Issuu on Google+

capa

1

2

2


capa

SINTONIZANDO Estimados amigos e estimados irmãos Em janeiro de 1989 foi publicado, mimeografado, o primeiro número de “O TAPIRI”. Naquela ocasião escrevíamos assim no Editorial: “Tapiri é uma pequena habitação dos seringueiros. É o lugar do repouso depois de uma longa jornada, da reflexão sobre os acontecimentos do dia, de planejamento para o dia de amanhã. Tem características de provisoriedade mas nele se encontram as ferramentas e o alimento indispensáveis para continuar o trabalho. O Tapiri supõe a garantia de uma casa grande, do barraco mais folgado, na cidade ou no sítio. A pastoral da Amazônia encontra a fonte do aviamento na casa grande das grandes etapas da formação. Mas durante o nosso trabalho, enquanto estamos embrenhados na mata da nossa atuação pastoral, precisamos de um pouso, ferramentas úteis e práticas, de uso imediato, alimento que ajude a fazer mais leve o “peso da jornada e o calor”.

Este TAPIRI, que outrora iniciou como um folheto e, hoje, volta a ser editado, inclusive em versão digital (www.isssu.com/isds), quer ser uma ajuda bimestral para os salesianos e leigos que labutam na Amazônia tentando extrair o leite do Reino de Deus das seringueiras espalhadas pela mata. Todos podem colaborar. Vamos partilhar experiências e subsídios, além de reflexões pastorais, para sermos mais eficientes na nossa fidelidade à missão que nos foi confiada. Ao retomarmos essa nova fase do nosso instrumento de comunicação pastoral e de formação permanente, queremos estimular seriamente a participação de todos e o bom uso das reflexões e subsídios que irão aparecendo no TAPIRI. Muita riqueza existe entre nós e muita sede de aprender e de acertar, também. Por isso, citando Santo Agostinho: “Canta e caminha!” BOA LEITURA

SUMÁRIO UNIVERSIDADE INDÍGENA: Um sonho dos povos indígenas do alto Rio Negro - - - Pg. 05 Caminhar junto com a geração internet - - - Pg. 10 Dom Bosco e a saúde - - - Pg.13 Faculdade Salesiana Dom Bosco • 10 anos - - - Pg. 20 A rede das “necessidades” juvenis - - - Pg. 22

Pe. João Sucarrats Font, sdb. Secretário Inspetorial

3

4

2


UNIVERSIDADE INDÍGENA: Um sonho dos povos indígenas do alto Rio Negro1 Pe. Justino Sarmento Rezende, sdb | Indígena do povo Tuyuka e trabalha no Alto Rio Negro

C

Iniciando a conversa Caríssimos irmãos salesianos e membros da Família Salesiana nós já construímos uma longa história na Amazônia. No ano de 2015 estaremos completando 100 anos de presença na região do Rio Negro. A recente história dos povos indígenas em Pensar a Universidade Indígena tem estreita relação com as nossas histórias, principalmente com a educação escolar. A construção das escolas no Rio Negro passou por muitas fases históricas. Agora estamos acompanhando histórias construídas pelos próprios indígenas no campo da educação escolar e dentro desse contexto a universidade indígena. É um campo aberto para discussões, estudos, dúvidas, medos, desconfianças. Partilho com vocês aquilo que vêm se falando nessas últimas décadas. 1. Quem pensa a universidade indígena Os povos indígenas formam as riquezas da região do Rio Negro, com diversidade de povos, culturas, línguas, práticas culturais, saberes, conhecimentos, políticas, economias etc. Os pesquisadores afirmam que os habitantes destas terras pertencem a quatro famílias linguísticas: TUKANO2 , ARUAK3 , MAKU4 e YANOMAMI. Essas e outras escolas estavam presentes nas discussões à respeito da universidade indígena: Assunção do Içana, Cucui, Taracuá, Escola Ba’sebo, Campinas e Anamuim, Escola Pamáali, Tumbira, Escola Inês Penha, Kurika, Escola Tiradentes Whepaka, Dom Marchesi, Comunidade Ucuqui, Aeitym, Caruru Cachoeira – Alto Waupés, Colégio São Gabriel, Maturacá, Baré – Alto Rio Negro, Querari – alto Uaupés, Cachoeira de Ipanoré, Comunidades e

1

Resultados de dois encontros: I Workshop Internacional dos Povos Indígenas do Rio Negro – “Construindo uma Universidade

Indígena no alto Rio Negro” [4-7/12/2010]; I Simpósio Internacional: Diálogos Interculturais na Fronteira Panamazônica [1215/09/2011], ambos realizados na cidade de São Gabriel da Cachoeira. Tukano, Desana, Kubeu, Wanana, Tuyuka, Piratapuia, Mirititapuia, Arapaso, Karapanã, Bará, Siriano, Makuna, Tatuyo,

2

Barasana (Panenoá), Taiwuano (Edúria). Baniwa, Kuripaco, Baré, Werekena e Tariana.

3

Hupda, Yuhupde, Dow, Nadöb, Kakwa e Nukak.

4

5

escolas do baixo Rio Negro, Escola indígena es- danças significativas para histórias indígenas e tadual Tunuí, Colégio São Gabriel, Dom Pedro não indígenas; promova-se a sistematização e universalização dos conhecimentos dos povos Massa e outras escolas. indígenas do Rio Negro; trabalhem-se juntos: 2. Como a universidade indígena aju- lideranças, pais, alunos, professores e demais parceiros; fortaleça-se a união das comunidadará aos os povos do Rio Negro? Os povos indígenas acreditam que a des; que as comunidades tornem-se autônouniversidade indígena ajudará na aquisição de mas e sustentáveis econômica, cultural, social e conhecimentos dos saberes tradicionais indíge- politicamente; universidade esteja a serviço do nas; ensinará os valores culturais e tradicionais bem das comunidades e de portas abertas para étnicos, com isso seus filhos tornar-se-ão pro- as comunidades e que com ela se assegure a fessores de seus conhecimentos; recuperação permanência dos jovens em suas comunidade valores culturais, no respeito às crenças, die- des. As línguas indígenas teriam com ela lugar tas alimentares, conselhos dos velhos; oferece- rá um futuro melhor para os jovens; habilitará privilegiado no ensino, aprendizagem e no uso profissionalmente as pessoas para o mundo cotidiano, em casa e na própria universidade; e mercado de trabalho, dentro e fora das co- fortaleça-se a revitalização das línguas, tradições e munidades indígenas; facilitará o ingresso dos culturas esquecidas; promovam-se os estudos linjovens no ensino superior; ajudará na constru- guísticos dos povos do alto Rio Negro; elaborem ção da autonomia econômica, cultural, social material literário, audiovisual sobre os conhecie política dos povos; minimizará os problemas mentos dos povos da região; esses materiais sirexistentes na área da saúde, manejo ambien- vam para as escolas indígenas e não indígenas. A universidade deverá ajudar no desenvoltal; fortalecerá identidade nacional dos povos e promoverá as identidades culturais de diversos vimento de metodologias educacionais e tecnolopovos; favorecerá a convivência inter-racial e gias próprias; a construir conhecimentos baseados intercultural dos povos; promoverá o encontro numa concepção indígena, própria da América de culturas e sabedorias; respeitará o sincretis- do Sul; a fortalecer a pedagogia da oralidade dos povos indígenas; a respeitar os ensinamentos dos mo, a mestiçagem: índio, negro, “branco”. Espera-se que na universidade as pes- mais velhos; a promover intercâmbios de expesoas adquiram conhecimentos ocidentais e riências com outras universidades, institutos de os articulem com ciências, pesquisas e co- pesquisa etc., nacionais e internacionais; trazer nhecimentos indígenas; que seja um espaço qualidade de ensino profissionalizante em diverde sustentação de conhecimentos; garanta a sas áreas; deverá estar atenta para as necessiconstrução de uma educação fundamentada dades dos povos do Rio Negro, buscando solunos valores indígenas e valores da identidade ções para os problemas da região; desenvolver nacional; valorizem-se os conhecimentos, prá- conhecimentos específicos; garantir o desenticas pedagógicas indígenas e não indígenas; volvimento sustentável nas áreas de conhecihaja interação de saberes diversos; que os co- mento indígena tradicional; qualificar as pesnhecimentos indígenas sejam fontes de mu- soas para o desenvolvimento de projetos de 6


sustentabilidade; promover a pesquisa-ação na organização e construção de saberes; organizar novas teorias relacionadas aos saberes indígenas; promover a exploração da ciência tradicional dos ancestrais indígenas e o reconhecimento da cultura tradicional como ciência; garantir formação de qualidade aos jovens indígenas, junto aos órgãos governamentais e outras instituições; favorecer o conhecimento aprofundado sobre a legislação indígena e defender a comunidade em termos políticos, econômicos, sociais, promovendo a defesa dos direitos indígenas. 3. O que a universidade indígena deve ensinar aos seus acadêmicos? A universidade indígena deverá atentar para as riquezas dos povos indígenas. Deverá ensinar a cultura material e imaterial; valorizar e respeitar os lugares sagrados; valorizar as histórias de origens indígenas; aprofundar sobre políticas sociais, culturais e econômicas dos povos indígenas; ensinar sobre sistemas de consideração de parentesco; ensinar as tradições culturais, danças, músicas e conhecimentos tradicionais; aprender sobre os tabus conservacionistas: mitos; o espírito e prática da coletividade; os benzimentos: benzer, curar, plantas medicinais; ensinar a trabalhar com as artes, pinturas indígenas, comidas típicas, a agricultura, cultivo de plantas, a medicina tradicional, objetos da caça e pesca, artesanatos (tipiti, peneira...), roça, instrumentos musicais, canoas, bongos; além de oferecer cursos que garantam a sustentabilidade da comunidade. Deve ensinar a valorizar e praticar a medicina indígena e medicina ocidental; construir um Projeto Educativo Institucional Intercultural; promover a medicina tradicional utilizando os re-

cursos tecnológicos (teoria e prática); ensinar as teorias sobre a origem do mundo e a transformação da humanidade tanto do conhecimento indígena e não indígenas; respeitar os encontros das culturas e das sabedorias; fortalecer a identidade nacional; e incentivar a produção de remédios, cosméticos. Promover curso de linguística (indígenas); ensinar as línguas co-oficializadas (Tukano, Nheegatu e Baniwa); ensinar a Legislação dentro da Constituição Federal sobre a Educação, Organização Indígena, Saúde indígena; Legislação Indígena Nacional e Internacional; Legislações: direito, ética, lutas e movimentos indígenas; administração das Organizações Indígenas; administração e gestão escolar; Advocacia; Agronomia; Antropologia Indígena, Antropologia; Artes, educação física; Direito; Ecologia; Engenharia florestal, agro-florestal; manejo ambiental e florestal; Física; Geografia (Etnogeografia), Etnobiologia, Ciências, História; Gestão pública: gestão de projetos sociais, culturais, sustentáveis e educacionais; Matemática, Administração, Contabilidade; Medicina; Nutrição, Veterinária; Química; Zootecnia... 4. Quais temas devem ser pesquisados? A universidade indígena deverá promover pesquisas sobre a origem das constelações, a ciência tradicional e a orientação do tempo; sobre o calendário ecológico (constelações); astronomia indígena e não indígena; a origem dos pajés; origem dos povos e os clãs; vida dos antepassados; parentescos; Antropologia; Benzimentos indígenas; Bio7

diversidade natural, mineral e agro-florestal; Cosmologia; Culinária; Cultura material e imaterial; Doenças Tropicais: Parasitas, agressores (alguns mortais que infectam pessoas), animais e plantas; exploração de fósseis; línguas, costumes; medicina tradicional indígena, ecologia; remédios caseiros; plantas venenosas; Mitos: surgimento da humanidade, lugares sagrados; Músicas, artes, pinturas indígenas; Lugares sagrados (ecológico); Pedagogia indígena; plantas medicinais; Rituais, cerimônias tradicionais; Solos; surgimento das comunidades; surgimento dos seres vivos: plantas, peixes; territorialidades. 5. Quem serão os professores, alunos e educadores? Segundo os participantes dessas discussões devem ser pessoas comprometidas com suas comunidades, com capacidade e responsabilidade para com a gestão da Universidade; conhecer e ter sensibilidade com a cultura dos povos indígenas; respeitar a ética e a diversidade cultural; devem ser indígenas graduados no mestrado e doutorado na área da educação; aliar-se com assessoria das instituições universitárias públicas e particulares e institutos de pesquisas. Os professores não-indígenas devem ser pessoas comprometidas com as causas dos povos indígenas no alto Rio Negro; comprometidas com as questões indígenas e que entendam e tenham pensamentos voltados a defender os interesses indígenas. Os alunos devem ser indígenas que moram nas suas comunidades de origem, ou os que vivem na ci-

capa

2

dade além de não-indígenas que tenham interesse. 6. Como e quem serão os gestores ? Serão indígenas com formação para a Gestão; sábios intelectuais indígenas como orientadores de indígenas mais novos, também de mestres e doutores indígenas; pessoas conhecedoras de saberes tradicionais e convencionais; intelectuais pajés; equipe de coordenadores indígenas comprometidos com a essência do ensino e a qualidade do corpo docente; indígenas formados em Antropologia; Lideranças com experiência e conhecimento das políticas de educação, com ensino diferenciado indígena; pessoas indígenas capacitadas, experientes e de confiança de todos os indígenas e não indígenas; que tenham desejo de lutar pela melhoria da qualidade de vida dos povos indígenas; pessoas que acompanham o movimento indígena do Rio Negro e lutam pela Educação Escolar Indígena; pessoas que procuram parcerias com as outras Universidades; pessoas qualificadas que tenham conhecimento científico, mas escolhidos com eleição secreta com participação de toda a população indígena e mestiço do alto Rio Negro; pessoas que saibam fazer intercâmbio com os estados nacional e internacional; pessoas que tenham estudos avançados podendo ser índio e não índio; professores qualificados e comprometidos com os trabalhos e conhecimentos específicos das ciências e cursos demandados; profissionais na área da educação, com conhecimento da didática, pedagogia e administração escolar. 8


7. Como poderá ser a seleção de candidatos ? Alguns critérios são: interesse da própria pessoa; que tenha disponibilidade de tempo para estudar, sem distinção de raça, cor, línguas ou religião; prova de redação dissertativa, com dois ou três temas de livre escolha, escrita com uma das línguas co-oficiais do município de São Gabriel da Cachoeira; saber a cultura e saber falar as línguas indígenas e não indígenas; entrevista; indicação das comunidades, conforme a demanda comunitária e priorizar o interesse do próprio indivíduo; não indígenas farão um “provão”; prova de conhecimentos gerais, nas áreas humanas e científicas; ingressar pelo índice de aproveitamento de ensino do aluno no ensino médio; processo seletivo sem vestibular de forma transparente, honesta, sem favorecimento e privilégios; reservar vagas para os municípios e distritos. 8. Como a universidade indígena pensa sobre as parcerias com outras instituições? A universidade indígena buscará o apoio de outras instituições para que a ajudem na construção de sua estrutura física; na publicação de livros; apoio financeiro para que cada aluno possa alcançar seus objetivos; buscar parcerias com universidades públicas e particulares; buscar melhores cursos para atender a demanda da universidade indígena; conseguir vagas nas universidades públicas e particulares; contribuir na formação específica dos alunos; criação de sala de extensão Universitária para comunidades em pontos estratégicos no alto Rio Negro; favorecer o intercâmbio de conhecimentos e especialização para os graduandos; garantir subsídios (livros, equipamentos,

aparelhos) para a universidade indígena; materiais de recursos tecnológicos; suporte técnico nas atividades de pesquisas; intercâmbio de conhecimentos culturais, políticos, econômicos e sociais; conseguir bolsas de estudos para os estudantes; publicação das pesquisas dos alunos. FECHANDO A CONVERSA As histórias indígenas são construídas continuamente. As discussões, os estudos e aprofundamentos sobre a universidade indígena visam fortalecer o protagonismo dos povos indígenas: professores, acadêmicos, reitores, coordenadores, gestores, administradores, acadêmicos, pesquisadores, cientistas, profissionais. Aquilo que os povos indígenas desejam é que a construção da universidade indígena tenha um perfil indígena na sua ideologia, filosofia, política e práticas pedagógicas. Não significa isolar de outras universidades, mas que seja uma universidade que levante as bandeiras dos saberes e conhecimentos dos povos indígenas, uma universidade que contribua para a construção de história diferente para os mundos indígenas e para o mundo global. Que nessa universidade tremulem elegantemente e maravilhosamente coloridas as bandeiras dos conhecimentos dos povos indígenas e bandeiras dos conhecimentos ocidentais, orientais e de outras civilizações.

9

Caminhar junto com a geração internet Pe. Gildasio Mendes, sdb | Inspetoria Santo Afonso Maria de Ligório (BCG)

U

ma nova geração está mudando o modo de se relacionar e de viver, usando para isso as novas tecnologias digitais, as redes sociais e o universo virtual. Eles são os nativos da internet. Vivem em um ambiente digital no qual as novas tecnologias são como o ar que respiram. Dia e noite, estão em um universo virtual onde se encontram para conversar por meio da internet, dos celulares, do MSN. A geração internet está mudando e amadurecendo. Ela está influenciando o modo de agir dos pais, transformando a educação nas escolas e o relacionamento nas empresas, e se envolvendo em um novo compromisso social e político. Essa geração está crescendo e cada vez mais apresenta desafios para os pais e educadores: como compreender, dialogar e caminhar com a geração internet? De acordo com a mais recente pesquisa realizada no Brasil pelo Ibope/Nielsen, o país tinha até final de 2009 o total de 67,5 milhões internautas, ocupando o quinto lugar no ranking mundial. Atualmente, o país é líder mundial de acessos à internet, com 48 horas e 26 minutos mensais, superando até os Estados Unidos. O uso do microblog, o twiter, entre os brasileiros, é de 15%, colocando o Brasil mais uma vez na frente dos Estados Unidos (10,69%). Em relação aos acessos às redes

sociais, nosso país está em quinto lugar, com um salto de crescimento em número de usuários de 23 milhões e 966 mil, em 2009, para 35 milhões e 221mil, em 2010. Para muitos, termos como "Geração Y" e "Geração Z" são novos. Eles fazem parte de uma grande mudança cultural pela qual as sociedades estão passando nesse momento da história. Estes novos tempos têm sido profundamente influenciados pela chamada cultura midiática, um conceito que está relacionado com a ideia de que as pessoas, por meio das novas mídias, criam outros tipos de relacionamento, estabelecem novos meios de produção e de acesso ao conhecimento e constroem redes de interatividade para promover mudanças socioculturais na sociedade em geral. As gerações Y e Z são os filhos nativos e imersos na cultura midiática.

10


Geração Y, Geração Z Embora a definição e a caracterização de uma geração sejam difíceis de se determinar com exatidão, alguns estudiosos do fenômeno da comunicação sugerem que a cultura midiática é uma realidade marcante no mundo globalizado. E dentre os fatores de maior incidência na mudança de comportamento e de atitudes das novas gerações estão, sem dúvida, a internet, o celular e o vídeo game. Segundo estudos recentes do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), com o uso contínuo do computador e a imersão nos ambientes virtuais, a «geração internet» pode estar expandindo suas capacidades mentais, sugerindo que o cérebro dessa geração processa informações diferentemente da geração que cresceu escutando rádio e vendo televisão. Esses estudos ainda são embrionários, mas apresentam algumas evidências de que a internet tem um efeito psicológico e social profundo. A Geração Y foi a primeira a vivenciar essas transformações. O estudioso Tapscott denomina de Geração Y, ou Geração Internet, as pessoas nascidas de 1977 a 1990. Entre as características relacionadas a essa geração e ao modo como se comunica percebe-se que esta deixa de ser o receptor passivo de um programa de televisão para acessar um universo incontrolável de portais na internet. Passa do uso da linguagem formal e linear para a linguagem do hiperlink. Deixa de ler os jornais impressos para navegar nos sites e comparar notícias, criar, remodelar, montar, editar, socializar em rede.

Essa é uma geração que tem dificuldade de pensar e agir de modo lógico, que desenvolve ideias e pensamentos com pouca profundidade e que age com certa ambiguidade. Isso porque eles vivem imersos em um grande universo de informações. Mas é também uma geração que está preocupada com o planeta e com o sentido de tolerância religiosa e ética, que cria grupos de interesse e que se compromete com causas sociais e planetárias. É uma geração que prima pela competência, pelos resultados, pela qualidade de vida e pelo respeito às diferenças. Definida como a geração das grandes mudanças de comportamento cultural e social, a Geração Z compreende os nascidos desde 1998 até o presente. Com pais e mães que nasceram na Era da Internet, encontram agora algo mais avançado: o You-Tube e as redes sociais, como Orkut e Facebook. Os membros da Geração Z querem ser autores, interagem, perguntam, respondem, querem dar opinião sobre tudo. Tapscott, na pesquisa que fez com dez mil jovens sobre a nova geração digital, classificou a Geração Z como aquela em que seus membros querem liberdade em tudo o que fazem. Quem souber dialogar com as gerações Y e Z vai compreender seu futuro. Quem entender o seu futuro vai acreditar nessas novas gerações. É verdade que essas gerações enfrentam grandes desafios, entre os quais a segurança e a privacidade online. Mas as grandes mudanças do futuro também estão nas mãos das gerações Y e Z. Dom Bosco, apaixonado pelos jovens, com certeza 11

capa

2

estaria no grupo daqueles que creem • Confirmar, reconhecer e valorizar expeno potencial e no dinamismo das novas riências. Saber confirmar as experiências gerações. Educar é acreditar e caminhar das pessoas (na vida de oração, no trabalho profissional, nos trabalhos pastorais, com eles! na vivência do amor, na família). • Celebrar o mistério. Propor a Pessoa de Compreender e dialogar com as Jesus Cristo e seu projeto de amor com novas gerações Como educar os filhos e filhas da internet? novas linguagens e favorecer a experiênComo falar de valores cristãos e estabele- cia do Cristo Ressuscitado no campo indicer novas relações e atitudes para as Ge- vidual e em grupos. rações Y e Z? Sugiro algumas orientações aos pais e educadores: • Favorecer o relacionamento e interatividade. A interatividade que eles aprendem nos vídeogames, nas conversas online, é um convite para o educador entrar no processo de diálogo; um convite para interagir e se relacionar. • Reconciliar o Evangelho com a cultura midiática. Saber inculturar o Evangelho no tecido e no coração da comunicação, da linguagem e da interatividade da cultura midiática. • Comunicar os valores intangíveis. Estabelecer um diálogo que os leve a abrirem-se para as expressões intersubjetivas, à capacidade de redescobrirem as dimensões imaginárias da vida individual e coletiva e a busca dos valores intangíveis (o amor, o perdão, a solidariedade e a felicidade). • Reinventar os apelos para o compromisso social. Saber despertar, dentro do cenário da cultura midiática, o compromisso com o coletivo e com a solidariedade. • Promover os valores percebidos e a experiência vital. Favorecer experiências artísticas, sociais, celebrativas, que levem à experiência e fortaleçam o senso de pertença e relacionamento autêntico e realizador. 12


Dom Bosco e a saúde Pe. João Mendonça, sdb | Pároco da Paróquia São José Operário - Zona Leste de Manaus

N

o contexto da CF 2012, Fraternidade e saúde pública, recorrer à historia de Dom Bosco para refletir sobre este dom é mais que importante. O padre Pascual Chávez nos alerta: “Dom Bosco é uma figura poliédrica, que não pode ser reduzida a simples fórmulas ou a títulos jornalísticos; é uma personalidade complexa, feita de realidades ordinárias e excepcionais, de projetos concretos ideais e hipotéticos, de um estilo cotidiano de vida e ação, e ao mesmo tempo de especiais relacionamentos com o sobrenatural. Uma figura desse quilate não pode ser compreendida adequadamente a não ser na sua multiplicidade de facetas e de dimensões; do contrário, a apresentação parcial de um ou de alguns aspectos, quem sabe confundidos conscientes ou inconscientemente com um perfil completo, corre o risco de falsificar a sua fisionomia” 1. Pensando nisso é que resolvi escrever algo sobre o tema Dom Bosco e a saúde. Começo citando uma carta enviada ao padre Dalmazzo, diretor de Valsalice em 1875, na qual Dom Bosco recomendava a saúde como uma dimensão importante da vida do salesiano e dos jovens2. Mas, o que é a saúde? Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) é “o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doenças”3. Portanto, o ser humano, ao interagir com todo o seu ambiente social, politico, religioso, social, econômico, desenvolve este bem-estar físico e mental. Ora, Dom Bosco foi um homem de inserção profunda na realidade do seu tempo e nos dá testemunho de um bem-estar que transcende o simples fato de não ter problemas físicos. O padre Juan Vecchi, durante sua enfermidade, escreveu uma belíssima carta que precisamos retomar no atual contexto, intitulada a enfermidade e ancianidade na experiência salesiana4, a reflexão nos orienta a considerar que “o sofrimento e a cruz inserem-se na vida”5. Lembra-nos ainda que a doença renova o espirito comunitário e a oferta do mesmo pelos jovens, isto à luz das nossas Constituições: “Prestando o serviço de que são capazes e aceitando a própria condição, eles (os doentes) são fonte de bênçãos para a co-

munidade, enriquecem-lhe o espirito de família e tornam mais profunda a sua unidade” (C 53). Tudo isso nos ajuda a entender que o bem-estar físico e mental também passa pela cruz. Numa sociedade que foge do sofrimento essa realidade torna-se um testemunho eloquente. Dom Bosco, samaritano da saúde Às vezes, temos a impressão de que na vida pessoal de Dom Bosco não é claro o cuidado pela saúde. Morre aos 72 anos “como um pano velho”, dizia o médico que o acompanhava. Hoje, na era do culto ao deus CORPO, o cuidado com a saúde virou vício; muita gente se estressa malhando nas academias e seguindo receitas e dietas para adquirir o corpo perfeito, evitando o envelhecimento. Certamente Dom Bosco não pedia isso aos salesianos. Ele queria uma saúde física que fosse capaz de mover a todos, sobretudo os salesianos, em direção aos jovens e não para dentro de si mesmo, para o narcisismo; querer-se bem e cuidar-se, realiza-se em duas atitudes, como as Novas Diretrizes da CNBB nos recordam, a exemplo do próprio Jesus Cristo: alteridade e gratuidade6. Nesse sentido, Jesus cura da hemorragia (Lc 8,43), endemoniados (Mc 1,32), gagueira (Mc 7,32). A Bíblia considera o dom da saúde como shalom e salvação. Não podemos assim descuidar da nossa saúde. Tenhamos na mente

e no coração que vale mais gastar o dom que Deus nos deu no trabalho digno do que nos vícios ou numa vida acomodada, sem brio e sem sentido. Portanto, a justa compreensão e o cuidado da saúde, em todas as fases da vida, ajuda-nos a ser mais feliz. Na vida de Dom Bosco os sonhos tiveram um papel de saúde psíquica e física. Jung, um dos grandes psicólogos estudioso dos sonhos, afirmava que a vida psíquica de uma pessoa é um jogo que nasce de diversos instintos de conservação e os sonhos equilibram a busca consciente e inconsciente desses instintos. Ora, Dom Bosco sonhava com formas arquétipas7 que revelam sua saúde psíquica: desejos, projetos, metas. Para Jung o “sonho não é de modo algum uma mistura confusa de associações casuais e desprovidas de sentido. É um produto autônomo e muito importante da atividade psíquica”8. A qualidade do sonho não é uma dissimulação da realidade, mas um ensinamento, portanto, saúde. Evidentemente, nos alerta prudentemente padre Antônio Ferreira, não podemos ser ingênuos ao lidar com os sonhos9. A ascese e a vida de oração de Dom Bosco foram também expressão de sua saúde psíquica e física. Seu mestre espiritual, padre José Cafasso, dizia claramente que na vida de um padre [religioso] a solidão é fundamental. Dom Bosco assimilou essa tradição de vida espiritual nos 31 anos que

CHAVEZ, Pascual, Conhecendo e imitando Dom Bosco, façamos dos jovens a missão da nossa vida, Estréia 2012, Brasília: Ed. Dom Bosco, 2012, p. 14.

6

CNBB, Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, São Paulo: Paulinas, 2011, n.8-9.

BRAIDO, Pietro, Dom Bosco pai dos jovens no século da liberdade, Vol. 2, São Paulo: Ed. Salesiana, 2003, p. 222.

7

Animais de grande força: tigres, elefantes, serpentes, monstros do gênero apocalíptico, etc.

HANSEN HENRIQUE, João, Como entender a saúde na comunicação? São Paulo: Paulus, 2004, p. 7.

8

JUNG GUSTAV, Carl, A análise dos sonhos: In Freud e a psicanálise. Obras completas de Carl Gustav Jung. Vol 4. Petrópolis: Vozes, 1989.

VECCHI, Juan, Enfermidade e ancianidade na experiência salesiana, Atos do Conselho Geral, n. 377, out/dez 2001.

9

FERREIRA DA SILVA, Antônio, A presença de Nossa Senhora nos sonhos de Dom Bosco, In. Cadernos salesianos, ano 2, n. 3,jan/jun 2011, p. 58.

1 2 3 4

Ibid., p. 8

5

13

14


passou frequentando os famosos exercícios espirituais no Santuário de Santo Inácio, perto de Lanzo, 1842-1873, organizados por grandes figuras do clero turinense, sobretudo Cafasso. Ali Dom Bosco rezava, pregava, escutava e silenciava e encontrava forças para seu apostolado. Por isso ele insistia tanto com os jovens e os salesianos sobre o valor do silêncio durante os exercícios espirituais10. Silenciar para ele era o mesmo que abastecer a mente, o coração e a vontade para estar mais atento aos jovens e suas necessidades. Um salesiano ativista e que vive zoando sem silenciar não pode ter saúde mental, muito menos física, pois apenas assim terá equilíbrio para saber ouvir os jovens e estar com eles. Outro elemento importante da saúde mental e física de Dom Bosco revela-se na sua capacidade de fazer amigos. Na casa Moglia o adolescente Bosco se fez amigo de todos. Dos 16 aos 26 anos vividos em Chieri (1831-1835) o jovem Bosco desenvolveu verdadeiras amizades espirituais com professores e companheiros (João Pianta11, Elias12, Pe. José Gazzani13, Pe. Jacinto dos Condes Giusiana14, Guilherme Garigliano15, João Giacomelli16, Paulo Victor Braia17, Pe. Pedro Banaudi18, Jonas19). A amizade nasce entre os bons e gera caridade. O padre Caviglia atesta isso ao comentar a vida de Comollo20 escrita por Dom Bosco e afirma claramente que aquela amizade foi tão forte e sadia que é possível ver na vida de Comollo o próprio Dom Bosco.

Embora, não tenhamos textos de Dom Bosco falando de si mesmo, na vida de Bessuco, Comollo, Domingos Sávio, Magone, Francisco Giacomelli sim temos o retrato do próprio Dom Bosco21. Ele propõe ideais de vida, descreve amigos, que na verdade são sua imagem pintada, poderíamos dizer em 3D. Durante o seminário, mesmo com a rígida disciplina22 da época o seminarista Bosco conquistou a amizade dos professores e ao terminar os estudos sentiram tremendamente sua partida23. Para sintetizar: A própria Sociedade da Alegria, fundada por ele aos 16 anos, foi a expressão de sua rica saúde mental e física24. De 1844 a 1846, Dom Bosco foi capelão da Marquesa Julieta Colbert de Barolo, uma mulher de grande espiritualidade, fundadora de comunidade religiosa, educadora e defensora da mulher abandonada. A obra do Refúgio e no Pequeno Hospital de Santa Filomena, com 60 leitos, para terapia e acolhida de meninas aleijadas de 3 a 13 anos, foram campos de ação de Dom Bosco, primeiro capelão da obra da Marquesa. Assim temos nosso pai inserido nas problemáticas das mulheres, inclusive prostitutas, em condição de pobreza e dificuldade psicológicas. Dom Bosco não descreveu esta experiência de forma sistemática, mas em 1862, numa boa noite aos salesianos falou sobre o atendimento de uma jovem que se confessou e morreu serenamente. No seu texto do Mês

capa

de maggio de 1858 ele apresenta uma jovem como protagonista que, gravemente enferma se reconcilia com Deus antes de morrer. Os textos relativos à devoção ao anjo da guarda e ao livrinho Exercícios de devoção à misericórdia de Deus de 1847, editado depois que ele saiu do Refúgio e doado à Marquesa, revelam também sua experiência neste campo da saúde das jovens e o desejo de salvá-las25. Temos também dados nas Memórias do Oratório que atestam a atenção de Dom Bosco com a saúde pública na assistência ao Hospital da Caridade, no Asilo das Virtudes, nas prisões, no Colégio de São Francisco de Paula, lugares que acolhiam jovens pobres e davam educação, alojamento, cuidado sanitário e assistência religiosa26. É Dom Bosco que expressa na vida as palavras do Evangelho: “O samaritano chegou junto dele, viu-o, moveu-se de compaixão, aproximou-se, cuidou de suas chagas derramando óleo e vinho, colocou-o em seu animal, conduziu-o à hospedaria, dispensou-lhe cuidados, tirou dos denários, deu-os ao hospedeiro, dizendo: cuida dele”. Outra importante atuação de Dom Bosco no campo da saúde foi na cólera de 1854. A falta de alimentos, moradia e assistência médica agravaram a situação em todo o Piemonte e na cidade de Turim. O bairro Dora, de maior pobreza foi o mais atacado pela cólera. Foram 1.438 mortos. Os jovens da Companhia de São Luís, mais maduros e disponíveis, foram diretamente envolvidos no atendimento dos doentes. Muitos meninos órfãos foram recolhidos no oratório, entre eles, Pietro Enria, que mais tarde se tornou enfermeiro de Dom Bosco até sua morte. O jornal L‘Armonia comentava aber-

tamente da obra ação de Dom Bosco e de seus jovens, entre eles Domingos Sávio27. É preciso esclarecer que a relação entre Dom Bosco e o padre José Agostinho Benedito Cottolengo (1786 a 1842), fundador da Pequena Casa da Divina Providência no dia 27 de julho de 1832, tem muito mais lenda que verdade. Ele morreu em Chieri no dia 30 de abril de 1842, portanto, um ano depois da ordenação de Dom Bosco. Enquanto o seminarista Bosco está recém-ordenado, o padre Cottolengo que já atuava desde 1811, estava na casa de um padre, parente seu, muito doente.Certamente Dom Bosco sabia da obra e teve contato com ela durante sua vida em Turim, mas com o Cottolengo não teve contato pessoal, pelo menos não temos dados concretos. Entretanto, a obra do Cottolengo era um referencial em Turim para os doentes e rejeitados. Com certeza Dom Bosco foi sensível a esta obra, mesmo porque Valdocco está muito próximo do quarteirão

Ibid., p. 94

22

Ibid., 93

Dom Bosco, Memórias do Oratório de São Francisco de Sales, São Paulo: Salesiana, 3ª ed., 2005, p. 67.

17

Ibid., p. 61

23

da Silva mendonça filho, João. A corda bamba e a certeza, o santo Dom Bosco, São Paulo: Palavra e prece, 2ª ed, 2010, p. 52 - 53

Ibid., p. 78

18

Ibid., p. 65

24

BUCCELLATO, Giuseppe, Dom Bosco: notas para uma história espiritual de sua vida, São Paulo: Salesiana, 2009, p. 22.

Ibid., p. 60

19

Ibid., p. 67

25

Ibid., p. 61

20

Ibid., p. 94s

26

Ibid., p. 64

21

Ibid., p. 34-

27

10

BUCCELLATO, Giuseppe, Dom Bosco: notas para uma história espiritual de sua vida, São Paulo: Salesiana, 2009, p. 78-91.

16

11 12 13 14 15

15

2

BRAIDO, Pietro, Dom Bosco pai dos jovens no século da liberdade, vol. 1, São Paulo: Salesiana, 2008, p. 173-175. Dom Bosco, Memórias do Oratório, Op. Cit., p. 129. Ibid., p. 262-263. Memorias do Oratório, Op. Cit., 129.

16


da “pequena providência”. Outro elemento importante a ser considerado na saúde mental e psíquica de Dom Bosco são os milagres. Sua fama de taumaturgo se projetou, sobretudo durante a construção da Basílica de Maria Auxiliadora (1862-1868). Foram seis anos de muita luta. Dom Bosco se tornou um verdadeiro esmoleiro. Pedia sem parar. Propagava e prometia graças a quem fizesse doações para a construção da Igreja. Nas inúmeras cartas desse período encontramos promessas de bençãos e milagres abundantes. Em 1867 escrevia a senhora Giuseppina que residia em Chieri: “Se Maria Auxiliadora continuar a conceder seus celestes favores a quem ajuda neste sagrado edifício, acredito que neste ano poderemos utilizá-lo para as funções sagradas”28. Contudo, foi no cólera de 1865 e 1867, que afetou muitos países e varias regiões da Itália, que Dom Bosco mais prometeu milagres. Escrevia a condensa Anna Bentivoglio: “Nem a senhora tema nada da cólera. De todos os que auxiliam na construção da Igreja de Maria Santíssima Auxiliadora, ninguém será atingido por doenças mortais” 29. Ao padre Raffaello Cianetti, pároco de São Leonardo em Lucca, promete: “Note que Maria é uma generosa pagante e os que fizerem oferta terão antídoto contra a cólera e para outras desgraças”30. Na famosa viagem a Paris de 1883, Dom Bosco foi aclamado como

taumaturgo:” Iam até ele para que rezasse e abençoasse, intermediário junto da Virgem Auxiliadora mediadora de graças materiais e espirituais, de curas e de soluções de problemas pessoais, familiares e profissionais” 31. Contudo, durante o processo de canonização de Dom Bosco, as controvérsias sobre os milagres atribuídos a eles pela intercessão de Maria Auxiliadora, foram abundantes. O bispo Battista Bertagna (18281905), deu seu testemunho no processo: ”Muitas vezes escutei que o servo de Deus proferiu profecias, que lia os corações das pessoas, que revelava coisas ocultas. Eu nunca vi pessoalmente estas coisas. Creio, porém, que Dom Bosco tivesse o dom sobrenatural de curar enfermos. Ele mesmo me falou sobre isto. Dizia que abençoava os doentes com a imagem de Maria Auxiliadora e de Jesus”32. Enfim, entre 1927e 1929 dois milagres foram atribuídos a Dom Bosco que o levaram a ser beatificado. Um relativo à irmã Provina Negro, FMA, curada de uma úlcera. Outro ocorreu com a jovem Teresa Callegari, curada instantaneamente de uma artrite crônica e de uma complexidade de doenças33. A questão é complexa, temo em sintetizar demais, porém, as curas realizadas pela intercessão de Maria Auxiliadora não foram contestadas. Eis, então, uma harmonia entre bem-estar físico, psíquico, social e religioso.

A experiência da enfermidade em Dom Bosco: Nas Memórias do Oratório, escritas entre 1873 e 1875, elaboradas por ordem expressa de Pio IX e depois de uma grave doença sofrida por Dom Bosco em Varazze que quase o matou em 1871 com duração de cinquenta dias, temos relatos de enfermidades que resultam de seus constantes trabalhos. Quando morreu o padre Calosso em 1830, Joãozinho Bosco quase morreu também. Ele mesmo narra nas Memórias do Oratório que, “a morte do padre Calosso foi para mim um desastre irreparável. Chorava sem consolo pelo benfeitor falecido. Quando estava acordado pensava nele; sonhava com ele quando dormia; tão forte foram as coisas, que minha mãe, temendo pela minha saúde, me mandou por algum tempo morar com o meu avô em Capriglio”34. Tempos depois, quando ainda seminarista caiu gravemente doente depois da visão de Comolo (1839) e quem o curou foi a mãe Margarida que trouxe uma garrafa do bom vinho e um pão de milho35. Em 1846 ele atendia uma série de atividades, era o começo da obra em Valdocco, um dia ficou gravemente doente com bronquite, quase morreu. Até o viático recebeu. Os meninos fizeram novenas e promessas. Dom Bosco se recuperou, mas ficaram sequelas. Depois

28

BRAIDO, Pietro, Dom Bosco pai dos jovens no século da liberdade, vol.1, São Paulo: Salesiana, 2008, p. 509.

33

29

Ibid., p. 512

34

30

Ibid., p. 514

35

31

BRAIDO, Pietro, Dom Bosco pai dos jovens no século da liberdade, vol. 2, p. 515

36

capa

de algumas semanas em Murialdo, na casa materna, retornou a Valdocco e teve vinte e sete anos de bem-estar físico (1872)36. Exatamente um ano antes da grave doença de Varazze. Os dias com a mãe Margarida certamente foram de cura afetiva, física e mental. Tanto é assim que a trouxe consigo para Valdocco. Podemos imaginar quantos chás e curas alternativas Mamãe Margarida proporcionou aos jovens do Oratório, muitos deles oriundos das prisões com enfermidades graves. Interessante é que a vulnerabilidade do bem-estar físico e mental dos frequentadores do Oratório deixou marcas na nossa mística. Domingos Sávio, por exemplo, morreu prematuramente com complicações de saúde, alguns salesianos também morreram vitimados por doenças precoces devido ao estresse e a uma alimentação precária, como também, várias FMA. O príncipe Augusto Czartoryski, nobre, inteligente e piedoso que pede para ser salesiano e usa até de meios poderosos, sucumbe vitimado pela frágil saúde, mas fiel a Dom Bosco. A pergunta é: de onde esses jovens e salesianos conseguiram forças para viver o calor e frio, a sede e a fome fiéis ao projeto de Dom Bosco? Certamente na sua mística e no seu testemunho de apóstolo ousado e empreendedor. Assim como Jesus, Dom Bosco era movido pela compaixão pelos jovens doentes:

Ibid., p. 205-210. Memórias do Oratório, Op. Cit., p. 43. DA SILVA MENDONCA FILHO, João, A corda bamba e a certeza, Op. Cit., p. 38-39. Memorias Biográficas, vol. 1, p. 482. Memorias do Oratório, Op. Cit., p. 188-189. VECCHI, Juan, Enfermidade e ancianidade, Op. Cit., 12-13.

O bispo nem nega e nem afirma categoricamente porque ouviu do próprio Dom Bosco tais narrativas. Cfr. STELLA, Pietro, Don Bosco nella storia dela

32

religiosità cattolica, vol. III, La canonizzazione (1888-1934), Roma: LAS, 1988, p. 90.

17

2

18


“Traziam-lhe todos os que eram acometidos por doenças diversas e atormentados por enfermidades, bem como endemoniados, lunáticos e paralíticos. E ele os curava”(Mt 4,24). Este gigante da saúde física e mental foi também aos poucos deixando sua marca entre nós. A partir de 1884 se multiplicaram suas enfermidades: “anemia, disfunções hepáticas, infecção bronquiais, distúrbios circulatórios, enfraquecimento da visão, inchaço das pernas”37. Contudo, ele continuará ativo até meados de 1887 quando passou a viver mais em Valsálice e o Colégio de Lanzo. As náuseas e a dificuldade de respirar eram continuas38. Depois de um período de longa e dolorosa enfermidade, suas últimas palavras foram: “Dizei aos jovens que eu os espero no paraíso [...] Seja feita em tudo a vontade de Deus”39. Exatamente às 04h45 do dia 31/01, “com extrema doçura, elevou o braço paterno e pronunciou as palavras de benção”40. Depois seu braço paralisou e não falou mais. FECHANDO A CONVERSA Concluo estas breves reflexões sobre Dom Bosco e a saúde com a recita do Salmo 29, 1-13(30) que nos falada libertação: “Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes, e não deixastes rir de mim meus inimigos. Senhor, clamei por vós, pedindo ajuda, e vós, meu Deus, me devolvestes a saúde.

Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes, quando estava já morrendo. Cantai salmos ao Senhor, povo fiel, dai-lhe graças e invocai seu santo nome. Pois sua ira dura apenas um momento, mas sua bondade permanece a vida inteira. Se à tarde vem o pranto visitar-nos, de manhã nos vem saudar a alegria. Nos momentos mais felizes eu dizia: Jamais hei de sofrer qualquer desgraça! Honra e poder me concedia a vossa graça, mas escondestes vossa face e perturbei-me. Por vós, ó meu Senhor, agora eu clamo, e imploro a piedade do meu Deus: Que vantagem haverá com minha morte, e que lucro, se eu descer à sepultura? Por acaso, pode o pó agradecer-vos e anunciar vossa leal fidelidade? Escutai-me, Senhor Deus, tende piedade! Sede, Senhor, o meu abrigo e protetor! Transformastes o meu pranto em uma festa, meus farrapos, em adornos de alegria, para minh’alma vos louvar ao som da harpa e ao invés de se calar, agradecer-vos: Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” Que Dom Bosco nos ajude a viver saudáveis de mente, coração e vontade. Amém.

BRAIDO, Pietro, Dom Bosco pai dos jovens, Op. Cit., p. 544

39

38

DESRAMAUT, Francis, Vida do padre Miguel Rua, primeiro sucessor de

40

Dom Bosco (1837-1910), São Paulo: Salesiana, 2010, p. 118. BRAIDO,

certeza, Op. Cit., p, 98.

37

DESRAMAUT, Francis, Vida do padre Miguel Rua, Op. Cit, p. 119. Ibid., p. 120. DA SILVA MENDONCA FILHO, João, A corda bamba e a

Pietro, Dom Bosco pai dos jovens, Op. Cit, p. 649.

19

Faculdade Salesiana Dom Bosco • 10 anos Profª Meire Botelho | Diretora Executiva da Faculdade Salesiana D. Bosco – FSDB/Manaus

A

Faculdade Salesiana Dom Bosco Manaus (FSDB), de Manaus, prepara-se para comemorar dez anos de credenciamento no próximo dia 17 de abril. A Instituição espera comemorar essa data inaugurando uma nova sede na Zona Leste da cidade de Manaus, o que possibilitará expandir suas atividades no campo do Ensino, da Pesquisa, da Extensão e das Ações Comunitárias. A Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal já sinalizaram homenagens públicas à FSDB, como é conhecida, que foi fundada nos princípios éticos, cristãos e salesianos e tem por missão promover o desenvolvimento integral da pessoa humana e do patrimônio cultural da sociedade através da produção e difusão do conhecimento e do compromisso ético e político com a Região Amazônica. Observadas as finalidades da educação superior, definidas no art. 43 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), tem ainda por finalidade enriquecer a sociedade com um número crescente de cidadãos comprometidos com a sua transformação estrutural para que se construa maior igualdade de partilha e de justiça dentro de uma dimensão cristã, busque uma sociedade livre, democrática e participativa e superem as discriminações na construção de uma convivência pluralista.

A Faculdade Salesiana Dom Bosco tem como visão ser referência de ensino superior em ciências humanas e sociais aplicadas a partir da Pedagogia Salesiana. Nesses dez anos de credenciamento, com todos os cursos autorizados e com renovação de reconhecimento, a Instituição, através de seus colaboradores, professores e técnico administrativos, tem empreendido esforços para formar pessoas em níveis de graduação e pós-graduação, com espírito científico e pensamento reflexivo, aptas à inserção profissional, comprometidas com o desenvolvimento regional. As atividades cotidianas são pensadas e implementadas para que se promova o desenvolvimento e a difusão de conhecimentos científicos, culturais e técnicos, através

20


do ensino, da pesquisa e da extensão conforme as áreas de sua atuação. O corpo docente, com titulação e experiência adequada, procura estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, envolvendo os acadêmicos em atividades de voluntariado e de responsabilidade sócio ambiental para prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade, incentivando ainda as várias formas de manifestações culturais e religiosas que propiciem o pleno desenvolvimento humano. A FSDB surgiu a partir da reconhecida tradição dos salesianos, que estão presentes na Amazônia desde 1921 atuando na Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação Profissionalizante e Missões Indígenas. Os salesianos da Amazônia credenciaram a FSDB em 2002 e, um ano depois a mesma começou a funcionar com três cursos de graduação: Normal Superior (que depois foi transformado em Pedagogia), Filosofia e Serviço Social. A partir de 2005 começou a ofertar bacharelado em Administração e em Ciências Contábeis. Atualmente, além desses cinco cursos de Graduação a FSDB espera a aprovaç��o para a oferta de novos cursos, inclusive Cursos Superiores Tecnológicos. Já possui, em sua sede atual nas dependências do Colégio Dom Bosco Centro, um elenco de mais de vinte Cursos de Especialização Lato Sensu, além de Cursos de Extensão, dentre os quais os de Língua estrangeira, especificamente inglês e espanhol.

A trajetória da FSDB é marcada por desafios, mas também por vitórias, pois a mesma tem se dest acado nas avaliações do Ministério da Educação. Essas avaliações contam do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes; Avaliação de Cursos de Graduação e Avaliação Institucional. O ENADE tem a finalidade de avaliar o desempenho dos estudantes em relação aos conteúdos programáticos, suas habilidades e competências. O exame consiste de provas aplicadas a alunos ingressantes e concluintes dos cursos de graduação, normalmente no mês de novembro de cada ano. Para a realização do ENADE, os cursos são divididos pelo MEC em três grandes grupos, e cada um deles passa por avaliação uma vez a cada três anos. Ano passado, o Curso de Serviço Social da FSDB fez ENADE e, em uma escala de 1 a 5 pontos, o grupo da FSDB tirou a nota quatro. O ENADE produz dois resultados principais: (1) o Conceito do ENADE, que é um número de 1 até 5 representando o desempenho dos alunos de um certo curso, e (2) o IDD, índice de diferença entre os desempenhos observados e esperados. O IDD representa a diferença entre o desempenho dos alunos concluintes e dos alunos ingressantes de um curso. Ele é expresso também por uma escala de inteiros de 1 a 5. De maneira geral, a avaliação dos cursos da FSDB tem sido satisfatória. Os avaliadores constatam “in loco” aquilo que é colocado no formulário eletrônico. Temos a responsabilidade de continuar a tradição, atualizada, da credibilidade construída por salesianos e leigos da Amazônia no âmbito da educação. 21

A Rede das “Necessidades” Juvenis Wellington Gonçalves, sdb | Pós-noviço

V

ivemos na era das necessidades, onde, de repente, tudo passa a ser indispensável por uma vida mais cômoda e confortável, e quanto mais, melhor. Nesse contexto, inseriram-se nos últimos anos os mecanismos e ferramentas disponíveis na internet, começando pelos bate-papos, muito populares já no fim da década de 90, quase ao mesmo tempo surgiram também os sites de relacionamentos, que eram, a princípio, ferramentas especificas para encontrar a “cara-metade”, parceiros ou amizades, agora vemos ascender, por cima de todas essas ferramentas, as Redes Sociais, que em pouco tempo ganharam espaço, destaque e bastante força, gerando uma revolução pouco silenciosa da internet. Um olhar mais atencioso sobre essa nova realidade nos ajuda a compreender um pouco do que torna mecanismos como esses tão atrativos e frequentados. As estatísticas da comScore, empresa americana especializada em métricas, apontam que em 2011 os números de internautas brasileiros alcançou cerca de 46,7 milhões, e desse número cerca de 44,9 milhões, 99% do total, acessam as redes sociais pelo menos uma vez ao mês. Outra pesquisa recentemente divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) indica que cerca de 85% dos internautas estão na faixa dos 16 aos 24 anos. Ninguém pode negar que a

juventude é a primeira responsável pelo movimento que acontece hoje na internet. A grande questão que surge é o que leva tantos jovens a penetrarem com tanta avidez nos espaços virtuais, e muitas vezes se fazer presença muito maior dentro da rede do que fora dela. A questão não é nenhuma novidade, na verdade, é um tema que vem sendo discutido por psicólogos e educadores desde o começo da febre dos relacionamentos virtuais. Tudo bem que as redes sociais hoje abrem espaço para quem deseja divulgar o próprio trabalho, fazer contatos profissionais e em muitos lugares já são utilizadas como instrumentos de trabalho. Existem também órgãos e empresas, e até congregações religiosas que tem um trabalho voltado para a

22


juventude e que tomaram como empenho prático a participação e o envolvimento direto dentro destas redes como uma forma de se aproximar do seu público-alvo, de seus destinatários. Por outro lado, é notável que desde que na internet surgiram espaços de relacionamento social e virtual, a grande busca da juventude dentro desses mecanismos foi por um espaço onde pudessem manifestar a própria opinião e mais do que isso, encontrar aceitação. Procuremos analisar a presença dentro das redes sociais, nessa era das necessidades: acessar o Facebook, ao menos uma vez por dia, por exemplo, tornou-se uma grande necessidade para muitos jovens. É necessário receber uma mensagem nova, ser curtido, ter aquela sua frase ou pensamento compartilhado e ser notado. Até por que pela internet muita gente consegue ser mais espontânea do que na convivência real do dia a dia. Um jovem que quase não tem vida social, dentro do mundo virtual esbanja popularidade, manifesta a própria opinião e se revela. E não é de hoje que começamos a presenciar um espetáculo onde vale tudo por uma dose de atenção, para somar relações e marcar presença na novidade do momento. sem todos estes mecanismos virtuais estas relações talvez não existissem. O fato é que muitos destes “amigos virtuais” não trocam ao menos um “bom dia” fora da rede. É a partir desse momento que se revela a fragilidade e superficialidade das relações virtuais, e é também onde entra o trabalho dos educadores. O objetivo não é minar os recursos existentes, mas neutralizar o efeito nocivo provocado por eles não só no cam-

po das relações, mas também da identidade dos jovens, cada vez mais difícil de definir e amadurecer graças ao bombardeio cultural e midiático dos grandes meios de difusão. A indústria do entretenimento tem sido uma das grandes, senão a maior, responsável pela construção da identidade cada vez mais indefinida das massas, do grande público. A juventude é a principal consumidora de todo produto e propaganda ofertados por essa indústria nas últimas décadas. Tudo isso é fato e ao mesmo tempo não escapa da obviedade, está disponível para quem quiser ver. Portanto, voltemos para nós mesmos e o nosso contato direto com essa realidade tão abrangente. Muitos de nós já estamos inseridos nesse meio, sobretudo através das redes sociais. Somos capazes de perceber a incidência e os efeitos delas sobre nós? A grande necessidade da década talvez seja essa mesmo: estar online na maior parte do tempo possível. Isso por que a internet já está oferecendo tantas possibilidades novas que não é preciso sair do lugar para resolver problemas de banco, pagar contas, falar com amigos distantes, ter aulas e até conhecer lugares novos. Os próprios desenvolvedores do Facebook já apresentaram o projeto que a rede tem de reunir o maior número de ferramentas e possibilidades dentro do site, ou seja, juntar o máximo de coisas necessárias e básicas para uma pessoa para que ela possa ter acesso sem sair do site. Voltando para o nosso foco que é a internet e a juventude, dentro da Congregação Salesiana, já estamos falando dos “novos pátios” onde a nossa ação possa alcançar as novas gerações de jovens, cada vez 23

mais difíceis de encontrar nos pátios físicos das nossas paróquias, escolas e obras sociais. O novo desafio é justamente encontrar uma forma adequada de acessar esses novos pátios, visto que a corrida atual é tão veloz que quando chegamos a acessar, de fato, a um mecanismo, ele já se tornou obsoleto. Portanto, o desafio não é apenas o acesso, mas conseguir acompanhar a mudança, e falar de mudança não é fácil. Estamos mesmo na era das “necessidades”, tanto para os jovens, como para crianças, adolescentes, adultos, idosos, padres, freiras, advogados, arquitetos, médicos, agricultores, políticos. Essas necessidades não são apenas conveniências, também existem neste meio as necessidades realmente válidas e a mudança é uma delas. Para atingir os novos pátios, para que os novos acessos sejam possíveis demanda de nós interesse e empenho em um processo de mudança que já começou: o Documento de Aparecida nos fala à respeito das comunidades missionárias, que estas devem “entrar decididamente, com todas as forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favorecem a transmissão da fé” (DAp 365) e em outra passagem nos recorda que é “urgente a criação de novas estruturas pastorais, visto que muitas delas [existentes hoje] nasceram em outras épocas” (DAp 173) para atender às necessidades de uma realidade específica. Creio que isso seja válido também para a nossa missão urbana com a juventude inserida em novas estruturas. O “produto” que nós ofertamos à juventude é a pessoa de Jesus Cristo e, na linguagem salesiana, a salvação das almas. Se quisermos “colocar” o nosso produto no mercado atual precisamos ser mais do que nunca criativos, o que não implica em uma “concorrência” de nossa parte, o que seria ridículo, e nem uma luta equiparada, ou seja, utilizando as mesmas armas de outras denominações. A igreja tem suas próprias “armas”: a profecia, a santidade de vida, a solidariedade cristã. Mas o nosso anúncio do evangelho hoje continua a exigir de nós conhecermos e participarmos dos novos meios de forma ativa e significativa.

Nem tudo é novidade, os jovens de hoje continuam buscando a Deus. Contudo, uma parte expressiva dos jovens internautas tem revelado que a forma com que esses instrumentos virtuais vêm sendo empregados nos últimos tempos precisa ser reavaliada. A ideia inicial e as possibilidades oferecidas pelos mecanismos de redes sociais têm todas as condições de oferecer ainda muito mais do que relações superficiais e já oferece, basta agora que possamos superar esse nível de necessidades puramente atávicas e avançar para um nível maior de relevância educativa. E Dom Bosco nos recomenda ainda hoje que para conquistar os jovens é preciso se aproximar deles, se interessar por aquilo que a eles interessa, pelas suas coisas, “amar o que eles amam”, para que depois eles também se interessem por aquilo que queremos transmitir a eles: o amor que Deus tem por eles.

24


Eu acredito, eu ajudo. Deus abençoa! Seja um promotor vocacional, colaborando com o fundo para as vocações Salesianas.

EXPEDIENTE

2

TAPIRI • Comunicações Pastorais da Inspetoria São Domingos Sávio Ano 1989, N° 163 • Abril/Maio de 2012. TAPIRI é uma publicação bimestral e gratuita da Inspetoria São Domingos Sávio, iniciada em janeiro de 1989 , dirigida aos Salesianos de Dom Bosco e aos colaboradores leigos e educadores nas inúmeras casas salesianas pertencentes à região amazônica brasileira que compõem a inspetoria, com o objetivo de ser um instrumento de reflexão sobre temas diversos alinhados à ação pastoral do carisma salesiano. O TAPIRI reserva-se o direito de condensar/ editar as matérias enviadas como colaboração. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do instrumento pastoral, sendo de total responsabilidade de seus autores.

ORAÇÃO A DOM BOSCO PELAS VOCAÇÕES SALESIANAS Ó São João Bosco, Pai e Mestre da juventude, que tanto trabalhaste para a salvação das pessoas, sê nosso guia em nossa própria santificação e na salvação dos jovens a quem somos enviados.

Organização: CIP/CIC Delegado da Comissão Inspetorial de Comunicação: Pe. Daniel Cunha Equipe editorial: Pe. Daniel Cunha, Pe. João Mendonça, Pe. João Benedito, Felipe Cumaru, Adriano Santos, José Luis (Zeca), S Wellington Gonçalves. Projeto Gráfico: Felipe Cumaru Revisão: Sirlene Duarte Distribuição: Josely Moura

Desperta o coração de muitos jovens, inclusive os de nossa própria comunidade, para o seguimento do Senhor, seja como sacerdote, como religioso, como religiosa ou como leigo comprometido. Ensina-nos a amar a Deus e aos jovens com o mesmo fervor com que os amaste e entregaste tua vida por eles. AMÉM.

Entre em contato: (092) 2101-3400 (Pe. Gennaro)

25

capa

26


TAPIRI n° 163