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IRMÃO LOBO MICHELLE PAVER TRADUÇÃO DE DOMINGOS DEMASI

ROCCO JOVENS LEITORES


UM De repente a morte estava sobre eles. Um furor de garras. Uma confusão de sons para fazer as orelhas sangrarem. No período de uma pulsação, a criatura despedaçara o abrigo deles, reduzindo-o a lascas. No período de uma pulsação, ela rasgara um ferimento irregular na lateral do corpo de seu pai. Então foi embora, fundindo-se com a floresta tão silenciosamente quanto a neblina. Mas que tipo de urso arma emboscadas para homens — depois some sem fazer a matança? Que tipo de urso brinca com sua presa? E onde está ele agora? Torak não conseguia enxergar além da luz da fogueira, mas sabia que a clareira, também, era uma ruína de árvores jovens quebradas e samambaias pisoteadas. Farejou seiva de pinheiro e terra rasgada. Ouviu o leve e triste murmurar do riacho a trinta passos de distância. O urso poderia estar em qualquer lugar. Ao lado dele, seu pai gemia. Lentamente abriu os olhos e olhou para o filho, sem reconhecê-lo. O coração de Torak se apertou. — Só... Sou eu — gaguejou. — Como se sente? A dor contorcia o magro rosto pardo do pai. Suas bochechas estavam tingidas de cinza, fazendo com que as tatuagens do clã sobressaíssem palidamente. O suor atapetava seu longo cabelo escuro. Seu ferimento era tão profundo que, quando Torak, desajeitadamente, estancou o sangue com barba-de-velho, viu as entranhas do pai brilharem a luz da fogueira. Teve que cerrar os dentes para evitar vomitar. Esperava que Pa


não tivesse percebido — mas claro que ele percebeu. Pa era um caçador. Ele percebia tudo. — Torak... — ofegou. Sua mão se estendeu, os dedos quentes agarrando-se aos de Torak tão ávidos quanto uma criança. Torak conteve-se. Filhos seguram a mão dos pais, e não o contrário. Ele tentava ser prático: ser um homem em vez de um menino. — Eu ainda tenho algumas folhas de milefólio — disse ele, tateando a bolsa de remédios com a mão livre. — Talvez isso detenha o... — Fique com elas. Você também está sangrando. — Não dói — mentiu Torak. O urso o jogara contra um pé de bétula, machucando suas costelas e ferindo profundamente o antebraço esquerdo. — Torak... parta. Agora. Antes que ele volte. Torak encarou-o. Abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. — Você precisa — insistiu o pai. — Não. Não. Não posso... — Torak... estou morrendo. Estarei morto quando o sol nascer. Torak apertou a bolsa de remédios. Havia um rugido em seus ouvidos. — Pa... — Dê-me... o que preciso para a Jornada da Morte. Depois pegue suas coisas. A Jornada da Morte. Não. Não. Mas o rosto do pai estava inflexível. — Meu arco — pediu. — Três flechas. Você... fica com o resto. — Aonde estou indo... a caça é fácil.


Caiu uma lágrima no joelho da perneira de pele de gamo de Torak. Enfiou a unha do polegar na carne. Doeu. Forçou-se a se concentrar nisso. — Comida — arfou seu pai. — A carne seca. Você... leva toda. O joelho de Torak começou a sangrar. Ele continuou cutucando. Tentava não imaginar seu pai na Jornada da Morte. Tentava não se imaginar sozinho na floresta. Tinha apenas doze verões de idade. Não conseguiria sobreviver sozinho. Não sabia como. — Torak! Mexa-se! Pestanejando furiosamente, Torak alcançou as armas do pai e as colocou a seu lado. Dividiu as flechas, furando os dedos nas afiadas pontas de sílex. Então colocou a tiracolo sua aljava e seu arco, e engatinhou sobre os destroços para apanhar sua machadinha negra de basalto. Sua mochila de madeira de aveleira fora destruída no ataque, teve de abarrotar tudo o mais em seu gibão de couro, ou amarrar no cinturão. Alcançou o seu saco de dormir feito de couro de rena. — Leve o meu — murmurou o pai. — Você nunca... consertou o seu. E... troque as facas. Torak ficou horrorizado. — A sua faca não! Vai precisar dela! — Você precisará mais do que eu. E... será bom ter algo seu na Jornada da Morte. — Pa, por favor. Não... Na floresta, um graveto estalou. Torak girou. A escuridão era total. Onde quer que olhasse as sombras tinham forma de urso.


Não havia vento. Não havia canto de pássaro. Apenas o crepitar do fogo e a batida de seu coração. A própria floresta prendia a respiração. Seu pai lambeu o suor dos lábios. — Ele não está aqui — disse ele. — Em breve. Ele virá me buscar em breve... Depressa. As facas. Torak não queria trocar as facas. Isso seria um ponto final. Seu pai, porém, olhava-o com uma intensidade que não admitia recusa. Apertando as mandíbulas com tanta força que doeu, Torak pegou a própria faca e colocou-a na mão de Pa. Em seguida, desamarrou do cinturão do pai a bainha de couro de gamo. A faca de Pa era bela e mortal, com a lâmina de ardósia azul raiada na forma de folha de salgueiro, e o cabo de chifre de veado-vermelho preso com tendão de alce para uma melhor empunhadura. Enquanto Torak olhava para ela abaixo, a verdade o atingiu. Ele estava se preparando para uma vida sem Pa. — Não vou deixar você — berrou. — Vou enfrentar ele, eu... — Não! Ninguém consegue enfrentar esse urso! Corvos voaram das árvores. Torak prendeu a respiração. — Escute com atenção — sibilou seu pai. — Um urso... Qualquer urso... É o caçador mais forte da floresta. Você sabe disso. Mas esse urso... Muito mais forte. Torak sentiu os pêlos dos braços se eriçarem. Olhando para baixo nos olhos do seu pai, viu as pequeninas veias encarnadas, e, no centro, a insondável escuridão. — O que quer dizer? — sussurrou. — O que...


— Ele está... Possuído. — O rosto do pai era assustador; ele não parecia mais com o Pa. — Alguns... demônios... do Outro Mundo... penetraram nele e o tornaram mau. Uma brasa faiscou. As árvores escuras inclinaramse mais perto para escutar. — Um demônio? — perguntou Torak. Seu pai fechou os olhos, reunindo forças. — Ele vive apenas para matar — falou, finalmente. — Com cada morte... seu poder crescerá. Ele matará... tudo. A presa. Os clãs. Todos morrerão. A floresta morrerá... — deteve-se. — Em uma lua... Será tarde demais. O demônio... Muito forte. — Uma lua? Mas o que... — Pense, Torak! Quando o olho vermelho está mais alto no céu, é quando os demônios são mais fortes. Você sabe disso. E quando o urso será... Invencível. — Pelejou para respirar. Sob a luz da fogueira, Torak viu a pulsação latejando em seu pescoço. Tão fraca: era como se fosse parar a qualquer momento. — Preciso que você... Jure uma coisa — disse Pa. — Qualquer coisa. Pa estancou. — Siga para o norte. Muitos dias de caminhada. Encontre... A Montanha... Do Espírito do Mundo. Torak encarou-o. — O quê? Os olhos de seu pai se abriram, e ele fitou entre os galhos acima, como se enxergasse coisas que ninguém mais podia. — Encontre-a — repetiu. — É a única esperança. — Mas... Ninguém nunca a encontrou. Ninguém pode.


— Você pode. — Como? Eu não... — O seu guia... Vai encontrar você. Torak ficou aturdido. Nunca antes seu pai falara daquele modo. Ele era um homem prático, — um caçador. — Não compreendo nada disso! — bradou. — Que guia? Por que preciso encontrar a montanha? Estarei a salvo lá? E isso? A salvo do urso? Lentamente, o fitar de Pa deixou o céu e foi pousar no rosto do filho. Parecia que ele estava imaginando o quanto mais Torak podia agüentar. — Ora, você é muito jovem — disse ele. — Eu pensava que tinha mais tempo. Há muita coisa que não contei a você. Não... Não vá me odiar depois por causa disso. Torak olhou-o horrorizado. Então, de um salto, ficou de pé. — Não posso fazer isso sozinho. Eu não deveria tentar encontrar...? — Não! — exclamou seu pai com uma força surpreendente. — Toda a sua vida eu mantive você afastado. Mesmo... Do nosso próprio Clã do Lobo. Permaneça longe dos homens! Se eles descobrirem você... O que você pode fazer... — O que quer dizer? Eu não... — Não há tempo — cortou o pai. — Agora jure. Sobre minha faca. Jure que vai encontrar a montanha, ou morrer tentando.


Torak mordeu o lábio com força. A leste, por entre as árvores, uma luz cinzenta aumentava. Ainda não, pensou ele, em pânico. Por favor, ainda não. — Jure — ciciou seu pai. Torak ajoelhou-se e apanhou a faca. Era pesada: a faca de um homem, grande demais para ele. Desajeitadamente, passou-a pelo ferimento no antebraço. Em seguida, colocou-a sobre o ombro, onde a tira de pele de lobo, o totem de seu clã, estava cerzida ao seu gibão. Com uma voz insegura, ele fez o juramento. — Juro, pelo meu sangue nesta lâmina, e por cada uma de minhas três almas... Que encontrarei a Montanha do Espírito do Mundo. Ou morrerei tentando. Seu pai expirou. — Ótimo. Ótimo. Agora. Coloque as Marcas da Morte em mim. Depressa. O urso... Não está longe. Torak sentiu a salgada ardência de lágrimas. Furiosamente, limpou-as esfregando-as. — Não tenho nenhum ocre — murmurou. — Pegue... Minha. Desordenadamente, Torak encontrou a pequena bolsa de remédio feita de ramificação de galhada de veado que fora de sua mãe. Desordenadamente, arrancou a tampa de carvalho e sacudiu um pouco do ocre vermelho na palma da mão. De repente, parou. — Não posso. — Pode sim. Por mim. Torak cuspiu na mão e fez uma pasta pegajosa com o ocre, o sangue vermelho-escuro da terra, em seguida desenhou na pele de seu pai os pequenos círculos que aju-


dariam as almas a se reconhecerem e permanecerem juntas após a morte. Primeiro, o mais delicadamente que pôde, removeu as botas de couro de castor do pai, e desenhou um círculo em cada calcanhar para indicar a alma-nome. Depois desenhou outro círculo acima do coração, para indicar a alma-clã. Isso não foi fácil, pois o peito de seu pai tinha uma cicatriz de um antigo ferimento, e por isso Torak conseguiu apenas um oval inclinado para um lado. Esperava que aquilo fosse o suficiente. Por último, fez a marca mais importante de todas — um círculo na testa para indicar a Nanuak, a almamundo. Quando terminou, ele estava engolindo lágrimas. — Melhor — murmurou o pai. Mas Torak percebeu com uma pontada de terror que a pulsação no pescoço dele estava mais fraca. — Você não pode morrer! — explodiu Torak. Seu pai olhou-o lastimoso e saudoso. — Pa, eu não vou deixar você, eu... — Torak. Você fez um juramento. — Novamente, fechou os olhos. — Agora. Você... Fique com o chifre de remédio. Não preciso mais dele. Pegue suas coisas. Apanhe água para mim no rio. Depois... Vá. Não vou chorar, disse Torak a si mesmo, ao enrolar o saco de dormir do pai e amarrá-lo nas costas, — empurrou seu machado para dentro do cinturão, — enfiou a bolsa de remédio dentro do gibão. Levanto-se e procurou o cantil de couro. Estava retalhado. Teria de trazer água em uma folha de azeda. Estava para ir, quando o pai murmurou seu nome. Torak virou-se. — Sim, Pa?


— Lembre-se. Quando estiver caçando, olhe atrás de você. Eu... sempre lhe falo. — Forçou um sorriso. — Você sempre... esquece. Olhe atrás de você. Sim? Torak fez que sim com a cabeça. Tentou retribuir o sorriso. Em seguida, foi cambaleante por entre as samambaias molhadas em direção ao riacho. A luz aumentava e o ar tinha um odor fresco e doce. A sua volta as árvores sangravam; escoando o dourado pinho-sangue pelos talhos que o urso lhes infligira. Alguns dos espíritos das árvores gemiam baixinho na brisa da alvorada. Torak chegou ao riacho, onde a névoa flutuava acima das samambaias e os salgueiros arrastavam seus dedos na água gelada. Olhando rapidamente em volta, arrancou uma folha de azeda e seguiu em frente as botas afundando no macio barro vermelho. Congelou. Ao lado de sua bota direita estava a pegada de um urso. Uma pata dianteira: duas vezes o tamanho de sua própria cabeça, e tão fresca que ele podia ver os pontos onde as longas e ferozes garras haviam perfurado profundamente o barro. Olhe atrás de você, Torak. Ele girou. Salgueiros. Amieiro. Pinheiro. Nada de urso. Um corvo voou baixo até um galho ali perto, fazendo com que ele desse um pulo. A ave recolheu suas asas negras e fitou-o com olhos grandes e redondos. Em seguida sacudiu a cabeça, grasnou uma vez, e voou para longe. Torak olhou na direção que ele parecera indicar.


Teixo escuro. Abeto gotejante. Denso. Impenetrável. Bem no fundo, porém — não mais do que dez passos de distância —, um agitar de galhos. Havia algo ali. Algo enorme. Tentou evitar que os pensamentos de pânico transbordassem, mas sua mente se tornara vazia. O problema com um urso, seu pai sempre dizia, é que ele consegue se movimentar tão silenciosamente quanto a respiração. Ele pode estar observando você a dez passos de distância sem que você perceba. Contra um urso não hã nenhuma defesa. Você não é capaz de correr mais depressa. Não consegue subir mais alto. Não pode lutar com ele sozinho. Tudo que pode jazer é aprender os modos dele, e tentar convencê-lo de que você não é uma ameaça nem é uma presa. Torak forçou-se a ficar imóvel. Não corra. Não corra. Talvez ele não saiba que você está aqui. Um leve sibilar. Novamente os galhos se agitaram. Ele ouvia o furtivo farfalhar enquanto a criatura avançava em direção ao abrigo: em direção a seu pai. Esperou num rígido silêncio o animal passar. Covarde!, gritou no interior de sua cabeça. Você o deixou passar sem mesmo tentar salvar Pa! Mas o que você podia fazer?, perguntou a parte menor de sua mente que ainda conseguia pensar direito. Pa sabia o que aconteceria. Foi por isso que mandou você apanhar água. Sabia que a fera estava vindo atrás dele... — Torak! — surgiu o grito desesperado de seu pai. — Corra!


Corvos irromperam das árvores. Um rugido sacudiu a floresta — sem parar, até a cabeça de Torak arrebentar. — Pa! — gritou ele. — Corra! Novamente a floresta foi sacudida. Novamente surgiu o grito de seu pai. E então, parou de repente. Torak tapou a boca com o punho. Por entre as árvores, viu de relance uma enorme sombra escura nos destroços do abrigo. Virou-se e correu.


DOIS Torak atirou-se pelas moitas de amieiro, afundando até os joelhos nos brejos. Pés de bétula cochichavam sobre sua passagem. Silenciosamente, ele implorou que não contassem ao urso. O ferimento em seu braço ardia e, com cada respiração, as costelas machucadas doíam loucamente, mas ele não se atrevia a parar. A floresta estava repleta de olhos. Imaginou o urso vindo atrás dele. Continuou correndo. Ele assustou um jovem javali que cavoucava a terra atrás de castanha-de-porco, e grunhiu um rápido pedido de desculpas para se precaver contra um ataque. O javali deu um bufado mal-humorado e deixou-o passar. Um carcaju rosnou para ele, mandando-o ficar longe, e ele rosnou de volta, o mais ferozmente que pôde, pois carcajus só obedecem a ameaças. O carcaju concluiu que ele falava sério, e disparou para cima de uma árvore. Para o leste, o céu era cinza-lobo. Trovões rugiam. Sob a luz tempestuosa, as árvores eram de um verde brilhante. Chuva nas montanhas, pensou Torak indiferente. Cuidado com enchentes repentinas. Forçou-se a pensar naquilo — para afastar o horror. Não funcionou. Continuou correndo. Finalmente, teve de parar para recuperar o fôlego. Desabou diante de um carvalho. Quando ergueu a cabeça para olhar as verdes folhas que estavam mudando de cor, a árvore murmurou segredos para si mesma, excluindo-o. Pela primeira vez em sua vida estava verdadeiramente sozinho. Não se sentia mais parte da floresta. Sentia como se sua alma-mundo tivesse rompido seu elo com


todas as outras coisas vivas; árvore e pássaro, caçador e presa, rio e rocha. Nada, no mundo inteiro, sabia como ele se sentia. Nada queria saber. A dor no braço arrancou-o de seus pensamentos. Da bolsa de remédios tirou o último pedaço de entrecasca de bétula e fez um tosco curativo para o ferimento. Então afastou-se do tronco da árvore e olhou em volta. Ele crescera nesta parte da floresta. Cada declive, cada clareira era familiar. No vale, para oeste, fica Água Vermelha — raso demais para canoas, mas ideal para uma boa pescaria na primavera, quando o salmão sobe do mar. Para leste, em todo o caminho até os arredores da Floresta Profunda, fica o vasto bosque banhado pelo sol onde as presas engordam no outono, e bagas e nozes são abundantes. Para o sui, onde estão os pântanos, a rena come musgo no inverno. Pa dizia que a melhor coisa desta parte da floresta era que muito pouca gente vem aqui. Talvez um grupo ocasional do Clã do Salgueiro vindo do oeste pelo mar, ou do Clã da Víbora, vindo do sul, mas eles nunca permaneciam muito tempo. Simplesmente passavam direto, caçando livremente como todo mundo fazia na floresta, e ignorando que Torak e Pa também caçavam ali. Torak nunca questionara isso antes. Era como ele sempre vivera: sozinho com Pa, longe dos clãs. Agora, porém, ele ansiava por gente. Queria berrar, — gritar por socorro. Mas Pa o havia alertado para se manter longe deles. Além do mais, gritar poderia atrair o urso. O urso. O pânico subiu para sua garganta. Ele o empurrou para baixo. Inspirou fundo e começou novamente a cor-


rer, mais constantemente dessa vez, seguindo para o norte. À medida que corria, ele avistava sinais de presas. Pegadas de alce. Excrementos de auroque. O som de um cavalo do mato movendo-se em meio às samambaias. O urso não os tinha afugentado. Pelo menos, ainda não. Será que seu pai estava errado? Seu juízo andara delirando no final? ―Seu pa é maluco‖, as crianças haviam zombado de Torak cinco verões antes, quando ele e Pa tinham viajado até o litoral para o encontro anual do clã. Fora o primeiro encontro do clã de Torak e se mostrara um desastre. Pa nunca mais o levou novamente. ―Dizem que ele engoliu o bafo de um espírito‖, escarneceram as crianças. ―Foi por isso que ele deixou seu clã e vive por conta própria.‖ Torak ficara furioso. Teria brigado com todas elas se seu pai não tivesse aparecido, arrastando-o dali. ―Torak, ignore-as‖, dissera Pa às gargalhadas. ―Elas não sabem o que estão dizendo.‖ Ele estava certo, é claro. Porém, estava certo em relação ao urso? Adiante, as árvores abriam-se para uma clareira. Torak deu de cara com o sol — e com um fedor de podridão. Parou bruscamente. Os cavalos do mato jaziam, como brinquedos quebrados, onde o urso os jogara. Nenhum comedor de carniça ousara se alimentar deles. Nem mesmo as moscas os tocariam. Eles não pareciam com nenhuma outra matança de urso que Torak já vira. Quando um urso normal se ali-


menta, esfola a presa, come as vísceras e os traseiros, e então apanha o resto para depois. Como qualquer outro caçador, não desperdiça nada. Mas esse urso não arrancou mais do que uma única mordida de cada carcaça. Ele não matara por fome. Matara por diversão. Aos pés de Torak jazia um potro morto, os pequenos cascos ainda cobertos com o barro do rio de seu gole de água final. Sua goela revoltou-se. Que tipo de criatura massacra toda uma manada? Que tipo de criatura mata por prazer? Lembrou-se dos olhos do urso, vistos de relance durante o aterrorizante período de uma pulsação. Nunca vira olhos como aqueles. Atrás deles nada havia a não ser fúria sem fim e um ódio por todas as coisas vivas. O quente, agitado caos do Outro Mundo. Claro que seu pai estava certo. Aquilo não era um urso. Era um demônio. Ele mataria e mataria até a floresta morrer. Ninguém consegue enfrentar esse urso, dissera seu pai. Será que ele quis dizer que a floresta estava condenada? E por que ele, Torak, precisava encontrar a Montanha do Espírito do Mundo? A montanha que ninguém jamais vira? A voz do pai ecoou em sua mente. O seu guia vai encontrar você. Como? Quando? Torak deixou a clareira e mergulhou de volta nas sombras sob as árvores. Novamente começou a correr. Correu uma eternidade. Correu até não conseguir mais sentir as pernas. Mas, finalmente, chegou a uma longa encosta arborizada e teve de parar — curvado, o peito ofegante.


De repente, ficou esfomeado. Apalpou sua bolsa de comida — e gemeu desgostoso. Estava vazia. Tarde demais lembrou-se dos caprichados embrulhos de carne seca de veado esquecidos no abrigo. Torak, seu idiota! Bagunçar as coisas no seu primeiro dia sozinho! Sozinho. Não era possível. Como podia Pa ter ido embora? Ido embora para sempre? Gradualmente, tornou-se ciente de um leve miado que vinha do outro lado da colina. Novamente. Algum filhote chamando sua mãe. Seu coração disparou. Oh, graças ao Espírito! Uma presa fácil. Sua barriga contraiu-se com o pensamento da carne fresca. Não ligava para o que era. Estava tão faminto que poderia comer um morcego. Torak caiu no chão e rastejou por entre os pés de bétula até o topo da colina. Olhou abaixo para uma vala estreita através da qual corria um pequeno e veloz rio. Ele o reconheceu: o Água Ligeira. Mais para oeste, ele e Pa costumavam acampar durante o verão para juntar casca de tília para fazer corda, mas aquela parte lhe parecia desconhecida. Então percebeu por quê. Um pouco antes, uma enchente repentina surgira rugindo montanha abaixo. As águas já haviam baixado, deixando uma bagunça de vegetação rasteira molhada e brotos esparramados pela grama. Elas também destruíram um covil de lobos do outro lado da vala. Ali, abaixo de uma enorme pedra vermelha moldada como um auroque adormecido, jaziam dois lobos afogados parecendo capotes de pele encharcados. Três filhotes mortos flutuavam numa poça.


O quarto estava ao lado deles, tremendo. O filhote de lobo parecia ter umas três luas de idade. Era franzino e estava molhado, e reclamava mansamente para si mesmo com um choramingar baixinho e contínuo. Torak hesitou. Sem aviso, o som levara uma alarmante visão à sua mente. Pêlo negro. Quente escuridão. Leite gordo, nutritivo. A mãe limpando-o com lambidas. O arranhão de pequenas garras e cutucadas de pequenos focinhos frios. Filhotes fofos trepando em cima dele: o filhote mais novo da ninhada. A visão era nítida como um relâmpago. O que ela significava? Sua mão apertou a faca do pai. Não importa o que significa, disse a si mesmo. Visões não mantêm a gente viva. Se você não comer esse filhote, ficará fraco demais para caçar. E você tem permissão de matar o seu animal de clã para evitar morrer de fome. Você sabe disso. O filhote ergueu a cabeça e emitiu um ganido aturdido. Torak ouviu-o — e entendeu. De algum modo estranho que não conseguia nem começar a sondar, reconheceu os sons agudos e vacilantes. A mente de Torak conhecia suas formas de expressão. Lembrava-se deles. Não é possível, pensou. Ouviu os ganidos do filhote. Sentiu-os estilar em sua mente. Por que não brincam comigo?, perguntava o filhote à sua alcatéia morta. O que eu fiz agora? Isso prosseguiu sem parar. Enquanto Torak escutava, algo despertou nele. Os músculos do pescoço tensio-


naram. No fundo da garganta sentiu o início de uma reação. Combateu o impulso de jogar a cabeça para trás e uivar. O que estava acontecendo? Ele não se sentia mais como Torak. Não um menino, não um filho, não um membro do Clã do Lobo — ou não apenas essas coisas. Alguma parte dele era lobo. Uma brisa surgiu, arrepiando sua pele. No mesmo momento, o filhote parou de ganir e voltou-se abruptamente para encará-lo. Seus olhos estavam desfocados, mas suas compridas orelhas estavam empinadas, e ele farejava o ar. Ele o havia farejado. Torak olhou abaixo para o pequeno filhote aflito, e endureceu seu coração. Sacou a faca do cinto e começou a descer o declive.


TRÊS O filhote de lobo não entendia nada do que estava acontecendo. Ele estava explorando a elevação acima do covil quando o Molhado Ligeiro desceu rugindo, e agora sua mãe, seu pai e irmãos de matilha estavam deitados na lama — e o ignoravam. Muito antes do Claro, ele andara cutucando-os e mordendo seus rabos — mas continuavam sem se mexer. Não emitiam um som, e tinham um cheiro estranho: como o de presa. Não a presa que sai correndo, mas da espécie sem-bafo — a espécie que se deixa comer. O filhote estava com frio, molhado e com muita fome. Muitas vezes lambera o focinho da mãe para lhe pedir, por favor, que vomitasse alguma comida para ele comer, mas ela nem se mexeu. O que ele fizera de errado dessa vez? Ele sabia que era o filhote mais desobediente da ninhada. Vivia sendo ralhado, mas não conseguia evitar. Simplesmente adorava experimentar coisas novas. Por isso, parecia um pouco injusto agora, quando ele estava quieto no covil como um filhote bem-comportado, que ninguém sequer o notasse. Foi até a beira da poça onde jaziam seus irmãos de alcatéia e bebeu um pouco do Molhado Parado. O gosto era ruim. Comeu um pouco de grama e duas aranhas. Imaginou o que fazer a seguir. Começou a sentir medo. Jogou a cabeça para trás e uivou. Uivar animava-o um pouco, pois isso lhe lembrava todos os uivos agradáveis que dera com a matilha.


No meio de um uivo, ele parou. Farejou lobo. Girou, cambaleando um pouco por causa da fome. Firmou as orelhas e farejou. Sim. Lobo. Podia ouvi-lo descer ruidosamente o declive do outro lado do Molhado Ligeiro. Pelo faro, soube que era macho, semidesenvolvido, e não era nenhum da alcatéia. Havia, porém, algo estranho nele. Cheirava a lobo, mas também era não-lobo. Cheirava a rena e a veadovermelho e a castor, e a sangue fresco — e algo mais — um cheiro novo que ele ainda não aprendera. Isso era muito estranho. A não ser — a não ser — que isso significasse que o não-lobo era na verdade um lobo que comera uma porção de presas diferentes, e agora trazia um pouco de comida para o filhote! Tremendo de ansiedade, o filhote balançou o rabo e latiu uma ruidosa saudação. Por um momento o estranho lobo parou. Então avançou novamente. O filhote não conseguia enxergá-lo com muita clareza porque seus olhos não eram tão aguçados quanto seu focinho e ouvidos, mas enquanto o outro chapinhava pelo Molhado Ligeiro, concluiu que era um lobo realmente muito estranho. Ele caminhava sobre as patas traseiras. O pêlo em sua cabeça era negro, e tão comprido que ia além dos ombros. E o mais estranho de tudo — ele não tinha rabo! Mesmo assim, soava lobo. Ele emitia um baixinho uivo-e-ganido amigável que soava um pouco como tudo bem, sou amigo. Isso era tranqüilizador, mesmo se ele continuasse falhando nos ganidos mais agudos. Mas havia algo errado. Por baixo da cordialidade havia uma ta tensa. E, embora o lobo estranho estivesse


sorrindo, o filhote podia perceber que não era mesmo para valer. As boas-vindas do filhote mudaram para um choramingar. Esta me caçando? Por quê? Não, não, fez o amigável, mas não amigável uivo-eganido. Então o lobo estranho parou o uivar-e-ganir e avançou num medonho silêncio. Fraco demais para correr, o filhote recuou. O lobo estranho deu o bote, agarrou o filhote pelo cangote e o ergueu bem alto. Debilmente, o filhote abanou o rabo para se defender. O lobo estranho levantou sua outra pata dianteira e pressionou uma enorme garra na barriga do filhote. O filhote ganiu. Arreganhando os dentes aterrorizado, ele enfiou o rabo entre as pernas. Mas o lobo estranho também estava amedrontado. Suas patas dianteiras tremiam, e ele engolia em seco e exibia os dentes. O filhote sentiu solidão e incerteza e dor. De repente, o lobo estranho novamente engoliu em seco e afastou com um puxão a grande pata da barriga do filhote. Em seguida, sentou-se pesadamente na lama e apertou o filhote contra o peito. O terror do filhote desapareceu. Através do estranho couro sem pêlo que cheirava mais a não-lobo do que a lobo, ele podia ouvir um tranqüilizador tum-tum, igual ao som que ele ouvia quando subia em cima de seu pai para tirar uma soneca. O filhote contorce-se para se livrar do aperto da mão do lobo estranho, pôs as patas dianteiras sobre seu


peito e ficou de pé sobre as patas traseiras. Começou a lamber o focinho do lobo estranho. Irritado, o lobo estranho empurrou-o para longe, e ele caiu de costas. Destemido, ajeito-se e ficou sentado olhando acima fixamente o lobo estranho. Que estranho rosto achatado sem pêlo! Os lábios não eram negros, como característicos em lobos, mas pálidos; e as orelhas também eram pálidas — e não se movimentavam nadinha. Mas os olhos eram cinza-prateados e repletos de luz. — os olhos de um lobo. O filhote sentiu-se melhor do que já se sentira desde quando viera o Molhado Ligeiro. Encontrara um novo irmão de alcatéia. Torak estava furioso consigo mesmo. Por que ele não matara o filhote? Agora, o que ele ia comer? O filhote espetou o focinho nas suas costelas machucadas, fazendo com que ele gritasse. — Vá embora! — berrou, chutando-o para longe. — Não quero você! Entende? Você não tem utilidade! Vá embora! Ele nem mesmo tentou dizer isso em linguagem de lobo, pois achava que não a falava muito bem. Conhecia apenas os gestos mais simples e algumas das formas sonoras. Mas o filhote captou muito bem o significado. Afasto-se correndo a distância de alguns passos, então sentou-se e olhou para ele, esperançoso, varrendo o chão com a cauda. Torak pôs-se de pé — e o mundo balançou enjoativamente. Precisava comer algo depressa. Procurou alguma comida em volta da margem do rio, mas avistou apenas os lobos mortos, e eles fediam tanto que nem dava para pensar a respeito. O desânimo abateu-se sobre ele. O sol estava baixando. O que devia


fazer? Acampar ali? Mas e o urso? Teria terminado com Pa e viria atrás dele? Algo contorceu-se dolorosamente em seu peito. Não pense em Pa. Pense no que fazer. Se o urso tivesse seguido você, a esta altura já o teria pegado. Portanto, talvez você esteja a salvo aqui — pelo menos por esta noite. As carcaças dos lobos eram muito pesadas para serem arrastadas prá longe, portanto decidiu acampar mais adiante, rio acima. Antes, porém, usaria uma das carcaças como isca em uma armadilha para animais de grande porte, na esperança de pegar algo durante a noite para comer. Foi uma peleja montar a armadilha: firmar uma pedra achatada sobre um galho, depois encaixar outro galho atravessado para agir como gatilho. Se ele tivesse sorte, talvez aparecesse uma raposa durante a noite e derrubasse a pedra. Não daria uma comida muito boa, mas seria melhor do que nada. Mal tinha acabado quando o filhote se aproximou correndo e deu uma curiosa fungada na armadilha. Torak agarrou o focinho dele e empurrou com força para o chão. — Não! — disse com firmeza. — Fique longe daqui. O filhote deu uma sacudida no corpo e retirou-se com um ar ofendido. Melhor ofendido do que morto, pensou Torak. Sabia que fora injusto: deveria primeiro ter rosnado para avisar o filhote para manter distância, e apenas ter agarrado seu focinho se ele não tivesse obedecido. Mas estava cansado demais para se preocupar com aquilo. Além do mais, por que teve a preocupação de alertá-lo? Por que se importaria se o animal passasse por ali


durante a noite e fosse esmagado? Para que se importar com o fato de o filhote ser capaz de entender aquilo, ou por quê? De que adiantava? Levanto-se e seus joelhos quase cederam. Esqueça o filhote. Consiga algo para comer. Forçou-se a escalar o aclive atrás da grande pedra vermelha para procurar por amoras brancas silvestres. Só quando chegou lá foi que ele se lembrou que amoras brancas silvestres crescem em pântanos e charcos, e não em bosques de bétula, e que, de qualquer modo, não estava na sua época do ano. Notou que em certos locais o chão estava repleto de excrementos de galinha-do-mato, por conseguinte preparou alguns laços com capim torcido. — dois perto do chão e dois sobre o tipo de galho baixo para onde às vezes correm as galinhas-do-mato — tomando o cuidado de esconder os laços com folhas para que a galinha-do-mato não os visse. Então voltou para o rio. Ele sabia que estava sem qualquer firmeza para tentar fisgar um peixe com uma lança, assim, em vez disso, preparou uma linha com anzóis feitos de espinhos de amoreira-preta e usou lesmas como isca. Em seguida, foi rio acima à procura de bagas e raízes. Por um tempo, o filhote o seguiu; então sentou-se e uivou em direção a ele para que voltasse. Não queria deixar a sua alcatéia. Ótimo, pensou Torak. Fique aí. Não quero que fique me importunando. À medida que procurava, o sol ia baixando. O ar tornava-se frio. Seu gibão brilhava com o hálito nebuloso da floresta. Ocorreu-lhe um pensamento vago de que de-


veria construir um abrigo em vez de procurar comida, mas afastou-o da cabeça. Finalmente encontrou um punhado de empetros, e os enfiou goela abaixo. Depois alguns arandos encarnados já passados; umas lesmas; um bando de cogumelos do brejo amarelos — um pouco bichados, mas não tão ruins. Estava quase anoitecendo quando ele teve sorte e encontrou uma moita de castanhas-de-porco. Com um graveto afiado, cavou cuidadosamente, seguindo os sinuosos talos até a pequena raiz nodosa. Mastigou a primeira. — tinha o gosto doce e de noz, mas mal dava para encher a boca. Após mais exaustiva escavação, desenterrou mais quatro, comeu duas, e enfiou duas no gibão para depois. Com comida dentro dele, um pouco de força retornou aos seus membros, mas a mente continuava estranhamente obscura. O que faço a seguir? Por que é tão difícil pensar? Abrigo. É isso. Depois fogueira. Depois dormir. O filhote estava à espera dele na clareira. Tremendo e latindo de ria atiro-se para ele com um enorme sorriso de lobo. Não apenas enrugou o focinho e esticou os lábios para trás; sorriu com o corpo todo. Achatou as orelhas para trás e pendeu a cabeça para um lado— agitou a cauda e sacudiu as patas dianteiras, e deu grandes saltos enroscados no ar. Ver isso deixou Torak tonto, então ignorou-o. Além do mais, ele precisava construir um abrigo. Olhou em volta à procura de galhos mortos, mas a enchente levara quase todos embora. Teria de cortar algumas árvores novas; se é que ainda tinha forças. Puxou a machadinha do cinturão, foi até uma moita de pés de bétula e colocou a mão no menor deles. Mur-


murou um rápido aviso para que o espírito arbóreo encontrasse depressa um novo lar, e então começou a cortar. O esforço fez sua cabeça girar. O corte no seu antebraço palpitava brutalmente. Forçou-se a continuar cortando. Encontrava-se num interminável túnel escuro de cortar e desfolhar galhos e cortar mais ainda. Mas quando seus braços viraram água e não agüentava mais cortar, percebeu alarmado que só conseguira abater dois espigados pés de bétula recém-nascidos e um pequeno e insignificante abeto. Eles terão de servir. Amarrou os brotos com um pedaço da raiz do abeto para fazer um baixo e mirrado telheiro; então cobriu três de seus lados com galhos de abeto e arrastou alguns mais para dentro, para se deitar. Era quase inútil, mas teria de servir. Ele não tinha forças para torná-lo à prova de chuva com húmus. Se chovesse, teria de confiar no saco de dormir para manterse seco, e rezar para que o espírito do no não enviasse outra enchente, pois construíra perto demais da água. Mastigando outra castanha-de-porco, sondou a clareira atrás de lenha para fogueira. Entretanto, mal acabara de engolir a castanha quando seu estômago revirou, e ele vomitou tudo. O filhote latiu de prazer e devorou o vômito. Por que aconteceu isso?, pensou Torak. Será que comi um cogumelo ruim? Não parecia, porém, coisa de cogumelo ruim. Parecia algo mais. Ele suava e tremia e, embora não restasse nada em seu estômago para vomitar, ainda assim senti-se indisposto.


Uma terrível suspeita o atacou. Abriu o curativo do antebraço — e o medo pairou sobre ele como uma gélida neblina. O ferimento era de um vermelho inflamado, inchado. Cheirava mal. Podia sentir a quentura emanando dele. Ao tocá-lo, a dor revelou-se. Um soluço originou-se em seu peito. Ele estava exausto, faminto e apavorado, e desesperadamente queria Pa. E agora tinha um novo inimigo. Febre.


QUATRO Torak precisava fazer uma fogueira. Era uma disputa entre ele e a febre. O prêmio era sua vida. Apalpou o cinturão procurando a algibeira de iscas de fazer fogo. Suas mãos tremiam quando ele retirou um punhado de casca de bétula fragmentada, deixando cair continuamente a sua pederneira e errando o risca-fogo. Rosnava de frustração quando finalmente conseguiu uma faísca para acender. Quando o fogo já queimava, ele tremia incontrolavelmente, e mal sentia o calor das chamas. Os ruídos estrondeavam estranhamente altos: o gorgolejo do rio, o huhu de uma coruja; o ganido esfaimado daquele irritante filhote. Por que não o deixava em paz? Cambaleou até o rio atrás de água. Bem a tempo, lembrou-se do que Ha disse sobre não se curvar demais sobre ela. Quando estiver doente, nunca olhe a sua almanome na água. Vê-la deixa você tonto. Pode cair na água e se afogar. Com os olhos fechados, bebeu até se saciar, depois cambaleou de volta ao abrigo. Ansiava por descanso, mas sabia que precisava cuidar do braço, ou não teria nenhuma chance. Pegou um pouco de casca seca de salgueiro em sua bolsa de remédios e mastigou-a, sentindo ânsias de vômito por causa de seu arenoso amargor. Espalhou a pasta no antebraço, depois cobriu novamente o ferimento com o curativo de entrecasca de bétula. A dor foi tão intensa que ele quase desmaiou. Tudo o que conseguiu foi chutar fora


as botas e rastejar para dentro do saco de dormir. O filhote também tentou entrar. Ele o empurrou para longe. Vagamente, os dentes batendo, ele observou o filhote correr para o fogo e estudou-o com curiosidade. Esticou uma grande pata cinzenta e deu uma pancadinha nas chamas — em seguida, saltou para trás com um latido indignado. — Que lhe sirva de lição — murmurou Torak. O filhote sacudiu-se e saltou para o meio da escuridão. Torak enroscou-se como uma bola, aninhando o braço latejante e pensando com amargura na bagunça em que deixara as coisas. Toda a sua vida vivera na floresta com Pa, montando acampamento para uma ou duas noites, depois seguindo em frente. Ele conhecia as regras. Nunca seja pão-duro na construção de seu abrigo. Nunca use mais esforço do que o suficiente ao coletar comida. Nunca deixe para muito tarde a montagem de um acampamento. Seu primeiro dia sozinho e ele havia infringido todas elas. Era assustador. O mesmo que esquecer como andar. Com a mão boa tocou suas tatuagens do clã, seguindo o traçado das duas finas linhas pontilhadas que acompanhavam cada osso malar. Foi Pa quem as dera para ele, quando completou sete anos, esfregando suco de uva ursina na pele perfurada. Você não as merece, disse Torak a si mesmo. Se morrer, a culpa será sua. Novamente a dor torceu-lhe o peito. Nunca em toda sua vida tinha dormido sozinho. Nunca sem Pa. Pela primeira vez, não houve o toque de boa-noite da calejada


mão amável. Nem o cheiro familiar de couro de gamo e suor. O olhos de Torak começaram a arder. Fechou-os bem apertado, e deslizou em direção a sonhos maus. Ele está patinhando no brejo, atolado até a altura dos joelhos, lutando para escapar do urso Os gritos do pai ressoam em seus ouvidos. O urso está vindo atrás dele. Ele tenta fugir, mas apenas afunda ainda mais no brejo. Este o suga para baixo. Seu pai está gritando. Os olhos do urso queimam como o fogo mortal do Outro Mundo — o fogo do demônio. Ele empina-se sobre as patas traseiras—, uma ameaça muito alta inimaginavelmente imensa. Suas enormes mandíbulas abrem-se escancaradamente quando ele ruge seu ódio para a lua... Torak acorda com um grito. O último dos rugidos do urso ecoa pela floresta. Não eram um sonho. Eram reais. Torak prendeu a respiração. Viu a luz azul do luar através das brechas de seu abrigo. Viu que o fogo estava quase se extinguindo. Sentiu seu coração bater. Novamente a floresta foi sacudida. As árvores retesaram-se para ouvir. Dessa vez, porém, Torak deu-se conta de que os rugidos estavam bem distantes: muitos dias de caminhada para oeste. Lentamente, soltou a respiração. Na entrada do abrigo, o filhote estava sentado, observando-o. Seus olhos esguelhados eram de um douradoescuro estranho Âmbar, refletiu Torak, lembrando-se do pequeno amuleto de foca que Pa usava numa tira de couro em volta do pescoço. Achou aquilo estranhamente tranqüilizador. Pelo menos não estava sozinho.


Quando as batidas de seu coração voltaram ao normal, a dor de sua febre voltou crescente. Ela enrugou sua pele. O crânio parecia prestes a explodir. Pelejou para pegar mais casca de salgueiro na bolsa de remédios, mas deixou-a cair e não conseguiu encontrá-la novamente na semi-escuridão. Arrastou outro galho para a fogueira, e então deitou-se de costas, ofegando. Não conseguia tirar aqueles rugidos da cabeça. Onde estaria o urso agora? A clareira dos cavalos mortos ficava ao norte do riacho onde ele atacara Pa, mas agora o urso parecia estar a oeste. Continuaria seguindo na direção oeste? Ou teria captado o cheiro de Torak e mudado de direção? Quanto tempo levaria para chegar ali e encontrálo deitado indefeso e doente? Uma voz calma e firme parecia sussurrar em sua mente. — quase como se Pa estivesse com ele. Se o urso vier, o filhote vai alertar você. Lembre-se, Torak: o focinho de um lobo é tão aguçado que ele é capaz de farejar o hálito de um peixe. Seus ouvidos são tão apurados que ele é capaz de ouvir as nuvens passando. Sim, pensou Torak, o filhote vai me alertar. Isso é importante. Quero morrer com os olhos abertos, encarando o urso como um homem. Como Pa. Em algum lugar bem distante, um cão latiu. Não um lobo, mas um cão. Torak franziu a testa. Cães querem dizer pessoas, e não há pessoas nesta parte da floresta. Haverá? Ele afundou na escuridão. De volta às garras do urso.


CINCO Estava quase escuro quando Torak acordou. Dormira o dia todo. Senti-se fraco e furiosamente sedento, mas seu ferimento estava mais frio e muito menos dolorido. A febre sumira. E o filhote também. Torak ficou surpreso em se descobrir imaginando se ele estaria bem. Por que deveria se preocupar? O filhote nada significava para ele. Cambaleou até o rio e bebeu, depois despertou o fogo adormecido com mais lenha. O esforço deixou-o tremendo. Descansou, e comeu a última castanha-deporco e algumas folhas de azeda que encontrara na margem do rio. Elas eram duras e muito ácidas, mas fortificantes. O filhote continuava desaparecido. Pensou em tentar chamá-lo com um uivo. Mas, se aparecesse, seria apenas para pedir comida. Além do mais, o uivo poderia atrair o urso. Então, em vez disso, calçou as botas e foi verificar as armadilhas. Os anzóis estavam vazios exceto um, que segurava as espinhas de um pequeno peixe, limpas por hábeis mordiscadas. Teve mais sorte com os laços. Um deles prendia uma galinha-do-mato, que se debatia debilmente. Carne. Murmurando um rápido obrigado ao espírito da ave, Torak quebrou seu pescoço, abriu sua barriga e engoliu o quente fígado cru. Tinha um gosto amargo e limoso, mas ele estava faminto demais para ligar para isso.


Sentindo-se ligeiramente mais firme, amarrou a ave no cinturão e foi verificar a armadilha para animais de grande porte. Para seu alívio, não continha nenhum filhote morto. O filhote estava sentado ao lado de sua mãe, cutucando com a pata sua fedorenta carcaça. Quando Torak se aproximou, ele começou a correr em sua direção, então olhou para trás, para a loba, ganindo indignado. Queria que Torak elucidasse aquilo. Torak suspirou. Como poderia explicar o que era a morte se ele mesmo não a entendia? — Venha — disse ele, sem se importar de falar lobo. As enormes orelhas do filhote giraram para captar o som. — Não há nada aqui — falou Torak com impaciência. — Vamos embora. De volta ao abrigo, depenou e enfiou um espeto na galinha-do-mato, e colocou-a acima do fogo para assar. O filhote avançou para cima dela. Torak agarrou o focinho do filhote e o enfiou no chão. Não!, rosnou. É minha! O filhote ficou ali parado, obedientemente, batendo a cauda. Quando Torak soltou seu focinho, ele rolou de costas, exibiu sua pálida e peluda barriga, e lhe deu um sorriso silencioso de desculpa. Em seguida, afasto-se correndo para uma distância segura, a cabeça educadamente baixada. Torak assentiu, satisfeito. O filhote tinha de aprender que ele era o lobo líder, ou haveria intermináveis problemas no futuro.


Que futuro?, pensou, fazendo cara feia. Seu futuro não incluía o filhote. O cheiro de carne assada afastou todos os outros pensamentos. Gordura chiava no fogo. Sua boca salivou. Rapidamente, torceu uma coxa da galinha-do-mato e a enfiou na forquilha de um pé de bétula como uma oferenda para o guardião do seu clã; então, acomodou-se para comer. Era a melhor coisa que ele já havia provado. Sugou dos ossos cada pedacinho de carne e gordura, e triturou cada bocado de pele tostada e salgada. Forçou-se a ignorar os grandes olhos cor de âmbar que acompanhavam cada dentada. Quando acabou, limpou a boca com as costas da mão. O filhote acompanhava cada movimento. Torak soltou um longo bufado. — Ora, está bem — murmurou. Arrancou o pé que restava na carcaça e jogou-o para ele. O filhote triturou-o em instantes. Em seguida, olhou para Torak, esperançoso. — Não tenho mais — falou para ele. O filhote ganiu impacientemente e olhou para a carcaça em suas mãos. Ele havia limpado os ossos, mas estes ainda serviriam para fazer agulhas, anzóis e caldo, — se bem que, sem uma pele de cozinhar, ele não conseguiria fazer caldo nenhum. Prevendo que poderia estar guardando problemas para si mesmo, jogou metade da carcaça para o filhote. O filhote a destruiu com suas mandíbulas poderosas, depois se enroscou e caiu imediatamente no sono: uma dócil bola preguiçosa de caloroso pêlo cinzento.


Torak também queria dormir, mas sabia que não podia. Quando a febre baixou e veio o frio, sentou-se e ficou encarando o fogo. Agora que se livrara da febre e comera alguma carne, podia, finalmente, pensar com clareza. Pensou na clareira dos cavalos mortos e nos olhos do urso assombrados pelo demônio. Está possuído, dissera Pa. Algum demônio penetrou nele e o tornou mau. Mas o que é realmente um demônio?, Perguntou-se Torak. Ele não sabia. Só sabia que demônios detestam todas as coisas vivas, e às vezes escapam do Outro Mundo, erguendo-se de dentro do chão para causar doença e destruição. Enquanto pensava nisso, deu-se conta de que, embora tivesse grande conhecimento sobre caçadores e presas. — sobre linces e carcajus, auroques e cavalos e veados, ele sabia muito pouco sobre as outras criaturas da floresta. Sabia apenas que guardiães de clãs vigiam acampamentos, e que espíritos gemem em árvores sem folhas nas noites de tempestade, eternamente à procura de clãs que eles perderam. Sabia que o Povo Oculto vive no interior de rochas e rios, do mesmo modo como os clãs vivem em abrigos, e que eles parecem bonitos até virarem suas costas, que são ocas como árvores apodrecidas. Quanto ao Espírito do Mundo, que manda a chuva e a neve e a presa — sobre isso Torak sabia muito pouco. Até agora, nunca tinha pensado a respeito dele. Era remoto demais: um espírito inimaginavelmente poderoso que vivia muito distante, em sua montanha; um espírito que ninguém jamais viu, mas que diziam aparecer, no verão, como um homem com as galhadas de um veado e, no in-


verno, como uma mulher com galhos nus de salgueiro vermelho como cabelo. Torak baixou a cabeça sobre os joelhos. O peso do juramento que fizera a Pa pesava sobre ele como uma pedra. De repente, o filhote saltou emitindo um tenso grunhido. Torak pôs-se de pé num pulo. Os olhos do filhote estavam fixos na escuridão: orelhas rígidas, pêlos do pescoço eriçados. Em seguida, arremesso-se para fora da área iluminada pela fogueira e desapareceu. Torak permaneceu totalmente imóvel, a mão na faca de Pa. Sentiu as árvores observando-o. Ouvia-as cochichar umas com as outras. Em algum lugar não muito distante, um tordo começou a entoar sua melancólica canção noturna. O filhote reapareceu: o pêlo do pescoço baixo, o focinho dócil e sorrindo ligeiramente. Torak relaxou a pressão sobre a faca. Fosse o que fosse o que estava lá fora, já tinha ido embora ou não era uma ameaça. Se o urso estivesse por perto, o pisco-depeito-ruivo não estaria cantando. Ele sabia muito bem disso. Sentou-se novamente. Você tem de encontrar a Montanha do Espírito do Mundo até a próxima lua, disse a si mesmo. Foi o que Pa falou. Quando o olho vermelho está mais alto no céu... é quando os demônios são mais fortes. Você sabe disso. Sim, eu sei, pensou Torak. Eu sei a respeito do olho vermelho. Eu já o vi.


Todo outono, o grande touro Auroque — o mais poderoso demônio do Outro Mundo — escapa para o céu noturno. A princípio, tem a cabeça baixa, pateando a terra, e por isso apenas o estrelado cintilante de seu ombro pode ser visto. Quando chega o inverno, porém, ele se levanta e fica mais forte. E quando se vêem seus chifres resplandecentes e seu olho vermelho injetado de sangue. A estrela vermelha do inverno. E, na Lua do Salgueiro Vermelho, ele galopa mais alto, e o mal é mais forte. E quando os demônios vagueiam. E quando o urso será invencível Olhando acima por entre os galhos, Torak viu o gelado cintilar das estrelas. No horizonte oriental, logo acima da distante escuridão das Montanhas Altas, ele o encontrou: o ombro estrelado do Grande Auroque. Era agora o final da Lua dos Veados Berrantes. Na lua seguinte, a Lua do Abrunheiro, o olho vermelho aparecerá, e o poder do urso ficará mais forte. Durante a Lua do Salgueiro Vermelho, ele será invencível. Siga para o norte, dissera Pa. Muitos dias de caminhada. Torak não queria ir muito para o norte. Isso o levaria para fora do pequeno trecho da floresta que ele conhecia, e em direção ao desconhecido. Mesmo assim — Pa devia acreditar que ele teria uma chance, ou não teria feito com que ele jurasse. Apanhou um graveto e atiçou as brasas. Sabia que as Montanhas Altas ficavam muito longe, para leste, além da Floresta Profunda, e que elas faziam uma curva do norte para o sul, arqueando externamente à floresta como a espinha dorsal de uma enorme baleia. E sabia que, segundo se dizia, o Espírito do Mundo vivia na


montanha mais ao norte. Ninguém, porém, jamais chegara perto dele, pois o espírito sempre afugentava as pessoas com fortes nevascas e traiçoeiras avalanches de pedras. O dia todo Torak estivera evitando o norte, mas ainda estava apenas no nível das raízes mais meridionais das Montanhas Altas. Não fazia idéia de como conseguiria ir tão longe por conta própria. Continuava fraco, por causa da febre, e sem condições de iniciar uma jornada. Portanto, não vá, pensou. Não cometa o mesmo erro duas vezes: não entre em pânico para quase ser morto por causa da pura estupidez. Fique aqui mais ou menos um dia. Revigore-se. E então parta. Tomar uma decisão fez com que ele se sentisse um pouco melhor. Colocou mais gravetos no fogo, e viu, para sua surpresa, que o filhote o observava. Seu olhar era firme e em nada parecia o de um filhote: eram os olhos de um lobo. Mais uma vez, a voz de Pa ecoou em sua memória. Os olhos de um lobo não são como os de qualquer outra criatura — exceto os de um homem. Lobos são os nossos irmãos mais próximos, Torak, e isso se revela nos olhos deles. A única diferença é a cor. Os deles são dourados, ao passo que os nossos são cinzentos. Mas o lobo não vê isso, pois o mundo dele não tem cores. Apenas prateados e cinzentos. Torak perguntara como ele sabia disso, mas Pa sorrira e sacudira a cabeça, dizendo que explicaria quando Torak fosse mais velho. Havia uma porção de coisas que ele explicaria quando Torak fosse mais velho. Torak fez cara feia e esfregou o rosto. O filhote continuava observando-o.


Ele já tinha algo da beleza de um lobo adulto: o delgado focinho cinza-claro; enormes orelhas com suas orlas negras; elegantes olhos com contornos escuros. Aqueles olhos. Tão claros quanto à luz do sol na água de nascente... De repente, Torak teve a estranha sensação de que o filhote sabia o que ele estava pensando. Mais do que qualquer outro caçador da floresta, cochichou Pa em sua mente, os lobos são como nós. Eles caçam em alcatéias. Gostam de conversar e brincar. Têm um amor feroz por suas fêmeas e filhotes. E cada lobo trabalha duro pelo bem da alcatéia. Torak aprumou-se. O que Pa andou tentando lhe dizer? O seu guia vai encontrar você. Seria o filhote o seu guia? Resolveu testá-lo. Pigarreando, ficou de quatro. Não sabia como dizer ―montanha‖ em conversa de lobo, e por isso resolveu chutar: gesticulou com a cabeça e perguntou — com o baixo e intenso uivar-e-ganir que faz parte da conversa de lobo — se o filhote sabia o caminho. O filhote girou as orelhas e olhou para ele, e então desviou a vista educadamente, pois, em conversa de lobo, encarar firmemente é uma ameaça. Em seguida levanto-se, espreguiço-se e, indolentemente, sacudiu o rabo. Nada em seus movimentos disse a Torak que ele entendera sua pergunta. Ele era de novo simplesmente um filhote. Ou não? Será que ele realmente imaginou aquele olhar?


SEIS Passaram-se muitos Claros e Escuros desde que Alto Sem-Rabo viera. No início, ele dormia o tempo todo, mas agora comportava-se mais como um lobo normal. Quando se sentia triste, ficava quieto. Quando se zangava, rosnava. Gostava de brincar de pegar usando um pedaço de pele de lebre, e quando o filhote se lançava sobre ele, rolava no chão, emitindo uivos e ganidos, o que o filhote supunha que era sua maneira de rir. Às vezes, Alto Sem-Rabo juntava-se ao filhote num uivado, e os dois cantavam seus sentimentos para a floresta. O uivo de Alto Sem-Rabo era tosco e não muito afinado, mas cheio de sentimento. O resto de sua conversa era a mesma coisa: rude mas expressiva. Claro que ele não tinha rabo, e não conseguia mover as orelhas, nem eriçar seu pêlo, nem alcançar os latidos agudos. Mas, no geral, ele se fazia entender. Portanto, de muitas maneiras, ele era exatamente como qualquer outro lobo. Se bem que não em tudo. O pobre Alto Sem-Rabo mal conseguia farejar ou ouvir, e durante o Escuro ele gostava de olhar para a Brilhante Besta-que-MordeQuente. Às vezes, ele arrancava suas patas traseiras, e numa terrível ocasião arrancou até mesmo sua pele. O mais estranho de tudo, ele dormia um século. Não parecia saber que um lobo só deve dormir durante curtos períodos de tempo, e deve se levantar com freqüência, espreguiçarse e vira-se, estando, desse modo, pronto para qualquer coisa.


O filhote tentou ensinar a Alto Sem-Rabo a acordar com mais freqüência, cutucando-o e mordiscando suas orelhas. Em vez de mostrar agradecimento, Alto SemRabo simplesmente ficava muito, muito zangado. Enfim, o filhote deixou que ele dormisse; e, no Claro seguinte, Alto Sem-Rabo levantou-se após um sono estupidamente longo, e excessivamente mal-humorado. Bem, o que ele esperava, já que não deixou seu irmão de alcatéia acordálo? Hoje, porém, Alto Sem-Rabo acordou antes do Claro, e com um estado de ânimo muito diferente. O filhote sentiu seu nervosismo. Curioso, o filhote observou Alto Sem-Rabo seguir a trilha da alcatéia que levava ao Molhado. Uma caçada? O filhote saiu saltitando atrás dele, e então latiu para ele parar. Aquilo não era uma caçada. E Alto Sem-Rabo estava indo na direção errada. Não era apenas porque ele estava seguindo o Molhado Ligeiro, o qual o filhote agora odiava e temia mais do que tudo. Aquela era a direção errada porque — porque não era a direção certa. A direção certa era subindo a colina, e então seguindo em frente por muitos Claros e Escuros. O filhote não sabia como sabia essa informação, mas ele a sentia dentro de si: uma leve, profunda influência — como a influência do covil quando ele se afastava muito; só que mais leve, porque vinha de bem longe. Adiante, Alto Sem-Rabo caminhava a passos largos, inconsciente. O filhote emitiu um baixo ―Uff‖ de alerta — como sua mãe costumava fazer quando o queria de volta ao covil já.


Alto Sem-Rabo viro-se. Perguntou alguma coisa na sua própria fala. Soou como ―Quequifoi?‖. ―Uff‖, latiu o filhote. Disparou para o pé da colina e ficou olhando para a trilha certa. Então olhou para Alto Sem-Rabo e depois novamente para a trilha. Não é por aí. É por aqui. Impacientemente, Alto Sem-Rabo repetiu a pergunta. O filhote ficou esperando que ele entendesse. Alto Sem-Rabo coçou a cabeça. Disse alguma outra coisa na fala dos sem-rabos. Então caminhou de volta em direção ao filhote. Torak observou o corpo tenso de Lobo. As orelhas de Lobo movimentara-se para a frente. Seu focinho preto contrai-se. Torak seguiu a direção de seu olhar. Não conseguiu enxergar nada através do entrelaçado de aveleiras e espirradeiras, mas sabia que o gamo estava ali, porque Lobo sabia disso, e Torak aprendera a confiar em Lobo. Lobo olhou de relance para Torak, seus olhos âmbar passeando pelos do menino. Em seguida, seu olhar voltou para a floresta. Silenciosamente, Torak quebrou a cabeça de uma gramínea e dividiu-a ao meio com o polegar, deixando que as pequeninas sementes flutuassem para longe com a brisa. Ótimo. Ainda estavam a favor do vento em relação ao gamo: ele não captaria o faro dos dois. E, antes de se pôr a caminho, Torak, como sempre, mascarou seu cheiro esfregando cinzas de madeira na pele. Sem um ruído, puxou uma flecha de sua aljava e encaixou no arco. Era apenas um pequeno gamo, mas, se conseguisse derrubá-lo, seria o primeiro abate que teria


feito sozinho. Precisava disso. A presa andava muito mais escassa do que deveria naquela época do ano. A cabeça do filhote baixou. Torak agachou-se. Juntos, avançaram sorrateiramente. Vinham seguindo o veado o dia todo. O dia todo, Torak seguira sua trilha de gravetos mordidos e pegadas fendidas: tentando sentir o que ele sentia; adivinhando aonde ele iria a seguir. Para seguir o rastro de uma presa, você precisa primeiro conhecê-la como conheceria um irmão. O que ela come, e quando e como, onde descansa; como se movimenta. Pa ensinara bem a Torak. Ele sabia como rastrear. Sabia que é preciso parar freqüentemente para ouvir: abrir os sentidos para o que a floresta está lhe dizendo... No momento, ele sabia que o gamo estava cansando. No início do dia, as fendas de cada pequenina pegada eram profundas e alargadas, o que significava que ele andara galopando. Agora as fendas eram rasas e juntas; ele diminuíra a velocidade para uma caminhada. Devia estar com fome, pois não tivera tempo para pastar; e com sede, pois se mantivera em segurança no meio do mato, onde não havia água. Torak procurou rapidamente por sinais de um córrego. A oeste através das aveleiras, cerca de trinta passos distante da trilha, vislumbrou uma moita de amieiros. Amieiros só crescem perto da água. Era para ali que o corço devia estar seguindo. Suavemente, ele e o filhote avançaram pela vegetação rasteira. Colocando a mão em concha sobre o ouvido, captou um leve agitar de água.


De repente, Lobo congelou: orelhas cravadas à frente, uma pata traseira erguida. Sim. Ali. No meio dos amieiros. O corço inclinouse para beber. Cuidadosamente, Torak fez a mira. O corço ergueu a cabeça, a água pingando de seu focinho. Torak observou-o cheirar o ar e eriçar o pêlo de sua pálida anca em alarme. Mais o tempo de uma pulsação e o animal iria embora. Ele soltou a flecha. Ela atingiu com um som surdo as costelas do veado logo atrás do ombro. Com um elegante estremecimento, dobrou os joelhos e afundou no chão. Torak deu um grito e avançou pela vegetação rasteira em direção a ele. Lobo competiu com ele e venceu facilmente, mas então afrouxou o passo para deixar Torak ultrapassá-lo. O filhote estava aprendendo a respeitar o lobo líder. Ofegando, Torak parou diante do corço. Suas costelas ainda se erguiam, mas a morte estava perto. Suas três almas preparava-se para partir. Torak engoliu em seco. Agora teria de fazer o que vira Pa fazer vezes incontáveis. Para ele, porém, seria a primeira vez, e teria de obter sucesso na tarefa. Ajoelhando-se ao lado do veado, esticou a mão e alisou delicadamente sua face áspera e suada. O animal ficou quieto sob sua palma. — Você foi bem — disse-lhe Torak. Sua voz soava sem jeito. — Você foi bravo e esperto, e continuou avançando o dia todo. Prometi manter o pacto com o Espírito do Mundo e tratar você com respeito. Agora vá em paz. Observou a morte vitrificar o grande olho escuro.


Senti-se agradecido pelo corço, mas também orgulhoso. Aquele foi seu primeiro abate de um animal de grande porte. Onde quer que Pa estivesse na Jornada da Morte, estaria contente. Torak virou-se para Lobo, pôs a cabeça de lado, enrugou o nariz e arreganhou os dentes num sorriso de lobo. Muito bem, obrigado. Lobo lançou-se sobre Torak, quase derrubando-o no chão. Torak gargalhou e lhe deu um punhado de amoras-pretas de sua bolsa de comida. Lobo devorou-as com uma bufada. Haviam se passado sete dias desde que eles partiram do Água Ligeira e ainda nenhum sinal do urso. Nada de rastros. Nada de elos presos em arbustos espinhosos. Nada de rugidos de estremecer a floresta. Algo, entretanto, estava errado. Nesta época do ano, a floresta deveria estar ecoando com os urros dos veados-vermelhos no cio e o estrépito de suas galhadas enquanto lutavam pelas fêmeas. Tudo, porém era silêncio. Era como se a floresta se esvaziasse lentamente; a presa fugindo de uma ameaça invisível. Em sete dias, as únicas criaturas que Torak encontrou foram pássaros e ratazanas-do-campo — e uma vez, com uma brusquidão de parar o coração, um grupo de caça: três homens, duas mulheres e um cachorro. Felizmente, conseguiu escapulir antes que o vissem. Fique longe dos homens, alertara Pa. Se eles descobrirem o que você consegue jazer... Torak não entendeu o que isso queria dizer, mas sabia que Pa estava certo. Ele crescera longe das pessoas; não queria nada com elas. Além disso, agora ele tinha Lo-


bo. Com o passar dos dias, eles conheciam cada vez melhor um ao outro. Torak começava a entender que a fala lupina é uma complexa mistura de gestos, olhares, cheiros e sons. Os gestos podem ser com focinho, orelhas, patas, rabo, ombros, pêlo ou o corpo inteiro. Muitos são bastante sutis: um mero inclinar ou contração. A maioria não envolvia sons. Atualmente, Torak já conhecia uma porção deles, embora não fosse como se estivesse aprendendo. Parecia mais como se estivesse se lembrando deles. Mesmo assim, havia uma coisa que ele sabia jamais ser capaz de dominar, porque não era um lobo. Isso era o que ele veio a chamar de ‗sentido de lobo‖: a fantástica capacidade de o filhote sentir os Pensamentos e os humores dele. Lobo também tinha seus próprios humores. Às vezes era o filhote, com uma adoração infantil por bagas e a incapacidade de ficar quieto. — como na ocasião em que se contorceu incessantemente quando Torak realizava um rito de denominação para ele, e depois lambeu todo o sumo de amieiro vermelho que cobria suas patas. Diferentemente de Torak, que ficara nervoso ao executar um ritual tão importante, Lobo parecera não ficar impressionado: apenas impaciente para que aquilo acabasse logo. Em outras ocasiões, porém, ele era o guia: misteriosamente seguro do caminho que deviam tomar. Mas, se Torak tentasse lhe perguntar a respeito disso, ele não dava o que poderia ser chamado de resposta. Eu apenas sei. Era tudo. No momento, Lobo não estava sendo o guia. Estava sendo o filhote. Seu focinho estava roxo com o sumo de amora-preta, e latia insistentemente pedindo mais.


Torak riu e empurrou-o para longe. — Chega! Tenho trabalho a fazer. Lobo deu uma sacudida e sorriu, depois afastou-se para tirar uma soneca. Demorou dois dias para Torak reduzir o animal a uma carcaça. Fizera uma promessa ao corço, e teria de cumpri-la não desperdiçando nada. Esse era o antigo pacto entre os caçadores e o Espírito do Mundo. Caçadores deviam tratar a presa com respeito, e em troca o Espírito mandaria mais presas. Era uma tarefa amedrontadora. Eram necessários muitos verões de prática para usar bem a presa. Torak não realizou um trabalho excelente, apenas o melhor que conseguiu fazer. Primeiro, abriu a barriga do veado e cortou um pedaço do fígado para o guardião do clã. O resto do fígado ele cortou em tiras e colocou para secar. Então condescendeu e cortou um pedaço para Lobo, que o devorou ruidosamente. A seguir, Torak esfolou a carcaça, desbastando o couro para livrá-lo de qualquer pedaço de carne, com uma raspadeira feita de galhada. Lavou o coro em água misturada com casca de carvalho esmigalhada para amolecer os pêlos, depois esticou-o entre duas árvores novas — fora do alcance de um salto de Lobo. Então rapou os pêlos – de modo inexperiente, fazendo vários buracos — e amoleceu o couro esfregando-o com os miolos amassados do corço. Após a rodada final de molhar e secar, possuía um pedaço razoável de couro cru para corda e linhas de pescar. Enquanto o couro secava, cortou a carne em tiras finas e pendurou-as sobre uma fumacenta fogueira de le-


nha de bétula. Depois de secas, esmagou-as entre duas pedras, para torná-las ainda mais finas, e depois enrolouas formando pequenos pacotes compactos. A carne era deliciosa. Um pedacinho o manteria metade de um dia. As entranhas, ele lavou-as, embebeu em água de casca de carvalho e espalhou sobre um arbusto de zimbro, para secar. O estômago daria um depósito de água; a bexiga, uma bolsa extra para iscas de fazer fogo, os intestinos guardariam nozes. Os pulmões eram a quota de Lobo — se bem que não imediatamente. Torak mastigaria pedaços deles nas refeições diurna e noturna, depois os cuspiria fora para o filhote. Mas como ele não tinha pele alguma de cozinhar para fazer cola, deixou os cascos imediatamente para Lobo. O filhote brincou incansavelmente com eles antes de triturá-los ruidosamente com os dentes. A seguir, Torak lavou os compridos tendões traseiros que havia separado da carnagem, socou-os para tornálos achatados, e depois cardou as estreitas fibras para obter os fios: secando-os e esfregando-os com gordura para se tornarem flexíveis. Não chegavam nem perto da maciez nem mesmo eram parecidos com os fios que seu pai costumava fazer, mas serviam. E eram tão resistentes que sobreviveriam a qualquer roupa que fosse cerzida com eles. Finalmente, raspou a galhada e os ossos compridos, para limpá-los e os amarrou num feixe para posteriormente lascá-los e transformá-los em anzóis, agulhas e pontas de flechas. Já era tarde no segundo dia, quando ele terminou. Sentou-se perto do fogo, feliz pela fartura de carne, talhando um apito de um pedaço de osso de tetraz. Precisava de algum meio para chamar o filhote quando este estivesse distante em uma de suas solitárias jornadas: algum


meio mais silencioso do que um uivo. Aquele grupo de caça ainda poderia estar por perto. Não podia mais se arriscar uivando. Acabou de talhar e experimentou o apito. Para seu desânimo, ele não produziu nenhum som. Pa havia entalhado inúmeros apitos exatamente como aquele, e sempre produziram um trinado claro de pássaro. Por que o dele não? Frustrado, Torak tentou novamente, soprando o mais forte que conseguia. Ainda nada de som. Mas, para sua surpresa, Lobo pulou como se tivesse sido picado por um vespão. Torak olhou do assustado filhote para o apito. Soprou-o mais uma vez. Novamente, nada de som. Dessa vez, Lobo rosnou brevemente, depois ganiu, para mostrar que estava um pouco irritado, mas não queria ir longe demais e ofender Torak. Torak pediu desculpas cocando delicadamente debaixo do focinho de Lobo, e o filhote afundou no chão. Sua expressão deixou bem claro: Torak não deveria chamar a não ser que fosse para alguma coisa. O dia seguinte raiou belo e luminoso, e, quando partiram novamente, o ânimo de Torak elevou-se. Fazia doze dias que o urso matara Pa. Nesse espaço de tempo, Torak havia lutado contra a fome e derrotado a febre, encontrado Lobo e feito o seu primeiro grande abate. Também cometera muitos erros. Mas continuava vivo. Ele imaginava o pai na jornada à Terra da Morte — a terra onde flechas abundavam e a caça nunca faltava. Pelo menos, pensou Torak, Pa tinha suas armas com ele, e


minha faca por companhia. E toda aquela carne seca. Isso enfraqueceu um pouco a torça do seu pesar. Torak sabia que a perda de seu pai nunca o deixaria — que a carregaria no peito toda a sua vida, como uma pedra. Naquela manhã, a pedra não parecia tão pesada assim. Ele havia sobrevivido até então, e seu pai ficaria orgulhoso. Senti-se quase feliz enquanto avançava através da vegetação rasteira sobre a vereda da floresta salpicada de luz do sol. Um casal de tordos brigava acima. O gordo e feliz filhote mantinha-se perto dele, o peludo rabo prateado erguido bem alto. Gordo, feliz e desatento. Torak ouviu um graveto se quebrar atrás dele, justamente no momento em que uma mão enorme o agarrou pelo gibão e o ergueu do chão com um puxão.


SETE Três caçadores. Três armas letais de sílex. Todas apontadas para ele. A mente de Torak girava. Não conseguia se mexer. Não conseguia ver Lobo. O homem que agarrava seu gibão era imenso. Sua barba ruiva era um emaranhado ninho de pássaro, — uma face era puxada para baixo por uma horrenda cicatriz, e o que quer que o tenha mordido levara uma das orelhas. Na mão livre segurava uma faca de sílex com gume, a ponta espetada sob a mandíbula de Torak. A seu lado estavam um jovem alto e uma moça com mais ou menos a idade de Torak. Ambos tinham cabelo ruivo-escuro, rostos lisos, impiedosos, e flechas com pontas de sílex apontadas para seu coração. Ele tentou engolir em seco. Esperava não parecer tão apavorado quanto se sentia. — Me larga — ofegou. Desferiu um soco no homenzarrão, mas errou. O homenzarrão grunhiu. — Aqui está o nosso ladrão! — Ergueu Torak bem alto — sufocantemente alto. — Não sou... ladrão — tossiu Torak, agarrado pelo pescoço. — Mentiroso — falou friamente o rapaz. — Você pegou o nosso gamo — disse a moça. Para o homenzarrão ela disse: — Oslak, acho que você está sufocando ele. Oslak colocou Torak de pé. Mas não o largou, e sua faca permaneceu na garganta de Torak.


Cuidadosamente, a moça recolocou sua flecha na aljava, e pôs o arco a tiracolo. O rapaz não fez o mesmo. Pelo brilho de seus olhos, ficava claro que estava adorando aquilo. Não hesitaria em disparar. Torak tossiu e esfregou a garganta, alcançando furtivamente sua faca. — Eu fico com isso — disse Oslak. Ainda segurando Torak, ele o aliviou de suas armas e jogou-as para a moça. Ela examinou curiosa a faca de Pa. — Você roubou isto também? — Não — exclamou Torak. — Era... era do meu pai. Obviamente, não acreditaram nele. Olhou para a moça. — Você disse que peguei seu gamo. Como podia ser seu? — Esta é a nossa parte da floresta — disse o rapaz. Torak ficou intrigado. — Como assim? A floresta não pertence a ninguém... — Agora pertence — disparou o rapaz. — Ficou combinado na reunião de clãs. Por causa de... — interrompe-se com um ar de desdém. — O que interessa é que você pegou nossa presa. Isso significa morte. Torak suava profusamente. Morte? Como caçar um corço podia significar morte? Sua boca estava tão seca que ele mal conseguia falar. — Se... Se é o corço que querem — disse ele —, podem pegá-lo e me deixar ir embora. Está na minha mochila. Não comi muito. Oslak e a moça trocaram olhares, mas o rapaz jogou a cabeça para trás, desdenhoso.


— Não é tão simples assim. Você é meu prisioneiro. Oslak, amarre as mãos dele. Vamos levá-lo a FinKedinn. — Onde é isso? — quis saber Torak. — Não é um lugar — explicou Oslak. — E um homem. — Você não sabe nada? — zombou a moça. — Fin-Kedinn é meu tio — disse o rapaz, levantando-se. — Ele é o líder de nosso clã. Eu sou Hord, o filho do irmão dele. — Que clã? Aonde estão me levando? Eles não responderam. Oslak deu-lhe um empurrão que o derrubou de joelhos. Enquanto pelejava para ficar de pé, olhou de relance por cima do ombro — e viu, para seu horror, que Lobo tinha voltado à procura dele. Permaneceu hesitante, cerca de vinte passos à distância, farejando o cheiro dos estranhos. Eles não o notaram. O que fariam se tivessem notado? Provavelmente, até mesmo eles respeitavam a antiga lei que proibia matar outro caçador. Mas e se afugentassem Lobo? Torak imaginou-o perdido na Floresta. Faminto. Uivando. Para alertar Lobo que ficasse fora de vista, emitiu um baixo e urgente ―uff‖. Perigo! Oslak quase caiu sobre ele, surpreso. — O que foi que você disse? — Uff! — repetiu Torak. Para seu desespero, Lobo não recuou. Em vez disso, colocou as orelhas para trás e correu direto para Torak. — O que é isso? — murmurou Oslak. Abaixou-se e agarrou Lobo pelo toutiço.


Lobo contorce-se e rosnou enquanto pendia da enorme mão ruiva. — Deixe ele! — gritou Torak, debatendo-se. — Deixe ele ou mato você! Oslak e a moça caíram na gargalhada. — Deixe ele ir embora! Não fez nenhum mal a vocês! — Apenas afugentem ele e vamos embora — sugeriu Hord com irritação. — Não, — berrou Torak. — Ele é meu guia... não! A moça lançou-lhe um olhar desconfiado. — Ele é seu o quê? — Ele está comigo — murmurou Torak. Ele sabia que não devia revelar sua busca pela montanha, nem que podia falar com Lobo. — Vamos, Renn — grunhiu Hord. — Estamos perdendo tempo. Renn, porém, continuava encarando Torak. Virou-se para Oslak. — Dê ele para mim. De sua mochila, ela retirou um saco de couro de gamo dentro do qual enfiou o filhote, fechando bem apertada sua boca. Ao jogar para cima do ombro o saco serpeante e uivante, ela falou para Torak: — É melhor você vir quietinho, ou esmago ele contra uma árvore. Torak fitou-a. Talvez ela não fizesse isso, mas garantiu a obediência dele com mais eficiência do que teriam conseguido Oslak ou Hord. Oslak deu outro empurrão em Torak, e partiram por uma trilha de veado na direção noroeste. As amarras de couro cru estavam apertadas, e os pulsos de Torak começaram a doer. Que doam, pensou. Estava furioso consigo mesmo. Olhe atrás de você, disse-


ra seu pai. Não tinha olhado e agora estava pagando por isso — e Lobo também. Não havia mais uivos abafados vindo do saco. Estaria sufocando? Já morto? Torak implorou que Renn abrisse o saco e deixasse entrar algum ar. — Não há necessidade — afirmou sem se virar. — Estou sentindo ele se mexer. Torak trincou os dentes e avançou cambaleante. Precisava encontrar um meio de escapar. Oslak vinha atrás dele, mas Hord estava bem logo à frente. Ele parecia ter uns dezenove anos, era forte e bonito. Também parecia igualmente arrogante e apreensivo: desesperado para ser o primeiro mas com medo de só conseguir chegar sempre em segundo. Suas roupas eram muito bem-feitas e coloridas, o gibão e as perneiras costurados com tendão trançado, tingido de vermelho, e orlados corri uma espécie de pele de ave colorida de verde. No peito usava um esplêndido colar de dentes de veadovermelho. Torak estava desconcertado. Por que um caçador ia querer tanta cor? E aquele colar retinia, o que era a última coisa de que você precisava. As feições de Renn pareciam com as de Hord, e Torak imaginou se seriam irmão e irmã, embora Renn fosse mais nova uns quatro ou cinco verões. Suas tatuagens de clã — três barras finas azul-escuras nos malares — salientava-se claramente em sua pele clara, dando-lhe um ar aguçado, desconfiado. Torak não pensava em lhe pedir ajuda. Seu gibão de couro cru e perneiras eram surrados, mas seu arco e aljava eram belos, as flechas habilmente emplumadas com penas de coruja para um vôo silencioso.


Nos dois primeiros dedos da mão esquerda, ela usava protetores de couro, e preso em seu antebraço direito havia um protetor de pulso de ardósia verde polida. Torak deduziu que tais protetores de pulso eram usados por pessoas que viviam em função de seus arcos. Era isso que interessava a ela, pensou ele. Nada de roupas bonitas, como Hord. Mas a que clã ela pertencia? Cerzida do lado esquerdo de seu gibão — e nos de Hord e Oslak — estava a pele de seu animal de clã: uma tira de penas pretas. Cisne? Águia? As penas estavam muito esfarrapadas. Torak não conseguia distinguir. Caminharam a manhã toda sem parar para comida ou água: atravessando vales pantanosos lotados de agitados choupos-tremedores; subindo colinas escurecidas por pinheiros sempre atentos. Quando Torak passava por baixo, as árvores suspiravam pesarosas, como se já lamentassem sua morte. Nuvens obscureciam o sol, e ele perdeu a orientação. O grupo chegou a uma encosta onde o solo da floresta era cheio até a cintura de ninhos de formiga-damadeira. Como esses bichos só constroem do sul das árvores, Torak concluiu que eles seguiam para oeste. Finalmente, pararam num córrego para beber. — Estamos indo muito devagar — resmungou Hord. — Temos todo um vale para atravessar antes de chegarmos ao rio Sinuoso. Torak aguçou os ouvidos. Talvez escutasse algo útil... Renn percebeu que ele estava ouvindo. — O rio Sinuoso — disse-lhe lentamente, como se falasse com um bebê — fica a oeste, no próximo vale. E


onde acampamos no outono. E a dois dias de caminhada ao norte fica o Água Extensa, onde acampamos no verão. Por causa do salmão. É um peixe. Talvez tenha ouvido falar nele. Torak sentiu-se enrubescer. Mas agora sabia aonde estavam indo: ao acampamento de outono de seus captores. Isso parecia ruim. Um acampamento significaria mais pessoas e menos chance de fugir. À medida que caminhavam, o sol ia afundando, e os captores de Torak iam ficando nervosos, parando de vez em quando para escutar e olhar em volta. Torak achou que eles sabiam sobre o urso. Talvez por isso tivessem adotado a medida sem precedentes de ―possuir‖ a presa. Porque estava ficando escassa, o urso a estava afugentando. Desceram para um grande vale de carvalhos, freixos e pinheiros, e logo alcançaram um extenso rio prateado. Devia ser o rio Sinuoso. Subitamente, Torak farejou fumaça de madeira. Estavam se aproximando do acampamento.


OITO Quando os quatro atravessaram o rio por uma passagem de madeira, Torak olhou abaixo para a água deslizante e pensou em pular. Suas mãos estavam amarradas. Ele se afogaria. Além do mais, não poderia deixar Lobo. Cerca de dez passos rio abaixo, as árvores abriamse para uma clareira. Torak sentiu o cheiro de fumaça de pinheiro e sangue fresco. Avistou quatro grandes abrigos feitos de couro de rena diferentes de tudo que já vira, e um número desconcertante de pessoas: todas trabalhando arduamente e ainda sem notar a presença dele. Apreendia cada detalhe com um óbvio temor crescente. Na margem do rio, dois homens esfolavam um javali pendurado em uma árvore. Já tendo aberto a barriga, eles embainharam suas facas e estavam descascando a pele com as mãos, para evitar que se rasgasse. Ambos tinham o peito nu e usavam aventais de pele de peixe sobre as perneiras. Pareciam pavorosamente fortes, com altas cicatrizes em ziguezague nos braços musculosos. Da carcaça, o sangue pingava lentamente para um balde de casca de bétula. No raso, duas meninas com túnicas de couro de gamo davam risadinhas enquanto enxaguavam as tripas do javali, ao mesmo tempo em que três crianças pequenas preparavam solenemente bolos de lama e os recheavam com frutos de sicômoro. Duas lustrosas canoas de couro pousavam emborcadas fora da água. O chão em volta delas reluzia com escamas de peixe. Uma dupla de cães enormes rondava ali atrás de restos.


No meio da clareira, perto de uma fogueira comprida de madeira de pinheiro, havia um grupo de mulheres sentadas sobre esteira de galhos de salgueiro, conversando baixinho enquanto descascavam avelãs e selecionavam bagas de zimbro de um cesto. Nenhuma delas se parecia em nada com Hord ou Renn; Torak imaginou brevemente se, como ele, os dois haviam perdido os pais. Um pouco distante delas, uma velha senhora colocava pontas em flechas: encaixava nas hastes lascas de sílex finas como agulhas, depois as grudava no lugar com uma pasta de seiva de pinheiro e cera de abelha. Um amuleto de osso redondo gravado com uma espiral estava costurado ao peito de seu gibão. Pelo amuleto, Torak soube que ela devia ser a maga do clã. Pa lhe contara sobre magos: pessoas que eram capazes de curar doenças, que sonhavam onde estava a presa e que clima faria. Aquela velha parecia poder fazer coisas muito mais perigosas do que isso. Perto do fogo, uma bela garota estava curvada sobre uma pele de cozinhar. O vapor serpeava pelo seu cabelo quando ela usava uma forquilha para deixar cair pedras incandescentes. O odor suculento do que quer que fosse que estivesse cozinhando fez a boca de Torak se encher de água. Perto dela, um homem mais velho ajoelhou-se para assar duas e lebres num espeto. Como Hord, ele tinha cabelo castanho-avermelhado e uma curta barba ruiva, mas a semelhança terminava aí. Seu rosto tinha uma cativante tranqüilidade e uma força que fez Torak pensar em arenito esculpido. Torak esqueceu o cheiro da comida. Ele soube, sem que lhe dissessem, que aquele homem exercia o poder.


Oslak desfez as amarras e empurrou Torak para a clareira. Os cães saltitaram, latindo furiosamente. A velha senhora fez um gesto cortante com a palma e os latidos foram reduzidos a rugidos. Todos olharam para Torak. Todos menos o homem perto da fogueira, que continuava calmamente assando as lebres no espeto. Somente após terminar foi que ele esfregou as mãos na terra e pôs-se de pé, esperando em silêncio que eles se aproximassem. A garota bonita olhou de relance para Hord e sorriu timidamente. — Guardamos um pouco de caldo para você — disse ela. Torak deduziu que ela era sua companheira, ou queria ser. Renn virou-se e revirou os olhos para Hord. — Dyrati guardou um pouco de caldo para você — zombou. Positivamente irmã dele, pensou Torak. Hord ignorou ambas e foi falar com o homem perto da fogueira. Rapidamente, relatou o que acontecera. Torak notou que deu a entender como se ele, e não Oslak, tivesse capturado ―o ladrão‖. Oslak não pareceu se importar, mas Renn disparou um olhar cáustico para o irmão. Nesse meio-tempo, os cães haviam farejado Lobo. Com o pêlo do pescoço eriçado, eles avançaram para Renn. — Para trás! — ordenou ela. Eles obedeceram. Renn mergulhou no abrigo mais próximo e emergiu com um rolo de corda de casca de árvore trançada. Amarrou uma extremidade em volta da ponta do saco contendo Lobo, jogou a outra por cima de um galho de pé de carvalho e içou o saco bem alto: bem longe do alcance dos cachorros.


E do meu, deu-se conta Torak. Agora, mesmo que tivesse uma chance de escapar, não poderia. Não sem Lobo. Renn fez contato visual com ele e deu-lhe um sorriso maldoso. Ele retribuiu com um olhar zangado. Por dentro, o medo causava-lhe enjôos. Hord terminara de falar. O homem perto da fogueira assentiu uma vez e esperou que Oslak empurrasse Torak em sua direção. Seus olhos eram de um intenso, destemido azul: nitidamente vivos naquele rosto impenetrável. Torak achou difícil olhar para eles por muito tempo — e mais difícil ainda desviar o olhar. — Como se chama? — perguntou o homem numa voz que era de algum modo mais atemorizante por ser tão tranqüila. Torak umedeceu os lábios. — Torak... E o seu? — Mas ele achava que já sabia. Foi Hord quem respondeu. — Ele é Fin-Kedinn. Líder do Clã do Corvo. E você, seu pequeno pulha miserável, devia aprender a ter mais respeito... Fin-Kedinn silenciou Hord com um olhar, e então dirigiu-se a Torak. — Qual é o seu clã? Torak ergueu o queixo. — Lobo. — Ora, isso é uma surpresa — observou Renn, e várias pessoas riram. Fin-Kedinn não foi uma delas. Seus olhos azuis ardentes não se afastavam do rosto de Torak. — O que faz nesta parte da floresta?


— Estou seguindo para o norte — respondeu Torak. — Já falei para ele que isso agora nos pertence — interveio Hord rapidamente. — Como eu podia saber? — indagou Torak. — Não estive na reunião de clãs. — Por que não? — quis saber Fin-Kedinn. Torak não respondeu. Os olhos do Corvo Líder penetraram nos dele. — Onde está o resto do seu clã? — Não sei — respondeu Torak com sinceridade. — Nunca vivi com eles. Eu vivo... vivia... com meu pai. — Onde está ele? — Morto. Ele foi... morto por um urso. Um murmúrio percorreu os espectadores. Alguns olharam temerosos sobre os ombros; outros tocaram suas peles de corvo, ou fizeram o sinal com a mão para se precaver contra o mal. A velha senhora deixou suas flechas e aproximo-se deles. Nenhuma emoção transpareceu no rosto de FinKedinn. — Quem era seu pai? Torak estancou. Ele sabia — e, portanto FinKedinn também — que era proibido falar o nome de uma pessoa falecida durante cinco verões após sua morte. Em vez disso, só podiam se referir a ela citando seus pais. Pa raramente falava sobre sua família, mas Torak sabia seus nomes e de onde tinham vindo. A mãe de Pa fora do Clã da Foca; seu pai, do Clã do Lobo. Torak citou o nome de ambos.


O reconhecimento é uma das expressões mais difíceis de se dissimular. Nem mesmo Fin-Kedinn conseguiu ocultá-la completamente. Ele conhecia Pa, pensou Torak, chocado. Mas como? Pa nunca falou nele, nem no Clã do Corvo. O que significa isso? Observou Fin-Kedinn correr lentamente o polegar sobre seu lábio superior. Era impossível dizer se o pai de Torak fora seu melhor amigo ou seu inimigo mais mortal. Finalmente, Fin-Kedinn falou: — Divida as coisas do rapaz com todos — disse a Oslak. — Depois, leve-o rio abaixo e mate-o.


NOVE Os joelhos de Torak fraquejaram. — O q-quê? — ofegou. — Eu nem mesmo sabia que o veado era de vocês! Como posso ser culpado se não sabia? — É a lei — afirmou Fin-Kedinn. — Por quê? Por que? Porque você diz que é assim? — Porque os clãs dizem que é assim. Oslak pousou uma mão pesada sobre o ombro de Torak. — Não! — gritou Torak. — Escute! Você diz que é a lei, mas... há uma outra lei, não há? — Inspirou fundo. — Julgamento por combate. — Vamos... Vamos decidir numa luta. Ele não tinha certeza se era isso mesmo — Pa apenas mencionara essa coisa uma vez, quando lhe ensinava a lei dos clãs — mas os olhos de Fin-Kedinn estreitaram-se. — Estou certo, não estou? — insistiu Torak, forçando-se a retribuir o olhar do Corvo Líder. — Você não tem certeza se sou culpado, pois não sabe se eu sabia realmente que o veado era seu. Portanto, vamos lutar. Você e eu. — Estancou. — Se eu vencer, sou inocente. Viverei. Isto é, eu e o lobo. Se eu perder... morreremos. Alguns dos homens davam risadinhas. Uma mulher estapeou a testa e sacudiu a cabeça. — Não luto com meninos — alegou Fin-Kedinn. — Mas ele está certo, não está? — disse Renn. — É a lei mais antiga de todas. Ele tem o direito de lutar. Hord deu um passo à frente.


— Eu luto com ele. Estou mais perto dele em idade. Será mais justo. — Não muito — afirmou Renn asperamente. Ela estava encostada na árvore da qual pendia Lobo. Torak percebeu que ela havia afrouxado um pouco a ponta do saco para que Lobo empurrasse a cabeça para fora. Ele parecia hesitante, mas olhava curiosamente para os dois cachorros que babavam abaixo dele. — O que diz, Fin-Kedinn? — indagou a maga. — O garoto tem razão. Deixe que eles lutem. Fin-Kedinn fez contato visual com a velha, e por um momento pareceu haver uma batalha de vontades entre os dois. Lentamente, ele assentiu. O alívio inundou Torak. Todos pareciam ter ficado empolgados com a perspectiva de uma luta. Discutiam, batiam os pés, seu bafo vaporizando-se no ar trio da noite. Oslak jogou para Torak a faca de seu pai. — Vai precisar disso. E de uma lança e de um protetor de braço. — Um o quê? — indagou Torak. O homenzarrão coçou a cicatriz onde estivera sua orelha. — Você sabe lutar, não sabe? — Não — disse Torak. Oslak revirou os olhos. Foi até o abrigo mais perto e retornou com uma lança de madeira de freixo encimada por uma aguçada ponta de basalto e o que parecia ser um pedaço de couro de rena três vezes mais grosso. Torak pegou a lança, duvidoso, e observou intrigado enquanto Oslak prendia a pele endurecida em volta de


seu antebraço direito. A coisa pareceu tão pesada e de difícil manejo quanto um pernil de veado. Ficou imaginando o que deveria fazer com aquilo. Oslak fez um sinal com a cabeça para o curativo no outro braço de Torak, e fez uma careta. — Parece que as chances estão contra você. Só um pouquinho, pensou Torak. Quando sugeriu um combate, sua idéia era a de uma luta corpo a corpo, com talvez a inclusão de manejo de faca: o tipo de coisa que ele e Pa costumavam praticar com freqüência, mas apenas por diversão. Obviamente, para os corvos, um combate significava algo mais. Torak ficou imaginando se havia regras especiais, e se ele pareceria fraco se perguntasse. Fin-Kedinn atiçou o fogo, fazendo centelhas voarem. Torak observava-o através de uma tremeluzente neblina de calor. — Só há uma regra — anunciou Fin-Kedinn, como se tivesse adivinhado os pensamentos de Torak. — Você não pode usar fogo. — Entendeu? — Seus olhos encontraram os de Torak e fixara-se neles. Torak concordou distraidamente com a cabeça. Não usar fogo era a última de suas preocupações. Por trás de Fin-Kedinn, podia ver Hord prendendo seu protetor de braço. Ele havia tirado o gibão. Parecia enorme e assustadoramente forte. Torak decidiu não tirar o próprio gibão. Não havia necessidade de enfatizar o contraste. Soltou tudo que havia preso em seu cinturão e formou uma pilha no chão. Em seguida, enrolou um pedaço de corda de capim trançado em volta da testa para manter


o cabelo longe dos olhos. Suas mãos estavam escorregadias com o suor. Baixo-se e esfregou-as na terra. Alguém tocou em seu ombro, fazendo com que desse um pulo. Era Renn. Ela segurava uma caneca feita de casca de bétula. Ele a aceitou, agradecido, e bebeu. Para sua surpresa, era suco de sabugueiro: ácido e fortificante. Renn percebeu sua surpresa e deu de ombros. — Hord tomou uma bebida. É apenas justo. — Apontou para um balde perto do fogo. — Ali há água, para quando você precisar. Torak devolveu a caneca. — Não creio que vá durar tanto assim. Ela hesitou. — Quem sabe? Baixou um silêncio. Os espectadores formaram um círculo em volta da beira da clareira, com Torak e Hord no meio, próximos do fogo. Não havia formalidades. A luta começou. Cautelosamente, rodearam um ao outro. Apesar de seu tamanho, Hord movimentava-se com a elegância de um lince, flexionando os joelhos e reposicionando os dedos em volta da faca e da lança. O rosto estava tenso, porém um ligeiro sorriso dançava em seus lábios. Ele adorava ser o centro das atenções. Torak não. Seu coração martelava contra as costelas. Indistintamente, conseguiu ouvir os espectadores darem gritos de incentivo para Hord, mas suas vozes pareciam abafadas como se ele estivesse debaixo d‘água. A lança de Hord deu uma estocada em direção a seu peito, e ele esquivo-se bem a tempo. Sentiu o suor começar a escorrer pela testa.


Torak tentou a mesma manobra, esperando não parecer imitá-lo. — Imitá-lo não levará você muito longe — gritou Renn. O rosto de Torak ardeu. Ele e Hord agora movimentavam-se com mais rapidez. Em alguns lugares, o chão estava viscoso por causa do sangue do javali. Torak escorregou e quase caiu. Ele sabia que não tinha esperanças de vencer pela força. Teria de usar a inteligência. O problema era: só conhecia dois truques de combate, e só os havia praticado poucas vezes. Vamos lá, pensou temerariamente. Investiu a lança contra o pescoço de Hord. Como era de se esperar, o braço com pedaço de couro de Hord levanto-se para o bloqueio. Torak tentou um rápido golpe por baixo, em direção à barriga, mas Hord o aparou com alarmante facilidade, e a lança de Torak deslizou inofensiva em seu protetor de braço. Ele conhecia esse, pensou Torak. A cada movimento tornava-se óbvio que Hord era um lutador experiente. — Vamos, Hord — berrou um homem. — Tire sangue dele. — É uma questão de tempo — gritou Hord de volta, fazendo beicinho. Estourou uma gargalhada. Torak tentou seu segundo truque. Fingindo total incompetência, o que não era difícil, avançou impensadamente, tentando Hord com um vislumbre de seu peito desprotegido. Hord engoliu a isca, mas quando sua lança avançou para atingir, o protetor de braço de Torak interpôs-se para encontrá-la. A ponta da lança de Hord afun-


dou na grossa pele protetora, quase derrubando Torak, mas este conseguiu levar adiante seu plano girando violentamente para cima o protetor de braço. A haste da lança de Hord partiu-se em duas. Os espectadores suspiraram. Hord cambaleou para trás sem a lança. Torak ficou abismado. Não esperava que aquilo desse certo. Hord recuperou-se rapidamente. Arremetendo adiante, enfiou sua faca na mão de Torak que segurava a lança. Torak soltou um grito quando o sílex feriu entre o indicador e o polegar. Perdeu o ponto de apoio e deixou cair a lança. Hord investiu novamente. Torak conseguiu apenas rolar no chão para longe e, com dificuldade, voltar a se pôr de pé. Agora ambos estavam sem suas lanças. Ambos restritos às facas. A fim de ganhar algum tempo para recuperar o fôlego, Torak escapou para trás da fogueira. Seu peito estava oprimido e a mão ferida latejava. Suor escorria pelo seu corpo. Arrependeu-se amargamente de não ter copiado Hord e despido o gibão. — Depressa, Hord — berrou uma mulher. — Acabe logo com ele. — Vamos lá, Hord! — gritou um homem. — Foi isso que lhe ensinaram na Floresta Profunda? Aquela altura, porém, nem todos os gritos eram para Hord. Havia um leve incentivo para Torak, embora ele soubesse que era menos um apoio genuíno do que uma agradável surpresa por estar durando mais do que o esperado.


Ele sabia que isso não seria por muito mais tempo. Estava se cansando rapidamente, e havia esgotado seus truques. Hord assumia o controle. Lamento, Lobo, disse em silêncio ao filhote. Não acredito que a gente se livre desta. Com o canto do olho, viu Lobo de relance no alto da árvore. Debatia-se e uivava em meio a uma névoa de respiração vaporosa. O que está acontecendo?, perguntava. Por que você não vem me soltar? Torak saltou para o lado a fim de evitar um golpe cortante transversal à sua garganta. Concentre-se, disse a si mesmo severamente. Esqueça Lobo. Entretanto — algo o perturbava: algo em relação a Lobo. O que era? Olhou para Lobo uivando na árvore, sua respiração vaporizando... ―Você não pode usar fogo‖, dissera Fin-Kedinn... De repente, a mente de Torak transbordou de clareza e ele soube o que fazer. Atacando e simulando, avançou pela lateral, colocando mais uma vez a fogueira entre os dois. — Escondendo-se novamente? — zombou Hord. Torak moveu a cabeça na direção do balde de casca de bétula contendo água. Quero um gole. Está bem? Como queira. Menino. Mantendo os olhos em Hord, Torak acocorou-se e pegou água com a mão em concha para beber. Fez isso lentamente, para levar Hord a pensar que ele tramava alguma coisa com o balde, e para desviar a atenção da pele de cozinhar que borbulhava ao fogo.


Deu certo. Hord aproximou-se do fogo, assomando acima dele para intimidar Torak. — Também quer um gole? — perguntou Torak, ainda acocorado. Hord bufou com desprezo. De repente, Torak atacou — mas a pele de cozinhar. Enfiando a faca no couro duro, derrubou-o, derramando caldo fervente sobre as brasas incandescentes. Sibilantes nuvens de vapor elevaram-se para o rosto de Hord. Os espectadores arfaram. Torak aproveitou a chance e furou o punho do oponente. Cego, Hord urrou de dor e largou sua faca. Torak chutou-a para longe, e então jogou-se contra Hord, derrubando-o no chão. Enquanto Hord permanecia sem fôlego, Torak montou em seu peito e ajoelhou-se sobre seus braços para mantê-lo dominado. Pela duração de um estrondoso batimento cardíaco, sua vista cobriu-se de vermelho, e ele conheceu a ânsia de matar. Agarrou um punhado de cabelo ruivo-escuro e golpeou uma vez a cabeça de Hord contra o chão. Então sentiu mãos fortes em seus ombros, puxando-o. — Acabou — disse Fin-Kedinn atrás dele. Torak debate— se no aperto de suas mãos. Hord levantou-se de um salto e agarrou sua faca. Ofegando e olhando com raiva, os dois ficaram se encarando. — Eu já disse que acabou — vociferou FinKedinn. O caos instalou-se entre os espectadores. Não achavam, de modo algum, que tinha acabado. — Ele trapaceou! Usou fogo!


— Não, ele ganhou honestamente! — Quem disse? Eles terão de lutar novamente! Tanto Torak quanto Hord pareceram assustados diante daquilo. — O garoto venceu — afirmou Fin-Kedinn, afrouxando o aperto sobre Torak. Torak sacudiu-se e enxugou o suor do rosto enquanto observava Hord embainhar sua faca. Este estava furioso, mas se consigo mesmo ou com Torak era impossível de se dizer. Dyrati colocou a mão sobre seu braço, mas ele, irritado, a sacudiu fora, forçou caminho por entre os outros desaparecendo ao entrar em um dos abrigos. Agora que o desejo por sangue o abandonara, Torak sentiu-se fraco e doente. Embainhou sua faca e olhou em volta à procura de suas coisas. Então avistou FinKedinn observando-o. — Você infringiu a regra — disse calmamente o Corvo Líder. — Você usou fogo. — Não, não usei — rebateu Torak. Ele parecia muito mais confiante do que se sentia. — Não usei fogo. Usei vapor. — Eu teria preferido — afirmou Fin-Kedinn — que você tivesse usado água em vez de caldo. Foi um desperdício de boa comida. Torak não retrucou. Fin-Kedinn examinou-o e, por um momento, houve um vislumbre de humor em seus olhos azuis. Oslak enfiou-se no meio deles, trazendo nos braços o saco contendo Lobo. — Eis o seu filhote! — estrondeou, jogando o saco para Torak com tanta força que o fez cambalear.


Lobo contorceu-se e lambeu o queixo de Torak e lhe disse o quanto tinha sido terrível, tudo ao mesmo tempo. Torak quis dizer algo reconfortante, mas se deteve. Seria burrice dar um tropeço agora. — A lei é a lei — declarou incisivamente FinKedinn. — Você venceu. Está livre para ir embora. — Não! — A voz de uma jovem ressoou, e todas as cabeças se viraram. Era Renn. — Não pode deixar que ele vá embora! — berrou, correndo adiante. — Ele acabou de deixar — retorquiu Torak. — Você o ouviu. Estou livre. Renn falou com seu tio. — Não podemos deixar que ele vá embora. É muito importante. Ele pode ser... — puxou Fin-Kedinn para um lado e cochichou insistentemente. Torak não conseguia ouvir o que ela dizia, mas, para seu desânimo, outros se juntaram para escutar. A maga fez uma carranca e assentiu. Até mesmo Hord emergiu do abrigo e, ao ouvir o que eles estavam dizendo, lançou um olhar estranho, cauteloso, para Torak. Fin-Kedinn olhou atentamente para Renn. — Você tem certeza? — Não sei — disse ela. — Talvez ele seja. Talvez não. Precisamos de tempo para descobrir. Fin-Kedinn cofiou a barba. — O que a levou a desconfiar...? O modo como ele derrotou Hord. E encontrei isto entre suas coisas. — Mostrou o que tinha na palma da mão, e Torak viu seu pequeno apito de osso de tetraz. — Você usa isto para quê? — perguntou-lhe Renn. — Para chamar o filhote — respondeu.


Ela o soprou e Lobo contorceu-se nos braços dele. Um tremor de inquietação percorreu a multidão. Renn e Fin-Kedinn trocaram olhares. — Não fez nenhum ruído — disse ela acusadoramente. Torak não reagiu. Percebeu num tranco que os olhos dela não eram azul-claros como os do irmão, mas negros: negros como um torrão de turfa. Perguntou-se se ela também não seria uma maga. Ela dirigiu-se a Fin-Kedinn: — Não podemos deixá-lo ir até termos certeza. Ela tem razão — concordou a maga. — Você sabe tão bem quanto eu o que isso quer dizer. Todo mundo sabe. Quer dizer o quê? — quis saber Torak. — FinKedinn, nós fizemos um pacto! Concordamos que, se eu vencesse a luta, eu e Lobo ficaríamos livres! — Não — contestou Fin-Kedinn —, concordamos que você viveria. E você viverá. Pelo menos por enquanto. Oslak, amarre-o novamente. — Não! — gritou Torak. Renn olhou-o de cima para baixo. — Você disse que seu pai foi morto por um urso. Nós sabemos a respeito desse urso. Alguns de nós até mesmo já o viram. Ao lado dela, Hord estremeceu e começou a roer a unha do polegar. — Ele veio cerca de uma lua atrás — prosseguiu Renn calmamente. — — Como uma sombra, escureceu a floresta, matando intencionalmente; até mesmo matando outros caçadores. Lobos. Um lince. Era como se... como se procurasse alguma coisa. — Fez uma pausa. — Então,


treze dias atrás, ele desapareceu. Um mensageiro do Clã do Javali viu seu rastro seguindo para o sul. Pensamos que tinha ido embora. Demos graças ao guardião do nosso clã. — Estancou. — Agora, está de volta. Ontem, nossos batedores retornaram do oeste. — Encontraram muitas mortes, seguindo até o mar. O Clã da Baleia contou-lhes que, três dias atrás, pegou uma criança. Torak umedeceu os lábios. — O que isso tem a ver comigo? — Há uma profecia em nosso clã — explicou Renn, como se ele não tivesse falado. ―Uma sombra ataca a Floresta. Ninguém consegue se opor a ela.‖ — Interrompeu-se, franzindo as sobrancelhas. A maga prosseguiu de onde ela parou. — ―Então vem o Ouvinte. Ele luta com o ar fala com o silêncio.‖ — O olhar dela recaiu sobre o apito na mão de Renn. Todos ficaram em silêncio, olhando Torak. — Eu não sou o Ouvinte de vocês — disse ele. — Achamos que talvez seja — rebateu a maga. Torak meditou sobre a profecia. O Ouvinte luta com o ar... Ele fizera exatamente isso; usara vapor. — O que acontece com ele? — perguntou à meiavoz. — O que acontece com o Ouvinte na profecia? — Mas ele teve a terrível sensação de que já sabia. O silêncio na clareira tornou-se mais intenso. Torak olhou dos rostos amedrontados em volta dele para a faca de sílex no cinturão de Oslak. Olhou para a reluzente carcaça do javali pendendo da árvore, para seu sangue escuro gotejando no balde abaixo. Sentiu os olhos de Fin-


Kedinn cravados nele, e virou-se para encarar o ardente olhar azul. — ―O Ouvinte‖ — citou Fin-Kedinn — ―dá o sangue de seu coração para a Montanha. E a Sombra é esmagada.‖ O sangue de seu coração. Debaixo da árvore, o sangue goteja suavemente no balde. Ploc, Ploc, Ploc.


DEZ — O que vão fazer comigo? — perguntou Torak quando Oslak amarrou seus pulsos para trás e depois à estaca de sustentação do telhado. — O que vão fazer? — Você saberá muito em breve — disse Oslak. — Fin-Kedinn quer isso resolvido até o amanhecer. O amanhecer, pensou Torak. Por cima do ombro, observou Oslak amarrar um relutante Lobo à mesma estaca com uma curta correia de couro cru. Os dentes de Torak começaram a trincar. Quem decide o que acontece comigo? Por que não posso estar presente para me defender? Quem são todas essas pessoas ao longo da fogueira? — Ai! — exclamou Oslak, chupando um dedo mordido. — Fin-Kedinn enviou mensageiros para convocar uma reunião de clã sobre o urso. E agora eles também estão decidindo sobre você. Torak observou as pessoas acocoradas perto da fogueira comprida: vinte ou trinta homens e mulheres, os rostos iluminados perfeitamente pelas chamas. Ele não daria muito pelas suas chances. Ao amanhecer. De algum modo, antes do amanhecer, ele teria de dar o fora dali. Mas como? Estava sentado dentro de um abrigo, amarrado a uma estaca, sem armas ou mochila, — e, ainda que se soltasse, o acampamento estava fortemente vigiado. Agora que a escuridão baixara, um círculo de fogueiras brotara em volta do acampamento, e homens com lanças e cornetas de casca de bétula mantinham vigília. FinKedinn não queria arriscar com o urso.


Oslak arrancou as botas de Torak e amarrou juntos seus tornozelos, depois foi embora levando as botas consigo. Torak não conseguia ouvir o que as pessoas diziam na reunião de clã, mas pelo menos podia vê-las, graças à estranha construção do abrigo Corvo. Seu telhado de couro de rena inclinava-se acentuadamente atrás dele, mas na frente não havia parede alguma: apenas um trançado de vigas, que parecia desviar a fumaça da pequena fogueira que crepitava bem à frente, mas prendia o calor lá dentro. Esticando-se para deduzir o que estava acontecendo, Torak viu as pessoas se levantarem uma por uma para falar. Um homem de ombros largos segurando um enorme machado de arremesso. Uma mulher de longo cabelo castanho, um cacho na têmpora coberto com ocre vermelho. Uma moça de olhar feroz cujo crânio estava estranhamente lambuzado com argila amarela, que lhe dava a áspera aparência da casca de carvalho. Não conseguia ver Fin-Kedinn, mas, um pouco distante dos outros, a maga estava acocorada no chão observando um grande corvo brilhoso. A ave pavoneava-se impávida para lá e para cá, emitindo o ocasional estridente ―crác‖. Torak ficou imaginando se ele seria o guardião do clã. O que ele estava dizendo a ela? Como sacrificá-lo? Ou estripá-lo como salmão, ou enfiá-lo num espeto para assar como uma lebre? Ele nunca ouvira falar de clãs que sacrificavam pessoas, exceto no distante passado, nos tempos ruins depois da Grande Onda. Mas, por outro lado, ele também nunca tinha ouvido falar do Clã do Corvo. — Fin-Kedinn quer a decisão até o amanhecer... O Ouvinte dá o sangue de seu coração à Montanha...


Pa soubera da profecia? Não deve ter sabido. Ele não mandaria seu próprio filho para a morte. Mesmo assim — ele fez Torak jurar que encontraria a montanha. Ele dissera, — Não vá me odiar depois. Depois. Quando você descobrir. A língua áspera do filhote em seu pulso trouxe-o de volta ao presente Lobo gostava do sabor do couro cru. Torak sentiu uma pontada de esperança. Se Lobo pudesse morder em vez de lamber... Enquanto Torak imaginava como colocar isso em fala de lobo, um homem ergue-se de perto da fogueira comprida e atravessou a clareira em direção a ele. Era Hord. Loucamente, Torak rosnou para que Lobo parasse. Ele estava faminto demais para perceber, e continuou lambendo. Hord, porém, não estava interessado em Lobo. Parou perto da pequena fogueira diante da entrada, roendo a unha do polegar, e encarou Torak. — Você não é o Ouvinte — resmungou —, não pode ser. — Diga isso para os outros — retrucou Torak. — Não precisamos de um menino para nos ajudar a matar o urso. Podemos fazer isso sozinhos. Eu posso fazer isso. Eu salvarei os clãs. — Você não teria a menor chance — observou Torak. Ele sentiu Lobo começar a mordiscar o couro cru com seus afiados dentes frontais, e manteve-se imóvel para não dissuadi-lo. Rezou para que Hord não olhasse atrás dele e visse o que Lobo estava fazendo.


Hord, porém, parecia agitado demais para notar. Andou de um lado para outro, e então voltou-se para Torak. — Você o viu, não viu? Você viu o urso. Torak ficou surpreso. — Claro que vi. Ele matou meu pai. Hord lançou um olhar furtivo sobre seu ombro. — Eu também o vi. — Onde? Quando? Hord retrai-se, como se se desviasse de um soco. — Eu estava no sul. Com o Clã do VeadoVermelho. Aprendia magia. Saeunn — gesticulou com a cabeça para a mulher que falava com o corvo —, nossa maga, quis que eu fosse. — Novamente, mordeu a unha do polegar, que tinha começado a sangrar. — Eu estava lá quando o urso foi apanhado. Eu... Eu vi ser feito. Torak olhou-o fixamente. — Feito? O que quer dizer? Mas Hord tinha ido embora. A metade da noite passou, a lua moribunda erguese e a reunião de clã ainda prosseguia. Lobo ainda lambia e mordiscava o couro cru. Mas Oslak amarrara os nós com firmeza, e Lobo não parecia conseguir envolvê-los com as mandíbulas. Não pare, pediu Torak em silêncio. Por favor, não pare. Ele estava com medo demais para sentir fome, mas se sentia machucado e enrijecido, por causa da luta com Hord, e seus ombros doíam por estar amarrado há tanto tempo naquela posição. Mesmo se Lobo conseguisse roer as amarras, ele não estava certo se teria força para fugir, ou passar despercebido pelos guardas. Continuou pensando no que Hord dissera. ―Eu vi ser feito...‖


Havia algo mais, também. Hord estivera com o Clã do Veado-Vermelho, e a mãe de Torak era uma veadovermelho. Ele não a conheceu, ela morreu quando ele era pequeno; mas, se os corvos eram amigos do clã dela, então talvez ele conseguisse convencê-los à deixá-lo ir embora... Lá fora, botas se arrastaram na terra. Depressa. Eles não podiam Pegar Lobo agindo nos seus pulsos. Torak teve tempo apenas de um rápido ―Uff!‖ de alerta — ao qual, felizmente, Lobo obedeceu — antes de Renn aparecer na entrada, mastigando uma coxa de lebre assada. Seus olhos aguçados captaram Lobo sentado inocentemente atrás dele, depois se fixaram em Torak — que a encarou de volta, desejando que ela não chegasse mais perto. Ele moveu a cabeça em direção à reunião de clã e perguntou se havia alguém presente do Clã do Lobo. Ela sacudiu a cabeça. — Não restam muitos do Clã do Lobo atualmente. Portanto, você não será resgatado, se é o que está pensando. Torak não respondeu. Apenas forçou a corda em volta de seus punhos, e sentiu que ela cedeu um pouco. Estava começando a esticar como faz o couro cru quando umedecido. Se ao menos Renn tosse embora. Ela permaneceu exatamente onde estava. — Ninguém do Clã do Lobo — disse ela, a boca cheia —, mas mui tos dos outros. A Cabeça de Argila Amarela bem ali é do Clã do Auroque. Eles são gente da Floresta Profunda; rezam muito. É assim que eles acham que devemos lidar com o urso, orando para o Espírito do


Mundo. O homem com o machado é do Clã do Javali. Ele quer construir uma parede de fogo para forçar o urso em direção ao mar. A mulher com o sangue da terra no cabelo é Veado-Vermelho. Não se tem certeza do que ela pensa. Sobre eles é difícil de se dizer. Torak perguntou-se por que ela falava tanto. O que ela queria? Fosse o que fosse, ele decidiu ir em frente com aquilo, para manter a atenção dela longe de Lobo. Ele disse: — Minha mãe era Veado-Vermelho. Talvez aquela mulher ali seja minha parente de osso. Talvez... — Ela diz que não. Ela não vai ajudá-lo. Ele pensou por um momento. — Seu clã é amigo do Veado-Vermelho, não é mesmo? Seu irmão disse que aprendeu magia com eles. — E daí? — Ele... Ele me disse que viu o urso ser ―feito‖. O que quis dizer? Ela lhe lançou um olhar duro, desconfiado. — Eu preciso saber — disse Torak. — — Ele matou meu pai. Renn examinou a coxa de lebre. — Hord foi adotado por eles. Você sabe o que é adoção, não? — Sua voz continha uma pitada de desdém. — É quando você fica com outro clã por uns tempos; para fazer amigos e talvez encontrar uma companheira. — Já ouvi falar — disse Torak. Atrás dele, sentiu Lobo farejar novamente seus pulsos. Tentou afastá-lo com os dedos, mas não funcionou. Agora não, pensou. Por favor, agora não. — Ficou com eles nove luas — prosseguiu Renn, dando outra mordida. — São os melhores em magia na


floresta. Foi por isso que ele foi. — Sua boca torce-se desanimadamente. — Hord gosta de ser o melhor. — Então, ela franziu a testa. — O que esse filhote está fazendo? — Nada — respondeu Torak depressa demais. Para Lobo, falou numa voz afetada: — Vá embora. Vá embora. Lobo, é claro, ignorou-o. Torak voltou-se novamente para Renn. — Que aconteceu depois? Outro olhar. — Por que pergunta? — Por que você está falando comigo? Seu rosto fecho-se. Ela era boa em manter as coisas preservadas, como Fin-Kedinn. Cuidadosamente, ela retirou um fragmento de lebre de entre os dentes. — Não fazia muito tempo que Hord estava com o Veado-Vermelho — contou ela —, quando um estranho chegou ao acampamento deles. Um errante do Clã do Salgueiro, aleijado por um acidente de caça. Ou assim disse ele. O Veado-Vermelho o acolheu. Mas ele — hesitou, e subitamente pareceu mais jovem e muito menos confiante —, ele os traiu. Não se tratava apenas de um errante, ele sabia magia. Montou um lugar secreto no mato e conjurou um demônio. Preso no corpo de um urso. — Fez uma pausa. — Hord descobriu. Mas já era tarde demais. Além do abrigo, as sombras pareceram ficar mais carregadas. Na floresta, uma raposa regougou. — Por que? — perguntou Torak. — Por que ele fez isso, esse... errante? Renn sacudiu a cabeça. — Quem sabe? Talvez para ter uma criatura sob suas ordens? Mas deu errado. — A


luz da fogueira cintilou em seus olhos escuros. — Assim que o demônio entrou no urso, ele se tornou forte demais. Libertou-se. Matou três pessoas antes que o Veado— Vermelho conseguisse afugentá-lo. Por essa ocasião, o aleijado errante havia desaparecido. Torak ficou em silêncio. Os únicos sons eram as árvores sussurrando na brisa da noite, e o raspar da língua de Lobo enquanto ele lambia o couro cru. Acidentalmente, Lobo atingiu a pele de Torak com seus dentes. Sem pensar, Torak virou-se e lançou-lhe um severo grunhido de alerta. Instantaneamente, Lobo deu um salto para trás e desculpou-se com um sorriso amarelo. Renn arfou. — Você consegue falar com ele! — Não! — bradou Torak. — Não, você está enganada. — Eu vil — Seu rosto ficou mais pálido do que nunca. — Então é verdade. A profecia é verdadeira. Você é o Ouvinte. — Não! — O que andou dizendo para ele? O que estava tramando? — Já lhe disse que não consigo... — Não lhe darei essa chance — sussurrou ela. — Eu não deixarei que trame contra nós. E nem Fin-Kedinn. — Sacando a faca, ela cortou a correia de Lobo, aninhouo em seus braços e atravessou correndo a clareira na direção da reunião de clã. — Volte! — berrou Torak. Furiosamente, deu um puxão nas amarras, mas elas resistiram. Lobo não tivera tempo de mastigar tudo.


O terror abateu-se sobre ele. Colocara todas as suas esperanças em Lobo, e agora Lobo tinha ido embora. O amanhecer não estava distante. Os pássaros já começavam a se agitar nas árvores. Novamente forçou as amarras em volta dos pulsos. Novamente elas resistiram. Adiante, na clareira, Fin-Kedinn e a velha mulher chamada Saeunn levantaram-se e começaram a caminhar em direção a ele.


ONZE — Quanto você sabe? — indagou Fin-Kedinn. — Nada — respondeu Torak, olhando a faca de osso entalhado no cinturão do Corvo Líder. — Vocês vão me sacrificar? Fin-Kedinn não respondeu. Ele e Saeunn acocoraram-se um de cada lado da entrada, para observá-lo. Ele se sentia como uma presa. Arrastou as mãos atrás das costas, à procura de algo — qualquer coisa — que pudesse usar para cortar o couro cru. Seus dedos acharam apenas um galho de salgueiro usado para esteira: macio e inútil. — Quanto você sabe? — repetiu Fin-Kedinn. Torak inspirou fundo. — Não sou o Ouvinte de vocês — disse o mais firme que conseguiu. — Não posso ser. Eu nunca tinha ouvido falar na profecia. — Mesmo assim, perguntou-se, por que Renn parecera tão certa? O que falar a língua de lobo tinha a ver com isso? Fin-Kedinn virou-se de costas. O rosto era ilegível como sempre, mas Torak viu sua mão apertar a faca. Saeunn inclinou-se para a frente e esquadrinhou os olhos de Torak. À luz da fogueira, ele a viu bem de perto. Jamais conhecera alguém tão velho. Através do ralo cabelo branco, seu couro cabeludo cintilava como osso polido. Seu rosto era pontudo como o de um pássaro. A idade ressecara todos os sentimentos amáveis para deixar apenas a feroz essência de corvo. — De acordo com Renn — disse ela asperamente —, você consegue falar com o lobo. Isso é parte da profecia. A parte sobre a qual não tínhamos falado para você.


Torak encarou-a. — Renn está enganada — disse ele. — Não consigo... — Não minta para nós — exclamou Fin-Kedinn sem virar a cabeça. Torak estancou. Novamente, ele tateou atrás de si. Dessa vez — sim! Uma pequena lasca de sílex, não maior do que a unha de seu polegar: provavelmente deixada cair por alguém que amolara uma faca. Seus dedos fecharam-se sobre ela. Se ao menos Fin-Kedinn e Saeunn voltassem para a reunião de clã, ele poderia se soltar. Depois, descobriria aonde Renn levara Lobo, passaria furtivamente pelos guardas e... Seu ânimo abateu-se. Precisava de muita sorte para conseguir tudo isso. — Devo lhe dizer — perguntou Saeunn — por que você consegue falar com o lobo? — Saeunn, de que adianta? — disse Fin-Kedinn. — Estamos perdendo tempo... — Ele deve ser informado — insistiu a velha. E ficou em silêncio. Então, com um dedo amarelo semelhante a uma garra, tocou o amuleto em seu peito e começou a traçar a espiral. Torak observou sua garra girar e girar. Começou a se sentir tonto. — Muitos verões atrás — disse a Maga Corvo —, seu pai e sua mãe deixaram o clã. Foram se esconder de seus inimigos. Para longe, muito longe, na Floresta Profunda, entre as almas verdes das árvores falantes. — Sua garra continuava traçando a espiral: arrastando Torak para o passado. — Três luas após você nascer — prosseguiu Saeunn —, sua mãe morreu.


Fin-Kedinn levantou-se, cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando a escuridão. Torak pestanejou, como se tivesse saído de um sonho. Saeunn nem mesmo olhou de relance para FinKedinn. Sua atenção estava toda em Torak. — Você era apenas um bebê — disse ela. — Seu pai não poderia alimentá-lo. Normalmente, quando isso acontece, o pai sufoca o filho, para poupá-lo de uma morte lenta por inanição. Seu pai, porém, encontrou outra solução. Uma loba com uma ninhada. Ele colocou você na toca dela. Torak pelejou para aceitar isso. — Três luas você ficou com ela em sua toca. Três luas para aprender a fala de lobo. Torak apertou com tanta força a lasca de sílex que ela penetrou em sua palma. Podia sentir que Saeunn falava a verdade. Era por isso que ele conseguia falar com Lobo. Foi por isso que teve aquela visão quando encontrou a toca. Os filhotes se contorcendo, o saboroso leite gorduroso... Como era possível Saeunn saber disso? — Não — contestou. — Isso é uma armadilha. Você não pode saber disso. Você não estava lá. — Seu pai me contou — disse Saeunn. — Ele não pode ter feito isso. Nunca nos aproximávamos de gente... — Ah, mas fizeram isso uma vez. Há cinco verões. Não se lembra? O encontro de clã à beira do mar. A pulsação de Torak começou a bater fortemente. — Seu pai foi até lá para me procurar. Para me falar sobre você. — Sua garra descansou no coração da espiral.


— Você não é como os outros — afirmou com seu grasnido de corvo. — Você e o Ouvinte. Novamente o aperto de Torak se intensificou na lasca. — N-Não pode ser. Eu não entendo. — Claro que ele não entende — falou Fin-Kedinn sobre o ombro. — Virou-se para Torak. — O seu pai não lhe contou nada sobre quem você é. É isso, não é? Torak fez que sim. O Corvo Líder ficou em silêncio por um momento. Seu rosto estava imóvel, mas Torak sentia uma furiosa batalha sob sua máscara fisionômica. — Tem uma única coisa que você precisa saber — disse Fin-Kedinn. — É a seguinte. Não foi por acaso que o urso atacou seu pai. Foi por causa dele que a fera foi criada. O coração de Torak falhou uma batida. — Por causa do meu pai? — Fin-Kedinn... — alertou Saeunn. O Corvo Líder disparou-lhe um olhar aguçado. — Você disse que ele deveria saber. E vou contar a ele. — Mas — interrompeu Torak — foi o aleijado errante quem... — O aleijado errante — cortou Fin-Kedinn — era um inimigo declarado de seu pai. Torak encolheu-se contra a estaca. — Meu pai não tinha inimigos. Os olhos do Corvo Líder cintilaram perigosamente. — Seu pai não era apenas um caçador do Clã do Lobo. Ele era o mago do Clã do Lobo. Torak esquece-se de respirar.


— Ele também não lhe contou isso, não? — disse Fin-Kedinn. — Ah, sim, ele era o Mago Lobo. E é por causa dele que essa... criatura... age violentamente pela floresta. — Não — murmurou Torak. — Não é verdade. — Ele o manteve ignorante de tudo, não é mesmo? — Fin-Kedinn — alegou Saeunn —, ele estava tentando proteger... — Sim, e veja o resultado! — Fin-Kedinn rodeoua. — Um garoto crescido que nada sabe! Se me pedir para acreditar que ele é o único capaz de... — Deteve-se, sacudindo a cabeça. Seguiu-se um silêncio tenso. Fin-Kedinn inspirou fundo. — O homem que criou a fera — falou baixinho para Torak — fez isso por um único motivo. Ele criou o urso para matar o seu pai. O céu iluminava-se a leste quando Torak finalmente cortou a corda em volta de seus pulsos com a lasca de sílex. Não havia tempo a perder. Fin-Kedinn acabara de voltar à reunião de clã com Saeunn, onde estavam envolvidos em uma calorosa discussão com os demais. A qualquer momento poderiam chegar a uma conclusão e ir buscá-lo. Foi um esforço e tanto cortar as amarras em seus tornozelos. A cabeça dele girava. ―Seu pai colocou você na toca de uma loba... Ele era o Mago Lobo... Ele foi assassinado...‖ A lasca de sílex estava escorregadia com o suor. Deixou-a cair. Tateou novamente atrás dela. Finalmente, as amarras foram cortadas. Dobrou os tornozelos — e quase gritou de dor. Suas pernas ardiam por ter estado tanto tempo dormentes.


Pior do que isso era a dor em seu coração. Pa fora assassinado. Assassinado pelo aleijado errante, que criara o demônio urso com o único objetivo de caçá-lo... Não era possível. Tinha de haver algum engano. E no entanto, bem no fundo, Torak sabia que era verdade. Lembrava-se do ar sombrio no rosto de Pa enquanto jazia moribundo. Ele virá me buscar em breve, dissera. Ele sabia o que seu inimigo tinha feito. Sabia por que o urso fora criado. Era demais para assimilar. Torak sentia como se tudo o que ele conhecia tivesse sido varrido embora: como se estivesse de pé sobre o gelo antigo observando as rachaduras se espalharem como relâmpagos sob seus pés. A dor nas pernas puxou-o violentamente de volta para o presente. Tentou esfregá-las para ver se as sentia. Os pés nus estavam frios, mas nada havia que ele pudesse fazer. Não fora capaz de ver aonde Oslak levara suas botas. De algum modo, sem ser visto, ele teria de sair do abrigo e atravessar as moitas de aveleiras que margeavam a clareira. De algum modo, ele teria de esquiva-se dos guardas. Não conseguiria fazer isso. Seria visto. Se ao menos descobrisse um meio de distraí-los... Na extremidade mais afastada do acampamento, um uivo solitário elevou-se no nevoento ar da manhã. Onde você está?, Berrou Lobo. Por que me deixou desta vez? Torak congelou. Ouviu os cachorros do acampamento reconhecerem o uivo. Viu gente sair da reunião de clã e correr para investigar. Ele sabia que Lobo lhe fornecera a sua chance.


Precisava agir depressa. Rapidamente, contornou o lado de fora do abrigo e mergulhou nas sombras atrås das aveleiras. Ele sabia o que precisava fazer — e odiava isso. Precisava deixar Lobo para trås.


DOZE O ar gelado queimava a garganta de Torak enquanto corria através de uma moita de salgueiros em direção ao rio. Pedras arrancavam sangue de seus pés nus. Ele mal percebia. Graças a Lobo, ele saíra do acampamento sem ser notado, mas não por muito tempo. Atrás dele vinha um profundo e ecoante estrondo. Cornetas de casca de bétula soavam o alarme. Ouviu homens gritando, cachorros latindo. Os Corvos estavam vindo atrás dele. Arbustos espinhosos arranharam suas perneiras enquanto ele escorregava ribanceira abaixo e se esparramava num leito de juncos altos. Com a lama gelada até o joelho, apertou a mão sobre a boca para evitar que sua respiração vaporosa o denunciasse. Felizmente, estava a favor do vento em relação a seus perseguidores, mas o suor brotava de seu corpo, e ele ainda segurava a corda de couro cru que tirara dos tornozelos; os cachorros captariam facilmente seu cheiro. Não sabia se a jogava fora ou se a guardava para o caso de precisar dela. A confusão girava em sua cabeça como um rio enfurecido. Estava sem botas, sem mochila, sem armas — e nada tinha com que pudesse fazer mais desses objetos, além do conhecimento em sua cabeça e da habilidade em suas mãos. Se conseguisse escapar, o que faria? De repente, acima do som das cornetas, ele ouviu um uivo. Onde esta você? Diante disso, as dúvidas de Torak terminaram. Não podia deixar Lobo. Tinha de resgatá-lo.


Desejou que houvesse algum modo de uivar em resposta — Estou indo. Não tenha medo, eu não abandonei você — mas, é claro, não havia. Os uivos continuaram. Seus pés estavam congelando. Precisava sair do rio ou ficariam dormentes demais para poder correr. Pensou rápido. Os Corvos deviam esperar que ele seguisse para o norte, pois foi aonde disse que estava indo quando o capturaram; portanto, decidiu fazer exatamente isso — pelo menos por um tempo — e depois correr de volta para o acampamento e encontrar um meio de chegar a Lobo, esperando ter enganado os Corvos, que continuariam indo para o norte. Mais adiante, rio abaixo, um graveto estalou. Torak girou o corpo. Um leve chapinhar. Uma imprecação murmurada. Ele esquadrinhou por entre os juncos. Cerca de cinqüenta passos rio abaixo, dois homens caminhavam furtivamente pela margem em direção ao leito de juncos. Movimentavam-se cautelosamente, na tentativa de caçá-lo. Um deles carregava um arco que era mais alto do que Torak, com uma flecha já engatada na corda; o outro segurava um machado de arremesso feito de basalto. Fora um erro esconder-se no leito de juncos. Se permanecesse onde estava, eles o encontrariam; se tentasse nadar no rio, seria visto e cravado com uma lança como um lúcio. Tinha de voltar para a proteção da floresta. O mais silenciosamente possível, começou a escalar a ribanceira. Esta era cheia de salgueiros que davam uma boa cobertura, mas muito íngreme. Terra vermelha


esmigalhava-se abaixo dele. Se caísse de volta no rio, eles ouviriam o espirro... Seixos escorregaram para dentro da água enquanto ele enfiava as unhas na terra. Felizmente o estrondo das cornetas de casca de bétula encobriam o ruído, e os homens não ouviam. O peito arfando, conseguiu chegar ao topo. Agora, seguir para o norte. O céu estava nublado, portanto não podia orienta-se pelo sol, mas, como o rio seguia para oeste, ele sabia que, se o mantivesse diretamente atrás de si, estaria mais ou menos seguindo para o norte. Penetrou num denso bosque de choupostremedores e bétulas, tomando o cuidado de arrastar o couro cru atrás de si para deixar um cheiro bem forte. Um furioso latido irrompeu atrás dele, horripilantemente próximo. Arrastara a corda cedo demais. Os cães já haviam captado seu cheiro. Em pânico, trepou na árvore mais próxima — um delgado choupo-tremedor — e já tinha acabado de fazer uma bola com a corda, jogando-a o mais distante possível em direção ao rio, quando um enorme cachorro ruivo irrompeu através dos arbustos espinhosos. Ele parou debaixo da árvore em que estava Torak e olhou em volta filetes de saliva pendendo de suas mandíbulas. Em seguida, captou o cheiro do couro cru e saiu correndo em perseguição. — Ali! — veio o grito rio abaixo. — Um dos cães encontrou o rastro! Três homens passaram correndo abaixo do choupo-tremedor de Torak, ofegantes, enquanto tentavam alcançar o cachorro. Torak agarrou-se ao tronco da árvore. Se um deles olhasse para cima...


Seguiram em frente e desapareceram. Momentos depois, Torak ouviu leves chapinhados. Deviam estar procurando nos juncos. Esperou, para o caso de aparecerem mais perseguidores, e então saltou da árvore. Correu para o norte por entre os choupostremedores, colocando alguma distância entre ele e o rio, e então freou e parou. Estava na hora de virar para leste e seguir de volta em direção ao acampamento — desde que conseguisse algum meio de tirar os cães de seu rastro. Desesperadamente, olhou em volta à procura de algo para disfarçar seu cheiro. Excrementos de veado? Não era bom: os cães ainda continuariam atrás dele. Folhas de milefólio? Talvez. O cheiro forte de noz seria potente o bastante para mascarar o seu suor. Ao pé de uma faia, encontrou uma pilha de excrementos de carcaju: torcidos, peludos e tão fedorentos que fizeram seus olhos lacrimejarem. Muito melhor. Prendendo a respiração por causa do mau cheiro, lambuzou os pés, canelas e mãos. Carcajus têm mais ou menos o tamanho dos texugos, mas brigam com qualquer coisa que se mexa, e geralmente vencem. Os cães provavelmente não arriscariam um contato. O estrondear das cornetas cessou de repente. O silêncio soou em seus ouvidos. Com uma pontada de terror, ele se deu conta de que os uivos de Lobo também haviam cessado. Ele estaria bem? Certamente — certamente os Corvos não ousariam lhe fazer mal? Torak pelejou no caminho por entre a vegetação rasteira em direção ao acampamento. O solo elevava-se e o rio corria velozmente entre tombadas pedras escorregadias cobertas de musgo.


Adiante, fumaça espiralava no cinzento céu nublado. Ele devia estar perto. Acocoro-se, esforçando-se para ouvir ruídos de perseguição acima da água corrente. A cada respiração ele esperava ouvir o tuiiim da corda de um arco; sentir uma flecha penetrar entre a omoplata. Nada. Talvez tivessem caído no seu truque, e seguiam seu rastro para o norte. Em meio às árvores, algo enorme e imponente erguia-se e surgia à vista. Torak parou bruscamente. Adivinhou o que era, e torceu para estar enganado. Como um imenso sapo, a elevação artificial de terra estava agachada acima dele. Era uma cabeça mais alta do que ele, e densamente coberta de musgo e arbustos de mirtilo. Atrás havia duas elevações menores, e em volta delas assomava uma densa moita de pés de teixos e de azevinhos sufocados de hera. Torak manteve-se recuado, imaginando o que fazer. Certa vez, ele e Pa haviam topado com elevações de terra como aquelas. Aquele devia ser o terreno dos ossos do Clã do Corvo: o local onde depositavam os ossos de seus mortos. Seu caminho para o acampamento — para Lobo — passava pelo terreno dos ossos. Mas teria coragem? Ele não era do Clã do Corvo. Não podia se aventurar no terreno dos ossos de outro clã sem enfurecer seus ancestrais... A névoa flutuava nos espaços vazios entre as elevações de terra, onde os pálidos e fantasmagóricos esqueletos de cicuta se empinavam acima de sua cabeça, e os roxos talos de moribundas espirradeiras libertavam sinistramente suas folhas. Por toda a volta estavam às escuras árvores ouvintes: árvores que permaneciam verdes todo o


inverno que nunca dormiam. Nos galhos dos teixos mais altos estavam empoleirados três corvos, observando-o. Perguntou-se qual deles seria o guardião do clã. Um latido de cães atrás dele. Foi apanhado em uma armadilha. O esperto FinKedinn jogou sua rede na amplidão, e então apertou-a em volta da presa. Torak não tinha aonde ir. O rio corria depressa demais para se nadar e, se ele trepasse numa árvore, os corvos revelariam aos caçadores onde ele estava, e cairia de lá como um esquilo abatido. Se se enfiasse no meio das moitas, os cães o arrastariam para fora como a uma doninha. Virou-se para enfrentar seus perseguidores. Não tinha nada com que se defender; nem mesmo uma pedra. Andou para trás — diretamente para a elevação maior. Sufocou um grito. Fora apanhado entre os vivos e os mortos. Algo o agarrou por trás e o arrastou para a escuridão.


TREZE — Não se mexa — sussurrou uma voz no ouvido de Torak —, não faça nenhum ruído, e não toque nos ossos! Torak nem mesmo conseguia ver os ossos; não conseguia ver nada. Estava acotovelado na escuridão, fedendo a podre, com uma faca pressionada em sua garganta. Trincou os dentes para fazer com que parassem de bater. A sua volta, sentia o frio peso de terra, e dos amontoados e fragmentados ossos dos Corvos Mortos. Rezou para que todas as almas estivessem bem longe, na Jornada da Morte. Mas e se algumas tivessem sido deixadas para trás? Tinha que sair dali. Durante o choque inicial de ser apanhado, ouvira uma pedra sendo arrastada, como se seu captor estivesse vedando a elevação de terra. Agora, com seus olhos adaptados à escuridão, distinguiu uma tênue aresta de luz. O que quer que tenha sido arrastado através da entrada não pareceu fazer um ajuste perfeito. Estava pensando em tentar fugir, quando ouviu vozes lá fora. Fracas, mas se aproximando. Torak ficou tenso. Seu captor também. O esmagar e o farfalhar aproximaram-se e então pararam cerca de três passos distantes. — Ele jamais ousaria vir aqui — disse a voz baixa de um homem assustado. — Pode ter vindo — sussurrou uma mulher. — Ele é diferente. Você viu o modo como ele venceu Hord. Quem sabe o que ele é capaz de fazer?


Torak ouviu o som de esmagamento de musgo. Seu pé se contraiu — e, na escuridão, algo tiniu. Ele estremeceu. — Shi! — fez a mulher. — Ouvi uma coisa! Torak prendeu a respiração. A faca pressionou mais forte. ―Crack!‖, ecoou o grasnido de um corvo entre as árvores. — O guardião não nos quer aqui — murmurou a mulher. — Devemos ir embora. Você tem razão. O garoto não ousaria. Tonto de alívio, Torak ouviu-os se afastar. Após um momento, tentou mudar de posição, mas a ponta da faca o impediu. — Fique quieto! — ciciou seu captor. Ele reconheceu aquela voz. Era Renn. Renn? — Você está fedendo — cochichou ela. Ele tentou virar a cabeça, mas novamente a faca o deteve. — É para manter os cães distantes de mim — explicou cochichando de volta. — Eles nunca viriam mesmo aqui, não têm permissão. Torak pensou por um momento. — Como você sabia que eu viria por aqui? E por quê...? — Eu não sabia. Agora fique calado. Eles podem voltar. Após uma fria e apertada espera que pareceu durar uma eternidade, Renn deu-lhe um chute e disse-lhe que podia se mexer. Ele pensou em tentar dominá-la, mas decidiu não fazê-lo. Se houvesse uma luta perturbariam os ossos. Em vez disso, ele empurrou para o lado a placa de


ardósia que bloqueava a entrada e rastejou para a luz do dia. O terreno estava deserto. Até mesmo os corvos tinham ido embora. Renn saiu depois dele, apoiada nas mãos e nos joelhos e arrastando duas mochilas marrons — uma das quais era a dele. Perplexo, Torak agachou-se sobre as espirradeiras e observou-a voltar para o interior e emergir com dois sacos de dormir enrolados, duas aljavas e arcos — ambos envoltos em pele de salmão para proteger da umidade — e um saco de couro de gamo que se contorcia furiosamente. — Lobo! — exclamou Torak. — Silêncio! — Renn disparou um olhar cauteloso em direção do acampamento. Torak abriu o saco com um puxão e Lobo disparou para fora, suado e sujo. Deu uma farejada e teria fugido, se Torak não o tivesse agarrado e garantido, com baixos semilatidos, que aquilo era realmente ele e não um carcaju sanguinário. Lobo abriu um enorme sorriso de lobo, sacudiu o traseiro e saudou Torak mordiscando embevecido o seu queixo. — Depressa — falou Renn atrás dele. — Estou indo — retrucou Torak. Colhendo punhados de musgo encharcados de orvalho, limpou o pior do excremento, e depois enfiou-se em suas botas. Renn também tivera a previdência de trazê-las. Ao se virar para apanhar sua mochila, percebeu atônito que ela havia encaixado uma flecha em seu arco e mirava nele. Também pendurara no próprio ombro o arco e a aljava dele, e enfiara no cinto a machadinha e a faca de Torak.


— O que está fazendo? — perguntou ele. — Pensei que estivesse me ajudando. Ela o olhou enfastiada. — Por que eu o ajudaria? Estou apenas ajudando o meu clã. — Então por que não me entregou logo? — Porque pretendo cuidar para que você chegue à Montanha do Espírito do Mundo. Se eu não o forçasse, você nem mesmo tentaria. Simplesmente viraria as costas e fugiria. Porque você é um covarde. Torak ofegou. — Um covarde? — Covarde, mentiroso e ladrão. Você roubou o nosso corço, enganou Hord, levando-o a perder a luta, e mentiu ao dizer que não é o Ouvinte. Depois, fugiu. Agora, pela última vez, mexa-se! Com a flecha de Renn às costas e a acusação dela queimando em seus ouvidos, Torak seguia a oeste rio abaixo, usando os salgueiros como cobertura e carregando Lobo nos braços para evitar que suas patas deixassem um rastro de cheiro para os cães. Espantosamente, não havia ruídos de perseguição. Torak achava isso ainda mais perturbador do que as cornetas de casca de bétula. Renn estabelecia um ritmo veloz e Torak tropeçava com freqüência Estava cansado e com fome, ao passo que ela se encontrava descansada e alimentada; isso tornaria mais difícil livrar-se de Renn. Ela, porém era menor do que ele, e Torak achava que talvez pudesse dominá-la antes que ela causasse muitos danos com aquele arco e flecha. A pergunta era, quando? Por enquanto, ela parecia sinceramente interessada em despistar os Corvos, guian-


do-o ao longo das sinuosas picadas de veados que forneciam a melhor cobertura. Ele decidiu esperar até que estivessem bem mais distantes do acampamento. Mas o insulto dela o magoava. — Eu não sou covarde — falou por cima do ombro, enquanto seguiam o rio em meio a um sombreado bosque de carvalhos, e a ameaça da perseguição parecia diminuir. — Então por que fugiu do nosso acampamento? — Eles iam me sacrificar! — Eles ainda não tinham decidido isso. Era esse o motivo da discussão. — E o que eu deveria ter feito? Esperado para descobrir? — A profecia — disse Renn friamente — podia significar duas coisas diferentes. Se você não tivesse fugido, teria sabido disso. — E suponho que vá me dizer — adivinhou Torak —, porque você sabe tudo. Ela arrancou um suspiro. — A profecia podia significar que devíamos sacrificar você e dar o seu sangue à montanha... e, ao fazermos isso, destruiríamos o urso. É isso que Hord acha que significa. Ele quer matar você, para que ele possa levar o seu sangue à montanha. — Fez uma pausa. — Saeunn acha que significa outra coisa—, que somente você pode encontrar a montanha e destruir o urso. Torak virou-se e olhou para ela. — Eu. Destruir o urso. Ela olhou-o de cima a baixo. — Eu sei, não parece possível. Mas Saeunn tem certeza disso. E eu também. O Ouvinte precisa encontrar


a Montanha do Espírito do Mundo... e então, com a ajuda do espírito, destruir o urso. Torak pestanejou. Não era possível. Eles estavam errados. — Por que continua negando tudo? — exclamou Renn furiosamente. — Você é o Ouvinte. Você sabe que é. Luta com ar, exatamente como diz a profecia. Fala com silêncio: aquele apito. E logo as primeiras palavras da profecia dizem que o Ouvinte consegue falar com os outros caçadores da floresta... e você consegue falar com eles, porque o seu pai o colocou numa toca de lobo quando você era pequeno. Torak estreitou os olhos. — Como você sabe disso? — Porque eu escutei — disse ela. Seguiram o rio para oeste. Enquanto caminhava, Torak ouvia o leve pipilo dos piscos-chilreiros comendo as amoras-pretas; uma trepadeira-azul batia de leve nos galhos atrás de larvas. Com todos esses pássaros em volta, o urso não poderia estar em algum lugar perto dali... De repente, Lobo aguçou os ouvidos e contraiu o bigode. — Abaixe-se! — ciciou Torak, puxando Renn para perto dele. Momentos depois, duas canoas feitas de troncos inteiriços passaram deslizando. Torak teve uma boa visão da que se encontrava mais perto dele. O homem que a remava tinha cabelo curto castanho cortado em franja na testa. Usava uma capa de couro duro nos ombros largos, e tinha uma presa de javali numa correia sobre o peito. Um machado de arremesso de ardósia preta repousava sobre seus joelhos. Do mesmo modo como seu colega na outra ca-


noa, ele esquadrinhava as margens ao mesmo tempo que fatiava a água com fortes remadas. Era óbvio demais o que ele procurava. — Clã do Javali — cochichou Renn no ouvido de Torak. — Fin-Kedinn deve tê-los chamado para ajudar a nos procurar. Torak ficou imediatamente desconfiado. — Como sabiam que viríamos por aqui? Você deixou alguma espécie de pista? Ela revirou os olhos. — Por que eu faria isso? — Pelo que me consta, está me levando a algum outro clã, para eu ser sacrificado. — Ou talvez — disse ela, impaciente — o Clã do Javali esteja passando por aqui porque seu acampamento de outono fica rio abaixo e... — Deteve-se. — Como você sabia que eles estavam vindo? — Não sabia. Lobo me disse. Ela pareceu surpresa — depois assustada. — Você consegue realmente falar com ele, não é mesmo? Ele não respondeu. Renn levantou-se, pelejando para superar sua inquietação. — Eles já se foram. Está na hora de seguirmos para o norte. Recolocou a flecha na aljava e pôs o arco a tiracolo, e, por um momento, Torak pensou que Renn mudara de opinião a seu respeito. Então ela sacou a faca e estocou-o para que caminhasse. Chegaram a um córrego que tombava de uma garganta rochosa e iniciaram a escalada. Torak começou a se


sentir tonto por causa do cansaço. Não dormira na noite anterior e já fazia um dia que não comia. Finalmente, não conseguiu dar mais um passo, e caiu de joelhos. Lobo saltou de seus braços, caindo sobre as patas em sua ânsia de alcançar a água. — O que está fazendo? — berrou Renn. — Não podemos parar aqui! — Já paramos — rebateu Torak. Apanhou um punhado de folhas de saponária, amassou-as na água e lavou o que restava em seu corpo de excremento de carcaju. Então curvou-se e bebeu até ficar saciado. Sentindo-me muito melhor, remexeu na mochila à procura de um dos rolos da carne seca de corço que ele havia preparado — o que parecia ter acontecido luas atrás. Após arrancar um pedaço com os dentes e jogá-lo para Lobo, começou a comer. O sabor era maravilhoso. Já podia sentir a força do veado correndo através dele. Renn hesitou, então desatou sua mochila e ajoelhou-se, mas ainda com a faca apontada para Torak. Enfiando a mão na mochila, retirou três finos bolos marromavermelhados. Ofereceu um a ele. Torak pegou-o e mordeu um pedacinho. O gosto era delicioso e salgado, com um penetrante cheiro aromático. — Salmão seco — disse Renn com a boca cheia. — Nós o trituramos com gordura de veado e bagas de zimbro. Permanece bom todo o inverno. Para surpresa dele, ela ofereceu um bolo de salmão para Lobo. Este o ignorou peremptoriamente.


Renn hesitou e, então, entregou o bolo a Torak. Ele o esfregou nas palmas das mãos para disfarçar o cheiro dela com o dele, e depois o ofereceu a Lobo, que o engoliu de uma só vez. Renn tentou não demonstrar sua mágoa. — E dai? — falou, com um dar de ombros. — Eu sei que ele não gosta de mim. — Isso é porque você vive enfiando-o em sacos — alegou Torak. — É apenas para o bem dele. — Ele não sabe disso. — Não pode dizer a ele? — Não há como dizer isso em fala de lobo. — Deu outra mordida no bolo de salmão. Então perguntou algo que o vinha perturbando. — Por que você o trouxe? — Quem? — Lobo. Você o tirou do acampamento. Não deve ter sido fácil. Por quê? Ela hesitou. — Você parecia precisar dele. Não sei por quê. Mas achei que podia ser importante. Ele ficou tentado a lhe revelar que Lobo era seu guia, mas se conteve. Não confiava nela. Fora útil em ajudá-lo a fugir dos Corvos, mas isso não mudava o fato de que tomara suas armas e o chamara de covarde. E ela ainda mantinha sua faca apontada diretamente para ele. A garganta ficou mais íngreme. Torak achou que já era seguro deixar Lobo caminhar, e o filhote seguia penosamente diante dele, o rabo pendente. Lobo não gostava da escalada tanto quanto Torak.


Por volta da metade da tarde, alcançaram um penhasco que dava vista para amplo vale arborizado. Por entre as árvores, Torak captou o distante resplandecer de um rio. — É o Água Extensa — informou Renn. — O maior rio desta parte da floresta. Ele desce dos rios de gelo das Montanhas Altas e forma o Lago da Machadinha, depois passa pela Queda do Trovão e segue para o mar. Nós acampamos por ali, no início do verão, para pegar salmão. Às vezes, se o vento sopra para o leste, você consegue ouvir a Queda... — sua voz foi diminuindo lentamente. Torak supôs que Renn devia estar imaginando como seu clã a castigaria por ter ajudado o prisioneiro a fugir. Se ela não o tivesse chamado de covarde, talvez ele sentisse pena dela. — Vamos cortar através do vale — sugeriu ela, mais animada. — Deverá ser fácil vadear o rio onde estão aquelas campinas. Então poderemos seguir para o norte... — Não — disse Torak subitamente. Apontou para Lobo. O filhote encontrara a trilha de um alce que serpeava para o interior de um bosque de altos pés de abeto salpicados de barba-de-velho. Ele estava esperando que os dois o seguissem. — Por ali — mostrou Torak. — Subindo o vale. E não o atravessando. — Mas por ali é o leste. Se tomarmos a direção leste, alcançaremos cedo demais as Montanhas Altas. Isso tornará muito mais difícil seguir para o norte. — Que caminho tomará Fin-Kedinn? — indagou Torak.


— Oeste por um tempo, ao longo das trilhas, e depois norte. — Pois bem. Pegar a direção leste parece uma boa idéia. Ela franziu a testa. — Isso é algum truque? — Olhe — disse ele. — Seguiremos para leste porque Lobo diz que devemos. Ele conhece o caminho. — O quê? O que quer dizer? — Quero dizer — falou baixinho — que ele conhece o caminho para a montanha. Ela olhou-o fixamente. E então bufou. — Esse filhotinho? Torak fez que sim. — Não acredito em você. — Não me importa — disse Torak. Lobo detestava a fêmea Sem-Rabo. Detestou-a desde o primeiro momento em que a cheirou, quando ela apontou a Grande-Garra-que-Voa para seu irmão de alcatéia. Que coisa de se fazer. Como se o Alto Sem-Rabo fosse alguma espécie de presa! Depois disso, a fêmea Sem-Rabo fez coisas terríveis. Arrancou Lobo de Alto Sem-Rabo e o enfiou num estranho covil sem ar, onde ele foi tão sacudido que ficou enjoado. Pior ainda era o modo como ela se comportava com Alto Sem-Rabo. Será que ela não sabia que ele era o lobo líder? Ela era tão dura e desrespeitosa quando gania para ele na fala dos Sem-Rabos. Por que Alto Sem-Rabo simplesmente não rosnava e a afugentava?


Agora, enquanto Lobo corria pela trilha, ficou aliviado ao escutar que ela estava vários passos atrás. Ótimo. Ela devia permanecer longe. Parou para mastigar umas amoras alpinas à margem da trilha, cuspiu uma que não estava boa, e seguiu em frente, sentindo a terra seca sob a saliência polpuda de suas patas, e a calidez do Olho Quente Brilhante nas costas. Ergueu o focinho para captar os odores que eram soprados do vale: alguns gaios e uns poucos excrementos envelhecidos de alce; vários abetos derrubados por tempestades; uma porção de espirradeiras e mirtilos esbranquiçados. Eram todos cheiros bons, interessantes; abaixo deles, porém, havia o frio, atemorizante cheiro do Molhado Ligeiro. O medo novamente envolveu Lobo. De algum modo, ele e Alto Sem-Rabo tinham de atravessar o Molhado Ligeiro. O local da travessia ainda estava muitos trotes adiante, mas Lobo já conseguia ouvi-lo rugir. Era tão alto que em breve até seu pobre semi-surdo irmão de alcatéia conseguiria ouvi-lo. Havia perigo adiante, e Lobo ansiava por voltar, mas sabia que não poderia. A Atração estava ficando mais forte: a Atração era parecida com a atração exercida pelo covil, mas não era igual. De repente, Lobo captou outro cheiro. Alargou as narinas para absorvê-lo. Suas orelhas foram para trás. Aquilo era mau. Mau mau mau. Lobo girou e correu de volta em direção a Alto Sem-Rabo.


CATORZE — O que foi? — cochichou Renn, olhando fixamente para o filhote aterrorizado. — Não sei — murmurou Torak. Sua pele começou a formigar. Não conseguia ouvir nenhum pássaro. Renn puxou a faca do rapaz do cinturão e jogou-a para ele. Torak apanhou-a aquiescendo com a cabeça. — Devíamos voltar — sugeriu ela. — Não podemos. Este é o caminho para a montanha. Os olhos cor de âmbar de Lobo estavam escuros de medo. Caminhava lentamente à frente: cabeça baixa, os pêlos das costas eriçados. Torak e Renn seguiam o mais silenciosamente possível. Zimbros prendiam-se em suas botas. Barbas-develho arrastavam dedos finos sobre seus rostos. As árvores estavam completamente imóveis: esperando para ver o que ia acontecer. — Talvez não seja... — arriscou Renn. — Isto é, pode ser um lince. Ou um carcaju. Torak não acreditava nisso mais do que ela. Dobraram uma curva e chegaram a uma bétula caída que sangrava nas profundas marcas de garras entalhadas em sua casca. Nenhum deles falou. Ambos sabiam que ursos às vezes arranham árvores para marcar seu território, ou para amedrontar outros caçadores. Lobo aproximou-se da bétula para uma melhor farejada. Torak seguiu — e então soltou um suspiro de alívio.


— Texugo. — Tem certeza? — perguntou Renn. — Os arranhões são menores do que os de um urso, e há lama na casca. — Circundou a árvore. — Ele tinha as patas dianteiras cheias de terra, por cavar atrás de minhocas. Parou aqui para raspá-las e limpá-las. E voltou para sua toca. Por ali... — acenou com a mão para leste. — Como é que sabe tudo isso? — indagou Renn. — Foi Lobo quem lhe disse? — Não. Foi à floresta. — Ele captou o olhar intrigado dela. — Ainda há pouco, vi um pisco-de-peito-ruivo com uns pêlos de texugo no bico. Ele vinha do leste. — Deu de ombros. — Você é bom em seguir rastros, não é mesmo? — Pa era melhor. — Bem, você é melhor do que eu — concedeu Renn. Não pareceu invejosa; simplesmente reconhecia um fato. — Mas por que um texugo deixou Lobo com medo? — Não creio que tenha sido ele — disse Torak. — Creio que foi algo mais. Ela pegou a machadinha, o arco e aljava dele e os estendeu. — Tome. E melhor você ficar com isso. Seguiram lentamente pela trilha. Lobo na frente, Torak a seguir, esquadrinhando atrás de sinais, e Renn por último, esforçando-se para enxergar por entre as árvores. Tinham dado mais cinqüenta passos quando Torak parou tão abruptamente que ela trombou com ele. O jovem pé de faia ainda gemia, mas não tinha muito tempo de vida. O urso se apoiara nas patas traseiras para descarregar sua fúria: arrasou todo o topo da árvore, rasgando a casca em compridos pedaços sangrentos, e ta-


lhando profundas fissuras no alto do tronco. Assustadoramente alto. Se Renn trepasse nos ombros de Torak não conseguiria alcançar a marca de garra mais baixa. — Nenhum urso pode ser tão enorme — sussurrou ela. Torak não disse nada. Ele estava de volta ao crepúsculo azul de outono ajudando Pa a montar acampamento. Torak tinha feito uma piada, e Pa estava gargalhando. Então a floresta explodiu. Corvos gritaram. Pinheiros estalaram. E do meio das trevas abaixo das árvores propagou-se uma escuridão ainda mais intensa... — É velho — observou Renn. — O quê? — quis saber Torak. Ela gesticulou para o tronco. — O sangue da árvore já secou. Olhe, está quase preto. — Ele examinou a árvore. Ela tinha razão. O urso havia arranhado a casca pelo menos dois dias antes. Não podia, porém, compartilhar o alívio de Renn. Ela não sabia o pior. A cada matança, dissera Pa, seu poder crescerá... Quando o olho vermelho estiver mais alto no céu... o urso será invencível. Ali estava a prova. Na noite em que o urso atacara, ele era imenso. Mas não tão imenso. — Está ficando maior — comentou. — O que? — perguntou Renn. Torak contou-lhe o que Pa havia dito. — Mas... não passou nem mesmo uma lua. — Eu sei. A alguns passos ao largo da trilha, ele encontrou três compridos pêlos negros presos num galho mais ou


menos na altura da cabeça de uma pessoa. Recuou prontamente. — Ele foi por ali — apontou abaixo para o vale. — Veja como os galhos foram quebrados em padrões ligeiramente diferentes. Isso, porém, não o tranqüilizou. O urso poderia ter voltado por um outro caminho. Então, do meio da vegetação rasteira, veio o agudo tac tac de uma carriça. Torak expirou aliviado. — Não creio que ele esteja por perto. Caso contrário, essa carriça não estaria cantando. Com o cair da noite, fizeram um abrigo, com brotos de aveleiras curvados e folhas caídas, perto de um riacho barrento. Pés de azevinho davam um fingimento de proteção, e eles acenderam uma pequena fogueira e comeram algumas tiras de carne seca. Não ousaram comer os bolos de salmão; o urso poderia farejá-los a muitos dias de caminhada de distância. Era uma noite fria, e Torak sentou-se acocorado em seu saco de dormir, ouvindo o débil e distante rugido do que Renn dissera ser a Queda do Trovão. Por que Pa nunca lhe falara sobre a profecia? Por que ele era o Ouvinte? O que significava isso? A seu lado, Lobo dormia com as orelhas movimentando-se. Renn estava sentada observando um besouro pelejar para descer da lenha da fogueira. Torak agora sabia que podia confiar nela. Renn se arriscara muito para ajudá-lo, e ele não teria conseguido escapar sem ela. Era um novo sentimento, ter alguém do seu lado. Ele disse: — Preciso lhe contar uma coisa.


Renn alcançou um graveto e ajudou o besouro a descer do galho. — Antes de morrer — disse Torak — meu pai me forçou a um juramento. Encontrar a montanha ou morrer tentando. — Fez uma pausa. — Não sei por que ele me fez jurar. Mas jurei. E darei o melhor de mim. Ela assentiu e Torak percebeu que pela primeira vez Renn acreditava nele de verdade. — Tem uma coisa também que eu preciso lhe falar — disse ela. — É sobre a profecia. — Franzindo a testa, ela rolava o graveto nos dedos. — Quando... se... você encontrar a montanha, não poderá simplesmente pedir a ajuda do espírito. Precisará provar que é merecedor. Saeunn disse-me isso na noite passada. Disse que, quando o aleijado errante fez o urso, ele rompeu um pacto, pois fez uma criatura que mata sem motivo. Ele enfureceu o Espírito do Mundo. Será necessária muita coisa para se conseguir a ajuda dele. Torak tentou entender. — O que será necessário? Ela olhou-o nos olhos. — Você terá de levar os três pedaços mais fortes do Nanuak. Torak olhou-a inexpressivamente. — Saeunn disse que o Nanuak é como um grande rio que nunca termina Cada coisa viva tem uma parte dele dentro de si. Caçadores, presa pedras, árvores. Às vezes, uma parte especial dele se forma, como espuma no rio. Quando isso acontece, é incrivelmente poderoso. — Ela hesitou. — É isso que você precisa descobrir. Caso contrário, o Espírito do Mundo não o ajudará. E então jamais destruirá o urso.


Torak prendeu a respiração. — Três pedaços do Nanuak — disse roucamente. — O que são eles? Como vou encontrá-los? — Ninguém sabe. Tudo que temos é um enigma. — Fechou os olhos e recitou:

Mais fundo de todas, a visão afogada. Mais velha de todas, a mordida de pedra. Mais fria de todas, a luz que anoitece.

Uma brisa surgiu de repente. Os azevinhos produziram um murmúrio irritadiço. — O que significa isso? — quis saber Torak. Renn abriu os olhos. — Ninguém sabe. Ele baixou a cabeça até os joelhos. — Então terei de encontrar uma montanha que ninguém nunca viu. E descobrir a resposta para um enigma que ninguém nunca solucionou. E matar um urso contra o qual ninguém consegue lutar. Renn inspirou fundo. — Você tem de tentar. Torak ficou em silêncio. E então perguntou. — Por que Saeunn lhe disse tudo isso? Por que você? — Nunca quis que fizesse isso, ela simplesmente o fez. Ela acha que devo ser uma maga quando eu crescer. — E você não quer ser? — Não! Mas suponho... talvez haja algum propósito nessas coisas. Se ela não tivesse me falado, eu não poderia ter transmitido a você. Outro silêncio. Então Renn desvencilhou-se de seu saco de dormir.


— Vou levar nossas mochilas lá para fora. Não vamos querer que o cheiro de comida atraia o urso. Depois que ela saiu, Torak deitou-se de lado e enrosco-se, perdendo-se em pensamentos diante do calor ardente das brasas. Em volta dele, a floresta rangia em seu sono, sonhando seus sonhos de um verde intenso. Pensou nas milhares e milhares de almas-árvores aglomerando-se na escuridão: esperando por ele, e apenas ele, para libertálas do urso. Pensou na bétula dourada e na sorveira-brava encarnada, e nos carvalhos de um verde brilhante. Pensou na presa abundante; nos lagos e rios repletos de peixes; em todos os diferentes tipos de madeira e casca de árvore e pedra que estavam ali para se pegar se você soubesse onde procurar. A floresta tinha tudo o que se poderia querer. Até então ele não se dera conta do quanto a amava. Se o urso não fosse destruído, tudo aquilo se perderia. Lobo levantou-se de um salto e saiu para uma de suas caçadas noturnas. Renn retornou, enfiou-se no seu saco de dormir, sem dizer uma só palavra, e caiu no sono. Torak continuou olhando fixamente a fogueira. ―Há um propósito nessas coisas‖, dissera Renn. De um modo estranho aquilo lhe deu força. Ele era o Ouvinte. Ele havia jurado encontrar a montanha. A floresta precisava dele. E daria o melhor de si. Dormiu intermitentemente. Sonhou que Pa estava vivo novamente; mas, em vez de rosto, tinha uma inexpressiva pedra branca. Eu não sou Pa. Sou o Mago Lobo... Torak acordou com um sobressalto.


Sentiu o bafo de Lobo em seu rosto; em seguida, o penugento roçar do bigode do filhote em suas pálpebras, e os finos dentes como agulhas dando amorosas mordiscadas em suas bochechas e garganta. Ele lambeu o focinho do filhote, Lobo fuçou seu queixo, e então instalou-se junto a ele com um duvidoso ―hum‖. — A gente deveria ter atravessado mais embaixo — disse Renn enquanto esticavam o pescoço para ver a Queda do Trovão. Torak limpou o borrifo de seu rosto e ficou imaginando como algo da floresta podia ser tão furioso assim. O dia todo estiveram seguindo para cima o tranqüilo e verde Água Extensa. Agora, porém, enquanto ribombava sobre uma escarpada parede de pedra, ele era assustador em sua fúria. Diante dele, toda a floresta parecia parar e olhar. — A gente deveria ter atravessado mais embaixo — repetiu Renn. — Seríamos vistos — alegou Torak. — Aqueles prados são muito expostos. Além do mais, Lobo quis permanecer deste lado. Renn enrugou os lábios. — Se ele é o guia, onde é que está então? — Ele detesta água ligeira. Sua alcatéia afogou-se numa enchente. Mas ele voltará quando encontrarmos um meio de passar por cima da queda-d‘água. — Humm — fez Renn, sem se convencer. Como Torak, ela dormira mal e estivera mal-humorada a manhã toda. Nenhum dos dois havia mencionado o enigma. Finalmente, encontraram um caminho de veados que contornava para cima a lateral da queda-d‘água. Era


íngreme e enlameado e, quando chegaram ao topo, estavam exaustos e ensopados com o borrifo. Lobo estava à espera deles: sentado debaixo de um pé de bétula a uma distância segura do Água Extensa, tremendo de medo. — Aonde agora? — ofegou Renn. Torak observava Lobo. — Vamos seguir o rio até ele nos mandar atravessar. — Você sabe nadar? — perguntou Renn. Ele fez que sim. — E você? — Sei. Lobo sabe? — Acho que não. Começaram rio acima, avançando através de moitas espinhosas e emaranhadas sorveiras-bravas e bétulas. Era um dia frio, nublado, e o vento espalhava folhas de bétula no rio como se fossem pequenas cabeças de flecha cor de âmbar. Lobo trotava com as orelhas achatadas para trás. O rio corria veloz e sereno a caminho da queda-d‘água. Não tinham ido muito longe quando Lobo começou a correr de um lado para o outro da margem, miando. Torak podia sentir seu medo. Virou-se para Renn. — Ele quer atravessar, mas está apavorado. — As moitas espinhosas são muito densas aqui — disse Renn. — Que tal mais adiante, perto daquelas pedras? As pedras eram lisas e salpicadas com musgo de aparência traiçoeira, mas erguia-se da água o equivalente a uma boa metade de um antebraço. Talvez fornecessem um meio de travessia. Torak fez que sim.


— Eu irei primeiro — anunciou Renn, ao tirar as botas, amarrá-las na mochila e depois enrolar as perneiras. Conseguiu um galho para ajudar no equilíbrio e colocou a mochila sobre um dos ombros, para não ser arrastada ao fundo se por acaso ela caísse. A aljava e o arco iam na outra mão, bem acima da cabeça. Parecia apavorada, ao se aproximar da água. Mas fez a travessia sem vacilar — até a última pedra, quando precisou saltar para a margem e acabou tendo de agarrar um galho de salgueiro para se manter de pé. Torak deixou a mochila e as armas na margem, e tirou as botas. Ia carregar Lobo para o outro lado e depois retornar para pegar suas coisas. — Vamos, Lobo — falou, encorajando. Depois disse isso em fala de lobo, acocorando-se e emitindo leves miados tranqüilizadores. Lobo disparou para baixo de um arbusto de zimbro e recusou-se a sair. — Coloque-o dentro de sua mochila! — berrou Renn do outro lado. — É a única maneira de fazê-lo atravessar! — Se eu fizer isso — gritou Torak —, ele nunca mais confiará em mim! Sentou-se no musgo da beira da margem. Então bocejou e se espreguiçou, para mostrar a Lobo o quanto ele estava descontraído. Após algum tempo, Lobo emergiu do zimbro e foi sentar-se ao lado dele. Torak bocejou novamente. Lobo olhou para ele, e deu um enorme bocejo que acabou num ganido.


Lentamente, Torak pôs-se de pé e pegou Lobo nos braços, murmurando suavemente em fala de lobo. As pedras pareciam geladas e escorregadias sob os pés descalços de Torak. Em seus braços, Lobo começou a tremer de terror. Na outra margem, Renn segurava com uma das mãos um rebento de bétula, e inclinou-se na direção deles. — Isso mesmo — gritou ela acima do estrondear da queda-d‘água —, estão quase chegando! As garras de Lobo se fincaram no gibão de Torak. — Ultima pedra! — berrou Renn. — Eu seguro ele... Uma onda lambeu a pedra, salpicando-os com água congelante. A coragem de Lobo se desfez. Contorcendose desvairadamente para se livrar dos braços de Torak, saltou para a margem, aterrissando com as patas traseiras na água e as garras dianteiras prendendo-se na terra. Renn abaixou-se e o segurou pelo cangote. — Peguei-o! — gritou. Torak perdeu o equilíbrio e caiu ruidosamente no rio.


QUINZE Torak emergiu balbuciando de frio, pelejando contra o rio. Era um excelente nadador, portanto não ficou muito preocupado. Agarraria aquele galho que se projetava da margem. Depois, o próximo. Atrás de si, ouviu Renn gritar seu nome, enquanto ela corria por entre os arbustos espinhosos, e os latidos prementes de Lobo. Ocorreu-lhe que os arbustos espinhosos deviam ser muito densos, já que Renn e Lobo estavam ficando para trás cada vez mais e mais distantes. O rio martelava-o nas costas, deixando-o sem energia como uma folha molhada contra uma pedra. Afundou. Esperneou o caminho todo até a superfície, e ficou chocado ao ver o quão distante fora carregado. Não conseguia mais ouvir Renn ou Lobo, e a queda-d‘água deslizava para mais perto com espantosa velocidade, afogando todas as vozes, menos a dela mesma. Seu gibão e suas perneiras o arrastavam para baixo. O frio deixara seus membros dormentes, tornando-os galhos de carne e osso, agindo sem sentir para manter sua cabeça acima da superfície. Não conseguia enxergar nada além das ondas de espuma branca e um borrão de salgueiros. Então, até isso desapareceu quando ele afundou novamente. Ocorreu-lhe com bastante clareza que ia desabar de cima da queda-d‘água e morrer. Não havia tempo para medo. Apenas uma raiva remota por tudo acabar daquela maneira. Pobre Lobo.


Quem cuidaria dele agora? E pobre Renn. Tomara que ela não encontre o corpo, pois ele estará uma bagunça. A morte lançou-se contra ele. Um arco-íris lampejou entre espuma e borrifos... então as ondas tornaram-se lisas como uma pele e, de repente, não havia mais rio adiante, e ficou difícil de respirar quando ele tombou. A morte alcançou-o e puxou-o para baixo, e aquilo foi brilhante e suave, como o momento de pegar no sono... Mais e mais ele caía, a água enchendo sua boca, seu nariz, seus ouvidos. O rio engoliu-o todo: estava dentro dele e ele rugia em seu interior, aquela força marteladora de água. De algum modo ele emergiu, engolindo ar. Então o rio puxou-o novamente para dentro de suas verdes profundezas rodopiantes. O rugido do rio enfraqueceu. Luzes lampejaram em sua cabeça. Afundou. A água foi de azul para verde-escuro e para preto. Ele estava lânguido e gelado além de qualquer sensação. Ansiava por desistir e dormir. Tornou-se ciente de uma gargalhada tênue, borbulhante. Cabelos como verdes elódeas arrastava-se através de sua garganta. Rostos cruéis olhavam de esguelha com impiedosos olhos brancos. Venha para nós!, chamou o Povo Oculto do rio. Deixe que suas almas flutuem livres dessa carne grosseira e pesada! Ele sentiu um enjôo, como se suas entranhas estivessem sendo puxadas para se soltar. Vejam, vejam, gargalhou o Povo Oculto. O quão rapidamente suas almas começam a flutuar livres! O quão ansiosamente vêm a nós! Torak virou-se de um lado para o outro como um peixe morto. O Povo Oculto estava certo. Seria fácil de-


mais abandonar seu corpo e deixar que eles o envolvessem para sempre em seu frio abraço... O latido desesperado de Lobo chegou até ele. Torak abriu os olhos. Bolhas prateadas flutuaram na escuridão enquanto o Povo Oculto fugia. Novamente Lobo chamou-o. Lobo precisava dele. Havia algo que eles precisavam fazer juntos. Abanando seus dormentes membros-galhos, começou a lutar em seu caminho de volta à superfície. O verde ficou mais brilhante. A luz o atraiu... Mal a havia alcançado quando algo fez com que ele olhasse para baixo — e os viu. Bem lá no fundo, dois olhos brancos cegos o encaravam de baixo para cima. O que são? Pérolas do rio? Os olhos de um do Povo Oculto? A Profecia. O enigma. ―Mais funda de todas, a visão afogada.‖ Seu peito ia explodir. Se não conseguisse logo um pouco de ar, ele morreria. Mas, se não mergulhasse agora e pegasse aqueles olhos — fossem o que fossem —, ele os perderia para sempre. Dobrou o corpo e agitou os pés com toda a sua força, empurrando-se para baixo. O frio fazia seus olhos doerem, mas ele não ousou fechá-los. Nadou para mais e mais perto... esticou-se em direção ao fundo — agarrou um punhado de lama gelada. Ele os pegou! Não havia como ter certeza — a lama rodopiava espessa à sua volta, e não podia correr o risco de abrir o punho, pois eles poderiam escorregar e se libertar — mas conseguia sentir o peso deles puxando-o para bai-


xo. Deu uma guinada e agitou os pés de volta em direção à luz. Sua força, porém, estava falhando, e subia com agonizante lentidão, dificultado pelas roupas encharcadas. Mais luzes lampejaram m sua cabeça. Mais gargalhadas aquosas. Tarde demais, sussurrou o Povo Oculto. Agora jamais conseguirá alcançar a luz! Fique aqui conosco, menino, com as almas à deriva. Fique aqui para sempre... Algo segurou sua perna e puxou-o para baixo. Ele deu chutes. Não conseguiu se livrar. Algo agarrava suas perneiras logo acima do tornozelo. Contorce-se para se livrar, mas o aperto se manteve firme. Tentou tirar sua faca da bainha, mas, antes de iniciar a travessia, ele havia apertado a tira em volta do cabo, e não conseguiu afrouxá-la. A raiva fervia dentro dele. Afaste-se de mim!, gritou dentro de sua cabeça. Não pode me ter — e não pode ter o Nanuak! A fúria deu-lhe forças e ele esperneou selvagemente. O aperto em sua perna soltou-se. Algo emitiu um uivo gorgolejante e mergulhou nas trevas. Torak disparou para cima. Explodiu para fora da água, engolindo grandes goladas de ar. Em meio ao clarão do sol, vislumbrou uma faixa de rio verde e um galho suspenso aproximando-se dele velozmente. Com a mão livre tentou alcançá-lo — e errou. A dor explodiu em sua cabeça. Sabia que não fora nocauteado. Ainda podia sentir o jogo do rio e ouvir sua respiração estridente — mas seus olhos estavam abertos e olhando fixamente, ele não conseguia enxergar.


O pânico dominou-o. Cego não, pensou. Não, por favor, não, cego não.


DEZESSEIS A fêmea Sem-Rabo lamuriava-se e agitava as patas dianteiras, portanto Lobo deixou-a e disparou caminho abaixo. Quando farejou o Alto Sem-Rabo entre os salgueiros, ele também começou a lamuriar-se. Seu irmão de alcatéia estava tombado sobre um tronco, a metade do corpo no Molhado. Cheirava fortemente a sangue e não se mexia de modo nenhum. Lobo lambeu sua bochecha gelada, mas Alto SemRabo não se moveu. Seria ele um Sem-Bafo? Lobo pôs o focinho para cima e uivou. Um estatelar desgracioso anunciou a fêmea SemRabo. Lobo saltou para defender seu irmão de alcatéia, mas ela o afastou, enfiou as patas dianteiras debaixo dos ombros do Alto Sem-Rabo e o puxou do Molhado. A despeito de si mesmo, Lobo ficou impressionado. Observou-a colocar as patas dianteiras sobre o peito do Alto Sem-Rabo e pressionar com força. Alto SemRabo começou a tossir! Alto Sem-Rabo tinha bafo novamente! Mas assim que Lobo saltou para cima de seu irmão de alcatéia, para lamber e fungar no seu focinho, foi novamente repelido! Indiferente aos rosnados de alerta de Lobo, a fêmea colocou Alto Sem-Rabo de pé e eles saíram cambaleando pela margem. Alto Sem-Rabo foi andando desajeitado pelo meio das aveleiras, como se não conseguisse enxergar.


Atento, Lobo caminhou ao lado deles, descontraindo um pouco quando chegaram a um covil a uma boa distância do Molhado Ligeiro: um covil apropriado, não muito pequeno, sem ventilação. A fêmea continuava sem deixar que Lobo se aproximasse de seu irmão de alcatéia. Rosnando, Lobo empurrou-a com seu corpo. Em vez de se afastar, ela apanhou um graveto e jogou-o para além do covil, apontando para ele e em seguida para Lobo. Lobo ignorou-a e voltou-se para Alto Sem-Rabo, que tentava arrancar sua pele. Finalmente, Alto Sem-Rabo tinha apenas o longo pêlo escuro de sua cabeça. Ele estava deitado de lado, o corpo enroscado, os olhos fechados, tremendo de frio. Sua pobre entrepele sem pêlo não tinha nenhuma utilidade. Lobo recostou-se nele para aquecê-lo, enquanto a fêmea Sem-Rabo rapidamente deu vida ao Brilhante Bicho-que-Morde-Quente. Alto Sem-Rabo aproximo-se do calor, e Lobo ficou observando aflito para o caso de suas patas serem mordidas. Foi aí que Lobo notou que uma das patas dianteiras de Alto Sem-Rabo segurava algo que emitia um brilho estranho. Lobo farejou a coisa — e recuou. Cheirava a caçador e presa e Molhado Ligeiro e árvore, tudo mastigado junto; e dela vinha um zunido alto e tênue: tão alto que somente Lobo conseguia captá-lo. Lobo ficou apavorado. Sabia que estava na presença de algo muito, muito poderoso. Torak, enfiado em seu saco de dormir, tremia incontrolavelmente. Sua cabeça parecia estar em chamas e sentia todo o corpo como se fosse um único e enorme


ferimento, mas o pior de tudo, ele não conseguia enxergar. Cego, cego, batia seu coração. Acima do crepitar do fogo ele ouviu Renn murmurar furiosamente. — Você estava tentando se matar? — O quê?, disse ele, mas isso saiu como um resmungo, pois sua boca estava repleta da salgada doçura de sangue. — Você mal havia alcançado a superfície — contou Renn, pressionando em sua testa o que parecia ser teias de aranha —, e fez meia-volta e nadou, nadou intencionalmente, voltou outra vez para o fundo! Ele se deu conta de que ela não sabia a respeito do Nanuak. Mas sua mão estava tão gelada que não conseguia abri-la para lhe mostrar. Sentiu a língua de Lobo em seu rosto. Uma brecha de luz apareceu. Em seguida, um enorme focinho preto. O ânimo de Torak elevou-se. — Eu bosso ber! — disse ele. — O quê? — irritou-se Renn. — É claro que você pode ver! Você cortou a testa, quando atingiu aquele galho, e o sangue penetrou em seus olhos. Couro cabeludo sangra muito. Não sabia disso? Torak ficou tão aliviado que teria gargalhado se seus dentes não estivessem batendo tão violentamente. Percebeu que estavam em uma pequena caverna com paredes de terra. Uma fogueira com lenha de bétula queimava intensamente, e suas roupas ensopadas, pendendo de raízes de árvores que se projetavam do teto, já começavam a emitir vapor. O estrondo da queda-d‘água era alto e, pelo seu som e a visão que tinha das copas das árvores diante da entrada da caverna, deduziu que deviam


estar em algum lugar acima da parte lateral do vale. Não se lembrava de ter chegado ali. Renn devia tê-lo arrastado. Ficou imaginando como ela conseguira fazer isso. Ela estava ajoelhada ao lado dele, parecendo agitada. — Você teve muita, muita sorte — disse ela. — Agora fique parado! De sua bolsa de remédios, ela tirou algumas folhas secas de milefólio e as esmigalhou na palma da mão. Em seguida, após retirar as teias, pressionou as folhas de milefólio na testa dele. Elas grudaram firmemente no ferimento formando uma crosta instantânea. Torak fechou os olhos e ficou ouvindo a fúria incessante da queda-d‘água. Lobo rastejou para dentro do saco de dormir com ele, contorcendo-se até conseguir uma posição confortável. Sentiu-se gloriosamente coberto de pele e aquecido enquanto lambia o ombro de Torak. Em resposta, Torak lambeu seu focinho. Quando acordou, não tremia mais e continuava segurando o Nanuak. Podia sentir seu peso na mão. Lobo bisbilhotava os fundos da caverna, e Renn separava algumas ervas em seu colo. A mochila, as botas, a aljava e o arco de Torak estavam caprichosamente arrumados atrás dela. Ele deu-se conta de que, para recuperálos, ela devia ter atravessado o rio novamente. Duas vezes. — Renn — chamou. — O que foi? — disse ela sem erguer a vista. Pelo tom de sua voz, ele pôde perceber que ela continuava chateada. — Você me tirou do rio. Trouxe-me por todo o caminho até aqui em cima. Até mesmo foi apanhar as mi-


nhas coisas. Não consigo imaginar... Isto é, foi muita coragem. Ela não respondeu. — Renn — chamou novamente. — O que foi? — Eu tive de mergulhar. Era preciso. — Por quê? — Desajeitadamente, tirou para fora a mão que segurava o Nanuak e abriu os dedos. Assim que fez isso, o fogo pareceu diminuir. Sombras saltaram para as paredes da caverna. O ar parecia estalar, como no momento seguinte a um relâmpago. Lobo parou de bisbilhotar e emitiu um grunhido de alerta. Renn ficou completamente imóvel. Os olhos do rio estavam na palma de Torak em um ninho de lodo verde, brilhando levemente, como a lua numa noite nevoenta. Ao fitá-los, Torak sentiu um eco do enjôo que o arrastara para o fundo do rio. — É isso, não é? — disse ele. — ―Mais funda de todas, a visão afogada.‖ A primeira parte do Nanuak. A cor sumira do rosto de Renn. — Não... se mexa — falou, e pelejou para sair da caverna, voltando logo depois com um punhado de folhas encarnadas de sorveira-brava. — Ainda bem que há lodo em sua mão — disse ela. — Não podia ter deixado essa coisa tocar em sua pele. Ela poderia ter sugado sua própria parte da alma-mundo. — Era isso que estava acontecendo? — murmurou. — No rio, comecei a me sentir... tonto. — Contou-lhe sobre o Povo Oculto. Ela pareceu horrorizada.


— Como ousou? Se eles tivessem apanhado você... — Fez o sinal com a mão para se precaver contra o mal. — Não acredito que você tenha dormido com essa coisa na mão. Não há tempo a perder. Retirando uma algibeira preta de seu gibão, ela encheu-a com as folhas de sorveira-brava. — As folhas nos protegerão — explicou — e a algibeira também deverá nos ajudar, pois é de pele de corvo. Agarrando o pulso de Torak, ela despejou os olhos do rio dentro da bolsinha e fechou a boca bem apertada. Assim que o Nanuak foi escondido, as chamas aumentaram e as sombras encolheram. O ar na caverna parou de estalar. Torak sentiu como se um peso tivesse sido tirado de cima dele. Observou Lobo caminhar com passinhos curtos, deitar-se ao lado de Renn, com o focinho entre as patas, olhar a algibeira em seu colo e ganir baixinho. — Você acha que ele consegue farejar essa coisa? — perguntou ela. — Ou talvez ouvi-la — sugeriu Torak. — Não sei. Renn arrepiou-se. — Contanto que ninguém mais consiga também.


DEZESSETE Torak acordou ao alvorecer sentindo-se enrijecido e dolorido. Mas conseguia mexer todos os quatro membros e nenhum parecia fraturado, portanto concluiu que estava melhor. Renn estava ajoelhada na entrada da caverna, tentando alimentar Lobo com um punhado de empetros. Ela franzia a testa, concentrada, enquanto estendia a mão. Lobo contornava-a cautelosamente, indo adiante — e depois dava um salto novamente para trás. Finalmente, decidiu que podia confiar nela e farejou as bagas. Renn deu uma risada quando seu bigode fez cócegas na sua palma. Ela percebeu que Torak estava olhando e interrompeu a risada, sem jeito por ter sido vista fazendo amizade com o filhote. — Como se sente? — perguntou ela. — Melhor. — Pois não parece. Vai precisar descansar por pelo menos um dia. — Levantou-se. — Vou caçar. Devemos guardar a comida seca para quando precisarmos dela. Torak sentou-se penosamente. — Eu também vou. — Não vai não, tem que descansar... — Mas minhas roupas estão secas, e preciso me movimentar. Não lhe disse o verdadeiro motivo, que detestava cavernas. Ele e Pa às vezes costumavam se abrigar nelas, mas Torak sempre acabava do lado de fora. Parecia totalmente errado dormir entre paredes maciças, separado do


vento e da floresta. Era como se tivesse sido engolido. Renn suspirou. — Prometa que, assim que abatermos algo, você voltará para cá para descansar. Torak prometeu. Vestir-se doeu mais do que ele esperava e, quando terminou, seus olhos estavam lacrimejando. Para seu alívio, Renn, que se preparava para a caça, não notou. Ela penteou o cabelo com um pente de madeira de freixo entalhada como a garra de um corvo, depois prendeu-o para trás num rabo-de-cavalo e enfiou nele uma pena de coruja para sorte na caçada. A seguir, lambuzou cinza na pele para disfarçar seu cheiro e oleou o arco com algumas avelãs esmagadas, entoando: — Que o guardião do clã voe comigo e torne a caçada bem-sucedida. Torak ficou surpreso. — Nós nos preparamos do mesmo modo para uma caçada. Exceto que dizemos ―Que o guardião do clã corra comigo‖. E não oleamos o arco todas às vezes. — Isso é apenas algo que costumo fazer — disse Renn. Carinhosamente, ergueu-o para que a madeira oleada brilhasse. — Fin-Kedinn o fez para mim, quando eu tinha sete anos, logo depois que meu Pa foi morto. É de madeira de teixo, curada durante quatro verões. Alburno na traseira, para esticar, e cerne no bojo, para força, ele também fez a aljava. Teceu pessoalmente o vime, e deixou que eu escolhesse a decoração. Uma tira em ziguezague de salgueiro vermelho e branco. Ela fez uma pausa, e seu rosto torno-se sombrio enquanto se recordava. — Não conheci minha mãe; Pa era tudo. Quando foi morto, chorei tanto... Então Fin-Kedinn veio e o atingi


com meus punhos. Ele não se mexeu. Apenas ficou parado ali como um pé de carvalho, deixando que eu batesse nele. Então falou: ―Ele era meu irmão. Eu cuidarei de você.‖ E tive certeza de que faria isso. — Franziu a testa e mordeu os lábios. Torak sabia que ela estava sentindo falta do tio, e talvez também estivesse preocupada com ele, quando a conduziu através da floresta assombrada pelo urso. Para lhe dar tempo, ele fez seus próprios preparativos e juntou suas armas. Então, falou: — Venha. Vamos caçar. Ela fez que sim uma vez e em seguida colocou a aljava a tiracolo. Era uma manhã luminosa e fria, e a floresta nunca parecera tão bela. Pés encarnados de sorveira-brava e bétulas douradas resplandeciam como chamas contra o verde-escuro dos abetos. Arbustos de mirtilo brilhavam com milhares de minúsculas teias de aranha salpicadas de geada. Musgo congelado estalava debaixo dos pés. Uma dupla de pegas curiosas seguia-os de árvore em árvore, brigando. O urso devia estar muito longe. Infelizmente, Torak não teve muito tempo para desfrutar isso. Na metade da manhã, Lobo espantou um bando de tetrazes, que dispararam em direção ao céu com gorgolejos indignados. As aves voaram depressa e contra o sol, e Torak nem mesmo se preocupou em mirar, sabendo que não acertaria nenhuma. Para sua surpresa, Renn encaixou uma flecha, disparou e uma tetraz caiu com um ruído surdo sobre o musgo. O queixo de Torak caiu. — Como conseguiu isso? Renn enrubesceu. — Bem. Eu pratico muito.


— Mas... Nunca vi atirar tão bem. Você é a melhor do seu clã? Ela pareceu pouco à vontade. — Há alguém melhor? — Hum. Não realmente. — Ainda sem jeito, ela afastou-se por entre os arbustos de mirtilo para apanhar a tetraz. — Tome. — Lançou-lhe um grande sorriso de dentes afiados. — Lembra de sua promessa? Agora, deve voltar e descansar. Torak pegou a tetraz. Se ele soubesse que ela atirava tão bem, jamais teria prometido. Depois que Renn retornou à caverna, eles fizeram um banquete. Pelo piado de uma coruja nova souberam que o urso estava muito distante; e Renn concluiu que já tinham ido longe o bastante a leste para terem escapado dos Corvos. Além disso, precisavam de comida quente. Renn envolveu dois pedacinhos da tetraz em folhas de azeda e deixou-os ali para os guardiães do clã, enquanto Torak transferia a fogueira para a entrada da caverna, já que estava decidido a não passar outra noite lá dentro. Enchendo a pele de cozinhar de Renn de água até a metade, ele a pendurou perto da fogueira, em seguida, usando um galho rachado ao meio, colocou dentro duas pedras em brasa para aquecê-la e juntou a tetraz depenada e desmembrada. Em pouco tempo, estava mexendo um cheiroso guisado temperado com alho-das-vinhas e enormes e carnudos cogumelos dos bosques. Comeram quase toda a carne, deixando um pouco para a refeição da manhã, e secaram o caldo com raízes de taráxaco assadas nas brasas. Depois disso, veio o maravilhoso mingau feito por Renn de amoras alpinas e avelãs fora de época, e finalmente algumas sementes de faia, que


eles rebentaram no fogo e descascaram para retirar de dentro as pequenas e deliciosas castanhas. Quando acabou, Torak sentiu-se como se nunca mais fosse precisar comer novamente. Acomodou-se perto do fogo, para remendar o rasgão em suas perneiras onde o Povo Oculto o agarrara. Renn estava sentada a alguma distância, aparando as penas de suas flechas, e Lobo encontrava-se entre os dois, lambendo as patas e deixando-as limpas, após ter liquidado rapidamente com a articulação de tetraz que Torak havia separado para ele. Por um momento, houve um silêncio amigável, e Torak sentiu-se contente e até mesmo esperançoso. Afinal de contas, encontrara o primeiro pedaço do Nanuak. Isso devia valer alguma coisa. De repente, Lobo colocou-se de pé com um salto e correu para longe da luz da fogueira. Momentos depois retornou, circundou a fogueira e emitiu pequenos grunhidos-ganidos agitados. — O que foi? — cochichou Renn. Torak estava de pé, observando Lobo. Sacudiu a cabeça. — Não consigo entender. ―Matar cheiro. Velho abate. Movendo— se.‖ Algo parecido. Olharam fixamente para a escuridão. — Não devíamos ter acendido uma fogueira — disse Renn. — Agora é tarde demais — rebateu Torak. Lobo parou com os grunhidos-ganidos, ergueu o focinho e olhou para o céu. Torak olhou para cima — e o que restava de seu bom humor dissipou-se. Para leste, acima da distante escuridão das Montanhas Altas, o olho vermelho do Grande


Auroque luzia abaixo na direção deles. Era impossível não notar: um malévolo carmesim pulsando com malícia. Torak não conseguia desviar a vista daquilo. Podia sentir seu poder: enviando força para o urso, consumindo seu próprio desejo de esperança e determinação. — Que chance temos contra o urso? — perguntou ele. — Isto é, que chances reais nós temos? — Não sei — disse Renn. — Como vamos encontrar os outros dois pedaços do Nanuak? ―Mais velha de todas, a pedra mordida. Mais fria de todas, a luz que anoitece.‖ O que será que isso significa? Renn não respondeu. Finalmente, ele afastou o olhar do céu e sentou-se perto do fogo. O olho vermelho parecia encará-lo, mesmo das brasas. Atrás dele, Renn agitou-se. — Olhe, Torak, é a Primeira Arvore! Ele levantou a cabeça. O olho obscurecera. Em seu lugar, um silencioso e constantemente mutável brilho verde encheu o céu. Agora uma vasta faixa de luz enredou-se num vento mudo; e então a faixa desapareceu e tremeluzentes ondas verde-claras encresparam-se através das estrelas. A Primeira Árvore estendeu-se eternamente, resplandecendo seu fogo miraculoso sobre a floresta. No momento em que Torak a admirava, uma centelha de esperança se reacendeu. Ele sempre gostou de olhar a Primeira Arvore em noites geladas, enquanto Pa contava a história do Começo. A Primeira Árvore significava boa sorte na caçada; talvez ela também trouxesse sorte para ele. — Acho que é um bom sinal — comentou Renn como se tivesse ouvido os pensamentos dele. — Eu estive


pensando. Foi realmente sorte você ter encontrado o Nanuak? Isto é, por que você caiu exatamente na parte do rio onde ele estava? Não creio que tenha sido por acaso. Eu acho... que você estava destinado a encontrá-lo. Ele lançou-lhe um olhar interrogativo. — Talvez — prosseguiu ela lentamente — o Nanuak tenha sido colocado em seu caminho, mas caberia a você decidir o que fazer com ele. Quando o viu no fundo do rio, você poderia ter considerado que era perigoso demais tentar pegá-lo. Mas não considerou. Talvez... seja parte do teste. Tratava-se de um bom pensamento, e isso fez com que Torak se sentisse um pouco melhor. Adormeceu observando os silenciosos ramos verdes da Primeira Árvore, enquanto Lobo saía correndo da caverna para alguma misteriosa missão por conta própria. Lobo deixou o covil e trotou até o cume acima do vale para captar o cheiro do vento: um cheiro forte de presa podre como um abate muito antigo — exceto pelo fato de se mover. Enquanto corria, Lobo sentiu com prazer o modo como a parte polpuda de suas patas endurecia, seus membros tornando-se mais fortes a cada Escuro que passava. Ele adorava correr, e desejava que Alto Sem-Rabo também gostasse. Mas às vezes seu irmão de alcatéia podia ser terrivelmente lento. Ao se aproximar do penhasco, Lobo ouviu o rugido do Molhado Trovejante, e o ruído de uma lebre alimentando-se no vale seguinte. Acima, viu o Olho Branco Brilhante com seus muitos filhotinhos. Estava tudo como deveria estar. Exceto por aquele cheiro.


Em cima do penhasco, ergueu o focinho para interceptar o vento carregado de cheiros, e novamente captouo; bem perto e se aproximando. Correndo de volta para o vale, não demorou a encontrá-la: a coisa rastejante que cheirava tão mal. Chegou perto o bastante para observá-la nitidamente no escuro, mas tendo o cuidado de não deixar que ela soubesse que ele estava por perto. Para sua surpresa, descobriu que, afinal de contas, não era um abate antigo. A coisa tinha bafo e garras, e se movia com um estranho andar bamboleante, rosnando para si mesma enquanto a baba escorria de seu focinho. O que mais intrigava Lobo era que não conseguia captar o que ela sentia. Sua mente parecia rompida; esparramada como ossos velhos. Lobo nunca sentira antes uma coisa assim. Observou-a seguir caminho ladeira acima na direção do covil onde os Sem-Rabos dormiam. A coisa aproximava-se à espreita... Justo quando Lobo estava para atacar, a coisa estremeceu e afastou-se bamboleante. Mas, em meio à confusão de seus pensamentos interrompidos, Lobo sentiu que ela voltaria.


DEZOITO A neblina os envolvia furtiva como um ladrão na noite. Quando Torak se arrastou rijamente para fora de seu saco de dormir, o vale abaixo tinha desaparecido. O Bafo do Espírito do Mundo o engolira totalmente. Bocejou. Lobo o acordara várias vezes durante a noite, correndo de um lado para o outro e dando meiolatidos urgentes: matar cheiro... cuidado. Não fazia sentido. Todas as vezes que Torak fora olhar, nada havia além de um fedor de carne putrefata e uma inquietante sensação de estar sendo vigiado. — Talvez ele apenas deteste a neblina — sugeriu Renn, irritada, agitando-se em seu saco de dormir. — Eu sei que eu detesto. Na neblina, nada é o que parece. — Não creio que seja isso — contestou Torak, observando Lobo farejar o ar. — Bem, e o que é então? — Não sei. É como se houvesse algo lá fora. Não o urso. Não os corvos. Algo mais. — O que quer dizer? — Já lhe disse, não sei. Mas devemos ficar alertas. Cuidadosamente, ele colocou mais lenha no fogo para aquecer o resto do ensopado para a refeição da manhã. Com uma ansiosa fisionomia carregada, Renn contou as flechas deles. — Vinte para nós dois. Nem perto do suficiente. Você sabe lascar sílex? Torak sacudiu a cabeça.


— Minhas mãos não são fortes o bastante. Pa ia me ensinar, no próximo verão. E você? — A mesma coisa. Teremos de ter cuidado. Não dá para saber a distância que falta para a montanha. E precisaremos de mais carne. — Talvez a gente pegue alguma coisa hoje. — Nesta neblina? Ela estava certa. A neblina era tão espessa que não conseguiam enxergar Lobo cinco passos adiante. Era do tipo que os clãs chamam de fumaça congelada: um bafo gelado que desce das Montanhas Altas no início do inverno, enegrecendo bagas e fazendo com que animais de pequeno porte corram para suas tocas. Lobo guiou-os ao longo de uma trilha de auroque que serpeava norte acima pela lateral do vale: uma escalada friorenta por entre quebradiças samambaias congeladas. A neblina abafava os sons e tornava as distâncias difíceis de serem avaliadas. Arvores surgiam com alarmante brusquidão. Uma vez, dispararam numa rena, só para descobrir que haviam acertado uma tora. Isso significava uma frustrante peleja para arrancar as pontas de flecha que eles não podiam se dar ao luxo de perder. Duas vezes, Torak achou ter visto uma figura na vegetação rasteira, mas, quando correu para olhar, nada encontrou. Demorou a manhã toda para escalarem até o cume, e a tarde inteira para descerem com dificuldade para o vale seguinte, onde uma silenciosa floresta de pinheiros vigiava um rio sonolento. — Você se deu conta — comentou Renn enquanto se aconchegavam em um abrigo feito às pressas, após uma triste refeição noturna — que não avistamos uma única rena? Elas agora deveriam estar por toda a parte.


— Também estive pensando nisso — disse Torak. Como Renn, ele sabia que a neve caindo deveria impelir as manadas para a floresta, onde engordariam comendo musgo e cogumelos. Às vezes comiam tanto cogumelo que até mesmo tinham o sabor deles. — O que os clãs farão se as renas não vierem? — perguntou Renn. Torak não respondeu. Renas significavam sobrevivência: carne, cama e roupas. Ficou imaginando o que usaria como roupas de inverno. Renn fora previdente em separar as dela antes de partir do acampamento do Corvo, mas não conseguira roubar nenhuma para ele, portanto tudo o que ele tinha era a sua pele de veado de verão: nem de perto tão quente quanto a parca e as perneiras de pele que ele e Pa faziam a cada outono. Mesmo se encontrassem uma presa, não haveria tempo de preparar roupas. Além da neblina, o olho vermelho do Grande Auroque escalava cada vez mais alto. Torak fechou os olhos para afastar o pensamento, e acabou caindo num sono inquieto. Mas sempre que acordava no meio da noite sentia aquele estranho fedor de carne putrefata. O dia seguinte amanheceu mais frio e mais nevoento do que nunca, e até mesmo Lobo parecia desanimado ao guiá-los rio acima. Chegaram a um carvalho caído formando uma ponte sobre o rio, e rastejaram de gatinhas por cima dele. Logo depois a trilha bifurcou. Para a esquerda, serpeava por um vale de enevoados pés de faia; para a direita, desaparecia acima em um úmido barranco, suas íngremes vertentes uma mixórdia nada convidativa de grandes pedras cobertas de musgo.


Para desânimo deles, Lobo pegou a trilha da direita. — Não pode estar certo! — exclamou Renn. — A montanha fica para o norte! Por que ele segue constantemente para leste? Torak sacudiu a cabeça. — Também acho errado. Mas ele parece seguro. Renn bufou. Claramente, estava mais uma vez com dúvidas. Olhando para Lobo, que esperava pacientemente, Torak sentiu uma pontada de culpa. O filhote ainda nem tinha quatro luas. Com essa idade, ele deveria estar brincando em sua toca, e não perambulando pelas colinas. — Eu acho — falou — que devemos confiar nele. — Hum — murmurou Renn. Erguendo suas mochilas acima dos ombros doloridos, entraram na ravina. Não tinham dado dez passos quando perceberam que a ravina não os queria ali. Elevados pés de abetos os alertavam, com os braços bem abertos, para que voltassem. Uma enorme pedra desabou bem à frente deles; outra atingiu o caminho logo atrás de Renn. O fedor de carne podre ficou mais forte. Entretanto, se ele vinha de um local de abate, tratava-se de um estranho local de abate, pois não ouviam corvos. A neblina ficou mais cerrada a ponto de mal enxergarem dois passos adiante. Tudo o que podiam ouvir era o pinga-pinga de cerração na samambaia, e o gorgolejo de um riacho que corria entre margens sufocadas de fetos. Torak começou a ver formas de urso na neblina. Observava Lobo para não perder o menor sinal de alarme, mas o filhote continuava caminhando lentamente, destemido.


Na metade do dia — ou o que parecia ser a metade do dia — pararam para descansar. Lobo desabou no chão, ofegando, e Renn livrou-se da mochila nos ombros. Seu rosto estava contraído e o cabelo ensopado. — Vi alguns juncos ali atrás. Vou trançar um capuz para mim. Pendurando suas aljavas e arcos num galho, ela avançou através dos fetos. Lobo levantou-se e correu atrás dela. Torak acocorou-se na beira do riacho para reabastecer as peles de água. Não demorou muito e ouviu Renn retornando. — Foi bem depressa — observou ele. — Fora! — bradou uma voz atrás dele. — Fora do Vale do Caminhante, ou o Caminhante corta gargantas! Torak virou-se e viu-se olhando acima, espantado, para um homem incrivelmente sujo assomando sobre ele com uma faca. Num instante, percebeu um rosto aniquilado tão áspero quanto a casca de uma árvore; cabelo até a cintura, coberto de sujeira; uma râncida capa de limosos juncos amarelados. E, finalmente, estava explicado o fedor de carne podre, pois do pescoço do homem pendia a tenra carcaça apodrecida de um pombo. Aliás, tudo nele parecia apodrecer: desde sua vazia, pustulenta órbita ocular às negras gengivas sem dentes, e seu nariz quebrado, do qual pendia uma tira de muco amarelo-esverdeado. — Fora! — berrou, agitando uma faca de ardósia verde. — Narik e o Caminhante dizem fora! Rapidamente, Torak colocou ambos os punhos sobre o coração, como sinal de amizade.


— Por favor... viemos como amigos. Não pretendemos fazer mal... — Mas eles já fizeram mal! — urrou o homem. — Eles o trazem consigo para o belo vale! A noite toda o Caminhante vigia! A noite toda espera para ver se trarão o mal para seu vale! — Que mal? — perguntou Torak desesperadamente. — Não pretendíamos...! Houve uma agitação nas samambaias e Lobo atirou-se para cima de Torak. Este apertou bem o filhote e sentiu o pequeno coração martelar. O homem não notou. Ouvira Renn aproximandose sorrateiramente por trás dele. — Furtiva, não é mesmo? — vociferou, dando uma guinada e agitando sua faca diante do rosto dela. Renn esquivou-se para trás, mas isso apenas o deixou mais furioso. — Ela os quer na água? — berrou, pegando os arcos e as aljavas do galho e segurando-os acima do riacho. — Ela quer vê-los nadar as lindas flechas e os brilhantes, brilhantes arcos? Emudecida de horror, Renn sacudiu a cabeça. — Então larguem facas e machados, depressa, ou eles vão para a água! Ambos sabiam que não tinham escolha, portanto jogaram suas armas restantes a seus pés, e ele as guardou rapidamente debaixo da capa. — O que você quer que a gente faça? — indagou Torak, o coração martelando tão veloz quanto o de Lobo. — Que dêem o fora! — urrou o homem. — O Caminhante falou para eles! Narik falou para eles! E a ira de Narik é terrível!


Tanto Renn quanto Torak olharam em volta à procura de Narik, fosse lá quem fosse, mas só viram árvores molhadas e neblina. — Nós estávamos indo embora — disse Renn, olhando seu arco na enorme mão. — Não vale acima! Fora! — gesticulou para a lateral da garganta. — Mas... não conseguiremos subir por aí — alegou Renn —, é muito íngreme... — Chega de truques — vociferou o Caminhante, e arremessou a aljava dela no riacho. Renn soltou um grito e pulou atrás dela, mas Torak segurou seu braço. — É tarde demais — disse-lhe. — Sumiu. O riacho era mais profundo e veloz do que parecia. Sua adorada aljava desaparecera. Renn dirigiu-se ao Caminhante: — Nós íamos fazer o que mandou! Não precisava ter feito isso! — Ah sim — disse o Caminhante com um negro sorriso desdentado — Agora eles sabem que ele fala sério! — Venha, Renn — chamou Torak. — Vamos fazer o que ele manda. Furiosamente, Renn apanhou sua mochila. Se a viagem fora difícil antes, aquilo era bem pior. O Caminhante caminhava a passos largos atrás deles, forçando-os praticamente a subir correndo uma rochosa trilha de alce que às vezes precisavam escalar de quatro. Renn ia na frente, o rosto inflexível, lamentando pela sua aljava. Em pouco tempo, Lobo começou a ficar para trás. Torak virou-se para ir ajudá-lo, mas o Caminhante cortou o ar à distância de um dedo de seu rosto. — Em frente! — gritou.


— Eu só quero carregar... — Em frente! Renn intrometeu-se. — Você é do Clã da Lontra, não é mesmo? Reconheço suas tatuagens. O Caminhante olhou para ela. Torak aproveitou a chance e içou para seus braços o filhote exausto. — Foi do Clã da Lontra — resmungou o Caminhante, exibindo o pescoço, onde a pele crostosa estava tatuada com ondulantes linhas azul-esverdeadas. — Por que os deixou? — quis saber Renn, que parecia fazer um esforço supremo de esquecer sua aljava e travar amizade com ele, a fim de se manterem vivos. — Não deixou — disse o Caminhante. — Lontras deixaram ele. — torcendo o uma asa do pombo, ele a sugou entre as gengivas sem dentes ingerindo junto uma generosa quantidade de muco. Torak cambaleou. Renn ficou verde-clara. — O Caminhante estava fazendo pontas de lança — falou em meio a um ramoso bocado — e o sílex voa para ele e o pica na cabeça. — Deu um latido à guisa de gargalhada, borrifando ambos com perdigotos. — Bocados dele ficaram mal, foram cerzidos, ficaram mal novamente. No final, seu olho rebentou para fora e um corvo o comeu. Ha! Corvo adora olhos. Então seu rosto enrugou-se e ele bateu na cabeça com o punho. — Arre, mas a dor, a dor! Todas as vozes berrando, as almas brigando em sua cabeça! Foi por isso que as Lontras o expulsaram. Renn estancou.


— Um do meu clã perdeu o olho do mesmo modo — contou. — Meu clã é amigo das Lontras. Nós... nós não queremos lhe fazer mal. — Talvez — disse o Caminhante, retirando um osso da boca e guardando-o cuidadosamente dentro da capa. — Mas ainda trazem o mal com eles. — De repente, ele parou e vasculhou as encostas. — Mas o Caminhante estava esquecendo! Narik pediu avelãs para ele! E agora, onde foram parar as aveleiras? Torak ergueu Lobo bem alto nos braços. — O mal que você pensa que trazemos — disse ele. — Você quer dizer... — Eles sabem o que ele quer dizer — interrompeu o Caminhante. — O urso demônio, o demônio urso. E o Caminhante disse-lhe para não chamá-lo! Torak parou. — Disse a quem? Refere-se ao aleijado errante? O tal que fez o urso? Uma cutucada com a faca lembrou-o de continuar andando. — O aleijado, sim, é claro! O sábio, sempre atrás dos demônios para fazerem tudo o que ele deseja. — Outro latido-gargalhada. — Mas o menino Lobo nada sabe sobre demônios, não é? Nem mesmo sabe o que são eles! Ah, sim, o Caminhante sempre consegue perceber. Renn pareceu surpresa. Torak evitou o olhar dela. — O Caminhante sabe a respeito deles — prosseguiu o homem, ainda vasculhando as encostas atrás de aveleiras. — Ah, sim. Antes de o sílex o ferir, ele mesmo era um sábio. Ele sabia que, se você morre e perde sua alma-nome, então você é um fantasma, e esquece quem é.


O Caminhante sempre sente pena de fantasmas. Mas, se você perde sua alma-clã, então o que resta é um demônio. Inclinando-se à frente, ele mergulhou Torak numa rajada de bafo rançoso. — Pense nisso, menino Lobo. Sem alma-clã, você é um demônio. O poder do Nanuak em estado bruto, mas sem nenhum sentimento de clã para domá-lo; apenas a raiva de que alguma coisa foi tirada de você. É por isso que eles odeiam os vivos. Torak sabia que Caminhante estava falando a verdade. Já vira pessoalmente aquele ódio. Ele matara seu pai. — E o aleijado? — perguntou asperamente. — O tal que capturou o demônio e o prendeu dentro do urso? Qual era o nome dele? — Ah — fez o Caminhante, gesticulando para Torak seguir em frente. — Tão sábio, tão inteligente. Para começar, ele só quer os pequenos demônios, os escorregadios e os agitados. Mas nunca são fortes o suficiente para ele, ele sempre quer mais. Então convoca os mordedores e os caçadores. Ainda não basta. — Deu um sorriso largo, libertando sobre Torak outra lufada de carne podre. — No final — cochichou — ele chama... um elementar. Renn arfou. Torak ficou intrigado. — O que é isso? O Caminhante gargalhou. — Ah, ela sabe! A menina Corvo sabe! Os olhos de Renn fizeram contato com os de Torak. Os dela estavam muito sombrios. — Quanto mais fortes as almas, mais forte o demônio. — Ela lambeu os lábios. — Um elementar surge quando algo imensamente poderoso morre... algo como


uma queda-d‘água ou um rio congelado... e suas almas são dispersadas. Um elementar é o demônio mais forte de todos. Lobo desvencilhou-se dos braços de Torak e desapareceu no meio dos fetos. Um elementar, pensou Torak atônito. Essa conversa de demônios, porém, estava deixando o Caminhante novamente perturbado. — Arre, como eles odeiam os vivos! — gemeu, balançando-se de um lado para o outro. — Luminoso demais, luminoso demais, todas as brilhantes, brilhantes almas! Dói! Dói! A culpa é deles, do menino Lobo e da menina Corvo! Trouxeram a coisa com eles para o belo vale do Caminhante! — Mas já estamos quase fora do seu vale — disse Renn. — Sim, olhe — insistiu Torak —, estamos quase no topo... O Caminhante não se acalmou. — Por que eles fazem isso? — gritou. — Por quê? O Caminhante nunca fez mal a eles! — Brandindo os arcos deles acima da cabeça, ele os agarrou por ambas as pontas, como se fosse partí-los em dois. Isso foi demais para Renn. — Não ouse! — urrou. — Não ouse danificar meu arco! — Para trás — rugiu o Caminhante — ou ele os quebra como gravetos! — Coloque-o no chão! — berrou Renn, saltando para cima dele e tentando em vão alcançar o seu arco. Torak teve de agir depressa. Rapidamente abriu sua bolsa de comida, e em seguida, estendeu a palma da mão.


— Avelãs — gritou. — Avelãs para Narik! O efeito foi imediato. — Avelãs — murmurou o Caminhante. Largando os arcos sobre as pedras, apanhou as avelãs da mão de Torak e sentou-se acocorado. Em seguida, tirou uma pedra de dentro da capa e começou a quebrá-las. — Hum, deliciosas e doces. Narik vai ficar feliz. Silenciosamente, Renn apanhou os arcos e limpou o molhado. Ofereceu o de Torak a ele, mas este não o pegou. Olhava a pedra que o Caminhante usava para quebrar as amêndoas. — Quem é Narik? — perguntou, espertamente, para manter o Caminhante falando a fim de que ele pudesse olhar mais de perto. — Ele é seu amigo? — O Caminhante pode vê-lo claramente — murmurou. — Por que o menino Lobo não pode? Algo errado com seus olhos? — Mergulhando a mão na capa, retirou um camundongo sarnento. Ele segurava meia avelã nas patas e parecia irritado por ter sido interrompido. Torak pestanejou. O camundongo espirrou e voltou à sua refeição. Carinhosamente, o Caminhante alisou o pequeno dorso corcunda com seu dedo imundo. — Ah, o filho adotivo do Caminhante. A pedra ficou de lado, no chão. Era mais ou menos do tamanho da mão de Torak: uma garra curva, pontuda — feita de reluzente pedra negra. Onde há uma garra de pedra pode haver também um dente de pedra? Torak olhou para Renn. Ela também tinha visto. E, pela sua expressão, teve a mesma idéia. ―Mais velha de todas, a mordida de pedra.‖ A segunda parte do Nanuak.


— Essa pedra — falou Torak com todo o cuidado. — Será que o Caminhante me diria onde a conseguiu? O Caminhante levantou a cabeça, atordoado de tanto acariciar seu camundongo. Então seu rosto se contorceu. — Boca de pedra — disse ele. — Muito tempo, péssimo tempo. Ele está se escondendo. Os Lontras o expulsaram, mas ele ainda não encontrou seu lindo vale. Novamente Torak e Renn trocaram olhares. Ousariam arriscar outra explosão? — A criatura de pedra — disse Torak. — Ela tem dentes de pedra dentro da boca de pedra? — Claro! — rebateu rispidamente o Caminhante. — Senão, como conseguiria comer? — Onde podemos encontrá-la? — quis saber Renn. — O Caminhante disse! Na boca de pedra! — E onde está a criatura com a boca de pedra? De repente, o rosto do Caminhante ficou inexpressivo, e ele pareceu muito cansado. — Lugar ruim — sussurrou. — Muito ruim. A terra mortal que engole e devora. Os Vigias estão por toda a parte. Eles vêem você, mas você não os vê. Não até ser tarde demais. — Diga-nos como encontrar a pedra — pediu Torak.


DEZENOVE — Como, afinal de contas, pode existir uma criatura de pedra? — perguntou Renn, a cara amarrada. Ela andava de mau humor desde que perdera sua aljava. — Não sei — disse Torak pela décima vez. — E que tipo de criatura? Javali? Lince? Devíamos ter perguntado. — Provavelmente ele não nos teria dito. Renn colocou as mãos nos quadris e sacudiu a cabeça. — Temos feito tudo o que ele mandou. Há dois dias inteiros que andamos. Atravessamos três vales. Seguimos o riacho que ele mencionou. Mesmo assim, nada. Acho que ele só estava tentando se livrar da gente. O mesmo pensamento ocorrera a Torak, mas não admitiria isso. Passados dois dias, a neblina não dissipara. Parecia errado. Tudo relacionado com aquele lugar parecia errado. Após alguma persuasão, o Caminhante devolvera o restante de suas armas e os mandara ir por aquele caminho. Seguindo suas instruções, haviam deixado o riacho ao pé da pedregosa colina cinzenta, e estavam subindo a trilha que serpeava em direção ao cume. Era uma sensação desoladora, ameaçadora. Mirrados pés de bétula surgiam de dentro para fora da neblina. Aqui e ali eles viam o lampejo de rocha nua, onde a colina fora esfolada. O único som era o chac-chac, igual a um martelar de um pica-pau alertando seus rivais para não chegarem perto. — Ele não nos quer aqui — disse Renn. — Talvez tenhamos pegado o caminho errado.


— Se fosse o caso, Lobo teria nos dito. Renn pareceu duvidosa. — Você ainda acredita nisso? — Sim — disse Torak. — Acredito. Afinal, se ele não nos tivesse conduzido ao vale do Caminhante, não teríamos visto a garra de pedra, e também nada saberíamos sobre um dente de pedra. — Talvez. Mas ainda acho que viemos muito para leste. Estamos chegando muito perto das Montanhas Altas. — Como pode saber, se não conseguimos enxergar dez passos adiante? — Eu consigo sentir. Sente esse ar gelado? Ele vem do rio de gelo. Torak parou e olhou fixo para ela. — Que rio de gelo? — O tal no pé das montanhas. Torak comprimiu os dentes. Estava ficando cansado de ser o único que não sabia das coisas. Escalaram em silêncio, e logo até mesmo o picapau foi deixado para trás. Torak tornou-se incomodamente ciente do ruído que produziam: o rangido de sua mochila, o chocalho de seixos enquanto Renn pelejava à frente. Ele podia sentir as pedras ouvindo, as árvores retorcidas alertando-o silenciosamente para que voltasse. De repente, Renn virou-se e veio ruidosamente em direção a ele. — Entendemos errado! — ofegou, os olhos arregalados e temerosos. — Como? — O Caminhante nunca disse que era uma criatura de pedra! Fomos nós que dissemos. Ele apenas falou que era uma boca de pedra!


Agarrando seu braço, ela o arrastou colina acima. O chão ficou nivelado e a trilha acabou. Torak parou em meio à neblina turbilhonante. Ao assimilar o que se encontrava adiante, o medo instalou-se dentro dele. A face de uma rocha revelava-se diante deles, cinzenta como uma nuvem de trovão. Ao pé dela, vigiada por um solitário pé de teixo, havia uma caverna de escuridão como um grito silencioso: uma boca de pedra escancarada. — Não podemos entrar aí — hesitou Renn. — Nós... eu... preciso — disse Torak. — É a boca de pedra sobre a qual o Caminhante estava falando. Foi onde ele encontrou a garra de pedra. E onde eu talvez encontre o dente de pedra. De perto, a boca da caverna era menor do que ele imaginara à primeira vista: um semicírculo escuro não mais alto do que seu ombro. Colocou a mão no lábio de pedra e curvou-se para examinar o interior. — Cuidado — alertou Renn. O chão da caverna inclinava-se abruptamente. O frio emanava dela; um acre afluxo de ar como o hálito de alguma antiga criatura que nunca viu o sol. ―Lugar ruim‖, dissera o Caminhante. ―Muito ruim. A terra mortal que engole e devora. Os Vigias por toda parte.‖ — Não mexa a mão — disse Renn ao lado dele. Olhando acima, ele viu assustado que seus dedos estavam a um fio de cabelo de uma enorme mão aberta que fora gravada profundamente a marteladas na pedra. Recolheu a dele. — É um aviso — sussurrou Renn. — Está vendo as três barras acima do dedo médio? São linhas de poder, uma precaução contra demônios. — Ela inclinou-se mais


para perto. — É velho. Muito velho. Não podemos entrar. Há algo lá embaixo. — O quê? — perguntou Torak. — O que há lá embaixo? Ela sacudiu a cabeça. — Não sei. Talvez uma entrada para o Outro Mundo. Deve ser ruim, para alguém ter entalhado essa mão. Torak pensou a respeito. — Não creio que eu tenha escolha. Eu irei. Você fica aqui. — Não! Se você for, eu vou também... — Lobo não pode ir comigo, ele não agüentaria o cheiro. Você fica aqui com ele. Se eu precisar de ajuda, darei um grito. Levou algum tempo, porém quanto mais ele argumentava mais se convencia também. Preparou-se pousando seu arco e aljava debaixo do pé de teixo, junto com sua mochila, saco de dormir e pele de água, e depois desenganchando a machadinha do cinturão. Somente sua faca teria alguma utilidade na escuridão. Finalmente, cortou uma correia de couro cru para o filhote. Lobo esquivou-se e mordeu até Torak conseguir explicar que ele precisava ficar com Renn, que resolveu o assunto tirando de sua bolsa de comida um punhado de amoras alpinas. Torak, porém, não encontrou um meio de dizer a Lobo que voltaria. Fala de lobo não parecia lidar com o futuro. Renn deu-lhe um ramo de sorveira-brava, para proteção, e uma de suas meias-luvas de pele de salmão numa corda.


— Lembre-se — disse ela —, se encontrar o dente de pedra, não toque nele com as mãos nuas. E é melhor deixar comigo a algibeira com os olhos do rio. Ela tinha razão. Não havia como prever o que poderia acontecer se ele levasse o Nanuak para o interior da caverna. Com uma estranha sensação de se livrar de um fardo indesejável, Torak passou-lhe a algibeira de pele de corvo, e ela a amarrou ao seu cinturão. Lobo observava o que estava acontecendo com as orelhas girando: como se, pensou Torak, a algibeira estivesse fazendo algum tipo de ruído. — Vai precisar de luz — disse Renn, contente por fazer algo prático. De sua mochila, retirou duas velas: medulas de junco descascado embebidas em sebo de veado e depois deixadas para secar ao sol. Com seu fogo de fricção, ela acendeu uma isca de casca de zimbro e uma das velas ganhou vida: uma chama clara, brilhante, confortante. Torak sentia-se imensamente agradecido. Se você precisar de ajuda — disse Renn, ajoelhando-se e abraçando Lobo para fazer com que ela mesma parasse de tremer —, grite. Nós iremos correndo. Torak concordou com a cabeça. Em seguida, curvo-se e penetrou na boca de pedra. Ele tateou a procura da parede. Ela parecia viscosa, como carne morta. Arrastou-se adiante, sentindo o caminho com os pés. A luz da vela tremeu e encolheu para uma luz frouxa. O fedor erguia-se da escuridão, ferroando suas narinas. Após vários passos vacilantes, deu com uma pedra. A boca da caverna se estreitara formando uma garganta: ele teria de virar de lado para poder seguir adiante. Fe-


chando os olhos, infiltrou-se. Sentiu como se estivesse sendo engolido. Não conseguia respirar. Continuava pensando na pressão da superfície rochosa que o comprimia... O ar esfriou. Ele ainda se encontrava em um túnel, mas este era mais largo e guinava repentinamente para a direita. Olhando para trás, viu que a luz do dia sumira e, com ela, Renn e Lobo. O fedor ficava mais forte à medida que ele seguia pelo túnel, escutando nada mais do que sua própria respiração, enxergando nada mais do que vislumbres de reluzente pedra vermelha. Uma repentina friagem à sua esquerda, e ele quase escorrega. Seixos chocalharam, depois caíram no silêncio. A parede do lado esquerdo sumira. Ele estava de pé numa estreita saliência que se projetava para a escuridão. Bem de longe, lá de baixo, vinha um ecoante plim de água. Uma escorregadela e ele cairia da saliência. Outra curva — dessa vez para a esquerda — e uma pedra sob seus pés balançou. Com um grito, agarrou um ressalto, endireitando-se bem a tempo. Ao som de seu grito, algo se agitou. Ele gelou. — Torak? — A voz de Renn soou bem distante. Ele não ousaria responder. O que quer que tivesse se movido ficara novamente imóvel: mas era uma imobilidade horrível, demorada. Sabia que ele estava ali. ―Os vigias estão por toda a parte. Eles vêem você, mas você não os vê. Não até ser tarde demais.‖ Forçou-se a seguir em frente. Para baixo, sempre para baixo. O fedor chegava até ele em ondas. Respire pela boca, disse uma voz em sua cabeça. Era isso que ele e Pa costumavam fazer quando chegavam a um fedorento


lugar de abate ou uma caverna infestada de morcegos. Experimentou e o fedor tornou-se suportável, embora ainda se agarrasse a seus olhos e garganta. Abruptamente, o chão ficou nivelado e ele sentiu o espaço se abrir à sua volta. Uma luz fraca devia estar vindo de algum lugar, porque distinguiu uma vasta caverna sombria. Os vapores eram quase opressivos. Ele estava nas gotejantes e fedorentas entranhas da terra. A saliência em que estava de pé terminou e o chão além dela era estranhamente cheio de corcovas. No meio da caverna, uma enorme pedra com a parte de cima achatada cintilava como gelo preto. Parecia intocada por milhares de invernos. Mesmo a vinte passos de distância, Torak podia sentir seu poder. Fora ali que o Caminhante encontrara sua garra de pedra. Esse era o motivo da mão de alerta na boca da caverna. Aquilo era o que os Vigias protegiam: uma porta para o Outro Mundo. Torak não conseguia dar outro passo. Era como nas ocasiões em que acordava tão pesado de sono que até mesmo mexer um dedo parecia impossível. Para se firmar, colocou a mão livre sobre o cabo de sua faca. A amarração de tendão lhe pareceu levemente cálida, dando-lhe coragem para descer para o chão da caverna. Ao fazê-lo, soltou um grito de desgosto. O chão cedeu sob sua bota: uma maciez silenciosa sugando-o para baixo. ―A terra mortal que engole e devora...‖ Seu grito ressoou nas paredes em volta e, muito acima dele, ouviu um movimento furtivo. Algo escuro soltara-se do teto e mergulhava em sua direção.


Não havia onde se esconder, não havia para onde correr. A maciez sugava suas botas como areia molhada. Uma fétida descida e a coisa estava sobre ele: pele gordurosa obstruía sua boca e nariz, garras afiadas arrancavam seus cabelos. Rosnando com horror, ele atacou o silencioso agressor. Finalmente, aquilo foi embora com um suap, um ruído de couro. Mas ele sabia que aquilo não fora derrotado. O Vigia descera meramente para descobrir o que ele era. Assim que soube, foi embora. Mas o que era aquilo? Um morcego? Um demônio? Quantos mais deles havia ali? Torak avançou cambaleante. A meio caminho da pedra, tropeçou e caiu. O fedor era insuportável. Ele chafurdava na sufocante escuridão, não conseguia ver, não conseguia pensar. Até mesmo a luz da vela tornou-se escura — uma chama negra cintilando acima dele... Colocou-se de pé, vacilante, sacudindo-se livremente como um nadador ofegando atrás de ar. Sua mente firmou-se. A chama negra voltou a queimar amarelo. Alcançou a pedra. Na sua antiga maciez, seis garras de pedra haviam sido arrumadas em uma espiral, com um lugar vazio de onde o Caminhante roubara a sétima. No centro repousava um único dente de pedra negra. ―Mais velha de todas, a mordida de pedra.‖ A segunda parte do Nanuak. Suor escorria pela sua espinha. Ficou imaginando que poder ele liberaria se tocasse naquilo. Estendeu a mão, e então puxou-a de volta, lembrando-se do alerta de Renn: ―Não toque no Nanuak com as mãos nuas.‖ Onde estava a luva? Ele deve tê-la deixado cair.


Com a vela, vasculhou em volta, enfiando a mão nos montes fedorentos. Novamente a tontura aumentou. Novamente a chama escureceu... Bem a tempo encontrou a luva, amarrada ao seu cinturão. Arrancando-a, ele avançou para o dente. A luz da vela luziu fracamente na parede da caverna atrás da pedra — e iluminou o lampejo de mil olhos. Com a mão suspensa acima do dente, ele moveu a chama lentamente de um lado para o outro. Ela captou o líquido lampejo de olhos. As paredes fervilhavam de Vigias. Onde quer que a luz atingisse, eles ondulavam e inchavam como uma carcaça infestada de larvas. Se pegasse o dente, iriam atrás dele. De repente, tudo aconteceu ao mesmo tempo. De cima e bem distante veio o impulsivo latido urgente de Lobo. Renn gritou. — Torak! Ele está vindo! Os Vigias explodiram à sua volta. A vela apagou-se. Algo o atingiu nas costas e ele caiu para a frente sobre a pedra. Novamente, Renn gritou. — Torak! O urso!


VINTE Agarrando a aljava de Torak, Renn correu para a beira da trilha e tropeçou na raiz de uma árvore, espalhando flechas pelo chão. O pânico borbulhou em sua garganta. O que fazer? O que fazer? Apenas momentos antes, ela caminhava de um lado a outro enquanto uma revoada de verdelhões arrancava as suculentas bagas cor-de-rosa do pé de teixo, e Lobo puxava com força a correia, emitindo latidos-grunhidos que Torak teria entendido, mas que ela apenas achou preocupante.

verdelhão Nesse instante os verdelhões foram embora numa nuvem estridulante e ela olhou colina abaixo. Uma brecha na neblina deu-lhe uma visão clara: viu o riacho passar


veloz por uma moita de abetos, e uma enorme pedra escura acocorada ao lado deles. Então a pedra se mexeu. Congelada pelo terror, ela viu o urso erguer-se sobre as patas traseiras, superando em altura os abetos. A enorme cabeça oscilava quanto provava o ar. Ele captou o cheiro dela e baixou sobre as quatro patas. Foi aí que ela correu até a caverna e gritou para alertar Torak — e nada recebeu em resposta a não ser ecos. Agora, enquanto a neblina se fechava novamente e ela tenteava atrás das flechas caídas, imaginou o urso escalando a colina em sua direção. Ela sabia que os ursos conseguiam se movimentar com muita velocidade: ele estaria ali em momentos. A face da rocha era íngreme demais para ela escalar; além do mais, não podia deixar Lobo. Sobrava-lhe a caverna, mas cada parte dela gritava para que não entrasse ali. Seriam apanhados como lebres em uma armadilha, nunca mais sairiam. O desesperado esforço de Lobo dando puxões na correia amansou o pânico dela. Puxava-a em direção à caverna — e instantaneamente ela percebeu que ele tinha razão. Torak estava lá dentro. Combateriam juntos o urso. Precipitou-se para o interior, arrastando atrás de si mochilas e sacos de dormir. A escuridão cegou-a. Correu em direção à pedra maciça, batendo a cabeça. Após um exame apressado, deduziu que a caverna se estreitava repentinamente para uma fenda. Lobo já passara, puxando-a para que o seguisse. Ela se virou e arrastou-se de lado — depressa, depressa —, depois ajoelho-se e enfiou a mão pela fenda para arrastar os apetrechos atrás de si.


Ao puxar mochilas e arcos e aljava, ela sentiu uma centelha de esperança. A fenda talvez fosse estreita demais para o urso. Talvez eles pudessem resistir... A pele de água foi arrancada de sua mão com uma força que a atirou violentamente contra a fenda e enviou dores cruciantes através de seu ombro. Confusa, ela enfiou-se de lado numa depressão da parede, puxando Lobo consigo. O urso não poderia ter-se movimentado tão depressa assim, pensou desalentada. Um forte rugido reverberou através da caverna. Sua pele formigou. Ele não consegue passar pela brecha, disse a si mesma. Fique quieta. Fique muito, muito quieta. Das profundezas da caverna veio um grito. — Renn! Estaria Torak pedindo ajuda ou estaria vindo ajudála? Ela não podia dizer. Não podia gritar em resposta. Nada podia fazer a não ser agachar-se com Lobo na depressão, sabendo que estava muito perto da fenda — a apenas dois passos de distância —, mesmo assim impotente para se mover. Alguma força a mantinha ali. Não conseguia tirar os olhos daquela estreita brecha de luz solar. A luz do dia tornou-se preta. Mesmo sabendo que era a pior coisa a fazer, Renn curvou-se adiante e espreitou através da fenda. O sangue estrondeou em sua cabeça. Um relance de pesadelo de pele escura tremulando contra um vento que não se sentia; um vislumbre de garras longas e cruéis resplandecendo com sangue negro. Um rugido sacudiu a caverna. Gemendo, Renn comprimiu os punhos contra as orelhas enquanto o rugi-


do martelava através dela, repetidamente, até achar que seu crânio romperia... Silêncio: tão chocante quanto o rugido. Afastando os punhos das orelhas, ela ouviu um leve murmúrio. Lobo ofegando. Nada mais. Lentamente, assustada com o que fazia, ela rastejou em direção à fenda, puxando atrás de si o filhote relutante. Novamente, viu a luz do dia. Uma face de rocha cinzenta. O pé de teixo com bagas espalhadas abaixo. Nada de urso. Um rosnado arrepiante: tão próximo que ela ouviu o úmido ranger de mandíbulas; farejou o forte cheiro de uma carnificina. Então a luz do dia foi encoberta, e um olho segurou os dela. Mais negro do que basalto, porém agitando-se com fogo, ele a atraiu — ele a queria. Ela inclinou-se à frente. Lobo puxou-a pelas costas, quebrando o encanto de modo que ela se encolheu para fora do caminho exatamente quando as garras mortais fatiaram a terra onde ela estivera ajoelhada. Novamente o urso rugiu. Novamente Renn escondeu-se na depressão. Então ela ouviu novos sons: o tinir de pedras, os gemidos de uma árvore moribunda. Em sua fúria, o urso usava as garras na boca da caverna, desenraizando o teixo e fazendo-o em pedaços. Choramingando, pressionou ainda mais o corpo para dentro da depressão. Contra seu ombro, uma pedra se moveu. Com um grito, deu um salto para trás. Do outro lado, ouviu pedras se quebrando e terra sendo arremessada a distância com intenção letal. Deu-se conta do que estava acontecendo. A rocha que formava


aquele lado da fenda não era, como ela pensara, uma parte da caverna propriamente dita, mas simplesmente uma língua de pedra que se salientava do chão de terra. O urso agia com as garras em suas raízes, cavando-as para fora como se fossem um ninho de formigas da madeira. Suor escorreu pelo seu corpo. Ela olhou para Lobo. Chocada, percebeu que ele não era mais um filhote. Sua cabeça estava baixada, os olhos cravados na coisa além da depressão. Seus lábios negros estavam contraídos num rosnado, expondo magníficas presas brancas. Algo endureceu dentro dela. — Não somos como formigas da madeira — sussurrou. O som de sua voz deu-lhe coragem. Desamarrou a correia para devolver a liberdade a Lobo: talvez ele conseguisse escapar, mesmo se ela e Torak não conseguissem. Então tateou atrás do seu arco. O toque da fria e lisa madeira de teixo deu-lhe força. Colocose de pé. Concentre-se em seu alvo, disse a si mesma, lembrando-se das muitas lições que Fin-Kedinn lhe dera. Isso é o mais importante. Você precisa se concentrar com uma intensidade tal que seja capaz de queimar um buraco no alvo... E mantenha relaxado o braço do disparo, não o enrijeça. A força vem das suas costas, não do seu braço. — Vinte flechas — disse ela. — Conseguirei colocar algumas no alvo antes que ele me pegue. Saiu da depressão e tomou posição. Torak atacou os Vigias que enxameavam sobre ele. Garras agarraram seu rosto e cabelo. Asas imundas sufocaram sua boca e nariz. De algum modo conseguiu colocar a luva de Renn e alcançar o dente de pedra. Era


mais pesado do que ele havia esperado. Arrancou a luva da mão, com o dente no meio, e enfiou-a na gola do seu gibão. — Renn! — gritou enquanto forçava caminho para longe da pedra. Seu grito foi amortecido por asas de couro. Irrompeu através do fedor — mas, com a vela apagada, não conseguia sequer enxergar suas mãos diante do rosto. Fracamente e de bem distante acima vieram os uivos nervosos de Lobo: Onde você esta? Perigo! Perigo! Seguiu com dificuldade em direção ao som, com os Vigias enxameando sobre ele, empurrando-o abaixo para o fedor. Imagens terríveis atulhavam sua cabeça. Lobo e Renn caídos mortos — exatamente como Pa. Por que mandara que ficassem lá em cima, onde era ―seguro‖, quando o tempo todo era onde se encontrava o verdadeiro perigo? Enfurecendo-se interiormente, sacou sua faca da bainha e açoitou os Vigias. Estes pareceram se erguer para evitar a lâmina. — Ah, vocês têm medo dela, não é mesmo? — gritou. — Pois bem, tomem mais. — Atacou-os — e, novamente, eles se ergueram, uma nuvem escura simplesmente fora de alcance. O cabo ficou quente em sua mão. Rosnando, ele abriu caminho através do fedor. Esfolou as canelas em pedra maciça. Atingira a borda. — Estou indo — gritou, saindo e iniciando a subida da ladeira.


Um rugido sacudiu a caverna, prostrando-o de joelhos. Os Vigias ergueram-se numa nuvem e desapareceram. O silêncio após o último eco ter-se dissipado foi pior. Torak tornou-se ciente da pedra sob seus joelhos; o dente de pedra latejando dentro de seu gibão. Pelejou para se pôr de pé e correu para a borda. Era íngreme — tão íngreme. Por que não vinha nenhum som do alto? O que estava acontecendo lá em cima? Continuou escalando, escalando, até os joelhos doerem e a respiração queimar sua garganta. Então contornou a última curva e a luz o cegou. A boca da caverna estava a cinco passos de distância e era mais larga do que ele se lembrava. A fenda pela qual se espremera durante a descida fora arrombada e, diante dela, encontrava-se Renn, uma pequena e aprumada figura, incrivelmente corajosa, fazendo mira com sua última flecha para a coisa que assomava sobre ela. No período de uma pulsação, Torak esteve de volta com Pa na noite do ataque, paralisado pela maldade daqueles olhos assombrados por demônios... — Não! — gritou ele. Renn afrouxou o arco. O urso enviou-o para longe com uma varrida de suas garras. Entretanto, quando ia avançar para matar, Lobo saltou do meio das sombras — saltou não para o urso, mas para Renn. Com uma única abocanhada de suas fortes mandíbulas, Lobo arrancou a bolsa de pele de corvo de seu cinto — derrubando-a no chão, longe do alcance do urso — e depois saiu correndo da caverna. O urso atacou, furando a terra a um palmo de onde estivera o filhote. — Lobo — gritou Torak, disparando à frente.


Com a bolsa entre os dentes, Lobo desapareceu no meio da neblina. O urso fez meia-volta com impressionante agilidade e correu atrás dele. — Lobo! — voltou a gritar Torak. A neblina tragou-os, deixando a encosta vazia zombando dele. O urso sumira. E Lobo também.


VINTE E UM Onde está você?, ecoou da face da rocha o desconsolado uivo de Torak. Onde esta você?, devolveram as colinas para ele. A velha dor abriu-se em seu peito. Primeiro Pa, agora Lobo. Por favor, Lobo não... Renn estava parada diante da boca da caverna, aturdida. — Por que você o deixou sem a correia? — berrou. Ela vacilou. — Tive de fazê-lo. Tive de libertá-lo. Com um grito, Torak começou a fuçar em volta do destroço. — O que você está fazendo? — perguntou Renn. — Procuro minha mochila. Vou atrás de Lobo. — Mas já vai escurecer! — Então ficaremos sentados aqui esperando? — Não! Vamos recuperar nosso equipamento, construir um abrigo e uma fogueira. E então vamos esperar. Esperar que Lobo nos encontre. Torak conteve uma resposta. Pela primeira vez, notou que Renn tremia. Tinha um arranhão ensangüentado descendo de uma das faces e um machucado do tamanho de um ovo de pombo quase chegando ao outro olho. Sentiu-se envergonhado. Ela enfrentara o urso. Até mesmo tivera a coragem de atirar na fera. Ele não devia ter gritado. — Lamento — disse ele. — Não foi por mal... Você tem razão. Não posso rastreá-lo no escuro. Renn sentou-se pesadamente sobre uma pedra.


— Eu não fazia a menor idéia de como seria — disse ela. — Nunca pensei que pudesse ser tão... — Cobriu a boca com ambas as mãos. Torak desenterrou uma flecha do meio do entulho. A haste estava quebrada em duas. — Você o atingiu? — perguntou ele. — Não sei. Não creio que importa. Flechas não conseguem derrubá-lo. — Ela sacudiu a cabeça. — Num momento, estava atrás de mim, e no seguinte estava atrás de Lobo. Por quê? Ele jogou fora a haste quebrada. — Isso importa? — Talvez. — Deu uma olhada para ele. — Você trouxe o dente de pedra? Ele quase esquecera. Agora, ao enfiar a mão no gibão e tirar a luva, tudo o que Torak queria era se ver livre daquilo. Por causa do Nanuak, Lobo poderia estar morto. Acabaram-se as mordidelas no período, pela manhã, em que era tratado; acabaram-se as brincadeiras ruidosas de se esconder e caçar... Torak mordeu o nó do dedo, para conter seu medo. Ele não podia perder Lobo. Renn pegou a luva e movimentou-a entre os dedos. — Temos a segunda parte do Nanuak — disse ela, pensativamente — e perdemos a primeira. Mas por que Lobo a levou? Com um esforço, Torak forçou sua mente para aquilo que ela dizia. Algo chamejou em sua memória. — Você se lembra — perguntou ele — quando encontrei os olhos do rio... foi como se Lobo conseguisse ouvi-los. Ou senti-los de algum modo. Renn franziu a testa. — Você acha... o urso também consegue?


— ―Todas as brilhantes, brilhantes almas‖ — murmurou ele. — Foi isso que o Caminhante disse. Demônios detestam os vivos, eles detestam o brilho das almas. — E se as almas das criaturas comuns são tão brilhantes — deduziu Renn, levantando-se e começando a caminhar —, então o quanto mais brilhante... mais ofuscante... deve ser o Nanuak! — Foi por isso que ele a atacou, porque você tinha os olhos do rio. — E foi por isso que Lobo pegou a bolsa. Porque ele sabia. — Porque... — Ela parou de andar e encarou Torak. — Porque ele estava atraindo o urso para longe de nós. Oh, Torak. Ele salvou as nossas vidas. Torak tropeçou na beira da trilha. A neblina estava clareando finalmente, e abaixo dele a vastidão da floresta marchava para longe em direção oeste. Que chance Lobo teria ali fora, sozinho contra o urso? -Lobos são mais espertos do que ursos — lembrou Renn. Ele é apenas um filhote, Renn. Nem mesmo completou quatro luas. Mas também é o guia. Se alguém pode encontrar um meio, esse alguém é ele. Lobo corria por entre os pés de faia, o vento em seu rabo e a reluzente e estridente pele de corvo presa bem firme na mandíbula. Bem longe, ele ouviu o uivo solitário do Alto SemRabo. Lobo ansiava por responder, mas não podia. O vento carregava o cheiro do demônio em sua direção. Ele


farejava sua ira e sua terrível fome; ouvia sua incansável respiração. Mais forte de tudo, sentia seu ódio: ódio por ele e pela coisa que possuía. Mas Lobo sabia, com uma feroz e luminosa alegria, que ele jamais o pegaria. O demônio era veloz, mas ele era muito mais. Lobo não mais se sentia como um filhote que precisava esperar que os pobres, lentos sem-rabos o alcançassem. Ele era um lobo correndo por entre as árvores no veloz e incessante trote de lobo. Deleitava-se com a força de suas pernas e a distensão de suas costas, com a flexibilidade que lhe permitia partir a toda velocidade apoiado em uma única pata. Ah, não, o demônio jamais o pegaria! Lobo parou para beber em um pequeno e ruidoso Molhado, largando a pele de corvo por um momento. Então a apanhou novamente e retornou à sua caminhada, escalando elevações em direção ao Grande Frio Branco que ele só farejara em seus sonhos. Um cheiro novo afastou aquele pensamento de sua cabeça: ele estava entrando na região de uma alcatéia de lobos estranhos. A cada poucos passos que dava, ele passava pelas suas marcações de cheiro. Precisava ter cuidado. Se o avistassem, talvez atacassem. Quando precisasse despejar seu cheiro, ele esperava até chegar a outro pequeno Molhado Ligeiro, e despejava dentro dele, em vez de marcar uma árvore. Seu cheiro seria levado pela água, e nem os lobos estranhos nem o demônio o farejariam. O Escuro chegou. Lobo adorava o Escuro. Neste, cheiros e sons eram mais aguçados, mas ele conseguia enxergar tão bem quanto no Claro. Distante dali, a estranha alcatéia começou seu uivado noturno. Isso deixou Lobo triste. Lembrava-se de quão


alegremente sua alcatéia costumava uivar; quão ardentemente cumprimentavam uns aos outros depois dos seus sonos. O lamber e o fungar e o esfregar de cheiros uns nos outros; os sorrisos e os jogos enquanto encorajavam uns aos outros para a caçada. Totalmente de repente, enquanto pensava em sua alcatéia, Lobo começou a ficar cansado. Sentia, como nunca antes, cada passo atingir as rochas. Sentiu uma dor percorrer suas pernas acima. Começou a sentir dores. O medo o atormentava. Não podia seguir assim para sempre. Aliás, não podia seguir assim por muito mais tempo. Estava longe do Alto Sem-Rabo e atravessando a região de alcatéia estranha. E o demônio o seguia incansavelmente através do Escuro. Torak arrastou o que restava do equipamento para o abrigo feito com galhos de teixo, e então chutou a fogueira, enviando para o céu velozes fagulhas. Aquela espera era terrível. Ele andara uivando desde o anoitecer. Sabia que arriscava atrair o urso, mas Lobo era mais importante. Onde estava ele? Era uma noite fria e estrelada e, mesmo sem olhar para cima, podia sentir o olho vermelho do Grande Auroque cintilando para baixo em sua direção. Saboreando seu tumulto interno. Renn emergiu da escuridão carregando uma braçada de folhas e cascas de árvore. Você demorou — observou Torak brevemente. Eu precisava das coisas certas. Nenhum sinal de Lobo? Ele sacudiu a cabeça. Renn ajoelhou-se perto do fogo e despejou sua carga no chão.


- Quando procurava por essas coisas, ouvi cornetas. Cornetas de casca de bétula. Torak ficou apavorado. - O quê? Onde? Ela gesticulou com a cabeça em direção oeste. Bem longe. Era... Fin-Kedinn? Ela confirmou com a cabeça. Torak fechou os olhos. - Pensei que ele já tivesse desistido. - Ele não desiste — afirmou Renn. Havia uma sugestão de orgulho em sua voz que o deixou irritado. — Já esqueceu — disse — que ele queria me matar? ―O Ouvinte dá o sangue do seu coração para a Montanha?‖ Ela aproximou-se dele. -Claro que não esqueci! Mas estou preocupada com eles! Se o urso não está aqui em cima, então está lá embaixo, onde eles se encontram. Por que mais Fin-Kedinn tocaria a corneta? Torak sentiu-se péssimo. Renn estava, e, portanto ele também estava. Brigar não ajudaria. De seu cinturão ele desatou o pequeno apito de osso de tetraz que havia feito quando encontrara Lobo. - Tome. — Estendeu-o diante de si. — Você agora também pode chamar Lobo. Ela olhou-o surpresa. - Obrigada. Segui-se um silêncio. Torak perguntou-lhe por que precisava das ervas. - Para o dente de pedra. Precisamos dar um jeito de escondê-lo do urso. Se não conseguirmos, ele seguirá o nosso rastro.


Como está seguindo o rastro de Lobo, pensou Torak. A dor no seu peito se intensificou. Se as folhas de sorveira-brava e a algibeira não conseguiram esconder os olhos do rio — disse ele —, por que você acha que casca de árvore e absinto podem funcionar melhor? Porque vou usá-los para algo mais forte. — Mordiscou o lábio. — Tenho tentado me lembrar exatamente o que Saeunn faz. Ela estava sempre tentando me ensinar magia, e eu estava sempre indo caçar em vez disso. Gostaria de ter dado ouvidos a ela. — Você tem sorte por haver alguma coisa que possa fazer — murmurou Torak. - Mas e se eu errar? Ele não respondeu. Podia sentir o olho vermelho zombando dele. Ainda que Lobo achasse um caminho de volta, traria o urso consigo, atraído pelos olhos do rio. E o único modo de Lobo se livrar do urso seria perder os olhos do rio — o que significaria que não haveria nenhuma chance de destruir o urso. Tinha de haver uma solução; mas Torak não conseguia vê-la. Lobo estava se cansando depressa. Não havia nenhuma solução. Agora o demônio estava muito atrás para poder sentir a pele de corvo, mas ainda o seguia pelo faro e continuaria seguindo-o. Quando, finalmente, ele diminuísse a velocidade, como ansiavam suas patas doloridas, a coisa o pegaria. A estranha alcatéia havia muito encerrara seus uivos e fora caçar, bem longe, nas montanhas. Lobo sentia falta das vozes deles. Senti-se realmente sozinho.


O vento rondou e ele captou um novo cheiro. Rena. Lobo nunca havia caçado rena, mas conhecia o cheiro muito bem, pois sua mãe costumava trazer-lhe os galhos que cresciam nas cabeças das renas, com a pele pendurada em deliciosos pedaços mastigáveis. Agora, enquanto farejava o rebanho no vale ao lado, o desejo de sangue pôs nova força em seus membros e a esperança aumentou dentro dele. Se conseguisse alcançá-lo... À medida que se impulsionava encosta acima, o estrondo de muitos cascos aproximava-se. De repente, as grandes presas irromperam acima dele, galopando com as cabeças galhadas no alto e suas enormes patas cambaias, enquanto seguiam por entre os pés de faia como um irrefreável Molhado Ligeiro. Lobo girou sobre uma pata e saltou para o meio deles, e eles elevaram-se acima enquanto o filhote mergulhava naquele cheiro almiscarado. Um touro atacou e Lobo desviou dos galhos da cabeça. Uma vaca roncou em sua direção, para ficar longe de seu bezerro, e ele mergulhou por baixo dela a fim de escapar de suas patas martelantes. Mas tão logo o rebanho percebeu que ele não os estava caçando deixou-o de lado. Ele correu vale acima: seu cheiro engolido pelo do rebanho. Deixaram as faias e correram através de uma floresta de abetos. As pedras tornaram-se maiores, as árvores, menores; então as árvores foram deixadas inteiramente para trás enquanto riscavam uma planície pedregosa como algo que ele nunca vira. Pelo cheiro do vento, Lobo sabia que essa planície se estendia por um longo trote dentro do Escuro, e que depois dela ficava o Grande Frio Branco. O que era aquilo? Ele não sabia. Mas em algum lugar mais além fica a


coisa que o chamara de seu primeiro covil, atraindo-o para fora... Distante atrás dele, o demônio urrou. A coisa perdera o seu faro! Encantado, Lobo jogou a pele de corvo bem alto no ar e apanhou-a com uma dentada. Após algum tempo, outro ruído chegou até ele. Muito fraco, mas inconfundível: o chamado alto e claro que Alto Sem-Rabo produz quando coloca o osso de pássaro no focinho! Então outro som ainda mais adorado: o próprio Alto Sem-Rabo uivando por ele! O som mais bonito na floresta! A rena continuava correndo, mas Lobo sabia que teria de voltar e seguir novamente para a floresta. Ainda não era tempo de alcançar o Grande Frio Branco e o que há além dele; ele tinha de voltar e apanhar Alto Sem-Rabo.


VINTE E DOIS Renn estava aconchegada dentro de seu saco de dormir, pensando em se levantar, quando Torak surgiu na entrada do abrigo, fazendo-a pular. - Está na hora de partirmos — disse ele, acocorando-se ao lado do fogo e entregando-lhe uma tira de carne de veado seca. Pelas olheiras, Renn adivinhou que ele não dormira nem um pouco melhor do que ela. Ela sentou-se e deu uma dentada indiferente na sua refeição do dia. A sensação no arranhão em sua bochecha era de quentura, e o machucado acima do olho doía. Pior do que isso, porém, era o temor rastejante. Não era apenas a proximidade da caverna, ou pavor do urso. Era algo mais: algo sobre o qual ela não queria pensar. - Achei o rastro — informou Torak, interferindo em seus pensa mentos. Ela parou no meio de uma mastigada. - Que direção eles tomaram? — Oeste, dando a volta pelo outro lado da colina, e depois descendo para um bosque de faias. — Esticou a mão e atiçou o fogo, o fino rosto penetrante com ansiedade. — O urso estava logo atrás dele. Renn imaginou Lobo correndo através da floresta com o urso se aproximando. - Torak — sugeriu ela —, já se deu conta de que, quando seguir mos os rastros de Lobo, também estaremos seguindo o urso? — Já. - E se o alcançarmos...


— Eu sei — interrompeu —, mas estou farto de esperar. Esperamos a noite toda, e nada ainda. Precisamos ir em frente e encontrá-lo. Pelo menos eu irei. Você pode ficar aqui... — Não! Claro que vou com você! Eu estava apenas comentando. — Olhou para a luva de pele de salmão pendendo da estaca de sustentação do telhado. — Você acha que vai dar certo? — perguntou Torak seguindo o olhar dela. - Não sei. O feitiço parecera tão inteligente quando ela lhe explicara no dia anterior. - Quando alguém adoece — dissera ela, sentindo-se muito importante — normalmente é porque comeu algo ruim. Mas às vezes é porque suas almas foram atraídas para longe por demônios. As almas doentes precisam ser salvas. Já vi Saeunn fazer isso uma porção de vezes. Ela amarra pequenos anzóis nas pontas dos dedos para ajudála a apanhar as almas doentes; depois toma uma poção especial para soltar suas próprias almas, a fim de que possam deixar o corpo dela e encontrar o... - O que isso tem a ver com o Nanuak? — Já vou lhe contar — dissera ela com um olhar tranqüilizador. — Para encontrá-las, Saeunn precisa esconder suas próprias almas dos demônios. — Ah. Então se você fizer o que ela faz, pode esconder o Nanuak do urso? — Creio que sim. Para se disfarçar, ela lambuza o rosto com absinto e sangue da terra, depois coloca uma máscara de casca de sorveira-brava amarrada com cabelos de cada membro do clã. E isso que vou fazer. Bem, de certa forma.


Depois disso, fez uma caixinha dobrando casca de sorveira-brava e lambuzou-a de absinto e ocre vermelho. Em seguida, colocou dentro o dente de pedra, e amarrou tudo com cachos de seu próprio cabelo e do de Torak. Fora um alívio fazer algo em vez de se preocupar com Lobo, e ela sentiu-se orgulhosa de si mesma. Mas agora, na congelante alvorada, dúvidas acumulava-se. Afinal de contas, o que ela sabia sobre magia? - Vamos — disse Torak com um salto. — As pistas são satisfatórias. A Luz está boa e baixa. Renn esquadrinhou fora do abrigo. - E o urso? Ele pode ter perdido o faro de Lobo e estar voltando para nos pegar. Duvido — disse ele. — Acho que ele continua atrás de Lobo. De algum modo, isso não fez com que ela se sentisse melhor. O que há de errado? — perguntou Torak. Ela suspirou. O que Renn queria dizer era: ―Eu sinto muita, muita falta do meu clã; tenho medo de que FinKedinn jamais me perdoe por ajudar você a fugir; acho que somos loucos por estar seguindo intencionalmente a pista do urso; tenho a terrível sensação de que vamos acabar no único lugar aonde jamais eu quis ir; e estou preocupada porque nem mesmo deveria estar aqui, pois, ao contrário de você, não sou o Ouvinte e não estou na profecia, eu sou apenas Renn. Mas não adianta lhe dizer nada disso, pois tudo em que consegue pensar agora é encontrar Lobo.‖ Portanto, no final das contas, ela disse simplesmente: — Nada. Não há nada errado. Torak lançou-lhe um olhar descrente e começou a apagar a fogueira batendo nela com o pé.


Toda a manhã eles seguiram a trilha através do bosque de faias e depois em meio a uma floresta de abetos, virando para nordeste e escalando constantemente. Como sempre, Renn ficou impressionada com a habilidade de Torak em seguir pistas. Ele parecia entrar em transe esquadrinhando a terra com infinita paciência, e freqüentemente descobrindo minúsculos sinais que a maioria dos caçadores adultos teria deixado passar. Corria a metade da tarde e a luz começava a enfraquecer quando ele parou. - O que foi? — indagou Renn. - Shi! Acho que ouvi algo. — Colocou a mão em concha no ouvi do. — Ali! Está ouvindo? Ela sacudiu a cabeça. O rosto dele abriu-se num sorriso. — É Lobo! — Tem certeza? — Eu reconheceria seu uivo em qualquer lugar. Venha, ele está naquela direção. — Apontou para leste. O coração de Renn quase parou. Leste não, pensou ela. Por favor, leste não. À medida que Torak seguia o som, o chão se tornava mais pedregoso e as árvores se encolhiam para a altura da cintura, iguais a pés de bétula e salgueiros. - Tem certeza de que ele está aqui? — indagou Renn. — Se continuarmos avançando, vamos acabar no urzal. Torak não a ouviu; ele corria à frente. Desapareceu atrás de uma enorme pedra, e poucos instantes depois ela o ouviu chamar nervosamente o seu nome. Subiu correndo a encosta e contornou a pedra bem diante de um gelado vento setentrional. Cambaleou para


trás. Eles haviam chegado à própria borda da floresta. A borda do urzal. Diante dela estendi-se uma vasta amplidão sem árvores, onde a urze e salgueiros atrofiados se abraçavam no chão na vã tentativa de evitar o vento; onde pequenos lagos cor de turfa tremiam em meio ao agitado capim do brejo. À distância, uma traiçoeira encosta com pedras soltas amontoadas elevava-se acima do urzal, e mais além erguiam-se as Montanhas Altas. Mas entre a encosta de pedras soltas amontoadas e as montanhas, vislumbradas apenas como um branco resplendor, encontrava-se o que Renn temia. Torak, é claro, estava alheio a tudo isso. - Renn! — gritou, o vento açoitando sua voz para longe. — Aqui! Olhando para trás, ela viu que ele estava ajoelhado na margem de um estreito riacho. Lobo estava caído perto dele, os olhos fechados, a bolsa de pele de corvo sobre sua cabeça. — Ele está vivo! — berrou Torak, enterrando o rosto no molhado pêlo cinzento. Lobo abriu um olho e sacudiu fracamente o rabo. Aos trambolhões, Renn atravessou as urzes em direção a eles. — Está exausto — disse Torak sem olhar para cima — e todo molhado. Esteve correndo no córrego para enganar o urso em relação ao seu faro. Foi muita esperteza, não? Renn olhou em volta, temerosa. - Mas funcionou? - Ah, sim — afirmou Torak. — Veja todos esses caminheiros do brejo. Eles não estariam aqui se o urso estivesse por perto.


Desejando partilhar sua confiança, Renn ajoelhouse e remexeu em sua mochila atrás de um bolo de salmão para dar a Lobo. Foi recompensada com outra sacudida de rabo, ligeiramente mais forte. Era maravilhoso ver Lobo novamente, mas ela sentiu-se estranhamente desligada. Muito mais coisas se aglomeravam sobre ela; muitas coisas das quais Torak não sabia a respeito. Apanhou a algibeira de pele de corvo, afrouxou a extremidade e verificou seu interior. Os olhos do rio permaneciam em seu ninho de folhas de sorveira-brava. - Sim, traga isso — disse Torak, erguendo Lobo nos braços e pousando-o delicadamente em um pedaço de terra com o macio capim do brejo. — Precisamos esconder isso imediatamente do urso. Renn desatou a caixa de casca de sorveira-brava que guardava o dente de pedra e despejou dentro os olhos do rio; em seguida, voltou a amarrar a caixa, colocou-a de volta na bolsa e amarrou-a em seu cinturão. — Ele vai ficar bem — informou Torak, curvandose para dar uma afetuosa lambida no focinho do filhote. — Podemos fazer um abrigo bem ali, a sotavento daquela encosta. Fazer uma fogueira, deixá-lo descansar. — Aqui não — falou Renn rapidamente. — Devemos voltar para a floresta. — Naquele urzal assolado pelo vento, senti-se exposta, como uma lagarta pendurada num fio. — É melhor ficarmos aqui — insistiu Torak. Apontou para o norte, na direção da encosta com pedras soltas e o branco resplandecer. — Aquele é o caminho mais rápido para a montanha. A barriga de Renn retesou-se.


— O quê? Do que está falando? — Lobo me contou. É por ali que teremos de ir. — Mas... não podemos subir ali. — Por que não? — Porque é o rio de gelo! Torak e Lobo olharam surpresos para ela, e Renn vi-se encarando dois pares de olhos lupinos; um cor de âmbar, o outro cinza-claro. Isso a fez se sentir completamente deixada de lado. — Mas, Renn — disse Torak pacientemente —, aquele é o caminho mais curto para a Montanha. — Não me importa! — Ela tentou pensar em algum motivo que ele aceitasse. — Ainda precisamos encontrar a terceira peça do Nanuak, lembra? ―Mais fria de todas, a luz que anoitece.‖ Não vamos encontrá-la lá em cima, vamos? Faz frio, é claro, mas não há nada lá em cima! — Nada, a não ser a morte, acrescentou para si mesma. — Você viu o olho vermelho ontem à noite — frisou Torak. — Está mais alto. Temos apenas poucos dias... — Não está ouvindo? — berrou ela. — Não podemos atravessar o rio de gelo! — Podemos sim — rebateu ele com uma calma apavorante. — Encontraremos um meio. — Como? Nós dois só temos uma pele de água e quatro flechas! Quatro flechas! E o inverno está chegando, e você só tem roupas de verão! Ele olhou-a pensativo. — Não é por isso que você não quer subir lá. Ela colocou-se de pé com um salto e afastou-se; em seguida, retornou. E disse: — Meu pai morreu num rio de gelo exatamente como aquele.


O vento sibilava tristemente sobre o urzal. Torak olhou abaixo para Lobo, depois de volta para ela. — Foi uma avalanche — contou. — Ele estava no rio de gelo do outro lado do Lago Cabeça-de-Machado. Metade de um rochedo de gelo desabou sobre ele. Seu corpo só foi encontrado na primavera. Saeunn precisou fazer um ritual especial para juntar suas almas. — Lamento — disse Torak. — Eu não... — Não estou lhe contando isso para que sinta pena de mim — atalhou ela. — Estou lhe contando para que você entenda. Ele era um caçador forte e experiente que conhecia as montanhas... mesmo assim, o rio de gelo o matou. Que esperança... que chance... você acha que temos?


VINTE E TRÊS — Fique muito, muito quieto — cochichou Renn. — Qualquer ruído repentino, e isso pode despertar. Torak esticou o pescoço para os rochedos de gelo que se elevavam sobre eles. Já tinha visto gelo antes, mas nada como isso. Não esses penhascos afiados como uma faca e fendas profundas, esses pingentes de gelo mais altos do que árvores. Era como se uma enorme onda arqueada tivesse sido congelada com apenas um toque do dedo do Espírito do Mundo. Mesmo assim, quando ele vislumbrou os rochedos a partir da encosta com pedras soltas, eles pareceram apenas uma prega no vasto e revolvente rio de gelo. Após deixar Lobo descansar durante um dia na beira do lago, eles caminharam penosamente através do pântano e acima da encosta com pedras soltas, onde acamparam em uma concavidade que mal fornecia abrigo contra o vento. Não houvera sinal do urso. Talvez o feitiço do despistamento tivesse funcionado; ou talvez, como salientou Renn, o urso estivesse no oeste, levando a destruição para os clãs. Na manhã seguinte, escalaram o flanco do rio de gelo e seguiram para o norte. Era loucura caminhar sob os rochedos de gelo, pois a qualquer momento uma avalanche de neve poderia destruí-los, mas eles não tinham escolha. O caminho para o oeste estava bloqueado por uma torrente de água derretida que cavara um profundo sulco azul. Era impossível movimenta-se em silêncio. A neve era quebradiça e suas botas a trituravam ruidosamente. A


nova capa de junco de Torak crepitava como folhas mortas; mesmo a respiração dele soava ensurdecedora. Por toda a volta ele ouvia estranhos rangidos e gemidos ecoantes: o rio de gelo murmurando em seu sono. Não parecia que precisaria muita coisa para acordá-lo. Estranhamente, isso não parecia incomodar Lobo. Ele amava a neve: lançando-se sobre ela e arremessando pelotas de gelo bem alto no céu, depois deslizando até parar para ouvir lemingues e ratazanas da neve entocandose debaixo da superfície. Agora ele parou para cheirar um pedaço de gelo, e alisou-o com uma pata. Como este não reagiu, ele se apoiou nas patas dianteiras e perguntou-lhe se queria brincar, ganindo convidativamente. — Shi! — ciciou Torak, esquecendo-se de falar lobo. — Shi! — ciciou Renn mais adiante. Desesperado para calar Lobo, Torak fingiu avistar uma presa distante, permanecendo completamente imóvel e olhando atentamente. Lobo imitou-o. Mas, quando não captou nenhum cheiro ou som, contraiu os bigodes e olhou para Torak. Cadê? Cadê a presa? Torak espreguiçou-se e bocejou. Não há presa. O quê? Então por que estamos caçando? Apenas fique quieto! Lobo emitiu um leve e magoado ganido. — Vamos! — cochichou Renn. — Precisamos atravessar antes do cair da noite! Era congelante à sombra dos rochedos de gelo. Eles haviam feito o que era possível enquanto estavam acampados à beira do lago: encheram as botas com capim


do brejo, fizeram luvas e chapéus da pele do salmão de Renn e do resto do couro cru, e uma capa para Torak, de feixes de junco amarrados com capim do brejo e depois costurados com tendões. Mas isso estava longe de ser o bastante. Suas provisões também escasseavam: uma pele de água e salmão e carne de rena secos o suficiente para apenas mais dois dias. Torak podia imaginar o que Pa diria. Uma jornada na neve não é brincadeira, Torak, Se pensa que é, acabará morto. Ele estava dolorosamente ciente de que, de fato, não sabia muito sobre neve. Como dissera Renn, com sua costumeira e inabalável exatidão: ―Tudo que sei é que torna muito mais fácil seguir um rastro, é excelente para se fazer bolas de neve e, se você for apanhado numa tempestade de neve, tem de cavar para si uma caverna na neve e esperar até ela passar. Mas isso é tudo que sei.‖ A neve ficou mais profunda, e logo eles avançavam com dificuldade com ela na altura das coxas. Lobo ficou para trás, deixando espertamente que Torak abrisse o caminho a fim de que ele pudesse caminhar nas suas pegadas. — Espero que ele saiba o caminho — disse Renn, mantendo a voz baixa. — Eu nunca estive tão distante assim ao norte. — Alguém já esteve? — comentou Torak. Ela ergueu as sobrancelhas. — Ora, já. Os Clãs do Gelo. Mas eles vivem nas planícies, e não no rio de gelo. — Os Clãs do Gelo? — Os Raposas Brancas. Os Ptármigas. Os Narvais. Mas certamente você...


— Não — disse ele, chateado. — Eu não. Eu nem mesmo... Atrás dele, Lobo deu um grunhido urgente. Torak virou-se e viu o filhote saltar para se abrigar sob um arco de gelo maciço. Em seguida, olhou para cima. — Cuidado! — gritou, agarrando Renn e empurrando-a para baixo do arco. Um estrondoso estalido — e eles foram envolvidos por uma rugidora brancura. Gelo ribombou em volta deles, esmagando a neve, explodindo em cacos letais. Apertado debaixo do arco, Torak rezava para que este não desabasse. Se desabasse, eles seriam esparramados sobre a neve como amoras alpinas esmagadas... A avalanche terminou tão abruptamente quanto começara. Torak soltou um demorado suspiro. Agora tudo o que ele conseguia ouvir era o suave assentar da neve. — Por que o gelo parou? — ciciou Renn. Torak sacudiu a cabeça. Talvez ele tenha apenas se virado durante o sono. Renn olhou para o gelo empilhado em volta deles. — Se não fosse por Lobo, nós agora estaríamos aí embaixo. — Estava pálida e suas tatuagens do clã pareciam lívidas. Torak imaginou que ela estava pensando em seu pai. Lobo ficou de pé e sacudiu o corpo, espalhando neve molhada em cima deles. Deu alguns passos, inspirou fundo, e esperou que os dois se juntassem a ele. — Vamos — disse Torak. — Acho que é seguro. — Seguro? — resmungou Renn.


À medida que o dia transcorria e o sol viajava para o poente através de um céu nublado, apareciam poças de água derretida na neve, mais intensamente azul do que qualquer coisa que Torak já vira. Tornava-se constantemente mais quente. Por volta da metade da tarde, o sol atingiu os rochedos e, num piscar de olhos, as sombras congelantes tornara-se um perfeito clarão branco. Em pouco tempo Torak estava suando debaixo de sua capa de junco. — Aqui — chamou Renn, entregando-lhe uma tira de entrecasca de bétula. — Corte ranhuras nisto e amarre em volta dos olhos. Caso contrário, ficará cego pela luz refletida da neve. — Pensei que você nunca tinha estado tão ao norte. — Nunca estive, mas Fin-Kedinn esteve. Ele me falou a respeito disso. Torak ficou incomodado em ter de olhar através de uma estreita ranhura, quando precisava estar alerta — quando, vez por outra, uma placa de neve ou um gigantesco pingente desciam com um som surdo dos rochedos. Enquanto se arrastavam à frente, notou que Renn vinha vagarosamente atrás. Isso nunca acontecera antes. Normalmente ela era mais rápida do que ele. Esperando que Renn o alcançasse, ficou chocado em ver que os lábios dela tinham uma coloração azulada. Perguntou-lhe se estava bem. Ela sacudiu a cabeça e curvo-se, apoiando as mãos nos joelhos. — Tem sido assim o dia todo — disse ela. — Sinto-me... sugada. — Acho. . Acho que é o Nanuak.


Torak senti-se culpado. Estivera se concentrando tanto em não acordar o rio de gelo que esquecera que todo esse tempo ela vinha carregando a bolsa de pele de corvo. — Me dê aqui — pediu. — Vamos nos revezar. — Ela fez que sim. — Mas carregarei a pele de água. É justo. Fizeram a troca. Torak amarrou a algibeira em seu cinturão, enquanto Renn olhava por cima do ombro para ver o quanto eles haviam avançado. — Lentos demais — observou ela. — Se não conseguirmos atravessar até o cair da noite... Não precisou acrescentar o resto. Torak imaginouos cavando uma caverna de neve e se escondendo no escuro, enquanto o rio de gelo inchava e gemia à sua volta. Perguntou: — Você acha que temos lenha suficiente? Novamente Renn sacudiu a cabeça. Antes de seguirem para a encosta com pedras soltas, cada um havia juntado um feixe de lenha e preparado um pequeno fogo para levar junto. Para isso, cortaram um pequeno pedaço de cogumelo casco-de-cavalo, que cresce em pés mortos de bétula, tocaram fogo nele e logo apagaram, para que ficasse apenas em combustão lenta, sem chamas. Em seguida, o enrolaram em casca de bétula, perfuraram a casca várias vezes, para deixar o fogo respirar, e taparam o rolo com barba-de-velho para mantê-lo adormecido. O fogo poderia ser carregado o dia todo, dormindo silenciosamente, mas pronto para ser despertado com isca e sopros quando precisassem dele. Torak calculou que teriam lenha suficiente para durar talvez uma noite. Se soprasse uma tempestade e tivessem de cavar durante dias, eles congelariam.


Continuaram avançando penosamente, e logo Torak entendeu por que o Nanuak havia cansado Renn. Ele já podia senti-lo pesando, puxando-o para baixo. De repente, Renn parou, arrancando dos olhos a tira de entre — casca de bétula. — Onde foi parar o riacho? — ofegou. — O quê? — perguntou Torak. — A água derretida! Acabei de notar. Aquele sulco sumiu. Você acha que isso significa que podemos sair de baixo dos rochedos? Tirando a sua tira de entrecasca, Torak olhou de soslaio para a neve. Não conseguia ver o clarão. — Ainda consigo ouvi-Los— — falou, indo mais adiante para investigar. — Talvez tenha afundado mais ainda debaixo do... Não recebeu qualquer aviso. Nenhum estalido no gelo, nenhum ―vump‖ de neve desabando. Num momento, ele caminhava; no seguinte, caía em direção ao nada.


VINTE E QUATRO Torak bateu o joelho tão dolorosamente que soltou um grito. — Torak — sussurrou Renn lá de cima. — Você está bem? — Acho que... sim — respondeu ele. Mas não estava. Tinha caído em um buraco de gelo. Apenas uma minúscula beirada evitara que ele desabasse para a morte. No escuro ele percebeu que o buraco era estreito — esticando as mãos podia tocar nos lados — mas de profundidade incalculável. Bem distante, lá embaixo, ele ouviu correr a torrente da água derretida. Ele estava dentro do rio de gelo. De que modo conseguiria sair? Renn e Lobo olhavam abaixo para ele. Deviam estar três passos acima. Era como se fossem trinta. Agora sabemos para onde foi a água derretida — comentou ele, pelejando para se manter calmo. — Você não está assim tão distante — observou Renn, tentando encorajá-lo. — E pelo menos ainda tem a sua mochila. — E meu arco — rebateu, esperando não parecer por demais assustado. — E o Nanuak. — A algibeira continuava amarrada firme mente no seu cinturão. O Nanuak, pensou ele, aterrorizado. E se não conseguisse sair? Estava preso lá embaixo, e o Nanuak ficaria preso com ele. Sem o Nanuak não haveria nenhuma chance de destruir o urso. A floresta inteira estaria condenada: condenada porque ele não olhou onde pisava... — Torak? — sussurrou Renn. — Você está bem?


Ele tentou dizer sim, mas a palavra saiu como um grasnido. — Não tão alto — murmurou Renn. — Isso pode fazer desabar outra avalanche... ou... ou tapar o buraco com você dentro dele. — Obrigado — resmungou ele —, eu não tinha pensado nisso. — Aqui, tente agarrar isto. — Curvando-se perigosamente sobre a borda, ela dependurou sua machadinha, a cabeça à frente e o cabo amarrado em volta do seu pulso. — Você não vai agüentar o meu peso — falou para ela. — Eu puxaria você para baixo, e poderíamos cair... ―Cair, cair‖, ecoou o gelo em volta dele. — Há algum modo de você conseguir escalar o buraco e sair? — quis saber Renn, começando a parecer vacilante. — Provavelmente. Se eu tivesse as garras de um carcaju. ―Garras, garras‖, entoou o gelo. Isso deu uma idéia a Torak. Lentamente, com medo de escorregar para fora da beirada, ele desprendeu a mochila de um ombro e checou para ver se ainda tinha as galhadas do corço. Tinha. Eram curtas e suas raízes tinham bordas denteadas. Se conseguisse amarrar uma a cada pulso e agarrar suas pontas, talvez pudesse usar as raízes como picadores de gelo e saísse dali como se tivesse garras. — O que vai fazer? — perguntou Renn. — Você vai ver — disse ele. Não tinha tempo para explicar. A beirada ficava escorregadia sob suas botas, e o joelho doía.


Deixando as galhadas na mochila até precisar delas, Torak pegou a machadinha de seu cinturão. — Preciso fazer uns entalhes no gelo — gritou para Renn. — Espero que o rio de gelo não sinta. Ela não respondeu. Claro que o rio sentiria. Mas que escolha tinha Torak? O primeiro golpe com a machadinha mandou chocalhantes lascas de gelo para o abismo. Mesmo que o rio de gelo não tivesse sentido aquilo, pelo menos devia ter ouvido. Trincando os dentes, Torak Forçou-se a desferir outro golpe. Mais fragmentos desceram ruidosamente, os ecos retumbando sem parar. O gelo era duro e ele não ousava dar muito impulso na machadinha com medo de cair da beirada, mas, após várias ansiosas desbastadas conseguiu quatro entalhes em intervalos mais ou menos uniformes até a altura que conseguiu atingir, com aproximadamente a distância de um antebraço entre uma e outra. Eram assustadoramente rasos — não mais fundos do que a junta de seu polegar — e ele não fazia idéia se agüentariam. Se colocasse seu peso em um dos entalhes talvez este cedesse, levando-o junto. Enfiando de volta a machadinha no cinturão, tirou as luvas e apalpou a mochila atrás das galhadas e das últimas tiras de couro cru. Seus dedos estavam descontrolados, por causa do frio, e amarrar as galhadas aos pulsos foi furiosamente difícil. Finalmente, usando os dentes para apertar os nós, ele conseguiu. Com a mão direita, alcançou o entalhe acima de sua cabeça e cavoucou fundo com a borda denteada da galhada. Esta penetrou e fixou. Com o pé esquerdo, procurou o


primeiro apoio para os pés, apenas um pouquinho mais alto do que a beirada. Encontrou-o e firmou o pé. Sua mochila o puxava para dentro do buraco de gelo. Desesperadamente, curvo-se à frente, pressionando o rosto no gelo — e recuperou o equilíbrio. Lobo latiu para ele se apressar. A neve era abundante em seu pêlo. — Para trás! — ciciou Renn para o filhote. Torak ouviu ruídos de uma agitação — mais neve despejando-se abaixo — e então Lobo rosnou impaciente. — Só mais um pouco — disse Renn. — Não olhe para baixo. Tarde demais. Torak acabara de fazer isso e viu de relance — o que lhe causou náuseas — o vazio abaixo. Tentou alcançar o apoio seguinte para a mão, e errou, arrancando com um estalo uma camada de gelo que quase o leva junto. Pelejou pelo apoio para a mão — e a galhada fixou bem a tempo. Lenta, lentamente, dobrou a perna direita e encontrou o apoio para o pé seguinte, cerca de um antebraço mais alto do que o que pisara com o esquerdo. Entretanto, ao se erguer apoiado nele, seu joelho começou a tremer. Ah, que inteligente, disse Torak a si mesmo. Você acaba de colocar todo o seu peso sobre a perna errada — a tal que você machucou na queda! — Meu joelho está... — arfou. — Não consigo... — Claro que consegue — incentivou Renn. — Alcance o último apoio para mão, que eu agarro você. Seus ombros queimavam — sentia a mochila como se estivesse cheia de pedras. Deu um enorme impulso e seu joelho dobrou. Então uma mão agarrou a alça de sua


mochila e ele foi meio que puxado, meio que empurrado para fora do buraco. Torak e Renn permaneceram ofegando na borda do buraco de gelo. Então erguera-se, cambalearam para longe dos rochedos de gelo e desabaram num monte de neve pulverizada. Lobo pensou que se tratava de uma grande brincadeira e saracoteava em volta deles com um enorme sorriso de lobo. Renn cedeu a uma risada de pânico... — Essa foi por pouco! Da próxima vez, olhe onde pisa! — Vou tentar! — bufou Torak. Estava deitado de costas, deixando a brisa soprar neve sobre seu rosto. Alto no céu, finas nuvens brancas se arrumavam como pétalas. Ele nunca vira algo tão belo. Atrás dele, Lobo cavava algo no gelo. — O que você tem aí? — quis saber Torak. Lobo, porém, havia libertado sua presa, jogava-a para o alto e a apanhava com as mandíbulas, em uma de suas brincadeiras favoritas. Saltava para apanhá-la em pleno ar, dava umas mastigadas, e então dava outro salto e a cuspia na cara de Torak. Outra brincadeira favorita. — Ai! — fez Torak. — Cuidado com o que faz! — Então, viu do que se tratava. Era mais ou menos do tamanho de um pequeno punho castanho, peludo e estranhamente achatado, provavelmente por uma queda de gelo. O ar de afronta em seu rostinho pareceu a Torak como inexpressivelmente engraçado. — O que é isso? — perguntou Renn, dando um gole na pele de água, Torak sentiu uma gargalhada brotar dentro de si. — Um lemingue congelado.


Renn explodiu numa risada, borrifando água por todo o gelo. — Achatado ao máximo — arfou Torak, rolando na neve. — Devia ver o rosto dele! Tão... surpreso! — Não, pare com isso! — berrou Renn, tentando se conter. Eles riram até doer, enquanto Lobo agitava-se em volta com um andar alegre e sacudido, jogando e apanhando o lemingue congelado. Finalmente, ele o jogou excessivamente alto, deu um espetacular salto sinuoso e o engoliu de uma só vez. Então decidiu que estava com calor e, para refrescar, deixo-se cair numa poça de água derretida. Renn estava sentada, limpando os olhos. — Alguma vez ele apenas foi apanhar uma coisa em vez de jogá-la em sua cara? Torak sacudiu a cabeça. — Já tentei pedir. Ele nunca faz. Ele levantou-se. Estava ficando mais frio. O vento ficara mais forte e a neve pulverizada ondeava do chão como fumaça. As nuvens tipo pétalas haviam coberto totalmente o sol. — Olhe — disse Renn ao lado dele. Ela apontava para leste. Ele olhou em volta e viu nuvens se condensarem acima dos rochedos de gelo. — Oh, não — murmurou. — Oh, sim — disse Renn. Ela teve de elevar a voz acima do vento. — Uma tempestade de neve. O rio de gelo acordara. E estava furioso.


VINTE E CINCO A fúria do rio de gelo irrompeu sobre eles com uma força aterrorizante. Torak teve de se inclinar para dentro da rajada de vento, só para permanecer de pé, e apertar sua capa para evitar que ela fosse arrancada Através da neve ondulante, ele viu Renn esforçando-se à frente com toda a sua força; Lobo cambaleando de um lado para o outro, os olhos semicerrados contra o vento. O rio de gelo os tinha em suas mãos e não iria largá-los. Ele uivou até os ouvidos de Torak doerem, e alisou seu rosto com gelo voador; fez com que andasse em círculos até ele não conseguir mais enxergar Renn, ou Lobo, ou mesmo suas próprias botas. A qualquer momento, ele poderia jogá-lo em um buraco de gelo... Através da rodopiante brancura, ele vislumbrou um pilar escuro. Uma rocha? Um monte de neve acumulada pelo vento? Seria possível que eles houvessem, finalmente, alcançado a extremidade do rio de gelo? Renn agarrou seu braço. — Não podemos prosseguir! — gritou. — Precisamos cavar um buraco e esperar até passar! — Ainda não — berrou. — Olhe! Estamos quase chegando! Ele se esforçou na direção do pilar. Este se despedaçou e se desfez. Não era nada além de uma nuvem de neve: o truque cruel do rio de gelo. Ele se virou para Renn. — Você tem razão! Precisamos cavar uma caverna de neve.


Mas Renn sumira. — Renn! Renn! — O rio de gelo arrancou o nome dela de seus lábios e o atirou no meio da noite que se formava. Caiu de joelhos e tateou atrás de Lobo. Sua luva encontrou pêlo e ele agarrou o filhote. Lobo procurava em volta o cheiro de Renn. Mas o que conseguiria até mesmo um lobo captar naquilo? Espantosamente, Lobo empinou as orelhas e partiu direto adiante. Torak pensou ter visto uma figura deslizando através da neve. — Renn! Lobo saltou atrás dela e Torak seguiu-o, mas não foi longe demais, pois o vento o arremessou contra o gelo maciço. Caiu para trás, quase esmagando o filhote. Cambaleou para o que parecia ser uma colina de gelo. Em sua lateral havia um buraco grande o suficiente para rastejar por ele. Uma caverna de neve? Certamente Renn não teria tido tempo de cavar uma tão depressa. Com um salto, Lobo desapareceu lá dentro. Após um momento de hesitação, Torak seguiu-o. O ruído do rio de gelo esmorecia à medida que ele rastejava para a escuridão. Com as luvas cobertas de gelo, tateou seus arredores. Um teto baixo, tão baixo que precisou seguir de quatro; uma placa de gelo na entrada do buraco. Alguém deve tê-la cortado para servir de porta. Mas quem? — Renn? — chamou. Nenhuma resposta. Empurrou a placa para dentro do buraco, e o silêncio se fechou em volta dele. Podia ouvir Lobo lamber a


neve de suas patas; gelo escorregar de seus próprios ombros. Ele esticou a mão e Lobo deu um grunhido de alerta. Torak recuou a mão. Os pêlos de sua nuca começaram a comichão Renn não se encontrava ali — mas algo se encontrava. Algo que esperava na escuridão. — Quem está aí? — perguntou. A escuridão gelada pareceu se tensionar. Arrancando suas luvas com os dentes, ele sacou a faca. — Quem esta aí? Ainda nenhuma resposta. Tateou atrás de uma das velas de Renn. Seus dedos estavam tão frios que deixou cair a algibeira com as iscas de fazer fogo. Levou uma eternidade para encontrá-la novamente, para bater a pederneira no risca-fogo e fazer chover centelhas sobre a pequena pilha de lascas de casca de teixo em sua mão, mas finalmente, a vela chamejou. Soltou um berro. Esqueceu o rio de gelo, esqueceu até mesmo Renn. Quase encostado a seu joelho, havia um homem. Ele estava morto. Torak achatou o corpo contra a parede de gelo. Se Lobo não o tivesse alertado, ele teria tocado no cadáver — e tocar a morte é arriscar um perigo terrível. Quando as almas deixam o corpo, podem estar zangadas, confusas, ou simplesmente relutantes em embarcar na Jornada da Morte. Se um dos vivos perambular perto demais, as almas desencarnadas podem tentar possuí-lo, ou seguI-lo até sua casa. Tudo isso percorreu a mente de Torak enquanto olhava o homem morto.


Seus lábios pareciam ter sido esculpidos em gelo; sua carne era amarela, cerosa. Neve penetrara em suas narinas numa cruel paródia de respiração, mas os olhos revestidos por uma película de gelo estavam abertos, encarando algo que Torak não conseguia ver: algo que se encontrava aninhado na curvatura de seu braço morto. Lobo parecia não ter medo e estar até mesmo atraído pelo cadáver. Permanecia com o focinho entre as patas, olhando-o fixamente. O morto usara solto seu comprido cabelo castanho, exceto por um único cacho na têmpora, entrançado com ocre vermelho. Torak pensou na mulher do VeadoVermelho na reunião dos clãs de Fin-Kedinn; ela usava o cabelo do mesmo modo. Aquele homem seria do mesmo clã? Do mesmo clã que a mãe de Torak? Sentiu a comoção da piedade. Qual era o nome daquele homem? O que estivera procurando ali, e como havia morrido? Então Torak viu que na testa morena um trêmulo círculo fora pintado com ocre vermelho. A grossa parca de inverno fora aberta violentamente, e outro círculo desenhado no esterno. Torak supôs que, se fosse imprudente o bastante para retirar as pesadas botas peludas, encontraria uma marca semelhante em cada calcanhar. Marcas da Morte. O homem deve ter sentido a morte se aproximar e desenhou as próprias marcas para que suas almas permanecessem juntas após sua morte. Deve ter sido por isso, também, que deixara a placa entreaberta: para libertar as almas. — Você foi corajoso — disse Torak em voz alta. — Não vacilou diante da morte. — Lembrou-se da figura que havia vislumbrado na neve. Teria sido uma das almas


seguindo em sua jornada final? Podia-se ver almas? Torak não sabia. — Fique em paz — falou para o cadáver. — Que suas almas encontrem seu descanso e permaneçam juntas. — Curvou a cabeça para seu parente morto. Lobo sentou-se e empinou as orelhas para o cadáver. Torak ficou espantado. Lobo parecia estar escutando. Torak aproximoU-se. O morto fitava calmamente a coisa aninhada em seu braço. Mas quando Torak viu o que era ficou ainda mais intrigado. TratavA-se de uma lamparina comum: uma forma oval de arenito alisado, medindo cerca da metade do tamanho de sua palma, com uma rasa cavidade para conter o óleo de peixe, e um sulco para o pavio de barba-de-velho torcido. O pavio havia muito se queimara e tudo que restava do óleo era uma leve mancha acinzentada. Ao lado dele, Lobo saltou um ganido alto, suave. Os pêlos do pescoço estavam eriçados, mas ele não parecia temeroso. O ganido fora... uma saudação. Torak franziu a testa. Lobo já agira assim antes. Na caverna abaixo da Queda do Trovão. Seus olhos voltaram para o morto. Imaginou seus momentos finais: enroscado na neve, observando a pequena e luminosa chama enquanto sua própria vida bruxuleava e declinava... De repente, Torak se deu conta. ―Mais fria de todas, a luz que anoitece.‖ A luz que anoitece é a última luz que um homem vê antes de morrer. Ele encontrara a terceira parte do Nanuak.


Segurando a vela com uma das mãos, Torak abriu a algibeira de pele de corvo com a outra e derrubou a caixa na neve. — Uff! — alertou Lobo. Torak soltou o cordão feito de pêlo e levantou a tampa. Os olhos do rio o olharam cegamente de baixo para cima, aninhados na curva do dente de pedra preta. Ao lado deles havia apenas o espaço suficiente para a lamparina: quase, pensou ele, como se Renn, ao fazer a caixa, soubesse qual era o seu tamanho. Com dedos dormentes, tirou uma das luvas, curvou-se sobre o morto — tomando todo o cuidado para não tocar nele — e soltou a lamparina. Foi só então, após colocá-la em segurança na caixa e de volta à bolsa, que ele se deu conta de que estivera prendendo a respiração. Estava na hora de ir embora e procurar Renn. Rapidamente, amarrou a bolsa ao seu cinturão. Mas, ao se virar para empurrar a placa para o lado, algo o fez parar. Ele tinha todas as três peças do Nanuak. Ali, naquela caverna de neve, onde se encontrava em segurança. ―Se você for apanhado numa tempestade de neve‖, dissera Renn, ―cave para si mesmo uma caverna de neve e espere nela até a tempestade passar.‖ Se ignorasse aquilo agora — se desafiasse a ira do rio de gelo para procurar por ela — provavelmente não sobreviveria. O Nanuak seria enterrado com ele. Toda a floresta estaria condenada. Se não fizesse isso, Renn poderia morrer. Torak sentava-se sobre os calcanhares. Lobo observava-o atentamente, os olhos cor de âmbar já bastante dessemelhantes aos de um filhote.


A vela tremeluzia em sua mão. Ele não podia simplesmente abandoná-la. Ela era sua amiga. Mas podia — deveria — arriscar a floresta para salvá-la? Como nunca antes, ansiou por Pa. Pa saberia o que fazer... Mas Pa não estava ali, disse a si mesmo. Você tem de decidir. Você, Torak. Sozinho. Lobo pendeu a cabeça para um lado, esperando para ver o que Torak faria.


VINTE E SEIS — Torak! — gritou Renn com toda a potência de sua voz. — Torak! Lobo! Onde estão vocês? Ela estava sozinha na tempestade. Eles poderiam estar a três passos de distância e mesmo assim ela não os veria. Eles poderiam ter caído em um buraco de gelo e ela jamais teria ouvido os gritos. O vento arremessou-a para um monte, e ela sufocou-se com a neve. Uma de suas luvas escorregou para fora da mão, e o rio de gelo soprou-a para longe. — Não! — berrou, batendo na neve com os punhos. — Não, não, não: De gatinhas, arrastou-se para dentro do vento. Fique calma. Procure neve sólida. Cave. Após uma interminável batalha, atingiu uma colina de neve. O vento a havia compactado, deixando-a dura, mas não tão dura que tivesse se tornado gelo maciço. Arrancando a machadinha do cinturão, ela começou a fazer um buraco. Torak, provavelmente, está fazendo a mesma coisa, disse a si mesma. Pelo Espírito, espero. Com surpreendente velocidade, Renn abriu um buraco do tamanho suficiente para conter a si mesma e sua mochila, se se enroscar-se bem. A escavação esquentou-a, porém não conseguia mais sentir a mão que estava sem luva. Rastejando de costas, empilhou na entrada os pedaços de gelo escavados, emparedando-se na congelante escuridão. Sua respiração logo derreteu o gelo que lhe endurecia as roupas, e ela começou a tremer. À medida que


seus olhos se adaptavam ao escuro, viu que seus dedos sem luvas estavam brancos e duros. Tentou dobrá-los, mas eles não se mexeram. Ela sabia a respeito da queimadura pelo frio: o filho do líder do Clã do Javali, Aki, perdera três dedos do pé no inverno passado. Se não aquecesse logo seus dedos, estes ficariam pretos e morreriam;então, teria de cortá-los fora, ou morreria também. Desesperadamente, soprou-os, depois enfiou a mão no gibão e colocou-a debaixo da axila. A mão pareceu pesada e fria; não mais uma parte dela. Novos temores surgiram. Ela morreria sozinha, como seu pai? Nunca mais veria Fin-Kedinn? Onde estavam Torak e Lobo? Mesmo se tivessem sobrevivido, como ela os encontraria? Retirando a luva que restara, tateou o pescoço atrás do apito de osso de tetraz que Torak lhe dera. Soprou com força. Ele não produziu nenhum som. Estaria fazendo aquilo direito? Lobo seria capaz de ouvir? Talvez funcionasse apenas para Torak. Talvez você tivesse de ser o Ouvinte. Soprou até senti-se tonta e enjoada. Eles não virão, pensou. Já devem ter se entocado há muito tempo. Se é que ainda estão vivos. O sabor do apito era salgado. Seria por causa do osso da tetraz, ou ela estava chorando? Não adianta chorar, disse a si mesma. Comprimindo bem os olhos, continuou soprando. Acordou para se descobrir flutuando num magnífico calor. A neve era tão cálida e macia quanto pele de rena. Agasalhou-se nela, tão sonolenta que nem mesmo conseguia erguer as pálpebras... sonolenta demais para rastejar para dentro do seu saco de dormir.


Vozes a mantinham desperta. Fin-Kedinn e Saeunn tinham vindo visitá-la. Gostaria que eles me deixassem dormir, pensou indistintamente. Seu irmão escarnecia como sempre. Por que ela a fez tão pequena? Por que nunca consegue fazer as coisas adequadamente? — Hord, isso não é verdade — protestou FinKedinn. — Ela fez o melhor que pôde. — Mesmo assim — disse Saeunn —, ela poderia ter feito uma porta melhor. — Eu estava muito cansada — murmurou Renn. Nesse momento, a porta abriu-se com o vento, espalhando gelo por todo o seu corpo. — Fechem a porta! — protestou. Um dos cães do acampamento pulou para cima dela, cobrindo-a de neve e cutucando seu focinho gelado atrás do queixo dela. Ela o empurrou para longe. — Cachorro mau! Vá embora! — Acorde, Renn! — gritou Torak em seu ouvido. — Estou dormindo — murmurou Renn, enterrando o rosto na neve. — Não está não — berrou Torak. Ele mesmo ansiava por dormir, mas antes tinha de abrir espaço para ele e Lobo e acordar Renn. Se ela adormecesse agora, seria para sempre. — Renn, vamos logo! — Agarrou seus ombros e sacudiu-a. — Acorde! — Deixe-me em paz — disse ela. — Estou bem. Mas não estava. Seu rosto estava pustuloso e inflamado, por causa do gelo voador, os olhos inchados quase totalmente fechados. Os dedos de sua mão direita


estavam duros e com cor de cera, debilitados, como os do cadáver Veado-Vermelho. Enquanto Torak escavava a neve, imaginava o quanto mais ela teria durado, se Lobo não a tivesse encontrado; e quanto tempo ele e Lobo teriam durado se não tivessem encontrado a caverna de neve dela. Torak estava quase esgotado; não teria tido energia para começar a fazer uma nova. Dos três, era Lobo que estava se saindo melhor. Seu pêlo era tão denso que a neve permanecia no topo dele sem sequer derreter. Uma boa sacudida e a neve saía voando, chovendo neles. Cambaleando de exaustão, Torak terminou a ampliação da caverna de neve e voltou a emparedar a entrada, deixando uma abertura no topo para permitir a saída da fumaça da fogueira que ele prometera a si mesmo. Então ajoelhou-se ao lado de Renn e, após várias tentativas, conseguiu arrancar o saco de dormir de baixo dela. — Entre aqui — rosnou ele. Ela chutou o saco para longe. Recolhendo neve com as mãos geladas, esfregou-a no rosto e nas mãos dela. — Ui! — uivou ela. — Acorde ou vou matá-la — vociferou ele. — Você está me matando — disparou ela. Sabendo que teria de fazer uma fogueira em breve, ele esfregou as mãos na neve, depois tentou aquecê-las nas axilas. Com a volta da sensação, a dor também voltou. — Ai — gemeu. — Ai, ai, como dói. — O que foi que disse? — perguntou Renn, sentando-se e batendo a cabeça no teto. — Nada.


— Disse sim, você estava falando sozinho. — Eu estava falando sozinho? Você é quem estava tagarelando com todo o seu clã! — Não estava não — rebateu indignada. — Estava sim — disse ele com um sorriso. Ela despertara, finalmente. Ele nunca ficara tão feliz em travar uma discussão. De algum modo, com o que tinham, conseguiram acender uma fogueira. Fogo precisa de calor tanto quanto de ar, portanto usaram parte de sua lenha para fazer uma pequena plataforma a fim de conter o resto da neve — e, dessa vez, em vez de se atrapalhar com o manuseio do risca-fogo, Torak lembrou do rolo de fogo em sua mochila. A princípio, o fogo no rolo de casca de bétula recusouse a acordar, mesmo quando ele o assoprou lisonjeiramente, e Renn o alimentou com migalhas de iscas de fogo aquecidas em suas mãos. Finalmente ele chamejou, recompensando o esforço dos dois com uma labareda pequena mas viva. Com os cabelos pingando e os dentes batendo, se acotovelaram acima dela, gemendo enquanto a chama descongelava suas mãos e empolava seus rostos. Mas a chama lhes dava um consolo maior do que o calor. Todas as noites de suas vidas eles tinham ido dormir com aquele crepitar sibilante e aquele penetrante cheiro agridoce de fumaça de madeira. A fogueira era uma pequena parte da floresta. Torak encontrou seu último rolo de carne seca de veado e o dividiu entre eles três. Renn passou-lhe a pele de água. Ele não sabia que estava sedento, mas, ao tomar um demorado gole, sentiu a força retornar. — Como você me encontrou? — quis saber Renn.


— Não fui eu — respondeu. — Foi Lobo. Não sei como. Ela refletiu sobre aquilo. — Acho que sei. — Mostrou-lhe o apito de osso de tetraz. Torak pensou nela soprando aquele apito silencioso na escuridão. Imaginou como teria sido, ela completamente só. Ele, pelo menos, tinha Lobo. Contou-lhe sobre o cadáver Veado-Vermelho e a descoberta da terceira parte do Nanuak. Não mencionou o terrível momento em que cogitou não tentar encontrála. Sentiu-se por demais envergonhado. — Uma lamparina de pedra — murmurou Renn. — Isso nunca passaria pela minha cabeça... — Quer vê-la? Ela sacudiu a cabeça. Após um instante, disse: — Se fosse eu, teria pensado duas vezes em deixar a caverna de neve. Você estava colocando o Nanuak em risco. Torak ficou calado. Então, disse: — Eu pensei duas vezes. Pensei em ficar, e não sair para procurar você. Ela ficou calada. — Bem — garantiu ela —, eu teria feito a mesma coisa. Torak não sabia se se sentiu melhor ou pior por terlhe contado. — Mas o que teria feito — perguntou. — Teria ficado? Ou saído para me procurar? Renn limpou o nariz com as costas da mão. Então deu-lhe seu largo sorriso de dentes afiados. — Quem sabe? Mas talvez... quem sabe foi outro tipo de teste?


— Não se você seria capaz de encontrar a terceira parte do Nanuak, mas se seria capaz de pô-lo em risco por um amigo. Torak acordou para um silencioso brilho azul. Não sabia onde estava. — A tempestade passou — disse Renn — e estou com cãibra no pescoço. Torak também. Aconchegado em seu saco de dormir, virou-se para encará-la. Seus olhos não estavam mais inchados, mas o rosto estava vermelho e descascando. Quando ela riu, obviamente doeu. — Ai! — grasniu. — Sobrevivemos! Ele devolveu o sorriso, mas logo se arrependeu. A sensação em seu rosto era como se este tivesse sido esfregado com areia. Provavelmente, sua aparência era semelhante à de Renn. — Agora, tudo o que temos a fazer é sair do rio de gelo — disse ele. Lobo gania para que o deixassem sair. Torak tateou atrás da sua machadinha e abriu um buraco na neve. A luz jorrou para dentro e Lobo disparou para fora. Torak rastejou atrás dele. Ele emergiu em um resplandecente mundo de colinas de neve e espinhaços esculpidos pelo vento. O céu era de um azul intenso, como se tivesse acabado de ser lavado. A tranqüilidade era absoluta. O rio de gelo voltara a dormir. Sem aviso, Lobo lançou-se sobre ele, derrubando-o em um monte de neve acumulada pelo vento. Antes que ele conseguisse levantar, Lobo pulou para seu peito, arreganhando os dentes e balançando o rabo. Gargalhando,


Torak tentou dar o bote, mas Lobo esquivou-se de seu alcance, em seguida girou em pleno ar e curvou a cabeça em reverência, com o rabo sobre as costas. Vamos brincar! Torak abaixou-se, apoiado nos antebraços. Então venha! Lobo arremessou-se para Torak e, juntos, rolaram várias vezes, Lobo brincando de morder e arrancar o cabelo de Torak, e Torak de agarrar seu focinho e de puxar o pêlo de seu cangote. Finalmente, Torak jogou uma bola de neve bem alto, Lobo deu um dos seus espantosos saltos torcidos e a abocanhou, pousando num monte de neve e emergindo com um primoroso montinho de neve no topo do focinho. Enquanto Torak lutava esbaforido para se pôr de pé, ouviu Renn sair da caverna de neve. — Espero — bocejou ela — que não estejamos muito longe da floresta. O que houve com sua capa? Estava para lhe contar que a tempestade a havia descosido e a levado embora, quando se virou — e esqueceu a capa. A leste além da caverna de neve — além do próprio rio de gelo — as Montanhas Altas estavam terrivelmente perto. Por muitos dias a neblina as escondera; então, no dia anterior, os rochedos de gelo haviam assomado tão próximo que nada pôde ser visto além deles. Agora, sob a luz clara e fria, as montanhas devoravam o céu. Torak vacilou. Pela primeira vez em sua vida, elas não eram apenas uma distante escuridão no horizonte oriental. Ele estava de pé sobre as próprias raízes das montanhas: esticando o pescoço para as vastas e abruptas faces


de gelo, para os picos negros que perfuravam as nuvens. Sentia seu poder e ameaça. Eram a residência de espíritos. Não de homens. Em algum lugar entre elas, pensou, está a Montanha do Espírito do Mundo. A montanha que eu jurei encontrar.


VINTE E SETE O olho vermelho erguia-se. Torak tinha apenas poucos dias para encontrar a montanha. Mesmo se ele a encontrasse, e daí? O que teria de fazer realmente com o Nanuak? Como conseguiria destruir o urso? Os pés de Renn trituravam ruidosamente a neve para se manter ao lado dele. — Ora vamos — disse ela. — Temos de sair do rio de gelo e voltar para a floresta. Naquele momento, Lobo deu uma arrancada e correu para o topo de uma elevação de gelo, virando as orelhas na direção do sopé. — O que foi? — cochichou Renn. — O que ele ouviu? Então Torak também ouviu: vozes distantes nas montanhas, movimentando-se no vento, a constantemente mutável canção da alcatéia de lobos. Lobo arremessou a cabeça para trás, apontou o focinho para o céu, e uivou. Eu estou aqui! Eu estou aqui! Torak ficou abismado. Por que ele uivava para uma alcatéia estranha? Lobos solitários não fazem isso. Tentam evitar lobos estranhos. Com um ganido, pediu a Lobo que viesse até ele — mas Lobo permaneceu onde estava: olhos semicerrados, lábios negros pressionados contra os dentes enquanto emitia sua canção. Torak notou que ele parecia bem menos um filhotinho. Suas pernas estavam mais compridas, e ele estava desenvolvendo um manto de espesso pêlo negro em volta dos ombros. Até mesmo seu uivo estava perdendo a modulação típica de um filhote.


— O que Lobo está falando para eles? — perguntou Renn. Torak estancou. — Está lhes dizendo onde ele está. — E o que eles estão dizendo? Torak escutou, sem tirar os olhos de Lobo. — Estão falando com dois da sua alcatéia: sentinelas que foram até a urjedos à procura de renas. Parece que... — deteve-se. — Sim, encontraram uma pequena manada. As sentinelas estão dizendo aos outros onde ela está, e que eles devem uivar com os focinhos na neve. — Por quê? Do que adianta? — E um truque que os lobos fazem, às vezes, para que as renas pensem que eles estão mais distantes do que estão na realidade. Renn pareceu preocupada. — Você entende tudo isso? Ele deu de ombros. Ela cavou a neve com o calcanhar. — Não gosto quando você fala lobo. É esquisito. — Eu não gosto quando Lobo fala com outros lobos — disse Torak. — Isso também é esquisito. Renn perguntou o que Torak queria dizer com aquilo, mas ele não respondeu. Era doloroso demais colocar em palavras. Começava a se dar conta de que, embora soubesse a fala de lobo, ele não era, nem nunca seria, lobo de verdade. De certo modo, ele sempre viveria separado do filhote. Lobo parou de uivar e desceu correndo da elevação. Torak ajoelhou-se e colocou o braço à sua volta. Sentiu os excelentes ossos leves sob a densa pelagem de inverno. Ao se curvar para sentir o odor de capim-cheiroso


do filhote, Lobo lambeu seu rosto, depois pressionou delicadamente sua testa contra a de Torak. Torak fechou os olhos bem apertado. Nunca me deixe, quis dizer a Lobo. Mas não sabia como dizê-lo. Partiram para o norte. Foi uma longa e exaustiva caminhada. A tempestade compactara a neve em montes congelados, com depressões entre eles na altura dos quadris. Atentos a buracos no gelo, cutucavam com flechas a neve adiante, o que os retardava ainda mais. Sentiam sempre as montanhas observando-os, esperando para ver se eles fracassariam. Ao meio-dia tinham feito muito pouco progresso, e ainda estavam dentro do raio de visão da caverna de neve. Então, se depararam com um novo obstáculo: uma parede de gelo. Era íngreme demais para escalar, e dura demais para ser atravessada cortando-a. Outra das cruéis piadas do rio de gelo. Renn disse que faria uma investigação enquanto Torak esperava com o filhote. Ele ficou feliz com o descanso: já sentia o peso da algibeira de pele de corvo. — Cuidado com os buracos de gelo — alertou, observando ansiosamente enquanto ela vasculhava o interior de uma fenda entre duas das mais altas presas de gelo. — Parece que há um meio de se passar por aqui — gritou ela. Livrando-se da mochila, espremeu-se por ali, e desapareceu. Torak estava para ir atrás de Renn, quando ela enfiou a cabeça para fora. — Oh, Torak, venha ver! Conseguimos! Conseguimos! Lobo saltou atrás dela. Torak livrou-se de sua mochila e seguiu-os Detestou ter de se enfiar pela fenda —


ela lhe lembrou a caverna — mas ao chegar do outro lado, ficou abismado. Ele olhava abaixo para uma baralhada torrente de gelo semelhante a uma queda-d‘água congelada. Abaixo dela estendi-se uma longa encosta com pedras cobertas de neve e, logo depois, a uma distância que um seixo jogado dali percorreria facilmente, ficava a floresta. — Nunca pensei que a veria novamente — comentou Renn ardorosamente. Lobo ergueu o focinho para captar os cheiros, depois olhou de volta para Torak e balançou o rabo. Torak não conseguia falar. Não imaginara o quanto doeria — e ainda doía — ficar fora da floresta. Eles ficaram apenas três noites distantes, mas a sensação era de que tinham se passado luas. Por volta do meio da tarde, alcançaram o último cume de gelo e começaram a descer Ziguezagueando a encosta. As sombras tornavam-se violeta. Os pinheiros acenavam com seus galhos pesados de neve. Foi um enorme alívio estar entre eles, fora do campo visual das montanhas. A quietude, porém, era enervante. — Não pode ser o urso — cochichou Renn. — Não havia sinal dele no rio de gelo. E se desse a volta pelos vales ele demoraria dias. Torak olhou para Lobo. Suas orelhas estavam para trás, mas o pêlo do cangote estava baixado. — Não creio que ele esteja perto — disse ele. — Mas também não está longe. — Olhe ali — mostrou Renn, apontando para a neve sob um pé de zimbro. — — Pegadas de pássaros. Torak inclinou-se para examiná-las.


— Um corvo. Caminhando, e não pulando. Isso significa que não estava com medo. E aqui há também um esquilo. — Apontou para um bando de pinhas dispersas na base de um pinheiro, cada qual roída até o centro, como uma maçã. — E pegadas de lebre. Muito frescas. Ainda consigo enxergar alguns sinais de pêlo. — Se são frescas, é um bom sinal — deduziu Renn. — Hum. — Torak espreitou a escuridão. — Mas aquilo não é. O auroque estava deitado de lado como uma enorme pedra marrom. Em vida e de pé ele se mostraria mais alto do que o maior dos homens, e a distância entre seus negros chifres brilhantes seria quase tão grande. Mas o urso abrira sua barriga com um talho, deixando-o em meio a uma agitada bagunça de neve encarnada. Torak olhou abaixo para o enorme animal aniquilado, e sentiu um acesso de raiva. Apesar de seu tamanho, os auroques são criaturas gentis que somente usam seus chifres para lutar por fêmeas, ou defender suas crias. O touro de focinho rombudo não merecia uma morte tão brutal quanto aquela. Sua carcaça nem mesmo alimentou as outras criaturas da floresta Nem raposas nem martas chegaram perto dela; nem corvos se banquetearam ali. Nada tocaria a presa do urso. — Uff! — fez Lobo, correndo em círculos, com o pêlo do cangote eriçado. — Para trás, alertou Torak. A luz esmorecia, mas, mesmo assim, ele conseguiu distinguir as pegadas do urso, e não queria que Lobo as tocasse. — Essa não parece uma matança recente — observou Renn. — Isso tem importância, não é mesmo?


Torak examinou a carcaça, cuidadosamente evitando tocar nas pegadas. Cutucou-a com uma vara, e depois assentiu. — Congelada. Um dia ou mais, pelo menos. Atrás dele, Lobo rosnou. Torak ficou imaginando por que ele estava tão agitado, já que a caça não era fresca. — Não sei por que — disse Renn —, eu pensei que estaríamos mais seguros, agora que estamos de volta à floresta. Eu pensei... Mas Torak nunca soube o que ela pensou. De repente, a neve abaixo das árvores irrompeu, e eles foram cercados por várias figuras altas vestidas de branco. Tarde demais, Torak deu-se conta de que Lobo não estivera rosnando para o auroque — mas para aqueles silenciosos assaltantes. Olhe atrás de você, Torak. Ele esquecera. Novamente. Com a faca em uma das mãos e a machadinha na outra, ele se aproximou de Renn, que já encaixara uma flecha no arco. Lobo correu para as sombras. Costas com costas, Torak e Renn encaravam um agitado círculo de flechas. A mais alta das figuras de branco avançou e jogou para trás o capuz. No lusco-fusco, seu cabelo ruivo-escuro parecia quase negro. — Peguei-o, finalmente — disse Hord.


VINTE E OITO — Por que está fazendo isso? — berrou Renn. — Ele está tentando nos ajudar! Não pode tratá-lo como a um pária! — Então veja — disse Hord, arrastando Torak pela neve. Torak pelejava para ficar de pé, mas não era fácil, com as mãos amarradas às costas. Não havia esperança de fuga: estava cercado por Oslak e quatro homens fortudos dos Corvos. — Mais depressa! — insistiu Hord. — Temos de alcançar o acampamento antes da escuridão. — Mas ele é o Ouvinte — disse Renn. — Posso provar! — Apontou para a algibeira de pele de corvo na cintura de Torak. — Ele encontrou todas as três peças do Nanuak! — Foi? — murmurou Hord. Sem alterar o passo, sacou sua faca e cortou a bolsa do cinturão de Torak. — Bem, agora são minhas. — O que está fazendo? — gritou Renn. — Devolva! — Veja como fala comigo! — vociferou Hord. — Por que eu deveria? Quem disse que você pode... Hord deu-lhe um tapa. Foi um violento golpe no rosto, que a fez voar para trás e aterrissar num monte. Oslak grunhiu um protesto, mas conteve-se diante da advertência de Hord. Este respirava com dificuldade, enquanto observava Renn sentar-se.


— Você não é mais minha irmã — disparou. — Pensamos que estava morta quando encontramos a sua aljava no rio. Fin-Kedinn não falou por três dias, mas eu não sofri. Fiquei feliz. Você traiu o seu clã e me envergonhou. Queria que estivesse mesmo morta. Renn passou a mão trêmula pelo lábio. Estava sangrando. Um vinco vermelho surgia em sua face. — Você não devia ter batido nela — disse Torak. Hord virou-se para ele: — Não se meta nisso! Torak olhou duro para Hord — e ficou chocado com a transformação ocorrida nele. Em vez do jovem robusto com quem lutara há menos de uma lua, encontravase diante de uma sombra esquelética. Os olhos de Hord estavam descarnados pela falta de sono, e a mão que agarrava o Nanuak não tinha unhas: apenas feridas secretantes. Algo o corroía por dentro. — Pare de olhar para mim — rosnou. — Hord — disse Oslak —, precisamos continuar andando. O urso... Hord virou-se, os olhos esforçando-se para perfurar a escuridão. — O urso, o urso — murmurou, como se só de pensar nisso doesse. — Venha, Renn. — Oslak curvou-se e ofereceu sua mão. — Logo colocaremos um cataplasma nisso aí. O acampamento não está longe. Renn ignorou-o e pôs-se de pé sem aceitar a ajuda. Olhando a trilha adiante, Torak captou um tremeluzir laranja na escuridão que se tornava cada vez mais profunda. Perto dali, nas sombras sob um jovem abeto, um par de olhos âmbar. Seu coração disparou. Se Hord viu Lobo, não havia como se saber o que ele poderia fazer... Felizmente, a atenção de todos estava em Renn.


— O meu irmão agora é Líder de Clã? — indagou. — Vocês o seguem, em vez de Fin-Kedinn? Os homens inclinaram a cabeça. — Não é tão simples assim — disse Oslak. — O urso atacou três dias atrás. Matou... — sua voz falhou. — Matou dois dos nossos. O sangue escorreu do rosto de Renn. Ela se aproximou de Oslak, cuja testa e maçãs do rosto estavam marcadas com argila cinzenta do rio. Torak não sabia o que significavam as marcas, mas, quando Renn as viu, engoliu em seco. — Não — sussurrou ela, tocando a mão de Oslak. O grandalhão fez que sim e afastou-se. — E Fin-Kedinn? — perguntou Renn ruidosamente. — Ele está...? — Gravemente ferido — disse Hord. — Se ele morrer, eu serei o líder, Certamente. Renn pressionou as mãos contra a boca e saiu correndo em direção ao acampamento. — Renn! — gritou Oslak. — Volte! — Deixe-a — disse Hord. Quando ela sumiu de vista, Torak senti-se totalmente sozinho. Nem mesmo sabia os nomes dos outros homens dos Corvos. — Oslak — implorou —, faça com que Hord me devolva o Nanuak! É a nossa única esperança. Você sabe disso. Oslak começou a falar, mas Hord o interrompeu. — Sua parte nisso já se encerrou — falou para Torak. — Eu levarei o Nanuak para a montanha! Eu oferecerei o sangue do Ouvinte para salvar o meu povo!


Lobo estava tão amedrontado que queria uivar. Como poderia ajudar seu irmão de alcatéia? Por que estava tudo tão confuso? Ao seguir os Sem-Rabos adultos através do Frio Macio Brilhante, pelejava contra a fome mordendo a própria barriga, e o cheiro dos lemingues, chamado de focinho molhado distante apenas uma garra. Lutou contra a Atração, que agora era tão forte que a sentia o tempo todo e o temor do demônio ele farejou no vento. Desviou as orelhas dos distantes uivos da estranha alcatéia: a alcatéia que já não soava como estranhos, mas como parentes distantes... Tinha de ignorar aquilo tudo. Seu irmão de alcatéia corria perigo. Lobo sentia a dor e o medo dele. Sentia, também, a ira dos adultos e seu medo. Eles temiam Alto Sem-Rabo. O vento mudou, e Lobo captou uma onda de cheiros do grande covil dos Sem-Rabos. Sons e cheiros o sobrecarregaram. Mau, mau, mau! Sua coragem falhou. Choramingando, disparou para baixo de uma árvore caída. O covil significava um terrível perigo. Era imenso e intrincado, com cães furiosos que não davam ouvidos, e muitos dos Bichos-Brilhantes-que-Mordem-Quente. Pior de tudo eram os próprios Sem-Rabos. Não eram capazes de ouvir ou farejar muito, mas compensavam isso fazendo coisas inteligentes com suas patas dianteiras, e enviando a Longa-Garra-que-Voa-Longe para morder a presa. Lobo não sabia se devia fugir ou ficar. Como ajuda para pensar, mastigou um galho, depois um pedaço do Frio Macio Brilhante. Correu em círculos. Nada funcionou. Ansiou pela estranha certeza que


às vezes lhe ocorria e lhe dizia o que fazer. Ela não veio. Voara como um corvo para o Alto. O que ele devia fazer? Torak culpava a si mesmo. Por causa de sua negligência, perdera o Nanuak. A culpa fora toda sua. Em volta dele, as árvores carregadas de neve projetavam na trilha sombras da luz azul. ―Culpa sua‖, pareciam lhe dizer. — Mais depressa — disse Hord, cutucando-o nas costas. Os Corvos haviam acampado em uma clareira próximo a um riacho das montanhas. No centro da clareira, uma fogueira comprida formada por três toras de pinheiro ardia na cor laranja. Agrupados em volta dela estavam os abrigos inclinados do clã, em seguida um círculo de fogueiras menores e armadilhas no chão, vigiadas por homens com lanças. Parecia até que todo o clã viera para o norte. Hord correu adiante enquanto Torak esperava com Oslak perto de um dos abrigos. Ele avistou Renn e seu ânimo aumentou. Estava ajoelhada na entrada de um abrigo do outro lado da clareira, falando insistentemente. Ela não o viu. As pessoas amontoavam-se em volta da fogueira comprida. O ar estava denso de medo. De acordo com Oslak, batedores ou sentinelas tinham encontrado sinais do urso a apenas dois vales dali. — Ele está ficando mais forte — disse ele. — Rasgando toda a floresta como se... como se procurasse alguma coisa. Torak começou a tremer. A marcha forçada de Hord o mantivera aquecido mas agora, com sua roupa de


verão de pele de gamo, estava congelando. Torcia para que não pensassem que ele sentia medo. Oslak desamarrou seus pulsos e colocou a mão em seu ombro para guiá-lo até a clareira. Torak esqueceu o frio enquanto cambaleava em direção ao clarão da fogueira comprida e ao zumbido de vozes como se ele estivesse numa colméia de abelhas furiosas. Avistou Saeunn, de pernas cruzadas sobre uma pilha de peles de rena com a algibeira de pele de corvo no colo; Hord, a seu lado, mordia o polegar; Dyrati observava Hord, o rosto contraído. Fez-se silêncio. As pessoas abriram caminho para os quatro homens que conduziam Fin-Kedinn em uma liteira feita de couro de auroque. O rosto do Corvo Líder revelava cansaço, e sua perna esquerda estava enfaixada por moles ataduras manchadas de sangue. Seu rosto contraiu-se ligeiramente quando os homens o pousaram ao lado da fogueira. Foi o único sinal que ele deu de seu sofrimento. Renn apareceu, rolando um pedaço de toro de pinheiro. Colocou-o atrás de Fin-Kedinn para ele se apoiar, depois aconchegou-se a seu lado em uma pele de rena. Não olhou para Torak, mas manteve o olhar no fogo. Oslak cutucou-o nas costas e ele deu alguns passos vacilantes para mais perto da liteira. O Corvo Líder fez contato visual com ele, e Torak sentiu uma descarga de alívio. Os olhos azuis estavam mais intensos e impenetráveis do que nunca. Hord ainda teria que esperar um pouco mais para se tornar Líder de Clã. — Quando encontramos este garoto — disse FinKedinn, sua voz soando clara —, não sabíamos quem, ou


o que, ele era. Desde então, ele encontrou as três peças do Nanuak. E salvou a vida de um dos nossos. — Fez uma pausa. — Não tenho mais dúvidas. Ele é o Ouvinte. — A pergunta é, devemos deixar que ele leve o Nanuak para a montanha? Um menino, se virando sozinho? Ou devemos enviar o nosso caçador mais forte: um homem adulto com uma chance muito maior contra o urso? Hord parou de morder o polegar e aprumou-se. O coração de Torak afundou. — O tempo é curto — declarou Fin-Kedinn, olhando para o céu da noite onde resplandecia o Grande Auroque. — Em poucos dias, o urso estará forte demais para ser superado. Não podemos convocar uma reunião de clã, não há tempo. Preciso decidir isso agora, por todos os clãs. — O único ruído era o sibilar e o crepitar do fogo. Os Corvos estavam atentos a cada palavra. — Há muitos entre nós — prosseguiu Fin-Kedinn — que dizem que seria loucura confiar o nosso destino a um menino. Hord levanto-se de um salto. — Seria mesmo uma loucura! Eu sou o mais forte! Deixe-me ir à montanha e salvar o meu povo! — Você não é o Ouvinte— alegou Torak. — E quanto ao resto da profecia? — observou Saeunn com seu grasnido de corvo. — ―O Ouvinte dá o sangue de seu coração à Montanha.‖ — Você seria capaz disso? Torak inspirou fundo. — Se isso for necessário.


— Mas há outra maneira! — gritou Hord. — Nós o matamos agora e eu levo seu sangue para a montanha! Pelo menos, nesse caso, teremos uma chance! Um murmúrio de aprovação veio dos Corvos. Fin-Kedinn levantou a mão pedindo silêncio, e então falou para Torak: — Você costumava negar que era o Ouvinte. Por que tanto entusiasmo agora? Torak ergueu o queixo. — O urso matou meu pai. E isso que me impele. — Isso é maior do que vingança — escarneceu Hord. — Também maior do que a vaidade — rebateu Torak. E falou para Fin-Kedinn — Não me importa ser ―o salvador do meu povo‖. Que povo? — Nunca conheci o meu próprio clã. Mas jurei para o meu pai que encontraria a montanha. Fiz um juramento. — Estamos perdendo tempo — disse Hord. — Me dê o Nanuak e eu cuidarei disso! — Como? — perguntou uma voz tranqüila. Era Renn. — Como encontrará a montanha? — quis saber ela. Hord hesitou. Renn levantou-se. — Dizem que é o pico na extremidade mais ao norte das Montanhas Altas. Bem, aqui estamos nós, na extremidade mais ao norte das Montanhas Altas. Pois bem, onde está ela? — Abriu os braços. — Eu não sei. — Virou-se para Hord. — Você sabe? Ele trincou os dentes. Renn dirigiu-se a Saeunn. — Você sabe? Não. E você é a maga. — Encarou Fin-Kedinn. — Você sabe? — Não — respondeu ele.


Renn apontou para Torak. — Nem mesmo ele sabe onde fica, e é o Ouvinte. — Fez uma pausa. — Mas alguém sabe. — Olhou diretamente para Torak, seus olhos perfurando os dele. Torak entendeu o que ela quis dizer. Renn Esperta, pensou. Isto é, desde que funcione... Ele colocou as mãos sobre os lábios e uivou. Os Corvos engoliram em seco. Os cães do acampamento saltaram em rebuliço. Novamente, Torak uivou. De repente, uma listra cinzenta atravessou velozmente a clareira e chocou-se com ele. As pessoas murmuraram e apontaram; os cães ficaram como loucos até os homens os enxotarem. Uma criança pequena riu. Torak ajoelhou-se e enfiou o rosto no pêlo de Lobo. Então deu uma lambida agradecida no focinho do filhote. Fora necessária uma enorme quantidade de coragem de Lobo para responder ao seu chamado. Com a diminuição da barulheira, Torak levantou a cabeça. — Somente Lobo é capaz de encontrar a montanha — falou para Fin-Kedinn. — Foi ele quem nos trouxe até aqui. Foi somente por sua causa que encontramos o Nanuak. O Corvo Líder passou a mão pela sua barba ruivoescura. — Devolva-me o Nanuak — implorou Torak. — Deixe-me levá-lo ao Espírito do Mundo. É a nossa única chance.


O fogo crepitava e cuspia. Neve caiu com um ruído surdo de um abeto próximo. Os Corvos esperavam a decisão de seu líder. Finalmente, Fin-Kedinn falou: — Nós lhe daremos comida e roupas para a viagem. Quando parte? Torak resfolegou. Renn deu-lhe um breve aceno com a cabeça. Hord emitiu um protesto, mas Fin-Kedinn o silenciou com um olhar. Novamente, dirigiu-se a Torak: — Quando você parte? Torak hesitou. — Hum. Amanhã?


VINTE E NOVE No dia seguinte, Torak e Lobo se aventurariam na floresta assombrada pelo urso — e Torak não tinha a menor idéia do que faria. Mesmo se alcançassem a montanha, o que faria a seguir? Simplesmente deixaria o Nanuak no chão? Pediria ao Espírito do Mundo que destruísse o urso? Tentaria combatê-lo por conta própria? — Você quer botas novas, ou remendamos as suas? — perguntou rispidamente a companheira de Oslak, que media Torak para lhe providenciar roupas de inverno. — O quê? — perguntou ele. — Botas — repetiu a mulher. Tinha olhos cansados e marcas de argila do rio nas faces — e estava furiosa com ele. Ele não sabia por quê. Disse ele: — Estou acostumado com minhas botas. Talvez você pudesse apenas... — Remendá-las? — Deu uma bufada. — Acho que sou capaz de fazer isso! — Obrigado — agradeceu Torak humildemente. Olhou para Lobo, que estava agachado num canto, as orelhas recuadas. A companheira de Oslak apanhou um pedaço de tendão e virou Torak de costas para medir seus ombros. — Ah, vai servir perfeitamente — murmurou. — Bem, sente-se, sente-se! Torak sentou-se e observou-a dar nós para marcar as medidas. Seus olhos estavam úmidos e ela piscava rapidamente. Pegou-o olhando. — Está olhando o quê?


— Nada — respondeu ele. — Devo tirar minhas roupas? — Não, a não ser que queira congelar. Você terá as roupas novas ao amanhecer. Agora, me dê as botas. Ele as entregou e ela olhou-as como se fossem um par de salmões podres. — Mais buracos do que numa rede de pesca — comentou ela. Foi um alívio quando ela se precipitou para fora do abrigo. Não fazia muito tempo que havia saído quando Renn entrou. Lobo foi até ela e lambeu seus dedos. Ela coçou atrás das orelhas dele. Torak queria agradecer-lhe por ter ficado do seu lado, mas não sabia como começar. O silêncio alongou-se. — Como você se arranjou em companhia de Vedna? — perguntou Renn abruptamente. — Vedna? Ah. A companheira de Oslak? Não creio que ela goste de mim. — Não é isso. São as suas roupas novas. Ela as estava fazendo para o filho dela. Agora terá de terminá-las para você. — O filho dela? Morto pelo urso. — Oh. — Pobre Vedna, pensou ele. Pobre Oslak. E aquilo explicava a argila do rio. Deve ser o modo dos Corvos de manifestar luto. O machucado na bochecha de Renn tornar-se roxo; ele perguntou se doía. Ela sacudiu a cabeça. Ele deduziu que ela estava envergonhada do que o irmão fizera.


— E Fin-Kedinn? — perguntou ele. — A perna dele está muito ruim? — Péssima. O ferimento vai até o osso. Mas não há nenhum sinal de doença de enegrecimento. — Isso é bom. — Hesitou: — Ele... ficou muito zangado com você? — Ficou. Mas não é por isso que vim aqui. — Por que então veio aqui? — Amanhã. Eu vou com você. Torak mordeu o lábio. — Acho que tem de ser apenas eu e Lobo. Ela olhou-o fixamente. — Por quê? — Não sei. Apenas acho. — Isso é estupidez. — Talvez. Mas é assim que é. — Você parece Fin-Kedinn. — Esse é um outro motivo. Ele nunca permitiria. — Desde quando deixei que isso me impedisse? Ele sorriu. Ela não sorriu de volta. Parecendo ameaçadora, foi até a fogueira na entrada do abrigo. — Você vai fazer a refeição da noite com ele — disse ela. — Trata— se de uma honra, caso você não saiba. Torak engoliu em seco. Tinha medo de FinKedinn, mas, de um modo estranho, também queria sua aprovação. Fazer a refeição noturna com ele parecia desanimador. — Você também vai estar lá? — perguntou. — Não. — Oh.


Outro silêncio. Então, ela condescendeu: — Se quiser, posso ficar com Lobo. E melhor não deixá-lo sozinho com os cães. — Obrigado. Ela assentiu. Então viu seus pés descalços. — Verei se consigo um par de botas para você. Algum tempo depois, Torak seguiu para o abrigo de Fin-Kedinn, tropeçando com suas botas emprestadas, que eram muito maiores. Encontrou o Corvo Líder numa acalorada conversa com Saeunn, mas pararam quando ele entrou. Saeunn parecia furiosa. O rosto de Fin-Kedinn nada denunciava. Torak sentou-se sobre uma pele de rena com as pernas cruzadas. Não via nenhuma comida, mas as pessoas estavam atarefadas com peles de cozinhar perto da fogueira comprida. Ficou imaginando quando iriam comer. E o que ele estava fazendo ali. — Eu lhe falei o que penso — disse Saeunn. — Sim falou — disse Fin-Kedinn indiferente. Não tentaram incluir Torak na conversa, o que o deixou livre para examinar o abrigo de Fin-Kedinn. Não era mais distinto do que os outros e da estaca do teto pendia o costumeiro equipamento de caçador mas a corda do grande arco de teixo estava quebrada, e a parca branca de couro de rena, respingada com sangue ressecado: lembranças vivas de que o Corvo Líder havia enfrentado o urso e sobrevivera. De repente, Torak notou um homem observando-o das sombras. Tinha cabelo castanho curto e feições escuras e finas. — Este é Krukoslik — anunciou Fin-Kedinn —, do Clã da Lebre da Montanha.


O homem colocou ambos os punhos sobre o coração e curvou a cabeça. Torak fez a mesma coisa. — Krukoslik conhece esta região melhor do que ninguém — disse Fin-Kedinn. — Converse com ele antes de partir. No mínimo, ele lhe dará algumas dicas sobre como sobreviver nas montanhas. Deu-me pena o estado em que você se encontrava quando o capturamos. Sem roupas de inverno, apenas uma pele de água e nada de comida. Não foi isso o que seu pai lhe ensinou. Torak ficou sem fôlego. — Quer dizer que o conheceu? Saeunn agitou-se, mas Fin-Kedinn acalmou-a com um olhar. — Sim — disse ele. — Eu o conheci. Houve uma época em que ele era o meu melhor amigo. Furiosa, Saeunn virou-se de costas. Torak também começou a sentir-se furioso. — Se você foi o melhor amigo dele, por que me sentenciou à morte? Por que deixou que eu lutasse com Hord? Por que me manteve amarrado enquanto a reunião do clã decidia se eu seria ou não sacrificado? — Para ver do que você foi feito — disse FinKedinn calmamente. — Se você não consegue usar a inteligência, não tem serventia para ninguém. — Fez uma pausa. — Você deve se lembrar que não o mantive sob vigilância cerrada. Até mesmo deixei que ficasse com o seu filhote de lobo. Torak pensou a respeito. — Está querendo dizer... que estava me testando? Fin-Kedinn não respondeu.


Dois homens vieram da direção da fogueira principal, carregando quatro fumegantes tigelas de madeira de bétula. — Coma — disse Krukoslik, entregando uma delas a Torak. Fin-Kedinn jogou-lhe uma colher de chifre e, por uns instantes, Torak esqueceu-se de tudo enquanto se dedicava a aplacar a fome. Tratava-se de um caldo ralo feito de cascos de alce cozidos e algumas lascas de coração seco de veado, acompanhado de bagas de sorveira-brava e o duro e sem gosto cogumelo que os clãs chamam de orelha de auroque. Juntamente com este, assam um bolo achatado feito de farinha de bolota de carvalho: muito amargo, mas não muito ruim depois de feito em pedaços e misturado ao caldo. — Lamento não podermos oferecer algo melhor — disse Fin-Kedinn —, mas a presa está escassa. — Essa foi a única referência que fez ao urso. Torak estava faminto demais para se preocupar. Somente quando lambeu sua tigela notou que Fin-Kedinn e Saeunn mal tinham tocado nas deles. Saeunn levou-as de volta para a pele de cozinhar, depois retornou ao seu lugar. Krukoslik pendurou sua colher no cinturão e foi se ajoelhar perto da pequena fogueira na entrada do abrigo onde murmurou uma breve oração de agradecimento. Torak nunca vira alguém como ele. Vestia um enorme manto de couro de rena parda, que pendia até a barriga da perna, e um largo cinturão feito de couro de veado-vermelho. Sua pele de clã era uma capa de pele de lebre sobre os ombros, tingida de vermelho berrante e sua tatuagem de clã era uma tira vermelha em ziguezague de lado a lado da testa. Em seu peito pendia um fragmento,


do comprimento de um dedo, de um cristal de rocha enfumaçado. Ele viu Torak olhando para aquilo e sorriu. — Fumaça é a respiração do Espírito do Fogo. Clãs da Montanha veneram o fogo acima de tudo o mais. Torak lembrou-se do conforto que o fogo dera a ele e a Renn na caverna de neve. — Entendo perfeitamente — disse ele. O sorriso de Krukoslik aumentou. Com o final da refeição noturna, Fin-Kedinn pediu aos demais que se retirassem para que ele pudesse falar a sós com Torak. Krukoslik levantou-se e fez uma reverência. Saeunn sibilou furiosamente e deixou apressadamente o abrigo. Torak ficou imaginando o que viria a seguir. — Saeunn não acha que você deva receber mais informações — comentou Fin-Kedinn. — Segundo ela, isso o distrairia amanhã. — Mais informações sobre o quê? — quis saber Torak. — Sobre o que você deseja saber. Torak refletiu a respeito. — Eu quero saber de tudo. — Não é possível. Tente novamente. Torak cavoucou um rasgão no joelho de sua perneira. — Por que eu? Por que eu sou o Ouvinte? Fin-Kedinn cofiou a barba. — Isso é uma longa história. — É por causa do meu pai? Porque ele foi o Mago Lobo? O inimigo do aleijado errante, que fez o urso? — Isso é... apenas parte.


— Mas quem era ele? Por que eram inimigos? Pa nunca nem mesmo o mencionou. Com um graveto, o Corvo Líder atiçou a fogueira, e Torak viu rugas de dor aprofundand0-se em cada canto de sua boca. Sem virar a cabeça, Fin-Kedinn indagou: — Alguma vez o seu pai mencionou os Devoradores de Almas? Torak ficou intrigado. — Não. Nunca ouvi falar neles. — Então você deve ser o único na floresta que não ouviu falar. — Fin-Kedinn ficou em silêncio, a luz da fogueira marcando seu rosto com sombras. — Os Devoradores de Almas — prosseguiu — eram sete Magos, cada qual de um clã diferente. No início, não eram maus. Ajudavam os seus clãs. Cada um tinha sua habilidade particular. Um deles era ardiloso como uma cobra, sempre pesquisando a sabedoria as ervas e poções. Outro era forte como um carvalho; desejava conhecer as mentes das árvores. Uma outra pensava em voar mais veloz do que um morcego. Adorava enfeitiçar pequenas criaturas para cumprirem suas ordens. Um deles era orgulhoso e ambicioso, fascinado por demônios, sempre tentando controlá-los. Dizem que um outro podia convocar os mortos. — Novamente, atiçou o fogo. Como ele não continuou, Torak reuniu coragem e falou: — Foram apenas cinco. Você disse que... eram sete. Fin-Kedinn o ignorou. — Muitos invernos atrás, eles se uniram em segredo. A princípio chamaram a si mesmos de Curadores. Iludiram a si mesmos, acreditando que queriam apenas fazer o bem; curar doenças, proteger contra demônios. — Sua boca contorce-se com desprezo. — Em pouco tempo es-


tavam chafurdando no mal, pervertidos pela sua fome de poder. Os dedos de Torak apertaram seu joelho. — Por que são chamados de Devoradores de Almas? — perguntou mal movendo os lábios. — Eles realmente devoram almas? — Quem sabe? As pessoas tinham medo e, quando as pessoas têm medo rumores viram-se verdade. — Seu rosto tornou-se distante enquanto se recordava. — Acima de tudo, os Devoradores de Almas queriam poder. Era o motivo de suas vidas. Governar a floresta. Forçar todo mundo a fazer o que eles queriam. Então, treze invernos atrás, aconteceu algo que abalou o poder deles. — O quê? — murmurou Torak. — O que aconteceu? Fin-Kedinn suspirou. — Tudo o que você precisa saber é que houve um grande incêndio e os Devoradores de Almas se dispersaram. Alguns ficaram seriamente feridos. Todos seguiram para esconderijos. Achamos que a ameaça acabara para sempre. Estávamos enganados. — Quebrou o graveto em dois e jogou-o no fogo. — O homem que você chama de aleijado errante... o homem que criou o urso... era um deles. — Um Devorador de Alma? — Eu soube assim que Hord me falou sobre ele. Somente um Devorador de Alma poderia ter prendido um demônio tão poderoso — Encontrou os olhos de Torak. — Seu pai era inimigo dele. Era o inimigo jurado de todos os Devoradores de Almas. Torak não conseguia afastar a vista do olhar de um azul intenso.


— Ele nunca me contou nada. — Tinha motivos para isso. Seu pai... — disse ele. — Seu pai fez muitas coisas erradas na vida. Mas fez tudo o que podia para deter os Devoradores de Almas. Foi por isso que o mataram. E foi também por isso que ele o criou afastado de todos. Era para que eles jamais soubessem que você existia. Torak encarou-o. — Eu? Por quê? Fin-Kedinn não o ouvia. Novamente, olhava as chamas. — Isso não parece possível — murmurou. — Ninguém sequer desconfiou de que havia um filho. Nem mesmo eu. — Mas... Saeunn sabia. Pa contou a ela, cinco verões atrás, na reunião do clã perto do mar. Ela não...? — Não — afirmou Fin-Kedinn. — Ela nunca me contou. — Não entendo — disse Torak. — Por que os Devoradores de Almas não podiam saber a meu respeito? O que há de errado comigo? Fin-Kedinn examinou o rosto dele. — Nada. Eles não deviam saber a seu respeito porque... — Balançou a cabeça, como se houvesse muita coisa a dizer. — Porque, um dia, você talvez conseguisse detê-los. Torak ficou chocado. — Eu? Como? — Não sei. Só sei que, se descobrirem que você existe, eles virão atrás de você. — Mais uma vez, seus olhos se detiveram nos de Torak. — É isso que Saeunn não queria que você soubesse. E que eu acredito que precisa


saber. Se sobreviver... se for bem-sucedido em destruir o urso... isso não será o fim. Os Devoradores de Almas descobrirão o responsável. Saberão que você existe. Mais cedo ou mais tarde, virão atrás de você. Uma brasa estalou. Torak deu um salto. — Quer dizer que... mesmo que sobreviva amanhã, eu estarei arruinando a minha vida? — Eu não disse isso. Você pode fugir ou lutar. Sempre há uma opção. Torak ergueu a vista para a parca manchada de sangue. Hord tinha razão: aquela era uma luta para homens, e não para meninos. — Por que Pa nunca me contou nada disso? — perguntou ele. — Seu pai sabia o que estava fazendo — disse FinKedinn. — Ele fez algumas coisas ruins. Coisas pelas quais eu nunca o perdoarei. Mas com você, acredito que ele fez a coisa certa. Torak não conseguia falar. — Pergunte-se isto, Torak: Por que a profecia fala no ―Ouvinte‖? Por que não o ―Falador‖ ou o ―Vidente‖? Torak sacudiu a cabeça. — Porque a qualidade mais importante em um caçador é ser um ouvinte. Ouvir o que o vento e as árvores estão lhe dizendo. Ouvir o que os outros caçadores e a presa estão dizendo sobre a floresta. Esse foi o presente que seu pai lhe deu. Ele não lhe ensinou a arte da magia ou a história dos clãs. Ensinou-o a caçar. A usar a inteligência. — Fez uma pausa. — Se tiver sucesso amanhã, é desse modo que você conseguirá. Usando a inteligência.


Passava da metade da noite, mas Torak continuava sentado junto à fogueira comprida no meio da clareira, olhando a vultosa escuridão das Montanhas Altas. Estava sozinho. Lobo saíra para sua perambulação noturna, e os únicos sinais de vida no acampamento eram os silenciosos Corvos vigiando as defesas e o ruído dos roncos vindos do abrigo de Oslak. Torak ansiava por acordar Renn e contar-lhe tudo. Mas não sabia onde ela estava dormindo. Além disso, não tinha certeza se conseguiria contar-lhe sobre Pa — sobre as coisas ruins que Fin-Kedinn disse que ele fizera. ―Se você sobreviver, não será o fim... os Devoradores de Almas virão atrás de você... Você pode fugir ou lutar. Sempre há uma opção...‖ Imagens terríveis rodopiaram em sua mente como uma tempestade de neve. Os olhos assassinos do urso. Os Devoradores de Almas, como sombras vistas de relance em um pesadelo. O rosto de Pa enquanto jazia moribundo. Para afugentá-las, levantou-se e começou a caminhar. Forçou-se a pensar. Não tinha idéia do que faria no dia seguinte, mas sabia que Fin-Kedinn estava certo. Se quisesse ter alguma chance contra o urso, teria de usar a inteligência. O Espírito do Mundo somente o ajudaria se ele tentasse ajudar a si mesmo. Mais uma vez, percorreu as linhas da profecia. ―O Ouvinte luta com o ar e fala com o silêncio... O Ouvinte luta com o ar...‖ O vislumbre de uma idéia começou a perturbá-lo.


TRINTA O s dedos de Torak tremiam tanto que ele não conseguia tirar a tampa de seu chifre de remédios. Por que deixara aquilo para o último momento? Agora Lobo corria impacientemente para lá e para cá do lado de fora do abrigo, e os Corvos esperavam para vê-lo partir, e ele nem mesmo conseguia tirar a tampa do... — Quer ajuda? — perguntou Renn lá da porta. Seu rosto estava pálido e os olhos sombrios. Torak passou-lhe o chifre de remédios e ela arrancou com os dentes a tampa preta de carvalho. — Para que serve isso? — quis saber, devolvendo o chifre. Marcas da Morte — disse ele, sem olhar para ela. Renn suspirou. — Como o homem no rio de gelo? Ele fez que sim. — Mas ele sabia que ia morrer. Você pode sobreviver... — Não dá para saber. Não quero correr o risco de minhas almas se separarem. Não quero correr o risco de me tornar um demônio. Ela inclinou-se para afagar as orelhas de Lobo. — Tem razão. Torak olhou além dela para a clareira, onde rompia a alvorada azul-escura. Durante a noite, nuvens haviam descido das montanhas, cobrindo a floresta com uma grossa camada de neve. Ele ficou imaginando se isso o ajudaria ou o atrapalharia.


Derramou um pouco de ocre vermelho na palma e cuspiu nele. Sua boca, porém, estava muito seca, e não conseguia fazer uma pasta. Renn curvou-se e cuspiu em sua palma. Em seguida, colheu um pouco de neve, aqueceu-a nas mãos e acrescentou à mistura. — Obrigado — murmurou ele. Trêmulo, lambuzou círculos nos calcanhares, no tórax e na testa. Ao terminar o da testa, fechou os olhos. A última vez que fizera isso tinha sido por Pa. Lobo pressionou o corpo contra o dele, esfregando seu cheiro nas novas perneiras. Colocou a pata sobre o antebraço de Torak. Estou com você, Torak inclinou-se e esfregou o nariz no focinho dele. Eu sei. — Tome — disse Renn, estendendo a algibeira de pele de corvo. — Acrescentei mais absinto, e me informei com Saeunn. O feitiço do despistamento vai funcionar. O urso não perceberá o Nanuak. Torak amarrou a algibeira ao seu cinturão. Já podia sentir as Marcas da Morte endurecendo em sua pele. — É melhor você levar isto também. — Renn segurava um pacoti nho embrulhado em entrecasca de bétula. — O que é? Ela pareceu surpresa. — O que você pediu. Aquilo que levei quase a noite toda para fazer. Torak ficou aterrorizado. Quase tinha esquecido. Se partisse sem aquilo, o que seria de seu plano? — Coloquei também algumas ervas purificadoras — avisou Renn. — Por quê?


— Bem. Se... se você matar o urso, se tornará impuro. Isto é, ele continua sendo um urso, um outro caçador qualquer, mesmo se há um demônio dentro dele. Você precisará se purificar. Como era agradável o fato de Renn pensar à frente. O quanto era tranqüilizador ela pensar que ele tinha uma chance. Lobo emitiu um ganido impaciente e Torak inspirou fundo. Hora de ir. Quando começaram a atravessar a clareira, Torak lembrou do chifre de remédios deixado para trás no abrigo, e correu de volta para pegá-lo. Ao sair, abriu sua bolsa de remédios com dedos trêmulos, e o chifre escorregou de suas mãos. Foi Fin-Kedinn quem o apanhou. O Corvo Líder estava de muletas. Ao examinar o chifre de remédios em sua mão, o sangue fugiu de seu rosto. — Isto era de sua mãe — comentou. Torak vacilou. — Como sabe? Fin-Kedinn ficou em silêncio. Devolveu-o. — Nunca perca isto. Torak enfiou o chifre em sua bolsa. Aquilo pareceu uma coisa estranha de se dizer, em vista de onde ele estava indo. Ao se virar para ir embora, Fin-Kedinn chamou-o de volta. — Torak... — Sim? — Se sobreviver, há um lugar para você aqui com a gente. Se quiser.


Torak ficou surpreso demais para falar. Quando se recuperou, o Corvo Líder já se afastava, seu rosto mais impenetrável do que nunca. As Montanhas Altas pareciam orladas de dourado enquanto Torak atravessava a neve crocante em direção aos Corvos. Oslak entregou-lhe seu saco de dormir e sua pele de água, e Renn, sua machadinha, aljava e arco. Surpreendentemente, Hord ajudou-o com sua mochila. Sua aparência era de alguém perturbado, mas parecia ter aceitado o fato de que não era aquele que se dirigiria à montanha. Saeunn fez o sinal da mão acima de Torak, e depois acima de Lobo. — Que o guardião siga com vocês dois. — E também corra com vocês — disse Renn, tentando sorrir. Torak lançou-lhe um breve aceno com a cabeça. Ele queria ir logo embora. Os Corvos observaram em silêncio enquanto ele avançava pela neve, com Lobo correndo sobre suas pegadas. Ele não olhou para trás. A montanha estava silenciosa, mas, quando Lobo tomou a dianteira, pareceu impetuoso e destemido. Torak caminhava penosamente atrás dele, sua respiração fumegando. Fazia muito frio, mas graças a Vedna ele não sentia. Enquanto ele dormia, ela deixara as roupas novas no seu abrigo. Um subgibão de pele de pato com as macias penas do peito em contato com a pele; uma parca com capuz e quentes perneiras para inverno de couro de rena; um par de luvas de pele de lebre com tiras de couro costuradas às mangas; e suas botas velhas habilmente remendadas com o duro couro de canela de rena, revestidas com


pêlo de marta, e com tiras de pele de âmia costuradas às solas externas para melhorar a pegada. Vedna tinha até mesmo descosturado sua pele de clã do velho gibão e a costurara na parca. A tira de pele de lobo estava em farrapos e imunda, mas era muito preciosa. Fora preparada por Pa. Lobo virou de repente para investigar alguma coisa, e Torak ficou imediatamente alerta. Pegadas de esquilo: minúsculas e parecidas com mãos. Torak seguiu a pista que ia adiante por entre arbustos de zimbro cobertos de neve e logo se transformava em longos saltos assustados e desaparecia em um pinheiro. Torak jogou o capuz para trás e olhou em volta. A floresta estava totalmente quieta. O que quer que tivesse assustado o esquilo havia sumido. Torak, porém, estava furioso consigo mesmo. Ele também devia ter percebido aquelas pegadas. Estar alerta. Um gaio os seguia de árvore em árvore enquanto eles avançavam. O sol ergueu-se em um céu sem nuvens. Em pouco tempo Torak estava ofegando, enquanto se esforçava na ofuscante neve recente que batia na altura dos joelhos. Decidira contra sapatos de neve: facilitariam o caminhar, mas o retardariam se ele tivesse de se movimentar com rapidez. Lobo saía-se melhor, com seu peito estreito cortando a neve como uma canoa fatiando a água. Por volta da metade da manhã, porém até mesmo ele estava cansado. A terra ascendia de modo constante como Krukoslik dissera que faria. — Meu avô certa vez chegou perto da montanha — explicara ele, quando Torak o acordara no meio da noite. — Tão perto que podia senti-la. Daqui você segue o


riacho para o norte, e a terra se eleva até você se encontrar na sombra das Montanhas Altas. Por volta da metade do dia, você chega a um pé de abeto atingido por um raio na entrada de uma ravina. A ravina é íngreme: íngreme demais para ser escalada. Mas há uma trilha que liga ao seu lado oeste... — Que tipo de trilha? — perguntara Torak. — Quem a fez? — Ninguém sabe. Apenas siga por ela. A árvore atingida por raio... ela tem o poder de proteger. Protege a trilha contra o mal. Talvez ela também o proteja. — E depois? Aonde vou depois disso? Krukoslik abrira os braços. — Você segue a trilha. Em algum lugar, no final da garganta, fica a montanha. — A que distância? — Ninguém sabe. O meu avô não foi muito longe antes de o Espírito detê-lo. O Espírito sempre os detém. Talvez... talvez com você seja diferente. Talvez, pensou Torak, pelejando através da neve. Se o seu plano funcionasse — se o Espírito do Mundo atendesse ao seu apelo — o urso seria destruído e a floresta sobreviveria. Caso contrário, não haveria uma segunda chance. Para ele ou para a floresta. Adiante dele, Lobo ergueu a cabeça e farejou. O pêlo do cangote se eriçou. O que teria percebido? A poucos passos dali, Torak percebeu que a neve fora derrubada das pontas dos galhos que ficavam mais ou menos na altura dos ombros. Então encontrou um rebento de zimbro com vários gravetos mordidos. — Veado-vermelho — murmurou.


Uma mistura de pegadas confirmou isso. Pela aparência delas, era um único veado, provavelmente um macho: eles não levantam as patas tão alto quanto as fêmeas, e Torak viu na neve marcas dragadas. Mas, se era apenas um veado, por que o cangote de Lobo se eriçou? Torak olhou em volta. Podia sentir a floresta com a respiração presa. As pegadas do urso saltaram da neve à sua frente. Ele não as vira antes por estarem muito espacejadas, mas agora distinguiu os sinais do salto em pânico que o veado dera encosta abaixo, com as pegadas do urso correndo atrás. O comprimento das passadas era apavorante. Lutando para se acalmar, Torak forçou-se a examinar a trilha. O urso estivera galopando, já que o padrão das pegadas estava virado em sentido contrário, com as pegadas traseiras na forma das de homem diante das pegadas dianteiras mais largas. Cada qual tinha três vezes o tamanho de sua própria cabeça. São frescas, pensou, mas as bordas estão ficando ligeiramente arredondadas. Se bem que, neste sol, não vai demorar muito para... Lobo saltou sobre as pegadas, ansioso para seguir em frente. Torak seguiu mais lentamente. Cada arbusto e cada pedra assumiam a forma de urso. A medida que pelejavam encosta acima, Lobo ficava cada vez mais agitado: pulando adiante, depois correndo de volta para Torak, apressando-o com pequenos grunhidos-ganidos. Talvez, finalmente, estivessem se aproximando da montanha. Talvez fosse por isso que Lobo estava ansioso em vez de amedrontado. Torak gostaria de


partilhar essa ansiedade, mas tudo o que conseguia sentir era o peso do Nanuak no seu cinturão e a ameaça do urso. Um rugido distante fendeu a floresta. O gaio soltou um grasnido e voou para longe. Torak apertou com tanta força o cabo de sua faca que doeu. Estava perto? Onde estava ele? Não sabia dizer. Lobo estava esperando que ele o alcançasse: o pêlo do cangote eriçado mas o rabo bem erguido. Seu significado era claro. Ainda não. Enquanto Torak vadeava através da neve, imaginava o que acontecera com as almas do urso. Afinal, como dissera Renn, ele continuava sendo um urso; outrora, ele devia ter caçado salmão e comido bagas e dormido durante o inverno. Suas almas ainda estariam dentro do corpo, com o demônio? Presas, apavoradas? Contornou uma pedra — e ali estava o abeto atingido por um raio. Seu ânimo encolheu. Acima dele, as Montanhas Altas elevavam-se para o céu, com um branco ofuscante. A ravina cortava através delas como um golpe de faca. Movendo-se sem parar para dentro das montanhas, sua extremidade perdida em uma nuvem impenetrável. Uma estreita trilha partia de seu lado oeste, serpeando acima de onde Torak estava. Quem fizera a trilha? Com que propósito? Quem ousaria caminhar por ela e se aventurar naquele lugar assombrado? De repente, as nuvens na extremidade da garganta abriram-se, e Torak viu o que havia além. Nuvens de tempestade agitava-se em seus flancos; um frio intenso e sem vento afluía de seu cume; inimaginavelmente alta, ela perfurava o céu: a Montanha do Espírito do Mundo.


Torak fechou os olhos, mas ainda conseguia sentir o poder do Espírito forçando-o a ficar de joelhos. Conseguia sentir sua ira. Os Devoradores de Almas haviam conjurado um demônio do Outro Mundo, haviam soltado um monstro na floresta. Haviam rompido o pacto. Por que o Espírito ajudaria os clãs, já que alguns entre eles haviam sido tão perversos? Torak curvou a cabeça. Não conseguiria prosseguir. Não pertencia àquilo ali. Aquele era um abrigo de espíritos, não de homens. Quando abriu os olhos, a montanha havia sumido, mais uma vez amortalhada em nuvens. Torak sentou-se sobre os calcanhares. Não posso fazer isso, pensou. Não consigo subir ali. Lobo sentou-se diante dele, os olhos em forma de lágrima tão puros quanto a água. Sim, você consegue. Eu estou com você. Torak sacudiu a cabeça. Lobo olhou-o fixamente. Torak pensou em Renn e Fin-Kedinn e nos Corvos, e em todos os outros clãs que nem mesmo conhecia. Pensou nas incontáveis vidas da floresta. Pensou em Pa: não em Pa moribundo caído nos destroços do abrigo deles, mas em Pa como ele estivera um pouco antes de o urso atacar: rindo da brincadeira que Torak fizera. A dor pressionou seu peito. Tirou a faca da bainha e livrou-se da luva para pousar a mão no frio azul da ardósia. — Você não pode parar agora — disse em voz alta. — Você fez um juramento. Para Pa. Desatou a aljava e o arco e os apoiou contra a árvore. Em seguida fez o mesmo com a mochila, o saco de


dormir, a pele de água e a machadinha. Não precisaria deles; apenas de sua faca, do Nanuak na algibeira de pele de corvo e do pequeno pacote de Renn embrulhado em entrecasca de bétula que estava em sua bolsa de remédios. Com um último olhar para a floresta, ele seguiu Lobo trilha acima.


TRINTA E UM Assim que Torak pisou na trilha, o frio aumentou de intensidade. A respiração crepitava em suas narinas. Suas pestanas grudavam uma na outra. O Espírito o alertava para voltar. O gelo sob suas botas era quebradiço e cada passo ecoava pela ravina. As macias patas de Lobo não faziam nenhum som. Virou-se e esperou Torak alcançá-lo: o focinho descontraído, o rabo sacudindo ligeiramente. Era como se estivesse feliz por estar ali. Ofegando, Torak conseguiu alcançá-lo. A trilha era tão estreita que havia lugar apenas para ficarem de pé lado a lado. Torak olhou para baixo — e desejou não ter olhado. Abaixo, o fundo da ravina já se encontrava muito distante. Subiram ainda mais alto. O sol iluminou o outro lado da ravina, e o clarão torno-se ofuscante. O gelo ficou traiçoeiro. Quando Torak chegou perto demais da beira da trilha, o gelo esmigalhou-se e ele quase caiu lá embaixo. Cerca de quarenta passos adiante, a trilha se alargava ligeiramente abaixo de uma saliência rochosa. Era rasa demais para ser uma caverna: simplesmente um buraco através do qual se via o basalto negro da encosta da ravina. Ao vê-la, o ânimo de Torak melhorou. Esperava encontrar algum tipo de abrigo. Precisaria de um, se o seu plano... A seu lado, Lobo ficou tenso. Ele olhava ravina abaixo, as orelhas para adiante, cada pêlo de suas costas de pé.


Protegendo os olhos, Torak esquadrinhou além da borda. Nada. Troncos de árvores negros. Pedras cobertas de neve. Intrigado, virou-se para ir embora... e o urso surgiu de repente, como fazem os ursos. Primeiro um movimento no fundo da ravina... e então apareceu. Mesmo daquela distância — cinqüenta, sessenta passos abaixo — ele era enorme. Enquanto Torak permanecia grudado no mesmo lugar, ele agitava-se de lado a lado, atrás de um cheiro. Não encontrou nenhum. Torak estava muito alto. O urso não sabia que ele estava ali. Ele o observou se virar e seguir ravina afora, em direção à floresta. Agora ele teria de fazer o impensável. Tinha de atraí-lo de volta. Só havia um meio seguro de fazer isso. Tirou as luvas e soprou nos dedos para aquecê-los; então soltou do cinto a bolsa de pele de corvo. Desamarrando a corda de pêlo que a fechava, abriu a caixa de casca de sorveira, e o Nanuak encarou-o. Os olhos do rio, o dente de pedra a lamparina. Lobo emitiu um grunhido-ganido baixinho. Torak lambeu os lábios rachados pelo frio. De sua bolsa de remédios, tirou o pequeno embrulho de entrecasca de bétula que Renn lhe dera. Enfiou as ervas purificadoras e o embrulho de entrecasca de bétula na gola de sua parca, e olhou abaixo para o que Renn fizera para ele durante a noite. Uma bolsinha de capim nodoso tecido: a malha tão fina que conteria até mesmo os olhos do rio, mas deixaria passar a luz do brilho do Nanuak, a luz que Torak não conseguia ver mas o urso conseguia. Tomando cuidado para não tocar no Nanuak com as mãos nuas, virou a lamparina, o dente de pedra e os


olhos do rio para dentro da bolsa de capim tecido. Em seguida fechou-a e enrolou o longo cordel em sua cabeça. Ele estava usando o Nanuak exposto em seu peito. Os olhos de Lobo refletiram uma fraca e trêmula luz dourada: a luz do Nanuak. Se Lobo conseguia vê-la, o demônio também conseguiria. Torak contava com isso. Virou-se para encarar o urso. Este estava a alguma distância ravina abaixo, seguindo sem nenhum esforço através da neve. — Ali está ele — disse Torak, mantendo a voz baixa para não enfurecer o Espírito do Mundo. — É disso que você está atrás: a mais brilhante dessas almas brilhantes que você odeia tanto... que anseia apagar para sempre. Venha buscá-la agora. O urso parou. Uma ondulação percorreu seu compacto ombro corcunda. A enorme cabeça girou. O urso virou e começou a caminhar de volta, em direção a Torak. Um ardente entusiasmo percorreu seu corpo. Aquele monstro matara Pa. Desde então, ele estivera fugindo. Agora não fugia mais. Reagia. O urso era mais rápido do que Torak esperava; em pouco tempo estava abaixo dele. Feito pelo homem, ergue-se nas patas traseiras. Embora estivesse cinqüenta passos acima, Torak o viu tão claramente como se pudesse esticar a mão e tocá-lo. O urso ergueu a cabeça e fez contato visual com Torak... e ele esqueceu o Espírito, esqueceu seu juramento para Pa. Não estava parado em uma gelada trilha da montanha, estava de volta à floresta. Do abrigo em ruínas veio o grito desvairado de Pa. Torak!. Corra! Não conseguia se mexer. Queria correr — subir a trilha até a saliência, como sabia que precisava — mas não


conseguia. O demônio drenava sua vontade — puxando-o para baixo, para baixo... Lobo rosnou. Torak libertou-se e seguiu cambaleando trilha acima. Olhar dentro daqueles olhos fora como olhar para o sol: sua imagem circundada de verde permanecia impressa em sua mente. Ouviu o estalar do gelo, quando o urso começou a usar as garras para subir pelo lado da ravina. Imaginou-o escalando com facilidade letal. Tinha de chegar à saliência, ou não teria nenhuma chance. Lobo subiu correndo a trilha. Torak escorregou e desceu deslizando sobre um joelho. Pelejou para se pôr de pé. Olhou além da borda. O urso havia escalado um terço do caminho. Ele correu. Alcançou a saliência e jogou-se no interior do buraco rochoso, dobrado ao meio, pelejando para respirar. Agora, o resto de seu plano: chamar o Espírito e pedir ajuda. Forçando uma posição aprumada, encheu o peito de ar, jogou a cabeça para trás e uivou. Lobo reproduziu o uivo, e seus latidos penetrantes golpearam a ravina — para lá e para cá, para lá e para cá através das montanhas. Espírito do Mundo, uivou Torak, eu lhe trago o Nanuak! Atenda-me! Envie o seu poder para esmagar o demônio da Floresta! Abaixo ouviu o urso se aproximar... gelo retinindo na ravina. Ele uivou repetidamente até suas costelas doerem. Espírito do Mundo, atenda meu apelo... Nada aconteceu.


Torak parou de uivar. O terror dominou-o. O Espírito do Mundo não atendera ao seu pedido. O urso estava vindo atrás dele... De repente, deu-se conta de que Lobo também parará de uivar. Olhe atrás de você, Torak. Ele virou-se e viu a machadinha de Hord girando em sua direção.


TRINTA E DOIS Torak esquivou-se e a machadinha passou sibilando pela sua orelha, estilhaçando o gelo onde ele estivera. Hord apanhou-a de volta. — Me dê o Nanuak! — berrou. — Eu tenho de levá-lo à montanha! — Me deixe em paz! — disse Torak. Da beira da garganta veio o som de gelo triturado. O urso aproximava-se do topo. O rosto desfigurado de Hord se contorceu de dor. Torak mal podia imaginar como ele conseguira segui-los através da floresta assombrada por demônios; desafiar a ira do Espírito aventurando-se a subir a trilha. — Me dê o Nanuak — repetiu Hord. Lobo avançou para ele, todo o seu corpo estremecendo com um rosnado. Não era mais um filhote; era um jovem lobo feroz defendendo seu irmão de alcatéia. Hord ignorou-o. — Eu o terei! É minha culpa isso estar acontecendo! Eu tenho de pôr um fim nisso! De repente, Torak entendeu. — Foi você — disse ele. — Você estava presente quando o urso foi feito. Você estava com o Clã do VeadoVermelho. Você ajudou o Devorador de Alma aleijado a prender o demônio. — Eu não sabia! — protestou Hord. — Ele disse que precisava de um urso... eu capturei um jovem. Não sabia o que ele pretendia fazer! Então várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Hord brandiu sua machadinha em direção à garganta de


Torak. Torak abaixou-se. Lobo saltou para cima de Hord, enfiando os dentes em seu pulso. Hord urrou e soltou a machadinha, mas, com a mão livre, desferiu socos na cabeça desprotegida de Lobo. — Não — gritou Torak, sacando sua faca e arremessando-se para Hord. Hord agarrou Lobo pelo cangote e jogou-o contra o basalto, então contorceu-se e investiu para o Nanuak que pendia do pescoço de Torak. Torak encolheu-se para ficar fora de alcance. Hord então foi para suas pernas, derrubando-o de costas no gelo. Entretanto, enquanto caía, Torak arrancou a bolsa de seu pescoço e jogou-a para cima da trilha, fora do alcance de Hord. Lobo endireitou-se com uma sacudida e saltou para a bolsa, apanhando-a em pleno ar, mas pousando perigosamente próximo à beira da ravina. — Lobo! — gritou Torak, debatendo-se embaixo de Hord, que estava montado em seu peito, ajoelhado sobre seus braços, mantendo-os presos. As patas traseiras de Lobo patinavam loucamente na borda. Logo abaixo dele, um rugido ameaçador — então as garras negras do urso rasgaram o ar, errando por pouco as patas de Lobo... Lobo deu um impulso tremendo e alcançou de volta a trilha. Mas então, pela primeira vez na vida, resolveu devolver algo que Torak havia jogado, e foi na direção dele com o Nanuak na boca. Hord esticou-se para alcançar a bolsa. Torak conseguiu soltar uma das mãos e afastou o braço dele. Se ao menos o braço com a faca não estivesse preso sob o joelho de Hord... Um rugido sinistro sacudiu a ravina. Horrorizado, Torak observou o urso erguer-se acima da borda da trilha.


E naquele momento final, quando o urso assomava acima dele, quando Lobo parou com o Nanuak na boca — naquele momento final em que Torak lutava com Hord, o verdadeiro significado da profecia ficou claro para ele. ―O Ouvinte dá o sangue de seu coração à Montanha.‖ O sangue de seu coração. Lobo. — Não!, gritou dentro de sua cabeça. Mas ele sabia o que tinha de fazer. Bem alto, gritou para Lobo: — Leve isso para a montanha! Uff! Uff! Uff! O olhar dourado de Lobo encontrou o dele. — Uff! — arfou Torak. Seus olhos pungiram. Lobo virou-se e correu pela trilha em direção à montanha. Hord rosnou furioso e foi cambaleante atrás dele — mas escorregou e caiu para trás, berrando, nos braços do urso. Com dificuldade, Torak pôs-se de pé. Hord ainda berrava. Torak tinha de ajudá-lo... Do alto veio um estalido ensurdecedor. A trilha estremeceu. Torak foi lançado ao chão de joelhos. O estalido avolumou-se para um rugido opressor. Ele jogou-se abaixo da saliência — e, um instante depois, desabou a impetuosa, violenta neve assassina, apagando Hord, apagando o urso — enviando-os abaixo, urrando, para a morte. O Espírito do Mundo ouvira o apelo de Torak. A última coisa que Torak viu foi Lobo, o Nanuak ainda em sua boca, correndo abaixo da neve trovejante em


direção à montanha. Lobo!, ele gritou. Então o mundo todo ficou branco. Torak não sabia quanto tempo estava agachado junto à face da rocha, os olhos bem fechados. Finalmente, percebeu que o trovejar se transformara em ecos — e que os ecos ficavam cada vez mais fracos. O Espírito do Mundo se afastava, seguindo para as montanhas. O som de suas passadas enfraqueceu e virou um sibilar de neve assentando... Depois um sussurro... Então: o silêncio. Torak abriu os olhos. Conseguia ver o outro lado da ravina. Não fora enterrado vivo. O Espírito do Mundo havia passado acima da saliência e o deixara viver. Mas onde estava Lobo? Pôs-se de pé e cambaleou até a beira da trilha. O frio mortal cessara. Ele viu as montanhas através de uma névoa de neve assentando. Abaixo dele, a ravina havia desaparecido sob um caos de gelo e pedras Enterrados sob eles estavam Hord e o urso. Hord pagara com a vida. O urso era uma casca vazia, pois o Espírito banira o demônio para o Outro Mundo. Talvez agora as próprias almas do urso estivessem em paz, depois de seu longo aprisionamento com o demônio. Torak cumprira o juramento que fizera a Pa. Entregara o Nanuak ao Espírito do Mundo — e o Espírito destruíra o urso. Ele sabia disso, mas não conseguia sentir. Tudo que conseguia sentir era a dor em seu peito. Onde estava Lobo? Teria alcançado a montanha antes de a neve desabar? Ou também se encontrava enterrado sob o gelo?


— Por favor, esteja vivo — murmurou Torak. — Por favor. Eu nunca mais pedirei outra coisa. Uma brisa levantou seu cabelo, mas não trouxe nenhuma resposta. Um jovem corvo sobrevoou as montanhas, crocitando e dançando no céu com a alegria de voar. Do leste veio um estrondo de cascos. Torak sabia o que isso significava. Significava que as renas estavam descendo do urzal. A floresta retornava à vida. Virando-se, viu que o caminho para o sul continuava desimpedido, ele poderia achar o caminho de volta para Renn e Fin-Kedinn e os Corvos. Então, do norte — além da torrente de gelo que bloqueava a trilha, atrás das nuvens que ocultavam a Montanha do Espírito do Mundo —, um lobo uivou. Não era o uivo agudo, inconstante de um filhote, mas a pura canção comovente de um jovem lobo. Mesmo assim, era inconfundivelmente Lobo. A dor no peito de Torak desprendeu-se e libertouse. Enquanto ele ouvia a melodia da canção de Lobo, mais vozes lupinas se juntaram: entrelaçando-se a ela, mas nunca abafando aquela voz clara e adorável. Lobo não estava sozinho. Os olhos de Torak embaçaram com lágrimas. Ele entendeu. Lobo uivava um adeus. Não voltaria. O uivo cessou. Torak baixou a cabeça. — Mas ele está vivo — disse em voz alta. — É isso que importa. Ele está vivo. Desejou uivar uma resposta: dizer a Lobo que aquilo não era para sempre; que algum dia ele daria um jeito


de os dois ficarem juntos. Mas não conseguiu pensar como dizer isso, pois na fala de lobo não há futuro. Em vez disso, falou aquilo na sua própria língua. Sabia que Lobo não entenderia, mas também sabia que estava fazendo uma promessa para si mesmo tanto quanto para Lobo. — Algum dia — gritou, e sua voz ressoou no ar radiante —, algum dia; estaremos juntos. Caçaremos juntos na floresta. Juntos... — e a sua voz falhou — Eu prometo. Meu irmão, o lobo. Não houve resposta. Mas Torak não esperava nenhuma. Ele fizera a sua promessa. Curvou-se para pegar um punhado de neve para refrescar seu rosto ardente. A sensação foi boa. Curvou-se para apanhar mais e limpou a Marca da Morte de sua testa. Então virou-se e começou a caminhar de volta em direção à floresta.

Irmão Lobo é o primeiro livro das Crônicas das trevas antigas, que contam as aventuras de Torak na Floresta e seus arredores e seus feitos para subjugar os Devoradores de Almas.


NOTA DA AUTORA Se você pudesse voltar ao mundo de Torak, acharia uma parte dele surpreendentemente familiar e outra parte completamente estranha. Você teria recuado seis mil anos no tempo, para uma época quando a floresta cobria todo o noroeste da Europa. A Idade do Gelo terminara alguns milhares de anos antes, portanto os mamutes e os tigresdentes-de-sabre haviam desaparecido; e embora a maioria das árvores, plantas e animais viessem a ser os mesmos de agora, os cavalos da floresta eram mais robustos, e você provavelmente ficaria abismado ao ver um auroque pela primeira vez: um enorme boi selvagem com chifres apontando para a frente, com cerca de um metro e oitenta de altura na parte do ombro. As pessoas do mundo de Torak pareceriam exatamente como eu e você, mas seu modo de vida o surpreenderia por ser tão diferente. Caçadores-catadores viviam em pequenos clãs e movimentava-se demais: às vezes, ficavam poucos dias em um acampamento, como Torak e Pa do Clã do Lobo, ou às vezes ficavam por toda uma lua ou uma estação, como os Clãs do Corvo e do Javali. Eles ainda não tinham ouvido falar em agricultura, e não tinham escrita, metais ou a roda. Não precisavam disso. Eram esplêndidos sobreviventes. Sabiam tudo sobre animais, árvores, plantas e pedras da floresta. Quando queriam uma coisa, sabiam onde encontrá-la ou como fazê-la. Muito disso eu consegui aprender através da arqueologia: em outras palavras, dos vestígios das armas, comidas, roupas e abrigos que os clãs deixaram para trás na floresta. Mas isso é apenas uma parte. Como eles pensa-


vam? O que acreditavam sobre vida e morte, e de onde vieram? Para isso, pesquisei as vidas de caçadorescatadores mais recentes, inclusive algumas tribos de nativos americanos, os Inuit (esquimós), os San meridional da África, e os Ainu do Japão. Mesmo assim, restou a questão de como era realmente a sensação de se viver na floresta. Que gosto tem a resina de abeto? Ou o coração de rena, ou alce defumado? Qual a sensação de se dormir em um dos abrigos de frente aberta do Clã do Corvo? Felizmente, é possível descobrir, pelo menos até certo ponto, porque partes da floresta ainda perduram. Eu estive lá. E, às vezes, bastam cerca de três segundos para se voltar seis mil anos no tempo. Se você ouvir um veadovermelho berrar à meia-noite, ou encontrar pegadas frescas de lobo atravessando as suas; se, de repente, tiver de convencer um urso bastante nervoso de que você não é nem ameaça nem presa... É aí que você volta para o mundo de Torak. Finalmente, eu gostaria de agradecer a algumas pessoas. Quero agradecer a Jorma Patosalmi por me guiar através da floresta da Finlândia setentrional, por me deixar experimentar uma corneta de casca de bétula por me mostrar como carregar fogo num pedaço de fungo em combustão, e por uma porção de outras dicas de caça e informações sobre a floresta. Também quero agradecer ao Sr. Derrick Coyle, o Yeoman Ravenmaster da Torre de Londres,1 por me apresentar a alguns corvos extremamente 1

Guarda responsável pelo bem-estar dos corvos da Torre de Londres, inclusive aparando suas asas, pois, segundo a lenda, a cidade desaparecerá depois que o último corvo morrer ou voar de lá. (N. do T.)


majestosos. Com relação a lobos, sou profundamente agradecida à obra de David Mech, Michael Fox, Lois Crisler e Shaun Ellis. E, por último, quero agradecer ao meu agente Peter Cox e à minha editora Fiona Kennedy pelo seu inesgotável entusiasmo e apoio.

Crônicas das trevas antigas vol 1 irmão lobo  
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