Page 97

Talvez ser um deles. Até que chegou um dia em que eu precisei de algo na cozinha e não tive coragem de pedir. Então vi que havia algo errado. Eu era uma paulistana nata, daquelas que não sabem nem quem é e o que faz seu vizinho e, se estiver morrendo, vai morrer, pois não sabe pedir ajuda, nem mesmo comida!! Aí pensei: ‘Bom, eu não consigo falar com eles, mas quem sabe dançar?’. Então imaginei um projeto com as crianças. Eu sou muito boa falando com elas. Propus. Deu certo. Passei um ano trabalhando com elas.” Nos anos seguintes, as proposições mudaram sem que, no entanto, se perdesse o fio condutor do diálogo. No segundo ano de projeto, foi a vez de levar a experiência dos idosos para dialogar com o entusiasmo das crianças. Desse modo, a vila vai estreitando e mesmo recompondo laços. No terceiro ano de projeto um passo adiante e a associação, então, se apropria inteiramente e propõe o diálogo com os jovens, em grande parte adolescentes que, muitas vezes, podiam ser vistos depredando a própria vila. Uma prova de autonomia e de crença na própria capacidade de gerir seus bens culturais e afetivos. A associação, os moradores e amigos da Vila Maria Zélia não se dão por vencidos. Buscam alternativas. E não será difícil, posto que o caminho já começou a ser trilhado. “Me lembro do dia em que pintamos nossa casa de laranja e, porque ficou bonito, semanas depois havia mais outras três casas da mesma

cor nas redondezas. Na época, acabávamos de restaurar a fachada da casa em que morávamos segundo os padrões de tombamento. Seria uma das primeiras iniciativas de restauração entre os moradores. “Nossa, como ficou bonito!” “Eu não achava que poderia ficar tão bonito”, é o que diziam. Eles tinham gostado. Meses depois, algumas fachadas começaram a ficar mais próximas do que eram cem anos atrás, com cores novas, plantas, cachorros, pessoas prontas para habitar o novo. Esse exemplo que dou aconteceu antes de os projetos de arte começarem na vila. Relato só para mostrar que foi aí que percebi que a comunidade estava aberta a experiências. E que uma pequena ação individual e pessoal reverberou além. Ao pintar nossa casa, pintamos mais três, quatro, cinco. Ao chamar as crianças para dançar, seus pais também dançaram. Ao chamar as senhoras para cantar e contar histórias, seus netos e filhos também vieram. Eu propus um projeto de arte no primeiro ano para a associação, no segundo ano fizemos juntos, em parceria, e neste ano eles encontraram por si seus caminhos. E o mais surpreendente é que a arte está nele. Quebrou-se uma barreira importante. Os moradores estão mais íntimos da arte e de suas manifestações. Amam sua história, aprendem a amar o hoje e têm mais meios de expressar desejos para os tempos que virão.”

Sentidos - Rumos Educação, Cultura e Arte  

"Sentidos - Rumos Educação, Cultura e Arte" registra o percurso da edição 2011/2013 desta carteira do Rumos.

Sentidos - Rumos Educação, Cultura e Arte  

"Sentidos - Rumos Educação, Cultura e Arte" registra o percurso da edição 2011/2013 desta carteira do Rumos.