Page 1


Fósforos de Segurança I. Todas as histórias que valem alguma coisa começam com fogo. Andei lendo algumas, para decidir como essa começaria, mas o desejo de ter um início impecável como o de Anna Karênina ou o de David Copperfield vai ter que me acompanhar ainda por muitas outras noites. Desculpe, não me apresentei. Que indelicadeza... Meu nome é Ofélia. Isso porque minha mãe é professora de literatura inglesa, e queria um nome bem shakespeariano para sua filha, sua única filha. “Então,” ela deve ter pensado, “nada melhor que a doce Ofélia, a menina meiga que enlouquece após o assassinato de seu pai e suicida-se no rio, em Hamlet”. Eu detesto meu nome. Com certeza, eu levaria muito mais jeito para Débora, Valéria, Sabrina… Um nome forte que combinasse mais comigo, um nome mais auspicioso, mais desimpedido, mais qualquer coisa que o da mocinha indefesa de Shakespeare, mas isso não importa agora. Vamos aos fatos: essa história começa em um Dia das Bruxas. Eu e mais três amigas estávamos em uma festinha a caráter na casa de uma colega da faculdade. Já era meu quarto período no curso de Jornalismo e, até então, não havia me enturmado muito bem, razão pela qual estava relutante em comparecer, ainda mais vestida de bruxinha, no bairro chique em que a festa seria. A anfitriã, Serena, era uma garota simpática e descontraída. Nós não nos conhecíamos muito nessa época, mesmo que estivéssemos há dois anos frequentando as mesmas aulas. Na verdade, acho que só fui convidada porque Alice, minha melhor amiga, tinha se aproximado de Serena em uma das disciplinas optativas do curso, e insistiu muito para que eu viesse também. Aquele ambiente me deixava desconfortável, embora reconhecesse


a maioria dos convidados que estavam ali. Era aquela situação, aquela decadência da adolescência tardia: a música alta estourando a caixa de som, o clima de tensão sexual insuportável, a letargia dos maconheiros no balcão da varanda… Por isso eu passava o tempo com minhas amigas de sempre, do lado de fora da casa, onde Serena havia tido o trabalho de decorar com coisas típicas do Halloween. Confesso até que, a despeito do meu desinteresse pela festa, me impressionava sua meticulosidade: ela havia pensado em tudo, desde a luz negra para criar uma aura assombrosa aos painéis com aranhas, comidas nojentas (ligeiramente obscenas), abóboras de Jack-O’-Lantern e ponche – para minha alegria, bastante batizado. Serena morava sozinha com a irmã, nessa casa que havia sido de uma tia-avó e que acabou ficando para elas na divisão da herança. Era uma casa de muito bom gosto, com uma mobília embutida de madeira antiga e escura e taco sintecado em quase todos os cômodos mas, de forma geral, uma iluminação muito contida que passava uma impressão ainda mais forte de mansão mal assombrada, o que combinava perfeitamente com o tema da festa. Alice, Júlia, Catarina e eu estávamos sentadas nos degraus da escada da entrada da casa. Para fazer graça, eu e Alice chamávamos Júlia de Julieta e Catarina de Catherine, para termos todas nomes que minha mãe teria aprovado. Nós nos divertíamos do nosso próprio modo, longe do alvoroço no centro da festa. Alice me acompanhava sem reclamar no meu quarto ou quinto copo de ponche, enquanto Júlia e Catarina discutiam uma possível lista dos melhores e piores professores da faculdade, o que não era nenhum crime – exceto, talvez, um leve e discreto exercício de difamação, que nos parecia, contudo, muito justificado.


Naquela escada, com as meninas, era quase uma noite de sábado normal. Estávamos com trajes temáticos e numa casa cheia de abóboras, é verdade, mas, à parte isso, fazíamos o que tínhamos costume nos fins de semana: bater papo, beber e discutir sobre os professores e os nossos problemas do dia a dia. Eu e Alice nos conhecíamos desde crianças, quando estudamos na mesma escola no bairro, enquanto Júlia e Catarina nós conhecemos durante o apadrinhamento de calouros, ao qual Alice me convenceu a ir, mesmo que relutantemente. Catarina era extremamente estudiosa e organizada, fazia uma pesquisa extensa sobre a evolução das plataformas de mídia e a sua grande paixão era trabalhar com emissoras de rádio. Júlia, por outro lado, era uma mulher de imagens, amava documentários e desejava ardentemente se tornar uma mistura de Fernanda Young e Eliane Brum. Já Alice e eu preferíamos a escrita. Eu era um pouco antiquada, confesso, e queria escrever para revistas que ainda pudessem ser lidas em papel, com uma pegada feminista como a dos livros de Caitlin Moran, enquanto Alice já escrevia para uma página de críticas de cinema que até que fazia um certo sucesso. Um bonitão da pista de dança acabava de passar mal na grama ao nosso lado – um espetáculo de cenoura e ponche a céu aberto – quando um de seus amigos veio até nós para pedir fogo. Olhamos imediatamente para Alice, já que ela era a nossa única fumante, e então ela abriu a bolsinha de onde, ao invés de um isqueiro, tirou uma caixa de fósforos – “Por segurança?”, eu disse, rindo. “Quem carrega fósforos na bolsa por segurança?”, ela respondeu, desprezando meu leve escárnio. O rapaz riu da nossa troca de faíscas e


parou para conversar com a gente por um momento – ele se dava o direito de criticar nossas fantasias, pois acreditava firmemente que comemorar o Halloween dessa maneira era reafirmar a subalternidade latino-americana ao imperialismo cultural eurocêntrico. Quis retrucar, dizendo que ninguém se importa com as árvores de Natal, mesmo sendo uma festa igualmente importada, mas antes de dizer qualquer coisa percebi que concordava com ele, o que ao mesmo tempo me deixava irritada e curiosa. Nisso, o amigo bêbado se recuperou um pouco e disse ao outro: “Melhor irmos andando”, e eu, sem uma apresentação formal, só pude dizer: “Bom, a gente se vê por aí!” Devo ter ficado com uma séria impressão, já que as meninas não esperaram um segundo depois de ele sair para mexer comigo e dizer que sentiram um clima. “Vocês sabem quem é ele?”, perguntei, desconsiderando as brincadeiras. “Se não me engano”, uma delas respondeu, “acho que já vi esse garoto num evento da História… Ou alguém parecido”, o que me deixou ainda mais intrigada. Eu já tinha estados em alguns relacionamentos, mesmo que nada muito sério, e as minhas experiências não tinha sido as melhores. Pra começar, eu não tinha muito tempo livre nem muito dinheiro, e estava acostumada a lidar com homens infantis e pouco interessantes, o que fazia com que eu preferisse gastar minhas noites livres com as meninas, e acima de tudo, que eu me esforçasse para não seguir o exemplo que tinha em casa. Não me entendam mal, meu pai não era nenhum monstro, mas, enquanto minha mãe, Beatriz, era uma professora bem sucedida e reconhecida, com muitas pesquisas publicadas e convites para conferências, bancas, palestras, meu pai, Marco, era um homem de poucos talentos, embora muito bonito: era um fumante inveterado, corria das contas como o diabo corre da cruz e tinha o péssimo hábito de gastar mais do que ganhava. Ele mantinha um pequeno sebo


de livros e artigos de coleção, coisa que herdou da família, apesar de sua parca habilidade com negócios, administração ou vendas, e por isso sua situação financeira era quase sempre muito instável, de forma que minha mãe sempre precisava tapar buracos dos prejuízos da loja, coisa que frequentemente causava certos constrangimentos em casa. Pelo menos, ele era muito atencioso e presente, e podia suportar as crises emocionais da minha mãe como ninguém. Quando a festa acabou, Alice e eu fomos caminhando juntas até o ponto de ônibus. Tínhamos perdido o último que passava no horário regular, então não havia pressa. Sentamos no banco para esperar, enquanto jogávamos conversa fora. Alice me contava dos seus projetos para o blog e, mais uma vez, me convidava para escrever uma coluna semanal no site, a que eu resistia bravamente. De tempos em tempos, ela me testava, tentando me convencer a mudar de ideia. Nós víamos filmes juntas quase toda semana, sobre os quais ela escrevia religiosamente, dando palpites que iam desde a simpatia que tinha (ou não) pelo diretor até a adequação da estética escolhida para o tema – eu desconfiava que, para Alice, os melhores filmes eram aqueles que podiam ganhar prêmios no Festival de Cannes, mas não no Oscar, e apostava que, algum dia, ela acabaria produzindo um filme de sucesso. Passamos quase uma hora discutindo um dos últimos filmes que havíamos visto juntas – que Alice detestou, mas com o qual eu realmente me diverti muito – quando finalmente o ônibus da rota noturna chegou. Nossas casas eram no mesmo caminho, a de Alice a alguns poucos pontos antes da minha. Estávamos mortas de cansaço, e eu cochilava no seu ombro quando ela me acordou para descer. Tive que fazer um esforço imenso para tentar me manter acordada até chegar em casa. Me aproximei da porta do nosso apartamento e pensei ter escutado uma porta bater dentro de casa, o que


estranhei muito, já que meus pais, a despeito de suas diferenças, costumavam ser muito civilizados mesmo nos seus desentendimentos. Girei a chave do lado de fora com cuidado, como se quisesse evitar que me vissem chegar, para não constrangê-los e para evitar, eu mesma, um embaraço. Encontrei meu pai no sofá, com a expressão abatida e os olhos vermelhos e levemente inchados. Perguntei o que havia acontecido, por que ele estava assim, e por que minha mãe tinha batido a porta do quarto. Por um momento, tive medo de que ele me dissesse que eles iam se separar, ou que ele estivesse com câncer, ou que minha avó tivesse morrido, ou qualquer coisa assim. Mas ele me deu um beijo na testa, me apertou, e disse, com a voz séria: — O sebo pegou fogo.

Continua...


Fósforos de Segurança (2019) © Isadora Saraiva Vianna de Resende Urbano (1995 - )

Todos os direitos reservados à autora. É vedada a distribuição e/ou reprodução de qualquer conteúdo deste e-book sem autorização expressa, por escrito, da autora. Contato: isaresendeurbano@gmail.com

Fotografia da capa: Scott Webb

Profile for Isadora Urbano

Fósforos de Segurança (I)  

Primeiro capítulo do folhetim "Fósforos de Segurança" (Dez/2019). Próximos capítulos em breve!

Fósforos de Segurança (I)  

Primeiro capítulo do folhetim "Fósforos de Segurança" (Dez/2019). Próximos capítulos em breve!

Advertisement