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“O senhor aprendeu balé onde?” A voz surgida em meio à escuridão da plateia paralisa o garoto que dança. Mas logo ele se põe no prumo, empertigado. De certo modo, todos os dias, desde que dera para fugir do Colégio Militar para assistir às aulas de balé, esperava essa pergunta. Ele, filho de pescador, fechava os olhos no areal de Paracuru e sentia a música das ondas do mar, do vento, da fricção dos seus pés contra a areia finíssima. Assim dançava, talvez desde que nascera. Impossível lembrar onde começara ele, onde começara a dança. E ali, no palco que ainda não era seu, arriscava-se num balé nunca aprendido senão de olhar, de sentir, de querer muito e muito.

“O senhor não ouviu? Onde aprendeu balé? É aluno do Hugo Bianchi?” Quem perguntava era Dennis Gray, o fundador da escola, bailarino e coreógrafo reconhecido no país inteiro. Um ano antes, em 1973, ele havia apresentado em Fortaleza algumas de suas coreografias, e essa passagem lhe rendeu o convite para fundar e dirigir naquela cidade uma escola de dança clássica e moderna para filhos de operários. O Serviço Social da Indústria (Sesi) conseguia, naqueles anos 1970, trazer meninos e meninas pobres para a dança, e o garoto filho de pescadores ouviu falar do que se fazia ali e não pôde deixar de, fugido da escola, ver o que se passava. Ficava ali, calado pela timidez, sentado num banquinho, assistindo aos outros alongarem, dar impulsos no demi-plié, voarem e dançarem suas vidas. Quando tinha oportunidade, repetia o que via os outros fazerem.

“Nunca aprendi balé não, senhor. Eu só vejo suas aulas.” Mal sabia o menino o que estava começando ali, embora soubesse que era para aquilo que havia nascido, essa aventura. Pelo roteiro certo da família, seria a fotografia reproduzida do pai: militar e, depois, quem sabe mais velho, também pescador dos mares de Paracuru. Desde que chegara a Fortaleza escondera de todos seu desejo de arte e frequentava cursos que pudessem alimentar essa fome. O de dança lhe era inacessível: não cumpria o primeiro pré-requisito, nascer no operariado.

Sentidos - Rumos Educação, Cultura e Arte  

"Sentidos - Rumos Educação, Cultura e Arte" registra o percurso da edição 2011/2013 desta carteira do Rumos.

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