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Carta da Editora É com imenso prazer que a Exótica lança mais uma edição, depois de um hiato de meio ano. Nossa revista foi perseguida por políticos inescrupulosos que desejavam silenciar as vozes feministas no país. No entanto, sua vontade não prevaleceu: foi forte o suficiente para suspender apenas a publicação do início de ano. Cá estamos novamente, cheias de vigor para levar à frente a causa das mulheres destemidas. A revista se preocupou, no presente volume, em prestar algumas homenagens à figuras significantes para o movimento. Traçamos o perfil de Josephine Baker, a Vênus Negra, grande cantora e dançarina dos espetáculos da Broadway. Trazemos a célebre Greta Garbo das telas do cinema direto para nossas páginas, atentando-nos para seus filmes. Contamos a breve – mas não pouco importante – trajetória de Bertha Lutz, uma mulher em ascensão no cenário político. E ainda presenteamos a leitora com uma matéria sobre Coco Chanel, ídolo de nossa geração. Mas não há apenas a estilista como representante da moda. Fazemos também um panorama a respeito do estilo atual, focando nas roupas e utensílios da mulher moderna. Investigamos as principais tendências do momento para que você, leitora, fique por dentro das novidades e possa se sentir bela e esplêndida, pois não há nada mais importante do que estar bem consigo mesma! Como de praxe, analisamos algumas obras cinematográficas e sua relação com o feminismo. Nessa edição, falamos sobre os filmes Um Cão Andaluz, curta-metragem de Luis Buñuel e Salvador Dalí, e Aurora, de F. W. Murnau. A partir deles, desenvolvemos uma reflexão acerca dos papéis femininos e masculinos na sociedade e sobre algumas mensagens implícitas de machismo presentes, por vezes, nesse tipo de mídia. Não posso deixar de mencionar o aspecto político desse número. Comemoramos os 25 anos de criação da WSPU e sua luta pela conquista do voto feminino. Contamos também com uma grande matéria sobre a primeira mulher eleita no Brasil, e trazemos em primeira mão o seu discurso de vitória! Além de tudo isso, nos preocupamos em trazer as últimas descobertas científicas na área de saúde feminina. Falamos sobre o novo exame ginecológico Papanicolau e sobre os tumores descobertos recentemente que podem representar um perigo para o nosso bem-estar físico. Desejo a todas uma boa leitura. Espero que a edição traga à tona a mulher maravilhosa e cheia de coragem que existe dentro de todas nós! Sofia Fortunato

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VISTO

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EXISTO por Francesca Laquidara

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ivre-se dos preconceitos, inove, crie a sua identidade própria e seja diferente, seja você mesma. Cultive o seu bem-estar, sinta-se confortável com as suas escolhas. O espartilho deverá perder o lugar de primazia no armário da nova mulher, seja irreverente, inspire-se no Charleston, deixe de lado os velhos vestidos longos e românticos e suba as bainhas, mostre os tornozelos, deixe os braços e costas sem pano. A simplicidade deverá predominar entre as suas escolhas quando chega a hora de vestir. O véu está ultrapassado, opte pelos chapéus tipo Jérsei, cloche ou boinas, acessórios que deverão ser usados apenas para saídas noturnas. A cartela de cores deverá ser construída com branco, cinza,

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azul-índigo, azul-noite, ouro e prata envelhecidos, bege, nude, caramelo, charuto, berinjela e preto. Quanto às meias opte pelos tons de bege criando, assim, uma aparência pernas nuas. As novas tendências propõem que se inove, também, no corte de cabelo, esse deve ser curtinho e a maquilhagem essencial, opte pelos tons escuros e o carmim para os lábios.

Quando o assunto é moda, a nova mulher deverá ter sempre em mente os dois grandes nomes da moda que chegaram para revolucionar o armário feminino. Paul Poiret e Gabrielle Bonheur Chanel trouxeram à moda feminina um caracter irreverente, inovador e livre de preconceitos. Os estilistas franceses, marcam e ditam as novas tendências da moda para a renovada mulher e deixam o seu cunho pessoal em todas as suas criações. Apesar da sua cidadania europeia, as suas criações adquirem um carácter mundial, Poiret e Coco Chanel criam e inovam tendo em mente apenas e só a mulher que se emancipa, independentemente da cor, religião ou país de proveniência.

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O francês Poiret, inspirado pelas tendências orientais, trouxe até à moda feminina os mantos de estilo árabe, vestidos de Verão com bolsos aplicados e continuou a deixar-se influenciar pela simplicidade da forma, apenas procurando acentuar de forma exagerada os contornos do corpo feminino. O estilista propõe que as mulheres continuem irreverentes e optem pelas roupas de corte reto e de acabamento simples, para Poiret


menos é mais e as novas tendências da moda feminina são marcadas pela simplificação.

branco, cinza, azul-índigo, azul-noite, ouro e prata envelhecidos, bege, nude, caramelo, charuto, berinjela e preto. Quanto às meias opte pelos tons de bege criando, assim, uma aparência pernas nuas.

Coco Chanel, apresenta-se como uma revolucionária e no mundo da moda dita as suas próprias tendências, as quais têm sido reproduzidas por várias mulheres emancipadas. Coco Chanel traz até à moda feminina os cortes retos, as capas, blazers, cardigãs e colares compridos. A juntar Às proposta de Channel devem acrescentar-se os trench-coats tipo jaquetão com 4 botões, calças boyfriend, sarouel, harém, skinny, legging e alfaiataria. Quanto aos tecidos, os destaques são os veludos e a lã, verniz, chamois, náilon, cetim, transparência, renda, jacquard, tweed e couro.

As novas tendências propõem que se inove, também, no corte de cabelo, esse que deve ser curtinho de estilo à la garçonne, quanto ao que à maquilhagem diz respeito, opte pelos tons escuros para os olhos e o carmim para os lábios. Inspire-se nos ícones da moda feminina e livre-se dos preconceitos, e busque inspiração em mulheres como as actrizes Gloria Swanson, ou até mesmo Mary Pickford, copie o estilo da cantora e bailarina norte-americana Josephine Baker, seja ousada na forma de vestir e de se apresentar.

O véu está ultrapassado, opte pelos chapéus tipo Jérsei, cloche ou boinas, acessórios que deverão ser usados apenas para saídas noturnas.

Vista e exista aos olhos da sociedade, inove e crie a sua própria identidade. ■

A cartela de cores deverá ser construída com

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política moda

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anos e sua influência na conquista do Em 1907 sob o comando de Christabel Pankhurst o WSPU iniciou uma organização mais clara entre mulheres de classe média e passou a se opor a todos os partidos políticos. Com isso algumas de suas integrantes deixaram o grupo criando a Women’s Freedom League (a liga pela liberdade das mulheres). Ainda em 1907 Frederick e Emmeline Lawrence fundaram um jornal próprio para o WSPU.

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SPU (sigla em inglês para União Social e Política das Mulheres) foi fundado em Manchester no ano de 1903, composto apenas por mulheres. Era inicialmente um grupo pacífico com finalidade de persuadir políticos buscando a liberação do voto feminino mas que não encontrou sucesso com essa postura pacífica. Foi possível notar que não se chegaria a lugar algum com esse tipo de conduta quando receberam a noticia do fracasso do projeto de lei, criado em 1905, pelo membro do parlamento inglês John Bamford Slack, que legalizaria o voto feminino. Tendo em vista esse fracasso e a dificuldade de mudar a postura machista dos parlamentares ingleses e ainda de chamar sua

atenção sem atitudes mais drásticas, em 1906 o grupo de sufragistas pôs em prática o lema que dizia “Ações, não palavras” e deu início a uma série de manifestações para pressionar o parlamento. E por consequência desta nova conduta a prisão de alguns de seus membros foi inevitável. Algum tempo depois cerca de 300 mulheres, servindo também de embaixadoras para um grupo de mais de 100 mil sufragistas, defenderam perante o então primeiro-ministro inglês Henry Campbell-Bannerman a questão do sufrágio feminino. O primeiroministro teria concordado com os argumentos, mas devido a pressão dos opositores deixara a situação mal resolvida. Isso só serviu de incentivo para as militantes continuarem na luta.

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Em 1908 Emmeline Lawrence escolheu as cores oficiais do WSPU: O roxo, representando a cor do sangue real que corre pelas veias de todas as sufragistas; o branco que representa a pureza na vida pública e privada das


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de WSPU sufrágio feminino na Inglaterra por Mauro Coimbra

mulheres; e o verde que representa a esperança e a primavera. Em junho do mesmo ano ocorreu o primeiro grande uso público dessas cores quando houve um grande comício de sufragistas no Hyde Park, um grande parque situado em Londres. Com a definição dessas cores, foram criadas lojas para vender produtos do WSPU e ajudar a financiar o movimento. Com a grande quantidade de membros sendo presos nas manifestações o WSPU introduziu a greve de fome como tática para ganhar visibilidade para a causa, já que a política de alimentação forçada utilizada para conter as greves de fome atraía a mídia britânica e a informação que essa

veiculava criava grande simpatia no publico para com o movimento. Em 1912 o grupo promoveu incêndios em casas senhoriais, quebras de vitrines em lojas, corte de linhas telefônicas, ataques a vagões de trem e ataques com bombas em prédios públicos. Um ano mais tarde Emily Davison atirou-se na frente do cavalo do Rei no Derby de Epsom e faleceu três dias depois, atraindo grande visibilidade para o movimento. Em 18 de julho de 1912, Mary Leigh atirou um pequeno machado no então primeiro-ministro, Herbert Henry Asquith. Com o início da Grande Guerra as mulheres passaram a ocupar posições mais altas

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no mercado de trabalho e com seu fim não voltaram a ocupar posições subalternas. Isso acabou por fortalecer a briga pelo sufrágio feminino. No entanto o WSPU abandonou suas campanhas pelo voto e compôs-se de uma postura mais nacionalista em apoio ao governo na guerra, tendo se dissolvido em 1917 com a fundação do Partido da Mulher por Christabel e Emmeline Pankhurst. Onze anos mais tarde, no atual ano de 1928 o parlamento britânico enfim concedeu às mulheres o direito de votar, porém isso ocorreu duas semanas após a morte de Emmeline Pankhurst, que não pode desfrutar do direito pelo qual tanto lutou. ■


moda cinema A IT C ! Ó A EX NDIC I

A Carne

e o Diabo (Flesh and the Devil; drama/romance)

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filme do diretor Clarence Brown lançado em 1926 tem como protagonista a bela e talentosa Greta Garbo, nesta obra ela é Felicitas Von Rhaden e faz parte de um triângulo amoroso, no qual Leo (John Gilbert) e Ulrich (Lars Hanson), amigos desde a infância, encontram-se apaixonados pela mesma mulher. Felicitas é casada, porém certo dia encontra seu marido morto o que se torna um suspense no filme. Mais tarde descobrimos que o mesmo fora morto por Leo. Como punição, ele é transferido para a África e pede a seu amigo, Ulrich que cuide de Felicitas por três anos.

por Thais Scarlet

do-se garota propaganda de várias lojas e pequenos comércios. Daí veio o reconhecimento no cinema. Seu primeiro filme foi “A Saga de Gösta Berling” lançado em 1924 na Suécia. O último filme gravado na Europa foi o sucesso “Rua das Lágrimas”. Em 1925 Garbo mudou-se para Hollywood já com contrato com a MGM. Nos Estados Unidos demorou a iniciar

Por sua vez, sem saber que Leo ama Felicitas, Ulrich se apaixona loucamente por ela. Os dois casam, criando assim um dilema na vida de Leo que se encontra dividido entre a paixão e a amizade. Felicitas aproveita a oportunidade para seduzir Leo novamente, tornando-o seu amante. Formando assim um triângulo amoroso mortal envolvendo os dois amigos de longa data e uma mulher fatal. Greta Garbo nasceu em 18 de setembro de 1905 em Estocolmo no Reino da Suécia. Iniciou sua carreira no cinema com filmes publicitários para lojas locais, tornan-

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a carreira cinematográfica devido ao fato de não falar inglês fluente e sua desfavorável aparência. Após alguns retoques na sua fisionomia e emagrecer alguns quilos, Greta veio a ser o que ela é hoje, ou seja, uma das mulheres mais lindas do cinema mundial. Recentemente lançou o filme “Love” que está sendo muito bem falado pela critica americana. ■


saúde moda

Papanicolau

Médico grego descobre exame que detecta câncer uterino por Anna Alves

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e uma vila grega surgiu o exame que pretende revolucionar a vida das mulheres. George Papanicolaou dedica-se a estudar patologias do colo uterino da mulher dede 1920. Mas antes do teste em humanos o médico ganhou o título de doutor, em 1910, no Instituto Zoológico de Munique, maior centro de pesquisa zoológica do mundo. Sua pesquisa era sobre diferenciação sexual entre espécies. Ele resolveu partilhar o trabalho de 8 anos com a comunidade científica, em um projeto de 100 páginas apresentado em um evento internacional: – A primeira observação de células cancerígenas em um esfregaço do colo do útero foi uma das experiências mais emocionantes de minha carreira científica – afirma o médico. Nascido em Kymi, na Grécia, em 13 de maio de 1883, George Papanicolaou seguiu os passos do pai. Nicolas, o patriarca, é um médico respeitado e referência em medicina na cidade onde nasceram. Aos 15 anos, George, ingressou na Universidade de Atenas, devido ao incentivo do pai, foi para a escola de medicina e formou-se em 1904. Papanicolaou iniciou sua carreira médica, cuidando de pacientes leprosos em uma colônia no norte de sua cidade natal, até 1906.

Em 1912, mudou-se para os Estados Unidos atrás de oportunidade para ampliar sua pesquisa. Levou um ano em Nova Iorque até arrumar trabalho como assistente de laboratório na Universidade Cornell. Ali, Papanicolaou acabou professor. Antes de chegar lá, vendeu tapetes para sustentar a esposa, Mary. Papanicolaou trabalhou com C. K. Stockard, bioquímico de Nova Iorque, no teste de esfregaço vaginal durante o cio de cobaias. O trabalho rendeu o artigo The existence of a typical oestrous cycle in the guineas pigs – with a study of its histological an physiological changes, em 1917, no American Journal of Anatomy. Mais tarde, em 1920, George desenvolveu com E. Shorr a aplicação do teste em humanos. Em 1923, ele estudou as mudanças provocadas pelos hormônios no útero. Para isso, analisava as secreções uterinas de pacientes. Foi então que viu uma amostra diferente, cheia de células deformadas. Ela pertencia a uma voluntária com câncer. O pesquisador grego fez o mesmo exame em outras doentes e concluiu que aquele tipo de análise diagnosticava tumores. A equipe da Exótica entrevistou o doutor George Papanicolaou: Exótica: Quando o senhor resolveu estudar doenças do sistema reprodutor feminino? Papanicolaou: Foi o rumo que minha carreira tomou e que me satisfaz hoje. Comecei tratando

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doentes da minha cidade. Depois, passei quatro anos como médico de soldados gregos e ainda, em 1912, fui primeiro-tenente do Corpo Médico dos Balcãs na guerra contra a Turquia. Mas minha passagem pela Alemanha mudou minha vida. Lá trabalhei com Ernst Haeckel (um dos primeiros proponentes do darwinismo) e decidi estudar as diferenças sexuais. Resolvi levar aquilo aos humanos e desenvolvi o trabalho com as células do útero em Nova Iorque Exótica: Como a comunidade médica recebeu seu trabalho? Papanicolaou: Nem ela, nem o mundo estão preparados para esse avanço em relação à saúde feminina. O preconceito e o pudor ainda existem, entre os próprios médicos também. Mas de fato estamos contribuindo para o tratamento das neoplasias no sistema reprodutor feminino. Acredito que em alguns anos e com mais pesquisa e informação avancemos neste sentido. Exótica: O senhor tem ideia do valor da sua contribuição? Papanicolaou: Às vezes penso que sim e outras que não. Só sei que mantenho meu foco na pesquisa da citologia oncótica a fim de dar alternativas de tratamento para este tipo de doença. Se conseguirmos evoluir e conquistar resultados ainda mais positivos, acredito que minha pesquisa terá um valor realmente significativo para a sociedade. Quem sabe eu não ganhe um exame com meu nome? (risos) ■


moda cultura

JOSEPHINE BAKER Vênus de N

ébano por Lola Chevalier

ão é à toa que Frida Josephine McDonald recebe os apelidos de “Vênus negra” e “Deusa de ébano” e arranca elogios de grandes personalidades. Extravagante e sensual, Josephine Baker conquistou Paris, há quase três anos e deixou muitos homens e mulheres apaixonados, sempre se apresentando em trajes ousados. Nascida em 1906, com uma infância pobre no sul dos Estados Unidos, em Saint Louis, costumava dançar nas ruas para ganhar algumas moedas. Assim como a mãe e a irmã, chegou a trabalhar como lavadeira na casa de senhoras. Com oito anos, arrumou um emprego de camareira da diva negra Clara Smith e conseguiu a oportunidade de substituir uma corista, passando a fazer parte de um grupo teatral de terceira classe. Ela não possuía nada além de um talento artístico excepcional e a vontade férrea de vencer na vida.

Aos quinze anos, casou-se com William Howard Baker e ganhou seu sobrenome, mas deixou-o dois anos depois, quando saiu de St. Louis, devido à grande discriminação racial que havia na cidade.  Em seguida, partiu para Nova York, apresentando-se no Plantation Club e sendo corista de espetáculos de teatro de revista na Broadway, tais como  “Shuffle Along” e “The Chocolate Dandies”.  Dançava na extremidade do coro, posição na qual uma corista se apresentava tradicionalmente de maneira cômica, pois era incapaz de memorizar os passos de dança.  Ela só veio a superar essa dificuldade após muita repetição, passando então a dançar corretamente, acrescentando a seus passos grande complexidade.  Passou então a ser considerada como a corista mais bem paga do teatro de revista. Josephine conquistou um lugar no grupo das dançarinas do


moda Music Hall. Achavam que ela fazia muitas caretas e que tinha olhos vesgos, mas não demorou para que a produtora Caroline Reagan visse o diferencial de Josephine e a enviasse a Paris. “Deixei os Estados Unidos num dia nevoento de setembro e desembarquei em Paris, com o sol da França no coração. Eu decidi assim, pois sabia, através dos meus pais, que na França eu encontraria opiniões liberais, liberdade de pensamento e uma visão mais natural do corpo”, disse Josephine em entrevista exclusiva. Segundo ela, não sentia saudades dos Estados Unidos, porque queria ver o mundo para além da “linha de cor”, assim como queria enfrentar novos desafios.

afro-americana a desempenhar o principal papel numa grande produção cinematográfica, a primeira a apresentar-se perante uma plateia de brancos e negros numa sala de concertos americana e a primeira artista negra de teatro de variedades a se tornar  mundialmente famosa. Inicialmente, mesmo na liberal Paris, ouviram-se alguns protestos após as suas primeiras apresentações. Mas foi muito mais forte o entusiasmo pela forma inteiramente nova de dançar. A dançarina foi rapidamente reconhecida como uma artista com características inconfundíveis e uma mulher de personalidade forte, extrovertida, dinâmica e desprovida de maiores pudores. O sucesso de Josephine Baker coincidiu com a Exposição das Artes Decorativas, realizada em 1925 e, igualmente, com a renovação do interesse pelas formas étnicas da arte, incluindo a arte africana.  Ela tem representado aspectos dessa moda por conta de sua criatividade e sua paixão por plumas e lantejoulas. Seus cabelos curtos, grudados na cabeça com brilhantina, a guisa de um capuz laqueado, chamou a atenção do público e vem se tornando a coqueluche do momento. Atualmente, Josephine está em uma turnê pelo mundo, iniciada no último mês de março. ■

O cenário de sua estréia em “RevueNègre”, no teatro de Champs-Elysées, em Paris, tinha uma paisagem dos estados sulinos dos EUA, às margens do Mississippi. Na platéia, os artistas Léger e Jean Cocteau. No palco, uma negra de dezenove anos que se contorcia, dançava com movimentos de êxtase e cantava como se fosse um pássaro tropical, ao som sincopado e pulsante do jazz, do blackbottom e do Charleston. Com as plantas do pé no chão e as pernas arqueadas, tinha os seios de fora e usava apenas uma tanga de penas. Era a Vênus Negra: Josephine Baker. E ela esbanjava posições contorcionistas, performances cheias de movimento e variadas expressões faciais. Josephine Baker foi a primeira

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esporte moda

Quando Charlotte Cooper Mudou o Mundo

Paris 1 9 por Teresa Magalhães

O esporte surgiu e se constituiu

historicamente como uma atividade masculina. Isso acontecia por ser associado a questões como força, velocidade, coragem e disposição. Por esse motivo acreditou-se por muito tempo que o esporte era um universo exclusivamente masculino do qual as mulheres não deveriam fazer parte. Durante anos o publico feminino foi impedido de participar de competições olímpicas e sofreu com o preconceito no que dizia respeito à prática de esportes por mulheres. No entanto, após anos de luta e determinação para alcançar uma igualdade perante os homens, as mulheres finalmente conseguem participar de um evento olímpico e mostram ao mundo toda a sua capacidade não só de praticar esportes como também de derrubar as barreiras

impostas por uma sociedade extremamente machista.

Apesar de o esporte feminino ter diversos nomes de peso, é preciso destacar a mulher corajosa que foi Charlotte Cooper ao enfrentar todos os obstáculos que foram impostos tanto a ela como a todas as mulheres até então no que se dizia respeito a pratica de esportes. Charlotte Reinagle Cooper foi a primeira mulher na história a ganhar uma medalha de ouro olímpica. Charlotte é uma autentica britânica nascida no dia 22 de setembro de 1870 que se tornou um símbolo de coragem e determinação aos olhos de todas as mulheres do mundo que ansiavam pela igualdade dos sexos. Ela foi uma das primeiras tenistas a usar a técnica do voleio, que foi imprescindível na conquista de tantas vitórias. Foi

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moda em 1900 que Charlotte alcançou a conquista mais importante e significativa de sua carreira, uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Verão em Paris, na França. Essa medalha representou a vitória de todas as mulheres do mundo contra o preconceito com a participação do publico feminino no esporte de forma geral. Charlotte mostrou que as mulheres são sim capazes de praticar esportes e que devem ser respeitadas. Dessa forma abriu os olhos da ala feminina para uma questão extremamente importante, mostrando que a mulher deve ser respeitada pela sociedade, pois é tão capaz quanto qualquer homem. Mostrou através do esporte que onde existe determinação e dedicação existe necessariamente vitória. Charlotte inspirou milhares de mulheres na busca por seus sonhos e seus ideais. A

partir daí as mulheres passaram a entender que ao contrário do que era imposto pela sociedade machista em que viviam elas tinham sim força e poderiam conseguir tudo aquilo que desejassem. E que isso se aplicava a qualquer área, não apenas a do esporte. Correr atrás de sonhos é fundamental para que nos mantenhamos vivas. É preciso que a vitória de Charlotte Cooper esteja para sempre sendo lembrada como símbolo de luta contra o machismo e o preconceito, e que seja exemplo da vontade diária de cada mulher de construir um mundo melhor para todos. ■

De cima para baixo, da direita para a esquerda: A divulgação das Olímpiadas de Paris em 1900, uma mostra da medalha ganha por Charlotte, imagem da histórica partida e retrato de Charlotte Cooper.

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política moda M

uitas coisas estão mudando neste ano de 1928 para a população feminina do Brasil. O mundo fervilha, e as mentes das mulheres de todo o mundo começam a se destacar. Em nosso país, não poderia ser diferente. Depois do histórico acontecimento de 25 de novembro de 1927, no ano passado, quando a mulher de fibra Celina Guimarães Viana teve seu requerimento pela inclusão no alistamento eleitoral concedido, vimos extasiados as mulheres do Rio Grande do Norte inspirar todo o nosso país. Embora não muito divulgado, Celina Guimarães Viana foi a primeira mulher do país a votar. Foi no Rio Grande do Norte que a lei foi justa e permitiu o voto de uma mulher. A proibição do voto feminino não consta na constituição nacional, e naquela localidade, o governador José Augusto Bezerra de Medeiros, a quem também temos muito que agradecer, regulamentou o Serviço Eleitoral do Estado do Rio Grande do Norte abolindo as distinções de sexo. E ao ter sua sentença escrita, todas as mulheres brasileiras podem festejar as palavras que permitiram que nosso gênero fosse reconhecido como votante:

Celina Guimaráes Viana

Os recentes avanços na política brasileira por Maria dos Santos

“Tendo a requerente satisfeito as exigências da lei para ser eleitora, mando que inclua-se nas listas de eleitores. Mossoró, 25 de novembro de 1927.” Foi a Lei de n° 660 e sancionada pelo próprio governador do Estado que nos permitiu tamanho avanço. Celina Guimarães ainda moveu montanhas, redigindo um manifesto e convocando as mulheres conterrâneas a votarem. A educadora, professora de Mossoró, abriu os olhos de toda a América Latina para a força feminina. Não só no Nordeste, entretanto, que as mulheres ferviam com seus direitos conquistados. O Brasil acabou de sacudir com a notícia chocante de Maria Ernestina Carneiro Santiago Manso Pereira, uma mineira notável, estudante que recém retornou da Europa e fez uma descoberta incrível. Percebeu que a proibição ao voto feminino não consta na Constituição nacional, e inclusive a contraria, pois o texto de sufrágio mantém somente as seguintes palavras: “São eleitores os cidadãos maiores de 21 anos que se alistarem na forma da lei.” Nenhuma letra sobre distinção de sexo, o que torna incostitucional nossa proibição ao voto. Mietta Santiago, como prefere ser chamada, adentrou como advogada e conseguiu uma sentença, fato inédito em nosso país, justamente nesse ano, que permitiu que ela votasse e o mais inacreditável, ainda em si mesma, para um mandato de deputada federal. “Mietta Santiago loura poeta bacharel Mietta Santiago é amiga de Conquista, por sentença de Juiz, grandes gênios brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade direito de votar e ser votada que publicou ainda neste ano para vereador, deputado, senador, um grandioso e belíssimo e até Presidente da República, poema chamado “Mulher Mulher votando? Eleitora” que reproduziMulher, quem sabe, Chefe da Nação? mos nesta matéria, em sua O escândalo abafa a Mantiqueira, homenagem. faz tremerem os trilhos da Central Por esse caminho da e acende no Bairro dos Funcionários, história, inédido e impressiomelhor: na cidade inteira funcionária, nante, chegamos ao fato mais a suspeita de que Minas endoidece, recente que viemos divulgar, já endoideceu: o mundo acaba”. que motiva mulheres brasileiras de Norte a Sul do país e que deve Carlos Drummond de Andrade servir de força para todas nós que queremos enfrentar as barreiras impostas por nossas diferenças.

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A moda

Luiza Alzira Soriano Teixeira,

A PRIMEIR Alzira Soriano e comitê de campanha

Vem do Rio Grande do Norte, mais uma vez, a notícia que aquece nossos corações e os completa com esperança. De nome Luiza Alzira Soriano Teixeira, mas conhecida apenas como Alzira Soriano, a mulher, uma potiguar, que antes mesmo de termos direito ao voto em todo o país, conseguiu o inimaginável: é a primeira mulher eleita para um cargo político no Brasil. Dizemos primeira, pois sabemos que muitas mais virão, e esperamos inspirar mulheres de políticas firmes, inteligentes, para que possamos abrir nosso espaço com cada vez mais força e fibra moral em todo o país. É também por isso que a Exótica conta a história da honorável mulher. Alzira Soriano nasceu no dia 29 de abril em 1897, em Jardim de Angicos, Rio Grande do Norte.

Casou-se com 17 anos com Thomaz Soriano de Souza Filho, um jovem Promotor de Pernambuco, e teve três filhas. A tristeza, porém, não tardou a acometer esta mulher. Foi com pesar que encarou a morte de seu marido ainda muito jovem, somente cinco anos depois do matrimônio e ainda com as filhas por criar. Uma mulher viúva no nosso país enfrenta muitas dificuldades, embora acobertadas pela honra preservada, pois é preciso de apoiar em parentes e amigos, e cumprir um papel renegado até o momento: chefiar a própria família. Alzira, no entanto, não se abateu. Demonstrou uma fibra moral irredutível, força e coragem que faltam a muitas de nós nos dias de hoje, dias difíceis. Não se contentou em segurar e criar sua família com dignidade, quis ser mais, e

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aos 32 anos, neste ano, disputou as eleições para Prefeito no município de Lajes.

O Partido Republicano apresentou sua candidatura, e concorrendo contra Sérvulo Pires Neto Galvão venceu o Pleito com 60% dos votos da cidade. É com orgulho que temos o prazer de anunciar aqui na Exótica, descontentes por saber que o mesmo não será feito tão cedo na maior parte das revistas e jornais brasileiros, que no primeiro dia do ano que vem, quando Alzira tomará posse, teremos pela primeira vez uma mulher chefiando uma cidade no nosso país.


moda A seguir, o Discurso da Nossas correspondentes de outros países na América Latina nos congratularam com felicitações a esta notícia inédita. Não podemos afirmar a grandiosidade deste feito, pois não temos absoluta certeza qual a vastidão geográfica em que uma mulher nunca tenha sido eleita para um cargo executivo. As notícias são escassas, e muitas vezes dubias. Mas pela nossa realidade, pela falta de notícias e pelo papel que o Brasil vem cumprindo em todo o continente, acreditamos que Alzira Soriano tenha sido a primeira mulher eleita em toda a América Latina para um cargo de prefeita.

preconceito e conquistou esta grande porcentagem de apoiadores. Olhamos para os anos que vem a nossa frente agora com orgulho e com esperança, pois sabemos que podemos contar com a força de Alzira Soriano para um mandato histórico e vemos que cada vez se torna mais difícil negar os direitos às mulheres. O nosso país conta com mulheres incríveis, capazes e mais do que qualificadas a batalhar legalmente para toda nossa libertação. Temos de acompanhar de perto e atentas os próximos passos dados por mulheres no Brasil e no mundo. ■

É um passo gigantesco para toda a humanidade, e devemos cada fibra deste feito a todas as mulheres que se arriscaram deste o início em tomar a frente da vida política de nosso país. Alzira Soriano não caminhou até aqui sozinha. Teve a força de Celina Guimarães Viana que inaugurou o voto feminino no Estado do Rio Grande do Norte, do governador José Augusto Bezerra de Medeiros que encarou a Constituição Brasileira quando a julgou insuficiente, de Mietta Santiago que provou legalmente a justeza deste ato e de cada uma de nós mulheres que não nos contentamos com o papel de mulher omissa que nos é oferecido.

Retrato de Alzira Soriano

Alzira também teve a força da população de Lajes, que venceu o

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Vitória:

“Determinaram os acontecimentos sociais do nosso querido Rio Grande do Norte na sua constante evolução da democracia, que a mulher, esta doce colaboradora do lar, se voltasse também para colaborar com outra feição na sua obra político-administrativa. De outro modo, portanto, não poderia se ser. As conquistas atuais, a evolução que ora se opera, abrem uma clareira no convencionalismo, fazendo ressurgir a nova faceta dos sagrados direitos da mulher. Inovação estética não pode ser, o que se observa é a consciência elegante de uma conquista. Um espírito brilhante fazendo da política verdadeira obra de educador, fundiu na retemperada abnegação de suas virtudes cívicas, a realidade do movimento em torno da emancipação política da mulher. Este educador político é o eminente Senador José Augusto. Sucedeu-o no governo, este outro espírito, cuja energia fetichista e inteligência admirável está fazendo no Rio Grande do Norte uma verdadeira escola de democracia fundindo-o numa grande oficina detrabalho. É justamente o presidente Juvenal Lamartine quem encarna na hora histórica que atravessamos, o verdadeiro condutor de homens, na convicção de assim o fazendo, reintegralizar o Rio Grande do Norte nas suas mais justas aspirações de processo e de liberdade. Assim, neste ambiente de liberdade e trabalho, de patriotismo e de tolerância tornou-se em realidade o nosso sonho de igualdade política. A prova eloqüente de reconstrução político-social, caracteriza-se pela minha eleição ao posto de prefeita deste município.


moda Tomando posse do cargo, em que a vossa bondade tão generosa e confiadamente me investiu, não ouso fazer promessa que a minha incapacidade e talvez a insuficiência dos estímulos necessários me poderiam privar de cumprir. Nem o momento é daqueles em que essa ousadia fosse fácil porque, assim como o nosso pequeno, mas laborioso e próspero Estado, volta hoje as suas vistas curiosas para o município de Lajes,como campeão duma iniciativa audaciosa, vejo que as vossas convergem para a obscura individualidade duma patrícia, cujo mérito é o de não recuar quando a mandam para frente. Não desejo portanto formular programa, embora seja uso fazê-lo em ocasiões como esta. Sei que vamos tentar uma experiência difícil – difícil, porque a função é espinhosa, difícil porque essa experiência é a primeira a realizar-se no nosso país, difícil sobretudo porque a incumbida de sua execução, reconhece e publicamente confessa o temor de lhe faltarem força bastante para levá-la a um termo brilhante. Não é a mim que compete recordar o movimento liberal que resultou em Lajes a escolha duma prefeita para o cargo triênio que hoje começa, nem tão pouco julgo necessário para um maio adiantado, como felizmente já é o nosso, lembrar exemplo de energia, de vontade, de capacidade, de trabalho da mulher, bastantes para justificar a escolha que fizestes. É porque, sem prejuízo da natural modéstia, posso assegurar-vos ao menos o esforço veemente para não desmerecer, quero apenas, seguindo um grande exemplo da história política nacional, registrar o que não farei no exercício do mandato, de preferência a alinhar projetos, que talvez não pudesse realizar. Não me prevalecerei do cargo para fazer favores a amigos e ainda menos para negar justiça a adversários. Não abusarei dele para obter provento seja qual for a natureza destes. O infortúnio do meu estado civil ensinou-me a trabalhar e a viver modestamente com honra, e não trocarei jamais a clama da consciência e altivez da mediania por vantagens mais ou menos suspeitas que pudesse auferir da função pública. Destas negativas podereis deduzir uma afirmativa única e estafaço desassobradamente: a de unir todas as minhas forças para não desmerecer de excepcional prova de confiança dos que me elegeram Prefeita de um município próspero e de tão largo futuro, como a nossa querida Lajes. Suponhamos que este município é uma grande família unida e solidária. A família tem um jardim, sala, gabinete de trabalho, mesa, despensa e tudo se deve equilibrar sobre a pauta rigorosa dos ganhose das despesas: o município tem as suas ruas com a sua arborização e iluminação, as escolas que são os gabinetes, onde se prepara o seufuturo, a viação, o amparo à lavoura e ao comércio, que lhe fornecerão rendas – e tudo se regra pelas possibilidades nas despesas. Pois sejamos uma família; demos não só ao Estado, como à grande Pátria, o exemplo dessa união fraterna, só por si capaz de nosgarantir bem estar e prosperidade. E, unidos trabalhemos. Aqui estarei para isso e pela minha parte peço a Deus que me guie e aos meus patrícios que me ajudam.”


política moda A PIONEIRA DOS MOVIMENTOS FEMINISTAS NO BRASIL

Bertha Lutz por Thais Scarlet

F

ilha de Adolfo Lutz, renomeado estudioso de medicina tropical, e da enfermeira inglesa Amy Fowler, Bertha Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo no dia 2 de agosto de 1894. Atualmente, uma das pioneiras nos movimentos feministas no Brasil, Bertha formou-se em biologia pela Universidade Sorbonne em Paris onde teve contato direto com a campanha sufragista inglesa, na qual lutava para estender o direito de voto às mulheres. Voltou para o Brasil em 1918 e um ano mais tarde ingressou no concurso público conquistando o cargo de delegada do Museu Nacional do Rio de Janeiro. A conquista de Bertha, ou seja, a ocupação de um cargo público foi um fato importantíssimo, visto que o acesso ao funcionalismo público é quase que exclusivamente ocupado pelo homem. Ela foi a segunda mulher a ocupar este tipo de cargo.

Em 1919, a bióloga fundou A Liga Para a Emancipação Intelectual da Mulher, a semente do que viria ser a Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino (FBPF) criada em 1922. Ainda nesse ano, é eleita delegada do Museu Nacional ao Congresso de Educação, fato que possibilitou a luta para garantir o ingresso de meninas no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Devido a sua militância científica e política, vem construindo as bases do feminismo no país. Por isso, recentemente, representou o Brasil na assembleia geral da Liga das Mulheres Eleitoras nos Estados Unidos, onde foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. ■

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moda cinema Aurora: uma propaganda contra a

MODERNIDADE

por Sofia Fortunato

Nesse sentido, a obra cinematográfica faz um apelo tácito para os espectadores. Tratando a mulher moderna como se fosse uma vilã, feiticeira e destruidora de lares, forma uma péssima imagem a respeito do que é ser moderna. Assim, defende aquilo que lhe é oposto: a mulher submissa ao homem, obediente, e dependente da figura masculina.

E

m novembro de 1927, F.W. Murnau – um dos principais realizadores do cinema expressionista alemão – lançou a sua primeira produção hollywoodiana. Aurora (Sunrise: a song of two humans) trata da história de um casal pacato que começa a enfrentar dificuldades a partir do momento em que o marido trai a esposa com uma mulher da cidade grande. O filme já se inicia com o romance extra-conjugal estabelecido. Em uma das primeiras cenas, o homem sai de casa, abandonando a esposa sozinha com o filho, para se encontrar com a amante. Nesse período que passam juntos, a mulher da cidade incita-o a vender sua propriedade e assassinar aquela com quem se casou. O homem, então, começa a fazer planos para matar a esposa. Convida-a para uma viagem de barco e, no meio do passeio, tenta acabar com a sua vida. No entanto, na última hora, desiste do ato. A mulher, consequentemente, mostra-se temerosa diante do marido durante um determinado tempo, mas acaba perdoando-o como se nada de grave houvesse acontecido. Tal fato demonstra uma total passividade. Ao analisar as duas personagens femininas, percebe-se uma clara oposição de personalidades. Enquanto a mulher urbana é sensual e vaidosa e possui a imagem da modernidade – cabelos curtos, maquiagem forte –, a do campo se mostra simplória, com um aspecto conservador – longas madeixas presas em um coque e roupas de dona-de-casa. Ao mesmo tempo em que a primeira busca o que quer e aproveita o ardor da paixão com o marido da segunda, esta se encontra cabisbaixa, abandonada, porém, conformada.

Fica clara a intenção do cineasta: fazer o que puder para conservar as mulheres em posições subalternas! Tome cuidado com as mensagens subliminares que, por vezes, estão presentes em diversos filmes e demais tipos de obra de arte, leitora. Não se deixe influenciar por esse tipo de comunicação. Nunca permita que o verdadeiro espírito moderno morra. Conservemo-nos como mulheres de verdade, como pessoas de verdade, e sigamos com a nossa luta. ■


cinema moda

Um Cão

Andaluz Filme analisa o modo como a mulher é tratada na sociedade atual por Sofia Fortunato

Resultante de uma parceria entre Luis Buñuel

um homem afia a navalha para, em seguida, cortar o olho de uma mulher. A vítima desse ato extremamente cruel permanece inerte, condescendente à situação, como se o ocorrido fosse algo natural. Nesse sentido, pode-se estabelecer uma conexão entre as personagens e o panorama social vigente: homens conservadores tentam fechar os olhos das mulheres para que elas não enxerguem as diferentes opções de vida que podem escolher para si no mundo moderno.

e Salvador Dali, Um cão andaluz é um filme surrealista que, a princípio possui cenas desconexas e ilógicas. No entanto, ao analisar a obra cinematográfica com maior diligência, pode-se perceber o quanto ela exibe os padrões machistas presentes na sociedade. Em sua cena inicial, as espectadoras logo são estarrecidas pela violência contra a figura feminina:

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moda Logo mais, a personagem vê pela janela um homem vestido com trajes femininos e o repudia devido a isso. Por conta da “cegueira” provocada pela navalha, ela é levada a negar aquilo que é característico de seu próprio sexo. Tal fato poderia ser explicado por um simples estranhamento em relação à identidade de gênero, mas, em outra época; atualmente, com a revolução no guarda-roupa das mulheres, que fazem-nas utilizar vestimentas cada vez mais masculinas, esse estranhamento não faz sentido. O preconceito é, então, visto como se os homens fossem demasiado superiores para fazer uso de utensílios socialmente femininos. Mais adiante, a mesma personagem feminina é atacada por um homem que a assedia sexual-

mente. Após lutar para escapar das mãos do algoz, ela é vencida pela força física que ele emprega sobre seu corpo, que passa a ser apalpado vulgarmente. Por fim, ela consegue mantê-lo longe pela ameaça de agredi-lo com um objeto. Assim, o filme retrata a forma como o masculino se aproveita de seu físico mais robusto para subjugar a mulher sexualmente. Ao final da película, a personagem está andando pela praia com um homem, quando acha alguns acessórios jogados pelo chão e mostra a ele. O homem, então, despreza tudo o que lhe é exibido. Dessa forma, percebe-se a falta de interesse com que a mulher é tratada na sociedade em relação a tudo aquilo que não se refere ao seu corpo. O que é feminino é vis-

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to com indiferença, deprezo, com exceção da sensualidade. A partir da obra, pode-se perceber os inúmeros clichês a que as mulheres são submetidas – ou, por vezes, até mesmo submetem-se – na sociedade. Apesar dos avanços em relação aos nossos direitos, ainda há muito o que reivindicar, principalmente em relação aos direitos sociais. Não podemos nos contentar por adquirirmos a permissão para andar sozinhas pelas ruas, quando ainda podemos ser assediadas por homens machistas, quando ainda não somos vistas como pessoas dotadas de vontade própria. Devemos alastrar a causa feminista pelo mundo, levando-a a todas as mulheres, para assim vermo-nos livres de todos os percalços sociais que nos assombram! ■


moda

COCO A

M U L H E R

D O

S É C U L O

por Teresa Magalhães

Gabrielle Bonheur Chanel nasceu em 19 de

agosto de 1883 na França e veio para revolucionar o mundo da moda e a forma como a mulher era vista em nossa sociedade. Gabrielle Bonheur Chanel nasceu numa família pobre e teve uma infância bastante sofrida. Sua mãe morreu de tuberculose quando ela tinha apenas seis anos, deixando-a com mais quatro irmãos aos cuidados do pai. Nesta época, Coco foi mandada para um orfanato católico em Aubazine, pois o pai, um feirante, precisava trabalhar para sustentar a família com a ajuda dos seus outros irmãos que saíram de casa para trabalhar e ajudar com as despesas. Neste orfanato Chanel aprendeu o ofício de costureira com as freiras que ali residiam. A partir daí, o seu talento para a modelagem começou a aflorar. As férias da escola eram passadas com a família na capital da província, onde parentes ensinaram Coco a costurar com mais apuro do que as freiras do mosteiro eram capazes de fazer. Assim, Coco desenvolveu aquilo que ao que parece estava destinada a fazer desde que nascera. Seu empenho e amor pelo que fazia era algo contagiante e

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que foi responsável por tanto sucesso. Quando ela completou 18 anos, deixou o orfanato e passou a trabalhar para um alfaiate local, pois definitivamente não se encaixava naquele ambiente. Neste período, Chanel começou a frequentar a boemia francesa e passou até a atuar como cantora em cafés e salas de concerto. Foi quando adotou o nome de Gabrielle Coco, um apelido dado a ela por soldados locais que gostavam de assisti-la e que a acompanhou mesmo muitos anos depois. Em 1908, ela conhece o ex-oficial e herdeiro têxtil Etienne Balsan e torna-se sua amante. Com 23 anos, Coco foi morar com ele em seu castelo, onde viveu por alguns anos, cercada das mordomias que nunca tivera durante sua infância. Durante esse período aprendeu os segredos da alta sociedade enquanto Balsan derramava sobre ela as belezas que a riqueza podia proporcionar: diamantes, pérolas e vestidos. Nesse período Chanel começou a desenhar chapéus como hobby, o que acabou se tornando seu primeiro negócio e sempre foi sua maior paixão, mas o romance com Balsan se desgastara rapidamente. Felizmente, é graças a esse namoro que ela acaba conhecendo seu primeiro


moda amor, o inglês Arthur Capel, apelidado de “Boy”. Boy era um rico empresário que fez fortuna com transporte de carvão e a tratava como uma verdadeira rainha. Este fora um amor irregular e sincero que durou por dez anos. Ele instalou-a em um apartamento parisiense e financiou suas lojas. A primeira chapelaria foi aberta em Paris, em 1910, e logo ela abriu boutiques em Deauville e Biarritz devido ao grande sucesso de suas criações. Arthur Capel morre em um acidente de carro anos depois e Coco fica devastada. Após a morte de seu amado ela abre sua primeira loja de costura, sem deixar de lado seus amados chapéus. Anos após a morte de Capel, a estilista se envolveu com o grão-duque Dimitri, da Rússia. Trouxe a beleza do vestuário russo às suas criações, inspirando-se nos bordados luxuosos, peles e fazendo uso de

muitos colares de pérolas, principal marca da francesa. Coco Chanel inovou na forma de desenhar e costurar roupas para o público feminino. Era adepta da filosofia que a roupa deveria ser confortável e introduziu no início da atual década o jérsei nas roupas que vende. Este tecido é extremamente maleável e prático, algo que não era encontrado nas roupas femininas da época. Em 1921, ela lançou o perfume Chanel No. 5 que foi um grande sucesso tendo até hoje uma vendagem surpreendente se comparada as outras fragrâncias. Em 1925, Chanel lançou seu casaco de estilo cardigan e, no ano seguinte, seu icônico vestido preto. Analisando sua trajetória até hoje é possível notar a paixão de Coco pela costura e principalmente, pelo fato de mostrar a mulher que ela deveria ser livre para ser o que sonhasse como ela mesma fez durante todos esses anos. Ignorou os padrões de beleza existentes e criou um estilo próprio que ao longo dos anos tem sido incansavelmente copiado por milhares de mulheres em todo o mundo. Revolucionou e continua revolucionando o mercado de moda que

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pregava que conforto e beleza não estavam conectados, ela veio para quebrar essa idéia e mostrar que a mulher deve se sentir a vontade de vestir o que lhe fizer bem, o que for confortável e não deve seguir padrões impostos por uma sociedade extremamente machista. Um verdadeiro mito, Chanel reproduziu a sua própria imagem, a mulher do século 20, independente, bem-sucedida, com personalidade e estilo. Inovou criando calças femininas, encurtou os vestidos e saias tornando-os mais confortáveis e seu cabelo na altura do queixo se tornou um ícone. Coco Chanel serve não apenas como exemplo de elegância e determinação, mas também abre os olhos para as mulheres de todo mundo sobre o potencial e a força existente em cada uma delas. Que a vida dessa grande mulher sirva como motivação para as mulheres do mundo inteiro e principalmente do Brasil para lutar sempre pelo que se acredita justo e que não se perca nunca a vontade de conseguir construir um mundo melhor para todos. Só é possível encerrar uma dissertação sobre esse ícone reproduzindo uma frase de sua autoria: “O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça.” ■


política moda

A IMPORTÂNCIA DA

mulher PARA A MUDANÇA NA

POLÍTICA BRASILEIRA por Mauro Coimbra

A situação das mulheres em relação às questões sócias e políticas nacionais tem se modificado de forma surpreendentemente positiva nos últimos anos. Apesar das já existentes lutas por direitos iguais, há pouco mais de 20 anos certamente era difícil prever que nos dias de hoje a mulher poderia ocupar vagas na produção industrial, que teria liberdade de se vestir de forma mais confortável e que poderia fre-

qüentar restaurantes requintados sem a companhia de um homem. Esses progressos retratam não só uma evolução na mentalidade popular, mas principalmente a importância que as mulheres atingiram na sociedade através de suas lutas por igualdade e pelo fundamental papel que exerceram no cenário econômico durante a grande guerra que ocorreu entre os anos de 1914 e 1918. Um pouco mais fraca no Brasil do que nos países fortemente envolvidos na guerra e dotados de forte indústria bélica, porém ainda assim relevante, a entrada das mulheres nas indústrias e em outras atividades econômicas deu a elas uma maior confiança, fazendo com que se sentissem mais donas de suas próprias vidas, capazes de se manter financeiramente sem a necessidade de um casamento. Simplificando, a ampliação da presença feminina em empregos fez com que as mulheres percebessem de forma mais clara sua independência e deu a elas inspiração para buscar ainda mais direitos e mais representatividade dentro da sociedade. Nos dias de hoje, poucos meses antes do final da grande guerra completar dez anos, o numero de mulheres esclarecidas e com envolvimento em causas políticas é enorme, essas mulheres e sua força são fundamentais na busca por mudanças, pois temos nosso país governado por grupos oligárquicos, que defendem a cafeicultura com unhas e dentes e

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evitam avanços intelectuais e democráticos dentro do nosso país, a enorme lista de restrições imposta aos que tentam fazer parte do eleitorado nacional serve apenas para manter a estabilidade desse governo que não move um dedo sequer para defender interesses de outro grupo que não seja a elite do café. Para mudar essa deplorável situação da política no país a presença das mulheres e do fôlego que elas trazem é indispensável, os movimentos pelo sufrágio feminino estão cada vez mais fortes em todo o País e têm se destacado principalmente no Rio Grande do Norte onde a Professora Celina Guimarães conseguiu, no ano passado, fazer seu alistamento eleitoral e se tornou a primeira mulher brasileira a votar. Agora, a conquista definitiva do direito ao voto pelas mulheres é mais do que iminente, e isso pode significar muito mais, pode significar também a ampliação do direito ao voto para todas as pessoas da nossa nação, pode significar uma ampliação no domínio do povo brasileiro sobre as decisões políticas e a defesa dos interesses da população, o que apesar de exigir tempo, é possível e é a forma mais correta de deixar que o povo tenha sua dignidade preservada.

Os movimentos femininos em busca de representatividade política trazem consigo novos horizontes, e só o tempo poderá nos mostrar os resultados que eles causarão na política nacional, cabe a nós esperar e torcer para que assim como parecem, sejam realmente os melhores possíveis. ■


cultura

Agenda Cultural A partir do dia 09 de janeiro, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro estará novamente abrindo as cortinas de seu palco para o Balé Giselle. Por composição de ópera do francês Adolphe Adam, o espetáculo permanece até 16 de fevereiro, as quintas, sextas e sábados, 20h, e aos domingos, 17h. Bilheteria com entradas à venda.

9aneiro

de J

18 de Jan eiro

A agremiação feminina do clube Recreio da Juventude (Rio Grande do Sul), a Edem Juventudista, promoverá um evento social em prol do incentivo e da inclusão, principalmente, de mulheres e meninas às atividades esportivas. Contando com conversas e gincanas, o evento será iniciado às 10h no Salão do Lago e ali permanecerá até 15h.

6 evereiro

de F

1 2 de M arço

13

ed Maio

Será inaugurado na Avenida Rio Branco, número 174, esquina com Bittencourt da Silva, o Café Nice. O estabelecimento oferecerá mesas na calçada e dois ambientes internos. Um deles será para chás e bebidas finas e outro para cafezinhos e o tradicional pão com manteiga. Tudo acompanhado de boa música.

O novo estabelecimento que ganhará o nome de Cinema Central tem sua inauguração prevista para o dia 21 de março, à Avenida Júlio de Castilhos, em Caxias do Sul. O local contará com recitais e concertos de música, apresentações de teatro e outros eventos. A construção segue com três pavimentos e um estilo com rica ornamentação de fachada.

A artista e estilista italiana Elsa Schiaparelli estará com sua primeira exposição aqui no Brasil. A apresentação de suas obras, que contará com pinturas, como A Noiva Caipira, artesanatos, especificamente voltados para o uso em roupas, e peças de sua coleção, será feita em sua loja recém-aberta, Pour le Sport, em Recife, a partir das 17h.

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Carta dos Leitores Alguém 31 anos RJ

Sou amante de esportes e fico extremamente feliz em ver que a revista se preocupa com o lado esportivo para a mulher. As pessoas estão costumadas a associar o esporte somente a homens e ridicularizam aquelas que se atrevem a demonstrar o mesmo interesse. Senti falta de uma matéria que tratasse da inauguração do Estádio de São Januário que ocorreu em abril do ano

que passou aqui no Rio de Janeiro. Acredito que seja um evento marcante, levando em consideração que o Brasil é um tanto quanto amador no futebol. Seria interessante se algo do tipo fosse publicado juntamente com a decisão recente da FIFA de realizar uma competição futebolística que englobará, de quatro em quatro anos, todo o mundo. Obrigada!

Maria Vai Sem As Outras RJ Uma revista revolucionária que sabe tratar assuntos pertinentes e que cada vez mais as mulheres estão abraçando. Os movimentos feministas estão ganhando força e com revistas como essa, que enfrentam as maiorias, as mulheres se sentem valorizadas e encontram a coragem necessária para conquistar uma maior liberdade de expres-

são e o devido espaço que lhes cabe na sociedade. Meu desejo é que a ousadia de vocês não caia na inconveniente censura, e que continue a mostrar, por meio de notórias matérias que envolvem mulheres mundo a fora, que as brasileiras não precisam ter medo de fazer a diferença. Meus parabéns!

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Moça 23 anos MG Que revista excelente! Lamento esperar seis meses para estar bem informada de assuntos que valorizam

Gosto demais de todo o conteúdo da revista, mas não perco tempo em logo abrir e me deleitar com as partes que falam de filmes e celebridades, como Mary Pickford e Douglas Fairbanks. Gostaria de sugerir que houvesse alguma matéria especial que apresentasse o iní-

o ponto de vista feminino. Vocês não poderiam considerar uma periodicidade menor? Trimestral, talvez? Muitíssimo Grata!

Irmã Lumière 39 anos RS cio da trajetória dos filmes populares, desde o cinematógrafo, com os irmãos Lumière, lá em 1895. Faz mais de 30 anos e relembrar é sempre muito bom para comparar com os avanços que conquistamos hoje. Não esquecendo também dos artistas que acompanharam esse percurso. Muito obrigada.

Esta é a primeira vez que escrevo para vocês e devo dizer que estou muito orgulhosa pelo conteúdo. Raríssimas são as revistas que tem a coragem de dar maior ênfase ao espaço que a mulher vem mostrando perante a sociedade. Um das matérias da última edição que mais me chamou a atenção foi a que tratou sobre a questão do divórcio no Brasil. É de admirar que se fale sobre tal assunto debaixo do nariz da população, em minha opinião, tão intolerante. O modo como mostraram o quanto mulheres sofrem por serem caladas de

Dona do meu castelo 26 anos SP

suas vontades e obrigadas a viver na sombra de seus maridos foi brilhante. Concordo que o medo amedronta a maioria das mulheres na hora de tomar qualquer atitude radical, pois o preconceito da sociedade, alicerçado na constituição, ainda é muito pesado. Mas divulgar matérias com esse teor é um dos primeiro passos para começar a incutir na mente feminina, e na dos próprios cidadãos, que a mulher pode sim andar com as próprias pernas, correr e até ganhar a corrida. A “Exótica” está de parabéns! Dou votos de sucesso!

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Revista Fantasia 1920