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NASCIMENTO

Ela empurrou com um grito silencioso e nasceu a criança que não deveria existir e que adoraria com todo o seu ser. Mas quando ela abriu os braços para aquela criança tão desejada, viu que o curandeiro não pegara o bebê da cama, e em vez disso, foi recuando para a porta. Fúria era uma tempestade selvagem nela, sentou-se para resgatar sua criança indefesa... E viu.


Holly abraçou sua irmã, dizendo adeus uma última vez, seu coração doendo. — Psiu, — ela disse quando Mia hesitou na entrada da faixa de segurança. — Vai se atrasar para seu voo, se não for. Mia afundou os dentes em seu lábio inferior volumoso, os cabelos pretos no queixo brilhando sob a lâmpada fluorescente dentro do prédio do terminal. — Já sinto falta de casa. — Ficará bem. — Embora Holly sentisse muitas saudades de sua irmã mais velha – e melhor amiga – ela pegou o rosto de Mia em suas mãos, encontrando os olhos tão castanhos quanto os dela anteriormente, e disse: — Você é a pessoa mais inteligente que já conheci. Vai tirar isso de letra. — Sua irmã recém-formada médica recebeu uma residência de prestígio no Massachusetts General, em Boston. — Estarei tão longe de todos. Holly não indicou que a nova base de operação de sua irmã estava a poucas horas de carro de Nova York, até menos na velocidade que Holly gostava de dirigir. Sabia o que era saudades de casa. Se sentiu assim na vibrante cidade que sua família chamaria de casa quando se isolou deles por vários longos meses após o ataque que a transformou num ser que não era humano, mas que não era vampiro também. Felizmente, ela superou essa estupidez – e sua família a amava o suficiente para perdoá-la. Claro, sua mãe a lembrava todas as vezes que podia, mas estava dentro da normalidade. Daphne Chang também lembrava a Holly do dia em que ela fugiu de casa aos dezessete anos só para ligar pedindo ajuda depois que seu encontro idiota a abandonou numa rua escura no Queens. Holly ainda precisava esconder alguns segredos de seus pais, seus irmãos mais novos e Mia, mas esses segredos eram para a proteção deles: os mortais não


precisavam saber sobre um arcanjo nascido no sangue. No que diz respeito aos pais e irmãos de Holly, foi um mortal perturbado que sequestrou seus amigos e ela, e quem a infectou com um vírus perigoso. Um anjo a salvou, tentando transformá-la em vampiro, mas a transição não ocorreu bem devido ao vírus no sangue dela. Não tinham motivos para não acreditar na história. — Vou dirigir e te ver quando se sentir sozinha, — ela disse a Mia, essa sua irmã que a amava com obstinada teimosia, mesmo quando Holly não podia se amar. — Apenas ligue. — Eu te amo, Hollster. — Outro abraço esmagador, o corpo de Mia cheio de curvas suaves e femininas. Holly, em contraste, ainda esperava um milagre que fizesse seus seios crescerem um pouco mais. Olhando pelo lado bom, pelo menos não precisava gastar dinheiro com sutiãs. — Te amo mais, Mimi, — ela disse através de uma garganta que ficou espessa. Não porque Mia se dirigisse a uma nova aventura, mas porque Holly estava horrorosamente consciente de como a vida podia mudar sem aviso prévio, como uma pessoa podia estar rindo e vivendo num instante e, no próximo, ser um cadáver sangrando. Tinha um sério problema psicológico para deixar aqueles que amava fora de sua vista. Por isso que se forçou a libertar Mia; não estava prestes a roubar os sonhos de Mia por causa de seus próprios pesadelos. — Vá. — Colocando as mãos no cinza suave do casaco de Mia, deu um pequeno impulso à sua irmã. — Vou cobrar sua promessa! — Mia disse por cima do ombro quando finalmente puxou sua pequena mala com rodas entre as cordas que levavam à área de triagem. Essa área era visível através do vidro, então Holly levantou e observou até que Mia passou, lutando contra o impulso de pular as cordas e levar sua irmã de volta para onde Holly podia vigiá-la, protegê-la. Sorrindo um pouco nervosa, a irmã mais velha de Holly acenou uma última vez do outro lado, e então se foi, perdida no fluxo de viajantes saindo de uma cidade que Holly amava e odiava na mesma medida. Jingle bells, jingle bells, jingle all the way!


— Ashwini, eu juro por Deus... — Holly murmurou enquanto pegava seu telefone. Essa não era a melodia que programou. Com o objetivo de cortar a musiquinha de Alvin e os Esquilos irritantemente alegre, finalmente levou o telefone à orelha enquanto saía do terminal. — Diga à sua esposa que vou matá-la na próxima vez que a ver. Janvier riu, como se ameaças contra a amada Ashwini não fossem incomuns. — Ainda está no aeroporto, Hollyberry 1 ? — Ele falou naquele sotaque cajun preguiçoso que levava os incautos a pensar que não estava prestando atenção ao mundo. — Pare com isso. — Saiu uma ordem rosnada. — E adicione Cara de Víbora à lista das minhas futuras vítimas de assassinato. — Venom lhe deu esse apelido ridículo depois que insistiu em ser chamada de Sorrow 2 . Tal nome coube no momento, mas olhando atrás, podia ver que estava sendo um pouco dramática. Então, que se dane. Foi sequestrada e brutalizada por um arcanjo violentamente poderoso e profundamente insano, sua vida repentinamente um miasma de terror e sofrimento cegantes. Tinha apenas vinte e três anos na época – e pesadelos de cortar a alma noite após noite. Acordar para encontrar-se enrolada numa bola silenciosa e cheia de medo no chão de seu armário tornou-se uma ocorrência diária. Como se seu subconsciente acreditasse que o monstro de olhos vermelhos não a encontraria lá. Ele o fez, é claro. Sempre. Porque morava no sangue contaminado de Holly. Tinha direito a algum drama. E não era como se pudesse conversar com Venom. — Sim, — ela murmurou. — Estou no aeroporto. Estou prestes a voltar para Manhattan. — Preciso que você faça uma parada no aeródromo privado. Holly congelou a meio passo. — Oh, inferno não. — Ela sabia exatamente quem estava voltando para Nova York hoje. — Esse é seu trabalho.

1 Uma baga amarga, ligeiramente venenosa que cresce em árvores de azevinho ou arbustos. 2 Tristeza, mágoa, dor.


— Infelizmente, estou preso no trânsito, — disse Janvier. — Um caminhão derrubou galinhas por toda a estrada na minha frente. — Ha ha. Estou desligando agora. — Mas isso não é motivo para risada, pequena Hollyberry, — foi a resposta séria, seguida do som de uma janela sendo abaixada. Gritos de frango indignados preencheram a linha segundos depois. — Viu? Janvier não mente. Estou cercado por motoristas frustrados por todos os lados, sem saída, mas você está a apenas dez minutos de distância. Faça a retirada. — Isso é uma ordem? — Janvier e Ashwini eram os patrões oficiais de Holly desde sete meses atrás, quando toda a equipe responsável por seu treinamento – e sanidade – declarou que ela ganhou controle suficiente e estável sobre o poder torcido e venenoso que a marcava como a criação do Arcanjo Uram. Orgulho curvou até os dedos dos seus pés pela memória daquele dia – Holly tentou se concentrar na confiança que a equipe mostrava nela, e não em como permanecia numa trela, no entanto. Graças à disposição de Ash e Janvier de utilizar sua habilidade para fazer amizade com aqueles que viviam nas sombras, agora fazia parte da pequena, mas eficiente equipe que vigiava o subterrâneo cinza escuro de Nova York, um lugar muito longe do poder da Torre do Arcanjo. Antes de sua vida se separar num jato de sangue, medo e angústia, Holly não sabia que havia uma hierarquia no mundo imortal. Via os anjos que se elevavam bem acima dos arranha-céus e os vampiros que perseguiam as ruas como iguais: perigosamente fortes e assustadoramente bonitos. Atualmente, conhecia vampiros de duzentos anos viciados e sem-teto com menos que Holly, e entendeu que quando um ser vivia demais, ele ou ela poderiam esquecer qualquer conceito de humanidade ou empatia. Para muitos, apenas tortura e sexo, muitas vezes entrelaçados, tinham algum prazer. — Oui, — disse Janvier em resposta à sua pergunta nervosa. — É uma ordem. Veja, estou agindo como chefe. Os lábios de Holly se contraíram. — Tudo bem, eu vou pegar o Venenoso. — Jogue limpo – não coloque um feitiço nele.


Holly mostrou a língua para o telefone antes de desligar. Um menininho carregando uma mochilinha azul e amarela a viu, estendeu a língua com uma risadinha. Holly piscou. Olhando por cima do ombro, ele acenou para ela. Ela acenou de volta. Aquele doce garoto não sabia que ela era a criação de um psicopata assassino, que tinha desejos horríveis dentro dela que a faziam suar frio. Via apenas uma pequena chinesa, com um jeans preto e apertado, decorado com rosas pretas aplicadas na panturrilha esquerda e coxa, top de seda alaranjada e suas brilhantes botas pretas até o tornozelo com pequenas fivelas de ouro. Os cabelos pretos mesclados com cores de arco-íris de uma mulher comum puxados atrás num rabo de cavalo brilhante, seu rosto emoldurado por franja preta de corte reto e as unhas pintadas numa mistura selvagem de cores. A única coisa que a fazia ser notada numa cidade invadida pelo estilo aventureiro era o verde ácido que tomou o marrom claro de suas íris. A sombra era mais escura antes, mais perto do verde vívido do Arcanjo que a usou como brinquedo humano, mas a leveza ácida apareceu firmemente no último ano e se instalou. Quando estranhos viam os olhos de Holly, assumiam automaticamente que estava usando lentes. Dava a impressão de uma mulher que caiu num balde de tinta. Talvez um toque especial ou peculiar, mas humano. Normal. Holly doía por ser essa mulher humana normal todos os dias. Mas nos quatro anos desde que foi desnudada e forçada a ver seus amigos serem desmembrados vivos, sua garganta rasgada e crua de seus gritos, superou as quatro primeiras etapas do sofrimento: negação, raiva, barganha e depressão. Aceitação... Bem, isso levaria muito mais tempo, pensou, enquanto se deslocava no veículo da Torre designado para ela. Quando Janvier disse pela primeira vez que conseguiria um veículo como parte de seu trabalho como aprendiz dele e Ash, esperava triste por um sedan, mas deveria se lembrar do tipo de pessoas que trabalhavam para o Arcanjo Raphael. Nenhum era do tipo sedan. O carro de Holly era uma coisa negra lustrosa que parecia uma flecha em vôo. Não era novo por qualquer esforço da imaginação e tinha mais do que alguns


amassados e arranhões – de modo geral para se encaixar nos arredores que rondava pelos cantos sombrios da cidade. Os pneus estavam bons, mas não tão bons que alguém se incomodaria em roubá-los, e o rádio só pegava cerca de cinco estações. Holly amava correr com a paixão de mil sóis. Dentro desse carro, podia ser livre, podia voar. Nenhuma coleira. Nenhum sangue desejando o monstruoso. Nenhuma lembrança de uma mão vermelha ferrugem acariciando seus cabelos enquanto lhe dizia Beba, garota, com uma voz gentil que desmentia a carnificina em que ela se ajoelhava e se debatia. Hoje, costurou dentro e fora do trânsito, tirando lascas ao abrir caminho para o aeródromo que lidava com a frota privada da Torre. Não era a maneira mais segura de dirigir, mas Holly tinha muito cuidado em não colocar ninguém em perigo. Somente ela mesma. Sim, precisava de terapia. Mas Holly não era suicida. Não mais. Sua cabeça estava cheia de problemas, mas nunca magoaria sua família fazendo essa escolha irrevogável. Sua mãe e seu pai, Mia, seus irmãos mais novos, sofreram mais do que o suficiente nos dias imediatos e semanas após o abate, e em seus meses de silêncio confuso, irritado e assustado. Foi Janvier quem a fez entender o que estava jogando fora. — Sentirei falta das minhas irmãs toda a minha existência vampírica, — ele disse a ela enquanto sentavam na grama depois de uma sessão de treino que deixou o corpo de Holly com uma dor gritante. — Tenho uma grande família que me ama tanto, mas crescer com elas, ah, pequena Holly, esse é um vínculo diferente. — Um brilho nos olhos escureceu o musgo Bayou que seu chefe mortal não fazia nenhum esforço para esconder. — Amelie e Jöelle... Elas moram aqui. — Seu punho em seu coração. — Sempre ficarão seguras aqui dentro. Seu olhar foi para sua esposa, que estava praticando um kata de artes marciais com dedicação de caçadora. — E minha perigosa cher, minha Ashblade, ainda se aflige por seu irmão e sua irmã. — Quando ele se levantou para ir provocar Ash com um beijo, os dedos da Caçadora afundando nos seus cabelos castanhos,


os fios de cobre brilhando na luz do sol, Holly sentiu a compreensão chegar. Forte. Mia partiria para sempre um dia. Alvin e Wesley desapareceriam. Seus pais desapareceriam. Nunca mais recuperaria esse tempo. Holly pegou o metrô para casa uma hora depois – foi saudada com lágrimas e abraços e sua refeição favorita – seguida de uma grelha3 tão intensa que ameaçou incendiar seu cabelo. Era uma lembrança que guardava contra o futuro desconhecido. Manobrando num local de estacionamento do lado de fora do prédio do aeródromo localizado no final de uma longa e deserta estrada privada, ela saiu e mostrou sua ID da Torre para o guarda. Ele olhou rigidamente para ela, indiferente, e pressionou o dedo no receptor da orelha depois de resmungar o nome no microfone em sua gola. O que ele ouviu o fez balançar a cabeça. — Está desmarcada. — Uma curva fraca em seus lábios. — Roupa legal. Não sabia que a Torre deixava entrar crianças de cinco anos. Olhos estreitados, Holly usou seu melhor tom sincero. — Você pegou seu terno no Vampiros Lustrosos Somos Nós? Pediu para um amigo. Sorriso apagado, o vampiro apenas olhou para ela, sem piscar. Holly o encarou; não prestes a ser intimidada, mesmo que ele tivesse pelo menos quinhentos anos de acordo com o cronômetro interno que desenvolveu ao longo do último ano. Um arrepio correu atrás de seus olhos. Merda. Embora o recuo fosse contra sua religião pessoal, Holly baixou as pálpebras e respirou fundo. Quando as levantou, o vampiro sorriu. Apertando os dentes e abstendo-se de apontar que estava a um segundo de hipnotizá-lo para cacarejar como uma galinha, ela se segurou. Era uma área relativamente pequena, com uma parede de vidro que dava ao aeródromo. 3 Trocadilho com a palavra grelha grilling: que pode significar grelhar, assar; ou também interrogar, questionar.


O controle de tráfego aéreo ficava no alto, em sua própria pequena rede. Isso sempre impressionou Holly: os anjos voavam para onde quisessem, mas se viajassem num avião, precisavam obedecer as regras do espaço aéreo. Não que o homem que estava aqui para pegar tivesse asas. Venom era um vampiro. Um dos Sete, a guarda particular de Raphael. Isso, infelizmente, também significava que era de longe muito mais forte do que deveria ser por seus trezentos e cinquenta anos de idade. Todos os Sete eram poderes violentos. — Voo três da Tower Airways na abordagem final. Holly olhou para o sistema de alto-falantes com um sorriso assustado. — Muito engraçado, Trace, — disse ela, tendo reconhecido a voz de uma só vez. Riso masculino passou pelos mesmos falantes. — Pensei, minha colega aventureira nas maravilhas dos mundos invisíveis, que podia precisar de um pouco de entretenimento, — disse o vampiro em seu tenor cálido. — Gostaria de subir? Ela viu o avião em direção a terra. Seu coração começou a bater mais rápido. Em preparação. Porque com ela e Venom, sempre era uma guerra. — Não, mas obrigada. E desde quando é um controlador de tráfego aéreo? — Estou cuidando da empresa Andreja. Trace terminou a transmissão com uma linha de poesia que fez seu coração disparar. A amizade de Trace era baseada em palavras, na poesia em que encontravam maravilhas e conforto. Então, havia o homem prestes a sair do avião que parou suavemente na pista. Ele fazia parte de sua vida quase desde o dia infernal, quando observou impotente, seu corpo paralisado por sangue envenenado, enquanto um arcanjo insano rasgava os braços do corpo de uma Shelley gritando como se estivesse arrancando as asas de uma borboleta, então parou para beijar Holly com a boca vermelha. — Shh. As mãos enroladas do seu lado enquanto os cabelos de sua nuca se elevavam, ela empurrou o passado para se concentrar no homem que estava aqui para pegar, um homem que a irritava e incomodava desde seu primeiro encontro.


Quando a Torre o transferiu de Nova York, pouco mais de dois anos antes, ela desejou um bom desembarque. Só para perceber que, com Venom, ninguém na cidade realmente via a parte dela que era fria, mortal e misteriosamente desumana. Os imortais que a rodeavam eram poderosos e mortais, mas ninguém mais era tão estranho. Venom era imune à sua capacidade de hipnotizar a presa e a única pessoa que podia ensinar-lhe a lidar com a habilidade. O que significava que precisava ter sua irritante voz no ouvido uma vez por semana durante o tempo em que esteve ausente – num lugar que ninguém mencionaria o nome para ela. Ele devia voltar a trabalhar fisicamente com ela, mas uma estranha tensão agarrava o mundo imortal nesse ínterim, e Venom não fez visitas à Nova York. Ele saiu do jato particular. Claro que usava um perfeito terno preto, combinado com uma camisa preta e sem gravata. Os óculos de sol espelhados obscureciam seus olhos. Holly ainda não descobriu se usava óculos de sol porque seus olhos eram sensíveis à luz, para que as pessoas não ficassem loucas, ou simplesmente porque era um idiota que gostava de parecer impenetrável. Apostava no último. Após caminhar pelos degraus do avião com passos fortes – de uma maneira elegante é claro, uma mochila de couro pendurada sobre o ombro, ele se virou para olhar o avião, levantando a mão em direção à cabine. A luz do sol do início da tarde pegou a linha limpa de sua mandíbula, o castanho queimado de sua pele brilhava na luz. Seu cheio cabelo chocolate, um pouco longo, estava penteado ordenadamente, nem um fio fora do lugar. O maldito homem parecia ter saído de um anúncio de bom uísque ou relógios de luxo. Ela estava franzindo o cenho quando encontrou seus olhos através do vidro. Sabia que olhava para ela, apesar dos óculos de sol espelhados. Braços dobrados e pés separados, ela correspondeu o olhar. Ele sorriu e tirou os óculos de sol. Olhos oblíquos como os de uma víbora se encontraram com os dela, a cor de um verde brilhante e surpreendente. Vejo que sentiu minha falta, gatinha, ele falou. Holly deu-lhe um doce sorriso amarelo... seguido pelo dedo.


Colocando os óculos de sol novamente, Venom riu. Estava dentro da área de espera momentos depois. O poder cru dele estremeceu contra ela. Violentamente. Apesar de seus pensamentos anteriores, ela esqueceu o quão incrivelmente forte ele era – sabia que isso não era um jogo de poder; não tentava sobrecarregá-la de propósito. Era simplesmente quem era: um vampiro cem vezes mais mortal que o guarda lá fora. — Droga, — ela disse com o rosto inclinado. — Esperava que tivesse caído num buraco. — Ele mencionou na última ligação que estava prestes a sair numa escalada. — Uma pena, eu acho. — Vejo que essas pequenas presas de gatinho estão ainda tão fofas. Ela queria silenciá-lo, controlou o impulso apenas porque isso o divertiria – e porque no tempo que ele ficou fora, ela conseguiu controle de ferro sobre os aspectos mais obviamente desumanos de sua natureza. Quanto à voz feia que continuava sussurrando dentro dela quando estava distraída, ela também estrangularia isso. — Onde está o resto da sua bagagem? — É isso. Girando os olhos, Holly colocou as mãos nos quadris. — Certo, certo. O que vestiu nos últimos dois anos? — Venom tinha um terno para todos os dias do mês. — Não sabe tudo que acha que sabe, gatinha. O mundo ficou tingido de verde ácido. O sorriso dela foi lento e satisfeito. — Aí está você. — Ele tirou os óculos de sol novamente para revelar esses olhos ainda mais estranhos do que os dela. — Boo.


Contendo seu temperamento através de dentes cerrados, Holly olhou para o alto-falante montado na parede. — Tchau, Trace. Espero que você e Andreja tenham um bom dia. Ah, posso ser presa por homicídio em breve. Por favor, venha me visitar na prisão. — Adieu, minha linda garota, — disse Trace com galanteria e alegria. — E, velho amigo, mesmo provocando a doce Holly à fúria homicida, é um prazer ter você em casa. — É bom voltar. — Recolocando seus óculos de sol, Venom olhou para Holly. — Você é minha motorista? — Sou a mulher que você não quer irritar, a menos que planeje andar até a Torre, — disse Holly antes de caminhar para o carro. Venom fez uma pausa para apertar a mão do guarda e depois deixou cair a mão na mochila. Rodeando para tomar o banco do passageiro, ele o empurrou para trás a fim de acomodar suas pernas. Ele era magro, mas tinha ombros largos, pernas longas, muita musculatura. Também podia se mover tão rápido como um ataque de cobra. — Deixam você dirigir agora? — Ele disse com um tom de voz fascinante e calibrado para ficar sob sua pele. — Saí por alguns anos e perco os primeiros passos da gatinha. Alguém tirou fotos para o álbum de bebê que lhe enviei? — Está cheio de belas fotos. — Holly abriu os dentes para ele numa caricatura de sorriso. — Honor está um pouco preocupada com a forma como continuo desenhando você com a cabeça cortada, — ela disse com um tom deliberadamente pensativo, — Mas um artista deve seguir seus instintos. — Oh, Hollyberry, estou profundamente emocionado por não poder me tirar da cabeça. Holly deliberadamente derrapou no ponto de estacionamento antes de acelerar tão rápido que a cabeça de Venom deveria ter batido contra o assento. Em vez disso, ele riu, preguiçosamente apoiando um braço contra a moldura da janela aberta enquanto a selvageria letal do cheiro dele soprava em sua pele. — Tem esse temperamento sob controle, estou vendo. — Oh, me... — Holly se interrompeu antes que dissesse me morda. Sabia exatamente qual seria a resposta dele.


— Estou ansioso por sangue fresco. — Era um som líquido, seu corpo lânguido de uma maneira que simplesmente não era humana. — O sangue quente da veia é muito melhor que o frio, coisas preservadas. Você não acha? Holly apertou o volante e tentou pensar no exercício calmante que Honor lhe ensinou, num esforço para promover a disciplina mental e emocional na época que Holly estava autodestrutiva. Não precisou desse exercício por um tempo. Venom não estava na cidade há algum tempo. Respire, expire, respire, Sangue pulsando nas veias da vítima, atraído para a superfície pelo medo tremendo. Respire. Dentro, fora, dentro, maldito, fora. O sabor do ferro quente na língua. Sua boca enchendo d’água. Olhando para a estrada com foco sombrio, Holly recusou-se a ceder à potente e anormal fome que as palavras de Venom despertaram. Não precisava de tanto sangue para sobreviver. E definitivamente, não queria abrir a jugular de um mortal desamparado e banhar-se num escuro e quente brilho vermelho. Seu estômago apertou, sua garganta apertando pelas imagens que enchiam seu cérebro. Imagens horríveis e de pesadelo diretamente de um maldito asilo para assassinos insanos. — Ainda lutando contra a realidade de que é uma vampira? — Eu não sou, — ela disse; sua voz sem nenhuma indicação de seu terror absoluto – porque Holly estava acostumada a esconder a loucura submersa no fundo. — Tenho tendências vampíricas, mas não preciso de tanto sangue como você. — O que ela ansiava era uma coisa mais violenta e mortal. — Também tenho outros aspectos que não são vampíricos. — Fala da capacidade de hipnotizar a presa? Odeio te desapontar, gatinha, mas eu também posso fazer isso, e sou um vampiro. Ao contrário de você, minha habilidade não está mais limitada a mortos e vampiros muito jovens. Holly estava bem ciente de que ele estava zombando dela. Sabia muito bem o que mais podia fazer. — Preciso de comida, — ela ainda disse, porque, pelo menos, trocar farpas com Venom eram sua versão de normal. — Isso não mudou desde que a Torre decidiu que Manhattan ficaria melhor sem sua presença maravilhosa.


— Pare, pare. Não posso receber essa efusiva saudação. — Diversão incomparável em todas as sílabas, ele esticou as pernas. — Ainda deseja samosas4? — Não. — Ela foi ao seu restaurante indiano favorito três vezes na última semana e se encheu de frituras – Espere um minuto. — Qual a possível razão que poderia se lembrar? — Ela perguntou com desconfiança, a admissão sobre o desejo ter escorregado durante uma sessão de treino de longa distância. — Porque é outro fato estranho de Hollyberry para adicionar à minha crescente coleção. — Você é um idiota. — A troca descrevia todo o relacionamento deles, ela pensou enquanto continuava pela estrada privada, de outra forma vazia, que saía e se afastava do aeródromo. Felizmente, entraram a uma estrada muito movimentada de várias pistas, pouco tempo depois. Isso lhe deu uma desculpa para ignorar Venom e a picada sobre sua pele que não iria embora enquanto ele estivesse por perto. — Então, o que gatinhas fazem nos seus dias de folga? — Fique quieto. Estou dirigindo. — É assim que chama? Estava pensando em montanha-russa mais lunática. — Não vejo você indo a... — ela girou o volante para a direita quando um grande SUV preto entrou em sua pista. — Jesus! — Não foi um erro de sua parte – o motorista do fodido tanque ainda estava forçando com uma agressão desconhecida, como se não tivesse três outras pistas para escolher. E agora, o bastardo buzinava para ela. — Pare o carro, — disse Venom, sua voz gélida. — Eu lido com isso. Holly fazia questão de discordar de tudo que ele dizia a princípio, mas o idiota do outro veículo levava comportamentos perigosos a um novo nível. Podia causar um acidente – e a maioria dos outros motoristas ao redor dela provavelmente não eram vampiros, os quais poderiam suportar muito mais dano que os humanos. Ela se aproximou. O SUV gritou para parar ao lado dela, em vez de atrás dela. — Ótimo, parece que o idiota tem problemas de raiva na estrada. — Holly empurrou a porta sem considerar as marcas que deixaria no brilhante acabamento do SUV. O espaço era estreito, mas era viável para uma mulher de seu tamanho.

4 Pastel indiano


Venom já estava do seu lado do carro, sua velocidade perversa. Mas ela saiu a tempo de ver as portas do outro veículo se abrir e uma voz masculina áspera gritar: — Pegue a garota! Pegue a garota? Nem. Fodendo. Ia. Acontecer. Holly chutou a arma da mão do primeiro valentão. O segundo virava contra seu carro antes de ver o movimento de Venom. O terceiro deu uma olhada em Venom e ficou branco como um lençol. — Não deveria estar aqui! Mal ouvindo o temível grito, Holly deu um chute no maxilar do primeiro valentão, batendo a cabeça de um lado para o outro. Mas ele era forte, um vampiro de pelo menos trezentos anos. Ele continuou indo até ela. Holly não podia usar nenhuma de suas novas habilidades quando as coisas estavam se movendo tão rápido, precisava lutar usando apenas as habilidades que aprendeu com Honor, Ashwini e Elena. Todas as três Caçadoras da Sociedade, as três costumavam lutar contra adversários mais fortes e mais rápidos. Holly era menor que todos os seus treinadores. Pequena Hollyberry. Era como Janvier a chamava. As crianças na escola sempre a chamaram de baixinha. Holly não se importava agora. Importava-se apenas com as caçadoras e Janvier – e Venom – a ter ensinado a lutar de uma maneira que usava seu tamanho. Ela se abaixou sob o punho carnudo do valentão e deu um soco de dois punhos dentro de seu intestino, bem no ponto doce. Seu gemido agonizante era música para seus ouvidos... Antes de ser jogado de volta tão forte contra o veículo que deixou uma cavidade do tamanho de uma pessoa no metal. Combinou com a cavidade deixada pelo valentão número dois. — Eu tinha isso. — Seu peito arfou, seu sangue quente. Após endireitar seu terno, Venom disse: — De nada. — Ele cutucou um dos idiotas deitados com um pé que estava em um sapato chique. — Este parece mais vivo. Vamos ver o que tem a dizer. Descobriu-se que não era muito. — Há uma recompensa para agarrá-la. — O valentão estava quase tremendo na frente de Venom, sua pele pálida corada e manchada. — Quanto? E quem está por trás disso?


— Não sei. Mike tinha os detalhes, mas acho que esmagou o cérebro dele. — Ele vai acordar. Eventualmente. — Um sorriso frio. — Então descobrirá o verdadeiro significado da dor. Os dentes do valentão começaram a bater. — Juro que não a machucaríamos, — ele soluçou. — Apenas a levaríamos pela recompensa. Holly revirou os olhos. — Estou aqui, idiota. O idiota ainda estava congelado na frente de Venom – e sabia que Venom não estava usando sua habilidade de hipnotizar. — Isso é tudo que sei, — o cara dobrou uma boca que estava inchada do corte no lábio. — Nós a perseguimos, percebemos que estava deixando a sua irmã hoje e voltaria sozinha. — Não pegou uma dica quando desviou ao aeródromo privado? — Todos sabiam que pertencia à Torre. Os olhos do valentão nem sequer desviaram para ela quando ele disse: — Ela dirige como uma maníaca. Venom riu. — Nisto concordamos. — Sua risada fez o valentão de pescoço grosso vacilar. — Agora, o resto. O homem falou com tanta rapidez que as palavras dele se estenderam. — Nós a perdemos logo após o aeroporto principal e, depois de quinze minutos de busca, decidimos parar num posto de gasolina, tomar um café, fazer um novo plano. Tínhamos acabado de voltar ao SUV quando vimos o carro dela passando. E os valentões descobriram que era seu dia de sorte, muito presos na caçada para pensar por que Holly já não estava em Manhattan quando saiu tão rápido que a perderam. Não se preocupando em balançar a cabeça com a incompetência deles, ela disse: — Como deveria entrar em contato com a pessoa que colocou a recompensa? — Acho que Mike tem um endereço para enviar uma foto por e-mail. — Ele engoliu em seco, lambendo os lábios. — Você sabe, como prova. Indo para o valentão, cuja cabeça estava esmagada de um lado, o suficiente para que pudesse ver parte do cérebro escorrendo – grosseiro, mas longe do pior que viu... Holly procurou nos bolsos até encontrar seu telefone. Ela destravou-o usando a impressão digital, depois digitalizou suas mensagens de texto. Nada.


Um lembrete surgiu na tela inicial antes que pudesse verificar os e-mails: Raptar Holly Chang. Foto no e-mail. Seguia um endereço de e-mail. Ficou surpresa com a ideia de que este vampiro precisava de um lembrete de sua intenção de sequestrar uma mulher – quer dizer, não parecia ser o tipo de coisa que você esqueceria – ela mostrou a nota a Venom. Ele encontrou seus olhos. — Pode fingir estar espancada e derrotada? Não. Ela nunca mais ficaria assim. — Não, — ele disse suavemente, — Acho que não. Os ombros relaxando quando o soltou, pensou rapidamente. — Posso parecer inconsciente. — Ela puxou alguns pedaços de cabelo aleatórios de seu rabo de cavalo, então subiu no banco traseiro do SUV e abaixou a cabeça de lado – um dos valentões rasgou seu novo top, então com isso e os cabelos bagunçados, parecia desgrenhada. Venom tirou a foto usando o telefone de Mike-o-valentão-esquecido, e enviou o e-mail. Ainda não tinham uma resposta quando uma equipe da Torre chegou para levar os caçadores de recompensas em custódia. Um caminhão de reboque seguiu, para arrastar o SUV, pelo fato de Venom ter danificado o motor quando jogou um dos valentões em cima do capô. — Quem colocou a recompensa pode ter pessoas observando as que são mais propensas a ter sucesso, — disse ele, assim que voltaram ao carro e a caminho da Torre, o telefone silencioso no porta-copos. — Se assim for, o vigia nos veria derrubar os caçadores de recompensas Holly bufou. — Se esses três foram julgados os mais prováveis de ter sucesso, é uma aposta muito baixa. — Não é surpresa, Gatinha. Somente os estúpidos ou os desesperados iriam atrás de uma mulher que pertence à Torre. Holly tocou um dedo no volante. — Os valentões podem não saber disso, — ela murmurou. — Tive um quarto na Torre por apenas sete meses, e tento manter minha conexão fraca. — Os imortais mais fracos, os que assombram as sombras, estavam conscientes de que conhecia vampiros e anjos poderosos e faria que suas preocupações fossem ouvidas, mas Holly não era considerada uma ameaça por direito próprio. Do que estou fugindo.


Ela queria arrancar o volante de sua carcaça, queria gritar sua raiva. Muito ruim essa super força não ser uma das habilidades concedidas em sua cortesia de seu sangue contaminado... Ou que não pudesse esquecer o pesadelo de sua criação. Odiava as emoções que a atingiram durante a tentativa de sequestro, emoções que ainda pulsavam em seu corpo. Uram a levou enquanto ia ao cinema com suas amigas, as seis rindo e falando sobre pegar frappuccinos de chocolate com menta. Ela usava um vestido amarelo e saltos altos, num esforço de ficar mais alta, e sua maquiagem estava imaculada – demorou uma hora para se aprontar. Mia a ajudou com o delineador de olhos. Então veio o horror. Esse sentimento de absoluta impotência era uma pedra no intestino, uma lembrança que não conseguia limpar depois de finalmente subir a sua superfície, cerca de dois anos e meio após o sequestro, como se sua mente decidisse que não enfrentou horror suficiente. Mais de dezoito meses após esse incêndio incansável, e os ecos do pesadelo se recusavam a desaparecer. Ela gritava até ficar rouca, lutara para salvar seus amigos, mas Uram os destruiu um a um na sua frente, como se exibisse sua arte para uma audiência apreensiva. Holly foi a única resgatada, uma bagunça sangrenta, meio louca, quando Elena a encontrou. Muitas vezes, nos dias seguintes, desejou que ela também tivesse morrido naquela casa de morte. Era muito mais difícil estar viva e saber que Shelley nunca mais riria até ficar sem fôlego, que Cara e Maxie nunca mais brigariam sobre um tom de batom, e Rania e Ping nunca mais falariam sobre os homens em suas vidas. Havia outras duas vítimas naquele armazém do Brooklyn, mulheres já mortas e drenadas de sangue quando Uram levou Holly e suas amigas para sua casa de horrores. Foi muito depois que Holly descobriu seus nomes: Kimiya e Nataja. Ela não esteve em nenhum dos funerais... e não podia suportar visitar seus túmulos. Doía tanto pensar em suas amigas e naquelas duas estranhas que nunca conhecera – e nunca conheceria – ficando frias na Terra. — O que não entendo é por que alguém iria querer sequestrar uma gatinha com dentinhos de vampiro.


A declaração reflexiva de Venom a expulsou do laço de dor e perda, horror e raiva. — Aproxime-se e vou mostrar exatamente quão indefesos são esses dentes de bebê. — Suas presas dispensavam uma substância verde ácida que os cientistas da Torre testaram e declararam ser um veneno mortal. — Desculpe, gatinha. Morder-me não trará nada de bom... Embora tenha sido dito pelas mulheres que já provaram que meu sangue é o melhor. Holly fez movimentos de engasgo com a mão que não estava no volante, incrivelmente feliz, então, por sua presença irritante e distrativa – embora cortasse a cabeça antes de admiti-lo. — Algumas mulheres fazem qualquer coisa para entrar na Torre. — Você joga sujo, Hollyberry. Como veneno. Partindo de outra pessoa, as últimas palavras seriam um insulto feio. De Venom... — Você me elogiou? — Ela perguntou, sua boca abrindo. — Retire! — Não podia lidar com Venom sendo agradável com ela, de qualquer forma, jeito ou maneira. — É claro, — ele disse, — Seu veneno está longe de ser tão venenoso quanto o meu. Ela ia replicar sobre homens sempre pensando que seu pau era maior, quando a importância de suas palavras a atingiu. — A Torre comparou os dois? — Somos os únicos dois membros venenosos da Torre. O Sire precisa conhecer nossas forças exatas. — Quanto mais forte você é? — Ela perguntou através de dentes cerrados, embora sua potência não fosse uma surpresa. Venom podia parecer ter talvez vinte e sete anos, mas viveu muito mais anos que ela imaginava.


E ficaria assim para sempre, uma criatura sexual que ninguém jamais se atreveria a chamar de menino. Holly, em contraste, estava presa ao rosto de uma menina de vinte e três anos que ainda tinha a suavidade juvenil quando Uram alterou a forma de sua existência. A suavidade desapareceria no próximo ano; sabia porque assistiu a transformação de Mia. Mas Holly nunca teria esse ano extra para crescer em sua pele e sua feminilidade. O vampirismo – ou o que fosse que corria em seu sangue – provavelmente refinaria seus traços para algo mais adulto no futuro, mas nunca mais passaria de jovem. Nem mesmo se vivesse até 500 anos. Claro, uma vida longa, quase imortal, era o melhor dos casos. — Sou forte o suficiente para derrubar uma grande quantidade de anjos na cidade, — Venom disse preguiçosamente. — É um segredo que a Torre irá executála por falar, então nunca compartilhe – mas posso surpreender os mais novos num intenso sono involuntário que os curandeiros acreditam que poderia levar à morte, incapacitar os mais velhos com dor severa. Holly franziu o cenho e disse: — Bull, — estremecendo internamente por usar linguagem para a qual sua mãe ameaçaria lavar a boca com sabão. Daphne Chang não se importava com o que Holly era; se importava que sua filha se comportasse como a dama que foi criada para ser. Holly tentou, realmente. Mas só quando sua mãe estava nas proximidades para testemunhar. Nunca mais Holly de bom grado causaria dor à mãe que jamais, nem uma única vez, ela a olhou como qualquer coisa além de sua filha. Seu pai era menos demonstrativo, mas ele era aquele que mantinha as roupas certas para ela em sua loja de roupas, peças sempre coloridas e peculiares para Holly. O amor vinha de muitas formas diferentes. — Tudo é verdade. — O cabelo de Venom levantou no vento através da janela aberta, seu perfil tão surpreendentemente perfeito que sua respiração falhou por um segundo. — Sou mais mortal que a cobra mais mortal do mundo, com a capacidade de impactar fortes imortais. Mas você não está muito atrás. — Tente ser usado como um brinquedo de mastigação por um arcanjo insano, — Holly disse com um sorriso sombrio. — Faz maravilhas pelo seu veneno, eu ouvi.


Ninguém sabia exatamente o que Uram fez com ela além de fazê-la beber seu sangue – essa lembrança doentia ela finalmente recuperou. Mas a maior parte do tempo que ele passou com ela depois de assassinar seus amigos permanecia em branco. Ou ficou inconsciente ou se certificou de que ela não se lembraria, e era ótimo saber que um arcanjo de sangue podia estar cavando em sua mente. Quem sabia o que ele deixou para trás. O que Holly tinha eram muito mais informações sobre biologia angélica que a maioria dos vampiros mais velhos – ela precisava dessa informação para entender o que estava acontecendo com ela. — Mas, — Venom continuou, — Como eu estava dizendo. Sou imune à sua mordida venenosa. Holly franziu o cenho. Ela o mordeu uma ou duas vezes durante a fase de psico-stress pós-traumático, e ele encolheu os ombros, mas essas mordidas foram meros arranhões – e seu beijo tóxico ainda não havia se estabelecido na sua forma final. — Os cientistas testaram nosso veneno um contra o outro? Se esticando, Venom tocou os fios do cabelo que prendeu perfeitamente na nuca depois de tirar a fotografia. — Parece aquele pônei com uma cauda de unicórnio. Ela estendeu um braço para empurrá-lo. — Responda à pergunta. E cabelo do unicórnio era o ponto, Sr. Designer Corta e Seca. — De vez em quando, Holly precisava lutar contra o desejo de pular em Venom e bagunçá-lo. — Neutralização completa. — Venom virou ligeiramente em seu assento para encarar seu perfil – e a picada sobre sua pele se transformou num enxame de abelhas picantes. — O meu veneno cancela o seu e vice-versa. Holly olhou para a frente. — O meu veneno é o mesmo que o seu? — Era uma pergunta que não queria fazer. — Como uma víbora ou cobra ou outra? — Não. — A resposta dele fez seu coração saltar em seu peito. — O meu segue dessa maneira – embora seja uma mistura única, mas o seu é diferente de qualquer coisa no planeta e está crescendo em virulência. Holly sentiu seus músculos se apertarem. A coisa dentro dela, o tumor psíquico que não podia ultrapassar, estava ficando mais forte. Ela sabia disso, sentia isso. Onde terminaria? Na morte? Em loucura psicótica como o arcanjo de sangue que foi seu pai? Pior?


— Nós poderíamos testar, — Venom disse com aquele tom languidamente sensível que ela o ouviu usar nas mulheres que ofegavam atrás dele. — Compartilhar nosso veneno. Holly encontrou seus pés novamente. — Oh, poxa, deixe-me pensar nisso, — ela disse com uma vibração de seus cílios. — A resposta é... Um grande. Gordo. Não. — Ela sabia que ele estava a provocando. Pensava que ela era um bebê remelento. Ela pensava que ele era um idiota vaidoso. Essa era a extensão do relacionamento deles. — Por que alguém te quer o suficiente para colocar uma recompensa na sua cabeça? — Seu tom era sério desta vez. — Era definitivamente atrás de você que estavam. Holly Chang, também conhecida como Sorrow. Esse era o resumo e incluía uma foto sua. Holly assentiu. — Eu vi. — A foto estava armazenada no telefone do chefe. Estava saindo de um café onde levou sua mãe para uma xícara de chá e bolo. Daphne Chang tinha uma fraqueza por bolo que Holly explorava plenamente enquanto seguia seu caminho de volta às boas graças de sua mãe. — O instigador deve saber como foi feita, — continuou Venom, seu poder uma onda sinuosa que a envolveu antes de deslizar. — Ou suspeitam. Holly lutou para manter a respiração nivelada. Venom ainda não estava mexendo com ela – ele jogava, mas não assim. Não da maneira que não estivessem em condições iguais. Ela sentia o poder dele tão vividamente, quer porque sua própria sensibilidade aumentou como resultado das mudanças em curso em seu corpo – ou porque Venom ficou mais forte nos dois anos desde que o viu pela última vez pessoalmente. Ou ambos. — Seu sangue é uma moeda valiosa, — acrescentou. — Infelizmente. — Holly não carregava a toxina mortal que resultou na insanidade assassina de Uram, mas carregava algo que não era padrão no mundo mortal ou imortal. Ninguém descobriu o que ainda. Apenas sabiam que Holly era uma estranheza não vista na natureza – palavras faladas por um curandeiro trabalhando em seu caso.


— Há outra possibilidade, — Venom disse. — Você é única, e essas coisas raramente ocorrem numa vida imortal. Como Zhou Lijuan recolhe as asas mais extraordinárias na angelidade, então outro colecionador pode tentar adquirir você. Holly estremeceu interiormente com a menção da antiga ardilosa da China. — Como ela pode coletar asas angélicas? Ela as corta? — Perguntou, horrorizada. A resposta de Venom foi relaxante. — Não, prefere todo o corpo. Como colocar uma borboleta morta numa parede. — Porra, os imortais têm mentes distorcidas. — E o deles era o mundo dela agora. — Reagiram a você dessa maneira? Como uma curiosidade ou um item de colecionador? — Não provoquei muito choque. Não comuniquei a identidade do meu Criador. A Arcanjo Neha, Rainha das Serpentes, dos Venenos. — Mas, — ele continuou; sua voz um pouco distante, como se estivesse olhando há centenas de anos atrás, — Sou o único vampiro que ela já fez que herdou tanto do que a torna quem ela é. Houve muitos que tentaram me atrair de sua corte na conclusão do meu contrato. Holly estava intrigada a despeito de si mesma. — Raphael era uma dessas pessoas? Sua risada era incongruentemente quente para um homem com os olhos de uma víbora. — O Sire nunca precisou atrair ninguém, gatinha. Sibilando para ele antes que pudesse se conter, ela parou bruscamente na frente do espetáculo brilhante que era a forma penetrante de nuvens da Torre do Arcanjo de Manhattan. — Pode sair agora, — ela disse quando ele não se moveu. — Você virá comigo. — Seu tom era inflexível. — Dmitri quer saber sobre a tentativa de sequestro. O intestino de Holly ficou tenso. Ela tinha medo disso. E enquanto desafiava alegremente Venom sem nenhuma razão, exceto que a estava irritando, desafiar Dmitri era outro assunto. Não que tivesse medo dele – embora Dmitri pudesse ser aterrador. Era que não queria decepcioná-lo. Virando o carro para a garagem subterrânea da Torre, estacionou em silêncio e saiu. Venom agarrou sua mochila e depois ficou ao lado dela com uma suavidade líquida que achou uma afetação até que o viu lutar e percebeu que os olhos dele


não mentiam – Venom foi alterado até suas próprias células durante sua conversão ao vampirismo. Perguntou-se por que ele escolheu isso e, se valia a pena perder, não só a liberdade de cem anos em pagamento, mas também sua humanidade, de maneira que a maioria dos vampiros não teve que considerar. Entrando no elevador, ela manteve sua curiosidade para si e seus olhos decididamente fixos na frente, enquanto o sinuoso deslize de seu poder enchia o pequeno espaço. Mas estava consciente dele tirando seus óculos de sol e colocandoos na gola da camisa. Ele raramente fazia isso, exceto com Raphael e outros dos Sete. As portas do elevador abriram-se suavemente no andar da Torre, o qual o escritório de Dmitri ocupava. Holly não esteve lá por algum tempo, embora Honor lhe contasse sobre a reforma. As paredes eram de um cinza suave, o tapete uma sombra mais rica da mesma cor elegante. Tudo era preto anteriormente, puro Dmitri. Agora, refletia tanto o vampiro mais poderoso da cidade – e sua esposa caçadora. — O que são esses buracos? — Honor devia estar consternada pelos danos nas paredes recém-pintadas. Pelo menos, a bela arte que escolheu parecia ter sobrevivido ilesa. — Parece que facas perfuraram as paredes, — Venom disse depois de um rápido olhar, seus lábios curvados no que parecia ser diversão genuína. — Meu palpite é Elena e Dmitri. Então não havia mais tempo para se preparar para o que estava por vir; chegaram ao escritório de Dmitri. O segundo de Raphael não estava parado atrás de sua mesa. Holly nunca o viu sentar-se na cadeira do escritório, mas estava na sacada sem grades. Ele não parecia ter mil anos, talvez no início dos trinta. Um homem perigoso, com cabelos pretos, olhos castanhos escuros e pele bronzeada que exsudava sexo, de acordo com a mídia. Deixando a mochila num canto, Venom entrou primeiro. Holly seguiu com mais cuidado – foi avisada repetidamente que enquanto era como um vampiro, não era propriamente. E mesmo um vampiro morreria se caísse


dessa altura e sua cabeça se separasse de seu corpo. Que Dmitri e Venom fossem tão arrogantes sobre isso, falava da quantidade de poder que corria em suas veias. Dmitri estava no telefone, mas desligou no instante que viu Venom. Com um sorriso no rosto ele abraçou o outro homem de uma maneira que dizia que eram amigos, em vez de simplesmente compatriotas ou irmãos guerreiros. Mais de seiscentos e cinquenta anos separavam Dmitri de Venom, o mais antigo e o mais jovem dos Sete, mas não havia distância nesse momento. Enquanto observava, Dmitri bateu nas costas de Venom antes de se afastassem. — Holly. Holly caminhou para encontrar Dmitri no meio do caminho e, quando a puxou para a força quente de seus braços, ela não resistiu. Onde outras mulheres olhavam para ele e viam um vampiro de corpo duro que provocava o sex appeal, Holly via o homem que a achou no seu pior momento, cheia de auto aversão e culpa por sobreviver quando todos os seus amigos estavam mortos. Ele estava tão irritado naquela horrível noite, contou suas vergonhosas verdades sobre o que aconteceria com ela se continuasse seu caminho autodestrutivo, mas não a abandonou quando admitiu seu medo do que estava se tornando. Ele acariciou seus cabelos enquanto estavam sentados num penhasco com uma visão brilhante de Manhattan, e a deixou chorar até não ter mais lágrimas. Até que estivesse pronta para criar uma espécie de vida para si mesma das cinzas de quem ela já foi. No tempo que passou, ele observou seu desenvolvimento e se certificou de que não se afundava sob as ondas negras de seus pesadelos. Passando a palma da mão sobre o rabo de cavalo antes de soltá-la, se moveu para que ficasse de costas para a queda precipitada atrás dele enquanto ela e Venom ficavam na frente dele. O vento chicoteou sua camiseta preta, a mesma cor do jeans e botas. — Podemos entrar? — Holly falou. Estava triste por trair qualquer fraqueza na frente de Venom, mas odiava ver Dmitri tão perto da borda. Para sua surpresa, Venom não comentou nada quando escorregaram no escritório de Dmitri. Até então, ele disse a Dmitri o que aconteceu. Os olhos escuros de Dmitri se afiaram, o letal predador nele repentinamente evidente – este era o


homem dito como implacável, a Lâmina de Raphael, que fazia picadinho sangrento de seus inimigos. — Os caçadores de recompensas queriam especificamente Holly? — Não há dúvidas. — Venom tirou o telefone que confiscaram. — Terei Vivek vendo o que pode fazer com o endereço de e-mail. Dmitri acenou com a cabeça antes de se virar para Holly, a violência de seu poder provocando dor. — Você foi ferida? — Não. — Ela apontou para o ombro rasgado de sua camiseta. — Meu pai me deu essa camiseta na semana passada. Os burros estúpidos o rasgaram. O sorriso de Dmitri era letal. — Se houver uma recompensa bastante significativa, esta será apenas a primeira tentativa. — Ele cruzou os braços. — As maiores ameaças serão os antigos muito aborrecidos com a vida, que arriscam a morte ao atacar uma das pessoas da Torre, achando que será uma emoção perigosa. Não serão tão incompetentes quanto este trio. Holly sentiu uma picada na parte detrás do seu pescoço. — Posso cuidar de mim mesma, — ela lembrou. — Você se certificou disso. — Foi ele quem a jogou em treinamento projetado para aumentar seu controle sobre suas habilidades. Prendendo-a no local com a escuridão de seu olhar, Dmitri levantou uma sobrancelha. — Poderia ter derrubado todos os três vampiros hoje? Holly abriu a boca... e não podia mentir. Não para Dmitri. — Não, — ela finalmente reagiu. Mike e seus amigos idiotas eram grandes bastardos, e embora Holly lutasse, não era uma caçadora ou guerreira experiente. — Não vai sozinha a lugar nenhum até descobrirmos quem é, o que quer, e o motivo. — As palavras eram uma ordem. — Falarei com Janvier e Ashwini, verei quem é melhor para atribuir a você. — Posso cuidar do bebê, — disse o irritante vampiro ao lado dela, aquele cujo poder continuava deslizando em torno dela; a sensação quente e viva de pele de cobra em seu corpo.


— Obrigada pela sua generosidade, — Holly disse com sua voz de boa menina, com o sorriso largo o suficiente para cortar suas bochechas, — Mas prefiro acampar com um cão raivoso infestado de pulgas. Os olhos de Venom fizeram aquela coisa fascinante que faziam às vezes – desceram a membrana. O flash da membrana que chegava horizontalmente em suas íris era tão rápido que ninguém acreditou nela quando contou o que viu. Era como se não pudessem ver, a velocidade tão rápida. Em vez de ficar assustada pelo ato, queria se inclinar perto, ver se podia rastrear o movimento. Também queria que ficasse mais lento para que pudesse apreciar plenamente a beleza disso: a membrana que atravessava seu olho não era totalmente transparente ou branca leitosa como viu em imagens de pássaros ao examinar os tópicos relacionados. A membrana translúcida estava rajada de branco, criando uma rede fina através da qual o verde de seus olhos brilhava. O efeito era incrível. E apenas visível por um milésimo de segundo no máximo. — Você não é exatamente a minha primeira escolha, gatinha. — Uma varredura do corpo dela. — Prefiro passar meu tempo com mulheres. Holly não mordeu a isca. — Tenho certeza que Ashwini não se importará se eu ficar com ela. — Se tivesse que ter guarda-costas, Ash, Honor ou Janvier seriam sua escolha. Como Honor estava ensinando na Academia da Sociedade neste semestre, e Janvier tinha funções extras enquanto Raphael e Elena estavam ausentes, isso deixava Ashwini. — Ashwini está em treinamento de combate avançado, assim como Janvier, — disse Dmitri. — Também têm um horário carregado de tarefas. — Ele olhou para Venom. — Planejava pedir-lhe para assumir algumas das tarefas deles enquanto Illium ensina o que precisam saber.


— Galen não está envolvido? — O que acha? — O sorriso de Dmitri era mais nítido agora. — Acho que ambos já estão maldizendo o dia que concordaram em entrar na Guarda de Elena. — Um olhar para Holly, sua diversão desaparecendo antes que voltasse sua atenção para Venom. — Esta situação precisa ser resolvida rapidamente. É sua prioridade – fique atento à Holly e descubra quem está atrás dela. Dividirei os outros deveres entre os vampiros mais fortes, como Trace, até terminar. Holly cruzou os braços. — Desculpe entrar na acolhedora conversa de vocês, — ela disse, lutando contra seu desejo de obedecer Dmitri, — Mas sou adulta. Não tome decisões por mim, como se eu não estivesse aqui. — Tem certeza que está crescida? — Venom. — A voz fria de Dmitri cortou Venom antes que pudesse ir mais longe. — Fale com Vivek e descanse. Holly pode me acompanhar pelo resto do dia. Ela conseguiu manter a boca fechada até depois de Venom sair. — Dmitri, eu não vou me opor a um guarda-costas, — Não importa o quanto isso a irritava, — Mas não me coloque com ele. — Ninguém ousa tocar em Venom nas proximidades. É um dos mais fortes da Torre – e está anos-luz à sua frente ao usar suas habilidades. — Ele também é um idiota. — Então, de acordo com muitas pessoas, também sou, — disse Dmitri, claramente não incomodado com isso. — É Venom, ou confino você na Torre. Suas mãos apertaram, acelerando seus batimentos cardíacos. O mundo começou a ganhar uma clareza lavada em verde ácido. Na frente dela, Dmitri a observava sem indícios de medo ou preocupação. — Holly, pare. — As palavras eram suaves. Ela gritou em vez disso, a frustração dentro dela um som alto. — Ganhei minha liberdade, Dmitri! Fiz tudo que a Torre pediu, tudo! Contornando sua mesa, ele recostou-se contra ela, com os braços cruzados em seu amplo peito. — E continuará fazendo isso, — ele disse num tom que exigia obediência. — Quatro anos não são nada numa existência imortal, menos que um batimento cardíaco, menos que as primeiras respirações de uma criança. Não tem ideia de quão perigosa você pode ser.


— Então planeja me observar para sempre? — Ele colocou-a oficialmente sob Contrato, mas, ao contrário dos vampiros normais, ela não se liberaria automaticamente após cem anos de serviço em troca do dom do vampirismo – a Torre decidiria se ela era segura o suficiente para ser libertada. — Se isso for preciso. — Suas palavras eram impiedosas. — Mas tenho a sensação de que, uma vez que tenha o controle total de suas habilidades e sobre seus impulsos, tirará a escolha das minhas mãos. O verde ácido continuou pulsando em sua visão. — Você é imune ao meu veneno? — Ela perguntou, tão brava que era um zumbido no sangue dela. — Não, mas não me matará. Também sou rápido o suficiente para quebrar seu pescoço antes que suas presas se aproximem. Holly piscou. O verde desapareceu. De repente, seu corpo queria desmoronar. Estava tão cansada disso. De lutar contra um mundo que a via como uma ameaça desconhecida. De combater o câncer dentro dela, isso não permitiria que ela fosse normal. De lutar para permanecer viva, ficar atenta. — Venom e eu achamos que eles podem querer meu sangue, — ela disse, forçando seu cérebro cansado a pensar. — Ou talvez apenas me colecionar. — Possível. Também é possível que desejem recriar o efeito que Fez você. — Pegando seu rosto nas mãos, Dmitri falou com uma voz de meia-noite. — Odeieme se quiser, Holly, mas lembre-se disso: você é uma da Torre agora. É um dos meus agora. Isso pode significar correntes, mas também significa que tem centenas de vampiros e anjos às suas costas. A emoção era uma queimadura quente por trás de suas pálpebras. — Tudo para uma estranha menina chinesa que teve a má sorte de sobreviver a um massacre? Um sorriso profundo que atingiu a intensidade dos olhos dele. — Vamos, minha pequena estranha. Sou o professor de Ash e Janvier durante a próxima hora. Você pode assistir. Seu cansaço repentino desapareceu. Dmitri era letal em combate, e nenhum de seus dois chefes era exatamente um molenga. No entanto, enquanto observava a sessão naquela hora, percebeu que nunca viu Dmitri a toda velocidade. — Isso é


insano, — ela murmurou para si mesma, de onde estava sentada no topo das arquibancadas que rodeavam a área interna de sparring5. — Até mesmo muitos imortais mais velhos têm problemas para rastreá-lo com os olhos. — Merda. Esperava ignorar a sensação rastejante em meus braços, e que você voltasse para o buraco de onde deslizou. Venom sentou-se na alta arquibancada ao lado dela, sobre ela veio o frescor de seu cheiro recém-saído do banho. Ele trocou para calça preta e camisa preta com mangas compridas e enroladas. Para ele, isso era um traje casual. — Gatinha está de mau humor. Sentiu minha falta de novo? Sua pele sentiu o calor dele através das polegadas entre eles, absorveu isso. — Como sinto falta da bolha gigante que eu tinha no meu pé na décima série. — Novamente, não conseguiu detectar o que Dmitri fez que deixou Janvier gemendo no chão. O vampiro de cabelos castanhos disse algo em francês Cajun que fez sua esposa rir e Dmitri sorrir. Então aceitou a ajuda de Dmitri para levantá-lo e trocaram posições com Ashwini. Curiosamente, a caçadora provou ser melhor em sparring com Dmitri que seu marido mais velho e mais experiente. Ash também era vampira, mas nem sequer atravessou a marca de três anos desde que foi feita. — Ela está prevendo os movimentos dele, — sussurrou Holly, inclinando-se, com os olhos arregalados. — Não sabia que ela podia fazer isso. — Ashwini tinha habilidades precognitivas; qualquer um ao redor dela por tempo o suficiente descobria isso. Mas isso... — Não, — Venom murmurou, — Nem eu – parece que está vislumbrando o movimento dele meio segundo antes de atacar. Em combate, isso pode mudar tudo. Durante os próximos dez minutos, sentaram-se em completa harmonia, observando Ashwini e Dmitri dançando como demônios. Era incrível como as longas pernas de Ash acompanhavam um vampiro com mais de mil anos de idade e que passou quase todo esse tempo como guerreiro, de uma forma ou de outra. A

5 Sparring é um termo inglês utilizado no ocidente que se refere a uma forma de treino comum a vários desportos de combate. Apesar do diversificado tipo de sparring que cada tipo de arte marcial emprega, a sua constância em treinos de combate é frequente.


caçadora compensava não ser tão rápida ou tão forte fazendo movimentos idiossincráticos, os quais faziam Dmitri sorrir. Seus brincos de aros grandes se moviam a cada movimento, luz destacando o dourado. Dmitri ainda a pegou, mas estava suando então. E quando a puxou para trás, ele disse: — Você simplesmente pode se oferecer para ser minha parceira de sparring enquanto Raphael está ausente. Caminhando para encostar um braço curvado no ombro do marido, o orgulho ofuscando Janvier, Ashwini disse: — Pensarei nisso. Holly sentiu os olhos se abrirem ainda mais. — Ainda impressionada com Dmitri, eu vejo. — Não vejo você discutindo com ele. — Ela virou para encarar o vampiro cuja presença era uma picada em seus sentidos. — Venom, — disse ela, imitando como Dmitri disse seu nome no escritório. — E correu como um bom vampiro. — Oh, como me feriu, gatinha. — Diversão fria em cada palavra. Provavelmente porque, ao contrário dela, ele estava totalmente confiante de seu lugar na Torre e na sua pele. Ele não era uma estranha criação híbrida que ninguém sabia exatamente o que fazer. — Para ser ferido, — disse ela, — Você teria que ter algo de humanidade. — Ela balançou a cabeça, seu rosto piedoso. — Que pena que vendeu sua alma ao diabo há séculos. Um momento de pestanejar, sua expressão congelada de uma maneira que a deixava imóvel. Holly não estava com medo – também tinha um predador dentro dela, e estava prestes a atacar. Mas então, Venom sorriu, e foi o sorriso encantador que dava às mulheres que tentava entrar na cama. Não que tivesse que tentar muito: olhos de víbora ou não, uma vez que concentrava sua atenção e seu lânguido encanto numa mulher, ela tendia a derreter. Holly queria chutar o traseiro daquelas mulheres e dizer a elas que tivessem um pouco mais de respeito por si mesmas, e que deixassem de dar a ele mais incentivo para ser o idiota que achava que era o presente de Deus para as mulheres. — Nem mesmo se o Hudson congelar e se transformar num cone de neve colorido.


— Infelizmente, Gatinha, — Venom disse de sua posição relaxada, — Você é muito mordível para mim. Mas pensei que poderia estar morrendo de fome por atenção masculina, sendo que sua picada os assustam. — Oh, você é tão gentil, tão generoso. — Ela apertou as mãos na frente de seu peito e sorriu antes de deixar o ato com um revirar de olhos que o fez inclinar a cabeça e rir. Isso apagou as bordas persistentes de gelo, e aquele encanto que ela via como uma máscara. Recusando-se a deixar o som aconchegante envolvê-la, ou considerar quão bonito era com linhas de sorriso marcando suas bochechas – voltou sua atenção para o ringue de treinamento. Dmitri liderava Ash e Janvier através de uma série de movimentos que pareciam bastante fáceis – exceto que ambos suavam. — O que não estou vendo? — É a tensão muscular, — Venom disse com uma preguiça enganosa. — É a falta de velocidade que mata. Tente fazer isso. — Ele mostrou a ela um simples movimento de braço. — E mantenha. Holly o copiou porque, suas tendências irritantes de lado, Venom era altamente treinado. No começo, estava bem. E depois... Com os dentes cerrados, percorreu a dor, passando pela névoa de vermelho que começou a cintilar em seu cérebro. Venom estendeu um braço em sua direção tão rapidamente que teve que se mover ou levar um soco no rosto. — Bate em mulheres agora? — Ela grunhiu, com cuidado para manter sua voz baixa, então Dmitri não escutaria. Olhos brilhantes, o onyx do centro preto fendido contra o verde brilhante, Venom inclinou-se para mais perto. — Pensei que tinha suas tendências masoquistas sob controle? Holly corou. — Não gosto de dor. — Não? — O poder de Venom deslizou sobre ela, lento, sensual e mortal. — Então por que estava distendendo um tendão, tentando manter uma pose que não deveria ser mantida além do limiar da dor, pelo menos não até ser uma perita? Massageando seu braço abusado, Holly desviou o olhar. Venom era a última pessoa a quem admitiria que preferia sentir dor aos impulsos viciosamente


desumanos que começavam a se levantar dentro dela cada vez mais. Não sou louca, ela disse a si mesma, mesmo quando o medo roía seu interior. Não sou um monstro. — Alguns de nós, — ela disse em voz alta, através de um maxilar fortemente relaxado, — Gosta de ir além. Venom não respondeu, mas podia sentir que ele a encarava com aqueles surpreendentes olhos, os quais a fascinavam desde o início. Não importava. Venom não tinha direito aos seus segredos. Apenas Mia suspeitava que algo estava errado além da luta contínua de Holly para criar uma nova vida para si mesma, mas a irmã de Holly era uma mortal que não conhecia os horrores imortais. Nunca adivinharia que não era apenas um eco terrível do trauma. — Venom, mon ami! — Chamou Janvier num ponto. — Venha jantar hoje à noite. — Estarei lá. — Você também, Holly, — Ashwini disse antes que Holly pudesse afastar-se. — Vamos nos vestir elegantemente. Sem saída, ela assentiu. Não que não adorasse passar tempo com o casal – se tornaram duas de suas pessoas favoritas – mas ser forçada a ser legal com Venom não era sua ideia de um bom tempo. — Não tem que descansar? — Ela disse para ele. — Deve ter sido uma longa viagem de... Onde estava de novo? — Boa tentativa, gatinha, mas o conhecimento de certos lugares neste mundo é ganho. — Levantando-se com graça muscular que ela a contragosto admirou, ele disse: — Preciso verificar alguns assuntos. Vou pegá-la às seis horas para irmos para Janvier e Ash. Holly não disse nada, mas tampouco concordou em encontrá-lo para o passeio. Andando pelas arquibancadas para a área de treinamento, uma vez que a sessão terminou, sombreou Dmitri, como ele ordenou. Ele subiu ao apartamento dele e de Honor para tomar um banho primeiro, deixando-a trabalhar no laptop num escritório sobressalente no mesmo andar que seu próprio escritório. Holly interrompeu seus estudos há dois anos e meio, após o ataque. Quando escolheu voltar, seu antigo curso superior de moda parecia o devaneio de uma garota tola. Uma garota que almejava uma posição emocionante numa casa de moda e que planejava terminar sua graduação em tempo parcial. Holly sentia falta daquela garota às vezes.


Após retornar à escola, vagou pelo currículo por dois meses antes de encontrar-se furtivamente em palestras de psicologia – e ficar por horas. Não foi difícil descobrir por que estava atraída pelo estudo da mente. Jesus, era um caso de livro-texto de médico, cure-se, mas essa consciência de sua própria psique desordenada não a impediu de mudar de graduação e começar do zero, desde que os créditos cruzados não estavam por acontecer. Ninguém na Torre monitorava seu trabalho escolar – esse era o trabalho de seus pais. Daphne e Allan Chang insistiram em pagar como anteriormente: — Esta é a nossa responsabilidade! — Disseram quando falou sobre pegar um empréstimo. — Acha que economizamos para sua educação para que possa obter um empréstimo? Claro, isso significava que os dois mantinham um olho de águia em suas notas. Também estavam empurrando-a para percorrer todo o caminho e obter um doutorado. Aparentemente, um médico na família não era suficiente. A velha Holly ficaria frustrada pelo desejo de estarem tão envolvidos em sua vida, mas a Holly que morreu e viveu novamente apenas sorria e enviava cópias dos resultados dos exames e de alguns ensaios para a mãe e o pai. Seu futuro... Era totalmente desconhecido. Enquanto os curandeiros achavam que teria uma vida vampírica, também era possível que caísse morta em dez anos sem aviso prévio – ou ficasse louca e tivesse que ser derrubada. A mancha do sangue de Uram era um dom que nunca parava de dar. Não era de admirar que estivesse meio louca?


Venom não se surpreendeu por Holly não o esperar na frente da Torre às seis. Como sabia que ela não era estúpida, tinha muita certeza de que não se dirigiu à Ash e Janvier sozinha. Então, a rastreou. E a encontrou no topo da Torre, seus olhos no brilhante ouro vermelho do Hudson sob um pôr-do-sol surpreendente. Venom chamava esta terra de casa há quase duzentos anos, mas ainda apreciava a magnificência dela. Como apreciava a natureza selvagem e o espírito inquebrável da mulher relaxada que olhava o sol poente. Depois do que ela sofreu, Holly Chang deveria ser candidata para o que os mortais chamavam de manicômios. Ela se curvou nessa borda por um tempo, mas nunca caiu. Hoje, estava vestida com um cheongsam 6 elegante e preto, o qual celebrava sua feminilidade. Marcado na cintura, era impresso com pequenas flores em azul índigo. Ela puxou aquele cabelo sedoso e cheio de cor para um rabo de cavalo alto e igualmente elegante. Em suas mãos, segurava uma bolsinha. E em seus pés, estiletes pretos 10 cm que a aproximavam de seu auge. Quando chegou perto e se dignou a olhar para ele, viu que sua maquiagem era sutil e magistral. Adorou moda uma vez, lembrou. Como antes gostava de trabalhar com texturas e sabores de comida.

6


— Vejo que cresceu um pouco na minha ausência, gatinha. — Ele testemunhou a distância seu maior controle sobre suas habilidades – mas vendoa assim, totalmente uma mulher que já viveu vinte e sete anos nessa terra, percebeu que ela mudou de maneiras mais profundas. — Por que acha que me importo com sua opinião? — Ela perguntou num tom educadamente razoável que sustentava a quantidade certa de perplexidade. Venom riu; encantado com ela – embora nunca permitisse que ela adivinhasse isso. Holly sempre o desafiava de uma maneira que inflamava seus instintos, e ela o fazia com uma inteligência cortante que falava com a dele. Parecia que seu maior controle sobre seu temperamento apenas afiou a borda da lâmina de sua sagacidade. — Vamos jantar. Ela não pegou o braço oferecido, ao invés, olhou para seu terno marrom feito à mão, com uma camisa branca, de forma lenta e crítica ao mesmo tempo. Em seu caminho até o telhado, ele foi sutilmente convidado para jogos de cama por quatro vampiros e dois anjos, um dos quais passou a mão pela lapela de seu terno impecável e murmurou que parecia bom o suficiente para comer. Holly suspirou. — Vejo que as ações da Companhia Trajes Baratos estão valendo a pena. — Pareceu um investimento sábio. Seus olhos começaram a rir para ele com fogo verde antes de girar nos calcanhares e caminhar até o elevador, a parte de trás do vestido abraçando as curvas firmes de seu corpo. — Continue, velho. Venom sentiu desejo de mordê-la. Claro, ela provavelmente morderia forte de volta. Entrando no elevador ao lado dela, desceu com ela em silêncio. Era espinhosa, é claro. Sempre foi – como se a estranheza que vivia neles ficasse irritada pela proximidade. Só para ver se o contato aumentaria a irritação, tocou a curva da parte inferior das costas quando saíram do elevador. — Quer que eu quebre seu pulso? — Ela disse com cortesia mordaz. — Está sendo muito razoável hoje. — Ele afastou a mão, mas só porque necessitava tirar seus óculos de sol. Depois de trezentos e cinquenta anos, Venom estava bem acostumado a usar sua aparência para distrair, causar medo ou encantar.


Descobriu que as mulheres gostavam dos olhos se lhes desse um certo aspecto. No entanto, não gostava particularmente de lidar com espetáculos horrorizados. Recordou do dia mais doloroso de sua existência, quando viu a mesma expressão nos rostos daqueles que significavam mais para ele que sua própria vida. Curiosamente, Holly nunca ficou de boca aberta. Em vez disso, disse que se ele deixasse suas lentes de contato extravagantes por muito tempo, seus olhos apodreceriam e cairiam. Venom soube desde aquele instante que a garota que todos achavam estar quebrada, sobreviveria. — Estou esperando que isso seja contagioso, — ela disse depois que saíram da Torre. — Que aprenda algumas maneiras. Venom veio da corte de Neha, era um dos seus favoritos por causa de suas maneiras suaves e charme. Com Holly, no entanto, reagia de um lugar mais primitivo. — Aqui, — ele disse, abrindo a porta do passageiro de seu carro rebaixado. — Uma dama deve entrar primeiro. — Oh, senhor, que galante você é. — Com essa declaração ofegante digna de uma ingênua, Holly entrou e cruzou as pernas, a bolsa no colo. Lábios curvados, Venom fechou a porta e entrou no banco do motorista. — Coloque seu cinto de segurança. — Os vampiros eram quase imortais, mas perder a cabeça terminaria com os dois. E Holly não era totalmente um vampiro. Como outro dos Sete, Naasir, Holly era única. Nem uma coisa ou outra. Mas enquanto Naasir estava em paz com sua natureza dupla, Holly ignorava ou lutava contra isso. — Claro, — disse ela. — Segurança em primeiro lugar. — Ela colocou o cinto de segurança com cuidado exagerado. — Tão bom você se importar. — Sempre cuido das gatinhas que tomo conta. Um estrondo do assento do passageiro antes que Holly estrangulasse a emanação feroz. Venom lhe lançou um olhar. — O que foi isso? — Ele perguntou com genuína curiosidade. — Soou mais como Naasir que qualquer outra coisa. — Foi irritação humana, — ela murmurou. Não, não foi.


Venom pensou em voltar para o que sabia das habilidades arcangélicas de Uram e o que o imortal insano poderia ter passado para Holly. A maioria dos vampiros não recebeu nada além de imortalidade como resultado do processo de ser Feito, mas havia raras exceções: Venom era do jeito que era porque Neha era a Rainha dos Venenos, das Serpentes. Uram não tinha tanta reputação ou inclinação. E, como morreu no início da Cascata que despertou novas habilidades em todos os arcanjos vivos, não havia como saber a herança que deixou para Holly quando a forçou a ingerir seu sangue. Venom franziu a testa. Era possível que Holly estivesse sentindo diretamente o poder-nascente ou sendo impulsionada pelos efeitos da Cascata? Era para afetar apenas arcanjos e um número limitado de anjos mais poderosos, mas a Feitura de Holly era incomum de todas as maneiras possíveis. Talvez Uram tenha deixado uma marca tão forte nas células dela que estava pegando a borda da Cascata. Normalmente, faria essas perguntas a Raphael, mas o arcanjo que escolheu chamar de Sire estava no Marrocos para uma reunião do Cadre, os arcanjos que governavam o mundo. Ainda que Raphael estivesse aqui, talvez não tivesse a resposta. Porque enquanto Uram e Raphael foram amigos uma vez, não estiveram perto em todos esses anos que Venom escolheu servir Raphael. A pessoa que foi mais íntima de Uram durante esse tempo, e aquela que conhecia todas as habilidades nascentes que Uram poderia ter desenvolvido, era a Arcanjo Michaela. Que também estava no Marrocos – e que mentiria na cara de Venom apenas por diversão. Depois, havia o fato que o sangue de Uram se tornou tóxico. Uma toxina poderosa o suficiente para deixar um arcanjo insano teria, sem dúvida, alterado qualquer poder que seria de Uram na Cascata... ecos que agora viviam em Holly. — Fez um voto de silêncio? — A voz de Holly era doce açúcar. — Estava num mosteiro durante o tempo que foi embora? — Sim, um mosteiro que permitia chamadas externas para gatinhas que precisam de treinamento. — Ele tomou a Ponte George Washington até os penhascos do Enclave, onde Janvier e Ashwini tinham uma casa. A área exclusiva, cheia de residências angélicas, se orgulhava dos preços estratosféricos – e tal disponibilidade limitada – que geralmente só os anjos velhos ou extremamente


poderosos podiam pagar, mas Janvier recebeu uma pequena propriedade cem anos antes, de um anjo para quem recuperou um objeto de grande valor. — Se sou uma gatinha, — Holly disse com aquele mesmo tom melado, — O que isso faz você? Hmm. — Um estalar de dedos. — Oh, já sei! Au, Au! Todo língua e baba. — Essa língua é bastante exigida, — Venom disse suavemente porque sabia que isso a irritaria e irritar Holly estava no topo de sua lista de coisas favoritas para fazer. — Não que pequenas Hollyberries saibam sobre essas coisas, — ele acrescentou com um ronrono preguiçoso. — Ah, tal inocência você tem. — Holly cruzou as pernas para o outro lado. A longa fenda de seu vestido se abriu para expor uma camada de pele cremosa que fez seus dedos apertarem o volante. Venom desviou o olhar com uma careta interior. Holly podia ter crescido, mas ainda tinha apenas vinte e sete anos e era marcada por terríveis traumas. Ao contrário de Venom, não escolheu abraçar o mundo imortal com toda sua beleza e escuridão. Foi forçada nele. Era a última mulher que veria como parceira em jogos de cama. — Não é hora, — ela disse naquele instante, sua voz voltando para educada e razoável. Isso o fez querer irritá-la apenas para sacudi-la. Sabia muito bem que esta não era a verdadeira Holly Chang. A verdadeira Holly Chang era uma criatura complexa e intensa, por vezes amarga, às vezes doce e sempre perigosa. — Dói morder sua língua com tanta força? — Perguntou com uma preocupação falsa. Holly não perdeu o ritmo. — Estou num carro com você – claramente tenho um alto limiar de dor, — ela disse enquanto levava a Bugatti Chiron verde víbora para parar na garagem de Ashwini e Janvier. Saiu quando ele rodeou o carro para abrir a porta – e ele se moveu com a velocidade impressionante de uma cobra. — Muito bem, gatinha. Dando-lhe um sorriso fracamente falso, ela escovou um fiapo inexistente de seu braço antes de dirigir-se à envolvente varanda da casa de Ash e Janvier, o corrimão decorado com pequenas luzes que brilhavam na noite e caíam rapidamente. O casal saiu logo, sorrisos de boas-vindas em seus rostos.


Quando seu vira-lata cor de chocolate, suas patas tão grandes quanto pires, parou para cheirar Holly, ela sorriu, e curvando-se, acariciou-o com a facilidade de uma mulher que fazia isso há muito tempo. Os olhos do cachorro se fecharam em êxtase com o arranhão atrás de suas orelhas, mas só se permitiu um momento antes de passar para cheirar Venom. — Olá, Charlie, — disse Venom, agachando. Janvier lhe enviou fotos do cachorrinho abandonado que ele e Ashwini adotaram, um filhote que cresceu para um cão indisciplinado que nunca se cansava de brincar, mas essa era a primeira vez que se conheciam. Ele estendeu a mão para Charlie cheirar. O cachorro tomou seu tempo fazendo isso... antes de deixar no rosto de Venom uma longa lambida, sua cauda balançando como um metrônomo. Rindo, Venom brincou com a besta amigável por um minuto antes de se levantar – para ver Holly observando-o com um pequeno vinco entre as sobrancelhas. Quando encontrou seu olhar, no entanto, ela desviou o olhar e voltou à conversa com Ashwini enquanto Janvier vinha para se encarregar do cachorro e dar boas-vindas a Venom. O jantar foi inesperadamente descontraído – até Holly relaxou e riu com um prazer aberto que iluminava seus olhos por dentro. Não com Venom, é claro, nunca com ele. Contudo, parecia em casa com Janvier e sua companheira caçadora. Saindo sozinho na varanda com Janvier em um ponto enquanto Ashwini mostrava algo para Holly dentro da casa, Venom tomou um gole da taça de vinho que Janvier lhe entregou. Ele estremeceu, e afastando o copo dos lábios, olhou para o líquido vermelho girando, o qual dava uma excelente aparência de sangue. — O que é isso? — Sangue aromatizado. — Janvier sorriu e tomou um gole de sua própria abominação. — Estamos testando o sabor desse lote. O que acha? — Por que o sangue precisa ser aromatizado? — O bom sangue era uma sacudida para o sistema, uma explosão de pura vida fluindo pelas veias vampíricas. — Sangue, bom sangue, é lindamente prístino e perfeitamente equilibrado. — É essa nova geração de vampiros, — disse Janvier com sabedoria. — São todos sobre empurrar fronteiras e transformar o antigo em novo.


Fungando, Venom tomou um segundo gole e estremeceu novamente. — Me lembra de... — ele franziu o cenho e fez-se tomar outro gole. — Vinho tinto? — Diversão passou por suas veias. — Alguém tem senso de humor. — Elena e sua parceira comercial contrataram um renomado nariz de vampiro que cria os sabores. Monsieur LaFerge é, mon ami, um burro pretensioso que eu desejo lançar no Hudson, mas como minha Ashblade adora o sangue infundido de chocolate, que ele é responsável por criar, sou forçado a deixá-lo viver. — Não mantém sua esposa satisfeita com seu próprio sangue, tsk, tsk. — Fale comigo quando tiver uma mulher por mais de uma noite, — Janvier respondeu com o insulto fácil de um amigo que o conhecia por incontáveis anos. — Trazer para casa uma garrafa de sangue infundido de chocolate para minha esposa tem certas vantagens. — Um sorriso muito satisfeito no rosto de Janvier. — Sou um marido muito satisfeito. Venom esteve prometido uma vez – eras atrás. Não pensava em Aneera há tantos anos, tendo deixado seu passado há muito tempo num nó de pesar e tristeza. Janvier agitou-se. — Dmitri nos contou sobre a recompensa por Holly. — Vou mantê-la comigo – não virão até ela. — Planeja procurar quem pode ser? — Ao aceno, Janvier disse: — Use Holly. Ela conhece os cantos sombrios desta cidade muito melhor que você. Venom enrolou o lábio. — Ela é uma criança. — Era um lembrete para si mesmo tanto quanto era uma declaração. — Ela trabalhou comigo e Ashwini por sete meses, — disse Janvier, seu sotaque Cajun fazendo música com as palavras inesperadamente sérias. — Não da parte que envolve a caça de certos imortais que ficam fora da competência da Sociedade – mas falando com aqueles que estão assustados ou com medo de entrar diretamente em contato com a Torre. — Um olhar agudo para Venom, os olhos insinuando a terra pantanosa de Janvier escurecendo até a noite quase negra. — Você é muito poderoso. Ela não é. Ela é um deles. Venom se perguntou se Holly conseguiu vender essa peça de ficção: sabia muito bem que era completamente diferente das criaturas quebradas e fracas no subterrâneo cinza. Holly era um predador, embora alguém que ainda não acordou em sua força total. Quando o fizesse...


Holly mordeu a língua até a cidade... até que não aguentou mais. — Vai dormir? Um olhar afiado. — Por que meus hábitos de cama são da sua conta, Hollyberry? Ela lutou contra o desejo de arrancar seus estúpidos óculos de sol. — Sei que é velho e provavelmente precisa de mais descanso, — disse com solicitude simulada, — Mas devemos nos dirigir ao final mais escuro da cidade, conversar com algumas pessoas que geralmente só saem à noite. — A frustrou ter uma coleira, ter que pedir sua permissão para entrar em seu próprio mundo, mas Uram não danificou seu cérebro quando a fez. Holly entendia que, se escorregasse dessa coleira, as consequências poderiam ser mortais. E não apenas para ela. Na verdade, nestes dias estava muito mais aterrorizada do que podia fazer ao invés do que poderia ser feito a ela. Mesmo agora, queria agarrar, morder e causar dor em Venom, queria fazê-lo sangrar até que criasse uma brilhante piscina rubi ao redor de seu corpo. Mãos apertadas ao seu lado, apertou os dentes e silenciou os sussurros horríveis que vinham da loucura dentro dela. Mas não importa o que fizesse, uma coisa não podia esquecer: que era o pesadelo nas sombras. — Onde você sugere? — O tom calmo de Venom fez os cabelos levantarem em seus braços. Mas Holly não tinha medo da víbora que vivia nele. A escuridão nela, a parte que não era outra, mas simplesmente uma parte de quem se tornou, se esticou em sua direção. — Muita informação passa pelos clubes inferiores, — disse ela. — Tenho amigos que patrocinam esses clubes.


Uma mão descansando facilmente no volante, Venom virou a cabeça em sua direção. — Seus amigos não a chamariam caso ouvissem algo útil? — Não é esse tipo de amigos, — Holly disse rapidamente. — Se você não pode ser incomodado com... Os pneus gritaram enquanto ele fazia uma volta brusca na direção do belo e mortal Quarteirão Vampiro. Ela conhecia os clubes com os quais ele estava familiarizado – Venom andava no lado sombrio, mas era um vampiro muito poderoso, um dos mais poderosos da cidade. E o poder chamava poder. Seria conhecido em lugares que eram elegantes e encharcados de dinheiro e força. Hoje, ela pretendia levá-lo ao lado mais distante da cidade. — Tem que me deixar liderar, — disse ela, pronta para lutar contra isso. — As pessoas nas ruas vão falar com você por puro medo, mas não contarão nada. — Como planeja explicar minha presença? — Foi sua resposta suave. — Vou dizer que estamos namorando, — Holly disse com cautela. Venom tocou um dedo no volante. — Eles sabem sobre suas habilidades? — A velocidade irregular, sim, — disse Holly, suspeita em seu tom, de repente, sério. — Não consegui esconder isso no começo. — Então, nós dois juntos, faz sentido. — Um sorriso lento e provocante. — Vão assumir que é meu atual brinquedo de prazer. Franzindo o cenho porque ele estava certo, Holly não falou novamente até que ele parou num estacionamento escuro, protegido apenas por uma velha corrente. — Não sabia que odiava seu carro. — Esta área não era exatamente a mais segura. Ele saiu e fechou a porta, não vindo para o lado dela desta vez. — Ninguém vai tocar neste carro. Ela percebeu o porquê quando viu a placa: VENOM. — Muito convencido? — Vou te dar uma igual, escrita GATINHA. Ela sabia que ele estava a provocando, mas precisou lutar para não reagir, no entanto. Felizmente, andar de saltos pelo cascalho do estacionamento proporcionou uma boa distração. Estavam na calçada rachada dentro de meio minuto. Ela caminhou com confiança pela rua, Venom rondando ao lado dela. — Como pode ver com esses óculos?


— Boa visão noturna. Enquanto observava, tirou os óculos de sol e os dobrou no bolso superior do terno. E seus olhos refletiram a luz insignificante desta rua de uma maneira que provavelmente era estranha, mas que rivalizava com os de Holly. Irritou-a admitir, mas Venom era tão bonito quanto o pecado; os olhos eram apenas a cereja do bolo. — Os olhos de Neha tem membrana? — Na superfície, a Arcanjo da Índia tinha olhos castanhos normais, mas, desde que ela Fez Venom, deveria haver mais sob a superfície. — Sim, — disse Venom, surpreendendo-a com a resposta direta. — É difícil pegar e acontece muito raramente, mas sim. — Por que os olhos dela não são como os seus? Um sorriso lento. — Eles são, mas apenas por milissegundos por vez. A maioria das pessoas nunca vê a transição. Holly tentou imaginar os olhos de Venom no rosto régio de Neha, não pode. — E quanto aos outros vampiros na corte dela? Muitos são como você? — Nenhum. Embora tenha tentado fazer outro eu por séculos. — Especialmente, depois que ele deixou sua corte no final de seu Contrato: servir anjos por cem anos em troca do dom da imortalidade. Neha foi mais generosa com sua liquidação pós-contrato do que exigia seu acordo incomum, e ele tinha dinheiro para viajar, decidir quem queria ser. Pela primeira vez em cem anos, era livre para viver onde escolhesse, servir quem escolhesse, embora não tivesse certeza de que queria fazer parte de qualquer corte. Então, veio Raphael. Venom se encaixou na equipe como se fosse uma peça faltante. Jason disse isso na época. — Finalmente, estamos completos. Somos os Sete. Neha e Raphael eram amigáveis naquela época, então Neha não lutou contra a sua deserção. Ela viu isso como sendo atraído pela juventude de Raphael. — Selvagem com selvagem, — ela disse com um sorriso indulgente quando Venom voltou para a sua corte para contar-lhe seus planos. — Bem, Venom, se tivesse que perder você para qualquer um, seria Raphael. Venom não precisava da permissão dela. Serviu seus cem anos com a máxima fidelidade, ganhou sua liberdade. Mas Arcanjos e rainhas como Neha não


eram sempre racionais – e esta Arcanjo cumpriu suas promessas com ele. Sua visita foi um gesto de respeito e honra. — Neha já tentou atraí-lo de volta? Venom enviou a Holly outro sorriso lento, perguntando exatamente o quanto ela sabia do estado atual da política de Arcanjos. Era provável que não tivesse ideia de que Neha agora considerava Raphael um inimigo, embora Venom tivesse a sensação de que a hostilidade de Neha se misturava com um profundo sentimento de perda. Quando os seres viviam tanto, suas emoções tendiam a ser complexas, em camadas, onde sentimentos contrários podiam existir lado a lado. Venom não era velho. Suas emoções eram menos nodosas – e seus prazeres eram mais simples. Irritar Holly estava no topo. — Todo mundo me quer. Ela bufou. — Ser tão delirante não dificulta seu andar? Ele sentiu seus lábios se afastarem... logo que Holly tropeçou numa fenda na calçada. Ele esticou um braço e o envolveu na cintura dela antes de fazer mais que balançar um pouco. Ela também reagiu rapidamente, apenas não tão rápido quanto ele. O lado de seu corpo bateu na frente dele, a mão dela se encaixando na curva de sua cintura. Ela se afastou muito rápido, afastando-se de seu aperto com a velocidade desumana que muito o divertia como parceira de treino. — Se quisesse ser apalpada, — ela disse, esfregando o braço como se estivesse se livrando de germes, — Iria para uma convenção cosplay. — Se pensou que estava sendo apalpada, gatinha, — ele disse com deliberada sofisticação em seu tom, — Sua educação está deixando a desejar. Ela esqueceu sua personagem friamente elegante e fez uma careta para ele. Ele estendeu o dedo e tocou em seu nariz antes de pensar no que fazia. Os olhos se estreitando, ela sibilou para ele, piscando aquelas pequenas presas que ele ainda não conseguia acreditar que eram funcionais. — Da próxima vez que me tocar, vou pelo seu sangue. — Foi dito que uma vez que for por Venom, não há volta. — Argh! — Holly lutou contra o desejo de tirar um de seus sapatos de salto alto e jogá-lo em sua cabeça suja. Mas gastou muito dinheiro com esses saltos, lembrou a si mesma. O dinheiro que ganhou no trabalho que fazia com Ashwini e


Janvier – trabalho que significava que tinha contatos muito melhores nesta parte da cidade que o Sorrateiro Venenoso. Respirando profundamente num esforço para controlar seu coração saltando com o desconhecido que vivia dentro dela, esticado dentro de sua pele, voltou sua atenção para o clube que surgiu na escuridão. O néon era rosa e resplandecente, e as paredes exteriores preto fosco cobertas com criativos grafites brancos. Agulhas usadas eram colocadas descuidadamente contra uma parede brilhando um brilho néon. — Gostam de meninos bonitos aqui, — ela disse ao mortal vampiro que era muito homem. — Não deve ter nada com que se preocupar. Sua mão estava de repente contra a parte inferior das suas costas. Holly ia girar quando ele disse: — Não. Não foi a palavra que a fez parar, mas o tom. Era o mesmo tom calmo e perigoso que usou antes de lutar contra os valentões que tentaram sequestrá-la. Examinando a área da maneira que Ash lhe ensinou, pegou o movimento furtivo à esquerda, no fundo das sombras de um lado do clube. Seu peito aliviou. — Eu os conheço. — Ela se afastou do corpo tenso de Venom. — Não me siga. Ele apenas olhou para ela. Revirando os olhos, acariciou o músculo tenso de seu bíceps. — Está tudo bem, Sir Venenoso, Cavaleiro da Torre. Pode se mover rápido o suficiente para resgatar a donzela em perigo caso ela grite por ajuda. — Ela se virou e se afastou antes que ele pudesse responder. Podia sentir seus olhos nela, mas ficou em posição. Graças a Deus. Se não o fizesse, os dois vampiros magros que vagavam nas sombras seriam fantasmas num segundo plano. — Zeph, Arabella. — Hol, oi. — O vampiro macho cheio de marcas sorriu para ela, seu rosto tão danificado que acreditou por muito tempo que foi Feito enquanto estava nesse estado e que o vampirismo não o curou, embora curasse a maioria das imperfeições. Então, uma noite, passou dez minutos com ele; só demorou três minutos antes dele começar a cutucar seu rosto com suas unhas esfarrapadas e sujas. Seu vampirismo não conseguia acompanhar as feridas constantes, especialmente


porque Zeph não subsistia exatamente com o melhor sangue. Holly tentou pagá-lo por suas informações com boas garrafas de sangue, mas ele preferia dinheiro – o que gastava em alimentos doces, onde os drogados humanos ficavam altos, então permitiam que os vampiros bebessem deles. Até onde Holly sabia, era a única maneira confiável de que um vampiro conseguisse ficar alto. Arabella, a vampira loira, igualmente magra, era a sombra de Zeph, não uma viciada, mas não podia se negar a Zeph, então acabou no mesmo. — Oi, Holly, — disse a vampira com uma doçura natural que sempre atingia Holly, seus dedos torcendo seus dreads em suas mãos. — Você com certeza parece legal. — Como você, — respondeu Holly num tom gentil, vendo em Arabella o que poderia ter acontecido com ela se a Torre a abandonasse, ou se tivesse se abandonado. O que, francamente, esteve a poucos centímetros de fazer. Nunca julgaria Arabella pelas escolhas que fez ou por sua estranha lealdade à Zeph. — Estavam me procurando? Arabella lançou um rápido olhar atrás de Holly. — O que ele está fazendo aqui embaixo? — Suas exuberantes vogais do sul se contraíram, seu medo um ser vivo entre eles. — Ele está comigo, — Holly disse simplesmente. Os olhos de Arabella se arregalaram, a extrema força do medo transmutando uma admiração abertamente feminina. — Uau, Holly. Aquele é Venom. Você fez bem. Holly mordeu a língua em vez de esmagar as ilusões de Arabella. — Vocês dois queriam me dizer alguma coisa? — De vez em quando, a dupla a encontrava quando não tinham nenhuma informação para negociar, mas estavam realmente com fome. Então, ela dava-lhes tickets de sangue que não podiam ser trocados por dinheiro e eram personalizados para Zeph e Arabella, então Zeph não podia tentar trocar. Só porque uma pessoa estava quebrada, não significava que não tinham valor, nem direito de viver. — Hum, sim. — Zeph foi coçar uma costela, mas se deteve. Era assim, tentava ser normal o tempo que podia. — Ouvimos que alguns caras estavam indo atrás de você.


— Eles já tentaram, — começou Holly. — Não. — Arabella puxou o braço de Holly antes de afastar sua mão tão rapidamente que era como se tivesse medo que alguém a machucasse por ousar. Holly olhou por cima do ombro e deu à Venom um olhar duro. Ele se aproximou, suas íris penetrando nas sombras como se ela, Zeph e Arabella estivessem banhados pela luz do sol. Fique. Longe, ela falou. Ele colocou os óculos de sol em vez disso. Voltando a atenção para Arabella, pegou a mão da mulher trêmula. — Ele não vai te machucar. — Ela chutaria a bunda dele se tentasse. — O que queria me dizer? — Há mais caras, — sussurrou Arabella. — Alguém colocou uma grande... Zeph, qual é a palavra? — Recompensa. — Zeph riscou furtivamente uma costela. — Como se te sequestrarmos e a levarmos a essa pessoa, ganhamos muito dinheiro. Embora Holly já tivesse essa informação, deixou que os dois pensassem que era novo. O orgulho era tão importante quanto o alimento quando se tratava de sobrevivência. — Quanto? — Ela perguntou, sem esperar uma resposta firme. Arabella franziu o cenho. — Acho que ouvimos cinco milhões? Enfiando as mãos nos bolsos de seu jeans sujo, ombros ossudos que cutucavam seu suéter preto e esburacado, Zeph assentiu. — Sim, foram cinco milhas. Pensei que estava desligado e ouvindo coisas, mas não tive alimentação doce na noite passada. Com certeza, foram cinco. Cinco milhões? Mesmo em seus sonhos mais loucos, Holly não se valorizaria a esse montante extravagante. — Obrigada por me dizer em vez de tentar me sequestrar. — Ai, Hol, você é nossa amiga. — Zeph tirou seu onipresente boné de malha para revelar o cabelo de um castanho queimado de sol surpreendentemente belo que surpreendia Holly cada vez que o via. — Não temos mais nada, — acrescentou. — Apenas o boato. Alguns dos outros vampiros falavam sobre talvez tentar te pegar, então ouvimos. — Mas a maioria não vai tentar, — Arabella disse com um tapinha reconfortante no braço de Holly. — As pessoas sabem que está com a Torre e seria muito estúpido ficar do lado errado da Torre.


Infelizmente, se as pessoas estivessem drogadas ou desesperadas, isso não importaria. — Aqui. — Ela estendeu vouchers de sangue personalizados, bem como dinheiro; colocaria os dois em sua agulha noturna, apenas no caso. — Vá pegar bom sangue primeiro, ok? Não quero que nada aconteça com você. — Demorava muito para matar um vampiro, mas se Zeph ou Arabella ficassem mais fracos, outro vampiro poderia arrancar seus corações ou arrancar a cabeça para obter seus escassos pertences. — Obrigada, Holly. — Arabella voltou a mexer o braço e Holly percebeu que a jaqueta militar desgastada da outra mulher estava ainda mais esburacada. — Arabella, precisa de um casaco novo. — Fazia frio à noite, especialmente para uma mulher sem um teto sobre a cabeça. — Ainda não, — Arabella disse antes que Holly pudesse se oferecer para substituí-lo. — Se eu tiver algo novo, os outros irão levá-lo. Talvez quando estiver um pouco mais frio? — Um sorriso esperançoso que era instável nas bordas. — Conheço uma loja de caridade que tem coisas. — Apenas me encontre quando estiver pronta. — Esperando até que voltassem com segurança às sombras, Holly virou para voltar para Venom. E quase bateu no peito dele.


Gerenciando para manter o equilíbrio, ela franziu o cenho para ele. — Não pode seguir instruções simples? — Esperei até que os vampiros saíssem, — disse ele sem um sorriso. — O que disseram? — Retire esses óculos de sol ridículos primeiro. — Holly odiava não poder ver os olhos dele. Tirando-os, ele sorriu para ela e não tinha nenhuma zombaria ou diversão. — Feliz? Seu estômago deu um puxão estranho. — Só quero ver seus olhos de serpente no caso improvável que eu comece a pensar em você como humano. Seu sorriso não desapareceu. — A informação, Hollyberry. Holly queria se recusar a compartilhá-la. Assim que lhe contasse, estaria numa gaiola ainda mais apertada de supervisão. Protegida podia ser, mas também sufocada. Venom deslizou as mãos nos bolsos das calças do seu terno, tão perigoso e urbano como Zeph era instável e quebrado. — Ou prefere que eu receba as informações de seus amigos? — Você mantém suas mãos longe deles. — Nem Zeph nem Arabella tinham força física ou mental para lidar com Venom. Ele apenas esperou com a quietude predatória que ela nunca dominou. Dedos apertando como garras, ela disse: — A recompensa – ouviram o rumor ao redor. — Quanto? — Cinco milhões de dólares. Venom não pareceu piscar. — Esse é um valor suficientemente grande para certos imortais arriscar a fúria de Raphael. — Seu poder deslizou sinuoso em torno


dela. — Também é um valor bastante grande para atrair caçadores de recompensas imprudentes, mas, no entanto, experientes, de fora do território. — Os valentões no SUV, — disse Holly, ficando firme contra a intensidade de sua força. — Vivek confirmou as identidades deles? — Não foi difícil. — Ele se virou para caminhar ao lado dela quando ela virou para ir em direção ao clube, uma presença sinuosa. — Vamos lidar com eles. Os cabelos arrepiaram na sua nuca. — O que fará com eles? — Dmitri é o responsável, — foi a resposta simples. E Dmitri não encarava nenhum ataque contra a Torre levemente – porque no momento, Holly era propriedade da Torre. — Isso não o frustra? — Ela se viu perguntando. — Passar cem anos sob o controle de outra pessoa? — Todos os vampiros assinavam um Contrato para servir os anjos pelo privilégio de ser feito quase imortal. O rosto de Venom não mostrou nada. — Fiz uma escolha como um adulto no controle total de minhas faculdades, — ele disse com um tom frio. — Somente as escolhas estúpidas dão arrependimento. O inteligente aprende a se adaptar. — Não respondeu a minha pergunta. Venom olhou para ela, seus lábios curvando-se. — Frustração não é a palavra que usaria, gatinha. Chegaram à porta do clube. O grande e musculoso vampiro porteiro tornouse cada vez mais pálido quanto mais perto Venom chegava. Agora abriu a porta com mão trêmula. — Bem-vindo, — ele gritou. Venom não respondeu, sua mão mais uma vez nas costas de Holly enquanto a conduzia. Ela franziu o cenho para ele, uma vez que estavam dentro do barulho do clube. — O que? Não poderia ser educado com um porteiro humilde? Inclinando-se até sua orelha, ele disse: — Esse humilde porteiro está talvez em duas décadas de seu Contrato. — A respiração dele era quente contra sua orelha, seu corpo um muro de tensão. — Um vampiro tão jovem precisa ter medo de mim. O medo o impedirá de fugir, e isso significa que os Caçadores da Sociedade não terão que rastreá-lo e trazê-lo de volta. O que nesse ponto, sua punição seria um caso violentamente doloroso. Seus dedos se moviam num círculo lento na parte inferior de suas costas, os olhos cintilantes na escuridão pulsante. — Medo, — disse ele, — Também promove


controle. É por isso que os cem anos de serviço são necessários – para que o mundo não seja invadido por vampiros enlouquecidos por sangue, se alimentando e alimentando e alimentando. Holly estremeceu. Passando a mão acima e abaixo das suas costas, Venom manteve seu olhar. — É também, por isso que você precisa ser mantida sob vigilância. Ninguém sabe o que está dentro de você, os impulsos mortais que deve ser ensinada a estrangular. Holly queria refutar suas palavras, mas maldição, ele estava certo. Havia uma coisa horrível dentro dela, uma monstruosa criatura que estava com fome. — Vamos, — ela disse, avançando para a escuridão caótica de um clube iluminado apenas por bulbos azuis escuros e joias brilhantes penduradas nos pescoços ou usadas nos pulsos. Cabines circundavam a pista de dança. Embora cada uma tivesse uma cortina esfarrapada, apenas algumas estavam fechadas. Na mais aberta, Holly vislumbrou um grupo de jovens vampiros juntos, bebendo sangue e rindo. Uma noite simples. Uma faca se torceu dentro dela. Ela fez isso uma vez. Saiu para tomar uma bebida com suas amigas. Pobre Rania que nunca podia aguentar a bebida, mas era uma bêbada tão adorável que nenhuma delas se importava. Na última noite, saíram antes da tortura e da morte, Rania abraçou Holly e acariciou seu pescoço, dizendo: — Eu amo você muito e muito mais do que marshmallows. A garganta de Holly ameaçou se fechar. Afastando o olhar antes que Venom pudesse apanhá-la sendo sentimental, olhou para a próxima cabine. Esta tinha uma visão mais esperada e mais perversa. Uma vampira estava fazendo uma dança em volta de um anjo com as pálpebras pesadas que se sentava com as asas cobertas atrás dele e seus braços se espalhavam no couro vermelho rasgado do banco da cabine. O anjo estava claramente espionando. Anjos eram muito poderosos para frequentar bares como este. Quanto aos vampiros que acabaram nesta vida, era uma combinação de escolhas ruins e destino. Após servir seus cem anos, todos os vampiros deveriam ser libertos com recursos suficientes para iniciar uma vida nova e independente.


Alguns anjos eram mais generosos que outros. O anjo de Zeph foi, mas também tratou o vampiro sensível tão viciosamente durante seu contrato que Zeph foi incapaz de viver a vida sem o doce esquecimento das drogas. — Seus olhos estão começando a brilhar. — A voz de Venom contra sua orelha, sua mão curvando-se sobre seu quadril. Lutando contra o impulso de se afastar, porque isso seria demais, ela disse: — Vou conseguir controlar. — É parte de você. Por que controlar isso o tempo todo? A resposta dele a fez olhar para ele. — Você acabou de delirar sobre controle? — Controle e asfixia levando à fraqueza, são duas coisas diferentes. — Ele colocou seus óculos de sol novamente. — Estou sempre no controle – e sempre tenho acesso a toda a profundidade de minhas habilidades. — Ele olhou ao redor. — Tem amigos aqui? — Alguns. — Fora do centro, Holly avançou através do esmagamento de corpos dançantes até o bar, a mão de Venom deslizando em seu quadril no processo. O espaço se abriu ao seu redor, na frente dela, sem esforço. Sabia melhor do que pensar no que causou o efeito. Normalmente, precisava forçar e empurrar – e ocasionalmente sibilar – para passar. Mais de um imbecil era de opinião que podia passar a mão em sua bunda apenas porque Holly era pequena e feminina. — Holly! — O barman de pele de ébano se inclinou e a beijou na bochecha. — Parece muito bem para este antro de pecado, amor. Holly riu e acariciou seu maxilar barbudo. Com muita tatuagem e fortemente musculoso, Magnus foi um dos primeiros amigos que fez nesta parte sombria da cidade. — Parece uma noite ocupada. Seus olhos castanhos claros brilhavam. — Parece que trouxe um lobo com você, então. — Ele estendeu a mão pelo bar. — Magnus. Para sua surpresa, Venom sacudiu a mão do barman com cortesia educada. — Venom. Holly queria perguntar, não pela primeira vez, se teve outro nome uma vez, se ainda se lembrava desse nome.


— Isso, eu sei, — Magnus disse com um sorriso. — Normalmente, não consigo um dos Sete no meu humilde estabelecimento. — Ele empurrou um copo que acabara de verter cheio de um rico líquido âmbar, a tatuagem do dragão em seu antebraço ondulando com o movimento. — Por conta da casa. Depois que o rumor de sua visita correr, meu negócio vai explodir. Venom sorriu e deu um gole antes de bater o copo cuidadosamente na madeira polida do bar. — Desce suave. Magnus ia dizer outra coisa quando houve uma súbita arremetida de pedidos. Quando ele se afastou com um sinal de mão que significava que voltaria, Holly pulou sobre um tamborete e se virou para a pista. Venom apoiou o braço no balcão atrás dela, seu corpo tão perto que seu ombro roçava seu peito. Ela não disse nada, apenas cruzou as pernas com cuidado e olhou para a grande massa de corpos. Podia estar encarando as pessoas que queriam pegá-la e entregá-la a um comprador. — Cinco milhões de dólares é muito para pagar por um colecionável. A resposta de Venom foi uma única palavra falada contra sua orelha, seus lábios escovando a curva sensível. — Uram. As mãos de Holly apertaram tão forte que suas unhas cortaram as palmas das mãos. Sua mente estava perturbada. Seu sangue fervia. E queria gritar! Como gritou no armazém do Brooklyn, onde Uram matou suas amigas e fez com que ela assistisse. Como gritou quando ele arrancou suas roupas e agarrou sua garganta para forçá-la a beber o sangue escorrendo de seu pulso. — Faça isso. — O ronrono frio de Venom. — Grite. Holly tentou respirar, mas o grito a atrapalhava. Então, Venom estava de repente na frente dela, agarrando sua nuca e pressionando o rosto no seu peito. — Grite. Holly abriu a boca. O que saiu foi o som da raiva mais pura que continuava e prosseguia. O peito de Venom absorveu a maior parte do som, o resto se perdeu no alto pulsar da música. Seu coração saltando no colapso, ela imediatamente se afastou e se virou para obter a atenção do assistente de barman. Não conseguia ficar mais bêbada, não com o metabolismo que tinha, mas havia outros usos para o álcool. — Uísque, — disse ela. — Puro. Quando chegou, engoliu de uma só vez.


A queimadura era ácida e exatamente o que precisava para chocar seu sistema e voltar ao ritmo correto. — Sou o último pedaço restante dele, — ela disse em voz baixa, já que, obviamente, Venom tinha boa audição. — Sempre soube disso. Sim, mas tentou não pensar nisso. Era uma auto ilusão, sabia muito bem, não precisava de um psiquiatra para dizer a ela. Esse psiquiatra era um vampiro que fazia parte da equipe médica da Torre. Um homem legal, paciente e gentil. Holly o odiava. O odiava mais porque a obrigava a encarar coisas que queria manter enterradas. — Por que está bebendo uísque puro? — Magnus se inclinou no balcão depois de voltar para eles. Não esperando por uma resposta, ele baixou a voz e disse: — Está procurando informações sobre a recompensa, não é mesmo? Holly sabia que Magnus teria percebido o que estava acontecendo – sabia tudo que acontecia nas sombras cinzentas da cidade. Nem sempre compartilhava essa informação, sua lealdade era infinita e complexa, mas nunca colocou Holly em posição de perigo. — Sim, — ela disse além da garganta áspera. — Cinco milhões, — ele disse; seus olhos indo dela para Venom e voltando. — Você, minha querida, deve ser levada viva. Evidência – uma foto – para ser enviada por e-mail para um endereço de e-mail descartável. O pagamento será transferido para a conta de escolha do sequestrador quando o sequestro for verificado: metade pré-entrega, metade depois. Venom falou enquanto Holly lutava contra sua raiva ao ser considerada uma mercadoria, uma coisa a ser negociada. — Por que as pessoas estão levando essa generosidade a sério? Qualquer um pode espalhar um boato assim, especialmente com o único contato sendo um endereço de e-mail. — Estarei aí num minuto, seu jumento! — Magnus gritou pelo bar para um grupo impaciente antes de baixar a voz para falar com eles novamente. — O rumor é que a palavra inicial veio de um homem que é conhecido por ser mediador neste tipo de coisa, alguém que os grandes mercenários confiam quando se trata de seu trabalho. — Quem? — Holly perguntou.


Magnus balançou a cabeça, os cabelos pretos presos e esticados, num padrão cortado a navalha de um lado, a qual homenageava o impressionante emblema que agora marcava a têmpora direita de Raphael. — Nenhuma ideia, amor. Muito acima do meu grau de pagamento. — Um toque em sua mão. — Seja cuidadosa. Gosto de você, e não sou tolo o suficiente para desafiar a Torre, mas até eu fui tentado por cinco milhões. — Ele saiu para lidar com o grupo impaciente. Saindo da banqueta, Holly começou a se afastar. Não se incomodou em esperar por Venom, mas sabia que estava atrás dela. Os malditos rios se separaram na frente dela, as pessoas se afastando do caminho dele. Sabia que seus olhos brilhavam num verde quente quando atingiram a calçada rachada. Sem parar, ela caminhou até o estacionamento. Entraram no carro em silêncio. Então, Venom dirigiu. Tenso, rápido e nervoso. Ele os levou pelas ruas da cidade, onde as prostitutas hesitavam e os viciados dormiam, passaram por estabelecimentos de alta classe que eram tudo sobre dor e sangue, ao longo de uma respeitável fila de clubes onde mães e pais suburbanos passavam para fazer uma festança e fingirem que estavam andando no lado selvagem. Passaram por um estádio fechado, dirigiram pelas ruas com mansões graciosas tão ornamentadas e cobertas de hera que era como se estivessem congeladas no tempo. Essas casas gritavam dinheiro imortal. Atrás deles se erguiam os arranha-céus brilhantes de luz. Mas o prédio mais alto de todos era a Torre, uma lança crescente de luz que perfurava o céu noturno e estrelado. Os anjos voavam dentro e fora, suas asas eram silhuetas contra a noite, sua beleza extraordinária. — Já fantasiou sobre arrancar as penas de um anjo? — Era a primeira vez que falava nos últimos sessenta minutos enquanto Venom os conduzia dentro e fora e pela cidade. — Às vezes, Illium, quando fica muito irritante, — disse Venom com leveza. — Tem fantasias anti-anjo? — Apenas anti-Uram. — Até mesmo dizer o nome dele criava um grito na garganta. — Fantasia sobre trazê-lo de volta à vida de uma maneira que signifique que está paralisado, capaz de sentir o que estou fazendo, mas incapaz de me parar. — Este último era muito importante. Mesmo em suas fantasias, Holly sabia que


não era rival para um arcanjo. — Então, quero sentar-me lá e arrancar todas e cada uma das suas penas. — Cinza com manchas de âmbar, aquelas penas eram muito bonitas pela feiura que escondiam. — Depois disso, quero esfaquear e esfaquear e esfaquear até que ele não seja nada além de um pedaço de carne. Ela exalou alto. — Vá em frente, me chame de psicopata. Venom encolheu os ombros. — Tenho altos padrões para os chamados psicopatas. Você apenas roça a superfície. — Um olhar acima dos óculos de sol espelhados. — Tire isso! — Movendo-se com aquela estranha velocidade que vivia nela, Holly arrancou os óculos de sol e jogou-os atrás de seus assentos. Venom não moveu o volante apesar do seu ato inesperado. — Eles são caros, — ele disse calmamente. — Não pode se dar ao luxo de substituí-los, gatinha. — Foda-se. — Desculpe, a fila é muito longa para você chegar ao topo. Suas presas gotejavam, veneno enchendo a boca. E foi demais. A tentativa de sequestro. Perder a pouca liberdade que ganhou depois de anos de trabalho árduo. Ter sua gênese jogada em sua cara. A provocação do veneno. Ela sibilou e mergulhou na garganta, sem pensar no perigo de atacá-lo enquanto dirigia, sem pensar em nada.


Venom estendeu uma mão para segurar o maxilar de Holly, mantendo-a longe de seu pescoço enquanto controlava o carro com a mão livre. Ela o agarrou, mas ele podia aguentar alguns arranhões. Também podia aguentar sua mordida, mas isso o afetaria por uma fração de segundo que poderia causar um acidente. Agarrando seu maxilar, parou o carro ao lado da rua. Estavam numa parte escura da cidade, uma área cheia de trabalhadores comerciais de dia e sem-teto à noite. Nenhuma dessas pessoas se atrevia a se aproximar do conhecido verde víbora de seu carro. Então soltou Holly e respirou fundo enquanto suas presas penetravam na pele dele. Seu veneno queimou por essa fração de segundo antes de ser neutralizado, mas ela não o soltou. Suas unhas cavaram do outro lado do pescoço, suas presas empalando-o. Mas não estava se alimentando, não fazia nada além de segurá-lo no lugar. Ele ergueu a mão, colocou-a na sua nuca e empurrou um pouco. — Beba, — ele ordenou com uma voz que muitas pessoas não se atreveriam a desobedecer. — Beba. Holly cavou suas unhas fundo, mas se recusou a fazer o que ele pediu. Então ele apertou a nuca dela. Forte. — Ou prefere que eu beba de você, gatinha? — Ele disse em seu tom mais frio e mais sedoso. — Me pergunto o que o sangue de Uram... — Isso funcionou. Ela bebeu. E o fogo correu através de sua corrente sanguínea. Isso, ele não esperava. Alimentar poderia ser erótico, mas era Holly, não uma mulher que planejava foder. Apertando os dentes contra a reação inesperada que foi diretamente ao seu pau, ele a puxou quando o corpo dela começou a ficar relaxado. — Suficiente. Está se empanturrando agora.


Olhos brilhantes verdes ácidos, ela passou o dorso da mão na boca, manchando sua bochecha com uma gota de sangue e apenas olhou para o pescoço dele. Venom sorriu. — Pare de encenar, Hollyberry. Sei que está de volta ao controle. — Dobrando o corpo, agarrou sua mandíbula novamente antes dela poder se mover. — Também foi uma garota muito má. Arreganhando os dentes, ela passou a língua sobre suas presas. E seu maldito pau ficou ainda mais duro, embora soubesse que ela estava tentando dar uma saída para ele. — Não está bebendo sua cota de sangue. — Holly foi colocada num estrito regime de sangue porque não gostava muito do lado vampírico de si mesma, e muitas vezes se esquecia de alimentar. — O que tem feito com as garrafas de sangue que são entregues a você? Holly ergueu o queixo, mas ele não estava prestes a deixar ir. Alcançando-a, usou seu polegar para limpar aquela mancha de sangue que ela criou deliberadamente como distração. Com outra mulher, podia ter sugado o polegar na boca, transformando o ato em sensual. Mas essa não era outra mulher. — Responda à pergunta ou ficaremos aqui a noite toda. Sorrindo aquele doce sorriso falso, ela disse: — Por que beber sangue engarrafado quando posso tê-lo fresco da veia? — Não se alimentou há pelo menos três meses. — A maioria dos vampiros não podia durar tanto – mas Holly não era vampiro. — E acabou de entrar em sede de sangue. Ela piscou; linhas franzidas se formando em sua testa. — Não, não. Aquilo foi... a outra coisa. A mancha de Uram. — Confie em mim, Holly. Conheço sede de sangue quando a vejo. — Sua voz ficou fria, como o sangue das víboras que faziam parte de sua criação. — Se não estivesse aqui para deter a sede de sangue antes de segurar, poderia ter arrancado várias gargantas hoje. E humanos não voltam dos mortos. Sua pele ficou pálida. — Vou vomitar. Liberando-a, ele estendeu a mão e abriu a porta do passageiro. — Faça lá fora.


Mas, embora estivesse pendurada pelo lado e vomitando em pulsos severos, nada saiu. Seu corpo estava muito seco pelo sangue para rejeitá-lo. Finalmente, caindo contra o assento com a porta do passageiro aberta para o ar fresco da noite, Holly disse: — Odeio o sabor do sangue. — Gostou muito do meu. — Se a deixasse, teria engasgado até um estupor ronronante – e porra, essa imagem dela exuberante e saciada parecia muito boa em sua mente. Os ombros dela ficaram tensos. — Como disse, demorei demais. Não o saboreei. Isso podia até ser verdade. — Por que arriscaria entrar em sede de sangue? — Ele perguntou no tom de víbora, que era uma parte dele, assim como seus olhos. — Quer se tornar como seu Criador? — Foda-se, — ela disse novamente, mas suas mãos estavam agitadas e sua voz tremia. Se esticando para puxar a porta do passageiro, Venom começou a dirigir. Foi direto para a garagem da Torre. Uma vez lá, saiu e foi abrir a porta. Estranhamente, ela ficou dentro. — Vamos. Um olhar sombrio. — Vai me entregar para Dmitri? — Eu não falo, gatinha. — Holly sempre foi sua para treinar – mas ele foi retribuído ao Refúgio porque seus deveres com a Torre vinham primeiro. Só tinha uma única sessão com Holly por semana – e isso era a longa distância, dificultando que avaliasse seu desenvolvimento. Isso não era mais um problema. E estava ficando claro para ele que, independentemente da habilidade e carinho deles por Holly, as pessoas que a treinaram no dia-a-dia não entenderam o que estavam treinando. Ela saiu, seus sapatos fazendo sons de cliques no chão conforme caminhavam até o elevador. Ele pressionou o botão do andar. Quando Holly foi pressionar o botão para o andar mais baixo, onde tinha um quarto, ele a deteve. — Ainda não terminamos. Sua pequena mão fechou novamente, seu corpo quase vibrando ao lado dele. Sabia que a única razão pela qual não o desafiava era por que entendia o quanto as coisas poderiam ter ido mal esta noite: Holly estava aterrorizada por si mesma. Isso sempre foi parte do problema. Não era com os fanfarrões no clube.


Para ele, o medo salvaria sua vida. Para Holly, o medo poderia prejudicá-la – ou transformá-la numa ameaça mortal que teria que ser executada. Andaram em silêncio, saíram em silêncio. Ele teve sorte de que ninguém mais estava no andar naquele momento. Venom levou Holly diretamente ao seu apartamento – uma expansão maciça com janelas do chão ao teto e um grande espaço vazio no centro de sua área de estar. Não havia tapete lá, apenas um quadrado de pedra altamente polida que parecia ser uma característica de design que fazia eco ao fogo elétrico na parede oposta. Ao fechar a porta, ele a trancou e depois tirou o paletó. Holly ficou imóvel ao entrar, parecia estar analisando o apartamento. Podia dizer que não era o que ela esperava. Mas ela podia fazer uma turnê mais tarde. — Tire seus sapatos. — Ele a puxou e jogou-a numa cadeira próxima. Holly descobriu as presas para ele, mas ainda estava trêmula. Ela realmente obedeceu a ordem, chutando os saltos. — E agora, mestre? Após dobrar as mangas de sua camisa e tirar seus próprios sapatos e meias, Venom acenou para frente, na seção de pedra; era apenas grande o suficiente para agir como um ringue de treinamento. — Agora, — ele disse, — Quero que você liberte a coisa diferente dentro de você. — Ele sabia que vivia nela porque as víboras e as cobras que faziam parte de seu Ser viviam nele. Holly não se moveu. — Por quê? Então, pode me dizer que não tenho controle? — O controle não é o mesmo para nós como é para outras pessoas, gatinha. — Era o que ninguém mais entendia, o que a própria Holly não entendeu. — Não sou forte porque atrelo meus impulsos. Sou forte porque uso esses impulsos. Então use isso. — Ainda assim, ela não agiu. — Tudo bem. — Ele se moveu, visando afundar suas presas na garganta dela. Como esperava, ela reagiu com pura autopreservação. E então, a luta começou – mas era uma luta normal. Ela não estava liberando o que vivia nela. Venom raspou suas presas na garganta dela. Ela sibilou e balançou por um momento antes de encolher os ombros. — Bastardo. — Olhos brilhantes, ela saltou nele sem aviso. O movimento não era humano, nem qualquer coisa próxima. Mas era ela.


Sorrindo enquanto ela arranhava seu peito, meio rasgando a camisa, ele a puxou e a jogou de lado. Ela deu um oof ao bater na parede, mas estava correndo para ele um segundo depois, quando deveria ter muitos ossos quebrados. Venom conhecia suas exatas tolerâncias, sabia que seus ossos de aparência delicada eram muito mais fortes que os ossos de vampiros normais, até ossos de vampiros centenas de anos mais velhos. Os ossos de Holly estavam mais perto dos ossos angélicos. Ele passou suas unhas com raiva em seu estômago enquanto tentava voltar por sua garganta novamente. Isso a fez se mover com uma velocidade que nem mesmo ele podia evitar. Ele estava de frente para ela, e então, de repente, suas presas se afundaram no ombro dele por trás e suas unhas arranhavam seu peito. Ele estendeu a mão e ela a rasgou. Sangue escorria por suas costas. — Sem mais sangue para você, gatinha. — Holly podia estar morrendo de fome, mas ele era perigosamente potente. Ela poderia beber até ficar em coma. Oh, ela acordaria, mas levaria dias ou semanas. Silvando, ela pulou nele novamente. Ele riu de pura alegria. Porque a maneira como lutavam agora não era nada humano, nada vampiro, absolutamente outra coisa. Seus corpos eram líquidos, sinuosos, curvando-se de maneiras que não deveriam ser viáveis, e tão rápidos que se alguém estivesse observando, os movimentos pareceriam impossíveis. Exaltação encheu sua corrente sanguínea. Adorava treinar com os Sete e Raphael, Janvier, até mesmo com Elena, mas isso... Ninguém mais lutava dessa maneira. Como ele. Ela era jovem e sem experiência, e mais instintiva do que pensava – mas o último era o ponto. Agarrando a garganta dela num ponto, apertou um beijo na bochecha que era mais provocação do que qualquer coisa sexual. Ela se afastou de seu aperto num movimento líquido e rasgou suas costas, sibilando veneno para ele ao mesmo tempo. Ele riu e torceu-se ao redor dela para agarrar sua coxa – visível através da saia rasgada de seu vestido, segurando-a com força suficiente para causar um hematoma. Ela sorriu e o chutou de uma maneira que seus ossos eram desumanamente fluídos.


Ele evitou o golpe, mas não as unhas em seu rosto. Lambendo seu sangue, ele sorriu, e estavam de volta. *** Holly deitou de costas sobre a pedra no meio da sala de estar de Venom, seu cérebro em uma paz absoluta e brilhante pela primeira vez em anos. Não fazia ideia do que acabou de acontecer. A maldita víbora a incitou até ela decidir deixá-lo ter isso. Mas ao invés de gritar com ela para parar, ele apenas sorriu... e o resto era uma névoa verde ácido através de sua visão, uma sensação de alegria e a batida do seu coração. Ela dobrou a perna pelo joelho, sentiu ar onde não deveria haver ar. — Meu vestido está rasgado. — Esse fato particular não parecia importante, mesmo que este fosse um dos seus vestidos favoritos, uma peça que economizou para poder pagar. — Como minha camisa, — disse o homem deitado no chão ao lado dela, sua respiração muito mais igualada que a sua. — Você é divertida para brincar quando se livra da coleira. Holly inalou, exalou. Parecia bom ter o ar expandindo seus pulmões, ainda melhor para liberar a ligeira tensão. Tudo estava bem, todo seu corpo líquido. — Não foi você quem me deu uma palestra sobre possível sede de sangue? — Duas coisas diferentes. — A voz dele estava diferente... letárgica. Saciada. — Se não bebe sangue suficiente para permanecer estável, se transforma num monstro assassino. Você se livrou da coleira enquanto estava estável, lutou com uma velocidade e fluidez natural que é extremamente difícil de enfrentar. Holly tentou pensar nisso, achou muito trabalho. — Eu estou bêbada. — Não, apenas preguiçosa depois de um bom treino. — Ele se ergueu para uma posição sentada, movendo-se de uma maneira tão desossada que ela se perguntou se ele tinha um esqueleto. Deixando o pensamento frívolo flutuar, ela suspirou. — Não me lembro da maioria do que fizemos.


— Você vai, — disse Venom, ficando de pé com a mesma graça líquida. — Este foi o primeiro degrau. Quanto mais fizer isso, mais começará a manter o pensamento racional, mesmo ao se render ao seu prana. Holly não conseguia se levantar, embora soubesse que era ridículo continuar deitada no chão quando Venom estava caminhando e fazendo coisas. — Não conheço essa palavra, — disse ela depois de alguns minutos. — Parece uma palavra de ioga. Uma risada baixa. — É sânscrito. Tem uma profundidade complexa de significado, como todo sânscrito, mas a maneira mais fácil de descrevê-la neste contexto é a força vital primitiva que vive em nós. — Ele se ajoelhou ao lado dela. — Fiz para você um shake de cookies e creme. Holly virou a cabeça; sentiu-se deliciosamente pesada. — Posso beber isso deitada? — Não. Em pé. Exalando novamente – e realmente querendo aquela vibração – ela conseguiu se colocar numa posição sentada. Foi só depois de ter tomado dois longos goles do shake que percebeu uma coisa. — Como sabia que esse é meu favorito? — Ela lançou um olhar suspeito para ele. — Começando a sair da névoa, pelo que vejo. — Ele sentou no chão, suas mãos apoiadas atrás dele. — Eu sei tudo, gatinha. Holly pensou em sibilar, mas o shake estava delicioso e ele parecia estranhamente delicioso também, com a camisa meio rasgada para revelar a pele lisa e o músculo ondulante coberto com a pele de mel marrom. Ela estava obviamente mais dopada do que percebia, mas agora mesmo sentia-se muito bem para se importar. — Conte-me sobre o prana. Um encolher de ombros. — Muitos usam a palavra para descrever a energia que é a vida, mas sempre a escolhi para descrever a parte de mim que surgiu durante minha criação. — Seus olhos eram bem-humorados. Deixando de lado o shake, Holly se agachou ao lado dele nas mãos e nos joelhos. Ela olhou nos olhos dele. — Faça isso lentamente. Um sorriso. — Não posso. — Lá estava novamente, essa membrana que transformava seus olhos numa obra de arte de vitrais quebrados. — Bonito, — ela murmurou, levantando os dedos até a bochecha dele.


Ele a cutucou gentilmente nas costas. — Beba seu shake. Percebendo que ainda estava bêbada, Holly perguntou. — Então, — ela disse depois de vários goles mais, — Sobre o que foi isso? — Ensinando você a ter melhor controle se parar de se frear. Holly franziu a testa e sugou ainda mais do shake que era uma corrida de açúcar e gordura e todas aquelas coisas gostosas que seu corpo estava ansiando. Estava tão feliz por não ser uma vampira completa. — A única coisa boa sobre Uram me atacar é que nos últimos quatro meses desenvolvi o metabolismo de um atleta olímpico. Venom bocejou; seus olhos verdes de fendas atrás das pálpebras pesadas. Rolando os ombros, se deitou na parte do chão que era pedra. Parecia perfeitamente normal para ela, então. Terminando o shake, ela colocou o copo cuidadosamente de lado, depois recostou-se na mesma área pedregosa. E percebeu que era suntuosamente quente. — Tem um piso aquecido? — Apenas essa parte. Bocejando, ela virou de lado. — É legal. Um travesseiro atingiu suavemente seu rosto quando estava prestes a cochilar. Espremendo-o no peito, ela se aconchegou. *** Venom acordou primeiro. Sabia disso – Holly não estava acostumada com o que fizeram na noite passada, levaria tempo para se recuperar. Estava enrolada como a gatinha que frequentemente a chamava. No sono, se aproximou dele, de modo que o calor dela ardia em suas costas enquanto o calor do chão ardia numa grande parte do resto do corpo. Ela dormiu com a cabeça na metade do travesseiro, abraçando o resto do travesseiro na sua frente. Sua perna direita estava puxada para deitar parcialmente no travesseiro. Os lados rasgados de seu vestido caíam de cada lado da perna, revelando uma extensa parte de pele cremosa marcada por algumas pequenas contusões e arranhões da briga. Teve muito cuidado para não machucála, mas algumas feridas eram inevitáveis. Ela curaria relativamente rápido.


Seus olhos descansaram na perna novamente. — Controle-se, — ele ordenou a si mesmo. — Ela realmente é uma gatinha. — Pequena, nova e encontrando seus pés. Não estava prestes a dar uma mordida nela. Encontrando um cobertor suave e sedoso, o jogou sobre ela. Ela imediatamente puxou-o debaixo do queixo e aconchegou-se para um sono mais longo. Ele sentiu os lábios subindo. Quando ela não estava acordada e o provocando, era muito fofa. Embora tivesse que admitir que gostava do lado rápido e viperino dela. Uma mulher mais suave seria esmagada no primeiro dia de horror. Ao deixá-la adormecida, ele saiu e tirou as roupas rasgadas antes de entrar no banho. Aumentou o calor, deixando-o afundar nos ossos. Tentou não atuar também como viperino como Holly pensava, mas não podia desistir desses quentes chuveiros ardentes. E por que se negar esse prazer quando havia tanto que nunca poderia ter? Não saiu do chuveiro até que se passaram vinte minutos. Secando, enroscou a toalha em torno de seus quadris e foi verificar sua casa.


Ela estava se movendo um pouco, mas ainda no chão. Seus olhos meio abertos ao senti-lo. Um grande bocejo antes de se aconchegar de novo, seu corpo logo ficando imóvel de uma maneira que lhe dizia que caiu novamente no sono mais profundo. Ele foi e se vestiu com um terno cinza escuro combinado com uma camisa branca, depois passou duas horas no sofá na sala de estar repassando relatórios de segurança e outros dados da Torre que Dmitri encaminhou para deixá-lo logo a par dos eventos. Independentemente de outras chamadas em seu tempo e atenção, era um dos Sete e fez um voto de sangue para proteger Raphael e seu território. Esse voto era uma coisa de honra, não compulsão. Venom podia se afastar a qualquer momento. Escolheu não o fazer, optou por dar sua força ao reinado de um arcanjo que respeitava com todas as fibras de seu ser. Enquanto respeitava Dmitri e os outros Sete. Já havia se atualizado da maioria desses dados no voo desde o Refúgio, mas queria garantir que absorveu todos os detalhes. Também não queria continuar a busca por aqueles que caçavam Holly enquanto ela estava dormindo e incapaz de ajudar. Venom entendia o que era lutar contra seus demônios – não roubaria sua chance de conquistar os dela. Sua posição no sofá permitia que ficasse de olho nela enquanto dormia. Ele acordou às nove da manhã. Ela ainda estava profundamente adormecida quando ele subiu ao meio dia para voltar para seu quarto e pegar seus óculos de sol. Quando os colocou na gola da camisa, pensou em como Holly os arrancou de seu rosto. A maioria das pessoas ficava fascinada por seus olhos ou repelida. Holly... O fascínio estava lá, mas também havia um forte aborrecimento quando ele cobria os olhos. Ainda pensava nisso quando voltou para a sala de estar para ver Holly sentada com o cobertor apertado em torno dela. Ela parecia um pouco confusa com


aquele tipo de suave despertar. Indo para o balcão na lateral, ele serviu um copo de sangue da garrafa na geladeira. Não era sua maneira favorita de ingestão – fresco da veia era sempre melhor, mas isso era conveniente. Não ofereceu à Holly; ela já teve o suficiente para durar até hoje. Especialmente desde que bebeu de Venom. Pegando o copo, ele caminhou na direção dela. Ela franziu a testa e se levantou. Seu cabelo caindo ao redor dela, Holly tirou o prendedor de cabelo em algum ponto. Os fios eram uma cachoeira escorregadia de preto que atingia a cintura. Afastando-os, ela olhou para ele. — Com o que me drogou? — Seu próprio espírito, — ele disse com um sorriso divertido. — Sim, certo. — Ela parecia perceber que ainda segurava o cobertor, o deixando cair como se fosse um ferro quente. — Dormi no chão. Um chão de pedra. — Um piso de pedra aquecida, — forneceu Venom. — Foi a única outra pessoa que gostou. — Curioso sobre sua tendência de dormir na pedra, os outros dos Sete tentaram em um ponto ou outro. Nenhum durou mais que alguns minutos. Nem mesmo Naasir. O mais selvagem dos Sete apreciava o calor, mas não conseguiu entender o gosto de Venom pela superfície dura. Franzindo o cenho, Holly deu um passo à frente e passou por ele. — Vou para o meu apartamento. Ele não a impediu. Terminando seu almoço, abriu caminho para o escritório de Dmitri, a paisagem além das janelas da Torre queimadas de chuva cinza escuro. O outro homem não estava lá, então Venom deixou uma nota indicando o que ele e Holly descobriram na noite anterior. Sua próxima parada foi no núcleo técnico da Torre. O homem que agora era o coração daquele núcleo era alguém que Venom conheceu pessoalmente ontem, mas estava muito ciente das habilidades de Vivek Kapur. Todos os Sete foram informados sobre o Caçador da Sociedade transformado em vampiro da Torre. Estava relativamente silencioso quando entrou após uma varredura de retina para verificar sua identidade, mas os computadores zumbiam e os dados rolavam através de várias telas. Atravessando o espaço de clima controlado com seus óculos de sol, Venom abriu caminho até o centro e a grande estação de controle circular que era o subdomínio pessoal de Vivek Kapur. Foi personalizado para suas


especificações, e lhe dava acesso a várias telas, várias das quais pendiam do teto como armas controladas eletronicamente. — Vivek. O outro homem girou numa cadeira de rodas que, foi dito à Venom, era uma parte dele como qualquer um de seus membros. Magro, com a pele marrom perto da sombra de Venom, o homem nascido caçador perdeu todo o movimento abaixo dos ombros como resultado de danos catastróficos na coluna vertebral quando ainda era criança. Mas hoje, ele levantou uma mão. — Venom. — Um sorriso que era brilhante com vida, seus traços bonitos apesar da falta de carne suficiente em seus ossos. — Prazer em conhecê-lo novamente. — Da mesma forma. — Venom não se ofereceu para apertar a mão do outro homem – o vampirismo começou a ter impacto sobre os ferimentos de Vivek muito mais rápido do que alguém esperava, mas as mudanças eram imprevisíveis; o caçador ganhou movimento em ambos os braços e seu tronco logo após a transição, mas não houve mais mudanças nos meses seguintes. Não foi por isso que Venom não tocou o outro homem. Depois de toda a vida de não poder sentir nada abaixo dos ombros, Vivek tornou-se muito sensível nessa região recém-acordada. Literalmente. Sua pele era um tapete de dor que poderia ser desencadeada pelo menor toque. Os curandeiros eram da opinião de que era simplesmente um resultado de seus nervos chocando ao acordar após anos de sonolência – só precisaria apertar os dentes e suportar. A única misericórdia era que apenas o toque de outro ser vivo desencadeava a dor; Vivek podia sentar-se e dormir confortavelmente, usar seus instrumentos sem problemas. Venom não estava seguro de que fosse uma misericórdia, no entanto: como devia ser estar privado da sensação da mão de outro em seu corpo durante a maior parte de sua vida, apenas para que o toque se tornasse um castigo? — É um império que você tem. — Ele assentiu para a área de trabalho, ele e Vivek não tiveram muita chance de falar ontem quando deixou o celular confiscado. — Ainda sinto falta da minha estação da Sociedade, — admitiu Vivek. — Quase a construí desde o início, encomendei cada peça sozinho, personalizei o software.


— Construí uma casa uma vez, — Venom se viu dizendo. — Sou um carpinteiro ruim, mas construí essa casa. E ainda sinto falta. — Principalmente por causa das pessoas que moraram nela, riram nela, compartilharam sua recompensa de arroz selvagem e verduras, lentilhas e doces artesanais. Vivek assentiu, o movimento brusco, como se seu corpo não estivesse bastante acostumado com sua nova amplitude de movimento. — Coisas que construímos, elas importam. — Ele tocou uma tela, ao mesmo tempo em que clicava no sensor que se espalhava ao lado de sua bochecha, sua cadeira de rodas também projetada com suas especificações. — Desculpe, — disse depois. — Vi uma informação que Jason poderia estar interessado. Venom notou o brilho nos olhos do outro, teve que esconder uma risada. De acordo com Dmitri, Vivek Kapur tinha uma paixão pelo espião-mestre de Raphael. Não uma paixão sexual. A paixão de um homem que gosta de ter seus dedos em qualquer informação possível – e Jason era o melhor que havia. — Teve chance de descobrir algo sobre o endereço de e-mail associado com a recompensa? — Somente durante a última meia hora, os curandeiros me forçaram a ficar offline pelo resto da tarde de ontem, e esta manhã, e não queria delegar, desde que me pediu para cuidar pessoalmente. — Uma cara azeda quando começou a trabalhar novamente. — Chamam de fisioterapia e recuperação muscular. Eu chamo de sadismo. Venom podia imaginar a dor que Vivek tinha que suportar em todas as sessões. — Faz diferença se os terapeutas usam luvas? — Ele assumiu que deveria ter contato físico durante as sessões. — Nós tentamos, — o outro respondeu com um cenho franzido, — Mas então, não conseguem sentir o movimento dos músculos que precisam. Então, em vez disso, xingo como um caçador, e os terapeutas usam tampões de ouvido. — As últimas palavras estavam ausentes, o foco de Vivek em seu trabalho. Venom se preparou para sair. — Envie uma mensagem assim que tiver alguma coisa. — Não. Espere. — Os olhos do caçador se moveram rapidamente e Venom percebeu que o outro estava usando um software que lia seus movimentos oculares, ao mesmo tempo em que digitava. — Cortei a conta de e-mail. Recebeu quatro e-mails no total, sem contar o que você enviou usando o telefone confiscado.


Um é de Mike, cujo crânio você reorganizou. Ele enviou um e-mail para dizer que ele e seus amigos estavam se ocupando da tarefa. — Profissional da parte dele. — Ele é um CEO regular. — O tom de Vivek era muito seco. — Os outros três e-mails são de diferentes partes pretendendo ter apanhado Holly com sucesso. Ele puxou os três e-mails na tela grande à sua frente. — As fotos estão adulteradas. Duas eram ruins, mas a terceira... — Essa me enganaria se não a conhecesse, — disse Venom, apontando para a imagem de uma mulher aterrorizada amarrada num piso de concreto. Os olhos de Holly olhavam para fora da tela. Algo escuro e irritado desenrolou-se dentro dele. — É um pedaço muito inteligente de manipulação de fotos. — Vivek continuou. — Isso é tudo o que há agora. Sem transferências de dinheiro a seguir, porque, suponho, o comprador sabe que são falsificações ou não sabe em qual email acreditar. Usou uma segunda tela para puxar a foto que Venom tirou, de Holly caída no banco traseiro do SUV. — Pode ser por isso que não recebeu uma resposta à sua mensagem, embora eu esteja mais inclinado a acreditar em sua teoria de vigilância. Mike e seus homens não são as ferramentas mais afiadas no galpão, mas têm um histórico melhor que qualquer um desses – motivo suficiente para o comprador ter um olho de esperança neles. Venom viu que a última foto forjada, a que parecia genuína, só fora enviada quinze horas antes. Depois que Mike e sua equipe se afastaram – e depois da mensagem de Venom. — Está monitorando as contas bancárias associadas com o caçador de recompensas que enviou esse e-mail final? Acenando, Vivek disse: — Sem movimento algum. — Uma única conta apareceu na tela que originalmente tinha a foto que Venom tirou de Holly. — Continuarei procurando, no caso dele ser inteligente o suficiente para ter contas ocultas. — Se é isso que pode desenterrar em meia hora, — disse Venom secamente, — Acho que terá toda a vida dele em sessenta minutos.


Um sorriso afiado do outro homem. — É um dia agitado, então talvez sessenta e cinco seriam uma estimativa melhor. — Transmita-me os detalhes de todos que enviaram e-mail. — Daria a ele e Holly um lugar para iniciar interrogatórios enquanto tentavam rastrear a origem da recompensa. — E continue monitorando o endereço de e-mail — Feito.

***

Holly fez uma careta. O que diabos aconteceu com ela na noite passada? E por que não estava mais brava por isso? Provavelmente, porque seu corpo estava bem. Era como se tivesse dormindo na cama mais linda e confortável do planeta e não num chão de pedra. E não era como se estivesse vivendo numa barraca. Esta era a Torre. Ela só tinha um quartinho, não uma suíte extensa como Venom, mas a maior parte do espaço era ocupado por uma enorme cama. Aquela cama, uma extravagância ornamentada do tamanho de um pequeno continente, era cortesia de seus pais. Queriam dar-lhe um presente de mudança, e o que poderia fazer, exceto dizer sim? Mia riu até a barriga doer, até Holly apontar que uma cama semelhante provavelmente estava em seu futuro também. A lembrança da expressão horrorizada de sua irmã a fez sorrir. Saindo do banho após um longo e caloroso tempo, ela se secou, depois saiu e olhou para a cama que colocou aquele olhar no rosto de sua irmã. Era um dossel branco com um espesso colchão e cortinas amarradas aos postes. Os postes eram esculpidos com corações de amor, a cabeceira com um querubim rechonchudo com o arco enquanto se preparava para disparar uma flecha num monte de corações na frente dele. — Tenho uma cama gigante de princesa afogando em corações, — disse Holly para si mesma, não pela primeira vez. Então sorriu, porque seus pais ficaram encantados quando Holly aceitou o presente. Daphne e Allan Chang até compraram para Holly um conjunto de lençóis de algodão egípcio ridiculamente caro, e um edredom de ganso igualmente caro. A


cama era aconchegante, suave e quente... e o estúpido chão de pedra ainda era melhor. — Argh! Passando pela cama, abriu o closet e entrou para se vestir. Realmente, gostava que pudesse fazer isso; significava que não tinha que puxar as persianas na janela do chão ao teto de um lado do quarto. Não havia muita visão, não tão baixo na Torre, mas num dia ensolarado a luz era linda. Hoje, estava um melancólico cinza chuvoso. Vestida, Holly sentou em sua cama, sombras desenhadas em sua pele enquanto calçava suas botas. A chuva não era forte, mais uma névoa constante, então ainda podia ver além da janela. Em sua linha de visão direta estava o prédio ocupado pela Legião, os seres estranhos que desceram na cidade durante a batalha de Raphael com Lijuan. De olhos e pele pálidos, com asas como um morcego, a Legião era a definição de estranho. Claro, quem era ela para julgar? Não era exatamente a Sra. Normal. E adorou o que fizeram com o prédio deles, transformando-o numa criação viva envolta em exuberante verde. Holly pensou mais de uma vez em se aproximar e perguntar se podia olhar por dentro. Nunca fez isso porque a Legião era tão diferente e tão claramente poderosa que estava além de seu alcance, mas hoje, as botas e os cabelos presos num rabo de cavalo, sentiu o diabo levá-la. Ou talvez fosse porque não estava pronta para encarar o que Venom tirou dela na noite anterior. Uma vez que a área entre a Torre e o edifício da Legião era um território arcangélico, nenhum estranho podia se infiltrar, então não se preocupou em alertar Venom quando saiu da Torre. No entanto, enviou uma mensagem: não vá caçar sem mim. Medo de si mesma ou não, não estava prestes a ser deixada de lado. Ela só precisava de alguns minutos para encontrar o equilíbrio. Apesar da constante garoa que parecia um bom beijo na pele, Nova York continuava sem parar. Vapor escapava de uma grelha, os normais trabalhadores de escritório saindo para o almoço fluíam para a entrada do metrô à distância, e o aroma quente e fermentado que emanava de um carrinho de pretzel nas proximidades deslizou para atrair as papilas gustativas de Holly.


O vampiro recentemente emancipado, com olhos e cabelos escuros, foi atrevido ao se instalar perto da fortaleza de Raphael, mas criou rapidamente uma série de fãs de alta potência. Ela viu anjos descerem para pegar um pretzel antes de voltar. Hoje se desviou do curso para pegar um para ela. Nenhum caçador de recompensas tentaria sequestrá-la com todo o esquadrão angélico ao alcance de um grito; cabelos úmidos e expressões comprometidas, eles estavam sentados em sacadas relativamente baixas na Torre. Um anjo de asas azuis com extraordinários olhos dourados e cabelos pretos com pontas azuis – Illium – pairava na frente deles. Discussão de treinamento pós-combate, pensou Holly, tendo visto a mesma visão várias vezes desde que se mudou para a Torre. O último fato deixou seus pais tão orgulhosos que casualmente saía em qualquer conversa, até mesmo um leve comentário sobre o assunto. Oh, nossa Mia? É médica agora. E nossa Holly trabalha para a Torre. Ela levou seus irmãos para visitar o apartamento dela – ela tem um apartamento bem na Torre, eu me esqueci de mencionar isso? – e bem, os dois não conseguiam parar de falar nisso. — Minha primeira cliente do dia! — O vendedor de pretzel sorriu para Holly quando ela parou na frente de seu carrinho. — Tive que começar tarde hoje – problemas com meu carrinho – você não saberia disso – mas chegou antes de eu terminar minha arrumação. — Suas mãos se moveram rapidamente para embrulhar o pretzel em papel à prova de gordura. — Terá um pretzel grátis para ser um bom presságio. Holly aceitou o presente com um sorriso, lembrou do pai dela. Allan Chang era conhecido por dar ao seu primeiro cliente do dia um desconto de cinquenta por cento. — Pronto para a corrida pós-treinamento? — O esquadrão angélico inteiro logo desceria sobre ele. — Nunca termina, linda. — Uma piscadela. — Nunca termina. Holly mordeu o pretzel macio e borbulhante enquanto acenava adeus e continuava em direção ao edifício da Legião. Parando no meio do caminho, ligou para seu pai para dar notícias, trocou comentários com seus lindos irmãozinhos – que, com 1,73 e 1,75m, já não eram tão pequenos – sobre suas plataformas


favoritas de mídia social, então enviou uma mensagem para sua mamãe. Daphne Chang adorava o aplicativo de mensagens em seu telefone. Seu cabelo ainda é um arco-íris? foi a resposta. Sim, mãe. Tem um cabelo preto tão lindo, Holly. Simplesmente não entendo essas garotas. Também te amo. Sua mãe enviou cinco filas de emojis de coração. Rindo, Holly desligou o telefone. Conversaria com Mia mais tarde, já que sua irmã fez plantão noturno em seu primeiro dia no trabalho e provavelmente estaria dormindo agora. Chegou ao prédio da Legião sem ser interrompida, embora não tivesse dúvidas que a Legião estava assistindo. Eles sentavam-se como gárgulas nos prédios por bastante tempo, silenciosos e imóveis. As pessoas muitas vezes esqueciam que estavam lá até que abriam suas asas de morcego e voavam. — Hmm. — Ela olhou para o fundo do prédio. Se uma vez houve portas, essas portas foram seladas há muito tempo. Os três andares inferiores não tinham nenhuma saída ou entrada que pudesse ver, e estavam cobertas por vegetação que se arrastava acima e abaixo e crescia pela parede, como se as paredes fossem transformadas em partes verticais de solo. Ela deu outra mordida no pretzel enquanto considerava suas opções. No entanto, antes que pudesse colocar seu plano em ação, sua pele pinicou. Mas quando olhou em volta, ninguém estava lá. Então olhou para cima.


Venom estava de pé numa sacada da torre sem parapeito, tão alto que não podia ver nada de suas feições, especialmente com a garoa borrando sua visão – mas sabia que era ele. O jeito como estava, como seu terno se encaixava tão perfeitamente em seu corpo, era Venom puro. E sabia que ele tinha seus olhos nela; o cabelo de arco-íris era bonito e isso a fazia feliz, mas não era exatamente bom para se misturar. Holly pensou como acordou em seu chão de pedra, no mel em suas veias após sua sessão de treino insana, e sabia que isso era problema. Problema perigoso e mortífero carregado de pecado. Ela se afastou, obrigou sua mente a voltar ao problema de como entrar no edifício da Legião. Sua mão livre formigou naquele instante. Ela olhou abaixo... e viu sua pele desaparecer e aparecer. — Não, — ela sussurrou, curvando os dedos na palma da mão para esconder o que estava acontecendo enquanto deliberadamente continuava comendo seu pretzel. Nada de estranho aqui, pessoas, apenas uma mulher que olhava para o edifício da Legião enquanto seu rosto se enchia de pequenas gotas de chuva, salpicando seus cabelos e pele. Perfeitamente normal. Muitas pessoas olhavam para o edifício da Legião. Os ônibus turísticos não se atreviam a atravessar os limites territoriais da Torre, mas os edifícios não-Torre com sorte de ter uma visão direta de parte do edifício da Legião faziam um bom dinheiro alugando seus telhados para que os turistas pudessem imaginar a beleza de um prédio cheio de vegetação no centro de uma das cidades mais cosmopolitas do planeta. Pretzel comido e sua mão mal comportada novamente visível, ela colocou o papel sujo no bolso, depois caminhou até a videira mais espessa e, segurando forte na vegetação molhada pela chuva, começou a escalar. Seus ossos ficaram líquidos,


seus instintos se afiaram e a respiração mudou. Escalar assim foi o que nasceu para fazer – e não era a parte humana dela que estava no comando. Empolgada por quão fácil era escalar o edifício, não se importou. Não sou forte porque controlo meus impulsos. Sou forte porque uso esses impulsos. Talvez Venom tivesse razão quanto a certos aspectos de quem ela se tornou... mas Holly sabia que também havia coisas dentro dela que nunca deveriam ser liberadas. Quando alcançou a sacada em frente à abertura no quarto andar que funcionava como saída e entrada – uma grande seção com cortinas transparentes de plástico grosso e pesado que ela imaginava ser para ajudar a manter a temperatura dentro – ela se endireitou e disse olá? Posso entrar? — Não era educado simplesmente convidar-se para a casa de alguém. Se ninguém respondesse, iria descer e tentar novamente outro dia. Mas um da Legião pousou ao lado dela em silêncio mortal. Seu coração disparou. — Boa tarde. Saindo de seu agachamento, ele a olhou com olhos translúcidos, mas com um anel azul, seus cabelos do mesmo meia-noite de Raphael e seu rosto também sem falhas. Ele parecia... Inacabado, de alguma maneira estranha. Como se a vida ainda não o tivesse marcado. E, no entanto, paradoxalmente, a sensação de idade que se agarrava a ele fazia seus ossos doerem. Inclinando a cabeça ligeiramente para a esquerda, de uma maneira que simplesmente não era humana, ele disse: — O que você é? Holly lutou contra o desejo de tocar o rosto dele, descobrir se era quente ou frio. — Essa é a pergunta de um milhão de dólares. — De repente, lembrando que a Legião deveria ter milhares e milhares de anos, ela disse: — Sabe a resposta? Um tremor lento de sua cabeça, sua absoluta calma enervante. — Estamos perdendo memórias enquanto existimos neste momento e neste lugar, mas não é só a memória que nos faz. Temos conhecimento tecido em nossos ossos. — E o que esse conhecimento lhe diz? — Que você é nova. — Ele inclinou a cabeça mais para o lado – ela quase estava com medo de que fosse fazer aquela coisa que as corujas faziam e virasse a


cabeça para trás. — Mas também é velha, embora ainda não esteja completamente acordada. Holly engoliu em seco. — A outra coisa dentro de mim, o que é isso? — Você e não você. — Com essa afirmação enigmática que a fez querer se sacudir, o Legião se virou, dobrando as asas cuidadosamente nas costas dele. — Você é nova. Pode entrar. Meus irmãos vão querer vê-la. Embora, de repente, se sentisse como uma exposição científica, a curiosidade de Holly, no entanto, a obrigou a avançar. Uma lufada de ar úmido atingiu seu rosto no instante que atravessou as cortinas atrás dele. Isso fazia sentido, se... Caramba. Sentiu sua boca abrir e os olhos arregalarem. O prédio inteiro estava vazio, exceto por níveis que surgiam aqui e ali. Vinhas espessas torciam dos lados, samambaias cresciam de ângulos impossíveis, flores floresciam em aglomerados gigantes e, abaixo no térreo, estava o musgo mais grosso que já sentiu. Quando olhou para o térreo, viu árvores carregadas de frutas cor de rosa e laranja. Não havia sensação de podridão, de folhas caídas ou frutas já esquecidas. O perfume no ar era um amálgama fresco de verde, leveza e de crescimento. Holly olhou e encarou; a admiração enchendo seu coração transbordando. — Isso é tão lindo. — Tanta vida pura e não adulterada. Sussurros a cercaram, vindo de muitas gargantas que não podiam se separar uma da outra. Era assustador, mas esta era a Legião, afinal. Arrepiante era seu modus operandi normal. Mas então, começaram a pousar ao redor dela com asas silenciosas e ela pensou, Oh merda. — Você é nova, — disse o Legião que a trouxe para dentro. — Nunca a viram. Era uma maneira estranha de colocar. Não algo como você, mas você. — Você viu Venom, — disse ela. — Ele é como eu. — Ele também é um ser, — disse o guia, enquanto os outros continuavam sussurrando... Sem mover a boca. — Como você, mas não você. Diferente. Como a Legião estava olhando para ela, Holly decidiu olhar atrás. Ela ouviu dizer que quando chegaram durante o clímax da batalha entre Raphael e Lijuan todos pareciam exatamente iguais. Os cabelos cinzentos sem cor, olhos completamente translúcidos, sem sensação de luz solar em sua pele, asas tão desprovidas de pigmento quanto os cabelos.


Entretanto, esses seres, enquanto eram semelhantes aos irmãos, não eram idênticos. As cores dos cabelos variavam em tons sutis, tons de pele começavam a divergir em incrementados minúsculos, e seus olhos ainda translúcidos traziam anéis de azul claro, verde claro, castanho claro e avelã claro. Somente aquele que conheceu tinha um anel mais vívido, a cor mais próxima do intenso azul de Raphael. — Por que seus olhos são tão claros? — Estamos nos tornando também, — disseram cem vozes, talvez mais. — Você é um eco que não é um eco. Você é nova. Holly começava a entender por que Elena parecia querer arrancar os cabelos depois de conversar com a Legião. — Afinal, o que isso quer dizer? Mas a Legião ficou quieta. Silenciosamente imóveis e depois voando silenciosamente em suas asas de morcego para se instalar por todo o interior do prédio, ou para voar diretamente para a saída do telhado que estava aberta para a garoa e nuvens portentosas de cinza mais escuro. Apenas um ficou, e foi ele quem a levou para dentro. — Diga-me o que isso significa? — Holly perguntou suavemente. — Por favor? — Que você é um eco que não é um eco. Você é nova. — Ele abriu as asas e foi embora antes que ela pudesse responder. — São como a pior versão possível de algum guru inescrutável! — Gritou Holly. Eles continuaram olhando para ela com aquela curiosidade estranha e inocência esquisita. — Volte, — disseram cem vozes. — Seremos novos juntos. Depois que você não for um eco. Levantando as mãos, Holly se virou para bater no peito de Venom. Ele a pegou pelos braços. Ela saiu do aperto e franziu o cenho, o rosto refletido pelas lentes de seus óculos de sol. — Sabe como falar com a Legião? Um sorriso lento. — Nossos amigos ficaram enigmáticos com você? — Fiz uma pergunta. — Ela apenas se impediu de arrancar os óculos de sol e pisoteá-los. — Ninguém fala Legião, exceto a Legião, — disse Venom, seus cabelos escuros brilhando com pequenas gotas de chuva, como uma joia. — O Sire e Elena


ainda estão tentando descobrir o significado de algo que a Legião disse a eles quando a Legião aterrissou pela primeira vez em Nova York. Holly olhou acima do ombro, onde as cortinas plásticas perturbadas pela passagem já haviam desaparecido. — Acha que eles começam a mexer com a cabeça das pessoas? — Não. — Uma pausa. — A Legião não é nada humana ou compreensível. Tente imaginar ter uma era de conhecimento dentro de você, saber tanto que as explicações são redundantes. Penso que, para eles, suas ideias são perfeitamente claras. Você é um eco que não é um eco. Holly não queria pensar nessa palavra: eco. Estava assustada e sabia exatamente o que isso significava. — Está me perseguindo? — Não há necessidade. Apenas segui o brilho cegante do seu cabelo. — Um homem que usa a mesma roupa repetidamente não tem espaço para criticar minhas escolhas de moda. — Jamais diria que parecia muito perigoso no terno cinza e camisa branca que sobreviveu à chuva ileso, exceto por uma gota aqui e lá. Protegido pela saliência parcial acima desta área de aterrissagem sem barrotes, ele logo secaria. Holly fez isso no calor do edifício da Legião. — Olhe para isso, — Venom disse agora que a troca de insultos acabou. — É uma foto sua falsa. Ela franziu a testa, pegando seu telefone. Foi um choque ver-se tão espancada. — Nunca ficaria assim, — disse ela, estalando as palavras em gelo. — Mesmo que me espanquem até a polpa. — Os indivíduos por trás disso claramente não pesquisaram seu alvo. — Venom pegou o telefone. — Esta é a melhor imagem manipulada, mas havia outras duas. Vivek foi capaz de rastrear endereços físicos para todos os fraudadores – pensei que deveríamos fazer uma visita, ver se algum deles retornou através de um canal que não podemos monitorar. — Vamos lá. — Holly queria chutar traseiros. Não esperando Venom, começou a abrir caminho pela videira. Ela o ouviu rir, e então estava se movendo ao lado dela. Pousaram ao mesmo tempo, pequenas gotas de chuva brilhando sobre a pele e roupa. — Não escala como eu, — disse ela,


curiosa apesar de si mesma. Ele era fluido como ela, mas seus ossos não se moviam do mesmo jeito. — Podemos comparar técnicas mais tarde. — Atravessando para onde estacionou seu distinto Bugatti, ele entrou, esperou que ela se assentasse. — Enviei para você os arquivos daqueles que disseram que a pegaram. Veja se reconhece algum nome. Todos são vampiros. Holly tirou o telefone, trouxe a lista que ele enviou. Ela realmente não esperava ver nenhum nome que conhecesse, mas... — Filho da puta. Esse babaca. — Qual? — Ele se afastou da Torre, o mundo além lavado em cinza. — Marlin Tucker. Desprezível de baixo nível que trata com informações quando não consegue lidar com alimentos para drogados. Vampiro. Cento e setenta anos. — Talvez o relacionamento de vocês o faça cooperativo. — Não temos um relacionamento. Ele é um dos contatos de Ash – ela acha que ele é idiota também, mas é um idiota que pertence ao cinza e as pessoas falam com ele. — Ela passou pelos outros nomes. — Não conheço mais ninguém, e esses endereços provavelmente não são reais se forem os oficiais em suas carteiras de motorista ou o que quer que seja. — Vivek mergulhou mais fundo. — Um olhar de lado por fora dos óculos que ela não podia ver. — Roupa legal. Pegando conselhos de moda com Dmitri? Holly estreitou os olhos para ele. Escolheu jeans skinny preto hoje, combinando com uma camisa preta com três quartos de manga e colocada por dentro do jeans; a roupa era complementada por botas que amarravam no meio da panturrilha. Não botas de ponta. Botas de trabalho. — Não vi Dmitri usar margaridas em qualquer momento ultimamente. — Essas margaridas decoravam suas botas. O sorriso de Venom era uma coisa perversa e selvagem. Real. — Definitivamente não, é mais Sorrow. Holly não tinha tanta certeza. Ela voltou seu nome para Holly por causa da tristeza nos rostos de sua família cada vez que a chamavam de Sorrow, mas a garota que foi desapareceu para sempre... e na madrugada, quando estava sozinha, o mundo distante, e ninguém podia ver sua vulnerabilidade, Holly lamentava por


ela. Por aquela garota esperançosa e encharcada de cor que amou a moda e que se apaixonou por um de seus professores. Com cabelos louros claro, um sorriso que vincava as bochechas, os olhos azuis claros e o hábito de usar Cardigans sobre suas camisas, ele fazia seu coração vibrar. Shelley e Maxie desafiaram Holly a dar em cima dele depois que se formassem, e rindo, ela aceitou a aposta. Porque naquela época, sua vida era assim. Uma bolha de alegria e possibilidade. Uma coisa leve e tênue. — Já perdeu quem você era? — As palavras saíram da sua boca antes que pudesse pensar sobre o que poderiam trair. Venom não perguntou sobre o que falava. — Foi há muito tempo, — disse ele. — Mais algumas décadas e serão quatro séculos depois que fui feito. — Janvier não é muito mais novo que você e ainda fala sobre suas irmãs, ainda vai ver seus descendentes. — Ele e Ashwini foram à Nova Orleans um mês antes para um fais do-do, que Holly aprendeu que significava festa; os dois voltaram com alegria escrita em sua pele e contas coloridas penduradas no guidão da motocicleta de Janvier. — As pessoas fazem escolhas diferentes. — A voz de Venom era fria, de uma maneira que nunca o ouviu falar – podia ter os olhos de uma víbora, mas na maior parte, Venom era zombadoramente divertido com o mundo. — O que planeja fazer? Ficar em contato com a próxima geração e a próxima, ou desaparecer? Holly franziu a testa e olhou para a escuridão, as nuvens tão carregadas nesse ponto que o mundo parecia mais perto de seis horas que logo depois de uma. Não era sobre ela. Mas uma sensação inerente de equidade fez com que respondesse a pergunta por que o empurrou para responder às dela. — Perdi minha família uma vez, — disse ela. — Nunca mais vou fazer isso. — Voltando-se para encará-lo, viu o aperto em sua mandíbula. Venom nunca agia assim. Isso importava. Não devia ser levado levemente. — Quero ser como Janvier, — disse ela. — Quero ter esses laços, ter essa sensação de estar enraizada na humanidade. Ele é o vampiro mais... Humano, pelo que conheço, além de Honor e Ash – e elas acabaram de ser Feitas, então não contam. Acho que é porque manteve laços fortes com sua família ao longo dos séculos. — Um ano atrás, seu ta-ta-ta-ta-multiplicado-por-que-sabe-quantos-ta-


ta-sobrinho-neto ficou com ele e Ashwini por seis meses enquanto o menino frequentava uma oficina de teatro em Manhattan. Venom lhe deu um olhar ilegível pelas lentes espelhadas de seus óculos de sol. — Combatendo o inevitável, gatinha? — Foi um murmúrio, a última palavra quase afetuosa. Seus olhos queimaram, sua garganta de repente engrossou. Voltando a olhar pela janela, assistiu o trânsito. As luzes das ruas começaram a piscar, seus sistemas desencadeados pela falta de luz. — Sei que não sou humana, — ela disse quando pode falar novamente, sua voz cáustica porque, de outra forma, poderia chorar. — Um pouco difícil perder os olhos verdes brilhantes e a capacidade de quebrar os ossos das pessoas sem tocá-las. — O quê? — O tom de Venom era duro. — É um novo desenvolvimento, — disse Holly, sua voz tão incolor quanto a paisagem à sua volta. — Estava lutando com Janvier e ele me mostrava como me mover e estava pensando que se eu pudesse obter o ângulo exatamente certo provavelmente quebraria o antebraço. — Bile queimou sua garganta. — Não planejava fazer isso – só pensando em como poderia ser útil numa verdadeira luta se eu pudesse deixar meu atacante fora de equilíbrio. — Ela engoliu em seco, o som doentio de ossos quebrando alto em sua cabeça. — E então, o braço dele estava quebrado. — Ele teria curado rapidamente, — disse Venom. — É velho e forte o suficiente. Isso não mudava que Holly feriu alguém que só foi bom para ela. Janvier até a convidou para a visita mais recente à família dele. Ela disse não, só porque queria passar tempo com Mia antes da mudança de sua irmã para Boston. O poder de Venom deslizou ao redor dela, uma coisa sinuosa e graciosa. — Ele pediu que fizesse novamente?


— Como adivinhou? — Uma ponta de surpresa na pergunta de Holly. — Porque esse é o trabalho dele. — Venom virou numa rua sombria com várias lâmpadas destruídas assim que a chuva trovejou de verdade, mas, apesar de ver tudo, apesar da visibilidade extremamente baixa, a parte alerta de sua natureza, sua mente estava na revelação de Holly. — Essa habilidade não é vampírica. — Não. Está mais perto de angélica. — Não, gatinha. Sabe, assim como eu, que está mais perto de arcangélica. — A ideia de tanto poder em seu corpo frágil... — Como ainda está viva? — Era uma pergunta séria. Arcanjos eram construídos para lidar com a violência do poder que vivia neles. Até mesmo Illium, o anjo mais forte entre os Sete, quase morreu quando a Cascata forçou um poder extraordinário em sua carne. Holly continuou olhando pela janela. — É apenas uma gota de poder, — disse ela com uma voz estranhamente tonta. — Ele cresce, em seguida, libera em violência súbita ou... — Ou? — Venom já deveria ter tido uma reunião sobre ela, mas outros eventos ultrapassaram a ordem normal das coisas quando um dos Sete voltou para a cidade depois de uma longa ausência. — Quer ver um truque legal? Venom olhou para ver Holly segurando uma mão... antes que ela desaparecesse da vista apenas para voltar a piscar. Ele respirou fundo enquanto voltava a atenção para a frente. Glamour, a habilidade de caminhar sem ser visto entre a população, era uma habilidade estritamente arcangélica. — Por quanto tempo não pode ser vista?


Holly riu quando a chuva passava de aguaceiro para chuvisco constante. — Quer dizer, por quanto tempo minha mão não pode ser vista? Porque essa é a única parte do corpo com a qual posso fazer meu truque de salão. Uma gota de poder. De repente, suas palavras fizeram mais sentido. — Mas pode invocar o poder pela sugestão? — Depende do dia da semana. Ele vem e vai. — Ela se moveu ligeiramente para a frente, apontando para a esquerda. — Esse é o endereço dos idiotas que pensam que eu me encolheria. Esse prédio de três andares com grafite de um dinossauro voador. Criativo. Venom parou seu veículo sabendo que ninguém o tocaria. Se o fizessem – bem, podiam apenas ser picados por uma víbora. Saindo para a abafada escuridão, olhou para o céu cinza carregado. — Foi informada da Cascata? — Chuva beijava as maçãs de seu rosto. *** — Não. O que é? — Holly perguntou, tentando não assistir a chuva sussurrar pela pele de Venom. — Não vou compartilhar a informação. Eu sei sobre não falar dos negócios da Torre. — Isso acarretava morte certa – depois de uma tortura hedionda. Ela já havia preenchido os dois. Venom não respondeu até que cruzaram a rua, seu corpo se movendo com graça líquida. Holly não podia evitar; o observou. Havia algo mortal em Venom. Não apenas poder, mas ele. Perguntou-se se ele era assim quando humano também, perigoso e bonito. Ela piscou, balançando a cabeça. Obviamente, se começava a pensar que Venom era bonito, era hora de quebrar seu celibato auto imposto e ir transar. Tinha a raiva primitiva dentro dela sob controle agora, não aterrorizaria os pobres que pegava nos bares. Sua mente passou por isso... a coisa com Venom ontem à noite, quando ficou cheia de loucura por ele – e ele riu. Porque ele também estava louco.


— A Cascata, — disse ele, uma vez que ficaram protegidos da chuva na sombra do prédio ao lado de seu local de destino, — É um evento único que causa grandes flutuações de poder e outras mudanças entre aqueles que são do Cadre. Os dedos de Holly subiram até a têmpora direita. — A marca de Raphael? — Sim, isso é parte disso. Como são seus novos amigos da Legião. — Venom digitalizou a rua vazia com foco letal. — A Cascata também tem efeitos desconhecidos sobre o clima. A escuridão da chuva de hoje pode ser um fenômeno natural, ou pode estar ligada à Cascata. Holly tinha a sensação de vislumbrar um vasto mundo de poder destruindo a terra muito além de seu entendimento – e talvez isso fosse como deveria ser. Para um imortal, ela ainda era apenas uma criança. Não estava destinada a conspirar com os arcanjos... ou com vampiros tão mortais quanto Venom. — Por que está me contando isso? Tirando os óculos de sol, ele agarrou seu queixo, segurando seu olhar. — Porque a Cascata afeta fortemente aqueles com sangue arcangélico. E Holly se alimentara de tanto sangue arcangélico que a mudou a um nível celular. — Meu truque de salão com a mão, quebrar o braço de Janvier, — disse ela sem cortar o contato com os olhos, — Podem estar conectados a esta Cascata? Um aceno de cabeça. — Não há como saber com certeza, mas explicaria por que está desenvolvendo habilidades que ninguém além do Cadre deveria possuir. — Ele passou o polegar sobre seu queixo, lento e deliberado. — Cuidado em quem confia, gatinha. Muitos pagariam mais de cinco milhões por uma mulher que possui até mesmo uma única gota de poder arcangélico. Apertando a mão sobre o pulso, a pele quente sob seu toque e seu poder se curvando em torno dela, tão forte que sentiu isso como um golpe em sua pele, ela se soltou. — Aprecio a informação e o aviso. — Ele lhe dera uma ferramenta para entender um pouco da loucura em torno dela, e estava agradecida, mas não podia deixar que a tocasse. Não quando todo o seu corpo parecia preparado para responder. Seus lábios se curvaram num sorriso que ela não conseguiu ler. Então, recolocando os óculos, ele saiu das sombras e subiu os degraus do edifício alvo. Holly seguiu, os dois parando na porta da frente. O corpo de Venom ficou desumanamente imóvel. — Está muito silencioso.


Olhando ao redor, Holly não viu sinais óbvios de problemas. — Podem apenas estar caídos depois de se drogarem com comida doce. — Parece muito certa. — Quando está numa situação assim, — ela indicou o ambiente sujo e grafitado, uma ilustração contundente de que esses vampiros não estavam exatamente vivendo o sonho, — Fuga, mesmo fuga ilusória, tem um poderoso atrativo. Venom empurrou seus óculos de sol para o topo de sua cabeça, o verde escorrido de seus olhos esmagando os dela. — Se alimentou de um viciado em drogas? — Não, — Holly disse sem rodeios, sem acrescentar que, nas mais sombrias profundidades de dor e desespero, pensou nisso, sobre o doce esquecimento de simplesmente deixar ir. Era a ideia do estado em que ficaria depois – fraca, vulnerável e incapaz de se proteger – que a impediu. Então, havia toda a coisa de sugar sangue-de-um-ser-vivo, que continuava a revirar seu estômago. Então, sim, não, obrigada, mas não pelas melhores razões. — Nós entramos ou o que? — Ela disse conforme Venom continuava olhando para ela com uma intensidade perturbadora, como se visse seus segredos mais terríveis. Colocando os óculos de sol novamente, colocou a mão na maçaneta da porta e virou. Não ofereceu nenhuma resistência, e entraram, fechando a porta. O ar que pendia pesado no interior do corredor que conduzia à pintura lascada da escada interna era imundo, com cheiro de corpos não lavados, urina... e mais. — Sangue velho, — Holly sussurrou num tom duro, seu intestino torcendo e balançando quando imagens de corpos mutilados e decapitados empilhados numa pirâmide vermelha – enquanto um arcanjo louco bebia de um copo cheio do sangue que ele drenara de uma vítima viva, empurrou-se para o seu cérebro. Dedos tocaram seu pescoço, apertando dolorosamente quando ela teria caído em pânico. — Foco, Gatinha. As duas palavras agiram como um balde de água fria jogado no rosto dela. Ela congelou, encontrou seu centro como Honor lhe ensinou, então respirou superficialmente pela boca. — Desculpe. — O calor inundou suas bochechas.


Liberando-a, Venom disse: — O cheiro reviraria o estômago de qualquer pessoa, ainda mais o de uma mulher que foi encontrada revestida por seu próprio sangue seco. Holly franziu o cenho, embora seu julgamento prático a fizesse parecer uma criança confrontada com um pesadelo. Mas, porque reagiu como essa criança, avançou à frente dele. Não seja estúpida porque tem medo e quer esconder isso. Faça isso e deixarei sua bunda preta e azul por uma semana. A voz de Ashwini em sua cabeça. E se alguma vez agir como um pintinho de filme de terror, eu vou ajudá-la a fazer lobotomia. Os lábios de Holly subiram uma fração, seus ombros curvados se ergueram. Certificou-se de que estava cautelosa e alerta, e de nenhuma maneira conduzida pelo medo conforme seguia pelo corredor. Chegando ao final dos degraus que levavam ao segundo andar, parou e olhou para Venom, lutando contra um inexplicável impulso interior que lhe dizia para escalar, ir mais alto. — Subir ou descer? — Seu senso de cheiro era mais agudo do que o dela; fazia sentido perguntar em vez de confiar em sua própria estranha compulsão. Ele ergueu os olhos ao longo da linha da escada, os fios úmidos e escuros do cabelo deslizando atrás. — O cheiro de sangue antigo é mais forte lá em cima. — Analisando o andar inferior e pegando as múltiplas portas de cada lado do corredor, ele disse: — Limitamos isso juntos. Holly não discutiu. Ash e Janvier ensinaram-lhe que nunca se deixa seu parceiro sozinho numa situação desconhecida. — Devemos bloquear a porta da frente. — Isso dificultaria alguém se esgueirar atrás deles e lançar um ataque furtivo. Removendo a chave antiquada da fechadura, colocou-a no bolso do jeans, assim que a lâmpada nua pendurada num fio no teto piscou por um segundo. Ocorreu quando entraram, e embora a luz fosse fraca, era melhor que a escuridão cinzenta da tempestade. Quando acendeu novamente, lançando sombras nos cantos, viu as costas de Venom enquanto ele abria a primeira porta. Nenhum sinal de vida, o quarto vazio


de qualquer coisa, exceto um sofá quebrado com queimaduras de cigarro nos braços, o enchimento de espuma visível onde o tecido sujo estava rasgado. Holly pegou a porta ao lado; meio que esperava que Venom tentasse liderar a busca, mas ele permaneceu atrás, uma presença alerta e atenta enquanto ela olhava dentro e pronunciava a sala livre de ameaças. Ele pegou a porta depois dessa, Holly a próxima, até completar o primeiro andar. Todas as paredes internas eram pintadas com uma sombra de azul esverdeado, a qual foi descolorida pelo tempo e fumaça de cigarro, adquirindo uma borda amarelada. Ostentava vários buracos, provavelmente causados por golpes, enquanto uma tinha uma grande mancha preta. Como se alguém tivesse jogado uma jarra cheia de tinta na parede. A maioria dos quartos estavam equipados com um sofá desdobrável ou um colchão sujo. As roupas estavam espalhadas tanto por sofás como colchões. Quartos iguais, ela percebeu. O último quarto provou ser uma sala de estar configurada com três grandes sofás arrumados em U de frente para uma tela de televisão curvada que ocupava a maior parte de uma parede. Ao contrário de qualquer outro item no lugar, a TV estava limpa e era de ponta. Um segundo depois, viu a caixa que segurava a TV. A falta de manchas ou teias de aranha parecia indicar que a televisão era uma compra recente. Holly agarrou o braço de Venom quando ele entrou para examinar os itens na mesa de café coberta de vidro assentada entre os sofás e a TV. — Agulhas, — disse ela, apontando para baixo. Seu lábio subiu. Tirando os óculos de sol, os enganchou na gola de sua camisa. — A mãe de alguém não o ensinou a manter uma casa limpa. Holly piscou. Embora tenha perguntado sobre sua família, nunca pensou em Venom como um homem que tinha uma mãe. E definitivamente, não uma que lhe ensinasse como manter a limpeza de uma casa. — Apenas tenha cuidado. — Os vampiros não eram vulneráveis a doenças, mas ser picado ainda era nojento – e desde a Queda, ninguém podia ter certeza de que uma agulha não foi adulterada com algum tipo de vírus ou infecção que pudesse afetar imortais.


Holly provavelmente não deveria saber que foi o Arcanjo Charisemnon que criou a doença que atingiu vampiros e fez cair anjos do céu, mas era difícil trabalhar na Torre com vampiros de alto nível e não pegar informações. Depois do que Venom disse a ela lá fora, achou que Charisemnon ganhou um gene que causava doenças na Cascata. Não era um dom que ela quisesse, mas não era um arcanjo inclinado ao poder. — Suponho que há muitas seringas por aí, — disse ela. — Os vampiros injetam nos viciados logo antes de uma alimentação doce, de modo que o barato é mais forte, dura mais. Ninguém está preocupado com as seringas depois. Assentindo, Venom caminhou até seu destino original. Pegou algo retangular com bordas quadradas, abriu a mão para deixá-lo cair. — Uau. — Holly olhou para as notas de cem dólares flutuando de sua mão, e voltou a encarar a nova TV. — Os vampiros que vivem nesta área não têm acesso a esse tipo de dinheiro. — A maioria estava fora do contrato e gastou o dinheiro que receberam quando o contrato finalizou – mas não encontraram empregos bem pagos depois disso. Venom esfregou um pó branco entre os dedos, levou-o aos lábios para experimentar. — Cocaína. Pela quantidade de pó nesta mesa, é provável que seja a fonte do dinheiro. — Sacudindo as mãos, ele disse: — Vamos lá. Não há ameaça aqui. Holly se dirigiu aos degraus na frente dele, a presença dele um perigo frio e sedoso nas costas. Sabia que ele podia matá-la tão rápido quanto um ataque de cobra – Venom podia usar ternos de três peças e parecer ter saído de uma filmagem de revistas de moda, mas era um predador sob a pele. Sangue podre. Urina velha. Outros fluidos corporais mais nocivos. Holly apertou uma mão contra o estômago enquanto tentava não respirar o cheiro cada vez mais fétido. — Eles estão aqui... e provavelmente estão mortos, certo? — A ideia fez seu estômago revirar, a resposta primordial. — Não necessariamente. Nossos alvos não são humanos. Exalando, Holly assentiu. Vampiros podiam sobreviver significativamente a mais perda de sangue que os humanos. Podiam até sobreviver à amputação de múltiplos membros em circunstâncias traumáticas. Ouviu que os membros


acabariam por crescer novamente – mas para a maioria dos vampiros, isso levaria um longo, longo, longo tempo. Não era como se fossem anjos, afinal. Para vampiros como Dmitri e Venom, no entanto, tinha a sensação de que a linha de tempo era mais curta – muito mais curta. — Já perdeu um membro? — Perguntou num esforço para se distrair do cheiro. — Uma vez, — Venom respondeu facilmente, à medida que avaliavam o layout deste andar. — Foi em batalha – meu braço esquerdo. — Quanto tempo para se regenerar? — Três quartos do ano. Eu era muito mais novo então. Três quartos do ano ainda não eram nada em comparação com a grande maioria dos vampiros. Holly conhecia um vampiro centenário que perdeu seu mindinho numa briga de bar quando outro brigão o mordeu. Um mês depois do incidente ainda era um toco esfarrapado. — Irei primeiro para esses quartos, — disse Venom, seus olhos brilhando nela. Holly endireitou a coluna vertebral. — Não preciso ser protegida. — Sou mais forte. Se esses vampiros estão enlouquecidos por drogas, prefiro derrubá-los depressa que assistir você falar. Holly mostrou-lhe o dedo. Idiota. Alargando o sorriso, levou-o de bonito para fodidamente bonito, o belo idiota virou e caminhou até a primeira entrada. Holly observou suas costas ao invés de ceder à sua bizarra compulsão de entrar naquela sala. Ele não falou nada sobre a sala, embora passasse trinta segundos de pé na entrada. Rapidamente verificou os outros quartos. — Vamos limpar o terceiro andar, — disse ele após terminar. — Então podemos lidar com a bagunça do primeiro quarto. — Ele acendeu uma luz no corredor, como se não houvesse mais nenhum motivo para sigilo. Os cabelos arrepiaram na nuca de Holly.


Holly teve que conscientemente se afastar da sala no segundo andar. O terceiro andar estava pesadamente grafitado e cheio de garrafas de licor e mais seringas, bem como – aleatoriamente – vários frascos de leite estragado. Mas estava desprovido de vida – ou de corpos. — Moravam como porcos, — disse Holly, caminhando ao redor de uma calcinha jogada no chão. — Até mesmo os meus amigos desabrigados vivem mais arrumados que isso. — Alguns vampiros acham a vida fora de um contrato desafiadora, — disse Venom. — São doutrinados a seguir ordens por seus anjos – ter que tomar suas próprias decisões os deixam hesitantes. Holly ficou assustada. — Sente pena por eles? — Não, — ele disse sem rodeios. — Não tenho simpatia por aqueles que preferem ficar em gaiolas douradas que ralar para ganhar a vida em liberdade. — Há alguns que não podem, — disse Holly suavemente, pensando em Zeph e seu rosto cheio de marcas. — Estão muito quebrados pelo que foi feito a eles. Os olhos de Venom permaneceram implacáveis. — A menos que fossem Feitos à força, esses vampiros optaram por entrar num Contrato em troca da quase imortalidade. As escolhas têm consequências. Enquanto Holly sentia lástima pelo vampiro quebrado, não podia discutir a verdade das palavras de Venom. Essa verdade era a mesma razão pela qual a Sociedade de Caçadores poderia, sem culpa, fazer o trabalho deles na recuperação de vampiros que fugiam de seus Contratos. Porque todo mortal no mundo testemunhava repetidamente quão cruéis os imortais podiam ser. Qualquer escolha feita para entrar nesse mundo como um adulto com pleno uso de suas faculdades era feita com os olhos bem abertos. — Pelo menos com um contrato adequado, — ela murmurou, — Há uma data final. Minha sentença está em aberto.


— A vida é o que você faz dela, gatinha. — Venom passou os dedos por cima do longo rabo de cavalo. — Prove-se a Dmitri e Raphael e nunca terá que se preocupar com sua liberdade. Holly torceu os lábios, se afastando do toque dele. — Realmente acha que Raphael permitirá que uma ameaça viva prospere em seu território? Presas piscando enquanto sorria. — Realmente acredita que Dmitri não é uma ameaça? — Ele não está contaminado por Uram. — Fui feito por Neha. Quando Holly ficou apenas encarando-o, ele disse: — Esqueci que você não está ciente das correntes políticas no mundo dos arcanjos. Digamos apenas que Neha e Raphael não são mais amigos, como antes. Se pudesse, Neha separaria a cabeça de Raphael de seu corpo e riria enquanto faz isso. No entanto, Venom, que carregava a marca de Neha de uma maneira que ninguém podia deixar de perceber, caminhava ao lado de Raphael. — Venha, — disse Venom antes que ela pudesse responder, — Temos negócios para atender. Holly precisava entrar naquele quarto que cheirava a sangue velho e outras coisas feias, necessitava ver o que estava dentro, mas tinha mais uma pergunta a fazer. — Sei que Raphael é muito poderoso para se preocupar com você ser uma ameaça para ele pessoalmente, mas Dmitri e os outros... Não se preocupam que você ainda possa ser leal a Neha? — Você me chama de víbora. Alguns acreditam que sou uma, uma cobra no ninho. — A voz de Venom ficou monótona, seus olhos frios. — Mas Dmitri e os outros Sete? Janvier? Trace? Não. Os laços entre nós – e com Raphael – foram forjados há muito tempo e se tornaram inquebráveis por incontáveis atos de confiança e fidelidade. — Chamo você de víbora por causa dos seus olhos e de sua cobra no geral, não porque pense que é uma espécie de grande traidor, — disse Holly com uma careta. — Pare de me chamar de gatinha e Hollyberry e vou parar de te chamar de Cara de Víbora e Venenoso.


Seu riso enviou ondulações por sua espinha, fazendo com que a respiração falhasse. — Mas, gatinha, — ele disse; o gelo já não em evidência, — Não acho que seja uma troca que quero fazer. Fascinada por como os olhos dele brilhavam quando ele ria, Holly teve que apertar os dentes para controlar sua reação inexplicável. Uma resposta puramente sexual, ela teria entendido: Venom era sombrio e tinha um corpo que – nem mesmo ela podia negar – era a fantasia feminina. Mas querer vê-lo rir, sentir essa risada envolvê-la como um beijo de corpo inteiro? Era estranho. Com um lembrete severo para ela mesma de que ele a mataria se mostrasse a menor indicação de ser um perigo para a Torre, desceu as escadas até o segundo andar, e, ombros erguidos, ela virou para a sala de sangue velho que a atraía com tanta força. Venom não a impediu, mas sua presença rastejante ficou repentinamente muito próxima. E ela pensou: Ele me pegará se eu cair. Deus, ela realmente estava se perdendo. Então, estava lá, na entrada. No início, teve dificuldade em descobrir o que via na escuridão criada pelas cortinas fechadas, a única iluminação vinda do corredor às costas... e a pequena luz sobre a mesa de bilhar. Horror queimou em seu cérebro instantaneamente. Um braço, preso a nada, tendões sangrentos saindo dele. Três cabeças se alinhavam perfeitamente na mesa de bilhar. Um ser sem cabeça ou pernas, o tronco sangrento apoiado junto à lareira, como se estivesse esperando para se inclinar para a frente e recebê-los. Duas mãos esquerdas deitadas lado a lado no tapete sujo. — Onde estão o resto dos pedaços? — Ela disse através do zumbido em seu crânio que eliminava tudo. — Olhe para a direita. Ela viu, viu a pilha nas sombras. Torsos. Braços. Pernas. Tudo empilhado de forma ordenada, como se alguém não quisesse fazer uma bagunça. Venom falou, sua voz suave. — Este é seu pesadelo, não é, Hollyberry? — Sim. Foi por isso que entrou no quarto dos horrores e, engolindo a bílis, andou com atenção para aquela pilha. Não havia esconderijos neste quarto decorado apenas com cadeiras, poltronas velhas, e aquela mesa de bilhar iluminada


transformada numa exibição macabra, mas viu muito horror para abaixar a guarda. Sabia que alguns monstros podiam caminhar até você e você nunca os veria. Uram usava glamour quando levou Holly e suas amigas. Elas não tiveram chance. A única razão pela qual não se preocupou foi por que Venom estava lá. Ele a executaria se perdesse sua mente para o mau que vivia nela, mas até então, a protegeria da mesma maneira que faria com qualquer outro parceiro. Quanto mais perto ela chegou da pilha de partes de corpos, quanto mais real se tornava, maior era a vontade de gritar. Ossos escavados, quebrados e branco brilhantes. Uma corda de intestino estava enrolada ordenadamente em torno de um tronco. Duas mãos direitas de mãos dadas, os dedos entrelaçados. — Tem certeza que Uram não voltou à vida? — A pergunta saiu quase sem som. — Uma dessas cabeças, — disse Venom, de onde estava junto à mesa de bilhar, — Coincide com a foto de identificação que Vivek conseguiu localizar do caçador de recompensas que enviou sua imagem muito bem adulterada. Os outros dois combinam com fotos de membros conhecidos de sua equipe. Decidindo que enfrentou seu medo o suficiente, Holly recuou da pilha de carne que já foram seres vivos e se virou para Venom. — A cocaína, o dinheiro do tráfico de drogas que encontramos ao redor, seringas usadas em todos os lugares – parece que os três não eram cidadãos de extrema prioridade. Todos os tipos de coisas poderiam ter voltado para mordê-los na bunda. — Não havia como saber se esse massacre estava ligado à recompensa pela cabeça de Holly. — Um vampiro psicótico, ou mesmo um viciado humano muito louco, poderia ter feito isso caso os três estivessem apagados pela alimentação doce. — Possível. Teremos uma ideia melhor quando rastrear os outros que enviaram relatórios falsos. — Venom enfiou as mãos nos bolsos das calças do seu terno. — Suponho que é melhor ligar para uma equipe de limpeza. — A regra da Torre é que devemos chamar a polícia, a menos que seja um problema que requer tratamento da Torre. — Ou se tratasse de segredos angélicos.


— Acho que os bandidos comuns sendo cortados é provavelmente uma chamada policial. — Me inclinarei para seu maior conhecimento sobre o assunto, — disse Venom sem nenhum sinal de zombaria. Foi quando Holly estava pegando o telefone para fazer a ligação que um leve suspiro sussurrou no ar. A membrana cobriu os olhos de Venom, sua cabeça se inclinou para aquela pilha de partes frias de corpos. A audição de Holly não era suficientemente afiada para identificar a origem do som, mas não havia literalmente nenhum outro lugar em todo o quarto onde alguém – ou algo – pudesse se esconder. — Jesus. — Deslizando seu telefone, ela se moveu para a pilha com Venom. Ela tinha uma faca muito perigosa escondida ao lado de sua bota, a arma com que treinou extensivamente. Trabalhar nas sombras exigia que aprendesse a lidar com armas, mas teve dificuldades com armas; simplesmente não pareciam bem em suas mãos. E, dada sua velocidade, uma faca também funcionava – ainda melhor quando se tratava de situações que exigiam silêncio. Mas hoje, decidiu não alcançar a lâmina. — Vigie, — disse ela a Venom. Ele era mais forte, podia reagir mais rápido à possível ameaça. Então, embora seu estômago se retorcesse e agitasse, bile queimando a parte de trás da garganta, se forçou a mover as partes do corpo para um lado, tentando pensar nas peças não como carne, mas como objetos inanimados. Era difícil quando a pele era doentiamente flexível debaixo dos dedos e quando o cheiro de sangue putrefato e outro mais desagradável... — Não, não. — Horror esfriando a pele, se ajoelhou na frente da magra mulher nua coberta de sangue que estava encolhida na parede. Os joelhos e braços enfiados no peito e os olhos brilhantes, ela respirava em pequenos suspiros superficiais. Era uma maravilha que pudesse respirar – sua garganta foi cortada. Vampira. Holly colocou a mão sobre a ferida da mulher. — Venon. Alimente-a. — Ela faria isso sozinha, mas seu sangue estava contaminado, podia fazer mais mal que bem.


— Incline a cabeça e abra a boca, — ordenou Venom. — Não quero ter que arrancá-la se ela começar a devorar. Eu poderia matá-la. Coração batendo como um cavalo de corrida, Holly usou sua mão livre para apertar o maxilar da mulher até que sua boca se abriu para revelar presas não muito maiores que as de Holly, conseguindo inclinar a cabeça. Sangue gotejou na boca da vampira de cabelos castanhos, Venom se cortou usando uma navalha de bolso que, de alguma forma, nunca esperava que estivesse carregando. Ele colocou o pulso sobre a boca da mulher. Quando – porque as presas da mulher não estavam enterradas na pele dele – a ferida começou a se curar, ele a abriu novamente. A mulher magra com pele branca pálida não reagiu por pelo menos cinco segundos – um período quase impossível para um vampiro faminto ingerindo sangue poderoso, e então ela se empurrou tão forte para Venom que se Holly não a estivesse segurando, teria apertado o pulso dele. Venom puxou o pulso ao mesmo tempo, cortando o fluxo de sangue e fazendo a vampira gemer tristemente. — Venom. — Ela não pode com mais. Não sou um bebê vampiro, gatinha – meu sangue já é velho. E se eu fosse você, observaria minha garganta. Holly se afastou apenas a tempo. A mulher levantou surpreendentemente rápido para acabar nas mãos e joelhos no tapete desgastado. Cabelos sujos pendurados ao redor dos lados do rosto, olhos brilhantes de vermelho, ela sibilou para Holly. Holly viajou de volta no tempo. Estava muito assustada para assobiar a Elena quando a caçadora a encontrou, mas estava tão quebrada. — Estamos aqui para ajudá-la, — disse gentilmente. A mulher gritou e se soltou de Holly, movendo-se velozmente de quatro pelo tapete. Holly recuou, não querendo ferir uma vítima traumatizada. A vampira despencou sobre o tapete como uma boneca com suas cordas cortadas. Holly olhou para Venom. — Por que você fez isso? — Ele derrubou a morena com um simples golpe na nuca. — Realmente não tenho tempo para brincar de perseguir uma vampira feroz, — ele disse levemente. — E isso não é mais negócio de policiais.


— Por quê? — Foi verificar se a vampira estava viva, e encontrou um pulso espasmódico. — Ela parece uma viciada. Provavelmente se assustou após testemunhar o massacre. — Vampiros não mantêm drogas por tanto tempo dentro de si mesmos, — lembrou Venom. — Ela devia estar debaixo dessa pilha de partes de corpo o suficiente para que as partes ficassem geladas e o sangue coagulasse no chão. E a alimentei com meu sangue – isso deveria a ter chocado para a plena consciência. Ela agia... Não como um vampiro com sede de sangue, mas perto. Holly sacudiu a cabeça. — Ela agia aterrorizada e psicótica. — Impulsionada pelo impulso primitivo de sobreviver. — É assim que você age quando foi abusado e quase assassinado. Venom guardou o telefone após ligar para a Torre. — Ela não é você. — Foi um comentário estranhamente gentil. — Talvez ela seja. — Holly afastou o cabelo marrom sujo da mulher de seu rosto e depois virou as costas para ela. — Ela é muito magra. — Mais magra que a assombrosa forma esbelta vampírica exibida pelos vampiros mais velhos, que eram tão refinados pelo vampirismo que ficavam etéreos em sua beleza. — Por que Dmitri não parece com os antigos vampiros? Aqueles que são todos esbeltos e pele translúcida? — Ela perguntou; um pensamento que nunca contemplou. — Ele é todo duro, mesmo depois de mil anos. — Ele é um guerreiro e permaneceu um guerreiro ao longo do tempo, — disse Venom, vindo a agachar-se pela mulher. — O vampirismo nos molda como nós escolhemos nos moldar. Para Dmitri, isso significa que seus músculos são mais fortes, mais difíceis de ferir. A mulher tossiu, suas pálpebras começando a vibrar. O sangue de Venom. Não teria se recuperado rapidamente de outra forma. Mas ainda não estava lá e, desde que poderia ficar feroz novamente quando acordasse completamente, Holly aproveitou esta oportunidade para escanear o resto dela. — Contusões, — ela disse, apontando as visíveis mesmo através da ferrugem vermelha de sangue seco. — Provavelmente de ser jogada na parede. — Havia uma massa notável na parede contra a qual a vampira se encolhia.


— Quem matou os outros três provavelmente cortou sua garganta e jogou-a na parede, pensando que o trabalho estava feito, — murmurou Venom. — Ela é jovem o suficiente para morrer – mas o corte da garganta deve ter sido apenas descuidado o suficiente para dar-lhe uma chance de sobrevivência. Ele inclinou a cabeça da mulher ligeiramente para o lado para olhar a ferida. — Parece que o assassino não cortou a medula espinhal. E ela teria sangue caindo no rosto das partes de corpo por um período. Algum entrou na boca dela. Às vezes, nos piores momentos, Holly se perguntava se ela tinha um branco na memória, se Uram a fez se alimentar do sangue de suas amigas mortas. Recordar algo assim poderia conduzir um sobrevivente já meio louco a completamente louco, então talvez tivesse escolhido esquecer. — Essas contusões, no entanto, — Venom disse antes que o horror pudesse escavar seu cérebro, — Foram feitas por uma mão agarrando forte e a cor deixa claro que são mais velhos. — Ele apontava as marcas na coxa da mulher. — Ela deve ser muito jovem se está curando isso lentamente. — Não é sempre uma questão de idade. Alguns vampiros de dez mil anos serão sempre fracos. Outros serão poderosos com duzentos. Holly assentiu. Em torno de dois séculos e meio de idade, Janvier era um exemplo da caminhada deste último. — Parece que a perna foi quebrada recentemente. — Havia uma cicatriz irregular na canela direita, como se o osso tivesse atravessado. Levantando, Venom rodeou a morena magra. — A sola dos pés está queimada. Cicatrizada. — Sua voz era fria. — Isso é tortura. Os olhos azuis aquosos da mulher, olhos inchados em vermelho sangrento, se abriram. E desta vez, se concentraram em Venom. Seu medo era uma ondulação perversa em seu corpo, uma pequena criatura que se encolhia de medo. — Por favor. — Um sussurro raspado. — Não mais. Deslizando seus óculos de sol, Venom se encolheu ao lado da mulher caída. Então, para surpresa de Holly, o vampiro mais bem vestido conhecido, deslizou o braço atrás das costas da imunda mulher e a ajudou a se sentar com um cuidado gentil. A mulher estremeceu violentamente, seus ossos tremendo. Tirando seu terno – que provavelmente custava milhares de dólares – Venom o colocou em torno de seus ombros.


A morena apertou as lapelas sobre os seios nus, olhando para Holly, parecendo tão esperançosa que era tudo que podia fazer para não chorar. Holly pensou no que sua mãe faria se encontrasse alguém assim, e estendeu a mão para tirar o cabelo sujo da mulher do rosto. Soluçando, a vampira caiu nos braços de Holly. E disse: — Eu pensei que estava morta. Sinto muito. Pensei que estivesse morta. As palavras não faziam sentido... e provocaram um arrepio pela coluna de Holly. — Holly. Ela olhou para Venom, assustada com o uso de seu nome verdadeiro. Ele falou calmamente. — Veja as presas dela. Há algo não normal nela.


Holly queria dizer para ele se foder. Essa mulher poderia ser ela há pouco tempo. Mas o anel vermelho ao redor dos olhos da vampira quebrada era um aviso que não podia ignorar. Segurando-a, no entanto, se certificou de que estava muito consciente da boca e das presas da mulher. A vampira chorou até cansar... então se afastou tão forte que se arrancou dos braços de Holly. Escorregando para trás como um caranguejo até suas costas alcançarem o monte de partes de corpo, ela ficou eriçada, respirando fortemente e com os olhos fechados. Tão apertados quanto as mãos que agarravam as lapelas do terno de Venom. Holly quase esperava que os olhos vermelhos sangue encontrassem os dela quando a mulher baixou os cílios. — Ajude-me. — Desta vez, sua voz era tão áspera quanto lixa grossa. Venom estava lá antes que Holly o visse se mover. Agarrando os pulsos da vampira com uma única mão, usou a outra para segurar a mandíbula com força suficiente para que ela não pudesse virar a cabeça e tentar afundar suas presas nele. — Lute com isso, — ele ordenou. — Tem meu sangue em suas veias agora. Você tem poder. A garganta da vampira se moveu quando ela engoliu. — Mais, — ela implorou num tom sussurrante, o qual era estranho por sua falta de humanidade. — Por favor. Holly esperava que Venom dissesse um frio não, mas ele disse: — Holly. — O que quer que eu faça? — Segure os pulsos dela. — Pronto. — Os ossos da mulher pareciam os de um pássaro, tão magros e frágeis – mas Holly não se enganava. A estranha ainda era uma vampira.


Levantando o próprio pulso até a boca, Venom abriu uma veia e, inclinando a cabeça da mulher com o punho na mandíbula, gotejou o sangue na boca dela. A mulher engoliu freneticamente, o sangue salpicando os lábios quando ela o perdia. — Basta, — ele disse depois de alguns momentos, quando sua veia começou a fechar naturalmente. — Vai morrer se tomar mais de mim. Holly olhou para ele. Estava certo, é claro que estava certo. Era muito poderoso para um vampiro fraco tomar... mas deixou Holly tomá-lo até se saciar na noite passada. O que dizia certas coisas sobre ela que Holly não queria encarar agora. A vampira lambeu em torno de sua boca para obter todas as gotas salpicadas e, naquele instante, não era humana. Mas um segundo depois, ela sorriu e seus olhos estavam desprovidos de vermelho. — Obrigada, — ela sussurrou, lágrimas rolando por suas bochechas novamente. — Não me sinto limpa desde... muito tempo. — Qual seu nome? — Perguntou Holly. — Meu nome? — A mulher olhou para ela sem entender. — Eu... Eu tive um, uma vez. Não me lembro. A fúria de Holly era uma raiva fria em seu coração. — Que tal Daisy? Pode ser seu nome temporário até se lembrar do verdadeiro. — Todos devem ter um nome, devem ter a dignidade de uma identidade. — Ou pode escolher outro nome que goste. Um sorriso instável. — Gosto de Daisy, é bonito. — Olhe para mim, Daisy. — Venom não levantou a voz, mas exigiu atenção, no entanto. Daisy virou a cabeça e, depois de examinar o rosto dela, Venom soltou sua mandíbula, embora tenha olhado para Holly para garantir que ela segurasse os pulsos de Daisy. — O que está fazendo aqui? — Ele perguntou à vampira. — Estava com um dos mortos? Uma forte sacudida da cabeça de Daisy, ódio no olhar que atirou em direção às cabeças decapitadas alinhadas na mesa de bilhar. — Meu mestre me deu por uma semana, — ela cuspiu. — Para recompensá-los por algo. O estômago de Holly torceu. É por isso que nunca se inscreveu voluntariamente para um Contrato normal. Aqueles sob contrato tinham poucos


direitos. Por cem anos eram brinquedos dos anjos. Nem sempre era assim, é claro. Dmitri estava com Raphael desde o início, e disse coisas que faziam Holly pensar que os dois eram amigos mesmo antes de Dmitri ser Feito. Janvier saiu da corte de Neha muito mais educado e experiente em viagens e diplomacia do que quando entrou; também foi treinado em como usar lâminas kukri com habilidade letal. Ashwini era tratada como um trunfo pela Torre. Então, nem todos os que estavam sob Contrato eram destinados a uma vida infernal, mas não havia como saber, havia? Você poderia acabar com alguém poderoso, mas humano como Illium, ou poderia acabar com um bastardo que o emprestava a seus amigos para eles abusarem de você. — Quem é seu mestre? — Perguntou Venom. — Ele vai me machucar se eu contar. — Foi um sussurro rouco. — Não voltará para ele, — disse Holly antes que pudesse se impedir. A cabeça de Venom se ergueu, virando para ela. Mas ela se recusou a recuar. — Vou falar com Elena, — disse, falando com ele e Daisy. — Ela vai ajudar. — A caçadora da Sociedade tornou-se anjo, mas ainda era humana por dentro, não olhava para o mundo através dos olhos cansados de um imortal. — O nome do seu mestre, — disse Venom, voltando sua atenção para Daisy. Desta vez, sua voz exigia obediência absoluta. Daisy não tinha esperança de ficar contra ele. — Kenasha, — ela sussurrou. — Meu mestre é Kenasha. A expressão de Venom não mudou. — Quando se inscreveu para ser dele? Era uma pergunta estranha. Os vampiros não conseguiam escolher sob qual anjo serviram seu Contrato – a Torre estava encarregada de atribuir novos vampiros aos anjos. E nem todos os anjos se qualificavam; eles precisavam ser fortes o suficiente para controlar os vampiros recém-nascidos. Holly sabia que deveria haver outros pré-requisitos, mas nunca teve motivos para descobri-los. — Ele é meu mestre... Há muito tempo, — Daisy disse sem vida. — Não lembro. — Seus olhos voltaram para Holly. — Pensei que eu conhecia você. Mas não lembro mais. Por que não lembro? — Está tudo bem, — Holly a acalmou antes que Daisy pudesse entrar em pânico. — Está exausta e fraca. Falaremos quando estiver mais forte.


Havia ruídos mais baixos na casa, som de um movimento constante e desconhecido ecoando nos degraus. Venom olhou por cima do ombro. — A equipe da Torre chegou. Holly se forçou a libertar Daisy para o cuidado dessa equipe. — Ela precisa de atenção médica, — disse aos poderosos vampiros que responderam ao chamado de Venom. Eles a ignoraram. Holly aprendeu a viver com a realidade de ser a mais baixo não-mortal no totem da Torre, mas ainda a fazia ranger os dentes... como se algo dentro dela sussurrasse: pode matar todos. Estrangulando aquela voz louca que tentava fingir que não existia, se ancorou firmemente ao aqui e agora – onde era estranha, mas não pulsava com poder naqueles à sua volta. Os vampiros da Torre viraram seus olhos frios e perigosos em direção a Venom. — Leve-a para a enfermaria, — ele disse, indicando a forma curvada de Daisy. — Mantenha-a longe de qualquer outra pessoa – e sob guarda constante. Quero que o sangue dela seja testado. Terá o meu misturado com o dela. — Sim, senhor. — Dois dos vampiros saíram com uma Daisy de aspecto aterrorizado, dois ficando atrás. Holly notou com um canto de sua mente que todos usavam capas de plástico em seus sapatos. A última coisa que Holly viu antes que os três desaparecessem de vista foram os olhos em pânico de Daisy quando a mulher se torceu para olhar para Holly, lágrimas rolando de sua íris. Não prestes a deixar a fraca e abusada vampira sozinha entre estranhos, Holly se moveu para ir atrás dela. Venom fechou a mão sobre seu bíceps, segurando-a no lugar. — Não pode ajudá-la. — Uma declaração implacável. — Foda-se. — Ela tentou se afastar do aperto dele, falhando. — O que farão com ela? — Exatamente o que eu disse. — Liberando-a apenas quando era tarde demais para alcançar os que tinham Daisy, ele falou com os outros vampiros que atenderam. — Limpem essa bagunça e me falem sobre algo incomum que encontrarem. — Sim, senhor. — Poderia haver pistas aqui, — murmurou Holly, esfregando o braço.


Os óculos de sol de Venom ainda estavam postos, mas podia dizer que olhava para o lugar onde a agarrou e onde agora estava esfregando. Ela deixou a mão cair, não querendo parecer fraca ou suave diante dele. — Eles são uma equipe forense totalmente treinada, — ele disse a ela assim que os outros disseram que iriam recuperar o equipamento da van. — Vamos deixálos com isso. Holly necessitava admitir que estava feliz por sair; ainda estava cinza escuro e garoando levemente, mas o ar que puxava para dentro de seus pulmões estava alegremente fresco. O cheiro dentro havia começado a chegar até ela. — Por que perguntou a Daisy? — Ela perguntou depois que Venom desligou uma chamada de voz baixa. — Sobre quando se inscreveu para servir este bastardo de Kenasha? Quando Venom olhou para ela, ela estendeu a mão e tirou os estúpidos óculos de sol. Estava meio tentada a jogá-los na calçada e pisoteá-los, mas, sabendo que provavelmente valiam seis meses de seu salário, os fechou perfeitamente antes de apertar os dedos em torno deles. Ele sorriu para ela, gotículas de água pingando de seus cílios. — Quando vai me devolver? Nunca. — Talvez se responder minha pergunta. Esperava que ele a bloqueasse. Se isto fosse negócio da Torre, ela não tinha direito à informação. Falou para cortá-lo enquanto atravessavam a rua para onde ele deixou o carro. Claro que ainda estava lá, sem um arranhão. — Sou parte da equipe que trabalha nesta seção da cidade. Preciso saber se algo que não deveria está acontecendo. Não sabia se foram suas palavras, ou se decidiu confiar nela – afinal, ela deixou claro que não estava prestes a incorrer na ira de Raphael derramando segredos – mas ele disse: — Sei quem é Kenasha e, como eu suspeitava, ele atualmente, não tem vampiros listados sob seus cuidados. A última palavra foi dura. Holly franziu o cenho, seus olhos traçando uma gota de água que escorria pelo brilhante verde víbora do capô do carro. — A Torre não lhe atribuiu Daisy? — Não. Kenasha nunca foi designado para vampiros recém-nascidos. — Destrancando o carro, esperou Holly entrar, então ele entrou. — Se o anjo


oficialmente encarregado dela quisesse transferi-la, ele ou ela deveriam ter contatado a Torre. — Por quê? — A mão vazia de Holly apertou, as palavras de Daisy sobre ser dada aos três vampiros mortos como recompensa ricocheteando dentro de sua cabeça. — Não é como se a Torre interferisse para impedir que recém-formados fossem abusados. — Eles fazem sua escolha, Holly, — Venom lembrou-a sem um toque de simpatia na voz. A outra mão de Holly apertou ao seu lado, sobre seus óculos de sol, algo que Elena disse a ela mais de dois anos antes se erguendo à frente de sua consciência. Holly sentia pena de um vampiro que a Caçadora da Sociedade recuperou recentemente quando Ellie a colocou no lugar com o cinza prateado de seu olhar. E então ela fez uma pergunta. Se tivesse escolhido, teria escolhido assinar mais de um século de sua vida pela promessa de centenas, talvez milhares de anos de vida? Holly havia dito: — Não, — com extrema finalidade. Ela cresceu numa cidade cheia de vampiros e anjos, viu o que significava fazer parte do mundo imortal. A beleza sombria e sedutora, a riqueza... e o horrível terror. Raphael já havia deixado o corpo destruído de um vampiro na Times Square por três horas terríveis, as quais deixaram Nova York em silêncio, o sangue das pessoas ficando gelado pelo medo visceral. O rumor era que o vampiro o traiu. Quando Raphael passou com ele, o corpo do vampiro estava preso por apenas alguns tendões fibrosos. Sua mandíbula estava errada, a pele rasgada, e a carne perdida em alguns lugares. Holly havia vomitado após ver os noticiários. Não, nunca teria escolhido servir seres tão distantes da humanidade que poderiam fazer isso com outro ser vivo. Ainda não entendia como Elena podia amar um arcanjo que podia dar tal castigo – mas traição era traição. E os imortais tinham vidas tão longas e uma habilidade tão intensa de curar que esse castigo tinha que ser perverso para contar. — O que significa a transferência do contrato não ser primeiramente administrada pela Torre? — Perguntou, depois do gelo no sangue dela.


— Provável política mercenária. — As luzes do Bugatti atravessaram o peso da tempestade, mas a chuva contra o para-brisa fez com que eles parecessem estar envoltos num mundo além da vida e do caos de Nova York. — O motivo da regra, — continuou, — É que assim, incompetentes como Kenasha não arruínam vampiros inteligentes que poderiam se tornar ativos em longo prazo. — Suas mãos guiaram o carro com uma facilidade que o fez parecer sem esforço. — Também não deixaria um anjo de baixo nível construir um harém de jovens vampiras – além de questões de controle, há uma hierarquia. — Aqui eu pensando que era para proteger os vulneráveis. — Daisy teria arrancado sua garganta, então enterrado o rosto na ferida e se alimentado de seu sangue até que estivesse saciada. Holly colocou os óculos de sol no banco ao lado dela antes de quebrá-los. — Ela estava obviamente morrendo de fome. Você também ficaria louco se não tivesse se alimentado por tanto tempo que ficou emaciado. — As costelas de Daisy, sua clavícula eram afiadas como lâminas contra a pele fina. — Não. As reações dela estavam anormais. — O tom de Venom não deixava espaço para discussão. — Ela é jovem o suficiente para que a quantidade de sangue que dei primeiro a alimentasse, voltando em plena sensibilidade. É possível que haja uma droga na mistura. — Uma alimentação doce? — Ela franziu a testa. — O efeito geralmente desaparece muito mais rápido. Talvez a afete mais porque é tão magra. — Não precisa ser uma alimentação doce. — As palavras de Venom foram uma surpresa. — Sempre há químicos testando novas fórmulas. De vez em quando, jogam os dados e jogam com vidas vampíricas. — A voz dele ficou sombria. — Janvier e Ashwini lhe falaram sobre a droga chamada Umber? Holly sacudiu a cabeça. — Provavelmente não tenho autorização. — era estranho, mas quando seus chefes lhe disseram isso, ela aceitou, consciente de que precisava ganhar o caminho pela escada. Quando Venom lhe disse o mesmo, queria arrancar os olhos dele. Era irracional, mas sua reação a ele nunca foi racional. — Você definitivamente não tem, — ele disse. — Mas precisa entender certos fatos para se proteger se estiver trabalhando nas sombras. Pega, Holly girou parcialmente em seu assento para ouvir.


— Você reagiu a Daisy como se fosse simplesmente outra vampira abusada – o que poderia matá-la. — Granito em sua expressão. — Precisa observar as reações de qualquer vampiro com quem entra em contato, pesar essas reações contra o que sabe ser normal. Ele girou o carro para a esquerda, indo na direção da ponte. — Tem que estar consciente de que um vampiro pode estar fora de uma alimentação doce, ou em alguma nova droga inventada. Estes últimos terminam eventualmente em derramamento de sangue. Umber causou uma voraz fome de sangue que levou os usuários a assassinar e brutalizar as pessoas mais próximas a elas. Holly soltou uma respiração silenciosa, flexionando as mãos. — Tudo bem, está certo, — ela disse, e o mundo não acabou. — Serei mais cuidadosa. Só... Sinto muito por ela. — Ela queria se chutar assim que as palavras saíram – o que diabos estava fazendo expondo sua barriga vulnerável à Venom entre todas as pessoas? — Eu sei. — Sem julgamento em seu tom. — Por que acha que eu dei meu terno? Meu alfaiate ficará consternado quando eu pedir uma substituição e contar por que preciso disso. Holly revirou os olhos, mas seus lábios queriam se abrir. — Por que as drogas têm um efeito tão perigoso sobre os vampiros? O encolher de ombros de Venom foi claro. — A fisiologia do vampiro é complexa e delicadamente equilibrada. Alimentação doce aumenta o trabalho porque nossos corpos são projetados para filtrar o sangue que ingerimos – só que parte da droga não é filtrada e ficamos altos. Mas esse alto não é suficiente para abalar o equilíbrio do sistema vampírico. Holly pensou em Zeph, da dor emocional que tentava afogar no esquecimento. — As pessoas tentam os sintéticos, mesmo sabendo que isso pode ser mortal porque querem ficar altos.


Venom deu um aceno rápido quando seu carro rodou suavemente ao longo da ponte, as luzes dos outros carros passando como um borrão na chuva. Ela não tinha ideia da velocidade que ia, exceto que era rápido. Ela gostou. — Vamos encontrar o imbecil, Kenasha? — Sim. Marlin Tucker e nosso outro alvo podem esperar – ligue para Janvier e pergunte se alguns dos seus informantes ou de Ashwini podem ficar de olho no apartamento de Tucker, bem como no do terceiro fraudador nesse ínterim. Holly fez a ligação, obtendo o acordo de Janvier. Com isso, se acomodou no assento e observou o mundo acelerar. Não havia muitas pessoas em quem confiaria para dirigir assim rapidamente em ruas chuvosas e manter o carro sob controle, mas os reflexos de Venom eram ainda mais rápidos que os seus, e ela era desumanamente rápida. Sua pele esfriou quando o pensamento sussurrou por sua mente, a coisa estranha dentro dela, a que não era humana, parecendo estar salivando e se preparando para a violência. Ela abriu as mãos, respirou fundo e exalou. E ainda assim, a coisa se espalhava por dentro dela. Era como se tivesse duas enormes asas presas por dentro que desejavam arrancar sua carne. Deus, estava morrendo de insensatez. Por isso não contou a ninguém o que estava acontecendo quando os sussurros começaram. Ainda se lembrava da primeira vez – foi quando Raphael lutou contra Lijuan nos céus acima de Manhattan. Holly queria se voluntariar para ajudar de alguma maneira, mas seu controle ainda era errático naquela época, muito errático para qualquer um confiar nela no campo. Então, observou a batalha de longe e ouviu um sussurro no fundo: posso matar os dois. A pura loucura de acreditar que podia matar dois arcanjos fez Holly cambalear. Mas isso acabou por ser o primeiro sinal de loucura na sua mente psicopata. Ela apertou os dentes e o combateu cada vez que aconteceu, e esperava que fosse a última vez. Mas a voz louca e sussurrante – e as sensações que a acompanhavam – ficavam mais fortes, não mais fracas. — Gatinha, está grunhindo. — Foi um comentário descontraído. Holly engoliu o som feroz com um forte aperto de mandíbula. — Droga. Desculpe.


Um encolher de ombros. — Não me incomoda, eu disse, use o que vive em você em vez de lutar contra isso. Holly abriu os lábios, quase lhe disse que não tinha certeza que o que vivia nela deveria ser solto à luz do dia. Apertando a boca antes que as palavras pudessem escapar, se virou para olhar pela janela novamente quando atingiram o Enclave Angélico. Podia ter desejado a morte uma vez, mas superou isso. Seus pais não mereciam ter seus corações partidos por terem que enterrar Holly porque a Torre decidiu que ela era muito perigosa para ser permitida viver. Incapaz de ver claramente por causa do vidro com a névoa da chuva, abriu a janela por ar fresco. As belas gotas de chuva se assentaram na pele do rosto numa explosão de frescura bem-vinda. O mundo estava ainda mais escuro lá fora, o Enclave Angélico um lugar de portões altos em meio a árvores mais altas e folhagem pesada. As casas além estavam distantes, no final de longas ruas. A mais exclusiva se empoleirava nas falésias que olhavam para o Hudson e para o espetáculo brilhante de Manhattan. A única casa do Enclave que Holly já foi era a de Ash e Janvier. Elena a convidou para uma visita, mas Holly preferia ficar fora da vista de Raphael. Tinha a sensação de que o Arcanjo de Nova York veria a loucura que sussurrava pensamentos egoístas, horríveis e francamente insanos em momentos imprevisíveis. — Como é a casa de Raphael e Elena? — Ela perguntou, sua curiosidade superando o horror do que estava se tornando. — Uma casa, — foi a resposta simples de Venom. Por mais simples que fosse, ela entendeu. Para ela, Raphael podia ser o Arcanjo mortal de Nova York, um ser cuja atenção nunca quis atrair, mas para Elena, era o homem que amava, e para Venom, era o arcanjo que Venom escolheu servir. Um arcanjo que protegeu a cidade com sua própria vida e que Elena dizia ter honra carimbada na alma. — Você poderia conseguir um lugar aqui se quisesse? — A terra está firmemente guardada. — Venom fez uma curva com graça suave, embora sua velocidade fosse mortal. — Prefiro a cidade, em todo caso. É muito silencioso no Enclave. Quem precisa de todo esse verde e paz? Prefiro ouvir


os taxistas gritando uns com os outros enquanto o cheiro de cachorros quentes e pretzels me faz desejar poder voltar a ser humano por quinze minutos. Holly ficou surpresa com a risada. — Também penso assim. No fato de ser muito silencioso. — As casas eram inegavelmente lindas, com visões estelares, mas preferia estar na ocupação caótica da cidade. Venom virou à direita, afastando-se das casas exclusivas da falésia e mais profundamente no Enclave. — O incompetente Kenasha não é do primeiro nível? — Como Venom havia declarado sem rodeios, havia uma hierarquia. No topo estavam os arcanjos, então anjos como Illium e Aodhan, que eram poderosos por direito próprio. — O lixo angélico tem quatro mil anos, — disse Venom. — Poderia derrubálo sem sequer suar – mais alguns anos e colocaria meu dinheiro em você em vez dele. — Uma pequena pausa. — Risque isso, gatinha. Poderia derrubá-lo agora mesmo. Holly piscou naquela dura avaliação. — Ele é tão fraco? — Ele se mantém tão fraco. Mesmo que nunca tenha desenvolvido um poder inato, poderia ter crescido fisicamente ao longo do tempo para se tornar um guerreiro formidável, como muitos daqueles nos esquadrões da Torre. Pensando nos membros do esquadrão que encontrou, Holly assentiu. Muitos deles pulsavam com poder inato que empurrava contra seus sentidos, mas não todos. Alguns eram simplesmente fortes, rápidos e perigosos. — Anjos, — Venom acrescentou, — Têm uma incrível vantagem física em quão rápido se curam e quão forte sua musculatura pode se tornar com muito menos esforço que exigido por vampiros ou mortais que desejam alcançar o mesmo objetivo. Mas Kenasha prefere se sentar em sua bunda e viver do dinheiro que seus pais acumularam. Raphael disse uma vez que pensa que entraram no sono por vergonha. — Huh. — Holly contemplou isso. — De alguma forma, não pensei que os anjos pudessem ter filhos fracassados. — Ele desafiava a lógica de que um ser dessa idade pudesse ter desperdiçado toda sua vida. — Não deveria fazer algo por puro tédio?


— Você pensaria assim, mas ele é um parasita sugando as tetas de seus pais. — Os lábios de Venom se enrolaram. — Ele é uma desgraça. Um filho deve cuidar de sua família. Holly geralmente esquecia a idade de Venom, ele era tão urbano, e agora dizia algo assim. Mas, é claro, não era apenas um caso de idade, mas o impacto profundo de uma cultura em que idosos frequentemente viviam com a geração mais nova. Como Rania, a menina que era amiga de Holly desde a quarta série, Venom nasceu na Índia. — Não apenas um filho, — disse ela, uma dor pela perda e memória engrossando sua garganta. — Meus irmãos e eu iremos cuidar de nossos pais quando forem mais velhos e não puderem viver sozinhos. — A ideia de cuidar dos anciãos da família estava tão arraigada nela quanto aparentemente estava em Venom. — Meu avô paterno e sua avó viveram conosco até a morte. — Cresceu com sua família? Holly assentiu. — Minha mãe me chantageia com muita frequência. — Ela cruzou os braços e imitou o cenho de Daphne Chang. — Sabe como nos sentimos? Você, Holly? Nós a criamos para saber que foi amada, que poderia contar conosco para qualquer coisa. E o que faz na primeira vez que tem um pequeno problema, apenas volta as costas para sua família! Que vergonha! Os ombros de Venom tremiam. — Um pequeno problema? — Oh, cale a boca. — Mas ela também estava rindo. — É assim que ela sempre coloca. Como se acordar com a necessidade de beber sangue para sobreviver fosse o mesmo que ser demitida de um emprego ou ter a bateria do carro morrendo. — O riso se transformou num sorriso. — Ela ficará brava comigo para sempre, mas me amará enquanto está brava comigo. Venom ficou quieto por um longo tempo enquanto dirigiam pelas ruas do Enclave, sem chuva, sem outros veículos passando por eles. Se os anjos voavam acima, não podia dizer com esse tempo. — Você tem sorte, gatinha, — ele disse finalmente. — Curta a família que tem durante o tempo que os possuir. Mantenha-os firmes como Janvier faz com os dele.


Cercados pela chuva silenciosa, uma privacidade silenciosa entre eles, Holly sentiu as barreiras se derreterem. — O que aconteceu com sua família? — Ela perguntou suavemente. Ela não achou que ele ia responder, como não respondeu anteriormente, mas ele disse: — Um filho de vampiro é uma coisa, mas um com olhos de víbora? — Uma sacudida de sua cabeça. Raiva a atravessou numa onda violenta. — Você fez isso por eles, não foi? — Ela disse. — Assinou um Contrato. Já girando no caminho de uma casa angélica, Venom não respondeu, mas Holly não precisava de resposta. Sabia. Um filho que foi criado para cuidar de seus pais e outros membros da família faria qualquer coisa para dar-lhes uma boa vida. Até mesmo trocar pela sua própria. Que o abandonassem e rejeitassem num momento tão incrivelmente vulnerável porque o custo de seu sacrifício não era o que esperavam? Holly queria rasgar suas formas desleais membro a membro. Que pena que todos já estavam muito mortos. Ainda estava furiosa quando viraram numa esquina, e... A boca dela ficou aberta, seus olhos na monstruosidade à frente. A chuva havia parado, como se o céu quisesse que ela fixasse a imagem. — Assim... acha que Kenasha gosta de torres? — O lugar era uma atrocidade de torres e arabescos, e Deus sabe o que mais. Ela só sabia isso olhando para o século XVIII que foi jogado no dezessete. Ou era dezesseis? A história arquitetônica não era seu ponto forte. Mas uma coisa que sabia – a casa na frente deles pareceria um elefante branco mutante em qualquer século que o deixasse cair. — A última vez que vi este lugar, — disse Venom depois de parar o carro, — Só tinha dezesseis torres. — Ele apontou para a direita. — Aquela é nova. Holly apertou os olhos para ver o que tornou essa torre tão imperdível. Era fina, com quatro janelas redondas que não combinavam com nenhuma outra parte da casa. — Ele tem uma fantasia de torreão do mar? — Vamos perguntar a ele. — Venom estendeu a mão. — Vou precisar dos meus óculos de sol para isto. Kenasha teme o que está além deles.


Isso, Holly compreendia e aceitava. Então, entregou os óculos de sol – mas não antes de dizer: — Eles saem no instante que entrarmos no carro. Olhos verdes viperinos, fendidos e sobrenaturais, mantiveram o dela. — De acordo. *** Mesmo enquanto falava, Venom se perguntava mais uma vez por que tanto importava para Holly que não usasse seus óculos de sol perto dela. A maioria das pessoas preferia seus olhos cobertos – as únicas exceções eram aqueles que o conheciam há séculos e que o consideravam amigo. Nenhum dos Sete, nem Raphael, pareciam se importar que seus olhos fossem diferentes dos deles. O mesmo para amigos como Janvier e Trace. No Refúgio, Jessamy o proibiu de desviar seu olhar quando os dois estavam conversando. — Quero ver seus olhos, — ela disse quando perguntou o porquê. — Assim como gosto de ver os olhos de Galen, e os olhos de qualquer outra pessoa com quem estou falando. Venom não sabia por que, quando seus olhos não eram legíveis como olhos humanos. Ele mesmo olhava para seus próprios olhos no espelho e tentava ver se refletiam suas emoções. Tanto quanto podia dizer, eram tão ilegíveis quanto os olhos das víboras que faziam parte de sua criação. O estranho era que Neha não teve intenção de torturá-lo – ela gostava dele, na verdade, pediu que considerasse ser feito bem antes de pensar em tomar essa estrada. — Tenho uma forte sensação que vou atacar Kenasha. — Encontrando-o na frente de seu carro com essas palavras, Holly franziu o cenho para a casa da torre. — Vou pegá-lo se não o afastar de mim. — Vai machucá-lo se o fizer. — Venom escorregou seus óculos de sol. — Apesar de sua idade, ele é fraco o suficiente para que meu veneno o mate. Dmitri provavelmente o rasgaria em dois por compartilhar tanta informação com Holly, mas era hora das pessoas pararem de ficarem de babá e dar a ela o que precisava para sobreviver em seu mundo. Ela não era uma vampira normal e não podiam tratá-la assim. E se Holly os traísse, Venom a perseguiria. Tinha a sensação de que seria o único que poderia – ela estava se movendo de forma diferente do que


quando ele saiu da cidade dois anos antes, uma confiança predatória que achava que ela não percebia. — Oh, isso é interessante. — Holly olhou para cima considerando a declaração... E sorriu, mostrando aquelas pequenas presas que eram ridículas e que o fascinavam. — Isso significa que meu veneno deve fazê-lo se contorcer de dor por um tempo. — Seus olhos piscaram com uma brilhante película verde. — Vamos. Sua própria natureza predadora se desenrolou profundamente em seu intestino, chegando à superfície por sua outra coisa mortal e bela. — Não aja sem o meu vamos, — ele disse; independentemente da parte fria dele que estava totalmente de acordo com sua intenção sombria. — Isto é negócio da Torre. Se Kenasha merece um castigo de Raphael, então Raphael é quem o entregará. — Não sou suicida, Cara de Víbora. Não pisarei nos dedos de um arcanjo. — Um arrepio. — Mas se o Sr. Torreão não fez nada que exija a atenção de Raphael, então posso mordê-lo? Venom sorriu apesar de si mesmo. — Vamos ver, gatinha. Murmurando profundamente para si mesma, Holly se aproximou dele ao dirigir-se à porta da frente. Já estava aberta, sendo mantida assim por um vampiro alto e magro com pele branca fantasma e cabelos pretos. — Senhor. — Ele se curvou tão profundamente que quase dobrou seu corpo magro pela metade. Montgomery poderia ensinar a ele algumas coisas, pensou Venom. O mordomo de Raphael estava numa classe própria. — Estamos aqui para ver seu mestre. Ainda curvado, o mordomo vampírico disse: — O Mestre Kenasha sente informá-lo que não está recebendo convidados no momento. — Que infeliz para ele. — Venom transformou a voz de seda para ameaça, o que sempre dava resultado. O pulso saltando forte em seu pescoço enquanto se erguia em toda a altura, o mordomo engoliu. — Talvez queira deixar um cartão? — Talvez queira dizer ao seu senhor que nos encontre em dois minutos ou vamos sair com a cabeça dele e nenhuma outra parte dele. Ficando mais pálido, se isso era possível, o mordomo disse: — Claro, senhor. Aguarde na sala de estar. — Ele acenou para a direita.


Venom percorreu a sala enquanto o mordomo fugia. Estava ciente de Holly dando-lhe um olhar de lado, mas não havia medo nela, apenas uma leve alegria. — Você gostou, não foi? — O mordomo tem um sabor repugnante para carne jovem. — Ugh. Como os velhos vampiros são tão assustadores? — Vou perguntar a Dmitri. — Vou te dar um soco se fizer menção a essa pergunta, — ameaçou Holly. — Não estou falando de Dmitri ou Trace ou outros vampiros razoáveis. Falo dos assustadores que simplesmente prosperam na dor e feiúra. — Ela cutucou uma almofada dourada ornamentada, cruzada com uma grossa corda de cetim preto. — O dinheiro claramente não compra estilo. Venom a observou sentar-se no sofá igualmente ornamentado, uma mulher pequena e mortal com olhos verdes ácidos que cruzou as pernas e observou a entrada. Seu foco intenso seguramente aterrorizaria Kenasha. Divertido com a ideia, Venom se moveu para a esquerda, de modo que Holly fosse quem Kenasha veria quando entrasse. Isso aconteceu momentos depois, o anjo baixo e densamente construído se mexendo. Realmente, demorava muito para um anjo se tornar pouco atraente – a raça angélica era extraordinariamente linda. Tão bonitos que um anjo ainda podia parar a respiração de Venom. Não queria possuir um anjo como alguns vampiros cobiçavam. Nem sequer queria dormir com um – esteve lá, fez isso, mas podia admirar sua pura beleza física da mesma forma que conseguia com uma impressionante obra de arte. Kenasha, no entanto, abalava a tendência. Seu corpo era flácido e sem forma – e gordura num anjo assumia um sério empenho, já que o voo queimava muita


energia. Seu cabelo era um topete loiro que poderia ter estilo há alguns séculos, mas mesmo assim não teria se adequado ao seu rosto redondo. As asas eram irregulares. Nos trezentos e cinquenta anos ou mais que Venom se tornou vampiro, nunca teve essa visão. As únicas vezes que observou que penas faltavam em anjos foi depois de um acidente, quando perderam parte da asa e as penas estavam em processo de regeneração. Kenasha, em contraste, parecia como se tivesse sido vítima de uma doença, a qual fazia com que suas penas definhassem e caíssem. — Qual o significado disso? — O anjo disse com uma voz exageradamente irritada antes de congelar quando seus olhos pousaram em Holly. — Quem é você? — Saiu um pouco estridente. Holly sorriu devagar e não moveu um músculo. — Holly. E realmente quero arrancar seus olhos, então esmagar seus olhos brilhantes sob o salto da bota. — Seu sorriso nunca desapareceu. Kenasha engoliu e deu um tropeção para trás. Venom se esforçou para não rir. Mantendo sua expressão impassível apenas pelos séculos de experiência, saiu das sombras. Kenasha balançou em seus pés à primeira vista de Venom, embora seu mordomo fantasma tivesse informado sobre a identidade de seu visitante. — Temos algo a discutir, — Venom disse suavemente. — Deve se sentar. O anjo não discutiu, em vez disso, afundou numa grande poltrona, que era uma catástrofe de vermelho escuro, amarelo e verde. Feia. Realmente feia. Assim como o ser que a ocupava – e Venom não falava da aparência física de Kenasha. — Encontramos uma vampira hoje que pertence a você. Uma fêmea. Cabelos castanhos, olhos azuis, magra. — Oh. — Os ombros tensos de Kenasha relaxaram. — Eu a emprestei para alguns amigos meus. Não está perdida. Obrigado por verificar. Como se Venom tivesse ido ao Achados e Perdidos. — Holly, — ele disse; advertência em sua voz, quando a viu começar a descruzar as pernas. — Apenas um olho, — ela disse num tom suplicante tão diferente de quando quase perdia o controle, e riu.


Kenasha, no entanto, a levou a sério. — Olhe aqui, — ele disse de uma maneira pomposa, — Tenho todo o direito de emprestar um vampiro que me pertence. Pago por seu sangue, seu quarto e alimentação. Eu a possuo. Venom sentiu a víbora dentro desenrolar. — Por que seu contrato não está registrado na Torre? Quem transferiu a propriedade para você? — Porque esse anjo também estava em problemas. A língua saindo, Kenasha molhou seus lábios. — Ela é pós-contrato. Assinado para me servir por sua própria vontade. Se isso fosse verdade, a Torre não teria motivos para castigá-lo. Mas Venom era muito, muito bom em perceber a idades de colegas vampiros e Daisy pareceu tão jovem para ele. Extremamente jovem. — Peça ao seu mordomo para recuperar os papéis para que eu possa confirmar. — Ele continuou encarando o outro homem, incapaz de imaginar como essa criatura fazia parte da mesma raça que o ser magnífico que Venom escolheu servir. Kenasha não discutiu, chamando o fantasma e enviando-o para o estúdio. Esperaram em silêncio, Holly encarando, sem piscar, Kenasha o tempo todo. O anjo de quatro mil anos corava, não conseguindo ficar quieto na horrível poltrona. — O que aconteceu com suas asas? — Perguntou Venom, imaginando se precisava alertar Dmitri para algum tipo de nova doença. Os anjos geralmente não eram vulneráveis às doenças, mas Charisemnon ganhou a habilidade de infectar imortais com doença na Cascata. Sua última tentativa causou a Queda, quando muitos anjos caíram do céu para se encontrarem quebrados na terra. Talvez tenha ficado mais sutil no tempo intermediário. — Minhas asas? — Kenasha desdobrou uma e olhou para ela, como se não tivesse percebido os buracos. — Oh, isso. Acho que talvez eu tenha comido algo que não combinava comigo. Venom pegou o movimento dos olhos do anjo, sabia que estava mentindo. Mas manteve o silêncio e, quando olhou para Holly, viu que, embora continuasse com muita raiva, estava no controle. O mordomo entrou naquele instante, com os papéis na mão. Venom pegouos antes de descartar o fantasma. — Este contrato é datado de quatro anos. — Para ser exato, estava datado um mês após Raphael ter executado Uram, seguindo uma batalha no céu que destruiu metade de Manhattan.


— Tanto tempo? — Kenasha agarrou os braços de sua cadeira. Venom digitalizou o documento. Parecia estar em ordem – uma vampira chamada... Bem, isso era intrigante. A mulher concordou em servir Kenasha por vinte e cinco anos em troca do atendimento usual. Menina tola. Um vampiro inteligente teria pedido termos e condições muito específicos. Sua assinatura era trêmula, no entanto, e a única testemunha era o fantasma. — Este contrato é inválido. — Ele jogou os papéis no chão. — Seu mordomo não é uma testemunha imparcial. — A Torre não se intrometia nos assuntos dos vampiros que serviram seu Contrato: eram adultos que viveram cem anos já e eram considerados capazes de tomar suas próprias decisões. No entanto, apesar da política de não-intervenção da Torre, havia certas regras para proteger todas as partes. Uma das quais era uma testemunha imparcial em qualquer contrato desse tipo. — Explique-se. — Ele ficou o mais perto possível, de forma que pairava sobre Kenasha. O anjo ficou vermelho. — Isso é uma indignação, — ele gritou. — Sou um anjo. Seu superior. Venom poderia ter mostrado muito facilmente por que esse homem era um inseto para ele, mas não queria brincar. — Prefere falar com Dmitri? — O líder dos Sete aterrorizava a maioria das pessoas – era útil na ocasião. Kenasha perdeu a cor no rosto antes de cair no assento. — Eu a encontrei, — ele confessou num sussurro, sua garganta se movendo enquanto engolia. — Estava meio morta e no Hudson. Eu a vi um dia enquanto voava, fiquei curioso e a tirei de lá. — Ele encolheu os ombros. — Não sei por quê. Acho que pensei que seria interessante ver um cadáver. Era uma coisa repulsiva, mas Venom não esperava muito mais de Kenasha. — Mas ela não estava morta? — Não, estava viva. E era bonita então. — Ele juntou as mãos. — Eu a trouxe para casa sem pensar muito nisso. — Mentiroso. — A voz sedosa de Holly veio por trás do anjo. Kenasha pulou, tendo claramente tirado os olhos dela quando Venom se aproximou.


Inclinando-se, Holly sussurrou na orelha do anjo. — Queria fodê-la, não é? Kenasha congelou ao perceber que estava cercado por predadores, mas agora, empurrava a cabeça acima e abaixo. — Pensei que ela ficaria grata por ser resgatada e faria coisas para mim. Isso não é ruim, — acrescentou. — Salvei a vida dela. É verdade que os vampiros não podiam se afogar, mas uma falta de sangue acabaria tornando-a tão fraca que a água e suas criaturas separariam a cabeça do corpo dela. — Como acabou possuindo-a? Os olhos do anjo se moveram para a direita. — Ela pediu. — Mentiroso, mentiroso, — Holly sussurrou na outra orelha de Kenasha enquanto raspava as unhas delicadamente sobre sua jugular. Kenasha começou a hiperventilar. — Eu a queria! — Ele quase gritou. — Ela tinha algo dentro dela que eu queria! Bebi seu sangue e foi delicioso! Então, a mantive! Os olhos de Venom encontraram Holly sobre o topo da cabeça do anjo. Ela parecia tão confusa quanto ele. — Você bebeu o sangue dela? — Sim. Sempre gostei de um pouco de sangue e o sangue dela cheirava tão bem que tomei um gole enquanto ela estava inconsciente. — Ele estremeceu em êxtase grosseiro. — Tinha um gosto tão bom, fazendo com que eu me sentisse tão poderoso que não podia deixá-la ir. — Então ela não concordou em ser sua escrava? Kenasha lhe deu um olhar malicioso. — É a palavra dela contra a minha. Deixando isso por agora porque o anjo não-muito brilhante já havia se incriminado muitas vezes, Venom se concentrou no fato mais interessante. — Se sentiu bem depois de beber o sangue dela? Algum outro efeito? Kenasha abriu a asa novamente. — Isso. Não percebi até mais tarde, mas meu corpo não conseguiu processar todo o sangue que estava tomando. É por isso que comecei a emprestá-la. Quando ela está aqui, não consigo parar de me alimentar. Venom viu a raiva no rosto de Holly e sacudiu ligeiramente a cabeça. Ela sibilou, mas se afastou para a outra extremidade da sala. — Os outros se alimentam dela? — Perguntou Venom.


— Nunca lhes dei permissão para isso! — O tom de Kenasha aumentou. — Apenas disse que poderiam usá-la como brinquedo. O sangue dela é meu! Obviamente, os técnicos da Torre precisavam testar o sangue e as penas de Kenasha para ver por que o sangue de uma jovem vampira causou essa forte reação negativa. Isso poderia ser organizado com facilidade. — Pode voar? — Estou fraco, — admitiu o anjo. — Mas posso atravessar o Hudson. — Quero que vá para a Torre e se apresente para exame de sangue e outros testes. Se não fizer isso, virei pegar as amostras. Entendido? — Farei isso agora. — Uma respiração longa, uma exaustão tremenda. — Foi tão bom. Se tivesse saboreado o sangue dela, gostaria de mantê-la também. E, depois de alguns meses, ela parou de lutar. Venom não interrompeu Holly desta vez. Ela afundou suas pequenas e venenosas presas no pescoço de Kenasha e, quando as arrancou, cuspindo no chão para se livrar de seu sangue, o corpo do anjo começou a convulsionar na cadeira, seus olhos revirando, e no seu rosto um retorcer de dor. Venom permaneceu apenas o suficiente para se certificar de que o anjo não estava em perigo de morte e depois disse ao mordomo para cuidar de seu mestre. — Ele será esperado na Torre antes do amanhecer. Certifique-se de que esteja lá ou as consequências serão infinitamente piores do que o que está experimentando atualmente. O fantasma balançou a cabeça com tanta força que Montgomery teria ficado mortificado por sua falta de equilíbrio. — Sim, senhor. Venom tomou deliberadamente a mão de Holly enquanto saíam da sala. Não confiava nela para não virar e atacar Kenasha de novo. Ela realmente enrolou os dedos em sua palma e segurou-a, como se também não confiasse em si mesma. Saindo para o carro, o ar atualmente limpo pela chuva, Venom abriu a porta do passageiro e esperou que ela entrasse, depois fechou a porta e seguiu para o lado do motorista. — Sente-se melhor? Ela limpou a boca com a parte de trás do antebraço. — Sim, com exceção do gosto de cadáver que tenho na minha boca. — Abra o porta-luvas. Deve haver uma garrafa de bebida energética.


Holly encontrou, tomou um gole e o girou pela boca antes de abrir a porta do carro que ainda não se movia e cuspir o bocado no chão. Após fechar a porta, ela assentiu. — Isso é melhor. Venom ligou o carro, virou-o e voltou a dirigir. A perigosa mulher no banco do passageiro olhou para ele. — Por que me deixou fazer isso? — Não queria sabor de cadáver na minha boca. O riso de Holly encheu o carro e a outra coisa em Venom sentou-se e tomou nota novamente dessa garota quebrada que se tornou uma mulher fascinante e forte enquanto ele não estava olhando. — Há uma coisa, Holly, — disse ele, dizendo a si mesmo que ela era muito jovem para ele brincar. — O que? — O verdadeiro nome da vampira? É Daisy.


A boca de Holly secou, sua língua parecendo muito grande para isso. Engolindo mais da bebida energética em puro desespero, ela disse: — Não está brincando comigo, está? — Não. Ela assinou o contrato como Daisy Scaldini. — Tendo removido seus óculos de sol conforme seu acordo, olhou para ela com os olhos únicos e deslumbrantes. — A conheceu em algum momento? — Não que eu me lembre, — disse Holly, — Mas que outra explicação teria. — A boca secou novamente, viu o que ele, sem dúvida, já havia visto. — Acha que ela estava naquele armazém comigo e minhas amigas? Que Uram fez com ela o que fez comigo? — E alguma parte de Holly se lembrou dela, o suficiente para arrancar seu nome do nada. — É possível. As presas são menores que o habitual, mas ela não tem olhos como os seus e não tem a velocidade, ou já teria despedaçado Kenasha até agora. — Não se a deixou fraca desde o início. — As unhas de Holly cortaram suas palmas quando a chuva trovejou novamente. — Parece que ele abusou dela desde o início – ela provavelmente nunca teve chance de construir a sua força. Venom virou para a ponte. — Sim, e então há o fato do sangue dela ter feito as penas de Kenasha apodrecerem. Isso não é de forma alguma uma reação normal. — Jesus. — Holly estremeceu em seu assento. — Poderia ser eu, — disse ela, horrorizada. — Se fosse um desviado como Kenasha que me encontrasse, e não Elena e Raphael. — Você me causou problemas desde o primeiro dia, gatinha. — O poder de Venom entrelaçou-a como um toque de seda enquanto falava. — Sua vontade implacável é sua maior força.


O beijo sinuoso de seu poder deslizando sobre ela, ao redor dela, não a fez tremer. Parecia normal; Venom era isso, o aumento da força dele fazia parte do seu crescimento natural. Quanto ao resto... — Só queria que Daisy tivesse a mesma chance, — disse ela, seu intestino cheio de chumbo. — Queria não ter esquecido dela. — Ninguém pode lutar contra um arcanjo determinado a apagar suas memórias, — disse Venom com um ótimo pragmatismo que foi estranhamente reconfortante. — Se Daisy estava lá, ele fez você esquecer dela por um motivo. Limpando a mente, Holly franziu a testa. — Sim, por que a limparia da minha mente? — Afinal, não tocou nas feias lembranças da tortura e das mortes de suas amigas. — Agora, não podemos ter certeza de que ela está conectada a Uram. Direi à Torre que compare o sangue dela com o seu, ver o que aparece. — Depois de fazer a ligação, ele disse: — Não há motivo para especular até obter os resultados. Holly esfregou o rosto com uma mão, então, segurando a garrafa de energético entre as coxas, voltou a apertar o rabo de cavalo. — Porra, se eu tiver que dizer você está certo, a Terra se abrirá e explodirá demônios de três cabeças. O riso de Venom foi largo e profundamente masculino. O som escorreu por seus sentidos, afundando profundamente em sua pele. Respirando um pouco superficial, se forçou a tomar outro gole da bebida num esforço para encontrar uma distração. — Marlin, — ela disse com um impulso de inspiração. — Vamos conversar com Marlin e ver se a tentativa de pescar um peixe grande teve efeito. *** Infelizmente, para o Marlin rechonchudo e calvo, parecia que o peixe engoliu a isca. E ficou com fome quando Marlin não conseguiu produzir a recompensa. — Tudo bem, — disse Holly, olhando para os pedaços sangrentos e cortados do vampiro vigarista, — Quem quer que esteja atrás de mim não fala apenas sério, fala mortalmente sério. Tendo se agachado para examinar os restos do açougue colocados numa pilha arrumada no meio da sala de estar de Marlin, em cima de um tapete persa inesperadamente de bom gosto, Venom assentiu. Quando as pontas de seu cabelo


deslizaram para a frente, as empurrou de volta com uma mão ausente, os antebraços flexionados com força casual. Ela podia ver aqueles antebraços porque ele dobrou as mangas de suas camisas para revelar a pele que já havia visto mais de uma vez. Hoje, no entanto, a visão dessa pele estava fazendo coisas estranhas ao seu estômago. — Há pouca dúvida agora de que os assassinatos estão conectados. — Ele se levantou. — Não parece ser um ponto válido verificar o endereço do terceiro indivíduo que tentou enganar o comprador, mas devemos ser minuciosos. Ele chamou uma equipe forense e de limpeza da Torre primeiro, no entanto, os dois não saíram até que a equipe se encarregou da cena. Quanto aos informantes de Janvier e Ash, sabiam sumir rapidamente quando alguém com o poder letal de Venom chegava nas imediações. O pagamento pelo trabalho deles viria diretamente de Ash ou Janvier. O terceiro endereço era numa parte ligeiramente mais agradável da cidade – o grafite tinha mais classe e havia até plantas em vasos em algumas janelas, mas a cena dentro do apartamento do alvo era uma repetição do de Marlin. A única diferença era que, desta vez, o assassino empilhou as peças do açougue sobre a mesa de café, o piso de madeira abaixo, uma bagunça de marcas vermelho ferrugem ao lado de piscinas maiores e coaguladas de vermelho mais escuro. Esta cena também era a mais antiga, o cheiro tão putrefato que até mesmo Venom ficou no corredor compartilhado para aguardar a equipe da Torre. — Isso não é raiva – os cortes são muito precisos, a forma como as partes do corpo estão empilhadas também de forma teatral, — disse ele. — É uma mensagem. — Tente me enganar e pagará o preço. — Cruzando os braços, Holly tentou ficar um pouco mais perto de Venom para que pudesse puxar o cheiro dele nas narinas – precisava dele para acabar com o fedor nocivo do interior do apartamento. — Alguém não gosta de desperdiçar seu tempo. — E é forte o suficiente para matar o vampiro dentro, ao contrário de Marlin Tucker, esse vampiro era grande, musculoso. Também não vi sinais de uso de drogas que desacelerariam suas respostas. Holly arranhou o sapato no chão. — Sei que devo me concentrar nesse psicopata que oferece uma recompensa por mim, mas não consigo parar de pensar


em Daisy. — Sobre o que a outra mulher sofreu, o horror seguido de abuso e crueldade. — Não me deixe perto de Kenasha, a menos que o queira morto. Uram estava fora de seu alcance, mas Kenasha estava muito perto. Venom correu o rabo de cavalo pelos dedos. — Para uma mulher com cabelo de unicórnio, é muito sanguinária. Eu aprovo. Holly sorriu severamente; tinha a sensação de que ele também estava considerando o valor de Kenasha continuar existindo. *** Dmitri os olhou de cima abaixo, um brilho escuro em seus olhos que combinava com a noite que havia drapeado a cidade em preto enquanto descobriam dois corpos mortos, examinavam os locais e esperavam que as equipes da Torre chegassem. As luzes de Manhattan brilharam além da parede de vidro nas costas de Dmitri, a cidade finalmente livre da chuva, embora as nuvens negras continuassem obscurecendo as estrelas. Parecia mais meia-noite que seis da noite. Dmitri levantou com as mãos apoiadas em cima de sua mesa, os músculos do braço subitamente tensos. — Eu o coloquei no comando para que você a controlasse, — disse o líder dos Sete a Venom. Palavras subiram para a garganta de Holly, mas ela mordeu o lábio. Venom não precisava que lutasse suas batalhas. Como provou naquele momento. — Então teria acariciado Kenasha na cabeça e se afastado após o merda admitiu escravizar uma mulher meio afogada que não teve força para detê-lo? — Uma sobrancelha levantada. O maxilar de Dmitri apertou-se enquanto se erguia e cruzava os braços. — Mantenha o bastardo fora da minha vista. — Era uma declaração perigosamente silenciosa. — Ficaria tentado a arrancar a cabeça dele, e então Raphael teria que lidar com anjos que pensam que sou muito poderoso. — Você é muito poderoso. — Venom sorriu. — É por isso que eles estão tão assustados com você. O sorriso de resposta de Dmitri era de uma espécie que ele nunca deu a Holly – era entre amigos, entre iguais. No entanto, ela não se sentiu excluída. Porque seu


relacionamento com Dmitri era diferente. Quando ele estendeu o braço, ela deu a volta e se colocou debaixo dele. — Quero me encarregar de descobrir mais sobre Daisy e o que aconteceu com ela. Dmitri a abraçou um pouco mais perto da força de seu corpo. — Não pode liderar ainda, Holly. Não ganhou o direito. Mais uma vez, porque era Dmitri quem disse essas palavras, Holly podia aceitar a verdade. — Então entregue a Venom e a mim, juntos, — ela disse; seus olhos se conectando com os verdes da víbora. Dmitri olhou para Venom. — Está bem em lidar com isso ao lado da situação da recompensa em curso? — Sim. Precisa de mim com a segurança? Sua pergunta lembrou a Holly que sem Raphael, Nova York era vulnerável a um assalto por outro arcanjo. É tudo sobre política, Honor disse a Holly. Saquear com sucesso a cidade que Raphael chama de casa e tomar a Torre, seu centro de comando, terá muito mais impacto que uma invasão de outra parte do território. — Existe o risco de que Charisemnon ou outro arcanjo ataque? — Ela perguntou, sua mente transbordando com imagens de sangue e morte da última batalha, uma batalha que forçou uma evacuação em massa de Manhattan. Foi Dmitri quem respondeu. — Não. Estão todos na mesma reunião. — Uau. — Holly não podia imaginar todo o Cadre num só lugar. — Até Lijuan? Li on-line que ninguém a viu por dois anos. — Zhou Lijuan está desaparecida, — confirmou Dmitri. Isso, percebeu Holly, era por que a cidade estava em alerta máximo, por que todos os anjos guerreiros e vampiros tinham uma irritação sobre eles que não era normal. Se a Arcanjo da China quisesse tomar Nova York, agora era o melhor momento possível. Seus cidadãos, mortais e imortais, todos lutariam até o fim, mas Zhou Lijuan era uma do Cadre – e apenas um arcanjo poderia matar ou derrotar outro arcanjo. — Limpe esta situação com Holly o mais rápido que puder, — disse Dmitri para Venom. — Não precisamos de grupos de caçadores de recompensas pensando que podem vir atrás de uma mulher sob a proteção da Torre.


Ele apertou um beijo no topo dos cabelos de Holly antes de soltá-la. — Quanto a Kenasha – sempre foi um desperdício de espaço, mas seu relatório sobre a condição de suas asas me preocupa. Precisamos garantir que a vampira que salvou não é uma portadora de doença. — Vamos chegar ao fundo, — prometeu Venom. — Vamos, gatinha. — Eu ficaria encantada, Cara de Víbora. Curvando os lábios ligeiramente, ele deslizou os óculos de sol quando saíram do escritório de Dmitri. — A primeira parada em Daisy. — Por que está usando seus óculos de sol na Torre? — Porque vamos ao nível da enfermaria e os curandeiros juniores não costumam entrar em contato comigo. — Seus dedos roçaram a parte inferior de suas costas. — Tento não assustar os curandeiros. A mão dela ainda coçava para arrancá-los do rosto dele. — Acha que os curandeiros já terão o resultado do sangue de Daisy? — Não me enviaram mensagens para dizer isso, mas pode ser porque sabem que estou na Torre e esperam que eu desça. Os dois entraram no elevador, um ao lado do outro, andando em silêncio. Cada cabelo no corpo de Holly pinicava, sua pele de repente agudamente sensível à presença de Venom. Seu rosto tinha um perfil pristino, sua pele brilhando com saúde, mesmo sob a luz artificial. Ela queria tocá-lo, esfregar contra sua bochecha como a gatinha que ele a chamava. Cara de Víbora, Cara de Víbora, Cara de Víbora, ela repetiu mentalmente para sair do desejo surpreendente. Sim, ele é bonito. Mas também é letal, e eu ainda posso me tornar sua presa se ele descobrir a voz louca e sussurrante dentro de mim. Graças a Deus, as portas do elevador estavam abrindo. Porque o lembrete frio de sua psique não estava exatamente funcionando para acalmar a resposta elétrica de seu corpo. Saindo na frente dele, começou a caminhar até o final do corredor. — Hollyberry, aonde vai? Ela deu um olhar franzido sobre o ombro dela. — Daisy está na ala de isolamento no final. — A Torre construiu essa ala após a Queda. — Como sabe? — Venom inclinou a cabeça para o lado de uma maneira que não era humana.


Holly abriu os lábios para responder... e não tinha resposta. — Onde mais a colocariam? — Ela disse através de uma garganta repentinamente seca, seu coração disparando. — Mas não está imaginando, não é? Você sabe. — Posso senti-la, — admitiu Holly, percebendo que era inútil tentar ocultar sua reação se quisesse chegar ao fundo da conexão entre ela e a vampira emaciada. — Cheiro? Som? Como? Balançando a cabeça, Holly ergueu a mão para um ponto entre o coração e o estômago. Socando, bateu esse ponto. — Aqui. Eu a sinto aqui – como se estivesse ligada a mim. — Eu vou primeiro. — O rosto de Venom era duro. — Se há algo de errado com ela, você é mais vulnerável Holly nem sequer pensou no que estava fazendo – não foi uma decisão consciente. Foi conduzida pela coisa dentro dela. Ela girou nos calcanhares e correu. Precisava chegar primeiro a Daisy. Tinha... Um braço forte em volta da sua cintura levantou-a de seus pés. Então, Venom a jogou mais forte que Ashwini ou Janvier ou Dmitri alguma vez fariam. O suficiente para que voltasse pelo corredor... e acertasse uma parede num deslize líquido. Nenhum de seus ossos quebrou, nada contundiu, seu corpo acabou agachado no tapete de uma maneira que a fez piscar quando voltou a se controlar. — O que aconteceu? — Ela sussurrou meio para si mesma, meio para o homem que a observava do outro lado do corredor. As presas dele brilharam. — Não tente isso novamente ou realmente a jogarei. Holly levantou e seus ossos pareciam voltar ao lugar. — Isso é muito estranho. Por que não estou em pedaços? — Ela se moveu cautelosamente para Venom, com medo de ter imaginado tudo. — Confiou em seus instintos. — Virando de costas para ela, Venom começou a caminhar em direção à câmara de isolamento. Enquanto a confusão de Holly era sobre o que acabava de ocorrer – tanto seu voo louco na direção de Daisy quanto à queda líquida subsequente – ela correu para recuperar o atraso. Mas desta vez, parou um passo à esquerda de Venom.


Não desejava ser jogada novamente, quando não sabia como se salvou da primeira vez. Não tendo certeza de que o que estava dentro dela se comportaria, no entanto, pegou a mão de Venom. Ele não questionou por que estava se aproximando dele voluntariamente, apenas envolveu seus dedos firmemente em torno dela. Quente e forte, a mão dele mantinha um poder que lhe dizia que não soltaria; por uma vez, Holly ficou contente por uma coleira. Perder sua mente e agir de forma errática por causa da outra coisa sussurrante dentro dela não estava exatamente no topo de sua lista de tarefas. — Como sabia que eu conseguiria? Um encolher de ombros. — Não sabia. Mas você não teria morrido. Holly deu um soco no braço dele. — Bastardo. — Mas ficou mais atônita que irritada – porque Venom, de todas as pessoas, era o único indivíduo que nunca a tratava como quebrada. Ele esperava que ela cuidasse de si mesma. Não mostrando nenhuma reação ao seu golpe, seu corpo, indiscutivelmente musculoso, Venom apertou a mão dela. E porque a jogou no corredor, esperando que ela sobrevivesse – porque acreditava que ela tinha a capacidade de fazê-lo – ela não lutou contra a conexão. O toque palma a palma parecia peculiarmente íntimo, a essência dele pulsando pelas veias e falando com um desejo dentro dela. Não era fome vampírica. Mais profundo que isso. Então, ele abriu a porta para a unidade exterior da câmara de isolamento, digitou um código no teclado eletrônico e passou por ela.


A porta se fechou automaticamente atrás deles, deixando-os diante de uma grande janela que proporcionava uma visão além da área de isolamento: Daisy estava amarrada numa cama de hospital branca. Ganhou um banho, seu cabelo parecia limpo e seco, mas claramente não estava bem. Enquanto Holly observava, a outra mulher se sacudiu na cama e se torceu forte o suficiente para que quebrasse os ossos se não estivesse presa. Holly continuou sentindo uma piedosa simpatia pela vampira abusada, mas até mesmo ela podia dizer que a torção não era simplesmente pânico de uma mulher que acordou num lugar estranho. Seus dentes estavam descobertos, revelando presas pequenas, um pouco maiores do que as de Holly, grunhidos e rosnados desumanos irrompiam de sua garganta e enchiam a câmara de observação quando Venom pressionou um botão ao lado da janela. — É como se estivesse possuída. — Náuseas se agitando dentro dela, Holly se aproximou da janela. — Não se parece com a mulher assustada, mas sã, que salvamos. — O rosto de Daisy estava perversamente contorcido, seus olhos eram um redemoinho de loucura desenfreada. Era isso que estava no futuro de Holly? Um curandeiro entrou na câmara de observação, conforme o pensamento frio congelava o sangue de Holly. — Ela não tem indícios de doença, — ele disse com aquele jeito gentil de curandeiro, as asas se arqueando atrás de seus ombros quase tocavam o chão, num rico creme entremeado com penas de marrom pardal. — Nós a mantemos presa, porque é a maneira mais fácil de controlá-la – e mantêla segura – caso ela encontre forças para partir essas correias. Todo o andar pode ser bloqueado com o toque de um interruptor.


— Isso é uma possibilidade? — Venom perguntou enquanto Holly apertava a mão no vidro, num esforço vago para acalmar Daisy. O curandeiro suspirou. — Ela está emaciada e até mesmo o sangue com que você a alimentou não deveria fazer muito mais que aliviar sua fome. Não deveria dar a ela nenhum tipo de força. Mas como pode ver... — um aceno em direção à mulher que se torcia e contorcia na cama. — No entanto, sua loucura não parece de sede de sangue nos sentidos dos curandeiros. Precisamos monitorá-la mais para ter alguma esperança de resolver os demônios que a mantêm cativa. Os dedos de Holly apertaram a palma de Venom. — Preciso ir lá, — disse ela, as palavras do curador apenas um zumbido de fundo. Venom não a impediu quando soltou sua mão e caminhou para abrir a porta interna, mas estava ciente de sua presença rastejante nas costas, pronto para interceder se Daisy rompesse suas correias. Seu coração disparou, sua pele esquentou, o sussurro louco e silencioso em sua cabeça. Ela virou o botão e entrou. Daisy parou de se torcer. Sua cabeça girou na direção de Holly. E a coisa dentro de Holly espalhou suas asas irregulares com tanta força que bateu contra Venom, suas mãos se estendendo para agarrar as coxas dele. Pânico agarrou sua garganta num aperto brutal, cortando o ar enquanto a outra coisa tentava se afastar de sua pele. Na cama do hospital, Daisy lutou contra suas correias para se esticar em direção à Holly, seus olhos suplicantes e vermelhos de insanidade ao mesmo tempo. Os braços de Venom rodearam Holly, uma faixa de metal aquecido a empurrando para dentro de si mesma, esmagando as asas estranhas e serrilhadas que raspavam seu interior. Uma de suas mãos se fechou sobre o ombro, o braço em seu corpo, e então seus lábios estavam no meu ouvido. — Lute. — Era uma ordem. Holly queria dizer a ele que não estava exatamente dançando hula agora, mas estava tentando demais não arrebentar as costuras. Quando a cabeça dela baixou, quando suas presas empurraram contra seus lábios, com água alinhando na língua, ela nem pensou nisso. Afundou os dentes no antebraço de Venom. Não era um bom lugar para sangue, mas o sabor foi suficiente. O poder a atravessou, um poder tão mortal e arrogante que imediatamente limpou sua cabeça.


Soltando-o, respirou fundo e profundamente, seus olhos presos aos de Daisy. Os lábios rachados da outra mulher se separaram, os brancos de sua íris repentinamente inundados de carmesim. — Está chamando você, — disse ela com um tom gutural. — Quer ficar junto. — Suas costas arquearam numa curva tão brutal que Holly estendeu a mão, querendo empurrá-la antes que quebrasse as costas. E a... O-que-porra-fosse explodiu de Daisy, movendo-se tão rápido que nem a velocidade de Venom podia salvar Holly. Bateu diretamente no peito dela e enterrou-se. *** Venom xingou enquanto Holly desabava nos seus braços, o corpo de repente morto. Segurando-a, recuou enquanto gritava pelo curandeiro. O anjo de olhos arregalados estava ao lado deles num piscar de olhos. O homem colocou os dedos na garganta de Holly, verificou O pulso, ouviu a respiração. — Está viva, — ele disse definitivamente. Venom abriu a camisa preta de Holly para expor a ferida... Mas não havia uma marca nas roupas. Nem queimaduras. Nem marcas. Nem manchas de sangue. Desabotoou a camisa, independentemente, mas também não havia uma marca no creme suave de sua pele. Mas não imaginou isso. Uma substância ou entidade saiu da vampira na cama e perfurou Holly. No entanto, a pele de Holly estava morna e lisa sob os dedos, o peito subindo e descendo num ritmo raso. — Explique isso. O curandeiro sacudiu a cabeça, suas finas tranças caindo em seu rosto ao examinar Holly. — Não posso. Deitando Holly no chão acarpetado da câmara de observação com gentileza consciente, Venom voltou para a sala de isolamento espartana e para o corpo imóvel da vampira que resgataram. Daisy não estava se movendo, não estava respirando, sua cabeça caída de lado. Mechas escuras de cabelo obscureciam seu rosto. Quando se aproximou o suficiente para afastar o cabelo com cuidado a fim de garantir que não afundasse


as presas em seu pulso, viu um fio de sangue sair do nariz. Mais sangue caía pelo canto da boca. A mancha escarlate no lençol branco abaixo dela já era significativa. Muitas vezes era difícil dizer se um vampiro estava morto. Eram quase imortais, afinal. Geralmente, a única maneira de ter certeza era cortando a cabeça de um vampiro ou tirando o coração. Embora Venom pudesse facilmente sobreviver à perda do coração, assim como outros vampiros nos Sete. Também estava perto da certeza de que Dmitri era tão forte agora que separar sua cabeça de seu corpo precisaria da força de um arcanjo. Como Venom disse a Holly, Dmitri foi um guerreiro através do tempo – adicione seu potente poder bruto a isso, e os fundamentos estruturais de seu corpo também poderiam ser formados de ferro neste momento. — Venom. — A voz da curandeira sênior. — Deixe-me passar. Venom se afastou para a diminuta anjo com asas cinza escuro manchada de branco. — Verifique o coração. A curandeira – Nisia – já tinha as mãos pequenas e estreitas no peito de Daisy. — O coração se foi, explodiu dentro da cavidade torácica, pelo que posso dizer. — Ela franziu a testa, como se espiasse o interior do corpo da vampira doente. — Seus outros órgãos também estão líquidos. — Ela indicou o ligeiro inchaço da barriga de Daisy como se fluído crescesse dentro da cavidade do corpo. — A pobre criança atormentada está morta. — Não vai se curar? — Não. Estava muito fraca para superar o dano – especialmente com a perda do coração. Venom olhou para trás, se certificando de que Holly não estava sozinha. Ao ver que o outro curador ainda estava ajoelhado ao lado dela, suas mãos gentilmente nela enquanto continuava verificando suas feridas, Venom concentrou sua atenção em Daisy. — Algo saiu dela e foi até Holly. — Não consigo sentir uma resposta, — disse Nisia. — Mas Illium sugeriu que monitorássemos este quarto de novas maneiras. — Ela acenou vagamente para os cantos do quarto. Venom levantou os olhos. Câmeras.


— Faça uma autópsia, — ele ordenou, fazendo um esforço para manter seu tom respeitoso. Nisia era membro confiável da equipe da Torre e uma que ganhou o respeito de Venom nos resultados brutais da Queda. — Não a remova do isolamento. Vamos destruir seu corpo aqui, se necessário. O olhar castanho suave da curandeira foi para Holly. — Aquela criança também deveria ficar isolada. Venom pensou em como Holly sabia onde Daisy estava sendo mantida, de como sentiu a compulsão de entrar na câmara de isolamento e sacudiu a cabeça. — Está feito agora. Holly não vai infectar ninguém. Ela era o alvo. E permitiu que ela entrasse, acreditando que podia protegê-la de todas as ameaças possíveis. Fúria fria em seu sangue, dirigida à sua própria arrogância. — Não, — murmurou Nisia, seus olhos ainda em Holly. — Seja como for, não é, penso eu, algo tão simples quanto uma doença. Entrando na câmara de observação para descobrir que o curandeiro abotoou a camisa de Holly, Venom inclinou-se para pegá-la em seus braços. Era tão pequena. Às vezes, esquecia disso. Havia esquecido quando a jogou no corredor – quando estava acordada e consciente tudo que via era sua energia selvagem e desumana. Uma energia que era mais próxima da dele, que ele nunca havia vislumbrado. Não há ninguém como eu. Mas Andi vê dentro de mim, me conhece e temos segredos juntos. E um dia, teremos filhotes que serão meio como eu. A alegria de Naasir em seu acasalamento fazia sentido absoluto para Venom, embora não tivesse certeza de que seu amigo e membro dos Sete entendesse quão profundamente as palavras ressoavam. Para o mundo, Venom era um vampiro. E havia milhões de vampiros. Mas era o único com olhos de víbora e mudanças mais profundas e menos visíveis que o afastavam do padrão bem definido. Como Naasir, estava e sempre esteve sozinho entre milhões. Até Holly. — Vamos, gatinha. — Ele a colocou em cima do peito. — Você disse foda-se para o destino antes. Faça isso novamente. Por uma vez, Holly não fez biquinho. Ela ficou em silêncio e imóvel em seus braços enquanto a levava para o andar de cima, para o apartamento dele. Ignorando a cama confortável em seu quarto, foi direto para o chão de pedra


aquecida na frente das janelas. Colocando-a lá, foi procurar um cobertor... E quando voltou, ela se curvou numa bola apertada, uma mão aberta contra a pedra. Todo seu peito se expandiu quando finalmente respirou fundo. Sacudindo o cobertor macio de caxemira sobre ela, fez uma nota para agradecer Naasir. Foi o membro mais primitivo dos Sete que sugeriu o chão de pedra. Faço minha cova fora do Refúgio, porque gosto disso. Mas meu ninho é quente porque não gosto de neve. Um arrepio, o prata metálico de seus olhos selvagem de uma maneira que não era nada humano. Você gosta da cidade, mas precisa de sua pedra no sol. Faça uma. Venom nunca pensou nisso sem rodeios, mas em sua defesa, era muito jovem e não estava acostumado com a liberdade de criar sua própria casa quando Naasir descobriu que procurava infrutiferamente a superfície de pedra aquecida que seu corpo desejava. Sua primeira pedra de sol era exatamente isso – uma grande pedra plana que arrastou de um lugar distante e guardou nos jardins selvagens que uma vez cercaram a Torre. À medida que a Torre se transformou em sua forma atual e os jardins desapareceram para serem preenchidos com a maníaca e bela vida de Nova York, trabalhou com os arquitetos para criar esta pedra de sol dentro de sua casa. Decidindo que Holly precisava de um pouco de calor extra, ligou a grande lâmpada que cobria todo o teto acima da pedra de sol. O quadrado do teto ardeu incandescente. Ela suspirou enquanto dormia. Agachado, desfez seu rabo de cavalo para que estivesse confortável, depois tirou as botas e as colocou de lado. Com isso, observou para se certificar de que seu peito estava subindo e descendo, seu pulso firme. Porque Holly não era uma vampira. Não totalmente. Era humana o suficiente para que tais coisas fossem uma necessidade absoluta para sua sobrevivência. Quando seu telefone zumbiu no bolso, percebeu que ficara hipnotizado pelo ritmo dela, como se lidasse com as cobras que faziam parte de sua Feitura ao lado das víboras. Isso não acontecia com ele há muito tempo. Venom era muito consciente de suas fraquezas, bem como de seus pontos fortes. Mas esta era sua casa e estava cheia de pessoas que o protegiam até o último suspiro.


Eles não – não podiam – realmente entender o sinuoso núcleo dele, mas eram seus amigos. A família dele. E então, baixou a guarda o suficiente para entrar num estado que era profundamente restaurador. Levantando-se depois de passar os dedos sobre a bochecha de Holly, afastouse dela e da pedra do sol antes de atender a ligação. — Dmitri, — disse ele. — Nisia te ligou, não é? — Inexplicável como seja, nossa Nisia competente e forte é intimidada por você, quando é conhecida por bater na minha bochecha e puxar meu cabelo, — foi a resposta seca até os ossos. Venom tirou os óculos de sol e colocou-os de lado. Seus olhos refletiram no espelho quadrado e elegante na parede, o qual foi um presente de Elena. Os dois não eram exatamente melhores amigos, mas a companheira de seu Sire lhe devia uma penalidade depois de vencê-la numa sessão de treino onde ambos tiveram que lutar usando armas desconhecidas. Ela pagou com este espelho. No começo, achava que era um pagamento um pouco incompreensível, embora aceitável. Então, notou o motivo delicado esculpido na borda branca esquerda da moldura – uma víbora pendurada numa árvore. Era bem

feito.

O

trabalho

de

Aodhan,

ele

percebeu

imediatamente.

Feito

especificamente para ele. Às vezes, Elena tornava muito difícil ficar irritado com ela pela fraqueza que criou no arcanjo que Venom escolheu servir. Era a única fenda na armadura de Raphael, e os Sete concordavam com isso – mas isso não significava que todos estavam bem com isso. — Holly não é infecciosa, — disse Venom. — Seja o que for que saiu de Daisy, só queria ir para Holly. — Ele sentiu a verdade daquilo em seu intestino. — Não conheço nenhuma doença que sai de uma pessoa e vai para outra. — Vou olhar a filmagem. Quer me encontrar na sala de tecnologia? Venom olhou para onde Holly dormia tão pacificamente. Ela já esteve aqui antes, não ficaria desorientada caso acordasse sozinha. — Sim. Era hora de descobrir a forma da coisa que havia se enterrado em Holly.


O mesmo que vivia dentro de uma vampira que ficou completamente insana nas horas anteriores Ă sua morte.


Dmitri já estava no elevador quando Venom entrou; pelos cabelos bagunçados do outro homem e o fraco aroma de ar noturno frio que se apegava a ele, Venom achou que estava no telhado. O líder dos Sete lhe lançou um olhar de avaliação. — Holly está ficando debaixo de sua pele. — Ela sempre esteve, — Venom admitiu a um amigo que nunca o trairia. — Mas ela precisa de um pouco de tempero. — Precisava ser mais dura... senão nunca sobreviveria ao mundo imortal. — Estão todos a protegendo sob o disfarce de manter um olho nela. A expressão de Dmitri ficou divertida. — Não sei exatamente ter um toque suave. — Deixe-a ir, Dmitri, — disse Venom calmamente. — Precisamos descobrir do que ela é capaz, mas ela precisa aprender a verdade sobre si mesma acima de tudo. — Ele fixou os olhos escuros do outro vampiro, só então percebendo que esqueceu seus óculos escuros no andar de cima. — Solte as correntes. Dmitri não respondeu até estarem do lado de fora do elevador e no corredor iluminado que levava à sala circular do núcleo tecnológico da Torre. Janelas se alinhavam por todo o corredor, o que teria derramado as cores de Nova York lá dentro caso fosse manhã. — Isso pode ser mortal, — o outro homem finalmente disse. — Não apenas para os outros, mas para Holly. — Se não a libertar logo ela vai morrer de qualquer maneira, — Venom disse sem rodeios. — Ela é uma coisa selvagem. Não foi criada para uma gaiola. — Ele passou os dedos pelos cabelos. — Neha... ela me entendia, mesmo que não fosse uma amante gentil. Me deu liberdade para descobrir o que diabos eu me tornaria. — Durante os primeiros cinco anos após sua criação, ele não foi humano, sequer no sentido vampírico.


— Há uma diferença crítica entre você e Holly, — lembrou Dmitri. — Uram. — Uram. — Dmitri começou a caminhar novamente, os dois seguindo para o centro tecnológico em silêncio. Vivek esperava por eles. Sua respiração prendeu quando eles entraram, e Venom rapidamente percebeu que era a primeira vez que o outro homem encarava seus olhos sem blindagem. — Tem visão infravermelha? — Interesse brilhou no rosto dele. Venom sorriu, a reação curiosa era muito preferível ao medo ou horror tremente. — Terá que me cortejar com rosas e diamantes antes de fazer perguntas tão íntimas. Vivek bufou. — É como trabalhar para a Sociedade – o lugar está cheio de espertinhos. — Ele girou sua cadeira de rodas ao redor. — Já coloquei o filme da sala de visitas privada. — Esse quarto ficava atrás de sua estação de controle reluzente, e se vangloriava de três telas maciças, cada uma ocupando a maior parte de uma parede. O vídeo da sala de isolamento estava preso na parede bem em frente à porta. Vivek esperou que fechassem a porta antes de começar a rodar. — Isso foi reduzido cem vezes, — disse o Caçador da Sociedade. — Foi assim que consegui ver alguma coisa. Venom podia ver o movimento a velocidades muito mais rápidas, então a gravação progredia num ritmo glacial para ele, mas provou ser útil para pegar todos os detalhes. Foi uma centelha vermelha brilhante que entrou em erupção de Daisy. Nem mesmo do tamanho de um punho. Nem de perto. Talvez um quarto do tamanho. Mas atingiu Holly com força fenomenal. — Senti isso, — ele disse quando o momento do impacto foi exibido na tela. — Era como se ela tomasse um soco de um boxeador de peso. O impacto fluiu através do corpo dela para o meu. — Mas nada penetrou no seu corpo? Venom balançou a cabeça em resposta à pergunta de Dmitri. — Estava apontado apenas para Holly, queria apenas Holly. — Ele não sabia se podia explicar, mas tentou. — Não foi uma erupção aleatória – esperou até que Holly


estivesse ao alcance, tão perto que não podia evitar o impacto. E Daisy falou com Holly de antemão, disse algo sobre estarem juntos. — O áudio pegou isso. — Vivek rebobinou a fita. — Está chamando você. Quer ficar junto. As palavras guturais, a voz de Daisy muito mais profunda do que deveria, eram claramente dirigidas a Holly. — Avance novamente. — Com os pés separados e braços cruzados, Dmitri olhou para a tela com uma atenção sombria. — Amplie o que quer que tenha saltado da vampira para Holly. Vivek fez isso silenciosamente. A centelha vermelha era na verdade uma bola muito pequena com uma superfície com espiga... e seu coração pulsava num verde ácido. — Porra. — Venom conhecia essa cor – era a mesma sombra que os olhos de Holly se tornaram. — Uram definitivamente tocou Daisy, mudou-a. — Traga Kenasha aqui agora, — disse Dmitri, seu tom inflexível. — Ele estará incapacitado por um tempo mais longo. — Não, ele não estará. — Gelo em cada palavra. — Vou sufocá-lo no meu próprio sangue se tiver que lutar contra o efeito do veneno de Holly, mas ele vai falar com a gente agora. — Meu sangue funcionará melhor. — Neutralizaria o veneno mais rápido. — Illium está num humor rabugento. Vou pedir para ele ir – ele vai gostar de arrastar um idiota. — O anjo com asas azuis geralmente tinha mais alegria de viver dos Sete, mas quando Venom o procurou ontem antes de ir ao ringue de treinamento para assistir Dmitri, Ash e Janvier, encontrou o outro homem cismado no telhado. Illium era poderoso, até violento, e tão zangado quanto estava no momento, teria assustado tremendamente a Kenasha. Isso funcionava bem com o senso de justiça de Venom. — Faça isso, — disse Dmitri. Partindo sem mais palavras, Venom abriu caminho para uma das varandas da Torre e escaneou o céu. Podia falar com o Sire com a mente, um presente que recebeu de Rafael. No entanto, não tinha a capacidade de se comunicar com os outros Sete sozinho – ainda não. Mas não precisava disso. Tinha um telefone.


Não observando as distintivas asas azuis de Illium com pontas azuis no céu e bem consciente de que o anjo adorava todas as coisas tecnicamente inclinadas, fez a ligação. Illium atendeu com um tom invulgarmente curto. — Sim? — Preciso de um favor. Uma retirada. Ele escravizou uma mulher quando estava fraca demais para dizer não. — Sempre me dá os melhores presentes. Onde? Venom deu a localização antes de adicionar, — Holly o mordeu, então estará um pouco grogue. Um riso na linha, Illium soando mais como ele quando disse: — Sempre gostei de sua gatinha. A mão de Venom apertou o telefone. Teve que lutar contra o desejo de dizer para Bluebell que não ligava para Holly – isso era um jogo privado entre ele e Holly. — Obrigado pela retirada. — Sem problema. — Illium desligou e, menos de cinco segundos depois, Venom viu a flecha descendo sobre as partes superiores dos arranha-céus iluminados. Ele era uma bala enquanto cruzava o Hudson, indo tão baixo que sua passagem agitou a água em ondas. Sim, o anjo risonho conhecido como Bluebell não estava de bom humor. Colocando as mãos nos bolsos das calças, Venom decidiu esperar que Illium voltasse. Que quisesse voltar para sua suíte e verificar Holly era outro motivo para se forçar a permanecer no lugar. A última vez que sentiu até mesmo um leve vislumbre deste tipo de proteção sobre uma mulher, ela foi sua noiva e olhe como tão bem isso acabou. E embora Holly tenha crescido, permanecia um bebê em comparação a ele. Não estava prestes a colocar as mãos nela... bem, poderia brincar ao redor para ensiná-la a abraçar o poder dentro dela, mas não estava prestes a fodê-la. Nem mesmo se seu corpo começasse a mexer cada vez mais dessa forma a cada vez que a via. — Jesus. — Ele sacudiu a cabeça quando viu Illium sobre as águas do Hudson novamente; mesmo para Bluebell, a velocidade da retirada foi extraordinária. O anjo segurava Kenasha descuidadamente com uma mão na nuca do outro anjo. As asas de Kenasha caíam inutilmente. Os apêndices desperdiçados


deveriam estar criando um puxão maciço, mas Illium não pareceu perceber, nem um pouco. Havia um motivo por que certos arcanjos ligaram seus sensores para atrair Illium ao lado deles, para ocupar uma posição como segundo. Muitos acreditavam que o anjo cada vez mais forte deveria se irritar ao manter uma posição mais baixa na hierarquia da Torre do que Dmitri. Mas a resposta de Illium sempre foi um simples não. Escolheu sua lealdade, e não apenas para Raphael, mas para os Sete. — Dmitri é mais experiente e conhece o Sire desde que o Sire era jovem o suficiente para que Raphael o tratasse como um igual, — o anjo já havia dito a Venom. — Eu, entretanto, era um anjo bebê quando Raphael me resgatou de um rio depois de estar encharcado. Na próxima vez que caí, foi Dmitri quem me puxou. Ele riu, os olhos dourados dançando. — Não deveria ser o segundo de Rafael nem manter uma posição acima de Dmitri. O poder não é tudo – os laços que nos amarram um ao outro, forjados pela emoção, pela batalha e amizade, é o que nos fortalece. — Uma pena azul prateada, desceu ao chão das suas asas quando se reassentou. — Não, devo ocupar exatamente o lugar que mantenho entre nós. Esse vínculo profundo de alma mudaria um dia num futuro distante, o destino de Illium escrito em seu poder. Mas nunca quebraria. Os Sete sempre teriam um ao outro – e Raphael – em volta. Como o Arcanjo Elijah nunca se moveria contra a Arcanjo Caliane. Ele já foi seu general mais confiável, levava essa lealdade em seu coração até hoje. Menos de meio minuto depois, Illium deixou cair o corpo trêmulo de Kenasha na varanda, em frente aos pés de Venom. — Isso foi rápido, — comentou Venom. Aterrando na varanda, Illium dobrou as asas atrás. — Eu estava competindo comigo mesmo, — ele disse; seus olhos turbulentos com emoções que eram extremamente humanas, de uma maneira que era raro ver num imortal com a idade e poder de Bluebell. — Com quem brigou? Ellie? — De todos os Sete, era Illium quem estava mais perto da consorte caçadora de Raphael. — Não? Então deve ser Aodhan. — O outro anjo – e colega dos Sete – era o melhor amigo de Illium. Dois homens totalmente diferentes na personalidade, Illium e Aodhan conheciam-se desde a infância. Às


vezes, quando se espremiam no ar, era como observar duas metades de um todo, suas reações tão sincronizadas. Illium não respondeu, a mandíbula apertando. — Por que as asas do seu amigo parecem meio arrancadas, como as de uma galinha? — Ele perguntou enquanto Dmitri saía na varanda. — No entanto, gosto do tremor rítmico. — Isso é trabalho de Holly. — Era óbvio que seu veneno ainda causava considerável dor em Kenasha. — Isso me deixa triste, — disse Dmitri sem um toque de simpatia. — Triste por todas as crianças que podem ter visto essa criatura e achado que era um exemplo angélico. — Não se preocupe, — Venom respondeu com um tom tão frio. — Ele não voa. O sangue de Daisy fez algo com ele. Dmitri se ajoelhou ao lado do anjo, cujos olhos estavam arregalados – seja por dor ou medo, Venom não podia dizer. — Mantenha-o imóvel. Lábios curvando com a ideia de tocar o outro homem, Venom, no entanto, se ajoelhou e fez como pedido, então Dmitri poderia usar as seringas que segurava na mão para escolher amostras de sangue. Ele estendeu as duas seringas cheias em direção a Illium. — Voe para a enfermaria para que possam começar os testes. Devagar. Você não deseja acidentalmente esmagar uma e ficar contaminado pelo sangue. Tomando cautelosamente as amostras, Illium disse: — Não tenho vontade de parecer uma galinha depenada. Estive lá, não gostaria de repetir a experiência. — Uma pausa. — Apesar... Para ser claro, eu parecia mais com um pato macio – fofo, não como se eu tivesse uma doença de troca. — Illium foi embora numa arrancada de vento segundos depois. Venom viu as penas de Illium se regenerarem após um acidente, mas também estava ciente de que o anjo foi despojado de suas penas como punição pelo crime de falar segredos angélicos para uma mulher mortal, o que ele lamentava até hoje. O último foi antes do tempo de Venom. — As penas de Illium eram diferentes antes que as perdesse pela primeira vez? — Perguntou a Dmitri, percebendo que ele havia assumido que se regeneraram de forma idêntica a original. Dmitri agarrou a boca de Kenasha, forçou-o a abrir com o torno de seu punho.


Pronto, Venom usou sua faca para cortar seu próprio pulso aberto, depois gotejou o sangue na boca do anjinho desprezível. — Não, — Dmitri disse conforme a garganta de Kenasha começava a se mover espasmodicamente. — Nosso Bluebell não tinha o prata, então. — Um sorriso fraco. — Era vaidoso antes. Imagine quão pior ficou quando fios brilhantes de prata começaram a aparecer entre os filamentos. — Quando você é tão bonito, — disse Illium, aproximando-se do outro lado da varanda, — Não tem escolha, senão ser vaidoso. — Ele passou as unhas em seu braço, então soprou sobre elas, e naquele instante era mais uma vez o anjo que Venom conhecia: inteligente, generoso e um lindo brincalhão. A maioria dos imortais perdeu essa brincadeira há muito tempo. Até mesmo Venom. Kenasha engasgou e balbuciou, mas Dmitri era implacável. Venom podia facilmente doar muito sangue dentro de um curto período de tempo, mas teria que se alimentar em breve para compensá-lo. Não ficaria fraco se não o fizesse, mas estaria mais fraco, e Venom preferia estar em plena força. Quando seu pulso começou a curar, o abriu novamente. Demorou muito mais tempo que estimou para que o corpo de Kenasha parasse de tremer. — Holly é forte, — ele murmurou, satisfeito por dentro. — Quer uma mordida? — Illium estendeu o próprio pulso. — Este é sangue de primeira classe, disponível apenas para alguns selecionados Venom sentiu os lábios batalharem. — Obrigado. — Ele não tinha nenhum problema em tirar sangue de seus colegas membros dos Sete – como não tinha nenhum problema em doar sangue, por sua vez. E quando se tratava de Illium, só necessitava beber uma pequena quantidade. Bluebell era como um soco. Não tão forte como Raphael, mas forte o suficiente para que um dia Venom soubesse que olharia para o céu e veria um Arcanjo com asas azuis brilhando com fios de prata. Seu coração doía ao pensar nesse momento distante no tempo. Quão pior devia ser para Dmitri, que assistiu tanto Illium quanto Aodhan crescer? Porque como a lua seguia o sol, quando Illium subisse para se tornar


Arcanjo, Aodhan iria com ele como seu segundo. O anjo com brilhantes asas aniquiladas foi o mais difícil dos Sete para Venom conhecer... E, no entanto, deu a Venom um presente extraordinário. — Você é forte, — disse Aodhan calmamente, um século antes. — Seus olhos podem ser de víbora, mas você tem o coração de um leão. Você exige que o mundo se incline para você. Eu queria ter sua coragem, Venom. Quando o sangue de Illium atingiu sua corrente sanguínea, Venom sentiu suas veias pulsando e esperou que Aodhan encontrasse o coração de seu leão em Lumia, onde o anjo acompanhou Raphael e Elena para o encontro do Cadre. O coração do leão sempre esteve lá; Aodhan era um guerreiro por completo. Ele perdeu a fé em si mesmo após um horror quase acabar com sua luz – mas essa fé estava voltando. E um Aodhan que Venom apenas vislumbrava começava a aparecer. — Obrigado, — ele disse, levantando a cabeça do pulso de Illium após cerca de dez segundos. — Janvier me disse que a companhia de Elena está fazendo sangue premium com sabor. — Sempre pareceu tão engraçado que a Caçadora da Sociedade tivesse um negócio que atendesse uma clientela estritamente vampírica. — É um dos novos negócios em Manhattan, de acordo com a revista Immortal Insider. — Illium passou os dedos pelos cabelos, os fios negros com ponta azul caíram ao redor de seu rosto depois. — Deve visitar um dos seus cafés de sangue, — ele disse com um rosto sério desmentido pela diversão em seus olhos. — Isso dará ao negócio um grande impulso de publicidade entre a multidão da moda. Venom bufou, não ia se tornar um garoto-propaganda de sangue aromatizado. Por que, diabos? — Acho que nosso convidado está totalmente são. — Dmitri se levantou. Venom também, enquanto Illium continuava ao redor, numa exibição casual de força brutal. Deram a Kenasha a cortesia de permitir que se levantasse, embora, na melhor das hipóteses, fosse uma cortesia duvidosa, já que o anjo parecia assustado e rígido com a queda precipitada a poucos metros de distância. E isso era além de lamentável. Como anjo, o outro homem deveria estar muito mais confortável que Venom ou Dmitri. Então, novamente, suas asas pareciam ainda mais inúteis agora que estava de pé. Os músculos e tendões caíam, como os de uma marionete com suas cordas


cortadas. — Tem certeza de que não está doente? — Perguntou Venom, preocupado com Illium e outros anjos da Torre. — Se estou, é por causa do sangue de Daisy, — gemeu Kenasha. — Ela fez algo comigo. — Algum de seus amigos angélicos exibe asas semelhantes? Kenasha empalideceu sob o frio da voz meia-noite de Dmitri, uma figura trêmula enquadrada pelas luzes de uma cidade que não conhecia o significado do sono. — Não. Não contei a nenhum deles sobre o sangue dela. Sou o único que bebeu dela. — Ele correu as mãos trêmulas pela frente, num esforço inútil para suavizar as rugas do veludo roxo de sua capa ornamentada. Estava enfeitada com duas tiras de brocado amarelo e fechos cruzados Venom se perguntou o que Holly pensaria da escolha assombrosa de Kenasha. Dmitri fez contato visual fugaz com Venom, passando o bastão, já que Venom sabia mais sobre a situação. O problema era que Kenasha não podia encontrar os olhos de Venom – seu terror do olhar de Venom era pior que o medo geral que se agarrava a ele e deslizava no ar. Não importa. Não era como se o anjo pudesse sair do caminho, não com Venom, Dmitri e Illium, todos focados em seu rosto trêmulo. — Conte-nos exatamente como encontrou Daisy.


Kenasha repetiu a história de resgatar Daisy do Hudson. — Depois que percebi que ela não era um cadáver, pensei que seria um herói, — ele sussurrou. — Como as outras pessoas que ajudaram durante a Queda. Pensei que se ela fosse importante, poderia contar a todos que eu a resgatei. Venom queria estapear o idiota auto-obssecado. — O que ela contou sobre como acabou no rio? Kenasha moveu os pés. E Dmitri falou com ameaça sedosa. — Parece que prefere conversar com o Sire. O anjo pareceu tão horrorizado com a ideia que era cômico. Venom realmente podia sentir o sombrio divertimento de Dmitri. Não havia muita gente que quisesse enfrentar cara a cara o Arcanjo de Nova York. Venom nunca entendeu isso – sabia que Raphael queimava com poder, mas não era caprichoso ou cruel sem razão. Sim, governava com mão de aço. No entanto, essa mão não se envolvia no pequeno negócio da vida das pessoas. — Não, não. — Kenasha puxou os babados brancos saindo do topo do casaco; era um milagre que não sufocasse com a renda. — Daisy disse que foi atacada por um anjo que a pegou e levou pela cidade até um armazém. Escapou dele quando estava saturado de sangue, acabando de alguma forma no rio – não conseguia se lembrar dos detalhes de como. Acho que provavelmente estava alucinando e desorientada por causa das drogas. Todos sabemos que os anjos não conseguem se saturar de sangue. Illium, Dmitri e Venom foram para o modo predador – ainda no meio do monólogo de Kenasha. — Quando? — Venom perguntou suavemente. Com a cara branca, o outro homem não tentou mentir. — Não muito antes de Raphael lutar contra Uram no céu.


A ignorância de como os dois eventos estavam conectados não era surpresa. A Torre conseguiu manter os detalhes da queda sem precedentes de Uram em insanidade e os assassinatos limitados a um grupo seleto de pessoas. O mundo não precisava saber que os seres poderosos que os governavam poderiam ser presas da loucura raivosa. — O que mais ela disse sobre o ataque contra ela? — Venom pressionou. Kenasha franziu a testa, e Venom quase podia ouvir as engrenagens de seu cérebro esbarrando enquanto pensava. Isso, pelo menos, não era afetação. Os imortais antigos nem sempre eram bons em acompanhar suas memórias – ou mesmo armazená-las de forma linear. Viveram tanto tempo que suas lembranças eram madeixas emaranhadas que levava tempo para desvendar. — Ela disse que ele a arrancou da rua quando caminhava para o trabalho. — O olhar franzido de Kenasha ficou mais profundo. — Sabia que ela deveria estar drogada quando me disse que ninguém podia vê-la, mesmo que lutasse para se libertar. Glamour. Nem todos os arcanjos o possuíam, mas os que o faziam também podiam fazer desaparecer objetos e pessoas próximas ao seu corpo, o campo do glamour não se limitava à sua própria carne. — Então ela disse que o anjo se alimentava do sangue dela e colocou a si mesmo nela. — Kenasha encolheu os ombros. — Era muito bonita antes para que eu pudesse entender por que o anjo queria usá-la de tal maneira. Venom sentiu que o gelo passava por suas veias. — Essas foram as palavras exatas dela? Que o anjo colocou a si mesmo nela? Kenasha assentiu. — Eu lembro porque... — ficando vermelho, parou abruptamente. Illium escolheu esse segundo para agitar suas asas, criando um turbilhão de vento que quase puxou o outro anjo para a borda. Guinchos deixando sua boca e Kenasha começou a escorregar. — Fale, — Dmitri disse sem piedade. Peito arfando onde desabou no chão, Kenasha gritou. — Lembro-me porque pensava quão delicioso seria tomar uma mulher que já foi reivindicada por um anjo


muito mais poderoso – ele deveria ser poderoso, não? Digo, ele a levou até Manhattan. Illium apenas balançou a cabeça. Venom sabia que carregar um único humano ou vampiro não fazia com que a maioria dos anjos se quebrassem. Elena era exceção, sua força imortal ainda crescendo em seus ossos, e ainda assim já podia levar crianças. Em se tratando de um anjo nascido, mesmo o mais novo anjo da Torre, Izak, conseguia levar um adulto qualquer dia da semana com um braço amarrado atrás das costas. Illium, ao contrário, poderia parar helicópteros e aviões. O infame realmente virou um helicóptero de cabeça para baixo no ar depois que os paparazzi começaram a perseguir Elena como se fosse uma mortal que pudessem perseguir à vontade. Não é necessário dizer que a consorte nunca mais teve que lidar com táticas tão perigosas da imprensa. Kenasha, Venom pensou, era – qual a palavra que Holly usara? – sim, um parasita. O equivalente angélico de vagabundo mortal do trabalho que se sentava no sofá dos pais, sugava toda a energia e dinheiro, e acabava parecendo uma banheira de banha. Sem força, sem músculo. Sem espinha dorsal. — O que mais? — Venom perguntou a essa banheira de banha em particular. Um olhar em branco. — Foi isso. Nunca a tomei. Experimentei seu sangue, como vê, — ele sussurrou num arrepio de prazer desagradável, — E depois, era tudo que eu queria dela. Venom rondou mais perto, fazendo com que Kenasha recuasse até estar a um fio de cabelo da borda e uma queda que não deveria ser mortal para um anjo de sua idade – exceto que Kenasha se tornou tão fraco que era altamente provável que virasse pasta vermelha misturada com rios de gordura quando batesse no chão. Era um visual divertido que Venom teria que compartilhar com Holly. — Quando diz que foi antes da briga de Raphael com Uram, — disse ele, — Exatamente de quanto tempo estamos falando? Engolindo, Kenasha puxou o colarinho rendado novamente. — Hum, no dia anterior? Acho que sim. No dia anterior.


Isso significava que havia uma boa chance de Daisy ter sido tomada ao mesmo tempo em que Holly e suas amigas. Era altamente possível que as duas mulheres estivessem próximas, suas memórias fraturadas escondendo a verdade, mas não conseguindo apagá-la. Pensei que estava morta. Sinto muito. Pensei que estava morta. As palavras arrepiantes de Dayse faziam muito sentido agora. A outra mulher escapou de Uram, mas deixou Holly para trás porque acreditava que Holly já estava morta. Venom não podia julgá-la por isso, e não quando viu a carnificina que Uram criou – seria difícil separar os vivos dos mortos naquela casa de morte, especialmente se Holly estivesse inconsciente na época e Daisy mentalmente desorientada. — Olhe para mim, — Venom disse para a criatura sem coragem que roubou qualquer chance que Daisy tinha de reclamar uma vida para si mesma. — Isso não é um pedido. Kenasha levantou o rosto, os lábios trêmulos. Tudo que precisou foi um instante de conexão com um homem tão fraco, e Venom o hipnotizou. O anjo era seu fantoche agora. Venom levou-o por toda a sequência de questionamentos novamente, acrescentando alguns novos ao longo do caminho. As respostas foram as mesmas. — Ele não mentiu. — Percebe que é extremamente assustador? — Illium chegou à varanda dois minutos antes, e agora acenava com a mão para cima e para baixo na frente do rosto de Kenasha. — O que ele faria se pedisse que pulasse da varanda? — Ele perguntou num tom intrigado. — Não, — Dmitri disse antes que Venom pudesse demonstrar. — Só desperdiçaria o tempo de uma equipe da Torre para raspá-lo. Venom levantou as mãos para Illium. — Desculpe. — Então olhou para Dmitri. — O que fará com ele? — Perderá essas asas em primeiro lugar. — A expressão de Dmitri não tinha misericórdia. — Não me importo com o que diz – precisamos eliminar qualquer risco para os outros anjos da cidade. Então estará sob prisão domiciliar até o retorno de Raphael. Kenasha é um covarde e um merda egocêntrico, mas tem idade suficiente para que seu castigo venha diretamente do Sire.


Após uma breve pausa, o líder dos Sete acrescentou: — Não me preocuparia com ele sair fácil dessa; Raphael tem uma visão sombria do cativeiro forçado. — Coisas escuras e não ditas em seu tom. — Daisy não escolheu assinar um contrato. Nem escolheu se tornar uma doadora de sangue. Kenasha não tem defesa para suas ações. — Posso fatiar suas asas agora, — Illium se ofereceu, escorregando uma pesada espada de suas costas, a qual não era visível até então, e que Venom sabia que era a terceira lâmina favorita de Illium. A habilidade de Illium em esconder a espada não era exatamente glamour, mas estava perto disso, pelo menos em pequena escala. E ao contrário da gota de poder de Holly, Bluebell podia controlar sua habilidade, podia fazer desaparecer suas armas à vontade. — Muito sangue e bagunça na varanda, — disse Dmitri. — Leve-o aos curandeiros para que possam obter uma amostra das asas – e quaisquer outras amostras que precisem – depois o levem para a casa dele. Faça a excisão lá. Incinere as asas depois. Energia dourada surgiu entre as pontas dos dedos de Illium. — Ele será zumbi Kenasha todo o caminho? — Perguntou à Venom. Venom balançou a cabeça. — A conexão irá quebrar uma vez que esteja longe de mim. Porém, ele deverá continuar assim enquanto estiver na Torre – tornará mais fácil para os curandeiros obter amostras sem que ele faça qualquer drama. Assentindo, Illium pegou o outro anjo e caiu no nível da enfermaria. — Uram a marcou, — Venom disse calmamente. — Dizemos ao Sire? — Somente se for algo que nós mesmos não possamos controlar, — Dmitri respondeu; seu olhar na brilhante cidade que se espalhava em torno deles, água escura na distância. — Ele está cercado por inimigos agora. Não podemos nos dar ao luxo de dividir sua atenção. Venom assentiu. — Vou trabalhar com isso. Dmitri cruzou os braços enquanto o frio da noite passava os fios escuros de seus cabelos. — É seu. Mas Venom, isso muda as coisas. — Ele soltou uma respiração áspera. — Deve tratar Holly como uma ameaça desconhecida. Ela poderia ter coisas escondidas dentro dela muito além do que veio de Daisy.


Venom viu a forma como Dmitri abraçou Holly ao seu lado, testemunhou o carinho de seu beijo em cima de seus cabelos coloridos de arco-íris. Isso de um homem que, de outra forma, interagia dessa maneira apenas com sua esposa – e com Naasir, a quem simplesmente criou. — O que faria se for? — Ele perguntou suavemente. — Você a executaria? Uma escuridão perigosa e antiga atravessou o rosto de Dmitri. — É seu trabalho garantir que isso não se torne uma possibilidade. — Seus olhos trancaram com os de Venom. — Não me decepcione. *** Holly acordou se sentindo como se tivesse passado dez horas na máquina de musculação na academia. Todo músculo em seu corpo doía. Mesmo os dos dedos dos pés. Mas pelo menos estava em algum lugar quente, onde o calor penetrava em seus ossos e a fazia querer esticar-se e nunca sair. Enrolou os dedos no cobertor exuberantemente macio que a cobria e sorriu. Este piso de pedra é tão bom... Seus olhos se abriram. Não se surpreendeu ao ver Venom sentado no espesso tapete cinza escuro do outro lado da pedra. Vestido com calças pretas e camisa acinzentada aberta na garganta, não estava olhando para ela. Suas costas encostadas num sofá, e seus cabelos não tão penteados como sempre, olhava para as luzes da cidade coberta de noite, uma das pernas levantada e dobrada sobre o joelho. Havia algo distante nele naquele momento. Ela viu suas botas perto da borda da pedra, conseguiu usar o pé dela para pegar uma sob o cobertor sem alertá-lo. Estendendo a mão para pegá-la silenciosamente sem alterar sua posição enrolada sobre a pedra aquecida... ela a jogou de modo que pousou com um golpe ao lado de Venom. A atenção dele se voltou para ela, um sorriso curvando seus lábios. E não estava mais distante e irreconhecível. — Então a gata sonolenta está acordada. — Ele rondou para ela de quatro patas. Deveria parecer errado, mas seu corpo fluía como líquido e era perfeitamente normal. Parando no chão de pedra a um pé dela, deitou sobre o estômago, e cruzando os braços sob o queixo, apoiou a cabeça neles. — Teve um bom sono?


Ela queria responder com um comentário rude apenas porque era Venom quem estava perguntando, mas estava muito quente e confortável – além dos músculos doloridos. Bocejando, aconchegou o cobertor de volta ao queixo. — Sim. O que aconteceu? — Ela tinha uma vaga lembrança de ser perfurada por Daisy, mas isso não fazia sentido – Daisy estava amarrada e muito longe para acertar Holly. — Algo interessante, — ele disse. — Mas deve comer primeiro. Perdeu o jantar. — Por quanto tempo estive fora? — Aproximadamente cinco horas e meia. — Um rápido olhar para o relógio. — Atualmente, falta exatamente uma hora para a meia-noite. O corpo dolorido de Holly contradisse as horas de descanso. — Sinto que fiz 12 rodadas com um Dmitri de mau humor, — ela admitiu. Uma inclinação de sua cabeça. — Ele já treinou com você? — Um pouco. Mas não se soltou de verdade – acho que está preocupado de quebrar meu pescoço sem perceber isso. — Você não é tão fácil de quebrar. Holly pensou novamente em como ele a jogou, e de como seu corpo apenas, tipo... fluiu. — Como aprendo a fazer isso conscientemente? — Ela perguntou. — Ossos moles deslizando pelas paredes? — Instinto, — foi a resposta inútil. — Pare de lutar contra você e fará da mesma maneira que anda e respira. — Seus olhos eram tão bonitos e selvagens. E ela estava claramente fraca pela falta de comida. Seu estômago retumbou na direção certa. — Sabia que fazem entregas para a Torre? — A primeira vez que fez um pedido, saiu para esperar, preocupada com o fato de que o cara da entrega ficasse assustado pelos vampiros verdadeiramente assustadores de guarda. Mesmo Holly não se atrevia a mexer com esses homens e mulheres de olhos sombrios. Para seu choque, o homem de meia-idade da entrega a encontrou com um sorriso e uma bolsinha de bolachas de chocolate com gotas de chocolate ainda quentes do forno. — Depois do último pedido, — ele disse, — A Torre é nosso melhor cliente por uma milha do país.


Demorou um pouco para Holly descobrir que o último pedido foi feito por um esquadrão de lutadores angélicos ansiosos por uma pizza. Encomendaram cinquenta... Depois mais cinquenta após uma segunda sessão de treinamento. No mesmo dia. — Eu cozinhei algo para você. — Os olhos de Venom prenderam os dela, e assim de perto ela vislumbrou as listras douradas no extraordinário verde víbora. Em contraste, as fendas pretas eram uma sombra tão pura de obsidiana que quase podia ver seu próprio reflexo nelas. Ao levantar a mão sem vontade consciente, passou a ponta do dedo indicador direito sobre os cílios.


Os cílios dele eram retos, escuros e intransigentes... Mas pareciam penas macias, um sussurro de um toque. Não a impediu, ele apenas a observou com aquele olhar fendido que apresentava às vezes, que tendia a assustar pessoas que não o conheciam. Essas pessoas assumiam erroneamente que era uma ameaça quando era simplesmente outra parte da natureza de Venom. Holly sentiu-se... em paz. Ela não podia machucá-lo se perdesse o controle. Ela não podia aterrorizálo. Ela não podia escandalizá-lo. Poderia incomodá-lo, mas ambos gostavam disso – um segredo sujo que nenhum deles jamais falaria em voz alta. — O que cozinhou? — Ela perguntou naquele estado pacífico, letárgico e estranhamente satisfeito. — Arroz frito com caranguejo e vieiras frescas. Holly empurrou-se para uma posição sentada. — Sério? Me dê! — Ela amava arroz frito com frutos do mar, tanto que aprendeu a cozinhar; claro, o dela nunca foi tão bom quanto o da mãe. Daphne apenas jogava isso e aquilo, na maior parte sobras e pedaços, e sempre ficava fantástico. — Está competindo com a comida da minha mãe, só para que saiba. — Estou avisado. — Dirigindo-se de uma maneira que parecia não ter ossos no corpo, Venom andou descalço pela enorme área de estar e subiu três pequenos degraus para a área da cozinha. A camisa cinza assentava-se perfeitamente em seus ombros, o tecido da calça abraçando sua bunda. O que? Ela não podia olhar? Era humana e Venom era como um cavalo de corrida, elegante, musculoso e rápido. Quando ele se virou para tirar a cobertura leve e ventilada da tigela sobre o balcão, ela notou que a camisa dele estava novamente aberta no colarinho, revelando uma tira de pele marrom dourada. — Ainda está quente, — ele falou com um sorriso fraco. — Talvez o perfume a tenha seduzido do sono.


— Acha que está brincando, mas frutos do mar com arroz frito – bom arroz frito com frutos do mar – é um negócio sério. Holly sentou de pernas cruzadas na pedra e observou enquanto colocava o arroz sobre um prato de vidro, a boca enchendo d’água e o estômago roncando. Estava pronta para mastigar o prato quando voltou para colocá-lo em suas mãos, junto com um garfo. — Agora, — ele disse, — Para a nota de uma conhecedora. Holly respirou profundamente e cheirou gengibre, alho, cebolinha, uma pitada de pimentão. Sua primeira mordida foi celestial, o gemido que surgiu de sua garganta, prazer puro. Ela nunca, nem em um milhão de anos, diria à sua mãe, mas Venom era pelo menos igual a ela na culinária. Então não pensou, apenas comeu, seu corpo faminto em êxtase. Quando Venom desapareceu por um tempo na cozinha e voltou para colocar um copo ao lado dela, não prestou atenção, exceto para olhar e verificar se não era vermelho escuro de sangue. Ugh. Não precisava de uma caneca de sangue. Foi apenas no meio do prato de comida que sentiu a necessidade de líquido. Tomando um gole do copo livre de sangue sem olhar, sentiu os olhos arregalados. — Mango lassi7? — Foi um sussurro. Venom inclinou seu próprio copo de onde estava mais uma vez apoiado no sofá, mas desta vez estava de frente para ela, muito no presente. Com ela. Não no passado distante, onde ela nunca poderia ir. Ela tomou um gole e sentiu os dedos dos pés se enrolar com a doçura picante. — Como um vampiro pode ser tão bom cozinheiro? — Ela murmurou antes de mergulhar novamente no arroz frito com seus suculentos pedaços de carne de caranguejo e vieiras igualmente suculentas. Na próxima vez que precisou de ar, foi para descobrir que ele trouxe a tigela. Sorrindo com sua exigência imperiosa por mais, ele encheu outro prato. Ela comeu. E bebeu três copos da bebida de iogurte frio que ele deixou fresco. Cheia, saciada, caiu sobre a pedra com os braços abertos de cada lado dela no que seu professor de ioga chamava de pose de cadáver. Holly não durou muito tempo na ioga. Sentia como se explodisse de sua pele com a lentidão de tudo.

7 Bebida tradicional indiana


— Minha barriga está aparecendo? Venom riu. — Não. Embora tenha que admitir que eu não sei para onde foi tudo. — Eu também. — Sabia que precisaria de combustível e o combustível que ele forneceu foi delicioso. — Você é um vampiro. Não come. — Sim, podia ingerir pequenas doses – como aquele copo de lassi, ou algumas mordidas de uma comida que particularmente ansiava, mas não conseguia digerir refeições inteiras. — Nem sempre fui um vampiro. Ela virou a cabeça para olhar para ele. — Não me diga: era cozinheiro na sua vida humana. — Sim. Holly piscou. Ela estava brincando. A ideia de Venom como cozinheiro simplesmente não encaixava. — Sério? Uma inclinação da cabeça dele, seu cabelo caindo mais pela testa. — Minha família tinha uma pousada ao longo da Silk Road. Alimentamos e hospedamos comerciantes famintos e sedentos, mensageiros, viajantes de todos os tipos. Fascinada, Holly virou totalmente para o lado dela. — Como era? — Uma boa vida, — ele disse simplesmente. — Tive a liberdade de criar, e criei pratos tão renomados que até mesmo anjos paravam especialmente na nossa pequena pousada. — Não havia orgulho em seu tom, apenas a dor da memória. — Neha queria minhas habilidades na cozinha dela – tive uma oferta para ficar permanente no Forte do Arcanjo e candidatar-me a vampiro. Ela me disse que eu seria aceito sem demora e que manteria uma posição distinta em suas cozinhas. O que significava, Holly percebeu, que Neha já havia conseguido o sangue dele para confirmar que era compatível com a toxina angelical que transformava um mortal em vampiro. — É o que fez por ela quando jovem vampiro? Cozinhou? — Não. Estava muito alterado depois da minha Feitura – ela percebeu que seria muito mais útil como guerreiro. Então, treinei para isso em vez disso. — Um sorriso fraco. — Embora, de vez em quando, eu invadisse a cozinha à noite e fizesse um banquete para meus amigos. Neha nos descobriu um dia e disse que cortaria minha cabeça se eu não a convidasse da próxima vez. Ela costumava se sentar


com a gente na mesa de madeira da cozinha, as asas dela escovando o chão, rindo e comendo. Ele balançou a cabeça, o movimento lento e pensativo. — Ela era diferente então. Uma rainha perigosa sim, uma capaz de crueldade e misericórdia, mas também uma guerreira como Raphael. Presente. Real. Holly não conseguiu fazer sua mente visualizar a cena que Venom descrevia. A Rainha das Serpentes e Veneno era deslumbrante, mortal e inconfundivelmente real. A ideia dela se juntar a uma festa improvisada na meia-noite era incongruente... e fez Holly avaliar a divisão de vida e experiência que a separava de Venom. — Não ficou tentado a abrir sua própria pousada depois de completar seu contrato? — Às vezes, gatinha, — murmurou Venom, — Você não pode voltar. Holly pensou nos moldes de moda que jogou fora, nos requintados tecidos que fez sua mãe doar para uma loja de caridade local, e sentiu uma perigosa sensação de perda. — Quem disse? — Ela falou desafiadoramente, de repente furiosa consigo mesma por dar um pedaço de seda que adorava e planejava fazer um vestido. — Somos nós que escolhemos. — E ela escolheria encontrar outro pedaço de seda para o vestido. A resposta de Venom foi um sorriso que dizia mil coisas não ditas. — Pretende fazer a escolha de se levantar em breve? — Não. — Holly aconchegou-se na pedra – isso parecia tão estranho, mas ela não se importava. — Daisy está bem? O sorriso de Venom desapareceu. — Não, gatinha. Daisy se foi. Holly estava sentada com as pernas cruzadas quando ele acabou de contar o que aconteceu depois de entrar no quarto de isolamento, suas lágrimas por Daisy nas bochechas. Venom carregou a gravação da sala num tablet e ela observou e repetiu em câmera lenta até estar gravado em seu cérebro. — Uram a tocou, — ela sussurrou, sua boca tão seca que era pó. — Há mais. — Venom disse a ela sobre como Daisy acabou no Hudson. Pressionando a palma da mão no tablet, sobre a imagem de uma mulher que nunca teve chance, Holly sentiu um ardor renovado em seus olhos. — Por que não eu? — Ela sussurrou. — Por que eu consegui sobreviver e ela teve que morrer?


— Porque você é mais forte. — A resposta de Venom foi tão definitiva que ela olhou para ele. — É a única resposta que faz sentido. O que Uram escondeu em Daisy, precisava de um anfitrião e ela estava começando a falhar por causa do abuso de Kenasha. Ele se mudou. Holly abriu a camisa, sem se importar de que estivesse expondo seu corpo à Venom – agora estava mais preocupada com a faixa de pele no centro do peito. Essa pele estava lisa e sem marca. Golpeando o coração, ela colocou a mão na parte de seu peito onde viu a coisa penetrar. — Não sinto nada diferente. Somente... maior. Oh Deus. Oh porra. Sua respiração saiu dela. — Como se fosse maior. — Um sussurro. — A outra coisa dentro de mim. Ficou maior. As asas serrilhadas se esticaram mais, esticando a pele, cortando-a por dentro. Curvando os dedos da mão em seu peito, ela apertou os dentes enquanto lutava para esconder a dor de Venom. Ele a observou, seus olhos se viraram para a mão bem apertada. Ela flexionou-a através do esforço consciente de vontade. Ele não pode saber que estou acordado, a loucura dentro dela sussurrou. Ele nos matará para proteger Raphael. Holly não confiava nessa voz insana, mas também sabia que estava se tornando algo que não deveria existir, uma abominação da criação. Mas não queria morrer. Agora não. Não quando decidiu viver. E, tinha a outra coisa sob controle vicioso. Ela não era uma ameaça. Se a loucura tentasse escapar, confessaria seus pecados, suportaria o castigo. A única coisa que Holly não faria era repetir a fúria assassina de Uram. — Os testes nela e o sangue de Kenasha, — Venom disse finalmente, — Estão demorando a se completar. Os curandeiros dizem que nunca viram algo assim. — Também precisa do meu sangue. Tem que pegar uma nova amostra pósincidente. — Com a pele gelada, Holly abotoou a camisa, aproveitando a oportunidade para quebrar o contato perigoso com um homem tão inteligente quanto letal. — Ou pegou enquanto eu dormia? — Não preciso violar mulheres, gatinha. Elas me imploram para tomar seu sangue e seus corpos.


Feliz por voltar a uma base familiar, Holly fingiu vomitar antes de se levantar. — Vamos doar meu sangue, então. — Ela o viu se levantar antes que um pensamento a atingisse. — Você se alimentou? — Sim. Holly fechou a boca antes de perguntar o nome de seu doador. Ela não se importava. Não deveria se importar. No entanto, a questão estava empurrando tão forte em sua garganta que ameaçava machucar. — Tentou essa garrafa de sangue premium de Janvier e Ash? Ash disse que a companhia de Ellie está prestes a ampliar sua gama de sabores. — Por uma boa amiga é uma coisa, mas nunca vou voluntariamente consumir essa zombaria de sangue, — ele disse com uma expressão tão ofensiva que teve que rir. Este, este era o homem que uma vez dirigiu sua própria cozinha. Mas ele não terminou. — Qualquer um que adultere um líquido tão puro e perfeitamente equilibrado deve ser banido do negócio do sangue. — Você é um esnobe de sangue, — disse ela provocando. — Ellie sabe o quanto odeio beber sangue, então traz uma garrafa de chocolate para mim quando me visita. — O orçamento de Holly ainda não dava para isso. — Finjo que é um xarope e despeje-o sobre o meu sorvete. — Claro, não consumiu nenhum sangue por meses antes desse incidente próximo da sede de sangue com Venom; foi um erro que não tinha intenção de repetir. — Da próxima vez, vou colocá-lo num milkshake. Venom estremeceu. — Pare, antes que eu vomite. — Ele apontou para o próximo nível. — Tenho algumas das suas coisas no banheiro caso queira tomar banho. — Serei rápida. — Ela manteve sua palavra, embora tivesse um momento de pausa quando pegou sua calcinha para deslizá-las. A ideia de Venom manipulando o delicado cetim pêssego e renda branca... Subindo as escadas depois, vestida em calça azul apertada e uma simples camisa branca com mangas enroladas, tênis de lona em seus pés, o qual cuidadosamente pintou à mão com estrelas cor de rosa e laranja, ela disse: — Obrigada por ter uma muda de roupas para mim. Não esperava os sapatos. — As


botas que colocou perfeitamente na porta definitivamente não teriam se adequados a essa roupa. — Não fui eu, — ele disse distraidamente, sua atenção no telefone. — Ashwini apareceu com tudo isso. Exclamando silenciosamente, Holly saiu. Venom veio com ela, e os dois logo estavam na área de testes. O anjo de cara doce que tirou o sangue também tomou a pressão arterial e fez um par de outros testes, — Desde que está aqui, de qualquer forma. — Os curandeiros adoravam colocar suas mãos gentis – mas intensamente curiosas – nela e nas pessoas que tratavam com todos os altos funcionários da Torre que conheciam sua história. — É como se ficasse contente quando estou por perto, Lucius, — ela disse ao anjo com asas do amarelo mais suave que as crianças não conseguiam resistir. Os anjos geralmente não gostavam de ter suas asas tocadas por estranhos, mas muitos pareciam fazer uma exceção para os mais pequenos mortais. Uma vez, viu Lucius sentado em silêncio num canto ensolarado do Central Park, suas asas abertas atrás dele, enquanto um grupo de cinco criancinhas acariciavam suas penas com mãos suaves de bebê. — Todos temos nossos vícios, querida. — Ele lançou uma piscadela sobre seu ombro. De constituição alta e forte, com cabelos loiros e olhos cinzentos cintilantes, era bonito, amável e divertido – mas não queria pular nos ossos dele. Não eram as asas; havia superado sua fobia daquilo. Lucius era velho demais, de outra época. Problematicamente, ela estava começando a experimentar o impulso de saltar nos ossos quando se tratava de um vampiro que vivia a mais de três séculos e contando. Essa atração era hilária diante de sua justificativa anterior sobre Lucius. Mas então, Venom sempre foi uma anomalia quando se tratava de Holly – ele a fez reagir, a fez lutar, mesmo quando estava na pior. — Quanto tempo, Lucius? — Perguntou Venom. — Vai demorar um pouco mais. Todas as amostras que nos enviou são... estranhas. — Ele passou os dedos pelos cabelos. — Isso não é científico e me esforço para ser assim, mas aí está. É tão estranho quanto o sangue de Holly, e nossa adorável Hollyberry bateu recorde em estranheza.


Holly jogou uma luva de laboratório esquecida na cabeça dele. — Verei você em um mês, seu sanguessuga, — ela disse rindo enquanto ele pegava a luva no ar. Ela precisava se apresentar regularmente para um exame mensal até que seu sangue parasse de mudar. Quem sabia quanto tempo poderia demorar? — Marcado no meu calendário, doce garota. Venom falou após fecharem a porta ao laboratório de Lucius. — Não percebi que era próxima de Lucius. — Ele tem sido meu técnico de laboratório praticamente desde o início. — Embora parecesse estranho chamar Lucius disso – ele era muito mais. Como Kenasha, Lucius tinha apenas um pouco de poder inato em termos angelicais. Mas, ao contrário do anjo parasita, Lucius passou seus três mil anos de vida aprendendo infinitas técnicas médicas. Nesta década, estava contente em praticar suas habilidades testando sangue e outras coisas. — Qual nossa próxima parada? — Mesmo enquanto falava, ela lutou contra o desejo de esfregar os dedos de sua mão contra seu peito, para silenciar os pulsos que começaram lá dentro. Eram muito baixos, quase não detectáveis, e tinha o ritmo de um batimento cardíaco. Holly tentou não ouvi-lo, tentou não sentir isso... Porque esse não era seu pulso.


Asfixiando aquela percepção arrepiante, porque literalmente nada podia fazer a respeito, a menos que quisesse confessar e acabar com a cabeça na tábua de cortar – ou seu corpo preso numa sala de isolamento – Holly disse: — Estou bem acordada e são apenas uma e trinta da manhã. — Em termos imortais, a noite estava apenas começando. Um pensamento repentino a atingiu antes que ele pudesse falar. — E você? Dormiu o suficiente? — Não preciso tanto quanto pequenas gatinhas. — Não afetado por seu cenho franzido, ele disse: — Ainda temos que rastrear o indivíduo por trás da recompensa por sua cabeça. Holly quase esqueceu disso com tudo que aconteceu. — O que sabemos até agora é que o comprador está levando isso muito a sério e não aprecia que seu tempo seja desperdiçado com relatórios falsos. — Ela mordeu o lado de seu lábio inferior, franzindo o cenho com a ideia das horas que teria perdido. — Mais alguma coisa veio à luz enquanto eu dormia? Com os olhos na sua boca, Venom sacudiu a cabeça. — Seu telefone tocou várias vezes enquanto estava fora. Ninguém falou quando atendi. — Ele o entregou. — Completamente carregado. — Obrigada. — Holly puxou seu registro de chamadas, viu vários números familiares. — São telefones públicos no caminho de Zeph e Arabella. — Ela ligou para um. Nenhuma resposta. O segundo escolhido foi atendido por Big Irma, uma humana que era uma improvável figura mãe para vários vampiros sem-teto. — Holly! — Ela disse em sua voz energicamente exagerada. — Zeph estava querendo conversar com você!


Demorou

alguns

minutos

para

Holly

estreitar

onde

provavelmente

encontraria Zeph e Arabella hoje à noite. — Obrigada, Irma. — Basta lembrar quem a ajudou da próxima vez que estiver aqui em baixo! — Eu nunca esqueço. — E conhecia o veneno escolhido por Irma – cigarros mentolados. Os olhos de Venom brilharam depois que ela desligou. — Tem um rastro? — Talvez. Vamos ver. E, durante todo o tempo, o pulso discreto e furtivo continuou batendo nela. *** As ruas pareciam estranhas e traiçoeiras hoje à noite, a quadra em que rastreou Zeph e Arabella usando a informação de Irma se aproximava na noite como um monstro inanimado. Com seus sentidos picando e a longa faca que tirou do arsenal da Torre segura no coldre de coluna que escondeu sob o moletom rosa brilhante, Holly olhou para Venom e respirou fundo. — Não mate ninguém, — disse ela. — Ninguém aqui é capaz de ser uma ameaça para você. — Certos poderes passavam nas partes mais sombrias da cidade, mas tinham coisas melhores a fazer que rondar as coberturas sujas e grafitadas reclamadas pelos invasores. — Mato apenas aqueles que preciso matar, — foi a resposta não reconfortante. Ele estacionou o Bugatti na frente de um grupo de vampiros magros com cachecóis pretos amarrados ao redor de suas cabeças que estavam fumando do lado de fora do edifício desolado – o tabaco não fazia nada para os fluxos de sangue vampíricos, mas o gosto e o vício oral pareciam funcionar como nos humanos. Rondando até eles, ele disse: — Um único arranhão e ficarei extremamente desapontado. O grupo inteiro congelou com sua aparição. Agora, um da gangue de vampiros encontrou coragem para gritar: — Sim, senhor. Não se incomodando em aguardar, seu intestino agitado pelo peso no ar, Holly foi direto para a entrada da casa abandonada. A própria porta estava caída


no asfalto da trilha, mas isso não significava nada: Holly não conseguia se lembrar da última vez que viu a porta – marcada com vários sinais de gangues – no lugar. Venom se juntou a ela assim que entrou na semiescuridão úmida dentro do prédio, cheia de ar antigo expulso por inúmeras pessoas que não tinham para onde ir...

ou

que

preferiam

viver

nas

sombras.

A

única

luz

era

fornecida

miraculosamente pelo poste no exterior – seu brilho amarelado entrando pelas janelas não quebras – e por uma lâmpada de pé que alguém conectou. Todo o primeiro andar era um plano aberto; as escadas que levavam ao segundo nível abraçavam a parede esquerda. Corpos agitados no chão na entrada... antes de ficar imóveis de forma preliminar. Holly sabia que não era o motivo do medo deles – a maioria dessas pessoas a viu antes. Alguns eram amigáveis, outros não, mas até agora, não teve problemas com eles. Olhando para Venom, ela disse a ele com os olhos para deixála assumir a liderança. Ele enfiou as mãos nos bolsos de suas calças, o blazer que colocou por cima de sua camisa tão perfeitamente cortado e ajustado que sabia que era feito sob medida e criado para esconder suas armas. Olhando para ele, ninguém adivinharia que estava armado com duas espadas curtas usadas numa bainha entrecruzada nas costas. Holly o viu se mover com aquelas lâminas; mortal não era palavra suficientemente forte. — Não encoste em nada, — ela murmurou, — Ou esse será o fim do seu traje elegante. Seus óculos refletiram sua própria imagem. Franzindo o cenho para a barreira, voltou ao exame do primeiro nível da casa. Cerca de metade das pessoas estavam adormecidas sob cobertores irregulares ou montes de jornais, enquanto o resto estava encurralado contra as paredes, tentando não encontrar seu olhar. Holly logo vislumbrou os sinais reveladores de um rosto ferido, roupas rasgadas e danificadas pior que o habitual, arranhões do que parecia sangue fresco no chão. O mau pressentimento em seu intestino se intensificando, ela fez uma ronda cuidadosa na área enquanto Venom estava ao lado da porta, sua mera presença garantindo que ninguém ousasse se mover. — Não estão aqui, — ela disse para ele. — Temos que subir.


Ela estava a dois passos de distância da escada quando uma mão se fechou sobre o topo de seu sapato. Com um salto de coração, olhou para baixo para ver um rosto sujo e redondo envolvido por cabelos castanhos encaracolados. Brynn. Holly a conhecia, sabia, também, que Arabella costumava usar seu pouco dinheiro para comprar comida para essa mortal que não estava bem. Mesmo Zeph, embora fosse um viciado, mergulhava atrás dos restaurantes para se certificar que Brynn não morresse de fome. Sentindo Venom se mexendo atrás dela, deu a ele um olhar de alívio, então agachou-se. Brynn estava quase deitada no chão, e apenas levantou a cabeça. — Onde está Zeph, Brynn? — Holly perguntou gentilmente. — Ele se machucou, — sussurrou a mulher angustiada. — Muito. Arabella também. — Ela indicou a Holly a escuridão sob as escadas e, dois pedaços imóveis, que Holly levou pelo menos um minuto para distinguir, o murmúrio tão profundo lá. — Não consigo acordá-los. Sentando-se, Brynn torceu os dedos sujos, seus olhos molhados. — Tentei dar meu sangue, embora Zeph diga que nunca o tenho, mas eles não beberam, Holly. Engolindo com força, Holly se concentrou nas marcas sangrentas de arrasto no chão abaixo dos pés. — Você os moveu? O lábio inferior de Brynn estremeceu. — Para mantê-los seguros até acordarem, mas não estão acordando. Holly foi até os corpos mortos e silenciosos de seus amigos e retirou a velha manta marrom com a qual Brynn os cobriu. — Oh, Deus. — Fúria era uma tempestade em seu sangue. Agachando ao seu lado, Venom verificou o dano. — A mulher está viva apesar da polpa de carne que alguém fez de seu rosto. Ele... — abaixando o cobertor, empurrou a camiseta suja de Zeph. — O coração não está arruinado, então há uma chance. Holly sabia que a maioria dos vampiros se regeneraria de uma surra tão brutal, mas a maioria dos vampiros não eram tão fracos como Zeph. — Pode dar seu sangue a eles? — Ele não era cruel, alimentou Daisy quando necessário.


— Poderia, mas ficariam melhores com uma infusão direta na corrente sanguínea. — Ele deslizou os braços sob o corpo de Zeph, descontente pela sujeira e sangue que molhou seu terno. — Você e a mortal podem levar a mulher? — Sim. — Arabella não pesava muito. Brynn seguiu suas instruções sem desvio, e logo as duas carregavam o corpo espancado de Arabella até o carro – que não tinha assento traseiro. Mas Venom já havia conseguido encaixar o magro Zeph no espaçoso lugar ao lado do passageiro, e agora colocava Arabella em cima dele, parte do corpo no próprio assento. — É um passeio curto, — ele disse quando Holly ia protestar contra a maneira de transporte. — Quando entrar, você pode abraçá-la contra seu corpo. Virando-se para Brynn, agarrou o queixo da mulher na mão, mas Holly poderia dizer que o aperto não era forte. — O que aconteceu com seus amigos? Os olhos enormes de Brynn não tinham medo de Venom; na sua mente ingênua, ele estava com Holly e ajudou Zeph e Arabella, o que queria dizer que era seguro. — Foi uma grande luta, — disse ela. — Pessoas gritando tão alto. — Ela apertou as mãos sobre as orelhas. — Apenas me escondi até depois, mas Zeph e Arabella ficaram presos no meio. — Merda, — murmurou Holly. — Nunca descobriremos quem começou a menos que Zeph ou Arabella saibam. As coisas só explodem às vezes. A gangue de vampiros magros ainda persistente no mesmo lugar não tinha respostas para eles. — Ouvi que havia uma grande luta aqui, fui ver, — disse aquele com a voz estridente através de uma névoa de fumaça de cigarro, sua pele um branco picado e suas unhas afiadas em pontas. — Mas já havia terminado. — Um encolher de ombros. — Apenas os instigadores fazendo a merda deles. Holly sentiu sua mão enrolando em punho, mas não a plantou no rosto sujo do bundão. — Brynn, vai ficar bem? — Ela não sabia quanto tempo Zeph e Arabella estavam cuidando da outra mulher, ou o quão bem Brynn poderia sobreviver sozinha. — Perdi minhas coisas na luta, — a mulher mortal sussurrou. — Só tenho meu cobertor. — Brynn ainda estava de posse do último porque levaram Arabella para fora numa espécie de bolsa formada pelo cobertor. Para surpresa de Holly, Venom tirou várias notas grandes e as estendeu para os magros membros da gangue. Vestidos com regatas brancas e calças cargo em


verde ou preto, aqueles lenços estúpidos em suas cabeças, pareciam crianças brincando de ser grandes. Holly não confiava neles com seu cão imaginário, muito menos uma mortal de carne e osso como Brynn. Mas Venom sim. — Usem esse dinheiro para obter alimento e fornecimentos para Brynn, e mantenha-a segura até que os amigos dela voltem. — Sua voz era suave quando acrescentou: — Realmente não querem enganá-la, tentar se alimentar dela ou prejudicá-la de outra forma. Está agora sob minha proteção. Independentemente dos matizes extremamente diferentes de sua pele, os vampiros empalideceram como um grupo. A resposta deles não intencionalmente coreografada poderia ter sido engraçada em outras circunstâncias, mas hoje à noite, tudo que Holly se preocupava era saber que estavam com muito medo de Venom para desafiá-lo. — Não, senhor, — disse o Sr. Squeaky. — Ela pode ficar com a gente. Temos gado em casa, não precisamos nos alimentar do doador de outros vampiros. Brynn, os pulsos e pescoço mal marcados pelas velhas mordidas, parecia suficientemente feliz com essa solução. Enrolando-se em seu cobertor, se juntou à gangue ao invés disso. Antes de Holly sair com Venom, no entanto, ela se certificou da segurança da outra mulher, tocando em sua própria insanidade até que ela colorisse sua voz. — Tenho muitos olhos na rua. Serão observados. As palavras frias fizeram com que a gangue lhe desse um olhar distintamente cauteloso. Satisfeita, entrou no carro. Venom dirigiu diretamente para uma clínica vinte e quatro horas que atendia tanto mortais quanto vampiros. O atormentado médico vampiro de plantão deu uma olhada em Zeph e Arabella e imediatamente os enganchou nas IVs de sangue. — O melhor sangue que temos, — disse ele, sua pele de ébano pálida de fadiga. — Certamente espero que vocês dois estejam cobrindo a conta, ou meu traseiro estará na linha. — Envie a conta para a Torre e será paga, — disse Venom antes que Holly pudesse responder. — Precisamos falar com eles. Existe alguma chance de que acordem logo? O médico, círculos escuros sob os olhos, checou novamente ambos os pacientes. — Ele, sem chance. Ela... Espere quinze minutos e então, se estiver


disposto a doar metade de um copo de seu próprio sangue, poderá trazê-la à consciência. — Um sorriso fraco. — Nenhuma clínica tem acesso à sangue tão forte quanto o seu. A espera foi excruciante. — Por que ajudou Brynn? — Holly perguntou enquanto os dois estavam de costas para a parede arranhada e cortada, ao lado do quarto de Zeph e Arabella. Na verdade, não esperava uma resposta, mas Venom falou. — A mortal me lembrou uma garota na minha aldeia. Maina era assim... inocente. Infantil, mesmo sendo mulher. Embora eu tivesse dez anos e ela dezesseis, já sabia tratá-la como fazia com meus irmãos mais novos, ao invés de outras meninas de sua idade. Sua família a casou com um velho que batia nela, até que um dia, ela simplesmente não acordou. Tantas lembranças na cabeça dele, tanta história sombria. — Sinto muito. — Eles eram a família dela, mas foram os únicos que escolheram pensar nela como um fardo que precisavam se desfazer. — Pausando após essa súmula áspera, ele disse: — Os dois estão usando Brynn como doadora? — A pergunta era perigosamente impassível. — Não, — Holly disse imediatamente, querendo que conhecesse o coração das pessoas que ele ajudou a salvar. — Zeph e Arabella apenas fingem que é a doadora pessoal deles para que outros vampiros a deixem em paz. É considerado uma coisa ruim nas ruas perseguir um doador que foi reivindicado. — Os dois estiveram perto da fome mais de uma vez e ainda nunca tocaram Brynn. — Todas aquelas cicatrizes que tem, são de antes, quando estava sozinha. — A família de Maina era rica na aldeia, — murmurou Venom, — Mas seus amigos têm mais honra que eles. Eu pessoalmente vou garantir que não tenham dívidas como resultado do tratamento médico. Holly não sabia por que fez isso; talvez fosse a desesperança que cheirava na casa abandonada, a dor oca de uma história que não podia ser mudada, ou porque Venom acabava de arruinar outro terno e prometeu seus próprios fundos para ajudar pessoas que podia ter desconsiderado como não valendo a pena seu tempo... Mas ela fechou a mão sobre a dele. Nenhum deles se moveu até o médico retornar para pedir o sangue de Venom. Ele injetou diretamente no IV, então atingiu diretamente a corrente sanguínea de


Arabella. — Isso é tudo que posso fazer, — disse o médico depois. — Se não estiver acordada em cinco minutos, provavelmente não vai retomar a consciência esta noite. Um sinal sonoro alto fez o macho de altura média correr para lidar com uma emergência. Apenas trinta segundos depois, as pálpebras inchadas de Arabella flutuaram. — Zeph. — Era um guincho. — Na cama ao lado da sua, — Holly disse a ela, deslizando dois cubos de gelo entre os lábios machucados da outra mulher, ao mesmo tempo. — Ele vai viver, mas vocês dois ficarão na clínica por alguns dias. Um tremendo brilho de pânico no azul turvo dos olhos de Arabella. — Eu pagarei, — ela conseguiu sussurrar quando o gelo derretido molhou sua garganta. — Zeph... ele não pode. Levou a Holly um segundo para entender. — A Torre está cuidando da conta em agradecimento pela sua informação sobre a recompensa pela minha cabeça. — Todos tinham orgulho e essa pequena mentira protegeria o de Arabella e Zeph. — Não terá que se inscrever para servir um anjo para pagar. Com alívio evidente, Arabella virou para ver a forma imóvel de Zeph e o IV escorrendo pelo braço. — Brynn? Sim, pensou Holly, seus amigos externamente impotentes e quebrados tinham muito mais honra que muitos. — Segura. — Ela tocou seus dedos numa parte não machucada da mão de Arabella. — Sabe quem fez isso? — Apenas uma luta estúpida. Pessoas ficando loucas. Zeph disse que cheiravam coisas ruins, que saíam do suor deles. — Pode ser uma nova droga, — disse Venom. — Vou alertar Janvier e Ashwini, fazê-los acompanhar. Arabella estremeceu à voz de Venom, mas encontrou coragem para continuar falando. — Sim, Zeph ouviu rumores de uma nova droga. — Uma tosse sacudiu sua caixa torácica. — Eu o fiz prometer a muito tempo a nunca provar nada de coisas novas. Apenas alimentação doce, ou eu o deixaria. Essa era provavelmente a única razão pela qual Zeph ainda estava vivo. — É por isso que você e Zeph estavam ligando? Para me falar sobre as drogas ruins?


— Não. — Arabella abriu os olhos. — Estávamos saindo da Times Square – gosto das luzes. — Ela sorriu suavemente. — Ficou muito cheio. Não me importo tanto, mas Zeph não é bom com isso, então encontramos um lugar dentro da porta fechada de uma loja de roupas. Holly assentiu com a cabeça, consciente que Venom havia se deslocado, de modo que não estava mais na mira de Arabella. — Você viu alguma coisa? — As pessoas geralmente não percebiam aqueles como Zeph e Arabella, que costumavam desaparecer nas sombras. — Não. Ouvi. — Suas pálpebras vibraram de novo. — Dois vampiros mais velhos pararam perto de onde estávamos nos escondendo e ficamos quietos porque sabemos que eles são maus. Estavam conversando e um deles disse: A ordem veio diretamente de Walter Battersby. O ganho é garantido. Quando Holly franziu a testa, Arabella puxou outra respiração instável e acrescentou: — Não conseguimos ouvir o resto... Mas temos certeza que o segundo vampiro disse... Chang. — As pestanas de Arabella sombrearam suas bochechas, seu corpo muito machucado puxando-a para um sono profundo e curativo. — Quem, — murmurou Venom no silêncio que se seguiu, — É Walter Battersby?


De acordo com Janvier, Battersby era um intermediário que adquiria itens cobiçados para imortais ricos. O distinto sotaque mel escuro Cajun de Janvier ficou baixo pela linha telefônica, quando disse: — Nem minha Ashblade nem eu o conhecemos, mas ouvimos seu nome em conexão com antiguidades e pedras preciosas roubadas. Claro que este

misterioso intermediário não vivia

na obscuridade

atormentada e perigosa que Zeph, Arabella e Brynn chamavam de casa. Vivia alto, num arranha-céu exclusivo que era brilho e luz. Quando Venom parou seu carro bonito e muito caro na frente, o criado aparentava ter um ataque cardíaco. Venom lhe jogou as chaves. — Não risque isso. O pobre jovem parecia apanhado entre êxtase e terror. Ainda não conseguia pronunciar uma única palavra quando estavam fora do alcance do ouvido. — Gosta de fazer isso, — disse Holly, tentando uma careta quando ela queria sorrir. — Fazer as pessoas se cagarem. Olhos escondidos atrás de seus óculos de sol, Venom disse: — É um passatempo divertido. — Ele acenou gentilmente para o porteiro mortal composto, e esperou que Holly entrasse no grande lobby de mármore antes de entrar atrás dela. Holly estremeceu. A mão dele roçou suas costas por cima do moletom, o qual chamou de uma monstruosidade que pode queimar minhas íris até a cegueira. Para ser justa, ela disse que ele parecia uma boneca indiana Ken com sua camisa cinza e terno preto; ele ainda estava usando do blazer, tendo conseguido encontrar um pano na clínica para limpar o pior da sujeira e do sangue que deixou sobre ele. Escuro como o tecido era, o dano já não era visível a olho nu. — Está com frio? — Um murmúrio baixo que afundou em seus ossos.


— Não, na verdade não. — Holly disse a seus hormônios para parar com isso... e ouviu esse segundo pulso furtivo que pensou estar misericordiosamente silencioso. Seu sangue se transformou em gelo. — É por causa desse mármore, — ela de alguma forma conseguiu dizer, — Está frio. Caminhando até o balcão da recepção, Venom pediu ao recepcionista que falasse com Walter Battersby. A vampira de olhos azuis e cabelos negros de plantão, as maçãs do rosto como lâminas, assentiu e fez o que pediam... antes de oferecer a Venom um sorriso profundo com lábios exuberantes pintados de um rico rosa. Como para se certificar de que não perdeu o convite silencioso, a mulher furtivamente inclinou-se, seu impressionante decote mostrando o V de sua blusa azul escuro. — Poderia perder uma perna de frango lá, — Holly murmurou em voz baixa. Ela pensou ter dito baixo o suficiente para Venom não ouvir, mas ele lhe lançou um olhar divertido antes de agradecer a recepcionista. — O prazer é meu, — a mulher disse com um ligeiro sotaque – galês, talvez? – antes de deslizar a mão para apertar a dele. Holly virou e revirou os olhos. Esperando Venom se juntar a ela fora da distância auditiva, Holly disse: — Ela te passou o número dela? Ele mostrou o cartão na mão. — Infelizmente, ela não juntou a isso uma perna de frango ou você poderia fazer um lanche. Holly bufou uma risada, bloqueando-a com o dorso de sua mão antes que pudesse ecoar no mármore. Deslizando o cartão num bolso de seu terno, Venom acenou com a cabeça. — Esse elevador – está chegando da garagem do subsolo e está programado para parar para nós. O Sr. Battersby nos convidou para subir. — Que bom. — Holly cruzou os braços e olhou para as portas sem dizer uma palavra. Ela não se incomodou por ele ter guardado o cartão da peito de frango. — Pensei que tinha melhor gosto que isso. — Sério? Ela tem olhos grandes, lábios suaves e curvas suficientes para um hipódromo. — Um encolher de ombros. — Se encaixa no projeto para liberação sexual prazerosa.


Holly virou lentamente para olhar seu perfil insanamente perfeito. — Está rindo de mim. — Ela podia sentir isso. Inclinando-se, curvou os lábios, escorregando o cartão da recepcionista para dentro de um bolso de seu moletom. — Você faz isso ser tão fácil, gatinha. Holly sibilou assim que as portas do elevador se abriram. A matrona bem vestida do outro lado, sua pele perto do marrom de Venom, mas seus olhos como os de Holly, pareceu surpresa. — Eu digo, minha jovem, sua mãe não te ensinou boas maneiras? — Foi a pergunta severa, seguida de um segundo olhar intenso. — É a segunda filha de Daphne. Holly orou desesperadamente por um buraco se abrir sob seus pés e a engolir. Não teve tanta sorte. Grunhindo interiormente, entrou no elevador com um Venom silencioso. Como diabos sua mãe conhecia todo mundo? Não era como se ela fosse rica e ostentosa como essa matrona com seu colar de brilhantes pérolas negras e uma bolsa de mão que provavelmente custaria cinco milhas. Parecia estar voltando atrasada de uma festa de luxo. Daphne Chang, ao contrário, dirigia uma pequena delicatessen ao lado da loja de roupas administrada pelo pai de Holly. No entanto, essa merda era como uma panela de mel que atraía cada curiosa matrona na cidade. As portas do elevador se fecharam, cortando todas as vias de fuga. — Sim, — ela disse, usando seus modos mais doces. — Estou muito contente em conhecê-la. A matrona deu-lhe um olhar considerável de cima a baixo e apenas balançou a cabeça, antes de voltar sua atenção para Venom. Que ele era um vampiro – um vampiro muito perigoso – parecia escapar dela. Ou talvez não se importasse. Numa certa idade, os amigos de Daphne Chang pareciam parar de brincar com qualquer coisa. De uma maneira bem parecida, claro. — Terno bonito, jovem, — ela disse; seu tom caloroso com aprovação. — Tão bom ver jovens que se preocupam com sua aparência. Meu Everett costumava vestir um terno muito bem. Seus olhos pousaram mais uma vez nos jeans de Holly, nos tênis de lona pintados e no moletom. Não dizendo uma palavra – em voz alta – a matrona saiu do elevador dois andares abaixo do seu destino. — Ok, minha querida. Realmente.


As portas se fecharam. E os ombros de Venom começaram a tremer. Ela deu um soco nele, mas não teve impacto. — Cale-se. Vou receber um telefonema da minha mãe no início da madrugada. — O moletom é um insulto à roupa, mas gosto dos seus sapatos. — Juro que vou esfaquear você se continuar. Um riso ainda se aproximando dos lábios, Venom colocou a mão na parte inferior das costas quando o elevador chegou ao andar. Ele olhou para a direita. — Aqui. Esse parece ser o apartamento do Sr. Battersby. A porta abriu naquele instante, o vampiro que estava na entrada era um homem compacto e elegante, de talvez cinquenta anos, com cabelos curtos prateados e um tom de pele que ficava entre Holly e Venom. Ele vestia um terno de smoking antiquado. De veludo azul escuro com lapelas de cetim preto. Abaixo do terno, Walter Battersby usava calças de seda no mesmo preto, juntamente com chinelos elegantes de dourado escuro que se enrolavam nas pontas. Ao contrário de Kenasha, gerenciava a roupa extravagante com calma. — Receio que me pegaram me retirando para a noite, — ele disse genialmente quando chegaram até ele, estendendo uma mão para Venom. Os homens apertaram as mãos antes que Battersby voltasse seu rosto cordial para Holly. — E quem você poderia ser, minha querida? Holly sorriu seu sorriso de matrona, com a certeza que não precisava fazer essa pergunta. — Apenas Holly. — Ela não tinha certeza do que fazer com Walter Battersby. Não ativou seu radar, mas era perigoso, disso não tinha uma única dúvida. — Ah, Holly. — Sem surpresa no avelã claro de seus olhos, seus traços tão parecidos e insignificantes que Holly teve a ideia de que este homem poderia se misturar em qualquer lugar, se tornar qualquer um. — Estou sendo grosseiro, — ele disse naquele momento. — Entrem. — Ele os levou para um apartamento espaçoso, decorado com móveis que eram um pouco escuros e pesados para Holly, mas de bom gosto, no entanto. Três gravuras em preto-e-branco emolduradas alinhavam uma parede, todas retratando pessoas em roupas de pelo menos cento e sessenta ou setenta anos atrás. Essas pessoas eram rígidas e formais... e uma delas era um jovem Walter Battersby.


— Nasceu no século XIX? Battersby sorriu para sua pergunta. — 1812, — disse ele, antes de ir a um decantador no canto e derramar dois copos de sangue. Ofereceu um para Venom, outro para Holly. Quando ela demorou, perguntou se ela gostaria de tentar um licor de framboesa com um sabor mais forte, que adquiriu recentemente de um colecionador na Baviera. Ainda incapaz de marcar esse homem na categoria de buraco sem escrúpulos, Holly assentiu, e ele serviu o líquido num copo de licor lindamente cortado com uma haste curta e facetada. — Deve me dizer se gostou, — disse ele depois de aceitar a bebida. — Tenho um vício terrível para coisas boas e não consegui resistir quando vi esta garrafa no mercado... Mas não é por isso que estão aqui. Por favor, sentem-se. Venom tomou uma cadeira que lhe dava uma visão de Walter em sua poltrona de couro enquanto pegava qualquer movimento da direção da porta com sua visão periférica. Em contraste, Holly escolheu uma cadeira que a colocou de costas para a parede, mas também a colocou diretamente na frente de Battersby. Ela confiava em Venom para matar qualquer ameaça que atravessasse a porta, mas este homem inteligente e culto, ele era outro tipo de perigo. — Cinco milhões? — Ela disse suavemente, segurando o claro avelã do olhar de Walter Battersby. — Vou ter uma opinião inflada de mim mesma se não tiver cuidado. Para crédito do vampiro, não tentou fingir que não sabia do que falava. — A escolha do cliente, receio. — Ele tomou um gole do copo. — Tentei aconselhar o cliente a diminuir a recompensa para não ser inundado com relatórios falsos, mas... — um encolher de ombro apologético. — O cliente insistiu. — Alertou este cliente que no momento eu estou em seu apartamento? — Holly perguntou, seus olhos nele e só nele. Não havia nenhuma visão atrás dele, as janelas bloqueadas por pesadas persianas. Uma escolha interessante numa cidade onde as vistas obtinham prêmios. Talvez Walter Battersby não quisesse olhar e ver o século XXI olhando para ele. Tudo nesta sala, do tapete de seda à mão no chão, aos ornamentos na manta, até a cadeira em que estava sentada, vinha de outro momento. Havia até um candelabro na mesa de escrever à esquerda, e a cera derretida nas velas, bem como


no próprio metal do próprio candelabro, dizia que Battersby costumava usá-lo com frequência. — Não, não minha querida. — Walter Battersby balançou a cabeça. — Nunca enfiaria minha mão na cumbuca. — Colocando o copo de lado numa pequena mesa ocasional que provavelmente era uma valiosa antiguidade, empurrou as mãos debaixo do queixo. — Meu trabalho é apenas facilitar certas transações. Sou pago generosamente por isso. Não preciso fazer inimigos mercenários e caçadores de recompensas por caçar seu alvo. — E a Torre? A pergunta sedosa de Venom fez o rosto de Walter Battersby ficar imóvel por um instante. Era a primeira vez que o homem urbano apresentava alguma indicação de medo – e se recuperou rapidamente. Abrindo os braços, ele disse: — Não sabia que Holly era especial no momento que aceitei a comissão. Sabia que morava na Torre, mas a palavra na rua era que ganhou aquele quarto por seu trabalho com os habitantes mais sombrios da cidade. Ninguém muito alto, por assim dizer. — Outro olhar de sincera desculpa. — Ninguém enfrentaria a Torre. Holly sabia que a Torre acompanhava todas as pessoas. Ninguém era dispensável. — Quanto recebeu de pagamento? — Ela perguntou enquanto o perfume opulento do licor subia ao nariz. — Quanto foi suficiente para se arriscar por um pequeno peixe na lagoa da Torre? — Dois milhões. Isso significava que alguém estabeleceu sete milhões para levá-la. Sete fodidos milhões. Sua cabeça girou. — Quanto vale esse apartamento? Battersby sorriu. — Quinze milhões. Não, não estou precisando de dinheiro – mas é preciso ter desafios intelectuais ou morrer de tédio e isso é um desperdício da quase imortalidade, não é? Ele se inclinou para a frente. — Agora que conheço o interesse da Torre, vou devolver o pagamento ao meu cliente e apontar a cláusula do contrato que diz que precisam me avisar de quaisquer perigos inesperados. O pagamento de perigo é extra, você vê – e esse perigo, não desejo arriscar. Há uma diferença entre risco aceitável e absoluta estupidez. Holly olhou para ele. — Há um contrato?


— Sou um empresário. — Battersby levantou depois de olhar para Venom – e foi até um aparador onde pegou um documento. — É isso. Holly

examinou

primeiro.

Era

um

contrato

e

apresentava

as

responsabilidades de ambas as partes em matéria da captura viva de Holly Sorrow Chang. Estava assinado com sangue na parte de Battersby – a caneta-tinteiro de ouro que notou em sua mesa de escrever de repente assumiu um novo significado. O cliente aceitou o contrato através de um pequeno e-mail que estava vinculado ao contrato. — Não há nenhum nome no e-mail, — disse Holly, entregando o contrato para Venom. — Não, minha querida. — Mais uma vez instalado em sua poltrona, Battersby pegou seu copo. — Este cliente não é burro. Não cavo muito fundo, mas tento não trabalhar com tipos desagradáveis – por exemplo, não caminho com aqueles que desejam fazer coisas adultas com os menores, ou que desejam Fazer um mortal de forma involuntária – mas não pude encontrar nada sobre este indivíduo. Como ele ou ela queriam capturar um vampiro adulto, não havia nada abertamente errado com o pedido. — Exceto pelo fato de ser um sequestro, — apontou Holly, toda a conversa bem-educada tão surreal que parecia como se tivesse caído no buraco do coelho. Battersby sorriu para o tom seco. — Facilitar essas coisas faz parte do que faço, infelizmente. — Pausando, ele disse: — Se posso ser indelicado... suas presas são bastante pequenas. Quem a Fez não teve êxito? — Ele realmente parecia angustiado. — Se estiver sob o cuidado da Torre por razões médicas, peço desculpas. Não trabalho com clientes que visam o desafortunado. O desafortunado? Holly olhou para Venom, incapaz de acreditar que esse cara era real. Afastando o telefone, Venom enfiou o contrato dobrado no terno. — A Torre acessou seus dispositivos técnicos. Esperaremos enquanto verificam sua história. Battersby recostou-se no assento, os olhos arregalados. — Minhas proteções são o estado da arte. Talvez tenha nascido há mais de duzentos anos e ainda prefira os costumes da época, mas acompanhei as mudanças no mundo. Venom não disse nada, não explicou. Tirando os óculos de sol, apenas esperou em silêncio, sem piscar os olhos, conforme os dedos de Battersby ficavam


brancos em torno de seu copo. Holly, no entanto, estava profundamente curiosa – e desde que tinham tempo... — Como acabou nesta linha de trabalho? Um toque de cor voltou para suas bochechas. — É o que fazia antes de ser Feito – para os mortais, você entende, — disse o outro vampiro. — Depois da minha criação, percebi que os imortais precisavam do mesmo tipo de serviço discreto e começou enquanto ainda estava sob Contrato. Meu mestre angélico na época estava intrigado com minha capacidade de construir conexões e obter informações para facilitar as transações e me deu carta branca, desde que não escondesse nada dele. Somos amigos até hoje. — Por que não mora na parte mais sombria da cidade? — Panelas de carne e cidadelas de dor não são minha droga de escolha, — ele respondeu com um sorriso que não conseguiu atingir os olhos tingidos de um medo tão profundo que não podia ser escondido. — Como posso me dar ao luxo de viver perto das galerias de arte e bares de vinhos finos que são minhas drogas de escolha, eu faço. — Mas mantém suas conexões nas ruas? — Sim. Um homem na minha profissão só precisa de alguns interlocutores confiáveis para garantir que a palavra saia sobre certos assuntos. Tal como a recompensa significativa pela cabeça de uma Apenas-Holly. Holly sorriu para seu gentil arremedo de seu tom doce quase derretido na porta. — Não tem medo de irritar a pessoa errada e perder sua vida? — Esse, minha querida, é o ponto. — Battersby deixou seu copo meio vazio. — A emoção do risco. — Ele se virou para olhar Venom. — Se posso ser tão ousado, por que nunca mostrou nenhum sinal de tédio? O tom de Venom era impossível de ler quando respondeu, seus olhos ainda fixos em Battersby: — Por que percebe que não tenho? — Nunca foi visto em nenhum dos assombramentos habituais daqueles que pressionam seus sentidos até o limite num esforço para sentir algo – e quando fotografado pelas revistas que parecem gostar de segui-lo, está alerta e consciente. Não há sensação de tédio em você. Era verdade, pensou Holly. Venom podia dar uma impressão de negligência lânguida quando queria, mas nunca era realmente descuidado. Estava interessado no mundo, notava tudo. Esta noite, ele sorriu. — Você é um homem inteligente,


Walter, — disse ele. — Mas, infelizmente, se cruzar com a Torre, essa inteligência não o salvará. Uma fina camada de transpiração explodiu sobre o lábio superior de Walter, mas ele não implorou nem suplicou. — Aceito que desisti de não cavar abaixo da superfície – deveria ter percebido que Holly era da Torre. — Voltando à atenção para Holly, ele disse: — Num esforço de redenção, gostaria de avisá-la que muito das minhas informações sobre você veio de um indivíduo em quem você confia.


Holly confiava em poucas pessoas. E não podia ver nenhum deles a traindo. — Quem? — David Shen. Holly apertou o lábio. — Aquele bosta? Deveria ter adivinhado. — Ele cometeu um erro durante um período em que ela lutava brutalmente para se apegar à normalidade. Claro, David não sabia a verdade de sua transição nas mãos encharcadas de sangue de Uram. Sua vida estaria perdida se dissesse a ele; ela contou a mesma história que contou à sua família. David era suave, sofisticado e a fim de namorar uma vampira. Isso lhe dava certo status em seu círculo de amigos – composto por colegas assessores financeiros e outros bastardos presunçosos. No entanto, não teve bolas para lidar com acordar cinco vezes seguidas com sua namorada olhando sua jugular. Não era como se ela fosse mordê-lo. — O que esse bosta lhe falou sobre Holly? — O tom de Venom não ficou acalorado, sua forma de um predador vigiando sua presa, mas ainda não estava pronto para atacar. Até mesmo Holly teve que admitir que ele estava fazendo um bom trabalho em ser frio e aterrorizante. — Sr. Shen me informou que Holly era uma tentativa fracassada de Feitura, e que estava apenas sob a supervisão da Torre devido à necessidade de garantir que ela não corresse o risco de cair em sede de sangue. — Walter tomou mais um gole cuidadoso do sangue na sua mão. — Não provou seu licor, minha querida. Holly inclinou o copo, olhou a cor rosa surpreendentemente escura que rodopiava dentro do cristal. Era bonito, sem dúvida. Quanto ao gosto... O primeiro sorvo a fez suspirar calmamente. — Definitivamente, uma bebida que poderia usar para seduzir suas amigas. — Holly cresceu numa cidade cosmopolita cheia de


mortais e imortais; viu que o amor tinha facetas tão complexas quanto o cristal de seu copo de licor – não se podia presumir que um homem sempre preferisse uma mulher, ou que um relacionamento estável e comprometido só podia caracterizar duas pessoas. No entanto, uma das imagens em preto e branco na parede era de Walter com o braço em volta de uma mulher, seu abraço abertamente possessivo. Dado o modo como escolheu se vestir e decorar sua casa na moda de outro lugar e hora, o intermediário a atingiu como um homem que era muito firme em suas inclinações e desejos. Seriam mulheres para Walter Battersby. Agora, seus olhos se encheram de uma alegria que estava em desacordo com o medo que o cobria. — Bom saber disso. — Outro gole de sua própria bebida. — O pérfido David também me levou a acreditar que a Torre não se importaria demais caso você simplesmente desaparecesse – você dava muito mais trabalho – suas palavras de escolha – do que valia. — Idiota, — murmurou Holly, sem surpresa, mas machucou assim mesmo. Pensou ter amado David uma vez, o suficiente para desculpar seu ego exagerado e sua obsessão pela riqueza e status. Foi só depois que o relacionamento deles fracassou que percebeu que tudo foi construído em seu desesperado desejo de ser normal. Não amava David; adorava a ideia dele: normal, mortal, humano. Então, não, o deles não foi um grande romance, mas falar dela como descartável? Que tipo de pessoa fazia isso? — Pensei o mesmo, — murmurou Walter. — Tenho medo de suas presas anormalmente pequenas darem peso às palavras dele. — Você, é claro, — disse Venom, — Não dependia apenas das palavras de um homem fraco e infiel. — Não, na verdade, — Walter disse enquanto Holly pegava a ponta de desgosto na frígida declaração de Venom. — Falei com aqueles que assombram as sombras onde Holly trabalha, e todos eram de opinião que ela não era uma vampira Feita por escolha. — Raiva acendeu sua expressão quando ele voltou sua atenção para Holly. — As pessoas disseram que as circunstâncias da sua Feitura deixaram você brava e difícil de controlar, especialmente porque essas circunstâncias a colocam fora da estrutura do Contrato. Você era um aborrecimento para a Torre.


Se este homem soubesse o quanto ela daria para estar num contrato padrão. O telefone de Venom vibrou naquele instante. Walter Battersby ficou imóvel. Tirando o telefone, Venom viu a mensagem, depois o guardou dentro de um bolso interno do blazer. — Então. — Walter pousou o copo. — Meus anos de vida acabaram? — Parece que teve uma suspensão da execução. — Terminando o copo de sangue que Walter lhe deu, Venom levantou e estendeu a mão para Holly. Ela a pegou porque... porque, depois de ouvir o que David disse sobre ela, precisava não se sentir como um monstro, e Venom fazia isso por ela. Quente e forte, seus dedos se fecharam sobre a palma da mão. — No entanto, — ele continuou sem olhar para ela, — Agora você trabalha para a Torre no assunto da recompensa de Holly. — Claro. — Walter se levantou e curvou-se com a cortesia do velho mundo. — Transmitirei qualquer informação que venha a mim, embora seja improvável que o cliente entre em contato comigo agora que minha parte disso acabou. — É um jogo longo, Walter. Jogue bem. — O aviso foi claro. Venom não falou novamente até que estavam no elevador. — Você é única, gatinha. A Torre considera você muitas coisas, mas a única coisa que não é, é descartável. Ela apertou a mão com força enquanto sua garganta engrossava. Não podia falar, não até que estivessem no carro. E então não falou sobre o assunto de David e a visão dele de seu valor. — Gostou de Walter Battersby, não foi? — Sempre tive um fraco pelos prostitutos deste mundo. — Ele pisou fundo no pedal, afastando-os da elegante rua e surpreendendo os motoristas de carros reluzentes da cidade negra que rondavam essa parte da cidade. Holly riu, alegria em seu sangue. Sorrindo, Venom jogou seus óculos de sol no colo... sem diminuir a velocidade. Sua velocidade era mortal, seus reflexos insanos. Como mostrou ao levar o carro a uma parada repentina na frente de um cruzamento onde um semteto empurrava o seu carrinho. O cinto de segurança de Holly a segurou firme, mas seu coração perdeu uma batida. — Como o viu? — Acha que eu dirigiria desse jeito se não pudesse? — Ele decolou assim que o homem passou com segurança.


Holly gritou e foi um som de pura excitação. As ruas eram mais silenciosas a essa hora da noite, mas Nova York era uma cidade amada por imortais e mortais da noite, então definitivamente não estava vazia. No entanto, Venom fez seu carro fluir como líquido em torno de todos os obstáculos possíveis, até que ela pensou que se alguém estivesse observando de cima, seu carro pareceria uma raia de relâmpagos contra o preto da pista. Acabavam de chegar a uma rua que estava milagrosamente vazia quando Venom parou totalmente. Ela ia perguntar por quê... e vislumbrou o vermelho flamejante pelo canto do olho. A Ferrari de Dmitri, como um tigre agachado, estava parado do outro lado da janela do passageiro. O cabelo de Dmitri estava soprado de vento e ele estava rindo, um sorriso aberto acenando para Holly do banco do passageiro. Holly acenou em resposta, assombrada por este lado de Dmitri. Ele parecia... jovem. Sem aviso prévio, Venom acelerou o motor e estavam fora, Dmitri mostrandose ao lado deles. Holly gritou quando os dois veículos feitos para a velocidade pegaram uma reta e alcançaram uma velocidade insana. As águas do East River se precipitavam para eles. Venom balançou para a esquerda e para a pista que era paralela à água. Havia mais tráfego aqui, mas isso não impediu Venom ou Dmitri. Teceram pelo tráfego como se não existisse. Ela vislumbrou um flash de vermelho quente em sua visão periférica antes que Venom avançasse e o outro veículo desaparecesse. — Você está ganhando! — Dmitri é rápido, mas não é uma víbora. — Sorriso selvagem, e seu próprio cabelo voando atrás na brisa depois que abaixou a janela, e ele apontou sem perder o controle do veículo. — Olhe para a direita e para cima. Foi quando viu que havia um terceiro jogador no jogo. As asas de azul brilhante afiadas com prata corriam sobre a água ao lado deles, a velocidade de Illium no ar era uma coisa bela. — Como ele pode continuar? — Ele é o anjo mais rápido da cidade, provavelmente um dos mais rápidos do mundo. — Venom passou por um congestionamento pesado, deslizou na frente de um sedan, depois voltou para a outra pista tão rápido que não estava segura de que os outros motoristas sequer o viram.


A Ferrari vermelha de Dmitri apareceu atrás deles um segundo depois. O líder dos Sete foi para ultrapassar, mas Venom bloqueou cada movimento dele. Illium, enquanto isso, mantinha o ritmo enquanto os dois veículos gritavam em outra curva que ameaçou virar o Bugatti. Mas as forças de tração não ganharam contra o manuseio de Venom e eles dispararam. Todo o caminho de volta para casa, onde parou seu veículo na frente da própria Torre. Dmitri chegou dois segundos depois, olhando pela janela aberta de seu carro. Seu sorriso era tão indomado quanto o de Venom, e quando Illium pousou entre os dois carros, completou o trio de homens bonitos e perigosos. Os dedos de Venom tocaram a nuca de Holly, o braço esticado e apoiado na parte de trás do assento enquanto se inclinava para falar com os outros. Uma consciência sexual repentina e aguda ondulou através de seu corpo, os cabelos minúsculos em seus braços se erguendo. Pensou que escaparia a tempo, mas a mão de Venom se enrolou em sua nuca. Ele esfregou os dedos suavemente sobre sua pele hipersensível. Não podia olhar para ele, seu coração batendo tão forte em seu peito que quase não podia ouvir a conversa que os outros estavam tendo. Ouviu a risada de Illium, viu a mão de Honor na bochecha de Dmitri quando virou o rosto para o beijo e viu Illium e Venom colidir os punhos. E sentiu os dedos de Venom escovando sua pele num movimento lento e rítmico que foi diretamente ao seu núcleo. — ... amanhã. Pegou a última palavra antes de Dmitri se afastar para dirigir seu veículo em direção à garagem da Torre. Illium levantou um segundo depois num banho de vento que soprou o cabelo através do rosto. — Gatinha. — Era uma tentação líquida. — É a adrenalina. Seu sangue está bombeando. Forçando-se a olhar para ele, Holly respirou fundo. Os olhos dele brilhavam com o mesmo calor sexual atávico que queimava nela. — Por que não? — Ela sussurrou. — Já esteve com uma mulher um pouco como você? — Você é uma gatinha, — ele disse, mas não tirou a mão do pescoço dela. — Não transo com bebês. — E eu não transo com mais ninguém. — Ela olhou para aqueles olhos selvagens sem medo. — Estou com muito medo. Vou matar mortais e estou


aterrorizada. Vou lançar os vampiros a uma dor horrível. — Seria necessário apenas era um único roçar de suas presas. — Você está a salvo, — ela disse, virando em seu assento e se movendo com velocidade instintiva para apoiar uma mão em seu cabelo. — Você me quer. — Ele não estava fazendo nada para esconder sua reação. — Vai se arrepender pela manhã. — Ele tirou a mão dela do cabelo dele, apertando a nuca dela enquanto a arrastava a meio caminho pelo console central. — Também não tenho relacionamentos. Você é do tipo de gatinha de relacionamento. Holly queria cuspir uma resposta sarcástica, mas ele a amordaçou com a verdade. Apesar da horrível loucura crescendo cada vez mais dentro dela, ainda desejava uma vida normal. Era a garota que cresceu planejando seu casamento, a garota que brincou de casinha com suas bonecas. Uram alterou o caminho de sua vida, mas não mudou o fundamental no coração dela. — Isso, — ela disse, passando o dedo nos lábios dele, — Não significa que quero construir um relacionamento com você. — Venom era muito perigoso para sua paz de espírito; via profundamente, a entendia de maneiras que não se entendia. — Só quero coçar uma coceira física. — Isso, eu posso fazer. — Soltando-a de volta em seu assento, ele dirigiu o veículo e se afastou rapidamente da Torre. Ela não perguntou para onde iam – claramente não uma cama onde poderia satisfazer o forte desejo em seu corpo quente e pronto. Ele parou o carro perto do Central Park, assim que ela terminou de tirar o moletom num esforço vago para se esfriar. Saindo, tirou o blazer e o jogou dentro, depois desabotoou as mangas da camisa e as enrolou. Depois disso, tirou os sapatos e meias e colocou-os no carro. Então, se aproximou dela e sussurrou: — Corra, gatinha. O sangue de Holly correu para a superfície de sua pele. Estava se movendo antes que inconscientemente decidisse fazê-lo, sua parte mais primitiva assumindo. Ele lhe deu uma vantagem, sabia disso. Isso tornaria a perseguição mais interessante. Ela correu para o parque com toda sua velocidade anterior, e fez coisas que não se acreditava capaz até aquele instante – fluir pelas árvores e descer outras


para confundir sua trilha, passando pela escuridão como se fosse o mundo dela. Quando viu as janelas brilhantes dos edifícios que rodeavam o parque, descobriu os dentes e se perguntou se as pessoas lá dentro tinham alguma ideia dos predadores letais que rondavam abaixo. Por fim, ficou imóvel e silenciosa, curvando-se tão parada quanto a cobra que vivia nos olhos de Venom. Ele a encontrou, mas ela esperava isso. Tendo se posicionado numa árvore, pulou em suas costas, levando-o ao chão e bombeando seu veneno no ombro dele através da camisa. Ela saiu antes que ele pudesse se virar, mas estava perto o suficiente para ouvi-lo rir. Uma resposta desumana. Mas nenhum deles era exatamente normal. Entregando-se à outra coisa dentro dela, correu como se as árvores não estivessem lá, movendo-se e atravessando os troncos de maneiras que não eram possíveis com a anatomia humana. As asas serrilhadas dentro dela empurravam e empurravam a pele, a dor constante. Ela não podia voar como a outra coisa, queria correr, e correr... correndo, bombeou seu corpo cheio de adrenalina mais uma vez. A loucura estava saciada. Por agora. Avançando no chão três minutos depois, seu corpo esticado na grama escura, ficou imóvel novamente... E Venom passou por ela. Seus lábios curvaram; uma profunda felicidade em seu interior que não podia explicar. Esperou implacável por pelo menos dez minutos, não menos desconfortável, antes de fluir e voltar na direção oposta. Brincaram no parque escuro da noite como se fosse um campo de jogos. Sempre que Holly passava perto de grupos de vampiros que também estavam usando o parque – ou humanos estranhos e corajosos – ela se afastava. Este era um jogo privado. Ela correu todo o percurso por pelo menos cinco minutos quando Venom apareceu do nada na frente dela. Ela não teve chance de parar. Os braços que a rodeavam a levaram ao chão numa única jogada.


A respiração de Holly fugiu dela. O cabelo caindo ao redor do rosto e olhos brilhantes na noite desbotada, Venom prendeu os pulsos de cada lado de seu corpo. O peito arfou, a camisa suja e rasgada. E seu sorriso era algo de uma beleza primitiva. Holly não pensou. Apenas levantou a cabeça e capturou os lábios com os dela. Venom a empurrou para baixo, seu corpo eroticamente pesado segurando o dela. Suas presas o cortaram. Ele ignorou isso. Encorajada, ela passou a língua em torno de suas próprias presas. Ele fez um som que não poderia descrever, exceto para dizer que não era humano. Sua ereção uma marca contra ela, ele deliberadamente cortou o lábio dela. Ela sibilou uma respiração, e ele a chupava. Holly gemeu; sua coluna arqueada. Não sabia que alimentar podia ser erótico. Deslizando as mãos por seu corpo depois de soltar os pulsos, ele passou os polegares pelos lados de seus seios, e sua boca se movia abaixo da mandíbula e para a garganta vulnerável. Ele também a cortou, apenas o suficiente para liberar sangue, mas não o suficiente para doer. Ele se alimentou de pequenos sorvos, como se ela fosse o aperitivo de uma refeição principal. Não arrancou a camisa dela. Abriu os botões um a um, usando ambas as mãos para empurrar os lados abertos para expor seus seios antes de mergulhar a cabeça e capturar um mamilo duro e sensível na boca... E então, o cortou também. Holly gritou, sem se importar com quem poderia ouvir. Venom raspou a língua contra a carne, a mão no seio negligenciado. Era muito pequeno, sabia disso, mas ele estava fazendo coisas com a ponta do polegar que fazia as pernas girarem e o corpo dela se curvar. Ela arrancou seus sapatos e


meias, tentando encontrar um ponto de apoio na terra, mas continuou desaparecendo sob uma névoa de necessidade. Sorrindo para ela ao levantar a cabeça, Venom disse: — Gosto do seu grito. Ele abriu o jeans e enfiou a mão entre as pernas antes de poder processar as palavras. Ela gritou novamente, seu corpo tenso se separando em seus dedos. Quando puxou as calças para expor a calcinha de renda cor de pêssego que usava por baixo, ela não se sentiu tão exposta. Torcendo-se com a velocidade primitiva que ele demonstrou que ela possuía, ela mudou suas posições. Ele a deixou desabotoar sua camisa para expor o plano duro e tonificado de seu peito. Sua pele era do mesmo lindo marrom queimado como no rosto. — Fica sem camisa? — Os vampiros mais velhos achavam difícil bronzear, mas a cor da pele de Venom era natural – mas deveria ser mais clara nas partes de seu corpo que eram muitas vezes cobertas. — Passei muito tempo num ringue de treinamento ao ar livre enquanto estava fora, — ele disse; deitado lá, despreocupado que alguém pudesse vir sobre eles. — Treinamento de combate prolongado. Holly adorava vê-lo se mover quando treinava – embora nunca diria isso a ele. Inclinando-se, passou as mãos sobre o plano implacavelmente tonificado de seu peito antes de pressionar os lábios contra a pele dele. O contato não foi suficiente. Queria esfregar-se contra ele, queria ficar pele a pele, muito mais intimamente. Sentada em cima dele, tirou a camisa quando as asas dentro dela se espalharam numa explosão violenta. *** Venom sabia que estava cometendo um erro, mas era o erro mais erótico de sua vida. Assistiu com antecipação quase incisiva quando Holly abriu a camisa, expondo os montes duros de seus seios, a carne cheia fazendo seus dedos enrolar na grama. Ela sorria para ele de uma forma ligeiramente predatória, que o fazia se sentir um pouco caçado. Venom gostou. Nenhuma mulher já olhou para ele desse jeito. Como se fosse sua presa.


Um segundo depois, as costas dela se arquearam violentamente, a cabeça caindo para trás enquanto seu peito começava a queimar com um brilho verde ácido que se formou na forma de asas. Asas não angélicas. Não asas de pássaros. Asas estranhas e irregulares, com bordas afiadas que pareciam cortar. A cor era verde víbora e verde ácido e claro, luz verde, tons ondulantes que brilhavam o suficiente para luzir na escuridão. Ele sentou, com as mãos na cintura dela. — Holly! Seus dedos apertaram nele, apertando tão forte seus bíceps que as unhas cortaram sua pele. Dor, ele percebeu, ela estava com dor. Ele tomou a única decisão que pôde. Usando suas presas para abrir uma veia em seu pulso, ele levou à boca dela. Não sabia se o sangue dele iria ajudá-la a lutar contra isso, ou se apenas alimentaria o efeito, mas precisava tentar. A garganta dela se moveu. Repetidamente, seu sangue escorregando pela garganta. As asas cintilaram... e desapareceram. A cabeça de Holly voltou a uma posição normal. Limpando a boca com parte de trás do braço, o sangue manchando sua camisa branca, ela olhou para ele com olhos que eram duros. — O que acontece agora? Eu morro? era a pergunta não formulada naqueles olhos despojados de todos os escudos, todas as proteções. Vai me executar? Venom agarrou a nuca dela e a puxou para perto. — Agora, — ele disse, — Descobrimos algumas respostas. *** O peito de Holly ainda doía às dez da manhã seguinte, quando saiu do chuveiro e começou a se vestir. Teve cerca de cinco horas de descanso escuro e sem sonhos, o que era suficiente para não deixá-la com a sensação de zumbi. Surpreendentemente, realmente adormeceu na curta viagem de volta à Torre depois que deixaram o Central Park, tão exausta que se sentia seca. Acordou uma vez quando Venom abriu a porta do lado do passageiro de seu Bugatti na garagem da Torre, seu coração trovejando pelo que estava por vir.


Ele passou os dedos por sua bochecha, seu olhar inescrutável. — Não está em forma para conversar com Dmitri, gatinha. Durma um pouco. Falaremos de manhã. Agora era de manhã, e precisava enfrentar o julgamento que tentou evitar por tanto tempo. De certa forma, era um alívio colocar tudo a limpo. Não escondendo mais a coisa uivando dentro dela, e que se tornava cada vez mais forte. Sem mais fingimento de que estava melhorando. Após vestir um par de elegantes jeans pretos, Holly olhou para sua metade superior nua no espelho colocado no canto de seu quarto. Era uma estrutura única com uma moldura ornamentada que pintou de rosa. O que aquele espelho refletia sobre ela era uma pele lisa e sem defeito. Passou os dedos pela linha central do peito. Sua carne doía, mas não havia ferida visível. Apenas uma interna. Quando sua mão roçou a pequena curva de seu seio, fez uma pausa, olhouse novamente, desta vez como mulher. Seu corpo era magro, mas ganhou uma camada de músculo mais suave nos anos desde o ataque. Seus seios, no entanto, eram exatamente do mesmo tamanho que naquela época – sempre esperava que crescessem caso tivesse filhos, mas agora era parte vampira. Não importa o quê, seu corpo voltaria a esse mesmo estado relativamente rápido. Olhos verdes como fendas brilhavam para ela, um homem que não veria nada errado nos pequenos e duros montes. Cor inundou suas bochechas, seu comportamento da noite anterior um pouco embaraçoso à luz do dia. O que estava pensando? Alegria. Calor. Um homem perigoso e bonito que não tinha medo dela. Seu núcleo se apertou, ela se virou para pegar uma camiseta rosa e a vestiu. Por cima disso, colocou outra camisa laranja sangue, esticando as duas para que pudesse ver as duas cores. Cobria tudo muito bem. Se sua irmã usasse isso, sua mãe a chamaria de propaganda – Daphne Chang não era a mulher mais emancipada quando se tratava de suas ideias sobre roupas adequadas. Os atributos mais generosos de Mia tendiam a transbordar das camisetas. Sempre fazia caretas quando Holly vestia camisetas, com ciúmes por não poder usá-las sem correr o risco de sair malvestida. Holly, por sua vez, desejava os suculentos sutiãs luxuriosos no esconderijo de lingerie da irmã. Numa noite


memorável, quando Holly ainda estava no colégio, Mia a ajudou a encher um sutiã de tecidos para que pudesse ver como seria uma vez que seus seios crescessem. Sorrindo apesar do nó no interior, pegou o telefone e tirou uma foto de si mesma após colocar uma longa corrente de prata com uma garrafinha na ponta. Essa garrafa tinha um pó de duende cintilante nela. Na corrente também havia um minúsculo sapato de salto alto preto e um minúsculo par de tesouras forjado em prata. Mia deu à Holly o longo colar no décimo oitavo aniversário de Holly. Ela adicionou uma mensagem à imagem, o tipo de mensagem que só poderia enviar para uma irmã com a qual brincou, brigou e cresceu junto: Pensando em você, Peitos. Mia devia estar acordada apesar de ter trabalhado no turno da noite, porque a resposta dela veio imediatamente. Os seios estúpidos doem porque decidi correr e não usar o top certo. Prenda o cabelo num rabo de cavalo. Ouviu que Wesley está tentando a filarmônica juvenil? Alvin mencionou que Wes considerava isso quando cheguei a assistir seu jogo de baseball na semana passada. Um violinista talentoso, Alvin, de 15 anos, estava mais interessado em estar numa banda de heavy metal, e atualmente balançava uma orelha furada debaixo de seu corte de cabelo desgrenhado – trabalhava na teoria de pedir perdão parental, não permissão. Holly comprou um pequeno piercing para o aniversário dele. Quando são os testes? Um mês, eu acho. Holly fez uma nota mental para que pudesse desejar boa sorte ao seu irmão, depois reenviou a foto após prender os cabelos num rabo de cavalo como Mia aconselhou: minhas botas brilhantes e pintadas com girassóis? Holly comprou dois pares numa loja de caridade por vinte dólares, depois foi para a cidade e as decorou. Brilhante. A palavra foi seguida por um rosto sorridente. Estou feliz por estar de volta, mei mei8. Eu também, jie jie9.

8 Irmã em chinês 9 Irmã em chinês


Guardando o telefone após a troca afetuosa, irmã mais velha para irmãzinha, decidiu enviar uma mensagem aos dois irmãos, depois ligar para os pais – e foi quando percebeu o que fazia: estava dizendo adeus. Porque Holly lutaria até a morte para viver, mas não se significasse libertar a coisa monstruosa e sanguinária dentro dela. — Ouvi dizer que está sibilando para jovens bonitos, — foi a declaração inicial de sua mãe. — Ia ligar para você, mas desde que estava tão ocupada com aquele jovem bonito, pensei em esperar. Tudo bem? — Ele não é um jovem. É um dos vampiros mais poderosos da cidade. — Deveria trazê-lo para jantar. Holly foi momentaneamente distraída pela ideia de Venom na mesa de jantar da mãe; seu sorriso perverso certamente encantaria Daphne. Sacudindo a imagem estranhamente atraente, conseguiu levar a conversa para outros assuntos, falou com seu pai depois que sua mãe teve que desligar para lidar com um cliente. — Está bem, Holly? — Allan Chang perguntou de maneira gentil. — Sim, papai. — Holly não o chamava assim em anos, mas hoje, se sentia como uma garotinha que precisava do abraço de seu pai. Uma última vez. Terminando a conversa num tempo muito curto, seu encontro com Dmitri surgindo no horizonte, ela puxou as botas pretas que passou dois finais de semana pintando para que brilhassem na luz, mas não demais. Também tinham o suficiente de salto para que não se sentisse em Lilliputt 10 ao lado de todas as pessoas altas que ocupavam a Torre. Era como se houvesse um requisito de altura ou algo assim. — Coisas boas vêm em pequenos frascos, — ela lembrou a si mesma enquanto prendia um grosso relógio preto no pulso esquerdo, depois adicionou um monte de pulseiras coloridas que pegou de uma loja em Jackson Heights. Os olhos que a olhavam de volta permaneciam muito, muito assustados.

10 Lilliput é uma ilha fictícia do romance As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Nessa ilha a personagem principal deparou-se com a população de pessoas minúsculas (com menos de seis polegadas de altura, cerca de 15 centímetros), chamadas lilliputeanos, que o tomaram por gigante.


Usando os cosméticos como sua irmã ensinou quando eram adolescentes, se concentrou nesses olhos, colorindo suas pálpebras num padrão rosa e laranja que provavelmente estava acima do limite, mas quem se importava quando estava ficando louca, de qualquer maneira. Nos cílios uma máscara preta grossa, após usar um lápis prata brilhante para alinhar a pálpebra inferior. Pronta como jamais estaria, saiu do quarto e começou a caminhar até os elevadores. Seu coração era uma batida fria, sua pele gelada. No entanto, quando as portas do elevador se abriram para revelar Venom, ela não hesitou, apenas entrou. Porque desde o primeiro dia que ela ouviu um sussurro psicótico numa voz que não era sua, sabia que isso estava chegando. Ele apertou o botão do andar de Dmitri e seus olhos se fixaram na mão dele, nos dedos que acariciaram seu corpo e apertaram seus cabelos. Não pronta para pensar sobre como a fazia sentir-se visivelmente viva, ela disse: — Já contou a Dmitri? — Não. Você pode dizer a ele. Holly cruzou os braços sobre o peito. — Nunca foi assim antes. Eu brilhava, não? — Ela quase não conseguiu captar o olhar antes que a agonia arqueasse sua espinha – uma fútil tentativa de fuga. — Asas, — Venom disse com um olhar para ela que não estava pronta para encontrar. — Asas não naturais, serrilhadas, brilhando no seu peito. Holly assentiu; como se entendesse a loucura de tudo. Quando a mão de Venom alcançou a parte superior do abdômen e ele pegou o delicado conjunto de pingentes na sua longa corrente de prata, ela não o impediu. — Um presente da minha irmã, — ela disse, recusando-se a reconhecer os dedos de desejo despertados por sua mera proximidade, seu cheiro limpo, fresco e inegavelmente masculino. — As tesouras porque costumava fazer roupas para ela ainda no ensino médio. — Blusas que valorizavam a figura exuberante de Mia enquanto não escandalizava seus pais conservadores. — O salto alto porque amo sapatos. — Ela apontou para as botas. — E o pó do duende porque... Venom não saiu do elevador quando as portas se abriram, seus olhos desprotegidos em seu sorriso desbotado. — Porque é uma sonhadora. — Fui uma vez. — Holly puxou o colar e saiu para encarar o que podia ser a última hora da sua vida.


Vou lutar contra isso. Vou fugir. Os pensamentos desafiadores eram dela e vinham do interior. Foda-se o mundo se achasse que podia destruí-la. Ela não pediu para ser mudada e transformada nesse pesadelo. Tinha o direito de existir, direito de não ser julgada, direito de ter a chance de lutar contra os monstros dentro dela. Se falhasse, era uma questão diferente. Colocaria seu próprio pescoço na guilhotina então. Ninguém tinha o direito de roubar a batalha dela, roubar sua chance de vida. Impulsionada pela fúria, entrou no escritório de Dmitri... e parou repentinamente. O líder dos Sete não estava sozinho. Illium olhava pela parede de vidro que deparava com a sacada enquanto Honor estava ao lado da escrivaninha, franzindo a testa, o profundo verde de seus olhos nas costas do anjo de asas azuis. O olhar de Dmitri estava em sua esposa caçadora. — Desculpe, — disse Holly, tendo a sensação de ter interrompido alguma coisa. Os olhos escuros de Dmitri pousaram nela. — Não, entre. — Pedi que Honor e Illium estivessem aqui. — Venom tocou na parte inferior das suas costas. Holly olhou para ele. O que estava fazendo, alinhando-se tão abertamente com ela? Não sabia que era tóxica? Uma criatura que não se encaixava em lugar nenhum. Mas ele não interrompeu o contato. — A mudança em Holly, — disse ele, — Está aumentando. Então, embora tenha dito que seria ela quem explicaria, colocou os fatos nus para preparar o palco. Isso lhe deu tempo suficiente para encontrar o equilíbrio, a fim de poder contar seu lado da história. — Tem... uma coisa alienígena dentro de


mim desde o ataque. — Esforçou-se furiosamente para manter sua voz uniforme ao invés de ceder ao terror gritante das lembranças que a assombravam. — Sempre pensei que estava tendo dificuldade para aceitar as mudanças dentro de você quando falava delas como se fossem outra coisa, — Honor murmurou, apoiando o quadril contra a mesa de Dmitri, seus macios cabelos de ébano tecidos numa trança e seu corpo vestido casualmente numa camiseta ajustada e calça comprida, a qual a abraçava perfeitamente. — Mas eu estava errada, não estava? — Sim e não. — A raiva ainda ameaçava ferver nela, mas a pausa de antes deu espaço para respirar; sabia que conseguiria muito mais se colocasse seus pontos de maneira racional. E Honor... Holly não podia gritar com Honor. Nunca. Seu coração não permitiria isso; desejava nunca causar dano à caçadora. Honor conquistou seus demônios, mas, no que dizia respeito à Holly, a mulher que lhe ensinou como podia trucidar homens crescidos se usasse seu corpo já havia sofrido mais que sua cota de dor. — Uram, — ela começou, — Ele me mudou de uma maneira que vai até os ossos. — Não adiantava lutar contra essa verdade. — Mas há uma parte que é alienígena, e sempre será. A loucura sussurrante nunca se integrou com sua psique. Holly se preocupou que fosse um sinal de doença mental severa, uma quebra total de seu senso de si mesma, mas doença mental não fazia asas serrilhadas se incendiarem no peito de uma mulher que outras pessoas podiam ver. — É muito grande para este corpo, muito poderoso. — As mudanças aceleraram somente depois de Daisy? — Dmitri perguntou enquanto Illium colocava suas costas no muro de vidro e apenas escutava; a extraordinária beleza de suas asas disparando com a cortante luz solar de uma Nova York que se encolhia da chuva de ontem como a indiferença de um modelo de passarela que troca as roupas. — Não. O... O intruso dentro de mim vem aumentando de força há um tempo, — admitiu, com os pés separados e braços cruzados. — Não disse nada porque não queria ser abatida como um cão raivoso. Os olhos escuros de Dmitri brilhavam de raiva. — Entendo.


Mas Holly não estava recuando. Não dessa vez. Lágrimas ameaçaram queimar os olhos, mas se recusava a ser aquela garota quebrada. — Não tenho lugar, — ela mordeu. — Não tenho estabilidade. Meu direito de existir é condicional. — Ela queria jogar algo, gritar e berrar, mas isso era em parte porque ninguém a levava a sério. Porque era jovem e assustada e, às vezes, entrava em pânico. Não mais. — Quem é você para segurar minha vida em suas mãos? — Ela disse a este homem que a fez se sentir tão segura – e que ainda podia ordenar sua execução. — O que te dá esse direito? — Sua voz tremia pela força de sua determinação. — Só porque não atendo as suas expectativas da vida que deveria existir? Um assobio lento. — Parece que a gatinha cresceu, Dmitri. — A voz de Illium. Dmitri não desviou o olhar de Holly. — Venha aqui. — Era uma ordem. Ela quase olhou para Venom pedindo apoio. Por estranho que fosse, tinha a sensação de que podia conseguir, mas essa era a luta dela. Se juntando a Dmitri quando ele saiu de sua mesa, não hesitou em segui-lo quando saiu para a sacada iluminada pelo sol. O vento era preguiçoso hoje, mas, na verdade, não era absolutamente calmo, o perigo da queda além da borda da grade não era tão perigoso como era em qualquer outro dia. Holly se prometeu que, independentemente do que ele dissesse, da decisão que tomasse, a única coisa que não faria era revelar o quanto doía que continuasse vendo-a como uma ameaça, uma que estava pronto para eliminar a qualquer momento. Dmitri tornou-se importante para ela. Não um pai. Ela tinha um pai a quem amava. Mas alguém significativo. Porque também amava Dmitri. — Por que está aí parada? — Ele perguntou num tom sombrio quando ela ficou segura no meio da sacada enquanto ele se aproximava da borda. — Pensei que gostasse de flertar com o perigo. — Estou tentando ser mais madura e sensata. Para seu choque, ele riu, jogando a cabeça para trás. O vento indolente aproveitou o máximo para passar pelos seus cabelos. Quando ele estendeu a mão, embora a raiva e a dor ainda engasgassem sua garganta, Holly deu um passo à frente para pegá-la. Nunca teria aceitado o comando silencioso se fosse Venom quem o tivesse dado.


Ela e Venom... eram iguais. Não no poder, mas de outras formas vitalmente mais importantes. O relacionamento deles nunca foi e nunca seria como o que tinha com Dmitri, onde a dinâmica do poder era tão distorcida, o desequilíbrio permanente. — Você se sente assim com Raphael? — Ela perguntou quando estava cara a cara com o vampiro que a viu em seu pior e mais sombrio momento. — Como se ele fosse seu superior. Um balanço da cabeça, a mão dele protetora contra a dela. — Raphael e eu éramos amigos quando ele e eu éramos dois filhotinhos nos nossos próprios caminhos. Crescemos juntos. Enquanto eu estou crescendo com Venom. Era estranho pensar nisso, desde que Venom viveu séculos em comparação com sua existência de borboleta, mas parecia certo. Ele disse a ela que não aceitava as mudanças que a marcavam, mas Holly também não achava que estava em paz consigo mesmo. — Então, — ela disse, sua dor derramando. — Planeja me jogar de lado e se livrar do problema Holly de uma vez por todas? Com o rosto brutalmente duro, Dmitri soltou a mão dela apenas para agarrar seu maxilar enquanto Nova York brilhava uma colcha de retalhos de ruas muito abaixo. Os olhos dele eram granito, o aperto implacável. — Se eu quisesse livrarme do problema Holly, — ele disse muito, muito sério e muito, muito perigoso, — Teria quebrado seu pescoço anos atrás. Era uma declaração insensível, mas Holly não teve medo. Porque era Dmitri. Que era duro, mas que sempre a manteve segura, até de si mesma. Foi quando entendeu. Abaixando os olhos, soltou uma respiração instável. — Me desculpe, — ela sussurrou. — Sei que não me abateria como um cão raivoso. — Quer viver se ficar assim? Uma criatura insensata e louca que só tem fome de sangue e morte? Holly não precisava pensar na resposta. — Não. Nunca mais serei o legado de Uram. — Levantando a cabeça novamente, ela disse: — Você me disse uma vez que acabaria comigo, se necessário, que eu nunca o veria chegar. Me prometa que fará isso se eu me tornar um monstro.


Os dedos se afastaram do maxilar, e Dmitri virou para olhar a água à distância. Ela brilhava e faiscava, como se não houvesse nenhuma escuridão no mundo. Como se os monstros não existissem. Holly se virou da mesma maneira e, quando a vertigem ameaçou, agarrou a parte de trás da camiseta preta de Dmitri. — Por que sempre me sinto como uma criança com você? — Ela murmurou. Uma risada áspera antes do braço dele a rodear e ele a puxar. — No entanto, está me pedindo para executá-la. Um pai nunca deveria ter que executar uma criança sob seu cuidado. Holly ouviu tanta dor nessas palavras, tanta história sombria, sabia que pedia algo horrível, mas não podia pedir à Venom. O motivo da sua relutância não era algo que estava pronta para enfrentar. — Quando fiquei segura? — Ela sussurrou. — Quando cruzei a linha de ser uma possível ameaça para uma pessoa que você protegeria? Ele não negou que ela começou como um perigo desconhecido, que fosse sua tarefa assistir e talvez eliminar. — Não sei, — ele disse, seu corpo forte e quente contra ela. — Provavelmente em algum momento entre querer estrangulá-la e sentir orgulho quando lutou com êxito para sair do inferno. — Não acho que algum dia seremos amigos, — disse ela, as palavras solenemente. Virando para encará-la, sorriu novamente. — Também não acho. Os lábios de Holly estavam curvados. Porque estava tudo bem. Dmitri era outra coisa para ela. *** Venom sentiu uma conflagração crescendo no fundo dele enquanto observava Dmitri e Holly através da janela do chão ao teto na parte de trás do escritório de Dmitri. A conflagração era paradoxalmente uma coisa fria – emanando da parte dele que não existia antes da mordida de uma víbora – e um fluxo violento e aquecido de magma que o alterava num nível fundamental. Ciúmes.


Piscou para voltar aos seus sentidos no instante que identificou a emoção. Porque isso era uma merda. Dmitri amava Honor com uma devoção apaixonada que era uma coisa de caos, beleza e lenda. O líder dos Sete destruiria impérios pela esposa, se fosse o que ela pedisse. Honor possuía o coração e a alma de Dmitri. E olhava para os dois na sacada com um sorriso suave no rosto. — Odeio quando eles brigam, — ela murmurou. — Tudo parece ficar sem sincronia. Venom olhou para o quadro novamente e se chamou de idiota. A maneira como Dmitri segurava Holly protetoramente contra seu lado, a maneira como ela olhava para ele com tanta vontade de aceitar sua palavra, não era uma postura entre amantes. Havia muita desigualdade lá. Sua mente passou para uma imagem dela o montando, seu corpo arqueando num arco sensual. Holly nunca olharia para ele do jeito que estava olhando para Dmitri. Nem mesmo se colocasse uma arma na cabeça dela. Nem mesmo se a bombeasse com veneno. Nem mesmo se lhe prometesse um bilhão de dólares e seu próprio império pessoal da moda. Holly Chang nunca, jamais consideraria Venom seu superior de qualquer jeito ou forma. Venom sorriu; a conflagração caindo para uma antecipação vacilante enquanto Honor foi se juntar a Dmitri e Holly. O que deixou Venom sozinho com Illium pela primeira vez desde que rastreou o anjo no dia do retorno de Venom à Nova York. — Num clima melhor agora, adorável Bluebell? Um escárnio do outro homem. — Nada da sua conta, novato. Venom não foi chamado disso desde cerca de três décadas depois de ter entrado na órbita de Raphael. — Não fui eu que tive penas macias de bebê não uma vez, mas duas vezes. — Uma vez, apenas uma vez. Deve saber que não havia nenhuma fofura da primeira vez. — Illium empurrou suas mãos através de seus cabelos naquele comentário murmurado, os fios negros de ponta azul caindo assim que deixou as mãos caírem para os lados. — Deixei Aodhan ir sem dizer adeus. Venom nunca teve amizade como Illium tinha com Aodhan. Os dois se conheciam desde o berço. Illium era um pouco mais velho, mas apenas por uma


questão de talvez dez anos, o que não significava nada no tempo angélico. As crianças angélicas cresciam tão lentamente que ambos seriam bebês ainda. Todos os amigos de infância de Venom já haviam morrido há muito tempo. Ele teve um amigo vampiro que foi Feito ao mesmo tempo, mas foram em direções diferentes quando seus poderes divergiram... porque Venom não podia suportar ter um amigo mais fraco. Pessoas mais fracas morriam. Ficavam quebradas. Ele não viu Sahil em cento e cinquenta anos e ainda pensava em seu amigo, ainda ouvia notícias dele. Então, entendeu o que significava que Illium tivesse enviado Aodhan para território perigoso sem um adeus. — O que aconteceu? Com os olhos de ouro envelhecido trazendo uma mistura de dor, tristeza e raiva, Illium espalhou suas asas, depois as fechou com força viciosa. — Você não estava lá depois de encontrá-lo. Se tivesse visto... E agora ele me diz que não precisa do meu cuidado? — Suas mãos se fecharam. Venom já havia sido aceito nos Sete quando Aodhan foi capturado por um anjo louco que desejava possuir a beleza de Aodhan, mas como o membro mais novo, estava estacionado no então escarpado selvagem de Nova York. A caça à Aodhan ocorreu longe de lá. Quando Venom estava totalmente treinado e autorizado a acessar o refúgio, onde Aodhan fez sua casa, o anjo estava de volta, mas não inteiro. Fundamentalmente fraturado. — Nunca conheci Aodhan como era antes, — disse ele a Illium. — Só conheci o anjo que se enterrou no Refúgio e que se fechou para quase todo o mundo. Illium levantou os olhos e franziu o cenho. — Ele veio para Nova York quando se juntou aos Sete. Todos nós o fizemos. — Sim, — disse Venom. — Mas ele só podia ficar uma semana. E essa semana era cheia de sessões de treinamento com todos vocês, com tempo de inatividade disperso. — A maioria dos quais os Sete passavam juntos, ligando-se rapidamente numa unidade coesa. Aodhan agia como correio pessoal de Raphael então, e, sete dias depois da chegada dele, o Senhor o necessitou para entregar um pacote importante; ele e Venom se despediram com um sorriso, sabendo que tinham séculos para forjar uma amizade pessoal mais profunda. — Então, ele se foi. — Durante um período


de tempo que era difícil lembrar até agora. — E então, o homem que realmente conheço é aquele de depois. Não tenho lembranças substanciais dele antes. Illium olhou com incompreensão para ele. — Venom, ele era deslumbrante. Forte, um relâmpago no céu, um anjo que não falava tão frequentemente quanto o resto de nós, mas que não recuava de nenhum desafio – e que seria nosso escudo em qualquer batalha. Ele era o melhor de nós. — Então, por que tem medo agora que está se tornando ele mesmo? — Venom viu as mudanças à distância, testemunhou na arte que Aodhan começou a produzir. O anjo sempre foi dotado, mesmo em sua escuridão, mas essa nova arte captava a luz interior sutil do trabalho que produziu após o resgate. Illium olhou para ele por tanto tempo que Venom quase esperava um brilho arcangélico ofuscar as asas do anjo. — Não tenho medo, — ele disse finalmente, um engate em sua voz. — Aguardei tanto tempo para ele encontrar suas asas novamente. — E se isso significar que essas asas o levarão para longe de você? — Venom disse suavemente. — E se isso significar que Faísca e Bluebell não serão mais falados numa respiração? — Podia ver o problema porque, ao contrário de Raphael ou Dmitri, não viu Illium e Aodhan crescerem, não estava preso à percepção dos dois como uma unidade inquebrável. Ele os via como melhores amigos, mas as amizades poderiam se partir. Illium cambaleou fisicamente, apoiando-se contra a janela logo antes de Holly e os outros voltarem para a sala. Venom não disse mais nada. Esta era uma conversa que ele e Illium precisavam ter em privado, e agora estava acabada – e Venom tinha outras prioridades. Olhou para Holly. Ela encontrou seus olhos, veio se juntar a ele... depois de uma pausa suficiente para deixar claro que a decisão era sua. Brilhante, selvagem e frágil. Nada como os outros nos Sete. Nada como as pessoas com quem Venom se cercou depois que o último de seus irmãos morreu de velhice. E, ainda assim, ele não saiu do lado dela. — Quando sente o poder alienígena, — disse Honor, de onde estava sentada na cadeira executiva de Dmitri, seu marido apoiando os braços cruzados sobre o encosto da cadeira, — É puramente uma sensação de dor ou mais?


Holly esfregou a testa. — É esmagadora, — ela disse devagar. — Dor... mas também uma atração. — As últimas palavras pareciam assustá-la. — Não percebi conscientemente isso até agora, mas é um puxão insistente de baixo nível que está presente desde o que aconteceu com a Daisy. — Uma exaltação desgrenhada. — Está ficando mais forte, mais difícil de ignorar. Venom olhou as delicadas linhas de seu rosto e pensou naquelas asas com penas afiadas como lâminas empurrando-a. — É a atração para uma pessoa ou um lugar? — Eu não sei. Uma... direção. — Colocando a mão em seu peito, os dedos estendidos, ela deu alguns passos para trás para se libertar, então começou a girar num círculo lento. E um leve brilho verde ácido percorreu seus dedos.


Venom ouviu Dmitri respirar com dificuldade, mas o outro não pediu a Holly para parar. Ela deu duas voltas completas antes de parar. — Neste caminho. — Sua voz era definitiva. — E está longe, muito longe daqui. Levantando a mão, ela apontou. — Europa, — Illium disse no silêncio. — Esse caminho é da Europa. Michaela. O nome da outra Arcanjo era uma vibração silenciosa na sala. — Faz sentido, — disse Dmitri, como se tivessem falado o nome em voz alta. — Michaela também foi afetada por Uram. Holly poderia estar atraída para ela da mesma maneira que esteve por Daisy. Holly assentiu lentamente. — Quando entramos na casa onde finalmente encontramos Daisy, senti uma compulsão para a sala onde ela estava escondida, mas era como estática. Entrando e saindo. Isso é muito mais forte, deve estar vinculado a qualquer coisa passada de Daisy para mim. — Com o punho em seu peito, massageava as juntas no ponto de impacto. — Exceto, — disse Illium, — Que há um problema. — Ele tirou um telefone preto e carregou um programa antes de pedir a Holly que voltasse a apontar e segurasse o telefone na mesma linha do braço. À medida que o brilho ácido reaparecia, o anjo de asas azuis disse: — Se desenharmos uma linha da ponta do dedo de Holly para a Europa e continuarmos, atravessamos Budapeste. O coração do território de Michaela. — Então, o que é... — Dmitri mordeu sua pergunta. — Michaela está atualmente com o Cadre e longe de casa.


— Exatamente, — Illium murmurou enquanto Holly finalmente abaixava a mão e, com um gemido, respirava profundamente. O brilho pulsou por mais três segundos antes de desaparecer. Honor inclinou-se na escrivaninha de Dmitri, os intensos olhos verdes inclinados nos cantos incomodados. — Pode significar que Michaela fez alguém como Holly. — Uma possibilidade. — Venom sabia muito bem que as pessoas sempre eram levadas a replicar o incomum e o inesperado. — Holly, sente um puxão em direção ao Marrocos? — Adicione o caminho para a China na mistura, — disse Dmitri. — Pretendia chamar você e Illium para uma reunião nesta manhã, de qualquer maneira. Soube que Elena está voltando ao país e chegará em breve, mas Raphael e o restante do Cadre deixaram o território de Lijuan. Illium indicou as indicações corretas. Holly virou, se concentrando, mas balançou a cabeça. — Nada, — disse ela. — Mas no segundo que volto nesta linha, — ela se inclinou novamente para o coração do território de Michaela... E o brilho pulsou, — Lá. Ela se virou para esfregar o peito. — É como se eu estivesse ligada a algo com um fio invisível que me puxa. Está ficando cada vez mais difícil lutar contra o impulso de seguir esse caminho. Venom envolveu o rabo de cavalo colorido de arco-íris em seu punho. — Precisamos desv... — Não. — Franzindo o cenho para ele, sua voz firme. — Sem mais fuga. Preciso saber o que é isso, e preciso enfrentá-lo. — Ela olhou para Dmitri. — Quero permissão para deixar o território e seguir a atração, onde quer que me leve. Dmitri segurou seu olhar por muito tempo antes de voltar a atenção para Venom e Illium. — Avaliação de segurança? — Nova York ficará bem sem mim, — disse Venom, porque todos sabiam que Dmitri não autorizaria Holly a entrar no território de outro arcanjo sozinha. — Os esquadrões são fortes e você tem acesso à Janvier e Trace. — Nenhum dos vampiros era tão poderoso quanto Venom, mas juntos, chegavam perto. — E, — disse Illium, — Se vamos enviar nossa pequena gatinha ao território de Michaela, que melhor momento do que quando Sua Formosura está ausente?


— É possível que Michaela se separe do Cadre, — apontou Dmitri. Illium balançou a cabeça. — Não, não consigo ver. Michaela nunca permitiria que uma grande reunião de poder ocorresse sem ela. Olhando por cima do ombro, Honor encontrou os olhos de Dmitri. Nenhuma palavra passou entre eles, mas o líder dos Sete colocou a mão no ombro da esposa. — Se saírem agora, — seu olhar abrangeu Holly e Venom, — Provavelmente podem chegar antes de Michaela voltar ao seu território. Adrenalina perfurou o sangue de Venom, mas o líder dos Sete não terminara. — Vocês dois têm raias imprudentes, — ele disse sem rodeios. — Mas é de um Arcanjo que estamos falando – poderiam ser os dois vampiros mais poderosos do universo e não poderiam derrubá-la. Não sejam estúpidos. — Um pedido. — E não tentem lidar com algo que simplesmente não podem. — Imprudente não significa suicida, — Venom disse ao outro homem. — Como deve saber. O sorriso de Dmitri era o de um homem que os dirigia pelas ruas de Manhattan. — Fique sob o radar. Não queremos incitar um incidente político. — Uma pausa antes de acrescentar: — Se ela se ferir, Venom, eu vou descontar em você. Ao lado de Venom, Holly franziu o cenho, mas Venom assentiu. *** Holly não podia acreditar. Não imaginou toda a conversa com Dmitri. Estava realmente num jato de alta velocidade prestes a pousar no território de Michaela. Os pilotos foram na direção que ela apontou, e não diminuíram a velocidade até que Holly contasse que estavam quase no ponto em que se sentia atraída. Não Budapeste afinal, mas a cordilheira antes disso. Onde Michaela tinha uma fortaleza escondida e muito mais privada que sua peça majestosa de palácio no Danúbio. O conhecimento era um sussurro ansioso e escuro na sua cabeça. Olhando para Venom enquanto tentava não ouvir as palavras faladas por aquela voz louca, ela disse: — Como encontrou uma pista de pouso tão perto da fortaleza de Michaela?


— Não encontrei. — Venom se ergueu do assento. — O avião vai continuar num caminho que leva a um aeroporto internacional. Oficialmente estão aqui para pegar uma artista do território de Raphael, uma mulher que foi autorizada a vir ao território de Michaela para estudar com um mestre. — Então, como nós... — Holly olhou para a coisa parecida com uma mochila que ele sustentava com um sorriso perverso. — Isso é um paraquedas? — Espero que sim, gatinha. Ou teremos um longo outono. — Não é engraçado. — Ela foi e olhou um pouco mais para a coisa. — Não, sério? — Naasir me deu a ideia. — Outro sorriso, seus olhos brilhantes e sem blindagem. Estava vestido com calças cargo de camuflagem verde e uma camiseta preta, junto com botas de combate; era o mais casual que já o viu fora do ringue de treinamento. Era ridículo o quão bom ele parecia. Selvagem. Então, ele pegou a mochila paraquedas e subiu as tiras pelo peito. — Onde está o meu? — Holly colocou as mãos nos quadris e começou a bater o pé no chão. — Se planeja me deixar aqui vou empurrar você. — Sabe como pular de um avião? — Bem... não. — Ela franziu o cenho quando ele tirou outro arnês. — Venha, então, Hollyberry. — Esse sorriso apenas continuou cavando mais e mais fundo sob sua pele. — Vamos prepará-la. Dez minutos depois desse convite perigoso, Holly encontrou-se pulando no céu negro como tinta acima da escuridão sem luz da terra desabitada abaixo, se agarrando a um vampiro insano que ria conforme caíam no ar frio. — Oh, meu Deus! — Ela sempre se perguntou como seria voar. Eles correram pelo ar, Venom lhe disse como segurar o corpo dele durante cada fase do salto. Ele fez a contagem regressiva em seu ouvido. — Aguente o puxão, — ele disse pouco antes de puxar a corda, eles girarem e deslizarem de volta na escuridão de seda. Quando Holly olhou para cima, não conseguiu ver o dossel do paraquedas, exceto como um remendo de escuridão mais escuro contra o preto. Agora fazia sentido que Venom pedisse que ela se vestisse de preto e que usasse mangas compridas. Seu tom de pele era mais escuro do que o dela.


Atingiram o chão com uma suavidade que ela não esperava. Ela foi desamarrada segundos depois, e Venom puxou a corda com uma velocidade que lhe disse que isso estava longe de ser seu primeiro salto. Ela observou o silêncio mortal da paisagem à sua volta enquanto ele terminava. Parecia que tinham pousado em cima de uma montanha pequena e plana. A área de aterrissagem não era tão grande, então não fazia ideia de como Venom a identificou no escuro. Esses lindos olhos. O platô provou cair num desfiladeiro íngreme cerca de nove metros para o sul. Quando Holly olhou para baixo com a esperança de detectar suas mochilas de suprimentos que caíram atrás deles, ela teve a sensação de folhagem densa, a mesma que crescia em todas as outras direções ao redor de seu ponto de pouso. Nenhum sinal visível das mochilas. Quando se virou para olhar para Venom, percebeu que este platô era apenas uma borda que sobrava de uma montanha muito maior. E tinha a sensação de que estavam subindo. — Não consigo ver as mochilas lá embaixo. — Tirando o pequeno dispositivo de rastreamento que Venom lhe deu no avião, ela o ligou. Dois pontos quentes e piscantes apareceram na grade. Holly soprou um suspiro aliviado. — Ambas estão mais altas na montanha. — Bom. Podemos pegá-las no caminho. — Venom escondeu a lona sob uma planta de algum tipo, ignorando os arranhões sangrentos resultantes em seus braços. — Sente alguma coisa? Holly sacudiu a cabeça, sua trança deslizando sobre suas costas. Ela tirou o boné de malha preta por agora, enfiando-o num bolso traseiro – mesmo com a lua crescente, não havia luz suficiente para que as cores de seus cabelos brilhassem e traíssem sua presença. — Não senti uma atração direcional desde que disse que estávamos no lugar certo para pular. Acha que caímos longe demais? — Não. Acho que está... — o leve brilho de seus dedos sobre o esterno, — Satisfeito agora que segue para onde ele quer que você vá. — Ele começou a subir a montanha. — A única maneira de descobrir com certeza é nos infiltrando na fortaleza de Michaela. — Um sorriso perigoso sobre o ombro. arriscar morte e tortura nas mãos de um Arcanjo? Holly sorriu. — Vamos fazer isso.

— Nunca quis


O momento de leveza desapareceu rapidamente, os dois ficando cada vez mais cautelosos quanto mais alto entravam na escuridão. Não era a própria escuridão. Holly e Venom eram criaturas que não tinham medo da noite. Era o que a escuridão podia ocultar. Este era o território cardíaco de um arcanjo, afinal. Michaela tinha muitas residências, mas, de acordo com Dmitri, esta era considerada seu retiro mais privado. — Pare. — Holly verificou o dispositivo novamente. — Estamos quase em cima de uma mochila. Venom olhou em volta. — Achei. — Ele agarrou a mochila de um arbusto. — É sua. Encontraram a mochila maior dois minutos depois. Deslizando o dispositivo, ela continuou caminhando com ele através das enormes árvores antigas. Suas copas grandes significavam que não havia muita vegetação subaquática. Quando Venom levantou a mão, ela congelou. Ele olhou para cima. Seguindo seu olhar, não viu nada, mas ouviu o som distintivo de asas no ar. Se colaram contra o tronco da árvore mais próxima. O anjo passou por cima segundos depois. Passava pelo topo das árvores, claramente fazendo uma patrulha. Uma única pena clara se afastou para cair contra a ponta da bota de Holly logo antes de ficar fora da vista. Seu coração trovejou. — Essa foi por pouco. — Temos que ter mais cuidado. Devemos atingir a fronteira segura. — Venom começou a caminhar mais perto dos troncos das árvores antigas, usando suas sombras para se esconder. Holly não hesitou em copiá-lo. Ele treinou muito mais do que ela. Atravessaram a floresta como fantasmas, caindo no chão para fazer seus perfis menores no instante que o som de asas sussurrava no ar. Meia hora, e tiveram escassos minutos entre cada caída. — Sabem que estamos aqui. — Ela puxou sua gola de malha vinte minutos antes e enfiou o cabelo por baixo, apenas no caso. — Algo certamente despertou a segurança. — Levando o dedo aos lábios alguns minutos depois, Venom deslizou atrás de uma árvore depois de acenar com a cabeça para ela fazer o mesmo.


Holly ficou imóvel de uma maneira que a maioria dos seres humanos não podia fazer. Dmitri foi muito claro que não deveriam ser pegos, nem deixar qualquer evidência da presença deles. Raphael não precisava de uma guerra com Michaela. Portanto, nenhum deles podia derrubar o vampiro rondando o bosque, a menos que o fizessem de uma maneira que nunca pudesse ser ligada à Raphael. Como resultado, Holly permaneceu imóvel, mesmo quando o guarda vampiro passou a um pé de sua árvore. Ela fechou os olhos, no caso deles estarem brilhando, e se rendeu à coisa dentro dela, a outra coisa, que sabia instintivamente como evadir a detecção. Ela lutou contra essa rendição por um longo tempo, acreditando que não podia se render a ela, mas esta noite, sua resistência podia deixá-los descobertos. Então se deixou cair. E podia sentir-se literalmente e fodidamente desaparecida, sua consciência coberta com uma camada de verde ácido que fazia seu estômago apertar porque era uma indicação silenciosa de que não era humana. Sabia disso. Claro que sabia disso. Mas... gostava de fingir às vezes. Um movimento parecido com um vento à sua volta. Abriu os olhos uma fresta e viu que Venom saiu da árvore. E, rapidamente, ficou visível novamente. Alívio beijou seu sangue. Ele pausou um segundo antes de acenar para a frente. Ela se moveu, fluindo na escuridão atrás dele de uma forma que não era como ele, mas funcionava. Ele era sinuoso, uma cobra percorrendo um território desconhecido com facilidade silenciosa. Ela era uma criatura da noite, um morcego com asas silenciosas. Ótimo, pensou a parte dela que ainda era Holly. Agora se imaginava como um morcego. Quando o sonar entrou no pacote? Um alerta apagou sua consciência. Oh, não porra. Correndo à frente, tocou seus dedos no ombro de Venom. Seus músculos se flexionaram quando ele parou completamente. Ela se deslocou para que estivesse pressionada contra a frente dele e o ouvido diretamente ao lado de sua boca. — Há um grupo à frente. Talvez cinco.


Venom não perguntou como ela sabia. Isso era bom, porque não estava pronta para dizer que podia ser um morcego humano. Realmente sexy isso. Ele simplesmente apontou para a direita. Ela olhou para lá e não sentiu nenhuma sensação de perigo, de presença. — Seguro. Foram para a direita, afastando-se de seu destino por pelo menos dez minutos antes de retroceder, esperançosamente para aparecer atrás dos guardas rondando a floresta. Se agacharam no alto da montanha, escondidos na sombra noturna de uma árvore de troncos espessos cujos galhos balançavam ao vento. Holly olhou para cima, amando a sensação do vento em sua pele, amando como o dossel se movia na noite. — Lá. Olhando atrás deles, ela seguiu o dedo que Venom apontava. Demorou vários segundos para detectar o que ele já vira – homens e mulheres rastejavam mais abaixo pela inclinação, sigilosos na forma como mantinham seus corpos. Provavelmente vampiros. Holly sorriu. — Vamos, antes que percebam que furamos a rede. Um sorriso perigoso. E se moviam novamente, duas criaturas projetadas para esse ambiente. Não como um tigre foi projetado para uma floresta. Não, eram as sombras que sussurravam atrás do tigre, não vistas, despercebidas. A subida foi difícil, e Holly sentiu isso em suas panturrilhas, atrás de suas coxas – especialmente quando o verde ácido que permanecera em sua visão desde que o estranho e impressionante truque invisível desapareceu de vista. Droga. Descobriu que era humana o suficiente para não poder escapar de uma montanha com facilidade desossada. — Tem ossos feitos de geleia? — Ela murmurou para Venom quando pararam para se certificar de que não havia ameaças à frente.


— Não. Espaguete. Holly quase resmungou uma risada. Agarrando-o levemente no ombro com uma mão fechada, pegou a garrafa de água que ele entregou. Beberam da mesma em vez de arriscar os fracos sons de abrir uma segunda garrafa. Então, com a pele corada pelo calor e bombeamento de sangue, os dois avançaram sobre o território desconhecido. Quando seus sentidos alertaram mais uma vez, ela apenas olhou para Venom e apontou para outra direção, e foram assim. Mais escalada, mais mudanças na direção, suor revestindo sua sobrancelha apesar do ar frio da noite. A fortaleza apareceu na escuridão num choque de luz. Holly estava tão focada em evitar vampiros e se esconder dos anjos que não tinha muita consciência de quão perto estavam de seu alvo... ou que Michaela foi a musa dos artistas ao longo dos séculos, muitos dos quais a adoravam. Sua fortaleza era tão bonita quanto sua amante. Surgia da floresta primitiva como um castelo construído para uma rainha. Delicados cones e passarelas espirais, pedra branca que brilhava mesmo na escassa luz das estrelas e na pequena lua crescente. A luz dentro era de um ouro suave, os anjos que podia ver pousando nas altas sacadas, graciosas silhuetas que faziam seu coração doer. Uma bandeira voava do ponto mais alto da torre mais alta. Provavelmente, o emblema de Michaela. Mal visíveis de sua posição estavam os bem cuidados jardins requintados que entravam e saíam pela fortaleza. Havia manchas escuras também. Provavelmente água, lagoas ou piscinas de algum tipo. — Ouvi que era uma maravilha, a casa do coração de Michaela, — murmurou Venom. — Mas isso é inesperado. O próprio coração de Holly estava muito cheio da beleza que estava vendo para falar. Um artista passou anos criando isso, peça por peça, e seu trabalho foi estimado através do tempo. A fortaleza não mostrava sinais de negligência ou mau uso. Isso deixou Holly furiosamente curiosa sobre o que estava dentro, que maravilhas e beleza. Houve tantos momentos lá dentro, e o riso de Michaela o enredava até que ele estivesse... Holly não hesitou. Empurrou a manga e deliberadamente mordeu o antebraço, com força suficiente para tirar sangue.


A cabeça de Venom girou para ela, seus olhos se estreitando. — Problemas? Ela mordeu ainda mais, até que a dor afastou a última névoa de sua mente. Quando olhou para a fortaleza novamente, não se transformou numa feiúra agachada, ainda era graciosa além da comparação – mas podia admirá-la sem ser dominada. Liberando seu antebraço machucado, respirou fundo várias vezes. — Uram era íntimo de Michaela? — Ela não viveu no mundo imortal então, mas podia lembrar vagamente de um artigo numa revista dedicada a fofocas imortais. Um repórter escreveu um artigo sobre como Uram e Michaela formavam o melhor casal poderoso. — Essa é uma pergunta muito específica, gatinha, — murmurou Venom. — A resposta é sim. Era o amante dela antes de se tornar nascido do sangue. Holly ergueu os dedos na terra onde se agacharam. — Ele a amava, — ela sussurrou. — Via sua mente intrigante e sua impiedosa ambição, mas a amava, de qualquer maneira. — Um calor úmido queimou seus olhos. — Quando ela ria ele pensava que a eternidade talvez não fosse tão cheia de tédio. Venom fechou uma das mãos sobre a dela, levantando-a da terra. — Você tem as memórias dele? — Flashes apenas. Principalmente de rir ou sorrir. — Ela olhou para a fortaleza. — Nunca senti nada assim antes da coisa. — Não a surpreendeu quando seu peito começou a doer. Não teve que olhar para baixo para saber que as asas reapareceram. Virando-se para que o brilho fosse bloqueado pelo corpo de Venom, ela rapidamente tirou a mochila dos ombros e recuperou a jaqueta que embalou exatamente para essa possibilidade. Uma vez vestida e fechada, seguia as linhas de seu corpo sem aumentá-lo, e o mais importante, era grossa o suficiente para bloquear o brilho. — Bom? — Ela perguntou a Venom para ter certeza. Ele acenou com a cabeça, seu cabelo deslizando para a frente um pouco. — Ainda pode sentir isso? — Oh, sim. — Fechando a mochila depois de enfiar o gorro de malha, já que a jaqueta tinha capuz, ela apertou os olhos por dois segundos longos. — Posso me


tornar uma responsabilidade se essas memórias me tomarem. Ele estava consumido por ela. — Talvez Uram devesse se lembrar que Michaela era provavelmente quem inflava seu ego a ponto dele... — Venom se cortou. — É irritante você não ter a autorização da Torre para saber certas coisas. — Nem me fale sobre isso, — murmurou Holly. — Com quem tenho que dormir para fazer isso acontecer? Sua pergunta foi cruel, mas Venom sorriu lentamente. — A contatarei sobre isso. Ela deu o dedo. Seu sorriso se aprofundou, e de repente, ela voltou a ser ela mesma, as memórias de Uram se mantiveram à distância. — Pronto? Um aceno de cabeça. Desceram a pequena inclinação, depois voltaram para a fortaleza. Quando Venom virou para a esquerda, ela não discordou. Ele tentava levá-los por trás da fortaleza, o que fazia muito sentido. A área diretamente à frente da estrutura deslumbrante era um gramado limpo, interrompido apenas por uma fonte que criava uma delicada queda de som. Felizmente, os fundos seriam melhores em termos de esconderijos. Holly se jogou no chão quando dois anjos passaram por alguns segundos um do outro. A única razão pela qual os anjos não viram Venom e ela foi por que estavam na faixa estreita de sombra causada por uma cerca de folhagem. O coração tamborilando dentro do peito, Holly se moveu atrás de Venom, e quando a sobreposição verde apareceu em sua visão, não lutou contra ela. Ela escutou. E parou Venom enquanto ele estava prestes a dar uma volta pelo canto. Em vez disso, os dois pressionaram as costas contra a mesma cerca de folhagem e se misturaram na noite. O guarda passou por alguns metros. Não havia como não vêlos quando virasse à esquerda para continuar seus deveres de sentinela. Merda, merda, merda. O guarda virou.


Holly não percebeu que levantou a mão até que bateu silenciosamente contra o peito de Venom, interrompendo seu movimento nascente para cuidar da ameaça. Seus músculos estremeceram sob o toque dela, seu corpo em tensa prontidão. O guarda olhou diretamente para eles. A boca dele começou a se abrir, mas era tarde demais. Holly capturou seus olhos. Apanhei-o. Era um vampiro antigo, mas ela era outra coisa. E estava de longe muito mais forte que esteve antes que a energia de Daisy se juntasse a ela. — Não estamos aqui, — ela sussurrou. — Pensou ter visto alguma coisa, mas era apenas um animal. — Esta última foi uma escolha deliberada de palavras. Não sabia se Michaela mantinha gatos, cachorros ou pavões aqui. A mente do guarda preencheria os espaços em branco com a imagem mais apropriada. — Está em alerta, não perca nada, mas não há nada aqui para ver. O guarda bocejou antes de coçar o ombro com distração. Ela pensou por um momento que falhou, mas depois murmurou: — Malditos gatos, — e seguiu em frente. Holly desabou. Venom a puxou pelo canto antes que o guarda estivesse longe demais. Sabia tão bem quanto ela que o hipnotismo tinha limites. O guarda lembraria exatamente o que ela disse para ele lembrar – mas uma vez que estivesse longe o suficiente, podia decidir virar, verificar novamente. — Isso foi inteligente, gatinha. — Por que não pensou nisso? — Ele era mais forte do que ela, podia controlar pessoas por muito mais tempo. — Ia atacar fisicamente. — Ela sentiu isso na tensão violenta de seu corpo. — Não estou acostumado a não precisar deixar rastros. Geralmente é Jason, Naasir ou Janvier quem se esgueira se necessário. Ficaram em silêncio novamente, agacharam-se caminhando por uma distância que durou o suficiente para fazer Holly ficar dolorida, como se estivesse se torcendo num pretzel. A fortaleza de Michaela podia ser um edifício surpreendentemente belo, mas também era surpreendentemente enorme. Não alcançaram a parte de trás da propriedade até o que parecia ser uma hora depois. Felizmente, valeu a pena a tortura de pretzel.


As árvores preenchiam o quintal – embora aquelas árvores fossem podadas e visivelmente mais baixas que as da montanha. Pêssegos e damascos pendiam dos ramos mais próximos de Holly e Venom. — Um pomar. O ar noturno era uma picada fresca enquanto se arrastavam debaixo das árvores, caminhando para a parte de trás da fortaleza em si. As asas dentro do peito de Holly pulsavam, as bordas afiadas empurrando brutalmente contra sua pele. Holly tocou asas angélicas – principalmente as de Elena. A caçadora da Sociedade ofereceu o contato para que Holly pudesse vencer seu medo traumático de asas. Provavelmente, apenas Elena poderia ajudar a dominar o seu medo de fechar a garganta – porque foi Elena quem a encontrou e resgatou. O cérebro de Holly estava impresso com esse conhecimento. Como resultado de sua experiência tátil deliberada, sabia que enquanto as asas angélicas eram poderosas, não eram afiadas. As penas de Ellie eram suaves e macias sob as pontas dos dedos de Holly. Seja o que for que vivia em Holly, não era natural. Algo roçou sua perna. Não pode deixar de pular. Berrando, o gato preto fugiu. — Porra. — Esperando que as sentinelas estivessem acostumadas aos sons felinos e não dessem muita importância, ela continuou, Venom, uma silhueta escura na frente dela. Ele os levou para o centro da parte de trás da casa, mas para o lado direito. Ela viu por que, uma vez que se aproximaram – a porta dos fundos estava fortemente guardada, mas havia janelas altas do lado. Nem todas essas janelas estavam fechadas. A estrutura da fortaleza também significava que os guardas na porta não conseguiam ver as janelas de sua posição. Apenas os anjos fazendo varreduras de segurança no céu poderiam trazer alguma complicação. Ela e Venom chegaram à parede sem problemas. Holly agachou-se ao lado dele, seus corpos escovando. Calor emanava dele, sua carne estava muito quente, apesar da marca de víbora que o definia. — Como vamos chegar à janela? — Ela sussurrou, pois a primeira acessível estava pelo menos a dois andares acima do nível do solo. — A menos que... Ouvi dizer que pode escorregar pelas paredes.


O sorriso dele disse que entendia e sabia que ela não quis insultá-lo. Suas tendências parecidas com serpentes eram uma parte dele e Holly não tinha intenção de ignorá-las – seria como aceitar um aspecto de sua natureza e não o resto. Holly era fascinada e compelida pelo todo. — Depende da parede. — Ele passou a mão sobre ela. — Esta é extremamente suave pela idade. Até mesmo as fissuras na pedra estão desgastadas, não deixando nada em termos de superfície para agarrar. Se estivéssemos em casa, eu tentaria, mas como não estamos... — abrindo sua mochila, tirou um rolo de corda com um gancho de quatro pontas numa extremidade. — Aqui é onde precisamos de sorte, gatinha. Verde ácido cobriu a sua visão enquanto Holly ouvia a noite. — Espere. — O braço dele estava rígido sob seu toque, a pele quente. — Agora, — ela disse no instante que as asas no ar estavam a uma boa distância. Ele jogou. O gancho atingiu a borda da janela aberta, e quando puxou, segurou. — Vá. Agarrando a corda, Holly tentou se lembrar das lições que teve. Não era especialista, mas um dos caçadores amigos de Ashwini gostava de escalar e Holly o acompanhava às vezes. Ele não sabia o que era, é claro, simplesmente pensava que era uma vampira malfeita, mas isso não importava. Demarco era divertido e sem complicações, sua relação centrada na escalada. O problema era que com essa parede tão escorregadia ela precisava confiar na força da parte superior do seu corpo e nas coxas para se erguer. Ela podia fazer isso – graças ao seu horário de treinamento nos últimos quatro anos – mas parecia ter atravessado uma guerra quando conseguiu rastejar sobre a saliência da janela e entrar numa passagem bem iluminada. Ao se pressionar na parede no instante que entrou para evitar ser vista em silhueta contra a luz, se certificou de que os ganchos estavam apertados. A corda ficou tensa um segundo depois. Venom subiu numa velocidade implacável e estava enrolando a corda e colocando-a em sua mochila antes que seus batimentos cardíacos diminuíssem de sua corrida frenética. Agonia cortou o peito de Holly sem aviso prévio. Podia ver que esse lugar era tão lindo quanto imaginava – um candelabro à frente fraturava a luz em pingos de chuva que caíam em cascata sobre o tapete


azul profundo modelado em creme e vermelho. Mas a beleza estava perdida nela, sua mente uma obsessão pintada em verde ácido. Não conseguiu impedir que sua cabeça girasse para a esquerda. — Por esse caminho.


O corpo de Holly queria passar pela parede que estava entre ela e seu destino. Pegando a mão dela, Venom apertou. — Discrição, gatinha. — Um murmúrio contra sua orelha. — Temos que ir pelo corredor e encontrar uma maneira de chegar a essa ala da casa. Não podemos nos dar ao luxo de escapar e ser pegos – os anjos e os vampiros de guarda dentro serão poderes perigosos. Tinha a sensação de que falava tanto para ela quanto para a coisa dentro dela, explicando o que estavam prestes a fazer. Mas a outra coisa não queria ouvir. Ele empurrava com tanta força para a pele que achou que ia explodir dela como a bola de energia mortal que entrou em erupção de Daisy. Não. Isso é por nós duas. Daisy que nunca teve chance. E Holly que voltou dos mortos. Ela era uma pessoa. Não uma mala, carregando isso... O eco de Uram de um lugar para outro. — Vá, — ela disse a Venom com os dentes cerrados, consciente de que seu controle sobre a entidade dentro dela não era absoluto. Olhos verdes viperinos conectaram com os dela antes de se mover silenciosamente pelo corredor, sua mão apertada quente e forte com a dela. Ele só entrou em contato quando chegaram a uma esquina e tiveram que abraçar a parede antes dele verificar se o caminho a seguir estava limpo. Venom olhou com cuidado antes de virar a cabeça. Ele ergueu dois dedos e formou a forma das asas com as mãos. Holly apontou para os olhos dela e deu um olhar questionador. Seu hipnotismo não funcionava em anjos – Izak, o anjo mais novo da Torre, se não contasse Ellie, permitiu que ela tentasse capturá-lo, a experiência supervisionada por Ash e Dmitri. Provou ser uma falha total.


Venom, no entanto, era mais velho e mais forte. Agora, ele fez uma moção com a mão que ela leu como uma chance de sucesso de cinquenta e cinquenta. Dada sua força, significava que os dois anjos à frente tinham idade, possivelmente até pessoas que ele reconhecia. As asas dentro dela empurraram. O frio morto fluía sobre ela, suas mãos formigando e flexionando sem vontade consciente. Posso matar aqueles anjos. O pensamento era tão claro como se alguém tivesse falado em seu ouvido – e a voz não era dela. Porra. Holly não estava prestes a se tornar um maldito zumbi. Ela levantou o pulso de Venom na boca e baixou sem aviso prévio. Sangue potente com poder... O sangue que era profundamente familiar atingiu sua corrente sanguínea, empurrando a nuvem verde e ácida rastejando através de suas veias. Passou a língua sobre a ferida para ajudar a fechá-la e liberou o forte aperto no pulso dele. Obrigada, ela disse com os olhos quando encontrou os de um verde muito mais selvagem. Ele passou os dedos sobre sua bochecha, e tirou um pequeno espelho do bolso. Enquanto observava, curiosa, ele segurou aquele espelho abaixo de sua perna e o inclinou – Oh. Isso permitiu que visse a curva da esquina sem ter que enfiar a cabeça. Esperto. Dois minutos depois, ele disse: — Agora. Holly se moveu com Venom nas costas. Os arcos superiores das asas dos anjos que saíam do mezanino sem corrimão ainda eram visíveis, o núcleo central desta parte da fortaleza, um vasto espaço vazio que se elevava até o teto acima. Se os anjos olhassem para cima, Holly e Venom estariam ferrados, mas os dois homens pareciam estar focados em pousar na madeira polida do chão abaixo. Holly correu com toda sua velocidade desumana, mas a passagem era longa e os anjos pousaram antes de chegar ao outro extremo. Caindo no tapete tão perto da parede quanto possível, ela começou a rastejar. Vozes subiram do piso térreo, mas as palavras eram difíceis de entender. Ela não tentou, focada apenas em seu destino, e continuou. Agora que ia à direção


certa, as asas serrilhadas dentro de seu peito pararam de tentar rasgar sua carne, mas ainda podia senti-las, deitadas logo abaixo da pele. O sussurro distintivo de asas, como se um dos anjos estivesse subindo novamente. O final desta parte do mezanino era muito longe para ela ganhar uma corrida contra um ser com asas. Holly rolou para a esquerda e numa porta aberta. Venom rolou um instante mais tarde e se moveram para trás da porta a fim de se achatarem contra a parede. O coração de Holly batia forte, mas abaixo disso estava outra atração muito mais visceral. Seja o que for que a atraía, agora estava tão perto que era como uma mão ao redor da sua garganta tentando superar sua vontade e levá-la para mais perto. Holly pensou em Mia, em sua mãe, pai e irmãos, em Ash e Janvier, até Arabella e Zeph. Todas as pessoas que viam ela. Que conheciam ela. Ninguém como o vampiro que fechou a mão sobre a dela e apertou forte. Ela passou os dedos entre os dele e se manteve decididamente, Holly. Ela e Venom estavam num quarto escuro. Não de Michaela, ficou claro agora que seus olhos se adaptaram à escuridão. O mobiliário era adorável, a cama feita com lençóis brancos que fluíam, a cama em si mesmo apoiada por quatro pedras requintadamente esculpidas. Uma cadeira com pernas curvas tão elegantes diante de uma cômoda branca antiga, e parecia que a luz no centro do quarto podia ser de um pequeno candelabro. Era muito bonito, mas sem personalidade. O tipo de quarto onde ninguém vivia de forma permanente. Um quarto de hóspedes então, um bom. Parecia que podia até ter uma varanda privada além das cortinas de renda que pendiam do outro lado do quarto. A vista... Ela cutucou Venom... Apenas para olhar para cima e o ver olhando as mesmas cortinas da sacada. Ele ergueu os dedos nos lábios e começou a deslizar pelas paredes naquela direção, fazendo sinal para que ela ficasse e estivesse atenta ao corredor externo. Ele estava a meio caminho de seu destino quando a conversa dos anjos ficou repentinamente mais audível. Eles se moveram para a direita da porta.


Holly não conseguia entender uma palavra do que os dois diziam. Não falavam inglês. Claro que não falavam. Era uma mistura da Hungria. Ela teve um pouco no ensino médio de francês e alemão, mas a língua não era nenhuma dessas. O húngaro fazia sentido. E talvez estivesse tirando essa língua de seu traseiro, porque não tinha ideia. O que tinha era um aplicativo em seu telefone que Illium lhe disse para fazer o download. Quando Venom sussurrou mais perto das cortinas, ela tirou o telefone com cuidado do bolso, mas não pressionou o botão para abrir a tela inicial. Primeiro desabotoou a jaqueta ligeiramente – e silenciosamente – e colocou o telefone perto do queixo para que o brilho da tela fosse contido. Não era a melhor maneira de ver a tela, mas podia fazê-lo se colocasse o queixo em seu peito. Abrindo a tela inicial, passou para o aplicativo de tradução. Colocou o telefone em silencioso, então o aplicativo não falou. No entanto, as palavras começaram a rastejar na tela, com lacunas onde o aplicativo não conseguia capturar o som. De acordo com a tela, a linguagem falada era húngaro... Logo antes de se tornar grego antigo. Dois anjos, duas línguas preferidas, mas era óbvio que se entendiam. Uma nota em animação surgiu sobre o texto, afirmando que o antigo módulo grego do aplicativo foi verificado por um professor vampiro que era um grego antigo. Também observou que este não era um dialeto dominante, mas ainda popular entre uma porcentagem estatisticamente significativa de imortais. Holly rapidamente se livrou disso, muito mais interessada na conversa lá fora. — ... inquieto. — O que... Sentinelas...? — Nada, mas estou... alerta. — ... uma boa posição... entre na casa, mas devemos estar vigilantes. — de acordo. Ninguém pode passar por nós. Holly estremeceu ao som de asas abrindo, então o deslocamento quase diretamente para fora. Bem, isso deixava essa decisão clara. Guardando o telefone, fez o mesmo que Venom e abriu silenciosamente as portas da sacada que ele havia separado as cortinas para expor. Ele lançou um olhar indagador.


Balançando a cabeça, Holly arriscou tirar o telefone para mostrar a transcrição da discussão. Sua mandíbula enrijeceu antes de voltar sua atenção para a porta trancada. Quando ele gesticulou para o cabelo dela, ela franziu a testa, sem ter ideia do que queria. Ele fez movimentos pontiagudos. O que? Oh. Holly trançou o cabelo com força para esta operação e não tinha nenhum grampo de cabelo para dar a ele. Fazendo um movimento de espera, ela alcançou cuidadosamente sua mochila para revelar triunfalmente um canivete. Era rosa, com estrelas douradas. Venom revirou os olhos para a pequena coisa. Dando um olhar para ele, ela tirou o palito de metal dobrado no topo de um lado do invólucro. Nunca entendeu por que a faca de outra forma feminina, dada a ela como um presente por Rania, sim, ainda doía lembrar que sua amiga se foi – e cheia de coisas como limas de unha e um espelho pequeno e delgado, tinha um horrível, porém, reutilizável palito de dente. Desnecessário dizer que Holly nunca colocou isso perto de sua boca. No entanto, era útil quando queria desenterrar o fundo de batom de um tubo. O outro lado da caixa apresentava um par de pinças muito mais sensíveis. Os olhos de Venom se arregalaram quando ela tirou o palito de dente. Sorrindo, ele a surpreendeu com um beijo rápido e forte antes de começar a mexer na fechadura novamente, usando o pino de metal. Os lábios de Holly pareciam inchados, sensíveis, a boca curvada num sorriso. Ambos congelaram quando a sombra de asas angélicas entrou na sala através da cunha aberta da porta, apenas relaxando quando ficou claro que uma das sentinelas angélicas no salão havia se movido para ficar de costas para este quarto. Os músculos de Venom tremiam, seu corpo mantinha uma posição embaraçosa. Demorou a Holly um segundo para perceber que ele escolheu a fechadura, mas que a última jogada causaria barulho. Então esperaram... e então o anjo chamou seu parceiro e Venom torceu. O clique final flutuou sob o som da conversa lá fora. Mas quando ele abriu a porta, ela colocou a mão em seu braço e acenou para além do vidro. O vento atravessava as árvores. Não um vendaval de qualquer tipo, mas o suficiente para bater à porta principal caso abrissem a porta da sacada.


Novamente, tiveram que esperar. E esperar. Os músculos de Holly ameaçavam cãibras, as asas não naturais em seu peito empurrando e empurrando, mas ela o segurou. A única coisa boa de estarem presos aqui era que podiam marcar as varreduras do anjo que vigiava nos céus diretamente acima, e que era mais provável que os visse. Aparentemente, teriam aproximadamente dois minutos de ar limpo caso tivessem programado o tempo certo. Holly se certificou de que seu capuz estava seguro, verificou se o gorro de malha de Venom não mostrava sinais de escorregar. E esperou. Venom apertou sua panturrilha. O vento fez uma pausa. E o anjo acabava de passar. Cento e vinte segundos antes de virar e vê-los. Abrindo a porta, Venom esperou que Holly escorregasse antes de sair e fechar a porta no maior silêncio. Então, ele se agachou e a revolveu usando o palito de dente. Depois disso, entregou-lhe o palito de dente e colocou-o cuidadosamente no canivete, aquela faca entrando no bolso. Durante todo o tempo, ela lutou contra a compulsão que procurava transformá-la em zumbi. A vista da sacada era magnífica, dando para um intrincado jardim labirinto e, além disso, as outras montanhas que formavam essa extensão. As estrelas brilhavam no céu noturno, a beleza disso transformando a agonia dentro dela numa dor penetrante na memória. Muitas vezes, ela passou por esses céus noturnos. Muitas vezes, pousou no telhado plano acima do que estava escondido dentro das torres. Muitas vezes, embaralhou as asas com a amada embaixo dessas estrelas. Holly sentiu sua garganta fechar. — Pensei nele apenas como um monstro, — ela sussurrou para Venom. — Nunca pensei que tivesse uma vida antes de se tornar um monstro. Que amava uma mulher e voou através de um céu estrelado com antecipação em seu sangue. A mão de Venom se fechou sobre a dela. — Ele e Raphael foram amigos uma vez.


Holly tentou ver isso, e hoje ela podia. Dois anjos bonitos e fortes rindo juntos, suas penas brilhando na luz do sol e seus olhos brilhantes. — Deve ter machucado Raphael ter que matá-lo. — Não havia escolha. — Venom apontou para a próxima varanda. — Acha que pode atravessar o espaço? Setenta segundos para ir. Ela teve que forçar seus olhos para longe do céu, as asas profundamente dentro dela querendo se esticar e pular desta sacada. O impulso era tão forte que precisava se lembrar de que não era um anjo. Não se elevaria; morreria na terra, ensanguentada e quebrada. A batalha interna comeu cinco preciosos segundos. — Sim, — ela disse após medir mentalmente a lacuna. Venom foi primeiro, pousando do lado oposto num calafrio silencioso. Respiração curta, Holly subiu em cima da balaustrada... e então voou para pousar do outro lado da outra sacada. Os olhos de Venom brilharam quando se virou para ela. Ela ergueu os ombros e abriu as mãos em silêncio. Não sei como fiz isso. Outra sacada estava além. Sessenta segundos para ir. Saltando novamente, se encontraram na esquina; uma torre erguia-se do lado mais distante da sacada. E o peito de Holly brilhou tão forte que sentiu os raios tentando perfurar o tecido preto de sua jaqueta. Ela apertou os dentes, e colocando a mão no braço de Venom, apontou com a outra. Seja o que for que chamava por ela, estava naquela torre. Venom passou a mão por suas costas enquanto colocava os lábios na orelha dela. — Houve rumores de que Michaela poderia estar grávida. Alguma chance de estarmos prestes a entrar num berçário? Alegria e raiva se desenrolaram dentro dela. Junto com uma violenta dose de ciúme. — Não sei, — ela disse através do pulso sombrio. — A menos que as Arcanjos permaneçam grávidas por anos, qualquer criança não será dele. — Michaela poderia ter inadvertidamente transferido parte de Uram para a criança. Todo o sangue deixou o rosto de Holly para ser substituído por horror arrepiante. — O que faremos? Se for uma criança?


— Faremos a única coisa que podemos, — respondeu Venom. — Diremos a Raphael. — Simples assim? — Estamos falando sobre o filho de um Arcanjo. Sim, disse o sussurro poderoso dentro de sua cabeça, os fracos não têm lugar aqui. Holly fechou as mãos em punhos. — Está cada vez mais difícil me segurar. O maxilar de Venom ficou tenso. — As janelas da torre parecem firmemente fechadas, — ele murmurou, se agachando na escuridão, — E não há como subir pela superfície. Teremos que passar por essas portas da sacada, depois descobrir o resto. — Ele olhou por cima do ombro. — Vinte segundos restantes pela minha contagem. Se não conseguirmos entrar antes que ele se vire, continue pela sacada. Terror, um intruso se torcendo em seu intestino pela ideia de que uma criança poderia estar lidando com os mesmos desejos sombrios que uivavam dentro dela, Holly, no entanto, tirou seu canivete e deu a Venom o palito de dente. Levou quinze segundos agonizantes para acessar a sala escura. Entrando assim que o anjo sentinela começou sua ronda, esperaram que seus olhos se ajustassem. Uma camisa jogada sobre uma cadeira, botas perfeitamente alinhadas perto da entrada, um pente e o que poderia ter sido colônia ou pós-barba na pequena cômoda. Uma abertura para a direita, a escuridão além. A cama estava vazia. Sem relaxar, Holly andou silenciosamente pelo tapete para espreitar o que acabou por ser uma grande área de vestir com instalações sanitárias à direita, atrás de uma porta de vidro. Tudo vazio. Deu a Venom o polegar para cima e ele emergiu da piscina de preto, onde se escondera para que pudesse fornecer apoio sigiloso caso Holly fosse pega. O próximo problema era a porta fechada para esta sala. Abriria para a mesma passagem do mezanino que mantinha as duas sentinelas angélicas. Girando a maçaneta da porta com cuidado, com a boca fechada e lentidão de tartaruga, Venom cutucou a porta uma fração. Apenas uma fresta para escorregar o espelho e examinar a passagem. Sua expressão sombria contou-lhe o que viu. O que agora? ela gesticulou com a boca.


Esperamos, Venom murmurou. Ambos se sentaram no chão atrás da porta. — Sobre o quê... — Ela apontou para a cama e seu dono desaparecido. — Vampiro ou mortal pelo tamanho da cama, — Venom murmurou diretamente contra sua orelha, os lábios dele escovando uma parte de seu corpo que nunca percebeu ser tão sensível. — Posso hipnotizar vampiros muito mais velhos do que eu, desde que não seja alguém da idade de Dmitri, não será um problema. — E como isso aconteceu? — Holly sussurrou após puxar a cabeça dele com a mão pressionada contra sua bochecha. Ele estava quente sob a palma da mão, a barba de um dia começando a surgir para dar à pele uma textura intrigantemente áspera. — Entendo que ainda está se desenvolvendo, mas de presumir hipnotizar humanos para imortais antigos? — O aumento no poder de Holly fazia sentido por causa da coisa assustadora que forçou caminho em seu corpo, mas Venom não tinha tal desculpa. — Dmitri diz que ficou mais forte em explosões repentinas também. Como se o corpo acumulasse até certo ponto, então explode de uma só vez. Isso fazia sentido de forma imortal. — Bem, poderes hipnotizantes ou não, não é boa aposta esperar que esse cara esteja sob seu limite de idade de hipnotismo. Estamos numa fortaleza arcangélica. Venom sorriu e encolheu os ombros. Quando ela franziu o cenho para ele, ele falou, Gatinha. Ela o empurrou levemente no braço. Ele pegou a mão dela, fingindo afundar as presas em seus nódulos. Seus lábios se contraíram... e tudo bem. Por estarem juntos nisso. Passou uma hora, com Venom usando seu espelho para verificar o corredor a cada poucos minutos. A dor no peito de Holly se intensificou lentamente até o


ponto em que apertou a palma da mão no peito num esforço inútil para aliviá-lo. Venom viu o movimento e colocou a mão na coxa dela. Ela segurou aquela mão, segurando-se com força. E tentou respirar. — Os anjos estão caminhando na direção oposta, — ele disse três minutos depois. — A entrada da torre deve estar bem na nossa esquerda. — Vamos fazer isso. — Tentar se esgueirar sob o nariz dos anjos era um enorme risco, mas estava sentada aqui enquanto seu peito ameaçava se partir ao meio, deixando-a uma bagunça sangrenta e quebrada. Abrindo a porta, Venom escorregou para vigiar os anjos enquanto a deixava sair. Holly não discutiu nem hesitou. Ela levou seus pés silenciosos até a única porta possível que poderia levar à torre – estava encurralada na esquina. Sua mão foi na maçaneta da porta. Estava trancada. Merda. Ela olhou por cima do ombro para ver Venom vindo em sua direção. Sabia que ele estava mantendo o olhar à frente com a esperança de poder hipnotizar os anjos caso isso acontecesse. Mas esses anjos estariam na outra parte do mezanino em segundos. De jeito nenhum poderiam evitar ser vistos. Não havia tempo para Venom abrir a fechadura. Holly olhou para a fechadura... E um sussurro de verde ácido rolou pelo braço e dentro dela. Estranhamente calma, a dor não mais agonizante, ela voltou a girar a maçaneta. Estava dentro no próximo segundo. Venom se moveu com a velocidade da víbora para se juntar a ela, os dois conseguindo fechar a porta sem fazer barulho. Com a língua seca e o coração como um tambor, Holly olhou para ele. Estava escuro nesta parte da torre e seu peito brilhava. Os olhos de Venom também. Ela pôs seus dedos na bochecha esquerda dele. Ele era forte, extraordinário e único... e ela sempre quis tê-lo em sua corte. Mas ele era ridiculamente leal à Raphael. Ela nunca entendeu o porquê. Raphael era um filhote forte, mas era milhares de anos mais velha, tinha muito mais poder. Contudo, Raphael conseguiu manter a lealdade de não apenas este vampiro com olhos de víbora, mas a de Dmitri. Ele nunca conseguiu fazer isso. Já teve amizades uma vez. Há muito tempo. Raphael foi seu amigo. Correram pelo Refúgio nas asas de ar e fogo, ou era o que


parecia. As coisas mudaram após a ascensão de Raphael. O filhotinho ficou muito forte, e teve dificuldade em aceitar isso. Ele foi um idiota. Deveria ter matado Raphael antes que o jovem anjo que conheceu ascendesse. — Holly. Holly olhou nos olhos semicerrados como uma cobra, as mãos de Venom agarrando seus braços. — Estou aqui, — ela brincou, sua garganta apertada. — É forte agora. Ele continua deslizando em meus pensamentos, me fazendo entrar nele. — Beba. — Venom segurou o pulso na boca dela. Mais uma vez, o soco de seu sangue único e brutalmente poderoso a ajudou a empurrar o eco até uma distância que pudesse funcionar. — Não posso aguentar muito tempo, — ela advertiu. — Ele é muito forte neste lugar. — Preso no corpo fraco de Holly, mas cheio de um poder que ficou adormecido desde o ataque. — Então, vamos terminar nosso reconhecimento e sair daqui. Holly virou para a escada que subia em espiral até o topo da torre. Era estreita, mas bem conservada, e uma grade de metal corria pelo lado direito. Ela foi primeiro. Venom não tentou detê-la. Ele nunca vai me limitar. Ele me ajudará a voar. Era um presente, um que ela guardaria. Quanto mais perto chegava da torre, mais difícil ficava ignorar a pressão violenta em seu peito. Holly abriu a jaqueta num esforço inútil para aliviar essa pressão. A luz verde ácida explodiu nela, atravessando a escuridão. Brilhava no ferro do enorme cadeado que pendia na porta da sala da torre. Quebre-o. Enfiando as unhas na palma da mão, Holly recuperou seu canivete com a outra, depois empurrou o palito usando a miniatura. — Mais uma fechadura para abrir, — disse a Venom. Não havia como esconder um cadeado quebrado e prometeram não deixar nenhum vestígio da presença deles. Venom se agachou para começar. Levou tempo suficiente para que o suor começasse a escorrer pelas têmporas, a pressão dentro dela como um caldeirão. Tirando a jaqueta e a mochila, deixou as


duas na porta. Venom abriu o cadeado naquele momento e colocou-o ao lado de suas coisas, antes de retirar sua mochila rapidamente e colocá-la próxima à dela. Levantando-se, colocou a mão na maçaneta da porta. — Vou primeiro. Holly assentiu porque precisava entrar, e a concordância era a maneira mais rápida de garantir isso. Venom segurou seu queixo, certificando-se de que seus olhos se encontravam com os dele. — Pegue o sangue que precisa para manter o controle. Só depois de ter acenado, ele abriu a porta. O quarto estava iluminado apenas por um brilho verde ácido. Primeiramente, Holly pensou que fosse seu peito... Mas essa luz vinha de algo no centro do espaço circular. Agarrando violentamente a mão de Venom, olhou para a visão assustadora à frente: um berço. Branco e delicado. Seu estômago embrulhou. Um bebê? Não. Por favor, não. Sentiu

Venom

conter

um

suspiro

e

então

os

dois

caminharam

silenciosamente mais perto, perto o suficiente para olhar para aquele horrível berço. Só que... atingiram algo antes de chegarem a uma curta distância do que estava no berço. Uma barreira explodiu contra eles, repelindo-os com força suficiente para ambos tropeçarem, mal se mantendo em pé. Sua cor era um bronze brilhante que lembrava Holly as asas de Michaela. Enquanto assistia, formou-se uma rede que encerrava todo o berço numa brilhante bola de poder. — O que é isso? — Holly levantou os dedos para o poder cor de bronze, mas não o tocou. — Parece que Michaela pode deixar partes estáticas de seu poder. — Venom escaneou a estrutura brilhante. — Provavelmente uma habilidade nascida da Cascata, ou então haveria rumores sobre isso antes de agora. Acho que teria que recarregar a construção em algum momento. Holly não se preocupou com a resposta, apesar de ter feito a pergunta. O brilho verde no berço a atraía. Coração acelerado, pulsando no peito, se aproximou o suficiente para olhar pela gaiola da rede... e ver algo deformado e torcido... Não uma criança. Não tinha cabeça. Nem olhos. Nem nariz. Nem membros. Nem caixa torácica. Nem quadris. Nem medula espinhal.


Não parecia nada humano ou imortal ou sequer animal. Não era mais que um pedaço de argila triturada e transformada em carne. Mas aquele pedaço de carne distorcida subia e descia com um padrão de respiração, e sua pele marrom claro era tão frágil quanto a de um bebê sob o brilho verde ácido. Havia um osso retorcido e doentio saindo do centro que vagamente se assemelhava à forma de uma asa. Mas, não era uma asa. E o que era aquilo? A ponta de um dedo adulto, completo com uma unha dura e quadrada, saindo abaixo do brilho úmido de um remendo de carne que parecia estar apodrecendo sob a falsa vida do brilho ácido. E, Deus, havia três dentes adultos saindo do outro lado. Como isso podia respirar? Não tinha nariz, nem boca. Nem cérebro. Como podia estar vivo? Seu estômago embrulhou. Bile subiu e Holly começou a recuar... E as asas se estenderam e se esticaram, saindo dela antes que pudesse fazer qualquer coisa para lutar contra a migração. *** Venom viu as costas de Holly endurecer, sua coluna arquear numa curva perigosa. Sua boca se abriu num grito silencioso, lanças de luz verde ácida derramando de cada célula de seu corpo. Mesmo quando se moveu para ela em velocidade desumana, a luz se juntou num único feixe apertado e começou a fluir em direção à rede. A rede sacudiu contra Holly com força brutal. Ela estremeceu; sangue escorrendo do nariz e olhos, mas seu corpo se curvou novamente, quase de uma vez, a energia verde ácida passando mais uma vez na rede. Venom estava pronto quando isso foi repelido desta vez. Agarrou Holly na fração de segundo depois que o poder retornou, mas antes disso retomar o controle. Ele conectou com os olhos dela. Mas, como ele temia, Holly era imune à sua capacidade de hipnotizar. Seus olhos brilhavam quando o poder cresceu novamente. E onde sua mão pressionava contra o estômago em sua tentativa de capturá-la, sentiu umidade. Não precisava procurar o que era. Todo vampiro conhecia o afiado sabor metálico do sangue.


A energia dentro dela estava literalmente a rasgando em seus frenéticos esforços para chegar à energia... do receptáculo preso na gaiola de bronze. Venom tomou uma decisão em 2 segundos. Segurou a garganta de Holly numa única mão poderosa e apertada, cortando o fluxo de sangue. Seu corpo convulsionou por seu aperto por quase um minuto antes de ficar mole. Um ser humano estaria morto. Contava com o fato de que Holly não era humana. Porque se a tivesse matado... A dor, como nunca mais esperou sentir, o atravessou enquanto a pegava nos braços e a levava para o outro lado da sala. Colocando-a no banco da janela, verificou o pulso. Alívio era um soco frio no intestino. Estava viva, e o brilho parou. Isso fez com que acreditasse que a coisa dentro dela precisava que ela estivesse consciente para fazer o que estava fazendo. O que significava que sua própria consciência não era total, não podia existir sem ser um parasita. Como o horror pulsante no berço, era retorcido e criado por pedaços. Precisava usar Holly como hospedeiro. No entanto, como um inseto que explodia fora do corpo de seu hospedeiro depois de consumir esse corpo de dentro para fora, a mataria num esforço para sair. Deixando Holly no assento, Venom foi olhar novamente a rede; precisava dar ao Senhor todos os detalhes que pudesse. Seu instinto disse que essa coisa não deveria existir e não estava viva de nenhum modo conhecido, a subida e descida sob sua pele apenas uma semelhança superficial de respiração. Enquanto observava, aquela ascensão e queda pulsava e desaparecia em irregularidade aleatória, pulsada e desbotada. Cintilando. E pegou uma pitada de pútrido verde abaixo da superfície: decadência. Todos os detalhes armazenados em sua mente, Venom se moveu para a próxima coisa em sua lista e tocou a rede de bronze diretamente. Ela o atirou contra a parede, mas preparou-se para esse resultado e rolou com fluidez de víbora. Estava com Raphael tempo suficiente para identificar o poder que o repeliu como o de um Arcanjo. Não passaria por isso. O que o deixava com apenas uma escolha: deveria tirar Holly daqui antes que ela recuperasse a consciência e a energia maligna dentro dela começasse a


tentar se reconectar novamente com essa outra parte de si mesma. Também precisava mantê-la afastada até que pudesse conversar com Raphael e descobrir uma solução que não acabasse com a morte de Holly. Porque Venom não estava bem com isso. Mantendo os ouvidos atentos a qualquer sinal de que Holly estava recuperando a consciência, foi às janelas ao redor da torre para ver se podia abrir uma. A resposta não foi boa: como pensava anteriormente, as janelas estavam fechadas. Também foram projetadas para que quebrar o vidro não tivesse impacto real – os painéis eram pequenos demais para qualquer coisa maior que um pássaro passar, enquanto a próprio moldura da janela era formada por metal espesso. Michaela claramente entendia que não podia permitir que essa coisa escapasse. Por que, então, permitia que existisse? Pelo poder? Ou amou Uram o suficiente para guardar a esperança de seu retorno? Nada disso era importante neste momento e lugar. Somente Holly importava. Venom teria que levá-la da mesma maneira que entraram. Sempre gostou de um desafio, pensou sombriamente. Voltando ao quarto, assegurou-se de que não deixaram nenhum vestígio da presença deles. Era evidente que Michaela não estava mentalmente conectada à rede de energia, senão a sala estaria cheia de guardas um minuto após a entrada deles. Depois que confirmou que nenhuma gota de sangue de Holly pousava no chão para traí-la, pegou seu corpo e saiu da sala, depois a colocou no chão e cuidadosamente recolocou o cadeado na mesma posição que o encontrou. Recolocar a jaqueta em Holly e fechá-lo provou ser bastante fácil; fez uma anotação para lembrá-lo de chamá-la de boneca. Ela enviaria adagas para ele antes de responder com algo igualmente cortante. A mochila era um problema. No entanto, ela não tinha muito mais do que comida e uma muda de roupa agora que sua jaqueta estava fora. Então ele enfiou tudo em sua própria mochila maior, e então conseguiu enfiar a mochila vazia lá também. Se erguendo, pegou-a novamente e tentou não olhar para a mancha purpúrea ao redor de seu pescoço. Ele fez isso. Ele, um homem que foi muito cuidadoso ao longo do tempo para nunca se tornar sem consciência, nunca tratar as mulheres como mercadorias descartáveis.


Suas irmãs podiam tê-lo abandonado, mas isso não mudava que era um homem que cresceu sabendo que era seu dever cuidar, não as prejudicar. — Me desculpe, gatinha, — ele murmurou, esfregando a bochecha contra o cabelo dela antes de descer as escadas. Descer não foi problema – Holly não pesava tanto. Ela era muito pequena, ainda que parecesse uma presença tão grande quando estava acordada e discutindo com ele. Colocando-a no chão novamente, uma vez que navegaram pelas escadas, de costas para uma parede, ele arriscou abrir a porta a fração mais ínfima. Dois anjos não estavam a uma distância de cinquenta metros. Venom decidiu esperar. Pelo que viu até agora, essa torre estava fora de limite para todos. O trabalho dos anjos era garantir que ninguém violasse a casa e chegasse ao berço lá em cima. Michaela também deixou um enorme sinal de alerta com aquela rede de bronze. Dada a sua reputação de castigos criativos e cruéis, ele não achava que seu povo desconsideraria suas ordens. Não enquanto Venom não lhes desse um motivo para verificar a torre. O problema era manter Holly inconsciente tempo suficiente para distanciála da coisa no berço. Venom não se esqueceu das asas que arderam em seu peito no Central Park, mas aquilo foi fugaz. O poder não tentou uma aquisição total até que se encontrou a uma curta distância do receptáculo. E foi só dentro da fortaleza que as memórias começaram a se fundir com a própria mente de Holly. Uma hora de paciência depois, os olhos dela começaram a se abrir. — Me desculpe, — ele sussurrou novamente e a sufocou até a inconsciência. Lágrimas entupiram sua garganta, ameaçando descer por suas bochechas pela primeira vez em mais de três séculos.


Um minuto depois, a bile ainda queimando sua garganta, olhou para o corredor. As duas sentinelas haviam desaparecido. Ousou estender a cabeça para verificar se todo o mezanino estava limpo. Sim. Percebeu que os anjos deviam ter decidido esticar suas asas baixando. Mas voltariam logo. Jogou Holly sobre o ombro, estremecendo pelo dano que estava fazendo com o abdômen já ferido e fechou a porta. Usou a espera para firmá-la para que se firmasse atrás dele, mas verificou para se certificar. Então, abriu caminho em rápido silêncio para onde entraram na fortaleza. A área ainda estava vazia e a janela ainda estava aberta. Após colocar Holly contra uma parede, deslizou sua mochila, tirou o gancho e a corda, então ancorou o gancho o mais forte possível. Já havia deixado algumas marcas. Outras eram inevitáveis, mas, esperançosamente, ninguém olharia com muito cuidado para a saliência desta janela no final de um corredor distante. Escalar com Holly não seria fácil, mas finalmente decidiu mover sua mochila para a frente e amarrá-la às costas com uma corda extra. Não seria a posição mais confortável para ela e provavelmente acordaria com uma grande dor de cabeça, mas estaria viva. Mochila e Holly em posição, esperou um momento que não havia asas no céu perto o suficiente para vê-lo. Dez minutos excruciantes passaram antes que o céu estivesse limpo. Venom saltou pela janela. Com o peso sobre ele, a corda rasgou suas palmas. Mal sentiu isso. Sua Feitura o endureceu para muitos outros tipos de dor. Quando você estava amarrado, víboras e cobras irritadas brincando em seu corpo, as presas afundando veneno em sua carne machucada uma e outra vez até que a agonia e o horror eram


tudo que conhecia... Bem, não havia muitos pesadelos que pudessem aterrorizar Venom, e pouca dor que sequer chegasse perto de desestabilizá-lo. Ele se moveu com velocidade sobrenatural. Seus pés pousaram na grama sem que um grito de alarme soasse. Desatando Holly e colocando-a na grama, puxou sua mochila na posição correta antes de deslizar a corda numa ondulação dura projetada para soltar o gancho. Ele se manteve. Tentou novamente, o movimento que praticou e praticou e praticou novamente ao longo dos séculos. O estúpido não se moveu. Venom respirou fundo, alcançou a frieza das criaturas que o marcaram e voltou a puxar. A corda deslizou abaixo, o gancho caindo. Pegando-o, enrolou a corda e a encaixou na mochila, com cuidado ao fazêlo, de uma maneira que não machucasse Holly quando a jogasse sobre o ombro. O que fez no próximo minuto. Ela gemeu a meio caminho de sua corrida pelo pomar, mas ele não parou. E quando encontrou um guarda, hipnotizou o vampiro sem pensar, dando ao macho a mesma instrução que Holly deu ao outro guarda: você não viu nada além de um gato. Não houve intrusos. Ele saiu um segundo depois, perdido na escuridão. Chegou a uma linha de vegetação usando a velocidade da víbora, marcando suas explosões de movimento para evitar varreduras pelos anjos que voavam sobre sua cabeça. Não parou nem uma vez debaixo do dossel das árvores. Embora geralmente usasse apenas sua velocidade em rajadas esporádicas, esta noite corria o quanto o corpo dele suportava. Não foi um período interminável. Ele tinha apenas trezentos e cinquenta anos de idade e ainda crescia em seu poder. Quando finalmente parou e olhou para trás, podia ver a fortaleza, mas agora era um castelo de brinquedo, a distância que colocou entre a coisa no berço e Holly era significativa. — Venom. Liberando Holly de seu ombro por esse som lento, a sentou de costas numa árvore e tomou o rosto em suas mãos. — Fale comigo, gatinha. — Era um pedido. Ela ergueu a mão para fechar fracamente sobre o pulso. — Onde... — a voz dela estava arranhada.


— Espere. — Abrindo a mochila, tirou uma garrafa de água e a ajudou a molhar a garganta. — Melhorou? Um leve aceno de cabeça, sua cabeça girando na direção da fortaleza. — Ainda posso sentir isso. — O peito dela brilhou. — Pode lutar? Um momento tenso antes de assentir. — Sim. Ele não está tanto na minha cabeça. — Outro fôlego que parecia muito áspero, não bom, o dano à garganta era óbvio. Frio em seu interior de uma maneira que não tinha nada a ver com sua Feitura, Venom tirou os fios de cabelo do rosto. — Precisamos verificar o peito e o estômago. — Sabia que estava machucando-a ainda mais, carregando-a por cima do ombro, mas foi a única maneira de levá-la à segurança. Holly não lutou contra ele quando abriu a jaqueta e puxou suavemente a camiseta preta que usava embaixo. A única misericórdia era que o sangue não secou, então não estava arrancando a pele dela. Ele não precisava de uma lanterna para ver o dano – seu peito brilhava verde ácido, iluminando sua pele. Cortes se espalhavam por toda aquela pele. O coração era o epicentro do terremoto sangrento. As presas de Venom empurraram contra o lábio inferior, não por causa do aroma de sangue – embora Holly cheirasse muito bem – mas por ver que ela sofria, com dor, fazendo coisas com ele que não permitiu que ninguém fizesse durante séculos. Ela era frágil, Holly. Venom não se ligava a pessoas frágeis. Ele ergueu o pulso até a boca. — Beba. Seus olhos se encontraram com os dele, a dor queimando neles. — Já tirei sangue de você mais de uma vez. — Um cenho franzido que a fez parecer com ela novamente. — Não pode estar fraco se vamos sobreviver. Venom riu, os nódulos em seus músculos diminuindo ligeiramente. — Precisaria de mais que algumas mordidas suas para me enfraquecer. Quando ela continuou hesitando, a linha teimosa de sua mandíbula com a qual estava intimamente familiarizado, ele pegou a mochila e tirou uma garrafa de sangue num recipiente isolado. — Cortesia de Ashwini. Ela disse que eu poderia precisar disso. — A amiga caçadora de Elena – e esposa de Janvier – tinha o que a


mãe de Venom chamaria de o terceiro olho, então Venom não lutou contra o peso extra criado pelas duas garrafas isoladas. — Beba primeiro, — ordenou Holly, sua respiração desigual. — Preferiria... Não gosto de beber assim. Não prestes a perder tempo discutindo quando estava dolorida, Venom apertou a parte de cima da garrafa e começou a engolir... apenas para arrancá-la de sua boca com uma onda de lábio. — Está com sabor. Os lábios de Holly se curvaram, uma faísca nos olhos. — Que sabor? Ele levou a coisa horrível aos lábios novamente e tomou um gole. — Apimentado. — E aceitou, com relutância, que o gosto não era tão ruim. Ele bebeu mais. E pensou em casa. No calor da cozinha grande da pousada, sua mãe jogando canela, cravo-da-índia e cardamomo na panela durante o Diwali. O Festival das Luzes, cheio de cor e alegria e aromas mais doces, sempre foi sua época favorita do ano. Holly estendeu a mão para apertar a mão dele, seu aperto fraco, mas firme. — O que foi? Venom não falava sobre seu passado. Estava enterrado há muito tempo e virou pó. Mas naquele momento, com as especiarias persistentes em sua língua e as lembranças desenrolando com uma cautela calorosa dentro dele, não podia ficar em silêncio. — Casa, — ele sussurrou. — Este sangue me faz lembrar de casa. — Seu sorriso era uma coisa formada por partes iguais de tristeza e felicidade. — Muito tempo atrás. — Deixe-me provar. Ele não deu a garrafa. Inclinando-se, pressionou os lábios contra os dela. Sua mão livre se aproximou da bochecha dele, ela aceitou seu beijo gentil, e ao se separarem, os olhos dela estavam molhados. — Você sente falta. — Sim. Às vezes. — Nova York era sua casa agora. Era onde sua família vivia – os Sete, Raphael, Janvier, até alguns dos mais jovens idiotas, mas parte dele sempre seria aquele garoto que chegou à idade adulta numa pousada na Silk Road. O ar quente, o som das vozes altas na conversa em mil dialetos e línguas distintas, a cor e o desenfreado caótico dela, a luz das estrelas penetrante, tão longe da fumaça e poeira de uma grande cidade, as memórias viveriam nele para sempre. — Você pode voltar?


Holly não tinha ideia do que estava perguntando. Ele balançou a cabeça. — Não para casa. Não posso ir para casa. Seus dedos apertaram os dele. — Mas posso ir para a Índia, — ele disse, esfregando o cabelo novamente. — Neha gosta de mim. Ela chama Janvier e eu de Charme e Malícia. Nunca descobrimos qual é qual. — Sempre quis ir à Índia, — Holly disse com outra respiração trêmula. — E à China. Meus bisavós vieram de um lugar chamado Xi'an. — Nós iremos. — Com essa promessa, Venom escovou os dedos por sua garganta ferida. — Eu sinto muito. Pegando a mão dele, apertou um beijo de doçura inesperada na palma da mão. — Eu não. Obrigada por me ajudar a permanecer Holly. Agora beba. Venom terminou a garrafa de sangue que continha alguma magia que o fazia falar do passado – e pensou deliberadamente no futuro que queria, o futuro que lutaria até a morte para conseguir. — Em nossa viagem à Índia, — disse ele, — Iremos andar de moto pelas ruas de Deli, esquivando de bois puxando carros, riquixás11 finos e vampiros pretensiosos em carros da cidade, e iremos surpreender Neha com você. Teremos que ter cuidado para ela não tentar mantê-la. As presas de Holly afundaram em seu pulso quando ele o estendeu. Ela embalou aquele pulso como se fosse uma coisa preciosa que pudesse ser ferida. Tão estranha era Holly. Fazia seu coração doer de maneiras que ele pensaria ser impossíveis. Mas enquanto bebia, viu que os cortes no corpo começavam a cicatrizar centímetro a centímetro. Ela bebeu mais que normalmente faria, e quando passou a língua sobre a ferida para ajudá-la a curar, fez isso com a máxima gentileza. Ele sorriu. — Cuidado, gatinha. Comece a ser legal comigo e começarei a pensar que gosta de mim. — Vou considerar, Cara de Víbora.

11


Sorrindo, porque ela estava de volta, ele se levantou e estendeu a mão. — Pode se mexer? Ela aceitou sua ajuda e lentamente se levantou, então flexionou-se lentamente. — Sim, — ela disse finalmente. — Me sinto machucada e a pele no peito e abdômen é nova e frágil, mas não estou fraca. Só preciso ter cuidado para não abrir as feridas. Ele mexia na mochila enquanto falava. — Aqui, — ele disse, tendo encontrado a camiseta preta de manga comprida que ela trouxe como sobressalente. — Também precisamos limpar o sangue de você. Tirando a jaqueta, ela tirou a camiseta sangrenta. Então usou água de uma garrafa quase vazia para molhá-la e limpar o sangue seco. — Estou limpa? Venom olhou para sua forma pequena, suave e perfeita. E queria mordê-la de maneiras que não tinham nada a ver com sobrevivência. — Vire de costas. Quando o fez, ele assentiu. — O sangue se foi. — As gotículas desciam pela cintura de seu jeans, mas isso não era algo com o qual podiam lidar agora. — Quanto caiu na sua jaqueta? — Ele perguntou depois de vestir uma camiseta limpa. Descobriu-se que o revestimento interno da sua jaqueta era impermeável, e podiam limpá-la usando o pano já úmido. Perto como estavam, o cheiro dela ondulava ao redor dele como a gatinha que ele a chamava. Queria deixá-la cair em seus braços e explorá-la, descobrir se a atração apaixonada, fascinante e protetora que sentia por ela se tornaria tão preciosa: casa. Mas primeiro, precisava levá-la à segurança. Pegando a camiseta sangrenta que usaram como trapo, ele disse: — Voltarei às cinco. Se qualquer coisa perigosa aparecer, envenene-a com essas presas de bebê. O som de seu rosnado ficou com ele enquanto desaparecia nas árvores, seu destino a via navegável que vislumbrou não muito antes de parar. Lá. Um pequeno fluxo caindo sobre as rochas. O grande lobo cinzento do outro lado não foi surpresa, não nesta região. Seus olhos brilharam para Venom quando Venom atingiu o topo; destruiria o cheiro concentrado de ferro úmido. Os vampiros tinham bons narizes, mas não eram cães de caça. Isso devia evitar que um vampiro usasse sua trilha de cheiro para montar uma perseguição.


Seria um caso diferente se Michaela tivesse um dos caçadores nascidos a seu serviço, mas a antiga Rainha de Constantinopla e atual Arcanjo de Budapeste tinha um estranho ponto cego quando se tratava de caçadores. Usava os serviços da Sociedade e, de acordo com os caçadores que Venom conhecia, tratava os caçadores em seu território com cortesia. No entanto, não tinha nenhuma conexão mais profunda com a Sociedade. Mas a Torre também não tinha, até Raphael se apaixonar por uma caçadora mortal e o mundo virar de cabeça para baixo. A maioria dos mortais, mesmo os mais fortes, ficava longe dos imortais. Era bom para a saúde deles. — Boa caça, meu amigo, — Venom disse ao lobo do outro lado do caminho, aquele que ficou no lugar, mas não fez movimentos agressivos – como se soubesse, e o lobo sabia que Venom não era uma presa. Estava de volta com Holly segundos depois. Ele a encontrou sentada com a mochila, a jaqueta mais aberta; o brilho verde continuava pulsando. Ela não tirou a mochila dela de dentro da dele, provavelmente bem ciente de que precisaria de toda a força para se mover, mas parecia estar re-arrumando. — Organizei as coisas que precisamos, colocando-as no topo, — ela disse sem olhar para cima. Venom sabia que estava em silêncio quando se moveu. — Como sabia que eu estava aqui? Um encolher de ombros. — Posso sentir você. Despreocupado com isso quando normalmente seria o contrário, se aproximou para olhar a mochila. — Por que colocou essa garrafa de sangue perto do topo? — Era a fechada. — Já bebi uma. — Não acho que continuará fria e boa por mais que talvez até a manhã, então deveria tomá-la. — Um sorriso perverso para ele. — Imagina que sabor é? — Nunca aceitarei presentes de Ashwini novamente, — murmurou Venom, mas é claro que era uma mentira. Pegaria qualquer coisa que a vidente lhe desse. Ninguém a chamava assim, mas todos sabiam que era o que era. Ash via coisas que ainda não haviam acontecido, e se gostasse de você o suficiente para lhe oferecer uma mão amiga, seria imbecil de não aceitar. Claro, os motivos de Ashwini nem sempre eram lineares. — Ela já te contou alguma coisa? — Ele perguntou à Holly enquanto a colocava num saco plástico – úmido, mas limpo – que enfiou no bolso da frente da mochila.


Uma longa pausa antes que Holly assentisse. — Claro, quer saber? Isso pode fazer você questionar a natureza da sorte, destino e do livre arbítrio. Venom ficou imediatamente intrigado. — Conte-me.


— Um dia, — começou Holly, — Depois de treinarmos no gramado da casa dela e Janvier, eu estava sentada na grama, olhando para o Hudson e me sentindo triste pela vida que nunca teria, então Ashwini sentou perto de mim e disse: Holly. Olhos verdes selvagens encontraram o dele. — Eu ainda era Sorrow, mas naquele dia, ela me chamou de Holly muito especificamente. Não a corrigi porque ela tinha esse tom em sua voz que me dizia para ficar quieta e ouvir. E ela disse... — Já te estrangulei duas vezes, — Venom murmurou com seda letal, embora ainda não estivesse certo como fez para salvá-la da entidade dentro dela. — Dizem que a terceira vez é o charme. Sua risada era imprudente e destemida e ele queria tomá-la até que essa risada fosse dele. — Fiquei tão concentrada nela, — ela disse com um sorriso persistente nos lábios. — Meu corpo estava quase tremendo ao ouvir o que ela tinha a me dizer – meu futuro? Minha morte? O que? Por fim, Ash abriu a boca e disse: Não se esqueça de aprender Hindi. Venom piscou. — O que? — Uh-huh. — Seus ombros tremiam. — Teria pensado que ela estava completamente louca, exceto que estive perto de Ash o suficiente para perceber quando ela diz uma de suas coisas estranhas, que você deveria ouvir. Então, entrei numa aula online. — A última frase foi falada na língua pátria de Venom. Algo enorme se espalhou dentro dele, uma coisa selvagem, alegre e sem nome. — Seu sotaque poderia dar um pouco de trabalho, — ele disse na mesma língua. — E não pode falar mandarim, então cale a boca. Ele respondeu naquela língua, viu seus olhos se expandirem. — Cresci na Silk Road, — ele lembrou a ela. — Também passei mais de cem anos na corte de Neha, e ela tem muitos cortesãos que vêm do outro lado da fronteira. — Nem todos


falavam o mesmo dialeto que Holly; teve que aprender várias variações – como teve que aprender as línguas favoritas em outras partes da Índia. — Naasir sempre diz que gosta de saber de que segredos as pessoas estão falando. Como eu. O sorriso de Holly era uma coisa bem aberta. — Minha avó me fez participar da escola de mandarim durante toda minha infância. Costumava ficar tão louca por ter que passar meus sábados lá, em vez de assistir desenhos animados. — Ela falou as palavras numa mistura das três línguas que compartilhavam. — Mas, à medida que cresci, fiquei feliz. Posso falar com ela no idioma que usou com sua própria mãe. E é algo especial, sabe? Venom entendeu. — Janvier fala hindi, assim como Ashwini, — ele disse a ela. — A maioria dos Sete tem uma excelente compreensão disso, também. Parte disso é que têm idade suficiente para ter tido tempo de aprender vários idiomas... — Mas o resto é porque são sua família, — disse Holly, levantando a mão para roçar seus dedos sobre a bochecha dele. — Então, jaanuu, é hora de ir? Além disso, sabia que há um lobo atrás de você? — Ele está curioso sobre os outros predadores em seu território. Não o desafie com contato visual, mas também não pareça fraca. — Venom voltou a deixar o lobo saber que estavam cientes disso. — Ele quer ter certeza que só estamos passando. Venom puxou a mochila e levantou. Aceitando a mão que ele ofereceu, Holly a usou para se aprumar. — Nossa casa segura está a uma distância que podemos viajar a pé? — Sim. Mas talvez não possamos fazê-lo antes do amanhecer. — Holly estava mais fraca do que deveria, mesmo com o sangue se misturando com o dele. — Teremos que acampar na floresta se houver alguma chance de sermos apanhados ao ar livre. — Sim, isso seria um saco após conseguirmos sair da infiltração furtiva numa casa de um arcanjo. — Colocando o capuz de sua jaqueta sobre seu cabelo, Holly fechou a jaqueta de forma que seu rosto estava bem enquadrado, seu corpo um esboço preto lustroso. — Vamos fazer isso. Começaram a correr, o lobo correndo ao longo deles por mais de uma hora antes de desistir para retornar ao seu território. Venom manteve um ritmo que Holly também poderia manter. Ela estava fazendo melhor do que esperava. Mesmo


com força total, não seria tão rápida como ele – mas seria rápida o suficiente para fazê-lo se divertir. Voando por um tronco em seu caminho, ela se virou para sorrir por cima do ombro. Ele sorriu e correram. As asas voavam por cima de vez em quando, e quando o faziam, os dois agachavam, ficando imóveis. Quanto mais longe estavam da fortaleza, menos o peito de Holly brilhava – Venom sabia por que abria a jaqueta e verificava de vez em quando, até que quando alcançaram uma pequena aldeia da montanha, não havia cobertura de verde ácido que pulsasse fora do corpo dela. O amanhecer erguia uma linha vermelha no horizonte, mas ainda estava longe dos agricultores, os quais criavam cabras nessas montanhas, estivessem acordados. Venom e Holly moviam-se como sombras através da aldeia, sem parar quando os cães latiam. Já haviam desaparecido e estavam na floresta antes que alguém sequer abrisse uma cortina em resposta ao alarme canino. Se alguém os viu, tudo que vislumbrariam seriam duas silhuetas escuras. Venom puxou o capuz de malha sobre o cabelo e se certificou de manter seus olhos abertos apenas uma fresta para que ninguém pudesse identificá-lo. Os óculos de sol antes do amanhecer seriam óbvios. Seguros nas árvores a alguma distância da aldeia, pararam para que Venom pudesse beber a segunda garrafa de sangue, e depois Holly se alimentou dele para continuar sua recuperação. Antes disso, ele lhe deu o alimento pré-embalado que ela trouxe: ele nunca esquecia que Holly não era vampiro no sentido conhecido, também precisava de comida real. Enquanto ela engolia um pacote de queijo e bolachas, ele abriu a garrafa de sangue e, avisado pela última garrafa, tomou um gole cauteloso. Pretzels, café e nozes assadas. Ele riu. — Ashwini me deu Nova York desta vez. — A outra casa de seu coração. Ele bebeu sem hesitar, depois beijou Holly de novo para que pudesse saboreá-lo. E então podia experimentá-la. Ela lambeu sua língua de forma brincalhona contra a dele. — Devemos nos dedicar ao sexo descontroladamente inapropriado?


Ele afundou as presas em seu lábio inferior, apenas o suficiente para que fosse uma picada. — Ouch. — Ela fez o mesmo para ele, e quando se separaram, ambos estavam ofegantes. — Uma cama, — Venom disse com seda. — Quero uma cama e uma hora. — O luxo de acariciá-la suavemente, devagar, bebê-la. A respiração de Holly raspou. — Então, vamos andando. — Alimento primeiro. — Mas ele não deu o pulso dele. Em vez disso, fez algo que nunca fez... exceto com ela. Se inclinou para que ela pudesse se alimentar da garganta. Dedos delgados curvando-se ao redor do pescoço, uma respiração suave, beijando sua pele, seu perfume escorrendo ao redor dele como um gato afetuoso. Seu pênis já rígido ficou duro quando ela afundou suas pequenas presas em sua veia. Alimentá-la, cuidar dela, isso lhe deu tanto prazer que sabia estar com problemas além de tudo que havia manuseado anteriormente. Ele segurou sua cabeça contra ele, independentemente, glorificado pelo prazer do beijo de sangue íntimo. Ela levou seu tempo, sorvendo lentamente em vez de engolir e acabar com isso. Quando ela terminou o beijo, foi com uma pressão de seus lábios contra a pele dele. — Tudo bem, — ela disse com um tom rouco que o acariciava, — Talvez eu possa vir a desfrutar de beber sangue em circunstâncias muito limitadas. — Uma fungada contra a garganta dele. — Vai se alimentar de mim? Venom estremeceu. — Quando estivermos seguros. — Ele não tomaria muito, o ato mais sobre a oferta e aceitação que sustento. Ela acariciou a garganta dele novamente, pequena, feroz e estranhamente gentil com ele. — Eu quero me enrolar e dormir. — Logo. — Forçando-se a quebrar o contato pele a pele, ele respirou rapidamente antes de se levantar, puxando-a ao mesmo tempo. — Estamos quase lá. Abriram caminho para uma corrida rápida, Holly movendo-se mais fluidamente após a injeção fresca de sangue e comida. Sua distância da abominação no berço provavelmente também ajudava; quanto menos força ela


tivesse que gastar para lutar para que a energia alienígena não assumisse, mais tinha para si mesma. Os dois chegaram ao seu destino assim que o verdadeiro amanhecer quebrou no mundo em ardentes lanças douradas e vermelho brilhante. Esse destino era uma pousada profundamente dentro das árvores. Havia outras pousadas espalhadas pela floresta, mas todas suficientemente longe uma da outra para que a privacidade estivesse assegurada. Propriedade de muito ricos, essas pousadas eram casas de inverno destinadas à temporada de esqui. As pistas reais estavam a uma curta distância, o que significava que a floresta ao redor das cabanas era espessa, envolvendo as casas numa exuberante solidão verde. Acontece que o rico vampiro que possuía esta pousada fazia parte da rede de espiões de Jason. Venom perguntou uma vez ao espião-mestre de Raphael – um colega dos Sete – como podia ter certeza de que um vampiro que estava tanto tempo no território de Michaela agora poderia ser leal à Raphael. — Michaela tem seus momentos, — disse Venom, — Mas ela não é má na maior parte, e protege os inocentes em seu território. — Ela também esfola vampiros vivos e usa a pele deles para fazer bolsas, — Jason respondeu; suas asas se misturando com a noite enquanto estavam numa sacada da Torre numa noite sem lua. Encolhendo os ombros, Venom disse, — Além disso? Os olhos de Jason realmente brilharam com humor, a tatuagem tribal que cobria um lado do rosto numa incrível obra de curvas e pontos finos. — Michaela ordenou a morte de um vampiro que nosso aliado amava profundamente, — ele finalmente respondeu, o humor desaparecendo numa fria escuridão. — Não foi uma morte merecida – Michaela foi caprichosa ao dar a ordem e, apesar de ter se desculpado depois, seu remorso não poderia devolver a vida aos mortos. Nosso aliado e seu amante estavam juntos há cinco séculos e eram devotados um ao outro. Ele nunca perdoará Michaela pela perda, não importa quanto tempo ele viva. Tinha mais sentido que um mortal – ou mesmo um jovem imortal – poderia entender. O amor era um presente que vinha raramente em seu mundo, especialmente amor tão verdadeiro que durava séculos – isso estava além de um presente. Era um tesouro.


— Michaela não entende a profundidade de seu crime, — Jason acrescentou com o silêncio do espião, enquanto seus olhos rastreavam um anjo com asas azuispavão e verde esmeralda que voava com Elena ao redor do arranha-céu da Legião. — Ela nunca amou tanto, tão desesperadamente. — A paixão na voz de Jason não era uma coisa de fogo, mas de trovões, profunda e potente. — Ela acha que ele superou isso nos cem anos desde a morte. Ela não faz ideia de que ele se senta toda noite numa mesa preparada para dois e bebe sangue em completo silêncio enquanto olha para uma pintura de seu amor feita há três séculos por Aodhan. Os olhos de Venom foram para o perfil de Holly enquanto ela puxava o capuz e dava a ele um sorriso selvagem. E ele sabia. Ela nunca o aborreceria, nem através de séculos, séculos e séculos. E se ganhasse seu coração, a feroz selvageria dela seria infinitamente leal. Ele nunca teria que se preocupar que o rejeitasse. Ela o deixaria louco de forma regular, mas ele seria dela. — Nós conseguimos, — disse ela, mas não abriu caminho para os amplos degraus que levavam à varanda em frente à estrutura da quadra A. — Sente algum perigo? Venom balançou a cabeça, embora ela fosse a coisa mais perigosa em seu mundo. — É seguro entrar. Holly avançou, parando quando não a seguiu. — Venha, Cara de Víbora. — Riso em sua expressão, seu cabelo arco-íris enroscando em seu rosto onde escapou da trança. — Seus olhos são bonitos na luz do dia, fogo verde claro misturado com ouro. Ninguém, exceto Holly, já havia lidado com seus olhos. Estranho. Impressionante. Único. Sim. Mas nunca bonito. Não, até ela. — E você parece uma gatinha unicórnio que quer se enrolar e dormir. Mostrando a língua para ele, ela subiu os degraus e, depois de localizar a chave escondida exatamente onde disseram que estaria, entrou na casa. Ele correu atrás dela em silêncio mortal. Uma vez lá dentro, trancaram a porta e, apesar de precisar agarrá-la, ele disse a Holly que entrasse no chuveiro enquanto preparava algo para ela comer. Ela precisava de mais combustível. Seu corpo estava queimando o que consumiu muito rápido. Estava certo de que ela havia perdido peso durante a noite, suas maçãs do rosto muito afiadas contra sua pele.


— Esta pequena cabana de inverno tem pelo menos três chuveiros, — ela disse depois de uma breve exploração, os olhos arregalados sobre a ideia de tal luxo. — Você deveria usar uma também. Jesus, algumas pessoas são tão estupidamente ricas. Venom se perguntou quando ela perceberia que ele era rico. Isso o fez sorrir ao pensar no presente que pediu para ela – se o mataria quando o visse ou riria com deleite divertido. Porque Holly faria isso. Tomando banho rapidamente, vestiu jeans e camisa preta com mangas compridas que dobrou; roupas de vários tamanhos foram deixadas numa das suítes para aqueles que podiam entrar. Quando entrou na cozinha, encontrou-a abastecida como prometido. Se alguém da corte de Michaela desconfiasse de tanta comida na casa de um vampiro, seu anfitrião ausente tinha uma explicação pronta: era para as amantes humanas que mantinha por sangue e sexo. Nada incomum nisso. De acordo com Jason, as mulheres nunca souberam que eram literalmente apenas conveniências, bem como telas de fumaça. O vampiro as tratava com cortesia e generosidade pelo tempo que ficavam penduradas em seu braço e, quando era hora de se separar, ele se certificava que estavam em boa situação. — Ele as usa para se cobrir, — disse Jason, — Mas seu coração nunca pertencerá a mais ninguém. Acho que vive apenas para que possa se vingar de Michaela através de métodos que estão abertos a ele. Venom testemunhou esse tipo de amor ao longo do tempo, mas acreditava ser incapaz disso depois de ser Feito. Estava muito frio por dentro, as víboras e cobras que faziam parte de sua Feitura marcando-o muito mais profundamente que a maioria das pessoas percebia. Amizade profunda? Lealdade? Fidelidade? Isso podia fazer. Mas o tipo de amor que suavizava um homem e o tornava vulnerável? Amor tão íntimo que abria caminho na alma e se ancorava em milhões de ganchos minúsculos? Amor que não entendia limites, não colocava paredes, expunha sua garganta indefesa? Como podia uma víbora ser capaz disso? No entanto, Venom começava a acreditar que não era apenas capaz disso, foi construído para isso. Construído para amar com a mesma vontade implacável que impulsionou sua sobrevivência psíquica após o horror impensável de sua Feitura.


Tudo que precisava para despertar seu coração, para ativar essa mudança de devoção inflexível, era uma mulher inteligente, feroz e mortal que não merecia, e cujo fogo era tão brilhante que abraçava sua frieza sem piscar. Holly Chang. Sorrow. Gatinha. Hollyberry. Não importa como ele a chame, ela era a adversária mais perigosa que já enfrentou. Porque uma vez que ligasse o interruptor, sabia que nunca, jamais desligaria.


Holly saiu do calor glorioso do chuveiro para descobrir que Venom havia jogado roupas na cama do quarto de hóspedes que ela reivindicou. Um vestido branco solto de tirinhas e pequenos orifícios de ilhós no tecido alinhado. Não era o que ela escolheria, mas, para ser justa com Venom, provavelmente não havia muita escolha. Ela o vestiu... e teve que rir. Ela não havia visto a frente, já que estava sobre a cama com as costas para cima antes de puxá-lo sobre a cabeça. Essa frente tinha respingos de cor sobre ele. — Tudo bem, — ela sussurrou no espelho, — Você me paga. Não se incomodando com roupas íntimas, pois seu par de reposição estava empurrado em sua mochila, provavelmente ainda na sala, ela escovou seus cabelos úmidos até o couro cabeludo arder, e depois se saiu... diretamente para um perfume rico e salgado. Por baixo disso, havia um tom mais suave de açúcar, cardamomo e especiarias. Seu estômago resmungou. Ela correu para a cozinha. E parou de repente. Pés descobertos e um par de jeans desgastados abraçando sua bunda, a camisa preta que usava um pouco desgastada nas costuras e seus cabelos escuros caindo no rosto, Venom estava... Ela respirou fundo e, apoiando as costas contra o batente da porta, pressionou as coxas juntas. Apertadas. Quando ele olhou para cima, se viu presa na beleza letal de seus olhos, como se a tivesse hipnotizado. Holly agarrou o batente da porta, as mãos atrás das costas. Caso se aproximasse, poderia pular em cima dele, e vê-lo cozinhar era divertido demais para já acabar. — O que está fazendo? — Aqui. — O lindo homem que lhe deu a mais maravilhosa experiência de alimentação vampírica de sua vida colocou um prato no balcão. — Sente-se. Coma.


Quando Holly passou por um dos três bancos que se alinhava desse lado do balcão, viu que ele fez uma omelete com todo tipo de coisas. Cebola, presunto, pimentão verde, cogumelos. Seu estômago resmungou. Já havia comido metade disso antes de levantar os olhos e vê-lo olhando para ela, um sorriso brincando com as bordas de seus lábios. — Volte para sua cozinha, — ela ordenou. E ele riu. Deus, ele era lindo. Seu coração era todo perguntas, apesar do que sabia sobre a visão dele de relacionamentos. Porque Holly não pensava apenas num momento divertido na cama. Não com ele. Não com o único homem que sempre empurrou seus limites e que a desafiava diariamente. Não importa o que tivesse se convencido, nunca seria simples, nunca entre eles. Comendo a segunda metade de sua omelete com um pouco mais de graça, ela observou enquanto pegava uma tigela coberta do que provava ser massa. Depois de usar os dedos para lascar rapidamente a massa e moldar os pedaços em círculos pequenos e planos, ele começou a enrolar cada peça. Os tendões em seus antebraços se deslocavam a cada movimento, o marrom polido de sua pele esticada sobre músculo puro. De repente, ela entendeu a obsessão por programas de culinária na televisão. Porque se os chefs se parecessem assim... Os dedos dos pés enrolaram. Massa enrolada, Venom cortou cada círculo pela metade antes de ligar o wok12 que tinha no fogão. Levou apenas alguns segundos para derramar suficiente óleo para fritar. Ele já havia feito outra coisa num pequeno pote – o homem era rápido – e agora o deslocou ao lado da massa enrolada. Então as mãos dele se moviam tão rápidas para criar pequenos pastéis triangulares que quase não podia seguir o movimento; enquanto observava de olhos arregalados, entrou o recheio antes de selar a extremidade do pastel.

12


— Está fazendo samosas? — Ela sussurrou, mal se atrevendo a interromper a magia. Um aceno rápido antes de colocar as samosas preparadas no óleo quente. O chiado da massa frita encheu o ar, fazendo com que o estômago de Holly retumbasse novamente. O omelete mal tocou o buraco na barriga dela. — Por que estou com tanta fome o tempo todo? Venom lhe deu um olhar considerável. — Elena sempre está com muita fome. — Isso, pelo menos, faz sentido. Quero dizer, ela se transformou em anjo e cresceram asas. Provavelmente, existem todos os tipos de coisas dentro dela. — Holly atraiu o delicioso cheiro da criação de Venom. — Posso, por favor, ter um? — Espere um pouco mais. — Venom virou as samosas. — Keir, — ele disse, nomeando o curandeiro angélico mais velho, — Diz que Elena ainda está se transformando, ainda crescendo em sua nova pele. — Acha que isso está acontecendo comigo? — Os olhos de Holly se arregalaram quando ele levantou outra panela que ela não havia notado da parte de trás do fogão, e derramou um líquido leitoso e castanho claro numa pequena caneca para ela. Ela quase chorou quando ergueu o nariz e cheirou – para ser atingida pelo cheiro de cardamomo, chá e a mordida de outras especiarias que não conseguiu identificar. — Você fez masala chai13 para mim? — Era estúpido como sua garganta ficou toda grossa. Ele não podia saber o quanto amava essas coisas. Tanto que desistiu durante o tempo sombrio quando queria acabar com ela mesma, pensou que seria um monstro que não merecia nada de bom, nem mesmo uma xícara simples de seu amado chai. Venom disse: — Vi os pacotes de chá em sua casa em Nova Jersey antes de ser transferido de Nova York. — Uma onda desdenhosa de seu lábio. — O chai real é feito a partir do zero. Esta é a versão barata, até que eu tenha tempo de moer as especiarias certas para você. Mesmo sabendo que estava muito quente, Holly se atreveu a tomar um gole. A leve queimadura valeu a pena. O sabor doce e picante a atravessou como um

13 Masala chai é uma bebida do subcontinente indiano feita a partir da produção de chá com uma mistura de especiarias e ervas aromáticas indianas.


relâmpago. — Se esta é sua versão barata, provavelmente terei um orgasmo com a coisa real. Um olhar afiado, os olhos de Venom brilhando. — Beba seu chai e coma isso. — Ele colocou várias samosas num prato que já havia mergulhado em toalhas de papel, e então, assim que o excesso de óleo foi absorvido, transferiu os pastéis quentes para o prato. Holly se forçou a deixar de lado o delicioso e maravilhoso chai que ele fez para ela, porque sabia que ela gostava, e pegou uma samosa quente, usando as pontas dos polegares e dedos inferiores. — O que há dentro? — Perguntou num esforço para se fazer esperar a fim de não queimar a língua. — Batata e ervilhas, — disse Venom. — Opção mais rápida. Holly deu uma mordida e sabores explodiram em sua língua. Batatas e ervilhas? Hah! Ele misturou todos os tipos de especiarias que elevaram esses itens prosaicos a um novo nível. Ela basicamente devorou um inteiro antes de respirar. — Onde encontrou as especiarias? — Nosso anfitrião deve ter dito à sua empregada para abastecer completamente a cozinha. Havia um conjunto inteiro de especiarias sem abrir. — Ele colocou as samosas extras para escorrer. — O que quer para a sobremesa? Holly tinha a boca cheia mais uma vez com samosa – estava bem depois de tentar parecer de qualquer maneira elegante – e teve que esperar para responder. Após engolir a samosa com chai, ela perdeu um pouco da vergonha. — Tem certeza? Já fez tanto. — Tudo o que ela amava. E a víbora irritante esperava que mantivesse sua distância emocional? — Ver o quanto pode guardar é atualmente meu show de entretenimento favorito. — Ha ha. — Holly decidiu que o chutaria depois. Quando não estivesse cozinhando para ela. — Sabe como fazer rolo de canela? — Não. Descreva-os para mim. Depois que ela o fez – entre as mordidas de uma terceira samosa – ela encontrou seus olhos. — Você está... — O sangue engarrafado que tive deve me manter por um longo período, mas há mais garrafas dentro da geladeira. Nenhuma é aromatizada. Holly riu. — Você gostou dos sabores, admita.


— Pareço um bárbaro? — Ao ver que ela quase terminou seu chai, ele encheu sua caneca com um movimento fácil. Holly nunca se sentiu tão incrivelmente mimada. Isso suavizou coisas dentro dela que nem sequer percebeu que ainda eram duras. Saltando do banco, caminhou ao redor do balcão e abraçou Venom por trás, pressionando sua bochecha contra o calor musculoso de suas costas. Ele ficou imóvel de uma maneira que não era humana. — Holly. Ela não soltou, apesar do aviso em seu tom. — Sou teimosa, — ela sussurrou. — Especialmente quando se trata de pessoas que importam. — E ele importava. — Não consegue fazer mais a coisa de víbora solitária. — Como vai me impedir? — Um frio ronronado de som. — Realmente, acha que eu diria? — Um resmungo. — Isso é guerra. — Pressionando um beijo nas costas contra uma onda de carinho que a assustou pela força, ela recuou, mas apenas depois de correr as palmas das mãos por cada lado do peito dele. O desafio? Foi lançado. *** Venom lutou inúmeras batalhas, enfrentou inimigos e aliados perigosos, mas mesmo depois de seus pensamentos anteriores sobre o quanto ela podia ser letal, não estava preparado para isso. Para uma Holly que o abraçava, sorria para ele, e ficava ao lado dele, pedindo para ele ensiná-la a enrolar os rolos de canela. Esta mulher era... suave. Vulnerável. Sabia que era só o aqui e o agora, um momento em que se sentia segura, que Holly era perigosa, forte e lutadora, mas mesmo esse fragmento de vulnerabilidade o aterrorizava. — Não estamos namorando, gatinha, — ele disse com dureza. — Não sou o menino que ficará firme com você. Os olhos de Holly levantaram e a dor neles foi um golpe de ferro em seu interior. E ele sabia. Precisou uma enorme coragem para ela abaixar suas defesas e retrair os espinhos que usava como autoproteção, e acabava de mostrar a ela que foi um erro. Mais um empurrão – ou simplesmente silêncio – e quebraria sua confiança precária de que ele valia a pena a sua vulnerabilidade.


Essa foi a jogada correta, a jogada inteligente, o movimento que asseguraria que a maldita mudança dentro dele nunca vingasse. O futuro de Holly era um desconhecido escuro que poderia acabar num único dia de merda. Se permitisse entrar, o que ficaria depois que ela tivesse desaparecido? — Porra. — Agarrando o rosto dela nas mãos cobertas de farinha, ele pressionou sua testa contra a dela. — Estou quebrado por dentro, — ele disse, sua voz esfarrapada. — Funciono tão bem que mesmo meus amigos mais próximos pensam que estou saudável e inteiro, mas não estou. Suas mãos aproximaram-se dos pulsos. — E eu sou a criança do pôster de saúde mental, — ela disse num tom tão seco, que era pó. — Pare de tentar me afastar agindo como uma cobra. — Inclinando a cabeça, ela o beijou, e não era duro, não era exigente. Era um tipo de beijo luxuriante e feminino. Do tipo de uma Holly abaixo da raiva e da revolta e tudo que foi feito com ela. Ela gostava de cor e lindas pérolas, e de pintar suas botas com margaridas. — Mesmo se sobreviver a essa coisa monstruosa na torre de Michaela, não sobreviverá à imortalidade, — ele afirmou. — Não sendo tão suave por dentro. — Talvez não, — Holly disse com uma serenidade de olhos claros, — Mas serei eu até o dia em que morrer. Isso é bom o suficiente para mim. — Um aperto em seus pulsos. — A questão é, gosta de quem sou quando não estou atirando em você? Ele a mordeu. Para colocar para fora a frustração de tudo isso que ela estava pedindo a ele. Pela excitação que vinha com o cheiro dela. Pela emoção perversamente poderosa que esteve crescendo dentro dele durante anos e explodiu na sua frente apenas quando viu que ela estava se curando, tornando-se inteira novamente. Nunca teve a tentação de tomá-la enquanto estava tão gravemente ferida. Mas esta Holly? Ela não lutou contra suas presas afundando em sua garganta, não lutou pelo aperto de morte em seus cabelos, puxando a cabeça para trás para arquear seu pescoço tenso, não lutou com a mão que ele empurrou debaixo de seu vestido para segurar seu quadril. O sangue dela entrou na sua boca e foi direto ao pau. Ele não bebeu. Ele não a magoaria. Só precisava prová-la. O sangue dela pulsava com o ritmo acelerado de seu coração.


Venom se moveu sem vontade consciente. Movendo a mão para frente do corpo dela, para baixo... para descobrir que não estava usando calcinha. Passando seus dedos através de suas delicadas dobras, descobriu que estava molhada, muito molhada. Criatura selvagem e sensual. Ele encontrou o pequeno feixe nervoso escondido, pressionando ao mesmo tempo que a penetrava com um dedo. — Venom! Ele tirou as presas o suficiente para dizer: — Tushar. Diga. — Ele entrou e saiu dela numa exigente demanda. — Tushar. — Olhos verdes ácidos segurando os dele, suas pupilas enormemente dilatadas. — Tushar. Ele afundou suas presas nela novamente, e então a conduziu. Uma vez. Duas vezes. Até que seu corpo tremia e sua carne era líquida para ele. E ainda o segurava, essa mulher teimosa, mortal, complicada e suave que decidiu reivindicá-lo. Acariciando-a na borda, tirou as presas, lambeu a ferida para fechar. Mas não totalmente. Era forte o suficiente para fazer isso, mas não o fez. Deixou dois machucados que deixavam claro que a mordeu. E embora simplesmente mostrasse a ela que não era humano, que podia atacar sem aviso, ela sorriu para ele, seus olhos nebulosos dançando. — Tenho farinha no meu rosto... e outros lugares? — Sim. — Tirando as mãos de sua carne nua, a levantou e colocou-a numa parte não utilizada do balcão. — Está jogando um jogo perigoso. Jogando os braços ao redor do pescoço e as pernas ao redor de seus quadris como se ele não a avisasse apenas com a voz mais fria, ela disse: — Minha mãe vai adorar você. Seu coração saltou, lembranças de uma vida há muito tempo batendo tão forte que se afastou – ou tentou. Porque, mesmo com aquela raiva antiga, não conseguia machucá-la e então, não se afastou o máximo que deveria, e ela o segurou. — Quem era ela? — Uma pergunta mortal. A víbora em seu sangue levantou a cabeça em interesse pela lembrança do perigo venenoso que vivia sob sua superfície feminina. — Ninguém. Um olhar de olhos estreitos. — Solte isso. — Pegando seu abdômen com um dedo, ela acrescentou: — Não me deixe louca.


Ele podia levá-la pelo seu pior, mas se viu abrindo uma caixa de memória que selou há séculos. — Eu me comprometi a me casar antes da minha Feitura. — E seguiu em frente e conseguiu ser Feito? — Sobrancelhas se juntando num V escuro. — Isso parece um comportamento de idiota. — Teria sido – mas ela também seria Feita. Nosso casamento deveria ter lugar cinco anos após nossa Feitura, com a condição de ser avaliado como tendo conseguido controle total sobre nosso vampirismo. — Então o que aconteceu? — Fui mordido acidentalmente por uma das víboras de estimação de Neha um mês antes da minha Feitura. A reação do meu corpo foi ignorar a mordida – a única indicação de que eu fui mordido era uma leve dor no local da mordida. As pupilas de Holly dilataram-se com entendimento. — Isso atraiu a atenção de Neha, — disse ela. — Ninguém sabia por que eu tinha uma tolerância tão forte ao veneno de cobras – outros da minha família foram mordidos por serpentes muito menos venenosas ao longo dos anos e todos tiveram reação severa. — Venom também teve curiosidade, sem perceber se condenou a um pesadelo. — Neha me disse que não podia me desperdiçar, que eu continha dentro de mim algo que poderia tornar possível criar um vampiro diferente de qualquer outro. — Aquela cadela, — Holly cuspiu. — Machucou você para satisfazer sua própria arrogância! — Ela é uma rainha e um Arcanjo. — Venom nunca esperava que ela fosse humana. — O resultado final foi que minha noiva saiu uma vampira normal. Eu, não. — Ele e Aneera foram deliberadamente colocados em diferentes partes do país, para garantir que não violassem as regras. Não foi até quatro anos depois de ser Feito que eles se encontraram novamente. Os olhos de Venom mudaram apenas parcialmente até então, mas um olhar e Aneera saiu gritando, o mesmo horror em seu rosto que ele viu nos rostos de sua família quando começaram a vislumbrar a profundidade das mudanças nele. O medo era acre no suor dela, sua recusa em tocá-lo uma dor surpreendente, as proteções contra o mal que fizeram por trás dele eram como golpes brutais. Estava quase feliz quando uma de suas irmãs achou coragem para dizer que ele não era mais bem-vindo – pelo menos então, ninguém podia questionar sua


honra ao se afastar. Porque era tudo que restava. — A promessa de casamento foi considerada inválida desde que eu não era mais humano. — Bem, duh, você era um vampiro. — Holly brilhou as presas. — Ela ainda está viva, essa mulher que não conseguiu lidar com isso quando as coisas não foram exatamente como planejadas? Venom encolheu os ombros. — Não sei. Deixei o passado para trás há muito tempo. — Então, o que é toda essa bagagem que está carregando, hein? — Aumentando o aperto em seus quadris, Holly moveu suas mãos para seus cabelos. — Você a ama? — Mal a conheci. Era uma época diferente. — Uma época em que seus pais e os dela fizeram os arranjos e ele e Aneera concordaram com isso. — Com nós dois de origens familiares semelhantes, e todas as outras preocupações em alinhamento, foi considerado a combinação perfeita. Era tão estranho dizer isso, pensar em seus pais e no momento em que foi o obediente filho mais velho, que não viu nada de errado em se comprometer a casar com uma mulher que era estranha para ele. — Se eu for sincero, nunca entendi por que a reação dela me atingiu tão forte. — Como se tivesse sido chutado. — Eu sei porquê, — disse Holly, seus olhos vendo através dele. — Você se comprometeu com ela, e não é um homem que quebra seus compromissos. Você estava totalmente despreparado para a deserção dela. Uma pausa silenciosa antes que acrescentasse: — Especialmente como deve ter sido logo após a rejeição de sua família. É isso que dói, não é? Não a perda de uma estranha que não sabia o incrível presente que estava jogando fora. Aquela mulher era apenas uma maldita crosta de gelo num bolo de merda. Venom queria mordê-la novamente por deixá-lo nu, puni-la por fazer com que encarasse feridas que não pensava há muito tempo e agora percebia que ainda escorriam. Acima de tudo, queria afundar suas presas nela e segurá-la até que o maldito fantasma de um Arcanjo não pudesse roubar a vida dela. Afastando-se dela antes de ceder à sua natureza desumana mais uma vez, antes de se trair demais, foi lavar as mãos. — Vou terminar de fazer sua sobremesa.


Holly olhou para as costas de Venom quando ele começou a trabalhar novamente nos rolos. Sabia que forçá-lo não levaria a nada. Ele não era teimoso como ela, mas se mantinha. E o que quer que estivesse carregando ao redor de trezentos anos, não era algo que estava pronto para compartilhar. Justo. Ela pulou do balcão – e teve que fazer isso. — Preciso me limpar. Estou toda molhada e pegajosa. O corpo dele congelou completamente. Com os lábios curvados, ela saiu da cozinha, sentindo seu olhar nela a cada passo do caminho. Ele podia lutar com tudo o que tinha, mas Venom... Tushar. Diga! O coração dela parou. Ele disse a ela o seu nome verdadeiro. Ela não estava certa de que mais alguém soubesse ou se lembrasse disso. E ele dera isso a ela. Holly soltou um suspiro silencioso... e seu peito pulsou. Não. Simplesmente, não. Entrando no banheiro, ela se limpou. Venom realmente fez um trabalho estelar ao deixar a carne eroticamente molhada – então levantou o vestido para olhar o peito. A imagem dessas ameaçadoras asas serrilhadas era um contorno fraco que desaparecia completamente em direção às bordas. — Faça o que quiser, seu bastardo. E eu também farei. — As últimas palavras foram um voto. — Não pretendo ser uma presa fácil como a pobre Daisy. Quando voltou para a cozinha, foi para descobrir os deleites já cozidos e Venom desaparecido. Não foi difícil encontrá-lo. Estava parado na varanda dos fundos, olhando para a floresta enquanto o sol escovava as copas das árvores. Atravessando a grama, Holly abriu os braços e fez um pequeno giro, fazendo a saia de seu vestido voar. — Ok, isso é natureza suficiente, — disse ela depois, a


grama suave debaixo de seus pés descalços e o ar tão limpo que quase doía. — Quando voltamos para Nova York? O rosto de Venom estava inexpressivo quando disse: — Não voltamos. Nós esperamos. — Por Raphael? Um aceno rápido. O coração de Holly espremeu, a alegria desapareceu, e seus sonhos de um futuro, no qual seduzia Venom num relacionamento, virou cinzas. Tudo era uma fantasia, de qualquer maneira, uma ilusão que os dois criaram com a recusa deles em se referir ao julgamento por vir. Porque Holly sabia como isso terminaria desde o momento que viu aquela coisa carnuda, distorcida e monstruosa no berço. Era uma transportadora de parte de Uram. E agora o Arcanjo insano tentava o que, voltar à vida? A única maneira de Raphael se assegurar de que isso não aconteceria, assegurar absolutamente que um ser assassino poderoso e insano não mais perseguisse as ruas, era acabar com ela e o receptáculo no berço. — Não vou fugir, — ela sussurrou para Venom quando ele continuou observando-a. — Vi o que Uram fez. — O sofrimento era um hematoma profundo dentro dela, o qual nunca se curou completamente. — Assisti minhas amigas morrerem. Ouvi seus gritos. Faria qualquer coisa para garantir que ele nunca mais vá machucar alguém. *** Até mesmo morrer. As palavras tácitas pendiam no ar incrivelmente luminoso da manhã, seu voto inquebrável por tudo que era silencioso. — Não chegará a isso, — disse Venom, respondendo às palavras que ela não disse. — Não seja mentiroso, Cara de Víbora. — Palavras delicadas e tentadoras enquanto caminhava até os degraus em direção a ele, uma mulher pequena num vestido solto, pés descalços e uma cascata de cabelo tão brilhante quanto sua alma. — Não há outra maneira. Desta vez, quando ela o abraçou, ele a esmagou. E sabia que era muito tarde para tentar se distanciar. Ela já havia alcançado aquela parte do homem que foi.


Não somente isso, mas ela encantou a cobra, torceu a víbora ao redor do braço. E ligou o interruptor. Ele era dela. Permaneceram em silêncio por minutos incontáveis, até que Holly levantou a cabeça do peito. — Não quero que meus rolos queimem, — ela disse com um sorriso que não podia esconder a tristeza em seu interior. Ele a seguiu para dentro, observou-a tirar os doces do forno e colocá-los numa bandeja no balcão para esfriar antes de pegar a pequena jarra que ele preparou. Regou com glacê, usando a ponta do dedo para tocar um dos doces e sibilou uma respiração. — Está tão quente, mas ainda quero lambuzar meu rosto. Chupando seu dedo queimado, lhe lançou um olhar que pedia para rir com ela. Venom não tinha gargalhadas dentro dele. Apenas raiva, dor e necessidade. Tirando o dedo da boca dela, ele beijou seu veneno e a doçura de açúcar com uma ganância que deveria ser aterrorizante. Mas era Holly. Que achava seus olhos bonitos e queria apresentá-lo à mãe dela. Bocas fundidas e corpos em sincronia apaixonada, acabaram no quarto que ela reivindicou. Puxando seu vestido acima de sua cabeça e jogando-o de lado, apalpou os seios. Quando inclinou a cabeça para acariciá-los com a boca, ela puxou seu cabelo como se quisesse outro beijo. Ele resistiu, apertando o outro peito para marcar seu ponto. Um tremor a atravessou. Satisfação uma curva em seus lábios, seu prazer acalmando a corrida da necessidade dele, e começou a trabalhar. Ela pulou pelo raspão de suas presas, gemeu quando as afundou sem tomar sangue. Ela era sensível lá, não apenas para tocar, mas para o beijo de suas presas. Ele tirou o máximo proveito desse conhecimento para provocá-la e atormentá-la. Primeiro, deixou o sabor afundar no seu interior antes de lamber a ferida. Era pequena, uma coisa completamente sexual, que não tinha nada a ver com beber sangue para sobreviver. Então, passou a língua sobre o mamilo antes de fechar os dentes deliberadamente sobre ele e puxar. Estremecendo, ela passou as mãos nas costas dele, raspando através da camisa. Quando ela puxou com impaciência, ele conseguiu desabotoar a camisa


sem tirar a atenção de sua adoração aos seios dela. Voltando, ele se glorificou pela sensação das unhas dela afundando em sua carne enquanto ele mordia, lambia e beijava. Só quando o coração dela era um tamborilar rápido e parecia não poder respirar, ele moveu os lábios para a linha central do peito e beijou o caminho de volta até a boca, segurando o calor de seu corpo perto dele. Pequena, mas forte, era Holly. O beijo dela era uma demanda e uma marca. Holly decidiu sobre ele e ele sabia, não importava o que acontecesse, era para ele. Ele seria como o contato vampiro de Jason, aquele homem que ainda amava seu companheiro perdido tantos anos depois do assassinato. Algumas coisas um homem sabia. Rompendo o beijo, abriu caminho até a garganta, beliscando a carótida enquanto o fazia. Ela estremeceu, mas não tentou detê-lo. Ele era letal, perigoso, poderia arrancar a garganta dela, mas não era isso que eram um para o outro. Ao levantá-la em seus braços, a jogou na cama. Ela riu, seus cabelos uma gloriosa mancha de cor no linho branco, e seus olhos tão cheios de pura felicidade que parou sua respiração. — Tushar, — disse ela, usando um nome que ninguém falava há séculos, o nome que disse a todos que pertencia a um homem morto. Descobriu que mentiu. — Deus, — ela disse de repente, — Imagine se a antiga Holly pudesse me ver agora. Nua e prestes a ser desviada por você. A pobrezinha ficaria chocada, realmente chocada. Rindo de sua referência ao começo antagônico que eles tiveram, as lembranças que guardava ferozmente contra o tempo e idade, ele subiu na cama e começou a se abaixar pelo corpo dela, ignorando todas as suas tentativas de acelerá-lo. Venom não tinha intenção de se apressar, sua paciência era uma coisa sinuosa e cobiçada, focada em marcá-la como dele. Ela se contorceu na cama, seu almíscar fazendo as fendas da narina acender. Agachou-se sobre ela, a cabeça perto do umbigo e as mãos nos quadris para mantê-la quieta, ele abriu os cílios... Para vê-la olhando para baixo, a respiração


vindo em breves suspiros desesperados. — Você, — ela disse com uma aspirada de ar, — É uma ameaça. Ele sentiu seus lábios se curvarem. Foi há uma era, ou nunca, desde que brincou assim com uma amante. Talvez nunca tenha feito. Antes de ser Feito, teve apenas três amantes, todas comerciantes passando, que não queriam nada além de uma facilidade física. Como as três mulheres estavam em rotas estabelecidas, tinha o prazer de seus corpos em sua cama várias vezes. Não eram estranhos que se encontravam apenas por uma única noite e nunca mais – mas tampouco queriam um ao outro para qualquer coisa, exceto o esporte de cama. Após sua Feitura... Um homem não podia ser livre, não podia amar, quando sabia que suas amantes viam apenas uma parte dele. Vampiros, anjos, mortais, as mulheres vislumbravam seus olhos, pensavam que entendiam, mas ninguém o fazia, na verdade, não. Não até Holly. Venom não necessitava esconder nada dela. Não suas necessidades. Não seus movimentos. Não a frieza desumana que era parte integrante dele, assim como seus olhos. E não o núcleo humano com suas cicatrizes, suas memórias e sua devoção. Para Holly, ele era tudo isso e muito mais. Ele era Venom. Ele era Tushar. Percorrendo o corpo dela, ele disse: — Se eu for a ameaça, então você deve ser o problema. Extasiada, ela afundou as presas em sua garganta de forma brincalhona. — Gatinha, eu realmente não sei como bebe através dessas pequenas coisinhas. Tem certeza que não são apenas para mostrar? Ela afundou as presas mais fundo na punção. Rindo, ele virou para que ela ficasse por cima. Ela beijou as feridas fechadas, desviou-se para devorar a boca, antes de deslizar o corpo para atacar o botão superior do jeans e abrir o zíper. Ela o desnudou em questão de segundos, sua amante impaciente e ardente. Holly nunca o trataria como igual. Ambos sabiam que ele era mais forte, mais rápido, mas isso era simplesmente uma consequência do tempo. Tudo que ele tinha a fazer era ficar com ela enquanto crescia em sua própria força. Mas... era um


presente que ainda poderia ser roubado, o futuro deles partido em pedaços sangrentos. Aqui não. Não nesta cama. Esta vez era dele; não permitiria que nada a destruísse. Erguendo-se com aquele voto silencioso, apalpou os seios novamente antes de deslizar as mãos para a curva de sua cintura e trazê-la sobre sua ereção. — Venha então, minha Holly selvagem, — ele murmurou. — Me cavalgue. Dentes afundando em seu lábio, ela se levantou, então lentamente, capturou o duro cume de sua ereção dentro dela. Um estremecimento o balançou. Ele a observou se mover com graça erótica, uma fina camada de músculo subjacente à sua pele e seu prazer nele, e não teve chance. Nenhuma mesmo. — Tushar. Isso foi tudo que precisou. O nome dele. Seu nome verdadeiro de muito tempo nos lábios dela, e as costas se curvando quando ele perdeu o controle pela primeira vez em centenas de anos.


Venom e Holly passaram os próximos três dias num casulo de privacidade que os distanciou do mundo e de todos os seus horrores. Eles se amaram, brincaram, e ele cozinhou para ela todas as coisas que queria comer. Quando ela precisava falar com a família, se sentava com ela, abraçando-a e emprestando-lhe força para que pudesse rir com eles sem trair a batalha no horizonte, a luta pela sua própria sobrevivência. — Se eu morrer, — ela disse a ele, — Se a única maneira de conter Uram for acabar comigo, então quero que diga à minha família que morri num acidente. Um acidente simples, que queimou meu corpo em cinzas, um acidente que nunca vi chegar. — A mão dela em seus cabelos, seu olhar dizia que sabia exatamente o que custaria para ele manter essa promessa. — Quero que eles acreditem que eu parti sorrindo. Em busca do seu objetivo, ela disse à família dela que veio à Europa com Venom numa pequena viagem furtiva. Romântica e divertida. Deixou de lado o perigo, o horror e o sangue. E quando terminou, guardou o telefone e se curvou nele, e não falaram do que estava por vir. Venom passou horas na cama com ela, apenas segurando-a enquanto ela o segurava por sua vez. — Eu tinha seis irmãos e três irmãs, — ele disse a ela na terceira noite, os lençóis emaranhados em torno de suas pernas e seus corpos alinhados, respirações se beijando. — Você era o mais velho, não era? Venom assentiu. — Meus irmãos mais novos ainda eram crianças quando decidi me tornar um vampiro. — Era difícil mesmo agora olhar para trás, para o que fora uma vez, a família barulhenta e risonha que já havia existido. — Sabe, meu pai, era um bom homem, mas não era o melhor empresário e não podia negar


nada à minha mãe. Não sedas compradas diretamente dos melhores comerciantes, ou joias que chamavam a atenção, nem as especiarias mais picantes. Franzindo a boca e enrugando a testa, Holly fez a pergunta que ele sabia, porque, para Holly, o amor não procurava isolar até a cegueira. O amor era olhos abertos e uma honestidade crua que não permitia barreiras. — Sua mãe não se perguntava de onde vinha tudo? — Estava convencida de que éramos ricos, mas quando meu pai morreu, descobrimos que nossa pousada estava muito endividada. — Venom sentiu a reverberação desse golpe ao longo do tempo. — Os credores que até então ele conseguiu acalmar, nesse ponto exigiram uma venda imediata. — Você adorava aquele lugar. — Trabalhei na cozinha desde os dez anos. Era minha casa. — Ao fechar a mão sobre a dela onde a colocou sobre o coração, ele respirou fundo com uma dolorosa lembrança. — Não que isso importasse – nesse ponto, as dívidas eram tão substanciais que uma venda nos deixaria sem abrigo. Lágrimas molhavam as bochechas das irmãs. Choque no rosto branco daqueles irmãos que eram suficientemente velhos para compreender a terrível realidade. Os lamentos de sua mãe ferida. — Como filho mais velho, precisava fazer a escolha, e a única escolha que eu poderia fazer para salvá-los era me tornar um vampiro. — Se lembrou dele sentado sozinho na cozinha da pousada, as contas abertas na frente dele e seu coração frio com a percepção. — Como? — Holly franziu a testa. — Os vampiros não recebem um pagamento até o século do serviço. — Neha era um rosto familiar na pousada. — Um arcanjo que gostava da cozinha de Venom, e cujo patrocínio deu àquela hospedaria, que se fosse bem administrada, nunca acabaria em tais dificuldades financeiras. — Falei com ela sobre nossa situação após a morte do meu pai. — Espere. — Os olhos de Holly estavam arregalados. — Simplesmente apareceu para falar com uma Arcanjo enquanto ainda era mortal? Engraçado, não me parece demente.


Seus lábios caíram. — A primeira vez que ela pediu para falar com o chef depois de passar na estalagem porque ouviu coisas boas a respeito a partir de seus esquadrões, eu acabava de fazer dezessete anos, e tenho certeza que meus ossos bateram uns contra os outros. — Nunca na sua vida esteve perto de alguém que queimava com um poder tão violento. — Mas quando ela continuou passando... Bem, um chef tem sua própria arrogância – e que menino de dezessete anos não ficaria vaidoso pelo prazer aberto de uma Arcanjo por suas criações? Rindo de uma maneira afetuosa que lhe disse que via o menino que foi, Holly disse: — Então, quando seu pai morreu, estava acostumado a conversar com ela? Venom assentiu. — Ela estava, eu acho, sinceramente sentida pelo meu sofrimento – eu me tornei uma pessoa para ela, não apenas outro mortal que existia, então morreria num segundo imortal. — Ele não estava tão certo de que ela estivesse realmente ciente de qualquer outra pessoa em sua família. — Quando contei nossa situação, ela reiterou o convite para me tornar um vampiro – e me ofereceu adiantar três quartos do meu pagamento pós-contrato. Era mais que suficiente para cobrir as dívidas e manter a pousada. A Rainha dos Venenos também autorizou a Feitura da mulher a quem ele foi prometido, o jogo organizado pelo pai de Venom apenas duas semanas antes de sua morte. E essa escolha, para se tornar vampiro ou não, era apenas de Aneera. Ninguém a julgaria por romper o noivado, não nessas circunstâncias, mas ela tinha fome da quase imortalidade, ficou em êxtase com a chance. — Diga o que quiser sobre Neha, — murmurou Venom, pensando na horrível tortura de sua Feitura real, — Mas ela não é gentil. Não é humana em nenhum sentido, mas não é má, também. — E depois que se vendeu em servidão pela sua família, — Holly terminou, — Eles viraram as costas para você? — Era uma acusação cortante. Balançando a cabeça, Venom passou os dedos pelos cabelos. — Não eram pessoas sofisticadas, Holly. Não sabiam que algo como eu poderia existir. — Uma merda. — O tom de Holly não deixava dúvidas. — Meus pais não sabiam. Minha irmã também não. Nem meus irmãos. E ainda assim você testemunhou como me trataram. O que sua família fez com você foi uma coisa horrível, desagradável, e você tem permissão para se irritar. Venom ficou imóvel.


Durante todo esse tempo, todos esses séculos, ele não admitiu que não era apenas sofrimento que carregava em seu interior, mas uma raiva primitiva das pessoas em quem poderia ter confiado sem restrições e que o abandonaram em sua hora mais sombria. Soltando uma respiração forte, agarrou o quadril de Holly e disse: — Sim, estou com raiva. Sempre estive com raiva. — Foi um calor abrasador dentro dele. — Os jovens, não os culpo. Mohan tinha apenas cinco anos. Mais tarde, quando era um homem velho, ele se aproximou. Queria ver seu bhai, me apresentar aos seus descendentes. Mas não pude ir. Venom apertou a mão nos cabelos de Holly enquanto as memórias passavam por ele. — Já tinha visto muitos deles morrendo até então. Fiquei na sombra ao longo das décadas e assisti suas piras ardendo uma a uma, até que minha mãe e nove dos meus irmãos e irmãs se foram, e eu era o único que restava. Lágrimas queimavam seus olhos, lágrimas que nunca deixou cair. Holly ergueu a cabeça suavemente até o ombro dele, sem dizer nada, apenas segurando-o. E então, o homem com coração de víbora, o homem que o mundo pensava ser tão frio quanto as cobras que marcavam seus olhos, chorou lágrimas muito humanas. *** Raphael entrou em contato duas horas depois. *** Na hora cinzenta antes do amanhecer do dia seguinte, Venom viu Raphael alto no céu acima da fortaleza de Michaela, precisamente no momento que o Sire disse à Venom para esperá-lo. Venom e Holly estavam escondidos na floresta, fora da vista dos sentinelas, prontos para se mover no instante que Raphael desse a ordem. Venom. A única palavra cantava com um poder tão imenso e perigoso que mesmo a maioria dos imortais não podia suportar.


Para Venom, representava uma lealdade que ele escolheu e que nunca o manteria encadeado. Sire, ele respondeu, nós estamos prontos. Michaela apareceu acima de sua fortaleza naquele momento, voando para encontrar Raphael em suas asas do melhor bronze. A voz de Raphael na cabeça de Venom novamente. Chegue à localização. Estamos a caminho. Virando para Holly, ele assentiu, e ambos começaram a se mexer. Os dois já sabiam que teriam que entrar por conta própria; Raphael tinha certeza absoluta que Michaela, em nenhuma circunstância, permitiria alguém naquela torre. Independentemente disso, Venom tinha toda a confiança que o Sire entraria. Quanto a ele e Holly... — Se lembra de como nós praticamos, gatinha? Ela piscou para ele, essa mulher selvagem e forte que provavelmente estava correndo para sua morte. Quando chegaram ao primeiro guarda, ela pegou o olhar do vampiro como uma campeã, hipnotizando-o em questão de segundos. Venom pegou o próximo – muito mais velho. Então ficou difícil. Já não tinham cobertura ou a escuridão das árvores, e os esquadrões angélicos começaram a se aproximar com Raphael e sua Senhora no ar. Esses esquadrões não podiam fazer nada se chegasse a uma batalha entre os Arcanjos, mas a lealdade deles com Michaela permitiria nada menos que a máxima vigilância. Por isso, tinham o respeito de Venom. — Venom, isso quer que eu... — detendo suas palavras, Holly deslizou seu braço em volta da cintura dele, mordiscando seu lábio inferior... E deixaram de existir. Ele assobiou silenciosamente. — Esse é um bom truque, Hollyberry. — É a proximidade com o que há naquela torre – está mais forte. — Um fio de suor escorria pela sua têmpora, seus olhos brilhavam com um verde ácido tão vibrante que a levaria a se destacar como um gato no meio da noite, caso alguém, de outra forma, conseguisse vê-los. *** Holly sentiu um pouco de dor por ter ouvido aquele sussurro louco.


Não que houvesse um ponto em fazer o contrário. O eco de Uram se espalhou furtivamente por cada parte dela durante a corrida até aqui, agora parecia fundido em suas células. Holly poderia ter chorado pela perda de si mesma, mas não havia tempo para lágrimas, para tristeza. Se isso acontecesse como previsto, teria ido embora antes que tivesse chance de lutar por quem ela já foi. Era uma boa escolha, ela disse ao seu coração gritando; partiria destruindo um mal que não deveria existir. — Isso, — ela sussurrou através de seu foco, — Que estamos fazendo. É importante. — Sim, — disse o homem fascinante, bonito e irritante com quem queria explorar a eternidade. — Pode ser a coisa mais importante que qualquer um já fez. Holly assentiu. Precisava ouvir isso, precisava saber que a dor que causaria seria por algum motivo. Mia, Wes, Alvin... Holly não conseguia pensar em seus irmãos e irmãs sem que a emoção a dominasse numa onda esmagadora. E quando se tratava de Venom, simplesmente não podia pensar nisso, parava completamente. Ela fez uma coisa terrível. O tirou do casulo auto protetor em que ele existiu por trezentos e cinquenta anos apenas para mostrar a ele que deveria ter ficado bem dentro dele. A mulher depois dela teria um grande trabalho para conseguir retirar a carapaça que cresceria ao redor dele novamente. Porque o segredo sujo de Venom era que amava demais, forte demais. — Prometa-me, — ela sussurrou. — O que? — Que amará novamente. Uma quietude mortal em seus músculos. — Concentre-se no glamour, gatinha. Holly ia responder quando um grande esquadrão angélico voou diretamente sobre suas cabeças. Ela congelou mesmo sem querer, apenas para prosseguir quando não deram mais que uma olhada na direção deles. Os elegantes gatos abissínios, no entanto, rondaram e sibilaram de longe, mas esses gatos estavam muito abaixo dos esquadrões para que os anjos ouvissem e desconfiassem. Seu braço começou a tremer em torno de Venom enquanto entravam na fortaleza pela entrada aberta, o corpo tenso o suficiente para partir, mas os guardas de rosto rígido de ambos os lados estavam cegos para a passagem deles.


Seu próprio braço circulou a cintura dela, forte, quente e inabalável. Firme, garota. Apertando os dentes ao comando aristocrático, Holly lutou para não vomitar. Qualquer que fosse a parte de Uram que vivia nela, crescia cada vez mais forte, tornando-se cada vez mais uma personalidade separada. A subida das escadas até o mezanino foi um exercício de confiança. Ela e Venom passaram a poucos centímetros de uma vampira alta tão poderosa que fez os cabelos na nuca de Holly se levantar. A mulher loira bem construída franziu a testa, parou e olhou em volta, a mão no punho da espada... antes de finalmente balançar a cabeça e continuar descendo as escadas. Holly estava ciente de Venom silencioso ao lado dela, mesmo quando ele estendeu a mão para fechá-la sobre o punho de uma das duas lâminas que usava nas costas. Agora ele relaxou sua posição e continuaram sem derramamento de sangue. Somente para entrar no mezanino e encontrar um anjo de pé bem na frente da porta da torre. O anjo, asas brancas com cinza, não olhava para eles, não podia vê-los. Mas Holly podia sentir o pulso de seu poder encharcando-a até mesmo a meio caminho do chão. Venom falou diretamente contra sua orelha. — Ele é meu. Removendo o braço com cuidado requintado, uma vez que estavam a um pé de distância do anjo repentinamente alerta, Holly bateu nas costas de Venom uma vez, para que ele soubesse que estava prestes a deixar cair o glamour... e então, ela o fez. A mão do anjo se moveu com velocidade de predador até o punho de sua espada, seu corpo reagindo mesmo antes de sua mente entender o que ele via. Venom, no entanto, já o hipnotizava. Não foi, Holly rapidamente percebeu, de qualquer forma, uma captura fácil. O oponente de Venom era forte – e lutava contra a compulsão. Estava lá na linha rígida de sua mandíbula, a fúria fechada de seus músculos. Uma veia pulsava na têmpora de Venom. Ela podia dizer que estava usando cada grama de seu poder para forçar o anjo a se afastar do degrau da porta por um único e incrível passo. Lá. Apenas um espaço para chegar à porta. Partindo a fechadura com um pulso de energia, Holly entrou. Venom deslizou como uma víbora, rapidamente atrás dela; fechando a porta, ele segurou a


fechadura quebrada na posição. — Consegui nublar a mente do guarda, — ele murmurou para ela. — Não deve se lembrar de nós, mas era muito forte para enganar totalmente. Ele sentirá... A maçaneta da porta foi testada logo depois do outro lado. Venom assegurouse que se movesse apenas tanto quanto se a fechadura a segurasse. O anjo parou, como se satisfeito, a fechadura como deveria estar. Mas Venom não se afastou, apesar da urgência de sua tarefa. Três dolorosamente lentos minutos depois, a maçaneta da porta foi testada novamente. Só depois que o teste acabou que Venom soltou a maçaneta e acenou com a cabeça para continuar. Holly teve que lutar todo o tempo contra a compulsão de correr até que o guarda ficasse satisfeito. De jeito nenhum deixaria Venom sozinho para enfrentar um anjo que devia ter um bom par de mil anos, pelo menos, e poderoso por isso. Mas o desafio tomou tudo que tinha. A outra coisa nela se precipitou gelada por suas veias, e ela subiu os degraus como se fosse feita de ácido vivo. Mesmo Venom, rápido como era, não conseguia acompanhá-la. Ela quebrou o cadeado tolo e estava na sala da torre quase antes de estar ciente de dar o primeiro passo. O hospedeiro dentro do berço brilhava no ritmo da batida de seu coração e isso era como deveria ser. Era parte dele. E ele era um Arcanjo. Ele era Uram.


Venom nunca viu nada se mover como Holly acabava de se mover. Foi impossível seguir com os olhos – e tinha melhores sentidos de rastreamento que a maioria dos seres no planeta. Estava sem fôlego quando a alcançou. Horror o atingiu como um punho de concreto. Ela olhava para o berço; atrás dela brilhantes asas verde ácido, abertas. Asas dentadas feitas de ilusão e poder chegavam ao chão, de tamanho angélico. E estavam erguidas com o controle de um guerreiro. A cabeça dela virou para ele naquele instante. — Você, — ela disse, e sua voz não era dela. Era mais profunda, masculina, o tom arrogante da idade e poder. — Abra o telhado. Abrir o telhado? Venom ergueu os olhos e viu o que não havia visto durante a primeira incursão. O teto inteiro se juntava como um quebra-cabeça, com fechaduras projetadas para cair no lugar. Agora, a escada estreita fazia sentido. Michaela nunca subiu pelas escadas. Olhando ao redor, rapidamente descobriu o controle – era fácil de ver quando sabia que deveria estar presente numa posição que Michaela pudesse acessar facilmente uma vez que entrasse. Antes, o descartou como apenas outro interruptor de luz. Michaela devia ter um controle remoto para abri-lo do lado de fora. Ele olhou para Holly quando alcançou o interruptor e, apesar de irritá-lo vêla engolida por um ser louco que deveria estar morto há muito tempo, continuou o jogo. Para melhor ou pior, isso terminaria aqui hoje. Era o que Holly queria, e Venom faria qualquer coisa por Holly, essa criatura estranha, selvagem e bela que entrou em sua vida e o ensinou que era certo ser estranho e diferente. Para que pudesse ser amado não apesar de tudo, mas simplesmente porque você era você.


— Devo fazê-lo de uma vez, Arcanjo? — Ele fez seu tom respeitoso, como deveria ser ao dirigir-se ao homem que servia. Uram não era seu Senhor, nunca teve essa posição de respeito e honra em seu coração, mas falava com um louco. E essa loucura lhe deu um sorriso satisfeito e uma inclinação da cabeça. Venom pressionou o botão, virando o rosto para o céu. Vislumbrou Raphael e Michaela ao mesmo tempo em que perceberam que o telhado se abria como uma enorme flor de metal, as pétalas lentamente subindo e afastando-se do ponto central. Os dois arcanjos estavam quase diretamente acima, embora logo se aproximaram. Michaela desceu primeiro, abrindo suas asas deslumbrantes para controlar sua rápida descida; seu cabelo voando numa queda de mogno e beijo de ouro atrás dela. Era requintadamente bonita e brilhantemente poderosa e não fez Venom sentir nada. Esta mesma Arcanjo uma vez o jogou tão violentamente contra uma parede que quebrou sua coluna vertebral, fraturou seu crânio e uma das costelas furou seu pulmão. Mas essa não era a razão pela qual não estava atraído por ela. Desde o momento que a conheceu, sabia que havia algo de errado com Michaela. Faltava uma peça vital. Seus olhos foram para o Sire dele. Raphael estava descendo bem atrás de Michaela, claramente percebendo que o telhado não era grande o suficiente para permitir que os dois entrassem ao mesmo tempo. Suas asas eram de ouro branco e poderosas, a marca da Legião em sua têmpora direita, um violento azul aceso com fogo branco incandescente contra a sombra da meia-noite de seus cabelos. Quando Venom olhou para Holly, viu que seus olhos também se voltaram para o céu. O sorriso no rosto dela era uma mistura de orgulho, amor e raiva. Sobreposto a tudo, estava a arrogância não adulterada. Venom nunca testemunhou essa falha em Holly. Se fosse o caso, não era tão consciente de sua força e habilidades como deveria ser. E essa profundidade de arrogância? Levava eras de supremacia incontestada para se desenvolver. Uma rajada de vento golpeou seu rosto quando Michaela pousou, fechando as asas atrás dela. Ela viu Venom, mas o ignorou em favor de enfrentar Holly sobre a rede de poder que protegia o berço, uma rede de bronze que oscilou a vida antes


de Venom entrar na sala. Os olhos da Arcanjo se ampliaram, seus lábios se separando, mas Raphael desembarcou antes que ela pudesse falar. A pequena sala cantarolava com tanto poder que os ossos de Venom doíam. — Meu amor. — A boca de Holly, mas não a voz dela, o brilho ácido de seus olhos fixos em Michaela. — Você me traiu. O cabelo de Michaela soprou de volta num vento que não afetou ninguém na sala. — Você não é ele. — Era uma declaração simples... mas uma nota escondida e estranhamente frágil cantava embaixo. Necessidade? Querer? Era possível que a Arcanjo de Budapeste amasse verdadeiramente o Arcanjo que assumiu o corpo de Holly? O mesmo homem cujo território ela reivindicou uma grande parte depois da morte dele? Holly respondeu num idioma que Venom não reconheceu. Michaela claramente o fez, sua expressão fria se desintegrando num choque tão desesperadamente nu que só poderia ser real. Sire. Venom alcançou Raphael com a mente. Não interceda, Venom, Raphael ordenou, o azul prístino de seu olhar focado no quadro perturbador sendo jogado na frente deles. Devemos entender o que é para saber como acabar com isso. Venom não podia ver nada que um ser racional jamais entendesse, mas confiava em Raphael com sua vida há séculos. Agora, confiava no Sire com a vida de Holly. Ela preferia morrer que viver como fantoche de Uram, disse ele. Se essa for a única escolha, devemos acabar com ela. As palavras eram como pedaços de vidro na garganta dele. Prometi à sua Holly, Venom. Não vou esquecer. Porque este era Rafael, um arcanjo forjado em honra e temperado por um amor que empurrava o gelo da imortalidade, Venom manteve seu silêncio. E obrigou-se a ouvir as palavras de um arcanjo morto e insano vindo da boca da mulher a quem Venom entregou seu coração com todo o conhecimento de que ela logo o quebraria. ***


Raphael matou Uram acima dos arranha-céus arruinados de Manhattan, derrubados durante a batalha, os destroços quebrando para se espalhar nas ruas abaixo. Sabia que o Arcanjo estava morto. Mas o homem que Raphael já chamou de amigo também tinha seis mil anos e passou mais da metade desses anos como Arcanjo. Um membro do Cadre poderia voltar a viver mesmo depois de ser partido num milhão de pequenos pedaços, mas apenas se não tivesse sido morto por fogo de anjo utilizado por outro arcanjo. O fogo de anjo de Raphael obliterou Uram. Seu coração. Sua mente. Seu corpo. Seja quem fosse habitando o corpo de Holly Chang, não era Uram. Mas, como ele disse a Venom, precisavam observar primeiro. Mesmo enquanto pensava, sabia o que estava pedindo a este membro dos Sete. Em todos os anos que conheceu Venom, nunca viu o outro olhar para ninguém como olhava para aquela pequena mulher que Raphael conheceu pela primeira vez como uma vítima brutalizada. Era da mesma maneira que Raphael olhava para Elena. — Está certa? — Perguntou a voz de Uram na boca de Holly. — Você me sente. — Ela virou o olhar para o berço. — Você manteve uma parte minha segura até eu conseguir recuperá-la. Michaela sacudiu a cabeça, suas asas se abrindo e começando a brilhar. — Você está morto. — Então, por que você mantém essa parte minha? — Foi um sussurro sinuoso, Holly dirigindo seus dedos pela rede elétrica sem ser afetada por ela. — Por que a protege? O dom curativo de Raphael confirmou que Michaela não estava grávida no momento que tentou enganá-lo de que estava, mas parecia que sim... Nascendo a coisa no berço em algum momento depois. Então, ou seu dom não reconheceu o que Venom chamava de coisa como vida, ou Michaela já estava jogando na época e a semente que Uram deixou escondida nela começou a crescer muito mais tarde, alimentada pelo poder crescente da Cascata. — Você está morto! — Com esse grito abalado, Michaela levantou uma mão com energia mortal. Antes que pudesse liberá-la, no entanto, Holly falou novamente numa linguagem que Raphael não reconheceu imediatamente. Era


velha. Muito velha. E usada apenas numa pequena área da Europa há mais de mil anos. Raphael não passou tempo suficiente para aprender bem, mas pegou apenas o suficiente durante sua amizade com Uram para traduzir as palavras. — Dançamos acima de Szeged pela primeira vez. O fogo de Michaela morreu. Tremendo, ela olhou para Holly. — Uram? — O sussurro guardava tantas esperanças que era um som desejoso. Raphael estava quase certo que foram os sussurros venenosos de Michaela que encorajaram ou empurraram Uram para tomar a decisão que o levou à sua loucura. Mas naquele momento, também estava certo que parte de Michaela adorou o Arcanjo caído com quem esteve durante cinco décadas. Uram disse uma palavra que Raphael não pode traduzir, mas o tom carinhoso era inconfundível. Michaela apenas olhou fixamente, seu peito tremendo. — Uram? — Ela sussurrou novamente. — Você voltou para mim de verdade? Seus olhos foram para o berço e seu habitante monstruoso que ainda não se registrava como vivo para os sentidos curandeiros de Raphael. — Pensei que isso era tudo que eu teria de você. Esperava que crescesse sob a influência da Cascata, se tornasse você mesmo com o tempo. — Estava certa em esperar, — disse o hospedeiro de Holly. — É hora de eu ficar inteiro. — Dedos magros atravessaram a rede elétrica mais uma vez. — Desfaça isso, meu doce. Engolindo em seco, Michaela levantou a mão. *** Holly sentiu como se estivesse lutando com melaço. Sua mente estava pesada e lenta. Seus membros mais pesados e impossíveis de se mover. Mas ela lutou. Se morresse, não seria porque desistiu. Este era seu corpo, sua mente. E seu maldito coração! Esse que coração amava seus irmãos, sua mãe e seu pai... Venom. O coração que já amou cinco garotas que um monstro torturou e assassinou. Shelley.


Cara. Maxie. Rania. Ping. O bastardo que os matou não merecia uma segunda vida, uma segunda chance, mesmo que de alguma forma tivesse encontrado uma maneira de voltar do túmulo. Não ia conseguir um viver felizes para sempre com sua amante enquanto suas amigas apodreciam em seus túmulos, seus últimos momentos neste planeta cheios de horror e dor. Sua raiva e sua dor lhe deram força suficiente para agarrar um pouco mais de sua mente. — Estava certa em esperar, — o fantasma de Uram falava através da boca de Holly. — É hora de eu ficar inteiro. — Seus dedos acariciando a rede elétrica, neutralizando seu poder, mas incapaz de violar o obstáculo. — Desfaça isso, meu doce. As palavras chegaram aos ouvidos de Holly através de uma espessa barreira que entorpecia as palavras para uma monotonia plana, mas entendeu o significado delas. Precisava continuar ouvindo, continuar aprendendo. Porque estava dentro dele. Ou ele estava dentro dela. Ela não sabia. Precisava saber. Holly lutou desesperadamente por um ponto de apoio que a impedisse de afundar novamente na escuridão, mas lutava contra o eco de um Arcanjo. Mesmo muito menos que o todo, ele era poderoso. E... Oh, essa era a resposta. Ela a teve o tempo todo. Uram não voltou à vida. Não podia. Raphael destruiu todas as partes essenciais dele. Ela observou as imagens

dessa

destruição

pegas

por

inúmeras

câmeras

amadoras

repetidamente. Conversou com pessoas que estiveram lá naquele dia, que viram Raphael exterminar a existência de Uram. Nada sobrou do Anjo de Sangue. Essa coisa que tentava roubar seu corpo e sua mente era exatamente o que pensava: um eco, um fragmento perdido. Reflexo de memórias, flashes de pensamento, rajadas de impulso... Mas, agora que estava prestando atenção e olhando atentamente, não tinha sensação de uma pessoa inteira real. Se estivesse


inteiro, Holly estaria apagada até o momento. Uma mente Arcangélica era simplesmente muito poderosa para qualquer um além de outro Arcanjo resistir. Tudo isso significava que esse eco nunca poderia existir como um todo fora de Holly, nem aquela coisa terrível no berço, não importa o que pensasse em sua loucura fantasmagórica. Mas parecia que Michaela estava pronta para acreditar na mesma loucura. Holly poderia perdoá-la, até mesmo entender. O amor tinha uma maneira de te deixar um pouco louca. Olhos verdes viperinos em sua visão, Venom olhando para ela perto de Michaela. Ele não estava lá antes. Deve ter se movido enquanto Uram controlava totalmente sua visão, colocando-se em sua linha de visão direta, exatamente como ela pediu para ele fazer. Ninguém tinha olhos como Venom. Ninguém era Venom. E Venom era dela. A lembrança que falara repetidamente durante a noite, a posição mental que criou usando sua resposta emocional para ele – sempre, ela respondia a Venom – deu-lhe um toque mais de força. Luz brilhou, um banho bronze brilhante que era surpreendente em sua beleza. Admiração tentou prender Holly em seu aperto cintilante. Michaela realmente atingia o alvo quando se tratava de apostas de beleza. Horror logo coagiu a maravilha. A rede caiu e pode sentir a energia verde-ácida se reunindo dentro dela enquanto o eco de Uram se preparava para deixar Holly e se fundir com a parte carnuda dentro do receptáculo no berço. Caso isso acontecesse, Holly morreria assim como Daisy morreu. Uram roubaria toda sua energia, toda a força de sua vida para se fortalecer. Holly pensou nisso furiosamente enquanto Michaela se voltava para Raphael, erguendo uma palma cheia poder. — Não interfira aqui, Raphael. Se ele é poderoso o suficiente para ter sobrevivido ao fogo de anjo, então é poderoso o suficiente para se regenerar completamente de um toco de carne. Você está errada, Holly queria dizer. Esse eco nunca seria nada além de loucura presa num lapso de tempo. Nem saberia por que não era inteiro. Não se lembrava de morrer. Por essa morte ter ocorrido depois que Uram transferiu de


propósito ou por acidente – fragmentos de sua energia para Holly, Michaela e Daisy. Lembrava-se de amar Michaela porque Uram a amava quando entrou em sua insanidade, a emoção impressa em cada fragmento dele. E lembrava bem do desejo de sangue, de violência, de tortura. Tudo que surgiria dessa coisa no berço não seria nada, exceto um horror. Estava consciente que Raphael respondeu a Michaela, mas não estava mais ouvindo a conversa dos arcanjos. Necessitava ter uma discussão crítica sobre ela. É isso que quer ser? Ela sussurrou do fundo de si mesma, como o eco de Uram lhe sussurrara. Esse pedaço de carne retorcido que não tem vida? Dentro de Uram, entendeu que era literalmente apenas carne. Criada das células de Michaela e da energia contaminada de Uram, era um hospedeiro externo destinado a agir como o núcleo da ressurreição de Uram. Não apodreceu apenas porque... Meu doce gotejou seu sangue sobre o que se tornará minha carne. Que Michaela não conseguiu fazer durante a reunião do Cadre, explicando a putrefacção que Holly vislumbrou durante sua primeira visita. Mais alguns dias e haveria larvas rastejando naquele berço. O estômago de Holly tropeçou, mas ela não perdeu o precioso controle que recuperou. Será totalmente dependente de Michaela. Seu corpo se aproximou do berço e olhou abaixo. — Em breve ficarei forte, — disse o eco de Uram em voz alta, capturando a atenção de todos na sala. Tem certeza? Holly sussurrou. Tem energia suficiente? Ou ficará preso nesse pedaço de carne tóxica para sempre? Raiva em seus músculos, uma dor ardente que seu corpo não foi projetado para lidar por muito tempo. — Sou um Arcanjo. Conte-me quando você e Michaela se conheceram pela primeira vez, Holly disse através da agonia. — Silêncio! — A voz que não era sua voz surgiu no ar.


Raphael, Michaela, Venom, todos assistiram sem interromper, como se soubessem que algo estava ocorrendo e não podiam perceber. Por sorte, para Holly, ela não precisava ficar em silêncio. O eco de Uram não podia fazer mais nada para ela. Não lembra, não é? ela murmurou. Se lembra de ir para Nova York? Um silêncio mortal. Você não é um Arcanjo. Você é um eco, um fantasma louco criado de fragmentos de energia deixados para trás antes da sua morte. Holly sentiu uma tristeza inesperada alcançar seu coração. Deve ter sido um incrível poder fazer isso, deixar energia que sobrevivesse por tanto tempo. — Sou um Arcanjo! — Foi um rugido que estremeceu contra as paredes da torre que Michaela transformou tanto num berçário quanto numa prisão. — Eu sou Uram! — Meu amor. — Michaela estendeu a mão através do berço, seu rosto uma coisa de poder suavizada pelo sofrimento. — Fique inteiro. O poder dentro de Holly se juntou num nó tenso, pronto para a transferência. Se entrar naquela carne, Holly disse com uma voz que se obrigou a soar calma, ficará sem visão e sem audição, sem voz pelo tempo que demorar a se recuperar. Será impotente nas mãos de Michaela, uma criança que ela terá que criar. Ela se impediu de dizer algo mais, de apontar que Michaela poderia usar qualquer oportunidade para dar forma à Uram como achasse conveniente. A verdade, é claro, era que Uram nunca seria uma criança. Nunca cresceria. Não restava o suficiente dele. Mesmo agora, suas poucas lembranças eram menos afiadas que antes, como se tivessem se degradado uma vez trazidas à luz. Se entrasse naquele pedaço de carne, no entanto, Michaela lutaria para que ele


pudesse existir. E, dado o amor de Michaela por Uram, e pelo hospedeiro de carne no berço, mais cedo ou mais tarde... Ah, isso não seria tudo. O conhecimento era um sussurro fraco no fundo de sua mente, mas vinha do eco que fazia parte dela. E disse a ela que o eco tentaria assumir Michaela no instante que se banhasse em sangue. Teria sucesso? Holly não pensava assim, mas o risco era muito horrível para o acaso. Pois, se o eco conseguisse matar Michaela, o reinado de sangue de Uram recomeçaria. Pegue esse corpo, ela sussurrou. Pelo menos até que esteja forte o suficiente para criar um corpo adulto completo para se transferir. Desta vez, a resposta foi interna... e pensativa. Terei que deixar um fragmento de energia no outro para garantir que ele cresça. Sabe que precisa de você inteiro para retornar à grandeza. Uma longa pausa antes que a mão de Holly alcançasse o berço e se abrisse sobre o nódulo de carne abaixo. Um único toque e sabia que estava errado. Não havia calor naquela carne. Estava fria. Morta. Animada apenas porque a energia de Uram, alimentada pelo sangue de Michaela, corria nas veias. *** Venom observou a mão de Holly se abrir sobre o nódulo que eram aberturas verdes e acidentadas que continuavam brilhando atrás dela. Ele queria arrancar o verde ácido dela, libertá-la. Mas fazer isso seria matá-la. Se recusava a acreditar que já havia desaparecido, que agora era uma questão entre os Arcanjos. Quando a híbrida Holly/Uram levantou o olhar sem aviso e disse: — Vou manter esse corpo, — Venom sabia que estava certo. Holly fez alguma coisa, mudou o roteiro. Sire. Venom não olhou para Raphael enquanto falava. Acho que devemos deixar que isso, também, siga seu curso. Há pouca escolha. A voz de Raphael era uma tempestade de poder na cabeça de Venom, tanto que Venom às vezes se perguntava como o Sire podia suportar isso. Se há mesmo a menor chance de que Uram possa voltar, não posso atacar sem que seja um ato de guerra. Atacar um Arcanjo que volta de um longo sono é quebrar


todas as regras que impedem o Cadre de se destruir e ao mundo. Já tivemos um desses incidentes; não serei responsável por um segundo. Venom olhou diretamente para Holly, desejando que olhasse para ele. Apenas por um segundo, era tudo que ele precisava. Um segundo. *** Os olhos de Holly escanearam a sala. — Não interfira, — disse sua boca antes de franzir a testa e sacudir a cabeça. — Não me lembro como vim para este lugar, mas esta é minha ressurreição. *** Mesmo enquanto a boca de Holly se movia, seus olhos estavam processando o que ela via na varredura do eco. A mão de Venom se moveu tão rapidamente que a maioria das pessoas não teria visto. Ela o fez, porque era um pouco como ele. E – Por que sou como Venom? ela perguntou ao eco dentro dela. Você tinha afinidade com cobras? Exceto... Não sou exatamente como ele. Um acúmulo de pressão. Quieta, mortal! Holly se forçou a parecer subserviente. Por favor. Partirei uma vez que chegue ao poder. Responda essa pergunta antes de levar minha carne por sua conta. Tinha afinidade com cobras? Como Neha. A cabeça de Holly caiu, riso saindo de sua boca. Quando o eco parou de rir, disse, não sou Neha com seus venenos. Eu sou Uram. E percebeu que o eco não sabia. O eco não se lembrava dos poderes que ofereceu a Holly. Não podia dizer a ela o porquê dela, não podia explicar se era como era porque a toxina que alimentava sua loucura distorceu as habilidades que teve como arcanjo. Teria que fazer sua própria pesquisa... se sobrevivesse a isso. Sim, você é um Arcanjo, disse ela, fazendo seu movimento final. Porque reconheceu aquele movimento da mão de Venom. Era parte de uma linguagem silenciosa que ele ensinou a ela durante suas sessões enquanto estava fora de Nova York. A fez praticar os rápidos movimentos das mãos até que pudesse usá-las sem pensar. Semelhante ao idioma dos sinais,


mas muito mais rápido, poderia, Holly pensou originalmente, ser utilizado apenas por pessoas que tinham seus reflexos. O que o tornaria muito inútil. Mas descobriu que também podia ser usado em situações de combate com outros anjos e vampiros da Torre. Só precisava diminuir as coisas para que pudessem ver os movimentos. A velocidade que ele lhe ensinou foi assim, se os dois estivessem numa situação hostil, poderiam conversar sem que ninguém mais soubesse. O movimento que acabou de fazer significava: A bola está no seu campo. Holly estremeceu profundamente. Ele estava lhe dizendo que Raphael e Michaela não interfeririam. Se o horror terminaria aqui, seria ela quem acabaria com isso. Só ela sabia o que estava em jogo. Só ela entendia que esse eco de energia foi criado da parte mais horrível de Uram, a parte que existia antes da sua morte. Quando o Arcanjo era um ser conduzido pela loucura e sangue – com fome da dor dos outros. Shelley. Maxie. Cara. Rania. Ping. Kimiya. Nataja. Daisy. Os nomes de suas amigas e os de outras três mulheres que nunca tiveram chance, eram um mantra silencioso numa parte escondida de sua consciência enquanto falava novamente ao eco. Obrigada, ela disse, como se ele tivesse respondido sua pergunta quando não fez tal coisa. Espero que meu corpo sirva você bem. Uma pausa. Você me serviu bem. Rodar pela loucura era realmente uma graça. Agora é hora de deixar de existir. Ele puxou energia do nódulo de carne no berço. Correu pelo braço de Holly numa tempestade elétrica verde-ácida que ameaçou derreter seu cérebro e explodir seu coração. Ela apertou os dentes... ou tentou. O eco tinha o controle de seu corpo e não a deixaria tomar aquela ação instintiva. Quando a energia ameaçou apagar seu cérebro, suas memórias, ela se abaixou e lutou, usando o próprio poder que ele lhe dera. Porque ainda tinha acesso à parte desse poder. Estava fundido em suas células e esse corpo ainda era dela, cada uma delas impressa com a força de sua vida. Se ele realmente fosse um Arcanjo, ela não poderia recuperar qualquer acesso à força forjada de sua energia e sua determinação. Mas ele era apenas um eco


desbotado. Poderoso, mas não um poder. Não como Raphael ou Michaela ou o Uram que já existiu. Fortalecendo sua mente, Holly recusou-se a ser esmagada, mas não fez nenhum movimento para se trair... não até que o eco puxasse sua mão do nó agora sem vida no berço. Enquanto observava, o hospedeiro carnudo rapidamente se transformou num verde putrefato nas bordas, a podridão serpenteando tão rapidamente ao longo do resto que estava claro que estava apodrecendo há muito tempo, a putrefação retida apenas pelo sangue de Michaela. Um cheiro podre começou a emanar disso. Balançando a mão, Michaela incinerou a coisa que nasceu dela. As cinzas ficaram no berço. E a pele de Holly brilhava com um poder verde ácido que esse corpo não era feito para conter. Com o poder extra veio um eco forte. Mais conhecimento. Uma vaga e leve sugestão de sanidade. Holly estava voando, e o melhor plano que inventou, dado seu controle limitado, era forçar um dos Arcanjos a matá-la – matar os dois – incitando o eco num ato de insanidade total. Como tentar arrancar as asas de Michaela. Mas agora, ela parou, pensou. Vê o que se tornou? Ela deixou sua voz nãoconflituosa, nunca esquecendo que falava com um imortal acostumado a fazer com que as pessoas se curvassem e rastejassem. Esse não era sempre o caminho – do que viu do governo de Raphael, ele preferia a força ao seu redor. Venom não se curvava nem rastejava para ninguém, e a consorte caçadora de Raphael era uma guerreira por completo, aquela que o segurava. Uram era diferente. De um tempo mais antigo. Ela sabia porque o pesquisou obsessivamente. Você foi considerado um Arcanjo entre os Arcanjos. Neha o admirava, o chamava de o homem mais bonito que já conheceu além de Eris – e você a perdoou pelo engano, eu acho. Mesmo Lijuan o respeitava e ela respeita muitas poucas pessoas. O eco retumbou dentro dela. Terei todo o respeito deles novamente. Será? Holly lutou contra sua mente para trazer as imagens que tentou enterrar por quatro longos anos. De pesadelo e horror, Uram sentado numa cadeira de braços, a boca suja de sangue enquanto um braço cortado pousava no colo. Um rugido surgiu de sua boca. — Mentiras!


Ela vislumbrou confusão nos olhos de Michaela, tensão pronta para a batalha em Raphael. Somente Venom observava em silêncio imóvel e inexpressivo. Ele entendeu o que estava acontecendo. Sabia que Holly não estava morta. Pergunte aos seus colegas Arcanjos, ela sussurrou. Pergunte o que se tornou. Esse pesadelo é a única parte de você que permanece. Não o Arcanjo que foi considerado o mais rápido entre os Arcanjos. Não o Arcanjo que governou com punho de ferro, mas teve o respeito de seus generais. Não o Arcanjo que teve a mulher mais bonita do mundo como amante. Apenas esse monstro voraz que tem sede infinita de sangue. Seu pulso pulou ao pensamento, sua boca enchendo d’água. Nauseada, ela se forçou a continuar. Você sente isso. Sente o desejo de beber. Está olhando a garganta de Michaela. Quer arrancá-la. Outro rugido de som, suas mãos apertadas contra sua vontade consciente. — Uram. — Michaela circulou o berço para aproximar-se com cautela. — Tudo bem, meu amor. Este corpo irá frustrá-lo até que possa remodelar e regenerálo para seus requisitos, mas isso não demorará muito. Um flash de memória que não era dele: Michaela caída no chão, com as asas abertas e o peito aberto, uma bola de fogo vermelha incandescente no lugar de seu coração. O corpo da Arcanjo se sacudiu, o sangue manchou o marrom suave de sua pele. O terror em sua expressão chocou Holly. Arcanjos não ficavam aterrorizados. Arcanjos eram o terror. A mão de Holly levantou; seus dedos roçando a bochecha da mulher mais alta. — Meu doce. Sem terror hoje. Os olhos de Michaela brilharam, em deslumbrante verde água. — Você é o único que já me entendeu. Os dedos de Holly tocaram o pescoço de cisne de Michaela, parando um instante em seu pulso, antes de correr entre os seios da arcanjo para se abrir sobre seu coração. Ele bateu rapidamente sob a palma da mão. — Eu dilacerei isso, — veio de sua boca. — Eu me coloquei dentro de você. A mão de Michaela se fechou sobre ele e o soco do poder dos Arcanjos abalou o corpo inteiro de Holly. Michaela estava brilhando, e quando um Arcanjo brilhava, as pessoas geralmente morriam. No entanto, esta Arcanjo não estava com humor


assassino – e não acreditava que estivesse lidando com uma mortal. — Não importa, — ela disse com um sorriso suave. — Não entendi então. Não sabia que estava me pedindo para mantê-lo seguro até que pudesse retornar. Por que estou tão fraco? Demorou a Holly um segundo para perceber que a pergunta era para ela. Porque você é apenas um eco desbotado de um grande Arcanjo. Você é um fantasma. Eu ficarei forte novamente. Realmente acredita nisso? Holly perguntou seriamente. Pode extrair poder do mundo ao seu redor? Seus olhos se dirigiram infalivelmente ao pescoço de Michaela e para o pulso que batia lá. Seus dedos curvaram um pouco sobre o coração de Michaela. O sangue me alimentará. O sangue me fará crescer. A loucura está retornando, Holly disse antes que o fragmento de sanidade escapasse para sempre. Você mais uma vez ficará escravizado pelo sangue. Um monstro que será temido, mas nunca respeitado. Mesmo assim, nunca será o que já foi. Raiva em suas veias. — Preciso do seu sangue, meu amor, — disse a boca para Michaela. — O suficiente para me dar um pouco mais de força. Michaela inclinou o pescoço numa confiança que abalou Holly. Sempre pensou na Arcanjo de Budapeste como arrogante, bonita e manipuladora. Era assim que Michaela parecia na mídia que a amava tanto. E, cega pelas diferenças em seu poder e idade, Holly nunca pensou em como Michaela também era mulher, que amava um homem que morreu. Holly passou os dedos pela linha da garganta de Michaela antes de se levantar na ponta dos pés para inclinar a boca naquele ponto pulsante. O sangue brotou na língua, quente e fresco e tão poderoso que a fazia se elevar fisicamente. Mas ainda assim, ela bebeu e bebeu, até que literalmente não podia beber mais. Quando finalmente soltou, foi para ver a garganta de Michaela aberta na frente de seus olhos. A arcanjo não parecia enfraquecida ou como se tivesse sofrido. E o corpo de Holly girava com poder que ameaçava estourar suas células e queimar sua pele. Querido Deus. Como alguém sobrevivia à alimentação de um Arcanjo?


— Isso foi suficiente? — A pergunta de Michaela foi gentil, sua própria mão subindo para encostar contra a bochecha de Holly. — Eu esperei por você. A pele de Holly se abria contra suas costas, seu peito, sua alma em perigo de se afogar enquanto a dor rasgava seu interior. Você é mais você mesmo? ela perguntou através da névoa. Você é mais Uram? Preciso de mais sangue. Sua cabeça virou para Raphael. Sangue mais forte. Está engolindo sangue de uma Arcanjo, e ainda assim procura mais sangue. A agonia torceu suas tripas enquanto coisas começavam a estalar dentro dela também, seu corpo cheio de muita força arcangélica. Sempre procurará mais e mais e mais. Desejo a agarrou mesmo enquanto seu corpo começava a falhar. Está começando a querer sangue com violência, não é? Quer arrancar a garganta de Michaela como um lobo lambendo sua matança. — Não! — O corpo de Holly cambaleou para pressionar contra a parede de pedra fria. Suor escorria pelas têmporas. Você está mais forte? Holly continuou empurrando a dor insuportável de um corpo que explodia de dentro para fora. Sequer um pouco? Muito sangue arcangélico, o poder dos Arcanjos, deveria ter um efeito violento... e tem. Ou você não consegue transmutar essa energia numa forma que pode usar? Porque você é apenas um eco. Sangue. Uma névoa vermelha. Preciso de sangue. Um pensamento súbito e astuto. Este corpo é fraco. Preciso do dela. O poder se arrancou dela antes que Holly pudesse fazer qualquer coisa, dobrando sua espinha agora para trás, a ponto de estalar.


— Não! — O grito deixou a garganta de Venom enquanto as costas de Holly se curvavam violentamente, luz verde ácida saindo numa onda brutal. Despreocupado pelos dois – talvez três – arcanjos na sala, ele correu para pegar o corpo dela quando desabou no chão. Ele era muito rápido para permitir que isso acontecesse. Pegou seu corpo sangrento e quebrado nos braços, impedindo que a cabeça dela atingisse a madeira dura e polida. Ela pesava muito pouco, sua Holly. E o poder ainda gritava nela numa queimadura verde ácido. Quando finalmente parou, sua cabeça caiu de lado, o sangue escorrendo pelo canto da boca... E seu rosto cheio de centenas de pequenos cortes. Sangue enchia esses cortes, o rico ferro molhando cada parte que tocava. Como se todo seu corpo tivesse se fraturado. O coração de Venom estava batendo forte demais para ele sentir o pulso dela. Ele continuou tentando. Nada. Não, gatinha, não. *** Raphael viu a energia sair em erupção de Holly, viu Venom pegá-la quando caiu. E viu terror sem verniz no rosto de Venom pela primeira vez em todos os anos que conhecia o vampiro. Mas Raphael não podia fazer nada pelo amor de Venom naquele momento. — Michaela, — disse ele em aviso.


Ela não estava ouvindo, seus olhos arregalados de esperança. — Meu amor, — ela sussurrou... Assim que a bola de poder esmagou-se nela, cobrindo seu corpo numa mancha de fogo verde ácido. Raphael poderia parar isso. Não o fez. No instante que interferisse, começaria uma guerra catastrófica. A escolha deveria ser de Michaela. Os olhos dela brilharam com o mesmo verde ácido distinto num único instante antes de empurrar o poder com um rugido. — Saia! O brilho verde se juntou no ar novamente, crepitando com veias de vermelho. Sangue vermelho. Raphael não era Michaela. Aceitou há muito tempo que o homem que já chamou de amigo já não existia. Quando a energia maligna foi se esmagar nele, ergueu a mão com Fogo de Anjo. A energia recuou... e dirigiu-se para Venom. O outro homem se moveu com velocidade de víbora para evadir, Holly em seus braços. Raphael se moveu ao mesmo tempo para se colocar na frente de Venom e a garota caída que amava. Esta era uma guerra entre Arcanjos. Venom e Holly fizeram a parte deles. Fizeram muito mais que se poderia esperar de um vampiro de apenas alguns séculos e uma mortal que foi feita muito jovem. Era hora de Raphael e Michaela terminarem isso. — Michaela. Lágrimas correram por suas bochechas ao levantar a mão, o poder brilhando em torno da ponta dos dedos. Ela não conseguia formar Fogo de Anjo, mas o relâmpago de bronze que podia criar parecia mais forte que da última vez que esteve perto o suficiente para testemunhar isso. A Cascata em vigor. A falta de Fogo de Anjo importava pouco. Ela tinha outras maneiras de matar um colega Arcanjo. Esse era um dos marcadores da ascensão: a capacidade de matar seus pares. — Eu o amava, — ela sussurrou, a energia doentia congelada entre seu poder e o dela. — Ele realmente me viu. A escuridão, a luz, a glória, a podridão. Foi a avaliação mais honesta que já ouviu Michaela fazer sobre si mesma. — Ele é quem era? — Raphael perguntou, porque tinham que ter certeza. — Você o sentiu agora. Ele pode voltar?


— Ele é... um fantasma. Um fragmento. Da pior parte dele. — As lágrimas continuaram caindo. — Devemos exterminá-lo, Raphael. Ele vale muito mais que essa existência louca conduzida pelo sangue. Raphael pensou uma última vez no amigo que correu com ele através dos cânions do Refúgio, no homem que ria enquanto se sentava ao redor de uma fogueira, as asas espalhadas na grama. Esse Uram se perdeu para o tempo e para sua própria arrogância bem antes da loucura, mas ele existiu. E o longo relacionamento deles exigia esse ato, para que Uram nunca existisse como esse fantasma louco. — Adeus, velho amigo, — ele sussurrou. — Desta vez, será para sempre. Soluçando abertamente, Michaela lançou um raio de seu poder. Ele cercou a energia e começou a esmagar até a morte. Raphael acrescentou seu Fogo de Anjo. O eco não teve chance. Não era Uram. Não era nem uma parte de Uram. Era apenas uma sombra fraca deixada por um homem poderoso perdido pelo sangue. E então deixou de ser, queimado da existência. Michaela caiu de joelhos, suas asas abertas atrás dela num esplendor de bronze delicado. — Eu queria mais, mais poder, mais tudo. E o perdi com essa ganância. Girando, Raphael se concentrou em suas próprias pessoas sem dar atenção à Michaela. Como acabava de admitir, mesmo seu amor tinha um preço – e ainda poderia culpá-lo pela morte de Uram. — Venom. Este membro dos Sete, que sempre tão autônomo e friamente sofisticado, seu humor, muitas vezes tão seco, que cortava, levantou os olhos molhados de lágrimas. — Ela está morrendo, Sire. — Era uma declaração quebrada, Holly apertada fortemente em seu peito. O rosto da menina era um esfregaço de sangue e pele rachada, seu pulso quase impossível de detectar. Sangue escorria do nariz e colava a camiseta preta em seu corpo. Limpando o sangue do nariz com um toque suave, Venom pressionou um beijo no rosto destruído. — Ela se recusou a deixar o mal ganhar. Ela lutou. Raphael estendeu os braços. — Confie-a comigo, Venom. — Ele não ficaria aqui, neste lugar com uma Arcanjo que nunca confiou inteiramente.


O olhar de resposta de Venom estava destruído, mas acenou com a cabeça; era um dos Sete, e até quase quebrado entendeu o motivo por trás do pedido de Raphael. — Vou te encontrar lá. Assim que pegou Holly nos braços, Raphael levantou-se no céu sem dizer adeus à Michaela. Perdida em sua culpa e horror, ela não teria notado se o fizesse. Enrolou glamour em torno de si mesmo e Holly enquanto ainda estava dentro da torre, garantindo que ninguém pudesse segui-lo até a cabana do informante de Jason. Não estava preocupado com Venom. O mais novo dos Sete era engenhoso; conseguiria sair da fortaleza de Michaela, e se precisasse de assistência ligaria para Raphael. Como era, Venom se superou, chegando à cabana apenas alguns minutos depois de Raphael. Suor encharcava seu corpo. Ajoelhando ao lado do sofá onde Raphael colocou Holly, Venom acariciou os cabelos, depois olhou Raphael. — Pode fazer alguma coisa? Raphael já tinha a mão no peito sangrento da menina, sua palma brilhando azul enquanto atraía a habilidade de curar da Cascata. Podia sentir a energia penetrando a pele dela, mas não tinha nenhum efeito discernível. Ela era única, essa menina que encontrou força de vontade para desafiar o fantasma de um Arcanjo. — Ela tem coragem, sua Holly. — Sim. Muita. — Ele sibilou para Holly, o som era perigoso. — Você me fez apaixonar por você. Não pode ir agora! Raphael nunca viu Venom assim. Ele derramou mais poder no corpo imóvel de Holly, mas seu ritmo cardíaco fraco não se fortaleceu, seu suspiro não se tornou menos superficial. E seu poder nascido da Cascata ainda era novo. Dardejou e morreu sem aviso enquanto Holly estava sangrando e imóvel. — Um hospital mortal poderia ajudá-la? — Venom perguntou. Raphael sacudiu a cabeça. — Suas feridas são de natureza imortal. — Criadas pelos remanescentes da força de arcanjos. — Deseja ficar aqui? — Não. Quero Holly segura. Vai voar para casa? — O tormento morava nos distintos olhos que muitas pessoas só viam de Venom. — Se ela morrer na jornada... mantenha-a segura para mim.


Raphael sacudiu a cabeça, pois não roubaria esta vez do outro homem. — Carregue-a. Vou voar você para o avião. — Estava estacionado numa parte do território de Michaela que hospedava um grande aeroporto internacional. Desde esta manhã, segredo já não era necessário – a antiga Rainha de Constantinopla sabia que estavam aqui e sabia por que vieram. Embora Venom nunca tenha aceitado ser carregado por nenhum anjo, pegou o pequeno corpo de Holly cuidadosamente nos braços e assentiu. Por amor, pensou Rafael, um homem faria qualquer coisa, suportaria qualquer coisa. Raphael faria a mesma escolha se suas posições fossem invertidas. Holly sobreviveu à viagem até o avião. Venom a colocou na cama. — Ela ainda está lutando. Raphael estava mais impressionado pela força dessa garota do que esperava. Elena e Dmitri o atualizaram durante os anos desde o ataque de Uram, mas não esperava uma mulher com esse tipo de força. — Ela sobreviveu à Uram duas vezes. — Raphael olhou para a menina com novos olhos. — Não aposto contra ela. *** Uma hora depois de Raphael deixar o avião para voar para casa em suas asas, Holly ainda respirava enquanto o jato subia acima das nuvens, mas seu pulso não era mais forte, sua respiração muito rasa. Venom se assustou novamente. — Acorde! — Sabia que estava sendo irracional e errático, mas seu coração estava num torno, sendo esmagado. Holly permaneceu imóvel sob o lençol limpo e branco que acabou de puxar, um lençol que já estava manchado de sangue. Ela estava nua por baixo; tirou suas roupas sangrentas e limpou o sangue de sua carne devastada, depois restou a esperança de que ela se curasse. Talvez devesse ter deixado seu corpo exposto ao ar, mas não podia suportar vê-la tão vulnerável. Três horas depois, o Oceano Atlântico Norte brilhava abaixo e a pele fraturada de Holly já não sangrava. Venom tentou ver isso como um sinal que seu corpo estava se curando, em vez de um sinal que seu coração esticado estivesse ficando lento. Sua pele devastada estava fria ao toque, seu pulso ainda tão fraco


que precisava pressionar o ouvido no peito para ter certeza que ela permanecia viva. Sua respiração era quase impossível de detectar. Mas estava presente. Venom há muito tempo colocou-a em seu peito, segurando-a contra o corpo enquanto estavam na cabine privada do avião. Os pilotos não interromperam após a saudação inicial. Encapsulados no silêncio, Venom começou a falar na língua que falou suas primeiras palavras. Contou a Holly de sua infância naquela pousada movimentada na Silk Road, de como aprendeu a cozinhar no joelho de seu pai e de como foi considerado adulto com oito anos ou mais de idade. Ele não tinha certeza. Os registros não eram mantidos tão bem naquela época. — Não considerava isso estranho, — ele disse a ela. — Tinha cinco irmãos e irmãs até então. Era normal que o filho mais velho assumisse o manto de proteger e prover a família, junto com seu pai. A mente de Venom voltou para aqueles tempos muito longíquos. — Meu pai tinha um bom coração. Apenas se perdeu um pouco pelo caminho porque não podia dizer não à minha mãe. — Seus lábios se curvaram. — Isso é uma falha que corre na minha linhagem. Meus irmãos eram iguais com suas esposas. Ele não sabia sobre seus descendentes. — Foi mais difícil colocar Mohan para descansar. Lembro-me dele quando bebê, todo espalhado em meus braços. — Com os olhos vermelhos, ele engoliu. — Não posso enterrar alguém que amo novamente. Nunca mais. — Ele pressionou seus lábios contra os dela. — Por favor, não faça isso comigo, Holly. Um sussurro de respiração contra ele, dedos desenrolados no peito. Com o coração batendo forte, ele olhou para baixo, mas os cílios de Holly ainda sombreavam suas bochechas, espanadores escuros contra o creme de sua pele. Ela perdeu peso durante a batalha silenciosa na torre. Suas maçãs do rosto estavam proeminentes, seus dedos impossivelmente finos. Mas... podia ouvir seus batimentos cardíacos sem ter que pressionar o ouvido no peito. E enquanto observava, uma fina rachadura na sua face começou a se fechar. Venom estremeceu. Queria dar seu sangue a ela, mas Raphael o advertiu de que Holly estava mostrando sinais de toxicidade por sangue. — Uram a fez ingerir muito sangue


arcangélico. Alimente-a apenas quando tiver fome. Seu corpo precisa se livrar disso. Se ela sangrar, deixe. Ela suou sangue durante as primeiras duas horas, seu corpo rejeitando desesperadamente o poder que não tinha como lidar. Ele a limpou, a manteve quente. Lutando contra sua necessidade de fazer mais, continuou conversando. Contou a ela sobre seus primeiros dias na corte de Neha, do tempo que passou nos túneis, e de como tomou consciência lentamente. Estava vestido com trapos e sujo de terra no dia que acordou e percebeu que era um homem e não uma víbora como aquelas com quem se deitava. — Elas me cobriam, enroscadas no meu pescoço, meus braços. — Ele deveria estar horrorizado, mas havia mudado nos meses após sua Feitura, seu limiar de horror muito alto. — Mesmo quando me movia, elas não me mordiam, apenas se afastavam. Levou mais uma semana para sair do labirinto sob o Forte do Arcanjo. — Neha não desistiu de mim, — ele disse a Holly. — Mas ela me perdeu. Descobriu que eu era mais rápido que qualquer uma de suas rastreadoras – e, embora eu fosse uma víbora, não reagia à sua conexão com as cobras. Nunca o fiz. Por isso, só podia ser grato. — Seria uma coleira que ela poderia puxar quando estivesse na vizinhança. Gosto de pensar que fiz isso acontecer com meu desafio. — Ele soltou uma respiração. — Nunca odiei Neha, no entanto. Ela estava sendo um Arcanjo. Foi minha família que fez a escolha de virar o rosto para mim. — Ver apenas um monstro e não o irmão e filho que fez tudo que podia, desistiu de toda sua existência humana – para que tivessem uma vida livre da privação e vergonha. — Venom. Era menos que um sussurro, mas ele ouviu. Com o coração trovejando, se levantou para olhar o rosto de Holly. Seus lábios estavam ligeiramente separados, os olhos fechados. — Gatinha. — Sua voz tremia. — Humm. — Era um som preguiçoso e sonolento... Antes de se encostar nele de uma maneira que dizia que não tinha planos de acordar.


Ele apertou um beijo no brilho arco-íris de seus cabelos, todo seu corpo tremendo. — Durma. Falaremos mais tarde. — Tudo que ele disse enquanto ela estava dormindo, falaria quando estivesse acordada. Ela tinha todo o direito aos seus segredos e histórias. Naasir estava certo sobre ter alguém com quem compartilhar segredos – era um presente inestimável.


Holly acordou com a sensação de que teve o sono mais luxuriante de sua vi... — Porra, — gemeu, — Isso dói. — Cada músculo em seu corpo parecia ter sido golpeado por um martelo até que fosse polpa, em seguida, jogado num freezer para congelar em sua forma deformada. — Oh Deus. — Não há necessidade de ir tão longe, gatinha. Venom ou Tushar o farão. Abrindo os olhos, Holly encontrou-se olhando os olhos verde de víbora que dançavam com luz. Felicidade. Nunca viu Venom inocentemente feliz... nunca. Seus próprios lábios se curvaram. — Pare de ser sarcástico e faça algo. O sorriso dele se aprofundou. — Prepararei um banho quente com sais minerais. Isso é bom? — Para começar. — Ela franziu a testa enquanto a expansão da sala penetrava. — Onde estamos? — Na torre. A vista está atrás de você. Gemendo, Holly conseguiu girar apenas o suficiente para olhar as brilhantes luzes de Manhattan. — A última coisa que lembro, eu estava na fortaleza de Michaela, tentando convencer o fantasma de Uram que não era uma boa ideia ele... existir. — Ele se foi para o bem. — Venom a pegou nos braços e segurou-a contra a pele nua de seu peito. — Mmm. — Ela se aconchegou, passando a palma da mão até aquele músculo tonificado, todo quente e tenso. — Você é tão bonito. Ele riu. — Ainda está meio adormecida.


Bocejando, Holly continuou acariciando-o até que ele a colocou no banho... E só então percebeu que estava nua no chão de pedra na sala de estar dele. — O que aconteceu com minhas roupas? — Eu as tirei, estavam molhadas de sangue. Lembrou de sua pele rasgando, seu interior se partindo. Mas suas mãos encontraram apenas pele lisa e inteira em qualquer lugar que tocaca – e enquanto dormia, não sentia que estava morrendo. — Há quanto tempo estou na torre? Venom se moveu para o outro lado do grande banheiro, suas nádegas flexionando sob as calças de pijama preto e solto que era tudo que ele usava. — Está dormindo há quarenta e sete horas. — Está usando calças de cetim? — Não. Tenho melhor gosto que isso. — O tecido movia-se tanto como ar como líquido enquanto voltava para ela, uma garrafa na mão. Abrindo, jogou uma coisa cintilante e cremosa no banho. O cheiro de frangipani14 encheu o ar. Os dedos dos pés de Holly enrolaram. — Você é tão bonito e tão frio também. — Os músculos começaram a afrouxar. Lentamente. Curvando os lábios, Venom foi para trás dela. — Vou lavar seu cabelo. Holly não tinha absolutamente nenhum desejo de protestar. Recostou-se e ficou meio adormecida enquanto ele lavava o cabelo com um cuidado e uma gentileza que a surpreenderam. — Como sabe lavar cabelos longos? Teve uma fase de rabo de cavalo? — Eu costumava lavar os cabelos das minhas irmãs às vezes. — Suas palavras foram uma surpresa. — Quando eram muito jovens e não seria considerado escandaloso. Só para ajudar minha mãe. — Um sorriso na voz, ele disse: — Meu pai nunca fez isso por minhas irmãs, sempre agiu muito severamente, mas o vi lavar os cabelos da minha mãe uma vez. Ele a amava das raízes de seu próprio cabelo até as pontas dos dedos dos pés. Ele começou a massagear seu couro cabeludo. — Venom? 14 Frangipane (frangipani) de frangere il pane (do italiano “partir o pão”). A origem para o nome vem do século XVI. Marquis MuzioFrangipani, perfumista de Luís XIII, criou o aroma de amêndoas, além de dar nome às floridas árvores de jasmim-manga, também conhecidas como flor de frangipani.


— Hmm? — Meus olhos ainda estão verdes? — Ela estava acordada agora, bem acordada, e começava a lembrar de que deveria estar morta. — Acho que precisa ver por si mesma. — Levantando, enxugou as mãos molhadas numa toalha, depois mexeu na gaveta até encontrar um pequeno espelho de mão. Era ornamentado, a parte de trás em madrepérola pintada com víboras. — Presente, — ele disse ao seu olhar interrogativo. — De um amigo na corte de Neha que gosta de se divertir com o que considera minha vaidade. Rindo de sua carranca, Holly aceitou o espelho, mas então não conseguiu fazer com que virasse para o lado refletivo. — Apenas me diga. Ele voltou a ficar atrás dela novamente, mais uma vez massageando seu couro cabeludo com dedos inteligentes. — Não vai se arrepender, Hollyberry, — ele murmurou. — Veja. Ela soltou uma respiração longa antes de começar lentamente a virar o espelho. Se seus olhos permanecessem verdes ácido, então parte de Uram ainda podia estar escondida dentro dela. Essa cor era a energia dele. Se seus olhos estivessem castanhos novamente... Ela sentou-se antes de terminar de mover o espelho o suficiente para ver, a água espirrando enquanto sentia suas presas. Venom deu a volta para encará-la. — Ainda são tão pequenas, — ele disse com um olhar divertido. Empurrando o peito dele sem esforço, Holly não fez nada para esconder seu alívio. — Pensei que não seria mais uma vampira. Seu olhar tornou-se solene. — Você nunca quis ser uma vampira. — Sim, mas isso foi antes de você. — Holly podia imaginar uma eternidade diferente agora, uma cheia de felicidade, amor e imprudência compartilhada, que levava a uma aventura selvagem. — Não me importo de chupar seu sangue por milênios. O sorriso voltou e ele bateu no espelho. — Vai olhar? — Estou com muito medo. — Isto de uma mulher que descarrilou os planos de um fantasma arcangélico psicótico? — Deslizando um braço ao redor de suas costas e colocando a outra mão em torno dela na alça do espelho, ele disse: — Pronta?


Exalando trêmula, Holly assentiu finalmente. E viraram o espelho. Primeiro sentiu um soco de alegria visceral... apenas para aproximar o espelho e olhar fixamente. — O que é isso? — Seus globos oculares olharam para ela do espelho. — Que diabos. O que eu deveria colocar na minha carteira de motorista agora? O riso de Venom encheu o banheiro. — Acho que chamam cor de avelã, — ele disse solenemente quando parou de rir. — Fique quieto, Cara de Víbora. — Porque seus olhos não eram avelã. Eram uma mistura estranha de verde marrom e verde escuro. — Tudo que disser, gatinha. — Inclinando o queixo, Venom a beijou calorosa e profundamente e um pouco desesperado. Holly deixou o espelho cair na água. — Ei, ei, — ela disse quando ele parou o beijo, ambos sem fôlego. — Estou aqui. Estou bem. Estremecendo, envolveu os dois braços ao redor dela e deixou cair a cabeça no pescoço dela. Holly acariciou seus cabelos, beijou sua têmpora e segurou-o. Segurando este homem nascido em dor e horror tortuosos que não deixava ninguém ver sua vulnerabilidade. — Eu amo você, — ela disse simplesmente, honestamente, para sempre. — Faz a ideia de eternidade ser uma jornada de aventura em vez de uma coisa a ser suportada. Ele não levantou a cabeça por um longo tempo. Quando o fez, seus olhos tinham alegria, dor, e ecoavam terror. — Enquanto você viver, eu também. O coração de Holly esmagou suas costelas. — Venom, não, — ela sussurrou. — Minha vida é desconhecida. — E eu vivi tempo suficiente sozinho. — Não mudou sua expressão. — Como pode me pedir para ficar depois de conhecê-la? Te amar? — Uma sacudida de sua cabeça. — Daremos esse salto para a eternidade juntos. Lágrimas caíram pelo rosto. — Todos os dias eu tentarei te fazer mudar de ideia. — Resmungar, resmungar, é o que as gatinhas fazem. Ela pegou uma palma de água e jogou-a no rosto dele. Ele riu. E estava tão incrivelmente lindo que queria beijá-lo e beijá-lo e beijá-lo. — Venha aqui.


Ele veio, derramando água por todo o lado, ainda vestindo as calças. Nada disso importava. Porque a estava beijando e beijando-a e beijando-a, e ela estava em casa. Nos braços dele sempre estaria em casa. Como ele estaria nos dela. Sentando-se montada nele quando precisou de ar, Holly disse: — O que meus olhos querem dizer? — Essa estranha amálgama de quem já foi e quem se tornou com a energia de Uram dentro dela. — Ele ainda está vivo, de alguma forma? — Keir estava na Torre quando chegamos, — disse Venom. — O curandeiro diz que sim, Uram está vivo, mas apenas na forma como qualquer pai está vivo em seu filho. Você é inteiramente você agora. Holly fez uma careta. — Eu tenho um pai. E não é esse psicopata. — Talvez pai de sangue seja o melhor termo para usar, — disse Venom. — Uram está vivo dentro de você da mesma forma que Neha está viva dentro de mim. Holly passou as mãos pelos ombros. — Isso não faz com que eu me sinta melhor, — ela admitiu. — Queria que ele fosse apagado do meu corpo. — Ela pressionou o dedo nos lábios quando ele falou. — Mas se ele fosse... Então não seria uma vampira, e não seria como você, apenas o suficiente para nos encaixarmos. — E então ele já não se sentia mais sozinho. — Acho que a troca vale a pena. Venom inclinou-se para beijá-la. Franzindo o cenho contra um pensamento súbito, Holly se afastou. — Espere. Quais poderes ainda tenho? — Ao fechar os olhos, tentou se tornar invisível. — Consegue me ver? — Seus peitos são adoráveis. Ela abriu os olhos para ver que ele realmente olhava admirado para seu pequeno peito. Mas parecia gostar desse peito. Quem era ela para discutir? — Perdi a habilidade de criar glamour. — Não é surpreendente. — Ele esfregou um polegar sobre o ponto molhado de seu mamilo. — Esse é um traço arcangélico que nunca se manifestou em nenhum outro imortal. — Posso me mover da maneira que fiz? — Odiando ter perdido o que os uniu, ela ia sair para verificar, mas Venom a segurou no lugar.


— Eu te amo, — ele disse, seus olhos trancados com os dela. — Das raízes do meu cabelo até as pontas dos dedos dos pés. De ontem a amanhã e a cada amanhã nos veremos juntos. A partir deste momento até ao mistério além da morte. Cada parte de você, lenta ou rápida, pequena ou grande, forte ou fraca. Amo você, Holly. Seu lábio inferior estremeceu. Jogando os braços ao redor do pescoço dele, ela apertou. Quando ele se levantou, foi com ambos juntos, água escorrendo de seus corpos. De alguma forma ele conseguiu tirar as calças, e depois seus corpos molhados caíram na cama. Não houve preliminares. Ela não queria. Ela o atraiu dentro dela, segurou-o, e se abaixaram, seus olhos trancados um no outro. Lento, gentil, e para sempre. *** Foi algum tempo depois, enquanto ela estava sentada no balcão da cozinha, vestindo uma das camisas de Venom, e observando-o preparar rapidamente uma pizza para ela, que Holly pegou algo no ar. Ela olhou para a ameixa na mão. — Por que está jogando ameixas para mim? No entanto, parece boa. — Ela deu uma mordida, com fome de comida, mas ainda não de sangue. — Joguei na minha velocidade, — disse o vampiro que a irritaria para sempre. E ela a pegou. Holly começou a sorrir. Ainda tinha a velocidade, ainda podia dançar com ele de maneira única e desumana. Embora tivesse perdido o resto, era o suficiente. — Quer ouvir minha teoria? — Ele perguntou enquanto raspava o queijo sobre a base que fez à mão. — Uh-huh. — Ela acenou com a cabeça entre suas suculentas dentadas na ameixa. — Acho que manteve todas as habilidades que se integraram totalmente com você. A velocidade, a capacidade de se tornar sem ossos em uma queda, o hipnotismo. As coisas que pareciam suas.


— Glamour nunca foi fácil, — admitiu Holly. — Era como se eu estivesse vestindo o casaco de outra pessoa. — Ela deu um passo. — Vou testar as outras coisas amanhã. — Ela estava muito mais calma agora que sabia que tinha a velocidade. — Tushar? — Gatinha? — Por que estou viva? — Holly sentiu Uram tirar tudo do seu corpo. — O fantasma ou o eco ou o que quer que fosse, tentou me deixar seca. Seu amante olhou para cima de onde cortava pimentas verdes. — Não vai gostar disso. Holly franziu o cenho... depois gemeu. — Juro por Deus, se me disser que tenho uma parte de Michaela em mim agora... Não tendo piedade dela, Venom assentiu. — Uram se alimentou profundamente. Muito para seu corpo digerir ou processar. Keir acredita que uma quantidade significativa do sangue dela ainda estava concentrado em seu estômago quando o eco a deixou. — Ugh, eca! — Saltando do balcão, Holly jogou fora seu caroço de ameixa e encontrou um copo grande; encheu-o de água e tomou com tragos desesperados. — Sei que minha reação não é racional, — ela disse depois. — Mas eca! Os lábios de Venom estavam curvados, observando seu pequeno ato de horror. — O sangue de Michaela quase fez com que o seu se tornasse tóxico, mas o poder nele também salvou sua vida. O eco, inadvertidamente, ajudou por drenar tanta energia de você que deixou um vazio – no qual o poder de Michaela fluiu, dando às células o que precisavam para sobreviver. Holly fez movimentos de vomitar antes de largar o copo e deslizar com suavidade para o lado dele. — Por que tenho que ser a estranha que tem sangue de Arcanjos mexendo comigo? — Outras pessoas provavelmente orariam pela atenção de arcanjos, mas Holly teve o suficiente. — Raphael também não me alimentou, né? — Não, o Sire te deu energia, mas apenas na tentativa de curar. — Bom, mas sério – a ideia do sangue de Michaela no meu estômago? — Tremendo pelo pensamento, deixou a cabeça cair contra ele. — Oh, bem, pelo menos, não era o sangue de Charisemnon. — Qualquer bastardo que pudesse


orquestrar um ato tão hediondo como a Queda não era alguém que queria em sua corrente sanguínea. — Falando sobre ele, — disse Venom, — Nosso amigo Walter passou por aqui. Demorou alguns segundos para Holly lembrar quem era Walter e por que deveria se importar. Walter Battersby, seu cérebro forneceu, intermediário para os imortais. — Oh, certo, a recompensa sobre mim. — Toda a situação parecia uma vida passada agora. — Suponho que devemos seguir isso. — Estou feliz que esteja levando isso a sério. — Possessão por um Arcanjo louco e uma piscina grosseira de sangue no meu estômago, — apontou, roubando um pedaço de queijo para acabar com a última imagem. Saltando no balcão para retomar o assento enquanto mordiscava o queijo, ela disse: — Então, o que Walter disse? — Primeiro, Vivek conseguiu vincular a conta bancária que Walter recebeu de uma empresa que funciona sob a bandeira de Charisemnon. — Pegando a pedra de pizza em que criou sua obra-prima deliciosa, Venom a colocou no forno. A onda de calor sentia-se bem contra o corpo de Holly. — Walter, por sua vez, conseguiu rastrear seu cliente como sendo um assistente na corte de Charisemnon. Aparentemente, usou cada favor que tinha. — O sorriso de Venom era frio. — Deveria ter pensado nisso antes de decidir que você era um alvo aceitável. Holly encolheu os ombros. — Ele é um intermediário. Vai arrumar outros favores mais. — Estômago se torcendo, ela olhou em volta. — Dê-me um segundo e farei um sanduíche. Holly poderia fazer o sanduíche, mas assistir Venom se movendo na cozinha era tão sexy que apenas esperou. — Então, temos que achar esse assistente? As mãos de Venom se moveram rapidamente conforme cortava um tomate para o sanduíche. — Dmitri já o fez. Achou que tínhamos o suficiente em nosso prato. Holly congelou com uma fatia de tomate na boca. — Uh-uh. — Enviou o assistente para casa em pedaços. — Os olhos de Venom brilharam. — Pedaços pequenos e muito precisos. Todos embalados numa caixa de presente preta, fechada com fita de veludo vermelho.


A boca abrindo, Holly pousou o pedaço de tomate. — Sério? Não é um ato de guerra? — O Sire teve uma conversa com Charisemnon – nosso arcanjo favorito, causador de doenças – nega qualquer conhecimento das ações de seu assistente, e não temos nada que diga o contrário. — Ele a alimentou com o pedaço de tomate que ela abandonou. O suco tangente explodiu em vida na língua. — Pequenos pedaços? — Disse ela depois. Uma sobrancelha levantada. — Percebe que Dmitri pode ser sanguinário quando se trata de proteger as pessoas que ama? E você é sua pequena estranha. Holly olhou para ele, mas seus lábios insistiram em subir. — Como sabe que ele me chama assim? — Ele veio enquanto você dormia. Talvez eu tenha espionado o que ele disse para você. — Isso é um comportamento ruim, — Holly disse com severidade. A resposta de Venom foi um beijo não arrependido. Feliz, ela disse: — O assistente confessou por que estava atrás de mim? — Sabia que Dmitri não o teria executado sem primeiro deixar o homem seco. — Todos os Arcanjos espionam um ao outro – aparentemente, um dos relatórios que veio de Nova York incluía fotos de você e uma nota de que foi atacada por Uram e alterada. — A expressão de Venom tornou-se letal. — Jason logo descobrirá esse vazamento e ele nunca mais derramará os segredos da Torre. Holly agarrou a borda do balcão. — O assistente me queria por meu sangue, — ela adivinhou. — Pelo que Uram deixou em você – foram seus olhos que o convenceram que Uram deixou algo para trás. Sanduíche feito, Venom o colocou num pires. — O idiota, estúpido o suficiente para colocar um preço por sua cabeça, disse a Dmitri que ele queria te dar de presente para Charisemnon, mas é possível que quisesse usá-la para alimentar seu próprio poder, assim como Kenasha fez com Daisy. — Um encolhimento de ombros líquido. — Dmitri cortou a cabeça dele agora, então não importa. — Isso é tão estranho.


— O que? — Como fala tão casualmente sobre cortar a cabeça das pessoas. — Minhas armas de escolha são lâminas afiadas, Hollyberry, — ele a lembrou com um sorriso perigoso. — Coma seu sanduíche. Holly respondeu com um gemido de prazer. Ela não falou novamente até que tudo tivesse desaparecido. — Por que estou com tanta fome? — Ainda mais que antes da loucura. — Juro que posso sentir esse sanduíche digerindo na velocidade da luz. — De acordo com Keir, suas células entraram num estado de fluxo semelhante a um vampiro recém-nascido, — disse Venom. — Esses vampiros são alimentados com sangue constantemente, até que a necessidade se aplaque, mas seu corpo foi alterado permanentemente pela energia de Uram. Você carrega marcadores angélicos e vampíricos. Holly olhou por cima de seus ombros. — Não, sem asas. Droga. Rindo, Venom deslocou-se para ficar entre suas coxas, as mãos nos quadris. — Você não é um vampiro, nem um anjo. Você é como Naasir, como eu. Única de seu tipo. — Gosto disso. — Em algum momento naquela sala fria, com um berço que mantinha um hospedeiro de carne retorcida, concordou com a fusão forte e estranha que era seu corpo. — Minha espécie deve ter um nome. — Ela colocou os braços ao redor do pescoço do homem que deveria ser seu parceiro de crime por toda a eternidade. Rindo, ele disse: — Uma Hollyberry. Ela beijou a boca dele rindo, e bebeu sua felicidade. E estava tudo bem. O passado acabou. Partiu. Morreu. O futuro a aguardava. E para ela, esse futuro cintilava em verde víbora brilhante. *** Dois dias depois, ela foi até a garagem para entrar em seu carro e encontrou uma placa de números que a fazia parecer certo vampiro. Ele piscou. — Eu disse que conseguiria para você uma que diria GATINHA.

Sociedade de caçadores 10 víbora do arcanjo nalini singh  
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