Page 1

O VALOR DA

CUL TURA


Esta publicação é o resultado do trabalho realizado, entre os anos de 2015 e 2019, pelo Pontão de Cultura Rede de Formação e Articulação dos Pontos para Trabalho com Infância e Juventude.   O Pontão trabalhou na articulação entre Pontos de Cultura, Ações Locais e agentes culturais da cidade, que desenvolvessem atividades com impacto territorial com foco na infância e juventude. Com esta rede foram realizados intercâmbios nacionais e internacionais, ações culturais nos territórios e atividades formativas.    O que o leitor vai ver nas páginas seguintes são pensamentos dos jovens que passaram pelo Pontão, suas formas de atuar e pensar. Estas falas foram produzidas a partir de entrevistas com Marcus Faustini e Paul Heritage. Dar voz aos jovens sempre foi uma premissa nossa. Mostrar estas reflexões é fortalecer a capacidade de criação e realização destes jovens como sujeitos que agem na cidade. Nosso desejo é promover uma leitura que inspire outros jovens a inventar suas formas de atuar em cada canto da cidade, ou a darem continuidade a elas.   Além disso, Paul Heritage, - importante figura no campo da cultura urbana e popular internacional - abre a publicação, onde faz um singelo paralelo entre os pensamentos dos jovens e de Mário de Andrade. Que outros jovens de periferia se reconheçam nestas trajetórias de realização e de afeto com seu território, e tenham na arte um canal para construção de uma cidade menos desigual! Boa leitura.

Pontão de Cultura Rede de Formação e Articulação dos Pontos para Trabalho com Infância e Juventude


OS

PONTOS E OS PONTÕES


Com grande alegria recebi o convite para escrever a abertura desta publicação, um marco do 3º ano do Pontão de Cultura Rede de Formação e Articulação dos Pontos para Trabalho com Infância e Juventude. É um registro para mostrar como esse projeto impacta a vida de crianças e jovens moradores da cidade através do acesso à cultura, em experiências vivenciadas no território onde vivem, estudam, trabalham. Nisso vemos a importância dos Pontos e Pontões de Cultura, como braços que chegam até as comunidades, onde fazedores de cultura são alma e coração fazendo pulsar a cidade pela expressão da arte, pelo empoderamento, pelo pensamento crítico de jovens que se tornam capazes de transformar a sua realidade, mesmo a mais estigmatizada. É preciso valorizar projetos que façam articulação para disseminar metodologias práticas de formação artística e cultural entre Pontos de Cultura, ações locais, agentes culturais, para potencializar e garantir vida longa a tudo o que promova sociabilidade, identidade cultural, cidadania. Parabéns à toda equipe e aos participantes dessa grande Rede de Formação e Articulação dos Pontos para Trabalho com Infância e Juventude!

Nilcemar Nogueira Secretária Municipal de Cultura


Para: Mário de Andrade Rua Lopes Chaves, 546 Barra Funda São Paulo

Paul Heritage Casa Rio Rua São João Batista, 105 Botafogo Rio de Janeiro

29 de outubro de 2018 Prezado Mário, Da varanda da Casa Rio, vejo a ornamentada entrada do cemitério São João Batista. Seu amigo Candido Portinari está enterrado ali, entre as fileiras de heróis políticos, militares e culturais do Rio. A lápide em granito de um pintor, modesta e modernista, jaz discretamente entre os lânguidos anjos do século 19, apenas a alguns passos dos floreios cheios de curvas no túmulo sempre florido de Carmem Miranda. É o seu corajoso retrato, pintado por Portinari em 1935, em tons azulados, que me vem à mente enquanto lhe escrevo: os ombros largos, a camisa aberta e a pele empoeirada de um poeta-artesão, calmo e resoluto, a encarar um futuro que o pintor devia estar certo de que você moldaria. Lembro-me de suas palavras de 1921, Mário, quando você instigava os leitores a olhar para o passado como “lição para se meditar, não para reproduzir”1. Agora o convido para refletir sobre o que veio depois de você, ao lhe apresentar criadores culturais do século 21 que estão produzindo uma ruptura talvez tão definitiva quanto aquela que você e seus companheiros modernistas se empenharam em produzir. Para isso, vasculho o passado - que era o seu presente - em busca das raízes de seu impulso para reconstruir as formas e a lógica de como, por quê, onde e para quem a arte é produzida. Espero que você possa sentir um pouco do entusiasmo que senti com as ações desses artesãos brasileiros do século 21 e com o valor que buscam encontrar naquilo que produzem. Você tinha a mesma idade que a maioria das pessoas que entrevistamos neste livro quando organizou a Semana de Arte Moderna de 1922, com um grupo de jovens artistas e ativistas culturais em São Paulo. Com isso, você não apenas inscreveu o modernismo na história cultural do Brasil, como o produziu. Eu poderia lhe contar sobre os poetas, romancistas, pintores e músicos que estenderam o chamado modernista até o século 21, mas os artistas que quero lhe apresentar são também produtores, como você. O papel do “produtor” não existia nas artes na sua época, e até hoje mal é reconhecido como uma função artística. Kate Tyndall tentou capturar o que os produtores significam para nós hoje, em um livro no qual os descreve como “alquimistas do impossível”: O produtor nos ajuda a criar novas respostas e rotas para atravessar as complexas mudanças em nosso mundo globalizado, desbloqueia muito do “valor público” da arte e trabalha com artistas para criar experiências além da nossa imaginação, que nos permitem identificar o que a arte significa em nossas vidas2. Este livro que envio a você apresenta dez jovens artesãos – produtores e artistas – que hoje criam, através da arte, novos significados para a vida das pessoas no Rio de Janeiro. Em uma série de entrevistas, refletem sobre o valor da arte e da cultura e fazem ressoar aquilo que instigou você e a sua própria rede de criadores a empreender a revolução modernista há quase um século em São Paulo. As notícias que trago não são apenas sobre artistas brasileiros extraordinários – os quais você sabia que sempre surgiriam, é claro –, mas sobre como a arte continua a ser pensada e produzida no Brasil com base no seu legado. Você insistia para que a arte respondesse às mudanças trazidas pela modernidade. Enfatizou a função pública, cívica e territorial da produção estética quando se tornou Secretário de Cultura da cidade de São Paulo, a primeira pessoa a ocupar este cargo no Brasil, e desafiou sucessivas gerações de artistas a identificar o que a arte poderia significar em suas próprias vidas e na vida de seu público. Reimaginou como a arte deveria ser feita, sempre tomada por aquilo que você sabia estar enraizado nas diversas tradições culturais do Brasil. Minha carta chega a você com histórias, provocações, questões e desafios desses dez produtores culturais, que hoje expressam um pouco dessa diversidade nas periferias urbanas do Rio de Janeiro. Você escreveu São Paulo de forma indelével na história de uma revolução que colocou a arte brasileira em ação por meio de poemas, romances, textos


jornalísticos, palestras, crônicas e correspondências irreprimíveis. Agora, escrevo para contar que mais de 70 anos depois de sua morte, esses jovens artistas cariocas estão prestando atenção ao seu chamado para que a arte seja interessada, em vez de ser apenas interessante. As entrevistas que formam a base deste livro foram conduzidas por mim e por Marcus Vinícius Faustini em agosto de 2018. Como você, Faustini escreveu uma coluna semanal em um jornal nacional por muitos anos e faz parte de um movimento que abriu uma fissura na paisagem cultural: nutriu uma geração de ativistas culturais com vozes poderosas e influentes no Rio de Janeiro nos últimos 20 anos. Dramaturgo, diretor e cineasta, Faustini chamou a atenção pública pela primeira vez com um bildungsroman, no qual ele examina as formas afetivas pelas quais ele mesmo aprendeu a negociar a cidade e a estabelecer sua própria capacidade de ação e protagonismo. Ele criou uma escola de cinema em um subúrbio afastado do principal eixo cultural do Rio de Janeiro e, depois, uma escola da palavra, que trouxe poesia, filosofia e retórica para a população de rua do centro da cidade. Há dez anos, ele criou a Agência de Redes para Juventude, estabelecendo um processo metodológico pelo qual jovens das favelas do Rio tiveram a possibilidade de se desenvolver como empreendedores criativos. Eu e Marcus temos trabalhado juntos nos últimos anos para buscar formas de traduzir e transferir essas metodologias para um trabalho com jovens de territórios vulneráveis em Londres, Manchester, Cardiff e Belfast3. Ele é um homem urbano, como você, Mário. Quando leio sua confissão de que a desvairada cidade4 de São Paulo era sua noiva, ouço ecos de Faustini, que disse no ano passado:

TUDO EM MIM SE REÚNE NO RIO DE JANEIRO. É POR MEIO DA CIDADE QUE DIGO QUEM SOU. Atuo politicamente aqui. Se antes eu precisava lutar para estar presente, agora consigo me relacionar com sua plenitude. Sou parte desta cidade, ao passo que antes brigava com ela. Quem sou eu? Um carioca que inventou sua vida com base nesta cidade, e mesmo hoje tenho uma relação muito mais forte com ela do que com a arte. Para mim, a arte é um instrumento de expressão da cidade. Algumas pessoas escolhem viver por meio da arte – e se relacionam com a vida através de sua transversalidade. Eu não. Reúno tudo na própria cidade, não na arte. Nasci pobre, no ponto mais distante da periferia do Rio. Precisei usar toda a minha força para forjar algum relacionamento a cidade. Agora estou integrado a ela. É um privilégio pelo qual lutei5. Os dez jovens apresentados neste livro revelam suas próprias relações complexas e intrigantes com o Rio de Janeiro, enquanto artistas e produtores. De Manguinhos à Maré, do Chapéu Mangueira à Cidade de Deus, eles mostram como suas raízes culturais desbloqueiam rotas que teriam permanecido inexplicadas, inexploradas e intransponíveis para eles. Na miríade de formas em que respondem à pergunta sobre o valor da cultura, demonstram como a arte deu a eles a cidade. Bruno descreve em sua poesia mais uma forma de reorganização do que de invenção. Para ele, o que fez não foi escrever poemas, mas reestruturar o que via na cidade como poesia: “uma parte daqui, outra de lá… minha cabeça é um turbilhão… imagina pequenas imagens se tornando um tornado e vira um turbilhão gigante”. Ao descrever seus primeiros anos de parkour, ele oferece imagens que, para mim, reluzem por todas as entrevistas:

EU SÓ QUERIA UM LUGAR PARA FAZER PARKOUR. Você fazendo mais movimentos, você se acostuma e procura novos lugares... Atravessamos pontes para ver a cidade de noite. Ver os carros indo e voltando por cima do viaduto. Ver as cores vermelhas e brancas... Parkour é esporte e cultura. Você aprende. Quando criança, você quer escalar. Se você deixar uma criança dentro de um berço, ela vai querer escalar o berço para conhecer o ambiente. A gente resgata isto. Quantas vezes eu voltei para casa olhando para cima... Quando você olha para cima, é um local totalmente diferente. Quem mora em morro, vive enclausurado, você vê visões... No parkour a gente tem essa visão, mas com o objetivo de subir. Bruno, Giselle, Fernando, Camila, Dudu, Ingrid, Lucas, Thaís, Christian e Jéssica o levarão por um passeio pelo Rio de Janeiro, que mostra como cada um deles encontrou, de maneiras diversas, um valor na cultura que os permite escalar a cidade. Questioná-la. Vivenciá-la. Estar livre, assim como conectado a ela. Valorizam a cultura como meio de preservar seus territórios, suas identidades e suas vidas em uma cidade que às vezes parece determinada a destruí-los. Foi a incompletude das próprias trajetórias deles que tornou as entrevistas ainda mais instigantes para mim. A melhor forma de pensar as jornadas pelas quais esses jovens cariocas me conduziram é como aquelas que acontecem ao meu redor e dentro de mim mesmo.


É desses territórios urbanos periféricos, Mário, que vêm muitas das expressões da arte contemporânea brasileira que inspiraram meu próprio engajamento com o Brasil nos últimos 27 anos. Fui atraído pelas complexas intervenções sociais que as atuais práticas culturais brasileiras trouxeram à visão que você descreveu com tanta potência ao clamar por um ativismo estético, em uma palestra no Rio de Janeiro para comemorar o 20o aniversário da Semana de Arte Moderna, em 19426. Na ausência de assistência médica, educação, estruturas familiares e segurança pública adequadas, os artistas e as organizações artísticas inventaram modos de preencher o vácuo com uma intensidade que contrasta nitidamente com minhas experiências anteriores em iniciativas britânicas voltadas para a arte. As questões sobre o que a arte pode fazer passaram do implícito para o explícito no Reino Unido, e o gerenciamento de crises sociais é cada vez mais visto como o propósito que valida a arte. Os jovens artistas e produtores retratados neste livro demonstram como minha própria noção de valor cultural foi moldada pelas minhas viagens no Brasil pegando emprestada a frase que você usou para se descrever nos anos 1920, durante suas incursões pela cultura popular do Nordeste, continuo sendo um “turista aprendiz”. Há muito para aprender. Minha primeira visita ao Brasil, em 1991, foi para dar palestras sobre as comédias de Shakespeare, como parte de uma turnê de três semanas por quatro cidades da montagem de As you like it7 da companhia Cheek by Jowl, com um elenco todo masculino. Eles encenavam; eu dava palestras. No Rio de Janeiro, nos apresentamos em um teatro que levava o nome de seu amigo e companheiro modernista, o compositor Heitor Villa-Lobos. Nosso palco em Brasília foi o Teatro Nacional, projetado pelo arquiteto modernista Oscar Niemeyer, que fazia parte do seu círculo de colegas de trabalho nos anos 1930. Mas foi em uma agradável noite tropical, no Teatro do Parque em Recife, que o valor da cultura começou a ser recalibrado para mim no Brasil, enquanto eu assistia à principal companhia de teatro clássico do Reino Unido tomar aquele palco. Quatorze atores britânicos entrando no caldeirão da cultura brasileira. Inspirado pela tradição ornamental da art-nouveau europeia, o Teatro do Parque foi construído em 1915 por um comerciante português ávido por apresentar operetas, mas qualquer elegância que possa ter havido ali, já havia desvanecido há muito tempo. As paredes cobertas por painéis, com o excesso típico da belle époque, se abriam para o jardim onde o teatro está localizado, atraindo meu olhar para um antigo caramanchão, no qual galhos se espalhavam e pareciam estar a postos para subjugar as vãs tentativas do atrevido invasor para domar a selvageria dos trópicos. Na primeira cena de As you like it quando Adrian Lester se revelou como o ator que representaria Rosalinda naquela noite de agosto de 1991, atores negros em papéis clássicos ainda eram uma raridade no teatro brasileiro. Mas foi a presença dele no palco aquela noite que tornou Shakespeare ativo mais uma vez. Ele trouxe nuances para os significados de um clássico europeu encenado em uma cidade do Nordeste, onde a maioria do público é negra ou parda, mas continua ausente da representação nacional. De pé no palco, ele olhou para a plateia, que murmurava sua surpresa em tom bem audível – não por ver um homem interpretando uma mulher, mas um ator negro recitando Shakespeare. Público e atores se viram em um estranho ato de (não) reconhecimento mútuo, dentro de um teatro que desafia a indulgência europeia, envolto por vegetação tropical, sob uma imensa lua, bem distante da floresta de Arden shakespeariana. Meu aprendizado sobre a arte e a cultura brasileira havia começado. Enquanto viajava pelo Brasil aquela primeira vez em 1991, perguntei aos meus anfitriões do British Council se poderia me ausentar dos compromissos com Shakespeare para visitar uma prisão em cada uma das cidade em que a Cheek by Jowl iria se apresentar. Na época, eu havia acabado de criar o Centro de Teatro nas Prisões8 na Universidade de Manchester, então o pedido não foi tão inusitado. Ao visitar prisões do Rio de Janeiro, Recife, Brasília e São Paulo, queria ver que formas de arte e cultura sobreviviam entre os brasileiros mais pobres privados de sua liberdade e se essas formas teriam se tornado parte dos meios de sobrevivência dos detentos. Naquelas primeiras visitas, em apenas quatro cidades, comecei a entender as lições que eu poderia aprender no Brasil. A prisão que fui convidado a visitar em São Paulo foi a Casa de Detenção do Carandiru, a maior prisão da América Latina, na época ocupada por 9.000 detentos. Um ano depois da minha visita, ela foi o cenário do massacre de 111 presos, o que foi tema não só de um premiado filme de Hector Babenco de 20039, como de uma peça que produzi para a BBC Radio 310. Mas em 1991 eu estava lá pela primeira vez, me dirigindo ao Pavilhão 6 para ser um jurado muito inadequado em uma competição de sambas. A estranha incongruência da minha presença foi ofuscada pela justaposição ainda mais radical entre a alegre maestria dos sambas e a degradação das condições físicas. Naquela tarde de agosto, além de testemunhar os extremos da experiência humana, também fui apresentado a algo que nutriu os próximos quatorze anos do trabalho que eu viria a realizar em prisões brasileiras. Embora atividades artísticas sejam reconhecidas e, portanto, representem de alguma forma um “valor” na vida prisional no Reino Unido, nada que eu tenha visto no meu país poderia se


comparar ao que vi naquela primeira vez que entrei no Carandiru. A competição de sambas foi organizada pelos detentos e se desenrolava dentro de seu próprio universo cultural, que não foi criado ou estruturado pelas autoridades prisionais. Os homens escreveram, cantaram, tocaram e dançaram seus sambas, e, embora o evento tenha sido teoricamente apoiado e possibilitado pelos guardas, aquilo foi uma iniciativa, ou talvez um impulso, que partiu dos próprios detentos. Minha tradutora na ocasião fez o melhor para transmitir o sentido das letras. Misturavam os desafios do amor e da vida cotidiana, e na melhor tradição do samba, traziam momentos anárquicos e muitas vezes intraduzíveis, que ultrapassavam os limites do comportamento social e sexual. O evento foi participativo e celebratório, partindo das raízes culturais daqueles homens, mas revolucionário em sua alegria e propósito comum. Por alguns instantes, subverteu o sentido de ordem e controle sobre o qual uma prisão supostamente está alicerçada. Colocou em questão todo o trabalho artístico que eu havia desenvolvido em prisões até aquele momento e muito do que eu havia testemunhado no sistema penal britânico. Com sua ênfase em desafiar comportamentos ofensivos, o trabalho artístico que costuma ser realizado em prisões do Reino Unido é sempre introduzido e conduzido por agentes externos11, para recalibrar os valores dos detentos considerados contrários aos valores da sociedade, os quais supostamente transgrediram. Seria difícil imaginar uma prisão britânica permitindo ou tendo a estrutura de associação que possibilitaria a competição de sambas que vi em São Paulo. Voltei ao mesmo complexo prisional de São Paulo quase um ano depois, em 1992, para ver detentas encenando em massa um casamento caipira, com metade delas vestidas como homens caubóis, de bigode, calça jeans costuradas com retalhos e tudo mais. Eu realmente estava bem longe de minha própria casa. Você, Mário, vai saber imediatamente que era junho e que, se havia um casamento de mentira, eu tinha que estar assistindo a uma quadrilha. A sua descrição despojada dessa festa como uma versão a céu aberto da quadrille francesa, dançada para celebrar os dias de São João, Santo Antônio e São Pedro, não faz jus ao que a quadrilha se tornou no Brasil. De todas as formas de dança e rituais tradicionais que você registrou em sua viagem pelo Nordeste, a quadrilha é a que mais se disseminou, até se tornar um passatempo nacional. Hoje, no Norte e no Nordeste, rivaliza com o Carnaval em importância como festividade anual que marca os meses de junho e julho. A Liga de Quadrilhas de Rio Branco é o maior circuito na região amazonense, reunindo milhares de quadrilheiros, que passam oito meses se preparando para a competição anual em junho, disputada com a mesma garra das escolas de samba no Carnaval do Rio de Janeiro. Em Pernambuco, na Paraíba e no Ceará – os estados que você percorreu em 1929 – as competições de quadrilha agora exigem perucas esculturais e figurinos com pirotecnias cênicas que poderiam figurar nos palcos da Broadway. Mas no centro da frenética formação de casais, onde quer que se estejam dançando, ainda estão presentes os enredos cômicos de amor não correspondido e romances traídos que seu amigo Carlos Drummond de Andrade capturou das primeiras linhas de seu poema sobre uma quadrilha:

JOÃO AMAVA TERESA QUE AMAVA RAIMUNDO QUE AMAVA MARIA QUE AMAVA JOAQUIM QUE AMAVA LILI QUE NÃO AMAVA NINGUÉM12. Na penitenciária feminina do Complexo do Carandiru, era Joana que amava Teresa que amava Maria que amava Joaquina que amava Lili... “Balancê! Dance conforme a música!” A apresentadora grita os passos e fileiras bamboleantes de mulheres avançam e voltam, avançam e voltam. Noivos (mulheres) agarram suas noivas (também mulheres) para girar, costurar, mergulhar e emergir de túneis formados por mãos desafiadoras unidas no alto. “Trocar de dama!” Formações provocativas e promíscuas de mulheres dançavam embaixo de bandeirinhas feitas à mão, que atravessavam o pátio encharcado pela chuva, na frente de dignitários, em uma plataforma elevada. Como a Rosalinda em As you like it, realizaram casamentos entre pessoas do mesmo sexo, sob o véu da representação. Seja na cultura popular ou em Shakespeare, o sentido e o valor estão no próprio ato de performance. Esses dez artistas e produtores reunidos aqui compartilham conosco o prazer, o choque, a emoção da forma estética, e até mesmo a urgência dos conteúdos. Mas além disto, suas linguagens artísticas que vêm das periferias da matriz cultural do Rio de Janeiro, revelam o próprio valor da cultura. Este livro chega a você no ano em que a negligência do governo e a falta de investimentos reduziu o patrimônio cultural brasileiro a cinzas no incêndio que tomou o Museu Nacional. Enquanto isso, em áreas muitas vezes vistas como terra de ninguém, a serem temidas e não celebradas, esses jovens mostram como a cultura resiste e floresce. Onde o governo federal, estadual e municipal falhou, são essas pessoas que investem para valorizar a cultura no Rio de Janeiro. Com suas ideias, seu compromisso e suas ações, esses


jovens artistas e produtores capitalizam quem são. Seus investimentos enriquecem sua comunidade, pois aquilo que plantam, nutrem e colhem se torna parte de uma nova troca cultural. O valor não é inerente a um objeto ou artefato cultural em particular, mas ao processo pelo qual se troca. Às vezes, é por dinheiro, como Bruno aprendeu ao receber verbas por meio de um edital, ou Camila, ao ser empregada como artista, ou Jéssica, ao descobrir que a cultura é um negócio. Mas para Christian, o valor da cultura é ter proporcionado um lugar protegido como refúgio em sua comunidade, enquanto para Dudu e outros, tem sido a moeda de troca para a mobilidade que os permite circular pela cidade. Fernando encontrou seu próprio valor como brasileiro por meio de danças e ritmos urbanos, enquanto Giselle tomou emprestados atos culturais para romper paradigmas, ao ganhar como bônus melhor saúde e bem-estar. Para Thaís, sua arte é seu corpo, é seu protesto. Ingrid viu um quadro de Modigliani sendo vendido por 15 milhões de dólares na Sotheby’s, em Nova York13, mas sabe que o próprio artista morreu na penúria em Paris, justo quando você, Mário, estava começando a aceitar seu desafio modernista em São Paulo. Para Ingrid, o valor da arte está em sua trajetória, desde ver um quadro de Modigliani reproduzido em um livro didático na Cidade de Deus até estar diante dele em Roma uma década depois, como ela explica: Quando chegou ali deixou de ser arte, deixou de ser simplesmente uma questão, “ah, estou vindo valorizar uma obra artística”. Eu acho que se transformou em uma coisa muito mais pessoal; eu acho que passou a ser uma coisa maior, possibilitou muito pensamento, muita reflexão, muito “o que eu vou fazer agora”? Enquanto isso, em Sepetiba, Lucas trocou os riscos do skate pelas escolhas arriscadas como artista nas fronteiras criativas entre a favela, a roça e a praia. Assim como todos que entrevistamos, ele vê a criação artística como forma de se relacionar com os outros, com um território, com a cidade. A arte é uma modalidade de troca: uma forma de estar no mundo. Dá a ele o valor de quem é e de quem pode se tornar. Em 1929, Mário, quando você voltou de sua segunda viagem mais longa ao Nordeste, escreveu sobre como a sua imersão na cultura popular havia colocado em questão não só o que é ser brasileiro, mas o que é ser um artista:

EU SOU TREZENTOS, SOU TREZENTOS-E-CINQUENTA, MAS UM DIA AFINAL EU TOPAREI COMIGO14

90 anos depois, meus encontros com esses jovens artistas e produtores dos territórios periféricos do Rio de Janeiro expandiram meu entendimento sobre o que a arte pode e deve significar em nossas vidas. Como você, sou um antiviajante: sempre incompleto. As conversas e os diálogos deste livro são provocações, não respostas. A cultura não tem uma padrão-ouro para garantir seu valor, muda e se transforma nas múltiplas formas em que a negociamos no dia a dia. Mas minhas viagens pelo Brasil nas últimas duas décadas me levaram a uma trajetória diferente daquela que eu teria percorrido no meu próprio país. Sucessivos governos do Reino Unido buscaram promover o crescimento econômico por meio de uma aproximação estratégica com as indústrias culturais e criativas, que tem trazido investimentos e inovações tecnológicas. Os resultados dessa estratégia são aclamados por mostrar o impacto positivo da cultura: de acordo com o governo, entre 1997 e 2014, o valor acrescentado bruto (VAB) das indústrias criativas aumentou 6% a cada ano, em comparação com 4,3% da economia em geral. Em 2015, foi responsável por 1 em cada 17 (5,5%) empregos do Reino Unido. Mas, no meio de todas essas notícias positivas, onde podemos encontrar os trezentos ou trezentos-e-cinquenta que a arte poderia possibilitar que os jovens se tornem? Como podemos calcular os múltiplos e complexos valores da cultura celebrados pelos artistas e produtores neste livro? Enquanto os dados econômicos mostram que investimentos na economia criativa geraram crescimento do PIB, empregos, salários e receita de exportação, o impacto da arte e das atividades culturais em outros índices de desenvolvimento socioeconômico, como bemestar, inclusão social e diversidade, não só não foram evidenciados, como perderam seu valor. Desde a crise econômica de 2008, o Reino Unido tem lutado para reduzir a desigualdade em termos gerais, mas isso pode ser visto de forma ainda mais aguda nas indústrias culturais do que em qualquer outro setor15. Em 2015, trabalhadores negros e de minorias étnicas ocupavam apenas 11,4% dos empregos nas indústrias culturais (o pior nível entre todos os setores industriais), enquanto 91,8% dos empregos neste setor eram ocupados por pessoas de origem socialmente privilegiada. O foco no crescimento como o único e mais significativo resultado econômico tem impedido que se veja a igualdade e a diversidade como valores centrais do setor cultural no Reino Unido.


Por meio das entrevistas neste livro, os dez jovens me revelam os benefícios gerados pela atividade cultural em comunidades marginais em relação aos recursos que são acessíveis em áreas urbanas centrais. Demonstram muito claramente que os modelos econômicos não são adequados para determinar o valor da cultura. Há uma necessidade urgente de se ouvir artistas e organizações artísticas que operam em territórios que estão além do alcance tradicional das indústrias criativas, para produzir mais dados e informações sobre o valor da cultura e sobre a diferença que faz a produção e o consumo da arte nas comunidades em que trabalham. As experiências desses jovens são parte das evidências que precisamos acumular de modo a aprimorar a capacidade das organizações de territórios periféricos para identificar, calibrar e reivindicar os “dividendos da arte” como um recurso quantificável para o desenvolvimento de suas próprias comunidades. Na sua entrevista, Giselle reconheceu o “dividendo” que recebeu ao participar de um Ponto de Cultura em Sepetiba: a melhoria de sua saúde mental. Sobre a criação artística, ela diz: Me ajuda a lidar com meus sentimentos, me ajuda a pôr para fora quando estou com alguma tristeza, mágoa, e quando estou feliz, é uma forma de canalizar o que estou sentindo e não reter isso e me prejudicar de alguma forma, ou descontar em outras pessoas. Me ajuda a me equilibrar na minha vida emocional e isso afeta minha vida social. Um tom de confiança ressoava nas palavras de cada um desses jovens, enquanto contavam a mim e a Faustini sobre o valor da cultura que estão produzindo em suas vidas. Eles podem apontar os benefícios econômicos diretos trazidos pela arte, como quando Fernando fala do impacto de se tornar artista entre os amigos que se juntaram a ele para formar um grupo de música e dança: Eu vejo o Kipula quando visito ele. Vejo a casa dele, que construiu com dinheiro de show dos Descolados. Cada tijolo! Eu lembro que o filho dele tinha acabado de nascer e ele namorava em casa com uma menina e era na casa dela. Então a primeira coisa que o pai da menina [falou] foi: “E agora? Você engravidou minha filha dentro da minha casa. Como é que vai ser?” Eu lembro que ele ficava muito preocupado, e quando a gente recebia os cachês ele contava e falava sozinho, “isso aqui eu vou comprar tanto de tijolo, tanto de argamassa...”. Kipula ficou um ano sem comprar roupa, sem sair, era só na casa dele. Hoje em dia você chega lá, você vê que a casa dele tem laje, ele já está construindo em cima...ele tem uma casa própria!

MAS FERNANDO TAMBÉM PODE NOS MOSTRAR COMO A CULTURA TEM SIDO O MEIO PELO QUAL ELE FOI LEVADO A OUTRO LUGAR: “DE SER ILUMINADO, DE ILUMINAR”. Talvez o mais marcante em todas as conversas tenha sido como cada um dos entrevistados interconecta a arte que produz com aquilo que chamam de “cultura da favela”. Como explica Ingrid, em uma história emocionalmente carregada sobre como os traficantes a deixam em paz porque o tio era conhecido deles, “as relações dentro da favela são culturais”. Como ela continua a explorar, a cultura da favela é melhor entendida como a estrutura pela qual ela aprendeu a mediar suas interações com o resto da cidade. É muita barreira que você enfrenta. É muita coisa para chegar em tal lugar, seja no transporte, seja na condição, então você olha com muitos outros olhares tudo que acontece... Acho que a questão da cultura da favela, do que representa, pensando nessa questão de raiz e relações, a gente consegue se colocar de forma mais humana diante de muitas coisas na cidade. Você aprende mais a perceber que existem lutas, você não sabe qual é a luta da pessoa, provavelmente ela está ali numa situação em que estão acontecendo coisas e a gente se doa mais, porque a gente vê mais coisas negativas acontecendo, precisamos ajudar um ao outro... é uma mediação. Gosto de pensar que você, Mário, reconheceria e apreciaria a descrição da “cultura da favela” por cada um desses jovens como a forma em que se vive a vida, o jeito como as pessoas ganham dinheiro, comem, dormem e se expressam16. Eles buscam valorizar e acionar a arte como um ato de negociação produzido a partir da vida material em um território específico, que produz ideias, cultura, socialização, civilização e cidadania. Embora a sua revolução cultural tenha sido conduzida por um pequeno grupo da elite urbana, você lançou o primeiro chamado da arte brasileira aos “desconhecidos”, o qual ecoa hoje em projetos como a Agência de Redes para Juventude. Você buscou um mundo


para além daquele no qual a arte se autoinscreve criticamente como arte, ultrapassando a noção de que o significado é apenas aquilo que está escrito ou pintado em uma obra de arte individual. Você procurou a significação da arte na vida de quem a cria, tentando entender onde território começa a dialogar com estética, identidade, com linguagem artística. Para encontrar o desconhecido, foi aos confins de seu país e de suas culturas, assim como o Brasil foi procurado nos confins do mundo pelos exploradores do século 16. Como eu tenho percorrido os confins do Brasil desde que cheguei aqui pela primeira vez. Um conselho que você deu em uma palestra, quando se tornou o primeiro Secretário Municipal de Cultura de São Paulo, parece ter atravessado 80 anos para chegar aos jovens que Faustini reuniu para este livro. São o testemunho vivo da visão que você apresentou a jovens artistas em 1935: A arte não é só criar obras de arte. A arte não está confinada aos raros altares de seres criativos brilhantes. Não era assim no Egito, nem na Idade Média, na Índia ou no mundo Islâmico. Talvez não seja assim, para nossa grande felicidade, na Nova Era que se aproxima. A arte é muito mais ampla, humana e generosa do que a idolatria pelo gênio incondicional. É principalmente algo que temos em comum. Talvez essa Nova Era nasça a partir das experiências coletivas de jovens das comunidades periféricas, que hoje constituem um campo que oferece a esperança – se não a promessa – de se produzir uma nova agenda nacional. Apesar da crescente resistência, aparecem diariamente na mídia, são intermediários junto a órgãos governamentais, dão palestras em universidades, são contratados como consultores para empresas e assessoram organizações sociais. Enquanto nos 1990 esse espaço era ocupado por ONGs que representavam esses jovens, na última década eles despontaram como agentes culturais por conta própria, negociando rotas individuais, menos prescritas e mais fluídas do que aquelas de seus antecessores da sociedade civil. Eles provavelmente representam a parte mais vibrante e inovadora da cultura brasileira contemporânea. Estas entrevistas mostram sua independência para formar e dissolver grupos, criar projetos, espaços e coletivos, mas eles também compartilham um DNA artístico e cultural na produção material e simbólica de uma cultura que valoriza a expansão da cidadania participativa e a redução da desigualdade. Consideram que eles mesmos e os outros jovens de suas comunidades são potentes, não dependentes, e só precisam de meios, metodologias e tecnologias para transformar ideias em projetos e, assim, promover mudanças em seus territórios. Marcus Faustini me disse recentemente que o maior problema das periferias é o excesso de acadêmicos como eu. Analisamos muito. Diferente de nós, Faustini e sua geração têm um objetivo muito simples: mudar a relação entre pessoas pobres e a arte. Ao mudar os meios e as formas como arte é produzida, ele mesmo faz parte de uma transformação radical nos valores culturais do Rio. O que ele faz não é uma revolução. Está preocupado com a cidade, não com o poder, e faz parte de um movimento que tem mostrado uma forma de usar a cultura dos jovens das periferias como meio de investir na cidade. As pessoas pobres entraram no imaginário carioca. No momento em que o Brasil parece estar indo em uma direção diferente daquela traçada nas últimas duas décadas, mais do que nunca, o Rio precisa inventar novos imaginários. Outros Rios precisam ser criados, e esses jovens artesãos culturais fazem parte desse processo pelo qual a cidade passa, expandindo nossa noção de quem está fazendo cultura e por quê. Perdoe o tamanho desta carta, mas o seu próprio gigantismo epistolar parece ser contagioso, Mário. Saiba que você será sempre bemvindo para uma visita ao Chapéu Mangueira, na Cidade de Deus, no Fumacê, em Manguinhos, na Rocinha, em Sepetiba…. Um abraço, Paul. 1

Prefácio Interessantíssimo, ibid: 74, 2Introdução de Kate Tyndale no livro The Producers: Alchemists of the Impossible, p. 5.3http://www.peoplespalaceprojects.org.uk/en/ the-agency-with-bac-and-contact/ 4Pauliceia Desvairada., 5Entrevistas de PH com MVF: Setembro de 2017 6Referência à palestra de 1942 no Rio de Janeiro. 7Como Gostais William Shakespeare. 8Theatre in Prisons and Probation (TiPP) Centre: https://www.tipp.org.uk/ 9Carandiru, dir. Hector Babenco, 2003 [ Sony Pictures Classics / Columbia Tristar]. O premiado filme foi mais assistido do que Matrix Reloaded, com o qual competiu nas bilheterias aquele ano. 10Carandiru de Jeff Young. Para mais informações, ver: www.peoplespalace.org/projects Staging Human Rights V. 11Artistas visitantes ou membros da equipe pedagógica da prisão. 12“Quadrilha”, pulicado pela primeira vez em Alguma Poesia, Carlos Drumond de Andrade, 1930. 13https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2018/05/quadro-de-modigliani-e-leiloadopor-valor-recorde.html . 14“Eu sou trezentos” Poemas Completas vol.I, p. 295.. 15Comissão sobre Justiça Econômica do Instituto para Investigação de Políticas Públicas (IPPR na sigla em inglês), relatório “Prosperity and Justice, A plan for the New Economy”, Polity, 2008. 16“O Poeta come amendoim”, Poemas Completos Vol I, pp. 207-209.


Thais Antunes tem 18 anos, é trancista e moradora da Rocinha, Zona Sul do Rio. Trabalha na promoção da saúde e foi uma das lideranças jovens em seu território durante o Festival #TodoJovemÉRio, promovido pela Agência de Redes para Juventude (2018). Para Thais, o valor da cultura é a descoberta da arte como confidente e encorajadora de trajetórias.

Redes Sociais

Instagram: @tempestade_6543 Facebook: /thais.antunes.5836


ABUSO DENTRO DA ROCINHA

O U TR A S EXPER IÊNCI AS

INÍCIODAESCRITA

A poesia foi a minha confidente, ela me deu coragem para superar e enfrentar o abuso que eu sofri do meu padrasto. Eu comecei a escrever poesias aos 11 anos e nunca mostrei minhas poesias para ninguém. As poesias que fiz depois não falavam sobre o abuso. Na escola eu sofria bullying e no mesmo período aconteceu o abuso . Escrever poesias me dava prazer. A sensação que eu tive quando escrevi a minha primeira poesia foi de alívio. A poesia me fez maior e me fez ter contato com as pessoas. A poesia me acalma.

FORMAÇÃO Nessa mesma época de descobertas da escrita e de mim mesma, eu comecei a ficar bastante atarefada porque minha mãe queria que eu tivesse um dia ocupado e com muitas atividades. Foi quando entrei na Escola de Música da Rocinha e num coral de funk.

Na escola de música, pra além de aprender a tocar flauta e a cantar, eu comecei a entender o meu território e mais precisamente as suas localidades. Entender que eu estava inserida na sociedade como uma menina que morava numa favela. E a partir disso entrei em um outro projeto que era sobre pesquisa para entender o que os jovens da Rocinha queriam. Dentro desse projeto me indicaram em 2015 a Agência de Redes para Juventude.

SOBRE O QUE ESCREVE / SEXUALIDADE Comecei a escrever para falar sobre o abuso que eu sofri, já que eu não conseguia falar com ninguém. Escrevo sobre os meus conflitos internos, sobre a minha sexualidade e sobre o conflito da minha religião com a minha sexualidade. Minha avó não sabe da minha sexualidade, somente a minha mãe. A Rocinha também entra nas minhas poesias.


POEMAS MUDANDO JUNTO

P O E S I A N Ã O PRECISA RIMAR

Eu estou mudando muito nesses últimos anos, e meus poemas também. A estrutura está muito melhor e procuro ter disciplina na criação. Poesia para mim tem que ter sentimento, expressão. Tem a ver com as outras pessoas, tem a ver com amor, com o ódio. Não é apenas na construção da estrutura de rima, mas sim como eu sinto isso. Aprendi que a poesia não precisa rimar. Na poesia eu consigo passar o que eu estou sentindo.

VALOR DA POESIA O valor que a poesia tem pra mim foi o cuidado que ela teve comigo esses anos todos, de eu confiar nela; foi uma parceira.

I N S TA G R A M

Adoro tirar selfies e postar, penso em tudo, roupa, cabelo e a frase que vou postar junto. Quando posto eu crio! (risos). Gosto muito do perfil “Onde jazz meu coração” também, me inspiro com as poesias postadas lá.

SER MORADORA

DA ROCINHA

Ser moradora da Rocinha aos 18 anos é uma inconstância. A Rocinha mudou muito de uns tempos pra cá. Eu me sentia segura, a violência aumentou muito e hoje não me sinto mais. A minha rua era o meu lugar, jogávamos queimado, a rua era nossa. Em contraponto, era uma rua que proliferava tuberculose. Depois das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento - Governo Federal), quando abriram a rua, arejou o lugar, tudo mudou, as pessoas mudaram.

ELITE DA ROCINHA

Existe uma outra elite na Rocinha, que não é igual a de São Conrado, que está ali à margem e que é esnobe. Tem uma cultura de ser rico ali dentro.


ASSÉDIO Já fui assediada algumas vezes na Rocinha, no caminho para a casa da minha mãe, porque para chegar na casa dela preciso passar por duas bocas de fumo e já fui assediada por traficantes. O mais difícil é que os assédios me lembram os abusos que sofri do meu padrasto. Tenho uma relação complicada com homens por causa disso.

Quando eu contei dos abusos à minha mãe, ela não acreditou em mim e não falava sobre o assunto. Eu perdoei a minha mãe, era uma situação muito difícil, minha mãe e eu dependíamos dele. Quando eu contei pra ela, minha mãe jogou grande parte das minha roupas fora, dizendo que eram curtas. A situação complicou e fui morar com a minha avó, só depois eles se separaram. Só em 2016, minha mãe tocou no assunto e começamos a falar sobre isso. Foi quando senti que ela realmente passou a acreditar em mim.

C O R P O COMO FORMA D E

E X PR E S S ÃO

Minha mãe sempre trazia o valor da negritude e eu negava. Quando eu entrei na Agência de Redes para Juventude e teve o encontrão (onde jovens de várias comunidades se encontravam para um dia de formação), conheci mulheres pretas lindas e inteligentes. Lembro da Sinara Rúbia com suas tranças e achei lindo, passei a me entender enquanto mulher preta ali. Queria ser igual aquelas mulheres negras que estavam ali falando tão bem. Até aquele momento eu estava acostumada a apenas ver pessoas brancas naquele lugar de fala. Hoje, me entendendo como uma mulher negra, eu uso meu corpo como protesto, meu corpo é político .

VALO R CULTURA L

DA ROCINHA A Rocinha tem o poder de juntar as pessoas, de lá e de outros lugares. Esse é um valor da cultura da Rocinha.


RELAÇÃO COM

A G Ê N C I A

A M Ã E E A A V Ó DE REDES PARA JUVENTUDE Eu conto tudo para a minha mãe. Eu mostrei uma poesia que fiz para ela uma vez e ela chorou. Minha mãe e minha avó me admiram, são minhas fãs. Adoram tudo o que eu faço. Às vezes fico ouvindo Jovelina Pérola Negra com a minha avó aos domingos. Jovelina, Lupita, Sinara, minha mãe e minha avó são algumas das mulheres pretas em quem eu me espelho.

SER TRANCISTA

Trancista pra quem não sabe é uma pessoa que trança cabelos! Adoro deixar as mulheres mais lindas ainda. Trabalho na área de promoção à saúde também, atuando nas clínicas da família do meu território.

A Agência, como nós chamamos carinhosamente, é um projeto que basicamente potencializa jovens de favelas e periferias para que eles criem seus projetos e potencializem seus territórios.

O que mais me chamou a atenção e o que principalmente abriu um novo horizonte pra mim, foi entender que eu poderia ajudar o meu território. E perceber que aquilo era possível, partindo de uma atitude minha somada a de outras pessoas do meu território, fez com que eu me sentisse suficiente e importante para toda mudança que eu queria ver acontecer naquele lugar, que era tão meu e eu não tinha nenhuma ideia de pertencimento. Para além disso, me percebi como uma mulher negra, aquela era a minha primeira entrevista em que uma mulher negra me entrevistava. Uma mulher negra, de tranças, pela primeira vez eu me vi representada tanto em um lugar de poder (entrevistadora) quanto em relação a beleza. Comecei a pensar em todas as mulheres negras como minha mãe, minha vó e a Jovelina Pérola Negra que ela ouvia aos finais de semana. Comecei a me ver em vários lugares, foi como se tivessem acendido uma luz que iluminou todas as mulheres negras que eu não percebi ao longo da minha vida até ali, isso foi quando eu tinha 15 anos. Entre elas uma que mais me chamou a atenção, a Lupita Nyongo.


LUPITA

NYONG’O

Naquele ano descobri que ela tinha sido eleita a mulher mais linda do mundo por uma das revistas mais influentes do mundo. E caramba, foi exatamente no ano em que eu descobri ou me redescobri como uma mulher negra. Além de bonita, ela atuava super bem e acima de tudo era uma mulher muito inteligente, o que era algo além do que eu tinha ouvido falar de mulheres negras e tive a confirmação com a Lupita. Comecei a ser mais segura.


T O D O

É

J O V E M

R I O

Em 2017 voltei a Agência de Redes para Juventude para um novo ciclo. No Todo Jovem é Rio, projeto criado pela Agência a partir da percepção do desmonte dos espaços para falar de política dentro de territórios populares, a ideia principal era realizar formações e tornar 13 jovens lideranças nas periferias e favelas do Rio. Eu fui uma dessas lideranças e mobilizei 160 jovens dentro da Rocinha. Lembro de ter tido medo no início e depois ir realmente descobrindo o meu território com um novo olhar. Comecei a ver a Rocinha como privilegiada quando cruzei a Avenida Brasil pela primeira vez, em 2017.

E exatamente por causa desse projeto, que ligava desde a Rocinha até o Cesarão em Santa Cruz, eu pude entender que em várias coisas, como por exemplo saneamento básico e iluminação, os territórios se encontravam, mas quando falávamos de informação, acesso e oportunidade, a conversa se desencontrava em relação às vivências dos jovens. Entendi principalmente que a mídia não se importa tanto com a Rocinha e seus moradores, mas principalmente por a Rocinha estar situada entre São Conrado e Gávea. Sim, me vi privilegiada, mesmo tendo descoberto há pouco tempo ser uma mulher, favelada e preta. Comecei a ver as pessoas do meu território de uma forma diferente. Me descobri uma líder em cada mediação do Todo Jovem é Rio. Mediar conversas nas casas, com jovens, em meio ao tiroteio, ameaças, risadas e lágrimas me fez amadurecer ainda mais como mulher.

FUTURO

Eu quero estar no máximo de projetos que potencializem o meu território, quero continuar tendo algum sentido pras pessoas que eu amo. O que deve ser valor da cultura pra uma menina de 18 anos? Tem a ver com todo o cuidado que a cultura teve comigo, desde o pior momento da minha vida, me dando a poesia como minha confidente. Tem a ver com me fazer uma mulher segura e confiante. Tem a ver com cuidado, tá aí, cuidado é o meu valor de cultura.


Fernando Espanhol, 26 anos, é cantor, ator e produtor cultural. Cria da favela do Fumacê em Realengo, integrou durante 6 anos o grupo de funk Descolados, surgido a partir da metodologia da Agência de Redes para Juventude (2012). Atualmente faz carreira solo como MC. É sócio da Block Produtora Cultural e um dos idealizadores do Hip Funk Festival. Para Fernando, o valor da cultura são os encontros e experiências que impulsionam o indivíduo na cidade.

Redes Sociais

Instagram: @fernandoespanhol Facebook: /espanholdescolado


DE SER NARRAR A VIDA VALOR BRASILEIRO JOGAR FUTEBOL Eu sempre narrei muito a minha vida. Eu acredito que eu sou uma pessoa que vivi bastante. Minha vida sempre foi assim, agitada, sempre mudei muito, então sempre tive muita história pra contar. Até com o lance da minha mãe ter sido dançarina de pole dance, eu morei em muitos lugares da Espanha. Ela era contratada para trabalhar em outro Estado, a gente ia morar em outro Estado. Pra me apresentar pras pessoas, eu nunca podia me apresentar só “meu nome é Fernando”, sempre tinha uma história atrás porque eu sempre tava vindo de outra cidade, sempre era aluno novo na escola, então sempre tinha histórias pra contar. E quando eu narro as vivências na cultura, é pras pessoas entenderem realmente como foi o meu processo, como é que eu fui descobrindo as coisas até eu chegar nesse momento de agora. Eu acho importante cada processo desses que eu passei. Eu não deixo de fazer uma reafirmação sobre essas coisas, sobre ter feito teatro, por exemplo, onde realmente foi um momento que me levou pra um outro lugar. Foi através da oficina de teatro que conheci a Agência de Redes para Juventude, de todos os momentos, estar na Agência foi centro, o núcleo mesmo, de tudo. Tudo que foi acontecendo, aconteceu pra eu chegar na Agência. E a partir dali eu realmente despontei nesse universo que eu estou hoje, de fazer cultura, de ser realizador.

MÃE COBRAVA MUITO

NA ESCOLA IGUALDADE SOCIAL NA ESPANHA É importante dizer: a minha mãe sempre acreditou, porque eu não, eu sempre fui muito sonhador, pra mim tudo ia dar certo, e minha mãe, ela se preocupava muito com isso. Então ela me cobrava muito na escola, porque ela entendia que aquela educação que eu tinha era uma educação de ponta, e era mesmo, eu dividia sala de aula com as pessoas mais ricas da cidade. A igualdade social na Espanha é muito presente. Saúde é igual pra todo mundo, direito a educação é igual pra todo mundo, a cidade é pra todo mundo.

NA ESPANHA

Era um valor ser brasileiro. Jogar futebol na Espanha sendo brasileiro naquela época (2008) era um valor. Eu comecei a me destacar e a minha mãe estava finalizando esse processo de ser dançarina de pole dance. Nessa época ela estava trabalhando como dançarina em Cuenca, conheceu um cara que era dirigente do Conquense (U. B. Conquense), e falou de mim “meu filho é apaixonado por futebol, meu filho é brasileiro, ele joga lá no Alhendín e tal”. Esse cara mandou um olheiro lá pra Granada, ficou me acompanhando um tempo, indo pra alguns jogos e eu recebi um convite pra jogar nesse clube, no Conquense. Foi um momento onde a gente acreditava que eu seria jogador de futebol, porque o Conquense é um clube de segunda divisão e eu jogava contra Valencia, Rayo Vallecano, clubes bons. Eu já era juvenil, então já jogava sub-17. Me mudar pra Cuenca realmente afetou minha família em geral, até a galera do Brasil; minha família acreditava muito, teve até matéria de jornal quando eu cheguei (em Cuenca). Era algo que instigava muito a minha família, me instigava também. Foi ali que eu comecei a jogar bola, a jogar futebol. Minha raiz era na cidade de Granada, na Espanha. Eu tinha passado toda a minha vida lá, meus amigos, a menina que eu namorava, tudo era em Granada. A única relação que eu tinha com a cidade de Cuenca era o futebol, era o time. Eu não andava muito por lá e quando tinha férias ou feriados, às vezes até final de semana, eu ia pra Granada pra poder estar com meus amigos. Eram só 5 horas de viagem.


B-BOY NO FAMA A BAILAR

PRIMEIRO CONTATO COM O HIP HOP

No natal de 2008 minha mãe me colocou de castigo por eu ter tirado nota baixa em uma matéria, justo o ano que eu cheguei pra jogar no Conquense. Eu estava um pouco desmotivado, longe da cidade de Granada, longe dos amigos. Por mais que eu tivesse jogando bola, e estava feliz, eu sentia falta da vida que eu tinha antes. E como ela não podia me botar de castigo no futebol porque era profissional, eu tinha um contrato, ela me tirou o meio de comunicação que eu tinha, que era internet, e não deixou eu ir para Granada naquelas férias. Eu passei o período inteiro das férias sem poder fazer nada, só fiquei em casa. Eu não era muito de ver televisão espanhola, a gente tinha globo.com, e mantinha essa relação com o Brasil. Mas aí eu comecei a ver televisão espanhola pra passar o tempo, um frio das chineblas, estava passando um programa chamado “Fama a Bailar”, um reality show de dança. E nesse dia, a primeira vez que eu vi o programa, era uma audição de um breaker, um b-boy de Barcelona, e a história dele era bacana. Quando ele estava se apresentando na audição, ele dizia que era venezuelano e que quando chegou em Barcelona, foi a galera que ele conheceu que o acolheu. Não tinha onde dormir, não tinha onde morar e o break tem muito essa relação mesmo de afeto com as pessoas que dançam break. Eu achei maneiro, achei legal ele dançando também, os movimentos que fazia. Quando acabou o programa, eu fui pra garagem sozinho pra passar o tempo e tentar reproduzir aqueles movimentos. No dia seguinte, curiosamente, eu zapeando de novo, estava passando o programa e falei “O programa de ontem!”, e comecei a acompanhar todos os dias por causa daquele b-boy, eu só via o programa por causa dele. O programa durava umas 3 horas diárias e a minha parte preferida era a parte que ele saía pra dançar break.


CENTRO JOVEM P E R D E R E S PA Ç O

NO CLUBE

Quando as férias acabaram eu voltei pra escola e comecei a ir atrás de uma galera que fazia hip hop no meu colégio, uma galera que cantava, dançava, fazia beatbox, graffiti, comecei querer saber onde tinha essa cena de break ali em Cuenca. Conheci um lugar chamado Centro Jovem, que era um centro cultural onde a galera se juntava. Tinha um estúdio de música, uma sala de dança onde a galera treinava e, a partir dali, eu comecei a dançar break, dançar mesmo. Tinha uma parada nesses treinos de break, eles coincidiam com o horário do treino do futebol. Aí o que que eu fazia? Eu ia dançar break um pouquinho, depois ia treinar, às vezes saía cedo do treino, metia um caô e ia dançar break. Chegou um momento em que eu estava começando a ir treinar, a jogar futebol, meio que obrigado. Também com receio da minha mãe, ela acreditava muito, botava muita fé no futebol. E foi difícil, foi um momento muito difícil de assumir pra mim que eu não queria ser jogador de futebol, eu negava isso muitas vezes. Eu falava “Eu gosto de dançar break, é hobby, mas futebol, eu quero ser jogador”. Isso começou a me atrapalhar no futebol, eu comecei a perder rendimento, já não treinava bem, não ia, comecei a perder espaço dentro do clube e isso me desmotivou mais ainda.

SER NEGRO

NA ESPANHA Ser negro na Espanha é muito complicado. Não sei como é em outros países da Europa, mas a Espanha teve um passado muito ruim com um ditador, o Franco, ele ainda tem força. A cultura espanhola ainda é muito presente desse cara, eles ainda separam muito negros de brancos, imigrantes de espanhóis. E aí eu negro e imigrante, me transformei em um negro cool “Ele é negro, mas não, o Fernando...”. E eu sempre tive consciência dessa questão, desde os 10 anos, quando eu cheguei na Espanha, eu tinha consciência de que eu sofria racismo o tempo todo por ser negro e por ser sul-americano.


PA R T I C I PA Ç Ã O N O FA M A A B A I L A R

FORMAÇÃO DA CREW

PRAÇA ESPANHA Eu cheguei a me apresentar para a audição desse programa que eu vi (Fama a Bailar), fiz parte do grupo de dançarinos desse programa. Mas antes disso, eu ganhei popularidade na cidade. A gente montou uma crew. Uma crew é uma família de Hip Hop. Uns grafitavam, uns faziam beatbox, outros dançavam. Eu comecei a me juntar com eles porque eu gostava do movimento, porque eu comecei a dançar break, e tinha um lance que eles improvisavam, faziam rima na hora.

Nessa época eu tinha 17 anos, estava começando a frequentar festas, e quando a gente ia pras festas juntos, a gente era rotulado como a “galera do Hip Hop”. Cuenca é uma cidade pequena, então eu pertencia a um grupo legal. Tem uma praça chamada Praça Espanha onde a galera se junta pra fazer um botellón, que é comprar bebida e ficar bebendo ali, na praça. E quando a gente ia pra essa praça, as pessoas chegavam perto pra pedir pra gente rimar, pra gente dançar. Passei a ser conhecido por dançar até no time de futebol, no vestiário os outros jogadores pediam pra eu dançar.

CAMPEONATO

DEFREE

STYLE Chegou em Cuenca um campeonato regional de freestyle, de rima na hora, que é um campeonato que acontece em todos os Estados da Espanha e os campeões de cada Estado competem uns com os outros pra ver quem é o campeão nacional. Eu participei desse

campeonato e ganhei. Então eu comecei a ficar mais popular ainda porque isso chamava atenção, porque não era meu idioma e eu rimava em espanhol. Foi a hora que eu pensei em montar o grupo (Mentes Falsas), ganhei uma premiação em dinheiro e uns equipamentos de música. Quando ganhei o campeonato, foi um marco, deixei de ser o menino da cidade de Granada e passei a ser visto como o menino de Cuenca. Eu quis montar um grupo porque eu vi que poderia dar certo também o lance de cantar. Aí eu dava aula de break já, porque a galera começou a vir atrás pra poder aprender comigo, cobrava 20 euros a hora, comecei a ganhar dinheiro dançando e ensinando break. Essa etapa foi importante porque parei de pedir e depender apenas da minha mãe. A cultura me deu independência financeira. Foi a primeira coisa que eu ganhei com a cultura. Às vezes eu até emprestava dinheiro pra minha mãe. E fui gostando, liderei algo e saí do futebol.


PRECONCEITO CONTROLE DO CORPO NO BREAK IMIGRAÇÃO LINHAGEM DA MÃE POR INTUIÇÃO POLE DANCE Nunca sofri preconceito pela minha mãe trabalhar com pole dance porque as pessoas não sabiam. Isso é algo que eu tô abrindo a partir de agora, sempre foi um segredo. Menos pra minha família. As pessoas não sabiam, não era pela minha mãe, era mais por nós. A minha mãe não ligava porque ela gostava, também era um sonho dela ser dançarina de pole dance. Ela gostava, era apaixonada pelo que fazia. Saiu do Brasil pra tentar uma vida melhor na Espanha e de maneira ilegal. Minha mãe conseguiu a nacionalidade dela por “arraigo”. Você passa 3 anos ilegais no país e se você não for pego, o governo acaba te dando sua nacionalidade. Foi assim que minha mãe conseguiu.

Tem uma coisa do break que me marca até hoje, até quando eu vejo o break, é a liberdade que você tem, o controle que você tem do corpo. Eu gostava muito disso. Tanto que os movimentos que eu fazia, eram mais movimentos de equilíbrio, eram os que eu mais gostava. Que ser b-boy é também fazer movimentos de equilíbrio. E eram os que eu mais gostava exatamente por esse controle, de conseguir ficar sustentado, de cabeça pra baixo, com uma mão só, ou sem as duas. Minha mãe também fazia isso e sem as mãos, era só com as pernas! Larguei o futebol e fui fazer uma coisa mais na linhagem da minha mãe, mas na intuição, porque eu era menor de idade e não podia ver ela dançar, não podia entrar nos clubes. Eu fui ver minha mãe dançar depois de muito tempo, por vídeos que ela me mostrava. Eu nunca vi minha mãe dançar ao vivo pole dance, quando eu fiz 18 anos ela já estava na transição de parar por causa da idade, já estava fazendo 40 anos.

DISCIPLINA PELO HIP HOP

Foi o break que me deu disciplina, não o futebol. O Hip Hop em si foi o que mais me deu disciplina. Eu comecei a entender o que era de fato comunidade com o break, e a disciplina de me cuidar, de comer bem, de dormir bem. Porque no futebol era competição, eu tinha que correr 7 quilômetros por dia pra não perder minha forma física.

VOLTA PARA O BRASIL CULTURAE

FIQUEIL NO FUMACÊ Quando eu voltei pro Brasil, tinha feito 18 anos, já não jogava mais bola e tinha acabado de fazer um curso técnico em Marketing que hoje me ajuda muito. Eu não ia voltar pro Fumacê, eu ia morar com a minha vó em Araruama. Mas quem foi me receber no aeroporto foi meu pai, que tinha perdido minha outra vó, estava super depressivo, e eu fui passar uns dias com ele antes de ir pra Araruama. Fiquei de vez no Fumacê porque entendi que meu pai estava precisando de mim naquele momento. Estava muito deprimido, largado, com problemas com álcool e eu fiquei lá mais por ele. Minha mãe surtada, porque era o grande medo da vida dela. Ela me tirou do Fumacê, imagina, aí eu volto da Espanha e me enfio no Fumacê de novo.

I

BER

DADE

A cultura me deu liberdade, pro meu corpo, pra poder fazer porque eu quero.


BAILE O VALOR DO BAILE FUNK FUNK VIREI O ESPANHOL De volta no Fumacê comecei a frequentar muito baile de favela, comecei a gostar de funk. Eu tinha 10 anos quando eu fui pra Espanha, então não tinha muita relação com funk antes. Fiquei 8 anos lá, quando eu voltei, tava aquela tendência de baile, o encontro da galera era no baile, comecei a ir, aí a minha mãe começou a pirar. Na Espanha eles me chamavam de “vida loca”, por causa da relação com a favela. Aqui eu virei o “Espanhol”, na volta pro Fumacê.

SALSA Conheci o (Felipe) Salsa, meu grande parceiro de vida na volta do baile. Eu imagino que ele estaria na favela do Pinheiro também, ou então em Camará, eu não lembro. Quando a gente chegava do baile de manhã, a gente tava na pilha, então a gente não ia pra casa, ficava na rua, andando. O Fumacê é pequeno e o Salsa - que já ouvia falar de mim por ser o Espanhol, o garoto que chegou da Espanha, e eu já ouvia falar dele por ele ter um grupo de funk, chamado Dom Ramon - lembro dele vindo em mim e me pedindo 2 reais pra inteirar numa coca-cola. Ele estava com uma garrafa de cachaça, pra fazer uma mistura. E foi assim que eu conheci o Salsa, trocando ideia “Ah porque eu conheço teu pai, conheço tua vó”. A mãe do Salsa e a minha avó foram vizinhas de apartamento. A gente começou a fazer amizade e justo nesse momento eu entrei pra Agência de Redes para Juventude.

O valor do baile era a festa do lugar. Eu achava muito legal as pessoas saindo de um lugar pra ir pra outro por causa do baile. Eu lembro que tinha um baile ali na Maré, em frente à Fio Cruz, no Pinheiro. Saía um ônibus do Fumacê pra ir pro Pinheiro. E quando a gente chegava lá, a galera dava alô “Pessoal do Fumacê tá aí no baile, presente”. Eu achava isso um poder de integração entre as favelas, e no baile funk as pessoas te conhecem por você ser de outra comunidade, porque é por grupinhos. O pessoal do Fumacê, o pessoal do Acari e por aí vai. O que eu gostava do baile, o valor que o baile tinha pra mim era isso, de estar em festas, em vários lugares, e eu via que potencializava também o território, o lugar onde eu morava, que as pessoas iam pra poder ir pro baile. E no baile funk foi onde eu conheci o Salsa!

ARENA,

O CURSO DE TEATRO

E A DESCOBERTA

D A

A G Ê N C I A

Eu saía com uma menina da Pavuna. Então eu ia pra casa dela, que era perto da Arena Jovelina Pérola Negra. Eu vi a Arena ser construída. Quando eu passei por ali as primeiras vezes, estavam construindo e um dia, a Arena tava pronta. A irmã dela chegou um dia em casa e falou “Vai ter um curso de teatro ali na Arena, de graça. Vamos fazer Fernando, tu não dança? Tu não gosta dessas coisas? É com um cara chamado Marcus Faustini”, e botou no Google na hora “Deve ser um curso maneiro, o cara é bom”, e eu falei “Vamos lá fazer”. Era um curso de graça, no sábado, e aí o que eu fazia? Ia pra lá pra casa dela na sexta-feira a noite e no sábado de manhã eu ia pro curso. E foi no curso, quando o Faustini estava falando do que ele fazia, que eu conheci a Agência.


LINGUAGEM DOS DESCOL ADOS

Pra mim os 10 mil reais que ganhamos como prêmio na Agência de Redes para Juventude iam durar pro resto da minha vida. Quando eu entrei pra Agência falei com o Salsa “Cara, eu tô agora num projeto que vai me dar 10 mil reais de patrocínio, vamos montar um grupo!” aí ele “Mas, vamos montar um grupo? Já tem muito grupo!” aí falei “Então vamo fazer uma parada com Hip Hop, com rap, eu canto rap, eu danço break”. No começo do grupo (Descolados, que montamos a partir da minha participação na Agência) eu não seria o MC, seria dançarino de break. Era pra ser um grupo mesmo, metade passinho, metade break. Mas o cara que ia ser o MC nunca queria nada, não queria gravar, e eu falei “Deixa que eu canto”. Foi nessa que chamei mais um amigo, o (Anderson) Kipula, que entrou no meu lugar pra ser o dançarino de break. A gente montou o grupo com essa linguagem pra diferenciar mesmo, os outros eram bonde. Falei pra gente botar umas mensagens nas nossas letras, pras pessoas, mensagens falando do nosso território, tanto que a música que fez a gente ser super conhecido foi “Festa Na Favela” que narra um dia de baile no Fumacê. Isso era uma provocação da Agência também.

RELAÇÃO CULTURA

E FUMACÊ LIDERANÇA N A

C O M U N I D A D E

Hoje eu não sou mais, agora é o Salsa que também entrou na Agência em diferentes processos, até da equipe ele já foi, mas até um tempo atrás eu era a maior liderança do Fumacê. As pessoas me procuravam pra tudo, não era só pra coisas culturais. Uma vez a presidenta da Associação (de Moradores) parou meu pai pra falar pra ele que eu tava levando gringo pra favela e os bueiros estavam entupidos, que eu tinha que parar de me preocupar em levar gente lá pra conhecer o Fumacê e me preocupar em desentupir os bueiros. Pra você ter uma ideia de como as pessoas me viam como um solucionador ali dentro da favela. Festa de Dia das Crianças, fala com Fernando, que

Fernando conhece uma galera. O Fumacê não tem alguém que represente fortemente. Por exemplo, quando a gente fala de Cidade de Deus, você rapidamente cita MV Bill, Cidinho e Doca, etc. No Fumacê não tem isso. Não tem esse representante que tenha despontado na cidade em qualquer segmento, que tenha sido jogador de futebol, que tenha sido ator, que tenha sido uma coisa que represente a favela. Parece que nós, os Descolados, fomos os mais parecidos com isso quando surgimos. Salsa e eu éramos. E como eu era líder do grupo, era tudo muito comigo. O Salsa na época ainda não era muito ligado, ele gostava de dançar, mas ele não era muito ligado a empreendedorismo, ao projeto. As pessoas me viam dessa forma, como um cara ali do Fumacê que tinha muitas redes, conhecia muita gente, era muito influente e poderia resolver problemas. E resolvemos alguns com essa visibilidade que tínhamos. As mães pediam vaga pros filhos no grupo, vinham atrás da gente pra isso. Foi a partir dessa procura que a gente pensou em fazer projeto de cultura lá no fumacê, não tem como botar no grupo, vamos fazer um projeto de dar aula de passinho, de break, umas oficinas de cultura urbana.


SHOWNOCIRCOVOADOR

E DESDOBRAMENTOS

O show no Circo Voador foi o grande momento da minha carreira e veio de um fracasso. Nós fomos chamados pra cantar no Rio Parada Funk, mas seria num palquinho auxiliar, junto com uma porção de outros grupos. Era um palco só de grupos que envolviam passinho e na nossa hora de cantar, estava chovendo pra caramba e não deu pra gente se apresentar. A gente ficou muito sentido porque tinha muita ilusão por cantar ali. Então a Veruska (Delfino, coordenadora da Agência) viu como a gente ficou e conversou com Mateus (Aragão, produtor do Rio Parada Funk e do Eu Amo Baile Funk), que disse “Vamos botar eles pra cantar lá no Circo então, já que eles não cantaram aqui, vão cantar lá no Circo”. E aí fomos cantar no Eu Amo Baile Funk, no Circo Voador. Foi engraçado quando a Veruska falou “Vocês vão cantar no Circo” eu falei “Mas vai ser como? A gente vai entrar pra dançar com uma porção de gente ou é uma coisa nossa?” ela “Não, é uma coisa de vocês, vocês têm 5 minutos lá pra aparecer”. A gente ficou piradão! Uma semana antes eu tinha visto um show do Racionais (MC’s), no Circo Voador e falei “Caraca, o Racionais cantou lá semana passada!”. Pisar no palco do Circo Voador foi tenebroso (risos), tenso. A gente botava tanta ilusão naquilo, pra gente era um momento tão de estrela, de ver aquelas luzes, aquele som, aquelas coisas, que a gente ficou muito nervoso, era muito profissional. Até então a gente fazia show em festinha, em chopada. Ficamos um mês pra montar aquele show de 5 minutos, ensaiava todo dia, fechamos com o DJ pra ele fazer a montagem do show, pra tentar cantar várias músicas, pra caber tudo em 5 minutos. No final daquele show, aquela imagem, é o que eu tenho mais presente em mim, quando a gente agradeceu, e o Circo Voador inteiro aplaudindo. Tem um vídeo disso, do Circo Voador inteiro batendo palma. Lembro da gente indo pro camarim e o Kipula falando “Cara, estouramos filho, explodimos!”. E realmente aquele show foi um divisor de águas pra nossa carreira, porque ali naquele show, tinha um produtor de São Paulo que estava fazendo um programa chamado Reis da Rua e chamou a gente pra personagens do programa. Ficaram lá no Fumacê 3 dias gravando com a gente, teve até um show. Teve o Leo Justi, que agora é do Reavy Baile, levou um dos nossos dançarinos pra ele, que era o Sheick na época, trabalha com ele até hoje. Foi uma vitrine mesmo.


DESTAQUE POR FAZER MAIS DE UMA COISA NA CULTURA

T E AT R O E A P O S T U R A N O PA L C O

Eu vejo que eu sempre me destaquei na cultura por ser uma pessoa que fazia mais de uma coisa, tinha mais de uma habilidade. Do mesmo jeito que eu cantava rap, eu vim pro Brasil e comecei a cantar funk. Eu dançava break, depois eu tive um tempo dançando passinho. E tem um lance de eu ter feito teatro, porque a maior oportunidade que eu tive de ir pro mainstream foi fazendo teatro, lá na Pavuna com um teste para Malhação. Eu vendia chip na época, de celular, o telefone toca da Globo “A gente é da Malhação, a gente quer fazer um teste contigo”, pensei “Esse caminho tá menos competitivo, tá mais próximo de eu chegar nesse mainstream pra começar de fato a viver de arte”. Depois eu perdi um pouco disso, comecei a estudar, entendi que o teatro de certa forma me capacitava pras outras artes que eu fazia, me dava uma disciplina legal, melhorei minha postura no palco pra cantar, comecei a me dirigir melhor na hora de fazer show. Comecei a ter entendimento sobre espaço, cenário, público e artista. Eu lembro que Faustini viu um show meu e falou “Você fala muito durante o show”. Ser ator me instiga bastante, interpretar, dar vida a outras realidades que não são as minhas, dar vida a personagens. Eu me vejo mais capacitado também, como pessoa, porque é mais uma coisa que eu estudei, mais uma coisa que me formou.

A L O R FAVELADO V D A C U L T U R A COMO IDENTIDADE Eu não vejo a cultura urbana, o break, o hip hop, como cultura norte-americana. Vejo como cultura da favela, que reforça minha identidade como favelado. Dentro desse mundo do teatro, eu também me vejo em destaque por ter feito outras coisas. No curso da Cininha de Paula (que fiz também), as pessoas me veem como um cara legal, me respeitam por eu já ter feito filme, por já ter feito show, por já ter viajado, coisas que todo mundo que está fazendo arte busca. E acho que o funk e os Descolados me deram um reconhecimento, que é o primeiro passo pra uma pessoa que quer realmente viver de arte. A primeira coisa que a pessoa quer é ser reconhecida por sua obra.

O valor da cultura pra mim são todos os encontros que eu tive com as pessoas. Acho que são todas as experiências que eu tive, que hoje me formam como esse homem que eu sou, essa pessoa que eu sou. Eu vivo grandes experiências a partir da cultura. Eu comecei a pensar que eu me formei em artes cênicas com o dinheiro dos Descolados, foram 16 mil reais de curso que eu paguei durante um ano e meio. Eu consegui pagar isso fazendo show. Mas, não é ainda algo que me convence como valor da cultura. O que me convence são todos os encontros que eu tive com pessoas que são hoje minha rede e que hoje são meus grandes parceiros, foi graças à cultura. É o que não tem preço, são muitos anos, são pessoas que não se afastam de mim. A gente está sempre conectado de alguma forma.


ACULTURA

ME

EMOCIONA

A cultura me faz chorar quase toda semana, me emociona o tempo todo. Me emociono olhando pra minha história. Fico entusiasmado como as coisas aconteceram. Quando eu vejo o Salsa hoje em dia, isso me emociona bastante. Salsa era um menino que apagava a casa toda quando eu ia chamar ele pra ensaiar, pra fingir que não estava em casa. Salsa era um menino que eu falava pra ele “Salsa, manda um e-mail pra mim?”, quando eu ia ver um mês tinha passado e o Salsa não tinha mandado o e-mail. Quando vou visitar o Kipula, vejo a casa dele, que é uma casa própria e que ele construiu com dinheiro de show de Descolados, cada tijolo! Em 2016, que foi o nosso grande auge de ganhar dinheiro fazendo show, o filho do Kipula tinha acabado de nascer e eu lembro dele, quando a gente recebia os cachês, contando, falando sozinho “Isso aqui eu vou comprar tanto de tijolo, tanto de argamassa”. O Kipula ficou um ano sem comprar roupa, sem sair, era só na casa dele. Hoje em dia você chega lá e vê que a casa dele, já tem laje, ele já tá construindo em cima, ele tem uma casa própria! E não é em cima do morro, que antes ele morava no morro. É no (Morro do) Urubu, mas é lá embaixo. Então eu vejo que a minha história, o projeto que eu criei, foi muito importante pro Kipula, pro Salsa. Não é só pra mim, é pras pessoas que participaram comigo desse processo também. E é isso que me emociona e me deixa com sentimento de “deu certo mano!”.


Lucas Esteves Ururahy, conhecido como “Ururah”, é um artista multimídia oriundo de Sepetiba, Zona Oeste do Rio de janeiro, que exprime em seu trabalho referências de elementos da natureza e vivências territoriais. Coordenou o projeto Sepetiba em Foco, tutorado pelo Pontão (2016). Para Lucas, o valor da cultura é acreditar no potencial do indivíduo e nos seus fazimentos, desdobrando esse potencial em representatividade.

Redes Sociais

Instagram: @ururah Facebook: /lucas.estevesururahy


C U LT U R A U R B A N A / FAV E L A-R O Ç A-P R A I A N A Eu falo que o que eu faço é uma mistura de favela com roça e praia. Favela-roça-praiana. Eu tive contato com a arte urbana através da pichação, dos grafites que eu via quando vinha para as pistas de skate (Centro e Zona Sul) e o movimento Hip Hop. Minhas primeiras produções foram aquelas coisas das letras, aquela coisa gritante da caligrafia. Mas não fazia parte do meu dia-a-dia, não era uma realidade que eu tinha próxima de mim, era sempre uma imitação daquilo que eu via em filmes estrangeiros, que eu via em vídeo de skate. Era uma reprodução, embora tivesse meu nome ali, a minha mão tivesse feito, eu não me sentia pertencente, não sentia que fazia parte de mim. Quando eu comecei a entender o meu lugar, onde eu estava, minhas referências, comecei até a valorizar melhor o meu bairro, eu comecei a colocar isso no meu trabalho. Mas demorou, foi uma construção.

NEGAÇÃO

DE SEPETIBA

QUE M VE IO

A N T E S

O

P E S C A D O R

PINTOR Primeiro eu negava Sepetiba. Eu tinha raiva de onde eu morava porque só me colocava obstáculo, era longe, sem investimento. Tem uma geração que está vindo depois de mim, mais velha que eu, só ficou uma pessoa. Tinham três, um virou tatuador, o que andava comigo, que me ensinou, foi assassinado e o outro é pescador, que é o Cristiano. Ele pinta, mas não pinta, ainda está naquela coisa de sempre aparecer quando estou pintando e a gente troca ideia. Ele é mais velho, deve ter uns quarenta e pouco, e fica bem feliz quando me vê pintando.


EU NÃO SOU QUE ERA MILICIANO

DO GRAFITE Tem também um cara que é miliciano e era do grafite. Isso foi uma coisa que me chamou muita atenção, se liga no que aconteceu. Eu estava pintando, ele parou e ficou olhando. Ele me viu crescer mas não lembrava de mim. Daí ele me perguntou “Você é daqui de Sepetiba?” respondi que era. Só que eu já sabia quem ele era. Ele “Porra, não lembro de você não”. Falei “Lembra daquele molequinho que andava de skate na pracinha?” ele “Caralho é tu mané!”. Começamos a conversar, ele comprou refrigerante, ficou admirado, me mostrou os grafites dele salvos no telefone.

Depois eu estava pintando com os moleques da Penha, Mario Bands, a galera do Complexo (do Alemão), ele chegou lá e conhecia o (Wallace) Bidu, da época do grafite das antigas. Ele ficou umas duas horas, marcou um silêncio olhando pra parede e no final de tudo disse “Eu queria estar com vocês aí pintando” e foi embora. Eu vi que ele ficou refletindo a vida dele toda naquele momento.

UM CARA

URBANO A arte urbana é o meio que tenho de me comunicar, de me expressar, mas eu não sou um cara urbano. Não tem trem, não tem um prédio em Sepetiba, minha relação foi muito mais com a praia, com a natureza, sempre gostei disso. Não gosto de cidade, me incomoda. Eu fiquei um tempo na Lapa, um mês. É muito bom a praticidade que tem, eu vou ali, compro uma coisa que eu preciso, preciso comprar uma peça pro computador, tem uma rua que tem mais de 30 lojas de peças, passo no museu, passo no outro museu. Em meia hora passei no museu, comprei o que queria, essa coisa em Sepetiba é impossível. Mas ao mesmo tempo é caótico. Eu vou comprar pão, tem o cara que tomou uma facada na esquina ali, o outro foi roubado. Tem prós e contras.


QUANDO NUNCA GOSTEI S E P E T I B A DE ESCREVER GANHOU QUANDO SEPETIBA V A L O R TR E I NA DO PA R A N Ã O

GOSTAR DO TERRITÓRIO Sepetiba ter ganhado um valor na minha arte foi um processo de descobrimento quando eu fui pra faculdade principalmente, porque eu comecei a ver referências de outros artistas. Eu já desenhava alguns elementos de Sepetiba, mas eu não achava que aquilo ali seria um forte. Eu achava que tinha que fugir da estética do meu bairro. Fui ensinado pela minha mãe que eu não podia dizer que eu era de lá, porque se eu dissesse iam me julgar. Sempre perguntam “Onde é isso?”. Ia perder oportunidade de emprego, ia ser tratado com diferença, então, eu fui treinado desde criança. Minha mãe odeia Sepetiba até hoje, não sai de casa, fica naquela vidinha dela ali, não sai. Eu falo “Você quer ir lá não sei onde ver o teatro, mas não quer ir no teatro na esquina da sua casa”. Tem um bloqueio, como se nada que tivesse ali prestasse. Eu fui treinado a não gostar do meu bairro, aquela coisa da poluição, que nada funciona, que nada dá certo. Então, quando eu percebi que não dá certo justamente por causa desse raciocínio eu pensei “tenho que mudar isso, tenho que começar a valorizar, porque se eu não valorizar, ninguém vai”.

ENTROU NA MINHA ARTE Eu nunca gostei de escrever, tinha dificuldade, me comunicava desenhando, sempre foi assim. Eu tenho ideias, consigo organizar frases, organizar pensamentos, brincar com as palavras, mas a minha ortografia é péssima, então eu sempre tive um bloqueio de escrever, sempre fui muito visual. Quando eu fui pra faculdade, que falei “quero ser artista”, comecei a ver vários artistas e entender que os artistas são aquilo que eles são, colocam no papel aquilo que eles são. O que eu sou? Vamos buscar minha raiz. Aí lembrei do meu avô, pra eu ser único, tenho que mergulhar na minha essência. Eu não posso ficar reproduzindo tudo que já foi feito porque vai ser sempre reprodução de alguma coisa, vai parecer com algo. Então, quando eu comecei a identificar os problemas no meu bairro, identificar as minhas memórias, organizar essas referências, tipo a estátua da santa, da Iemanjá, em frente à minha casa. Depois que eu fui perceber que aquelas referências que estavam na minha cabeça eram do meu inconsciente, fui trazendo tudo que estava no meu inconsciente: os barcos que eu via todo dia, a questão do culto afro, embora eu não seja da religião, convivi com aquilo ali. Sepetiba é tipo um terreiro gigante! Eu comecei a mergulhar na minha história, querer entender as matrizes africanas, as histórias do bairro, comecei a me interessar pelas questões indígenas também, que sempre tive paixão de entender, uma atração que eu não entendia por quê. Comecei a estudar, ler, a mergulhar nessa essência, pegar tudo que estava na minha vivência e transformar em símbolos visuais. Eu fui fazendo, mas não sabia se era o caminho. Tinha gente que criticava “Mas você vai ser um artista popular, vai ser naïf” e eu ficava nesse bloqueio. “A arte tem tendência, vai se desvalorizar, tem que fazer o que está na tendência”, eu fiquei com essa coisa na cabeça, mas fui sentindo e fui fazendo, ignorando as críticas. Foi quando eu recebi um convite pra participar de uma exposição no Centro chamada “Salve Jorge 23” que o curador era o Raimundo Rodrigues. Ele gostou do meu trabalho, veio conversar comigo e falou pra mim “Você é daqui do Rio?” respondi “Sou de Sepetiba”. Ele falou “Porra cara, que incrível! Fui em Sepetiba quando era criança. Tu tem uma matriz fina de estudo”. Aí eu fiquei pensando naquilo. Ele falou “Tem tudo na tua mão ali, cara”. Eu comecei a concatenar as ideias, pensei “Aquilo que eu tinha como maldição pra minha vida, agora vai ser minha benção”, e comecei a bater de frente.


INCENTIVO PARA DESENHAR DESDE PEQUENO

PRIMEIRO LIVRO Acho que toda criança sabe desenhar, faz parte do instinto de comunicação do ser humano. Todo ser humano quer se manifestar, quer se comunicar. A questão é que minha mãe me incentivou quando eu era bem criança. Ela incentivou até uma certa idade, depois quis boicotar, mas lembro da primeira memória que eu tenho desenhando.

Minha mãe é educadora infantil, fez Sarah Kubitschek (Instituto de Educação Sarah Kubitschek), minha vó também, minha mãe seguiu a carreira dela. Minha mãe entrou no MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) com 17 anos e não parou mais, se aposentou com 40 anos. Ela me incentivava, tenho meu primeiro livro, que ela fez quando eu tinha 3, 4 anos. Ela falava “Lucas, vamos criar uma historinha. Fala um personagem” e eu “Árvore”. Ela escrevia “Seu árvore, foi aonde?”, “Ah, o seu árvore estava parado, é uma árvore”, “E quem chegou na árvore?” eu falei “Um passarinho”, ela “Então o passarinho pousou na árvore?” e eu “Pousou”. Ela ia fazendo essas narrativas que eu criava, e depois falava “Agora desenha isso aí”. Eu desenhava, dava o título e depois que terminava ela ia guardando aquilo. É a primeira lembrança que eu tenho no desenho. Depois conforme eu fui indo pra escola, percebi que a escola não fazia sentido pra mim. Nunca fez. Eu entrava na escola e queria ir embora. Não entendia o que estava fazendo ali, achava que não servia pra nada, tirando algumas matérias tipo Geografia, Estudos Sociais e alguma coisa de Biologia. Português achava um saco, Matemática só de pensar minha cabeça dói. Uma parada que me incomodava. Aí eu comecei a ter vocação pra arte, mas tive dificuldade na escrita. A professora achava estranho, falava que eu tinha algum distúrbio. Chamou minha mãe pra conversar, eu não prestava atenção na matéria ou quando eu prestava ficava desenhando. Eu consigo nitidamente, você tá falando alguma coisa, eu tô desenhando e tô prestando atenção no que você tá falando. É até mais fácil pra mim, prestar atenção na pessoa desenhando porque minha mente não divaga, eu fico ouvindo e consigo transformar em símbolo o que você está falando e aí eu gravo. Agora se o cara ficar falando lá na frente, minha mente vai pra outro lugar, eu começo a pensar em outra coisa.

PICHAÇÃO EM SEPETIBA

R

E

F

E

R

Ê

N

C

I

A

S

CO M U N I C AÇ ÃO AT R AV É S D E S Í M B O LO S A pichação foi muito forte na minha vida porque Sepetiba tem uma história de pichação. A reunião de pichação era onde eu morava, na Dona Luiza (praia) e ficavam centenas de pessoas com caderninho pegando assinatura, aí os moleques da minha rua pichavam. E tinha o Tool. O Tool era um cara que era uma lenda, pichou o Cristo. Um dos fundadores da AR (Amantes do Rabisco), depois fundou a OT (Organização Terrorista) junto com o Mock. Via o cara no jornal, o cara passava na minha frente, me cumprimentava e aí eu queria participar do grupo. Tinha amigos que estavam pichando e tinham uma sigla. Eu comecei a pichar, era da minha natureza me comunicar através do desenho, através dos símbolos. Eu pichava “Lucas”, mas ninguém entendia o que estava escrito. Eu criei uma parada que era tipo uma marca, hoje em dia com o conhecimento que eu tenho, é um logotipo, acho que todo pichador é um designer em potencial. Um hieróglifo, sei lá meu irmão, agora posso falar sobre isso, antigamente eu não sabia o que era, simplesmente era o meu nome que eu queria espalhar e queria pertencer ao grupo, adrenalina. Adrenalina vicia, você tá na rua, corre, escreve ali, corre. Foi assim que eu comecei a pichar.


CONHECER O RAP

P A I

VÍCIO EM SKATE

Tinha um pessoal que andava de skate na praia, street, subir no meio fio. Eu fui lá, menorzinho, não tinha nem skate e fiquei olhando. Falei pra minha mãe que queria um skate, ela me deu um de Dia das Crianças, da Casa & Video, aquela coisa de brinquedo. Meu pai já tinha andado de skate, participou do movimento da pista de Campo Grande quando foi fundada. Meu pai era de Campo Grande e minha mãe era de Sepetiba. Se conheceram num curso, uma parada assim, não lembro direito. Meu pai me

deu uma rodinha melhor pro skate, aí fui comprando as pecinhas aos poucos, eu tinha um skate de brinquedo, mas a minha rodinha era razoavelmente boa. Comecei a andar com a galera, ir pros lugares onde eles estavam, ia pra praia, depois comecei a andar no Brizolão de Sepetiba. Foi quando conheci o Mock, um cara que já era da pichação, já estava indo pro grafite e era bem mais velho que eu. Eu tinha 14 e ele tinha 25, 26, por aí. A partir desse momento conheci o Hip Hop. O Mock era aquele cara do Rap mesmo, calça largona. Me apresentou o Rap e fez todo sentido pra mim, eu entendi o que eu era. Meu pai se separou da minha mãe eu tinha 4 anos de idade e meu pai é muito doido, alcoólatra, hoje em dia, graças a Deus, ele está no AA. Eu não tinha muito contato, quem me criou foi meu padrasto. Minha mãe sempre foi muito rigorosa na questão da educação comigo, não deixava eu ir pra fliperama, só deixava eu sair de casa sexta-feira, me trancava, não queria jogo. Meus amigos eram viciados em fliperama, eu me viciei no skate e foi um problema pra ela, porque eu só pensava nisso o tempo inteiro.

DESENHO EM MOCHILAS E CADERNOS

M A R C A S D E S K AT E O Mock, quando comecei a pintar, ele me ensinou o pouco que sabia, fazia os bombs, a letra, uns personagens que eu criava e depois que ele morreu, eu parei de pintar, porque eu não conhecia mais ninguém. Parei de pintar na rua, mas eu cobrava as menininhas pra fazer os nomes delas na mochila. Por 5 reais eu desenhava a mochila toda. Fazia o nome das pessoas no caderno, pra mim era fácil. Eu assim continuei desenhando, o desenho nunca saiu da minha vida. Com o skate, eu comecei a perceber as marcas. Vi que as marcas tinham tendências, que existia conceito por trás.

AULA DE PINTURA

EM SEPETIBA Eu queria pintar e tinha uma placa escrito “aulas de pintura”, assim grandona, num casarão em frente à praia. Quando eu rodei por ter sido pego pichando, minha mãe falou “Tem aula de pintura ali, você quer fazer?”. Eu disse que queria e ela foi lá.

Era a Loty Yamazaki, uma japonesinha pequenininha que morava lá. Ela não queria me aceitar porque eu era novo e não tinha estudo de artes, mas aí minha mãe perturbou a mente dela. Minha mãe fala muito e sempre foi desenrolada, ela me apresentou, fui lá e comecei. Ela começou a gostar de mim, me chamava de chaveirinho e comecei a estudar pintura a óleo.


A R T I S T A S A L A M A M E D I C I N A L E M E U AV Ô Artistas iam para Sepetiba por causa da lama medicinal da praia. Emilinha Borba tinha casa lá, o Heitor dos Prazeres, Burle Marx, todo mundo ia pra Sepetiba, Guaratiba, aquela região da Baía de Sepetiba porque era o refúgio dos artistas na época, da galera que tinha dinheiro. Meu tataravô foi pra lá porque viu essa possibilidade, eles davam terra, era só você chegar lá e ocupar, não pagava. Meu avô começou a trabalhar com fibra de vidro. Fazia barco, foi um dos fundadores do Clube Náutico de Sepetiba, então quando eu era criança, a minha casa era uma oficina de barco e piscina, tudo de fibra, fazia Gurgel, essas paradas assim, de fibra de vidro. Aquilo marcou muito a minha infância. A porta da minha casa, que está lá até hoje, foi ele quem fez.

PRIMEIRA

OBRA COM SEPETIBA

C O M O T

E

M

A

Criança eu já desenhava Sepetiba, porque era o meu universo, na minha cabeça, mas a primeira obra mesmo foi um caranguejo e deu certo. Era um mural na Pedra de Guaratiba que já apagou. Foi num mutirão que eu fiz esse caranguejo e vi que as pessoas locais se familiarizavam, tinham apego afetivo. “Caraca! Faz aqui também” era diferente da letra do cara que estava ali na frente, pensei “É isso!”.

Eu pegava caranguejo com meus amigos quando era criança, tinha uma caixa d’água na minha casa que eu pegava caranguejo e botava lá. Fazia parte da minha vida aquilo, pessoal passava arrastão e eu ficava esperando. Quando eu fui defender o edital do Ações Locais a mulher falou “Mas calma aí, grafiteiro pescador, o que é isso aí?”. Eu até zoei com o articulador, se eu falar arrastão pra ela, vai achar que é arrastão de roubo.

PRECONCEITO COM SEPETIBA Em Santa Cruz você já sofre preconceito por ser de Sepetiba. “Ah, tu mora na lama lá”, “Tu mora naquele esgoto, toma banho de cocô também?”. Eu lembro que na escola eu fiz uma música. Tinha um trabalho que ninguém queria fazer comigo porque eu era um péssimo aluno, era sempre um dos piores. Aí fiz uma música que falava de Sepetiba, era um trabalho que tinha que fazer uma releitura e foi a primeira vez que eu me senti criativo assim, que meu trabalho foi aclamado, até o filho da diretora quis participar. Eu sempre tive essa coisa de defender o meu bairro, nunca tive vergonha não, é meu mesmo, desde criança. Quando eu fui ficando adolescente eu queria negar e depois eu comecei a reconhecer.

A C I D E N T E N A É P O C A D O S K AT E

Quando eu estava no skate sofri um acidente. Meu padrasto é professor de luta e eu fui fazer taekwondo com ele, o espelho caiu no meu pé, rompi o tendão de Aquiles e fiquei 1 ano de cadeira de rodas. Isso me aproximou do desenho de novo porque eu não tinha o que fazer, fiquei meio depressivo porque eu queria ser profissional no skate, era segundo colocado no ranking estadual de mirim, ia passar pra iniciante, estava negociando patrocínio com uma marca de São Paulo. O skate me deu a diretriz, me deu o raciocínio que tenho hoje, me deu a sensação de vitória, porque você acertar a manobra é uma vitória. Tu cai ali, cai, cai, cai, erra, erra, erra e quando você acerta a felicidade é enorme.


O QUE A CULTURA

O QUE SEPETIBA

A cultura me deu tudo que eu sou. Quem eu sou, a minha personalidade, as pessoas que eu conheço, as pessoas que me ajudam, as pessoas que complementam minha personalidade, que me mostram coisas que eu nunca percebi, nunca enxerguei. Ela me deu senso crítico, apuro social. Perceber diferenças sociais, perceber padrões diferentes de comportamentos de diferentes grupos.

Sepetiba deu pra minha arte representatividade, eu sinto que represento algo para as pessoas e pra mim mesmo. Às vezes as pessoas me dão a importância que eu não me dou, quase sempre, inclusive. Acabo sendo “o artista de Sepetiba”.

ME DEU A O QUE A CULTURA URBANA

DEU PRA MINHA ARTE A cultura urbana é a maneira de me comunicar com quem está ao meu redor. Mas pra minha arte, pro meu desenho, ela me deu improviso. Eu sempre gostei do risco, sempre gostei de me aventurar, de correr risco.

D EU PR A MINHA

R T E

Eu não sei se é bom, porque na academia eu vou ser sempre o coitadinho. Se eu não for acadêmico, se eu não entrar pra esse ramo de estudar, ter um diploma, eu vou ser sempre o coitado lá de Sepetiba com um trabalho interessante. Eu estou percebendo isso agora no Parque Lage. Me deu personalidade a questão da peculiaridade porque as pessoas não sabem o que é morar num mangue, não sabem o que é acordar e entrar na lama. Ninguém nunca atolou o pé na lama.

QUANDO DESCOBRI QUE SEPETIBA ERA BONITO

AGÊNCIA

Sabe como é que eu descobri que Sepetiba era bonito? Quando as pessoas de fora começaram a ir lá. “Caraca! Isso aqui é lindo, lembra o nordeste!”. Na época eu ainda não tinha ido ao nordeste e comecei a perceber que a cor era bonita “Caramba, eu tenho uma matriz de estudo de cor pra pintura porque a lama reflete o céu”. Quem aqui no Rio tem essa matriz de estudo que a lama reflete o céu, que pode estudar dois céus? Que pode botar um objeto na lama e o objeto refletir, fazer o espelho na frente? Aí eu comecei a ver a potência de Sepetiba na minha arte. Nesse momento eu já tinha passado pela Agência. Eu não cheguei a passar pela Agência como jovem bolsista, eu já vim com projeto pronto, que já estava em andamento, mas de certo modo, a Agência de Redes para Juventude me mostrou muita coisa que eu já pensava, mas que eu desconsiderava antes. Falei “Caramba, tem um cara ali que pensou aquilo que eu pensei também, só que ele fundamentou aquilo que só estava nas minhas ideias”. Tipo a Beá (Meira), eu conheci a Beá através da Agência. Quando eu falei pra ela o que eu estava fazendo, ela falou “Cara, você faz aquilo que eu escrevi” e me deu o livro dela todo, do seu plano de aula. Eu comecei ver a importância de fundamentar as coisas. Estou nesse processo agora, de perceber, querer me organizar, querer estudar, fazer mestrado, terminar minha faculdade, parar de empurrar isso com a barriga.


MUSEUS COMO PARTE DA FORMAÇÃO

ADMIRAR O OUTRO Museus fazem parte da minha formação. Minha mãe me levava no museu (Museu Nacional), na Quinta da Boa Vista, para ver dinossauro. Eu era viciado em dinossauro quando era criança.

Agora eu entro em museu ou centro cultural para estudar referências. Ver o trabalho, interpretar, ver técnica. Eu tenho prazer em ver a obra do outro, o pichador vê a obra do outro, vê a ousadia, admira. Eu carrego isso. A pichação tem toda uma história, são ícones mesmo, é um submundo ali que os caras são muito famosos.

EXPOR NA GALERIA X EXPOR NA RUA

Em parte, pra mim está sendo bom sair da rua e ir pra galeria porque estou conseguindo ganhar dinheiro com o que eu amo. É bom ter uma pessoa que te valoriza, te entende e olha pro teu trabalho, quer consumir aquilo. É parecido com a rua, só que a rua é muito mais humana, menos técnica. Na rua você está pintando, vem um mendigo agradecendo porque você pintou onde ele dorme e chora contando a história dele, em alguns lugares pessoas passam e te chamam de vagabundo “Vai trabalhar, não tem o que fazer pichando aí?” eu respondo que não é pichação é outra coisa. Em outros lugares que você está pintando, passa alguém e fala que “lembra isso”, “lembra aquilo”, “parece o movimento tal”, porque dependendo do lugar as pessoas têm diferentes conhecimentos de artes.

VIVER DE

ARTE

Eu substituí o skate pela arte. O audiovisual veio junto e acabou sendo um meio de subsistência, porque às vezes só pintura não dá. Ano passado eu vivi muito bem, de pintura. Ganhei bem mesmo, coisa que eu nunca imaginei ganhar, tipo 14 mil no mês. O que eu fiz com esse dinheiro? Comprei uma casa bem ferrada e reformei, eu e minha esposa juntamos.


QUANDO PERDI O EMPREGO Eu trabalhava com audiovisual, dava oficina para galera do Cidadela, do Templo Glauber. Fiquei 1 ano e meio com eles e aí quando acabou o contrato, mudou de governo, fiquei sem dinheiro, sem emprego. Minha esposa disse pra mim “Você é bom, você é artista. Só vai dar certo se você acreditar em você. Fala pra mim que você é artista”. Eu falei “Tá bom Talita, eu sou artista”. Passaram dois dias eu recebi uma mensagem no Instagram, um cara pedindo catálogo. Eu nem tinha um catálogo! Eu não tenho rede de artista, ninguém na minha família é artista, tirando meu avô que era artesão, aquela coisa que não tem valor de arte, então, eu não sei o que é ser um artista. Eu não conheço pessoas, não tenho amigos com poder aquisitivo para pagar meu trabalho. E esse cara veio me pedir “O que você tem aí?”. Eu demorei pra responder, ele começou a pesquisar no meu Instagram e mandou outra mensagem “Essa aqui tem?”, respondi “Essa eu tenho”. Ele “Quanto tá?”. Eu nunca tinha pensado em valor, eu pintava pra mim. Esse que o cara da mensagem no Instagram gostou era um pastel oleoso com spray. Dei o valor, 500 reais, e ele “É minha, me dá sua conta”. Eu não sabia nem quem era o cara. Ele perguntou “O que você tem mais aí?”. Tinha uma que eu pintei que o nome era “Ego Ferido”, fiz pensando em mim, comecei a ler sobre psicologia, sobre inconsciente, essa coisa do ego. Mostrei, ele perguntou o valor, eu pedi 1.500 reais. Ele falou “´É minha”. Depositou as duas e depois falou “Eu comprei a obra do Carlos Bobi, conhece?”, falei “Conheço, meu amigo”, ele “Queria marcar um jantar com vocês, tenho uma ideia”. O cara é Diretor (de Recursos Humanos) da L’Oréal (Paris Brasil), Fábio Rosé e virou meu amigo, já comprou várias obras minhas, me colocou pra fazer um trabalho na L’Oréal. Já me rendeu outras vendas porque eu comecei a entrar no circuito de quem tem dinheiro pra comprar. Ele me jogou num circuito que eu não sabia que existia.

INFLUEN

CIANDO UMA NOVA GERAÇÃO Dinheiro é bom pra pagar as contas, é muito bom ser reconhecido pelo que você faz, sem ter aquela humilhação “Você é artista, mas trabalha com o que?”. Mas o que realmente paga é influenciar uma geração de Sepetiba. Isso não tem valor.

A DIFICULDADE DE TER

SEPETIBA COMO GALERIA Sepetiba ainda é uma galeria pra mim, mas está mais difícil de pintar lá. Não têm pessoas em Sepetiba que comprem meu trabalho. A internet ajuda muito, eu pintar e todo mundo curtir e isso repercutir. Mas se eu quiser realmente pessoas que olhem meu trabalho, que admiram com olhar de consumidor, tenho que pintar no Centro, Zona sul, essa é a realidade. Pintar em Sepetiba é ativismo. No centro do Rio é se posicionar estrategicamente e é chato porque aqui não tem muro, tem que trazer as tintas, voltar tarde pra casa. Na arte urbana você investe um dinheiro pra fazer um painel e o retorno não é certo, é uma propaganda. Entre pintar na esquina da minha casa que é cheio de muro e ter que ficar dividindo espaço, prefiro pintar na esquina de casa.


PLANOS FU TU R O S Eu tenho muitos planos, eu sou uma pessoa ansiosa, penso muito na frente e às vezes penso menos no agora. Eu tô indo morar em Sepetiba de novo, na minha casa, no meu ateliê, do jeito que eu quero, do jeito que eu posso no momento, mas está perfeito. Tem um quarto pra mim, um quintal onde vou poder produzir, tenho um projeto de painéis lá. Vou ter minha casa pra receber as pessoas e vou fazer residência e imersão de artistas em Sepetiba. Participei de um debate no MAR - Museu de Arte do Rio. A gente discutiu sobre grafite, eu pude mostrar o Mariscarte que é meu projeto de documentários sobre histórias de moradores do bairro que resultam em painéis. A gente entrevista o morador, mostra pros artistas convidados, todo mundo assiste junto e pensa num painel coletivo. Não é aquela coisa de cada um vai lá e faz o seu. A gente pensa num painel, numa construção internacional. Mostrei o vídeo e estou negociando patrocínio pra tinta, agora vou poder continuar, já tem tinta. Quero continuar com meu trabalho levantando essa bandeira, assumindo minha personalidade com orgulho, agora eu percebo que tem valor, tem peculiaridade, tem essência.


Ingrid Siss, 25 anos, é psicóloga e cria da Cidade de Deus. Seu foco de atuação é auxiliar no reconhecimento e fortalecimento da potência dos territórios de favela. Atualmente trabalha com crianças e mães através da Casa Dona Amélia, espaço multiuso que coordena na CDD, e com a temática da juventude através do Programa Jovens Construtores. Para Ingrid, o valor da cultura é a (re)conexão entre pessoas e seus territórios, criando espaços e facilitando encontros.

Redes Sociais

Instagram: @guisiss Facebook: /ingrid.siss


A C A S A ESPAÇO DONA AMÉLIA

A CASA É UM

Um dia conversei com meu pai. Perguntei se podia usar a casa dos meus avós, a casa estava parada porque minha avó tinha falecido e uns dois anos depois meu avô ficou doente e faleceu também. Eu não tinha entrado mais na casa desde que minha avó morreu, eu até cruzava a casa porque eu morava no terceiro andar, só falava com meu avô quando ele ia na minha casa ou então da porta, eu não queria entrar na casa. Depois que meu vô faleceu, no dia mesmo, meu primo que é mais novo, subiu chorando muito quando contaram pra ele. Ali me caiu uma ficha, eu não podia ficar chorando muito porque senão eu não iria conseguir transmitir confiança pra ele, naquele momento ele precisava da minha força. A partir daquele momento entrei na casa do vô e tirei tudo. Comecei a achar que aquele espaço poderia ser mais útil. Primeiro, era pra ser só um consultório pra eu atender a preço popular, só que ideias foram surgindo, coisas foram podendo acontecer. Eu falei “Vamos montar uma biblioteca”, as crianças começaram a entrar e ficar muito na casa, elas gostam muito de estar ali e tudo foi se misturando, a casa passou a ser não só um espaço de atendimento, mas muito mais um espaço pras pessoas poderem ficar.

ABERTO

As crianças estão brincando na rua, veem o espaço aberto e vão pra lá. A gente faz contação de histórias, têm livros pra eles poderem ler, fazemos algumas oficinas de brinquedos também, eles veem vídeos no Youtube de coisas que querem aprender. A Casa Dona Amélia é um lugar que pode fazer tudo. Eu faço acompanhamento com gestantes também, são as duas ações que estão acontecendo mais, as atividades com as crianças e o grupo de gestantes. O grupo é uma rede em que elas possam ficar em conjunto, que possam pensar esse lugar da maternidade, se apoiar.

U M

T R A B A L H O

VOLUNTÁRIO O trabalho da Casa é todo voluntário. Eu, meus pais, minha irmã, é a família como um todo. Todo mundo participou muito da construção do espaço, quando tem evento são muito atuantes. Durante o curso com as gestantes, por exemplo, tem o momento do book, sou eu quem tira as fotos, minha irmã é a maquiadora, a gente faz um piquenique e escolhe um lugar que elas ainda não conheceram pra tirar as fotos.


RECONHECIMENTO E RAIZ Essa casa passou a ser o meu local de raiz, de deixar muito marcado aonde eu vivo, onde as coisas podem acontecer, onde eu me sinto muito em conexão. Quando eu entro na Cidade de Deus eu sinto a minha casa, eu entro e vem alguém falar comigo. Conforme você vai desenvolvendo esses trabalhos as pessoas vêm conversar com você sobre tudo, “Eu preciso de dentista”, “Você que é metida com essas coisas sociais me ajuda com tal coisa”. Acabei virando referência dentro da minha comunidade pelo que eu faço por ela, é gostoso você entrar em algum lugar e alguém te cumprimentar, falar com você porque reconhecem seu trabalho ali. Dentro das várias expressões de cultura, eu considero o que eu faço cultura. Acho que as relações dentro da favela são culturais. As pessoas têm referências pela sua família, tem uma conexão, um respeito. Por exemplo, na CDD tem um menino, Denis, que tem um problema cognitivo, a família não tem muito recurso, não tem muito cuidado, mas a favela toda protege, todo mundo cuida, ninguém implica, isso pra mim é muito cultural.

C U L T U R A

D E

F A V E L A

CIRCULAÇÃO PELA CIDADE

Pensar a minha vivência de favela com relação a cidade, acho que já muda na forma como você olha a cidade porque você sabe que nem tudo é assim, você consegue se ver distante em muitas coisas e de lugares próximos. Eu lembro quando pequena a gente tinha hábito de ir ao Rio Shopping, na freguesia, meu pai, minha mãe. Meu pai saía do trabalho, pegava a gente e ia comer pizza. Não era uma coisa que todo mundo da favela podia fazer, na época eu não entendia isso, achava que era comum, mas eu sentia o quanto eu era diferente daquelas pessoas que estavam ali na Freguesia. Lembro de uma propaganda nessa época, lançaram cartão de crédito para adolescente e eu ficava “Caramba isso deve ser muito legal, quero ter um”, mas na minha cabeça eu ficava assim “Eu nunca vou ter isso porque isso é coisa de gente branca, eu sou preta”. Eu ia pro Rio Shopping, tinha aqueles brinquedos e eu não me via igual em nada.


M E D O

E

M E M Ó R I A

Sem contar as memórias. Um dia estava no trabalho, que não é dentro de comunidade, começou a fazer um barulho de helicóptero e eu já comecei a ficar apreensiva, mas nada a ver helicóptero ali, não é operação. Isso já te marca, é impressionante que em qualquer lugar do mundo que eu for se ouvir um helicóptero já penso “Putz, tá começando operação”.

Acho que na questão da cultura de favela, do que representa, pensando nessa questão de raiz e relações, a gente consegue se colocar de forma mais humana diante de muitas coisas na cidade. Aprendemos mais a perceber que existem lutas, porque a gente vê mais coisas negativas e difíceis acontecendo do nosso lado, na nossa casa, na casa dos nossos vizinhos, precisamos ajudar um ao outro. Acho que o que eu faço são duas coisas diferentes, uma é a preservação da cultura da favela e outra é contribuir com a mudança do futuro das crianças. Tem a questão da raiz, de valorizar e saber respeitar as relações e as modificações são pessoais. Não precisa esquecer o que acontece na favela, ao contrário, é importante que lembre, que saiba o que acontece, mas não precisa ficar apenas enfiado na favela, você pode levar isso para uma outra trajetória na sua vida, pra outros lugares que você circula, pra você voltar com outros repertórios também. O problema social é gigantesco, uma questão que eu sinto é a importância de ter agentes que são da comunidade, que conhecem a realidade de todos os dias, ocupando outros lugares que sejam mais acadêmicos e de poder público. Por exemplo, lá no meu trabalho todo mundo é engajado, é dedicado e acredita muito nas causas sociais, mas não vive uma realidade próxima da favela. Minha relação com os jovens que meu trabalho atende é totalmente diferente, porque nós entendemos sobre nossa realidade, existe uma proximidade gigante por conta disso o que facilita muito o trabalho.

INFÂNCIA, PAI MARACANÃ E BAILE FUNK

A minha infância, meu pai meio que cortou em certo momento. Eu brincava muito quando era pequena, andava de bicicleta, a gente fazia competição de bicicleta na praça. A minha infância era muito isso. Eu sempre gostei muito de futebol, eu não jogava bem, só assistia ali na praça. Depois de um certo tempo veio aquelas coisas, preocupação, filha mulher, segurança. Quando eu fiz uns 13 anos meu pai começou a me cortar da rua, eu não ficava tanto, só ficava no portão. Eu ficava ali embaixo, mas já não ficava fazendo torneio de bicicleta, essas coisas de rua. Eu fui ter essa nova conexão de novo com o território já mais velha, quando eu podia dominar a situação. Essa parada de ir ao baile (funk) não é uma questão acadêmica, porque realmente eu vou, eu gosto. Ir para os bailes me dá de novo essa conexão com meu território, me reaproxima, eu gosto de estar naquele ambiente, gosto de ver as pessoas se relacionando, como elas são mais soltas, se libertam. Você vê que tem várias coisas erradas, mas nem todo mundo que tá ali tá envolvido com as coisas erradas que acontecem. A maioria, como eu, tá ali no seu momento de lazer e de vida da sua comunidade.

COM O PAI Eu sempre fui pro Maracanã com meu pai, desde pequena. A primeira vez que fui eu tinha uns 6 anos, era “Fla x Flu”. Lembro de ir e já no ônibus ser aquele tumulto, a torcida do Flamengo é mais tinhosa e a gente no ônibus, quase ninguém do Fluminense. Quando chegou no Gardênia, entrou maior tropa do Flamengo, começaram a xingar e a cantar várias músicas xingando o Fluminense, eu revoltada com meu pai “Pai! Você vai deixar eles falarem assim do nosso time?” aí ele “O importante não é a ida, o importante é a volta”.

Eu lembro que quando a gente chegou, aquele clima no antigo Maracanã, fomos na beirada e ele olhou pra arquibancada do Fluminense, tudo lindo, várias cores, os fogos. Ele falou “Olha isso! É lindo!” e foi aquela parada de tocar, foi lindo pra caraca mesmo. A gente ganhou, eles voltaram chorando no ônibus e foi muito bom. Depois aquilo virou um hobby, eu sempre gostei muito de acompanhar campeonato carioca, aquele hábito de ir pra praia de manhã e depois vai pro Maracanã pra ver o jogo. Libertadores, ia em todos os jogos, meu pai invadiu o campo, inclusive. É uma coisa que foi conectando a gente desde sempre.


CULTURA E ESTUDOS Eu sempre tive muito esse interesse na cultura, não era uma coisa que tivesse grande proximidade, não era uma coisa que meus pais me disponibilizavam, eles tinham a cobrança do estudo esperançoso salvador da pátria. “Tem que estudar, só estudando que você vai conseguir”, mas eles não tinham muita noção do que era estudar, era tipo “Vai pra escola técnica”. Meu pai sempre gostou muito de filme, então, a cultura do filme foi uma coisa que peguei com ele, mas arte, exposição, só fui conhecer na faculdade de psicologia. Na verdade, no Ensino Médio eu comecei a ter contato com Modigliani, mas poder ir para as exposições, museus, foi mais na vida adulta mesmo.

“CARACA, EU TÔ AQUI” Eu sou muito fechada, não sou uma pessoa muito do emocional, dificilmente eu choro na frente de pessoas e lá eu consegui. Chorei com vergonha, mas foi um choro de “Caraca, eu tô aqui”. Não era uma exposição só dele (Modigliani), tinha outros que também gostava e conheci mais obras. Você para pra fazer essa reflexão sobre o poder da arte, eu conheci isso quando estava lá, vendo aquelas obras. Foi muito destino também, a minha vontade de ir pra lá foi para conhecer o ambiente que o artista viveu, não foi pra ver a exposição. Quando eu cheguei no primeiro ponto da Itália, comecei a ver os cartazes do Modigliani, depois fui pra outra cidade e estava lá o cartaz de novo, depois fui pra Roma e de novo a exposição lá. Depois eu vi o cartaz grande, eu tinha acabado de sair do Coliseu. Neste cartaz maior tinha uma seta, eu não tinha visto cartaz nenhum com seta até ali, então queria dizer que estava perto, fui mostrando o papel “Aquilo ali é aonde?” até conseguir entrar “Caraca, eu não acredito que estou aqui, não pode ser real”, depois conforme fui vendo, tinha quadros que nunca tinha visto e foi ficando muito maior.

M O D I G L I A N I

E

R O M A

Conheci o Modigliani no segundo ano do Ensino Médio, me apaixonei, juntei dinheiro e viajei para Roma no segundo ano da faculdade. Eu sempre entendi, mesmo antes de entender o que era sublimar e tal, que a arte poderia expressar muitas coisas, que tinha entendimentos que ultrapassavam muitas coisas, nem que seja uma música que ouvimos e eu entendo de um jeito e você entende de outro. A primeira percepção foi com a música mesmo, eu e meu pai a gente tinha muito isso “O que você acha que ele tá falando quando fala isso?”, ele achava uma coisa, eu achava outra “Será que a pessoa que escreveu tava pensando isso ou tava pensando nada?”, já experimentava isso com meu pai. Quando conheci o Modigliani não foi nem a obra de início que me encantou, me encanta as cores que ele usa, cores quentes, esse estilo descreve muito a história dele. A ideia de ele ser totalmente apaixonado pela Jeanne, mas não querer largar seu estilo de vida boêmio. Ele era muito alma, muita entrega, muita sensibilidade, ela via isso nele e abandonou tudo pra ficar com ele, desde o momento que a viu se apaixonou. Uma parada maravilhosa que ele falava era que não ia pintar os olhos dela enquanto não conhecesse sua alma. Aquilo foi o que mais me tocou e um pouco antes dele morrer ele faz o quadro dela, desenhando seu olho e depois ela se mata. Era muita intensidade e ele expressava isso na pintura, era um estilo de vida. Ele representou muito o quanto uma obra artística pode representar todo um caos interno ou coletivo. A ideia de ir para Roma vem muito por ficar entrando nesse universo, comecei a gostar de Modigliani, comecei a ver outros artistas que eram daquele cenário de Roma, comecei ter curiosidade de ver o que acontecia ali, como seria Roma, aquela rua que esse artista circulava. Eu tinha uma condição muito privilegiada, lá em casa eu não precisava pagar as coisas, desde meu primeiro estágio eu não pedia nada aos meus pais, mas também não pagava nada. Eu tinha essa vantagem, conseguia juntar dinheiro e foi assim que consegui ir pra Roma. No meu primeiro estágio na Vale eu achava minha função inútil, mas fiquei no estágio, fui promovida e quando vi que o dinheiro que eu tinha juntado era suficiente para a viagem, fiz acordo e pedi demissão. Fui pra Barcelona, depois Roma. Foi muito maior do que eu poderia imaginar, você chegar em outro aeroporto, porque até então era tudo empolgação. Quando chega lá “Eu não sei falar. Eu não sei onde ficam as coisas”, baixei o mapa “Não sei onde é, o que fazer”, mas ao mesmo tempo você conversa com as pessoas, vê o quanto a vivência cultural lá é diferente daqui, o quanto coisas práticas acontecem pra que a cultura seja muito mais promovida que aqui.


O VALOR QUE A ARTE P A S S O U A T E R Acho que depois dali eu comecei a ver a arte pela questão do acesso, antes eu tinha muito a visão interna, da poesia. Da questão poética da arte. Acho que depois disso eu fui entrando mais ainda na área social, fui vendo realmente o quanto ela é acesso. Acesso como possibilidade de mudança mesmo, a pensar outras trajetórias. A importância dessa experiência foi o quanto ter tido contato com aquilo me fez querer conhecer mais. O quanto estar ali começou a me fazer querer muitas outras coisas com a arte e com outras coisas também.

M O M E N T O

O PÚBLICO DA CASA Vai muito da demanda deles, das crianças, às vezes eu escolho o livro, às vezes eles que pegam e querem contar um pro outro. As brincadeiras eu vejo muito do que eles estão trazendo, do comportamento deles, se está dando conflito ou não entre eles, as atividades vão muito de acordo com o grupo. Eles são muito impulsivos, eu vou escolhendo os livros dentro disso. “Lembra aquele livro que a gente leu que não pode fazer isso, que tem que ajudar o coleguinha” e por aí vai.

E M O C I O N A N T E

N A

C A S A

Acho que o exemplo vai ser até negativo, mas dá pra entender a lógica. Gosto muito quando tem evento na Casa, vem gente, todo mundo feliz, tem aquela troca, mas acho que um momento que mais fez sentido pra mim foi durante uma das oficinas com as crianças. Quando elas chegam lá colocam as fantasias. Teve um dia que um dos meninos estava com a roupa do Superman, eles estavam num daqueles momentos brigando um com o outro, falei “Vamos fazer um acordo aqui, combinar o que pode e o que não pode”. Peguei a cartolina, começamos a escrever. Num determinado momento eles começaram a confundir o que pode e o que não pode ali dentro, do que pode e o que não pode pra vida. “Não pode brigar, não pode arrancar da mão” aí um começou “Não pode roubar, não pode matar, não pode pegar em arma, não pode usar drogas” e aquilo já foi impactante pra mim, na hora que estava escrevendo pensei assim “Cara, se fossem outras crianças em outros locais, eles iam falar que não pode pegar em armas?”. Uma criança de 6 anos falando, não sei se aconteceria, mas enfim, fizemos o acordo e esse menino que estava com a roupa do Superman que falou que não podia fazer isso, não podia fazer aquilo. A gente saiu um pouco da casa, ficamos na praça e ele ficou rodando feito um louco na praça gritando que era o Superman com a capa, rodando, fazendo uns golpes. Nesse mesmo instante passou um cara de moto com uma AK (fuzil AK-47) gigantesca atravessada. O menino parou, olhou e já desvestiu a fantasia que ele estava e entrou de novo naquele universo, começou a cantar várias músicas de facção, começou a fazer coisa de arma e começou a querer ir pra perto do cara. Por isso eu falei que poderia ser exemplo negativo, mas eu fiquei pensando na importância que é preciso fantasiar, é preciso que ele tenha direito a isso, porque da fantasia vem muita coisa. Quando eu pensei em ir pra Roma era uma fantasia, não ia ser uma realidade nunca porque meu pai não ia me dar uma passagem pra lá, minha mãe muito menos, então, era uma fantasia. A gente precisa fantasiar em algum momento, ainda mais quando a gente tem um território que tem tanta coisa, tem muita coisa positiva, mas também tem muita coisa negativa, se você só vê a realidade que não é boa, não vai ter outras perspectivas. Eu não quero daqui há uns anos passar lá e ver que esse menino está na boca, assim como eu vejo hoje meninos que eram colegas meus, que agora estão lá com fuzil e eu fico me perguntando “Por quê?”. Eu sei que o que faço na Casa é muito pouco, eu não tenho como ficar ali todo dia, mas ainda que seja pouco possibilita que por algum momento ele fantasie, acho isso importante, é necessário.


Q U A N T O S

P R E T O S ?

O MAR é o museu que mais gosto. A primeira vez que fui já estava na faculdade. Quando fui eu adorei, fui numa exposição falando de favela, do Valongo, foi um momento que comecei a despertar mais sobre a necessidade da gente falar sobre aquilo ali, de estar se colocando, da gente tá se representando como pessoa negra e entendendo a importância do que a gente carrega. Meu pai sempre teve aquela parada de ir em qualquer lugar e contar quantos pretos tinham, ele sempre fez muito isso “Quantos pretos?”. Eu tinha essa percepção, mas quando meu pai falava ele não sabia expressar, só contava e causava em mim mais uma sensação de impotência “A gente é sempre minoria”. Não era uma parada de se renegar, de se entender como uma pessoa menor, ele falava que a gente tinha que se potencializar porque tinha pouco, mas causava essa sensação porque ele só sabia falar o número. Quando eu fui entrando mais na história da nossa raça fui vendo o quanto é importante a gente se valorizar, e a gente falar que é preto sim. Não sou moreninha, não me chama de moreninha, pode falar que sou negra, eu gosto, é bom.

O VA L O R D A C U LT U R A

Eu acho que o valor da cultura passa pela conexão, conectar pessoas e coisas, principalmente pessoas. Como falei, eu sou uma pessoa muito fechada em muitos momentos, muito individualista, eu gosto do coletivo, gosto dos meus amigos, mas eu também tenho muita necessidade de ficar sozinha. Eu sou aquela pessoa dada de cara, mas ao mesmo tempo eu não sou tão aberta. Acredito que quando você está num local de representação de ação cultural tem uma certa coisa que te conecta, que te dá permissão pra falar e se abrir. Assim é a relação das crianças na Casa, ninguém se conhece, mas criança tem mais facilidade para se conectar e falar, a gente depois se fecha pro mundo. Acredito que a Casa é um lugar de experimentação para essas crianças não se fecharem pro mundo. Eu não sei se vou explicar bem, não sei dizer qual o valor de uma forma imediata. Eu acho que passa um pouco por isso, estimular. Estimular que outras possibilidades aconteçam, de forma coletiva e de forma individual. Eu acho que quando a gente faz esse tipo de ação a gente permite que pessoas sonhem, projetem, sejam as crianças, sejam as mães, seja quem for. Quando a gente faz isso apresenta outras trajetórias e eles podem querer fazer algo que seja muito importante pro crescimento individual, como pode também se conectar com a necessidade de fazer algo coletivo. A gente que vem da favela e atua na favela consegue pensar em mudanças melhores, acredito nisso. Eu acho importante que a gente esteja juntando a conexão com território, com nossas formações, com a cidade. Quando a gente projeta só seguir a vida, sem fazer o resgate da cultura, sem ter um local de conexão, você acaba só fazendo que a pessoa vá e aí tem um monte de gente que de certa forma passa até a repudiar o lugar de onde veio. Tenho alguns amigos que eram de lá e que falam muito do quanto tem que matar bandido mesmo. Eu não fico chateada com as pessoas porque eu sinto que elas precisam falar isso pra negar que aquilo fez parte dela. É importante que a gente cresça, mas que a gente continue tendo conexão, pra não ser só alguém que cresceu e que foi embora do seu lugar sem realizar nenhuma mudança.


Bruno Ferreira tem 22 anos, é publicitário em formação, produtor cultural e tracer. Morador do Mandela, participou das formações para a juventude no Pontão (2015) e sempre esteve pronto para pôr seus desejos e boas ideias em prática. Para Bruno, o valor da cultura é experimentar o mundo depois que a cultura te tira da zona de conforto.

Redes Sociais

Instagram: @bla_bla_bruno Facebook: /bruno.dasilva.18294


PRÉDIO ABANDONADO

EM MANGUINHOS

OCUPADO

PELOS JOVENS COM

ATIVIDADES

Tinha um prédio em Manguinhos que, se eu não me engano, era uma base de armazenamento militar, só que depois que fizeram os prédios habitacionais esqueceram esse abandonado no meio das coisas novas. Como fazíamos parkour, decidimos explorar o espaço. Um jovem foi, contou para outro, e assim foi. Nós já vivíamos ali, brincávamos ali, nos divertíamos, treinávamos, bebíamos ali. O pessoal da dança se organizou, criou o grupo Imperadores da Dança, e ensaiavam lá. Eu ia pra dançar, fazer grafite, parkour, treinar luta. Dancei muitas coisas, Hip Hop, break. Hoje em dia no prédio moram outras pessoas e ficou inviável, mas antes era completamente abandonado e nós ocupamos.

VIRADAS DE ANO

NO PRÉDIO Não sei precisar quando começamos a ocupar o espaço, mas lembro que passamos duas viradas de ano no prédio, lá em cima vendo a queima de fogos. Todo mundo foi lá para o alto porque dava para ver toda a cidade. Foi um momento incrível. Podia ser uma cena final de um filme (risos).

C O R A G E M

DE OCUPAR ESPAÇOS Eu tinha 13 anos nessa época. O que me dava coragem para ocupar aquele espaço, que eu podia até cair, era a vontade de fazer coisas, dançar, fazer parkour, era a sensação de ter um lugar no mundo que fosse meu. Eu já treinava muito e há bastante tempo, já procurava um lugar legal e achei esse lugar, naquele prédio abandonado no meio de Manguinhos. Nós, eu e meus amigos, já atravessamos pontes, viadutos. É muito revigorante ver a cidade de noite. Outra cena de filme: ver os carros indo e voltando por cima do viaduto. Ver as cores vermelhas e brancas dos faróis e das lanternas e a gente em cima do viaduto vendo isso e tomando refrigerante.


PARKOUR É ESPORTE V A L O R E S , C Ó D I G O S E É T I C A E C U L T U R A D O PA R K O U R Parkour é esporte e também é cultura. É algo natural. Quando criança você quer escalar. Se você deixar uma criança dentro de um berço, ela vai querer escalar o berço para conhecer o ambiente. A gente resgata isso um pouco no parkour. Você mora dentro da favela e as pessoas não olham para cima. Olham para frente e olham para trás, mas não olham para cima. Quando você olha para cima, é totalmente diferente.

COMO COMECEI A TREINAR

P A R K O U R O David Bailey foi o cara que começou o parkour lá na França. Uma reportagem aqui no Brasil anunciou ele falando sobre o parkour e fiquei querendo saber o que era aquilo, ansioso para treinar. Eu era pequeno e tentava imitar os movimentos. Lá na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) tem uma biblioteca e eu ia lá para cima para ficar pesquisando. Dizia que era trabalho de Educação Física da escola, imprimia os movimentos de parkour e tentava imitar. Eu até conseguia fazer algumas coisas mas só fui treinar no Ensino Médio. Montei um grupinho e foi aparecendo gente e mais gente.

No parkour você tem que ser forte para ser útil. Você precisa treinar para ser útil para a sociedade. O David Bailey falou isso uma vez e repercute em mim até hoje. Você tem que conhecer o ambiente, você tem que se conhecer acima de tudo. É desenvolver a cultura do conhecimento. Se conhecer para se manter a salvo, estando a salvo, você será útil para a sociedade.

Eu sempre priorizava esses valores dentro do grupo. Sinceramente, é a parte mais bonita. É maneiro mandar os movimentos, porque as pessoas chegavam lá, aplaudiam, mas muitas das vezes não estavam nem ligando para o que a gente estava fazendo, queriam ver a gente cair. Depois de um tempo, viam que não caíamos, então desistiam, se afastavam e deixavam a gente treinar em paz. Mas esse era o princípio: seja forte para ser útil. A gente repetia, repetia, repetia até ter um destaque no que estávamos fazendo. Tinha uma galera do Ensino Médio que formavam mini grupos para treinar para poder sair ou conquistar alguma menina. Tipo quando você está jogando bola, vira um artilheiro e tem umas meninas olhando? É tipo isso. Depois de um tempo você vai treinando e ganhando gosto por aquilo, você passa de nível. Começa a ter conhecimento do seu corpo no lugar onde você está. É difícil explicar, tem uma relação entre você se conhecer e conhecer o lugar onde você está.


O QUE A POESIA

HIPERATIVIDADE

ME DEU E ESCOL A A poesia me deu uma curiosidade muito maior a respeito de tudo. Tudo o que é explicado, mostrado pra gente, foi feito por alguém que pensou aquilo meses e meses antes e quando me deu esse estalo, foi quando eu estava escrevendo. O curso, escrever, foi algo que me incentivou muito, me levou para lugares que eu ainda não tinha ido.

Eu tenho hiperatividade. É meio tenso, mas na escola era briga o tempo inteiro, eu não conseguia prestar atenção e a minha mãe, para que eu gastasse energia, descarregar, me colocou para fazer cursinhos, desenho, tudo o que ela conseguia. Treinei jiu-jitsu, fui pra capoeira, mas não deu muito certo. Aí fui para o karatê e fiquei lá direto, me encontrei.

KARATÊ, QUIMONO E BANDEIRAS COM O NOME DAS COMUNIDADES Minha mãe não tinha dinheiro. Ela falava “Arruma um esporte barato, vai jogar bola que é mais barato!”. Só que eu nunca fui bom de bola, mesmo correndo nunca fui de fazer gol. Eu sou muito ruim jogando bola e então eu fui para o karatê. Comecei faixa branca como todo mundo, mas não tinha dinheiro para comprar o quimono e sem quimono, você não faz graduação para poder passar de faixa. Eu fiquei dois anos fazendo karatê com faixa branca e mesmo com faixa branca eu lutava com faixa marrom, faixa preta, porque eu estava acostumado a lutar. Até que uma hora falaram “Bruno se gradua porque você já está indo para torneio e não pode lutar com o pessoal da faixa branca, é covardia”. Um amigo do karatê me emprestou o quimono, fiz a graduação dupla e pulei de faixa. Não fui para amarela e sim direto para a vermelha. Depois não fiz mais graduação nenhuma. E toda vez que eu ia para o torneio eu não tinha quimono e mal conseguia dinheiro para pagar a ida. Eu carregava compras, aprendi a consertar computadores, tudo para conseguir dinheiro para pagar as inscrições nos torneios e para o quimono, mas não consegui comprar o quimono. Aí o pessoal falou que tinha um cara que tinha um quimono e que talvez pudesse me emprestar. Fui lá conversar com ele e ele disse que me emprestava o quimono e se eu ganhasse era pra levantar a bandeira (com o nome da comunidade) e assim foi. Quando eu precisava lutar eu pegava sempre quimonos emprestados. Peguei uns quimonos muito bizarros, sempre maiores que eu. A única coisa que era minha era a faixa. Quando eu voltar para o karatê, vou comprar um quimono (risos).


HABILIDADE DE VENDER UMA SENSAÇÃO

TÉCNICO DE COMPUTADOR

SEM SABER LIGAR O COMPUTADOR A habilidade de vender, mesmo algo imaterial, vem da cultura empreendedora de quem tem que se virar para viver. Eu já consegui um trabalho de técnico de informática, sem saber nem ligar o computador. Eu tinha uma tia que queria comprar um computador novo para a filha dela e pediu para eu pegar o computador velho para mim, um computador antigão, o meu objetivo era fazer o computador funcionar. Resolvi indo numa loja de informática, perguntava o que eu precisava fazer para o computador funcionar. Olhava e imaginava as partes do computador, porque eu não tinha celular para tirar fotos. Fiquei assim o dia todo, indo na loja no Jacaré e voltando em casa tentando fazer o computador funcionar. Na comunidade do Mandela tinha uma loja de informática que só funcionava à noite. Fui até lá no fim do dia e pedi ao cara para ir na minha casa olhar meu computador. No caminho, fui conversando com ele dizendo que eu já tinha feito cursos de informática e ele me chamou para trabalhar. No dia seguinte comecei a trabalhar na loja do Mandela. Trabalhei três anos na VASP, que tinha esse nome por causa da piada “Vagabundos Anônimos Sustentados pelos Pais”. O dono da VASP só abria a loja à noite e quando dava. Quando eu comecei a trabalhar lá, ficava mais tempo na loja que ele e nessa, botei fogo em placa mãe, dava curtos nas coisas, mas eu recebia incentivo para treinar. Eu cheguei a fazer curso de informática, mas eu fui reprovado e um dia, a professora que me reprovou foi na loja para consertar um computador e disse “Eu conheço você!”. Consertei o computador. Chegou um tempo que a loja cresceu, eu não dava conta de todos os serviços que apareciam e o dono da loja me autorizou a procurar uma outra pessoa para me ajudar. Como tinham uns garotos que apareciam sempre para conversar, teve um que eu chamei para trabalhar e ensinei tudo o que eu sabia. Quando eu saí da loja, ele ficou no meu lugar e depois de um tempo o rapaz vendeu a loja e agora lá é um churrascão.

APRENDER A ESCREVER

POR CONTA DA HIPERATIVIDADE

CURSO DE ESCRITA Eu tive dificuldades para aprender a escrever. Quando você não para quieto, é difícil entender o que a professora está ensinando. Fui aprender a me concentrar depois de um tempo, fui à fonoaudióloga, encontros com psicóloga para poder aprender a me colocar, mas não adiantou muito não. Num desses dias, após a escola, fui jogar basquete e me chamaram para fazer um curso chamado Turista Aprendiz. Lá eu fui estimulado a escrever uma poesia e gostaram. Era pedido que a gente sempre escrevesse para levar na outra aula, mas eu nunca conseguia fazer em casa então enquanto os outros apresentavam na roda, eu escrevia a minha poesia na hora e o pessoal perguntava “Nossa, você criou isso agora?”. Sim, se fosse para criar antes, eu não conseguiria.


M Ã E E APRENDER LEVANDO PARA REL AÇÃO DA MÃE

COM A HIPERATIVIDADE

A ANDAR NA RUA Quando minha mãe me viu hiperativo, imediatamente começou a pensar em coisas para me ocupar. E eu acho que ela não tinha noção disso. Porque quando eu era mais novo, a minha mãe tinha medo, onde a gente morava era conhecido como Faixa de Gaza.

Era perigoso sair para a rua e ela me falou “Não tem como você sair se você não souber andar na rua”. Eu era muito desligado, andava olhando pra cima, para tomar um tiro era assim (estalo de dedo). Aí o que a minha mãe fazia: pegava eu com uns seis anos e meu irmão com dois pelas mãos e levava pra rua. A gente ia olhando e ela ia orientando “Tem que ter cuidado, se você ouvir um barulho tem que olhar pra cá”, esse tipo de movimentação. Geralmente tinha um cara vendendo sorvete e ela comprava um picolé para cada um. A gente ficava ali batendo papo e depois a gente voltava para casa, ela fez isso durante meses.

CENTROS

CULTURAIS

Minha mãe tinha medo que eu ficasse como grande parte dos meninos que eram nossos vizinhos, que acabaram entrando para o tráfico. Da época de escola sobraram cinco, eu fiz a conta de pessoas. Lembro de um garoto que me enchia o saco na sala de aula. Há pouco tempo estava passando na TV uma matéria falando sobre tráfico. Apareceu a foto dele preso e era a última pessoa que faltava da lista dos cinco. A maioria das meninas engravidaram, os meninos viraram traficantes e eu, querendo ou não, saí da curva ali. Minha mãe me levava para o Theatro Municipal, com a entrada por R$ 1,00. Lá assisti peças como O Fantasma da Ópera e Lago dos Cisnes. Essa coisa da minha mãe me levar pra fora de Manguinhos, em centros culturais, porque era barato, me mudou muito.

LIVRO DO RIO AO MAR

O texto que eu fiz pro livro “Do Rio ao Mar”, onde foram publicados meu texto e de várias outras pessoas, eu escrevi sentado num banco de praça porque estava tendo baile funk do lado da minha casa (risos). Chama-se Uma História Para Lembrar e começa assim “Esta história começa com um garoto que chamaremos de Alex, e que, com seus onze anos, já tinha sua cota de problemas”. O professor que acompanhava as sessões de escrita pediu para contextualizar num ambiente que a gente foi e eu troquei todos os lugares do Rio de Janeiro e joguei para São Luiz. Tecnicamente é um pedaço da minha história. Eu me sinto muito orgulhoso por ter escrito uma história.


A C U LT U R A M E D E U P E R C E P Ç Ã O D E V I D A

A cultura me deu tanta coisa. Me deu uma direção na faculdade que queria fazer, na profissão que quero. Me deu percepção de vida, eu descobri o que eu queria fazer depois que eu fiz um projeto. Fiz um filme e vi que mexer com publicidade era algo bem interessante. Entrei de cabeça e fui, me criou curiosidade. Dancei, fiz esportes, circo, filmei, ainda faço parkour, escrevo, faço faculdade de publicidade e sei consertar computador que é uma maravilha (risos). A cultura me deu um rumo, mas não é que foi só uma direção, querendo ou não eu ia tomar uma direção, mas mudou a direção que eu ia tomar. Me baseando no ambiente normal, se minha mãe não tivesse me forçado, organizado “Você não vai ficar aqui, você vai ficar aqui e daqui você vai”, se ela não tivesse feito isso, era capaz de eu estar na notícia como tantos outros meninos negros que moram na favela.

C A D E R N O É P O C A

Q U E

P R E T O HISTÓRIA DO ALEX (LIVRO)

E S C R E V I A

É UMA HISTÓRIA PESSOAL

Eu gosto muito de fazer coisas relacionadas ao corpo, dá uma sensação, libera muita energia de uma vez. Quando eu escrevo também, só que a energia não vem do corpo, vem da cabeça. Quando eu comecei a escrever eu decidi gastar isso no papel. Andava com um caderninho preto que encapei com fita isolante e comecei a escrever. Era uma história diferente a cada página e na época eu tinha vergonha do que escrevia. Pra ninguém ver, até por que eu era muito zoado na escola - pra alguém abrir a minha mochila e ler tudo aquilo era um passo - eu escrevia, rasgava e jogava fora, escrevia, escrevia, rasgava e jogava fora. Se eu pudesse voltar no tempo e escrever tudo de novo, eu já teria um best-seller (risos).

Essa história do Alex, o menino do conto é pessoal, eu vivi. Eu estava namorando, uma das minhas primeiras namoradas, ela morava em cima da minha casa e a avó dela era meio racista e afastava a menina de mim. Na época eu não entendia e pior é que ela nem era branca. A gente se gostava, namorava escondido, a avó dela não sabia e minha mãe trabalhava a semana toda. Ela morreu atropelada na frente da Fiocruz e isso mexeu comigo de forma absurda. Eu andei durante muito tempo com o nosso anel de compromisso. Na época, eu estava tão mexido que fiz uma história baseada nessa história e, quando fui entregar para o redator, ele gostou mas disse que a intenção do livro não era ter uma história com o final triste. Então eu troquei o final e romantizei um pouquinho.

E

E M

J O G A V A

F O R A

ESTUDANTE DE PUBLICIDADE R E F E R Ê N C I A

N A

R O D A

D E

R I M A

Eu vivi na favela a vida toda, ainda vivo, em Manguinhos. Minha vivência fora da favela sempre teve o sentido de ir lá fora, buscar um pouquinho, e voltar. Ter aquela absorção fora, mudar, e voltar, sair e fazer de novo. Eu sinto que estando dentro da favela, não só morando, mas convivendo, sabendo como as pessoas estão, dá pra fazer um diferencial, comunicar para essas pessoas. Por exemplo, tinha que fazer um trabalho na faculdade sobre milk shake, pessoal foi pegar referências na biblioteca enquanto eu fui estudar na roda de rima. No mesmo dia fui para a roda de rima, fiquei assistindo e o garoto começou a zoar, chamando o outro moleque de palhaço. Eu pensei “Maneiro, vou usar isso!”. Usei referência de grafite e escrevi na propaganda “O palhaço quer virar rei”.


Eduardo Henrique Baptista tem 33 anos, é empreendedor, publicitário, DJ, fotógrafo e produtor cultural criado no Chapéu Mangueira. Ativista cultural e comunicador social na favela onde mora, é coordenador de projetos na produtora Maneh Produções & Eventos, que fundou a partir da metodologia da Agência de Redes para Juventude (2011). Para Eduardo, o valor da cultura é a preservação da cultura local, defendendo a identidade do indivíduo e do seu território.

Redes Sociais

Instagram: @dududoleme Facebook: /dududoleme


SE DESCOBRINDO

C O M O

P R O D U T O R C U L T U R A L

Eu me descobri como produtor por causa de um evento que produzi e não deu certo. Precisei ter que estudar um pouco mais sobre a lógica de construção de eventos para conseguir alvarás, documentações necessárias e conseguir fazer eventos fora do âmbito doméstico que era como nós fazíamos os eventos no território. Quando começamos a tentar descobrir a rua fomos embarreirados de organizar o evento.

Produtor cultural de favela, pra mim, é pensar na lógica de colaborar com as culturas que já existem na Babilônia e transformar em produtos para devolver aos moradores. Eu pego a cultura dos eventos e tento ampliar, indo desde o culto na igreja e a festa no Dia das Crianças, ao baile, a roda de samba ou o almoço de senhorinhas da Igreja Católica. Eu coloco todas as atividades que podem ser realizadas dentro do espaço da favela como eventos, que pode ser tanto um seminário como um baile, tudo pra mim está no campo de realização de eventos.

PRODUTOR

Nesse momento eu estava começando o processo de construção de ideia de projeto dentro da Agência de Redes para Juventude, comecei a pensar em transformar a ideia de fazer festas em projeto. Imaginei que a minha melhor ideia era profissionalizar aquilo que fazíamos como hobby, por diversão, para poder conhecer pessoas, para nos divertirmos.

D E FAVE L A LIDERANÇA CULTURAL Quando eu me percebi como produtor cultural de favela e não mais um realizador de eventos, eu ganhei responsabilidade para caramba e crítica, porque na verdade existe uma carência de lideranças culturais nesse sentido. Muitos não têm interesse de colaborar com a cultura, mas têm interesses políticos, usufruir da cultura da favela e não dar nenhum retorno para ela.

No momento de campanha eleitoral, começam aparecer diversos produtores querendo fazer coisas na favela, distribuir alguma coisa e depois que acaba esse momento, ficam anos sem aparecer. Eu estou sempre lá!


H A B I L I D A D E S

A habilidade que eu ganhei nesse processo de descoberta como produtor cultural de favela foi planejamento. Quando você fala “Vai ter 220 pessoas nesse evento, quanto vamos precisar de cerveja?” tem que planejar, mas você não tem a prática de colocar no papel. Não é só achar quanto vai precisar, não é só a lógica intuitiva, a gente precisa aprimorar as técnicas para chegar num valor menos errado, porque nunca é totalmente certo. A parte que mais gosto é a de criar os eventos, trazer uma nova tendência, que pode estar em outra favela e que as pessoas do meu

CIRCULAR A CIDADE

Um dos papéis do produtor cultural de favela é observar tendências de outras favelas, eu me coloco nesse lugar. De circular pela cidade, conhecer novos lugares. É importante olhar as outras favelas, as outras ações, outros lugares. Entender que aquilo pode se encaixar lá, que aquilo é importante para aquele lugar.

território nem sabem que existe e eu levo para lá, para a favela onde eu moro. Vou dar dois exemplos de criações minhas: existe agora uma tendência de feiras, que é o que estou produzindo agora. Feirinhas de vendas de roupas, arte. Existe em várias favelas, mas na favela onde eu moro, não existia. Então pensei “Aqui existem vários empreendedores que vendem suas coisas, mas não concentrados em um só lugar, por que não reunir todos esses empreendedores em um mesmo lugar?”. Pronto, já é um produto da favela. Eu estou terminando agora um projeto de um festival de culturas afro, que eu não vejo muito nas favelas da zona sul, onde eu moro, mas na zona norte da cidade eu vejo bastante produção. Rodas de jongo, rodas de histórias africanas, oficinas afro dentro da favela, é uma cultura que começo a resgatar de outros lugares e levar para onde eu moro. R E F E R Ê N C I A

N O

T E R R I T Ó R I O

A confiança dos moradores da Babilônia em mim veio antes de eu me afirmar como produtor cultural, porque eu já fazia coisas no território. As pessoas sabiam qual evento eu estava fazendo e já criavam uma expectativa de que seria legal, pelo esforço que eu fazia pra entregar um serviço de qualidade. Então quando eu me tornei produtor, já tinha esse histórico das pessoas confiarem. Eu virei referência pelo o que eu faço e como eu faço, isso não tem preço, não tem dinheiro que pague essa satisfação.


NOVOS VALORES

O valor que eu ganhei quando eu deixei de ser um garoto que fazia eventos e passei a trabalhar em defesa da cultura de favela, foi começar a entender muitas culturas, principalmente a cultura da diversidade: da mulher, do LGBT, do negro, do empreendedor em diferentes linhas. Eu comecei a compreender muito mais e a respeitar essa diversidade local que é um hábito cultural. Antes eu não sabia identificar as culturas, eu não conseguia identificar o racismo como eu consigo identificar hoje. Muitas vezes, as pessoas faziam comentários racistas sobre mim e eu não entendia, não identificava. Eu me compreendi nessa lógica da cultura. Eu sou umbandista, nascido e criado dentro do terreiro. Antes de trabalhar com a cultura eu tinha muita vergonha de ser umbandista. Às vezes eu tinha que trazer algo para o terreiro, eu escondia os objetos em sacos para que as pessoas não soubessem que eu fazia parte daquele universo.

ASSUMINDO A IDENTIDADE

A ideia de me assumir como produtor cultural também me deu coragem para me assumir como homem negro, favelado e umbandista. Quando eu comecei expor isso, muitas pessoas pararam de falar comigo por discriminação, as pessoas não queriam dialogar comigo e me ignoraram. Têm muitas pessoas que eu passo, dou bom dia e viram a cara. Mas estou fazendo tudo de cabeça erguida e agregando outros valores com tudo que faço para a minha favela.

P R A Z E R E S O prazer que eu tinha quando eu era garoto e reunia amigos em festas na laje e o que eu tenho hoje em dia acho que é o mesmo. A capacidade de mobilização de pessoas. A mesma coisa que eu gosto de fazer, tem muita gente que gosta. Vou fazer um evento, vou colocar umas bebidas, um som, eu estou pensando em mim e nos meus amigos. Quando você faz um evento que mobiliza pessoas, você se sente bem. O Baile do Chapéu é um marco para mim. Eu pensava que iria trazer aquele funk da década de 90 e ninguém iria curtir. Organizei o baile e deu mais de mil pessoas no evento. Percebi que tinha muita gente que gosta do mesmo que eu. Me senti pertencente.

CONSERVAR

A

C U L T U R A

L O C A L Tem um diferencial muito grande na favela que eu moro que é o Chapéu Mangueira. Ela é uma favela da Zona Sul. Existe um trânsito muito grande de pessoas de fora no território. É difícil até conservar a cultura local com novas culturas sempre chegando. No meu caso, quero conservar a cultura dos eventos. Aconteciam muitos eventos no Chapéu Mangueira, alguns foram acabando. O Baile do Chapéu Mangueira, por exemplo, ficou 20 anos sem acontecer. O Chapéu Mangueira tinha um bloco de carnaval que também acabou há 20 anos. Os integrantes mais antigos estão morrendo e com aquele desejo de que o bloco volte. Muitos jovens não fazem a menor ideia do que foi o bloco e a importância desse bloco para a comunidade, como integrou a comunidade. Tem uma crítica que faço muito importante: a política da polícia pacificada aconteceu lá durante um tempo e ela de alguma forma separou as pessoas, as lideranças. Cada um tinha um projeto, cada um pensando no seu umbigo, construindo suas instituições, ONGs, mas ninguém se comunicava mais. Quando a pacificação deu errado, todos começaram a querer se unir. Quero preservar os coletivos, para todos trabalharem em prol da comunidade e não apenas nos seus projetos individuais. É preciso ter um lugar onde todos trabalham em conjunto.

CULTURA E P A Z Trabalhar em prol da comunidade, em conjunto, é algo que a cultura faz mais do que qualquer outra coisa. É um valor. A cultura tem a capacidade de juntar as pessoas, não importa a linguagem. Todos estão pensando na paz comunitária. A paz é uma cultura de favela que todos estão em busca.


PRODUTOR CULTURAL

DA CIDADE X DA FAVELA Como eu trabalho muito com favelas, eu circulo muito por favelas. Quando eu dialogo com produtores culturais que não são da favela e eu me apresento como um produtor de favela, eles me colocam no lugar do cara que só faz o baile funk. O baile foi um dos sessenta e poucos eventos que eu fiz.

Não me colocam no lugar do cara que organizou uma mostra de artes que deu mais de cinco mil pessoas e, depois do evento, algumas pessoas ainda vieram perguntar se éramos nós que tínhamos organizado a mostra. Ou seja, sempre somos colocados no âmbito folclórico de que o produtor de favela é simplesmente o realizador do baile ou da roda de samba. A cultura me deu a capacidade de análise. É a lógica do produtor. Porque você precisa analisar a todo o momento se o evento, projeto ou ação está funcionando, se é possível realizar onde você quer, etc.

I R C U L A R EVENTOS DE C A S F A V E L A S FORA DA FAVELA

Um dos primeiros eventos de fora da favela que eu fui para me inspirar e que eu mais gostei foi o Sarau do Escritório. A Veruska, que coordena a Agência de Redes para Juventude, estava envolvida na organização dessa edição do Sarau e eu não conhecia mais ninguém. Achei a construção do evento e o ambiente algo maravilhoso, perfeita a possibilidade de qualquer pessoa expor a sua arte, poesia, performance, música, qualquer coisa. Eu quis muito colaborar de qualquer jeito com o evento e consegui emprestar uma caixa de som. Depois eu comecei a pesquisar as rodas de jongo pela cidade e comecei a frequentar o jongo da Lavradio, o jongo da Lapa e o jongo de Madureira.

A

F O R Ç A

Eu não circulava as favelas antes de me tornar produtor, não antes da pacificação. Eu circulei muitas favelas que tinham Unidade de Polícia Pacificadora. A UPP trouxe a possibilidade de circular as favelas. Antes tinha disputa com as facções rivais. Eu só podia circular em favelas que eram dominadas pela facção do território onde eu morava. Depois da UPP, não me importava. Circulava direto. A produção cultural me deu essa motivação. As ferramentas de ser um produtor, de analisar o que deu errado, o que aconteceu e usar aquilo como aprendizado para as próximas realizações. Circular em outros eventos, em outras favelas me traz um estudo, me faz ver na prática muita coisa que me alimenta para novas criações.

D A

C U L T U R A

A cultura me deu muitos valores, como me afirmar na minha identidade, perceber a cultura da região, ser reconhecido como liderança, me deu ferramentas de análise, não me frustrar, pensar em criar, correr riscos. Eu conheço vários produtores, mas não que participam da mesma empreitada que eu da cultura da favela. Não são muitos. Têm muitos produtores que não são da favela, mas atuam na favela. Conheço pessoas da minha geração que não são produtores, mas que possuem essa minha força. Conheço poucos, mas conheço. Não de onde moro, mas de outras favelas. Hoje temos vários eventos culturais nas favelas, mas sabemos que não é apenas a lógica de contribuir com a cultura local. O cara chega, mobiliza um pouco de pessoas, faz o evento, vai embora e não deixa nenhum valor para a favela.


E M O Ç Ã O

NA CULTURA

Uma das coisas que me emociona como produtor de favela é a capacidade de mobilização que um evento tem. Quando vou a um evento e vejo pessoas emocionadas com aquela ação, é o que de fato me emociona. A arte provoca e a cultura emociona, eu acho. O produtor precisa ver as pessoas emocionadas, felizes, extasiadas com aquela ação que ele está fazendo. Eu fiz uma instalação artística há um tempo atrás onde eu montava um presépio. Primeiro foi um estranhamento, porque não era um presépio comum, tradicional, era um presépio artístico e provocava mais do que emocionava. Foi então que começaram a deixar flores no presépio, tinha uma senhora que se benzia em frente ao presépio e não era nada daquilo, era só uma instalação artística, mas passou a emocionar. Quando não teve no outro ano, as pessoas sentiram falta.

RODAS DE SAMBA

Eu frequento muito rodas de samba. Já me emocionei em uma roda de samba na Pedra do Sal, por ser uma roda de samba produzida e tocada só por mulheres. Foi uma emoção diferente, diferente de uma roda de samba tocada apenas por homens. Todo mundo tem que ir um dia em uma roda de samba produzida por mulheres. É uma outra experiência. É uma outra emoção, emoção de ver o avanço, de como já existiu muito preconceito com mulheres no samba e hoje é uma cultura que contempla a diversidade de gênero.


F U VA LOR T U DA R O CULTURA Eu entendo a cultura como espaço de possibilidade, de oportunidade. É preciso, não apenas usufruir, consumir cultura, mas defendê-la e também combater diversos tipos de preconceitos, inclusive com culturas que não são nossas.

Para o futuro, eu desenhei um projeto e estou com grande dificuldades de captar recursos para desenvolvêlo. Estou fazendo um curso para aprender a fazer captação. É um festival de culturas afro-brasileiras em que eu fiquei um ano desenhando. Será um evento grande no Chapéu Mangueira e acho importante acontecer lá .

Quando eu sofri com intolerância religiosa, eu entendi que era preconceito com a cultura afro-brasileira, pela minha religião ser afro-brasileira. Quero desmistificar esse preconceito levando um evento como o Festival de Culturas Afro-Brasileiras para o território e para a cidade colaborando com a erradicação do preconceito.


Christian Telacio tem 25 anos e é morador da Babilônia. Foi aluno e coordenador da Escolinha Tia Percília, importante Ponto de Cultura da Babilônia, que desenvolvia projetos de arte e educação voltados para crianças e adolescentes. Christian participou das formações para a infância no Pontão (2015) e atua como articulador e mobilizador cultural em seu território. Para Christian, o valor da cultura é multiplicar aprendizados e potencializar o jovem dentro seu território.

Redes Sociais

Instagram: @telacio56 Facebook: /christian.telacio


ESCOLINHA

DA TIA PERCÍLIA O Ponto de Cultura Escolinha da Tia Percília faz parte da minha história de vida, eu comecei muito cedo na Escolinha. Quando eu tinha oito anos, minha mãe já tinha três filhos, a minha segunda irmã nasceu com síndrome de Down, então, não sobrava muito tempo para mim. Com a abertura da Escolinha da Tia Percilia na comunidade, minha mãe achou um refúgio para mim e uma oportunidade para que eu estudasse. A escolinha era de pau a pique na associação de moradores, isso nos anos 2000. A Tia Percília levava as crianças da comunidade para visitar centros culturais, teatros, museus, muitos dos lugares que eu conheço hoje foi graças à Escolinha. Aos doze anos, Tia Percília enxergou meu potencial e investiu para que eu pudesse ser um colaborador das ações do projeto. Eu ficava no turno da manhã, de 8h às 11h, mas isso não substituía a escola, era um reforço escolar. Tinha aula de dança, teatro e o que mais ela conseguisse para agregar à escola. Comecei fazer aula de dança com doze anos. Um ano depois, eu fiz uma apresentação de teatro na Escolinha sobre o direito das crianças e adolescentes, o espetáculo chamava-se “Como é Bom ser Criança”. Fizemos uma apresentação para comunidade, depois conseguimos um espaço no Teatro Glaucio Gill. A partir dali fui tomando gosto pela dança. Outro espetáculo que fiz na Escolinha foi “Raul Canta e Dança”. Eu me dediquei muito a esse novo espetáculo, passei a maior parte do meu tempo ensaiando, por isso, o professor de dança me colocou para ser seu auxiliar. Pouco tempo depois recebi o convite da Tia Percília para assumir uma turma e dar aula de dança urbana para as crianças menores.


BALÉ E PRECONCEITO / OPORTUNIDADES As aulas misturavam pop, rock, jazz. Além de dançar eu passei também a gostar de dar aula, o professor de dança me incentivou muito a fazer aulas de balé e jazz fora da escola e ali eu comecei a sofrer preconceito por ser hétero e fazer balé. Na comunidade, os próprios amigos me zoavam, diziam que já que eu estava fazendo balé, teria que usar roupa coladinha. Eu deixei o preconceito falar mais alto e não continuei no balé, fiquei apenas no jazz. A Escolinha me proporcionou uma gama de oportunidades que nunca pensei que teria. Minha mãe precisava de um lugar seguro que eu pudesse ficar pra ela ter mais tempo para cuidar da minha irmã com síndrome de Down. Eu comecei a me jogar nas atividades e a pegar as oportunidades que foram aparecendo. Gostava muito dali, era onde podia extravasar tudo que estava sentindo, porque na escola normal tinha que estudar, estudar, estudar e ali podia ser quem eu realmente era. Desde o início eu tinha um prazer enorme em estar ali, toda semana era uma novidade. A Dona Percília batalhava muito para dar o melhor pra gente, então de vez em quando, acontecia uma surpresa com as apresentações de teatro que ela conseguia para a Escolinha. Lá era assim, sempre uma expectativa a cada dia. Eu lembro de uma vez que ela levantou a possibilidade de levar toda a escola ao Pão de Açúcar. Ela tentou ao máximo, não só eu, mas toda a escola ficou mega ansiosa, porque nós nunca tínhamos ido ao Pão de Açúcar. Teve gente que não conseguiu dormir de tanta ansiedade, a escola abria às 8h, já tinha gente lá às 7h. Ela adorava entrar na sala para contar uma novidade e a gente já ficava com os olhos esbugalhados para saber o que ela teria a mais para nos oferecer. Eu costumava contar o que acontecia na escola para outras pessoas de fora da comunidade, porque a Escolinha da Tia Percília só aceitava moradores. Rolava uma disputa entre os alunos de escola municipal, a minha comunidade tem tal coisa, a sua não tem. A gente gostava de fazer inveja para quem não era dali (risos). Eles perguntavam como fazia para entrar, a gente respondia cheio de orgulho que tinha que ser morador da comunidade do Chapéu Mangueira ou da Babilônia, onde morava, para estar na Escolinha . Eu não me sentia melhor que os outros, mas especial de estar vivendo aquilo, cada experiência era algo fantástico para todos. Eu me sentia privilegiado de ter algo dentro da minha comunidade porque na época só existia um ponto de referência que era o Nós do Morro, no Vidigal. Tinha aulas de teatro mas a gente não podia participar, só podiam os moradores do Vidigal. Quando a escola surgiu dando uma oportunidade de acesso à cultura, ao estudo, ao ensino, ao reforço, a gente se sentiu muito especial.


FUTEBOL X DANÇA

REFÚGIO

Eu nunca gostei de futebol, de jogar bola no campinho com os amigos, eu gostava mesmo era de dançar. Era muito forte o preconceito porque me chamavam para jogar bola e eu queria estar com meus colegas numa salinha dançando. Com o passar do tempo, aquele quadro de amigos foi diminuindo, mudando, fui conhecendo outras pessoas de dentro da própria comunidade e da escola. E nesse período como aluno, foi meu ponto de refúgio, porque ali era o lugar que eu podia estar em qualquer horário, qualquer dia, inclusive nos finais de semana. Tudo que estava descobrindo em relação ao teatro, música,

dança, não tinha nenhuma referência dentro de casa, fui descobrindo tudo sozinho. Minha mãe me incentivava, sempre me apoiava estando nas apresentações, mas essa referência, em casa, eu não tinha. Fui o primeiro da família a se envolver na área da cultura. Na verdade, minha família tem a cultura do samba, mas como ouvinte. O meu tio era compositor do bloco Aventureiros do Leme, que infelizmente acabou, mas nada que me envolvesse na cultura. Só no carnaval que a gente saia para escutar a música que ele fez. Nada mais. Não era uma cultura entranhada na família. Era algo que ele fazia isolado entre ele e os amigos compositores do bloco, mas na minha primeira apresentação no Teatro Glaucio Gill, que foi fora da comunidade, foi minha mãe, meu pai e meus tios. Minha mãe sentiu orgulho de mim, se sentiu feliz porque ela se cobrava de não me dar atenção o suficiente. Ela se sentir orgulhosa, me fazia sentir orgulho também.

GERAÇÃO ONG RECONHECIMENTO Eu fui um garoto que cresceu em ONG (Organização Não Governamental), falo com muito orgulho. É algo muito peculiar do Rio de Janeiro, jovens que cresceram em ONGs. É algo que não acontece mais na comunidade e eu sinto uma perda enorme de ter acabado a Escolinha. Na minha época, eu tive o privilégio de fazer parte de algo que deu resultado profissional, cultural na minha vida e na de outras pessoas também.

Hoje, eu sou professor de informática e de matemática por conta da Escolinha Tia Percília. A escola viu que eu podia ir além e me apoiou, eu tinha prazer de estar, foi meu primeiro trabalho, foi meu primeiro amadurecimento em muitos níveis. Se não fosse pela Dona Percília que viu meu potencial e investiu, se fosse só pela minha mãe, pela condição financeira, eu talvez não chegasse à uma faculdade como a PUC Rio, que a Dona Percília batalhou para que eu estivesse, dentro da PUC. Eu reconheço a importância que a dança e o teatro tiveram na minha vida. Me deram amadurecimento em relação a várias coisas, como por exemplo, o preconceito. Nas minhas aulas eu converso bastante com as crianças para que elas não cresçam preconceituosas, digo que é normal um menino querer ser bailarino em vez de jogador de futebol. Quando criança, eu andava com gente preconceituosa demais, tive que filtrar as amizades e tenho certeza que se não fizesse parte da cultura eu também seria muito preconceituoso. Na minha comunidade não tinha ninguém para me espelhar na dança, um referencial, muito menos na minha família. Até para a minha família era algo novo, mas graças a Deus minha mãe não teve preconceito, ela sempre me apoiou, esteve ao meu lado.


COLABORADOR DA ESCOLINHA

PRIMEIRO SALÁRIO

Eu me tornei um colaborador da Escolinha aos quinze anos, me senti o máximo. Esse momento me fez sentir poderoso, importante. Eu fui perceber que era colaborador quando recebi meu primeiro pagamento, porque os professores me colocavam pra fazer as tarefas e eu exercia a função sem me dar conta. Eu fazia sem pretensão salarial, sem ambição, fazia porque gostava de teatro e dança. Um dia a Dona Percília me disse que eu ia ser remunerado pelo trabalho que eu fazia. Dei parte do meu primeiro salário para a minha mãe e a outra parte comprei roupas de Hip Hop lá na Uruguaiana. Eu gostava do estilo dos americanos mais do que o ritmo em si, gostava de andar pela comunidade com calça e camisa largas, me sentia o máximo com boné que tinha o quadrado dourado e dizia que era original.

FUNK, HIP HOP

E DISCMAN Nesta mesma época nas favelas estavam rolando os bailes funks mais poderosos da zona sul. Eu gostava de funk também, mas minha mãe era muito protetora e eu não fugia de casa para ir ao baile. Eu tinha mais acesso ao Hip Hop em casa porque meu pai comprava muitos DVDs e a gente escutava junto com os amigos. Naquela época a gente não tinha uma tecnologia como nós temos hoje, era tudo em DVD, discman. Falando nisso, com meu primeiro salário eu comprei um discman na feira para ouvir Hip Hop na escola, tinha maior prazer de levar aquele discman e exibir na hora do recreio e mostrar a minha relíquia. Com o funk eu não tive tanto acesso direto.

DIRETOR DE DANÇA Eu era um diretor rigoroso porque meu professor foi muito rigoroso comigo, ele gostava de tudo bem feito, nos mínimos detalhes, e eu queria passar isso para as crianças também. A peça tinha em torno de 50 crianças, era dança e teatro, eu tive que pensar em quase tudo, a Escolinha me ajudava a pensar o cenário e o restante era comigo. Eu tive muita atenção para não ser tão rigoroso, tentei ser amigo de todos, ganhar a confiança para que conseguisse cobrar a dedicação deles. Fiz tudo sem assistente, não tive uma pessoa que estivesse ao meu lado. A minha relação com a Tia Percília mudou completamente depois que me tornei colaborador. Ela era muito exigente com os profissionais. Quando era aluno, ela era um amor, mas quando me tornei profissional ficou muito exigente. Mas foi bom, me fez sentir igual aos demais professores, ela me tratava como qualquer profissional e me pagava o mesmo salário.

O

T

R

Á

F

I

C

O

Tive algumas experiências na família, que por desventura de oportunidades, parentes entraram para o tráfico. Por conta disso, minha mãe me deixava muito tempo em casa, só saía para a escola e as atividades da Escolinha. Não me envolvi com nada errado. E tinha a Dona Percília que era referência na comunidade, até o tráfico a respeitava. Ela dizia “As minhas crianças vão passar, vocês não ficam no caminho apontando armas não”. Nunca fui zoado quando passava com minhas roupas de Hip Hop, ninguém podia mexer com as crianças dela. Naquela época não tinha problemas com o tráfico. A tia Percília chegava no meio dos traficantes e chamava para ir para a escola, falava “Lá você vai ter oportunidade”. Só não ia para a Escolinha quem não queria. Ainda hoje, mesmo não estando mais entre nós, ela ainda é um referencial para a história da comunidade.

FUNÇÕES NA ESCOLINHA

CRAS

Minha primeira função na Escolinha foi a de professor de dança, depois professor de matemática e mais tarde, quando a organização ganhou o edital de Ponto de Cultura, fui professor de informática. Em 2011 surgiu o CRAS do Santa Marta, fizeram a primeira Feira Social e pediram uma indicação da comunidade para o palestrante, alguém que unisse 150 jovens de diversas condições financeiras na feira. Eu fui o indicado, me senti o mais top de todos. Foi incrível! Eu percorri várias comunidades para dar palestras em diversas escolas. A intenção da feira era interagir com diversas classes sociais, jovens de 15 a 24 anos de idade.


INFORMÁTICA Informática e dança são duas paixões que tenho até hoje, mas a dança foi a primeira. Mais tarde assumi o laboratório de informática do Ponto de Cultura. A informática acabou sobressaindo à dança, porque naquela época quando comecei a dar aula para maiores de 17 anos, as crianças já não queriam dançar as músicas que eu queria propor. Levava Raul Seixas, Balão Mágico, Toquinho, que foram as músicas que eu comecei a dançar, mas elas queriam axé, funk e eu não queria dar aula nem de axé e nem de funk. Depois disso me dediquei mais intensamente a informática.

Hoje eu sou autônomo, trabalho por conta própria no aplicativo Uber, mas continuo dando aula. Ainda sou morador da comunidade, vivo com minha esposa e meus dois filhos. Continuo fazendo cultura do jeito que eu posso, estava escrevendo projetos para conseguir recursos e ter mais alguns jovens próximos a mim. Outro dia me falaram na comunidade que eu sou uma refência para os jovens.

E S C O L I N H A

F E C H A D A

Quando a Escolinha fechou, foi muito impactante porque nunca imaginei que fosse fechar um dia. A Escolinha cresceu muito com o passar dos anos, não imaginava que ia fechar, acabar. Eu saí da escola durante 1 ano, fiquei trabalhando como professor em outro local, voltei com a oportunidade de ser gestor da Escolinha. Contratei funcionários, onde eu era responsável pelo funcionamento, eu não via a escola fechar porque a escola só estava evoluindo. Acredito que ela tenha fechado em razão da crise que a gente passou e a Suécia, que era a nossa patrocinadora, parou de investir sem dar explicação. O filho da Percília está tentando buscar recursos, nem que seja para manter pelo menos um horário, ao invés de funcionar o dia todo. O prédio tem uma excelente estrutura para estar fechado. Chegamos a atender cerca de 200 crianças. Esse ano abrimos num período de 1 mês, mas de forma voluntária porque nós temos a licença do ECA, poderíamos perder o direito de funcionamento caso não estivéssemos funcionando.


O DA TIA PERCÍLIA VALOR FRUTOS DA CUL TURA LEMBRANÇA

Aquele menino do Hip Hop ainda está aqui dentro, a minha carne treme quando escuto o Hip Hop. É como se fosse meu ponto fraco musical. Na música estrangeira é o Hip Hop, na música brasileira é o samba de raiz. Graças a Deus as coisas negativas do preconceito que eu passei, eu não deixo interferir na minha vida. Se eu pudesse voltar atrás, eu continuaria no balé porque foi o preconceito que eu sofri que não me deixou continuar.

O valor da cultura para mim é multiplicar a cultura que recebi. A comunidade tem muito a perder se não tiver uma liderança cultural, quero passar tudo aquilo que aprendi, tudo o que eu consegui, na escolinha, na minha vida, eu quero fazer com que outros jovens acreditem no seu potencial e cheguem até onde eles quiserem.

Ser cria de uma ONG como a Escolinha mudou a minha percepção de mundo, a minha vida cultural seria completamente diferente se não fosse a Tia Percília. Eu tive acesso a teatro e museu com dez anos de idade, meus filhos têm sete e dois anos e já frequentam esses espaços. Eu me sinto vitorioso por proporcionar isso a eles, porque muita gente na minha comunidade nunca entrou em um teatro.

Tem uma frase da Tia Percília que ficou na minha lembrança “Mexe comigo, mas não mexe com as minhas crianças”. Essa frase sintetiza todo amor, carinho, cuidado que ela tinha com a comunidade, principalmente com as crianças.

Por não ter tido acesso à cultura e educação, ela queria dar para gente o que ela não teve. Ela gostava sempre de falar “Eu sou semi analfabeta, mas as minhas crianças terão a oportunidade que eu não tive”. Uma mulher que não teve estudos e nunca escondeu isso, nem das crianças, chegava na sala e falava que não tinha tido oportunidade de estudar, dizia que tinha sido passadeira, lavadeira e incentivava as crianças a chegarem onde elas quisessem. Nós temos o Beto que é referência na comunidade, fruto da Escolinha, se formou em Relações Internacionais e fala inglês fluentemente. Se Dona Percília estivesse viva, ela veria que deixou frutos, muitos frutos.


Camila Perez tem 33 anos, é atriz, produtora cultural e cria da Rocinha. Formada em Produção Audiovisual, integra a TV Tagarela da Rocinha, coordena o projeto Via Sacra da Rocinha e foi produtora local da Agência de Redes para Juventude na Rocinha (2015). Para Camila, o valor da cultura é trabalho e dedicação para a valorização das profissões oriundas da cultura.

Redes Sociais

Instagram: @milaperez17 Facebook: /camila.perez.7121614


PAIXÃO PELO TEATRO

PROFISSÃO

O teatro é algo que não consigo ficar longe apesar de ter tentado bastante, eu escutava o tempo todo da minha família que o teatro não iria me dar nada. Passei a minha vida inteira correndo do teatro e correndo para ele de volta. Eu tinha que trabalhar e estudar. No final do período da faculdade, falei “Bom agora já estou formada, agora já posso voltar para o teatro. Já tenho uma profissão e agora ninguém pode falar mais nada.” Me formei em produção audiovisual, é muito próximo do teatro e acho que isso me completa. Mesmo eu não estando de frente atuando, de alguma forma estou ali.

P R I M E I R O

T E A T R O E

T E R R I T Ó R I O

Antes de fazer o espetáculo “Fragmentos da Roça” eu não conhecia nada da Rocinha, a não ser meu mundinho, pai, mãe, casa, escola e o que a gente via também no jornal, então, a Rocinha pra mim era a reprodução do que eu via no jornal. Para esse trabalho, tivemos que fazer pesquisa pela Rocinha em cima de um livro chamado “Varal de Lembranças”. O espetáculo foi uma criação coletiva do grupo, que foi baseado no livro e também no que a gente conversava com os moradores mais antigos, a gente batia nas casas deles para conversar. Foi o Teatro que me fez descobrir a Rocinha, sua história, o nome, a origem.

C O N TAT O

C O M

O

T E AT R O

O meu primeiro contato com o teatro foi através de uma oficina de vídeo na década de 90 na Rocinha que a gente tinha que produzir vídeos e também tinha que atuar. Eu tinha uns doze anos e meus amigos souberam desse curso, que acontecia na Associação de Moradores, e eu fui porque todo mundo que eu conhecia estava indo fazer. Eu era da turma dos mais novos, queria fazer alguma coisa pra sair de dentro de casa, então eu fui e acabei me identificando muito. Nessa mesma época, o diretor desse curso era coordenador de um projeto no CIEP Ayrton Senna e resolveu montar uma oficina com os jovens da Rocinha lá dentro. Nós montamos um espetáculo em 97, “Fragmentos da Roça”, que contava histórias da Rocinha e isso me despertou o interesse de procurar outros grupos de teatro. Eu tenho um prazer imenso de estar no palco, ali eu esqueço de tudo.


A T U A Ç Ã O

N A

F R A G M E N T O S

D A

P E Ç A R O Ç A

Na peça “Fragmentos da Roça” eu fazia vários personagens. Um personagem que eu fiz e ficou marcada foi a Dona Zefa, uma nordestina que veio com os filhos para o Rio encontrar o marido que já estava na Rocinha trabalhando. Tinha uma história, na década de 70/80, que os moradores da Rocinha alugavam as crianças. Ela falava “Morar aqui, tu tá besta?”, tive que pegar sotaque, apesar de ser de família nordestina, eu também não pertencia muito a essas origens. Eu era muito nova, então, a dona Zefa ficou muito marcada por ser nordestina e eu ter que falar com a minha família para descobrir sotaque.

APREN DIZADO C O M

O

TEATRO

Participar do espetáculo “Fragmentos da Roça” me trouxe informações do lugar que eu morava e comecei a dizer na escola, principalmente, que eu morava na Rocinha e não em São Conrado, como as outras pessoas falavam. Com o grupo de teatro, eu aprendi a não ter vergonha do lugar onde morava, a me expressar e a conversar melhor. A gente tinha que estudar, na verdade, ouvíamos muito os mais velhos. De certa forma eu ia reproduzindo o discurso deles até crescer, ter meus pensamentos e começar a discutir por conta própria. Era por osmose, eu ia me apropriando daquilo que estava vendo e ouvindo. Nessa época as apresentações eram em escolas, na rua, em todos os lugares. O espetáculo não tinha um lugar específico para apresentar.


PA L C O Quando eu comecei no teatro eu tinha muita vergonha de me apresentar, mas na hora da apresentação eu esquecia. Eu me transformava, esquecia que eu era a Camila, não tinha vergonha de estar com o figurino, que era lençol velho, não tinha vergonha da falta de recursos que a gente tinha. Na hora eu me transformava, não era mais a Camila ali com todos os meus questionamentos, e é assim até hoje. É como se eu assumisse o corpo de outra pessoa através daquela personagem, ali eu me entrego de verdade, se tiver que chorar eu choro, se tiver que tirar a roupa vou tirar a roupa, é uma entrega que talvez na vida eu não tenha. No palco eu sou totalmente aquela pessoa que estou vivendo ali.

C U R S O

D E

PRODUÇÃO

CULTURAL Eu cursei a faculdade de produção de audiovisual, fiz Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e consegui 100% de bolsa pelo ProUni (Programa Universidade para Todos) numa universidade privada. Eu tentava e tentava entrar na faculdade, meu pai não tinha a menor condição de pagar, ele falava “Neguinha, papai não pode te ajudar”, mas eu falava que eu iria passar e que se não passasse eu iria trabalhar e pagar.

Quando eu fui me inscrever num curso de interpretação para TV no SATED (SATED/RJ - Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro), um dos diretores me falou que interpretação eu já tinha e me indicou fazer o curso de produção cultural. Me inscrevi na hora pro curso de produção e foi incrível, fui a única indicada para fazer um estágio no Projac (Estúdios Globo) e comecei a trabalhar lá. Nessa época, eu me afastei um pouco da Rocinha, do grupo de teatro. Eu tive que me afastar um pouco do grupo para estudar, na verdade eu fui fazer produção cultural para trabalhar na Rocinha.

P EAR RS OC NA A NG ET ME M Eu tenho um personagem que me mudou, o nome dela é Teresão, ela é homossexual, tem um bar e vive em uma favela fictícia de Copacabana. Esse personagem não foi criado no grupo de teatro da Rocinha, foi em outro grupo de teatro. A história da Teresão é a seguinte: eu entrei pra substituir uma atriz, uma amiga que foi ter bebê e até três dias antes da estréia eu não tinha nada pronto da personagem. A menina fazia super bem o papel e eu já cheguei com esse desafio, achei que não ia conseguir, não ia dar, mas antes de entrar em cena peguei o boné, coloquei pra trás, o cabelo amarrado, respirei e fui. A personagem nasceu de um jeito que eu até hoje fico assim “Como foi?”. Eu ensaiei três dias nessa personagem, no momento que eu coloquei o boné e pisei no palco o corpo veio, a voz veio. Foi por conta da entrega, não era mais a Camila, não queria saber se as pessoas do elenco iriam questionar se eu estava fazendo melhor ou pior, agora é a Teresão e pensava “Vou botar pra quebrar”. Ela é muito especial pra mim por isso, por eu ter que me transformar de uma forma completa no corpo, na voz e num tempo recorde. .

BUSCA

POR CONHECIMENTO

NÓS DO MORRO

A Miwa (Yanagizawa, atriz e diretora) era uma professora que um amigo meu que fazia parte do Nós do Morro falava muito, ele dizia que eu iria aprender muito com ela e eu estava justamente em busca de me qualificar melhor. Fiz o teste porque eu queria estudar com a Miwa, e passei, mas no ano que eu entrei a Miwa saiu. Eu não consegui estudar com ela, mas vivi 4 anos incríveis no Nós do Morro, cada professor que eu tive, cada elenco, cada personagem, foram únicos. A arte me deu muita coragem, sempre foi um aprendizado, um tapa na cara, cai, levanta e segue.


TRAJETÓRIA / RÓTULO

Nessa minha trajetória individual pela cidade eu vou sorrindo, vou fazendo a cara fofa e vai. O teatro me deu esse poder, essa coragem. Já sofri machismo, preconceito por ser de favela, mas não me abalava. Eu tinha coragem de dizer que eu morava na Rocinha, que eu gostava de morar lá, que as minhas relações eram de lá e sempre falei com paixão da Rocinha, ao ponto das pessoas quererem ir lá. Mas era complicado, tinha gente que ainda falava “A menina da Rocinha, a cota!”. Quando paro pra pensar, geralmente ignoro, ter que vir com um rótulo, mas hoje eu falo “Sou a menina da Rocinha e daí? Eu gosto de ser a menina da Rocinha”. Todas essas transformações da minha vida fizeram com que eu mudasse o jeito que eu me relaciono com a minha turma e meu território. Eu passei a olhar a Rocinha de um jeito diferente. Quando você sai e começa a ouvir, ver e perceber a forma com que as pessoas olham, me senti na obrigação de mudar isso.

DESEJOS PARA A VIA SACRA DA ROCINHA A Via Sacra da Rocinha é um projeto que reúne moradores da Rocinha, artistas e não artistas. É um espetáculo que conta a Paixão de Cristo encenada pelas ruas e vielas da favela desde 1992, sempre na Sexta-feira Santa. Hoje, é Patrimônio Cultural e Imaterial do Rio de Janeiro. A Via Sacra conta a história do Cristo, mas não sob o olhar religioso, o teatro permite mostrar o Jesus e seus companheiros no aspecto contemporâneo, fazendo críticas e reivindicações ao longo da encenação que dura cerca de duas horas. Na Via Sacra, o crucificado é o favelado. Maria, representa todas as mães do Brasil que choram diariamente a dor de perder os filhos violentamente. Os seguidores de Jesus somos nós, que lutamos todos os dias para sobreviver com dignidade num país de corruptos. Ter adquirido conhecimento e voltado para produzir a Via Sacra não vejo como um poder, tem gente que gosta de dizer que é produtor da Via Sacra da Rocinha. Mas eu, na verdade, estou na parte dos sonhos. Sonho muita coisa para a Via Sacra e pra Rocinha. Nessa minha vivência pela cidade eu vi outras maneiras de fazer e sempre ficava pensando como eu poderia fazer aquilo na Rocinha, como poderia levar essas experiências para o grupo. Pensava em levar professores legais para dar aula para a galera, imaginava como seria bom. As minhas vontades, meus sonhos eram pegar toda essa galera boa que eu conheci e levar pra lá, pra minha favela.


CÚMPLICE

NA VIDA E NOS PR OJ E TO S A Monique é minha cúmplice de trajetória. Ela é uma pessoa muito especial pra mim, viveu todos os momentos, faculdade, Nós do Morro, até no momento que faltou a comida, quando meu pai morreu. A Monique me conhece por dentro e por fora, é minha parceira na Via Sacra. A Monique era da Via Sacra da Rocinha, elenco, mas abandonou o teatro. Ela fez teatro infantil comigo, circulamos o Rio. Comíamos quase nada, dividíamos salgado e um copo de refresco na Central do Brasil, enquanto esperávamos pra ir pra Belford Roxo pra fazer teatro. Rodamos a cidade juntas, dormíamos juntas uma em cima da outra nas conduções da vida. Ela esteve comigo em todos os momentos, na faculdade me comprou fichário e torceu junto. É em quem eu me apoio nessa empreitada da Via Sacra. Eu penso que a gente homenageou a Marielle, tantas pessoas que morreram no contexto de violência no Rio e na própria Rocinha, eu choro. Eram muitas demandas para quem não tinha dinheiro nenhum. O que eu consegui atender (daquilo que o diretor pediu), e a gente ter conseguido homenagear a Marielle e tantas outras pessoas, me deixou muito feliz. Lembrar eu interpretando uma mãe que perdeu o filho é quando eu me emociono de verdade. Aquele meu choro não foi só da mãe que estava vendo o filho com uma arma que foi plantada ali na hora, foi uma cena que o meu diretor criou e jogou ali para colocar naquele contexto, foi um choro de "Olhem para essas pessoas".


VALOR DA

C U LTU RA Quando eu penso qual é o valor da cultura e da arte para mim, só me vem à cabeça a palavra "trabalho". Não é no sentido de trabalho financeiro, mas sim um ofício. Primeiro porque dá trabalho fazer e depois foi a profissão que eu fui parar, não foi uma coisa que eu idealizei em fazer. Quando vejo a produção da Via Sacra, eu penso que eu preciso fazer direito, que precisa ser profissional.

Agora quem dirige a Via Sacra é o Robson Melo, ele foi ator, jornalista. Quero trabalhar com amigos e com pessoas que amam e querem fazer a mesma coisa.

PA S SAG EM PEL A AG Ê N CI A

D E R E D E S P A R A J U V E N T U D E Trabalhar na Agência de Redes para Juventude me fez perceber e valorizar a favela que cresci como uma potência cultural. A partir do olhar empreendedor dos jovens que eu coordenava, me dei conta que a Rocinha precisa de políticas voltadas para o jovem investir na sua criatividade. A Agência me aproximou do jovem, me fez pensar no jovem de uma outra maneira e me estimulou a pensar em atividades para a juventude para além da Via Sacra da Rocinha.

Através da Agência eu explorei outros cantos do Rio de Janeiro, visitei outras favelas e periferias. Vi que são diferentes e iguais ao mesmo tempo, pois muitas vezes possuem os mesmos problemas. A posição geográfica de uma favela contribui positiva e negativamente para o desenvolvimento do local e de seus moradores, principalmente jovens em construção.


Jéssica Albuquerque, 29 anos, é natural de Manaus/AM e cria de Botafogo. Produtora Cultural e cenógrafa, produz arte, entretenimento e cultura na cidade do Rio. Entrou na academia pra fazer Arquitetura e direcionou sua carreira profissional para a área da cultura, passando por metodologias de incentivos sociais e culturais, como a Rede Agência da Agência de Redes para Juventude (2016). Atualmente é sócia da Block Produtora cultural, idealizadora do Hip Funk Festival. Para Jéssica, o valor da cultura é promover cultura através de uma rede criativa que conecte a cidade.

Redes Sociais

Instagram: @jess.albqq Facebook: /jessica.albuquerque


A LM A CA R IOCA REPRESENTAÇÃO SER DE MANAUS DA AMAZÔNIA PRA VIDA Eu vim pro Rio com dois anos. Quando eu penso em Manaus, sinto que perdi bastante coisa que poderia ter vivido por lá. O que eu conheço de Manaus são as férias, que passei muitas por lá e são sempre maravilhosas. Mas a gente não vê o lado real, que é ser da cidade ou viver com a família. Eu acho que tenho uma ligação com Manaus e sempre tento ir pra aprender o que é Manaus pra mim. Eu acho legal falar que sou de lá. É a Amazônia, o pulmão do mundo, gosto muito desse contato com a natureza que tenho por lá, no sentido de estar com a terra, da mulher guerreira amazônica que enfrenta, que busca. Eu tenho um lado espiritual que envolve isso. Eu nunca trabalhei com meu espiritual, nunca me envolvi diretamente com nenhuma religião, mas gosto desse sentido espiritual que a Amazônia tem pra mim. Todo mundo que fala da Amazônia fala sobre o poder que aquele lugar tem.

Em contraponto, eu também tenho uma alma carioca muito grande. Dizer sempre que sou de Manaus é mesmo pelo pertencimento, porque eu vim de um lugar e muitas vezes ninguém sabe disso. Mas eu já sou tão Rio de Janeiro, tenho tanta raiz aqui também, que ninguém acredita. Nem tenho cara de manauara. Talvez se eu tivesse o cabelo preto poderia ser mais parecida com o pessoal de lá.

CONEXÃO

COM A MÃE

A família é dividida, o lado paterno é daqui do Rio e materno é de Manaus. Quando minha mãe faleceu, eu só tinha onze meses e perdi essa conexão com Manaus. Quando eu vou pra lá é pra visitar meu pai, ele mora lá, acabou ficando e criando raízes quando viemos, eu e meu irmão, morar com meu tio aqui no Rio. De alguma maneira, isso de lembrar que vim da Amazônia, mantém um laço com a minha mãe.


BICHINHOS DE MA D E IR A

Dessa relação com a natureza, de gostar de bichos, surgiu uma coisa. Sempre que eu vou lá compro bichinhos talhados em madeira. Tenho jacaré, tartaruga, leão, peixe. Eles ficam no meu quarto, é o “canto da Amazônia”. Acho que isso me leva para lá, é uma religação. Quando eu viajo pra lá, não fico muito na cidade, eu viajo para o interior, fico mais nessa conexão com o que é a floresta.

F A L T A (

O

U

N

Ã

O

)

Eu não tenho problemas em falar se sinto falta ou não da minha mãe, geralmente me perguntam isso porque morte de uma mãe é algo que todo mundo fica chocado. Só que eu era muito pequena e de alguma forma tive a substituição dela. Sinto falta de um carinho que eu teria a mais porque seria minha própria mãe, mas eu tenho minha mãe de criação, que me deu tudo que eu precisava, todas as vezes, até hoje. Então não é complicado de falar.

FANTASIA

D E

Í N D I A

C I Ê N C I A F A Z S E N T I D O Quando olho no espelho, acho que os meus olhos são bem do povo de lá. Eu já me fantasiei de índia também, há muitos anos atrás, quando era do colégio. Eu me via com mais propriedade, fazendo algo que realmente eu podia, não estava me apropriando. Tem um fato engraçado que eu gosto de contar de lá. Teve um réveillon que passei em Manaus, não lembro o ano, eu fui com meu irmão, que sempre está comigo quando viajo pra lá. Nós, a minha meia-irmã e uns primos, pegamos uma estrada e à noite não dá pra enxergar nada. De manhã, quando a gente estava voltando da festa nessa mesma estrada, tinha uma queda na mata. No desmoronamento da terra, tinha um tipo de sereno, exatamente o que os livros de biologia falam na escola, que a água sobe, forma as nuvenzinhas e as nuvenzinhas fazem água. Eu vi aquilo, achei muito foda. Foi algo que ficou na lembrança, a ciência faz todo sentido, a biologia é foda. E também é uma experiência cultural, todo dia tem aquela conexão maior, a gente sente na pele a umidade e o calor daquele lugar.


MANAUS BRINCANDO

COMO

FUGA

Eu acho que tem uma construção ainda, estou me entendo agora nesse lugar de ter “um pé lá e outro cá”. São cidades muito diferentes, aqui é muito mais urbano. Lá vai ser sempre uma fuga, aqui no Rio está bastante caótico, Manaus sempre vai ser algo que vai me tirar desse caos e eu vou poder respirar e me renovar.

NUM LEBLON DE RUA

Q U A N D O

A I N D A

ERA MISTURADO C O M A G Á V E A A gente invadia terreno, subia em árvores, brincava de guerra de amêndoa. Entre um dos portões que ficavam do condomínio para o minhocão, tinha uma área de lazer com campo, parque, ginásio e ali rolavam as brincadeiras de rua. A casa do Jardim Pernambuco também era uma casa com quintal, tinha árvore, goiabeira, amendoeira, uma mini piscina. Foi bem legal, eu estudei no Jockey, na época todos os meus primos estudaram lá também, a gente foi entrando, fazendo prova e um indicava o outro. Entrei no CA (classe de alfabetização) e fiquei até a 5ª série.

MENINA Z O N A

S U L

Eu sou da Zona Sul. Um pouco. Aqui no Rio é bem complexo dizer “sou da Zona Sul”. Eu fui criada pelos meus tios, então tive uma criação voltada para a cultura deles. E os dois são pessoas maravilhosas, mas é aquela típica família conturbada e que não tem uma estrutura de exemplo. Os dois sempre foram “segue na vida e vamos pra guerra”. Meu tio tinha uma casa no Leblon, no Jardim Pernambuco e quando eu tinha dois anos, ele já morava ali há vinte.

Meu tio invadiu o terreno naquele lugar, que é o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro atualmente, construiu a casa em uma semana e depois foi tomando posse do terreno. Conseguiu estruturar a família inteira lá, tivemos uma vida legal, mas mesmo assim éramos a família buscapé da rua. Lá tinha muita dificuldade por ser um lugar muito caro, ele não tinha condições. A vida foi crescendo, a família foi ficando mais robusta, o dinheiro foi ficando mais valorizado e nós não ficamos tão bem. Ele conseguiu vender a casa, foi quando a gente foi pra Botafogo, eu tinha onze anos. Eu brinquei muito dentro do condomínio. O Jardim Pernambuco fica atrás do minhocão e no minhocão foi onde meus tios nasceram. Meu pai é filho de um policial que ganhou um apartamento lá, os meus tios se conheceram no prédio. Tem toda uma questão envolvida com o minhocão, brinquei muito naquele prédio na década de 90. Sempre foi muito assim, altos e baixos, muitas percepções de impacto de realidade, eu acabei crescendo com isso.


J U V E N T U D E

E M

B O T A F O G O

PRIMEIRABLUSADEBANDACOMPRADANAROCINHA Quando fomos pra Botafogo, eu conheci novas pessoas porque troquei de colégio, saí do Jockey. Na 6ª e 7ª séries ainda era meio bobona, tinha uns treze anos, eram mais amizades de colégio, fazia trabalhos em grupo que viravam pequenas reuniões na casa dos amigos.

Estudei no Colégio Guanabara, depois no Nossa Senhora de Lourdes, que foi melhor pra minha educação. Lá conheci umas meninas que fui fazendo amizade e começamos a sair, conhecer mais a noite, mas eram noites de matinê mesmo, de adolescente. Eu comecei a ir pra night underground de Botafogo já tinha uns dezessete, dezoito anos. Eu sempre fui apaixonada por música, sempre gostei. Na adolescência era só rock, usava blusa de banda, era apaixonada. Red Hot Chili Peppers era top pra mim. A galera ficava até no estacionamento do Rio Sul, tinha uma parte lá que os roqueiros se encontravam pra fazer nada, porque nem música tocava, a gente só se encontrava. Era só pra se ver “com tal camisa”. Sabe onde comprei a primeira camisa de banda, por incrível que pareça? Na Feira do Emoções, na Rocinha. Eu lembro que fui uma vez com minha tia e ela já sabia da feira, que vendia jeans muito justo que vinha de Petrópolis. Fui lá com minha tia, com a minha mãe - eu não gosto de chamar ela de tia, vou chamar ela de mãe. Fui com minha mãe e andando por lá, vi uma barraquinha vendendo várias camisas de banda.

RELAÇÃO ROCK,

F U N K E ESPECTADORA

DE MÚSICA Eu gostava mais de rock, pra mim fazia mais sentido. Mas nas matinês, na noite, sempre tinha funk no final. Começa colocando Hip Hop e pra terminar coloca funk, até hoje é assim, só que hoje tem mais funk.

Eu comecei como espectadora, sempre gostei de música, de dança, sempre gostei visualmente de estar próxima, te une a alguma coisa, te coloca um significado. Me coloca um valor de movimento, que estava acontecendo ali e que ninguém sabia ainda o que era, porque nos anos 90 e começo dos anos 2000, aqui no Rio de Janeiro, ninguém era esclarecido pra nada. Hoje temos mais ideias, eu estou amadurecendo e estou de fato entendendo tudo que eu via e vivia. Estou colocando significado, valores nisso.

CAMISA CO M O M A R C A C U LT U R A L Quando a gente se encontrava todo mundo do grupo de rock, independente se era System of a Down ou Red Hot, as blusas eram pretas com símbolos e todos estavam vestindo a camisa pra alguma coisa. Eu não gostava de vestir a camisa do colégio, mas gostava de vestir a camisa da turma do rock, do movimento cultural, do Hip Hop.


INÍCIO DO ENVOLVIMENTO COM FESTAS

Quando eu comecei a me envolver com os eventos, tudo era muito mais colaborativo, as pessoas estavam se conhecendo, querendo criar uma cena. Então era “vamos divulgar essa festa, vamos ser promoter”. Eu gostava de estar presente em todas as festas, chegou uma época que eu saía de segunda a segunda só para estar presente, só para as pessoas me verem e eu comecei a me misturar. Então as pessoas passaram a me chamar mais pra estar junto nos eventos, construir ali alguma produção e eu fui conhecendo todas as casas noturnas de Botafogo, até dentro de cinema a gente fez festas. Casa da Matriz era de quinta a domingo praticamente. Eram festas pontuais. Estava muito presente numa festa que durou 10 anos, acabou esse ano, a Veneno. Na Fosfobox eu fiz evento, lá era muito mais eclética e tinha de tudo. Festa é o momento de êxtase, qualquer pessoa vai para se divertir. Fazer festa é fazer algo que não é somente pra você, festa você faz para as pessoas. Eu participei de tantas festas que chegou o momento que quis fazer as minhas. Me deu mais sentido do que ficar indo pra festa de todo mundo. No início, era um estilo meio rock ainda, que foi virando indie pop, depois foi vindo outros estilos musicais. O Brasil é um pouco atrasado, essa questão também influencia em como foi se desenvolvendo a cena noturna carioca.

SOU PRODUTORA?

DE

E EVENTO

A

E S P E C FESTA T A D O R A DIFERENÇA ENTRE

No início das festas, eu acho que não me sentia assim “ah, eu sou produtora”. Acho que eu só estava ali mais como uma realizadora de festas, porque eram muitas pessoas que produziam juntas. Eu acho que me senti mais produtora quando eu comecei a produzir algo que impactava diferente de uma festa. Um evento mesmo, porque eu separo festas de eventos. Eu acho festa muito mais solto do que um evento, que geralmente é mais robusto e tem um objetivo. Por exemplo, o produtor de festas é um lado mais de entretenimento. Eu quando me coloco como produtora cultural, me coloco com uma responsabilidade maior do que uma produtora de festas. Na adolescência eu gostava muito de rock, mas gostava muito de funk, mas gostava muito de Hip Hop, mas gostava muito de tudo e hoje em dia, eu sei exatamente do que eu gosto, eu gosto de produzir.

R E A L I Z A D O R A Um evento acontece rápido, pode vir logo no dia seguinte um melhor que o seu e fazer o seu ser esquecido. O livro fica, o filme fica. Mas o valor que fica é o da realização. Quando eu passei de espectadora a realizadora, eu me senti com mais responsabilidade e quis entender mais disso também. A realização me fez querer entender mais sobre as coisas, me tornou mais curiosa, coisa que a arquitetura, por exemplo, não me trouxe quando entrei na faculdade.


O

Q U E

Q U A N D O

M U D O U

M E

T O R N E I

P R O D U T O R A Quando me tornei produtora, mudou o meu entendimento da cidade, dos territórios. Eu me entendi nesse lugar quando já estava aqui na Agência. Quando eu vi a quantidade de realizações que o projeto faz. Percebi que o que eu fazia era nada, era só entretenimento, sem base.

EIXO BOTAFOGO X LAPA

D E S C O L A D O S C I R C U L A R A C I D A D E Tinha muito mais funk na Lapa do que em Botafogo e eu sempre ficava no eixo Botafogo x Lapa porque tinha os meus dois gostos musicais. Quando conheci o Descolados (grupo de funk onde fui produtora, realizado dentro da metodologia da Agência de Redes para Juventude) na Lapa, conheci mais pela dança e só depois fui tentar escutar a letra, porque a música do Descolados não é Pop, é música com letra. Fui me envolvendo com o grupo e depois com o Fernando (meu namorado e líder do grupo). Mais ou menos 1 ano depois, ele quis me puxar para a produção do grupo porque ele já sabia que eu trabalhava como produtora de eventos, mesmo sendo coisas completamente diferentes que eu só fui entender depois. Tudo foi se abrindo pra mim, os profissionais que comecei a me envolver. A primeira vez que saí pra ver o Descolados em outra região sem ser na Lapa, foi no Fumacê. Acho que eu nunca tinha ido tão longe na Avenida Brasil. A produção cultural me fez circular a cidade.

PRIMEIRA VEZ NO FUMACÊ / EVENTOS DE RUA Eu fui pela primeira vez no Fumacê a noite. Lá é uma favela que é conjunto habitacional, não é morro, nem casinhas com vielas. Eu já conhecia algumas favelas e foi bem diferente. Todo mundo pensa que na Avenida Brasil só tem favela muito perigosa. Quando eu cheguei lá não achei tão perigoso, disse “Gente, é prédio, por que estão falando que isso é favela?”.

Impactante mesmo foi a festa que estava tendo, no miolo, no meio da favela. Era muito caótico, dava pra ver que tinha muita energia concentrada ali. Aquilo me chamou a atenção, o fato de mobilizar uma favela inteira, lá no meio dela, na rua. Todo mundo ali. Fazer festa em uma boate não é a mesma coisa de você ir pra rua. Eu fui conhecendo mais os eventos de rua também por conta disso. Sabia que tinham rodas culturais, já conhecia a roda de Botafogo, mas a movimentação delas, o crescimento, eu fui acompanhando. Fui buscar entender, depois que circulei mais a cidade, que botei na minha cabeça que é produção cultural que eu queria fazer.


VALOR

DO PRODUTOR

CULTURAL Eu acho que o valor do produtor cultural é o valor de responsabilidade, de desenvolvimento de alguma coisa, porque a gente sabe que precisa tanto de educação, de saúde, de segurança, mas a gente também precisa ter o lado cultural, que remete ao entretenimento, ao prazer, as coisas que o corpo e a mente precisam para viver. O produtor cultural tem essa responsabilidade, de desenvolver isso para as pessoas. A gente pensa coletivamente, com valor, com objetivo de trazer propriedade para os territórios. Estudar o local e oferecer o que aquele local quer.

PRIMEIRO EVENTO P R O D U Z I D O E M FAV E L A

A CULTURA ME TORNOU

MAIS INTELIGENTE

O primeiro evento que produzi foi no Fumacê. A gente produziu a estreia do filme (sobre o Descolados). Eu consegui montar uma programação, idealizar um cenário, deu certo. Me tornar uma produtora me deixou mais intelectual, me deu poder, mais propriedade. Com certeza a cultura me tornou mais inteligente, mais pensadora. Pra tudo, tudo que eu olho, me proponho a fazer, é levando um valor cultural para atender um nicho específico. Se eu saísse daqui e fosse produzir em Manaus, por exemplo, eu ia buscar entender a região antes de levar propostas.

TATUAGENS E ANCESTRALIDADE A tatuagem não tem a ver com meu lado profissional não. Eu comecei a fazer tatuagem com dezesseis anos, gostava mesmo da cultura da tatuagem, de desenhos, de deixar uma marca no corpo. Sempre achei bonito, acho que carrega muito a minha ancestralidade de pinturas corporais, até meus amigos falam isso “Você é muito índia mesmo, tem várias tatuagens!”.

CONSTRUÇÃO DAS TATUAGENS Essas tatuagens são só minhas, eu fui construindo. Obviamente se alguém colocar na internet a referência já existe, tá lá, mas a construção e concepção de juntar tudo fui eu. Por exemplo, tenho um Sol com uma lótus dentro, tenho certeza que ninguém tem um Sol com uma lótus dentro. Tenho também uma frase do Bob Marley “Meus pés são minha única carruagem” está na música “No Woman no Cry” que é uma das que mais gosto .


OPINIÃO SOBRE A CENA CARIOCA

PRODUÇÃOCULTURAL

FORA DO EIXO LAPA X ZS Eu não quero criar nada aqui no centro, zona sul, nenhum evento. Porque a cena noturna ficou esgotada e as festas estão estranhas, o público está diferente, está mais rigoroso, ainda não entendi que discurso de rigor é esse porque eu parei de trabalhar pra cá. Passei a trabalhar nas regiões periféricas da cidade, o trabalho é muito mais valorizado do que aqui. A produção cultural me levou pra uma porrada de favela na Avenida Brasil, acho que todas até o Fumacê. E territórios periféricos para além das favelas também. Maré, Pavuna, Guadalupe, Méier, Penha, Manguinhos.

SER MULHER PRODUTORA Ser mulher produtora pra mim é querer ocupar os espaços. Porque todas as festas que começaram nos anos 2000 eram de homens. Hoje em dia tem produtora mulher, a gente faz com muito mais excelência, tenho certeza. A gente está ocupando, então, para mim é legal. Tem muita gente que não me leva a sério porque acha que eu não tenho vinte e nove anos, acham que tenho dezoito. Às vezes acho que criam um estereótipo de branca, loura e patricinha. Gosto de sempre buscar mais conhecimento pra conseguir me impor, ter mais propriedade daquilo que eu faço, justamente para que a produção cultural não seja apenas algo que estou tentando fazer.

O VALOR DA C U L T U R A O valor da cultura pra mim é circular e promover cultura. A importância da cultura na minha trajetória foi me dar uma posição na minha vida, me deu uma carreira. Não me vejo só como produtora de eventos. Me vejo fazendo algo que construa pensamento em prol de uma sociedade, de um movimento. Gostaria de um dia ocupar cargo de gestão, por exemplo.

ANCESTRALIDADE NA PROFISSÃO Acredito que os equipamentos tradicionais como museus e teatros interligam com meu trabalho de produtora, porque é ver um pouco a nossa ancestralidade. Ver o que era antes, trabalhar aqui o agora e pensar no que pode vir. Eu gosto, sou curiosa, adoro ver espetáculo. Do lado de fora sempre é neutro, do lado de dentro sempre tem muitos conteúdos. Eu gosto de ir nesses centros históricos, culturais, e ficar passeando pela cidade. Na verdade isso é algo que eu sempre fiz, sempre andei, antes mais no centro x zona sul, agora pela cidade toda.


Giselle Rayanne Morais tem 26 anos e foi criada em Nova Sepetiba. Cristã, educadora do primeiro segmento, vendedora ambulante, empreendedora, atriz e aprendiz de bailarina, ainda consegue tempo para acompanhar e contribuir com o trabalho do Espaço Cultural A Era do Rádio, espaço importante para a difusão de cultura e arte em Sepetiba, parceiro da Agência de Redes para Juventude. Para Giselle, o valor da cultura é utilizar a arte como ferramenta de autoconhecimento e superação.

Redes Sociais

Instagram: @codinomegisellemorais


T E R R I T Ó R I O E S A Ú D E M E N T A L Ter entrado para um Ponto de Cultura me ajuda a lidar com os meus sentimentos, me ajuda a pôr pra fora quando estou com alguma tristeza ou mágoa, e quando estou feliz é uma forma de canalizar o que estou sentindo. No Ponto de Cultura (A Era do Rádio) eu consigo não reter esses sentimentos, que retidos podem me prejudicar de alguma forma. Me ajuda a equilibrar minha vida emocional e isso afeta e melhora minha vida social. Eu não tive incentivo de ninguém para entrar para o Ponto de Cultura. Eu procurei uma forma de me ajudar, foi uma conversa que eu tive comigo mesma “Vamos lá, você não pode deixar isso acontecer, você precisa procurar ajuda para melhorar essa situação”. Eu queria ser independente, não queria colocar o peso dos meus sentimentos em outra pessoa, eu queria me ajudar. E um dia, peguei a bicicleta para pedalar na comunidade com um impulso de fazer coisas novas. Foi assim que descobri o Ponto de Cultura, pedalando para descobrir coisas novas. Eu estava numa crise de depressão, trancada no meu quarto há três dias. Todos estavam preocupados porque eu me isolei completamente e eu não queria conversar, falar sobre o que estava acontecendo. É muito difícil quando você está numa crise de depressão. Eu precisava sair daquela situação e eu não tinha recursos para ir ao médico, não tinha forças para procurar um hospital público porque eu sabia que ia demorar muito para conseguir um atendimento. Eu precisava de algo novo, precisava sair de dentro de casa, naquele momento a casa me oprimia. Nesse turbilhão, lembrei da bicicleta e me toquei que nunca havia pedalado por ali. Chamei minha amiga Júnia e ela topou. Fomos pedalar e pedalando comecei a conhecer e a me apaixonar por Sepetiba. Olhei a orla, o pôr do sol, comecei a respirar, o que é muito importante. Eu não reparava a minha respiração. Comecei a analisar o que estava acontecendo na minha vida, o que me levava às crises, o que me afetava. Porque a crise tem um ponto, busquei como melhorar isso e foi me aliviando.


P O N T O DE CULTURA A ERA DO RÁDIO

Um dia fui pedalar e passei em frente do Ponto de Cultura A Era do Rádio. Achei aquele lugar bonito, cheio de frases efetivas contra o racismo, sobre a valorização da mulher, aquilo chamou muito minha atenção. Ao entrar fui convidada para participar da aula de teatro e recebi um monólogo. Li, interpretei e todos gostaram. Aquilo foi me incentivando a colocar coisas para fora. Consegui dormir naquele dia, uma coisa que eu tinha dificuldade. Fui me envolvendo com o Ponto de Cultura, dali por diante comecei a frequentar as aulas. Com os exercícios que eu fazia lá passei a liberar endorfina. Se deixar, eu estou no Ponto a semana inteira. As aulas são segundas e quintas, mas eu vou quase todos os dias. Ao entrar no Ponto de Cultura, ganhei qualidade de vida. Por exemplo, sono. Eu consigo dormir, consigo pensar, organizar as minhas ideias, respirar melhor. Quando estou em crise, o Ponto de Cultura me auxilia sem ajuda de medicamentos. Eu ganho qualidade de vida, não só físico, mas conhecimento. Me exercito, conheço pessoas com idades diversas, com muitas histórias, tem pessoas lá que enfrentam outros problemas e eu percebo que sou útil para ajudar outras pessoas. Você vê que você é útil ali. Os ganhos são muitos. Não é muito programada a minha rotina no Ponto de Cultura. Toda segunda e quinta eu tenho um horário fixo lá no teatro e na dança e não me atraso por nada. Mas se eu precisar estar lá para ajudar um outro grupo, na fotografia ou ajudar na manutenção do espaço, por exemplo, eu me organizo e vou.


N O VA S S A Ú D E ATIVIDADES N O V O S OLHARES

Na escola eu gostava de teatro, mas não tinha aula de teatro. Para mim é algo novo, que me deixa empolgada. É muito bom saber que tenho muitas coisas a aprender, a ver, a olhar, a motivar. Olhar coisas novas. É muito bom vincular o aprendizado com qualidade de vida. A convivência no Ponto de Cultura também me fez pensar mais sobre estética, mudei algumas opiniões a partir dessa convivência. Antes eu achava que os bailarinos tinham que ser do padrão magro, alto e pele branca, é horrível assumir isso, mas é verdade, eu achava. No Ponto de Cultura percebi que não precisava ser assim, que estávamos ali para quebrar paradigmas. Existem pessoas que têm um corpo diferente. Mulheres podem fazer solo masculino sim e vice versa, a gente pode fazer o que a gente quiser, não é preciso seguir um padrão. Foi no A Era do Rádio, no Ponto de Cultura, que me deparei com isso, antes eu era muito fechada com opiniões que nos coloca em padrões. Eu cheguei a conclusão que o valor da cultura pra mim é o sal, é o sabor, é aquilo que dá a essência na gente. A cultura tem o poder de mudar paradigmas porque a gente não tem consciência da nossa essência, do nosso sabor e quando a gente coloca o sal, ajuda a chegar ao equilíbrio, ao ponto certo. Eu me descobri também fã de brechós. Eu não sabia como vestir, não sabia como usar uma roupa de brechó. Agora passei não só a gostar, mas também passei a usar, a comprar, a divulgar para outras amigas. Descobri os brechós também a partir da minha ida para o Ponto de Cultura, porque lá eles fazem encontro de brechós. Comecei a frequentar e a montar looks, que era uma coisa que eu não fazia. O belo está no olhar de cada um.

ATIVIDADE CULTURAL Eu diria para um médico que o tratamento que estou fazendo é natural. Não preciso de remédio para sobreviver, pois o intuito do remédio é chegar no equilíbrio da minha qualidade de vida e isso a cultura já está fazendo. Pelo menos para o que eu tenho, eu sei na prática que está funcionando. É claro que eu ainda sofro crises. Quando eu converso com outras pessoas, começo a ter estratégias para lidar com a minha doença. Quando eu começo a entrar em crise, eu converso comigo e passo a acionar os gatilhos, as estratégias para controlar a minha crise. Procuro os motivos e no caso esses gatilhos que citei é o que estou aprendendo com essa minha convivência com a cultura.

FAMÍLIA, AMIGOS

E TERRITÓRIO Minha mãe foi a primeira a perceber como mudei depois que comecei frequentar o Ponto de Cultura. Ela acha ótimo eu sair de casa, eu viver, me envolver com projetos. Os amigos começaram a me perguntar o que houve, onde é e o que é o Ponto de cultura. Quando eu vejo um amigo numa situação delicada, eu já convido para ir ao Ponto de Cultura para fazer alguma atividade. Eu passei a acreditar que essas atividades culturais curam muitas coisas, além de ampliar nossas mentes.

IGREJA X PONTO DE CULTURA Existem várias igrejas no meu bairro. Uma coisa em comum que procuramos em ambos, igreja e Ponto de Cultura, é o acolhimento. A diferença pra mim é a liberdade que o Ponto de Cultura dá pra você ser o que é. Quando você vai à igreja, você precisa se sentir bem. Lá tem que combinar os seus conceitos com os conceitos da igreja. Os conceitos que aquilo te oferece precisam bater com os seus conceitos. Os conceitos do Ponto de Cultura batem com os meus conceitos, naquilo que eu acredito com aquilo que eu quero levar para vida: acolher a todos, os diferentes e amor ao próximo. Não que a Igreja não tenha, mas no Ponto de Cultura é mais amplo, principalmente em atender pessoas de diferentes religiões. Por causa do Ponto de Cultura, eu encontrei a igreja que eu congrego, a igreja que eu me sinto bem.


A MENINA DO PONTO DE CULTURA Eu acho que já levei a maioria dos meus amigos. Só não levei minha mãe porque ela é muito ocupada. Virei a menina do Ponto de Cultura. Eu quero que outras pessoas conheçam a cultura. Quando a gente ganha um bem desse, uma dádiva, a gente precisa compartilhar com outras pessoas. Eu quero que outras pessoas conheçam os seus bairros, não precisa ser só Sepetiba. Claro que eu quero que as pessoas conheçam Sepetiba. Lá não é ruim, lá é ótimo. Por exemplo, têm pessoas em Saracuruna que não conhecem o bairro deles, não sabem o quão legal pode ser o bairro deles, não sabem que eles podem fazer a diferença lá. Não somos educados a pensar a nossa vida contribuindo e vivendo no nosso território, precisamos valorizar essa cultura de viver nossos territórios. A partir dessa minha experiência penso em fazer formação de professores para Educação Infantil. A partir da cultura, meu horizonte começou abrir mais. Penso que se as crianças tiverem um ensino de base, que tenham como educadora alguém que é atravessado pela cultura, é algo que elas vão levar para a vida inteira.

R E L A Ç Ã O C

O

M

S

E

D E

P

E

A M O R

T

I

B

A

Depois que o Ponto de Cultura entrou no meu cotidiano, a minha relação mudou com minha mãe, com os amigos e com Nova Sepetiba. Eu fui para lá com 8 anos, mas cresci fechada em casa. Minha mãe não deixava eu participar da rua, das coisas. Ela tinha medo da violência, era uma mãe solo. Minha mãe geralmente me levava para o trabalho dela, eu ficava mais no trabalho dela do que em casa. A minha visão com Sepetiba é de crítica social. Vejo os defeitos de Sepetiba, comparo com outros lugares, vejo o que tem em Sepetiba que poderia ter em outros bairros. É uma relação de amor com Sepetiba que está em construção. Estar no Ponto de Cultura aguçou a minha crítica em relação ao bairro. Como existem diversas culturas dentro do Ponto de Cultura, às vezes alguém levanta um tema que eu não tinha pensado ainda. Por exemplo, os moradores de rua de Santa Cruz, eu pensei em ajudar, mas não pensei nessa estratégia de melhoria. Se oferecermos cursos de qualificação profissional, eles teriam mais oportunidades. Não adianta dar só sopa, roupa, temos que avançar para além do assistencialismo. Não que isso tenha que parar, mas passei a pensar além. O alimento é importante, mas como dizia a minha avó “Dar o peixe, mas dar a vara de pescar e ensinar a pescar o próprio peixe”. Dar a fórmula para a pessoa melhorar a sua própria vida. Agora estou criando projetos e apresentando pra diretoria do Ponto de Cultura. Estou criando um projeto ambiental com crianças, levar isso para as crianças é algo muito bacana, pois temos uma praia poluída. Trabalhar conceitos ambientais em Sepetiba é muito importante. Estar participando dessa ação do Pontão tem me deixado mais encorajada ainda.


BI POLA RIDADE

E TEATRO Na primeira aula no Ponto de Cultura eu não falei sobre minha condição de bipolaridade porque eu não gostava muito de entrar nesse assunto, de falar sobre isso. Eu falei de outra coisa. Mas o teatro hoje tem sido o espaço onde eu extravaso aquilo que eu estou sentindo. Eu crio personagens, eu uso coisas da minha condição na construção da experiência artística. Quando eu crio um personagem, eu penso em todo o condicionamento dele e o que eu poderia ser naquele personagem. Eu não fiz nenhum com os elementos da bipolaridade, mas eu faço com características do transtorno.

Um exemplo de personagem: a Géssyca. Ela é uma cobradora de van. Criei ela em um exercício teatral. Eu ia fazer um personagem masculino, porque na van é mais comum homens como trocadores, mas decidi mostrar a força feminina. A Géssyca com y e com G (risos), é bem piriguete e sofre com depressão, só que ela não demonstra isso para ninguém. É espevitada, não tem e não quer ter filhos, e nela eu coloco todos os pontos positivos que eu poderia ter: ela levanta todos os dias às 5 horas para trabalhar. Hoje é natural pra mim criar outros personagens. É o que a cultura faz, me ajuda a colocar para fora. Antes eu tinha vergonha de falar do meu transtorno, agora uso para criação artística. No Ponto de Cultura eu não falo muito sobre isso, mas aqui no processo do Pontão eu me sinto a vontade de falar desde o primeiro dia. Complementou. A primeira vez que falei do meu transtorno no Ponto de Cultura foi quando um menino da minha turma de balé estava em um quadro parecido com o meu. Eu conversei com ele e abri para as pessoas e pra ele que eu tinha o transtorno de bipolaridade, falei das dificuldades e falei que ali era um espaço de compromisso que me dava forças. Conversando com ele e com o grupo eu expus o meu exemplo pra, de alguma forma, ajudar ele também.


O VALOR DA

C U LT U R A

O valor da cultura pra mim está relacionado à minha saúde. Está ligado a quando você não consegue ficar bem por causa de uma doença, seja ela física ou psíquica, você precisa de ajuda para ficar bem. O paciente só melhora quando quer melhorar. Pesquisas mostram que o paciente quando está com câncer e ele não quer ser curado, não há tratamento que o cure. Ele precisa querer! Isso vem de dentro e a cultura dá esse gatilho. Quando a criança doente sorri com um palhaço, ela está tendo motivação de vida, motivação para enfrentar aquilo que ela está passando. A cultura me faz querer viver. A cultura me faz querer sentir coisas, conhecer. Quando estou numa tempestade, me afogando no meio do mar, a cultura me leva para a areia, para a praia, aí eu consigo ver a beleza do mar. Sinto que a cultura fez isso comigo. Eu estava no meio do mar e busquei uma forma para não me afogar.


F I C H A Idealização Marcus Faustini

Coordenação Geral Valquiria Oliveira Entrevistas Marcus Faustini Paul Heritage Jovens Bruno Ferreira Camila Perez Christian Telacio Eduardo Henrique Baptista Fernando Espanhol Giselle Rayanne Morais Ingrid Siss Jéssica Albuquerque Lucas Ururah Thais Antunes Tutoria e Produção Bruno Lima Luana Pinheiro Luciano Braga Transcrição Aline Resende Bruno Lima Luana Pinheiro Luciano Braga Veruska Delfino Organização Luana Pinheiro Programação Visual e Diagramação Leonardo Gouvea

T É C N I C A Fotos Ellen Rose Arquivo pessoal dos jovens entrevistados Pontos de Cultura que participaram das ações do Pontão Ponto de Cultura Brincando de Ponta a Ponta Ponto de Cultura Capoeira Cidadã Ponto de Cultura Cerâmica Negra e de Cordel Ponto de Cultura Comunidades em Cena Ponto de Cultura Cultura Urbana e Afins Ponto de Cultura Dançarte Ponto de Cultura Escolinha Tia Percília Ponto de Cultura Espaço Cultural A Era do Rádio Ponto de Cultura Espaço Paschoal Carlos Magno Ponto de Cultura Fazendo a Diferença em Paquetá Ponto de Cultura JPA Afro Cultural Ponto de Cultura Livro de Rua Ponto de Cultura Memória da Misericórdia Luiz Poeta Ponto de Cultura Música Sustentável Ponto de Cultura Nosso Olhar Ponto de Cultura Os Arteiros Ponto de Cultura Pensar Cine Ponto de Cultura Produção Cultural no Território de Manguinhos: Olha Nós Aí! Ponto de Cultura Tocando em Você Ponto de Cultura Zungu Realização Avenida Brasil Instituto de Criatividade Social Pontão de Cultura Rede de Formação e Articulação dos Pontos para Trabalho com Infância e Juventude


REALIZAÇÃO

PARCERIA

APOIO

Profile for Isis Reis

O Valor da Cultura  

O Valor da Cultura  

Profile for isisrf88
Advertisement