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Jornal da SBCT Ano 5 | Edição Março/2016

Cirurgia Torácica Robótica já é uma realidade no Brasil A dor da solidão – acompanhe uma crônica que o fará refletir sobre o valor de ter com quem dividir a vida Livre, leve e solto – as aventuras de pedalar mundo a fora com a família e amigos proporcionam grandes emoções Toráx 2017 – local definido e novidades na programação científica são um prenúncio do sucesso deste encontro Carta de Salvador – SBCT estabelece e apresenta diretrizes que norteiam a qualidade dos centros de especialização no país Informativo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica


Editorial A medicina se reinventa e sofre transformações constantes das práticas em diferentes campos de atuação, sejam elas influenciadas pelas novas tecnologias ou pelas informações de fácil acesso que circulam pela internet e terminam chegando a todos os cantos do mundo. Nesta realidade estas modalidades tecnológicas já em uso em diversos países vêm, progressivamente, chegando a nosso meio. A cirurgia robótica começou no fim da década de 90 nos EEUU, ganhou força com lançamento do primeiro robô, o da Vinci, em 2000, e chegou ao Brasil em 2008. Com a implantação de vários centros pelo país, a cirurgia robótica é a bola da vez. Algumas especialidades médicas já utilizam esta técnica com segurança, trazendo ganhos significativos na recuperação do paciente, principalmente nos procedimentos mais complexos. Paulatinamente, as resistências de diversas naturezas associadas ao aumento das casuísticas têm estimulado aos cirurgiões a avançar nesta área como conta Anderson Nassar e Márcio Lucas do Rio de Janeiro, recentemente, iniciados nesta técnica – parabéns, esperamos que esta etapa seja um novo começo. Seguindo a linha robótica, Roger e João Normando (pai/filho) procuraram inspiração nas obras de Isaac Asimov, autor de obras e mestre da ficção científica, para descrever esta antiga relação entre o robô e o homem. Claro que o robô imaginado pelo autor visionário, em nada tem de parecido com os nossos. Mais as três leis que formavam a base intelectual dos cérebros positrônicos foram essenciais e continuam atuais neste contexto. A “Lei Zero”, acima de todas as outras, preconiza que um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.

Sérgio Tadeu L. F. Pereira Vice-Presidente da SBCT

Ainda nesta edição, um resumo da Carta de Salvador, resultado do I Fórum Brasileiro de Residência Médica em Cirurgia Torácica ocorrido nos dias 4 e 5 de dezembro do ano passado. A iniciativa representa um esforço conjunto da SBCT com os vários centros de ensino da Cirurgia Torácica em formular uma base sólida na formação e qualificação dos futuros especialistas – vale à pena conferir, mandar críticas e sugestões. Serão bem vindas! Está imperdível a crônica argumentativa do nosso JJ Camargo “A solidão, essa doença” uma verdadeira lição para reflexão. E provando que o médico não vive só a medicina, Paulo de Biasi fala da sua paixão pelo ciclismo, contanto como tudo começou quando ainda criança no interior do Rio de Janeiro e que logo ganhou o mundo, competindo em vários países do velho continente. Boa leitura!

Expediente Diretoria da SBCT Presidente: Darcy Ribeiro Pinto Filho Vice-presidente: Sergio Tadeu L. F. Pereira Secretário Geral: Alexandre José Gonçalves Avino Tesoureiro: Miguel Lia Tedde Secretário Científico : Ricardo Migarini Terra Secretário de Assuntos Internacionais: Fernando Vannucci

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Endereço

Av. Paulista, 2073, Horsa I, cj. 518 | São Paulo - SP CEP: 01311-300 Fone/fax: (11) 3253-0202 secretaria@sbct.org.br www.sbct.org.br ..............................................................

Textos e Edição

Responsável pela revista: Sérgio Tadeu L. F. Pereira Cinthya Brandão - Jornalista DRT/BA 2397 www.cinthyabrandao.com.br Criação - D27 Design e Comunicação www.d27.com.br


Mensagem do Presidente Meus amigos, Na primeira reunião da Diretoria Executiva do ano de 2016, a grande reflexão foi sobre o momento de crise que assola nosso país. Entendíamos que seria difícil levar adiante nossos projetos institucionais sem que fossem afetados pela insegurança do que vinha pela frente. Mesmo que a recomendação mais coerente fosse a moderação, a cautela, ou o esperar para ver como é que fica, abominamos de pronto a estagnação das ações, a protelação dos compromissos assumidos, ou a revisão das metas estabelecidas. Não era plausível e tão pouco justificado, que retirássemos o “pé do acelerador”, afinal, nosso evidente crescimento associativo e a expectativa dos colegas em relação à sua SBCT não poderiam ser frustrados pela incompetência política e administrativa, e pela deslavada corrupção endêmica que levou o Brasil a ultrapassar o limite do fundo do poço. Na certeza de que será inconcebível que esta nação não aprenda nada com as razões que a levaram a este ponto, decidimos que faríamos a nossa parte. A primeira decisão levou em conta o momento e não corrigimos os valores da anuidade dos nossos associados. Não somente a crise, mas também o reconhecimento ao histórico índice de inadimplência registrado em 2015 (5%) sustentou esta medida. Retomamos as conversas com nossos parceiros comercias que, alegando os efeitos da crise, suspenderam contratos e negociaram reajustes inferiores. Um inegável impacto sobre o custeio da SBCT se fez perceber. Paralelo a estas posições, buscamos alternativas de novas parcerias e nossa expectativa é muito positiva para o segundo semestre.

Darcy Ribeiro Pinto Filho Presidente da SBCT

Na linha científica, projetamos um ano extremamente fértil. Nossa agenda de eventos tem sido atualizada constantemente e dois excelentes encontros regionais estão programados. No mês de agosto ocorrerá em Brasília, o Congresso da Sociedade Norte-Nordeste e Centro Oeste de Cirurgia Torácica (Connect) e já no mês seguinte, em Curitiba o Congresso Sul Brasileiro de Cirurgia Torácica. Imperdíveis! Diversos Cursos de Atualização e as Jornadas Científicas e de Defesa Profissional estarão disponíveis para que o cirurgião torácico tenha um consistente portfólio de opções para sua atualização profissional. E quando maio chegar iremos testemunhar um momento muito expressivo da nossa SBCT. Na 29ª Conferência de Cirurgia Torácica, Congresso da Sociedade Européia de Cirurgia Torácica que ocorrerá, em Napoli-IT, serão apresentados os primeiros números brasileiros sobre ressecções pulmonares, emanados da nossa própria base de dados. Liderados por nossa Secretaria Científica, e fruto de um trabalho inicial de cinco centros formadores, brevemente acrescidos de mais dez instituições colaboradoras, estes números embasarão a primeira apresentação internacional da SBCT enquanto instituição. Nossa expectativa é grande e muito otimista, não maior do que a certeza de que este será apenas o começo de um sólido futuro da nossa sociedade, na busca da consolidação do seu protagonismo como a maior e melhor instituição associativa de cirurgia torácica da América Latina. Saudações!

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A SOLIDÃO, ESSA DOENÇA

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uma clínica de dor em Madri, na entrevista de cinco pacientes novos, o coordenador explicou que precisava avaliar o nível de sofrimento do grupo, e pediu que cada um classificasse sua dor, de 1 a 10, sendo 10 a maior dor imaginável. O primeiro não deixou por menos, cravou um dez com convicção. O segundo assumiu o mesmo escore, talvez temendo merecer menos atenção. O terceiro, com a imagem da dor estampada, afirmou que na sua escala de sofrimento, dezessete ficaria bem. O quarto, impressionado com o martírio dos seus pares, admitiu que nove seria provavelmente mais justo. E o último, um pouco envergonhado referiu que sua graduação era 1. Quando o médico questionou sua presença nesta clínica já que ele não sentia dor, afirmou: “Eu tenho câncer como todos aqui e como todos aqui também vou morrer. Acontece que não tenho ninguém para cuidar de mim. Eu sei que isso não tem escore, mas podem acreditar que esta solidão é a pior dor”. O Código Internacional de Doenças (CID), por pura distração, ainda não catalogou a solidão como doença, mas ela é, sem dúvida, a grande enfermidade da sociedade contemporânea. A promiscuidade afetiva da vida moderna e a fantástica capacidade de interação instantânea contribuem para a falsa sensação de que não estamos sozinhos, mas quando uma circunstância especial como a doença restringe a nossa capacidade de comunicação, percebemos que a ilha de fraternidade que construímos com milhões de mensagens e torpedos afetuosos, é pura fantasia. O paciente, fragilizado pela ameaça da morte, sempre buscou na palavra do médico mais do que a promessa de ajuda, o compromisso da parceria, admitindo que não ter com quem dividir sofrimento, só faz multiplicá-lo. Quem trabalha com transplante, descobre no convívio com o desespero levado ao limite, que a disposição para lutar pela vida depende de uma equação simples: amor pra dar/ amor para receber. Os ricos de afeto ultrapassam todas as estimativas de sobrevida porque lhes encanta viver. Por outro lado, é triste flagrar o desinteresse com que os mal amados encaram a perspectiva de batalhar por uma vida que lhes negou a generosa cumplicidade do amor compartilhado. Certo estava quem escreveu que a maior tragédia do homem é o que morre dentro dele, enquanto ele ainda está vivo!

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JJ Camargo Membro da SBCT


Reflexão sobre a robótica a partir de Asimov “Se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa aparecia ao homem como é, infinita.” William Blake (1757-1827)

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obótica é uma expressão bem mais realista ao nosso tempo que em 1954, quando Isaac Asimov escreveu As Cavernas de Aço. A obra foi publicada durante a Guerra Fria, quando, coincidentemente, Asimov repartia sua origem russa com os EUA, seu destino final. O livro expõe uma sociedade que, até certo ponto pareia com a atual. Porém, a pergunta que solavanca é outra: o que Isaac Asimov quis dizer sobre a relação homem-robô tanto tempo atrás? Seria ele um quasar no deserto ou resquício de Júlio Verne? Primeiramente, esse contato dos seres humanos com figuras robóticas é um ciclo repetido: não houve momento sequer na história humana em que não estivemos em contato com tecnologias, mesmo sabendo que o novo nos garante mais dúvidas que certezas - ainda mais quando a ciência, nesta questão, é a medicina e seu braço robótico para a cirurgia. Na obra de Asimov surgem os conservadores. Eles refutam a presença de robôs como mão-de-obra e passam a ser chamados de “medievalistas”. Obviamente, o autor não criou a palavra, mas a interligou à Idade Média e a engajou no conservadorismo, manutenção de valores e reações negativas ao novo. Mais: quantas vezes já ouvimos que tal período simboliza a Idade das Trevas. Nesse campo a obra se paramenta de esplendor, mas gera embate social que, por muito tempo, foi depositada sobre os ombros do período medieval. Os medievalistas de Asimov temem que robôs dominem a Terra, mas se sabe desde as querelas de antanho, para cada conservador há um opositor voraz. Essa cena, se um pequeno esforço for feito, não é estranha ao Brasil do século XIX, num sistema econômico de compra e venda de escravos. Guardadas devidas proporções da comparação – academicamente esdrúxulas e anacrônicas -, os papéis dos atores da obra literária e da escravidão são ideologicamente convergentes. Os medievalistas de Asimov temem o avanço dos robôs, enquanto os escravocratas recusam a abolição e o fim do sistema. O mesmo ocorre no lado oposto: quem, no livro, opõe-se aos medievalistas e adotam os

robôs são, na escravidão, os abolicionistas (ou “liberais”). Essa decussação permite que pensemos em nosso cotidiano de cirurgião e nesse embate eterno de preservar a tradição e temer seu esgarçamento. A obra de Asimov é uma ficção sobre um assassinato em que humano e robô se unem para desvendar o caso. Não é, por si, um ensaio sociológico e nem objetiva estudar a relação entre personagens, tampouco que a introdução do robô modifique a conjuntura trabalhista de nossa sociedade, mas drena, nas entrelinhas, para tal. Aqui, o que se pretende é fazer pequena biópsia da realidade do autor, como ele via seu mundo e o que podemos replicar para as sociedades atuais, em formato 3D. Houve, de fato, alguma inocência, por Asimov, na construção do enredo? Foi o choque entre medievalistas e robôs apenas uma metáfora para as situações que envolvessem tradição versus progresso? Vagos pensamentos nos limitam a afirmar que só temos bons olhos para a História, enquanto no futuro degustaremos em nossos congressos, balizados em incursões tecnológicas no prumo da vídeocirurgia e da robótica - e mais recentemente o EBUS. Mas precisamos dar o braço a torcer. Como sociedade, temos que manter desveladas os portais das percepções de novas tecnologias para que sigamos como tocha infinita para reverenciar Asimov.

João Pedro Normando

Estudante de História, UFPA

Roger Normando Membro SBCT

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Paixão pelo ciclismo

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ou aficcionado pelo ciclismo desde o final da decada de 80. Esta paixão comecou como uma extensão de meu hábito de praticar exercícios físicos, certamente herdado de meu pai, professor de Educação Fisica. Fazer corrida de rua, incluindo duas maratonas, tornou-se monótono e assim adotei o ciclismo que possibilita uma maior mobilidade, porém, em uma velocidade que permite observar a paisagem e os locais por onde pedalo. Uma confissão devo fazer: tal paixão teve origem na infância, passada no interior do Estado do Rio de Janeiro até os 10 anos, onde, em uma estrepolia infantil, com cerca de oito anos, saí escondido de casa para andar de bicicleta com um amigo na garupa. Tudo muito agradável até o momento em que, em uma descida longa e veloz, batemos em um enorme buraco que nos jogou estropiados no canto da estrada. O resultado foi uma passagem pelo hospital e uma “bronca” em casa. Pelo visto não desanimei, pois já adulto, ao retomar o ciclismo, passei a procurar desafios ainda maiores. Inicialmente, depois de algum tempo de treinamento, fiz parte de um grupo de ciclismo que se chamava “Vacilou, Pedalou”, a semelhança de um grupo de dança da época que se chamava “Vacilou, Dançou”. O grupo organizava passeios, partindo do Rio de Janeiro, até cidades próximas como Cabo Frio, Friburgo, dentre outras... onde terminávamos em um clube local e retornávamos ao Rio no fim do dia, em ônibus fretado. Posteriormente, novos desafios apareceram tais como fazer uma etapa do Tour de France, prova profissional, mas aberta em um dia diferente, aos amadores, e percorrendo as mesmas estradas e distâncias dos profissionais. Passei então a

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participar de competições deste tipo em Portugal, França e Itália. Vale dizer que, na Europa, o ciclismo é um esporte de grande apelo popular, atraindo grandes multidões e movimentando milhões de euros nas equipes que disputam provas clássicas e tradicionais com mais de cem anos de existência. Numa das provas que fiz, em 2010, realizada no sul da França passei por grande emoção. Era uma etapa com 184 km, com três grandes montanhas dos Pirineus a serem escaladas, sucessivamente, e terminava no topo da mais alta delas, o Tourmalet, com 2.100 metros de altitude, após uma subida de 22 km. Fiz a prova em companhia de meu filho Guilherme, na época estudando na França, e de um grande amigo, radiologista intervencionista, Feliciano Azevedo. Foi enorme a emoção de poder abraçar meu filho ao final, no alto da montanha e, juntos, celebrarmos a conquista daquela montanha mítica, chegando ambos mesmo às lágrimas. Este fato criou entre nós grande proximidade que persiste desde então. A seguir participei de uma série de cicloesportivas, como são chamadas estas competições onde o objetivo maior é chegar ao final, pois envolve uma preparação que dura vários meses e demanda dedicação e sacrifícios como acordar de madrugada para treinar e seguir um regime alimentar adequado. Porém, tais esforços são recompensados pela manutenção da saúde física e mental, além da possibilidade de fazer novos amigos em qualquer país no qual você pedala. O ciclismo propicia também atividades para toda a família como as viagens que fizemos, eu, minha esposa Rosângela, também


médica, meu cunhado e sua mulher na Provence e ao redor de Bordeaux e St Emillion. Foram passeios de uma semana de duração, com percursos entre 40 a 60 km diários e com uma infraestrutura paralela para levar as bagagens de cidade em cidade. A propósito, em minhas andanças pela Europa, corri uma prova na Serra da Estrela, em Portugal, onde fiz amizade com um grupo de ciclistas que encontrei na estrada e criamos um grupo no WhatsApp (com um nome engracado: Os Machos da Aldeia) onde mantemos contato frequente e combinamos os locais onde treinaremos. Temos até um grito de guerra, sugerido pelo Lauro Wolner, um grande incentivador do ciclismo no Rio de Janeiro e que adotou um dos mirantes mais

conhecidos para cuidar: a Vista Chinesa. O grito foi imediatamente adotado, mas infelizmente e impublicável. Entretanto, brincadeiras à parte, o ciclismo é um esporte aeróbico que traz grande prazer a quem o pratica, além dos óbvios benefícios à saúde, podendo ser praticado por indivíduos de qualquer idade e, inclusive com a possibilidade de servir de meio de transporte em nossas cidades já tão engarrafadas e poluídas pelo uso intensivo do automóvel. Certamente, estes fatores explicam o enorme crescimento do uso da bicicleta observado no Brasil nos últimos anos, tanto Paulo de Biasi como esporte como meio de locoMembro da SBCT moção.

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Cirurgia Torácica Robótica: Aonde estamos e aonde podemos chegar A

tecnologia robótica foi aplicada à Cirurgia Torácica, inicialmente, no início dos anos 2000, sendo a primeira Lobectomia para resseção de uma lesão tumoral relatada em 2002. Desde seu início, essa tecnologia foi aprimorada contando com equipamentos ainda mais modernos e sua utilização vem sendo disseminada pelo mundo. Para que tenhamos uma idéia da proporção com que a adesão ao método acontece, dados da AATS (American Association of Thoracic Surgeons) mostravam, em 2014, oito residentes treinados em Cirurgia Torácica Robótica nos Estados Unidos. Em 2015 esta mesma Associação registrou vinte residentes treinados na técnica. Dados da AHRQ HCUPNET Database mostram que, se em 2009 a técnica representava 1% das ressecções nos Estados Unidos, em 2013 a Cirurgia Torácica Robótica já representava 11% das ressecções, sendo que os 10% que aderiram à técnica utilizavam previamente a toracotomia em suas ressecções e não tiveram, nesta transição, experiência com VATS. Como todas as técnicas modernas a Cirurgia Robótica se deparou, em seu início, com questionamentos e resistências das mais diversas naturezas que, paulatinamente, vêm sendo contornados na medida em que aumentam as casuísticas, e surgem novos trabalhos científicos que estudam o tema. Abordaremos brevemente em nossa dissertação alguns dos estudos mais reconhecidos. As indicações da técnica robótica são basicamente as mesmas que as da técnica vídeoassistida. Por contar com tecnologia 3D e com braços articulados do tipo “endowrist”, a técnica robótica permite uma visualização bem melhor do campo operatório e uma manipulação com amplitude articular infinitamente superior as oferecidas pelas demais técnicas. Além da amplitude dos movimentos conferida pelos “endowrists” que exercem uma rotação ao longo de sete diferentes eixos,

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há ainda a vantagem da filtração de tremores proporcionada pelo equipamento o que aumenta, sobremaneira, a segurança do procedimento. A Cirurgia Robótica facilita o acesso a regiões da cavidade torácica consideradas difíceis quando utilizamos as demais técnicas em virtude de restrições advindas da angulação de instrumental, do limite de comprimento do equipamento. Essa característica permite, por exemplo, dissecções de vasos e linfadenectomias mediastinais sensivelmente mais precisas e eficazes. Há, atualmente, diversas modalidades de Cirurgia Robótica utilizando-se três ou quatro braços do equipamento e cada uma delas é adotada de acordo com a prática do cirurgião. Os fatores relevantes na adoção da técnica robótica são, dentre outros, a disponibilidade do equipamento e de treinamento adequado, a curva de aprendizado e, como não se pode deixar de mencionar, o custo. O treinamento para a Cirurgia Torácica é oferecido, atualmente, nos Centros de Treinamento da Intuitive Surgical Inc. na Califórnia ou em Atlanta, na Georgia, local aonde fizemos nossa preparação. Os custos de treinamento elevados e o acesso limitado devem ser levados em conta quando da decisão pela adoção da técnica. Em trabalho publicado em Janeiro de 2016, no Annals of Thoracic and Cardiovascular Surgery, Yamashita mostra claramente que é consenso entre os cirurgiões detentores das maiores experiências em Cirurgia Torácica Robótica, que a curva de aprendizado da técnica é menor do que aquela da Cirurgia Vídeoassistida e vários deles citam números como 20 (Melfi et al e Gharagozloo) e 17 (Lee et al) procedimentos. Há ainda aqueles como Veronesi et al que acreditam que a curva de aprendizado seja menor do que 20 casos para o cirurgião já treinado em VATS.


Em nossa experiência, no Rio de Janeiro, achamos que a curva de aprendizado pode, sim, ser menor do que a necessária para a VATS, porém há questões de adaptação visual, tátil e de familiarização com o equipamento que podem nela exercer impacto. Cerfolio, R. e colaboradores no Technologies and Techniques in Cardiothoracic and Vascular Surgery, em 2014, concluiram que houve uma significativa redução da mortalidade em 30 dias e da necessidade de hemotransfusão nos pacientes operados pela técnica robótica quando comparados com aqueles operados por VATS ou por toracotomia. Neste mesmo estudo, foi demonstrado que nos pacientes operados pela técnica robótica houve um menor tempo de permanência hospitalar e uma menor ocorrência de escape aéreo pós-operatório quando comparado com as demais técnicas. Estes achados foram corroborados por Michael Kent et col, no Annals of Thoracic Surgery, em 2014. No que concerne ao custo dos procedimentos existe ainda questionamento em relação ao impacto final do custo do equipamento para a instituição que tende a ser amortizado gradativamente com o tempo. Conforme mostrado por Park e Raja Flores (Memorial Sloan – Kettering Cancer Center) no Thoracic Surgery Clinics em 2008, o custo de uma lobectomia Robótica, considerando-se toda a internação é maior do que a técnica Vídeoassistida em uma diferença que oscila entre 3 - 4 mil dólares e menor do que as cirurgias realizadas por toracotomia por uma diferença similar. A análise detalhada deste trabalho nos mostra que a diferença no custo da técnica robótica deveu-se ao primeiro dia de internação, uma vez que os custos referentes ao equipamento são imputados nesta data. Na análise de nossos casos até o momento, concluímos que o custo da cirurgia realizada pela técnica robótica foi bastante similar ao das cirurgias realizadas por VATS, sendo acrescidos da taxa referente à utilização do equipamento. Como conclusão, gostaríamos de deixar a mensagem de que

a Cirurgia Torácica Robótica já é mais um método largamente disponível em outros países e chega agora ao Brasil. Não se pretende que seja a resolução de todos os casos, será ainda um método a que poucos cirurgiões e pacientes terão acesso, devido ao investimento a ser feito pela instituição no equipamento e no treinamento de uma equipe multidisciplinar de profissionais e devido às restrições impostas pelas operadoras de saúde e pela atual conjuntura econômica. Com todos estes “senões”, é um método que se provou seguro, custo-efetivo e factível devendo, portanto, ser olhado com muita atenção e interesse por toda a comunidade de Cirurgia Torácica do Brasil. Referências Bibliográficas: • Bernard J. Park MD, Raja Flores, MD – CostComparison of Robotic, Video-Assisted Thoracic Surgery and Thoracotomy Approaches to Pulmonary Lobectomy. Thoracic Surg Clin 18 (2008) 297-300 • Schin-Ichi Yamashita, MD PHD, Yasushiro Yoshida, MD PHD, AkinoriIwasaki, MD PHD Annals of Thoracic and Cardiovasc Surgery , - Review Article -Jan 2016. • Farinar, Alexander S. MD; Cerfolio, Robert J. MD; et col. ComparingRobotic Lung Resection With Thoracotomy and Video-Assisted Thoracoscopic Surgery Cases… Technologies and Techniques in Cardiothoracic and Vascular Surgery January/February 2014 vol. 9 - Issue 1: p 10-15

Anderson Nassar Membro da SBCT

Marcio O. Lucas Membro da SBCT 09


NEWS

Sociedade de Cirurgia Torácica do Rio Grande do Sul comemora 20 anos A

comemoração dos 20 anos de fundação da Sociedade de Cirurgia Torácica do Rio Grande do Sul acontecerá nos dias 8 e 9 de abril de 2016, em Pelotas-RS. A Socitors tornou-se referência no aprimoramento científico dos seus associados, desenvolvendo apresentações temáticas, discussões de casos clínicos e sobre a atuação do cirurgião torácico, em todas as primeiras sextas-feiras do mês, desde 1996. Nestas

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últimas décadas, a regional da SBCT destaca-se pelo incentivo ao congraçamento entre os seus sócios, contribuindo também para o crescimento da especialidade no estado. Além disso, promove e prestigia movimentos corporativos, dentre eles a recente criação da Cooperativa dos Cirurgiões Torácicos do Rio Grande do Sul (Coopetórax) que congrega mais de 40 cirurgiões.


Encontro define diretrizes e confirma local do TÓRAX 2017

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evento de maior relevância científica da cirurgia torácica brasileira acontecerá no Hotel Barra Windsor, no Rio de Janeiro, entre 4 e 6 de maio do próximo ano, e a organização ficará sob a responsabilidade da empresa Método. Essas e outras decisões foram tomadas numa reunião que ocorreu em 12 de fevereiro com a participação do presidente da SBCT, Darcy Ribeiro, dos membros da SBCT Fernando David, Alfredo Duarte, Gustavo Leal e Eduardo Saito, e da comissão organizadora local. Juntos, eles também estabeleceram as diretrizes que nortearão os trabalhos de construção do Tórax 2017. Além da tradicional grade de temas oficiais, estão sendo cuidadosamente preparados para receber os congressistas sete cursos pré-congresso, café com o professor, conferências internacionais, e inéditas sessões conjuntas com sociedades internacionais.

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Carta de Salvador – Sumário N

os dias 4 e 5 de dezembro de 2015, a capital baiana sediou o I Fórum Brasileiro de Debates sobre Residência Médica em Cirurgia Torácica. O evento que reuniu a diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica (SBCT), sua Comissão de Residentes, coordenadores e preceptores de programas de residência médica de Cirurgia Torácica do Brasil, cirurgiões torácicos e médicos residentes, teve como objetivo debater e deliberar sobre a formação do médico residente em Cirurgia Torácica. Como resultado do encontro, houve a formulação do corpo de diretrizes com a criação da Carta de Salvador, o compromisso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica com a formação qualificada do futuro cirurgião torácico no Brasil. Numa dinâmica que privilegiou a experiência dos centros formadores, a ampla discussão dos temas e a análise crítica das normativas da Comissão Nacional de Residência Médica, o Fórum apontou as seguintes diretrizes: Ingresso ao programa- Ter cumprido, no mínimo, dois anos em programa de residência em cirurgia geral, como pré requisito inquestionável. Prova teórica de seleção deverá contemplar tópicos de cirurgia geral. Análise de currículo e entrevista. Tempo e modelo de treinamento - O avanço tecnológico, o surgimento de novas áreas de atuação do cirurgião torácico, tornou os dois anos de formação insuficientes para abarcar tais demandas. Neste sentido, o plenário do Fórum indicou a necessidade de que um terceiro ano seja agregado, de maneira obrigatória ao período mínimo de formação do especialista em

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cirurgia torácica. Programa teórico mínimo - Deve existir, mas é complementar ao treinamento prático, o qual é a essência mesma da Residência. O plenário estimulou o intercâmbio interinstitucional e a utilização de ferramentas on line para a efetivação da troca de conhecimentos entre as instituições. De maneira a permitir que todos os residentes possam acessar áreas de conhecimento mais sólidas em determinados serviços com expertise reconhecida. Semana teórico-prática - Os programas serão desenvolvidos com 80 a 90% da carga horária, sob forma de treinamento em serviço, destinando-se 10 a 20% para atividades teórico complementares. Todas as atividades teórico-práticas deverão respeitar 60 (sessenta) horas semanais de acordo com a legislação vigente. Competência e habilidades - Estará baseada no modelo de Aprendizado Baseado em Problemas. O modelo proposto é assentado em matrizes de competências específicas para cada ano de formação, abrangendo três áreas de atuação: conhecimento, habilidade e atitude. Ao término de cada ano, os residentes serão avaliados quanto ao domínio de suas competências. As competências e habilidades para o 3º ano de formação proposto serão elaboradas em conformidade com o preconizado pela SBCT e seguindo a normatização da CRNM. Valorizar e estimular a introdução do método científico no aprendizado diário do residente, com discussões de casos baseados em evidência,


Foto - Dr. Emerson Andrade introdução a metodologia científica, e elaboração de pesquisa clínica são habilidades inerentes a formação médica e devem ser estimulados durante o tempo de treinamento do residente de Cirurgia Torácica. Cursos presenciais e a distância, a exemplo do curso de videocirurgia, também são complementação ao programa de residência e devem ser estendidos a todos os anos de formação. Avaliação da progressão - A plenária estabeleceu que a avaliação somativa, seja realizada através de prova teórica-prática, programada para o final de cada ano do treinamento. Elaborada com o apoio técnico da SBCT será aplicada a todos os residentes dos programas brasileiros integrados à instituição. Esta avaliação deverá obedecer aos conteúdos de competências e habilidades específicas de cada ano letivo e as provas poderão ser incorporadas aos critérios de obtenção de Título de Especialista em Cirurgia Torácica conferido pela SBCT. Critérios de conclusão - O processo de conclusão deverá ser criterioso e elaborado de forma a buscar a equidade no resultado da formação em Cirurgia Torácica. Os debates apontaram para o seguimento do preconizado pela Comissão Nacional de Residência Médica: atentar para o cumprimento da carga horária mínima e aprovação nas diversas modalidades de avaliações de progressão estabelecidas pelas instituições formadoras. Apesar de obrigatória em muitas instituições, a monografia deve ser facultativa, ficando a critério de cada serviço. Também é recomendado a realização de avaliação da instituição e programa de residência pelo médico residente na conclusão do

curso. Requisitos mínimos de infraestrutura - O Fórum ao reconhecer a heterogeneidade dos serviços formadores em relação à infra-estrutura, estimula a busca continuada pelo oferecimento dos melhores cenários possíveis para o ensino e aprendizagem. Neste sentido, classifica estas necessidades em quatro níveis de qualificação progressiva (requisitos obrigatórios, desejáveis, opcionais, de excelência). Definiu-se que sem os requisitos obrigatórios de infra-estrutura, o serviço não será reconhecido. Para que os preceitos do Fórum de Salvador sejam implantados, a SBCT constituirá uma Comissão de Residência em Cirurgia Torácica para orientar, supervisionar e avaliar os programas de Residência em Cirurgia Torácica. Esta comissão deverá estabelecer critérios uniformes de avaliação dos residentes em treinamento e, consequentemente, dos próprios Programas de Residência. Caberá a esta propor as diretrizes e orientações estabelecidas no relatório final de cada tópico, objetos de discussão na reunião de Salvador. Por fim, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica ao reconhecer seu papel associativo e corporativo, não se exime de ser propositora de condições de excelência na formação dos especialistas em cirurgia torácica, treinados no território brasileiro. O I Fórum Brasileiro de Debates sobre Residência Médica em Cirurgia Torácica representa o firme compromisso desta sociedade com os futuros cirurgiões torácicos do Brasil. 15


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Jornal da SBCT – Ano 5 – Edição Março/2016  
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