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destino. Alguns empreendem uma viagem em ônibus escolar que chega a durar mais de uma hora. Geralmente vêm de várias comunidades, umas mais perto, outras mais distantes. Para a maioria, a primeira refeição é feita nas dependências da escola. A maioria filhos de pescadores ou lavradores. Meninos e meninas que, músculo a músculo, descobrem que não há verdade sem arte. “Em 1999, fui convidado pelo governo do estado a fundar um centro de capacitação de bailarinos, professores de dança e coreógrafos, chamado Colégio de Dança do Ceará. Como minha mãe ainda morava em Paracuru, era lá que eu passava meus fins de semana. Um dia apareceram em meu portão cerca de dez adolescentes pedindo que eu os ajudasse no projeto com um grupo de dança. Fiquei bastante empolgado com a ideia, mas, apesar de terem me procurado, eles tinham muito receio por eu ser professor de balé e só quiseram que eu financiasse as aulas de forró, pois a intenção deles eram as batalhas de forró na praça da cidade. Fiz isso durante oito meses e, aos poucos, depois de muito convencimento, esses adolescentes foram sendo capacitados em outras técnicas até a formação de um grupo de dança chamado Paracuru Cia. de Dança, que já se apresentou em vários estados brasileiros, na África e está se preparando para uma turnê por cinco países da América Latina. Em 2003, sentimos a necessidade de repassar esses ensinamentos para outros adolescentes e fundamos a Escola de Dança de Paracuru, uma escola de formação com projeto pedagógico previsto para oito anos, que funciona até hoje e tem cerca de 200 crianças. A primeira turma dessa escola já está formada, vários de seus alunos já trabalham com dança em companhias, escolas de dança, universidades. Atualmente, dois alunos estão estagiando no Centro Coreográfico Nacional da Normandia, na França.” No entanto, os obstáculos não são apenas naturais ou estruturais, eles são também da ordem das relações. Numa cidade pequena no interior do Nordeste, dançar, sobretudo balé, é uma atividade vista com desconfiança, receio, precon-

ceito. Os alunos da Escola de Dança de Paracuru travam grandes lutas desde o primeiro momento em que o desejo de dançar se insinua em suas vontades. Vencer as resistências familiares, vencer a opinião alheia e as inseguranças que esses embates geram é vencer a cada dia um pouco da grande batalha. Flávio, que enfrentou a fúria do pai, sabe bem como é, e com sabedoria e paciência lida com essas questões. A escola conta hoje com mais de 200 alunos e Flávio já vê alguns alçar voo: lecionando na própria escola e também em cursos técnicos de dança. “As relações familiares se apaziguam. Com meu pai ficou tudo bem, e ele até foi ao teatro me ver dançar o balé Carmen, de Bizet, tempos depois. E, se coubesse um aforismo, diria que a arte é longa e a vida breve.”

Sentidos - Rumos Educação, Cultura e Arte  

"Sentidos - Rumos Educação, Cultura e Arte" registra o percurso da edição 2011/2013 desta carteira do Rumos.

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