (Mazoni et al., 2001), com distribuição restrita aos riachos de águas frias em regiões de grande elevação da Serra da Mantiqueira, Serra da Bocaina e Serra dos Órgãos, na bacia do médio e alto Paraíba do Sul. A espécie pertence a um complexo de formas com populações isoladas em riachos de montanhas e tem sido considerada como indicadora de mudanças climática de longa duração. Material testemunho: MNRJ 35456, MNRJ 36438, MNRJ 36451, MNRJ 36458, MNRJ 36471, MNRJ 36472, MNRJ 36486, MNRJ 6508, MNRJ 36518 Characidium sp. af. C. alipioi Trata-se de espécie amplamente distribuída em riachos tributários da bacia do rio Paraíba do Sul. Esta espécie é freqüentemente identificada como C. alipioi Travassos, 1955, porém estudos em andamento sugerem a possibilidade de que esta última represente uma espécie distinta, com distribuição restrita à região de Ilha dos Pombos e possivelmente alguns rios costeiros. A espécie pertence a um complexo de formas relacionadas amplamente distribuído no sul e sudeste do Brasil, que inclui C. pterostictum Gomes 1947, C. gomesi

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Travassos, 1956, C. grajahuense Travassos, 1944, C. macrolepidotum (Peters, 1868), C. timbuiense Travassos, 1946. Material testemunho: MNRJ 36457, MNRJ 36497, MNRJ 36507. Família Characidae Astyanax intermedius Eigenmann, 1908 Astyanax intermedius pertence ao complexo de espécies A. scabripinnis, ocorrendo nas bacias dos rios Paraíba do Sul e Mucuri (Melo, 2001; Buckup et al., 2007). As espécies deste grupo ocorrem em riachos com corredeiras (Bertaco & Lucena, 2006). Material testemunho: MNRJ 36428, MNRJ 36439, MNRJ 36447, MNRJ 3649, MNRJ 36473, MNRJ 36487, MNRJ 36498, MNRJ 36510, MNRJ 36519, MNRJ 36524 Astyanax sp. aff. A. jenynsii Esta forma está representada por um único exemplar coletado no trecho médio do rio Papudos. O exemplar é semelhante A. intermedius, porém distingue-se pelo menor diâmetro do olho, maior comprimento do pedúnculo caudal, pequeno tamanho da nadadeira adiposa, que é vestigial, e reduzido numero de raios ramificados nadadeira anal, que presenta apenas 14+(2) raios ramificados. A identificação da espécie é considerada tentativa, visto que A. jenynsii (Steindachner, 1877) é uma espécie rara em coleções científicas e muito pouco conhecida do ponto de vista morfológico. Material testemunho: MNRJ 36427 Oligosarcus hepsetus (Cuvier, 1829) Olgorasus hepsetus é o principal peixe predador de meia-água ocorrente na região. A espécie possui ampla distribuição em rios e riachos do Sudeste do Brasil. Material testemunho: MNRJ 36429, MNRJ 36440, MNRJ 36460, MNRJ 36474, MNRJ 36488, MNRJ 36499, MNRJ 36509. Ordem Siluriformes Família Trichomycteridae Observação geral sobre as espécies do gênero Trichomycterus: A taxonomia das espécies de Trichomycterus ainda é muito mal resolvida, com predominância de espécies descritas apenas de uma localidade e ausência de estudos de revisão sistemática. Na bacia do rio das Pedras foram encontradas quatro formas que não correspondem a nenhuma das espécies descritas. Assim as principais características morfológicas destas espécies são apresentadas a seguir: Trichomycterus sp. 1

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Características morfológicas: Peitoral com i+7 raios, filamento formado pelo primeiro raio aproximadamente 30% do comprimento da nadadeira; canal infraorbital presente; máculas grandes unidas, formando um listra na linha lateral e no dorso; máculas menos evidentes em juvenis; mancha vertical negra na base da nadadeira caudal; pintas mais claras abaixo da listra lateral. Distingue-se T. itatyaiae por possuir 8 (versus 7) raios peitorais, filamento formado pelo primeiro raio aproximadamente 30% (versus 15%) do comprimento da nadadeira, presença do canal infraorbital (versus ausência). Assemelha-se as formas não descritas denominadas Trichomycterus sp. 12 e Trychomycterus sp. 13 por Vianna (2004). Material testemunho: MNRJ 36436, MNRJ 36445, MNRJ 36453, MNRJ 36468, MNRJ 36477, MNRJ 36512. Trichomycterus sp. 2 cf. T. travassosi Esta espécie é muito semelhante a T. travassosi Miranda Ribeiro, 1949, da região de Penedo na Serra da Mantiqueira. Alguns autores (e.g. de Pinna & Wosiacki, 2003) consideram T. travassosi como sinônimo de Trichomycterus alternatum Eigenmann, 1917, descrita da bacia do rio Doce, porém muitas descrições recentes de espécies pressupõem que a as espécies de Trichomycterus possuem distribuições geográficas muito reduzidas. Os exemplares coletados diferem de T. travassosi porque as máculas dorsais são confluentes com as laterias, formando barras transversais nos adultos. Estas característica, no entanto, não é observada em indivíduos jovens. Material testemunho: MNRJ 36435, MNRJ 36444, MNRJ 36478, MNRJ 36494, MNRJ 36504, MNRJ 36513 Trichomycterus sp. 3 Características morfológicas: Série longitudinal de máculas escuras abaixo da linha média lateral, barras transversais no dorso, diâmetro do olho aproximadamente 13,75% no comprimento da cabeça, cerca de 19 odontódios operculares, nadadeira anal dom 9 raios, comprimento do filamento peitoral aproximadamente 16,04% e comprimento da nadadeira pélvica aproximadamente 10,27% do comprimento padrão, filamento peitoral aproximadamente 10% do comprimento da nadadeira. Assemelha-se a forma não descrita denominada Trichomycterus sp. 13 por Vianna (2004), exceto pelo comprimento do filamento peitoral. Material testemunho: MNRJ 36467 Trichomycterus sp. 4 Características morfológicas: pequenas pintas marrons espalhadas uniformemente por todo o corpo; pintas na limha média lateral formando uma discreta listra; poros I1 e I3 presentes no sistema látero-sensorial, peitoral com 7 raios; filamento peitoral representando aproximadamente 20% do comprimento da nadadeira; 10 a 13 odontódios operculares; 22 a 28 odontódios inter-operculares; altura do pedúnculo caudal 14,56 a 14,62%, largura do pedúnculo 3,47 a 3,72%, argura do corpo 8,08 a 9,07 %, comprimento da cabeça 21,38 a 22,39 Página 12 de 21


% do comprimento padrão. O padrão de coloração, presença de poros I1 e I3, quantidade de odontódios operculares e inter-operculares são características semelhantes às de T. vermiculatus Eigenmann, 1917, descrito da região de Juiz de Fora, da qual difere pela altura e largura do pedúnculo caudal, comprimento da cabeça, largura do corpo e comprimento do filamento peitoral. A largura e altura do pedúnculo, comprimento da cabeça, largura do corpo, presença de poros I1 e I3 são características similares às de Trichomycterus mirissumba Costa, 1992, da qual parece diferir por detalhes da coloração. Material testemunho: MNRJ 36452, MNRJ 36520, MNRJ 36526 Família Loricariidae Hemipsilichthys gobio (Lütken, 1874) Esta espécie está listada na categoria Vulnerável na lista de espécies ameaçadas de extinção do Estado do Rio de Janeiro (Mazoni et al., 2001) sob a denominação de Upsilodus victori Miranda Ribeiro, 1924. Trata-se de espécie endêmica da bacia do Paraíba do Sul (Buckup et al., 2007), onde ocorre em riachos pedregosos e encachoeirados, onde vive aderida às pedras. Trata-se de espécie exigente quanto às características ambientais, ocorrendo apenas em rios e riachos com baixo grau de impacto ambiental. Material testemunho: MNRJ 36448, MNRJ 36482 Neoplecostomus microps (Steindachner, 1976) Esta espécie ocorre em riachos pedregosos e encachoeirados da bacia do Paraíba do sul e bacias costeiras adjacentes localizadas entre a baixada de Jacarepaguá e o rio Itabapoana (Buckup et al., 2007). Nestes ambientes vive aderida às pedras e parece estar restrita a ambientes com águas relativamente cristalinas. Material testemunho: MNRJ 36431, MNRJ 36442, MNRJ 36449, MNRJ 36454, MNRJ 36462, MNRJ 36481, MNRJ 36489, MNRJ 36516, MNRJ 36521, MNRJ 36526. Pareiorhina rudolphi (Miranda Ribeiro, 1911) Esta espécie está listada na categoria Vulnerável na lista de espécies ameaçadas de extinção do Estado do Rio de Janeiro (Mazoni et al., 2001). Sua distribuição geográfica é bastante restrita, ocorrendo apenas em alguns riachos de encosta da bacia do Paraíba do Sul localizados na Serra da Mantiqueira e Serra do Mar, onde vive aderida às pedras. Trata-se de espécie exigente quanto às características ambientais, ocorrendo apenas em rios e riachos com baixo grau de impacto ambiental. Na Serra da Mantiqueira a espécie é simpátrica com outra espécie do mesmo gênero com distribuição ainda mais restrita (Chamon et al., 2007). Material testemunho: MNRJ 36455, MNRJ 36522

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Rineloricaria sp. "p" A identificação da espécie exige ampla revisão taxonômica do gênero na região sudeste do Brasil. Na bacia do rio das Pedras, no entanto, somente é encontrada uma espécie, relativamente abundante. Material testemunho: MNRJ 36432, MNRJ 36443, MNRJ 36463, MNRJ 36479, MNRJ 36490, MNRJ 36503 Harttia loricariformis Steidachner, 1877 Esta espécie ocorre na bacia do Paraíba do Sul e rios costeiros dos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Buckup et al., 2007), onde geralmente ocorre em ambientes de fundo arenoso. Material testemunho: MNRJ 36514. Harttia carvalhoi Esta espécie ocorre nos tributários do rio Paraíba do Sul, na Serra dos Órgãos, Serra da Bocaina e Serra da Mantiqueira, onde geralmente ocorre em ambientes de fundo arenoso. Material testemunho: MNRJ 36430, MNRJ 36441, MNRJ 36461, MNRJ 36480, MNRJ 36501, MNRJ 35515 Hypostomus sp. A identificação do único exemplar capturado exige ampla revisão taxonômica do gênero na região sudeste do Brasil. Provavelmente trata-se da mesma espécie coletada previamente na bacia do rio das Pedras e identificada com Hypostomus luetkei (Steidachner, 1877). Esta espécie é relativamente comum no trecho baixo de rios e riacho da bacia do Paraíba do Sul, onde geralmente ocorre em águas ricas em matéria orgânica. Material testemunho: MNRJ 36502 Família Heptapteridae Acentronichthys leptos Eigenmann & Eigenmann, 1889 Trata-se de espécie listada na categoria Vulnerável na lista de espécies ameaçadas de extinção do Estado do Rio de Janeiro (Mazoni et al., 2001), e listada na categoria Em Perigo na lista de espécies ameaçadas de extinção do Estado do Espírito Santo conforme Decreto no. 1499-R de 14 de julho de 2005. A distribuição geográfica da espécie é relativamente ampla, ocorrendo em rios costeiros do sudeste brasileiro entre a bacia do São Mateus no Espírito Santo e o Estado de Santa Catarina. Material testemunho: MNRJ 36464, MNRJ 36491, MNRJ 36511

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Imparfinis sp. A identificação da espécie exige ampla revisão taxonômica do gênero na região sudeste do Brasil. As espécies do gênero geralmente estão restritas a pequenos riachos. Na bacia do rio das Pedras, no entanto, somente é encontrada uma espécie. Material testemunho: MNRJ 36476 Rhamdia sp. af. R. quelen De acordo com Silfvergripp (1996) a espécie Rhamdia quelen (Quoy & Gaimard in Freycinet, 1824) teria ampla distribuição na maior parte da América do Sul tropical e subtropical, incluindo as formas ocorrentes na bacia do Paraíba do Sul. Entretanto, a localidade-tipo de Rhamdia quelen situa-se no alto rio Amazonas, no Peru. Assim consideramos a identificação da espécie ocorrente no rio das Pedras como provisória, tendo em vista a improbabilidade de que as populações de jundiás da Serra da Bocaina sejam conspecíficas com as populações ocorrentes nas cabeceiras do Amazonas. A forma da bacia do Paraíba do Sul, no entanto, parece ter ampla distribuição. As espécies de Rhamdia ocorrem geralmente em ambientes de águas turvas. Material testemunho: MNRJ 36433, MNRJ 36466, MNRJ 36475, MNRJ 36493, MNRJ 36500 Pimelodella sp. A identificação da espécie exige ampla revisão taxonômica do gênero na região sudeste do Brasil. Na bacia do rio das Pedras, no entanto, somente é encontrada uma espécie. As espécies do gênero Pimelodella geralmente são abundantes em ambientes de águas turvas, sujeitos a forte impacto antrópico. Material testemunho: MNRJ 36434, MNRJ 36465, MNRJ 36492, Ordem Cyprinodontiformes Família Poeciliidae Phalloceros harpagos Lucinda, 2008 Trata-se de espécie amplamente distribuída na bacia do Paraná-Paraguai e bacias costeiras da bacia do Itaboapana (Estado do Espírito Santo) até a bacia do Araranguá (Estado de Santa Catarina). Phalloceros harpagos, como maioria das espécies do gênero Phalloceros, geralmente ocorre em ambientes degradados, em ambientes marginais associados a áreas de pastagens. A espécie costuma ser abundante em ambientes com baixa qualidade de água, sujeitos a oscilações de temperatura e pressão de oxigênio pouco toleradas pelas demais espécies de peixes. Material testemunho: MNRJ 36437, MNRJ 36446, MNRJ 36450, MNRJ 35456, MNRJ 36469, MNRJ 36483, MNRJ 36495, MNRJ 36505, MNRJ 36517, MNRJ 36523, MNRJ 36527. Página 15 de 21


Ordem Perciformes Família Cichlidae Geophagus brasiliensis (Quoy & Gaimard, 1824) Trata-se de espécie amplamente distribuída nas bacias costeiras do leste e sudeste do Brasil e do Uruguai, assim como na bacia do alto Paraná, onde costuma ocorrer em ambientes lêntico, sendo relativamente tolerante a presença de impactos de origem antropogênica. É possível que se trate de um complexo de espécies. Material testemunho: MNRJ 36470, MNRJ 36484, MNRJ 36496, MNRJ 36506 Oreochromis sp. Trata-se de espécie exótica, de origem africana, cuja presença em águas naturais é resultado da atividade humana. A identificação da espécie é dificultada não somente pela complexidade taxonômica do grupo, como pela existência várias formas híbridas e geneticamente manipuladas produzidas com fins comerciais. É espécie danosa ao ambiente por tratar-se de peixe onívoro prejudicial às espécies nativas, além de reproduzir-se com tamanhos relativamente pequenos, o que leva a espécie a formar populações com grande densidade de jovens. Entre as razões para seu cultivo está a elevada tolerância a baixa qualidade da água. Material testemunho: MNRJ 36485 c. Categorização das espécies quanto à bioindicação de qualidade de água Visando estabelecer um índice de qualidade de água baseado na ictiofauna, as espécies de peixes nativos ocorrentes na área foram ranqueadas numa escala de 1 a 10, conforme a expectativa de sua associação com ambientes aquáticos (Tabela 2). O valor 5 foi atribuído a espécies cuja presença é normalmente esperável no tipo de ambiente amostrado e cujas exigências de qualidade de água não são necessariamente condicionadas à ausência de efeitos antropogênicos ou associadas a ambientes degradados. Espécies com ampla distribuição e geralmente tolerantes às condições de ambientes aquáticos degradados receberam valores baixo neste ranking. Espécies com baixa tolerância a degradação ambiental, cuja ocorrência geralmente está associada a ambientes de nascentes e águas cristalinas receberam valores mais elevados. A única espécie exótica detectada na área recebeu valor negativo.

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Tabela 2- Ranking de espécies quanto ao seu potencial de bioindicação de qualidade de água na bacia do rio das Pedras. Espécie Ranking Pareiorhina rudolphi 10 Characidium lauroi 9 Hemipsilichthys gobio 8 Neoplecostomus microps 7 Characidium sp. af. C. alipioi 7 Rineloricaria sp. "p" 6 Imparfinis sp. 6 Acentronichthys leptos 6 Oligosarcus hepsetus 5 Harttia loricariformis 5 Harttia carvalhoi 5 Astyanax sp. 1 5 Astyanax intermedius 5 Trichomycterus sp. 4 4 Trichomycterus sp. 3 4 Trichomycterus sp. 2 cf. T. travassosi 4 Trichomycterus sp. 1 4 Hypostomus sp. 4 Rhamdia sp. af. R. quelen 3 Pimelodella sp. 3 Geophagus brasiliensis 2 Phalloceros harpagos 1 Oreochromis sp. -1

d. Indicação de qualidade de água Visando caracterizar a qualidade da água com base na comunidade de peixes ocorrente em cada localidade foram definidos dois índices baseados no potencial de bioindicação estabelecido para cada espécie de peie ocorrente na bacia do rio das Pedras (Tabela 2). O Índice 1 representa o valor médio do ranking de bioindicação da comunidade de peixes presente em cada localidade amostrada, calculado através da soma dos valores do ranking de cada espécie presente dividida pelos valores riqueza de espécies no local (Figura 1). Nos ambientes amostrados, o valor deste índice variou entre 3,89 e 6,00 (Figura 4).

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Figura 4 - Qualidade dos ambientes aquáticos da bacia do rio das Pedras baseada no ranking médio de bioindicação das espécies presentes.

As comunidades com o menor valor de ranking médio correspondem às localidades situadas próximo à cidade de Lídice, onde se verifica o maior impacto antrópico da bacia. Por outro lado os maiores valores do Índice 1 ocorreram nas cabeceiras do rio das Pedras, observando-se um gradiente positivo de jusante para montante ao longo do eixo dos rios. O Índice 1 representa uma síntese diretamente interpretável do valor médio do ranking de bioindicação das espécies de peixes presentes em cada localidade amostrada. Valores superiores a 5 são indicativos da existência de condições favoráveis à manutenção de mananciais aquático, enquanto valores abaixo de 5 correlacionam-se com a presença de espécies indicadoras de impactos negativos sobre a qualidade do ambiente aquático. Entretanto, o Índice 1 não reflete a abundância de indivíduos de cada espécie. A contribuição de cada espécie para o Índice 1 é a mesma, seja ela uma espécie dominante ou rara. Visando contemplar o efeito da abundância relativa de cada espécie, propõe-se o uso do Índice 2, calculado através do somatório do produto entre a abundância relativa e o ranking de cada espécie. Este índice equivale à média dos valores do ranking de biodicação ponderados pela abundância relativa de cada espécie. A abundância relativa de cada espécie foi calculada dividindo-se a sua abundância em cada localidade pelo total de peixes capturados na localidade. Nos ambientes amostrados, os valores do Índice 2 variaram entre o mínimo de 1,95 no córrego Floresta (ponto Coitinhos) localizado fora da bacia do rio das Pedras e o máximo de 6,34. Os maiores valores deste índice foram registrados nos pontos Pedras2, Piraí3 e Papudos3 (Figura 5). O baixo valor do Índice 2 foi registrado no córrego Floresta correlaciona-se com sua proximidade à área de influência urbana e captação de água da cidade de Lídice.

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Figura 5 - Índice 2 de integridade ictiofaunística nos ambientes amostrados.

O valor do Índice 2 é maior na cabeceira do rio Papudos do que na cabeceira do rio da Pedras (Figura 5). No trecho alto do rio Papudos há exuberante mata ciliar e o impacto antrópico é muito baixo em virtude da dificuldade de acesso à área, enquanto no trecho alto do rio das Pedras existe uma grande comunidade de moradores e a vegetação arbórea foi removida em grande pare. Dentro da bacia do rio das Pedras, o maior valor do Índice 2 foi registrado no ponto intermediário situado no interior da Fazenda Conceição de Maria onde praticamente inexistem residências junto às margens do rio, o grau de ocupação da terra é relativamente baixo e há grandes trechos florestados localizados a montante deste ponto, tanto no curso do rio principal, quando ao longo de um tributário que aí desemboca. A jusante deste ponto, o valor do Índice 2 cai consideravelmente para 4,14 no ponto Pedras 1. Embora este ponto seja menos urbanizado do que o rio Piraí a jusante da confluência com o rio Coitinhos, observamos que a localidade Pedras 1 é inteiramente desmatada e intensivamente utilizada para atividades de laser e pecuária, além de existir, nas proximidades, uma escola que gera tráfego relativamente intenso na área. Com relação ao ponto Pedras 4, situado na cabeceira do rio das Pedras, é interessante notar que embora esta localidade tem um Índice 2 inferior a 5, embora tenha um valor relativamente elevado do Índice 1 (5,83), com a presença de pelo menos três espécies indicadoras de boa qualidade ambiental (Pareiorhina rudolphi, Characidium lauroi e Neoplecostomus microps), duas das quais classificadas como vulneráveis na lista de espécies ameaçadas do Estado do Rio de Janeiro (Mazoni et al., 2001). Esta situação é decorrência da grande proliferação, neste local, do poeciliídeo Phalloceros harpagos, uma espécie com grande associação com pastagens e ambientes antrópicos. A mesma situação ocorre em grau ainda mais acentuado na localidade Pedras 3. Este contraste entre os Índices 1 e 2 é indicativo da coexistência, nestes locais, de espécies características de ambientes bem preservados com taxas de ocupação humana que podem interferir com a qualidade do ambiente aquático, e pode representar a possibilidade de desequilíbrio entre as pressões antrópicas e a capacidade de regeneração natural do ambiente aquático. Recomenda-se a intensificação de ações de Página 19 de 21


conservação ambiental nestes ambientes, visto tratarem-se áreas produtoras de água sob intenso uso para outras finalidades. Este comportamento dos índices 1 e 2 corrobora sua aplicabilidade como indicadores da qualidade do ambiente aquática na bacia do rio das Pedras. e. Ocorrência de anomalias em peixes No decorrer da triagem do material coletado observou-se a ocorrência de anomalias morfológicas em indivíduos das localidades Pedras 1 e Pedras 2. Na primeira registrou-se a ocorrência um exemplar de Rineloricaria com deformações cefálicas e de um exemplar de Astyanax intermédio severamente emaciado. Na localidade Pedras 2 capturou-se um exemplar de Neoplecostomus microps sem a nadadeira peitoral direita e com uma protuberância na região ventral. Embora os objetivos do presente estudo não tenham sido o monitoramento de anomalias morfológicas, o número de ocorrências detectadas é muito baixo e não tem significado estatístico. No entanto, a ocorrência de anomalias em estudos futuros deverá ser registrada visando avaliar a eventual necessidade de estudos especificamente voltados para o monitoramento de anomalias e assimetrias morfológicas como ferrramenta de bioindicação ambiental. 5.

Conclusão

Os resultados obtidos nesta etapa permitiram caracterizar a distribuição espacial da ictiofauna ocorrente na bacia do rio das Pedras e construir índices capazes de refletir as características do ambiente aquático. A correlação destes índices com a qualidade ambiental e a intensidade dos impactos antrópicos permitirá seu uso (e eventual aprimoramento) no estabelecimento de um programa rotineiro de monitoramento de qualidade do ambiente aquático baseado na amostragem das comunidades de peixes. 6.

Literatura Citada

Bertaco, V.A. & Lucena, C.A.S. 2006. Two new species of Astyanax (Ostariophysi: Characiformes: Characidae) from eastern Brazil, with a synopsis of the Astyanax scabripinnis species complex. Neotr. Ichthyol. 4(1):53-60. Buckup, P.A.; Menezes, N.A.; Ghazzi, M.S. (eds.) 2007. Catálogo das espécies de peixes de água doce do Brasil. Rio de Janeiro, Museu Nacional. 195p. (Série Livros, 23) Buckup, P.A. & Melo, M.R.S. 2005. Phylogeny and distribution of fishes of the Characidium lauroi group as indicators of climate change in southeastern Brazil. p.193-195. In: Lovejoy, T.E. and Hannah L. (eds.) Climate change and biodiversity. New Haven: Yale University Press. 418p. Chamon, C.C.; Aranda, A.T.; Buckup, P.A. 2005. Pareiorhina brachyrhyncha (Loricariidae, Siluriformes): a new species of fish from the Paraíba do Sul slope of Serra da Mantiqueira, southeastern Brazil. Copeia 2005(3): 550-558.

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Melo, F.A.G. 2001. Revisão taxonômica das espécies do gênero Astyanax Baird e Girard, 1854, (Teleostei: Characiformes: Characidae) da região da Serra dos Órgãos. de Pinna, M.C.C. & Wosiacki, W. 2003. Family Trichomycteridae. p.270-290. In: Reis, R. E. ; Kullander, S.O.; Ferraris Jr., C.J. (eds.) Check list of the freshwater fishes of South and Central America. Porto Alegre, Edipucrs. 729p. Silfvergrip, A.M.C. 1996. A systematic revision of the Neotropical catfish genus Rhamdia (Teleostei, Pimelodidae). Stockholm, Stocholm University, Swedish Museum of Natural History. 156p. + 8pl. Vianna, M.A.B.S. 2004. Revisão sistemática do gênero Trichomycterus Valenciennes do sudeste do Brasil (Siluriformes: Loricarioidea: Trichomycteridae). Tese de Doutorado. Rio de Janeiro, Museu Nacional. 279p. 7.

Agradecimentos

Participaram das amostragens de campo o Profesor Dr. Marcelo Riberio Britto, e os biólogos Leandro VillaVerde, José Rodrigues Gomes e Maria Clara Ramos Chaves. A supervisão do projeto for realizada por Anita Diedericsen. Gilberto Pereira colaborou no planejamento das atividades de campo. Parte das atividades de campo contaram com a participação de Benedito Leite do Instituto Terra. A viagem contou com o apoio logístico do Museu Nacional/UFRJ.

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Relatorio 02 v 01 (2)  
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