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Night Huntress World, 01.

First Drop of Crimson (A Primeira Gota de Carmesim)

Jeaniene Frost

A noite não é segura para os mortais. Denise MacGregor conhece muito bem o que espreita nas sombras – sua melhor amiga é a meia-vampira Cat Crawfield – e ela já perdeu mais do que um humano normal poderia suportar. Mas o passado obscuro de sua família é envolvido em segredos e envolto em trevas – e um demônio metamorfo marcou Denise como presa. Agora sua sobrevivência depende do imortal que deseja prová-la. Ele é Spade, um poderoso e misterioso vampiro que anda na Terra por séculos e agora está jurado a proteger esta sedutora humana em perigo – mesmo que signifique destruir sua própria raça. Denise pode despertar as suas fomes mais profundas, mas Spade sabe que ele deve lutar contra a sua vontade de tê-la enquanto eles encaram o pesadelo demoníaco, juntos… Porque uma vez que a primeira gota de carmesim cair, os dois estarão perdidos.

Créditos:

Equipe Night Huntress de Tradução. Night Huntress [Oficial]


Prólogo. Véspera de Ano Novo, um ano antes,

Mesmo que eles estivessem no porão, Denise ainda podia ouvir os sons da batalha do lado de fora. Ela não sabia o que os tinham atacado, mas eles não poderiam ser humanos, não para Cat parecer tão assustada quando os mandou ir pra baixo. Se ela estava tão assustada, então eles todos deveriam estar com medo. Barulho de coisas quebrando lá em cima fez Denise arfar. Os braços de Randy se apertaram ao redor dela. “Ficará tudo bem.” O rosto dele dizia que ele acreditava no contrário. Mas ela sorriu, tentando convencer seu marido que ela acreditava na mentira, mesmo que apenas para fazê-lo se sentir melhor. O braço dele afrouxou em torno dela. “Eu vou lá em cima ajudar a procurar pela coisa.” Coisa era o objeto que tinha atraído essas criaturas, o que quer que elas sejam, para essa casa no meio do nada. Se isso pudesse ser encontrado e destruído, o ataque pararia. Cinco anos atrás, Denise não teria acreditado em vampiros, ghouls ou objetos possuindo poderes sobrenaturais. Agora, por ela ter escolhido passar o Ano Novo com sua melhor amiga meia vampira, em uma casa cheia de coisas que a maioria das pessoas não acreditava, ela e Randy provavelmente morreriam. “Você não pode ir lá em cima, é muito perigoso,” Denise protestou. “Eu não vou do lado de fora, mas eu posso ajudar a procurar na casa.” Denise sabia que encontrar a coisa era a única chance que qualquer um deles tinha. “Eu vou com você.” “Fique aqui. Os garotos estão assustados.” Denise olhou para os rostos amontoados no canto mais distante da sala do porão, olhos arregalados com medo. Ex fugitivos ou garotos sem lar que viviam com os vampiros, seus alugueis pagos em doações de sangue. O único outro adulto na sala era Justina, e até mesmo sua expressão normalmente autoritária estava trêmula. “Eu vou ficar”, Denise disse por fim. “Tome cuidado. Volte imediatamente se aquelas coisas chegarem perto.” Randy deu um rápido beijo nela. “Eu vou. Prometo.”


“Eu te amo,” ela gritou, enquanto ele escancarava a porta. Ele sorriu. “Eu te amo também.” Denise trancou a porta assim que ele saiu. Foi a última vez que ela viu Randy vivo.


CAPÍTULO UM. “Eu acho que Amber foi assassinada.” Denise olhou de boca aberta para seu primo. Ela estava em sua terceira margarita, mas ela não poderia ter escutado mal o que ele disse. Talvez nós não deveríamos ter ido a um bar depois do funeral. Entretanto, Paul disse que ele estava a fim de outro shiva*. A mãe dele e irmã haviam morrido com um mês de intervalo entre elas. Se tomar uma bebida faria Paul se sentir melhor, quem se importava com o que eles deviam fazer? *Marca de uísque. “Mas o médico disse que foi o coração dela.” “Eu sei o que eles disseram,” Paul murmurou. “A polícia também não acredita em mim. Mas no dia antes de ela morrer, Amber me disse que ela achava que estava sendo seguida. Ela tinha 23 anos de idade, Denise. Quem tem um ataque do coração com 23 anos?” “Sua mãe também morreu de ataque do coração,” Denise o lembrou suavemente. “Doença do coração pode ser hereditária. É raro alguém tão jovem como a Amber ter problemas de coração, verdade, mas sua irmã estava sob muito stress–“ “Não mais do que eu agora,” Paul a cortou amargamente. “Você está dizendo que eu posso ser o próximo?” O pensamento era tão terrível que Denise nem quis imaginar. “Eu tenho certeza de que você está bem, mas não iria doer dar uma checada.” Paul se inclinou para frente, olhando ao redor antes de falar. “Eu acho que eu estou sendo seguido também.” Sua voz mal era um sussurro. Denise de uma pausa. Por meses, depois da morte de Randy, ela pensava que cada sombra era algo sinistro esperando para atacá-la. Mesmo um ano depois, ela ainda não tinha conseguido se livrar daquele sentimento. Agora sua tia e sua prima tinham morrido com apenas um mês de intervalo entre cada uma e Paul, também parecia achar que a morte andava atrás dele. Essa era uma parte normal do processo de luto? Sentir que, quando a morte leva alguém perto de você, estaria vindo atrás de você em seguida? “Você quer ficar na minha casa por alguns dias?” Ela perguntou. ”Eu iria gostar da companhia.” Na verdade Denise preferia ficar sozinha, mas Paul não sabia disso. O cuidadoso investimento que Randy havia feito desapareceu com a queda do mercado de ações, deixando-a com apenas o suficiente para enterrá-lo e dar entrada em uma nova casa, longe da maioria da sua família. Seus pais tinham


boas intenções, mas com a preocupação deles, eles tentavam tomar conta da vida dela. No trabalho Denise se manteve distante dos colegas e a solidão tinha ajudado a passar esse longo e duro ano em que ela lidou com a morte de Randy. Ainda, se ficar com ela ajudasse Paul com o choque inicial da dupla perda, ela abriria mão, com satisfação, de sua solidão. Seu primo parecia aliviado. “Sim, se estiver tudo bem.” Denise acenou para o barman. “Claro. Vamos direto para a minha casa antes que eu tome mais alguma bebida. Você já bebeu bastante, então vamos pegar meu carro e buscaremos o seu pela manhã.” “Eu posso dirigir,” Paul argumentou. Denise o encarou. “Não essa noite.” Paul deu de ombros. Denise estava grata por ele não ter brigado por causa disso. Ela se odiaria se Paul tivesse um acidente após ter saído pra beber com ela. Além de seus pais, ele era a família mais próxima que tinha restado a ela. Ela pagou a conta, sob as objeções de Paul, e eles foram em direção ao estacionamento. Depois daquele incidente, três meses atrás, Denise fazia questão de estacionar em uma área bem iluminada o mais próximo possível da entrada do bar. Como uma precaução a mais, mesmo com Paul andando com ela, ela manteve a mão no spray repelente pendurado em seu chaveiro. Ela tinha dois deles; um cheio com spray de pimenta, o outro com nitrato de prata. Humanos não era os únicos que gostavam de atacar a noite. “O quarto de hóspedes é pequeno, mas tem uma TV nele,” Denise disse assim que eles chegaram perto do carro. “Você quer–“ A voz dela se transformou em um grito assim que Paul foi jogado pra trás, um homem aparecendo do nada atrás dele. Paul tentou gritar também, mas um braço apertando sua garganta o impediu. Os olhos do estranho pareciam queimar quando ele olhada de Denise para seu primo. “Mais um,” ele sibilou, colocando seu punho através do peito de Paul. Denise gritou o mais alto que pôde, erguendo seu spray de pimenta e espirrando o líquido no rosto do homem. Ele nem ao menos piscou, mas os olhos de Paul se fecharam, inchados, quando um pouco o atingiu. “Alguém ajude!” Denise gritou novamente, espirrando até que o recipiente estivesse vazio. O homem nem se mexeu, enquanto que o rosto de Paul começava a ficar azul.


Em seguida ela agarrou o nitrato de prata, descarregando seu conteúdo em quatro espirradas frenéticas. O homem piscou com aquilo, mas por surpresa. Então ele riu. “Prata? Que interessante.” Denise estava sem armas e o homem não tinha afrouxado seu abraço nem um milímetro. Em pânico, ela apertou os punhos e se jogou contra ele – apenas para cair no chão, um momento depois, em cima de seu primo. “O que está acontecendo ai fora?” alguém do bar gritou. Denise olhou para cima. O estranho tinha ido. Um grande pastor Alemão estava sentado a poucos metros, sua boca aberta como se em uma risada de cachorro. Ele virou e correu quando um monte de pessoas do bar vieram. “Alguém, ligue para a emergência!” Denise exclamou, com horror, ao perceber que Paul não estava respirando. Ela colocou sua boca sobre a dele, assoprando forte – e começou a engasgar quando sentiu o gosto do spray de pimenta. Tossindo e engasgando, Denise viu um jovem homem tentar CPR em Paul e depois caiu para o lado, engasgando também. Ela pressionou os dedos na garganta de Paul. Nada. Quase uma dúzia de pessoas estavam lá de pé, mas nenhuma delas parecia estar usando o celular. “Ligue para uma maldita ambulância,” ela esbravejou, esmagando o peito de Paul e tentando assoprar dentro de sua boca, quando ela mesma dificilmente conseguia respirar. “Vamos Paul! Não faça isso!” Apesar de sua visão embaçada, ela viu o rosto de seu primo se transformar em um tom azul mais escuro. Sua boca estava frouxa, seu peito sem movimento debaixo das mãos dela. Mas Denise continuou a esmagar seu peito, colocando as mãos como um copo ao redor de sua boca para assoprar dentro, sem que seus lábios entrassem em contato com mais spray de pimenta. Ela não parou até que os paramédicos chegaram, o que pareceu uma eternidade. Quando eles a tiraram de cima dele, Paul ainda não estava respirando. “Você está dizendo que o homem apenas... desapareceu?” O oficial de polícia não conseguia manter a descrença fora de sua voz. Denise sentiu vontade de estapeá-lo. Ela não sabia o quanto mais poderia agüentar. Ela já teve que ligar para sua família e contar essa notícia impensável, então ficar de luto com eles quando eles chegaram ao hospital, então dar seu depoimento para a polícia. Depoimento que parecia que eles tinham tanto problema em acreditar. “Como eu disse, quando eu olhei para cima, o assassino tinha sumido.”


“Ninguém no bar viu alguém lá fora, madame,” o oficial disse pela terceira vez. O temperamento de Denise estourou. “É porque eles estavam do lado de dentro quando nós fomos atacados. Olha, o cara estrangulou meu primo; Paul não tem marcas ao redor do seu pescoço?” O oficial desviou o olhar. “Não, madame. O legista ainda não o olhou, mas os paramédicos não viram nenhum sinal de estrangulamento. Eles disseram que viram evidências de parada cardíaca...” “Ele tem apenas vinte e cinco anos de idade!” Denise explodiu, então parou. Um frio percorreu sua espinha. Quem tem um ataque do coração aos 23 anos? Paul tinha perguntado apenas há algumas horas atrás, seguido de uma afirmação que ela ignorou anteriormente. Eu acho que estou sendo seguido também. Agora, Paul estava morto – de um aparente ataque cardíaco. Assim como Amber e tia Rose. Denise sabia que ela não tinha imaginado o homem que tinha sido imune tanto a spray de pimenta como nitrato de prata. Aquele que desapareceu em um piscar de olhos – e o grande cachorro que tinha aparecido do nada. Claro, ela não podia relatar nada disso ao oficial. Ele já olhava pra ela como e ela estivesse balançando no limite da loucura. Não passou despercebido por Denise que, quando ela foi tratada por causa do spray de pimenta, seu sangue também tinha sido tirado, provavelmente para chegar seu nível alcoólico. Já haviam perguntado a ela inúmeras vezes o quando ela tinha bebido antes de sair do bar. Era claro que nada que ela dissesse, mesmo deixando de lado qualquer menção ao sobrenatural, seria levado a sério se o legista decidisse que Paul tinha morrido de ataque cardíaco. Bom, ela conhecia pessoas que acreditavam nela o suficiente pra investigar. “Posso ir pra casa agora?” Denise perguntou. Um sinal de alívio atravessou o rosto do oficial. Isso só fazia Denise querer bater ainda mais nele. “Claro. Eu posso arrumar uma viatura pra te levar.” “Eu chamarei um taxi.” Ele ficou de pé, sacudindo a cabeça. “Aqui está meu cartão caso você se lembre de mais alguma coisa.” Denise o pegou apenas porque amassá-lo e jogá-lo de volta nele pareceria questionável. “Obrigada.” Ela esperou até que ela estivesse dentro de sua casa para fazer a ligação. Não havia necessidade do taxista ouvir seu último passageiro tagarelar sobre um


assassinato cometido por um homem que provavelmente deve ter se transformado em um cachorro. Se a polícia descobrisse que ela tinha dito aquilo, ela poderia esquecer que eles seguiriam alguma pista que ela possa ter dado a eles, mesmo que eles descobrissem que isso era um assassinato. No terceiro toque, entretanto, uma voz automática anunciou que o número para o qual ela tinha ligado tinha sido desligado. Denise desligou. É verdade, Cat estava mudando de lugar pra lugar porque um vampiro louco estava perseguindo ela. Ela tinha, obviamente, mudado seu número também. Cat ainda estava fora do país? Quanto tempo fazia desde a última vez que falou com ela? Semanas, talvez. Em seguida, Denise tentou o número que ela tinha do Bones, marido da Cat, mas também estava desligado. Denise fuçou pela casa até encontrar um caderno de endereços com o número da mãe de Cat. O número era de um ano atrás, então não foi surpresa alguma que também estava fora de serviço. Frustrada, Denise jogou o caderno de endereços no sofá. Ela vinha evitando contato com o mundo dos não vivos, mas agora, quando ela precisava de alguém conectado, ela não tinha o número atual de ninguém. Devia haver alguém que ela pudesse alcançar. Denise procurou pelas chamadas em seu celular, procurando por alguém que tinha contato com Cat. Quando ela estava quase no fim, um nome saltou em sua vista. Spade. Ela havia salvado o número do Spade em seu telefone alguns meses atrás, porque foi ele quem a buscou da última vez em que ela viu a Cat. Denise hesitou. Os traços do rosto esculpidos de Spade, pele pálida e olhar penetrante brilharam em sua mente. Coloque Spade em um anúncio da Calvin Klein e as mulheres seriam tentadas a lamber a página, mas a lembrança de Denise sobre Spade era irrevogavelmente ligada a sangue. Especialmente desde que a última vez que ela o viu, sangue estava respingado nele. Ela deixou isso de lado. Alguém tinha assassinado Paul e, Spade poderia ser seu único link para alcançar Cat. Denise aperto “call”, rezando para que ela não ouvisse aquele som monótono lhe dizer que o número não estava mais em serviço. Três toques, quatro... “Alô?” Denise se sentiu tonta de alívio ao ouvir o sotaque Inglês distinto do Spade. “Spade, é a Denise. Amiga da Cat,” ela acrescentou, pensando em quantas Denises um vampiro de séculos de idade provavelmente conhecia. “Parece que não tenho o número da Cat e... Eu tenho quase certeza de que alguma coisa assassinou meu primo. Talvez dois primos e minha tia também.” Veio um murmúrio que soou louco até mesmo pra ela. Ela esperou, ouvindo nada além da sua própria respiração durante a pausa do outro lado da linha.


“É o Spade, não é?” ela perguntou, cautelosa. E se ela tivesse ligado, de alguma forma, para o número errado? A voz dele soou imediatamente. “Sim, desculpe por isso. Por que você não me conta o que você acredita que viu?” Denise notou seu modo de falar, mas ela estava muito ligada pra discutir sobre isso. “Eu vi meu primo ser assassinado por um homem que nem ao menos se moveu quando eu o esborrifei com spray de pimenta e nitrato de prata. Então, a próxima coisa que eu vi foi um cachorro malditamente grande no lugar onde o homem tinha estado, mas ele correu, e a polícia acha que meu primo de 25 anos de idade morreu de ataque cardíaco ao invés de ter sido estrangulado.” Outro silêncio preencheu o outro lado da linha. Denise podia quase visualizar Spade franzindo as sobrancelhas enquanto ele escutava. Ele a assustava, mas agora, ela estava com mais medo do que quer que tenha matado Paul. “Você ainda está em Fort Worth?” ele perguntou finalmente. “Sim. A mesma casa de.... de antes.” Quando ele a levou de volta depois de ter matado um homem a sangue frio. “Certo. Desculpe lhe informar que Cat está na Nova Zelândia. Eu posso ligar pra ela ou lhe dar o número, mas levaria um dia, pelo menos, para ela chegar até você, se não mais.” Sua amiga e perita em todas as coisas não humanas estava na outra metade do mundo. Ótimo. “... mas por acaso eu estou nos Estados Unidos,” Spade continuou. “De fato, estou em St. Louis. Eu poderia estar ai hoje mais tarde, dar uma olhada no corpo de seu primo.” Denise puxou a respiração, dividida entre querer descobrir o que tinha matado Paul da forma mais rápida possível, e se sentir desconfortável em ser Spade a fazer a investigação. Então ela se repreendeu. As mortes de Paul, Amber e sua tia significavam mais do que ela estar desconfortável em relação a quem a estava ajudando. “Eu apreciaria isso. Meu endereço é –” “Eu me lembro aonde você mora,” Spade a cortou. “Me espere por volta do meio-dia.” Ela olhou para o relógio. Daqui a seis horas. Ela não conseguiria ir de St. Louis para Fort Worth tão rápido nem que sua vida dependesse disso, mas se Spade disse que ele estaria aqui por volta do meio-dia, ela acreditava nele. “Obrigada. Você pode dizer para Cat, hum, que...”


“Talvez é melhor se não envolvermos Cat ou Crispin ainda,” Spade disse, chamando Bones por seu nome humano como ele sempre fazia. “Eles passaram por momentos terríveis recentemente. Não há necessidade de alarma-los se for algo com que eu possa lidar.” Denise engoliu sua zombaria. Ela sabia o que aquilo queria dizer. Ou se ela apenas tivesse imaginado tudo isso. “Eu te vejo ao meio-dia,” ela respondeu e desligou. A casa parecia assustadoramente quieta. Denise olhou para fora das janelas com um arrepio, dizendo a ela mesma que o pressentimento que ela tinha era uma reação normal a sua noite violenta. Apenas para garantir, ela foi em cada cômodo, checando as janelas e portas. Tudo trancado. Então ela se obrigou a tomar banho, tentando bloquear as imagens do rosto azul de Paul de sua mente. Não funcionou. Denise colocou um roupão e começou a andar pela casa mais uma vez. Se ela não tivesse concordado em sair pra beber com Paul, ele poderia ainda estar vivo agora. Ou se ela tivesse corrido imediatamente para o bar pedindo ajuda, ao invés de ficar no estacionamento? Ela teria salvado o Paul se ela aparecesse com um monte de pessoas para assustar o atacante? Ele saiu assim que as pessoas responderam aos seus gritos; talvez ela pudesse ter salvo Paul se ela não tivesse ficado lá inutilmente esborrifando o assassino dele. Denise estava tão concentrada em seus pensamentos que ela ignorou os sons de batidas até que eles aconteceram pela terceira vez. Então ela congelou. Eles estavam vindo da porta da frente. Ela deixou a cozinha e correu silenciosamente para seu quarto, pegando uma Glock de seu criado-mudo. Ela estava carregada com balas de prata, o que deve apenas retardar um vampiro, mas mataria qualquer humano. Denise desceu as escadas, apurando os ouvidos para cada som. Sim, ainda lá. Um barulho esquisito, como choramingando e arranhando. E se alguém estivesse tentando arrombar a fechadura? Ela podia ligar para a polícia ou tentar ver o que era primeiro? Se fosse apenas um guaxinim xeretando e ela chamasse a polícia eles iriam realmente desconsiderar qualquer coisa que ela viesse a dizer no futuro. Denise manteve a arma apontada em direção aos sons enquanto ela se movia ao redor das janelas da frente. Se ela se inclinasse apenas um pouco ela poderia ver sua porta da frente... “O que?” Denise ofegou em voz alta.


Em sua varanda estava uma garotinha, algo vermelho em suas roupas. Ela estava batendo na porta de um jeito que parecia machucar ou exaurir, ou ambos. Agora Denise podia entender a palavra ajuda vindo dela. Denise baixou a arma e abriu a porta. O rosto da garotinha estava marcado de lágrimas e ela tremia toda. “Posso entrar? Papai está ferido,” a garota caceou*. Ela a recolheu, olhando ao redor por um carro ou qualquer outro indicador de como a garotinha tinha ido parar lá. *Falar o S com a língua apoiada nos dentes. “Entre, querida. O que aconteceu? Onde está seu papai?” Denise sussurrou enquanto colocava a criança pra dentro. A garotinha sorriu. “Papai está morto,” ela disse, sua voz mudando pra algo mais alto e profundo. Os braços de Denise caíram no mesmo momento, pesados, o horror a consumindo enquanto ela via a garotinha se transformar no mesmo homem que matou Paul. Ele a agarrou quando ela tentou correr, batendo a porta atrás dele. “Obrigado por me convidar a entrar,” ele disse, suas mãos tampando a boca de Denise no momento em que ela ia gritar.


CAPÍTULO DOIS. Spade fechou seu celular, remoendo a conversa que ele tinha acabado de ter. Denise MacGregor. Ele certamente não esperava ter notícias dela de novo. Agora ela fantasiava que seu primo tinha sido assassinado por um cão metamorfo – só que cães metamorfos ou qualquer coisa metamorfo não existiam. Deveria haver outra explicação. Denise disse que ela esborrifou o atacante com spray de pimenta e prata. Ela pode ter errado o alvo, é verdade, mas então, novamente, talvez ela não tivesse. Se um vampiro tivesse matado seu primo, ele poderia ter colocado Denise em transe para acreditar que ela o viu se transformar em um cachorro – e que ele não tinha sido afetado pelo spray de prata líquida. Memórias humanas eram tão fáceis de serem alteradas. Mas se Denise tivesse testemunhado um ataque de vampiro, o assassino iria se perguntar como ela saberia usar prata. Ele provavelmente deve ter decidido usar mais do que glamour para ter certeza de que Denise não contasse a história novamente. Esse era um risco que Spade não queria correr. Ele deu uma olhada para sua cama com arrependimento. Apesar de ele já ter dominado há muito tempo o sono profundo que deixava os vampiros mais novos incapacitados e que vinha com o nascer do sol, não significava que ele estava contente em dirigir até o Texas agora. Ah, bem. Isso era o mínimo que ele podia fazer para assegurar que Crispin e Cat não viesse correndo da Nova Zelândia pelo que parecia, com toda possibilidade, o colapso emocional de uma humana que se esgotou com tanto sofrimento, tristeza e stress. Ele lembrou do olhar que Denise deu à ele na última vez em que ele a viu. Manchas de sangue salpicavam as roupas dela, seu rosto tão pálido quanto a pele de marfim do Spade, e seus olhos castanhos mantinham uma mistura de asco e medo. Por que você teve que matá-lo? ela tinha sussurrado. Por causa do que ele pretendia fazer, Spade respondeu. Ninguém merece viver depois disso. Ela não tinha entendido. Mas Spade sim. E muito bem. Humanos podem ser mais complacentes com suas punições, mas Spade conhecia o suficiente para mostrar a um estuprador, até mesmo um potencial estuprador, algum tipo de misericórdia ingênua. Ele também lembrava que a última coisa que Denise disse antes de ele a deixar na casa dela mais tarde naquela noite. Eu estou tão cansada da violência no seu mundo. Ele já tinha visto aquele olhar em muitos rostos humanos, escutado o mesmo timbre em suas vozes. Se Crispin não estivesse tão ocupado com tudo que tinha acontecido ultimamente, ele explicaria para


Cat que a coisa mais gentil a se fazer era apagar da memória de Denise todas as coisas mortas-vivas. Talvez Spade fizesse isso ele mesmo, se Denise começasse a alucinar. Bondade de lado, se ela começasse a usurpar a realidade, isso também eliminaria a responsabilidade se tudo que Denise soubesse sobre eles fosse apagado de seus registros. Spade encheu sua mochila com roupas suficientes para alguns dias e desceu para a garagem. Já sentado atrás do volante de seu Porsche, ele colocou óculos escuros e apertou o controle para abrir a porta da garagem. O maldito Sol já estava no topo. Spade olhou para o sol de forma sinistra e saiu ao amanhecer. Humanos. Apesar de terem um sabor delicioso, eles eram geralmente mais problema do que valiam. ___ Denise mal podia respirar. A dor queimava do seu peito até seu braço direito e parecia se espalhar por todo seu corpo. As luzes dançavam em sua visão. Estou morrendo... “Por que você me espirrou com prata?” uma voz perguntou. A mão saiu de seu rosto e ela respirou profundamente, respirações doloridas. Uma pouco da queimação deixou seu peito e seus olhos focaram o suficiente pra ver que ela ainda estava na sala de estar perto de sua porta da frente. Denise tentou empurrar contra o homem que estava a agarrando, mas ela estava tão fraca, ela não podia nem ao menos levantar suas mãos. Se o estranho largasse sua cintura, ela cairia no chão. “Responda”. Uma nova onda de dor acompanhou seu comando. Denise tentou responder mesmo que com o aperto em seu peito fosse difícil respirar. “Pensei que você fosse... um vampiro.” O estranho riu, “Errado. Insultante, também, mas interessante. O que você sabe sobre vampiros?” A arma dela estava na mesa a uns 2 metros de distância. Denise se inclinou nos braços dele, esperando que ele a fosse deixar sair. Talvez, se ele deixasse, ela poderia pegar a arma. “Responda,” o estranho disse novamente, puxando-a para encará-lo. Seus olhos queimavam com um brilho vermelho, mas além disso – e do fraco cheiro que vinha dele, como se ele tivesse acabado de colocar fogo em alguma coisa – ele parecia um aluno de faculdade. Seu cabelo era num tom castanho mais


claro que o dela e puxado pra trás em um rabo-de-cavalo. Com seus jeans largos e camiseta tingida, ele poderia se passar por um jovem hippie. Mas ele não era humano. Olhos vermelhos. Ela nunca tinha visto isso antes. Ele não era um ghoul ou um vampiro, então o que ele era? “Eu sei que vampiros existem,” Denise falou, respirando um pouco mais facilmente assim que aquela dor esmagadora em seu peito diminuiu para uma dor pulsante. “Qualquer aspirante a gótico poderia ter spray de prata no chaveiro e acreditar em vampiros,” o homem disse com pouco caso. “Você terá que fazer melhor do que isso.” Outra rajada de dor acompanhou sua frase, quase dividindo Denise em duas. Quando ela pôde ver novamente, apesar da dor, o homem estava sorrindo. Denise pensou no fato de que o rosto desse monstro foi a última coisa que sua tia e primos tinham visto, e a raiva endureceu sua espinha. “Vampiros originaram de Cain depois que Deus o amaldiçoou a beber sangue para sempre, para se lembrar do sangue que ele derramou de seu irmão, Abel. Eles são imunes a cruzes, estacas de madeira e luz do sol. Apenas prata através do coração ou decapitação podem matá-los – e decapitação é a única forma de matar um ghoul. Isso é bom o suficiente?” ela rosnou. Ele riu como se estivesse satisfeito, soltando Denise. Como era esperado, ela caiu, mas tomando cuidado de se arremessar para frente, mais próxima da mesa e da arma. “Muito bom. Você é propriedade de alguém?” “Não,” Denise disse, sabendo que propriedade se referia aos humanos mantidos por vampiros para o propósito de alimentação. Como comida congelada, só que com pulso. “Ah,” os olhos do estranho brilharam. “Um arranjo mais romântico?” “Inferno, não,” Denise contestou, avançando lentamente para mais próximo da mesa sob o pretexto de ajeitar seu roupão. Ela estava nua por baixo dele, mas modéstia não era sua finalidade. Alcançar a arma era. Não importa o que essa criatura era, balas devem feri-lo. Talvez o suficiente para lhe dar uma chance de fugir. “Não mencione aquele lugar,” o homem advertiu, recuando. “Traz de volta más memórias.” Aquilo fez Denise parar. Ela analisou o estranho mais de perto. Olhos vermelhos. Cheirava como enxofre. Não era humano, vampiro ou ghoul.


“Demônio,” ela disse. Ele se curvou. “Pode me chamar de Raum.” Denise vasculhou em seu cérebro pra tentar encontrar o que ela sabia sobre demônios, mas a maior parte de seu conhecimento consistia em assistir O Exorcista. Mesmo que ela tivesse água benta, o que ela não tinha, jogá-la no demônio entoando o salmo “O poder de Cristo o compele!” como no filme faria algum dano real? “Esse tal de Spade com quem você estava falando no telefone antes,” Raum continuou. “Ele é um vampiro ou um ghoul?” O medo a atingiu. Mesmo que ela e Spade não fossem amigos, ela não queria colocá-lo em perigo. “Ele é humano,” ela disse. O demônio arqueou uma sobrancelha. “Mas você contou a ele o que você viu, então ele deve saber sobre vampiros e ghouls. Se você não é propriedade ou uma namorada, qual é a sua associação com aqueles cadáveres ambulantes?” Denise foi cuidadosa para não dizer nada que pudesse vir a machucar Cat. “Eu, hum, sobrevivi a um ataque de vampiro há alguns anos atrás, então eu tentei descobrir o máximo que eu pude sobre eles. Ao longo do caminho eu conheci outras pessoas como eu. Nós compartilhamos informação. Cuidamos uns dos outros.” Raum considerou isso. “Você está dizendo que você não tem algum contato real com o mundo dos mortos-vivos ou alguém dentro dele?” Ela assentiu. “Isso mesmo.” Ele suspirou. “Então você não tem utilidade pra mim.” Agonia bateu em seu peito, como se de repente ela tivesse sido baleada no coração. Em meio a dor paralisante, Denise conseguiu arfar uma frase. “Espere! Eu tenho... tenho contatos...” Abruptamente a dor parou. Raum sorriu com satisfação. “Imaginei que você tivesse. Você sabe demais pra não ter.” “O que você quer de mim?” Um medo como ela nunca sentiu antes percorreu sua espinha. Ela estava à mercê de um demônio. Não havia posição pior para estar. Raum se ajoelhou próximo a ela, mesmo enquanto ela se movia lentamente pra trás. “Eu vou lhe mostrar.”


Suas mãos pressionaram a testa dela. A luz queimou dentro de sua mente, então imagens vieram a seguir. Raum dentro de um pentagrama, um homem ruivo do outro lado. “Dê-me poder como o seu,” o homem ruivo disse, “e você pode ter tudo que você quer.” Raum colocou suas mãos no homem, que caiu pra trás gritando. Outro brilho e as imagens mudaram. Raum de pé em frente ao homem, segurando sua mão. O homem balançando sua cabeça agitado, Raum avançando, então uivando em fúria enquanto um pentagrama aparecia ao redor dele. Chamas erguiam-se da estrela, o fundo desmoronou e Raum desapareceu de vista. Nada, exceto fogo, por um longo tempo, então uma enorme quantidade de horríveis imagens sangrentas. Finalmente um senso de liberdade. Então dúzias mais de imagens de pessoas morrendo, até que por fim, sua tia Rose, então Amber, Paul... e ela mesma. “Seu antepassado Nathaniel desistiu de um contrato comigo.” A voz de Raum era como ilusão e seu ouvido. “Ele conseguiu me trancar por algum tempo, mas eu estou de volta e eu quero meu pagamento.” Denise balançou a cabeça para clarear as terríveis imagens que ela viu. “Como eu posso fazer alguma coisa sobre isso?” “Porque ele deve estar escondido com vampiros ou ghouls,” Raum rosnou. “Eu não posso entrar no mundo deles, mas você pode. Encontre-o para mim. Traga-o pra mim e eu deixarei você e o resto dos descendentes dele em paz.” O resto dos descendentes dele. Os rostos de seus pais aparecerem na mente de Denise. Um deles tinha que ser descendente de Nathaniel, já que ela e seus primos obviamente eram, e Raum certamente iria matar todos os remanescentes da família de Nathaniel em sua busca para encontrá-lo. Ela não podia deixar aquilo acontecer. “Eu o encontrarei,” Denise disse. Eu não sei como, mas eu irei. Raum passou seus dedos ao longo dos braços dela. Sua pele se encolheu com asco. “Eu acredito que você esteja falando a verdade. Mas como um incentivo extra...” Suas mãos apertaram ao redor dela enquanto uma nova dor cruel emergiu dentro dela. Ela podia se ouvir gritando, mas acima de seus gritos estava a risada negligente de Raum. “Tente não morrer, certo? Eu apenas comecei.” ___ Spade franziu o nariz quando ele virou pra entrar na rua da Denise. Algo imundo o atingiu pelo sistema de ventilação de seu carro. Seus olhos varreram a rua esperando ver um carro com o motor fundido ou um telhado sendo


passado piche, mas não havia nada. O cheiro piorou quando ele parou na entrada da garagem da Denise. Spade alcançou sua mochila, puxando duas longas lâminas de prata e escondeu uma em cada manga. Então ele saiu do carro e andou até a porta da frente. Uma vez lá, ele inalou o ar profundamente perto da fechadura. O fedor de enxofre encheu seus pulmões, o suficiente para o fazer se engasgar, se ele fosse humano. Spade soltou o ar com um palavrão. Somente uma criatura poderia deixar tal cheiro em seu rastro. Denise MacGregor não estava imaginando coisas, depois de tudo, mas ela pode não estar viva para Spade lhe dizer isso. Ele levou a porta ao chão com um chute e então entrou com tudo, rolando no chão uma vez para evitar qualquer ataque. Denise estava caída, curvada no chão perto de um sofá, mas Spade não se apressou para checá-la. Ele olhou ao redor da sala, se assegurando de que ninguém mais estava lá. Nada, exceto o som da respiração e batidas do coração dela. Ele chegou cada cômodo e armários nos andares de cima e de baixo, mas não encontrou nada. Satisfeito de que não estava entrando em uma armadilha, Spade foi checar Denise. Ela estava inconsciente, vestindo apenas um roupão com o cinto desamarrado – e ela fedia a enxofre como se tivesse sido banhada nele. Os lábios de Spade se apertaram em uma linha sombria enquanto ele puxava o roupão para trás. Ele tinha se preparado para encontrar o pior, mas surpreendentemente não havia sinais de agressão. Era como se o demônio tivesse vindo, a nocauteado, e então, saído. Spade fechou o roupão dela e alisou para trás o cabelo úmido castanho escuro que cobria o rosto dela, a sacudindo devagar. “Denise, acorde.” Levou algum tempo, mas então seus olhos castanhos se abriram, focando nele – e se arregalaram em pânico. “Onde está ele? Ele ainda está aqui?” Spade continuou a segurá-la firme, fazendo com que sua voz soasse tranquilizante. “Ninguém está aqui exceto eu. Você está bem.” Denise soltou um gemido duro. “Não, eu não estou.”


Ela arregaçou as mangas do roupão para mostrar seus antebraços. Spade não pode evitar o palavrão quando ele viu as sombras em forma de estrela marcando a pele dela. Denise estava certa: ela não estava bem de forma alguma. O demônio a havia marcado. ___ Spade se sentou no tampo fechado da privada no banheiro de Denise. Ela insistiu em tomar banho, mesmo que ele tivesse que ter carregado ela até lá. Ele se ofereceu para ajudá-la a se banhar, mas ela recusou terminantemente. Humanos. Como se essa fosse hora pra ele se sentir voyeurística. De qualquer forma, ele se recusou a sair do banheiro, alegando que ele não iria querer ter a morte dela em sua consciência se caso ela escorregasse e quebrasse o pescoço enquanto tentava sair do banho. Denise respondeu amargamente que o demônio disse a ela que ela estava além da morte dos mortais depois de ser marcada. Spade não tinha certeza se isso era verdade, então ele pegou o roupão dela, deixando-a com nenhuma outra opção a não ser sentar no chão de ladrilhos e fechar o box. Ele podia ver seu contorno nublado contra o vidro enfumaçado. Ouvi-la tatear como se ela estivesse passando por todos os tipos de shampoos e sabonetes. O ar preenchido com diferentes perfumes, sobrepondo o duradouro odor de enxofre. Spade fechou os olhos. Ele tinha que levar Denise para um lugar seguro logo. Ele duvidava que o demônio tivesse saído apenas pra voltar logo em seguida, mas ela não podia ficar aqui. “Eu preciso de uma toalha.” Spade pegou duas, segurando a maior através da abertura que ela abriu no box. Ao se enrolar na toalha, ele abriu o box totalmente e, ignorando os protestos dela, ele a ergueu, usando sua mão livre pra esfregar a toalha menor em seu cabelo molhado. “Eu posso fazer isso sozinha,” ela disse, empurrando ele sem forças. “Sob circunstâncias normais, eu não duvido”, ele argumentou, carregando ela até a cama. “Mas você esteve perto de ter um demônio lhe causando uma parada cardíaca, então forçando a essência dele pra dentro do seu corpo. Ninguém estaria de pé depois disso, então pare de discutir e me deixe te ajudar.” Ela se inclinou contra ele, como se seu último resíduo de força tivesse sido esgotado naquela pequena discussão. Spade manteve o braço ao redor dela, segurando-a próximo a ele enquanto ele secava seu cabelo com uma mão e


segurava a toalha fechada ao redor do corpo dela com a outra. As pálpebras dela se agitaram, sua cabeça pendendo para descansar no braço dele. Isso deixou a extensão macia de sua garganta a meras polegadas dos lábios dele. Spade lutou contra a vontade urgente de traçar a pulsação dela com sua boca. Já fazia mais de um dia que ele tinha comido, mas a fome não era seu único motivador. Um músculo flexionou em sua mandíbula. Ele tinha esperado que o tempo eliminaria a estranha atração que ele sentia por Denise, mas certamente, ela ainda estava lá. A primeira vez que ele viu Denise foi quando ele foi para uma festa de feriado na casa de Crispin há mais de um ano atrás. Spade entrou e a primeira coisa que ele notou tinha sido uma mulher de cabelo escuro, a cabeça dela jogada pra trás em uma risada sobre algo que Cat disse. A mulher olhou em sua direção um momento mais tarde, como se ela tivesse sentido ele a observando. Sua boca carnuda ainda estava aberta com alegria, mas foi o olhar direto dela que prendeu a atenção dele. Aquilo e a carga não familiar que passou por ele enquanto ele a encarava. “Quem é ela?” ele perguntou ao Crispin. Crispin seguiu o olhar de Spade e falou. “Sinto muito, companheiro. Aquela é a melhor amiga da minha esposa.” E com essas palavras, Denise se tornou fora de alcance. Ela era humana, e Spade tinha apenas duas utilidades para mulheres humanas – alimentação ou transa casual. Uma vez que Denise era amiga de Cat, ceder ao desejo seria um insulto ao Crispin. Spade tinha reprimido aquela pontada estranha quando ele olhou pra ela novamente, mas ela já tinha se virado para sorrir para um jovem de cabelos castanhos aloirados. Foi quase um alívio quando Crispin disse pra ele que ela também era casada. Ele realmente não tinha nenhum motivo pra pensar duas vezes nela. Mas agora Denise era viúva, vestindo apenas uma toalha e, em seus braços. Difícil ignorar a atração que ele sentia por ela nessas circunstâncias. Ela não é pra você, Spade relembrou severamente. Mesmo assim, não há mal algum em notar que ela era adorável. O cabelo dela ficava mais escuro quando estava molhado, e a cor da sua pele era rosada e creme. O cheiro cruel de enxofre tinha desaparecido, deixando-a com seu próprio aroma de mel e jasmim se destacar entre os outros perfumes que a cobriam. Olhar para ela coberta pela toalha, seus olhos fechados e boca ligeiramente entreaberta, era, de longe, muito mais atraente do que quando ele a viu nua enquanto procurava por ferimentos. Spade se forçou a voltar a uma mentalidade de negócios. “Vamos vestir você,” ele disse. “Assim que estivermos em algum lugar seguro, eu entrarei em contato com Crispin. Direi a ele e Cat aonde podem te pegar.”


Os olhos de Denise se abriram vigorosamente. “Não.” “Não?” Spade repetiu, surpreso. Ela agarrou a mão dele com mais força do que ele pensou que ela fosse capaz. “Você não pode contar pra eles. Cat vai largar tudo pra ir atrás de Raum, mas ele é muito forte. Eu – eu vi do que ele é capaz. Eu não posso deixar ela lutar com ele, e se ela souber sobre isso ela vai tentar.” “Denise,” Spade soou de forma muito sensata. “Você não pode apenas ficar andando por ai fingindo que você não tem marcas de demônio em você. Você tem que encontrar um meio de removê-las, e–“ “Eu sei como removê-las.” As sobrancelhas de Spade se ergueram. Ela estava falando sério? “O demônio quer que eu encontre um velho parente meu chamado Nathaniel,” Denise continuou. “Parece que Nathaniel vendeu sua alma e depois caiu fora sem pagar. O demônio acha que ele está se escondendo com vampiros ou ghouls. Se eu encontrar Nathaniel, trazê-lo até Raum, eu me livro dessas marcas e Raum deixa o resto da minha família em paz.” Spade recuperou sua voz no meio de seu espanto. “E se você não entregar esse Nathaniel ao demônio?” Um tremor passou por Denise. “Então a essência de Raum continua crescendo dentro de mim... até eu me tornar um metamorfo como ele.”


CAPÍTULO TRÊS. Denise olhou a estrada de relance. Se ela não estivesse em circunstância tão terrível, ela estaria certa de que sua vida estaria passando em flashes na frente de seus olhos. Spade dirigia como um morcego fora do inferno, costurando o trânsito com eficiência vertiginosa e sem se importar com limite de velocidade. Quando ela mencionou que se ele continuasse assim um policial logo iria mandar ele encostar, Spade apenas sorriu e disse que tudo bem, afinal ele estava com fome. Ela tinha um pressentimento de que ele não estava brincando. Para evitar olhar para os borrões de carros e cenário passando por eles, ela estudo Spade. O cabelo dele era preto puro, se erguendo no que parecia ser um arrepiado natural no topo da cabeça, caindo em ondas brilhantes até os ombros. Sobrancelhas do mesmo tom emolduravam olhos laranja queimado. Ambos em vívido contraste com sua pele, que tinha a bela palidez cristalina que o marcava como vampiro. Mesmo sentado, ele era obviamente muito alto, mas sua altura não parecia esquisita nele como parecia em algumas pessoas. Não, Spade se erguia acima das pessoas ao redor dele com toda confiança, seus membros longos se movendo com graça e precisão. Precisão mortal. Lembranças vieram a sua mente. “Você fique ai com meus companheiros enquanto sua amiga e eu entramos nesse banco de trás,” o irônico estranho disse, agarrando Denise. No instante seguinte, ele estava no chão, nada além de sangue vermelho coagulado no lugar de sua cabeça. Spade estava sobre ele, seus olhos brilhando verdes enquanto ele chutava o corpo do homem forte o suficiente para amassar a lateral do carro. Então a pior memória de todas. Spade, coberto de sangue, afastando ela do que costumava ser Randy. “Ele se foi Denise. Sinto muito...” Ela olhou pra frente. Melhor encarar o cenário e ficar com náuseas do que encarar ele. Apesar de tudo, o zunido dos carros do lado de fora da janela não atiçou as lembranças como ele fez. Quando ela estava longe dos vampiros, ela podia fingir que Randy realmente tinha morrido em um acidente de carro, como a família dele acreditava. Mas toda vez que ela estava ao redor de vampiros, mais cedo ou mais tarde, lembranças de sangue e morte que ela tentava reprimir vinham à tona. E agora ela não tinha escolha além de se enfiar no último lugar que ela queria estar – bem no meio do mundo dos vampiros. “Eu vou precisar contratar alguém pra me levar por ai, você sabe, nos lugares aonde a sua espécie costuma frequentar,” ela disse, mentalmente calculando quanto dinheiro ela podia conseguir em pouco tempo. “Eu apreciaria se você


pudesse me indicar um vampiro investigador particular ou o que quer que seja o equivalente que vocês tenham.” Spade olhou pra ela de um jeito que ela estava começando a se encher; de um jeito que dizia que ele achava que ela era louca. “Um vampiro investigador particular?” ele repetiu. “Você está brincando comigo, não é?” “Eu sei que vocês têm vampiros que são assassinos de aluguel, então por que vocês não teriam vampiros investigadores particulares também?” ela revidou. “Eu não posso simplesmente soltar um cartaz com a descrição de Nathaniel nele e com o título “Você viu essa alma caloteira?” As mãos de Spade apertaram o volante. “Não, você não pode,” ele disse em um tom calmo. “Mas vampiros não têm investigadores particulares. Se queremos encontrar alguém, nós pedimos ao nosso Mestre para entrar em contato com outro Mestre pra ver quem possui essa pessoa desaparecida. Então, seja lá qual for o assunto, ele é resolvido entre os dois Mestres. Nós temos assassinos de aluguel motod-vivos para as vezes em que os vampiros querem pular toda aquela formalidade e não se importam com as consequências. É incabível para um humano entrar em contato com outros vampiros Mestres na busca da propriedade de alguém, que é o que Nathaniel teria que ser. E nenhum vampiro Mestre com algum respeito próprio iria ceder sua propriedade para você o levar para ser sacrificado.” Denise odiou o modo casual que Spade se referiu aos humanos como propriedade. Ele nem ao menos se tocava que isso era insultante. “Então eu irei contratar um assassino de aluguel e apenas dizer pra ele não matar Nathaniel. No que ele irá se importar se ele for pago para entregar uma pessoa viva ao invés de uma morta?” Spade murmurou algo rápido demais pra ela acompanhar. “O que?” ela perguntou, se debruçando. Ele a encarou tempo o suficiente pra ela quase bater nele pra manter os olhos na estrada. “Nenhum vampiro vai roubar a propriedade de outro vampiro para um humano, não importa quantas libras você ofereça. Isso arriscaria uma guerra, enquanto que matar um sujeito sem evidência alguma de quem fez é muito mais simples. Você deve ser capaz de conseguir um vampiro para estourar a cabeça de Nathaniel por um certo valor, mas você não vai conseguir um que o seqüestre.” Denise sentiu como se estivesse sendo esmagada no painel do carro de frustração.


Tinha que haver alguém que poderia ajudá-la. Quem mais ela conhecia que estava morto? “Vou pedir ao Rodney,” ela disse com uma explosão de inspiração. “Ele não é vampiro, ele é um ghoul. Rodney me conhece, então talvez ele esteja disposto a encontrar Nathaniel sem ninguém saber quem o fez ou quem está bagunçando a política dos vampiros.” Um músculo repuxou no maxilar de Spade. “Rodney está morto.” Denise não disse nada por um longo momento. Sua mente estava muito ocupada rejeitando a idéia de que o doce e divertido ghoul que ela conhecia estava morto. Decapitação é a única forma de matar um ghoul, ela tinha dito a Raum mais cedo. Aquele conhecimento a fez ficar enjoada agora. Por que, por que, por que alguém mataria o Rodney? “Ele era um bom homem. Não é certo,” foi o que ela disse depois de bom tempo em silêncio. Spade resmungou. “Realmente.” Denise não queria nada mais do que fechar os olhos e não ter que pensar sobre morte por uma semana. Ou um dia, ou até mesmo uma hora. Mas a menos que ela encontrasse Nathaniel, mortes na sua família apontavam no horizonte. Ela tinha que envolver Cat. Bones era um vampiro Mestre e um ex assassino de aluguel, então ele tinha a prática de encontrar pessoas combinada com a proteção da comunidade dos vampiros. Era a única escolha lógica – exceto que Bones se sentiria obrigado a salvá-la, se as coisas ficassem muito cabeludas e perigosas. Eu já tive meu marido morto, Denise pensou estupidamente. Como eu posso viver comigo mesma se eu fizer com que o marido da minha melhor amiga seja morto também? “Nós devemos estar em Springfield em poucas horas,” Spade disse. “Chegando lá nós vamos parar em um hotel e–“ Denise sentou ereta. “Você.” Ele ergueu as sobrancelhas. “Perdão?” “Você,” ela repetiu. “Você é um vampiro Mestre. Você já rastreou pessoas no passado, Cat me contou, e você não se importa comigo, então se as coisas ficarem muito perigosas, você irá cair fora sem acabar se matando. “Você é a pessoa perfeita pra me ajudar a encontrar Nathaniel.” Spade não se incomodou em dar um daqueles olhares de „você está louca‟: ele saiu da estrada e veio a parar no acostamento antes mesmo de ela ter tempo de se preocupar com o tráfego que estava vindo.


“Eu não posso largar todas as minhas responsabilidades apenas pra perseguir um humano fujão de demônio que nunca deveria ter brincado com as artes negras em primeiro lugar,” ele disse entre dentes cerrados. “Sinto muito, Denise.” O desespero a fez imprudente. “Sente muito? Duvido disso. Sim, eu sei que estou pedindo um favor enorme, mas eu não espero que você o faça por mim. Eu estava esperando que você o fizesse por seu amigo, porque você sabe que eu só terei um lugar pra ir se você não me ajudar. Mas hey, talvez você possa dizer pra Cat “Sinto muito” se Bones for morto fazendo o que você não teve tempo para fazer. Afinal de contar, é muito mais fácil dizer que você se importa do que provar.” Em um piscar de olhos ele estava próximo dela, seu rosto tão perto, ela não podia focar em um traço distinto. Mas não tinha necessidade de ver a expressão dele. O rosnado em sua voz disse a ela o quanto furioso ele estava. “Ninguém sabe que você me ligou. Ninguém sabe aonde você está. Eu teria seu corpo enterrado antes do sol se por, então eu não teria que me preocupar com Crispin se arriscando por você. Então talvez você não se importe em não me desafiar de novo pra provar o quanto eu me importo com meu amigo.” Os olhos de Spade não estavam em sua cor normal de conhaque. Eles estavam brilhando verdes, inflamados com intensidade, e Denise não tinha que ser morta-viva pra sentir o poder emanando dele. Mas ainda, o instinto lhe disse que Spade não a machucaria, não importando o quanto nervoso ele poderia estar com ela. Se fosse apenas ela que Raum tivesse ameaçado, ela se arriscaria sozinha, mas as vidas de sua família dependiam de ela convencer Spade a ajudá-la. “Então, depois de você me enterrar, talvez você possa encontrar cada membro da minha família e matá-lo também”, ela replicou. “Porque é o que Raum fará a menos que eu lhe dê Nathaniel. Quantos assassinatos você está disposto a cometer ao invés de me ajudar?” Ele se afastou, algo parecido com descrença em seu rosto. “Você está me chantageando?” Denise deu uma risada amarga. “Chantagem implica que eu tenha algo que você quer, mas eu não tenho nada... exceto a esperança de que eu não faça mais ninguém que eu me importo ser morto. Você deixou bem claro que humanos não significam muito pra você, mas será que você não pode entender isso?” Spade desviou o olhar, olhando pela janela os carros zunindo passando por eles. Finalmente ele engatou a marcha.


“Para a sua sorte, eu posso.” ___ Denise foi direto para o banheiro assim que eles chegaram ao hotel, lembrando Spade de que ele tinha negligenciado parar para que ela pudesse se aliviar ao longo do caminho. Ela não tinha dito uma palavra, pobre garota. Sem dúvida ela estava com fome também. Ele escutou o chuveiro ligar e decidiu pedir por ela ao invés de esperar e perguntar suas preferências. Com o dia que ela teve, ele ficaria surpreso se ela estivesse acordada quando a comida chegasse. Spade não tinha dirigido direto para sua casa porque ele queria esclarecer algumas coisas antes de eles terem plateia. Ele pediu por um quarto no hotel, querendo estar perto no caso do demônio, de algum modo, ter seguido eles, apesar de que era improvável. Mesmo assim, não era bom baixar a guarda quando se tratava de demônios. Raum poderia tentar atacá-lo de emboscada e mantê-lo refém como incentivo para conseguir mais cooperação no mundo imortal. Spade não subestimaria um demônio. Era uma boa coisa que eles eram tão raros, ou a humanidade teria muito mais para se preocupar do que apenas com ocasionais vampiros ou ghouls criminosos. Ele tirou os sapatos, se esticando para se ajeitar na cadeira super estofada. Era uma bonita cadeira aquela em que ele estava. Como encontrar Nathaniel sem ninguém perceber que ele estava procurando por ele? Se ele declarasse sua busca por ele, então Spade seria o suspeito óbvio quando Nathaniel desaparecesse – e ele não podia se dar ao luxo de se envolver em outra guerra dos mortos-vivos. Sem mencionar que ele teria que esconder o fato de que Denise estava com ele. Se uma palavra chegasse até Crispin, ele instantaneamente suspeitaria de problema. Mas ninguém mais realmente conheceia Denise. Poucos tinham visto a aparência da Denise, e entre eles, muitos estavam mortos agora. Quem iria dizer que Denise não era apenas mais um doce lanchinho com quem ele estava viajando? Desde que ele evitasse Crispin, Cat e o resto de seus amigos próximos, havia uma chance de que ele pudesse encontrar Nathaniel sem ninguém saber que Denise estava envolvida. Spade não quis calcular as chances disso. Não importa que a sabedoria diga que ele precisava evitar Denise, por mais de um motivo, ele realmente não tinha escolha além de ajudá-la. A porta do banheiro abriu e ela saiu, vestindo um roupão com o nome do hotel bordado nele. Spade indicou o armário onde ele tinha colocado a mala dela. Ela retirou alguns itens de dentro e então ficou lá parada, mordendo o lábio como se estivesse se decidindo se falava ou não.


Spade arqueou uma sobrancelha. “Diferente de alguns vampiros, eu não posso ler mentes, então o que quer que seja, você vai ter que dizer em voz alta.” “Eu quero que você saiba que eu pretendo pagar pelo seu tempo,” ela disse, as palavras saindo atropeladas. “E reembolsar você por qualquer despesa, como esse quarto de hotel.” Primeiro ela tinha manipulado ele e agora ela o insultava. “Não.” Ela piscou. “Não?” “Eu entendo sua confusão,” Spade disse de forma macia, “já que parece que você não escuta essa palavra com frequência, mas permita-me explicar. Isso significa que eu não sou seu empregado. Significa que você fará o que eu disser para que eu possa encontrar seu parente ganancioso, e isso significa que suas preferências no negócio não me importam. Bem esclarecido agora para a sua definição?” Ela olhou pra ele com um olhar que poderia cortar aço. Ele notou, com um leve divertimento, que os olhos castanhos dela, pareciam esverdeados quando ela estava nervosa, quase como os olhos dos vampiros no início, antes de eles mudarem de cor completamente. “Nesse caso, eu estou faminta, então eu espero que esse hotel tenha serviço de quarto e um bom filé,” ela respondeu com uma brusquidão pouco contida. Ele soltou uma gargalhada. “Eu já pedi alguma coisa pra você.” Como se fosse planejado, bateram na porta. Spade levantou, parando pra ter certeza de que ele sentia apenas um humano do outro lado. Um jovem uniformizado lhe deu um sorriso mecânico enquanto colocava o carrinho pra dentro. “Aonde você gostaria que colocasse isso, sir?” “Ao lado dela,” Spade disse, e fechou a porta. Ele deixou o sujeito destampar os pratos e falar seus conteúdos para Denise, que parecia surpresa com a variedade de itens em sua frente. Então quando ele se virou para Spade com uma expressão ansiosa e educada, Spade o atingiu com seu olhar. “O que você está fazendo?” Denise arfou. Ele a ignorou, focado na veia pulsante que o chamava. Uma rápida escorregada de suas presas produziu o rico fluxo de sangue. Spade esperou antes de engolir, permitindo que sua boca se enchesse de sangue sem ter que sugar, formando um selo para evitar que qualquer uma daquelas gotas vermelhas escapasse.


Denise o encarou, incerteza explícita nas suas feições. Spade a olhou, esperando que ela não fizesse nada estúpido, como gritar. Ela não gritou, mas sua mão foi até a boca como se estivesse segurando um grito. A fome mortal dentro dele sossegou depois de sua quarta engolida. Ele recuou, lambendo as gotas restantes antes de fechar os buracos cortando seu dedão em uma presa e o colocando sobre eles. Em segundos, seu sangue curou os furos, os fazendo sumir de vista. “Você entregou a comida e saiu. Nada mais aconteceu,” Spade disse, colocando uma nota de 20 na mão do sujeito. Ele concordou, aquele sorriso artificial retornando ao seu rosto assim que a lembrança do que aconteceu evaporou sob o poder do olhar de Spade. “Tenha uma boa noite, senhor,” ele disse. “Muito obrigado. Eu telefonarei quando ela acabar a comida.” Spade fechou a porta. Denise ainda o estava encarando. “Você mordeu ele. Você nem ao menos... você simplesmente mordeu ele.” Ele deu de ombros. “Você não era a única com fome.” “Mas...” Ela ainda parecia sem palavras. “Você viveu com Cat e Crispin por mais de um mês; você nunca o viu se alimentar?” “Ele nunca o fez na minha frente!” Denise exclamou, como se ele estivesse sugerindo algo absurdo. Spare revirou os olhos. “Você vai ter que se acostumar com isso, porque eu não tenho intenção de morrer de fome.” Denise olhou pra baixo, para a comida fria na bandeja. “Eu acho que perdi o apetite,” ela murmurou. Ele engoliu o que teria sido uma resposta aborrecida. Não havia necessidade de brigar com ela quando ela já tinha tido um dia verdadeiramente terrível. “Sinta-se a vontade na cama. Eu vou dormir na cadeira,” ele disse, tirando sua camisa. Ele estava tirando as calças quando a expressão de Denise o fez parar. Certo, humanos e sua modéstia boba. Já fazia tempo que ele tinha estado entre mortais normais. Os que eram associados a ele eram todos familiarizados com o estilo de vida e os hábitos de um vampiro. Ele teria que relembrar o que era apropriado e o que não era. “Eu te arrastei pra isso,” ela disse com teimosia. “Eu fico com a cadeira.”


Ele quase virou os olhos de novo. Como se ele fosse permitir uma mulher se enfiar em uma cadeira enquanto ele se esticava na cama. “Não.” “Eu me sentiria melhor se–“ “Eu não,” ele a cortou. “E vou te lembrar novamente que já que eu estou te ajudando, o mínimo que você pode fazer é não discutir comigo por cada coisinha.” Frustração e desafio competiam nos traços do seu rosto, mas ela calou a boca. Bom pra você, querida. Talvez isso não seja um fardo, afinal de contas. “Durma bem, Denise.”


CAPÍTULO QUATRO. Ela acordou com os sons de um sotaque britânico. Por um momento ela estava confusa. Ela tinha deixado a TV ligada? Então ela recordou dos eventos do torturante dia anterior. Paul, assassinado. Ela marcada por um demônio. O dono do sotaque, um vampiro que não queria nada com ela, mas que era a única esperança de sua família. “Ah, você está acordada,” Spade disse, fechando seu celular com um click. “Eu pedi café da manhã pra você, considerando que você não tocou na sua comida noite passada.” A boca dele se curvou em um sorriso irônico. “Você ficará satisfeita em saber que dormiu durante o meu café da manhã. Talvez agora você seja capaz de manter seu apetite.” “Você come os funcionários do serviço de quarto toda vez?” Denise perguntou, chocada. “Claro. Mas não se incomode por eles. Eu sempre dou boas gorjetas.” Uma pontada de dor em seu estômago chamou sua atenção para o carrinho com os pratos cobertos e o cheiro de dar água na boca que vinha deles. Inesperadamente esfomeada, Denise jogou as cobertas e foi para o carrinho, destampando os recipientes mais próximos a ela. Panquecas. Ela pegou uma e enfiou na boca, fechando os olhos em êxtase. Tão boa. Acabou tão rápido. Ela agarrou outra, com fome demais para se preocupar com calda ou talheres, e enfiou na boca. Mmmmm. Delicioso. Mais. Ela tinha acabado de terminar a terceira panqueca quando percebeu que Spade a estava observando. Ele desviou o olhar para o prato dela vazio, então para os talheres intocados e novamente para ela. Denise sentiu um rubor aquecer seu rosto. O que estava errado com ela? Não fazia tanto tempo assim desde que ela tinha comido. “Eu, hum, estava realmente com fome,” ela gaguejou. A boca dele se curvou. “Parece que sim”. Como que para enfatizar, outra pontada a atingiu no estômago, seguida de um ronco bem alto. Denise forçou-se a arrumar o guardanapo direitinho em seu colo, pegar os talheres e cortar o conteúdo do próximo recipiente – country fried steak* e ovos, o favorito dela! – em pequenos pedaços antes de dar a próxima mordida. Até aquele momento, o ronco em seu estômago tinha aumentado para quase um rugido. Spade continuou a observá-la, aquele meio sorriso ainda curvando sua boca.


*É um pedaço de filé (cubo de filé amaciado) empanado com farinha temperada e frito na frigideira. Ele é associado à cozinha do sul dos Estados Unidos e a hospitalidade. “Sempre apreciei ver uma mulher com um apetite saudável,” ele disse, com um tom claro de divertimento. Denise parou com a simulação e espetou dois bocados de steak frito de uma vez, mastigando enquanto dava à Spade um olhar que o desafiava a fazer qualquer comentário. E daí que ela estava com um pouco de fome demais no momento para comer como passarinho, quem se importava? Talvez fizesse mais tempo do que ela imaginava desde a última vez que ela comeu. “Você tem um plano para como nós vamos começar a procurar por Nathaniel?” ela perguntou depois de terminar todo o steak e ovos. Seria muito grosseiro ela passar para o próximo recipiente brilhante? Dane-se. Quem ia saber quando eles parariam para outra refeição? “Tenho,” Spade respondeu. “Nós vamos começar com a minha linha. Apesar de eu não ter nenhum sujeito chamado Nathaniel nela, quem pode garantir que seu ancestral não mudou seu nome? Você se lembra de como ele se parece quando Raum te mostrou, não é?” Denise estremeceu. “Sim.” Como se ela pudesse esquecer todas as imagens horríveis que Raum tinha forçado pra dentro de sua mente. “Bom. Eu vou realizar uma reunião e você pode observar entre as características do meu pessoal. Ver se você reconhece algum deles.” “Você sabe, é realmente rude o jeito que você se refere aos humanos como propriedade. Eu sou humana também, lembra?” Algo brilhou em seu olhar. “Eu me lembro muito bem. É por isso que eu irei te apresentar para a minha linhagem como minha mais nova peça de propriedade.” O queixo dela caiu. “Oh não, você não vai.” Ele acenou uma mão elegante. “Você não quer que Crispin ou Cat descubram o que você está para fazer, então esse é o melhor disfarce. Eu não namoro humanos; isso é de conhecimento comum. Mas eu tenho outras utilidades para eles, e ninguém iria questionar um vampiro viajando com sua propriedade. De fato, nós raramente vamos a algum lugar sem um ou dois deles junto. A expressão dele praticamente a desafiou a discutir com ele. Denise parou. E se isso fosse o jeito de Spade tentar sair dessa de ajudá-la? Se ela se recusasse a ir em frente com essa farsa, ele poderia abandoná-la sem pensar


duas vezes. Talvez ele não estivesse tão preocupado em manter Bones fora disso como ela tinha negociado. “Tudo bem,” Denise se forçou a dizer, pensando em seus pais. Um pouco de constrangimento não era nada se isso resultasse em salvá-los. Denise ajeitou seu garfo e começou a comer a salada de frutas do próximo recipiente. “Bom,” ele disse por fim. “Nós estaremos em St. Louis hoje mais tarde.” ___ Spade fechou seu celular. Aquela era a última das ligações que ele precisava fazer. Embora não fosse comum para ele reunir seu pessoal para apresentar um novo humano como propriedade, ele esteve viajando a maior parte do ano passado, então muitas coisas haviam acumulado e que precisavam de sua atenção. Denise esteve muito quieta nos últimos três dias. Ele suspeitava que tivesse a ver com a ligação que ela fez para sua família, dizendo a eles que ela estava se retirando para sofrer por seu primo em particular. Pelo que Spade pode ouvir, aquilo não tinha ido muito bem, embora ela não pudesse explicar que ela não estava os abandonando em um momento de necessidade deles, mas que ao invés disso ela estava tentando ajuda-los. Entretanto, seu período de incubação tinha que terminar. Se Denise escorregasse em seu papel como sua mais recente propriedade em frente ao seu pessoal, Spade poderia conter os resultados negativos. Em frente de outro vampiro Mestre, um que não fosse aliado? Isso poderia ser mortal. Você precisa se levantar Denise, ele pensou. E eu sei como ajudar. Spade desceu para o primeiro andar, imaginando que encontraria Denise na cozinha. Ela tinha comprovado ter um apetite voraz independente de seu humor. Todas as suas residências tinham uma cozinha para garantir que os membros humanos de sua linha fossem bem alimentados. Henry, o chef de sua casa em St. Louis, tinha estado mais ocupado desde que Spade chegou com Denise. “Criador,” Henry disse ao Spade. Ver a reação da Denise divertiu o Spade. Ela estava de costas para ele, mas o endurecimento de seus ombros foi evidente. Seu título entre os membros de sua linhagem deixava Denise desconfortável. Isso não incomodava Spade. Afinal de contas, ele já foi chamado de algo mais formal quando ele era humano.


“Henry.” Spade acenou para o jovem homem antes de sentar perto de Denise na mesa da cozinha. Pela aparência do prato dela, ela esteve comendo lasanha, com muito alho. Ele reprimiu um sorriso. Cat tinha contado muito sobre vampiros para Denise, mas não tudo. Spade pegou um pedaço de alho levemente frito do prato dela e comeu, fazendo questão de fazer som de êxtase fingido. “Ah, Henry, delicioso. Eu vou pegar um prato pra mim.” “Isso não vai te fazer mal?” Denise perguntou surpresa. Ele se manteve sem expressão. “Eu posso comer comida sólida. Apenas prefiro não comer, na maioria das vezes.” “Não isso.” Denise balançou a mão. “Alho. Não faz mal para vampiros?” “Realmente não. Essa é uma das razões que eu aprecio tanto visitar a Itália. Não se pode dobrar uma esquina sem dar de cara com uma veia temperada cheia desse sabor delicioso.” Spade lambeu os lábios. Denise viu e empalideceu, empurrando seu prato. Esse foi o máximo que ele aguentou conter sua risada. “Eu tenho um presente pra você,” ele disse, como se ele nem tivesse percebido a reação dela. O olhar dela ficou coberto de suspeita. “Por quê?” Ela realmente precisava trabalhar sua habilidade de atuação. Nenhum humano novo em sua linha usaria esse tom com ele, especialmente com outros ao redor. Ele se levantou. “Venha.” “Criador, você ainda gostaria da comida?” Henry perguntou. Spade estendeu a mão para Denise. Ela parou. “Mantenha a comida quente pra mim,” ele disse para Henry, e endureceu o olhar para Denise. Pegue-a, ele disse pra ela bem baixinho. Ela colocou sua mão na dele. Ela estava quente, quase febril, exceto que não havia indícios em seu olhar que indicassem doença. Não, eles estavam brilhando com irritação por causa do seu jogo de poder. Spade ignorou isso, segurando sua mão e puxando ela da cadeira. Ele não a soltou quando ela já estava de pé, apesar de ela ter dado um puxão. “Vamos para o meu quarto, querida,” ele disse, tendo certeza de que sua voz estava alta e clara.


Os olhos dela se apertaram. Ela tinha dormido em um quarto sozinha desde que eles chegaram porque demônios não poderiam entrar em residências particulares, mesmo que Raum os tivesse seguido através de vários Estados. Mas isso não chegou até aqui para agora haver dúvidas entre as pessoas da posição dela com ele. Para o mérito dela, Denise não soltou uma recusa indignada. Ela apertou os lábios e o deixou guiar pela escada acima. Se ele não a conhecesse, ele acharia que a temperatura dela aumentou um grau quando eles chegaram ao quarto dele. Lá dentro, ele fechou a porta e soltou a mão dela. “Há limites de até onde eu estou disposta a ir nessa encenação.” Ele não mostrou sua irritação perante a implicação dela de que ele tinha usado as circunstâncias para forçá-la a ir para a cama. “Diga quais são.” Do jeito que a boca dela abriu e fechou, ela não tinha esperado essa resposta. Finalmente ela disse, “Levaria menos tempo listar as coisas que eu faria.” “Então liste-as, e eu lhe direi se você precisa adicionar algo.” Aquele olhar desafiador estava de volta no olhar dela. Spade sorriu por dentro. Raiva era bom para o espírito dela. Era ruim para o plano dele se ela não pudesse balanceá-la com bom senso, mas o tempo iria provar se Denise era tão esperta quanto era adorável. “Tudo bem.” Ela endireitou os ombros, seu cabelo escuro farfalhando com o movimento. “Obviamente eu estou disposta a fingir com você quando as circunstâncias pedirem por isso. Eu posso agir subserviente se for necessário, mas não espere isso quando estivermos sozinhos. Eu posso agir de forma carinhosa e até mesmo te beijar para fazer as coisas parecerem reais. Mas pára ai, e eu não vou deixar você beber de mim.” Spade não pode se segurar. “Com todo aquele delicioso alho em seu sangue? Vou chorar.” O olhar dela estreitou. “Você está tirando sarro de mim.” Ele se permitiu sorrir. “Um pouco.” “Você terminou?” Ela empinou o queixo e os ombros. Spade aumentou o sorriso. Se ela soubesse que sua postura agressiva fazia seus seios se sobressaírem de forma tentadora, ele particularmente duvidava que ela mantivesse essa postura. E longe dele dizer tal coisa vulgar em voz alta. Spade deixou esse pensamento de lado, porque ele levava a outros que era melhor não explorar. “Sendo esses seus limites, eles bastam, embora você


precise superar sua aversão de ficar próxima a mim. Vampiros frequentemente são carinhosos em público com suas propriedades. Se eu tivesse que me inclinar para perto de você ou colocar meu braço ao seu redor, pareceria estranho se você pulasse como se tivesse sido esfaqueada.” Denise teve a boa vontade de parecer envergonhada. “Desculpe, eu vou trabalhar isso.” “Certamente.” Ele não pode manter a secura fora de seu tom. “E mesmo que eu confesse que foi divertido ver você se entupindo de alho nos últimos dias, você não precisa ter medo de que eu morda você.” Um alívio tão grande transpareceu no rosto dela que ele ficou dividido entre ser divertido e ser insultado. Será que ela estava prestes a investir em uma coleira de prata em seguida? “Quanto as coisas irem além de beijar, você não tem com o que se preocupar também,” ele continuou, sondando ela com o olhar. “Não me faltam parceiras na cama, então eu não preciso implorar por migalhas.” Ela puxou o ar, aqueles olhos castanhos parecendo mais verdes com sua raiva. Tinha que ser um golpe de luz, mas novamente, eles o lembravam os olhos de um vampiro. Ele deu outra passada de olhos nela, mais devagar dessa vez. Uma pena que ela não era uma vampira. Se fosse, ele podia esquecer que Denise estava sob a proteção de Crispin. Ele podia esquecer que ele não misturava prazer com negócios, e ele podia testar se ela tinha superado a tristeza por aquele pobre sujeito que foi rasgado em pedacinhos. Spade avançou um passo, algo dentro dele se incendiando quando ele percebeu a mudança na respiração dela. Ela ficou mais rápida, assim como suas batidas do coração. Ele deu outro passo e então o cheiro dela mudou também, aquela fragrância de mel e jasmim ficando mais forte. Com mais um passo ele estava a apenas um passo de distância dela, capaz de sentir a aura de calor que o corpo dela emanava. Os olhos dela estavam arregalados, mais marrom do que verdes agora, e sua boca – carnuda, sedutora – abriu ligeiramente. O gosto dela seria de mel e jasmim se ele a beijasse? Ou ela teria um sabor mais rico e sombrio, como as profundezas do seu espírito que ele vislumbrava em seus olhos? Abruptamente ele girou sobre os calcanhares. Denise não era uma vampira, então não havia o porquê ficar pensando tais coisas. Eles encontrariam Nathaniel e o dariam a Raum. Então, assim que ela tivesse aquelas marcas de demônios retiradas, ela iria pra longe dele, para logo morrer assim como todos os humanos faziam. E ele não ia passar por tudo aquilo de novo. “Seu traje para hoje a noite está na penteadeira,” ele disse, e bateu a porta atrás dele.


CAPÍTULO CINCO. Denise respirou fundo e tentou agir de forma indiferente. Era bom que o hotel tivesse aquecimento ou, com o que ela estava vestindo, ela iria congelar. Um atendente pegou seu casaco assim que Denise entrou no salão de bailes Khorassan com Spade. Era um lugar enorme, onde cabiam bem mais de 2 mil pessoas, e até o momento estava quase lotado. O tamanho total da linha do Spade era incrível. Então assim que ela estava sem seu casaco, mesmo em meio a tantas pessoas, as cabeças se viraram. Denise ergueu o queixo e se recusou a se encolher. Vá em frente, olhem. Vocês viram mais pele em uma praia, isso não é tão chocante. Exceto que isso não era uma praia, apesar de que o que ela estava vestindo parecia inspirado em um biquíni. Seu top era um boleto transparente e a parte de baixo combinando parecia saída direto de um filme de Jeannie é um Gênio. Vampiros são pervertidos, todos eles, Cat tinha dito em várias ocasiões. Se isso estava dentro dos padrões normais de vestimenta de uma “propriedade” para um evento de mortos-vivos, então Cat estava coberta de razão. Denise esperou uma observação sarcástica do Spade quando ela desceu as escadas com sua vestimenta ridícula. Por que ele estaria divertido? Foi ele quem arrumou esse traje de garota de harém para ela vestir. Mas ele apenas olhou pra ela por meio segundo e então lhe entregou um casaco, lembrando que estava frio lá fora. Claro que estava. Fevereiro em St. Louis não costumava ter o clima agradável. Se Spade tivesse um coração, ela estaria vestindo calças e blusão. Ele não estava parcamente vestido, usando um casaco preto longo sobre uma camisa branca e calças pretas que se ajustavam tão bem nele que, elas tinham que ser feitas sob medida. Com sua aparência impressionante, Spade praticamente transbordava elegância e aqui estava ela, como uma imitação barata de Scheherazade*. Então, o mínimo que ele podia fazer era perder um tempo para apreciar como a fantasia que ele a forçara vestir tinha ficado nela. Ou perceber de maneira lisonjeira que ela tinha feito cabelo e maquiagem. *Esposa do rei persa Xeriar, dos contos Mil e Uma Noites. Ela podia estar sendo apresentada como uma propriedade, mas ela iria garantir que as pessoas soubessem que essa propriedade era de alta qualidade, droga! Ainda que Spade mal tenha olhado pra ela durante a viagem de 20 minutos de carro até o hotel Chase Park Plaza. Ele também não falou, exceto para trocar algumas palavras com o motorista. Se ele não tivesse aberto a porta do carro para ela entrar e sair, ela poderia pensar que de alguma forma ela tinha se


tornado invisível. Para colocar mais insulto a ofensa, ele a deixou assim que eles entraram na grande sala. Denise agarrou uma taça de champanhe de um garçom que estava passando então assim ela pareceria ocupada ao invés de apenas ficar lá de pé como uma estátua. Por que você se importa que Spade esteja sendo frio com você? Uma pequena voz dentro dela perguntou. Eu não me importo, Denise respondeu. Se fosse possível ouvir uma zombaria interna, ela teria ouvido. Ela ignorou, se concentrando nas pessoas ao redor, ao invés da idiota dentro dela. Assim que ela começou a observar as pessoas, entretanto, ela percebeu que tinha cometido um erro. Tantos rostos pálidos. Aqueles movimentos rápidos e propositais. Carne fria ao redor dela. Presas por todos os lados. Todos aqueles olhos brilhando... Um pânico familiar começou a crescer dentro dela. Denise tentou lugar contra ele, mas ele cresceu sem dó, sufocando Denise com suas lembranças. “Eu tenho que sair daqui,” ela murmurou. Spade virou a cabeça para olhar ao redor. Ele estava do outro lado da sala, falando com alguém, deixando-a rodeada pelas criaturas de seus pesadelos. Vampiros por todos os lados. O sangue viria em seguida. A morte viria em seguida. Sempre vem. As memórias ficaram mais intensas até que elas a consumiram. Aquele uivo terrível chegando perto. Todos aqueles outros gritos. Nós estamos presos e eles estão vindo. Algo agarrou seu braço. Denise deu um puxão, aterrorizada, mas a mão firme e fria não a soltou. “Me solta,” ela gritou. “O que há com ela?” alguém murmurou. Denise não podia entender porque a pessoa parecia tão inocente. Porque não estavam todos correndo? Eles não percebiam que aquelas coisas estavam vindo e que elas não podiam ser mortas? Aquela mão apertando seu braço se intensificou e outra foi colocada na frente da sua boca. Ela se debateu mas não conseguia se libertar. Não há esperança. Nós estamos presos no porão, e eles estão vindo. A qualquer momento a porta vai se escancarar e uma figura grotesca vai saltar sobre mim. Não. Não. NÃO! Água fria espirrou em seu rosto. Ela piscou, tossindo um pouco e conseguindo levantar a mão para evitar o segundo jato gelado. “Pare.” Spade pairava sobre ela, uma mão sob uma torneira aberta. Ela piscou de novo. A parte de frente dela estava ensopada e ela estava tremendo, encolhida


como uma bola no chão do banheiro. E ela não fazia idéia de como tinha ido parar lá. “De novo não,” ela lamentou. Spade fechou a torneira e se ajoelhou na frente dele. “Você sabe onde você está agora.” Era uma afirmação. Ela apoiou a cabeça no armário perto dela, dando uma leve cabeçada em completa frustração. “Mais ou menos há cinco quilômetros da Cidade da Loucura com meu pé no pedal, eu diria.” Spade emitiu um som que parecia um suspiro. “Isso já aconteceu antes?” “Já faz meses que não. Não desde...” Um olhar de quem conhece a situação passou pelo rosto dele. “Não desde que você me viu matar aquele sujeito,” ele terminou a frase por ela. “Por que você não me disse que sofria de Transtorno de Estresse Pós-Traumático?” Agora que aquele episódio tinha passado, ela se sentiu envergonhada. “Eu disse que fazia tempo que não acontecia, e por acaso essa era a minha preocupação quando eu te vi de novo?” Denise levantou os pulsos para enfatizar. As marcas de demônio estavam escondidas por largos braceletes de ouro e prata, mas os dois sabiam o que estava debaixo deles. “Eu arruinei o plano para essa noite, não foi?” Ela gemeu. “Eu não posso acreditar que deixei isso acontecer.” Spade esfregou o rosto dela com uma das toalhas de papel. “Se eu tivesse prestado mais atenção eu teria antecipado essa possibilidade. Nós vamos embora agora. Podemos dar um jeito de como conseguir olhar os outros depois.” “Não.” Denise pegou a toalha da mão dele e passou debaixo dos olhos. Devia ter rímel por todos os cantos. “Nós estamos aqui. Vamos fazer isso. Eu vou ficar bem se – isso soa tão patético – eu vou ficar bem desde que você não me deixe sozinha de novo. Estar sozinha com todos aqueles vampiros em volta de mim me lembrou muito daquela... daquela noite. Eu não sei se é possível esse tipo de coisa.” Algo passou pelo rosto dele, muito rápido para ela conseguir interpretar. “Eu não vou te deixar sozinha.” Ele segurou a mão dela. “Por favor.” Ela colocou a mão na dele. Então ela se olhou de relance no espelho. “Minha maquiagem está arruinada.”


“Besteira, você está linda. Na verdade, eu já recebi ofertas sobre você duas vezes”. Tinha uma certa hesitação na voz dele. Denise não poderia dizer se era divertimento ou irritação. Ela decidiu não perguntar. “Tenho certeza de que isso irá mudar depois do meu episódio psicótico. Geralmente isso deixa uma má impressão. Por acaso, isso leva a um ponto. Você não está preocupado que por ai, uma de suas pessoas diga a Bones ou a Cat „Hey, eu reconheço aquela morena. Ela é a maluca que pertence a linhagem de Spade‟ e então seu papel nisso tudo será desmascarado?” O olhar do Spade encontrou o dela, os olhos cor de cobre queimado dele distantes e insondáveis. “Não. Porque nós dois sabemos que você não tem intenção de ver ninguém do mundo dos vampiros novamente uma vez que isso estiver acabado.” Denise desviou o olhar. Seus ataques de pânico apenas tinham acalmado depois que ela cortou os laços com Cat ou com qualquer outro que não fosse humano. De jeito nenhum ela iria voltar a estar à mercê de suas memórias, sem nunca saber quando sua mente iria lhe pregar peças fazendo-a achar que ela estava de volta àquela emboscada na véspera de Ano Novo. “Você vê o que estar por perto da sua espécie faz comigo. Eu não quero viver assim, e eu sei como fazer isso parar.” A mão dele ainda estava segurando a dela, seu toque firme, frio, seguro e com uma base forte que era absolutamente não humano. “Certo, então,” ele disse finalmente. “Vamos ver se podemos apressar esse dia pra você.” ___ Denise se sentou a direita dele na mesa enfeitada no salão de baile, inconsciente que esse era o motivo por trás dos discretos olhares de admiração que ela estava tendo. Sem dúvida ela pensou que era devido a como ela gritou e apagou de choque um pouco antes. Ela não percebeu que tal explosão daria tanta repercussão entre os membros da linha dele. Uma humana histérica? Quem nunca tinha visto isso antes? Mas o que o povo dele não tinha visto era uma mulher com batimento cardíaco sentada a sua direita durante um evento formal. Tal lugar indicava posição muito mais alta do que mera propriedade, mas sua esquerda estava reservada para Alten, o vampiro mais velho de sua linhagem. Spade pretendia que Denise sentasse atrás dele, o que era adequado para uma propriedade – mesmo uma propriedade favorecida. Mas enquanto isso seria o prudente a fazer, e até mesmo suficiente para a PTSD dela, ele descobriu que estava relutante em


largar a mão dela. E isso era algo que significava problema em qualquer idioma que ele conhecia. Se Deus existisse, Nathaniel estaria entre as pessoas aqui presentes e Spade o entregaria para o demônio essa noite. Spade até mesmo colocaria um laço de fita no sujeito e desejaria a Raum um bom jantar, desde que isso significasse que Denise saísse imediatamente de sua vida. Ele não podia se permitir se importar por uma humana. Não de novo. Ainda que o cínico dentro dele não estivesse surpreso de que depois do detalhado longo processo de apresentação de Denise as centenas de pessoas, vivas e mortas, em sua linha, ela balançasse a cabeça em decepção. “Ele não está aqui,” ela sussurrou. Spade engoliu um palavrão. Certo. Teria sido fácil demais se ele estivesse. Alten se inclinou e lhe entregou um CD. “Finanças,” ele disse. Eu passei rapidamente sobre os números. Tudo parece correto, exceto por Turner. Ele fracassou seu segundo trimestre seguido.” Spade distraidamente continuou a afagar os nós dos dedos de Denise. A pele dela ainda estava mais quente do que deveria estar. Será que ela tinha pegado alguma doença? Talvez ele não devesse ter tentado irritá-la para tirá-la da depressão com a roupa ridiculamente diminuta que ela estava usando. “Mmmmph,” ele resmungou. Alten olhou para ele. “Pelo segundo trimestre seguido,” ele repetiu. Spade voltou sua atenção para os outros vampiros. Sim, certo, a recusa de Turner de pagar 10% de seu salário era um assunto a se resolver. Todo vampiro devia isso ao Mestre de sua linha. “Turner,” ele chamou. “Você tem um motivo por não ter pagado seu dízimo?” O vampiro loiro abriu caminho entre os outros até ficar em frente à mesa. Ele fez a reverência apropriada, mas quando Spade sentiu o odor de Turner e viu a revolta em sua expressão, ele deu um suspiro mentalmente. Turner estava pra se meter em algo terrível. “Eu não paguei meu dízimo porque eu quero minha liberdade de sua linhagem, criador,” Turner disse, endireitando seus ombros. Spade olhou pra ele, sua paciência diminuindo a cada segundo. “morto-vivo por apenas quarenta e quatro anos e você acha que está pronto pra se tornar Mestre de sua própria linhagem?”


“Sim,” Turner disse. Então, com ainda mais arrogância, “Liberte-me para ser meu próprio Mestre. Eu não desejo lutar com você, mas se você negar meu pedido, eu irei te desafiar.” Estúpido. Afobado. Tolo. “Excesso de confiança assim é exatamente o porquê você não está pronto para liderar sua própria linhagem ainda. Sua precipitação faria você ser morto e então todos que você criou seriam deixados sem proteção. É por isso que eu recuso seu pedido de liberdade, Turner, e se você continuar com sua intenção de me desafiar, eu prometo que você irá se arrepender disso.” Com o canto dos olhos, Spade viu Denise olhar de um para o outro, entre Turner e ele. Ele deu uma olhada nela e viu que seu rosto estava pálido. Ela pode não conhecer um monte de coisas sobre a sociedade dos vampiros, mas estava claro que ela entendia que a menos que Turner tivesse um súbito lampejo de inteligência, as coisas iriam ficar sangrentas. Aquilo podia ser desastroso para a trabalhosa calma que ela conseguiu mostrar nas últimas horas, rodeada por mais mortos-vivos do que pessoas vivas. Spade voltou a olhar para Turner. Turner olhou ao redor, e então sua mão foi para seu cinto, aonde ele tinha uma faca de prata. “Eu o desafio.” Muito devagar, Spade soltou a mão de Denise. Então ele se inclinou para ela, sua boca quase tocando o ouvido dela. “De acordo com minhas leis, eu devo responder a isso. Eu farei Alten esperar com você no carro. Isso não deve demorar.” “Vou ficar.” Ele endireitou o corpo para ver o rosto dela. Ela ainda estava muito pálida e suas unhas arranhavam sua perna, mas sua voz estava firme. “Isso pode não ser sábio...” “Se eu sentir que vou surtar, eu saio, mas até lá, eu fico.” Mulher teimosa. Ninguém tinha algum juízo essa noite? Spade levantou, dando uma olhada séria para Alten. “Se ela quiser sair, leve-a para o carro e me esperem lá.” Alten rapidamente disfarçou sua surpresa com um aceno com a cabeça. As pessoas não decidiam levantar e sair no meio de um duelo. Principalmente não uma propriedade. “Como você desejar.”


Se ele estivesse sendo lógico, ele teria feito Alten levar Denise para o carro agora. Ao invés disso ele estava dando mais motivos de especulação sobre Denise, primeiro por colocá-la sentada do seu lado direito e agora por deixá-la argumentar com ele em público. Ninguém tem algum juízo essa noite, Spade pensou cansadamente. Muito menos eu. Ele deixou esse pensamento de lado e focou sua atenção em Turner. Ele teria que fazer dele um exemplo, ou então ele seria inundado por desafios de outros jovens vampiros achando que estavam prontos para o que eles não poderiam lidar. Spade tirou sua camisa e a colocou em sua cadeira, sem tirar os olhos de Turner. “Retire seu desafio ou você terá sorte se eu te deixar viver.” Turner balançou a cabeça. “Não.” Então, que seja.


CAPÍTULO SEIS. Denise não podia tirar os olhos dos dois vampiros circulando um ao outro, mesmo que seu bom senso gritasse para ela não assistir. Ela e Alten ainda estavam sentados a mesa, mas todos os outros colaram as costas nas paredes, dando a Spade e Turner a maioria da sala para sua luta iminente. As portas do salão de baile estavam protegidas e a equipe do bufê foi rapidamente hipnotizada por olhos verdes brilhantes levando-os a não notar a abrupta mudança na atmosfera da festa. Mesmo estando em um hotel público não evitaria que esse duelo acontecesse. Para piorar, Spade estava desarmado enquanto Turner tinha uma faca de prata. Ela se inclinou sob o assento vazio até Alten. “Por que não é permitido Spade ter uma arma?” ela sussurrou. O vampiro parecia estupefato por ela ter falado com ele, mas ele respondeu em uma voz baixa, “É permitido. Ele apenas escolheu não usar uma.” “Por que?” Denise quis saber. Dúzias de cabeças viraram em sua direção. Até mesmo Spade parou seu andar predatório para lançar a ela um olhar que dizia tudo. Certo. Acho que não é o comportamento apropriado de uma “propriedade” querer saber porque Spade lutaria desarmado contra um vampiro que tinha uma maldita faca grande! Algo ficou borrado, então um corte vermelho apareceu no peito de Spade. De alguma forma, os dois vampiros estavam agora a vários passos de distância de onde eles estavam um instante atrás e a faca de Turner tinha uma mancha vermelha nela. Denise lutou contra um engasgo. Ele tinha cortado Spade rápido demais para ela ver. “Desista do duelo e dê minha liberdade,” Turner disse, balançando a faca enquanto ele começava a circular novamente. Spade riu, um som frio que era mais assustador do que divertido. “Essa era a sua melhor chance de me matar, mas você a perdeu. Por quanto tempo você acha que será capaz de manter essa faca antes que eu a tire de você?” A ferida no peito de Spade fechou antes que ele terminasse de falar, mas a mancha de sangue permanecia. Era tão vívida contra a musculatura pálida e macia da pele dele. Como escarlate contra a neve. Os olhos de Spade brilharam com fogo verde, encontrando o olhar igualmente brilhante de Turner. Denise não podia evitar a inundação de imagens em sua mente. Olhos verdes brilhantes queimando através da luz que vai se apagando. Vampiros por todos os lados, sangue e sujeira os manchando. Ela escorregou, caindo em cima de


algo escuro e pegajoso. A mancha cobria o chão, aumentando enquanto seguia para a cozinha... “Não”, ela sussurrou, afastando as lembranças. Não agora. Não aqui. Alten olhou pra ela com severidade, mas dessa vez, Spade não desviou sua atenção de Turner. Outro borrão de braços e pernas terminou com Turner arremessado de costas, Spade em cima dele segurando aquela faca de prata. “Perdeu alguma coisa?” Spade perguntou, balançando a faca. Turner agora tinha sangue nele também, em forma de um X em seu peito, que permanecia mesmo que seus cortes estivessem curados. O X era diretamente em cima de onde estaria seu coração. Denise percebeu. O aviso não podia ser mais claro. As lembranças continuaram a se forçar contra ela. Sangue parece diferente no escuro. Quase preto. Luz verde do olhar de um vampiro passando brilhou no grande e desfigurado pedaço em frente a ela. O que é isso? As mãos dela fora para sua cabeça, pressionando contra suas têmporas como se ela pudesse fisicamente forçar as lembranças a irem embora. Não. Agora. Turner se arremessou, nada mais do que uma pálida linha de movimento para os olhos dela. Spade girou, mais vermelho aparecendo em Turner como se fosse por mágica. Outra investida na carne, um grito e Turner caiu de costas, agarrando com força seu estômago. Algo espesso e molhado caia no chão. Denise enrolou suas mãos na camisa descartada de Spade para evitar gritar e pular da cadeira. A mão toda de Spade e o pulso estavam vermelhos, sem mencionar a faca, mas ele ficou lá de pé quase que de forma casual, esperando enquanto Turner arfava de dor, dobrado. “Dói um bocado, não é?” Spade perguntou. “Uma coisa é ser cortado em uma briga, mas outra é ter suas entranhas derramadas pra fora de você. Tem que ser muito forte pra lutar com esse tipo de dor. Você não é nem de longe forte o suficiente, mas você quer ser Mestre de sua própria linhagem?” “Ninguém é... forte o suficiente,” Turner falou, se ajeitando finalmente. Seu estômago estava curado, mas tinha levado vários segundos. Tempo suficiente para Spade o ter matado várias vezes se ele quisesse. Spade arqueou a sobrancelha. “É verdade?” Ele jogou a faca aos pés de Turner. “Dê o mesmo golpe, e se você puder colocar a lâmina através do meu coração antes que eu me recupere dele, você ganha sua liberdade.”


Denise puxou o ar, horrorizada. Spade estava louco? Por que ninguém estava falando sobre aquela ser uma sugestão insana? A cabeça loira de Turner parecia se fundir com a preta de Spade enquanto ele saltava sobre ele em uma fúria de movimentos. Por alguns momentos tensos, seus corpos era um zunido de cristal e vermelho, até Turner cair de costas com o punho da faca enterrado em seu peito aonde tinha estado o X vermelho. Spade estava em cima dele, uma mão em seu estômago, algo que parecia vermelho e mole perto de seus pés. “Recue, ou eu vou torcer a faca,” Spade disse sombriamente. Turner olhou para a lâmina saindo de seu peito e então sua cabeça tombou para trás. “Eu retiro meu desafio”, ele grunhiu. Denise sentiu um instante de alívio alarmante. Então ela vomitou na camisa sob medida de Spade. ___ Spade entrou no carro, seu casaco era a única coisa que vestia além das calças. Denise estava esperando no assento do passageiro, parecendo desejar que o chão a engolisse. “Sinto muito, eu mandarei lavar a seco sua camisa,” ela disse assim que ele fechou a porta. Ele soltou uma risada curta. “Tudo bem. Eu a joguei fora.” “Não há outro jeito de descrever essa noite sem usar a expressão “monte de merda”, há?” ela perguntou secamente. Minha cara Denise, você não faz idéia. “Isso muda as coisas,” ele disse finalmente. “Ninguém acreditaria que você é simplesmente minha propriedade depois dessa noite.” A expressão dela oscilou entre desgosto e aceitação, então forçou um sorriso. “Eu entendo. Obrigada por tudo que você fez. Eu sei aonde não procurar por Nathaniel agora, e isso é um começo. Oh, e você não tem que se preocupar. Eu ainda não vou envolver Bones. Eu encontrarei outro jeito.” Spade continuou a encará-la, sem piscar. Essa era sua chance de se livrar dela. Ele precisava aproveitá-la. Era o melhor pra ele. Ao invés disso ele se viu dizendo “Eu não vou te deixar sem ajuda.” Gratidão brilhou no rosto dela. “Eu serei muito melhor com quem quer que você me indique. Eu serei obediente, eu não irei vomitar nas roupas dele–“ Ele pigarreou. “Bom saber, uma vez que serei eu.”


“Mas você disse que ninguém mais acreditaria que eu sou sua propriedade.” Eles certamente não acreditariam, mas isso não era culpa dela. Era dele. Ele que a afastou quando ela entrou em pânico, sendo que qualquer Mestre com respeito próprio teria enviado alguém para acalmá-la. Então ele não soltou mais a mão dela, a sentou do seu lado direito, obedeceu suas exigências para ficar no duelo, quase foi morto sendo distraído por ela e correu para o lado dela depois que ela vomitou em sua camisa. Realmente, não havia mais chance alguma que seu pessoal acreditasse que ela era apenas sua propriedade. “Nós vamos ter que encenar um casal enlouquecido ao invés de um vampiro e sua propriedade. Vai exigir mais atuação de ambas as partes, mas nada que irá violar seus limites.” Ela pareceu confusa. “Eu pensei que você tinha dito que seria suspeito, porque você não namora humanas.” “Isso vai complicar as coisas, mas se encontrarmos Nathaniel logo, a farsa pode ser explicada como um capricho passageiro.” Ou estupidez passageira, pra ser mais preciso. Ela tocou a mão dele. Os dedos dela tão quentes em sua pele gelada. Apenas outra coisa para lembrar de sua humanidade. “Obrigada.” “De nada,” Spade disse firmemente. Tolo, ele se chamou. Ele não estava fazendo isso por pena, obrigação ou honra como Denise devia acreditar. Não, ele apenas se submeteu a ajudá-la pelo único motivo insensato e desmiolado de não querer deixá-la ir ainda. Mesmo agora, o perfume dela e a proximidade tentavam seus sentidos. Esse era o limite da estupidez ser tentado por uma mulher que ele não podia nem morder e nem transar. Talvez, por causa do seu próximo brilhante pensamento ele começaria a se divertir se barbeando com uma serra elétrica. Ele deixou isso de lado. Sim, ele sentia uma atração incomum por ela desde o início, mas isso era por causa das circunstâncias que a fez ser extra-tentadora. Denise era proibida, então como resultado, ele a queria. Adicione a isso perigo, incerteza e proximidade, e não era a toa que ele a estava cobiçando. Mas isso não iria dar em nada. Porque ela era uma humana, apenas algumas batidas de coração a separavam da sepultura. Tão frágil, ele pensou, olhando pra ela. Tão facilmente destruída...


Spade desviou o olhar. Desprendimento era o que ele precisava agora. Desprendimento e um sujeito trapaceiro de demônio chamado Nathaniel. “Amanhã nós partiremos para Nova York. Eu conheço o Mestre de uma outra linha grande que podemos verificar.” Os dedos dela deslizaram para fora da mão dele. “Nós vamos apenas de vampiro Mestre em vampiro Mestre, verificando entre seu pessoal?” O tom de Denise dizia que ela achava que isso era como procurar uma agulha num palheiro. “Pra começar. Quando eu encerrar com todas as linhas dos meus amigos, nós tentaremos medidas diferentes.” Aquelas que seriam mais perigosas do que verificar entre seus aliados, mas ele não iria expor Denise ao lado negro do mundo dos vampiros novamente, se ele pudesse evitar. Quando eles chegaram na casa, Spade se sentiu no controle novamente. Denise tentou uma ou duas vezes falar com ele durante o trajeto, mas ele manteve suas respostas curtas. Logo ela ficou em silêncio. Já dentro da casa, ele a levou para o quarto dele – o único lugar onde qualquer um esperaria que ela dormisse, depois do espetáculo dessa noite – então foi tomar um banho sem uma palavra. Quando ele saiu, ela já tinha dormido, curvada do lado dela em sua cama. Ele deu a ele uma última olhada de forma sombria antes de se ajeitar em uma cadeira e fechar os olhos. Dormir era o que ele precisava. Ele se sentiria melhor no dia seguinte. Quando ele adormeceu, entretanto, ele continuou sonhando com Denise... só que seu cabelo era loiro, seus olhos eram marrom e sua garganta tinha sido cortada de orelha a orelha.


CAPÍTULO SETE. Denise engasgou quando viu o homem ruivo que esperava por eles na sala de visitas. “Você!” Infelizmente não era seu parente Nathaniel que ela reconheceu. Ian piscou, obviamente surpreso por vê-la também. Então seu olhar cor de turquesa se dirigiu a Spade e riu. “Quando você disse que vinha me ver, eu pensei que fosse ser mais uma visita social chata, mas eu estava errado, não é? Olhe só pra você, agindo pelas costas de Crispin com a melhor amiga da esposa dele. Estou impressionado.” Spade cruzou os braços. “Não tire sarro, Ian. Estamos aqui a negócios, apesar de que eu não quero mesmo que Crispin seja informado sobre isso.” O sorriso maroto continuou nos lábios do Ian. “Um silêncio assim vai te custar, companheiro.” “Eu não tenho dúvida sobre isso,” Spade respondeu em um tom irônico. Denise ainda não podia acreditar que Spade envolveu Ian nisso. O criador do Bones não tinha uma boa reputação nem em seus melhores dias e, pra piorar, ele quase fez com que muitos dos soldados de Cat fossem mortos. “Não confio nele, ele irá direto até Bones e Cat,” ela murmurou. O olhar de Ian se fixou nela, nada ofendido pela acusação. “Não se Charles fizer valer meu tempo, boneca.” “Quem é Charles? Denise repetiu, olhando ao redor. Então ela lembrou. Certo, era assim que Bones chamava Spade também. “Meu nome humano,” Spade disse, embora Denise já tivesse descoberto. “Não sei porquê você ainda insiste em ser chamado por esse outro nome,” Ian disse, balançando a cabeça. “Eu até já esqueci que já fomos prisioneiros, mas você escolheu se lembrar disso todos os dias.” “Me mantém focado,” Spade respondeu suavemente. “Prisioneiros?” Denise lançou um olhar para Spade. Ele era um ex presidiário? Como alguém podia manter um vampiro trancado? “Você não sabia, boneca?” Ian se espantou. “Foi como nós nos conhecemos, na viagem para a colônia penal New South Eales. Barão Charles DeMortimer aqui achava que era indigno daquela situação, ser acorrentando à prisioneiros comuns como eu, Crispin e Timothy. Imagine o horror dele quando chegamos e o feitor apenas se dirigia a ele pela ferramenta que ele usava para trabalhar ao invés do seu título. Não faz sentido que ele insista em continuar a ser chamado disso depois que ele se tornou um vampiro.”


Um pulsar no maxilar do Spade disse que ele não gostou do assunto, mas Denise estava intrigada. Ela não tinha idéia de que Spade tinha sido um prisioneiro e um nobre. De certo modo, isso explicava algumas coisas. Spade exalava perigo, é verdade, mas ele também nunca a deixou tocar em uma porta ou na maçaneta de um carro, sempre correndo para abri-las pra ela. E também sua insistência em dormir na cadeira apesar de ser a cama dele da qual ele estava se privando, e ela nunca o ouvir levantar muito a voz. Adicione isso ao ar nobre que ele tinha e ela deveria ter adivinhado que ele vinha de uma situação bem diferente da de Bones. “Você não está interessado em ouvir o que eu irei oferecer em troca de sua discrição, Ian?” Spade perguntou, friamente mudando de assunto. Ia assentiu. “Claro.” “Minha propriedade em Keys que você admira faz tempo. Eu a empresto a você pela próxima década. Isso deve ser mais do que adequado para garantir seu silêncio.” Denise deixou escapar um som chocado que os dois homens ignoraram. “Não é bom o suficiente,” Ian respondeu. “Crispin ficará muito zangado comigo se descobrir minha participação em seja lá o que você estiver envolvido com ela, então você terá que me dar a casa pra fazer valer a pena pra mim.” “Seu babaca ganancioso!” Denise irrompeu. Ian deu um olhar vagaroso na direção dela. “E agora meus sentimentos estão feridos. Isso irá custar a você o barco também.” Spade lançou um olhar na direção dela que fez Denise calar a boca. BABACA ganancioso, ela gritou silenciosamente para Ian. “Apenas se eu tiver seu silêncio e cooperação em deixar Denise procurar em sua propriedade por um sujeito que eu levarei comigo, sem questionamentos, se ela encontrar quem está procurando.” As sobrancelhas de Ian levantaram. “Eu posso saber o que essa pessoa fez?” O sorriso de Spade foi mais um mostrar de dentes. “Não, você não pode.” Ele nunca vai concordar, Denise pensou, vendo a malícia passar rapidamente pelos traços do rosto de Ian. Mas então o outro vampiro sorriu de volta. “Eu amo aquela casa, Charles. Feito.” Denise soltou a respiração, aliviada e cheia de culpa ao mesmo tempo. Agora ela podia acrescentar uma casa e um barco ao que custou ao Spade ajudá-la, tudo porque ela o manipulou. Ela tinha que encontrar um jeito de pagá-lo, mesmo que isso significasse fazer prestações pelos próximos 30 anos.


Ia se esticou. “Você é bem vinda pra começar com quem eu tenho aqui em casa e iniciar sua busca por aqui. Eu não preciso lhe dizer o quão longe alguns do meu povo estão, mas eu irei avisá-los para lhe darem total cooperação.” “E você não irá mencionar que reconheceu a humana com quem estou viajando,” Spade acrescentou, sua voz dura como aço. O olhar de Ian deslizou sobre Denise de um jeito que a fez sentir que, de alguma forma, tinha perdido todas suas roupas. “Não, mas vai ser interessante ver por quanto tempo você pode manter esse segredo. Precisa de um lugar pra ficar enquanto vocês estiverem na cidade?” “Obrigado, eu fiz os preparativos em outro lugar,” Spade respondeu, para o alívio de Denise. Quanto antes eles forem embora da casa do Ian, melhor. Ele era bonito, mas havia algo abertamente frio e cruel nele. Sem nem ao menos perceber, ela se viu se aproximando devagar de Spade. Vamos olhar o pessoal dele e dar o fora daqui. Como se Spade tivesse escutado sua diretriz mental, ele pegou sua mão. “Ian, se você nos indicar o caminho?” Quinze minutos depois, Denise estava se xingando de frustração. Entre a dúzia de homens, humanos ou outro tipo, que viviam na casa de Ian, nenhum era Nathaniel. Quanto tempo até Raum ficar impaciente e começar a ameaçar sua família de novo? Ou quanto tempo até as marcas do demônio se manifestar de forma mais dramática nela? Agora, as únicas mudanças que ela percebeu fora um aumento do seu pavio curto e fome constante, mas ela sabia que era só o começo. Quanto tempo ela tinha até que as marcas a transformassem em um monstro do mesmo tipo que Raum? “Diga a quem quer que você tenha na área pra te encontrar no Crimson Fountain hoje à noite,” Spade disse para o Ian enquanto saía. Isso nos dará a chance de olhar mais deles sem parecer suspeito.” Ian dirigiu outra olhada especulativa para Denise antes de assentir. “Eu tinha outros planos, mas essa situação provoca o meu interesse. Eu os verei lá, companheiro.” Denise esperou até eles estarem milhas de distância da casa do Ian antes de falar.” Eu sinto muito sobre sua casa. Por favor, deixe-me te reembolsar. Eu tenho um fundo de garantia que posso usar – “Não.” A única palavra foi rápida. Spade nem ao menos desviou o olhar da rua quando ele disse. “Mas isso não é o que eu pretendia!” ela exclamou, a tensão dos últimos dias afiando sua voz.


Spade olhou pra ela, rapidamente, mas meticulosamente. “Você não tinha idéia do que iria ocasionar quando me envolveu, mas eu aceitei, e apesar de tudo eu concordei.” Mais culpa se acumulou nela. Isso estava errado. Tão errado. “E se levar meses para encontrá-lo?” Ela não podia suportar tal pensamento, o pensamento ingênuo que ela teve no início de que ela podia rapidamente encontrar Nathaniel apenas entrando no mundo dos vampiros foi destruído. Spade tinha milhares de pessoas em sua linha. Quantos outros vampiros Mestre tinham milhares de pessoas espalhadas ao redor do mundo? “Então levará meses para encontrá-lo,” Spade respondeu, sem emoção em sua voz. “Eu estou nisso até o fim, como prometi.” Talvez ela não tivesse meses antes de se tornar um monstro. Seu pensamento anterior de falta de esperança se transformou em raiva. Quando ela encontrasse Nathaniel, ela o faria pagar por ter metido ela, sua família e Spade nisso. Então o ódio perdeu a força, deixando um vazio no lugar. Está acontecendo de novo. A cada dia, um pouco mais de mim é substituído por outra coisa. A percepção disso a aterrorizou. “Talvez hoje a noite será nossa noite de sorte,” ela disse, forçando um otimismo que ela não sentia em sua voz. “Talvez,” Spade concordou. Ele também não parecia acreditar também. ___ As juntas dos dedos de Denise estavam brancas de tanto que ela apertava os punhos. O odor da ansiedade dela enchia o táxi, cobrindo os cheiros de suor, perfume e o leve odor de vômito no banco de trás. O táxi deu outra guinada se movendo no trânsito, por pouco não batendo em outro carro que estava competindo pela mesma pista. Denise ficou tão pálida que o tom de sua pele quase igualou ao de Spade. “Você poderia ser um pouco mais suave no acelerador?” Spade disse ao motorista. Pobre garota, essa era sua primeira experiência com um taxista de Nova York. Pela expressão de Denise, ela gostaria que fosse a última. “O que você disse?” o motorista perguntou com um inglês carregado no sotaque. Não é de admirar que o homem tinha dificuldade para ouvi-lo, com a altura em que estava o rádio. Spade reconheceu o sotaque do motorista. “Pode guiar devagar, por favor?” ele disse, falando mais alto.


O motorista deu a ele um sorriso aberto que revelou uma falta de cuidado com os dentes. “Oh, fala português? Sem problema,” ele exclamou, aliviando no acelerador. “Que língua é essa?” Denise perguntou, distraída o suficiente pra abrir os punhos. “Português.” Ela parecia impressionada. “Eu sempre quis aprender mais idiomas, mas tudo que eu sei é um pouco de espanhol dos tempos de escola. Quando você aprendeu português?” “Quando eu estive em Portugal,” ele respondeu, divertido em ver a surpresa no rosto dela. “Oh,” ela disse de forma macia. “Eu nunca estive do outro lado do oceano. Eu nem ao menos estive fora da América, exceto por...” Sua voz falhou e sombras cobriram sua expressão. Por Canadá, Spade concluiu mentalmente. Onde seu marido foi assassinado. “Lembra do que você tem que fazer essa noite,” Spade disse, mais pra tirar a atenção dela do assunto do que por se preocupar que ela esqueça o que tinha que fazer. “Talvez eu tenha que deixá-la por pouco tempo, mas se eu o fizer, cole no Ian.” “Eu não confio nele,” ela disse de repente. Spade pigarreou. “Nem deveria, mas ele não vai tentar te hipnotizar ou se alimentar de você. Já que estamos indo para um lugar cheio de diferentes tipos de vampiros, isso o faz mais seguro do que qualquer um exceto eu.” Ele não achava que havia alguma chance real de perigo para Denise, mas, no entanto, ele a queria sob sua guarda. Nenhum dos dois levantou a outra possibilidade – que nessas circunstâncias, ela poderia ter outro ataque de pânico. A melhor esperança deles em encontrar Nathaniel era expor Denise ao maior número de pessoas mortasvivas e suas propriedades de uma vez, mas enquanto isso era eficiente, também era arriscado para o estado emocional dela. Porém, havia um jeito para contornar isso. Spade escolheu as palavras cuidadosamente. “Eu sei que isso não vai ser fácil pra você, Denise, mas eu poderia ajudar com isso. Eu nem mesmo precisaria te morder pra fazer isso. Uma simples sugestão para você se sentir mais calma quando estiver rodeada de vampiros ou ghouls iria–“


“Absolutamente não.” Ela desviou a atenção do trânsito para encará-lo. “Não ouse bagunçar minha mente. Eu falo sério, Spade.” Mulher teimosa. Ele deu de ombros. “Se essa é sua decisão.” “É”. Ela disse, ainda com o olhar furioso. “Me prometa que você não fará isso.” O acre odor de medo, raiva e falta de confiança fizeram um redemoinho ao redor dela. Muito devagar, Spade puxou uma das facas de prata de seu casado. Ela empalideceu quando a viu, mas ele ignorou isso, usando a faca para cortar uma linha em sua palma. “Você sabe o que um juramento de sangue significa para minha espécie, certo?” ele perguntou, sustentando o olhar dela. “Pelo meu sangue, Denise, eu juro que nunca irei manipular sua mente.” Um risco de carmesim manchou a lâmina ao mesmo tempo em que a ferida se fechada. Spade manteve a mão bem abaixo da janela que separava a linha de visão do motorista do assento traseiro. Apenas Denise podia ver o que ele fez, e seu odor mudou assim como a cor retornou a seu rosto. “Eu acredito em você.” Spade guardou a faca, limpando a pouca quantidade de sangue em sua calça. Elas eram escuras o suficiente para que ninguém percebesse. Bom, nenhum humano iria; um vampiro ou ghoul sentiria o cheiro, mas eles não se importariam. O táxi deu um tranco e parou. Spade entregou uma nota de 20, então estava do lado de fora abrindo a porta da Denise antes mesmo que ela pudesse abaixar a mão para puxar o trinco. “Você não precisa continuar fazendo isso, eu posso fazer,” ela murmurou, parecendo embaraçada. Ela afastou uma mecha de cabelo para trás, ruborizando ligeiramente. Foi uma reação feminina adorável, sem a cautela que ela geralmente tinha com ele. Apesar de que ele teria feito o mesmo para qualquer mulher – nem todo o tempo do mundo poderia apagar a rígida etiqueta com a qual ele tinha sido criado – Spade se viu apreciando a reação dela. “Apenas porque uma dama pode, não significa que ela precise fazer,” ele provocou, divertindo-se em vê-la ruborizar ainda mais e desviar o olhar. Cristo, ela era adorável. Ele passou o olhar por ela, incapaz de evitar. Debaixo de seu casado Denise vestia um suéter de gola capuz e uma saia longa preta, suas botas aparecendo debaixo da bainha e luvas cobrindo suas mãos. A única pele visível nela era o


rosto e pescoço. Spade se viu encarando sua pulsação com uma fome que não tinha nada a ver com sangue. Como seria seu sabor se ele colocasse a boca lá? E como seria seu sabor em qualquer outro lugar onde ele colocasse a boca? Denise estremeceu, voltando sua atenção para o fato de que eles estavam do lado de fora, na calçada, quando eles deviam estar lá dentro procurando por Nathaniel. “Por aqui,” ele disse, oferecendo seu braço. Ela colocou a mão no braço dele com outro estremecimento, sem olhar para os olhos dele. Uma boa coisa também, pois provavelmente os olhos dele tinham ficado verdes com luxúria. “Como é esse lugar?” ela perguntou, ainda desviando o olhar. Spade se forçou a se controlar. “É exatamente o que você acharia que seria um bar de vampiros se você não acreditasse em vampiros.” Isso a fez olhar pra ele. “Huh?” Ele falou com a voz rouca. “Você vai ver.”


CAPÍTULO OITO. Eu estou vestida de maneira tão inadequada, Denise pensou, olhando para as pessoas dentro do Crimson Fountain. Os clientes tinham, decididamente, uma inclinação gótica, com uma aparente necessidade de roupas pretas. Ela se sentiu deslocada com seu suéter azul, apesar de suas botas e saia serem pretas. Couro e vinil também pareciam estar em todo lugar, junto de vários colares, brincos, piercings e tatuagens góticas. Spade a guiou através da densa multidão de pessoas dançando. Ela estava tomando o cuidado de olhar para cada um por quem ela passasse, esperando que um deles pudesse ser Nathaniel. Mas ela não estava preparada para o sorriso com presas dirigido a ela quando esbarrou em um dançarino cuja pele era quente como a dela. Surpresa, Denise tocou o braço dele de novo. Carne viva e quente, certo. O homem sorriu abertamente, mostrando mais presas. “Quer dançar com os mortos-vivos, bela?” ele cantou, balançando os quadris. “Mas você não é um vampiro.” O sorriso dele se desfez. “Sim, eu sou.” Denise olhou para o homem, suas presas falsas e as pessoas ao redor dele. Exatamente o que você pensaria que um bar de vampiros seria se você não acreditasse em vampiros. Spade estava certo. Esse lugar parecia como se um péssimo estereótipo tivesse ganhado vida. Tinham até alguns caixões apoiados no palco onde a banda tocava. “Com licença,” ela disse, passando por ele. Spade esperava por ela um passo a frente. Ele tinha um leve sorriso irônico no rosto. “O que você acha?” “Que você tem um senso de humor doentio dizendo ao Ian para trazer seu pessoal aqui” ela respondeu. “E que você também está vestido de forma inadequada.” Spade também não estava usando couro ou vinil. Ao invés disso ele estava usando uma camisa creme de mangas longas, calças de um material grosso e com aparência de caro. Seu sobretudo apenas o fazia parecer mais elegante. Ela se admirou de que todos os fingidos a vampiro de roupas de couro não faziam idéia de que o homem vestido com mais classe era, na verdade, a criatura que eles estavam imitando.


Ele se inclinou para frente, sua boca quase tocando sua orelha. “É o perfeito ponto de encontro. Quem pensaria que vampiros de verdade frequentam um lugar como esse?” Spade não se mexeu depois que ele falou. Seu cabelo raspando na bochecha dela, escuro e sedoso, e seus lábios estavam tão perto de sua orelha que o mínimo movimento iria tocá-los. Ele também era tão alto, ela não podia ver por cima dos ombros dele e, com as pontas de seu casaco ao redor dela, ela sentia como se estivesse a um passo de ser engolida por ele. De certa forma o pensamento era tentador. Denise recuou, confusão, culpa e medo competindo dentro dela. Será que essa linha de pensamento impulsiva era devido à essência de demônio crescendo dentro dela? O não humano dentro dela atraído pelo não humano dentro dele? Tinha que ser. Spade era um vampiro, a mesma criatura que promovia ataques de pânico nela, e, além disso, Randy tinha morrido há apenas um ano... Spade a encarou até Denise ter que desviar o olhar. Seu olhar era muito malicioso, muito intenso. Do canto do olho dela, quase parecia que ele tinha respirado fundo, mas claro, isso era impossível. Vampiros não precisam respirar. “Ian está por aqui,” ele disse, virando. Sua voz estava mais baixa, rouca. Ela o seguiu, mantendo os olhos em seus ombros enquanto ele abria caminho através da multidão. Ian estava sentado em uma cabine aberta, duas mulheres uma em cada lado dele. Denise sentiu seu medo anterior derreter, substituído por incredulidade. Mesmo em um lugar cheio de pessoas fingindo ser vampiros, Ian se destacava. Botas pretas com correntes entrelaçadas adornavam suas pernas, calça de couro caída nos quadris, da mesma cor. E, além da coleira de espinhos que Ian usava ao redor do pescoço e dos pregos atravessados em seus mamilos, era tudo que ele usava. Ian deu uma risada para ela, passando a mão pálida pelo peito. “Sedutor, não sou, boneca? Vá em frente, encare. Eu não me importo.” Denise desviou o olhar para longe, mas não porque ela estava fixa em admiração. Claro, Ian tinha um abdômen de tanquinho e seu rosto era assustadoramente bonito, mas ele também tinha a palavra monstro escrito por todo ele. Aquelas mulheres podiam sentir o perigo exalando dele? Se ela encontrasse Ian em um beco, ela correria como o diabo, não importando o quanto de pele bonita ele mostrasse. “Você parece um Drácula de filme pornô barato,” ela conseguiu dar uma resposta.


Spade riu, mas Ian recuou. “Não vamos falar dele. Assim como o diabo, Vlad pode aparecer se a gente falar nele.” A palavra diabo a fez voltar à realidade. É isso, ela não estava aqui para se focar em Spade ou Ian ou qualquer outra coisa exceto procurar por Nathaniel. A vida de sua família dependia disso e também sua humanidade. Como que respondendo, seu estômago roncou, mesmo que tivesse feito apenas 3 horas desde que ela tinha comido. Ian levantou uma sobrancelha, ouvindo mesmo sobre a música alta. Spade olhou pra ela, ouvindo também, então fez um gesto para a cabine de Ian. “Espere aqui enquanto eu vejo se há algo para você comer.” Um vagaroso sorriso iluminou o rosto de Ian. Denise não queria ser deixada com ele, mas insistir em seguir Spade pareceria muito pegajoso. A morena a esquerda de Ian se moveu para o lado, dando espaço para Denise. Ela se sentou, concentrada em olhar os rostos dos homens no clube e não o vampiro a sua direita. Ou o outro que estava indo para o bar. “Que divertido,” Ian falou lentamente. Denise não olhou para ele quando respondeu. “O que?” “Charles, indo trazer comida para você como se fosse um empregado,” Ian respondeu. “Vampiros Mestre não fazem isso, boneca. Faz-me pensar ainda mais a respeito de vocês dois.” Denise olhou ao redor, notando que nenhuma das mulheres reclinadas sobre Ian pareciam se importar por ele dizer vampiro. Talvez elas fossem humanas que pertenciam a ele. Ou talvez ele as hipnotizou para não se importarem. “Nós estamos, ah... ele está... não é da sua conta.” O que ela estava prestes a fazer, dizer para Ian que Spade estava com ela porque ela o coagiu? Ou como era a essência de demônio que a tornou em uma comilona compulsiva? Tinha que ser. Normalmente quando ela estava estressada, ela comia menos, não mais. Porém, se isso não fosse algo sobrenatural, ela teria engordado uns cinco quilos na semana passada. “Ele só está sendo educado. Você deveria seguir o exemplo,” Denise arrematou. Ian bufou. “E então anjos voariam da minha bunda quando eu peidasse. Tendências cavalheirescas a parte, eu só vi Charles tão atencioso com uma humana há quase 150 anos atrás.” Denise ainda estava balançando a cabeça por causa da expressão rude de Ian quando o resto do que ele disse penetrou.


“Com que humana ele era atencioso há 150 anos atrás?” Mesmo que ela tenha perguntado, ela desejou que não tivesse. Primeiro, isso não era da conta dela, segundo, ela estava começando a soar como um vampiro, com “humano” isso e “humano” aquilo. Ela tinha que sair desse mundo. Voltar ao dela, onde não havia nada exceto humanos para se distinguir entre eles. Os olhos de Ian brilharam. “Ele ainda não te contou sobre ela?” Ela não pôde evitar. “Ela quem?” “Ãh-ãh.” Ian desaprovou. “Não é minha história pra contar, boneca.” “Então você não deveria ter mencionado,” ela revidou, seu temperamento explodindo. As duas sobrancelhas de Ian levantaram. Denise procurou se controlar. Essa não era ela. Eram as malditas marcas de demônio. Ela tinha que se focar nas prioridades. Não importava o que tinha acontecido com Spade e alguma mulher um século atrás. Para se distrair da raiva inexplicável que ainda estava queimando nela, ela se virou para a morena a sua direita. “Desculpe, Ian não nos apresentou. Eu sou Denise. Prazer em te conhecer.” ___ Nada menos do que 80 do pessoal de Ian passaram pela porta do Crimson Fountain. Um número impressionante considerado que Ian os chamou há pouco tempo atrás, nessa tarde. Junto a isso, Spade contou vários vampiros que não eram da linha do Ian, mais alguns ghouls e, dúzias de humanos com um distinto odor de morto-vivo que os marcava como propriedade de alguém. Mas Denise não tinha reconhecido seu parente entre nenhum deles. Por volta das 3 da manhã, o odor de desgaste e depressão vinha dela, palpável. “Nós vamos embora logo,” Spade disse a ela. Denise concordou, sua cabeça escorada na mão e os ombros baixados. “Você foi muito bem essa noite,” ele acrescentou, tentando suavizar o humor dela mesmo que ele se amaldiçoasse. Afinal de contas, ele não estava lá para ser um maldito animador de torcida. Mas mesmo assim, a vontade de ferro que Denise mostrou, afastando a PTSD que ele podia dizer com certeza, tinha começado a aparecer mais de uma vez, o impressionou. Denise era uma sobrevivente melhor do que ela pensava. Com o tempo, ela seria capaz de derrotar totalmente sua ansiedade ao redor de vampiros e ghouls.


Mas ela não quer, ele se lembrou. Assim que Denise tirasse aquelas marcas, ela não precisaria, porque ela nunca quis se associar com um vampiro ou ghoul novamente. O pensamento azedou o humor dele. Ele levantou. “Eu preciso me alimentar antes de nós sairmos. Fique aqui com Ian.” Ele não esperou pela resposta dela, com raiva ele se dirigiu a pista de dança. Mesmo sendo bem tarde a pista estava lotada o suficiente para que ele escolhesse pessoas para se alimentar. O Crimson Fountain não fechava até o amanhecer, ainda faltavam algumas horas. Spade cortou seus pensamentos de Denise e se concentrou no banquete se movendo rápido em sua frente. Uma jovem mulher não esperou por ele se decidir. Ela se aproximou mais, sorrindo enquanto serpenteava com a música na frente dele. “Olá, bonitão,” ela cantou. Spade a sondou com o olhar. Humana e saudável; ela serviria. Ele não estava se sentindo seletivo no momento. Ele a deixou guiá-lo para o meio dos outros dançarinos, retribuindo o sorriso enquanto ele a puxava para ele, encaixando seu corpo no dela. Ela arfou quando ele começou a se mover, remexendo e curvando a garota ao ritmo da música. O desejo exalou dela e ela deu a ele um olhar sedutor enquanto ela começou a desabotoar a camisa dele, correndo as mãos por sua pele quando a camisa estava toda aberta. Spade a permitiu explorar por mais um minuto. Então ele a virou, suas costas quentes aquecendo seu peito, sua pulsação – tão próxima de sua boca – pulando com excitação. Ela se esfregou nele como uma gata, soltando um gemido quando ele afastou o cabelo dela e tocou seu pescoço. Ele continuou dançando enquanto a segurava, despreocupado em deixar suas presas aparecerem nessa multidão, ou em inclinar a cabeça dela para alcançar sua garganta. Qualquer um assistindo iria pensar que era uma encenação, a mesma mímica que tinha sido encenada inúmeras vezes essa noite. E ela nunca saberia que a coisa tinha sido real quando ele terminasse de hipnotizála. Pouco antes de ele cravar os dentes no pescoço dele, portanto, um assobio agudo o fez virar a cabeça. Ian estava de pé, próximo à grade que separava a pista de dança, gesticulando quase de forma preguiçosa em direção da saída. “Achei que você gostaria de saber. Denise acabou de sair correndo.”


CAPÍTULO NOVE. O coração dela batia forte e o pânico vibrava por dentro. Denise aumentou o ritmo, desejando que ela pudesse, de alguma forma, correr mais rápido que seus sentimentos. A pior parte era que isso não tinha nada a ver com PTSD. Ela não pôde evitar olhar enquanto Spade caçava na pista de dança, observando as pessoas do mesmo jeito que um predador olha um rebanho. Então aquela mulher de cabelos pretos escorregou pra cima dele, quase secando o ar em frente dele. E ele se deixou levar por ela. Começaram a se mover de um jeito que a palavra dançar não era o suficiente pra descrever o que eles estavam fazendo. A boca de Denise tinha ficado seca e as palmas das mãos começado a suar. Quando os botões da camisa de Spade se abriram e sua carne firme e pálida foi revelada sob a iluminação fluorescente, a pulsação de Denise começou a disparar também. Os músculos dele ondulavam a cada nova virada e balançada que ele dava, transbordando sensualidade. E quando ele virou a mulher de costas para ele, seu cabelo preto caiu para frente para cobrir seu rosto enquanto ele se inclinava para a garganta dela, um calor puro e anormal tomou conta de Denise. Foi tão violento, tão inesperado, e tão alarmante que ela tremeu em seu assento – apenas para sair de seu transe quando ouviu a risadinha de Ian. “Você é cheia de surpresas, não é, boneca?” Pela expressão no rosto de Ian, ele sabia exatamente o que ela estava sentindo – e o que tinha inspirado esse sentimento. Então, ela correu como louca. Melhor Spade pensar que ela era louca do que descobrir a verdade, como Ian tinha feito. Uma parte confusa dela percebia que os lugares pelos quais ela passava pareciam se embaralhar. Ela não tinha idéia de onde estava indo. Para longe era bom o suficiente no momento. Nesse horário, o trânsito estava leve o suficiente para ela não precisar parar antes de atravessar as ruas, ou talvez ela não se importasse em causar freadas bruscas nos carros. Tantos edifícios altos, ruas estreitas e concreto sem fim. Parecia que ela estava em um labirinto que estava se fechando lentamente sobre ela. Até mesmo o céu noturno só era visível em pequenas fendas entre os altos edifícios. Um punho de ferro se fechou ao redor de seu cotovelo. Denise tentou se soltar, mas aquele punho não se movia. Ao invés disso, ela foi levada contra um corpo alto e firme, seus pés girando no ar de tão rápido que ela foi agarrada. “Me solta!” ela arfou. O rosto de Spade estava muito perto. Ele tinha deixado o casaco no clube e obviamente também não parou para abotoar a camisa, porque seu peito nu e musculoso estava pressionado contra o suéter dela.


“Está tudo bem, Denise,” ele disse firmemente. “Nada vai vir atrás de você. Você está segura.” Claro. Spade pensou que ela estivesse tendo outro ataque de pânico. Isso era em parte verdade, só que por um motivo diferente. “Eu estou bem agora. Eu apenas... precisava sair de lá,” ela disse, sua respiração ofegante. Os olhos de Spade se estreitaram e ele relaxou o punho que a segurava, mas não a deixou ir. Denise tentou acalmar sua respiração, rezando para que seu ataque de luxúria anterior não começasse de novo. “Estou vendo.” Ele ainda não a tinha soltado. Denise tentou se mexer um pouco. Seu punho se afrouxou mais, mas seus braços continuaram onde estavam. Denise tentou pensar em alguma coisa, qualquer coisa, para distraí-la do que ela sentia por estar nos braços de Spade. “Essa cidade é tão sufocante. São apenas edifícios, mais edifícios e mais edifícios. Não tem nada vivo por aqui?” Os lábios dele se curvaram, mesmo que ela tenha se tocado de sua escolha de palavras. “Eu quero dizer vivo como árvores e grama–“ “Eu sei o que você quer dizer,” ele a cortou, ainda com aquele meio sorriso. “De fato, você correu para a direção certa, se é o que você está procurando. Venha.” Os braços dele finalmente a soltaram, mas ele colocou a mão suavemente em suas costas. Denise andou perto dele, dividida entre a urgência de dizer para ele abotoar a camisa e seu prazer em dar umas olhadas no peito nu dele. “Você não está com frio?” ela finalmente perguntou. Ela estava. Ela tinha deixado seu casaco no Crimson Fountain. Ainda bem que seu suéter era grosso e ela não tinha tirado as luvas. Afinal de contas ela não podia arriscar alguém ver as marcas do demônio dela. “Na verdade não,” Spade respondeu. “Vampiros não reagem ao frio como os humanos. Eu posso sentir o frio, claro, mas ele não causa a mesma sensação em mim. Eu diria para voltarmos para buscar seu casaco, mas já passamos da metade do caminho para o hotel.” Denise deu uma olhada na próxima placa de rua – e arfou. Um tremor de natureza diferente percorreu sua espinha. “O quanto eu corri?”


A expressão de Spade era ao mesmo tempo dura e cheia de pena. “Mais ou menos umas 12 quadras.” Ela não devia ser capaz de correr aquela distância no pouco tempo que tinha se passado. Um corredor olímpico teria dificuldade em fazer isso. As marcas de Raum estavam se manifestando até mais do que ela havia percebido. “Oh merda,” Denise sussurrou. Spade não respondeu com nenhum clichê reconfortante e inútil, pelo qual ela se sentiu grata. Ela tinha ouvido o suficiente daquelas frases bem intencionadas depois que Randy morreu. Por que as pessoas não podiam reconhecer que, às vezes, a vida era uma merda? Eles não percebiam que, às vezes, o silêncio era mais reconfortante do que a mais sincera expressão de simpatia ou tentativa de mostrar o profundo significado por trás de tudo? Logo em frente, o horizonte de edifícios deu espaço para uma vasta extensão de espaço aberto e ela pôde ver árvores. “Central Park,” Spade disse. Cutucando ela pra seguir em frente. Denise nem tinha percebido que tinha parado. “Nosso hotel é logo descendo a próxima rua, de fato, não é tão longe se você ficar com muito frio. Com toda a neve, você não pode ver tudo que é vivo no parque, mas está lá.” Denise sorriu, ansiedade emanando dela. “É perfeito.” Ela deixou Spade guiá-la pelo parque, se admirando que não sentia um pingo de medo. Sob circunstâncias normais, seria o máximo da estupidez vagar por aqui no escuro, há poucas horas antes do amanhecer. Se bem que, não havia nada de normal em ter um vampiro do seu lado e marcas de demônio em sua pele. Agressores em potencial, cuidado, ela pensou ironicamente. Spade não conseguiu jantar antes. Provavelmente ele comeria a primeira pessoa que se aproximasse deles de um modo ameaçador. “Quantos anos você tinha quando morreu?” ela perguntou, saindo do caminho para andar na neve. Spade seguiu atrás dela, seus passos parecendo muito mais decididos do que os dela no escuro. “Trinta.” Denise suspirou. “Eu farei 28 no meu próximo aniversário.” “Eu farei 257 no meu próximo aniversário,” Spade falou, com um tom de alguma coisa que ela não pôde decifrar em sua voz. Dando a ele uma boa olhada, Denise não pode evitar rir. “Você parece muito bem para um homem tão velho.”


Ele deu risada, seu sorriso era um flash brando e travesso na noite. “Bajulação vai te levar para qualquer lugar, querida.” Ela teve que desviar o olhar rapidamente, porque se ela não o fizesse, seu olhar iria demorar demais na evidência de sua afirmação. Spade parecia bom sim. Bom demais, especialmente com sua camisa soprando atrás dele, mostrando um peito que parecia esculpido na luz do luar. Seu cabelo longo e preto também farfalhava na brisa, alternando em mostrar ou esconder seu rosto, mas não era difícil para ela ver seus olhos. Em sua profundeza brilhavam pontos verdes, atraindo seu olhar mesmo que ela soubesse que era perigoso continuar olhando. Denise se sentou, fingindo desenhar algo na neve, ignorando o frio penetrando em sua saia longa. Ela estava usando legging e botas de cano alto por baixo da saia, mas não era o suficiente para protegê-la da terra congelada. Mas ainda era melhor tremer pelo contato com a neve do que revelar o tremor que a tinha varrido enquanto olhava para Spade. Essa não é você, ela se lembrou. São apenas as marcas de demônio. O barulho da neve anunciou que Spade estava andando até ela. Denise não olhou pra ele. Ela sentiu seu coração acelerar e se amaldiçoou por isso. “Denise.” A voz do Spade estava mais baixa e ele falou seu nome de um jeito que fez seu coração disparar ainda mais. Mesmo assim ela manteve a atenção no padrão aleatório que tinha desenhado mesmo quando ela o sentiu se ajoelhar próximo a ela. São apenas as marcas de demônio, apenas as marcas de demônio... A mão dele deslizou pelas costas dela. Tremores que nada tinham a ver com o frio percorreram seu corpo. Então os ombros de Spade encostaram-se no dela, seguido pela perna dele tocando a coxa dela quando ele se moveu para mais perto. Todo lugar onde ele a tocava, vibrava. Denise manteve a cabeça abaixada, seu cabelo cobrindo o rosto, a mão tremendo enquanto ela continuava a traçar cegamente, com os dedos, na neve. São apenas as marcas do demônio, apenas as marcas do demônio! Spade colocou o cabelo dela pra trás com um toque leve e carinhoso. Ela queria que os dedos dele fossem sem vida e frios, mas eles não eram. Eles eram fortes, suaves e astutos. Como se ele soubesse exatamente como ela estava reagindo ao seu toque. “Denise...”


A voz dele era tão profunda, e o jeito que ele usou para sussurrar seu nome a tocou na bochecha como um carinho. Denise fechou os olhos. Tudo dentro dela queria virar para Spade e abandonar a última e escassa linha de controle que ela tinha. A necessidade surgindo dentro dela tinha que ser das marcas de demônio. Ela nunca tinha sentido atração tão forte por ninguém antes, nem mesmo por Randy... Randy. Assassinado porque ela achou que seria divertido passar o ano novo com vampiros. E agora, aqui estava ela, apenas 14 meses depois, prestes a se jogar nos braços de um vampiro. Não. Ela não se permitiria. “Você deve estar com fome.” Culpa e tristeza tinham jogado um balde muito necessário de água fria em suas emoções. “Eu interrompi seu jantar ao fugir, então deixe-me compensar você.” Denise jogou o cabelo pra trás, capaz de encontrar os olhos de Spade sem o mesmo tremor de necessidade de antes. Ela tinha que parar de pensar nele de qualquer outro jeito exceto um vampiro – e ela não iria se permitir relaxar sob falso senso de segurança sobre o que o mundo dos vampiros exigia. Deixar Spade mordê-la era o jeito mais obvio de lembrá-la do que ele era; um vampiro que vivia em um mundo cheio de sangue e morte. Os olhos de Spade estavam verdes, iluminando seu rosto com um brilho cor de esmeralda. Denise não quis saber se eles já estavam daquele jeito antes de sua oferta, porque ela sabia o que mais podia desencadear tal resposta. “Você quer que eu te morda?” ele perguntou, baixo e áspero. “Apenas há alguns dias atrás você estava se entupindo de alho tentando evitar isso.” “Você deixou claro que não vai me deixar pagar nada do dinheiro que você perdeu me ajudando, então te dar sangue é o mínimo que eu posso fazer, certo?” Denise manteve o olhar desafiador enquanto ela inclinava o pescoço. Ia doer ser mordida. Ela sabia disso por experiência própria. Foi como Denise tinha conhecido Cat, quando Cat a salvou de um vampiro tentando beber seu sangue até a morte. Um pouco de dor agora seria o começo de um longo caminho para lembrá-la do porquê ela precisava ficar longe de Spade – e todos os imortais – assim que ela encontrasse Nathaniel. A voz de Spade era muito macia. “Levante e se afaste de mim Denise, ou eu aceitarei sua oferta.” O olhar dele fixou no dela, aquele penetrante brilho verde. Ela sabia que ele não estava usando seus poderes nela, porque sua mente estava bem clara,


mas ela estava atraída de qualquer forma. Ela tinha que terminar com essa confusa atração que sentia por ele. Agora, antes que ficasse mais forte. Se ela tivesse sorte, ela teria um ataque de PTSD imediatamente. “Vá em frente, vampiro,” ela disse de forma igualmente macia. A boca de Spade estava em seu pescoço antes que a última palavra saísse da dela. ___ A pele dela era tão quente, mesmo no ar frio. Ele pretendia mordê-la rapidamente, para lhe dar o que ela estava procurando – repugnância. Ele sabia que esse era o objetivo dela quando desespero e raiva substituíram a fragrância intoxicante de desejo vindo dela. Aquele desejo tinha quase sido a ruína do Spade. Ele tinha notado o primeiro indício dele no clube quando ele sussurrou no ouvido dela, mas aquilo desapareceu tão rápido que ele não tinha certeza. Mas há alguns minutos atrás ele teve certeza. O perfume de Denise e o jeito que ela reagiu ao seu toque confirmaram isso, destruindo sua força de vontade e o atraindo para ela mesmo que seu bom senso o avisasse para parar. Então a oferta furiosa dela de deixá-lo se alimentar dela, motivada por um óbvio desejo de vê-lo como nada mais do que um animal. Ele quase jogou de volta na cara dela, mas então ele percebeu que ela estava certa. Era a solução perfeita. Deixá-la ser repelida por ele. Fazer o bem aos dois. Mas agora, sentindo sua pulsação vibrando em sua boca, ele não podia ser rude com ela. Não podia fazer nada exceto escorregar os lábios pela pele dela até que aquela rigidez em seu corpo fosse substituída por um tipo diferente de tensão. Não podia parar de inalar seu perfume de mel e jasmim, com uma pitada de sua raiva residual, enquanto sua mão acariciava o cabelo dela. Ele a apertou para mais perto, abrindo sua boca para tocar o pescoço dela com a língua. Ah, querida, seu gosto é exatamente como eu pensei que seria. Escuridão, luxúria e doçura. Ele continuou a passar a boca por seu pescoço, procurando onde ela era mais sensível. Não ali, apesar de resultar em um tremor delicioso correndo por ela. Não ali, mas fez com que ela soltasse os punhos que estavam apertados na lateral de seu corpo. A língua dele percorreu novamente, testando um novo ponto – e Denise arfou, arqueando o corpo contra o dele. Sim. Ali. Spade fechou os olhos, absorvendo seu perfume com uma respirada profunda. Então ele escorregou suas presas em seu pescoço, saboreando seu tremor de prazer quando o veneno de suas presas se uniam com a carne dela, apagando a dor da pele se rasgando e produzindo uma sensação agradável de calor.


PorĂŠm, assim que ele engoliu seu sangue, ele soube que algo estava errado. Mas era tarde demais. Como se fosse um vampiro se levantando dos mortos pela primeira vez, Spade nĂŁo conseguiu se impedir de engolir de novo. De novo e de novo.


CAPÍTULO DEZ. Denise colocou os braços ao redor do Spade, perdida em sensações que ela nunca tinha esperado. Cada nova, profunda sucção enviava ondas de prazer através dela, seguida por ondulações de calor. Seu frio era apenas lembrança. Agora ela queimava de dentro pra fora, suas reservas esquecidas, se contorcendo contra Spade em uma combinação de necessidade e êxtase. Ele a puxou para mais perto, então rolou para cima dela quando mesmo aquela proximidade não parecia ser o suficiente. A respiração profunda de Denise se transformou em um gemido ao senti-lo pressionando-a com uma maravilhosa e faminta urgência. Os quadris dele alinhados com os dela em sua próxima sugada. Então ele se esfregou contra ela, a saliência dura em suas calças sensualmente se esfregando entre as pernas dela. O calor resultante de seus quadris superando o fogo correndo por suas veias. Ela cravou as unhas nas costas dele no próximo movimento dos seus quadris, se movendo junto dele para sentir mais daquela incrível fricção. Uma tontura doce a preencheu enquanto ele se afundava mais em seu pescoço, a segurando de um jeito que ela não podia se soltar – e não queria. “Spade,” ela sussurrou, seus olhos confusos, as copas das árvores e as estrelas saindo de foco. Ele tirou a boca de seu pescoço, logo em seguida, de alguma forma, ele estava agachado a vários metros dela. A repentina falta do peso dele e daquele delicioso sentimento do corpo dele pressionando o dela a deixou confusa. Ela tentou alcançá-lo apenas para ser impedida pelo rosnado dele. “Fique longe.” Os olhos dele brilhando verdes enquanto sangue pingava de sua boca. Ela alcançou seu pescoço. Sentiu um pequeno fio de sangue em seus dedos. Ele pulsava com a mesma dor exigente que ela sentia entre suas pernas. “Tem alguma coisa errada...?” Ele começou a avançar na direção dela, então se jogou pra trás tão forte que bateu em uma árvore. A árvore se inclinou com um rangido. “Corra,” Spade disse com força. “Fuja de mim agora, ou eu vou beber seu sangue até a morte.” A fome feroz no olhar dele finalmente penetrou na confusão de tontura e luxúria dela. Ela conseguiu ficar de pé, ainda segurando seu pescoço e sentindo a umidade entre os dedos. Os olhos de Spade estavam paralisadas, sua boca puxada pra trás em um rosnado que revelavam as presas tão longas e afiadas, o rosto dele parecia mais de animal do que de homem.


“Vá.” Ela virou e cambaleou para longe. Logo ela estava de volta no caminho, conduzindo, ao que ela esperava, ser a mesma direção por onde eles entraram. Spade tinha dito que o hotel era na próxima rua. Um barulho rápido a fez olhar pra cima. Estava escuro, mas ela podia perceber algo grande pulando de forma impossível no alto das árvores. Era Spade a seguindo? Um medo doentio se moveu em seu estômago, cobrindo o calor sensual que a tinha preenchido momentos antes. Ele a estava caçando? “Mais rápido,” a voz dele, furiosa e reconhecível. Denise ignorou a lentidão e a vertigem e correu feito louca indo parar na mesma parte do parque que ela reconheceu como onde eles tinham entrado. Ela olhou ao redor para se localizar ouvindo mais galhos estalarem sobre ela. Então ela correu em direção ao que ela esperava ser a rua que Spade apontou mais cedo. Uma espiada na rua revelou a placa que ela estava procurando. O Plaza. Denise tateou no bolso de sua saia, feliz por ter enfiado a chave do quarto lá ao invés de no casaco no início da noite, e passou pelas portas enfeitadas. Ela manteve a cabeça baixa, segurando o cabelo sobre o ponto manchado de sangue em seu pescoço e foi até os elevadores sem que nenhum dos empregados chamasse a polícia. O horário provavelmente ajudou; as poucas pessoas por quem Denise passou pareciam sonolentas quando ela os olhava. Assim que a porta do elevador abriu no andar dela, aquela necessidade quente que sentia antes se foi e ela estava enjoada com ela mesma. Ela praticamente tinha implorado para Spade a tomar lá mesmo na neve. Será que foi por isso que ele foi arremetido naquela loucura? Sua reação louca de luxúria tinha o levado a passar do controle normal que um vampiro tem? E o que havia de errado com ela, respondendo como um tipo de ninfomaníaca por causa da mordida de um vampiro? Tudo bem, fazia mais de um ano desde que ela tinha feito sexo, mas isso não explicava a intensidade de sua reação. Denise ainda estava se revoltando consigo mesma quando ela fechou a porta do quarto. Ela se inclinou devido ao cansaço – e então torceu o nariz. Que cheiro era aquele? Raum contornou o canto do quarto. “Olá.” O demônio estava na porta antes que ela pudesse puxá-la com força, o cheiro de enxofre que emanava dele quase a asfixiava. Raum sorriu. “Enfim sozinha.” ___


Spade usou seu último bocado de força de vontade para garantir que Denise chegasse ao hotel. Quando ele a viu entrar pelas portas de vidro, ele não pôde mais conter os efeitos do sangue dela. A magia negra dele, instantaneamente viciosa, misturava a realidade com alucinações e o presente com o passado. Spade caiu da árvore, mal sentindo o impacto com o chão. Galhos sem folhas ondulavam ao vendo e ele e Crispin cavalgavam no passado, seguindo o rastro da carruagem na neve suja. Elas eram de mais cedo naquela manhã, no máximo. Spade se inclinou para frente fazendo o cavalo ir mais rápido. Ele rolou no chão, ouvindo seus gemidos guturais enquanto ele tentava afastar as memórias. Não. Eu não quero ver aquilo de novo. De novo não. Ele ficou de pé e começou a correr. As árvores mudavam de forma e pareciam alcançá-lo, seus galhos se transformando e esqueletos que se inclinavam e o golpeavam enquanto ele passava. Então as árvores ficaram mais densas, se transformando na floresta Argonne daquele dia, há um século e meio atrás. “Não,” Spade disse, cerrando os dentes. Ele correu mais rápido, tropeçando nas pedras grandes que ele não via no chão. Isso não era real. Não era real. Ou era? E se ele estivesse de volta lá? E se não fosse tão tarde para salvá-la? “Giselda,” ele gritou. “Estou indo!” Crispin reconheceu a roda primeiro, caída na beira da estrada. Por um momento Spade ficou aliviado. A carruagem dela tinha sofrido um contratempo, é por isso que Giselda estava atrasada. Mas então ele sentiu o cheiro. O odor de sangue e morte. Spade saltou de seu cavalo, correndo até a carruagem sem nem ao menos tocar no chão, nem se importando de que ele estava voando pela primeira vez. Crispin voou mais rápido, o agarrando por trás e o jogando no chão. “Não, amigo. Deixe-me ir em seu lugar.” Spade o jogou longe, sua mão indo para sua faca quando Crispin foi na direção dele mais uma vez. “Toque em mim de novo e eu te mato,” ele rosnou, girando e correndo na direção onde o odor de Giselda estava mais forte – e onde outros odores cruéis e odiosos se misturavam com o dela. Ele não parou para checar o lacaio esparramado em um monte no canto da floresta. Um pedaço de algum material grudado ao arbusto espinhoso um pouco além do lacaio. Spade lançou-se na floresta seguindo o cheiro ruim, seguido pelo terror quando ele viu múltiplas pegadas na lama e na neve. Ela tinha corrido, mas tinha sido perseguida.


A mancha na terra, que ele viu em seguida, o fez derrapar até parar. Fedia suor, sangue, terror e luxúria. A raiva explodiu nele quando ele viu pedaços de roupa de baixo de mulher espalhadas, as marcas de botas formando círculos, então uma marca maior, de um corpo pressionado a terra, sangue e outras manchas no centro dele. Spade olhou ao redor, seguindo o rastro do cheiro de sangue até ele chegar a um local no topo de uma colina. Tudo dentro dele se apertou quando ele olhou pra baixo, no declive íngreme. Uma mulher ruiva estava caída no fundo, seu vestido rasgado e meio arrancado, seu corpo machucado, contorcido e sem movimento. Por um breve segundo Spade sentiu um alívio alarmante. Não era Giselda; seu cabelo era loiro. Talvez essa pobre moça estivesse viajando com ela– Ele caiu em si no segundo seguinte. Ele se lançou ravina abaixo, um grito de desespero saindo dele quando ele virou a mulher. O rosto de Giselda congelado em dor e violação o encarava, o cabelo dela vermelho do sangue que o ensopava, sua garganta cortada aberta até o osso. ___ “Você mentiu pra mim,” Raum disse, desaprovando do mesmo jeito que se faz com uma criança. “Você me disse que Spade era humano, mas era um vampiro com quem você estava rolando na neve chamando por esse nome.” Denise olhou para a porta, esperando que Spade, de alguma forma, aparecesse como num passe de mágica. Mas só tinha o demônio na frente dela, seu cabelo castanho claro novamente preso em um rabo de cavalo, vestindo uma camiseta do Ozzy Osborne e jeans. “Como você me encontrou?” Será que Raum os estava seguindo o tempo todo? Obviamente ele os estava espionando no parque. Raum ergueu uma sobrancelha. “Você não achou que eu a deixaria se perder sem uma coleira, achou? Isso” – ele agarrou os braços dela e as marcas debaixo das luvas – “tem muitas utilidades. Eu teria te chamado antes, mas o vampiro estava sempre lá. Fico contente que ele se foi finalmente. Ficou um pouco excitado demais bebendo de você, hum?” Denise estava assustada demais para se sentir envergonhada com o que o demônio tinha visto. “Você não fez nada para minha família, fez?” Por favor, não. “Eu irei,” Raum disse asperamente. “Já faz uma semana. Que progresso você tem para reportar?” “Não é tão fácil como eu pensei que seria,” Denise começou.


Raum a soltou. “Estou indo matar o seu pai,” ele disse em um tom alegre, alcançando a maçaneta da porta. “Espere!” Denise o agarrou, o pânico a inundando. “Eu irei encontrar Nathaniel logo, eu prometo! Por favor, não faça isso.” O demônio considerou, um pequeno sorriso pairando em seus lábios. “Eu adoro quando implora. Seria bem mais divertido se você estivesse coberta de sangue enquanto fizesse isso – mas há algum sangue aqui, não há?” Raum a agarrou pelos cabelos com muita força, cheirando o pescoço dela. “Você fede a vampiro. É assim que você agradece a minha generosidade? Eu ofereço a você e sua família uma prorrogação na pena de morte, mas você desperdiça seu tempo alimentando vampiros ao invés de encontrar Nathaniel. Eu estou começando a questionar sua utilidade.” Denise piscou para afastar as lágrimas de dor da força com que Raum a agarrava. Provavelmente quando ele a soltasse estaria faltando uma mecha de cabelo. “O que você acha que o vampiro queria em troca de sua ajuda?” ela mentiu, pensando rápido. “Nós estamos perto.” Temos uma boa pista e estamos nos aproximando de Nathaniel. Eu só preciso de um pouco mais de tempo.” Raum a soltou. Assim como ela antecipou, ele tinha um monte de cabelo ainda enrolados em seus dedos. “Uma prorrogação,” ele pensou. “E você não quer que eu mate ninguém da sua família durante essa prorrogação, eu suponho?” “Isso. Por favor,” ela acrescentou, o ódio a queimando por dentro pelo prazer dele sobre sua aflição. “Mas eu tenho que te punir por sua lerdeza,” Raum disse, como se fosse uma conclusão lógica. “Porém, eu estou de bom humor, então eu lhe darei uma escolha. Escolha qual membro da família você quer que morra. Pode ser qualquer um, até mesmo um primo de segundo ou terceiro grau. Ou eu aumentarei o efeito de suas marcas.” Denise olhou para seus pulsos. Ela não as podia ver, mas elas pareciam pulsar na presença de Raum. Ela não queria nada mais do que arrancar sua marca nojenta, não amplificá-las, mas o que ele ofereceu não era escolha nenhuma. Denise tirou as luvas e deslizou as mãos do aperto de Raum. “Vá em frente.” Ele riu. “Tem certeza? Isso vai doer.” Ela se abraçou quando encontrou o olhar dele. “Eu não esperaria nada menos.”


As mãos de Raum se fecharam sobre os pulsos dela. Denise se prometeu não gritar, mas assim que ele começou, foi impossível não fazê-lo. ___ Spade ouviu as vozes como se estivessem longe. “...corpo de um homem branco, entre 20 e 30 anos, sem identificação,” uma mulher disse. “Causa preliminar da morte parece ser um ferimento causado por uma facada. A faca ainda está presa no pescoço da vítima...” Besteira, Spade pensou, ouvindo as múltiplas batidas de coração e o movimento de pés ao redor dele. Ele deve ter desmaiado e sido confundido com um corpo. Pelos sons, haviam muitas testemunhas para ele levantar, agradecê-los pelo seu tempo e dar o fora. Agora que ele estava consciente, a prata queimava seu pescoço e sua cabeça parecia que ia explodir. A dor da prata ele já esperava; a dor de cabeça era um mistério. É uma ressaca, ele percebeu surpreso, notando que o resto dele estava lento e doente. Eu achei que tinha experimentado a última delas quando era humano. Mas pelo menos a mente dele estava clara, porém, dolorida. O sangue de Denise tinha lhe causado alucinações sabe-se lá por quanto tempo, até que lhe ocorreu que ele tinha que se livrar do veneno dentro dele. Foi quando ele enfiou a faca em sua garganta, fixando a lâmina para dentro e esperando o sangue sair pela ferida. Somente quando ele tinha se drenado quase totalmente é que ele sentiu a pior parte das alucinações sumindo, mas aparentemente isso também o fez desmaiar. E agora ele estava sendo fotografado, tirado impressões digitais e processado com uma vítima de assassinato. Por que os cidadãos de Nova York não podiam voltar ao tempo em que não se importavam quando tropeçavam em um corpo? Todo mundo tinha que ser tão bom samaritano hoje em dia? Ele ficou deitado lá por uma hora, esperando pela polícia terminar com ele, até que Spade foi colocado dentro de um saco para corpos e movido para dentro de uma ambulância. Ele esperou até a ambulância estar bem longe do parque antes de rasgar o saco plástico com as presas e o abrir. “Jesus!” Um paramédico com o rosto branco olhou pra ele, choque e horror competindo em seu rosto. Spade arrancou a faca de sua garganta e enfiou na calça, dando ao jovem rapaz um sorriso frio. “Nem de perto, companheiro.”


A ambulância desviou quando o motorista olhou pra trás em choque. Spade revirou os olhos. O pobre sujeito iria bater se não tomasse cuidado. “Olhe pra frente,” ele disse, deixando o poder de seu olhar hipnotizá-lo. “Vocês não me viram levantar. Vocês não sabem o que aconteceu comigo.” “Não sabemos,” os paramédicos falaram em conjunto. Spade pulo para o banco da frente e então saiu pela porta do passageiro, sem se importar em dizer a eles para pararem primeiro. Um rápido salto no trânsito e então ele estava na calçada, indo para o Plaza. Ele estava ansioso para retornar para Denise. Ele tinha tirado um bocado de sangue dela nos espasmos iniciais dos efeitos da droga. Ela parecia estável quando entrou no hotel, mas e se ela tivesse entrado em choque desde então? Os olhares estranhos das pessoas por quem ele passava o lembraram que ele estava coberto de sangue e sem camisa. Spade se enfiou no primeiro beco que viu e agarrou a primeira pessoa que estava passando. “Quieta,” ele disse, olhando para a jovem mulher com seu olhar brilhante. “Me dê seu casaco.” Ela o deu sem falar nada. Spade colocou. Era vários números menores do que ele. Porém, cobria o que precisava e ele não ia usar por muito tempo. “Vamos, anda, vai,” Spade disse pra ela. Ele chegou ao Plaza o mais rápido que pode sem revelar sua velocidade sobrenatural. Lá dentro, porém, ele ignorou os elevadores e foi para as escadas. Um impulso para cima e ele estava voando pelos andares como um borrão, chegando ao 19º em segundos. O cheiro forte de enxofre o atingiu assim que ele abriu a porta das escadas. Um demônio esteve nesse andar. Spade voou o resto do caminho, sem se importar em quem poderia vê-lo. Ele arrombou a porta do quarto e rolou quando atingiu o carpete, a mesma faca de prata que esteve em sua garganta, agora firme em sua mão. “Denise?” ele chamou. “Denise!” Ela apareceu no batente da porta do quarto, o sangue ainda manchando seu pescoço, seu rosto até mais pálido do que normalmente era. “Você voltou,” ela disse, oscilando. Spade a pegou antes que ela atingisse o chão.


CAPÍTULO ONZE. Os olhos da Denise começaram a se abrir. Spade se inclinou sobre ela, um profundo franzido de sobrancelhas enrugando o rosto dele. Sangue cobria toda a frente dele e no cabelo. Considerando o que tinha acontecido da última vez que ela esteve tão perto dele, ela devia se preocupar sobre a proximidade dele de sua garganta. Mas no momento, ela não poderia reunir forças para se preocupar em ser mordida. “Você está horrível,” ela murmurou. Spade não sorriu. “O que ele fez a você?” Ela não queria falar sobre isso. Ela achou que foi agonizante a primeira vez que Raum forçou sua essência dentro dela, mas essa última vez a fez descobrir o que a palavra dor realmente significava. O hotel tinha enviado a segurança para o quarto dela. Ela teve que mentir dizendo que tinha torcido o tornozelo – como se isso fosse explicar os muitos minutos de gritos. Pelo menos os que eles escutaram. Pois Raum cobriu sua boca depois que ele ficou entediado de ouvi-la gritar. “O que ele fez?” Spade repetiu, mais enfaticamente dessa vez. Denise fechou os olhos. “Ele aumentou a dosagem nas marcas,” ela disse, tentando manter o horror da lembrança fora de sua voz. “Ele não estava feliz com meu progresso.” Spade resmungou algo baixinho e ferozmente, muito rápido para ela entender. “Não deveríamos ter ficado no hotel,” ele concluiu. “Deveríamos ter escolhido uma residência particular onde demônios não podem entrar. Eu não pensei que ele fosse nos seguir até aqui, mas obviamente ele é mais esperto do que eu imaginei. Estamos partindo, Denise, assim que nos limparmos.” “Não importa aonde a gente vá.” Era tão cansativo falar. Ela tinha ficado acordada apenas por preocupação de onde Spade estava. Quando ele não voltou ao amanhecer, ela tinha ficado preocupada que algo tivesse acontecido a ele. Agora sua energia estava totalmente esgotada. O que Raum fez quase a matou. “O que você quer dizer?” Uma sacudida suave a fez abrir os olhos. “Vamos, você não pode dormir ainda” Foi preciso todo seu esforço para levantar seu pulso para Spade. “Ele pode me rastrear através das marcas. Então não importa aonde a gente vá. Ele irá me encontrar.”


Spade não disse nada. Denise fechou os olhos de novo. Parecia que ela os tinha fechado apenas por um segundo, mas então o respingo de água morna a fez abri-los. Ela estava no chuveiro. Ao que parecia, presa nos braços de Spade. Ele tinha tirado suas botas e agora estava tirando sua saia. “O que?” ela conseguiu dizer. “Eu tenho que tirar seu sangue de nós dois,” ele disse rapidamente. “Se não, não é seguro.” Se ela não se sentisse como se tivesse sido atropelada por um caminhão, ela teria protestado. Mas no momento, desde que ela não tivesse que se mover, ela não se importava com o que Spade fizesse. A mão dele segurou com cuidado a testa dela, então mais água correu por seu pescoço. Denise fechou os olhos. “Desculpe.” A palavra veio em um sussurro. Spade os virou e a água corrente do chuveiro correu pelo estômago dela em seguida. Ele deve ter tirado o suéter dela também, pelo que parecia. Ela ainda estava de sutiã? Uma olhada exausta pra baixo revelou que estava. Assim como sua roupa de baixo. “Pelo que você está se desculpando?” O rosto dela estava na curva do pescoço dele, então sua voz vibrava contra ela. Talvez por ela ainda não estar totalmente consciente, ela respondeu com a verdade. “Por como eu agi quando você me mordeu. Não era minha intenção. Eu não sabia que faria ser difícil pra você parar–“ “Cristo, é isso que você acha que aconteceu?” Denise sentiu a mão dele acariciar seu rosto. “Não foi você; foi seu sangue. Parece que a essência das marcas de Raum o transformou em um tipo de droga para vampiros. Eu senti os efeitos assim que eu engoli; mas o que está em seu sangue é tão poderoso que eu não pude parar. Eu já ouvi sobre sangue alterado sendo vendido para os jovens no mercado negro, vampiros estúpidos procurando por excitação, mas eu não imaginava...” A voz de Spade foi sumindo. Então ele a sacudiu até seus olhos abrirem. A intensidade no rosto dele foi o suficiente para acordá-la de vez. “O que?”


“É isso, Denise. Seu sangue mudou depois que Raum te marcou. É assim que vamos rastrear Nathaniel. Através do sangue dele.” ___ Spade adentrou pela porta da frente da casa de Ian sem esperar pelo mordomo anunciá-lo. “A quem eu iria se eu estivesse procurando por Dragão Vermelho?” Ian desligou a televisão com um pigarreio. “Eu digo, Charles, que você realmente se transformou em outra pessoa desde que começou a transar com essa ai, não é?” “Não fale dela desse jeito,” Spade rosnou ao mesmo tempo. Denise pareceu agradecida que ele tenha repreendido Ian em sua grosseria, mas o sorrisinho de Ian confirmava que ele sabia o verdadeiro motivo por trás da resposta de Spade. Ele se xingou por sua reação possessiva. Uma coisa era agir como se Denise fosse sua enquanto eles estivessem em público. Outra era se sentir daquele jeito. Spade se sentia como se estivesse em areia movediça quando se tratava de suas emoções por Denise. Quanto mais ele lutava contra, mas ele afundava. “Curiosidade e curiosidade,” Ian falou lentamente. Spade deu um olhar único ao Ian. “Procurando por Dragão Vermelho, você disse?” Ian respondeu, sua sobrancelha arqueada dizendo que ele tinha deixado o outro assunto de lado... por enquanto. “Eu não lembro de ter falado sobre um dragão,” Denise sussurrou. Spade olhou pra ela. “Perseguir o Dragão é uma expressão para pedir droga. Vampiros chamam sua droga de Dragão Vermelho, porque é somente através de sangue infectado que podemos ser afetados por um estimulante químico.” Apesar de que ele sabia que o estimulando no Dragão Vermelho não era nada químico. Os vampiros que o procuravam não se importavam com qual ingrediente lhes dava a viagem, ou sabiam e não divulgavam em público. Consumir ou vender Dragão Vermelho era contra as leis dos vampiros. Afinal de contas, alucinando, vampiros sem controle ameaçavam o segredo da raça e nada era mais preocupante para o mundo imortal do que manter sua existência em segredo. Denise não tinha idéia do quanto seu sangue era perigoso. Se os Guardiões da Lei descobrissem que ela era uma droga ambulante, eles não lhe dariam a chance de encontrar Nathaniel e tirar as marcas dela. Elas a matariam sem


hesitação. E se os fornecedores de Dragão Vermelho descobrissem que Denise era outra fonte para seu comércio ilícito caro, eles fariam de sua existência o inferno. Um músculo repuxou no maxilar do Spade. De jeito nenhum ele permitiria que um dos dois acontecesse. “Não posso dizer que eu tenho algum,” Ian prosseguiu, com uma sacudida de cabeça. “Muito difícil de conseguir, claro. Eu tentei uma vez. Foi divertido por mais ou menos uma hora, mas então ele me deu os sonhos mais podres e mais uma dor de cabeça no dia seguinte – uma bendita dor de cabeça! Por que você iria querer se divertir com aquele veneno, Charles?” “Eu tenho meus motivos,” Spade respondeu. Denise olhou para seus pés, arrastando-os desconfortavelmente, mas sem dizer uma palavra. Moça esperta. Ele confiava em Ian com muitas coisas, mas não isso. O olhar cor de turquesa clara do Ian o avaliou. Spade manteve seu rosto inexpressivo. Se Ian não pudesse indicá-lo a uma fonte, ele iria a alguém que pudesse. Dragão Vermelho pode ser raro e ilegal, mas há meios de encontrar. Havia meios de encontrar qualquer coisa, se você estivesse preparado pra procurar o suficiente. “Eu vou te dizer com quem eu consegui,” Ian disse finalmente. “Não posso prometer que o sujeito ainda esteja lidando com isso; foi há alguns anos atrás. Em qualquer evento, seu nome era Black Jack, e na época, ele freqüentava as altas rodas de apostas no Belaggio.” “O Belaggio em Vegas?” Spade se certificou. Ian deu de ombros. “Afinal de contas, é a Cidade do Pecado.” Aquele músculo repuxou no maxilar de Spade novamente. “Então que seja. Aquela oferta de um quarto ainda está de pé, amigo?” “Por que?” Denise quis saber. Spade pegou a mão dela e deu um leve apertão, mas Ian apenas riu. “Não gosta de mim, boneca? Suponho que sejam aquelas histórias desprezíveis que Cat deve ter contado sobre mim. Mulheres gostam de exagerar.” “Você quer dizer que não tentou chantagear Cat em fazer sexo com você ameaçando matar alguns de seus soldados?“ Denise perguntou, ignorando o aperto que Spade estava dando em sua mão.


O sorriso de Ian foi sem vergonha. “Ah, aquilo? Sim, eu fiz aquilo.” A mão de Denise parecia ficar mais quente enquanto seu odor se destacava com raiva. “Isso é mais do que razão suficiente para eu não gostar de você.” “Denise.” Spade virou para olhar pra ela. “Confie em mim nisso.” Ela lançou outro olhar rebelde para Ian, mas concordou. Aliviado que ela não discutiria mais, mesmo que Ian a estivesse provocando deliberadamente, Spade deu um beijo em sua testa. Assim que seus lábios tocaram a pele dela, ela congelou. Ele também. Beijá-la parecia a coisa mais natural de fazer, ele não tinha nem pensado antes de agir por impulso. Mas agora a lembrança da última vez que sua boca esteve na pele dela passou pela cabeça dele. Spade não podia impedir a onda de calor dentro dele. Um pouco da resposta de Denise poria ser explicada como a reação normal que qualquer humano teria com uma mordida cuidadosamente dada por vampiro. Mas isso não era tudo. Não era nem a metade. Apesar da aversão dela ao mundo dos vampiros, de sua PTSD e da tristeza que ainda a assombrava pelo marido morto, Denise o queria. E apesar da humanidade dela, do crescente perigo em que ela se encontrava e do bom senso dele, ele a queria também. Tanto que chegava a queimar. Os lábios de Spade se afastaram da pele dela devagar, ainda podia sentir neles o calor dela. Quando ele sentiu a fragrância profunda emanando dela, por pouco ele não colou os lábios na boca dela. “Vai precisar daquele quarto agora?” Ian perguntou com grande ironia. Denise não achou o comentário de Ian divertido. Ela se virou e saiu. “Segundo andar, terceira porta a sua esquerda. Colchão de molas,” Ian gritou. Spade atravessou na frente de Ian em um piscar de olhos, parando em cima da hora, apesar de suas mãos ainda estarem com os punhos cerrados. “Você estava pra me bater, Charles?” Ian perguntou, descrença substituindo o divertimento em seu rosto. Spade relaxou as mãos. Ele nunca agiu assim por causa de uma humana durante todo o tempo em que conhecia Ian. Na verdade, ele nunca agiu desse jeito por causa de ninguém, vampiro ou humano. Ele tinha que se controlar quando se tratava de Denise. A situação em que eles estavam de rastrear Nathaniel não permitiria reações possessivas e tolas como essa.


“Eu sei que é da sua natureza agir assim, Ian, mas tente se conter quando estiver por perto de Denise,” Spade conseguiu dizer em um tom bem calmo. Ian ficou de pé, seus movimentos lentos e deliberados, então ele colocou as mãos sobre os ombros de Spade. “Eu não sei o que está acontecendo entre vocês dois, mas está começando a me preocupar. Agindo pelas costas do seu melhor amigo. Procurando por Dragão Vermelho. Seu temperamento explodindo sobre qualquer destrato a ela. Dê um tempo, amigo. Esse não é você.” Não, não era, e Spade sabia disso. Mas ele não podia dar um tempo. O tempo estava correndo de várias formas. “Não se preocupe comigo,” ele respondeu, tocando as mãos de Ian brevemente antes de se afastar. “Eu sei o que estou fazendo.” Ele começou a ir na direção em que Denise tinha ido – que era saindo pela porta da frente, não subindo as escadas para o quarto com colchão de molas – quando a voz de Ian o alcançou. “Estou começando a duvidar disso, Charles.” Spade não respondeu. Ele também estava começando a duvidar disso. ___ Denise esfregou as marcas por baixo de suas mangas longas. Entre seu embaraço, confusão e frustração, ela também estava faminta. Amaldiçoados Raum e Nathaniel. Se não fosse por eles, seus primos e tia ainda estariam vivos. Ela estaria em casa, tentando reconstruir sua vida do jeito mais normal que pudesse. Não aqui, do lado de fora dessa monstruosidade de casa que pertencia a um imbecil imortal. Ela tinha sido tão cuidadosa em ficar longe daquele outro mundo, sombrio, mas parece que nenhuma de suas precauções pareciam fazer diferença, porque aqui estava ela, xingando um vampiro enquanto inexoravelmente se sentia atraída pelo outro. Spade tinha que saber que ela estava atraída por ele. Cat disse à ela que vampiros podiam sentir o cheiro das emoções humanas, como raiva, decepção, medo – ou desejo. Spade nem teria precisado de sentidos imortais daquela vez no parque, mas ela esperava que ele estivesse drogado demais para registrar totalmente o que aconteceu. Agora ela tinha arruinado qualquer chance de Spade passar batido por aquilo. O que estava errado com ela? Ele tinha dito para ela esperar certas exibições de afeição como parte da atuação deles. Ela esperava que Spade achasse que ela ia concorrer a um prêmio da Academia com sua resposta ao beijo dele em sua testa.


Denise esfregou as marcas de novo, desejando que pudesse esfregá-las até saírem e terminar com tudo isso de uma vez por todas. Não que isso fosse adiantar alguma coisa. A essência de Raum ainda estaria pulsando através dela com cada batida de seu coração. Essas marcas eram apenas sua “coleira”, ou uma forma demoníaca de rastreamento. Se Nathaniel estivesse marcado do mesmo jeito – e baseado nas imagens que Raum mostrou a ela, ele estava – porque o demônio precisava dela afinal? Por que ele não podia simplesmente rastrear Nathaniel do mesmo jeito que ele a rastreava? Ela se virou para retomar seu caminho... e colidiu com Spade. Ele tinha vindo pra fora sem ela escutar, e ela, tão distraída, tinha trombado direto com ele. Spade a firmou com uma mão fria em cada braço. Seu olhar cor de tigre estava encoberto. Ele abriu a boca, então parou, como se tivesse algo nada agradável pra dizer e estivesse escolhendo as palavras. Denise estava tão ansiosa para cortar uma humilhante discussão sobre sua recente reação a ele que ela tagarelou a primeira coisa que veio em sua cabeça. “E se Nathaniel estiver bloqueando Raum? Nathaniel tem essas marcas também” – ela levantou os pulsos – “mas Raum precisa de mim para encontrálo. Isso não faz sentido, a menos que Nathaniel descobriu um jeito de neutralizar as marcas, mesmo que fosse apenas o suficiente pra tirar Raum de sua cola.” Seja lá o que Spade ia dizer, isso conseguiu distraí-lo. Ele franziu as sobrancelhas, seus olhos sondando seus pulsos cobertos. “Você está certa. Ou Raum está mentindo sobre ser capaz de rastrear você através delas e ele está apenas nos seguindo ao invés disso. A possibilidade muda o que eu tinha planejado, mas vale a pena investigar.” Denise se perguntou qual seria o antigo plano. E se Spade fosse dizer que ele não podia mais continuar a ajudando? Que a óbvia atração dela fazia tudo muito estranho, ou que as rejeições dele ficariam mais frias de acordo com a necessidade? Ele deve pensar que ela era uma estúpida do jeito que continuava chegando nele mesmo ele tendo deixado claro que isso era apenas negócios pra ele. Sim, Spade tinha reagido no parque, mas ele também estava meio doido por causa dos efeitos do sangue dela. Acrescente isso a natureza pervertida dos vampiros, e Denise esperava que Spade tivesse agido do mesmo jeito mesmo que ela fosse uma ovelha. Ela devia deixá-lo ir embora. Ela o manipulou a fazer algo que já tinha lhe custado muito, tanto em tempo como em dinheiro. Como ela poderia continuar a usá-lo, mesmo que fosse por uma boa causa? Ela não era nada melhor do que Raum ou seu parente vendedor de alma.


Denise endireitou os ombros. “Isso está se tornando muito mais do que você concordou em ajudar e isso não é justo. Já não era justo no começo, mas eu estava muito assustada, eu – eu não estava raciocinando. Agora eu estou, porém, e não posso deixar você continuar me ajudando.” Ele olhou pra ela como se ela tivesse perdido a cabeça. “Você acha que pode ir embora e lidar com isso sozinha?” “Eu sei muito mais agora do que no começo, e talvez... talvez eu pudesse contratar Ian para me ajudar,” ela incluiu, odiando a idéia, mas desejando tentar qualquer coisa pra tirar Spade da jogada. “Ele provou estar a venda com aquele negócio de propriedade por silêncio, e–“ “Você não poderia pagar a lealdade de Ian,” Spade a cortou. “E se eu não fosse seu amigo íntimo há séculos, nem eu poderia. Já passamos por isso Denise. Eu não sou apenas sua melhor opção; sou sua única opção.” Frustração entrou em ebulição dentro dela. “Eu já prometi que eu não iria até Bones. Pra começar, você não queria me ajudar, então boas notícias, eu retomei meu juízo e você está livre.” Spade se moveu para mais perto até ele se elevar sobre ela, o brilho verde em seus olhos. “Você não recobrou o seu juízo – você o perdeu completamente, por isso eu vou ignorar tudo que você acabou de dizer.” “Não seja condescendente comigo,” ela o repreendeu. A sobrancelha dele se arqueou. “Estou sendo prático. Você perdeu uma boa quantidade de sangue e então Raum a atingiu de novo. Isso sustenta o motivo de que aqueles dois eventos deixariam seu bom senso um pouco menos... eficiente.” A raiva deu lugar à fúria, abastecida por todas as outras emoções que ela não se permitia expressar. “Foda-se,” ela disparou. “Eu não estou perguntando, eu estou lhe dizendo que eu estou partindo, e você não vai me seguir. Ponto final.” Os olhos de Spade brilharam perigosamente. “Tente. Vamos ver até onde você consegue chegar.” Ela apertou os punhos – apenas para sentir um golpe de dor nas palmas das mãos. Assustada, Denise olhou para suas mãos e gritou.


Unhas em formato de adagas, amareladas, saiam de dedos longos, seu formato era horrível, afiadas, deixavam marcas sangrentas em formato de meia lua em suas palmas. Não eram as mãos dela. Eram as mãos de um monstro.


CAPÍTULO DOZE. Por um segundo, Spade apenas encarou as mãos dA Denise. Ele nunca tinha visto tal coisa antes, em todos os seus séculos de vida. Então a expressão horrorizada e em pânico no rosto dela o colocaram em ação. Ele tirou seu casaco, enrolando as mãos dela nele, contendo as gotas de sangue que pingavam depois que aquelas unhas ameaçadoras perfuraram sua pele. Ele não podia arriscar que alguém deparasse com seu sangue e descobrisse que era uma droga. Então ele ergueu Denise em seus braços. Ela ainda estava encarando suas mãos mesmo que elas estivessem agora enroladas no casaco dele. O corpo dela tremia todo e ela respirava com dificuldade. Ela estava em choque, ele percebeu. Não é de admirar; a visão das mãos dela tinha chocado ele, e elas não estavam brotando dos braços dele. Spade a carregou para dentro, sussurrando coisas sem sentido em tom tranquilizante mais para distraí-la do que acreditando que o que ele dizia a faria se sentir melhor. Segundo andar, terceira porta a esquerda, Ian tinha dito. Spade subiu as escadas de três em três degraus e entrou no terceiro quarto que ele viu, chutando a porta para fechar. Então ele sentou na cama, abraçando Denise, ainda sussurrando uma série de promessas confortantes que ele não fazia idéia se seria capaz de manter. Ele ficou aliviado quando ela caiu em lágrimas, porque significava que o choque tinha passado. Ele estava preocupado que isso pudesse despedaçar Denise. Havia um limite que uma pessoa podia agüentar, afinal de contas, e fazia apenas uma semana que ele pensou que ela fosse desabar de stress, antes de ele tomar conhecimento das marcas do demônio e da ameaça à família dela. Cristo, se ele fosse Denise, ele choraria também. E provavelmente meteria uma estaca em si. Spade a abraçou mais forte, deitando na cama e puxando o cobertor sobre eles já que ela ainda estava tremendo. Ele se acomodou para enroscar seu corpo ao redor do dela. A cabeça dela estava enfiada no peito dele, escondendo seu rosto, seus ombros balançando por causa do choro que, agora, ela estava tentando conter. Ele gostaria de ser capaz de fazer algo mais por ela do que apenas o patético conforto que ele estava dando. Ele tinha realmente a ajudado desde que ela veio até ele? Parecia que não, e as mãos dela certamente eram malditas evidências de seu fracasso. Que outra parte de Denise iria pagar em seguida se ele continuasse a falhar, se transformar em monstruosidade pela essência do demônio que continuava a crescer dentro dela?


Eu não deixarei isso acontecer, Spade se prometeu, seus braços a abraçando forte. O miserável do parente dela, Nathaniel, tinha encontrado um jeito de vencer Raum por várias gerações. Spade era um vampiro Mestre com séculos de idade; ele seria amaldiçoado se falhasse onde um humano teve sucesso. “Vai ficar tudo bem,” ele disse a Denise, e dessa vez ele tinha certeza. Ela fez um som ofegante. “Você tem um senso de otimismo ilusório, sabe disso?” Corajosa, adorável, teimosa Denise, fazendo piada quando ela deveria estar desmaiada de terror devido às circunstâncias. Spade riu e algo em seu coração deu um clique e ele sabia que seria permanente. Não era apenas luxúria que ele sentia. Era muito mais profundo do que isso. “É a minha vergonha secreta,” ele disse a ela, esfregando os lábios em seu cabelo sem se importar que esse gesto parecia mais normal do que deveria. Ela suspirou, com um som rouco e entrecortado. Ela tinha parado de tremer como antes e agora tinha apenas tremores ocasionais e seu choro tinha sido substituído por um leve soluço. Spade se admirou que fizesse menos de 10 minutos que ela tinha visto suas mãos daquele jeito pela primeira vez. Maldita mulher forte. “Eu já custei a você um casaco, duas camisas, uma casa e um barco.” Ela murmurou. “Deus, Spade, salve-se. Fuja.” Ele se encostou na alta cabeceira da cama, ainda mantendo os braços ao redor dela. “Não.” “Isso não é sua–“ “Você poderia discutir comigo mais tarde, querida? Eu estou bem cansado no momento.” Dizendo isso, ele fechou os olhos, silenciosamente desejando que ela não continuasse lutando contra ele – e que não se levantasse também. Ele queria continuar a abraçando assim. Era a fonte de maior alegria que ele tinha em séculos, apesar de que ele também tinha dito a verdade sobre estar cansado. O sol estava alto e ele não tinha dormido mais do que umas duas horas quando caiu inconsciente com a perda de sangue e drogas. Denise também tinha que estar exausta. Ela não dormiu nada depois que ele sugou seu sangue e Raum fez seu trabalho demoníaco nela. Ela não disse nada. Spade esperou, internamente tenso mesmo que seus membros estivessem relaxados. Ela ainda tinha o rosto enfiado em seu peito,


seu cabelo cor de mogno espalhado sobre ele, as mãos dela ainda embrulhadas em seu casaco sob o cobertor. Os minutos se passaram, mas ela permanecia quieta, e não tentou sair. Gradualmente a respiração dela perdeu a irregularidade do choro de antes e se tornou lenta e regular. Ele não relaxou completamente até ter certeza de que ele estava dormindo. Então ele se deixou levar, um braço ainda em volta dela, sua outra mão aninhando a cabeça dela contra seu peito. ___ Denise se espreguiçou, bocejando, seus olhos ainda fechados. O corpo firme e grande do lado dela se mexeu, a puxando para mais perto enquanto murmurava algo inteligível. Ela se enroscou nele antes de sua consciência retornar devagar e se dar conta da situação. Você está na cama com Spade. Os olhos da Denise se arregalaram. O rosto de Spade a apenas alguns centímetros dela, seus braços a rodeando, suas pernas enroscadas nas dela. Essa era a boa notícia. A má notícia era que seus seios estavam pressionados contra o peito dele e a coxa dele descansava entre as pernas dela, confortavelmente contra a feminilidade dela. Ela não teria como estar mais perto dele a não ser que estivesse soldados juntos, e o emaranhado de cobertas ao redor deles dizia que eles estavam assim por algum tempo. Spade ainda estava dormindo. Mesmo que o coração dela tenha começado a bater forte devido à proximidade íntima, ela não pode evitar tirar um momento para olhar pra ele com atenção. O cabelo dele era tão preto contra sua pele pálida, várias mechas longas caindo sobre sua bochecha. Suas sobrancelhas eram igualmente escuras e espessas, curvadas sobre olhos fechados que eram emoldurados por cílios longos e negros. Seu nariz era uma ponte reta entre duas maçãs do rosto altas, sua boca carnuda o suficiente para ser sensual, e forte o suficiente para ser masculina. Denise lembrou de como foi sentir aqueles lábios suaves e firmes pressionados em sua testa. Então como tinha sido quando a boca dele traçou um caminho por seu pescoço de forma tão meticulosa e sensual antes de mordê-la, então uma dor começou a palpitar nela. Ela estava dominada com o alarmante desejo de beijá-lo, para saber como aqueles lábios eram contra sua boca. Os olhos do Spade se abriram, a assustando, porque nenhum músculo nele se moveu de sobreaviso. Denise se afastou se sentindo culpada, com medo que ele soubesse pelo seu cheiro ou por sua expressão o que ela estava pensando, mas seus braços a prenderam com mais força, a impedindo de escapar. Ela foi pega entre a esperança de que ele a deixasse ir e a esperança de que não deixasse enquanto ela o encarava, presa em seus braços. Os olhos de Spade


começavam a ficar verdes. Seus lábios se entreabriram, mostrando as pontas das presas... e isso apenas fez o palpitante calor dentro dela crescer. Ele a queria também? Ou aqueles eram sinais de fome de uma natureza diferente? Afinal de contas, como ele poderia querer uma mulher deformada demoniacamente – Denise arfou quando seu olhar caiu sobre suas mãos, livres do casaco de Spade enquanto dormia. Os longos dedos horríveis e as unhas em forma de garras tinham sumido. Eram as mãos dela de novo. Normais. “Spade, olhe!” ela exclamou, balançando as mãos entre eles. Os olhos dele voltaram a ficar da cor de tigre e ele a soltou, sentando para examinar as mãos dela. “É como se nada tivesse acontecido com elas,” ele disse, refletindo, as virando para olhar melhor. O alívio era tanto que ela quase caiu de tontura. Um sorriso largo apareceu em seu rosto. Ela não era um monstro. Não ainda. Ainda havia tempo para salvar sua família e ela mesma. Ao mesmo tempo, seu estômago emitiu um ruído que se transformou em um ronco sinistro. As sobrancelhas de Spade se ergueram e sua boca se curvou. “Talvez seja hora de arrumar algo para você comer.” Uma hora mais tarde, Denise limpou seu terceiro prato, ignorando Ian, que a observava com fascinação e espanto. “Aonde você coloca tudo isso?” ele finalmente perguntou, seu olhar cor de turquesa passando sobre ela. “Ou você é uma daquelas moças que vomitam?” Ela lhe lançou um olhar, mas não respondeu. Talvez um dia ela perguntasse a Spade como ele veio a ser amigo de alguém como Ian. Se Ian tinha um outro lado além de um babaca grosso, ela ainda não tinha visto. Mesmo assim, nem ele poderia estragar seu humor. Ela olhou para suas mãos de novo e deu outra garfada na comida. Ela nunca pensou que a visão delas, com seu dedo direito ligeiramente torto por ter sido quebrado quando era criança e suas unhas roídas, a fariam tão feliz. Spade voltou para a cozinha. Ele esteve agendando o vôo deles e o aluguel do carro, apesar de que eles ainda ficariam mais uma noite na casa de Ian. Com seu humor melhorado, aquilo não importava mais pra ela.


“Ah, aqui está o Barão DeMortimer de novo,” Ian disse, girando sua taça de vinho. Algo espesso e vermelho estava dentro dela. Denise tinha dito a si mesma que era vinho para não ficar enjoada. A boca de Spade se apertou com a menção de seu antigo título. “Nós vamos partir pela manhã,” ele disse a Denise. Ela olhou para a janela. Ian não tinha um relógio por perto, mas estava bem escuro lá fora. Podia ser manhã em apenas algumas horas. Ian recuou. “Viajar tão perto do amanhecer? Você deve estar com bastante pressa para encontrar sua droga ilícita.” Denise ignorou a nota de desafio na voz dele. Ian estava tentando pescar informação, mas ele não ia conseguir por ela. Spade ignorou também. Ele foi se sentar perto dela, se sentando com uma graça sem esforço que parecia que seu corpo se derramou sobre a cadeira. Seus dedos preguiçosamente batiam no canto do balcão enquanto seus olhos escuros a olhavam. “Terminou?” Denise olhou pra baixo. Oh, seu prato estava vazio de novo – e um quarto prato realmente seria forçar a barra. “Sim.” Ela o limpou e o colocou na máquina de lavar louça, cerrando os dentes ao comentário de que ele tinha outros humanos que poderiam fazer isso. Mas ela não revidou com uma resposta afiada, se lembrando que eles iam partir logo e que Ian apenas iria apreciar ver ela se irritar. Somente quando Spade fechou a porta do quarto atrás dele que Denise se preocupou com o que as próximas horas iriam trazer, com os dois sozinhos no quarto e a atração dela por Spade crescendo mais a cada minuto. Randy. Pensar nele a fazia se sentir triste e culpada. Ela ainda amava Randy, ainda sentia falta dele, mas de alguma forma Spade tinha derrubado suas barreiras de um jeito que parecia ser impossível esconder. Sim, fazia um longo tempo desde que ela tinha feito sexo, mas Spade não era o primeiro homem atraente que ela tinha estado por perto. Por que foi justo ele que mexeu tanto com ela? Por que ela se sentia tão atraída a ele tanto fisicamente quanto emocionalmente? O coração da Denise começou a disparar. E se Spade a quisesse também? E se as outras vezes em que ele a encarou com calor nos olhos, não tinha sido desejo de sangue? Spade desdenhava relacionamentos com humanos, mas


ele admitiu fazer sexo com eles. Ela poderia fazer isso? Dormir com um vampiro que achava que a humanidade dela a fazia indigna de algo mais do que sexo casual? A idéia era insultante. E ainda mais, ela poderia dizer não se Spade começasse a tocá-la do jeito que tinha feito no parque? Para beijar mais do que seu pescoço com aquela boca astuta e apaixonada? Era difícil pra ela, ultimamente, controlar sua paixão quando se tratava de comida. Essa paixão seria mais poderosa do que seu orgulho, do quanto ela sentia falta de Randy, e de sua intenção de deixar pra trás qualquer coisa sobrenatural assim que se livrasse dessas marcas? Denise não queria descobrir. “Eu acho que a comida me fez mal,” ela mentiu e correu para a segurança do banheiro. ___ Spade esperou até que eles estivessem no meio do vôo antes de dizer a Denise sobre a mudança de planos. Ela já tinha ficado inquieta o suficiente quando viu que eles não iriam em um vôo comercial, mas sim em um avião bimotor. Não havia necessidade de perturbá-la com o resto do itinerário antes que ela realmente precisasse saber sobre ele. “Não vamos para Vegas. Nós vamos para a casa dos seus pais na Virgínia,” ele disse a ela. Denise pareceu espantada. “Por quê?” “Eles são sua família mais próxima e eu não confio na palavra de Raum de que ele não irá matar um deles na tentativa de motivar você a ser mais rápida. Demônios não são confiáveis, para dizer o mínimo.” “Mas nós não podemos contar a meus pais sobre isso. Meus pais não estão com a saúde boa, sem mencionar que eles não sabem nada sobre vampiros, demônios ou qualquer coisa paranormal.” Spade balançou a mão. “E nem vão saber. Você vai me apresentar como seu novo namorado e dizer a eles que a boa notícia é que você os está mandando para um cruzeiro.” Denise simplesmente o encarou por um segundo. “Meus pais são Judeus, e minha tia e primos morreram faz poucas semanas. Eles não vão sair em um cruzeiro; eles mal terminaram com os compromissos religiosos!” “Eles irão desde que eu os faça mudar de idéia – e antes de você protestar, o que é mais importante? A vida deles ou sua versão a mim usando controle da mente neles?”


A boca dela abriu e fechou, como se ela fosse começar a dar vários argumentos, mas então descartou todos. Spade assistiu com divertimento apesar da seriedade do assunto. Ela ficava linda daquele jeito. “Tudo bem,” ela disse finalmente. “Eu não gosto, mas você está certo. A segurança deles é mais importante.” Um argumento já foi, agora vinha aquele que realmente iria deixá-la perturbada. “No caso de Raum não estar te seguindo através das suas marcas, é muito importante que nós o despistemos,” Spade disse, soltando seu cinto de segurança. “É por isso que não estaremos nesse avião quando ele pousar.” “O que?” Denise arfou, olhando ao redor com repentina agitação. “De jeito nenhum. Eu tenho medo de altura. Se você acha que eu posso colocar um para quedas e pular, você está louco. Eu irei vomitar e desmaiar antes mesmo de puxar a cordinha.” Spade não disse nada, mas o olhar dele – e a falta de para quedar no avião – devem ter dado a pista a ela. “Inferno, não,” ela disse, ficando branca de medo. “É o melhor jeito de descobrir se Raum está mentindo sobre as marcas,” Spade argumentou, soltando o cinto de segurança dela mesmo com ela estapeando as mãos dele. “Eu já hipnotizei o piloto para acreditar que estivemos no avião o tempo todo e desembarcamos com ele em Vegas. E você não tem que se preocupar em puxar uma cordinha comigo.” Denise não estava nada despreocupada. “Você perdeu o juízo. Se espatifar no chão certamente não vai te matar, mas eu não serei nada mais do que uma mancha aonde quer que eu pouse!” “Eu não vou deixar você se espatifar,” ele disse, a pegando quando ela se agarrou ao assento em recusa. “Temos que fazer isso agora; nós estamos sobrevoando a área correta.” “Isso é demais,” ela argumentou enquanto ele a arrastava para a porta, abrindo e os dois sendo abraçados pelo vento. “Não faça isso, Spade, não faça isso–“ “Se agarre em mim e feche os olhos,” ele respondeu, colocando os braços ao redor dela. Denise o xingou, mas ela o agarrou com todas as suas forças. O co-piloto estava lá, pronto pra fechar a porta atrás deles e esquecer que eles pularam, do jeito que Spade o tinha instruído antes.


Spade olhou para o chão nublado abaixo deles, procurando pela marca de terra que confirmaria sua localização. O coração de Denise martelava contra o peito dele, o cheiro de medo dela o envolvia e sua respiração estava muito acelerada, ele gostaria que ela não o tivesse feito fazer um juramento de sangue sobre não a hipnotizar. Assim que ele encontrou o que estava procurando, Spade apertou Denise mais forte e pulou do avião.


CAPÍTULO TREZE. O ar passava muito rápido por Denise, tão rápido que ela não conseguia aspirar o suficiente para gritar. Parecia que todos os seus órgãos se elevaram dentro dela, fazendo com que sua ameaça anterior de vomitar se tornasse uma possibilidade real. A velocidade absurda e o vazio sem fim debaixo dela era aterrorizante. Se ela pudesse se enfiar dentro da pele do Spade para se aderir mais a ele, ela teria feito. Apenas a sensação dos braços de Spade ao redor dela, firmes e fortes, evitavam com que ela desmaiasse. Então o sentimento de náusea em suas entranhas começou a aliviar e o barulho do vendo ficou menos ameaçador. Agora ela podia respirar o suficiente para gritar, e ela o fez, em alto e bom som. Acima de seus gritos ela ouviu Spade falando. “Nós estamos bem, não precisa gritar. Você pode até abrir os olhos agora se quiser.” Ela o fez, olhando pra baixo – e então os fechando de novo com um tremor. Spade os estava movendo rapidamente pelo ar em paralelo ao chão, ainda tão alto que os carros pareciam pequenininhos. Ele era louco em falar pra ela olhar aquilo? “Quanto tempo mais?” ela conseguiu falar. “Apenas mais alguns segundos.” Mesmo aterrorizada como ela estava, não escapou dos ouvidos de Denise o quanto Spade estava se divertindo. Claro, ria da humana que não pode voar, Sr, Vampiro Mestre. Apenas espere até que eles cheguem ao chão. Depois do que pareceram horas, Denise sentiu um pequeno empurrão e então Spade disse, “Viu? Estamos aqui e você está perfeitamente segura.” Ela inclinou a cabeça pra baixo e abriu um pouquinho os olhos. Os sapatos deles, rodeados por grama, iluminaram seu olhar. Linda, sólida, maravilhosa grama plana. Spade a deixou escorregar de seus braços, mas levou algum momento até o tremor dela passar o suficiente pra ficar em pé sozinha. Assim que ela conseguiu ficar de pé sozinha, ela o empurrou com tanta força que o fez dar um passo pra trás. “Como você ousou rir de mim durante a descida!” Spade levantou a mão de forma conciliatória, mas aquela expressão divertida não deixava o rosto dele. “Agora, Denise–“


“Não me venha com Denise,” ela rebateu. “Eu não me importo o quanto você seja velho, poderoso ou forte. Se você fizer algo parecido com isso de novo, eu vou enfiar uma estaca no seu coração. Filho da puta, eu não posso acreditar que você me jogou pra fora de um avião.” Spade ainda parecia estar tentando controlar a risada. “Eu não te joguei para fora. Eu pulei com você. Muito diferente.” Ela queria bater nele, mas uma pequena parte dela reconhecia a lógica por trás das ações dele. Não havia jeito de Raum a rastrear por meios normais, com Spade os fazendo voar a vários pés de altura depois de pular de um avião. Denise sabia que vampiros podiam voar, mas não tinha percebido a extensão daquela habilidade. Ela pensou que eles pudessem apenas sair alguns metros do chão. Não agir como um helicóptero com presas. “Agora pra onde?” ela disse, tentando acalmar seu coração disparado. “Para a casa dos seus pais, claro. Eu tenho um carro esperando por nós perto daquele monumento. Então iremos para a minha casa.” “Sua casa em St. Louis?” “Não, Denise. Minha casa na Inglaterra.” ___ Quase 24 horas mais tarde, Spade viu as familiares cercas vivas que circulavam o perímetro de sua propriedade em Durham. Ele cutucou Denise do seu lado. Apesar de ela ter ficado acordada durante todo o vôo da Virgínia até a Inglaterra – vôo em um jato comercial, muito mais a preferência dela – ela finalmente adormeceu na viagem de carro do aeroporto. Alten dirigia, então Spade a teria ajeitado mais confortavelmente em seu colo, mas ela insistiu que não estava cansada até que pegou no sono. “Já chegamos,” ele disse a Denise. Ela piscou... e então seus olhos se arregalaram enquanto eles se aproximavam da entrada de carros. “Essa é sua casa?” ela perguntou. Spade ouviu o choque na voz dela e abafou o riso. Os arredores de sua propriedade costumavam ser muito maiores, mas como ele viajava muito, ele vendeu vários acres no último século e apenas manteve sua mansão por motivos sentimentais. A casa principal era considerada de médio porte em sua juventude, mas parecia gigante para os padrões modernos. O primeiro andar foi construído há 600 anos, e então diferentes gerações dos DeMortimers fizeram acréscimos nos 200 anos seguintes. Trocou de mãos no início do


século XVIII quando Spade era um vampiro novo na Austrália, mas assim que ele a recuperou em meados dos anos 50, ele adicionou duas novas partes. Então ele a renovava a cada década mais ou menos. O resultado era uma mistura de arquitetura gótica e conveniência moderna. Denise virou para olhar para Spade. “Você deve ser podre de rico.” Ele deu de ombros. “A princípio eu a herdei. Perdi tudo quando fui mandado para New South Wales, claro, mas com o tempo eu consegui a reaver.” Ela ainda parecia incapaz de associar ele com a mansão onde eles estavam chegando. “Eu achei que barões eram uma classe menor da aristocracia. Acho que lembrei errado da história.” “Baronia era realmente o nível mais baixo no ranque de nobreza na minha época, mas barão também era um título dado por cortesia ao filho mais velho. Meu pai era o Conde de Ashcroft, título que eu também herdei depois de sua morte. Mas ai eu já era um vampiro, então eu nunca me senti no direito de usar Conde como meu título. Ele era destinado a um filho vivo, o que eu não era mais.” Spade não pode evitar que as lembranças engrossassem sua voz. Da última vez que ele tinha visto seu pai foi na cela da prisão, pouco antes de ser enviado para as colônias. Seu pai não disse nada a ele. Ele apenas ficou lá de pé, com sua pose orgulhosa curvada, e chorou. Não por vergonha do destino de seu único filho ser transportado devido às dívidas que não podiam ser pagas, mas por culpa. Denise ficou em silêncio por um minuto. Então ela disse, “Eu não quero saber como é a casa que você deu ao Ian por minha causa. Não é de se admirar que você fica me dizendo que não vai me deixar te reembolsar. Provavelmente eu nem poderia, nem se eu te desse cada centavo que eu tivesse.” Spade afastou as memórias do passado. “Você vai parar de se preocupar com isso? Provavelmente Ian irá oferecê-la a mim em uma aposta por alguma coisa nos próximos anos, então eu a ganharei de volta. Ou ele irá querer um favor e ele irá trocá-la em troca da minha assistência. Sua perda não é permanente.” Ela lhe deu um sorriso fraco. “Você me diria isso mesmo que não fosse verdade, não é?” Sim, ele diria, não que ele fosse admitir isso. “Besteira. É assim que vampiros são. Se você quer alguma coisa, tem um preço, mas então ele volta pra você de novo.”


Alten parou carro em frente da casa, saindo para tirar as malas do bagageiro. Denise desviou o olhar. “Você nunca me pediu para pagar um preço,” ela quase sussurrou. Spade sentiu algo se apertar dentro dele quando olhou para o perfil dela. Oh, eu quero muitas coisas de você, Denise. Coisas demais pra te dizer agora. “Você não é uma vampira,” foi tudo que ele disse. Alten abriu a porta dele. “Você vai sair?” Spade saiu e estendeu a mão para Denise. Ela a pegou, então soltou de forma consciente assim que estava fora do carro. Ele a guiou até a porta da frente, que foi aberta por sua sorridente empregada, Emma. Então Denise soube da última parte do plano. “Estou partindo agora. Alten ficará com você pelos próximos dias.” O queixo de Denise caiu. “Você está partindo?” ela repetiu. “Aonde? Por quê?” Spade se inclinou, baixando a voz. “Não deixe a casa por circunstância alguma, e não importa o que, não convide ninguém para entrar.” Ela ainda tinha aquele olhar de surpresa em seu rosto, mas por baixo dele havia algo mais. Mágoa. “Você vai voltar?” Frustração competia com outra profunda emoção nele. Ela realmente achava que ele a fez voar até lá apenas para abandoná-la? Ela não o conhecia o suficiente para perceber que ele não faria isso? “Sim, eu vou voltar,” ele disse com a voz rouca. Então ele fez o que queria fazer por mais tempo que ele admitia. Ele a puxou para mais perto, inclinando a cabeça dela pra trás e cobrindo a boca dela com a sua. A surpresa de Denise a fez entreabrir os lábios, e ele escorregou a língua entre eles. Eles tinham um sabor ainda melhor do que a pele dela, e quando ele se aprofundou no beijo, acariciando a língua dela com a dele e explorando cada curva de sua boca, o gosto dela era como vinho tinto – misterioso, inebriante e doce. Sem os efeitos da droga em seu sangue, mas de alguma forma tão potente para ele. Spade a soltou e se virou. Se ele não parasse agora, ele a carregaria direto para a cama dela, e isso não ajudaria em nada o resto de seus planos. Ele entrou no carro e partiu, deixando Denise olhando ele partir.


___ Denise deu a Alten uma olhada severa quando ela fechou a porta do banheiro. Se ela não tivesse insistido que haviam alguns lugares que o vampiro não podia segui-la, ele teria se empoleirado sobre a bancada da pia enquanto ela fazia xixi. De acordo com Alten, Spade havia dado instruções para ela não ser deixada sozinha enquanto ele estivesse fora. Absolutamente. Dessa forma, ela tinha uma constante sombra, sendo Alten ou Emma, exceto no banheiro – e Denise estava começando a fingir que precisava ir ao banheiro apenas para ter alguns minutos de privacidade. Seus sentimentos balançavam em um pêndulo. Uma parte dela estava irritada que Spade tenha arranjado proteção ininterrupta. Se ele estava tão preocupado sobre algo acontecer a ela, então aonde ele estava? A outra parte estava tocada por ele levar sua segurança tão a sério – ainda que isso fosse por causa de sua amizade com Bones e Cat, ou por algum outro motivo? Ponderar sobre as motivações dele a deixou em um turbilhão emocional, e seus humores já estavam fora de sintonia por sua menstruação chegando dois dias atrás. Por que Spade a beijou antes de partir? Para manter as aparências para Emma e Alten que ela era sua namorada? É comum para os casais se beijarem como despedida, afinal de contas, e eles estavam fingindo ser um casal. Nada naquele beijo deveria impressioná-la como fora do normal, exceto que ela não conseguia parar de pensar sobre ele. Será que Spade estava apenas fingindo? Aquele beijo não pareceu falso. Foi experiente, exigente, intenso, e... cheio de promessas. Como se Spade estivesse dando a ela uma prévia do que seria na cama com ele. Ou foi apenas o beijo experiente de alguém com centenas de anos de experiência e significou para Spade nada além de outra atuação como as que ele tinha feito na frente de seu pessoal? E a pergunta mais assustadora: Qual das opções ela queria que fosse? Denise deixou a água correr, então Alten não iria adivinhar que ela se enfiou lá só pra se livrar dele. Se perguntando se ela queria que Spade estivesse atuando fez diabos com suas emoções. Ela tentou pensar em Spade de forma desprendida nos últimos dias, mas não tinha funcionado. Se ela fosse honesta, ela admitiria que sentia uma forte atração desde a primeira vez que o viu na festa de Cat. Denise estava conversando com Cat quando, de repente, ela se sentiu inclinada a olhar pra trás. Um estranho entrou pela porta, seu cabelo preto cheio de flocos de neve e seu olhar intenso a atingiram. Quando ela o encarou, um estranho tremor percorreu o corpo de Denise, como se algo importante estivesse prestes a acontecer. Mas então


Randy a chamou e Denise voltou à realidade, afastando sua reação desconcertada ao estranho sombrio. Agora, mais de um ano depois, aquela estranha atração não tinha ido embora. Muito pelo contrário, estava mais forte. Apesar de ela não querer se envolver com o mundo dos vampiros, uma grande parte dela queria se envolver com um vampiro em particular. Tão rápido como aquele pensamento veio à tona, a culpa também apareceu. Randy não era mais a última pessoa que a tinha beijado. Sim, Denise sabia que eventualmente Randy não seria mais o último a ter feito amor com ela também. Mas não era muito cedo para estar pensando em outro, e especialmente um vampiro? Foi uma guerra de vampiros que tinha matado Randy, então de alguma forma, ela estaria dormindo com o inimigo. Mas na verdade foi você que o matou, sua culpa zombou dela. Você não apenas o arrastou para aquela casa cheia de vampiros; você também deixou Randy sair do porão durante a batalha enquanto você ficou em segurança lá embaixo. Denisse arremessou o sabonete através do banheiro, aliviada que não acertou nada exceto a banheira. Se ela encontrasse Nathaniel e tirasse suas marcas, ela poderia evitar que mais pessoas que ele amava morressem por causa dela. Ela podia voltar a se esconder do mundo dos vampiros e de todas as emoções que Spade despertava nela, mas ela não poderia se esconder da real culpada na morte de Randy: ela. No momento seguinte, Alten arrebentou a porta, suas presas pra fora, seus olhos verdes, e uma grande faca em sua mão. “O que há de errado?” ele rosnou, olhando ao redor do banheiro. “Eu ouvi uma agitação.” O coração dela, que tinha instantaneamente começado a martelar, agora começou a diminuir o ritmo. “Não tem nada errado. Eu joguei o sabonete, só isso. Olha só o que você fez com a porta.” Pedaços de madeira agora se espalhavam pelo chão, onde Alten tinha quebrado a fechadura. Seu olhar caiu no sabonete amassado perto da banheira de hidromassagem. “Oh,” ele disse. “Desculpe. Parecia que você estava em perigo.” O rosto de Denise queimou. Pelo menos ela estava de pé totalmente vestida, ao invés de acocorada na privada com as calças abaixadas. “Você pode, hum, por favor, sair agora?”


Alten colocou a porta de volta no batente, ficando do lado de fora. “Eu irei consertar assim que você sair,” ele disse, tão calmo como se algo tão estranho não tivesse acontecido. Denise não disse nada. Ela olhou para seus pulsos, sempre cobertos com camisas de mangas longas. Ela não podia se dar ao luxo de ficar esperando por Spade, e nem sua família. O cruzeiro de seus pais durava 3 semanas e 5 dias haviam se passado sem ela fazer nada. Se Spade não voltasse no dia seguinte, ela teria que começar a procurar por Nathaniel sem ele. ___ Denise tinha apenas começado sua refeição pós almoço, pré jantar, quando Alten inclinou a cabeça para o lado. “Tem alguém aqui,” ele disse. “Eu escuto um carro.” O garfo dela caiu sobre o prato. Ela pulou, ignorando a repreensão de Alten para deixar Emma ver quem era primeiro, e quase correu para a frente da casa. Levou um minuto, apesar do grande tamanho da casa e do fato de que a cozinha ficava no segundo andar na parte dos fundos. Denise não conseguia entender porque Emma colocava a mesa na sala de jantar quando ela era a única que comia comida sólida. Emma chegou à porta antes dela. A vampira de cabelos grisalhos sorriu para Denise antes de olhar novamente para a longa entrada de carros. “É o Spade,” Emma disse. Denise protegeu os olhos dos últimos raios de sol, que brilhavam diretamente atrás do carro que fazia a última curva. Ela não podia ver quem estava dentro, com a sombra e os vidros escuros, mas ela aceitaria a palavra de Emma. Se Denise não achasse que pareceria muito pegajoso, ela teria esperado na entrada de carros ao invés de esperar na porta – mas diabos, faziam 5 dias! 5 dias sem telefonemas, nenhuma palavra, e nada de procurar por Nathaniel enquanto ela estava trancada no equivalente a uma Alcatraz dourada. Ele tinha toda intenção de fazer Spade saber disso. O carro parou e Spade saiu, parecendo tão suave e bonito de tirar o fôlego como de costume. Ele sorriu para ela enquanto se aproximava, sua sobrancelha escura inclinada. “Não vai me convidar para entrar na minha própria casa, Denise?” Ela abriu a boca – e foi empurrada para o lado. Aturdida, Denise se virou para ver Emma – doce, miúda, de fala macia – expondo suas presas.


“Saia daqui,” Emma chiou. Foi então que Denise percebeu o cheiro, ácido e suave atingir a entrada da casa. Os dentes de Spade foram expostos com seu próprio rosnado enquanto a pele de seu rosto parecia derreter até se transformar nos traços de Raum. “Deixe-me entrar,” Raum disse, cada palavra era um rosnado furioso. Emma bateu a porta, cortando a visão de Denise do rosto cheio de raiva de Raum. Altem a colocou de pé sem desviar os olhos de Emma. “Dispare as labaredas,” Alten disse. Emma correu em direção ao hall principal. Denise olhou ao redor, esperando por Raum aparecer a qualquer momento. Estranho que ele não apareceu. Do lado de fora, um uivo sobrenatural parecia agitar as janelas. Era o suficiente para fazer o coração de Denise bater em uma marcha acelerada enquanto as marcas em seus pulsos se incendiavam. Alten pegou seu braço. A pele do vampiro era fria através da manga da blusa dela, seu aperto era suave, mas decidido. “Não se preocupe. Aquele é um demônio corpóreo, então ele não pode entrar a menos que alguém o convide.” “Eu pensei que isso fosse apenas um mito de vampiros,” Denise disse, trêmula, absorvendo essa informação. Deve ser por isso que Raum se disfarçou de uma pequena garotinha quando ele foi na sua casa pela primeira vez, e ela o convidou a entrar. Até se importou com ele. “E agora o que? Não podemos apenas ficar aqui e esperar que ele vá embora.” Alten não teve chance de responder. Vários booms soaram, parecendo que estavam ao redor da casa toda. Do lado de fora, Raum gritou, tão forte e alto que Denise tampou os ouvidos. “Bombas de sal,” Alten disse com satisfação. “Eu sempre ouvi que sal queimava demônios. Acho que é verdade.” “Eu sei que você pode me ouvir, Denise,” Raum rosnou do lado de fora um minuto depois. “Deixe-me entrar agora ou eu matarei cada pessoa relacionada a você!” Eu sei onde sua família está. Você não pode escondê-los de mim!” Denise começou a se mover para frente, mas o pulso firme de Alten se tornou de aço. “Ele está mentindo,” ele disse sem rodeios. “Demônios sempre mentem.”


Ela mordeu o lábio, os olhos cheios de lágrimas. E se Raum não estivesse mentindo? E se ficar lá parada fosse o mesmo ato covarde que ela mostrou com Randy aquela noite, e resultasse nas mesmas consequências letais? E o que Spade estava pensando, fazendo armadilhas em sua casa com bombas feitas sob medida para um demônio? Elas obviamente não tinham surtido efeito em matar Raum. Elas apenas o irritaram ainda mais a ponto de resultar na morte de seus pais. Do lado de fora, Raum continuava a gritar suas ameaças. Denise estava ficando mais desesperada. Antes, ela tinha um acordo com o demônio. Agora parecia que todas as apostas estavam encerradas. “Eu tenho que sair e ir até ele,” Denise disse, puxando seu braço. “Eu tenho que dizer a ele que eu ainda vou dar o que ele quer.” Alten não se moveu. “Você não vai lá fora.” “Você não sabe qual era o nosso acordo!” Denise gritou, puxando o braço com mais força. “Eu não vou deixar você fazer minha família ser morta!” Alten não discutiu com ela. Ele apenas colocou uma mão sobre a boca dela e a segurou com a outra, carregando-a, escada acima. Ela ainda podia ouvir Raum gritando todos os meios terríveis de tortura que ele usaria em seus pais, a menos que Denise o deixasse entrar. Porém, ela não pôde. Ela não podia nem ao menos falar. “Desculpe, mas não posso arriscar que você faça algo não inteligente,” Alten disse, ignorando os sons abafados que Denise emitia debaixo da mão dele. Quase 30 minutos depois, Raum ficou em silêncio de repente. Denise ouviu o freio de um carro, então o som da porta da frente se abrindo. Spade apareceu no batente da porta nos próximos momentos. Seu cabelo preto estava desgrenhado, como se ele estivesse correndo, e seus olhos tinham aquele brilho verde. Ele acenou com a cabeça para Alten, que finalmente tirou a mão da boca de Denise e seu braço da cintura dela. Ela empurrou Alten de lado e então foi até Spade, dando um tapa no rosto dele, o mais forte que ela pode. “O que você fez?”


CAPÍTULO QUATORZE. Não foi o tapa que irritou Spade. Assim que ele viu Denise amordaçada e contida por Alten, ele sentiu que isso viria. Ele não estava nem preocupado por ela ter batido nele na frente de Alten. Alten achava que Denise era sua namorada, então uma briga de namorados não era causa para preocupações com a liderança de sua linha. Mas o que fez a raiva de Spade disparar foi a força por trás do tapa dela – força que nenhum humano deveria ter. E a dor em seu rosto se uniu ao cheiro de seu próprio sangue. Um olhar confirmou o que ele suspeitava; as mãos dela se transformaram, unhas curvadas no lugar de suas unhas e seus dedos transformados em algo como garras. Demônio infeliz, iria pagar pelo que tinha feito a ela. Rapidamente, antes de Alten perceber, Spade puxou Denise para a cama e segurou suas mãos sobre ela, as escondendo entre os travesseiros enquanto seu corpo prendia o dela. “Saia,” ele disse a ele. “Fique de olho nos nossos hóspedes.” Alten saiu, sabiamente fechando a porta atrás dele. Denise tinha arfado quando ele a achatou na cama, o cheiro de sua raiva aumentou e a temperatura do corpo dela parecia escaldá-lo. Ele não tinha imaginado isso antes, Spade notou com raiva. A temperatura dela aumentava sim, quando ela estava contrariada, e agora, ela estava furiosa. “Saia de cima de mim, Spade. Eu falo sério–“ Ele soltou as mãos dela e saiu de cima, colocando um dedo em seus lábios no gesto universal de pedir silêncio. Então ele apontou para as mãos dela. O rosto dela empalideceu quando as viu. “Eu não podia deixá-lo ver,” Spade disse, tão baixo que ela podia não ter escutado. Ela escutou, porque ela assentiu. Seu olhar brilhando e então ela desviou o olhar de suas mãos, como se ela não aguentasse olhar pra elas. “Denise.” Spade gentilmente pegou as mãos deformadas dela, ignorando as tentativas dela de tirá-las. “Não deve ser permanente. Da última vez não foi.” Ela piscou rapidamente e então seu rosto endureceu. “Isso não importa. O que importa é o que você fez a Raum. Ele nunca deixará minha família em paz agora. Você o irritou muito.”


Spade levantou e foi até a televisão, ligando e aumentando bastante o volume. O demônio tinha ido embora assim que o viu, o que era digno de atenção. As bombas de sal devem ter ferido Raum o suficiente para ele correr de uma briga com um vampiro Mestre, o que Spade teria saboreado. Porém, Sade não queria arriscar que Raum ouvisse o que ele tinha a dizer para Denise, no caso de ele ainda estar espreitando. Ele sentou de volta na cama, se inclinando para mais perto de Denise para que ela pudesse ouvi-lo, apesar da televisão alta e tentando ignorar o odor inebriante que dizia que ela estava menstruada. “Nós sabemos agora que Raum não estava mentindo sobre rastrear você através das marcas,” Spade disse. “O que significa que ele a teria seguido se você tivesse ido comigo. Uma vez que essa era uma possibilidade, eu te deixei aqui, tanto para ver se o demônio te encontrava quanto para evitar que Raum descobrisse o que eu estava fazendo.” “É melhor seu plano ser incrível, ou depois daquelas bombas de sal minha família vai estar morta se Raum os encontrar,” Denise disse, com medo e raiva ainda em seu tom de voz. Ele encontrou o olhar dela, querendo que ela visse o olhar objetivo dele. “Nós sabemos que Raum é um demônio corpóreo, não meramente um humano possuído. Um demônio corpóreo não pode entrar em uma residência particular a menos que seja convidado, não pode se mover durante o dia e pode ser ferido com sal. Um humano possuído sendo guiado por um demônio pode ir aonde quiser, quando quiser e não tem aversão a sal.” “Isso é uma coisa boa sobre Raum, ou uma coisa ruim?” ela perguntou. De certa forma, era uma coisa ruim, pois um humano possuído era muito mais fácil de se livrar, mas Spade não ia dizer isso pra ela. “Antes que você possa matar seu inimigo, você tem que saber o que o seu inimigo é,” Spade respondeu, escolhendo suas palavras. “Agora sabemos o que Raum é, o que significa que estamos a um passo de matá-lo. Quanto a seus pais, eles estão no meio do oceano. Raum não iria querer estar em lugar algum perto daquela água salgada, mesmo que ele saiba aonde eles estão, o que não sabe, ou ele teria provocado você dizendo a localização exata deles.” Denise mordeu o lábio, indo colocar o cabelo pra trás e então parando com nojo quando ela olhou para suas mãos. Ela as enrolou nas cobertas da cama sem falar nada, porém, e encontrou o olhar dele sem aquele brilho de raiva nos olhos dela. “Eles não podem ficar em um cruzeiro para sempre, Spade, e Raum ainda pode me rastrear sempre que ele quiser. Eu entendo que você tinha que saber


que tipo de demônio ele era, mas a menos que eu nunca veja meus pais novamente, eles estarão em um perigo terrível sempre que eu estiver por perto deles. Você devia ter discutido isso comigo ao invés de decidir que nós não íamos atrás de Nathaniel e sim atrás de Raum.” As sobrancelhas dele se arquearam. “Nós ainda vamos encontrar Nathaniel, mas assim que o encontrarmos, estaremos em uma posição vantajosa para lidar com Raum. Sem depender da boa vontade dele para não matar você mesmo você cumprindo sua promessa.” Ele não podia arriscar isso. O tempo que ele passou longe dela serviu para muitos propósitos; descobrir a verdade sobre as marcas dela, determinar o tipo de demônio que Raum era e confirmar como Spade se sentia sobre ela sem sua presença para mascarar seu julgamento. Todas essas três questões foram definitivamente respondidas. Quando ele estava com ela, ela mexia com ele como ninguém fazia há um século e meio, e isso começou desde a primeira vez que ele colocou os olhos nela. Quanto a Denise ser humana, bom... ela não iria permanecer desse jeito se ele pudesse fazer algo a respeito. Então, depois que Raum tirasse as marcas dela, Spade pretendia matá-lo. O fato de que ninguém que ele conhecia tinha alguma noção de como matar um demônio corpóreo era algo que ele não ia compartilhar com Denise no momento. Se Spade não pudesse descobrir alguma informação concreta sobre despacho de demônio, ele começaria com decapitação e trabalhar daí pra baixo. “Quando encontrarmos Nathaniel, eu quero que você vá embora,” Denise disse com a voz macia. “Raum vai saber que foi você quem armou as bombas de sal. Ele vai querer vingança, e se ele pode me rastrear, ele irá saber assim que nós encontrarmos Nathaniel. Então ele provavelmente vai tentar te matar. Ele não vai mais precisar de você.” Raum também não precisaria mais de Denise também, e ela sabia disso tão bem quanto ele. Mesmo que o demônio não tivesse ódio contra ela – e Spade duvidava disso depois de hoje – Raum poderia matá-la apenas por diversão. “Eu tenho um plano pra isso também,” ele disse. Os olhos castanhos dela se estreitaram. “Qual?” ___ Se Alten ou Emma acharam estranho ela descer as escadas com toalhas enroladas em suas mãos, nenhum deles deu alguma indicação. Denise esperava que, assim como antes, suas mãos voltassem ao normal. Caso


contrário, ela teria que encontrar uma solução mais prática para mantê-las cobertas ao invés das toalhas com monogramas de Spade. Ela rezava para que não fosse permanente, e por mais razões do que alguém ver a aparência monstruosa delas. Se fosse permanente, mesmo que eles derrotassem Raum, lá ia a esperança dela de um dia ser mãe. Como ela poderia carregar uma criança sem medo de que as garras fossem cortar a pele do bebê? Como ela poderia arriscar ficar grávida se ela tivesse a essência do demônio dentro dela? A visão de duas pessoas estranhas no hall da frente tirou Denise de seus pensamentos depressivos. Uma era uma mulher loira que estava de pé perto da lareira, parecendo admirar seu tamanho imenso. Mesmo ela sendo alta, se ela resolvesse entrar na lareira, ela caberia facilmente. O outro era um jovem homem com a cabeça raspada e tatuagens cobrindo seus braços como mangas. Spade acenou para eles. “Denise, esses são Francine e Chad.” “Prazer em conhecê-los,” Denise disse, andando na direção deles. Por força do hábito, ela começou a estender a mão, então ela ficou ruborizada e deixou a mão cair do lado do corpo. Eles olharam de relance para suas toalhas, mas não fizeram comentário algum. Mais uma vez, Denise amaldiçoou Raum, as marcas, e seu parente a tempo sumido por começar essa bagunça toda. “Muito prazer em te conhecer também,” Francine disse. Chad disse o mesmo enquanto dava à Denise uma secada que a fez se sentir como uma mulher ao invés de uma monstruosidade ambulante. Então Chad deu uma olhada para Spade, empalideceu um pouco devido a expressão de Spade, e limpou a garganta. “Você quer esperar ou devemos começar agora?” “Vamos começar,” Spade respondeu. “Emma, por favor, feche todas as cortinas. Alten, traga a maleta do Sr. Higgins e então ligue todas as televisões e rádios da casa. Bem alto.” A empregada não foi até as janelas, ao invés disso, ela pegou um controle remoto e começou a apertar botões. As cortinas começaram a se fechar. Controladas automaticamente, Denise pensou, balançando a cabeça. Sua mãe adoraria isso, sem contar todos os aprimoramentos caros que a casa de Spade tinha. Alten carregou uma mala para a sala e a deixou aos pés de Chad. Spade acenou para Emma e Alten, que entenderam a deixa e saíram.


Enquanto a TV e os outros aparelhos começaram a fazer barulho em cada cômodo, Chad abriu a mala e começou a tirar seus itens de dentro dela. Denise não pode evitar a curiosidade de espiar sobre o ombro dele. O interior da maleta era personalizado, pois as peças maiores saiam de seus próprios espaços acolchoados com o contorno de cada um. Chad começou a colocar os objetos em uma bandeja de aço brilhante. Um deles tinha o formato estranho de uma furadeira, então um pacote contendo vários palitos longos de metal, mini garrafinhas escuras, um cordão, um tipo de pedal, uma lâmina de barbear, uma bisnaga, luvas cirúrgicas, algo quadrado que lembrava um protetor cirúrgico e... aquilo era um conjunto de aquarela? “Acho que agora é a hora de você ser bem específico sobre o seu plano,” Denise disse. Spade sentou no sofá, indicando o lugar ao lado dele. Ela também sentou, mas rígida, colocando suas mãos embrulhadas no colo. “Chad e Francine são demonologistas”, Spade disse, mantendo a voz baixa. Denise não achava que Raum pudesse escutar alguma coisa com todo aquele barulho, mesmo que ele ainda estivesse por perto. “Eles também são vampiros, então eles vêm estudando demônios e pessoas afetadas por eles por algum tempo. Muito tempo mesmo, de fato, já que foram eles que ajudaram um sujeito com marcas de demônio em seus antebraços...” Denise prendeu a respiração. Nathaniel. “...e é por isso que eu tive que te deixar aqui. Se o demônio pudesse te rastrear através dessas marcas, então alguém, em algum lugar, tinha que saber como neutralizá-las. Então eu precisava de tempo para localizar os melhores especialistas em demonologia, e eu precisava fazer isso sem o seu demônio ser capaz de me seguir,” Spade continuou com seu olhar firme. Ela estava certa. Nathaniel tinha dado um jeito de neutralizar as marcas – pelo menos o suficiente para elas não serem mais usadas para rastreá-lo, e possivelmente o suficiente para que as marcas não continuassem a transformar Nathaniel em um monstro. Fazia sentido. Se Nathaniel tivesse se transformado completamente em algum tipo de besta, isso faria com que fosse muito mais fácil encontrá-lo. As pessoas tendiam a notar um monstro entre eles, até mesmo pessoas acostumadas com isso, como vampiros e ghouls. Denise estava tão empolgada que ela jogou os braços ao redor de Spade, com as toalhas estranhas cobrindo as mãos e tudo. Ela achou que ele a tinha deixado por nenhum motivo, mas ele esteve fora procurando pessoas que ajudaram Nathaniel dar um pontapé em Raum. Talvez houvesse esperança para a família dela e para ela, afinal de contas.


“Spade,” ela engasgou, incapaz de encontrar as palavras para dizer a ele o quanto ela estava grata. As mãos dele escorregaram pelas costas dela, e então, devagar, ele a afastou. “Você não me deve nada,” ele disse, como se algo brilhasse em seu rosto. “Eu não preciso de reembolso ou gratidão para ir até o fim disso. Eu fiz uma promessa. Você não precisa fazer nada para que eu a mantenha.” Denise sentou novamente, como se tivesse levado uma ferroada. Esse era o jeito de Spade lembrá-la de que as coisas entre eles eram estritamente negócios, então ela deveria deixar de lado os olhares e sinais quentes? “Certo,” ela disse, se afastando o mais longe possível dele no sofá. Então a frieza dormente que tinha sido vista nela no funeral de Randy e nos meses em que lidou com PTSD vieram em seu socorro, cobrindo sua mágoa. Spade estava fazendo um favor incrível para ela e sua família. Entretanto ela não iria perder mais tempo do que já perdeu estando de mau humor por estar sendo rejeitada. Ele pode não querer a gratidão dela, mas ele iria ter, e a cooperação dela também. “O que eu preciso fazer?” ela perguntou, orgulhosa de sua voz estar regular e calma. Spade deu a ela um olhar que ela não conseguiu decifrar. “Chad vai te tatuar.” De todas as respostas possíveis, essa ela não esperava. “Como é que é?” “Para simplificar a explicação, marcas são essencialmente símbolos permanentes representando um poder do demônio,” Francine disse, se aproximando para sentar perto de Denise. “O que nós vamos fazer é cobri-las com os nossos símbolos permanente de poder. Esses símbolos irão desviar o laço que o demônio tem com você, ou pelo menos o calar para que o demônio não seja capaz de fortalecê-lo – a menos que você tenha contato com ele de novo e ele a marque novamente. Então não faça isso.” Denise não pode segurar a gargalhada. “Eu não planejo fazer isso.” Chad ainda estava arrumando as coisas, mas ele falou mesmo sem olhar pra cima. “Você também pode ter símbolos preventivos. Esses nos meus braços são feitiços de proteção. Eu os fiz quando era humano. Eles não permitem que demônios não corpóreos desgarrados sejam capazes de me possuírem. Você quer alguma dessas? Isso era muito para absorver. “Eu preciso delas?” “Eu duvido,” Francine respondeu. “Possessão demoníaca é raro, e é feita por demônios menores tentando atravessar. A maioria das pessoas nunca entra


em contato com demônios, mas quando nós éramos humanos, nós precisamos delas. Quando você luta com demônios, eles revidam.” Denise engoliu em seco. Considerando o quanto Raum estava enfurecido momentos atrás, isso não era um pensamento confortante. “Apenas mais alguns minutos,” Chad disse. “Então vamos te marcar.” Chad começou a misturar vários pacotes de pó com o conteúdo de algumas das garrafinhas, franzindo as sobrancelhas para a massa preta e úmida no prato. “Nós vamos ter que testar você antes de começar as tatuagens,” ele disse. “Tire essas toalhas e me dê o seu braço.” “Não.” Spade disse antes que Denise pudesse começar a dar uma recusa. Seu olhar escuro era impossível de ler. “As toalhas ficam. Você vai precisar trabalhar ao redor delas,” ele continuou. Chad parecia querer argumentar, mas Francide concordou. “Desde que as marcas dela não vão até as mãos, tudo bem,” ela disse. “Esse não é o procedimento certo,” Chad murmurou. Francine sorriu para Denise. “Artistas são sempre um pouco temperamentais, e Chad era um artista antes de ele se tornar um demonologista ou um vampiro.” Denise sorriu de volta para a mulher, um sorriso breve. Francine tinha algo de acolhedor nela. Fazia com que sua profissão – e o fato de ela ser uma vampira – parecesse tão estranha em relação a sua personalidade. Ou talvez fosse isso? Francine era a primeira demonologista que Denise conhecia, e uma coisa era verdade, ela não conhecia tantos vampiros assim. Havia aquele que tentou devorá-la quando ela conheceu Cat, claro, Cat era uma meia vampira. Então Bones, Spade, Ian, o criador do Ian, Mencheres, Tate, um monte de guardas com quem ela nunca trocou um olá... e agora Emma, Alten, Francine e Chad. Ela percebeu que era menos de uma dúzia. Se ela fosse justa, não eram muitos para formar uma opinião sobre toda a espécie. Mas ainda, naquela véspera de Ano Novo ela tinha visto o quanto o mundo dos mortos-vivos pode ser feio. “Denise.” Spade disse o nome dela como se não fosse a primeira vez que a estivesse chamando.


“Desculpe,” ela disse, balançando um pouco a cabeça. “O que você precisa que eu faça mesmo?” “Sente no chão e coloque seu braço em cima da mesa, mangas arregaçadas,” Chad disse. Denise sentou, tentando erguer a manga do braço direito enquanto tomava cuidado para as toalhas não caírem. Tentar segurar qualquer coisa com suas mãos em forma de garras enroladas era difícil, para não dizer o mínimo. Depois de um segundo, Spade levantou a manga pra ela. Chad e Francide trocaram olhares, mas não disseram nada. Chad olhou a marca exposta, assobiando baixinho. “É profunda,” ele disse, traçando as marcas em formato de estrela em sua pele. “Nós vamos precisar depilar e esterilizar a área,” Chad continuou, ensaboando e então depilando a parte interna de seu antebraço com rapidez, mas meticuloso. Depois de uma borrifada de uma garrafa perto dele, ele escolheu um daqueles palitos de metal com pontas afiadas. Em seguida Chad mergulhou a ponta dele na palheta que parecia um joguinho de aquarela de criança, mas na verdade era o lugar para colocar a tinha. Então Chad a espetou no meio de seu antebraço marcado o suficiente para perfurar a pele. Beliscou, mas não foi ruim. Parecido com aqueles testes de sangue de furar a ponta do dedo. Francine e Chad estavam a encarando muito intensamente, entretanto, assim que uma gota do seu sangue se misturou com a tinta escura... o preto se transformou em carmesim. “Nós temos um problema,” Chad murmurou.


CAPÍTULO QUINZE. “Qual é o problema?” Denise e Spade perguntaram ao mesmo tempo. Chad pegou a gota de seu sangue, levando-a até a boca – e então seu braço foi agarrado pela mão do Spade. “Se você provar o sangue dela,” Spade disse, muito calmamente, “Eu te mato.” Com essa Francine se levantou. “Você tem uma reputação muito boa, mas eu não vou tolerar ameaças –” “Não haverá ameaças, desde que ele não tente provar o sangue dela de novo,” Spade a cortou, seu tom agradável e letal ao mesmo tempo. “Do mesmo jeito que o outro vampiro,” Chad disse, balançando a cabeça. Denise se inclinou para frente. “Que outro vampiro?” Spade secou o sangue dela do dedo de Chad, então arqueou uma sobrancelha, borrifou o conteúdo da garrafa e limpou novamente. “O vampiro que estava com aquele humano, o que tinha marcas como as suas,” Chad respondeu, soando um pouco irritado. “Ele pirou sobre nós provarmos o sangue do humano. Eu tinha esquecido até agora.” Spade encontrou o olhar dela, mas Denise já sabia que não devia dizer nada. Porém, por dentro, ela zunia com excitação. Isso confirmava que o vampiro que levou Nathaniel até Chad e Francine há tantos anos atrás obviamente sabia que o sangue de Nathaniel tinha se transformado em uma droga por causa das marcas. Assim como o dela. Rastrear Nathaniel através do comércio de Dragão Vermelho iria funcionar. Tinha que funcionar. “Você lembra o nome do sujeito?” Spade perguntou. Tanto Chad como Francine balançaram a cabeça. “Ele era um jovem vampiro na época. É tudo que eu lembro,” Chad disse. “Devia ser propriedade dele,” Spade disse, fazendo pouco caso disso como se não fosse nada. “Não é educado se alimentar da propriedade de alguém, nem mesmo uma gota.” Ele não confiava neles para que soubessem. Denise sentiu um tremor de medo. Ela estava tão focada nas marcas a transformando em um monstro que ela não tinha se dado conta em como os outros efeitos colaterais podiam ser perigosos. Spade pode não querer nada com os efeitos narcóticos do sangue dela, mas outros poderiam. Dragão Vermelho era a substância que vampiros compravam pra ficarem chapados, e Denise a tinha correndo nas veias.


“Como eu disse, nós temos um problema,” Chad continuou. “O sangue dela superou a mistura na tinta, o que significa que qualquer coisa que a gente vá tatuar sobre as marcas dela não valeriam nada. Nós vamos ter que aumentar a dosagem na tinta. Muito.” “Ok, então faça isso,” Denise disse. “Faça o que quer que você tenha feito com meu... com aquele outro humano que tinha marcas como essas.” “Vai queimar,” Francine disse em um tom complacente. Se isso evitasse que Raum a rastreasse e possivelmente parasse com que ela se transformasse em um monstro, podia queimar como o inferno que ela ainda o faria. “Tudo bem. Vamos continuar com isso,” Denise respondeu firmemente. Francine deu um tapinha no ombro dela. “Chad, use o sal Jerusalém,” ela disse, com sua voz se tornando rápida e prática. Chad pegou uma garrafinha de sua maleta e deu a Spade um olhar significativo. “Isso muda o preço.” Denise contraiu os músculos involuntariamente com a culpa mesmo com Spade dizendo, “Que essa seja a última vez que você menciona preço na frente dela.” “Chad,” Francine disse, com uma leve censura. Então sorriu para Spade. “Minhas desculpas. Nós vamos resolver essa questão quando tudo estiver completo. O importante agora é cuidar da nossa adorável garota aqui.” “Perfeitamente,” Spade disse, ainda com a voz afiada. Denise queria que o chão se abrisse e a engolisse, mas ela se recusou a mostrar embaraço. Eu não me importo com o que Spade diz, eu vou encontrar um jeito de pagar pra ele, ela prometeu a si mesma. “O que é sal Jerusalém?” ela perguntou, para mudar de assunto. “Sal é a arma natural contra demônios. Sal Jerusalém é ainda mais poderoso, porque ele é tirado do lugar onde a maioria das religiões do mundo se encontram. Então ele é especialmente moído lá e misturado com, bom, com coisas que eu não posso te contar,” Francine finalizou com um sorriso. “Mas deve funcionar para cobrir o poder nas suas marcas.” “Pronto,” Chad disse um minuto depois. Ele mergulhou outro palito de metal em sua nova criação de tinta e então espetou a ponta no antebraço de Denise.


O fogo fritou seu braço, tão inesperado e intenso que Denise não pôde evitar gritar e puxar o braço. Eles disseram que ia doer, mas ela não estava preparada para esse tipo de agonia. Era tão ruim quanto quando Raum a marcou. “Ficando preto,” Chad disse com satisfação, olhando para a gota de sangue que ficou no braço dela. Então seu olhar se dirigiu ao Spade. “Você vai ter que segurá-la enquanto nós fazemos a tatuagem.” Denise tentou desviar a atenção da dor que incendiava seu braço. Nem parecia possível que viesse de um ferimento tão pequeno, era pouca coisa mais do que um furo de agulha. “Quanta tatuagem? Alguns contornos?” ela perguntou. Sua esperança foi frustrada pela resposta de Chad. “Eu estarei preenchendo um padrão sobre os seus dois braços. Vai levar algumas horas.” Ela tremeu enquanto Chad pegava aquela furadeira esquisita que agora ela sabia que era uma máquina para tatuar. Horas, sendo segurada enquanto ela experimentava a mesma dor que quase a tinha levado a loucura quando Raum a fez sentir por alguns poucos minutos. Denise achou que ia vomitar, mas não havia outra escolha. “Eu vou precisar de uma bebida primeiro,” ela disse, respirando profundamente. Talvez uma garrafa inteira. Ou uma concussão. Qualquer coisa para amenizar a dor. “Denise.” Spade ajoelhou do lado dela, a olhando com intensidade. “Você me fez jurar sobre uma promessa de sangue, mas você pode me liberar dela. Deixe-me facilitar pra você. Você não precisa sentir nada.” Ela ficou confusa por um segundo, mas então caiu a ficha. “Não. Eu não quero você controlando minha mente.” “E eu não quero te segurar enquanto você fica agonizando por horas,” Spade replicou sem rodeios. “Se você não tivesse me feito jurar pelo meu sangue não hipnotizar você, eu nem ao menos perguntaria.” Ela se virou para Francine. “O outro cara com as marcas como as minhas, ele lidou com isso sozinho? Ou o vampiro que estava com ele o hipnotizou?” A expressão de Francine era cautelosa. “Ele não podia ser hipnotizado. O vampiro tentou, mas não funcionou.” Por causa dos efeitos das marcas, Denise percebeu, com o sentimento afundando. A falta de humanidade em Nathaniel tinha crescido a um ponto onde nem mesmo o poder de um vampiro podia penetrar.


“O vampiro com ele era jovem, você disse, eu sou um Mestre,” Spade argumentou. “Eu posso fazer isso.” Sua voz tinha total confiança. Denise estremeceu. Não era apenas a dor que ela temia, apesar de que a queimação em seu braço ainda estava forte o suficiente para que o medo fosse bem real. Mesmo que o lado lógico dela percebesse que era por uma causa necessária, ser segurada enquanto ela estivesse sendo, literalmente, torturada por horas por um vampiro poderia resultar em um ataque de PTSD com certeza. Mesmo agora, o sentimento familiar de pânico estava aumentando nela. Parecia inevitável que ela perderia o controle de sua mente de um jeito ou de outro, seja por um flashback daquela noite horrível ou pelos olhos de Spade. “Confie em mim, Denise,” ele disse calmamente. Ela respirou fundo. A idéia de abrir mão do controle de sua mente era algo que ela odiava. Já sua PTSD tinha lhe custado muito. Mas... ela confiava nele. Por mais estranho que fosse, ela confiava em Spade mais do que em qualquer outra pessoa em sua vida no momento. Porém, ela queria mostrar gratidão a Spade. Bom, evitar que ele precisasse segurá-la por horas enquanto ela tinha um ataque de pânico sério parecia o mínimo que ela podia fazer. “Tudo bem.” Spade sorriu, e vê-lo sorrir a distraiu de tudo por um segundo. Ele era lindo mesmo com sua expressão normal, mas quando ele sorria, ele era de tirar o fôlego. Uma pena que ele não sorrisse com mais frequência. Os olhos dele mudaram, ficando verdes no instante seguinte. O primeiro instinto de Denise foi desviar o olhar, porque ela sabia que isso seria diferente da outra vez que ela o tinha visto desse jeito, mas ela não desviou. Ela olhou direto nos olhos dele enquanto o verde ficava mais brilhante. “Eu posso sentir você resistindo a mim.” A voz dele soou profunda. Quase vibrando. “Deixe-me entrar, Denise. Está tudo bem. Você estará segura...” Suas pálpebras ficaram pesadas de repente. Spade ainda estava falando, mas as palavras ficaram confusas, embaçadas. Sua visão se estreitou até que tudo que ela parecia ver era o belo brilho cor de esmeralda dos olhos dele. Seu brilho poderoso não era mais assustador. Ele era tão adorável... Ela piscou. O rosto de Spade ainda estava na frente dela, a expressão dele era intensa. Ela ficou resignada. “Não está funcionando,” ela disse, se preparando para o que estava por vir. Um sorriso apareceu no rosto do Spade. “Terminou.”


Denise olhou para seus braços. Padrões complexos cobriam as marcas de seus pulsos até os cotovelos, como uma renda preta costurada na pele dela. Não havia dor, nem mesmo uma pontada. Francine e Chad tinham ido, mas ela ainda estava em frente a lareira com seus braços esticados sobre a mesa, algo parecido com Vaselina espalhada neles. “Wow, você é bom,” Denise suspirou. A risada do Spade continha um toque de malícia. “Você não faz idéia.” Foi quando ela também notou que as toalhas tinham sido retiradas e que as mãos dela estavam de volta ao normal. Lágrimas se espalharam por seus olhos. Isso a tinha curado? “Você acha que se foi? Tudo?” Do fundo do coração, ela esperava que a essência de demônio dentro dela tivesse sido expulsa. Spade falou de forma contida. “Eu provei uma gota do seu sangue antes de eu te tirar do transe. Ainda está alterado.” O desapontamento a atingiu, mas ela o afastou. “Talvez não piore agora. Então quando eu entregar Nathaniel tudo se vá.” E você pode ir embora, ela acrescentou silenciosamente para Spade. Os dois seriam capazes de voltar para como suas vidas eram antes dessa bagunça. De alguma forma, o pensamento não era tão confortante como costumava ser.


CAPÍTULO DEZESSEIS. Spade abriu a porta para a suíte Cherry, feliz em ver a reação de Denise. Os olhos dela se arregalaram enquanto ela andava dentro da suíte, olhando ao redor para as janelas do chão ao teto, a sala de estar em veludo vermelho com seus sofás circulares, a sala de jantar com seu extravagante bar cor de laranja e as duas grandes camas. A suíte era fácil de ser vista de relance, mesmo com seu tamanho. Os quatro aposentos eram separados por cortinas ao invés de portas e as cortinas estavam todas abertas. O mordomo deixou as malas, saindo após Spade garantir que ele não precisava tirar as roupas de dentro para eles. “Isso é incrível,” Denise disse depois de alguns minutos. Então aquele olhar culpado familiar brilhou em seus olhos. “Deve ser tão caro.” “Se não fosse trair sua confiança, quando eu a tive sob o meu olhar hipnótico, eu a teria compelido a nunca se preocupar com minhas finanças novamente,” Spade argumentou com tom divertido. “Eu devo estar aqui procurando por entretenimento ilícito a qualquer preço, lembra? Não daria certo se eu mendigasse em minhas acomodações.” “Ninguém irá te acusar de mendigar quando virem esse lugar,” Denise murmurou, andando para o quarto de hóspedes com sua banheira Jacuzzi gigante e a enorme cama redonda com dossel. Na verdade, Spade não pretendia trazer ninguém mais para sua suíte, mas ele não iria dizer isso a Denise. Ela ficaria horrorizada se soubesse que ele escolheu essa suíte porque queria que ela estivesse cercada por toda a pompa durante sua primeira viagem a Vegas, mesmo que fosse sob tais circunstâncias. E Denise ficaria realmente horrorizada se soubesse que a única coisa que ele tinha ficado tentado a implantar em sua mente era o desejo de não querer retornar a sua vida humana depois que eles encontrassem Nathaniel. Porém, ele não fez isso. O que ele queria dela não podia ser conseguido com trapaça, ou ele nunca saberia se era real. “O que você gostaria do serviço de quarto?” ele perguntou, não se importando em perguntar se ela estava com fome. Claro que ela estava. “Um hambúrguer, extra fritas, sopa de galinha, torradas e bolo de chocolate,” Denise falou de uma vez, indo para o quarto principal. E eu pretendo ter uma longa e boa bebida de quem quer que o traga, Spade acrescentou mentalmente. Depois do vôo cruzando o mar, então os vôos de zigue-zague propositais através do país para se livrar de qualquer tentativa do


demônio segui-los, fazia dois dias desde que eles deixaram sua casa na Inglaterra. Eles estiveram em vôos, táxis e aeroportos o tempo todo, então ele não teve uma refeição adequada. Ele não quis deixar Denise sozinha tempo suficiente para encontrar uma – e os aeroportos era tão vigiados hoje em dia. Denise colocou a cabeça para fora do quarto, um olhar tímido em seu rosto. “Eu ia tomar um banho, mas é... hum... não há uma área para banho separada. O chuveiro é em área aberta e todo de vidro, então... apenas não entre até que eu termine, ok?” Spade escondeu a risadinha. Ele sabia sobre o chuveiro aberto de vidro no centro do quarto quando ele reservou a suíte. De fato, ele a tinha escolhido especialmente por esse motivo. Algumas coisas ele não abriria a mão de trapacear. “Claro. Você também pode querer tirar um cochilo depois que comer. Nós não vamos para o Belaggio até estar perto da meia-noite.” Ela suspirou, mas acenou, e puxou as cortinas para fechar todo o quarto. Spade também estava cansado e atordoado com a mudança de fuso horário, o que significava que Denise tinha que estar exausta já que ela não tinha a vantagem de ser um vampiro Mestre. Apesar de que ela não era mais humana também. Spade se perguntava o quanto daquilo ela percebia e escolhia não falar, e do quanto ela não estava ciente. Ele rapidamente percebeu que o apetite voraz de Denise combinado a não ganhar peso estava relacionado às suas marcas. A temperatura dela, sempre alguns graus acima de um humano normal, mais alta quando estava nervosa. Então a velocidade dela naquela noite em que ela correu do clube. As marcas de mordidas em seu pescoço que se curaram completamente em menos de um dia. As tatuagens. A pele de Denise deveria ter cicatrizes durante dias depois de um trabalho tão extenso, mas depois de uma hora ou duas de vermelhidão, voltou a ser tão macia como seda, curando até mais rápido do que o pescoço dela. Ele também notou que ela manifestava mudanças em suas mãos apenas quando ela estava muito nervosa. Então depois de se acalmar, as mãos voltavam ao normal. Denise não tinha tido um incidente desde a Inglaterra. Poderia ser das tatuagens evitando que a essência de Raum crescesse nela, ou poderia ser porque ela não ficou extremamente nervosa desde então. Spade não planejava que ela perdesse o controle tão cedo. Ele pretendia mostrar a Denise que havia mais em ser um vampiro do que ela tinha visto naquela terrível véspera de Ano Novo. Então ela poderia finalmente dominar seus medos do mundo dos mortos-vivos – e apreciá-lo.


Ele tinha perdido a mulher que amava antes, mas ele não se deixaria perder Denise. Assim que ele encontrasse seu parente infeliz e forçasse Raum a tirar as marcas de Denise, ele a transformaria em uma vampira. Então a morte não poderia roubá-la dele como tinha roubado Giselda. Uma forma de acalmar suas reservas sobre o mundo dos mortos-vivos era mostrar pra ela os prazeres dele. Denise já o queria, apesar de estar em conflito. Spade pretendia mostrar a ela que a atração entre eles não podia mais ser ignorada. Seria algo gentil dar mais tempo para que ela se decidisse sobre seus sentimentos por ele, mas ele não tinha tempo. Eles estavam se aproximando de Nathaniel, e assim que eles o encontrassem, seu tempo se esgotaria. Então, o jeito mais rápido de derrotar as reservas dela sobre o mundo imortal era através da atração que ela sentia por ele. Ele exploraria essa fraqueza com prazer. Assim que terminasse a menstruação dela – não que isso o incomodasse em circunstâncias normais, mas o sangue dela era muito perigoso agora – ele seria capaz de completar sua sedução. Em breve, querida, ele prometeu para ela, ouvindo o chuveiro desligar e imaginando a água caindo pela pele nua dela. Muito em breve. ___ Denise sentiu como se seus sentidos estivessem sobrecarregados. Primeiro, a inimaginável suíte do hotel. Então uma volta pela Strip, vendo aquelas luzes brilhando cada vez mais perto, até parecer que eles estivessem guiando para dentro da boca de um animal cintilante. Spade fez a limusine deixá-los há uns dois quarteirões do Belaggio para andarem o resto do caminho. Denise não sabia se era por algum tipo de precaução com a segurança, então o motorista não saberia aonde eles iriam ou porque ele queria desfrutar da vista. Era, com certeza, incrível. Todas as luzes de néon, a multidão, o barulho e a vibração ao longo da Strip enviava uma mensagem quase palpável de que inibições não se aplicavam aqui. Um parquinho para adultos, ela ouviu Vegas ser chamada, e os anúncios ofuscantes de entretenimento, mesmo a meianoite, pareciam concordar. “O que você acha?” Spade perguntou assim que eles entraram no Belaggio. Denise balançou a cabeça. “Pergunte-me mais tarde quando eu estiver menos deslumbrada.” Ele lhe deu um daqueles sorrisos astutos que ela passou a apreciar mais do que deveria. Se não fosse pela seriedade do objetivo deles essa noite, ela sentiria como se estivesse em um encontro. Um encontro muito, muito extravagante. Além de suas acomodações, Spade insistiu em comprar um


vestido novo para ela, sapatos, bolsa e jóias – tudo sem deixar ela ver os preços. Era seu traje para essa noite, ele tinha dito com outro daqueles sorrisos. Sem dúvida, seu novo traje era muito mais adequado com a camisa Armani de Spade e as calças feitas à mão. Diabos, provavelmente o relógio dele custava mais do que a vestimenta completa dela. Mesmo assim, Spade usava suas roupas e acessórios com uma modéstia elegante, sem a atitude superior que geralmente acompanhava alguém com sua conta bancária. Denise tinha namorado alguns caras ricos antes de Randy, mas a maioria deles parecia tão impressionada com eles mesmos, que eles só estavam interessados nela por sexo ou decoração. Spade, mesmo sob essas circunstâncias fingidas que eles estavam, era atencioso e charmoso. Acrescente a isso sua estranha combinação de heroísmo, crueldade e lealdade, e os sentimentos de Denise estavam correndo bem além da atração física. Se ele não fosse um vampiro, ela pensou. Então ela se deu mentalmente um tapa. Se Spade não fosse um vampiro, ela não estaria aqui com ele, porque ela precisava da ajuda de um vampiro para encontrar Nathaniel. Ela tinha que parar de ficar se iludindo e se focar na realidade. Spade a guiou pela entrada com a mistura de máquinas caça-níqueis, mesas de jogo de dados e no fundo do cassino as mesas de vinte-e-um em um lugar chamado Club Prive. Denise estava impressionada de como a atmosfera parecia mudar de alegria total para avareza elegante em um espaço de menos de 3 metros. Depois de uma educada conversa com a recepcionista, eles entraram na sala decorada de dourado e cor de amora. Ela tinha vários estandes, garçonetes circulando e pelo menos dois jogos já em andamento. Spade indicou o bar. “Por favor, peça pra mim um uísque. Não vou demorar.” Denise deu uma olhada na janela discretamente localizada no canto. “Você apenas não quer que eu veja quanto dinheiro você vai estar trocando por fichas, ou eu terei um ataque do coração, certo?” Ele riu. “Garota esperta. Mas não é tudo por sua causa. Eu estou me sentindo sortudo essa noite.” Ela pôde ler muita coisa nas entrelinhas dessa última frase, que veio acompanhada de um sorriso pecaminoso dele, mas era melhor não embarcar nessa. “Eu vou buscar sua bebida,” Denise desconversou. E uma para ela também. Uma bem forte. Alguns minutos depois, Spade voltou carregando uma bandeja com fichas de cores diferentes. Denise já tinha terminado um uísque, mas decidiu não tomar


outro. Como era de costume para a acompanhante de qualquer apostador, ela teria que ficar de pé por um tempo essa noite, atrás de Spade enquanto ele jogava. Não havia necessidade de ficar cambaleando de tanto álcool. Spade pegou o braço dela e então entregou sua bebida para a garçonete que apareceu como um passe de mágica. “Você poderia trazer essa bebida na mesa pra mim? E continue trazendo outras.” ___ Spade fingiu estudar as cartas que ele tinha em sua mão, apesar de ele tê-las memorizado da primeira vez que as viu. Ele estava realmente concentrado em Madox, o jogador sentado do lado oposto a ele. O executivo do petróleo era bom em esconder as emoções, mas ele ainda era humano. A pulsação dele permanecia admiravelmente estável e ele conseguia não suar, mas o seu cheiro o traia. Quando ele apostou tudo nessa rodada, o cheiro de Madox se tornou uma mistura de almíscar e laranja podre. Assim como todas as vezes em que ele blefou. As pálpebras de Madox ficaram caídas, como se ele estivesse entediado o suficiente para dormir enquanto esperava para ver se Spade cobria a aposta ou não. Spade soltou um suspiro longo, como se estivesse tentando se decidir. “O que fazer?” ele pensou em voz alta. Atrás dele, ele podia sentir a tensão de Denise aumentar até a aura dela quase quebrar de ansiedade. Seu perfume de jasmim e mel tinha ficado mais azedo nas últimas duas horas, assistindo ele perder rodada atrás de rodada. Ela não sabia que ele estava perdendo deliberadamente para fisgar os outros jogadores. Ele não contou a ela porque ele precisava que sua reação fosse verdadeira ou isso teria levantado suspeitas entre os apostadores. Mas para o mérito dela, Denise permaneceu em silêncio, mesmo que internamente ela estivesse gritando para ele desistir dessa rodada. Pobre garota. Com sua consciência espetando em cada libra que ele gastava, ela deve ficar doente com a quantia que ele entregou aos seus oponentes até agora. O odor cítrico e passado de Madox aumentou, mas ele não fez nenhum sinal enquanto esperava que Spade apostasse ou desistisse. “Dane-se, vou sair com classe,” Spade declarou, escorregando as fichas que restavam para o centro da mesa. “Estou dentro.” Denise segurou a respiração. Madox sorriu e virou suas cartas para cima. “Dois pares de copas. E você, Sr. Mortimer?”


Spade colocou suas cartas na mesa com um sorriso predatório. “Straight flush de espadas.” Um amargo desapontamento emanava de Madox. Os espectadores ao redor da mesa aplaudiram enquanto Spade puxava para si a enorme pilha de fichas. Pelo canto do olho, ele viu Denise relaxar um pouco, o aperto que ela dava nas costas da cadeira dele diminuiu. Spade se virou, pegando a mão de Denise e a beijando. “Aqui está, querida. Eu te disse que me sentia sortudo essa noite.” Ela pigarreou, dando um rápido aperto na mão dele. Então Spade sentiu a energia na sala mudar, se enchendo com a vibração evidente de um mortovivo. Spade soltou a mão de Denise e casualmente se virou para a fonte de tal vibração. Um vampiro encontrou o olhar dele; ou o poder dele estava disfarçado como o do Spade ou ele era um Mestre de um nível mais baixo. Julgando pela aparência, ele devia ter por volta de 30 anos quando foi transformado. Seu cabelo era castanho escuro, penteado pra trás em estilo anos 70 e seu traje era um erro caro. Do jeito que a garçonete o cumprimentou, ele também era familiar no lugar. Spade inclinou a cabeça em reconhecimento e então, voltou sua atenção para alinhar suas fichas de volta em sua bandeja. Ele iria se aproximar. O vampiro seria curioso para conhecer o homem que tinha limpado um dos clientes regulares. “Boa noite,” o vampiro disse, sentando no lugar que Madox deixou vago. “Parece que vocês estão com um jogador a menos.” Spade tomou notas mentais sobre o outro vampiro. Fraco sotaque sulista. Provavelmente mais novo do que eu em anos mortos-vivos, mas não muito. “Estamos sim. Espero que você se junte a nós. Acho que aguento mais uma apesar do horário.” Atrás dele, o odor de Denise mudou. Ela deve ter reconhecido o recém chegado como não sendo humano também. Spade não desviou o olhar dos frios olhos azuis do homem, enquanto esperava pela resposta. Se o vampiro não o quisesse no que ele considerava ser seu território, agora seria o momento de mostrar isso. Mas o vampiro apenas sorriu. “Eu juraria que ainda era cedo pelo modo como eu me sinto. Jackie, me dê cartas e Sam, me traga uma bandeja. Minha quantia de costume.”


O carteador embaralhou as cartas enquanto o gerente trazia uma bandeja de fichas. Duzendos mil, Spade notou. Muito respeitável para uma quantia “de costume”. “Eu sou Henry,” Spade disse, usando o nome no qual ele tinha se registrado no hotel. “BJ,” o vampiro respondeu, se inclinando para pegar as cartas na frente dele. Spade pegou as suas também, não demonstrando nenhuma reação enquanto ele observava os dedos pálidos que envolviam as cartas. BJ não tinha seu dedo mindinho esquerdo, mas no direito ele tinha um anel de ouro grosso com um “21” cravejado em diamantes. Esse tinha que ser Black Jack. Ian, camarada, eu te devo uma. Spade se inclinou para trás, passando o braço ao redor da cintura de Denise. “Você não se importa em esperar por mais um tempo, se importa, querida?” O corpo dela estava mais tenso do que o normal e os pés dela deviam estar doendo de ficar de pé por duas horas em saltos altos, mas Denise não hesitou em responder. “De jeito nenhum. Eu amo ver você jogar.” Spade quase riu. Com suas tendências econômicas, Denise não poderia desprezar mais isso, mas seu tom era firme e confiante. Ela até se inclinou, esfregando seus lábios no pescoço dele. “Talvez a gente possa encontrar outra coisa pra fazer depois que terminarmos aqui, porque eu ainda não estou cansada.” A voz dela era áspera e sedutora ao mesmo tempo, um ronronar baixo que parecia se esfregar nele de dentro pra fora. Ele só a escutou desse jeito uma vez antes, quando ela falou o nome dele no Central Park enquanto ele bebia o sangue dela. Combinado com o toque quente e sedoso de seus lábios em sua pele, foi o suficiente para fazê-lo parar quando deveria prosseguir com o novo jogo. Spade queria ouvir a voz dela assim de novo. Quando eles estivessem juntos na cama. Os olhos de Black Jack olharam para Denise com interesse. Spade viu e se segurou antes de mostrar suas pesas em um instinto possessivo. Ao invés disso ele atirou algumas fichar e passou a mão na lateral do corpo de Denise mais uma vez, olhando o vampiro com desafio. Minha. Os lábios de Black Jack se curvaram e ele acenou com a cabeça demonstrando reconhecimento. Uma das compulsões mais fortes de um vampiro era o territorialíssimo. Nenhum vampiro iria tolerar alguém olhando


provocativamente para sua propriedade – a menos que a propriedade fosse oferecida. Denise, Spade indicou claramente, não estava nessa categoria. “Aposta mais alta, primeira aposta para BJ,” o carteador disse. Spade se forçou a relaxar. O objetivo era deixar Black Jack tranquilo, não ameaçá-lo por um simples olhar. Ele tinha esquecido como se apaixonar por alguém o afetava – a falta de controle normal, os altos e baixos emocionais. Em sua opinião, era mais intenso do que a dose mais potente de Dragão Vermelho. “Vamos lá, companheiro, me dê mais sorte,” Spade disse para o carteador enquanto ele dava as cartas. Ele podia ter feito o mesmo pedido para o destino em relação a Denise.


CAPÍTULO DEZESSETE. Quando Spade levantou, anunciando ironicamente que tinha encerrado por essa noite, Denise ficou tão aliviada que poderia ter aplaudido. Se ela tivesse que assistir ele jogar fora mais alguma quantia absurda de dinheiro, ela teria vomitado. BJ, o vampiro que ela desesperadamente esperava que fosse Black Jack, tinha vencido Spade três vezes seguidas, a última limpando todas as fichas de Spade. Enquanto por um lado ela entendia que ele tinha que parecer um jogador que aposta altas quantias com um orçamento ilimitado, por outro ela queria chacoalhar Spade. Ele não poderia ser um pouco mais esperto em suas apostas? Quem é que apostava tudo com apenas um full house de três e dois? “Aonde vocês vão agora?” BJ perguntou, preguiçosamente juntando seus ganhos. Spade virou para ela, com suas mãos escorregando pelas costas dela. “Ainda não está cansada?” Era quatro da manhã e ela estava prestes a desmaiar, mas ela assentiu. “A noite não termina até que o sol apareça.” “Eu não poderia concordar mais.” Spade a puxou para mais perto, se inclinando para dar uma mordidinha em sua orelha que fez com que os pelinhos de seu braço se arrepiassem. “Exceto que eu preferiria passar as próximas horas na cama com você.” Com as mãos dele ainda em suas costas, seus corpos próximos o suficiente para uma dança lenta e a boca dele pairando sobre sua orelha enquanto ele falava, Denise pensou que o arrepio erótico que correu por ela era compreensível. Pelo menos a reação dela pareceria autêntica para BJ, com certeza. “Você não quer, hum, se divertir um pouco primeiro?” O objetivo não era sondar BJ por informação, se ele realmente fosse Black Jack? A risada de Spade era uma carícia sedutora. “Realmente. São as chamadas preliminares.” Ou Spade acharia que ela era a melhor atriz de todas, ou ele saberia na hora que seu pulso acelerado e o aperto em sua barriga não tinham nada a ver com BJ os observando. “BJ, foi bom lhe conhecer,” Spade disse em seguida, ainda a abraçando bem perto. “Talvez eu te veja amanhã. Eu voltarei para reaver minhas perdas.” “Bom, então, eu te vejo aqui,” BJ falou lentamente.


Denise estava de costas para BJ, então ela não conseguiu ver a expressão dele, mas ela franziu as sobrancelhas para Spade. Por que eles estavam indo embora? Não era esse o cara? “Vamos, querida,” Spade disse, a beijando de leve nos lábios. Spade a guiou para fora do clube, em direção à entrada. Mesmo a essa hora, o cassino ainda estava lotado. Somente depois que a limusine do hotel os pegou e eles estavam no elevador particular do Red Rock que Denise fez a pergunta que estava querendo há meia hora. “Não era ele?” Spade lhe deu um olhar afirmativo enquanto o elevador abria as portas no andar deles. “Oh, era, sem dúvida.” “Bom?” ela alfinetou. “Então por que nós fomos embora?” Ele segurou a porta da suíte aberta, esperando até que eles estivessem dentro e ele tivesse feito um rápido reconhecimento do lugar antes de responder. “Porque agora nosso amigo está curioso, confortável e feliz achando que vai tirar mais dinheiro de mim da próxima vez que nos encontrarmos,” Spade respondeu. “Você nunca deveria ter apostado tudo naquela última mão,” Denise murmurou. Ele deu risada. “Minha pobre querida. Você vai ter pesadelos com isso por dias, não vai?” Denise lançou a ele um olhar exausto enquanto ela arrumava direitinho seu xale novo em cima do sofá vermelho. Spade andou pelo aposento, sem demonstrar cansaço. “Cassinos amam perdedores ricos. Eu não podia deixá-los pedir para que eu saísse depois de uma rodada de sorte que fosse boa demais pra ser verdade. Agora Black Jack acredita que eu sou um jogador ruim, o que é o que eu queria que ele pensasse.” Denise admirava sua estratégia lógica e fria, mesmo que ela tivesse o pé atrás com o que tinha custado a ele. Ela esperava que Spade recuperasse alguma de sua perda amanhã a noite, ou ela teria que dar a ele todo o seu plano de aposentadoria. “Eu vou lavar meu rosto e então desmaiar,” ela anunciou. “Que cama você quer?” “Eu fico com o quarto de hóspedes. Tenho algumas coisas para olhar em meu celular primeiro, então se você ouvir o chuveiro mais tarde, serei eu.”


Denise não achou que alguma coisa menor do que pratos batendo fossem acordá-la depois que ela caísse na cama, mas meia hora depois, ela acordou quando soube que não estava sozinha no quarto. Ela se manteve imóvel, ouvindo o barulho baixinho do zíper de Spade e as calças sendo tiradas, o barulho do tecido contra a pele enquanto ele tirava a camisa, e então o som dele recolhendo as roupas que tinha tirado. De repente a letargia profunda que ela sentia se foi e ela ficou totalmente acordada. Imaginando Spade tão perto, totalmente nu, fez com que suas pálpebras quase se abrissem. Então ela escutou o barulho do chuveiro, a cascata de água encobrindo os sons que Spade fazia. Aonde ele estava agora? Ele se movia tão silenciosamente, ele poderia estar bem na frente dela e ela não saberia. E se ela abrisse os olhos e Spade estivesse lá, perto o suficiente para ser tocado? Denise não pôde evitar abrir um pouco os olhos. Nada na sua frente. Um clique suave do outro lado do quarto indicava a porta do box se abrindo, ela imaginou. Isso foi confirmado quando ela ouviu de novo, o ritmo da água mudando conforme Spade se movia sob o jato. A água vai embaçar o vidro, Denise considerou. Você não vai ser capaz de ver nada. De fato, provavelmente já está todo embaçado agora... Do jeito mais silencioso que ela pôde, ela rolou de lado, mantendo seu rosto meio coberto pelo travesseiro. A luz no chuveiro iluminava a desnuda e maravilhosa carne do Spade. O vidro não estava embaçado. Nem um sinal de vapor, dando a ela uma visão completa dele debaixo da cascata de água. A visão a fez lamber os lábios antes que ela pudesse se controlar. Então Denise fechou os olhos. Parabéns, você é oficialmente uma voyeur. Ela deveria estar envergonhada, espiando Spade daquele jeito. Se ela tivesse alguma dignidade, ela viraria de lado e encararia a parede. Agora. Ela abriu os olhos de novo. Spade estava de costas para ela, espuma do sabonete descendo por seus ombros largos como espuma do mar. O cabelo dele era tão preto contra a palidez de sua pele, longas mechas separadas sob a água correndo. A espuma escorregava mais para baixo em suas costas, se concentrando em sua cintura e então se arrastando pelas esferas firmes de sua bunda. Denise fechou os olhos com força. Respirou fundo e prometeu que não os abriria de novo. Isso não era certo. Era uma invasão a privacidade de Spade, uma violação da confiança dele, uma– Ela abriu os olhos, sufocando um suspiro. As mãos do Spade passavam por seu peito, mais espuma o cobrindo. A cabeça dele estava para trás, com os


olhos fechados, a água caindo em seu rosto e escorrendo pra baixo levando a espuma enquanto ele espalhava mais por sua pele. Ela tinha visto uns poucos homens atraentes nus em sua vida, mas nenhum deles chegava perto do Spade. Cada milímetro de seu corpo era coberto por músculos perfeitamente proporcionais, como se ele tivesse sido entalhado por um escultor experiente e magicamente trazido à vida. Sua altura apenas enfatizava seu físico estonteante, com aquelas pernas longas e poderosas, músculos ondulados cruzando suas costas, braços e peito, flexionando enquanto ele passava shampoo em seu cabelo em seguida. Pare de olhar. Agora. Ela encarou enquanto Spade lavava o cabelo, então se virou para enxaguar, dando a Denise outra visão de cair o queixo de sua bunda. O coração dela começou a disparar em resposta. Ela sabia que tinha que fechar os olhos, mas não conseguia. Spade virou de novo, dessa vez a encarando. Denise se sentiu culpada, mas os olhos dele ainda estavam fechados por causa da espuma caindo por seu rosto. Ela deixou seu olhar percorrer o caminho de seu peito, passando por seu estômago, seguindo a linha fina e escura de pelos que se alargavam quando encontravam com sua virilha... A boca dela ficou seca enquanto outra parte se inflamou com calor. Ela estava ciente que seu coração estava disparado, mas ela não conseguia desviar o olhar. As mãos do Spade desceram por seu estômago, com um monte de espuma nelas, para se fechar ao redor da carne que era coroada por aquele caminho de pelos pretos. Pare de olhar, pare de olhar! Spade ensaboou toda a sua extensão com uma lenta eficácia, sua carne começando a alongar e endurecer sob suas mãos. Denise não conseguia tirar os olhos dele mesmo que seu bom senso a mandasse desviar o olhar. Ela engoliu a seco, aquela palpitação dentro dela dobrando de intensidade enquanto o calor se espalhava por ela. Ele estava ficando duro como reação natural ao se tocar enquanto se lavava? Ou ele estava pensando em alguém? Talvez até mesmo... nela? E se Spade a pegasse olhando pra ele agora, mas ao invés de se sentir ofendido por ela estar espiando, a convidasse a se juntar a ele? A frustração fez Denise fechar os olhos. Ainda não tinha acabado sua menstruação, então, mesmo que sua fantasia se tornasse realidade e Spade realmente a convidasse a se juntar a ele, ela não poderia. E mesmo que ela pudesse, ela não deveria. Não era justo. O primeiro homem desde Randy, que mexia com ela emocionalmente e fisicamente era um vampiro que achava que humanos eram


bons apenas para comer e foder, provavelmente nessa ordem. Ela já tinha sacrificado seu orgulho aceitando que ela não era nada além de um espinho caro ao lado de Spade até que eles encontrassem Raum. O mínimo que ela podia fazer era evitar a humilhação total com mais rejeição da parte dele – ou pior, ser fodida por pena. Denise abraçou o travesseiro e virou o rosto para a parede, enterrando o rosto nele. Assim que isso acabasse ela ficaria bem. Ela iria para casa, passar um tempo com sua família e sua paixão tola por Spade iria embora. Tudo sumia com o tempo. Parecia que, até mesmo, sua tristeza pela morte de Randy e a PTSD que costumava aparecer toda vez que ela estava por perto de um vampiro. O chuveiro foi desligado depois de mais alguns minutos. A essa altura, o coração de Denise já tinha voltado a um ritmo normal e aquela fome que a remoía por dentro tinha se aquietado e era apenas uma dorzinha. Viu? Ela disse a si mesma com raiva. Tudo desaparece com o tempo. ___ Quando Spade foi para o Club Prive com Denise na noite seguinte, Black Jack já estava lá. Tinha passado pouco das 11 horas. Spade sorriu secretamente. Não quis arriscar me perder, não é, companheiro? “Olá para todos,” Spade disse com alegria assim que pegou sua bandeja de fichas. “Estou aqui para ganhar o que eu perdi a noite passada.” Todo mundo riu menos Madox, o executivo de petróleo que Spade tinha limpado. Ele deu a Spade um olhar cheio de ódio e então cruzou as mãos. “Eu encerrei por hoje,” ele anunciou. “Ainda bravo com ele por descobrir o seu blefe, Madox?” Black Jack deu um sorrisinho falso. “Tem que saber ganhar e perder como um homem, parceiro.” “Assalariado,” Madox murmurou. Black Jack apenas riu e puxou a cadeira de Madox com o pé. “Sente-se Henry. De qualquer forma, você é mais divertido do que o velho Mancha de Óleo.” Spade sentou, Denise ficou de pé atrás dele. Pessoalmente ele achou que era uma pobre regra da casa que ela não pudesse se sentar perto dele, mas com sorte, eles não ficariam lá por muito tempo. BJ olhou de relance para Denise, acenou, então dedicou sua atenção ao jogo. Os outros dois jogadores eram menos respeitosos em sua avaliação. Se o sujeito grisalho encarasse mais o decote de Denise, Spade iria encontrar um jeito de devorá-lo antes de o relógio bater meia-noite.


Ela estava excepcionalmente adorável em seu vestido vermelho sem alças, com longas luvas brancas. Seu cabelo cor de mogno puxado para cima, deixando seu pescoço exposto de maneira sedutora e destacavam os brincos de diamante e rubi que ele dizia ser parte do traje. Se Spade pudesse escolher, ele estaria em um encontro de verdade com Denise em qualquer outro lugar, ao invés de fazer com que ela ficasse de pé o vendo jogar com esse monte de caras. Porém, hoje a noite o levaria a um passo mais perto daquilo, se tudo terminasse bem. Black Jack ganhou a mão e então Spade estava dividindo. Ele deixou os outros jogadores o vencerem em cada rodada, até seu estoque de fichas diminuiram para menos da metade do que ele tinha quando começou. Então Spade suspirou com falsa resignação. “Acho que vou procurar minha diversão em outro lugar. BJ, colega, alguma recomendação aonde eu possa encontrar alguma diversão quente e vermelha?” Sua escolha cuidadosa de palavras acertou em cheio. Apesar do rosto de Black Jack continuar impassível, ele encerrou a mão quando, de acordo com a contagem de cartas de Spade, ele tinha uma trinca de damas. “Acho que estou ficando cansado de pôquer também,” BJ disse. “Espere, Henry. Provavelmente eu conheço algo que você vai gostar.” Spade descontou as fichas que restavam e esperou enquanto Black Jack fazia o mesmo. “Indo atrás de diversão quente e vermelha, huh?” Black Jack lembrou enquanto eles saiam do Belaggio. “Exatamente. De preferência do tipo que faça o resto da minha noite com ela muito mais satisfatória.” Spade beijou o pescoço de Denise enquanto ele falava isso, saboreando o tremor que passou por ela. Ele não podia esperar até que ele pudesse beijá-la e ela soubesse que não era parte da atuação. “Vamos tentar o Drai‟s,” Black Jack disse. “Ultimamente eu vou mais lá do que no Belaggio. O público é mais compatível pra mim.” Black Jack olhou de relance para Denise enquanto dizia a última frase. Spade resmungou. “Não há necessidade de fingir. Ela sabe o que nós somos.” “Ah.” O vampiro sorriu para Denise, as presas aparecendo sob seu lábio superior. “Qual o seu nome, linda? Henry aqui só te chama de querida.” Percebeu isso, não é? Spade pensou friamente, mas antes que ele pudesse responder com um nome falso, Denise respondeu. “Meu nome é Cherry.”


Spade conteve a risada ao ouvir a escolha do nome de Denise igual ao da suíte deles. Black Jack olhou para ela novamente antes de encontrar o olhar de Spade. ”Então, a quem você pertence?” Spade sorriu prazerosamente. “A mim mesmo.” BJ riu. “Você está brincando. Você não parece um Mestre, se você não se importa que eu diga”. “O Mestre da minha linha foi morto há muitos anos atrás. Não tive escolha quanto a ficar por conta própria. E você? “O meu não gosta que eu revele quem ele é,” Black Jack respondeu, com sua expressão ousando Spade a desafiá-lo. Com a profissão de Black Jack, Spade não estava surpreso. “Tudo bem. Eu não preciso saber dos seus segredos... apenas um.” O vampiro arqueou a sobrancelha. “E esse seria?” “Se BJ representa Black Jack ou não, a pessoa sobre quem meu amigo Ian me falou a respeito,” Spade respondeu. O outro vampiro chegou a um impasse. Spade esperou, com seu braço ainda ao redor de Denise, ignorando a multidão empurrando os três. “E o que Ian disse?” Black Jack perguntou, com sua voz endurecendo. Spade deu de ombros. “Ele me disse que se eu tivesse alguma coisa muito rara, algo que eu esteja interessado em vender, que você seria a pessoa a procurar.” Denise deu uma olhada em Spade, mas Black Jack riu e começou a andar novamente. “Você não tem nada para vender que eu não tenha melhor. Com certeza.” “Quer apostar nisso?” Spade perguntou suavemente. O interesse brilhou no rosto de Black Jack antes de ele mascará-lo. “O que você quer apostar?” “Todo o dinheiro que eu perdi para você que eu tenho um Dragão Vermelho de maior qualidade do que o melhor que você tem a oferecer.” Agora Denise realmente deu a ele um olhar de questionamento, mas Spade apenas apertou seu pulso, silenciosamente dizendo a ela para não falar nada.


“Vamos conversar melhor quando estivermos no Drai‟s,” Black Jack disse. “Muitos ouvidos aqui fora.” Spade concordou. “Indique o caminho, companheiro.”


CAPÍTULO DEZOITO. Denise apertou os lábios enquanto eles desciam as escadas do hotel Bombay Coast. O Drai‟s era no subsolo, claro. Que ambiente poderia ser melhor do que um porão laqueado em vermelho e preto transformado em um clube noturno para discutir a venda do sangue dela? Ela não sabia qual era o plano de Spade, mas ela não gostava dele. E quando Denise deu uma boa olhada nas pessoas do Drai‟s, ela realmente não gostou dele. Quase um terço deles eram vampiros. Suas peles pálidas e movimentos graciosos demais os destacavam dos outros clientes, mesmo com a pouca iluminação. Ela estremeceu. No subsolo em um lugar repleto de morto-vivos. Possivelmente mortos-vivos viciados em drogas, e aqui estava ela, com uma fonte de narcótico correndo em suas veias. Oh sim, um ataque de PTSD não tardaria a acontecer. “Vamos beber alguma coisa,” Black Jack disse. Denise não ia beber nada lá. Provavelmente a bebida viria batizada com alguma droga sobrenatural, mas quando eles chegaram ao bar, ela pediu um uísque para parecer educada. Ela esperava que Black Jack não percebesse que o líquido em seu copo nunca baixava. Spade bebericou seu próprio uísque e trocou gentilezas inúteis com Black Jack por aproximadamente dez minutos. Foi o suficiente para fazer Denise ranger os dentes de frustração, o que não ajudava com os sentimentos claustrofóbicos e de pânico que já estavam crescendo dentro dela. Tantos rostos pálidos. Corpos frios ao redor dela. O sangue viria em seguida. A morte viria em seguida. Sempre vem. Black Jack lançou um olhar suspeito a ela. “Você está bem, senhorita? Você cheira terrivelmente nervosa.” Denise tentou arduamente afastar as lembranças, mas elas vieram mais rápido do que sua força de vontade poderia lidar. Nós estamos presos. Aquele uivo terrível. Todos aqueles gritos. Algo molhado e espesso no chão da cozinha... “Acho que eu não posso fazer isso,” ela murmurou. Spade começou a esfregar os ombros dela com movimentos firmes, porém suaves. “Aqui, querida, apenas relaxe. Você terá seu remédio logo.” Denise se concentrou no toque das mãos dele – fortes, frias e firmes. Elas eram sua âncora enquanto ela tentava afastar sua mente da areia movediça de lembranças mortais. Está tudo bem. Você não está lá. Você não está presa. Você está aqui e Spade não vai deixar nada acontecer a você.


“Do que ela está sentindo falta?” Black Jack perguntou. “OxyContin*” Spade respondeu brevemente. “Esqueci no hotel. Não se incomode com isso, ela vai ficar bem.” *É uma medicação analgésica sintetizada de um alcaloide derivado do ópio. “Devo ter algum,” Black Jack respondeu e sorriu. Mesmo no estado de Denise, lutando com as lembranças, ela notou que o sorriso dele era como de um tubarão – só dentes, sem humor. “Sim, por que não vemos o que você tem?” Spade falou significativamente. “Venham para o meu escritório.” Eles seguiram Black Jack para uma porta nos fundos. Ela levava a outro lance de escadas, possivelmente uma entrada de serviço ou saída de emergência, pelo jeito que parecia. No fim havia um curto corredor com três portas. Black Jack entrou na primeira a esquerda, segurando aberta para que eles pudessem entrar, ainda sorrindo daquele jeito predatório. A última coisa que Denise queria era ir mais para o subsolo em um lugar menor com poucas saídas, mas ela não tinha escolha. Ela estava respirando com dificuldade quando sentou no sofá com estampa de bicho, e seu coração estava disparado. Spade a puxou para seu colo como se fosse normal para eles se sentarem daquele jeito, seus dedos fortes continuaram a massagear seu pescoço e ombros. Denise se prendeu ao toque das mãos dele enquanto afastava o pânico. Está tudo bem. Você está segura... e isso devia ser o sofá mais feio que ela já tinha visto. “Então você acha que tem algum Dragão Vermelho pra vender, hum?” Black Jack desdenhou. “Mostre-o então.” Spade se inclinou para frente. “Não tão rápido. Eu disse que o que eu tinha era melhor do que qualquer coisa que você tinha, mas você ainda não me deu uma amostra para provar, deu?” Black Jack resmungou. “Se eu já não tivesse embolsado um monte do seu dinheiro, eu juraria que você está apenas procurando por uma amostra grátis. Você tem a sua com você?” Denise ficou tensa, mas Spade não hesitou. “Sim.” “Tudo bem então.” Black Jack abriu uma gaveta na parte de baixo de sua mesa, vasculhou dentro por alguns segundos e então tirou um pequeno frasco escuro. Ele entregou para o Spade. “Isso é Dragão de alto nível, 10 CCs. Por um preço camarada de mil dólares. Se você tem algo que seja a metade do


quão bom isso é, eu cobrirei todas as suas perdas pelas últimas duas noites. Se não, você me paga duas vezes. Concorda?” “Concordo.” Spade pegou o frasco com uma mão, ainda traçando firmes movimentos nos ombros dela. Denise quase prendeu a respiração quando ele abriu a tampa do frasco e então virou na boca dele. O que ele estava fazendo? Aquilo não iria deixá-lo louco de fome como antes? Spade fechou os olhos, engolindo. O coração dela começou a bater forte quando ele baixou o frasco e abriu os olhos. Eles estavam verdes brilhantes... e fixos no pescoço dela. Então ele se virou para Black Jack. “Você vende essa merda por mil dólares? É um roubo sangrento, no sentido mais literal.” Os olhos de Black Jack também ficaram verdes. “Agora você está insultando meu negócio, parceiro, e eu não levo isso numa boa.” “Você levaria numa boa a idéia de quadruplicar seus lucros, não levaria?” Spade revidou. Suas mãos desceram dos ombros de Denise para o braço. “Me dê uma faca e eu mostrarei o que eu quero dizer.” Os olhos dela se arregalaram. Ele não pretendia dar a ele o sangue dela, pretendia? Black Jack parecia tanto intrigado como irritado enquanto ele pegava, o que parecia ser um canivete de prata, de sua jaqueta. Spade o abriu com uma mão e furou o braço dela, segurando com mais força quando ela tentou se soltar. “Não,” ele falou em um tom descompromissado. Denise congelou, mas não porque ela estava com medo de Spade fazer algo que ela não queria. Se ele estava insistindo nesse curso da ação, ele tinha que ter um motivo. Eu confio em você, Denise pensou, olhando os olhos dele e então relaxando o braço. Spade segurou a faca inclinada contra o corte que ele tinha feito. Uma gota vermelha caiu na lâmina. Spade afastou a faca e então a ofereceu para Black Jack. “Prove.” O vampiro riu. “Isso é algum tipo de piada?” Spade não piscou. “Eu pareço estar rindo?” Black Jack deu outra olhada divertida e então pegou a faca, lambendo a ponta onde estava a mancha de sangue. Assim que ele engoliu, seus olhos arregalarem, então ele pulou da cadeira.


“Pu-ta merda!” ele gritou. Em um piscar de olhos ele deu a volta na mesa, mas Spade estava de pé também, bloqueando o caminho até Denise. “Chega. Muito disso vai te fazer perder o controle e eu não posso arriscar a segurança dela por razões óbvias.” Parte de Denise ainda estava lutando contra as horríveis lembranças da véspera de Ano Novo. A outra parte estava dizendo pra ela correr como o inferno. Mas ela ainda esperou, confiando que Spade tinha um plano que não envolvia vender o sangue dela pra esse imbecil. “Ela é uma fonte,” Black Jack disse quase reverenciando, encarando Denise de um jeito que a fez querer se esconder. “E ela é uma mulher! Uma linda mulher. Bom Jesus, cara, você sabe quanto dinheiro nós vamos conseguir com ela?” Spade sorriu friamente. “Eu ainda não decidi se quero fazer parceria com você. Até agora você só me mostrou que é um vendedor de material inferior. Como vou saber que você será capaz de fornecer o tipo de proteção que seria necessária para evitar que os Guardiões da Lei, ou qualquer outro vampiro intrometido tente fechar o negócio?” Raiva se destacou entre as emoções de Denise, superando o pânico. Ela sabia que Spade estava fingindo, mas Black Jack falava sério quando falou dela como se ela nem fosse uma pessoa. Black Jack jogou as mãos pra cima. “Você sabe como é raro uma fonte? Que seja do meu conhecimento, só existe uma, então nós temos que diluir o sangue dele sete vezes para aumentá-lo e ainda mantê-lo vivo. É por isso que o Dragão Vermelho que você provou é como cocô comparado ao sangue dela. Mas outra fonte... e uma mulher...” O vampiro tremeu em êxtase. “Qual é o bônus por eu ser uma mulher?” Denise não pôde evitar perguntar. “Quero dizer, sangue é sangue.” Black Jack abriu a boca e então fechou. “Vamos falar sobre mais detalhes mais tarde, mas você não tem nada com o que se preocupar.” “Nós não vamos falar nada se você não começar a me impressionar com contatos.” Spade replicou inexoravelmente. “Até agora não ouvi nenhum. Talvez eu devesse ir ao outro vendedor que Ian me falou.” Caiu a ficha do que Spade estava fazendo. Denise viu a lógica em sua estratégia mesmo que ela quisesse fugir dos olhares que Black Jack continuava dando a ela. “Podem haver outros vendedores, mas nenhum como eu.” Black Jack se inclinou contra suas mesa, sorrindo ousadamente. “Meu mestre é Web, você já


deve ter ouvido sobre ele, e ele tem acesso direto as pessoas que começaram com o negócio de Dragão Vermelho. Não há contato maior do que esse.” Spade bufou. “Bela história, mas cadê a prova? Qualquer um poderia dizer que é uma das pessoas de Web. Eu mesmo poderia dizer isso para alguém que não me conhece.” Agora Black Jack parecia frustrado. “Que prova você quer? Você irá conhecê-lo assim que eu contar a ele sobre isso. Acredite, ele irá querer pegá-la pessoalmente.” “Ligue pra ele. Agora. Deixe-me ouvir a voz dele. Caso contrário, eu vou embora com ela e encontro outra pessoa para me associar.” Black Jack não gostou de ser ameaçado; estava claro pela fúria que atravessou sua expressão. Mas tão rápido quanto apareceu, seu rosto se suavizou com outro sorriso. “Sem problema.” Ele pegou o telefone em sua mesa e discou, assobiando. “Passe para o Web,” Black Jack disse para quem quer que tinha atendido. Depois de alguns minutos esperando, seu sorriso aumentou. “Mestre. Eu tenho a melhor notícia para você–“ A mão de Spade disparou, agarrando o telefone. Black Jack foi pegar de volta, mas parou com o olhar que Spade lançou a ele. “O que é?” Denise escutou uma voz aborrecida sair do telefone. Então, “Black Jack? Você pode me ouvir?” “Eu te escuto muito bem,” Black Jack disse, quase berrando. “E também meu novo parceiro, Henry–“ Spade desligou o telefone e então, para surpresa de Denise, arrancou a base da parede. O grito de Black Jack se transformou em um xingo. “Por que raios você fez isso?” Spade tirou seu celular de sua jaqueta e deu para Denise. “Vá até a entrada principal do hotel e ligue para nossa carona. Eu te encontro lá.” Contente em sair desse subsolo infestado de drogas e vampiros, Denise agarrou o telefone de Spade e foi em direção à porta.


Black Jack imediatamente tentou bloquear seu caminho, mas Spade foi mais rápido, o agarrando pelo colarinho. “Não, companheiro, nós temos alguns negócios pendentes para discutir enquanto ela chama o carro.” O outro vampiro relaxou, soltando um riso abafado que fez a pele de Denise arrepiar. “Certo. Te vejo logo, doçura.” “Yeah, com certeza,” Denise murmurou. Ela seguiu a escada de metal até a sala principal do Drai‟s, então subiu a escadaria mais bonita que levava ao térreo do hotel Barbary Coast. O motorista do hotel atendeu no primeiro toque – um benefício de ficar em uma cobertura, ela supôs. Ela tinha acabado de dar as instruções para ele os buscar e desligado o telefone quando uma premonição fria passou por sua espinha. Spade nunca a tinha enviado sozinha para chamar o carro. Ele era agarrado ao seu cavalheirismo, sem mencionar seu instinto protetor. E mesmo assim ele a tinha mandado desacompanhada por dois andares de vampiros com um corte superficial em seu braço. Algo não estava certo. Denise olhou virou e praticamente correu de volta ao hotel. Denise se virou e praticamente correu de volta para dentro do hotel. Ela se lançou por entre as pessoas e desceu as escadas. Algumas cabeças se viraram no Drai‟s quando ela continuou em seu ritmo frenético, mas ela os ignorou, se focando em descer a última escadaria até Spade. Assim que ela chegou ao corredor estreito, a porta de Black Jack se escancarou e Spade apareceu. Sua jaqueta estava rasgada, ele tinha sangue em sua camisa e havia uma faca de prata borrada de vermelho em sua mão. Denise não precisou ver dentro da sala pra descobrir. “Você o matou,” ela sussurrou. Spade colocou a faca dentro de sua jaqueta, dando a ela um olhar frustrado. “Não era pra você estar aqui.” Denise encarou Spade, percebendo a aura letal em torno dele. Suas emoções crescentes a tinham cegado, mas nada tinha mudado. Spade era um vampiro, então ele vivia em um mundo dominado pela violência. O sangue virá a seguir. A morte virá a seguir. Sempre vêm. Ela abriu a boca para expressar a repugnância sobre o que ele tinha feito, mas Spade a agarrou, se movendo tão rápido que tudo se transformou em um borrão. Gritos soaram atrás deles, portas bateram, haviam barulhos estourando, e Spade enterrou a cabeça dela contra seu peito, cortando a visão dela. Então, alguns enlouquecidos momentos depois, aquela sensação


nauseante em seu estĂ´mago seguida pelo ruĂ­do do vento por todos os lados disse a ela que eles estavam voando.


CAPÍTULO DEZENOVE. Spade aterrissou no deserto, há vários quilômetros das luzes brilhantes da cidade. Denise o empurrou assim que seus pés tocaram no chão. Ele a deixou descarregar sem tentar impedi-la. “Você entende que eu não tive escolha?” ele disse, seguindo atrás dela. Ela resfolegou por sobre o ombro. “Certo. Porque com o seu mundo, morte é a única escolha. Não existem outras opções.” Ele flexionou sua mandíbula quando ela tropeçou em um declive na areia que ela não pôde ver, mas ele não tentou segurá-la. Ela apenas se apoiaria com as mãos para não cair. “Black Jack não tinha intenção de me deixar sair daquela sala vivo. Você percebeu os tiros atrás de nós, ou então os outros vampiros saindo correndo da sala? Ele os chamou, e não para me dar as boas vindas como seu novo sócio.” Perante a isso ela parou, mas então continuou andando. Spade não disse nada sobre ela não fazer a mínima idéia de onde ela estava indo. Ele calculou que ela perceberia isso sozinha. “Você me mandou embora para que eu não soubesse que você ia matá-lo.” “Sim.” Ela finalmente parou de andar. Spade ficou vários passos atrás, dando algum espaço para Denise. “Sobre o que ele estava tão empolgado para conversar a sós com você?” A raiva corria através dele com a lembrança, afiando seu tom. “Ele estava mais é enrolando até que seus colegas apareceram com armas, mas ele falou sobre toda a grana que nós faríamos com pacotes de ofertas com você.” Denise talvez não fosse capaz de decifrar as feições dele na escuridão que os envolvia, mas ele podia ver as dela, e sua expressão endureceu. “Que tipo de pacotes de ofertas?” “Vendendo você para transar e ser mordida ao mesmo tempo,” Spade replicou asperamente. “É por isso que ele estava tão satisfeito por você ser uma mulher bonita. A oportunidade de provar um Dragão Vermelho natural combinado com sexo elevaria o preço ao máximo – e seria muito viciante, ele apostou.” A violação de Giselda, flashes do corpo dela sem sangue vieram em sua mente. A ideia de Denise passando por algo parecido, e por décadas ou mais,


quase fez o controle de Spade se desintegrar. Mesmo que ele não tivesse que ter matado Black Jack em defesa própria, ele o teria assassinado de qualquer jeito apenas por pretender tal destino a Denise. Ela esfregou os braços, lembrando Spade de quanto estava frio na madrugada no deserto. Ele tirou sua jaqueta e colocou em volta dos ombros dela, mas ela se afastou. “Tem sangue por toda ela.” “Melhor o dele do que o seu,” ele reagiu, mas pegou a jaqueta de volta. Mulher teimosa. Ah, bom. Eles não precisariam ficar lá por muito mais tempo. Apenas tempo o suficiente para garantir que eles não tinham sido seguidos. Nenhum dos vampiros que Black Jack chamou pareciam ser Mestres, então eles não seriam capazes de voar, mas ele não queria correr riscos. “Agora eu entendo porque você teve que matar Black Jack,” Denise disse depois de alguns minutos de silêncio. “Mas eu não posso mentir e dizer que estou numa boa com como assassinar parece ser a solução mais comum sempre que tiver um problema com vampiros e ghouls.” “E humanos,” Spade falou de uma vez. “Você só precisa assistir a televisão para ver assassinatos nos noticiários todas as noites. Violência não é algo do que os mortos-vivos possuem o monopólio. Você poderia evitar vampiros e ghouls pelo resto da sua vida, mas você ainda viveria em um mundo repleto de violência.” “Há menos violência no meu mundo comparado ao seu,” ela insistiu. Spade suspirou. “Não, querida. Apenas há diferentes motivos para ela.” “Randy morreu porque eu o trouxe para o seu mundo. Ele estaria vivo hoje se eu não o tivesse exposto a isso!” Seu cheiro estava cheio de dor, sua voz engasgada com tristeza, culpa e raiva. Emoções que Spade conhecia muito bem. “Pelo que eu me lembro, Randy e Crispin eram amigos por 6 meses antes de até mesmo você o conhecer. Randy já estava nesse mundo antes de você conhecê-lo.” Ela se virou, mas não antes de Spade ver o brilho das lágrimas nos olhos dela. “É minha culpa ele ter morrido. Eu o deixei subir as escadas sozinho, ok? Eu o deixei ir sozinho porque eu era uma covarde. Se eu tivesse ido com ele, eu poderia ter dado cobertura a ele. Eu poderia tê-lo avisado, dado a ele uma chance de fugir–“


Spade agarrou os ombros dela, os segurando em um aperto firme. “Dezessete vampiros e ghouls morreram durante aquele ataque, alguns deles eram Mestres. Aquelas criaturas eram muito fortes, muito rápidas. Se você tivesse subido com Randy, você não o teria salvado. Você apenas teria morrido com ele.” Denise não tentou afastá-lo. Ela apenas ficou lá de pé, com a cabeça baixa, soluçando. “Então era o que eu devia ter feito. Randy morreu tentando me salvar. Eu devia ter feito o mesmo por ele.” “Você ficou lá embaixo porque você foi esperta. Ele morreu porque ele foi um tolo,” Spade replicou, ignorando o sobressalto dela por sua análise cruel. Agora ele a virou para olhar pra ele. “Ele não deveria ter saído do seu lado. Era lá que era o lugar dele. Não no meio de um ataque de malditos zumbis do qual nenhum humano sairia vivo. Randy tomou a decisão errada e morreu por causa disso. É assim que são as coisas. Não é justo, mas a vida em mundo algum é justa, não é?” “Como você pode entender? Você nunca perdeu a pessoa que você amava porque você simplesmente ficou lá parado,” ela disse em um tom quebrado. Ele riu, um longo e amargo riso. Não, ele perdeu Giselda porque ele não foi rápido o suficiente. Se ele tivesse partido umas poucas horas antes naquela manhã, ele teria sido capaz de salvá-la. E se ela o tivesse escutado, ela nunca teria estado naquela estrada perigosa em primeiro lugar. Perto demais da batalha, a área era repleta de desertores do exército de Napoleão. Ele enviou um recado para Giselda esperar até que ele a escoltasse para o chalé. Ela quis surpreendê-lo. Apenas uma má e bem intencionada decisão, mas que resultou em seu estupro e assassinato. Não, a vida não era justa em mundo algum, humano ou não. “Você não faz ideia do quanto eu realmente entendo.” Ela lhe deu um olhar afiado, como se ela estivesse prestes a exigir que ele explicasse. Spade esperou. Ele nunca tinha falado sobre Giselda, mas para Denise ele falaria, se ela perguntasse. Mas ela não o questionou. Ela baixou a cabeça, silenciosamente abraçou seu próprio corpo contra o frio. Se recolhendo em sua própria vergonha assim como ele tinha feito durante todos os anos no último longo e solitário século e meio. Consolo não a ajudaria. Nem sua pena. Apenas uma coisa o tinha ajudado a afastar a culpa e a tristeza.


“Se você pudesse reviver aquela noite, você ainda ficaria no porão?” A cabeça de Denise se ergueu. “Não. Nem em um milhão de anos.” “Então você não é mais a mesma pessoa,” Spade disse, com sua voz sem emoção. “Você já provou isso recebendo mais da essência do demônio ao invés de sacrificar um de seus parentes. A mulher em minha frente não é a mesma daquela véspera de Ano Novo. Ela pode ter falhado, mas você não vai falhar, vai? Denise o encarou, algo firme e determinado crescendo em seus olhos. “Pode apostar que não vou.” A admiração dele por ela aumentou. Levou a ele mais de uma década para ter aquela mesma força de vontade após sua perda. Ele tinha que fazê-la ser dele. A batalha para conquistá-la podia ser longa, mas era muito importante para desistir apenas porque não seria fácil. “Nós vamos voltar para o hotel agora?” Denise perguntou, suas lágrimas já haviam cessado. “Nós não vamos voltar para o hotel. De fato, nós iremos partir de Nevada logo.” Ela franziu as sobrancelhas. “Mas a identidade falsa que você me deu e o resto das nossas coisas estão no hotel.” “Eu fiz os arranjos para que nossas coisas fossem empacotadas depois que nós saímos, e eu tenho nossas identidades no meu bolso.” Denise deu a ele um olhar cínico. “Você tinha essa coisa toda ensaiada até o último detalhe, não tinha?” Não cada detalhe, ou então você não teria me descoberto matando Black Jack. “Eu tento antecipar,” foi tudo o que Spade disse. Ela respirou fundo. “E agora nós vamos atrás de Web?” “Agora nós vamos atrás de Web.” ___ Minhas novas identidades estão realmente acumulando milhas de vôo, Denise pensou enquanto eles saiam de outro avião. Ela voou mais nas últimas duas semanas do que nos últimos cinco anos. Spade tinha dito que haviam rumores de que Web vivia em Mônaco, então eles estavam cruzando o oceano de novo. Ela não sabia o que Spade pretendia fazer quando encontrasse Web – tocar a campainha do vampiro e perguntar se ele poderia trazer a fonte de seus negócios de drogas sobrenaturais? Ou apenas matar qualquer um que


cruzasse seu caminho até que a última pessoa a ficar de pé fosse seu esquivo parente Nathaniel? Pra ser sincera, ela não quis perguntar, porque ela já se sentia uma hipócrita. Ela julgou Spade por matar Black Jack, mas ele só o tinha feito em benefício dela. Qualquer um que ele matasse durante essa caçada por Nathaniel seria em benefício dela também. Assim que isso terminasse, as mãos dela estariam tão sujas de sangue quanto as deles, não importando o quanto ela continuasse declarando seu ódio por violência. Esse conhecimento fez as emoções de Denise abrangerem culpa, frustração e medo. Ela era uma assassina tanto quanto Spade, e isso só iria piorar se eles tivessem sorte. E se eles não encontrassem Web? E se na próxima vez em que Spade estivesse em uma luta até a morte, ele não fosse aquele que sairia vivo dela? Esse pensamento vinha exasperando Denise nos últimos dois dias de vôos e estadias em hotéis. A amplitude do quanto perigoso seria resgatar Nathaniel, se eles pudessem encontra-lo, havia sido ressaltada pela reação de Black Jack ao seu sangue. Spade inicialmente não queria assumir a responsabilidade de procurar por Nathaniel porque ele poderia ser propriedade de outro vampiro. Agora eles sabiam que era muito pior que isso. Nathaniel não era apenas propriedade; ele era a única fonte de um negócio de drogas altamente lucrativo, então quem quer que o tivesse não hesitaria em matar para mantê-lo. Como ela poderia pedir para Spade continuar tentando encontrar Nathaniel? Assim que ele o fizesse, as chances de Spade seriam tão terríveis quanto foram as de Randy quando ele subiu as escadas daquela casa no Ano Novo. De todas as formas, ela estava de volta àquela noite: afastada do perigo enquanto outra pessoa encarava os monstros. Ela estava ciente disso. Spade estava certo; ela não era a mesma pessoa que tinha sido antes. Se fosse apenas a vida dela em jogo, ela pararia de procurar Nathaniel e apenas continuaria fugindo de Raum, vivendo – e morrendo – com as marcas do demônio. Mas Raum não pararia de procurar por Nathaniel, e ele mataria cada membro de sua família tentando encontrá-lo. Se ela continuasse nesse curso, ela poderia acabar fazendo Spade ser morto. Se ela não continuasse, ela estava condenando toda sua família a morte – tudo porque um ancestral queria poderes sobrenaturais e os procurou com um demônio. Quem quer que você seja, Nathaniel, Denise pensou pela centésima vez, eu odeio a sua coragem. Spade pegou as malas deles e eles se dirigiram até a saída do aeroporto. Já do lado de fora, Denise ficou surpresa por ver Alten e outra pessoa, presumidamente um vampiro, apoiado em um carro estacionado.


“Spade,” Alten disse, sorrindo enquanto ele se aproximava. Spade lhe deu um breve abraço, entregando as malas para o outro homem. Definitivamente um vampiro, Denise decidiu, o vendo pegar todas com uma mão como se elas não fossem tão pesadas quanto ela sabia que eram. “Prazer em ver você de novo, Denise,” Alten disse, virando para ela em seguida. “Você também,” ela respondeu, e falava sério, já o tendo perdoado por toda aquela coisa de segurá-la na semana anterior quando Raum apareceu chamando. Spade abriu a porta do carro e Denise sentou agradecida no banco de trás. Desde que onde quer que eles estivessem indo tivesse uma cama – inferno, um chão – ela estaria no paraíso. Nunca era possível dormir direito em um avião. Suas breves estadas nos hotéis nos últimos dois dias entre os vôos tinham sido mais para tomarem banho e Spade fazer suas ligações em particular do que para dormirem. Ela estava tão cansada; ela ficaria feliz em adormecer no porta-malas, se ela pudesse se encaixar ao redor das bagagens. Spade apresentou o vampiro loiro como sendo Bootleg, fazendo Denise se perguntar se ele tinha sido transformado durante a lei seca. A maioria dos vampiros pareciam escolher os nomes mais estranhos. Ela ainda não tinha conhecido um John ou uma Sue. “Está tudo arranjado para hoje a noite,” Alten disse quando eles se afastaram. “Excelente,” Spade respondeu, mas Denise quase gemeu alto, sentindo que seus planos de ter mais do que duas horas de sono ininterrupto tinham acabado de se desfazer. Ela afastou seu desapontamento. Spade provavelmente queria dormir também. E não gastar todo seu tempo, dinheiro e segurança correndo pra lá e pra cá por causa dela. “O que vai acontecer hoje a noite?” ela perguntou, satisfeita que sua voz estava calma ao invés de queixosa. Ou suas habilidades de atuação eram péssimas ou ele pôde sentir o quanto ela estava exausta, porque Spade a olhou com simpatia. “Desculpe, mas hoje a noite era a única noite que tínhamos certeza de que ele poderia comparecer. Porém você pode tirar um cochilo antes.” “Quem? Ele?” ela perguntou de forma significativa, não querendo dizer o nome de Web no caso de a procura por ele fosse algo de que Bootleg e Alten não estivessem sabendo.


“Realmente, Web estará lá,” Spade respondeu, apertando a mão dela fora da vista de Alten ou Bootleg, que estavam no assento da frente. “Nós vamos querer a aprovação formal dele se pretendemos nos mudar permanentemente para Mônaco, querida. É uma ilha tão pequena. Eu não iria querer estranhezas com algum nativo importante.” Aquela era a jogada dele? Uma educada aproximação para conhecer os vizinhos? Oh claro, a princípio podia ser tudo presas e uma cesta de frutas de boas vindas, mas então o perigo para Spade e as matanças se seguiriam se Web tivesse Nathaniel com ele. E Denise não poderia viver com aquilo. Porém, agora não era hora para discutir isso. Não com outros dois pares de ouvidos mortos-vivos no carro. Ela se reclinou no assento, fechando os olhos contra o brilho do sol que entrava pelas janelas escuras. Seu cansaço fazia dela parecida com um vampiro; ela teria desligado o sol como uma lâmpada irritante se ela pudesse. Spade escorregou pelo banco, encaixando Denise em seu peito. Denise ficou tensa por um instante, mas então se lembrou de como ela agiria se estivesse realmente em um relacionamento com ele, como Alten e Bootleg acreditavam. Então ela relaxou, se ajeitou contra ele com um braço ao redor do estômago esguio dele e o outro atrás de suas costas, e ela sentiu o queixo dele descansar no topo de sua cabeça. Uma profunda satisfação passou por ela. Não era apenas satisfação impulsionada por ela estar cansada e agora estar em uma posição muito mais confortável; era o senso de estar no lugar certo que ela sentia nos braços de Spade. Como se ela estivesse aonde deveria estar, perto da única pessoa com quem ela queria estar. Nem parecia possível que há pouco tempo atrás ela tinha medo do Spade. Ou talvez ela não tivesse. Talvez seus ataques de pânico em volta de vampiros tinham sido a única coisa a impedindo de se focar na conexão real e intensa que ela sentia por Spade. Às vezes ele a entendia melhor do que ela mesma. Quando Spade olhava para ela, ela sentia que não era a viúva despedaçada, digna de pena e sem esperança que os outros viam. Spade via uma mulher com uma cicatriz do passado que tinha forças de seguir em frente apesar de sua perda. E mais e mais, Denise não olhava para Spade e via um vampiro em um mundo violento – ela via um homem que tinha a coragem de aceitar o que quer que a vida jogasse nele e sair por cima. Ela via alguém com quem queria um futuro. A intensidade de suas emoções era chocante, mas Denise estava muito cansada para avaliar todos os obstáculos que faziam de seus sentimentos algo


discutĂ­vel. Nesse momento, ela poderia ficar aqui e absorver aquele maravilhoso sentimento de pertencer, de se importar, de estar certa. Depois de todo o horror, tristeza e dor do Ăşltimo ano e pouco, ela precisava disso. EntĂŁo, mais tarde, ela faria o que tinha que ser feito.


CAPÍTULO VINTE. Spade ficou de pé ao lado de Denise. Seu rosto bonito estava tão em paz dormindo, sem a preocupação, a tensão e a culpa que normalmente o sombreava. Ele odiava ter que acordá-la, sabendo que ela esteve agindo por pura força de vontade nos últimos dias. Ela nem tinha se mexido quando ele a carregou do carro para este quarto, colocando-a na cama. Mas ele não podia esperar mais. “Denise.” Ele não pôde resistir tocar o rosto dela e então deslizar a mão para o pescoço dela. Sua pele era como cetim derretido, a sensação de tocá-la tão viciante quanto o sangue dela. “Denise, acorde.” Os olhos dela se abriram, uma fascinante mistura de marrom e verde fixou nele. Ela piscou e então sorriu sonolenta. “Hey. Nós estamos aqui?” “Já faz quatro horas,” ele respondeu, a boca dele se curvou em um sorriso enquanto ela olhava ao redor, surpresa estampada em sua fisionomia quando ela percebeu que estava em um quarto ao invés do carro onde tinha adormecido. “Uau. Eu devo ter desmaiado mesmo.” Denise balançou a cabeça, sentou e passou a mão por seus cabelos escuros espessos para tirá-los do seu rosto. Seu estômago acordou logo em seguida, julgando pelo ronco que ele emitiu, a deixando levemente ruborizada. Spade se moveu para o lado, revelando a mesa ao lado dele com vários pratos cobertos. “Hambúrguer com alface, tomate, picles e catchup, batatas fritas, mais sopa de galinha, torradas e bolo de chocolate.” Os olhos dela se arregalaram e então ela riu. “Você lembrou exatamente do que eu gosto. Deus, Spade, eu acho que te amo.” Isso foi dito em tom de brincadeira, mas o aperto no peito dele ao ouvir aquelas palavras foi como um golpe. Ele já sabia que gostava de Denise muito mais do que ele gostou de qualquer um em um longo tempo, mas no momento, ele percebeu o quanto isso tinha se tornado sério. Eu estou apaixonado por você. Eu nunca pensei que aconteceria comigo de novo – e especialmente com uma humana. Ela tinha que deixá-lo transformá-la em uma vampira. Ele não poderia suportar perdê-la para a frágil mortalidade humana, quando a morte podia atacar mesmo sob a circunstância mais simples. Como uma humana, ela podia engasgar com uma mordida daquele hambúrguer e ele a perderia para sempre,


pelo amor de Deus. Não havia forma de ele tolerar ela permanecer humana, e se ela gostasse dele como ele acreditava que ela gostava, ela iria querer se transformar para que eles pudessem ficar juntos por séculos, no mínimo. Não apenas meras décadas. Denise limpou a garganta, desviando o olhar, seu perfume de jasmim com mel ficando picante por causa do desconforto causado por sua ironia dita. Muito mais desconforto do que ela deveria sentir, a menos que ela soubesse que havia mais entre eles do que afeição amigável, necessidade ou luxúria. “Eu preciso falar com você,” ela disse, fingindo estudar a pintura na parede oposta. “É importante, e eu não quero que ninguém escute.” Antecipação surgiu nele. Ela estava para admitir que gostava dele? Ela tinha percebido que seus mundos eram igualmente perigosos e que não havia mais crueldade no dele comparado ao dela? Diabos, se ela fizesse isso, ele cancelaria a festa e passaria o resto da noite na cama com ela, que se danem Web ou qualquer outro convidado morto-vivo que pudesse se sentir ofendido. Ele sempre poderia amenizar as coisas com eles mais tarde, mas ele seria condenado se ele recusasse Denise se ela declarasse seus sentimentos por ele. Ele atravessou o quarto, fechando a porta e então ligando a televisão alta o suficiente para fazer ela se sentir confortável de que eles não seriam ouvidos. Então ele sentou na ponta da cama, se segurando para não fazer nada para assustá-la. Como, por exemplo, arrancar as roupas dela para que ele pudesse sentir sua pele muito quente e sedosa sobre ele. “O que é?” ele perguntou, sem um pingo de sua luta interna transparecendo em sua voz. Ela respirou fundo. “Eu estou cancelando tudo. O que quer que você pretenda fazer hoje a noite com Web, procurar por Nathaniel, tudo isso.” A frustração cobriu seu desejo em um piscar de olhos. “Isso de novo não. Eu já te disse uma dúzia de vezes; eu não vou deixar você ir atrás de Nathaniel sozinha.” “Eu não pretendo ir atrás dele,” ela disse, desconfiança e resignação competindo em sua voz. “Você está certo, eu não poderia nem começar a procurar por ele sem a ajuda de um vampiro, e nenhum vampiro além de Bones seria louco o suficiente para me ajudar, tirado você. Nós dois sabemos que eu não posso envolver Bones por causa de Cat, mas se você continuar a procurar por Nathaniel, você vai se matar, e eu não posso... eu não posso viver com isso.”


Ele a encarou com espanto. “E a sua família?” Ela mordeu o lábio. “Eles terão que se esconder comigo. Não restaram mais muitos deles; meus pais, minha prima Felicity, seu noivo e alguns poucos primos de segundo grau. Eu odeio ter que fazer isso com eles, mas Bones tem pessoas por todo o mundo. Ele poderia arranjar para que ficássemos com um deles, como os outros humanos fazem, mas sem a troca de sangue. Ele poderia até hipnotizá-los para que eles não soubessem que suas vidas estão em perigo ou que fiquem miseráveis se sentindo aprisionados em algum canto do mundo...” Sua voz vacilou na última parte, mas depois de outra respirada funda, ela estava firme de novo. “Desse jeito ninguém tem que morrer. Você não tem que arriscar sua vida. É a única solução lógica.” Spade pegou suas mãos, sempre cobertas com luvas longas para esconder as tatuagens e as marcas por baixo delas. “Então, você nunca vai tirar isso, Denise. Você nunca vai ser humana de novo, e você não tem ideia de quanto tempo você vai viver desse jeito, porque as marcas obviamente deram a Nathaniel uma expectativa de vida longa e anormal.” Ela encontrou o olhar dele. “Eu posso aguentar isso, mas eu não posso aguentar você continuar arriscando sua vida por mim. Se eu fizesse você ser morto, eu me sentiria mais um monstro do que essas marcas jamais me fariam sentir.” O triunfo queimou dentro dele. Se ela sacrificaria sua humanidade para mantêlo a salvo, ela tinha que gostar dele tanto quanto ele gostava dela. E nesse caso, ela tinha que estar disposta a se tornar uma vampira assim que ele devolvesse Nathaniel ao demônio e ela se livrasse dessas marcas. Afinal de contas, isso era uma perspectiva infinitamente melhor do que ser marcada por um demônio que muda de forma. Ele esticou a mão para fazer carinho no rosto dela, saboreando como o perfume dela mudava de ansiedade determinada para algo muito mais rico. Então, devagar, ele colocou a mão atrás da nuca dela. A batida do coração dela aumentava enquanto ele se inclinava, reduzindo a distância entre eles, os lábios dele se separando em antecipação a doçura dos lábios dela. Uma batida na porta fez Denise se afastar enquanto Spade se virava amaldiçoando.


“Vá embora.” Um rosnado ameaçador que qualquer pessoa inteligente entenderia. “Criador, minhas desculpas, mas você tem uma ligação urgente,” Alten disse. “É bom que seja alguém morrendo,” Spade murmurou, se levantando para abrir a porta. Alten segurava seu celular em silêncio. Spade o pegou, gritando, “O que?” para o receptor. “Por que você não tem retornado minhas ligações?” Crispin perguntou friamente. ___ Denise ainda estava cambaleante pelo quase beijo quando Spade se virou para ela, cobrindo o celular com a mão. “Eu preciso atender isso,” ele disse, e saiu. Ela encarou a porta por um segundo, estupefata. Será que ela tinha imaginado a intensidade daquele momento? As emoções no rosto de Spade enquanto ele se inclinava para ela realmente aconteceram, ou os sentimentos dela apenas imaginaram uma ilusão do que ela queria ver? Deve ter sido isso. Com certeza Spade parecia distante quando ele saiu, como se nada tivesse – quase – acontecido entre eles. Enojada, Denise foi até a bandeja e começou a comer. Seu estômago não se importava que ela tivesse sido largada lá; ele ainda rosnava e borbulhava de forma exigente. Ela imaginou como seria passar o resto do que poderia ser uma vida muito longa desse jeito – se escondendo de Raum, seu corpo irreconhecível para ela de muitas formas, banida de seu mundo e não aceita em nenhum outro. Era isso que Cat sentia, sendo uma meia vampira, não se encaixando nem no mundo humano e nem no dos vampiros? Se fosse, era uma droga. Claro, Cat na verdade tinha poderes úteis. Tudo que Denise tinha de suas novas anormalidades era um apetite insaciável e uma deformidade ocasional nas mãos. Vilões do mundo, cuidado! Eu posso comê-los debaixo da mesa E enojá-los com minhas garras monstruosas. Ela afastou seu prato depois de comer as fritas e o bolo de chocolate. Sentir piedade de si mesma era inútil. Ela tinha que começar a tocar sua vida, do jeito que era. Primeiro ela tinha que se lavar. Um banho pelo menos cuidaria de suas necessidades de higiene. Então ela agradeceria Spade por tudo que ele tinha feito e ligaria para Cat, explicando para sua amiga que ela precisava que


sua família ficasse na versão vampiresca de um programa de proteção a testemunhas. Mesmo que ela tenha sido uma amiga horrível ultimamente, Cat a ajudaria. Ela e Bones eram boas pessoas assim. E Spade podia seguir com a vida dele, sem ela a colocando em risco ou a virando de ponta cabeça. Era a coisa certa a fazer. ___ Spade deixou o quarto de Denise e continuou andando, desceu as escadas e saiu pela porta da frente antes de responder. “Olá, companheiro. Desculpe pela falta de resposta. Temo que esteja um pouco ocupado.” “Realmente.” Essa única palavra teve a mesma ênfase como se tivesse sido besteira. Spade esperou, ele não ia começar dizendo algo que pudesse soar defensivo ou aumentar as suspeitas de Crispin. Ou Crispin sabia alguma coisa ou não sabia. Se ele não sabia, Spade não facilitaria para ele descobrir, mas ele também não mentiria para seu melhor amigo, se ele pudesse evitar. “Você não tem algo que queira me contar, Charles?” Crispin perguntou depois do silêncio prolongado. Spade quase sorriu. “Certamente não.” Essa era a pura verdade. “Certo.” Spade quase pôde visualizar o rosto de Crispin endurecendo. “Por que eu não te ajudo? Você pode começar me dizendo o que você está aprontando com Denise MacGregor.” Ian deve ter dito alguma coisa. Ninguém tinha reconhecido Denise, exceto ele, idiota indigno de confiança. “Não é nada com o que você precise se preocupar,” Spade respondeu no mesmo tom frio que Crispin tinha usado. Uma bufada. “Nós não devemos estar nos entendendo direito, porque você não disse para eu não me preocupar com a melhor amiga da minha esposa, disse?” Spade fechou os olhos perante ao desafio aberto que Crispin jogou. “Eu sei que você se sente protetor com Denise por causa da amizade dela com Cat, mas ela não é um de seu pessoal,” Spade respondeu cuidadosamente, medindo cada palavra. “Você teria que ter mordido ou levado Denise para a cama pra isso, e você não fez nenhum dos dois. Então com toda a afeição que eu tenho por você Crispin, eu digo novamente, isso não te diz respeito.”


Agora a bufada do outro lado da linha aumentou em tom de espanto. “Inferno, Charles, no que você se meteu? Eu não acreditei em Ian quando ele disse que você estava agindo de forma estranha, mas agora você provou que ele estava certo.” Melhor Crispin acreditar que ele tinha ficado louco de luxúria do que descobrir o que realmente estava acontecendo. Ele estava perto de achar Nathaniel. Ele podia sentir isso. “Você não vai ser razoável, vai?” Crispin disse, com a raiva se destacando em seu tom de voz quando Spade não respondeu. “Se ser razoável significa pedir sua permissão antes de andar com uma mulher desejável, então você está certo. Eu não vou ser razoável,” Spade respondeu. “Coloque Denise no telefone. Deixe-me escutar dela que ela está escolhendo estar com você por nenhum outro motivo do que apreciar sua companhia,” Crispin disse brevemente. Considerando sua última conversa com Denise, Spade não iria colocá-la no telefone até que ele colocasse algum juízo nela. “Ela está indisposta no momento. Eu a farei te ligar mais tarde.” O tom de Crispin foi do frio para o gelado. “Você percebe que não está me dando escolha a não ser presumir que você está escondendo alguma coisa.” “É uma pena que você se sinta desse jeito. Eu falaria mais com você, mas eu tenho que ir agora. Oh, mais uma coisa.” Spade nem tentou diminuir a raiva em sua voz enquanto ele continuava. “Diga ao Ian que eu vou continuar com a casa.” Ele desligou o celular, cortando qualquer resposta que Crispin pudesse dar. Coisa demais para cancelar a festa para ter uma noite romântica com Denise. Ele tinha menos tempo ainda para encontrar Nathaniel agora que Crispin sabia que algo estava errado. Melhor amigo ou não, ele não deixaria Crispin se interferir por causa de um errôneo senso de responsabilidade. Denise era dele e Crispin descobriria isso logo.


CAPÍTULO VINTE E UM. Depois de um bom e longo banho, Denise desceu as escadas. No primeiro andar, várias pessoas que ela nunca tinha visto antes andavam com pressa, preparando as coisas para o que quer que seja o evento que Spade tinha marcado para hoje a noite, ela adivinhou. Agora Spade podia considerar isso como sua festa de despedida, porque ela pretendia estar no primeiro avião amanhã, indo em direção de onde quer que Bones e Cat estivessem. Tudo que ela precisava era um número para localizá-los, mas para isso, ela precisava de Spade, e essa casa mediterrânea era tão grande quanto era bonita. “Você viu Spade?” ela perguntou a uma das pessoas que estava passando. “Quem?” O jovem homem perguntou, equilibrando uma bandeja lotada e dando a Denise um olhar que dizia que ela estava pesada. “Deixa pra lá,” ela murmurou. Com a audição de Spade, se ela quisesse realmente encontrá-lo, ela podia apenas gritar seu nome. Mesmo em meio a tanto movimento e todas as pessoas falando, ele a ouviria. Porém, aquilo era rude ao extremo, então ela decidiu procurar no primeiro andar da casa. Ele era lindo, com mármore por toda parte, janelas enormes com vista panorâmica para o porto à distância, os lustres de cristal jogando faíscas elegantes à luz, tetos altos e passagens em forma de arco levando a cômodos mais fabulosamente decorados. Mas em meio a toda essa beleza de decoração de bom gosto não tinha um vampiro alto de cabelos escuros. Denise não queria incomodar mais ninguém perguntando por ele, então ela foi pra fora. Se o carro em que eles chegaram estivesse lá, ela saberia que Spade ainda estaria lá, em algum lugar. Haviam vários carros ao longo da entrada. Pareciam veículos de entrega. O lado cínico de Denise veio à tona; ela olhou para toda a comida e bebida sendo carregadas. Essa era uma festa de vampiros afinal de contas. Eles comem de artérias, não de bandejas de aperitivos. Depois de uma busca rápida que revelou apenas flores exóticas, plantas e algumas poucas estatuetas muito bonitas, Denise voltou para dentro. A atividade parecia ter aumentado nos últimos vinte minutos, a julgar pelo aumento da confusão de pessoas. “Denise!” Ela se virou aliviada ao ouvir a voz de Spade, mas o alívio se desfez quando ela o viu. Ele se aproximou dela com passos largos, sobrancelhas juntas, o rosto bonito com uma expressão ameaçadora. “Por que você iria sair sem me dizer?” ele quase a repreendeu.


Ela se enfureceu. “Já que não sou uma criança, eu não considero dar uma volta lá fora como sair. E, por acaso, eu estava procurando por você.” A tensão no rosto dele aliviou. “Eu não quis gritar com você. Apenas fiquei preocupado quando ninguém parecia saber onde você estava. Vamos, você precisa se aprontar. Não tem muito tempo.” Ele pegou o braço dela, gentilmente empurrando suas costas para subir as escadas. Denise não respondeu até que eles estivessem de volta em seu quarto, apesar de que com todo o barulho na casa, ela duvidasse que alguém a ouvisse, exceto Spade. “Eu te disse antes; não há necessidade para você fazer essa festa. Se for muito tarde para cancelar, eu entendo, mas eu nem preciso ir lá embaixo. Você pode simplesmente comer, beber e ser feliz sem mim. Nós não precisamos mais nos preocupar em encontrar Nathaniel. Spade revirou os olhos. “Se você acha que eu vou deixar você se fazer de mártir em meu benefício, então você não me conhece. E você deveria me conhecer o suficiente até agora para saber disso.” “Oh, mas eu sou o tipo de pessoa que deixaria você ser morto, ou na melhor das hipóteses, matar um monte de pessoas por mim?” ela explodiu. “As coisas mudaram. Nenhum de nós sabia em que Nathaniel estava envolvido quando isso começou. Mesmo quando nós descobrimos, eu não entendi completamente todas as implicações por trás disso, mas agora eu entendo, e eu digo que está acabado.” Ele olhou para ela como se estivesse tentando adivinhar se ela quis mesmo dizer isso. Denise não piscou. Ela não estava fazendo uma oferta apenas para aliviar sua consciência mais tarde. Ela não iria deixar outro homem de quem ela gostava morrer por causa dela. “Você está certa, é muito tarde para cancelar essa noite,” ele disse finalmente. “E pareceria estranho se eu não cumprimentasse meus convidados com minha amante ao meu lado, uma vez que eu os convidei para conhecer a nós dois especificamente. Você não conhece a etiqueta dos vampiros, mas isso seria considerado muito rude. Pode até causar problemas para mim mais tarde. O alerta de baboseira estava ligado, mas a expressão de Spade era suave, não lhe dando nada. Talvez o não aparecer da suposta namorada de Spade essa noite realmente esculhambasse as coisas. Saber que depois de amanhã ela nunca veria Spade de novo era um soco no estômago. Apesar de suas boas intenções, ela tinha se ligado emocionalmente à Spade muito além do que devia. Por que, mas por que Spade era o único


homem a inspirar sentimentos nela que ela pensava que tinham morrido com Randy? “Tudo bem,” Denise disse por fim. “Mais uma encenação, se isso for ajudar.” Ele sorriu, algo brilhando em seu olhar. “Oh, isso realmente vai.” ___ Spade estava em um canto da sala no primeiro andar, oculto pelas sobras, olhando Denise quando ela desceu as escadas. Encantadora, ele pensou, admirando o vestido cor de lavanda escuro, envolvendo seus braços enquanto deixava seus ombros nus, o decote profundo, cintura ajustada e a saia ampla balançando com seus passos. Era um modelo do século XVIII, modernizado com um zíper ao invés dos múltiplos botõezinhos, e feito da mais fina seda italiana. Com o colar de ametista e diamantes, brincos combinando, presilhas cravejadas de ametistas prendendo seu cabelo e as longas luvas brancas que iam até os cotovelos de Denise, ela parecia uma rainha. Ele saiu das sombras quando chegou ao fim da escada, pegando sua mão com luvas e a beijando. “Você está incrivelmente bonita.” Ela corou. “Obrigada.” Então ela riu. “Eu estou lembrando daquela cena de Titanic com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet na grande escadaria, mas considerando o final, eu acho que não é um bom presságio.” Spade afastou a boca de sua mão, mas não a soltou. “Não se preocupe. Os únicos icebergs aqui são os pequenos servidos nos copos.” Os olhos dela percorreram Spade com óbvio divertimento com seu traje do século XVIII combinando com o dela, mas então desviou seu olhar quando encontrou o dele. Uma parede invisível parecia se erguer em torno dela mesmo que ele ainda segurasse sua mão. “Então, qual é a pauta para essa noite?” ela perguntou de maneira prática, alinhando os ombros. Fazer o balanço de Web. Ver quem são seus parceiros. Ter você nua em meus braços antes do sol nascer. “Apenas pareça loucamente enamorada por mim e isso será o suficiente.” Ela sorriu quase desoladamente enquanto colocava a mão no braço dele. “Será.” Spade se perguntou o motivo da abrupta mudança de humor dela. Ela ainda estava zangada com ele por ter se exaltado mais cedo quando ele não conseguia a encontrar? Ou ela estava triste porque acreditava que estava destinada a ser acorrentada para sempre às suas marcas? Devia ser isso, ele


decidiu, dando a ela um olhar de lado. Em breve ela perceberia que ele não tinha intenção alguma de deixá-la seguir esse destino. “Nós iremos cumprimentar nossos convidados enquanto eles chegam, e então será a típica coisa de beber, dançar e socializar que você esperaria de qualquer festa. Mesmo que eu não espere contratempo, tente não ficar sem mim ou Alten perto de você.” Como se tivesse sido chamado, Alten apareceu, vestindo uma versão moderna de um smoking e uma máscara branca ao redor dos olhos. Denise deu uma pequena risada. “Por que a máscara?” Spade pegou uma criação lavanda com cristais e pentes para prender no cabelo dela. “Esse é um baile de máscaras, eu não te disse?” “Não, não disse,” ela falou, pegando a máscara e olhando com cuidado. “A vestimenta toda é tão bonita. Quem eu devo ser?” “Maria Antonieta. E eu sou Rei Luis XVI.” Ela lhe lançou um olhar pensativo. “Ambos foram executados.” Spade se inclinou, encostando sua boca próximo ao ouvido dela. “Eu não tenho intenção de deixar a história se repetir com a gente, querida.” Ele não tinha mesmo. Denise não iria sofrer o mesmo destino que Giselda teve com uma morte fora de hora. Ele a manteria a salvo. Dessa vez, ele não iria falhar. Denise deu um passo para trás, colocando mais distância entre eles, seu sorriso um pouco forçado enquanto ela se focava em Alten. “E quem você é?” Alten deu risada, se curvando para Denise. “Casanova, claro.” ___ Denise tentou se lembrar dos nomes combinando-os com as máscaras, mas ela percebeu rapidamente que com tantas pessoas, ela nunca decoraria todos. Por ser um baile de última hora, Spade tinha conseguido encher a sala. Ou, várias salas, para ser mais precisa. A única pessoa além de Spade e Alten que Denise sabia que ela não esqueceria era Web. Ele tinha quase deslizado para dentro da casa, um homem alto com uma máscara negra com cristais cobrindo um cabelo castanho claro e um rosto que era bonito, pelo que Denise podia ver dele. Sua fantasia também era preta, com cristais de bom gosto acentuando as bordas


das suas mangas, ombros, casaco e calças. Depois que Spade fez as apresentações e ela aceitou seu cumprimento pelo vestido, ela perguntou a ele sobre sua fantasia. “Um buraco negro cósmico,” Web explicou, sua boca com um sorriso que era ao mesmo tempo educado e desafiador. Algo mortal e impossível de ser parado; claro que Web tinha escolhido aquilo para conhecer seu novo vizinho vampiro em potencial. Ela supôs que vir como o maior galo do pedaço seria muito óbvio. “Que fascinante,” Denise disse. Ela até soou sincera. A mulher com Web, que Denise tomou como sendo uma vampira simplesmente porque ninguém poderia respirar em um vestido tão apertado, não pareceu satisfeita quando Web anunciou que esperava que Denise guardasse uma dança para ele. Spade riu e disse que tentaria deixá-la longe dele tempo o suficiente, mas por baixo da suavidade de sua voz, ele não parecia satisfeito também. Enquanto a noite prosseguia, Denise continuava a se lembrar de não ficar olhando Web e quem estava com ele, e não continuar procurando o rosto de Nathaniel sob cada máscara de cada homem na sala. Qual era o ponto? Ela tomou sua decisão de parar de procurar por Nathaniel. E amanhã ela estaria indo embora, para nunca mais ver Spade de novo a menos que acontecesse de ele passar na casa de Cat e Bones enquanto ela ainda estivesse por lá. Esse pensamento na verdade a incomodou mais do que ser marcada pelo resto de sua vida. Mesmo sabendo que não devia, ela se deixou apaixonar por ele. Levou até a véspera de sua partida para ela perceber totalmente o quanto ele significava pra ela. Como ela poderia fingir ser um casal feliz quando seu coração já machucado sentia que ia se partir de novo? Essa noite não poderia terminar rápido o suficiente. Pelo menos a comida estava deliciosa. Além do que, havia tanta comida que até Denise estava satisfeita com sua segunda porção. A festa estava espalhada por todo o andar térreo e o segundo andar, onde estava o baile. Depois de ver vários vampiros parar em uma das salas de estar no andar de cima, depois retornarem com feições notavelmente rosadas, Denise percebeu que Spade oferecia um tipo diferente de buffet lá. Ela se perguntava se ele tinha humanos alinhados como lanchinhos, ou se havia apenas uma versão plasma da fonte de champanhe que jorrava no andar de baixo. Ela decidiu não descobrir. Alten se sentou ao lado de Denise, já que na última hora, Spade esteve circulando pela sala trocando gracejos com a elite sobrenatural de Mônaco. Ela sabia que era uma tortura inútil, mas ela continuava olhando para ele no meio


da multidão, sua cabeça escura tão fácil de localizar já que ele era mais alto do que quase todo mundo na sala. Spade estava estonteante em seu traje antigo formal, um nó complicado como uma cascata de seda em seu pescoço, resplandecente casaco bordado estilo marinheiro, calças combinando, espada na cintura e botas até o joelho. Uau foi do seu primeiro pensamento ao vê-lo vestido daquele jeito, seguido imediatamente por um Não babe. Mesmo agora, olhando para ele, Denise não podia evitar lamber os lábios. “Denise.” Ela piscou, voltando sua atenção para Alten. “Desculpe, o quê?” A boca dele deu um sorrisinho quando seguiu o olhar dela até Spade. “Eu perguntei se você estava gostado do seu filé mignon.” “Oh sim. Delicioso,” ela respondeu automaticamente, e deu outra garfada. “Bom. Aproveite enquanto ainda pode.” Aquilo atraiu a total atenção de Denise para ele. Spade teria dito para Alten que ela estava partindo amanhã? “Por que você diz isso?” Ele deu de ombros. “Comida não tem o mesmo gosto depois que você se transforma em um vampiro.” Denise quase engasgou com seu filé. Alten instantaneamente começou a bater em suas costas, mas ela acenou para ele parar, engolindo seu pedaço e então tomando um gole de champanhe. “Por que você pensaria que eu faria isso?” ela conseguiu dizer, a voz ainda um pouco rouca do filé ainda meio alojado em sua garganta. Mesmo com a máscara branca cobrindo metade do rosto de Alten, ela pôde ver sua expressão espantada. “Porque você está com Spade,” ele respondeu, seu tom significava que isso devia ser óbvio para ela. “E daí?” Denise disse, e então lembrou que não, ela não estava realmente com Spade, o que fez todo aquele tópico controverso. Antes que Alten pudesse responder, Spade chegou à mesa deles, sua boca apertada em uma linha fina.


“Tenha mais cuidado da próxima vez,” Spade disse de forma afiada para Alten antes de se inclinar para abraçá-la por trás. “Tudo bem querida?” ele murmurou, beijando sua nuca. É só uma atuação, Denise se lembrou. “Eu estou bem – e não é culpa dele que eu não mastiguei minha comida antes de engolir.” Spade trocou um olhar com Alten que ela não pôde ler. Então ele se levantou, segurando a mão dela. “Vamos, dance comigo.” Com o frágil estado emocional dela por ele, Denise não queria, mas considerando o teatro deles, pareceria estranho se ela recusasse. Ela assentiu, deixando-o colocá-la de pé.


CAPÍTULO VINTE E DOIS. Quando eles chegaram ao baile, Spade pegou a mão enluvada de Denise com uma mão e a outra colocou na cintura dela. “Você sabe dançar valsa?” ele perguntou, se inclinando mais pelo prazer de sentir a pele dela tão perto de seus lábios do que por preocupação de alguém ouvir a pergunta. “Sim. Eu – nós – tivemos aulas antes do meu casamento,” ela respondeu. Uma centelha de tristeza passou pelo rosto de Denise antes de sumir, substituída por um véu de antecipação que nada tinha a ver com as lembranças de seu marido morto quando Spade a puxou para mais perto. “Eu fui ensinado quando era um garoto. Era esperado de todo filho de nobre saber como dançar valsa, cavalgar, aturar e administrar sua propriedade.” Spade a conduziu através da música tranquila enquanto ele falava, dando à ela tempo para encontrar o ritmo e relaxar entre os passos. “É tão difícil imaginar você como uma criança.” Sua máscara não escondeu nada a franca curiosidade em sua expressão. “Como era na época?” “O cenário era diferente.” Ele deu um sorriso cansado. “Mas as pessoas não mudam, nem mesmo ao longo dos milênios. Quando eu era um garoto tudo era resumido em títulos, propriedades e favores reais. Hoje são status, empregos e planos de aposentadoria. A motivação permanece a mesma, entretanto; se importar por aqueles que pertencem a você. Protegê-los do perigo. Tentando conseguir alguma felicidade. Era assim naquela época e é assim agora também.” Denise não disse nada por algum momento. Spade a estudou, não se importando em esconder o interesse em seu olhar. O cabelo estava preso para cima, mas alguns cachos, que tinham sido deixados soltos deliberadamente em lugares estratégicos, balançavam com a música enquanto eles se movimentavam. A máscara dela cobria desde as sobrancelhas até a ponta do nariz, curvando ao redor das maçãs do rosto e deixando a metade de baixo de seu rosto sem nada. Ela lambeu o lábio posterior em contemplação, sem saber como aquele simples gesto o inflamava. “E você conheceu Bones no navio para as colônias penais.” Sua voz baixou. “Posso perguntar por que você foi preso, se não for muito pessoal?” De fato era muito pessoal. Tanto que nem mesmo Crispin sabia toda a história por trás daquilo. “Meu pai era um bom homem. Severo, talvez, mas era comum naquela época. Mas ele tinha uma fraqueza: Ele não conseguia parar de apostar. Hoje ele seria


chamado de um viciado, mas naquela época, era visto como falta de bom senso. Ele ficou seriamente endividado quando eu tinha 25 anos. Eu era seu único filho, seu herdeiro, o que significava que eu não podia me juntar ao mar ou aos militares para juntar fundos para pagar suas dívidas. Então eu fiz a única coisa que pude – eu me casei com uma herdeira.” Denise parou de dançar. “Você se casou?” ela exclamou. Várias cabeças se viraram e Denise corou. Spade engoliu a risada. “Quando eu era humano, querida. Ela esteve morta nos últimos séculos.” Os vampiros ao redor deles continuaram a dançar. Casamento em termos mortos-vivos era bem mais rígido do que um casamento humano. Ele estaria arriscando a vida de Denise se ele fosse casado pela lei dos vampiros. A punição para qualquer um que cometa adultério com o cônjuge de um vampiro é a morte sem represálias, se o cônjuge lesado assim optar por exercer seu direito. Com suas vidas muito longas, não era de se admirar que casamento era algo incomum para os vampiros. Humanos já tinham problemas suficientes com casamento mesmo sendo um comprometimento de meio século, na melhor das hipóteses. As bochechas de Denise ainda estavam mais vermelhas do que apenas por causa da maquiagem. Spade não se importava que ela ruborizasse; o agradava. Se ela não tivesse ciúme da idéia de que ele tinha sido casado, então ela não se importaria com ele do jeito que ele queria. “Você se casou com alguém pelo dinheiro dela?” Denise sussurrou, a desaprovação clara em seu tom. Ele se inclinou. “Ela se casou comigo por meu título,” ele sussurrou de volta. “Foi mercenário dos dois lados, posso te garantir.” “Você a amou?” Assim que Denise fez a pergunta, ela segurou a respiração, desviando o olhar. Era claro que ela tinha se arrependido. Ele não se arrependeu, pelo mesmo motivo que o ciúme dela o tinha agradado. “Não, nem ela me amou,” ele respondeu casualmente. “Madeline queria aumentar sua posição na corte e eu não fiz segredo sobre precisar do dinheiro dela. Foi um arranjo mutuamente benéfico.” E um arranjo miserável também, como muitos casamentos arranjados eram naquele tempo. “Ainda, apesar dos cofres cheios de Madeline, foi apenas uma questão de tempo até meu pai estar em dívida mais uma vez.”


Os anos tornaram possível para Spade contar o resto da história sem a emoção manchando sua voz. “A princípio ele escondeu de mim. Explicava as cartas de seus conhecidos e os murmúrios na corte. Mas então quando ele se endividou com o Duque de Warwick em um jogo de cartas, e ele não pôde pagar, o duque reclamou com o rei.” E desde que seu pai tinha sido pego na cama com a adorável jovem duquesa, Warwick não estava com espírito de piedade. Ele procurou cada pessoa para quem seu pai devia, atiçou-os, e então implorou ao rei por justiça em benefício de todos eles. “Eles vieram pegar meu pai a noite, o levando para Newgate, onde ele apodreceria até que cada centavo fosse pago,” Spade disse. “Warwick sabia que meu pai não viveria tempo o suficiente para eu encontrar um modo de pagar suas dívidas. Mesmo prisioneiros jovens e fortes morriam o tempo todo em Newgate. Ele fez isso não para colocá-lo na cadeira, mas para matá-lo.” “Eu não posso acreditar que ele foi preso por causa das dívidas,” Denise arfou. Spade deu uma risada irônica, virando Denise de acordo com a música. “Realmente, uma das coisas diferentes na época era que não havia como declarar falência e seguir com sua vida, principalmente se você causasse a ira real. A propriedade da minha família foi tomada pela coroa, Madeline me deixou já que meu título não valia mais nada, e meu pai ficou doente na prisão. Então eu fui até o duque para oferecer uma barganha: Transferir a dívida do meu pai pra mim.” A lembrança daquele dia ainda queimava; Warwick rindo dele e zombando que em breve ele estaria enterrando seu pai, e finalmente exigindo que Spade implorasse para ele transferir a dívida. Spade o tinha feito, aceitando a humilhação para assegurar a vida de seu pai, sem perceber que intimamente Warwick concordou apenas porque ele sabia que isso machucaria mais ainda o seu pai. Seu pai bebeu até a morte em menos de dois anos depois da deportação de Spade. “Mas você sabia que iria para a cadeia...” “Denise.” Spade sustentou seu olhar. “Eu não tinha mais nada a perder exceto minha liberdade, e eu sabia que, depois de algum tempo, eu a teria de volta. Já meu pai teria certamente morrido na prisão. Que escolha eu tinha?” Ele sabia que ela, dentro todas as pessoas, entenderia, considerando como Denise tinha se colocado em perigo por sua família nas últimas semanas. Era outra coisa que eles tinham em comum.


Ela assentiu. “Então é por isso que você foi mandado para a cadeia.” “Eu não esperava que minha sentença fosse ser diferente da do meu pai, mas Warwick achou que seria divertido convencer o rei de que eu seria mais útil para a coroa se fosse enviado para as colônias de New South Wales ao invés de apenas ficar sentado na prisão. E na viagem foi onde conheci Crispin, Ian e Timothy.” “E todos se tornaram amigos.” A voz dela era suave. “Não a princípio.” Spade ergueu uma sobrancelha. “Eu, o futuro Conde de Ashcroft, acorrentado a canalhas comuns que sem dúvida mereciam cada momento de suas sentenças? Eu nem mesmo me sujeitei a falar com eles por dias.” Denise sorriu com o tom deliberadamente arrogante que ele fez. “O que quebrou o gelo?” “Depois de vários dias resistindo ao meu desdém silencioso, Ian começou a me atormentar. Disse que eu devia ser o filho bastardo de um vendedor de peixes sem língua, ou algo do tipo. Finalmente eu os informei, de maneira particularmente esnobe, que eu era o Barão Charles Thomas DeMortimer, um nobre e que não merecia aquelas circunstâncias. Eu achei que Crispin estava dormindo, mas ao ouvir isso, ele abriu um olho e disse, „DeMortimer, é? Quarto azul, cortinas roxas, que diabos você estava pensando com todas aquelas penas de pavão por todo lugar?” Denise levou um segundo, mas então seus olhos se arregalaram. “Sua esposa era uma das mulheres que contratavam Bones quando ele era um gigolô?” Spade riu. “Eu fiquei terrivelmente insultado na época, mas a viagem era horrível demais pra me preocupar com aquilo por muito tempo. Nós quase morremos a caminho das colônias. Chegando lá, quase morremos de novo sob as garras do capataz. Nós só tínhamos um ao outro pra depender, e eu passei a gostar deles como se fossem minha família.” “O que aconteceu com Timothy? Eu acho que nunca o vi por perto de Bones ou Cat.” “Ele saiu de licença há muito tempo atrás, procurando provas de que Cain, pai de todos os vampiros, ainda estava vivo. Na verdade, eu suspeito que em algum lugar ao longo do caminho, Timothy foi morto. Nenhum de nós tem ouvido falar nele por mais de oitenta anos.” Ela pareceu triste. “Sinto muito ouvir isso, mas pelo menos você, Ian e Bones permaneceram amigos por todos esses anos.”


“Às vezes, coisas boas aparecem de circunstâncias terríveis,” Spade disse calmamente. Denise desviou o olhar. Ela achou que ele estivesse se referindo a Randy, mas Spade seria a última pessoa a falar disparates sobre procurar o bem no assassinato de alguém amado. Ele se referiu as marcas de demônio que tinham levado Denise a ele. Os dois perderam pessoas amadas por nenhuma razão além da vida ser cruel às vezes, mas a despeito disso, talvez eles pudessem encontrar felicidade de novo, juntos. Spade ficou tenso, sentindo o forte poder antes mesmo da leve batidinha em seu ombro. “Posso interromper?” Web perguntou agradavelmente. ___ Denise colocou um sorriso educado no rosto enquanto Spade abria mão de segurá-la e ela deu um passo em direção aos braços de Web. Ele não era tão alto quanto Spade, então ela não precisava olhar muito para cima para encontrar seus olhos frios cor de cobalto. “Você está se divertindo essa noite?” Denise perguntou, fazendo sua parte como anfitriã educada. “Tem sido interessante,” Web respondeu com um sorriso nos lábios. “Não é todo dia que um notório vampiro Mestre abruptamente decide se mudar para a casa ao lado... com sua namorada humana.” Mesmo que ela não tivesse intenção em perseguir mais Nathaniel, Denise não ia deixar Web nutrir suspeitas sobre a declaração de Spade. Afinal de contas, amantes se separam o tempo todo. Ela partir amanhã não tinha que ser visto como alguma coisa exceto outro relacionamento que azedou. “O que não há para se amar em Mônaco?” Denise perguntou com o melhor dar de ombros que conseguiu enquanto valsava. “E todo mundo começa como humano antes de se tornar outra coisa,” ela acrescentou com um olhar inclinado para cima. Web riu de um jeito que não aliviou sua tensão. “Você é rápida, não é? Agora estou ainda mais intrigado.” Aquilo estava indo na direção oposta que ela queria. Ok, uma fêmea superficial e sem interesse saindo. “Eu amei a bolsa da sua namorada,” Denise disse com a quantidade adequada de afetação feminina. “É Versace? Versace é meu favorito. Oh, bem, talvez Gucci também, mas eles não lançaram nada realmente bom ultimamente,


sabe? E oh, você tem que me dizer aonde ela conseguiu aqueles sapatos. Os meus são Escada, mas você sabe, eu realmente acho que devia ter usado Stuart Weitzman ao invés desses. Eles são uma pechincha considerando o preço desses...” Um olhar vidrado desceu ao rosto meio encoberto de Web enquanto Denise continuava a falar sobre a desproporção de diferentes designers, dando suas listas dos melhores e piores para bolsas, sapatos e vestidos. Assim que a música terminou e Spade foi até eles, Web quase a jogou nos braços dele. “Foi um prazer,” ele disse antes de se afastar. Spade virou Denise para que ele ficasse de costas para Web, um sorriso diabólico em sua boca enquanto ele a guiava para o meio dos outros dançarinos. “Aquilo foi brilhante,” ele sussurrou, tão perto do ouvido dela que qualquer observador iria pensar que ele estava apenas a tocando. Ela sorriu, satisfeita com o cumprimento. “Eu nem mesmo tive a chance de falar sobre minhas preferências em jóias,” ela provocou, sua voz também era apenas um sussurro. Spade riu, roçando sua boca no pescoço dela. “Conte pra mim. Eu prometo ficar fascinado.” Denise não pôde evitar o tremor que passou por ela ao sentir os lábios dele na sua pele. É apenas uma atuação, ela se lembrou. Seu corpo discordou. O calor cresceu dentro dela enquanto Spade continuava com sua boca alternando entre roçar ou pairar sobre a pele dela. Uma das mãos dele ainda segurava a dela no estilo próprio da valsa, mas a outra fazia carinho em suas costas ao invés de ficar em sua cintura, a pressionando mais para perto do que a formalidade da dança ditava. Denise pigarreou, atenta a todas as pessoas que poderiam estar assistindo. “Pare, querido. Nós temos convidados, então você não pode ir adiante,” ela disse, ficando se fôlego com a boca dele escorregando do pescoço para sua bochecha. “Oh?” A voz dele era um murmúrio baixinho. “Eu posso se eu te levar lá pra cima.” O aperto instantâneo em seus quadris a fez suspirar. É só uma atuação, droga! “Nós temos convidados,” ela repetiu, sua voz mais rouca do que o teatro mandava. “Eles se viram.” Três palavras, cheias de promessa.


Denise se afastou, forçando um sorriso em seus lábios. Não importa como Spade a estava afetando, as ações dele e essa oferta não eram reais. Spade estava fingindo, assim como atores no mundo todo faziam em cenas de amor em filmes todos os dias. “De verdade, não provoque. Você sabe que nós não podemos sair ainda,” ela disse, dessa vez tentando parecer afetuosa e repreendendo ao mesmo tempo. Apenas como uma namorada normal faria sob tal circunstância. Os olhos de Spade mudaram do marrom tigre para verde em um instante. “Eu nunca provoco,” ele respondeu, enfatizando cada palavra. Então ele a ergueu nos braços, saindo da pista de dança.


CAPÍTULO VINTE E TRÊS. Spade ignorou o sussurro surpreso de Denise para colocá-la no chão. “Eu os agradeço por virem, senhoras e senhores,” ele gritou. “Mesmo que eu me despeça de vocês, por favor, fiquem o tempo que desejarem. Anseio vê-los todos novamente em breve.” Denise sentiu o rosto em brasas enquanto Spade a carregava passando pelas pessoas no salão de baile, de forma tão relaxada como se o que ele estivesse fazendo não fosse escandaloso. Ouvir o riso de alguns dos vampiros por quem passavam também ajudou a aumentar seu constrangimento. Uma coisa era Spade agir de forma carinhosa, outra era carregá-la em público em uma explosão de paixão fingida. O único motivo pelo qual ela parou de argumentar foi que ela viu o olhar especulativo de Web pelo canto do olho enquanto Spade passava por ele. Web era muito perigoso para deixá-lo suspeito. Afinal de contas, Spade tinha matado o vendedor de drogas de Web, Black Jack, apenas alguns dias atrás. Web devia se perguntar quem tinha feito aquilo, e ele já expressava ceticismo em Spade se mudar para a casa ao lado com sua chocante namorada viva. Denise manteve a boca fechada o caminho todo até o terceiro andar. Ela não disse nada quando Spade a carregou para o quarto, chutando a porta para fechar atrás dele. Quando ele a soltou, porém, ela imediatamente o empurrou, lhe dando um olhar irritado enquanto ela atravessava o quarto para ligar a televisão. Alto. “Isso foi a gota d‟água,” ela reclamou, surpresa em ver Spade logo atrás dela quando ela se virou. De alguma forma ele já tinha tirado sua máscara, espada, casaco e estava agora desfazendo o elegante e complicado nó em seu pescoço. Ela engoliu seco. Talvez a fantasia fosse desconfortável? “Eu discordo,” Spade replicou, desfazendo o nó antes de desabotoar sua camisa tão rapidamente que suas mãos eram apenas um borrão. Os olhos dele ainda estavam verde esmeralda, olhando para ela de um jeito que a fez perder o fôlego. Você já o viu tirar a camisa antes, não entenda nada a mais nisso, Denise se censurou, dando um passo para o lado para passar por ele. Ele esticou o braço, apoiando contra a parede e bloqueando seu caminho. Que tipo de jogo ele estava fazendo? “Spade–“


Ela não conseguiu terminar a frase porque de repente, a boca dele estava em seu pescoço, lábios e língua sondando seu pulso para enviar um arrepio maravilhoso através dela. O braço dele permanecia onde estava, uma barreira aberta da qual ela podia escapar, se quisesse. Denise estremeceu, forçando de volta o calor que começou abaixo do seu ventre. “Pare. Eu não sou como você. Esse tipo de coisa mexe comigo mesmo que eu saiba que é falso.” Uma risada baixinha soou em seu ouvido. “É para te afetar,” Spade disse, mordendo gentilmente o lóbulo da orelha dela. “E todas as vezes em que eu te toquei foi real.” Ele tirou a máscara dela enquanto falava, sua outra mão ainda apoiada contra a parede. Ele removeu seus brincos, então tirou os pentes de seu cabelo. Denise congelou, suas emoções em um jogo mortal com o desejo a varrendo. O que tinha mudado na cabeça dela sobre ela, ela não sabia, mas as intenções de Spade eram claras. Ela podia deixá-lo agora, e oh, ela o queria. Seu corpo quase tremendo de necessidade, especialmente com a boca de Spade continuando a explorar caminhos em seu pescoço. Mas não importa o quanto ela o queria, ela estava partindo amanhã. Esse era o presente de despedida de Spade? “Pare,” Denise disse, com a voz calma, mas afiada. “Sim, você está mexendo comigo, mas eu não quero sexo por pena, sexo casual ou apenas uma noite.” Ela esperava raiva, risada ou um dar de ombros antes de ele se virar e sair, mas ao invés disso, Spade tirou a camisa. “Você me ouviu?” Denise perguntou, tentando não olhar para o peito musculoso e pálido, ou aquele estômago firme, esguio com sua linha estreita de pelos pretos desaparecendo dentro de sua calça. Ele arqueou uma sobrancelha antes de se abaixar para tirar as botas. “Eu ouvi sim, mas nada disso se aplica, então não estou preocupado.” Deus, ele ficaria nu logo. A lembrança de como ele era no chuveiro fez os punhos dela cerrarem. Aquela pulsação em seus quadris aumentou muito, Spade tinha que ouvir. Ele estava do lado dela de novo em um piscar de olhos, as mãos dele fazendo carinho em seu rosto, os lábios tão perto dos dela que ela quase podia sentir o gosto deles.


“Não há nada casual sobre meus sentimentos por você, Denise,” ele sussurrou. Sua voz era profunda. “E eu não tenho intenção alguma de te deixar ir embora amanhã, ou depois de amanhã, ou depois.” A boca dele cobriu a dela, cortando seu suspiro quando ele a puxou para si. A língua do Spade experimentava seus lábios em uma exigência sensual, fazendo o calor chamuscar sua espinha. Ela abriu a boca, gemendo aos movimentos sensuais combinados com o sentimento do corpo firme dele pressionado contra o dela. Uma pontada de medo a atingiu quando ela sentiu as prezas dele se alongarem, arranhando sua língua enquanto ele explorava sua boca. E se elas a cortassem e ele fosse tomado por um desejo incontrolável de sangue novamente? Ela nem tinha tentado pará-lo quando ele bebeu do sangue dela daquela outra vez; tinha sido tão bom. Se Spade inadvertidamente derramasse o sangue dela enquanto eles estivessem fazendo amor, ele poderia perder o controle e acabar a matando – e ela provavelmente nem notaria até que acordasse morta. “Espere,” ela disse, afastando a cabeça de seus beijos profundos e viciantes. Ele parou, uma mão ainda enroscada no cabelo dela enquanto que uma linha mais fria em suas costas a deixaram saber que a outra mão estava abrindo o zíper de seu vestido. “Muito rápido?” ele murmurou densamente. O calor abrasador em seu olhar quase fez Denise jogar a precaução aos ventos e não dar voz a sua preocupação, mas era uma questão de vida ou morte. “Suas prezas. Você não pode fazê-las... sumir para que você não me morda acidentalmente?” A risada de Spade era suave e travessa. “Oh, eu tenho muita intenção em te morder, mas não se preocupe; eu não vou romper a sua pele.” “O que?” ela engasgou, mas ele apenas riu novamente. Aquela onda fria aumentou enquanto ele a pegou, seu vestido, de alguma forma, em uma pilha no chão ao lado das calças dele. Denise piscou. Como ele tinha tirado as roupas deles tão rápido? Ela prendeu a respiração quando sentiu a maciez da cama em suas costas logo em seguida. Spade se debruçou sobre ela, completamente nu, tão grande e maravilhoso que ela só conseguia olhar. O corpo dele era muito mais musculoso de perto, os ombros largos o suficiente para cortar sua visão do resto do quarto. Denise passou as mãos pelos braços dele, sentindo os músculos se comprimirem enquanto ele se inclinava para beijá-la de novo. Ela abriu a boca, saboreando a experiente investida da língua dele enquanto ela provocava e acariciava ao longo dela. Os dedos dele escorregaram por seu


braço, pegando a ponta da luva antes de tirá-la, pouco a pouco, até tirar totalmente. Então ele repetiu o movimento com a outra luva. Quando os braços dela estavam despidos, Spade recuou. Seu cabelo caindo em seu rosto, os olhos brilhando entre as mechas enquanto ele beijava lentamente cada um de seus antebraços, passando os lábios e a língua sobre as confusas tatuagens que cobriam as marcas. A sensação erótica da boca dele era o suficiente para fazer com que ela quase fechasse os olhos em êxtase, mas isso cortaria sua visão do homem magnífico sobre ela. Naquele momento, com o olhar brilhante cor de esmeralda, prezas aparecendo de seus dentes superiores, o corpo pálido e poderoso absolutamente imóvel exceto por sua boca carinhosa, Spade nunca pareceu mais inumano–ou sensual. Uma fome selvagem e primitiva a invadiu. Denise não queria só fazer amor com ele. Ela queria devorá-lo. Ela escorregou, puxando ele para cima dela. Spade balanceou seu peso, a pressionando contra a cama sem a esmagar. Ele a beijou, deixando escapar um gemido quando ela abriu as pernas e se esfregou contra o comprimento longo e grosso dele. “Faça isso de novo,” ele falou roucamente. A pressão em seu núcleo a inflamou, enviando ondas de necessidade caindo através dela. Denise arqueou o corpo contra ele mais uma vez, deixando escapar um gemido abafado enquanto Spade ondulava seus quadris. A pélvis dele esfregou novamente em seu clitóris em uma carícia profunda, seu comprimento pesado empurrando contra a barreira de sua calcinha. O que tinha começado como uma doce dor em seus quadris se tornou febril. Ela correu suas mãos pelas costas do Spade até os quadris, cravando suas unhas naqueles músculos arredondados e o pressionando mais perto em uma exigência gananciosa. Denise afastou a boca da dele. “Agora,” ela suspirou irregularmente, arqueando o corpo novamente contra o dele, gritando de prazer com a fricção, mas também em frustração por causa do material que evitava que ele estivesse dentro dela. Spade puxou o sutiã dela pra baixo e ele se abriu em suas mãos. Ele o jogou para o lado, sua boca cobrindo seu mamilo e sugando firmemente, Denise tinha certeza de que as prezas dele iriam furá-lo. Então ela parou de se importar com isso quando um bombardeio de prazer a envolveu, vindo de seus seios, fazendo aquela pulsação dentro dela quase insuportável. Ela se torceu debaixo dele, com a mão se movendo entre eles para puxar a calcinha de lado, mas Spade pegou sua mão. Ele ergueu os dois pulsos dela acima da cabeça,


segurando-os com uma mão, usando a outra pra puxar sua calcinha pelas pernas bem devagar, Denise estava suando quando elas chegaram aos tornozelos. “Não me provoque,” ela lamentou. Spade deu uma lambida no seio dela antes de subir para tomar sua boca com a dele, afastando as pernas dela com seus joelhos. “Eu te disse, querida – eu não provoco,” ele disse, Denise ficou com a respiração ofegante depois do beijo longo e apaixonado. O suspiro se transformou em um gemido quando a boca de Spade desceu para o meio de suas pernas. A língua dele esfregou em sua carne, lambendo e experimentando o lugar onde aquela dor latejante era mais forte. O calor a envolveu, enchendo suas veias com chamas de mel enquanto a pressão molhada e flexível alternava entre estimular seu clitóris e penetrá-la. Ela arqueou o corpo, se contorcendo em uma exigência sem palavras para sentir mais. Spade a puxou para mais perto com força, colocando a perna dela ao redor de suas costas, sua língua se movendo em firmes e incessantes investidas. As ondas de êxtase dentro dela estavam para explodir. Como seu último pensamento coerente, Denise afundou as mãos nos ombros de Spade e o puxou, com força, deslizando para baixo ao mesmo tempo. “Agora,” ela quase gritou. No mesmo instante ele estava sobre ela, sua boca lhe tirando o fôlego com o beijo com seu gosto, as mãos dele segurando sua coxa enquanto ele abaixava o quadril. A primeira penetração fez com que seu interior se contraísse com um prazer quase dolorido. A segunda, mais profunda a fez gemer com o sentimento contínuo de seu interior sendo alargado. A terceira a queimou totalmente por dentro, e quando ele ondulou sua pélvis contra ela ao mesmo tempo, estar completa combinado à pressão erótica fez o prazer a queimar por dentro. Denise gritou com o clímax tomando conta dela, enviando contrações arrebatadoras em sua intimidade. Outra investida profunda do corpo de Spade intensificou aquelas ondas, as prolongando enquanto aquela dor faminta dentro dela mudava para doce e apaixonada satisfação. Ela não percebeu que tinha fechado os olhos até abri-los e ver o brilho verde dos olhos de Spade. O cabelo dele caia ao redor de seu rosto em ondas negras e sua expressão era de absoluto desejo enquanto ele observava os últimos tremores de orgasmo a sacudirem.


“Eu quero sentir isso de novo,” ele disse, com o tom sombrio ressonante. Denise escorregou as mãos pelas costas dele para se emaranharem com o cabelo dele. “Você primeiro.” Os lábios dele se curvaram em um sorriso enquanto ele lentamente saia de dentro dela. “Eu amo sua voz desse jeito,” ele murmurou, beijando sua mandíbula enquanto as terminações nervosas tremiam de antecipação daquele órgão grosso e comprido entrando nela de novo. “Um ronronar rouco, tão atraente... diga mais alguma coisa.” Enquanto ele falava, ele a penetrou, uma penetração longa e lenta que a fez gemer ao invés de falar. Assim como antes, os quadris dele se flexionaram bem quando ele estava bem fundo dentro dela, se esfregando contra seu ponto mais sensível enquanto que o sentimento daquela plenitude era quase devastador. “Spade... sim...” Ela não conseguiu dizer mais nada, nem ao menos pensar em mais nada. As mãos dela deslizaram pelas costas dele, sentindo seus músculos se dobrarem enquanto outra penetração e movimento dos quadris dele fizeram sua mente adormecer e seu corpo ganhar vida. Ela dobrou as pernas em volta dele, respirando profundamente enquanto ele se movia mais fundo, querendo mais apesar de ela não ter certeza de que poderia aguentar. “Ah, querida, você está me queimando do modo mais doce,” ele murmurou, enganchando o joelho dela debaixo de seu braço para abraçar a parte de baixo do corpo dela para mais perto dele. Outra penetração a fez fechar os olhos com a pressão se formando dentro dela, retornando com incrível rapidez ao ficar vazia novamente. A combinação daquelas penetrações profundas e da massagem erótica em seu clitóris a fez se agarrar a Spade em uma necessidade cega. Ele a beijou, tomando sua boca com a mesma paixão que fez ela se agarrar a ele. Denise escorregou a língua entre as prezas dele para sugar a dele, consumida pelo sabor e a sensação dele. Os braços dele era uma gaiola pálida ao redor dela, o peso dele a imobilizando contra o colchão, os quadris impulsionando um incrível prazer com cada investida. Ela começou a gemer baixinho, suas mãos alternando entre apertar a alisar as costas dele. O ritmo forte dentro dela era demais, não o suficiente, e tão bom ao mesmo tempo. “Por favor,” ela gemeu contra a boca dele.


Spade se afastou, enganchando seu outro joelho debaixo de seu braço e segurando os dois em um aperto firme. Ele se posicionou de forma que erguesse os quadris dela, e quando ele investiu contra ela, seu membro duro entrou mais profundamente nela. Ela gritou, o preenchimento tão intenso, mas viciante, a esfregação sensual quase constante nessa posição. Ela não podia alcançar a boca dele, mas o peito dele roçava seus lábios. Denise o beijou, saboreando a firmeza e os músculos se movendo debaixo daquela pele pálida e macia. Ela pegou seu mamilo na boca, sugando, se excitando ainda mais com o gemido dele em resposta. Aquelas fortes penetrações dentro dela aumentavam o ritmo, a incendiando. Ela sugou mais forte, beliscando o outro mamilo. Ele a apertou com mais força. “Mais.” Um comando rouco interrompido por um forte movimento de quadris que quase a fizeram ver estrelas. Denise dividiu sua atenção entre os mamilos dele, sugando, lambendo e mordendo cada um deles. Sua mente começou a rodopiar enquanto Spade continuava aumentando o ritmo de suas investidas. O prazer estreitou sua consciência até ela sentir que o mundo consistia de nada exceto essa cama e os dois. Aquela tensão interna continuou crescendo, torcendo e apertando o corpo dela com mais força em volta dele enquanto seu coração parecia bater fora de controle. “Goze comigo, goze comigo agora,” ela gemeu, sentindo o prazer prestes a explodir dentro dela. Tudo se inverteu no segundo seguinte, então ela estava em cima de Spade. Ele ainda estava dentro dela, e quando ela se pressionou contra ele, ele se moveu com penetrações rápidas e fortes que a fizeram inclinar o corpo para trás em êxtase. Spade se sentou, um braço pressionando o quadril dela contra o dele, o outro a movendo. Sua boca se fechou no seio dela, o beijando antes de pegar o mamilo entre seus dentes e mordê-lo. Denise teria gritado uma advertência, mas ela não conseguia pensar. Ela nem estava mais controlando o ritmo deles. Mesmo ela estando em cima, Spade a tinha presa em um abraço sensual enquanto ele se movia mais rápido e de forma mais erótica do que qualquer humano poderia. Ela se agarrou aos braços dele, jogou a cabeça pra trás, perdida em sensações se espalhando desde sua intimidade por todo seu corpo. O prazer interno se rompeu pouco antes de ela ouvir Spade dar um urro gutural. Então outro tremor poderoso se misturou com os espasmos internos ecoando através dela. Denise se agarrou a ele, tremendo com os resquícios de seu orgasmo e o pulsar contínuo do dele.


CAPÍTULO VINTE E QUATRO. Spade estava deitado de costas, Denise dormindo entre seus braços. Seu perfume de mel com jasmim misturado com o dele, criando uma fragrância luxuriante e almiscarada que ele ocasionalmente inalava. Esse era o cheiro deles, acentuado pela paixão, e com cada inalada, ele o saboreava. Ela é realmente minha agora. A possessividade que ele sentia não tinha nada a ver com ser um vampiro. Sim, sob as leis dos vampiros, Denise era dele no momento que ele a mordeu, se ele escolhesse a reivindicar como tal. Mas isso era diferente. Era o tipo de emoção que se sente até o osso que o fazia querer abraçá-la forte com uma mão – e empunhar uma espada contra o mundo com a outra. Isso também o fazia querer acordá-la para que ele pudesse tê-la de novo, embora ele soubesse que ela precisava de mais do que as 5 horas de sono que tinham sido o suficiente para ele. Ele observou a respiração regular dela, que faziam os seios subirem e descerem, o colar de diamantes e ametistas ainda brilhando entre eles. Denise tinha puxado as cobertas até a cintura, mas Spade não precisou. Não com o calor latente do corpo dela ao lado do seu. A lembrança de como foi incrível estar dentro dela fez Spade rolar para o lado a encarando. Talvez ele a acordasse, a tivesse só mais uma vez, e então a deixaria dormir novamente... Sons de um carro parando em sua entrada o fez pular em alerta. Todos os convidados tinham ido embora, então não poderia ser um chofer atrasado buscando um festeiro retardatário, e ele não estava esperando ninguém. Ele saiu da cama se perturbar Denise, enfiando as calças e camisa da noite anterior. A espada ele colocou na presilha do cinto no caso de ser um ghoul não convidado, mas o resto das facas que ele agarrou eram de prata. Então o carro parou e a porta bateu. Spade sentiu ondas de poder emanando do exterior da casa, aumentando em crescentes correntes que faziam com que a identidade da pessoa do lado de fora ser um vampiro Mestre. Um poder que ele reconhecia muito bem. “Inferno maldito!” Spade resmungou, largando as facas e espada. Ele já estava descendo o último lance de escadas quando Alten abriu a porta. “Bones,” Alten disse, com surpresa em sua voz. Crispin o viu circulando o corrimão e sua sobrancelha se ergueu. “Vai me convidar pra entrar, Charles?” ele perguntou.


Mesmo que o poder emanando dele fosse familiar, o cheiro fosse familiar, e a expressão irritada no rosto de Crispin fosse mais do que familiar, Spade parou. Hotéis e outros lugares públicos podem ser um jogo justo, mas um demônio não poderia entrar em uma casa a menos que fosse convidado. Será que Raum, de alguma forma, os tinha encontrado, e melhorado imensamente seu disfarce? “Criador?” Alten perguntou, dividindo o olhar entre eles. “Você chegou sem convite, você pode passar por essa porta sem convite,” Spade replicou, ficando tenso. Crispin bufou em descrença enquanto passava por Alten. Um pouco da rigidez aliviou em Spade quando viu seu amigo facilmente transpor a entrada. “Se nós não fossemos amigos por mais de 2 séculos, eu estaria tentado a chutar o seu traseiro,” Crispin disse. “O que deu em você, Charles?” “Chegou aqui bem rápido, não foi?” Spade disse, andando em direção a sala de estar menos formal na parte de trás da casa. Ele não olhou pra trás para ver se Crispin o seguia; ele tinha vindo até aqui, ele não iria parar agora. “Se você está tentando se esconder, você fez um péssimo trabalho organizando uma grande festa em seu nome,” Crispin replicou. “As notícias correm, especialmente notícias de que você está se mudando pra cá com sua nova amante humana.” “Uísque?” Spade perguntou, ignorando aquilo. “Claro.” Spade encheu um copo de cristal com a garrafa ornamentada da sala de estar, entregando a Crispin. Seu amigo o pegou, ainda o olhando com aquela irritação e confusão, mas pelo menos ele tinha vindo sozinho. Cat teria subido as escadas como um raio para procurar em cada quarto por Denise, como a mulher impaciente que ela era. “Sente-se,” Spade disse, indicando o sofá. Se ele fosse qualquer outro, ele sabia que Crispin recusaria. Talvez sacasse uma arma e exigisse o que quer que fosse que ele queria, mas Crispin se sentou no sofá de forma tão indiferente como se ele tivesse chegado apenas para relaxar. “Você está com o cheiro de Denise,” ele observou em tom de conversa. A boca de Spade se apertou. “Isso não é da sua conta.”


“Eu estou cansado de você me dizendo isso,” Crispin disse, com o tom afiado. “Podemos parar com o fingimento e ir direto ao motivo de você ter pego a melhor amiga da minha esposa pelas minhas costas? Em que tipo de problema Denise está, e por que você não me contou quando descobriu?” Crispin era muito esperto para seu próprio bem, mas Spade fez uma última tentativa de ser evasivo. “O que faz você achar que Denise está comigo por razões suspeitas? Ela é uma mulher bonita, eu sou um cara atraente o suficiente, nós nos demos...” Spade terminou a frase com um encolher de ombros. “Besteira,” Crispin disse, os olhos castanhos se estreitando. “Nós dois sabemos que você evita relacionamentos com mulheres humanas, e nós dois sabemos que um demônio esteve na casa de Denise antes dela aparecer do seu lado de repente como uma amante devota.” Crispin deve ter ido na casa dela e sentido o cheiro de Raum lá. Maldito homem era esperto demais para o seu próprio bem. “Sem mencionar que Denise decidiu se afastar de todas as coisas relacionadas a vampiros da última vez que estive com ela,” Crispin continuou. “Eu ouvi nos pensamentos dela. Então mesmo que um demônio tenha passado para dizer oi e nada mais tenha acontecido, Denise não está com você por um repentino desejo de se juntar ao posto de vampiros, então por que você não para com essa merda e me diz o que está acontecendo. Se você não disser, eu vou ler na mente dela no momento em que eu a ver.” Maldita nova habilidade telepática de Crispin. Ele realmente podia pegar todos os detalhes da mente de Denise assim que ela acordasse. “Antes que eu te diga alguma coisa, eu devo lhe informar que quais quer que fossem as razões iniciais dela por me procurar, as coisas são sérias entre Denise e eu,” Spade disse. Então sua voz endureceu. “Você não vai sair daqui com ela, Crispin, a menos que seja sobre meu cadáver seco e murcho.” As duas sobrancelhas de seu amigo se ergueram, então Crispin soltou uma gargalhada espantada. “Pelas bolas de Lúcifer, é por isso que você está agindo como um doido! Você se apaixonou por ela. Que inferno, se eu não visse com meus próprios olhos eu não acreditaria. No momento seguinte Crispin estava fora do sofá, dando batidinhas nas costas dele. “Isso é motivo de celebração! E um alívio pra mim também. Eu tive que forçar minha esposa a me deixar falar com você sozinho. Ela temia que Denise


estivesse se enfiado em algum problema e que você a estivesse mantendo contra a vontade dela.” Spade ficou momentaneamente sem fala. Era tão óbvio como ele se sentia em relação a Denise, ou Crispin apenas o conhecia bem demais? “Eu também estou muito satisfeito por Denise,” Crispin continuou, seu sorriso desaparecendo um pouco. “Ela estava despedaçada depois da morte de Randy, e então seu aborto–“ “Aborto?” Spade interrompeu, agarrando os ombros de Crispin. O sorriso desapareceu completamente do rosto de seu amigo. “Ela não te disse? Denise sofreu um aborto poucas semanas após Randy ser morto. Os médicos o associaram a tristeza e ao stress. Mais tarde, ela se mudou da minha casa e eu escutei em seus pensamentos que ela pretendia deixar o nosso mundo de lado. Ela parou de ligar para minha esposa ou de retornar suas ligações nos meses seguintes, então eu imaginei que ela tinha rompido totalmente conosco. Spade fechou os olhos. Denise não só se sente culpada por sua ligação com vampiros pela morte de seu marido; ela sente por seu filho não nascido também. “Não, ela não me disse.” Denise gostava dele, sim, mas com tal perda, ela estaria disposta a abrir mão de sua chance de ser mãe para sempre por ele? Vampiros não podiam engravidar humanos. Cat tinha sido a mais rara casualidade como mestiça, e mesmo assim, o pai dela era um imortal por apenas alguns dias. Não séculos, como Spade era. Crispin deve ter lido algo em seu rosto também. “Denise sente o mesmo por você?” Spade abriu os olhos. “Eu não sei.” ___ Denise se espreguiçou, virando de lado. Ninguém estava no outro lado da cama, mas então seus olhos se arregalaram quando ela lembrou que dessa vez era pra alguém estar. Ela se sentou, olhando ao redor do quarto. Ele era grande, sim, mas com uma olhada ela soube que Spade não estava lá. Não é incomum ele estar de pé antes de você, ela se lembrou, para encobrir aquele tremor de nervosismo em seu estômago. Quando tempo será que ele


ficou? Uma voz interior perguntou. Até onde você sabe, ele saiu logo depois que você adormeceu. Ela olhou para a cama. As cobertas não estavam bagunçadas onde Spade teria dormido. Seu estômago pesou. Talvez Spade tivesse saído logo depois. Talvez ela tivesse interpretado mal o que ele disse na noite passada sobre isso não ser casual. Ou talvez ela estivesse sendo uma idiota e Spade tinha apenas dormido sem fazer bagunça do lado dele da cama e agora estava indo buscar o café da manhã. Esperança duelando com insegurança. Ela nunca tinha lidado com essa situação, potencialmente esquisita de manhã seguinte, antes. Com Randy, o único homem com quem ela foi pra cama rápido assim, ela sabia antes como ele se sentia. Os outros 3 caras, ela namorou por algum tempo antes do sexo aparecer na jogada, então parâmetros de relacionamento já tinham sido firmemente estabelecidos. Spade tinha dito que seus sentimentos não eram casuais, mas na cruel luz do dia, aquilo podia significar muitas coisas, e um relacionamento não era necessariamente uma delas. Bom, uma coisa que ela não iria fazer era sentar na cama e esperar até Spade voltar. Denise se levantou e foi para o banheiro. Qualquer situação era encarada melhor com uma bexiga vazia, um corpo limpo e sem o hálito da manhã. Depois de Denise sair do banheiro 20 minutos mais tarde, porém, a visão que seus olhos encontraram vez o coração dela se torcer. Spade estava no quarto, inteiramente vestido, sentado no sofá, e ele não estava sozinho. Quando o olhar de Bones encontrou com o dela, Denise quase rompeu em lágrimas. Spade tinha ligado para ele vir buscá-la. Ele até arranjou tudo para que Bones estivesse aqui quando ela acordasse, então não haveria uma cena. Deus, a noite passada tinha sido uma transa de uma só noite por piedade. “Denise–“ Spade começou. “Não,” ela o cortou, erguendo a mão. “Poupe-me. Apenas me dê alguns minutos, Bones, e então eu estarei pronta pra partir.” Ela não estava mais olhando para Spade, mas o rosto do Bones registrou espanto. “Você quer partir comigo?” “Eu te disse, ela não vai a lugar algum,” Spade rangeu os dentes. Então foi impossível para Denise ignorá-lo, porque ele estava bem na frente dela, segurando os braços dela. “Que diabos deu em você?”


Ela riu com isso, um som alto e desconsolado. “Que diabo? Oh, boa, Spade. Ha ha! Bom, não é nada que você precise se preocupar mais, não é? Obrigada pelo seu tempo. Todo o seu tempo, mas realmente, a transa de despedida era desnecessária. Um vibrador pode durar a noite toda também, vampiro.” Bones pigarreou companheiro?”

discretamente.

“Precisa

de

um

momento

a

sós,

“Parece que sim,” Spade respondeu com um tom gelado, seus olhos brilhando cor de esmeralda. “Não,” Denise disse afiada quando Bones se levantou. “Eu tenho certeza de que você irá contar a ele tudo sobre isso de qualquer forma, Spade. Mas então, quando Cat te encontrar, eu espero que ela enfie algo de prata em você onde o sol não brilha!” O aperto de Spade diminuiu. “Você acha que eu liguei para Crispin vir te buscar. É por isso que você está agindo desse jeito.” “Por que mais ele está aqui de repente?” Denise exigiu, horrorizada por sentir lágrimas nos olhos. Spade se inclinou para bem perto, suas mãos agora acariciando o rosto dela. “Eu não liguei pra ele, eu juro. Ele apareceu sem ser convidado, mas isso não importa. Eu já te disse antes, você não vai a lugar algum. Você vai ficar comigo, que é o seu lugar.” Ele a beijou, de forma lenta e penetrante, até as lágrimas secarem em seus olhos e o calor se espalhar por ela. Mesmo assim, aquele calor foi seguido de medo. Os sentimentos dela por Spade não eram apenas uma combinação de luxúria, gratidão e amizade. Ela tinha se apaixonado por ele. Perdidamente. Aquilo estava mais do que provado pela sua reação fora de controle quando ela pensou que ele tinha ligado para Bones para levá-la. As emoções estavam acima de sua cabeça, e ela não tinha certeza de estar pronta. “Colega, o que você tem nos seus braços?” uma voz surpresa perguntou. Denise congelou. Spade se afastou, revelando que Bones estava bem atrás deles. Ele encarava os braços nus dela, revelados quando as mangas do roupão caíram pra trás quando ela enlaçou os braços ao redor do pescoço de Spade. “Televisão,” Spade disse. Bones atravessou o quarto e ligou a televisão, ainda com o volume alto da noite anterior. Então Bones voltou e estendeu a mão.


Denise olhou para Spade. Ele assentiu e ela colocou a mão no aperto frio da mão de Bones, com a palma pra cima. Bones olhou as tatuagens mais de perto, então um assobio suave escapou dele. “Marcas.” Uma palavra, quase inaudível para Denise com o volume alto da TV, mesmo que Bones estivesse a um passo de distância. Ele pegou sua outra mão e sua carranca se aprofundou. “Você não devia ter escondido isso de mim, Charles. Ou você,” Bones acrescentou para Denise. “Companheiro,” Spade disse calmamente. “Você não sabe nem a metade disso.” Denise ficou tensa quando Spade pegou uma faca na penteadeira atrás dele. Ela sabia o que ele pretendia, e não foi a pequena pontada de dor que a fez tremer quando ele apertou a ponta da faca na palma de sua mão. Então Spade colocou uma única gota no dedo e ofereceu ao Bones. “Não diga uma palavra,“ Spade ordenou em um tom sombrio. Com uma sobrancelha levantada, Bones pegou o dedo do seu amigo e colocou na boca. Imediatamente seus olhos mudaram para verdes e ele pulou pra trás, batendo na mão de Spade. “Cristo Todo-Poderoso!” “Não diga isso,”Spade disse, com mais veemência. O olhar que Bones deu a Denise fez seu sangue estragado gelar. O olhar era de choque, cálculo... e de pena. “Inferno Sangrento,” foi tudo que ele disse. Denise não pôde evitar a risada irônica. “Sim. É exatamente isso.”


CAPÍTULO VINTE E CINCO. Spade apertou os olhos, sob a tarde ensolarada, para poder olhar melhor o barco que vinha na direção deles. Ele pôde ver cabelos longos e vermelhos visíveis na proa, então relaxou. Cat e Crispin. A presença de Crispin combinada com o poder que Spade sentiu no Web na noite passada, mais os vários vampiros Mestre que Web trouxe com ele, influenciaram o Spade a deixar o Crispin saber o que tinha no sangue de Denise. Mesmo assim, Spade não confiava discutir esse assunto em algum lugar onde pudesse ser ouvido “sem querer”, o que quer dizer, por toda Mônaco. Quem poderia saber quantos do pessoal de Web espreitavam por ai, procurando fofoca para reportar a ele? Mas aqui no Mediterrâneo, com música alta tocando e mais de uma milha separando seu barco de outro, era tão seguro quando poderia ser. Denise veio do convés, o olhar dela passando pela camisa sem mangas dele. “Você precisa de mais protetor solar de novo.” “Procurando por uma desculpa para me acariciar?” ele provocou. “Não precisa, querida. Eu quero que você me acaricie.” Ela sorriu enquanto se aproximava. “Por que eu procuraria por alguma desculpa para te tocar? Você tem o corpo mais incrível que eu já vi.” Ele estava satisfeito que o físico, que tinha sido congelado permanentemente, que tinha adquirido enquanto trabalhava nos campos como condenado era agradável para ela. Já que, no passado, sua estrutura magra e musculosa era considerada estigma das classes mais baixas, mas os tempos mudaram e Denise era uma mulher moderna. “Você sabe,” Denise disse, espalhando mais protetor solar nos braços e ombros dele, “se Web realmente tiver pessoas nos monitorando, ele não vai acreditar que estamos aqui porque você teve uma vontade repentina de se bronzear.” As mãos dela eram tão macias e até mais quentes do que o sol com aquela brisa fresca. “Vampiros não se bronzeiam. Sem proteção UV, nós nos queimamos, saramos, e repetimos o processo continuamente. Ela olhou pra ele com ar pensativo. “Então Web vai saber que você está tramando alguma coisa.”


“Ele vai suspeitar disso,” Spade concordou. “Mas ele não vai saber o que, e fazer uma viagem de barco é menos suspeito do que sair da cidade abruptamente.” “Eu não sei porque você contou ao Bones depois que nós dois decidimos mantê-lo fora disso,” ela murmurou. Spade colocou o frasco de protetor solar de lado e a enlaçou com os braços. “Crispin sabia que um demônio esteve em sua casa. Ele sabia que você estava evitando o mundo dos vampiros e ele sabia que eu normalmente não me envolvo com humanos. Uma vez que ele me encontrou, ele não iria parar de cavar até que eu lhe contasse a verdade – e nós podemos precisar da ajuda dele.” Denise respirou fundo, seu cheiro sendo apimentado com ansiedade. “Você não tem intenção em desistir de procurar por Nathanial, tem?” “Não,” ele disse suavemente. “Não importa que eu esconda, de forma sucedida, você e sua família de Raum, enquanto essas marcas alterarem seu sangue para o que ele é agora, você não está segura, e eu não vou aceitar isso.” Ele pode sentir ela ranger os dentes contra seu peito. “Eu não vou deixar você ser morto por minha causa,” Denise disse. “Eu não tenho intenção de ser morto. Eu nunca tive tantos motivos para viver.” Spade se afastou para olhar nos olhos, tentado a dizer para Denise exatamente como ele se sentia em relação a ela, mas ele se conteve. O barco de Crispin estaria aqui em minutos. Ele preferia não se declarar e imediatamente ter que mudar de assunto, principalmente se ela correspondesse aos seus sentimentos. Não, esse não era o momento apropriado. Denise viu o barco se aproximando e suspirou. “Lá está Cat. Uau, eu não a vejo faz meses.” A lancha parou ao lado deles momentos depois. Cat tinha um sorriso enorme no rosto quando ela saltou para o barco deles, sem esperar Crispin amarrar as cordas. “Denise!” ela exclamou, a agarrando em um abraço. Denise parecia surpresa com o cumprimento de Cat. “Eu pensei que você estivesse brava comigo,” ela disse com a voz sufocada tanto de emoção ou por Cat esquecer de sua força e a apertar muito forte.


“Claro que não.” Cat deu outro abraço apertado em Denise e então os olhos acinzentados fulminaram Spade. “Eu estou brava com você,” ela disse claramente. Crispin chamou a atenção de Spade e deu de ombros, como se dissesse, O que você esperava? “Não fique brava com Spade, eu o fiz prometer não contar a vocês, pessoal,” Denise disse prontamente. Então seus olhos castanhos brilharam. “Eu realmente senti sua falta, Cat. Eu sei que é minha culpa, mas...” “Não.” Cat a abraçou novamente. “Eu entendo, acredite em mim,” ela suspirou. Uma aparição nebulosa surgiu sobre o ombro de Cat, ficando mais sólida até alcançar a forma translúcida de um homem aparentando uns 40 anos. “Fabian,” Spade cumprimentou o fantasma que Cat tinha, de certo modo, adotado. “Como vai?” “Ugh,” o fantasma respondeu, tremendo. “Eu odeio viajar sobre a água. Não tem nada pra me segurar.” Denise olhos ao redor. “Com quem você está falando, Spade?” “É meu amigo Fabian, mas, hum, você não o pode ver porque ele é um fantasma,” Cat explicou em tom de desculpas. Denise olhou ao redor mesmo assim, com os olhos arregalados. Spade se divertiu com aquilo até que outra cabeleira vermelha chamou sua atenção como sendo uma terceira pessoa vindo da lancha. “Olá, companheiro,” Ian disse, dando um aceno animado para o Spade. Spade sentiu um sorriso esticar nos lábios. “Ian!” ele exclamou com uma voz igualmente animada. Então ele pulou para o outro barco e o esmurrou com força suficiente para lançar Ian ao mar. Denise arfou. Cat escondeu um sorriso. Crispin apenas revirou os olhos. “Isso era necessário?” “Certamente era,” Spade respondeu friamente. Ian boiou, parecendo nem um pouco surpreso. “Tudo bem, você colocou tudo pra fora. Posso voltar para o barco sem você me bater de novo? Ou eu devo ficar aqui e aproveitar a vida marinha?” “Por que você não nada por ai até encontrar um tubarão? Então você pode discutir o quanto vocês dois tem em comum,” Spade revidou. “Ele só estava preocupado com você,” Crispin disse.


“Realmente? Então ele poderia ter criado consciência ao quebrar a confiança de alguém,” Spade respondeu brevemente. Ian nadou para a borda do outro barco, evitando a lancha onde Spade ainda estava. Seus lábios se curvaram quando ele viu Ian saltar para o lado de Crispin, Cat e Denise. Você pode se esconder atrás deles, mas eu ainda vou te pegar. O fantasma, sabiamente, se moveu para o lado. Ian olhou ao redor antes de falar. “Você estava agindo como um louco, Charles. Desejando uma humana, mordendo qualquer um que a olhasse torto. Sussurrando sobre chantagem e marcas. Procurando por Dragão Vermelho. Matando a pessoa que eu te disse que o vendia – sim, eu ouvi que Black Jack acabou sendo assassinado. Por que diabos eu não iria me preocupar?” “Então você deveria ter vindo a mim,” Spade falou por entre os dentes, julgando se ele poderia empurrar Crispin para longe de Ian sem que Denise fosse atingida no processo. Ian deu um olhar incomensurável a Spade. “Eu fui. Você se recusou a confiar em mim.” “Por uma boa razão, caso contrário Crispin não estaria aqui,” Spade bufou com descrença. “Hum, rapazes...” Cat começou. “Eu sei que sou um bastardo podre, mas há quatro pessoas no mundo a quem eu nunca iria desejar mal algum, mesmo que custasse a minha própria vida,” Ian disse, com a voz firme e olhar cor de turquesa claro. “Dois deles estão aqui, e mesmo assim nenhum deles confia em mim. Acredite, até mesmo um cara sem compaixão como eu pode ser magoado por isso.” “Mesmo assim você mente, Ian, e você manipula, até mesmo nós dois,” Crispin disse baixinho. “Coisas pequenas e insignificantes. Nunca sobre alguma coisa que poderia significar a vida de vocês. Caramba, Crispin, você me humilhou na frente da Cat, e eu busquei vingança? Não. Eu me meti em uma maldita guerra por você menos de um ano depois. Eu sou o que sou, mas não me rotule pelo que não sou quando se trata de qualquer um de vocês.” “Você sabe que eu não gosto do cara, mas ele tem razão,” Cat disse, balançando a cabeça. “Ele estava lá pelo Bones quando eu nunca pensei que ele estaria, e aquilo quase acabou o matando algumas vezes.” “Muito obrigado pelo elogio, Reaper,” Ian respondeu em um tom sarcástico.


Spade lembrou de sua longa história com Ian. Foi cheio de espinhos desde o primeiro encontro deles no navio de condenados até quando Ian o fez ser transformado em vampiro chamando aquilo de favor, mesmo Spade não querendo. Nos séculos seguintes, houveram outros incontáveis incidentes onde Ian era propenso a morder a mão que Spade estendia a ele, mas sempre que as coisas eram realmente terríveis... Ian não o havia traído. Ele estava certo sobre isso. Denise chamou a atenção dele. “Se você insiste que a gente continue indo atrás de Nathanial, nós vamos precisar de toda ajuda que pudermos conseguir,” ela disse. Spade olhou Ian de forma calculada. “Se você me trair no que eu estou pra te contar, certamente vai me fazer ser morto. E se não fizer, eu vou te encontrar e te matar.” Ian deu de ombros. “Termos aceitáveis, amigo.” Spade olhou novamente para Denise. O cabelo castanho misturado com as mechas vermelhas de Cat ao vento, e por um segundo, ver aquele lampejo de vermelho no rosto de Denise trouxe a lembrança da imagem sem vida de Giselda, ensopada de sangue. Denise não, ele prometeu a si mesmo. Não dessa vez. “A fonte da indústria de Dragão Vermelho de Web provavelmente é um cara marcado pelo demônio chamado Nathanial. Eu vou roubar Nathanial de Web para devolvê-lo ao demônio que o marcou, e eu preciso fazer isso antes que alguém perceba que Denise é também uma fonte agora.” ___ Denise tentou não pensar sobre a última vez que ela esteve em uma casa com Spade e Cat em circunstâncias perigosas – sem mencionar que agora havia um fantasma aqui também. Ela já estava agitada o suficiente sem aquelas lembranças terríveis fazerem disso um ataque de DSPT. Pela milésima vez ela olhou para o relógio. Quase 2 da manhã. O que estava segurando Ian? Ou Bones? “Você quer alguma coisa para comer?” Spade perguntou, apertando a mão dela. Seu estômago emitiu um ruído em afirmação, mas de tão tensa que ela estava, Denise temia que se ela comesse alguma coisa, poderia vomitar. “Não, estou bem.” Cat estava visivelmente ligada também. Ela queria ir com Bones, mas ele disse que era melhor se ela ficasse. Não porque ele estava preocupado com ela,


mas a visão de Cat poderia levantar muitas suspeitas. Sozinho, com seu poder camuflado, ele tinha a chance de não ser reconhecido enquanto ele vasculhava as ruas procurando as propriedades de Web. Com Cat, as chances diminuíam. E Cat não podia ler mentes como Bones podia para saber se Ian estava em perigo enquanto batia na casa de Web sob o pretexto de estar na vizinhança. Era plausível que Ian tivesse vindo a Mônaco para ver Spade, e Ian conhecia Web de alguns negócios duvidosos no passado. Denise questionou a sabedoria de Ian fazendo o reconhecimento da casa de Web, mas ele desconsiderou isso. “Web sabe que sou um canalha,” Ian disse com um sorriso torto. “Ele não vai achar nada de eu perguntar por substâncias ilegais, enquanto que Charles ou Crispin o deixariam bem nervoso. Mas quem iria me confundir com um homem respeitável?” Ele tinha um bom argumento. “Tenho que admitir que estou ficando com fome,” Cat comentou, se levantando para caminhar. “Oh, Spade tem uma tonelada de comida que sobrou da festa,” Denise disse, parando ao ver o olhar que Cat lhe deu. “O que?” “Droga, eu esqueci que você não sabe...” Cat começou. “O que?” Denise perguntou com mais ênfase. Os olhos acinzentados de Cat ficaram verdes. Aquilo não era nada incomum; era uma marca do seu lado meio vampira que Denise já tinha visto várias vezes. Mas então Cat abriu a boca com um sorriso envergonhado para revelar duas presas superiores que nunca estiveram lá antes. “Puta merda,” Denise sussurrou. “Você fez isso. Você realmente fez isso.” “Há alguns meses atrás,” Cat disse, com as presas retraindo até que os dentes normais aparecessem novamente. “No começo as coisas estavam muito loucas para eu te contar, mas então...” Denise desviou o olhar. É. Então ela não estava aceitando as ligações de Cat. “Sinto muito,” ela murmurou. “Está tudo bem, eu sabia que você precisava de tempo,” Cat respondeu suavemente. Ela lançou um olhar duro ao Spade. “É melhor você ser bom com ela.” “Ou você vai me enfiar alguma coisa de prata no lugar onde o sol não brilha?” Spade perguntou, sorrindo para Denise.


Ela desviou o olhar em constrangimento sobre a ameaça que ela atirou nele nessa manhã, mas Cat assentiu. “Pode apostar, camarada.” “O mesmo para você com Crispin, Reaper,” Spade replicou com um tom suave. Denise sufocou um riso. Como se o cavalheirismo de Spade o permitisse fazer alguma coisa a uma mulher. A punição mais dura que ela poderia imaginar ele aplicando a Cat seria se recusar a abrir a porta para ela. “Shh,” Spade disse de repente. Os olhos estreitando. “Eu escutei alguma coisa.” Denise apurou a audição, mas não escutou nada. Cat inclinou a cabeça e então olhou para Spade com um olhar incrédulo. “É alguém cantando?” Spade bufou. “Parece que sim.” Para frustração de Denise, ela ainda não conseguia ouvir nada. Mais uma vez ela amaldiçoou suas marcas por não lhe darem alguma habilidade útil. Finalmente, depois de exatos 5 minutos, ela ouviu o som vindo do lado de fora. “...Eu sou o próprio modelo de um moderno Major-General*...” *A música “The Major-General” é uma música tamborilada da ópera cômica “Os Piratas de Penzance”, de Gilbert e Sullivan, em 1879. Talvez seja uma das músicas mais famosas das óperas de Gilbert e Sullivan. É cantada pelo MajorGeneral Stanley em sua primeira aparição quase ao fim do primeiro ato da peça. A voz de Ian alta e em bom tom. Denise piscou. “Isso é um código?” Spade balançou a cabeça com desgosto. “Não. É Piratas de Penzance.” Bones silenciosamente entrou pela porta um instante depois, a assustando. “Ele está tão chapado que mal pode andar,” ele anunciou. Denise sabia o suficiente de gírias para saber que aquilo não significava que Ian estava mal, e que havia apenas uma coisa que poderia inebriar um vampiro. Será que Nathanial estava na casa de Web? Ou Ian tinha bebido o Dragão Vermelho de um frasco, do jeito que Blck Jack o distribuía? “Eu sou muito bom em cálculo integral e diferencial,” Ian continuou a cantar, interrompido pelo som de algo quebrando e então, “De onde essa maldita estátua veio? Er, de qualquer modo é imitação. Eu sei os nomes científicos de animais microscópicos...”


Depois de mais barulhos de tropeções, o vampiro cantor de opereta apareceu. Os olhos de Ian estavam injetados de sangue, ele tinha uma mancha de sujeira no rosto e a camisa estava abotoada errada. “Olá, todo mundo!” Ian anunciou animadamente. “Foi uma noite e tanto.” “Ian, amigo, você parece um pouco drogado,” Spade trincou os dentes, olhando para ele. “Vamos colocar você na cama antes que quebre mais alguma coisa.” “Eu sei nossa mística história, de Rei Arthur e de Sir Caradoc”, Ian cantarolou. Cat olhou para Bones e resmungou. “Inútil.” Spade agarrou Ian, falando algo no ouvido dele que Denise não pôde escutar. Seja lá o que era, Ian riu. “Charles, companheiro, você se preocupa demais. Eu sou adulto, eu sou, e eu posso sangrar com a minha lida.” “Lidar com seu sangue?” Bones sugeriu secamente. Ian sorriu. “Exatamente.” Denise suspirou. Estava claro que eles não iriam conseguir informação alguma de Ian essa noite. Ela, Bones e Cat seguiram em frente enquanto Spade apoiava Ian, quase o carregando pelas escadas para então, o largar na cama em um quarto de hóspedes. “Antes de você ir, companheiro, ligue a televisão. Alguma coisa pornográfica. Acho que vou bater uma antes de dormir.” “Deus, você é nojento,” Cat reclamou. Denise concordou. Para surpresa dela, Bones atravessou o quarto, passou pelos canais e parou em algo pornográfico, aumentando o volume. Sons de gemidos, gritos e suspiros encheram o quarto. Ian se sentou como se fosse uma marionete sendo puxado para ação. “Ele tem alguém lá com Dragão no sangue,” ele disse baixo, com muita atenção nas palavras. “Não poderia dizer se ele combina com sua descrição, boneca, porque eles o tinham todo coberto, exceto pelas coxas, bunda e pênis. Uma pena você não ter dado a descrição de um deles, ai então eu saberia na hora se ele era o seu cara.” O queixo de Denise caiu, tanto em surpresa com a recuperação abrupta de Ian como por ouvir a condição na qual Web mantinha o homem que podia ser Nathanial. Spade não pareceu surpreso. A boca apertada em uma linha fina. “Pacotes fechados,” ele murmurou, lançando um olhar na direção dela.


O estômago de Denise revirou, fazendo com que ela agradecesse por não ter comido nada antes. Ela olhou para Ian com horror. Ele não tinha, tinha...? “Eu to dizendo, olha os melões daquela garota,” Ian exclamou, com o olhar na TV agora. “Ele está pendurado como um garanhão.” “Foco, parceiro,” Spade murmurou. Ian deu um sorriso torto ao Spade que fez Denise achar que ele talvez não estivesse tão afetado quanto ele fingia estar, mas que o que ele bebeu tinha deixado sua marca. “Não sodomizei* o cara contra a vontade dele, claro, então eu tomei um gole da coxa e foi tudo. Custou uma nota uma prova direta comparada a versão engarrafada e misturada que Web vende.” *Sodomizar é sujeitar alguém ao sexo anal. Denise estremeceu. Seria ela naquela posição humilhante e impotente para qualquer vampiro morder ou estuprar se Black Jack a tivesse levado para Web como ele planejava. “O quanto é seguro a sala em que ele está?” Bones perguntou, absorvendo tudo sem mudar a expressão. O olhar de Ian vagou para a TV antes de parar em Bones. “Hmm? Ah, muito seguro. Praticamente uma masmorra, apesar de mais elegante. Web me vendou então eu não sei em qual porta nós entramos, mas é no porão. 5 vampiros na sala, um deles é um Mestre. Pelo menos mais 7 Mestres na casa, mais Web. E um monte de malditas armas de prata.” “Ele te vendou? Não deve ter confiado em você tanto quanto você pensou que ele confiaria.” Spade ponderou. “Todo mundo agia como se fosse um procedimento normal. No início me intrigou como Web prontamente admitiu ter uma fonte em casa, mas ele deve contar que somente seu pessoal sabe o quanto fontes são raras. Se não fosse por ela, nenhum de nós saberia o que fez o sujeito ter Dragão Vermelho nas veias, certo? Outros vampiros devem achar que é uma química que Web faz e injeta aleatoriamente em humanos.” Ian parou para balançar a cabeça. “Web está agitado por você se mudar para a porta ao lado, entretanto... é esse quarto que está girando, ou sou eu?” “É você, agora continue,” Spade disse brevemente. “Web continuou falando sobre o por quê você deixaria o lar de seus ancestrais. Se eu sabia o motivo. Quem era a mulher com você. Ele estava fixado nisso. Ele é precavido o suficiente para mudar sua fonte para outro lugar logo.”


“Vagabundo,” Spade xingou. Ele e Bones se olharam. “Tem que ser agora.” “Agora?” Denise falou alto, esquecendo de sussurrar. Spade foi até ela e deslizou a mão nos ombros dela. “Daqui a algumas horas será de manhã então eles estarão se recolhendo, exceto os guardas, que não serão muitos. Esperar seria mais arriscado.” É muito cedo! Denise queria gritar, mas ela apertou os lábios e concordou. Ela nunca se sentiria confortável deixando Spade entrar naquela situação, e se fosse mais seguro agora, melhor agora do que mais tarde. “Eles têm câmeras do lado de fora da casa, alarmes, provavelmente a mesma coisa do lado de dentro,” Bones apontou. “Não vai ser um ataque surpresa, parceiro. Você tem algum outro vampiro aqui forte e confiável o suficiente para se juntar a nós? “Spade assentiu. “Um.”


CAPÍTULO VINTE E SEIS. Spade prendeu o restante de suas facas de prata. Crispin, Cat, Ian e Alten fizeram o mesmo. O metal enfiado em braçadeiras e tornozeleiras ou em coldres nas costas eram os únicos flashes de cor no grupo vestido todo de preto. Fabian não carregava armas, claro, mas ele ia também. Ele pode não ser capaz de lutar, mas o fantasma teria um grande benefício de outra forma. Spade sentiu uma onda de gratidão ao observá-los. A lealdade de Crispin era sem fim, a presença de Cat era a prova disso. Crispin odiava colocá-la em perigo, não que sua esposa precisasse ser tratada com cuidados excessivos. Ian, agora que ele drenou o Dragão Vermelho de si e bebeu bastante sangue humano para repor a perda, estava tão letalmente focado como sempre. Quanto a Alten, Spade nem precisou explicar as circunstâncias antes do amigo concordar em ajudar. Spade era grato por aquele dia, há 80 anos atrás, quando ele transformou Alten. Alten seria um ótimo Mestre de sua própria linhagem quando quer que ele escolha partir. O sangue contaminado de Nathanial fazia o ataque a Web ser tanto mais fácil como mais difícil. O lado bom era que Spade não tinha que se preocupar com a lei sobre roubar a propriedade de outro vampiro. A quem Web iria reclamar? Não aos Guardiões da Lei, que o matariam no momento em que descobrissem o que ele vinha fazendo com Nathanial. Web não poderia arriscar contar a outros vampiros também, por preocupação de que um deles poderia reportar suas atividades. O lado negativo, Web não deixaria a fonte de sua indústria milionária escapar facilmente pela porta. Web era um vampiro Mestre poderoso. Junto a ele, Ian também tinha dito que havia 8 outros vampiros Mestre na casa, mas outros guardas mortos-vivos. O melhor jeito de assegurar que eles conseguissem pegar Nathanial era com um ataque rápido e brutal. O amanhecer veria sangue derramado; quanto a isso, Spade não tinha dúvida. Por esse motivo que ele mandou Denise para as docas meia hora atrás. Ela queria ir com eles, insistindo que sua presença era necessária porque ela era a única que sabia como Nathanial se parecia. Spade argumentou que se houvesse mais de um sujeito com sangue do Dragão lá dentro, eles o agarrariam também, mas que não havia sentido em Denise atacar a casa só para fazer uma identificação. Ele não queria assustá-la dizendo o quanto seria perigoso para eles, todos vampiros fortes, atacarem a casa bem protegida de um vampiro Mestre. Até onde eles sabiam, Web pode ter reforçado a segurança da casa com armadilhas. Então, pra que levar Denise, ainda humana, com eles? Ela seria morta ou ele seria morto a protegendo. Ou os dois.


Spade procurou acalmá-la dizendo que ele precisava dela para pilotar o barco aonde eles iriam se encontrar, mas Denise enxergou a mentira, porque ela se afastou frustrada. De forma egoísta, Spade esperava que esse fosse outro motivo pelo qual Denise aceitaria a transformação quando suas marcas fossem retiradas. Ser um vampiro tinha algumas desvantagens, mas em sua opinião, elas eram compensadas pelos grandes benefícios. “A presença de Fabian será inestimável para procura e alarme, mas se as coisas ficarem feias Cat, aquele seu poder pirocinético será muito útil também,” Spade disse, prendendo a última faca. Ela fez uma careta. “É... sobre isso... Eu não tenho mais esse poder.” Ian ergueu as sobrancelhas. “Há apenas poucos meses atrás você explodiu uma casa inteira e a cabeça de um vampiro Mestre. Você está dizendo que essa habilidade se foi?” Cat olhou para as mãos e suspirou. “Por eu ser uma mestiça antes de me transformar, o destino achou que seria divertido fazer eu me alimentar de sangue de vampiro ao invés de sangue humano. Eu absorvo o poder do sangue morto-vivo quando eu bebo – e algumas vezes, isso significa também, algum poder especial que o vampiro tenha. Assim como vampiros normais absorvem vida do sangue humano quando eles bebem. Então o poder pirocinético que eu absorvi depois de beber do Vlad foi apenas temporário. Agora minhas mãos só são boas para atirar facas. Ou acendendo fogos de artifício. Spade digeriu a informação. “Se isso não é de conhecimento comum, nós ainda podemos usar como vantagem. A ameaça de você ser pirocinética pode ser suficiente para abalar as coisas mesmo que você não seja mais.” “Você quer que eu blefe se as coisas ficarem feias?” ela perguntou com descrença. Ele deu de ombros. “Se estivermos nesse nível de enrascada, o que temos a perder em tentar?” Crispim bufou sombriamente. “Vamos esperar que não estejamos em tal enrascada, companheiro.” “Concordo,” Ian murmurou. Spade olhou para o relógio. Quase 3 da manhã. Estava na hora. “Lembrem-se o humano tem que ser pego vivo,” ele disse. Então sua voz endureceu. “Mas todos os outros podem morrer.”


___ Denise resmungou baixinho enquanto ela, Bootleg e outro vampiro chamado Lyceum chegavam ao píer Fontvieille. Spade achava que ela era estúpida? Oh claro, ele contava com ela para levar o barco até as coordenadas certas no Mediterrâneo. Por isso que ele mandou dois outros vampiros com ela. “Você cheira a raiva,” Bootleg comentou em tom de puxar conversa. “Ele acha que eu sou estúpida?” Denise desabafou, alto dessa vez. “Oh claro, eu sou tão necessária aqui. Exceto pela parte em que eu nem sei como pilotar um barco!” Lyceum não conteve a risada. “Eu não sei o que eles estão fazendo, chéri, e se Spade não me contou, é perigoso. Você não esperava realmente que ele te levasse? Você é uma humana.” O vampiro disse aquilo do mesmo jeito que poderia ter dito a palavra estúpida. Os punhos de Denise se apertaram. O elitismo dos vampiros quando se trata de humanos era tão extremo quanto irritante. “Humanidade não se compara a inferioridade,” ela falou. “E você não deixa sua única testemunha pra trás quando está procurando pelo criminoso.” “Você o faz se for perigoso,” Bootleg disse com um dar de ombros. “Especialmente se for você.” Denise olhou pra ele com curiosidade e irritação. Ela era considerada extra indefesa como humana ou Spade tinha dito a Bootleg o que ela tinha no sangue? “Por que especialmente eu?” “Por causa de Giselda,” Bootleg respondeu. “Verdade,” Lyceum opinou. Denise sentiu como se eles estivessem falando outro idioma. “Quem ou o que é Giselda?” Os dois vampiros trocaram um olhar que fez Denise sair dos trilhos. “Nem pensem em voltar atrás, ou eu... eu vou contar a Spade que vocês me deixaram me afastar de vocês,” ela improvisou. “E que eu fui assaltada,” ela acrescentou para completar. Gritos de “Mon Dieu!” e “Isso não é justo!” ecoaram imediatamente dos dois vampiros. “Eu sou uma humana louca, vocês sabem que eu farei isso,” Denise os preveniu, seu sistema de alerta interno lhe dizia que isso era importante.


Lyceum deu um olhar feio a Bootleg. “Você trouxe à tona. Você conta.” Bootleg emitiu algo parecido com um suspiro. “Giselda era a namorada de Spade durando a guerra Franco Prussiana. Ele pretendia se cassar com ela, exceto que ela ainda era humana. Você tem que ser um vampiro para se casar como um, e Giselda resistia em se transformar.” Lyceum resmungou alguma coisa em francês que fez Bootleg concordar com um aceno de cabeça. Denise não precisou traduzir para saber que era algo depreciativo sobre a escolha de Giselda. “E?” ela estimulou, um pressentimento subindo pela espinha. “Spade foi chamado pelo seu criador para ajudar em uma disputa. Ele não levou Giselda no caso de estourar uma guerra entre seu criador e o outro Mestre. Era para ela ficar no castelo. Mas algumas semanas depois, quando Spade enviou um recado de que tudo estava bem e que ele retornaria logo, Giselda decidiu ir até ele ao invés de esperar. Ela enviou uma mensagem na frente anunciando sua chegada.” Bootleg olhou de solsaio para Denise, o que fez com que ela o socasse de impaciência. “Continue,” ela disse. “No caminho, a carruagem dela sofreu um acidente ou foi atacada, eu não sei o que aconteceu. O que sei é que Giselda foi estuprada por um grupo de desertores franceses – ou antes ou depois de eles a matarem,” Bootleg resumiu sem rodeios. “Spade foi procurar por ela quando ela não chegou no dia em que a mensagem dela dizia que chegaria. Ele encontrou o corpo dela na floresta.” Denise se sentiu mal mesmo quando várias coisas se encaixaram. Por que você teve que matá-lo? Ela perguntou a Spade meses atrás, ao lado do corpo do cara que a atacou no estacionamento. Por causa do que ele pretendia fazer. Ninguém merece viver depois disso. E o comentário de Ian, Eu não vejo Charles atencioso desse jeito com uma humana faz uns 150 anos... Ele não te contou sobre ela ainda? Então teve aquela última semana em Nevada, Você não faz idéia do quanto eu entendo... Spade conhecia o horror de encontrar o corpo partido de alguém que amava, assim como ela. Era o sentimento mais impotente, devastador, e de raiva do mundo. Era por isso que Spade nunca namorava humanas? Eles realmente tinham muito em comum. Spade evitava relacionamentos com humanos por causa de


Giselda, e Denise evitou o mundo imortal por causa de Randy. Que irônico eles terem sido atraídos um ao outro apesar dessas reservas. “Chéri não chore,” Lyceum disse suavemente. “Isso foi há muito tempo atrás.” Denise esfregou a bochecha, só então percebendo que estava molhada. “Desculpe. Eu só... eu sei como é,” ela encerrou, secando a outra bochecha. “Nós estamos felizes que você apareceu,” Bootleg disse, sorrindo para ela. “É bom ver Spade feliz de novo. Porque, eu aposto que ele vai dar saltos e rodopios quando você se transformar em uma vampira.” Pela segunda vez, Denise saiu dos trilhos. “O que te faz achar que eu vou fazer isso?” ___ A casa do Web era entre Monte Carlo e La Rousse. Ele escolheu o ponto mais alto em topografia, sem dúvida mais por motivos defensivos do que estéticos. Isso fazia a casa de estilo arquitetônico grego parecer impressionante, se erguendo na colina rochosa com holofotes escondidos, de bom gosto, brilhando entre as folhagens e na casa, mas Spade sabia que aqueles holofotes eram também para segurança. Eles mantinham todo o acesso para a casa bem iluminado, fazendo Spade deduzir que Spade tinha guardas humanos assim como vampiros. Um vampiro não precisaria de holofotes para ver tudo. “Pelo que escutei das mentes dos humanos que vivem aqui, a comida é entregue regularmente a um homem trancado no porão. A escadaria é acessível por uma porta escondida na câmara frigorífica,” Crispin sussurrou. “Fabian, encontre o freezer e cheque lá primeiro. Ian, você se lembra de passar por algo frio antes de ser levado ao humano?” “Não, mas onde o sujeito está durante o dia quando ele é alimentado é bem diferente de onde eles o colocam para entreter os convidados.” “Bem pensado,” Alten respondeu. “Eu vou procurar,” Fabian prometeu. O fantasma foi em direção a casa, passando pelas árvores e, finalmente, o exterior. Mesmo se os guardas de Web ficassem espantados em ver Fabian, eles não iriam perceber que ele era um espião e não apenas um fantasma vadio procurando por um lugar novo para assombrar. A maioria dos vampiros nunca se misturava com fantasmas. Claro, isso não impediu Cat de fazer amizade com um e fazê-lo parte de sua família.


Spade olhou para o céu. “Menos de duas horas até o amanhecer. Com sorte, Fabian vai encontrá-lo rapidamente e nós poderemos entrar e sair antes que eles organizem uma defesa considerável.” Cat olhou para o céu também, mas com um tremor. Sendo uma vampira nova, ela ainda era suscetível à influência do amanhecer. Assim que o sol nascia, ela ficaria letárgica demais para lutar, mas Spade não pretendia que eles ficassem lá quando o sol nascesse. Se eles ficassem, eles seriam capturados. Ou mortos. Depois de vários minutos de tensão, a forma nebulosa de Fabian apareceu na porta de entrada da casa de Web. O fantasma, silenciosamente, deu um sinal com os polegares para cima. Ian sorriu para Spade. “Tudo certo, parceiro. Vamos nos divertir.” Spade correspondeu ao sorriso de Ian com uma antecipação selvagem. “Certamente.” Os cinco vampiros se ergueram, Spade e Crispin na frente, e avançaram em direção a casa. Os alarmes dispararam, tanto os visuais e os sonoros, quando ele estavam a 45 metros da casa. Spade não estava preocupado; ele esperava isso. Quando a primeira leva de guardas, humanos e não humanos, apareceu e começou a atirar neles, ele jogou duas de suas granadas de prata. Crispin fez o mesmo. Então os 5 se jogaram no chão antes da explosão arremessar cacos de prata que atingiram os guardas de Web. Os gritos eram música para seus ouvidos. Ele jogou mais duas granadas pela janela para limpar o movimento que ele ouviu lá dentro, se jogando para dentro logo após as duas explosões satisfatórias. “Cozinha, última sala à esquerda,” ele ouviu Fabian gritar. Então outra série de explosões pôde ser ouvida. Spade não se virou para ver o que estava acontecendo. Primeiro que nada, exceto um exorcismo, poderia fazer mal ao fantasma, segundo, todos os seus 4 amigos eram lutadores fortes e capazes. Toda atenção de Spade estava focada em uma coisa. Encontrar a fonte e rezar que fosse Nathanial. Ele correu através das salas opulentas e corredores, os pés mal tocando no chão. Quando ele se aproximou da cozinha, um quarteto de lâminas de prata o atingiu no peito pouco antes de Spade ver os dois vampiros agachados atrás de uma porta. Eles saíram, bradando vitória, mas Spade simplesmente arrancou as facas do peito e as enviou direto para o coração de seus donos. As lâminas atingiram os alvos com múltiplos sons de pancadas e gritos de dor.


Eu estou usando um colete Kevlar. Vocês não, Spade pensou friamente, parando para dar uma torcida nas lâminas antes de passar por cima dos vampiros caídos. Mais sons de coisas quebrando e explosões vindos de frente da casa. Alten, Ian, Cat e Crispin estavam recebendo a maior parte do ataque para atrair a atenção para longe dele, Fabian correndo na frente e avisando a cada novo perigo. Mesmo assim, eles não conseguiriam manter isso por muito tempo. Mesmo através dos outros sons, Spade escutou barulhos furtivos em frente que fizeram com que ele soubesse que a cozinha não estava vazia. Quando ele chegou lá, ele jogou sua penúltima granada de prata antes de rolar para dentro depois da detonação. Os 3 vampiros feridos no chão encontraram uma morte rápida e brutal na ponta de sua faca. Apesar de sua busca rápida e completa pela cozinha, não havia uma câmara frigorífica. Apenas um freezer normal sem nenhuma porta atrás dele, o que Spade descobriu quando o arrancou da parede. Uma série de estampidos seguidos por batidas pesadas em suas costas o fizeram girar, agarrando o guarda humano que tentou correr depois de atirar nele nas costas. “Aonde está a câmara frigorífica?” ele rosnou. O homem, aterrorizado, não conseguia falar. Spade agarrou o braço dele e torceu, ignorando o grito estridente. “Freezer,” Spade repetiu antes de agarrar o outro braço do homem em ameaça aberta. “P-por aqui,” o guarda falou entre soluços, apontando. Spade o arrastou para aquela direção, abaixando a cabeça para evitar outra rajada de prata e arremessando suas próprias lâminas em resposta. Ele estava ficando sem facas, mas ele não poderia arriscar usar sua última granada de prata. Não ainda. O guarda o guiou para a despensa e então apontou para uma porta interna com o braço que não estava quebrado. Caiu a ficha. A despensa era a última porta a esquerda na cozinha, e era lá que ficava a porta do freezer. Spade puxou com força a sutil maçaneta desenhada para fazer parecer apenas outra prateleira e a porta se abriu. Ele se abaixou imediatamente, mas o guarda não foi tão rápido. Uma enxurrada de facas atingiu o homem. Ele estava morto antes de atingir o chão. Spade passou sobre ele de barriga, cortando cada pedaço de sua carne que entrava em contato com as facas enquanto ele tentava chegar ao freezer. Formas duras se empilharam sobre ele. Spade continuou segurando firme as


facas em suas mãos, ignorando a dor das apunhaladas onde o colete não o cobria, e cortou com uma finalidade implacável. Era tão pequeno dentro do freezer; seus agressores não tinham espaço para se moverem e se defenderem, e também não tinham um acessório de proteção sobre o coração como Spade tinha. Depois de um minuto agitado com incessantes golpes, Spade se levantou, sangue pingando dele e os guardas mortos aos seus pés. Ele os chutou para fora do caminho, olhando ao redor do pequeno espaço. Não tinha uma saída visível além do lugar por onde ele entrou, mas esse tinha que ser o caminho. Fabian tinha dito que sim, e aqueles guardas não estavam aqui para tomarem conta de pedaços de carne. Spade empurrou com força cada uma das paredes, sentindo uma onda de triunfo quando a terceira cedeu. Ele empurrou com mais força e ela abriu completamente, revelando uma escadaria estreita. Spade rapidamente pegou o máximo de facas que conseguiu de seus agressores e as enfiou nas tornozeleiras, descendo as escadas em seguida. No final da escada havia outra porta. Ele ficou tenso. Se houvesse uma armadilha esperando por ele, ela estaria atrás daquela porta. Mas pela probabilidade, também estaria a pessoa que ele procurava. Ele chutou a porta e mergulhou para dentro do quarto.


CAPÍTULO VINTE E SETE. Denise roeu o que restava de suas unhas enquanto olhava para o céu. Estava mais claro? Ou era sua imaginação? Spade havia dito que estaria aqui ao amanhecer. Ela não tinha um relógio, ou então ela estaria checando as horas obsessivamente. Bootleg disse que também não tinha um. Lyceum, que pilotava um segundo barco próximo a eles, disse o mesmo. Denise não acreditou em nenhum deles. Como que ninguém podia saber as horas? Ela pensou de forma irada, roendo a unha e olhando para o céu mais uma vez. Definitivamente estava clareando. O estômago contraiu. Aonde eles estavam? “Por que você não desce e relaxa?” Bootleg ofereceu. “Tem uma cama boa na cabine principal...” Ele parou assim que viu o olhar que Denise lançou a ele. Claro, ela podia relaxar em um momento como esse, se perguntando se seu amante e seus amigos estavam vivos ou mortos. Ele não percebia que nada menos do que uma concussão a faria fechar os olhos? Você devia ter insistido em ir com eles, Denise se repreendeu pela décima segunda vez. Mais uma vez aqui estava ela, em segurança enquanto todo mundo de quem ela gostava estava em perigo. De novo. “Mon ami,” Lyceum disse nitidamente. “Aproximação.” Os dois vampiros olharam o céu púrpura. Denise também, mas ela não pôde ver nada além de estrelas piscando suavemente. Ela agarrou a grade na lateral do barco. Era Spade e os outros? Ou alguém mais sinistro? O barulho do vento soprando mais forte sobre a cabeça dela foi o único aviso que ela teve antes que algo grande batesse atrás dela. Denise se virou com um gritinho – e então foi arrastada para um abraço apertado. “Sentiu minha falta, querida?” uma voz com sotaque britânico perguntou. Ela não teve chance de respirar para responder antes que a boca de Spade exigisse a dela em um beijo selvagem. Ele a levantou, fazendo com que suas cabeças ficassem quase na mesma altura. A boca dele aberta, roubando seu gemido de alívio enquanto ela passava as mãos nele. Vivo. Sólido. Inteiro. Ela não poderia pedir mais. “Eu tenho um presente pra você,” ele murmurou quando encerrou o beijo e a colocou no chão. Denise olhou atrás de Spade, mais alívio ao ver Cat e Bones, ensanguentados, mas inteiros, Alten, Ian e outro homem de cabelo castanho...


Ela congelou, aquele rosto trazendo de volta o fluxo de imagens em sua mente. Raum dentro de um pentagrama, um homem ruivo do outro lado. “Me dê poder como o seu,” o homem ruivo disse, “ e você pode ter tudo que quiser.” E aqui estava ele, em carne e osso. “Nathanial,” ela sussurrou. A cabeça dele inclinou na direção dela, seus olhos castanhos se arregalando. “Você sabe meu nome.” “Graças ao Cristo sangrento esse é o cara certo. Difícil pegar o sujeito.” Ian murmurou, o empurrando. “Eu vou levar ele pra baixo,” Cat disse, pegando Nathanial antes que ele caísse. “Espere, quem são vocês pessoal? Por que vocês me pegaram? Como você sabe o meu nome?” Nathanial exigiu roucamente. Denise ficou sem palavras. Quando ela o viu pela primeira vez ela se encheu de alívio. Apesar das probabilidades, Nathanial estava aqui, então sua provação com as marcas estava quase no fim!” Mas cara a cara com seu parente infame, ela ficou incerta de repente. Ela deveria tratá-lo com um prisioneiro? Dar-lhe um pouco de suas memórias por tudo que Raum tinha feito a ela e a sua família? Irritá-lo dizendo que ia devolvê-lo ao demônio que os marcou? Se ele não parecesse tão cheio de medo – e esperançoso. Se Nathanial tivesse agido como a figura gananciosa e sem coração de suas imagens, isso seria muito mais fácil. “Leve-o para baixo, agora,” Spade disse à Cat. Então ele virou Denise para longe da visão de Cat levando seu parente para baixo. “Sinto o cheiro de remorso começando a emanar de você, mas você não fez nada errado,” Spade disse baixinho. “Aquele homem fez a cama dele. É a hora de ele deitar nela, e se a situação fosse ao contrário, ele ofereceria seu adorável traseiro a Raum sem hesitar.” A lógica fria a fez se sentir melhor, afastando a pontada de culpa. Spade estava certo. Nathanial voluntariamente fez o acordo com Raum. Ele não foi forçado como ela foi. Ele podia parecer inofensivo agora, mas ele era como qualquer outro criminoso; não sentia por ter cometido o crime, apenas sentia por ter sido pego. Spade arriscou a vida para pegar Nathanial. Assim como Cat e todos os outros. Ela não iria recompensá-los fazendo frescura sobre isso. “Vamos andando,” Bones declarou. “Ian, você, Alten, Bootleg e Fabian vão no barco de Lyceum. Direção leste. Nós iremos na direção oeste. Se Web


pretender nos perseguir, ele terá duas trilhas a seguir ao invés de uma. Nos encontramos em Viena. Ian pulou para o outro barco, dando a eles um aceno garboso. “Meus cumprimentos a todos por uma noite de entretenimento!” “Companheiros.” A voz de Spade estava mais grossa. “Obrigado.” “Sim, obrigada a todos vocês,” Denise disse com toda sinceridade. Os outros se despediram e então Lyceum acelerou seu barco na direção oposta em que Bones levava o deles. Denise observou até que o outro barco não fosse mais do que um ponto no horizonte iluminado, então ela se virou para Spade. “Eu estou tão aliviada de que você está bem. Eu estava tão preocupada.” Denise se afastou de Spade para percorrê-lo com o olhar, contraindo os músculos involuntariamente ao ver os rasgos na roupa dele junto das manchas carmesim. Ele não tinha apenas arriscado a vida; ele também tinha matado por ela hoje. “Web está...?” “Vivo ainda, infelizmente,” Spade respondeu com um encolher de ombros. “Não importa. Ele não vai arriscar declarar guerra quando ele não pode dar um motivo para ela.” “Você parece exausta, Denise,” Bones gritou do deck superior onde ficava o leme. “Você deveria levá-la para baixo pra descansar um pouco, Charles.” Um sorriso vagaroso se espalhou pelo rosto de Spade. “Que idéia brilhante,” ele murmurou, se inclinando para escorregar a boca no pescoço dela. O tremor que a atravessou era mais do que uma reação física. Denise queria que Spade fizesse amor com ela, mas isso não era tudo que ela queria. Ela também queria acordar com ele, falar com ele, rir com ele e adormecer com ele. A intensidade dos seus sentimentos a chocou. Spade tinha se tornado tão importante pra ela tão rápido. E se ele não se sentisse do mesmo jeito que ela? E também havia o outro assunto... “Você deve querer tomar banho primeiro,” Denise disse, se arrepiando com o toque da língua dele abaixo de sua orelha. “Eu me ofereceria pra me juntar a você, mas é tão pequeno que talvez você nem caiba.” Uma risada baixinha a fez ficar alerta. “Você sempre pode assistir... de novo.”


Ela ficou confusa, então caiu a ficha sobre aquela noite em Vegas. “Você sabia?” Outra risada, infinitamente mais travessa. “Eu queria que você assistisse, então eu andei pelo quarto pisando duro pra te acordar antes de eu entrar no chuveiro. Você não se perguntou por que a luz estava acesa? Não era por mim, eu posso ver no escuro. E então eu mantive a água fria para que o vidro não ficasse embaçado.” “Com o seu corpo, aquilo deveria contar como uma armadilha,” Denise murmurou, sentindo o rosto esquentar. “Não, querida.” A voz dele estava rouca. “É sedução, e eu não tenho escrúpulo algum quanto a isso. Eu pretendo te seduzir em toda chance que eu tiver.” Ele se afastou, deixando as mãos escorregarem das dela. “Vou tomar aquele banho agora.” Sua sobrancelha se ergueu com segundas intenções. “E vou deixar a porta aberta.” O desejo cresceu em Denise, se sobrepondo a timidez por Bones e Cat estarem no alcance de ouvir. “Me dê alguns minutos,” ela disse, mentalmente planejando se refrescar rapidamente. Balas de menta, pó e batom na minha bolsa, camisola na minha mala. O verde se misturou com a cor de conhaque no olhar dele. “Eu te vejo lá.” Spade foi para baixo do deque, tirando a camisa e o colete a prova de balas antes de desaparecer no minúsculo banheiro. Denise deu uma olhada para o leme. Bones, nem uma vez, desviou o olhar do céu acinzentado em frente, mesmo que ele tivesse que escutar cada palavra entre eles. Eu não me importo, Denise decidiu, atravessando o deque até a unidade de armazenamento debaixo da cadeira onde ela deixou a bolsa. Não seria nada que Bones já não tivesse escutado antes. Ela afastou o assento almofadado e estava fuçando ao redor dos coletes salvavidas procurando a bolsa quando uma rajada de ar veio por baixo do deque. Em um momento Denise estava segurando a bolsa; no outro, ela estava de costas olhando para um vampiro de cabelos castanhos que ela reconheceu mesmo sem a máscara. Antes que ela pudesse piscar, o punho de uma faca apareceu no peito de Web como num passe de mágica. Denise teve um momento de alívio quando Web caiu de joelhos, mas então um punho de ferro a agarrou e ela foi puxada pra cima.


“Soltem as facas,” Web ordenou, com o braço ao redor da garganta dela, lhe tirando o ar, enquanto algo afiado a golpeou na barriga. Bones e Spade estavam na frente deles, com facas de prata firmes em suas mãos. Depois de trocarem olhares, eles baixaram as armas e colocaram no deque. Outro vampiro desceu do céu em frente a Denise, dando um sorriso falso enquanto recolhia as armas e se colocava perto de Web. “Idéia inteligente com o colete a prova de balas,” Web comentou. “Por isso que estou atrasado. Eu tenho câmeras de vigilância nas docas, então eu sabia aonde procurar por vocês, mas eu tive que conseguir meu próprio colete primeiro... e que consideração a sua de tirar o seu.” “Deixe-a ir,” Spade disse, a raiva emanando de cada palavra. Um urro nas costas dela. “Não mesmo.” “Você sabe que se a machucar, não haverá nada para nos impedir de te cortar em pedaços,” Bones disse com um tom calmo. “Liberte-a e eu prometo que você pode voar embora ileso do mesmo jeito que veio.” Web deu uma risada feia.” Não sem o que vocês roubaram de mim. Me entregue Nathanial e então quando eu partir, eu farei Canine soltar essa cadela a algumas milhas na água. Vocês podem pescá-la, se ela significa tanto pra vocês.” “Você não vai a lugar algum com ela,” Spade disse, com a voz vibrando de ódio. “Eu tenho a refém, então eu faço as regras,” Web sibilou. No instante seguinte, a dor veio com força na barriga de Denise, tão intensa e esmagadora que ela não podia nem puxar o ar para gritar. Então o único som que veio dela foi um suspiro agonizante. Spade rangeu os dentes e investiu para frente, mas através do olhar inesperado na visão de Denise, ela viu Bones o puxar para trás. “Mais um movimento e eu espalho as tripas dela por esse deque,” a voz de Web soou perto de sua orelha enquanto outro golpe de dor na barriga quase a fez desmaiar. “Me entregue Nathanial agora e você pode curá-la a tempo dela viver. Se não entregar, ela morre.” Canine deu um risinho abafado. Spade tinha parado de lutar contra Bones e estava encarando os dois com um olhar em chamas, cor de esmeralda.


“Se ela morrer, você vai desejar para sempre se juntar a ela na morte, exceto que eu não vou deixar.” Denise sabia que não devia, mas ela olhou pra baixo, para a fonte de tanta agonia. Web tinha uma faca enfiada em sua barriga, o sangue pingando dela no deque, cada virada da mão dele enviando novas correntes daquela pulsação terrível dentro dela. O sangue formando uma poça a seus pés trouxe uma onda de imagens em sua mente. Tantos olhos brilhando. Carne fria ao redor dela. O sangue vai se seguir. A morte vai se seguir. Sempre segue. Mas dessa vez, ao invés do pânico paralisante que as memórias infundiam, Denise sentiu uma estranha onde de raiva soprando por ela, crescendo junto a intensidade da dor. “Me solte.” Denise não reconheceu a própria voz. Era baixa e feroz, como nada que houvesse saído de sua garganta antes. “Cale-se,” Web disse, parecendo surpreso por ela falar. “Estou perdendo a paciência. Traga-me Nathanial ou eu vou derramar mais sangue dela.” Cat veio devagar do interior do barco, Nathanial na frente dela. Quando ela estava quase à distância de um cuspe de Web, ela parou. “Faça seu garoto vir aqui e pegá-lo e então vocês podem ir. Mas se você tentar levar Denise ou fazer qualquer outra coisa com ela, eu vou te fritar ai mesmo onde você está,” Cat rosnou. As mãos dela ficaram azuis, fagulhas laranja começaram a sair delas. “Pare ou vou matá-la!” Web ordenou, em seguida, algo afiado foi pressionando contra o pescoço dela. Ele tem duas facas, Denise percebeu. Uma na minha garganta e outra na minha barriga. Instintivamente ela tocou no ferimento mais baixo, sentindo a frieza do aperto de Web em contraste com o quente do seu sangue se espalhando pelos dedos. Outra onde de tontura a submeteu, seguida de uma dor nauseante. Então ela viu o rosto de Spade, a aflição competindo com a raiva em sua expressão, e foi a dor dele que rompeu algo dentro dela. “Me solta.” Exceto que isso não veio como palavras. Foi um rosnado distorcido que fizeram os olhos de Bones se arregalarem com espanto. Aquele sentimento de selvageria cresceu em Denise até que ficou mais forte que a dor.


“Oh meu Deus,” Nathanial sussurrou. Denise tirou a mão da barriga para agarrar os braços que seguravam as facas contra ela, de forma selvagem os rasgando com as próprias mãos. No mesmo momento Spade se arremessou os empurrando.


CAPÍTULO VINTE E OITO. Spade derrubou Web no deque, seu único foco era prevenir que aquelas facas retalhassem a garganta de Denise ou a estripassem. O terror lhe deu maior velocidade enquanto ele arrancava as facas de Web e as lançava no oceano. Web se balançou pra trás, o grande pedaço de seus braços, arrancado pelas garras de Denise estavam se curando. As mãos dela se transformaram momentos antes de ela o atacar, se esticando naquelas garras monstruosas que perfuraram as luvas dela enquanto os olhos se inclinavam em um ângulo não natural. “Kitten, segure Nathanial,” Spade ouviu Bones gritar, mas ele mal registrou. O desejo por derramamento de sangue competia com uma violência gritante nele. Ele precisava levar Denise para baixo para curá-la. Ele precisava rasgar cada membro do corpo de Web. Sua decisão foi tomada quando ele viu o sangue jorrando da barriga de Denise. Spade a pegou no colo, chutando Web forte o suficiente para jogá-lo contra a proa, mas o deixou lá enquanto ele corria para levá-la para baixo. Denise lutava contra ele, urros vindo de sua garganta e seus belos olhos castanhos sendo preenchidos por vermelho. Spade pulou para o corredor interno que levava aos quartos, rasgando seu pulso com as presas. “Beba,” ele ordenou, segurando o pulso sangrando na boca dela. Denise tentou desviar a cabeça, mas Spade forçou as gotas de sangue dentro da boca dela. Ela engoliu fazendo caretas. Quando seu pulso se curou, Spade o mordeu novamente, dessa vez pingando sangue diretamente sobre o ferimento a faca na barriga dela. Até mesmo aquela ferida horrível começou a se curar, Denise arfou, aqueles barulhos continuando a sair de sua garganta ao invés de palavras. Spade entrou na cabine de dormir, a colocou na cama e a olhou com pânico crescente. O ferimento tinha se curado; por que parecia que ela estava piorando? “Denise, olhe pra mim. Me diga o que está errado,” ele exigiu. Os olhos dela estavam totalmente vermelhos agora, se inclinando naqueles ângulos impossíveis, e suas mãos com garras rasgavam os pulsos dele para afastá-lo. Sons ásperos e ininteligíveis vinham dela, aumentando em volume enquanto a luta aumentava. “Crispin!” Spade dritou. Talvez Denise precisasse de sangue mais forte que o dele. Será que a faca de Web poderia estar envenenada?


Foi Cat quem entrou correndo no quarto. Spade ignorou sua arfada quando ela viu Denise. “Chame Crispin,” ele gritou. Denise começou a se contorcer, os ruídos parecendo soar mais frenéticos. Spade nunca tinha visto nada parecido antes. O que havia de errado com ela? “Eu te disse, eu posso ajudar,” uma voz veio de trás de Cat. Spade se virou para ver quem era, seu olhar se estreitando quando viu que era Nathanial. “O que há de errado com ela?” “Ela é como eu,” Nathanial sussurrou. “As marcas... ela foi muito longe para parar agora.” “Fale algo com sentindo ou eu vou quebrar sua maldita espinha,” Spade gritou, o terror o dominando ao ouvir “longe demais.” Não, não poderia ser. “Se afaste,” Nathanial disse. Spade lhe deu um olhar que prometia uma longa e horrível morte se ele fizesse algo para machucá-la, mas as sacudidas convulsivas de Denise o fizeram concordar e deixar o rapaz tentar o que quer que ele achasse que poderia ajudar. “Qual é o nome dela? Denise?” Nathanial perguntou. “Sim.” Uma palavra, reduzida. “Segure ela, mas não muito apertado. Deixe ela se mover. Apenas não a deixe fugir.” Spade obedeceu, se movendo para trás de Denise para envolvê-la de forma solta em seus braços, ignorando suas unhas em forma de garras cortando sua carne. Crispin apareceu atrás de Cat na passagem estreita. “O que é isso?” “Eu não sei,” Spade disse fortemente. “Ela... não está bem.” “Eu matei o outro vampiro, mas Web escapou. Nós precisamos partir. Ele terá mais pessoal no caminho em breve, se não já,” Crispin disse com uma olhada austera para Denise. “Vocês não podem movê-la ainda, vocês não entendem!” Nathanial exclamou. Crispin o fulminou com o olhar. “Eu pedi sua opinião?”


“Discuta com ele mais tarde, eu preciso da ajuda dele agora,” Spade declarou. “Encontre outro jeito, Crispin. Nos arrume tempo.” Sem falar nada o amigo dele foi para cima. O barco balançou momentos depois enquanto Crispin acelerava o motor. Nathanial se ajoelhou na frente dela. “Denise, eu sei que você pode me ouvir,” ele começou com uma voz forte e clara. “Você está em pânico porque você sente que está sendo puxada de dentro pra fora, mas você vai ficar bem. Você ficou muito perturbada e isso engatilhou a transformação. Você foi muito longe para parar, mas você pode controlar.” “Que diabos você está falando?” Spade exigiu. “Se você está fazendo isso aumentar, eu vou–“ “Não me incomodo com ameaças, não há nada que você possa fazer pra mim que já não foi feito,” Nathanial replicou tristemente antes de seu tom ficar mais duro. “Eu já passei por isso antes. Você não, então fique quieto e faça o que eu digo.” Cat parecia quase tão chocada por aquela fala destemida como ela estava pelas mãos e olhos alterados de Denise, mas ela não disse nada. Spade decidiu seguir o exemplo dela. Ele fechou a boca. Nathanial voltou a atenção para Denise, que estava se torcendo e urrando daquele jeito gutural de arrepiar os ossos. “Me escute, Denise,” ele ordenou, se aproximando. “Se você não controlar no que vai se transformar, sua mente vai escolher o que mais te assusta e eu estou achando que vai ser algo que vai acabar matando a todos nesse barco. Então se foque no que eu estou falando pra você. Pare de lutar.” Os urros horríveis de Denise não pararam, mas suas tentativas de se libertar de Spade sim. Ele sentiu uma centelha de esperança. Ela entendia o que o rapaz estava dizendo pra ela, pelo menos o suficiente para fazer o que ele falava. O que quer que estivesse acontecendo, sua consciência não tinha sido enterrada fora do alcance por baixo disso. “Bom. Viu? Você está no controle suficiente para forçar seu corpo a fazer o que você quer. Você se alimentou demais de essência de demônio para parar a transformação, mas não vai ser permanente. Você me entende, Denise? Você vai ficar bem.” Algo parecido com um choro veio dela. O coração de Spade se contorceu ao ouvir.


“Eu quero que você pense em algo pequeno, algo inofensivo,” Nathanial continuou. “Algo que não possa machucar ninguém. Se foque nisso. Veja isso em sua mente. Não pense em nada mais, apenas isso...” O corpo inteiro de Denise estremeceu, então inacreditavelmente, Spade sentiu os ossos dela começarem a se encolher sob suas mãos. A pele dela ondulava como água, se dobrando e contraindo como o resto dela. “Oh. Meu. Deus.” A voz de Cat espelhava o choque que ele sentia. “Você está bem,” Nathanial disse, nunca perdendo aquela confiança no seu tom de vez, mesmo que Spade sentisse que seu mundo estava desabando sobre ele. “Você está indo bem. Você está controlando. Mantenha o foco naquela imagem pequena e inofensiva. Não a deixe sair de sua mente nem por um segundo...” Denise continuou a encolher até suas roupas cobrirem a maior parte que Spade podia ver dela. Ele estava congelado, incapaz de se mover ou falar, vendo a mulher que ele amava desaparecer em frente dos seus olhos. “Você está indo bem,” Nathanial continuou. Se Spade ainda pudesse falar, ele teria dito ao rapaz que ele tinha perdido a maldita cabeça, chamando o que quer que estivesse acontecendo de “bom”. Mas ele só conseguia olhar enquanto lá estava o encolhimento final sob a pilha de roupas que, minutos atrás, Denise vestia, mas agora cobriam... o que quer que tinha sobrado dela. Cat se refez mais rápido que Spade. “Aonde ela está?” Então mais alto. “Onde diabos Denise foi?” Com um chiado, um gato cor de mogno saiu de baixo das roupas, correndo para se esconder num canto. “Lá está ela,” Nathanial disse calmamente. ___ Spade estava na fila da segurança no aeroporto de Viena, segurando uma maleta de transportar animais em uma mão e o ombro de Nathanial na outra. Crispim e Cat estavam logo atrás de Nathanial. Cat parecia normal, mas Spade sabia que estava sendo necessária toda sua concentração para ela estar funcional tão cedo de manhã. “Você vai despachar seu animal de estimação com a bagagem ou mudar a passagem para primeira classe para embarcá-lo com você?” a funcionária do balcão de passagens perguntou.


Um ruído estrangulado escapou de Cat. Spade apertou o maxilar. “Mudar a passagem,” ele articulou. Dentro do compartimento, um chiado alto seguido de uma série de sons de arranhões nervosos fez a funcionária olhar. “Eu vou precisar de prova de vacinas atuais,” ela disse. Spade se inclinou para frente até que seus rostos estivesse a apenas um palmo de distância, flashes verdes saindo de seus olhos. “Você tem a prova, agora apresse-se,” ele rosnou. Uma aparência vidrada tomou conta do olhar da moça, mas seus dedos voaram sobre o teclado. Em instantes Spade tinha sua passagem – e os documentos para voar com um animal. É melhor Nathanial estar certo sobre isso ser apenas temporário, Spade pensou, lutando contra a urgência de matar alguém apenas como uma válvula de escape pela frustração fervendo dentro dele. “Vai ficar tudo bem,” Nathanial disse, como se lendo sua mente. “Assim que ela relaxar ela vai se transformar de volta.” O gato – Denise – estava tudo menos relaxada agora. Ela tinha chiado e arranhado tudo que chegava perto dela, até Spade ter que pegá-la pela nuca para voar do barco com ele. Agora, claro, eles tinham que usar uma forma mais tradicional de voar para chegar a um lugar seguro. Qualquer lugar a cem milhas de Mônaco era perto demais de Web e seu pessoal para o conforto de Spade. Ele esperou outros 10 minutos até todos terem suas passagens, precisando brevemente hipnotizar a funcionária novamente para a identidade falsa de Ian passar como Nathanial. A diferença não era tanta; os dois homens eram parecidos na altura, cor de cabelo e idade em aparência humana, mas não havia motivo para arriscar um atraso com a segurança quando havia um jeito de contornar. O rapaz tinha sido muito cooperativo desde que Spade disse a ele, de forma resumida, que ele o capturou para ajudar Denise. Era verdade, afinal de contas. Apenas não da forma que o sujeito imaginava. Assim que estavam a bordo do avião para Bucareste, entretanto, a compostura fria de Spade começou a desabar. A mulher que ele amava estava em um compartimento para carregar gatos a seus pés, e ele tinha apenas a palavra de um sujeito indolente, trapaceiro de demônio de que não era permanente. As mãos de Denise voltaram ao normal, Spade se lembrou, mas era um pobre consolo. Deformação moderada nas mãos não eram nada comparado a isso.


“Esse vôo tem serviço de bordo?” Nathanial perguntou a atendente antes mesmo que seu cinto de segurança estivesse colocado. “Cale-se,” Spade falou, louco para estrangulá-lo. Se não fosse por ele, Denise não estaria quarenta e cinco quilos mais leve e coberta por pelo. “Mas eu tenho que comer”, Nathanial disse. “Srtess, dor, medo, fome, desejo sexual... todas essas coisas, se deixar crescer, vão engatilhar a transformação. Eu já estou estressado me preocupando com Web aparecer e eu adivinho que não vou ganhar um boquete tão cedo, então eu tenho que acalmar minha fome, pelo menos.” Crispin se enclinou para frente de seu assento atrás deles. “Você está me dizendo que Web te manteve saciado sexualmente, alimentado, relaxado e feliz, tudo isso enquanto sugava seu sangue pra vender?” ele perguntou baixinho, sua voz cheia de sarcasmo. “Besteira.” Nathanial se virou, seu rosto mais duro que o normal, quase uma expressão de garoto. “Não. Ele me manteve sendo fodido queira eu ou não, me drenou ao ponto de fraqueza constante e nada próximo de relaxar. Mas eu estou presumindo que da forma que ele age, ele se importa o suficiente com ela para não tratá-la daquele jeito.” “Você percebe que se você não estiver nos dizendo como realmente trazer Denise de volta, você terá uma vida muito, muito curta,” Cat disse, com um tom duro como aço. Spade concordou, mas apenas no caso do rapaz estar dizendo a verdade, ele não queria Nathanial agitado. Ele se transformando em algo que sabe-se lá o que em um avião, seria desastroso. “Agora não é hora de discussão,” ele disse aos dois. Então, para Nathanial, “Eu vou ver se há alguma coisa aqui que você possa comer.” Duas horas e todos os lanches disponíveis no avião depois, eles pousaram em Bucareste. Inglaterra seria o primeiro lugar que Web procuraria por eles, e América era muito longe, mas o criador do Spade tinha uma casa aqui que era bem fortificada, isolada e familiar. Ian esperou do lado de fora do aeroporto, na pista de chegadas, depois que eles pegaram suas bagagens. Ele olhou para eles e levantou a sobrancelha. “Onde está Denise? E o que você está fazendo com um maldito gato, Charles? Algum tipo de mascote para nossa queria Reaper aqui?”


“Nem mais uma palavra,” Spade cortou, entrando no carro e colocando o carregador no colo. “Ian, confie em mim – não,” Crispin disse antes de colocar as malas no portamalas. Então ele sentou no banco de trás, sentando Nathanial entre eles. Cat foi na frente, tamborilando os dedos no painel. “Vamos Ian,” ela disse impacientemente, ainda cansada, sem dúvida, apesar de ter dormido a maior parte do caminho no avião. “Eu presumo que alguém vai me contar o que está acontecendo mais cedo ou mais tarde,” Ian observou enquanto sentava no assento do motorista. “Até lá, é um bocado rude me tratar como um chofer intrometido, considerando todas as coisas.” O temperamento de Spade estourou. “Você quer saber aonde está Denise?” Ele ergueu o carregador então o felino estava visível no espelho retrovisor. “Aqui está ela! Agora dirija o carro, Ian, ou foda-se que eu dirijo.” Ian dirigiu, sem dizer nada todo o caminho até a casa. Assim que o carro parou, Spade saiu, puxando Nathanial com ele. Alten e Fabian vieram para saudá-lo, mas ele passou por eles sem uma palavra, indo em direção ao quarto que tinha ficado meses atrás quando esteve lá para ajudar Crispin. Chegando lá, ele fechou a porta e se virou para Nathanial. “Tudo bem. Como eu a trago de volta?” O homem de cabelo castanho claro andou pelo quarto, se abaixando e olhando os cantos, debaixo da cama, as janelas, e até mesmo o banheiro. Foi preciso todo o controle de Spade para não começar a bater nele quando ele não respondeu. “Que diabos você está fazendo?” “Checando lugares onde ela poderia se enfiar,” Nathanial respondeu. “Uma janela aberta, um lugar pra se enfiar debaixo do armário... você quer passar a noite procurando por sua namorada gatinha dentro de paredes ou pela propriedade?” Spade apertou os punhos, mas manteve a voz calma. “Tudo bem. Se você terminou com isso, e agora? Nathanial, se fosse inteligente, ouviria a ameaça letal por trás daquelas duas últimas palavras e produziria resultados rápidos, mas ele deu de ombros. “Consiga um pouco de atum e uma tigela de leite.”


Spade o tinha contra a parede pendurado pela garganta no instante seguinte. Apenas saber que ele precisava de Nathanial, se Denise não se transformasse de volta, evitou que Spade o matasse naquele momento. “Tome cuidado com o que você vai escolher falar em seguida, porque você vai pagar por isso em sangue se for outra ironia maldosa.” “Estou falando sério,” Nathanial disse com ênfase em cada palavra. Seu olhar castanho estava firme. “Você tem uma mulher aterrorizada presa em uma forma não familiar que foi carregada em uma caixa pequena por horas. Ela está com fome. Com sede. Provavelmente claustrofóbica também, que explicaria porque ela está chiando e arranhando a gaiola sem parar. Deixe-a sair. Deixe-a comer alguma coisa, beber alguma coisa, se acalmar um pouco. Então você vai afagá-la até que ela esteja realmente relaxada.” Aquela urgência assassina estava quase o dominando, fazendo um tremor percorrer o corpo de Spade. Suas presas pressionadas contra os lábios em silêncio exigiam enterrar na garganta de Nathanial e rasgar. “Tudo bem,” Spade disse, assim que sua fúria se acalmou o suficiente para ele poder falar. “Mas se você está mentindo pra mim, você será o próximo naquele carregador. Em pedaços. Alten!” Alguns momentos mais tarde a porta se abriu. “Sim?” “Peça na cozinha para mandar um pouco de atum ou frango e uma tigela de leite. Agora.” Alten piscou, mas não questionou a ordem. Não levou nem cinco minutos e ele estava de volta, com um prato cheirando a atum e um pires cheio até a boca com leite. Dessa vez, porém, Cat e Crispin vieram com ele. Eles entraram no quarto em silêncio, fechando a porta atrás deles. Spade colocou os recipientes de atum e leite no chão e abriu a porta do carregador. Um borrão de pelo disparou pra fora com um gemido, correndo pelo perímetro do quarto em uma arremetida louca antes de se lançar debaixo da cama. Spade sentiu o coração desmoronar perante a resposta tipicamente felina. Será que não havia nada de Denise no animal escondido debaixo da cama? “Apenas espere,” Nathanial disse. Depois de tensos minutos, uma cabeça cor de mogno saiu debaixo da cama. Chiando para o quarto em geral, o gato foi direto para o atum, devorando o banquete fedido. Então o bichinho lambeu a tigela de leite até suas laterais começarem a inchar.


“Pegue-a agora,” Nathanial instruiu. Spade agarrou o gato antes que ele pudesse correr pra baixo da cama. Imediatamente garras fininhas arranharam suas mãos, mas ele ignorou, olhando para o monte de pelos com uma mistura de esperança e desespero. Denise poderia realmente voltar ao normal disso? Ela disse que tinha visto Raum se transformar em um cachorro e voltar sem nenhum efeito colateral, mas ele era um demônio, e ela ainda era – na maior parte – humana. Pelo menos, ela costumava ser. “Não a perca. Deixe-a o mais confortável possível e comece a acariciá-la.” Crispin murmurou algo que Spade não quis decifrar. Com o maxilar endurecido, ele se ajeitou na cama com o gatinho que agora estava rosnando, a segurando no lugar com uma mão e acariciando o pelo dela com a outra. Quatro pares de olhos encaravam, extasiados, cada movimento dele. Depois de um minuto, Spade estava tenso o suficiente para rosnar junto com o gato. “Me deixe sozinho no quarto,” ele disse. Crispin pegou o braço de Nathanial. “Venha comigo, companheiro. Vou te mostrar suas acomodações,” ele disse antes de puxá-lo. Spade quase sorriu com aquilo, imaginando onde Crispin iria colocá-lo. Os outros saíram, Cat fechando a porta com um último olhar pensativo para eles. A gatinha continuou a rosnar daquele jeito baixinho e estendido, intercalando as vezes com um chiado e uma retorcida para se libertar. Spade afrouxou a forma como a segurava para que a gata pudesse se mexer, mas não escapar, ainda acariciando aquelas orelhas castanhas. “Denise,” ele disse baixinho. “Se você puder me ouvir, eu preciso muito que você volte. Não me entregue ao destino de ser um daqueles vampiros velhos e rabugentos que vivem apenas com seus bichinhos de estimação.” Eu estou falando com um maldito gato, passou pela cabeça dele. Ele poderia muito bem cavar um buraco e se enterrar agora. Mas ele não parou, porque ele precisava acreditar que Denise entendia o que ele estava falando, mesmo que não fosse verdade. “Venha, querida, eu posso pensar em um jeito melhor de passar o tempo na cama com você do que desse jeito,” ele continuou com a voz baixa. “Você é um felino encantador, mas realmente, há limites para as coisas em que estou disposto a tentar.”


O gato parou de rosnar, apesar de que sua cauda continuou a se movimentar de forma inquieta. Spade não sabia se era um sinal positivo, mas ele continuou falando. “Nós temos tudo que precisamos para seguir em frente, querida, exceto você. Volte, Denise. Vamos devolver Nathanial para Raum, tirar aquelas marcas dos seus braços e continuar com nossas vidas. Você sabe qual é a primeira coisa que eu quero fazer quando você se livrar dessas marcas?” Um ruído mais suave emanou do gato. Depois de um segundo, Spade percebeu que ela estava ronronando. “Eu vou te levar para algum lugar bem elegante,” ele continuou. “Eu posso visualizar o vestido que você vai usar: seda preta, alças finas, decote profundo – e sem luvas. Você vai ter um jantar maravilhoso e então nós vamos dançar até você ficar cansada... mas não tão cansada, porque quando nós chegarmos em casa, eu vou fazer amor com você. Eu vou devagar, aproveitando cada centímetro da sua pele, até sua voz ficar daquele jeito delicioso, rouca, que me faz queimar. E então, depois disso, vou te abraçar até você adormecer...” Uma corrente forte ondulou o corpo do gatinho. Spade parou de falar, assistindo com assombro enquanto o montinho debaixo de suas mãos crescia. Outra ondulação forte, então outra, e outra. Pele parecia surgir na forma do gato, se esticando, crescendo e ampliando nos membros, carne e osso que acontecia quase mais rápido do que seus olhos podiam acompanhar. Durante poucos segundos, o corpo de uma mulher nua substituiu o gato curvado sobre seu colo, o cabelo dela era um véu escuro sobre seu rosto. Spade não se moveu, com medo de que o mínimo gesto pudesse fazer ela desaparecer novamente. “Denise.” Uma mão trêmula colocou o cabelo dela pra trás, então os adoráveis olhos castanhos de Denise se encontraram com os dele. “Spade,” ela disse, sua voz irregular e áspera. Então ela pulou para fora da cama, assustada, e correu para o banheiro.


CAPÍTULO VINTE E NOVE. “Denise, querida, você está bem? Por favor, me deixe entrar,” Cat a encorajou. Denise ficou no chão, encolhida o mais longe que conseguiu, no canto, e só respondeu porque ela sabia que se não respondesse, Cat iria invadir. “Eu estou bem,” ela falou por entre os dentes. “Eu só quero ficar um pouco sozinha.” Ela tinha repetido a mesma frase para Spade 20 minutos atrás, depois de ter terminado de tremer e passar as mãos por todo o corpo para verificar que, sim, ela estava realmente de volta completamente. Palavras não podiam explicar o pânico horrível que ela sentiu enquanto se transformava em outra coisa, sem ser capaz de se comunicar de forma alguma além de rosnados e chiados. Antes, no barco, ela teve uma pontada de culpa por entregar Nathanial para Raum. Agora, se o demônio estivesse na frente dela, ela empurraria Nathanial para os braços de Raum sem a menor hesitação. Não para salvar sua família, ou porque Nathanial fez uma barganha, ou por gratidão pelo que Spade tinha passado para conseguir pegá-lo. Não, ela o faria para que nunca mais tivesse que se preocupar por seu corpo se tornar uma prisão estranha novamente. “Denise.” A voz de Spade, profunda e intensa. “Abra a porta.” De jeito nenhum. Ele a tinha visto como um animal. Seu novo namorado a tinha carregado por ai em uma pet carrier*, por ter gritado muito alto! Que diabos ela deveria dizer pra ele depois disso? *Gaiolas em forma de caixas portáteis pequenas usadas para transportar pequenos animais em viagens. Até mesmo agora, a lembrança de ser presa em um pequeno container a fez derramar suor. Ela sempre odiou lugares pequenos e apertados. Ser enfiada em um enquanto sabia que nem ao menos era humana naquele momento quase acabou completamente com sua sanidade. Ela tinha que olhar para Cat e ter a brilhante idéia de se transformar em gato como o nome dela. Por que ela não poderia ter pensado em alguma outra coisa pequena e inofensiva? Algo humano? O estômago de Denise apertou e ela arrotou, sentindo o gosto de atum. É verdade, ela tinha comido de uma tigela no chão porque há apenas meia hora atrás ela era um animal. A bile subiu para sua garganta com uma rapidez impiedosa. Ela se arrastou para o vaso sanitário bem a tempo de vomitar até sua garganta queimar.


Um barulho forte de algo quebrando a fez levantar a cabeça. Spade entrou no banheiro, a maçaneta da porta estava pendurada pra fora de seu lugar correto. Primeiro Spade a viu comendo de uma tigela como um animal, agora ele a via agachada, nua, debruçada sobre um vaso sanitário, botando as tripas pra fora. “Por favor, saia,” ela choramingou. Ele se ajoelhou ao lado dela. “O que há de errado? Você está doente?” Ela deixou escapar uma risada quase histérica. “O que há de errado? Você está falando sério?” Mãos frias deslizaram por seus braços. Denise se afastou assustada, mas a parede atrás dela impediu que ela evitasse o toque dele. “Não,” ela disse rispidamente. Com apenas uma olhada ela constatou que Spade estava bonito como de costume, impecável, vestindo calças apertadas e camisa limpa, seu cheiro era inebriante. Em contraste, aqui estava ela, vestindo apenas uma toalha, coberta de suor e fedendo a vômito de atum. Denise começou a se debater quando Spade a puxou para seus braços, mas era tão inútil quanto suas tentativas de fugir quando estava coberta por pelo. Como ele podia suportar tocar nela desse jeito, sem falar em estar no mesmo aposento que ela? Se ela pudesse evitar ela mesma, ela evitaria. “Você não precisa tentar melhorar as coisas, ok? Apenas, por favor, Spade, me deixe sozinha.” “Isso não é por você,” ele respondeu, apertando os braços ao redor dela quando ela ia tentar se contorcer para fugir. “Eu preciso disso. Nesse momento, eu preciso disso mais do que qualquer outra coisa que já precisei, inclusive de sangue.” Ela não disse nada, dividida entre querer acreditar naquilo e pensar que ele estava mentindo apenas para fazê-la se sentir melhor. E ela se sentiu melhor nos braços dele sim. Oh, muito melhor! Como se houvesse esperança e sentindo no mundo dela, ao invés da deterioração que engolia seu corpo e mente. “Você me pegou pela nuca.” Saiu sem pensar. Considerando tudo que tinha acontecido, isso seria a última coisa em sua mente. Algo que parecia os lábios dele tocaram de leve o topo de sua cabeça. “Minhas desculpas, querida.”


“Como você pode me chamar assim?” Denise perguntou em um sussurro. “Se houvesse um bom motivo para terminar com alguém, se transformar em uma criatura de quatro patas seria ele.” “Eu sou um vampiro. Meus amigos mais próximos são vampiros e ghouls, e há um fantasma flutuando do lado de fora desse quarto. Eu lidei com demônios, magia negra, espectros e zumbis nos últimos dois anos sozinho, então temo que sua capacidade de mudar de forma não vai me fazer fugir com medo.” Denise ficou em silêncio por um momento. Então, “Quando você fala assim... você soa com um doente mental.” O peito dele balançou com a risada. “Posso aceitar isso.” Um pouco do peso esmagador de sua auto repugnância se aliviou, mas a vergonha ainda a envolvia. “É, bem, eu sou uma covarde.” Spade relaxou o abraço o suficiente para que ele pudesse olhar para ela, com uma carranca enrugando seu rosto. “Por que você diria isso?” Ela queria evitar o olhar dele, mas isso seria prova maior de seu estado, então Denise olhou direto nos olhos dele enquanto falava. “Porque mesmo que parte de mim pense que é assassinato, eu vou entregar Nathanial para Raum. Não pra salvar minha família, mas para salvar meu próprio traseiro.” “Claro que vamos entregar Nathanial pra Raum,” Spade falou, acenando a mão. “Você não está oferecendo um inocente para pagar sua própria dívida. Isso faria de você uma covarde, particularmente é como Nathanial tem sido, deixando os descendentes dele pagarem por sua fuga de Raum. Não me diga que o sujeito não sabia que outros iriam pagar por isso. Você não quebra um acordo com um demônio sem esperar conseqüências. Spade a virou até que ela estivesse totalmente de frente pra ele, seus olhos brilhando com pontos verdes. “E mesmo se você me implorasse para não fazer, eu ainda veria Nathanial ser entregue a Raum. Você não é uma covarde Denise. Você, na verdade, não tem escolha.” Ela estava emocionalmente desgastada demais para falar mais sobre Nathanial. “Eu preciso tomar banho – e escovar os dentes. Ugh, eu nunca mais como atum ou bebo leite de novo.” “Por mim tudo bem, mas você precisa comer alguma outra coisa, e logo.” Lembranças da voz de Nathaniel ecoou em sua mente. Stress, dor, medo, fome, excitação... todas essas coisas, se deixar crescer, irão engatilhar a transformação. Denise pensou nas outras vezes em que suas mãos se


transformaram. Nathanial estava certo; tinha sido uma combinação de fome, raiva, excitação e stress. Aposto que estar estressada, com fome, então ser esfaqueada e ver a reação de Spade a isso tinha derrubado qualquer defesa que as tatuagens tinham dado contra a essência de Raum. Bem, ela certamente nunca mais pretendia repetir aquela combinação de circunstâncias. Um tremor atravessou Denise, sua mão deslizou por baixo da toalha de novo para sentir a certeza da maciez de sua barriga. Nenhum pelo, nenhum ferimento. Ela pretendia continuar assim. Spade a colocou de pé, mas não saiu. Denise pigarreou, sentindo as bochechas esquentarem. “Ah, você poderia me dar um pouco de privacidade? Eu preciso usar a caixa de areia.” Os lábios dele se contorceram com o trocadilho, então ele beijou a mão dela. “Eu vou encontrar alguma coisa pra você vestir.” “O que aconteceu com as roupas na minha maleta?” “Elas estão no fundo do Mediterrâneo com o barco.” Oh. Ela não lembrava muito do que tinha acontecido logo depois de deixar o barco, mais preocupada com o terror sobre de repente ser um animal. Denise deu um sorriso torto a Spade. “Apenas coloque o barco afundado na minha conta.” Provavelmente ela era a namorada número dez mil e um de Spade, mas até agora, ela provavelmente se mostrava ser a mais cara. “Pare de se preocupar com coisas assim. Eu não me preocupo.” Spade beijou a outra mão dela. “Eu te vejo logo.” Ele saiu, fechando a porta. Denise olhou para a maçaneta inútil pendurada e então para seu reflexo. Qualquer situação é encarada melhor com uma bexiga vazia e um corpo limpo, ela se lembrou. Oh, e sem hálito de vômito de atum. ___ Depois de Spade colocar algumas roupas sobre a cama para Denise – e jogar fora os restos de leite e atum – ele encontrou Crispin na sala de estar bebericando um uísque e fazendo o líquido girar em uma contemplação silenciosa. “Onde está Nathanial?” Spade perguntou. “Em uma das celas para conter vampiros no porão. O melhor lugar para ele. Ele teria que se transformar em vapor para escapar daquilo, não que ele tenha


alguma intenção em tentar fugir.” Crispin tomou um gole da bebida, fez uma cara cínica e baixou o copo. “Ele acha que você é o herói dele.” Spade se sentou na frente dele. “Ele disse isso? Ou você ouviu nos pensamentos dele?” “Nos pensamentos dele,” Crispin respondeu. “O sujeito acha que você o roubou de Web para ajudar a controlar a essência de demônio em Denise. Ele não faz idéia que está para ser trocado pela remoção daquela essência.” Spade processou isso sem um pingo de simpatia. Ele iria muito além de sacrificar um sujeito sem valor que assinou seu próprio destino para salvar Denise da destruição daquelas marcas. “Nós precisamos mantê-lo longe de Denise o máximo possível. Ela já começou a sentir culpa sobre o assunto.” “Concordo. Quando você pretende invocar o demônio?” A boca de Spade torceu. “Gostaria de fazer isso agora mesmo, exceto pelo fato de que há um pequeno porém em eu não saber como matar Raum. Eu não sou ingênuo em acreditar na palavra do demônio de que ele vai libertar Denise ao invés de simplesmente matá-la assim que ele tiver Nathanial de volta.” Crispin lhe lançou um olhar perspicaz. “Seu rapaz no porão pode se mostrar útil pra isso. Se ele acha que você tem intenção de destruir Raum, eu aposto que ele seria mais do que acessível com qualquer informação que ele tenha pra ajudar nisso.” Spade apostaria isso também, mas ele não tinha intenção em destruir Raum a menos que fosse uma última solução. Ele queria as marcas fora de Denise. Não matar Raum logo de cara, a condenando a carregar as marcas do demônio para sempre. “Cat está dormindo?” ele perguntou distraidamente. Crispin balançou a cabeça confirmando. “Assim que ela soube que Denise estava de volta em segurança, ele não conseguiu mais se segurar.” Ian entrou perambulando, seu olhar cor de turquesa fuzilando os dois antes de ele se sentar em uma cadeira. “Lamentavelmente injusto, com certeza,” ele observou. “De nós três, eu sou o que sempre colecionou o raro e extraordinário, mesmo assim vocês dois conseguiram arrumar as mulheres mais extraordinárias. Primeiro você, Crispin, com a única mestiça viva, que então se transformou em uma vampira ainda mais extraordinária. E agora você, Charles, apanhou uma metamorfa. Achei


que você estava brincando quando disse que Denise era a gatinha. Estou simplesmente verde de inveja.” “Denise não vai ser uma metamorfa por muito tempo,” Spade disse rispidamente. “E assim que ela tiver aquelas marcas retiradas, eu também não pretendo que ela permaneça humana.” Assim que as palavras saíram de sua boca, os cabelos na nuca de Spade se arrepiaram. A expressão sinistra de Crispin apenas confirmou. Devagar, Spade se virou para dar de cara com o olhar chocado de Denise. “Bootleg e Lyceum estavam certos. Você realmente espera que eu me transforme em uma vampira.” A voz dela estava cheia de incredulidade. “Por que você pensaria que eu faria isso?” ___ Bones e Ian deixaram a sala sem falar nada. Denise mal os notou, concentrada no rosto de Spade, esperando que ele dissesse que ela entendeu mal o que ele quis dizer. Mas ele não o fez. Ao invés disso a expressão dele escureceu enquanto ele se levantava. “Por que eu pensaria que você faria isso?” ele repetiu. “Por que eu não pensaria, agora que estamos juntos? Você não acreditou realmente que eu iria me contentar ou permitir que você permanecesse humana, acreditou?” Denise sentiu a traição brotando nela. Ele simplesmente decidiu que ela mudaria sua espécie sem nem ao menos conversar com ela sobre isso? Ela estava determinada a lutar contra sua SSPT* e ficar no mundo dos vampiros, apenas para estar com ele. Mas não importa o quanto ele fosse carinhoso em relação a ela, ele nunca conseguiria superar o preconceito contra ela ser uma humana. Ela achou que Spade a aceitaria como ela era, mas desde o começo, isso não tinha sido bom o suficiente. *Síndrome de Stress Pós Traumático. “Eu sempre fui clara sobre o fato de que se eu conseguisse tirar essas marcas, eu ia voltar a ser uma humana normal. Isso não mudou.” Spade estava na frente dela em um piscar de olhos, suas mãos segurando tão forte os ombros dela que quase chegavam a doer. “Você estava disposta a sacrificar sua humanidade para proteger a minha vida, porém você não está disposta a sacrificá-la por nosso relacionamento?” Ele soltou uma risada cruel. “E eu aqui acreditando quando você disse que não estava interessada em uma transa casual, mas está claro que é tudo o que eu significo pra você.”


Denise o empurrou, mas nem ao menos o fez se mover. “Eu não deveria precisar me transformar em uma vampira para ser boa o suficiente para um relacionamento com você!” “Fantasiando sobre virar um ghoul então? Ótimo, que seja,” ele disse com raiva. Ela ficou boquiaberta. Ele realmente desprezava tanto os humanos assim? “Eu não vou mudar minha espécie apenas para ser merecedora de um relacionamento com você,” Denise soltou, a raiva penetrando sobre a mágoa da rejeição. “Se eu não sou boa o suficiente para você do jeito que eu sou, então nós terminamos.” Os olhos de Spade ficaram verdes e as presas ficaram salientes. “Que seja então. Eu te desejo alegria em sua curta vida.” Ele girou nos calcanhares e saiu, sua graça e velocidade sobrenatural enfatizando que as diferenças entre eles eram intransponíveis. Denise ouviu a porta da frente bater segundos depois. Somente quando ela estava certa de que Spade tinha deixado a casa que ela finalmente permitiu as lágrimas caírem.


CAPÍTULO TRINTA. “Aquilo foi impressionantemente inadequado da sua parte.” Spade praguejou, mas continuou andando pela floresta densa que contornava a casa, não se dignando a responder para Ian. Os sons das folhas amassadas pelos passos continuavam atrás dele. “Se eu fosse apostar, eu apostaria que a jovem está em lágrimas nesse momento,” Ian prosseguiu. O maxilar de Spade se apertou. “Nem malditamente perto. Foi ela quem me dispensou, não o inverso.” “Humm. Eu imagino. Se você se conformou com as coisas estarem terminadas entre vocês dois, então eu acho que vou voltar para a casa e ver se a encantadora metamorfa está precisando de algum consolo–“ Spade colou Ian contra uma árvore quando uma risada familiar o fez baixar as mãos. “Realmente, tudo terminado com ela, realmente está,” Ian zombou dele. Ele se forçou a se afastar de Ian, praguejando por ter caído tão facilmente naquela. “Não importa que eu ainda tenha sentimentos por ela. Como humana ela é tão boa quanto uma morta e eu não vou passar por isso de novo.” A compreensão queimou como faca em seu coração. Adorável, corajosa, teimosa Denise. Apodrecendo em um túmulo em poucas décadas – se ela tivesse sorte. Mais cedo se não tivesse. Ele não poderia tolerar isso. Com Giselda quase o tinha destruído. “Seu problema é que você é honesto demais para o seu próprio bem,” Ian disse. “Se eu fosse você, eu transformaria Denise sem levar em consideração as objeções dela.” Spade deu uma risada fria. “Companheiro, eu sei disso melhor que qualquer um.” Ian deu de ombros. “Sim, você e Crispin sabem, não sabem?” Ele parou e lançou um olhar duro ao vampiro na frente dele. Ian encarou de volta sem se desculpar, inflexível. O mesmo olhar que tinha dado à ele 220 anos atrás, quando ele foi responsável por Spade ser transformado em um vampiro. Ian pode não ter sido seu criador, estando muito fraco depois de ter transformado Crispin, mas Spade foi transformado porque Ian pediu um favor, ignorando que Spade não queria.


Por vários longos e impiedosos segundos, Spade considerou o que Ian disse. Ele eventualmente perdoou Ian, afinal de contas. Assim como Crispin. É certo que Denise poderia odiá-lo por cem anos se ele a transformasse contra sua vontade, mas pelo menos ela estaria viva para odiá-lo. Não alimentando vermes debaixo da terra. Mas ele conseguiria realmente fazer isso a ela? Fingir aceitar sua humanidade e então arrancá-la assim que aquelas marcas fossem retiradas? Se ele fizesse isso, como ela poderia confiar nele novamente? Ele e Crispin perdoaram Ian, sim, mas a natureza do relacionamento deles era bem diferente como amigos traídos versus uma namorada traída. E se Denise não percebesse que era uma traição? Ela provou ser susceptível ao poder de sua hipnose antes. Ele poderia plantar a idéia na mente dela para aceitar a transformação. Ela nunca lembraria que não tinha vindo dela... Com uma maldição violenta, Spade balançou a cabeça e começou a andar novamente. “Não. Eu vou ter algo real com Denise ou nada.” “Tolo,” Ian gritou de trás dele. Ele contraiu o maxilar novamente. Podia ser verdade, mas era a decisão dele afinal de contas. ___ A batida na porta do quarto fez o coração de Denise dar um pulo. “Entre,” ela gritou de uma vez. Aquela breve esperança morreu quando Bones entrou ao invés de Spade. “Mesmo que eu não pudesse ler seus pensamentos, o seu cheiro de desapontamento é predominante,” Bones registrou. Denise caiu de volta na cama. Ela tinha tentado, sem sucesso, dormir desde que Spade saiu furioso. Teria ele ido embora para sempre? Pode ser que sim. Bones e Cat eram mais do que capazes de entregar Nathanial para Raum. “Claro que Charles não foi embora para sempre,” Bones disse, sentando na cadeira perto da cama. “Ele está um pouco puto da vida, mas ele vai voltar, no mais tardar, até o amanhecer.” “Sabe, eu nunca percebi o quanto intrusivo é essa sua habilidade de ler mentes,” Denise disse secamente. “Você não pode mudar pra outro canal ou algo do tipo?” “Você não percebe o quanto Charles gosta de você? Denise zombou. “Você não pode gostar do que você não respeita, e Spade tem respeito nenhum por humanos.”


“Não é verdade. Charles respeita humanos sim. Ele apenas tem evitado gostar de algum humano novamente porque humanos sempre morrem,” Bones disse suavemente. “Vampiros morrem o tempo todo também,” Denise revidou. “Vampiros não podem morrer pelo passar do tempo, doenças ou acidentes. Ninguém pode se proteger contra qualquer forma de morte, mas a morte é muito mais próxima dos humanos do que dos vampiros ou ghouls. O que aconteceu com Web obviamente fez o medo de Charles sobre sua mortalidade aumentar ao nível de deixá-lo furioso quando você rejeitou a idéia de algum dia se tornar uma vampira.” “Mas eu não quero ser uma vampira,” Denise disse, frustrada. “Por que isso é uma coisa tão irracional para Spade entender?” “Porque isso significa que ele vai te enterrar algum dia,” Bones respondeu. “Um dia em breve, pelo modo de um vampiro pensar. Não é como um relacionamento normal, onde há uma chance de que a duração da vida dos dois seja parecida. Com um humano, uma morte precoce é certeza. Se a situação fosse ao contrário, você se contentaria em deixar Charles morrer, se você pudesse evitar? Não se lembra do que você disse quando encontrou o corpo de Randy? Você gritou para que eu o ajudasse. Era tarde demais, mas se não fosse, você teria exigido que eu fizesse o que quer que fosse necessário para garantir que você e Randy pudessem estar juntos ainda.” A lembrança atravessou retalhando brutalmente em sua memória. Vampiros por todos os lados, sujos de sangue e sujeira. Ela escorregou, caindo em cima de algo escuro e pegajoso. A mancha cobria o chão, aumentando em direção a cozinha. Uma luz verde vinda do olhar de um vampiro que estava passando por ela iluminou um pedaço de alguma coisa grande e desfigurada na frente dela. O que era aquilo? Com o olhar impressionado ela reconheceu as formas e começou a vomitar. Pedaços de uma pessoa estavam por todos os lados. O brilho do olhar de outro vampiro refletiu em algo brilhante no pequeno monte de massa que estava perto da sua perna. Era uma mão, com uma aliança de ouro e prata familiar... “Você está certo,” Denise reconheceu, com a voz rouca devido a lembrança do sofrimento. “Eu teria feito qualquer coisa para nos manter juntos.” Bones ergueu uma sobrancelha. “Então agora você deve perguntar a si mesma, você sente o mesmo por Charles?” ___


Spade entrou com tudo pelas portas da frente da mansão do mesmo jeito que o fez ontem – falando com ninguém e indo direto para um lugar. Dessa vez não era no quarto do andar de cima. Era no andar de baixo, depois do porão onde ficavam os quartos da meia dúzia de humanos que eram residentes permanentes lá, direto para a entrada protegida da adega. O vampiro que estava de guarda abriu a porta sem falar uma palavra, deixando Spade entrar no corredor estreito de concreto reforçado que tinha apenas duas portas nas extremidades opostas. As paredes eram tão grossas ao redor daqueles aposentos que Sade não podia ouvir um batimento cardíaco pra saber em qual Nathanial estava. Ele estava no primeiro em que Spade verificou, dormindo na cama estreita. O quarto era desprovido da maior parte dos confortos, pois era uma cela para segurar vampiros recém criados. Um vampiro levava, em qualquer lugar, de alguns dias a uma semana para controlar a fome alarmante que poderia fazer com que ele ou ela matasse qualquer humano que estivesse por perto. Era por isso que esses quartos eram perfeitos para segurar um metamorfo. Não importa em que forma Nathanial se transforme, ele não seria capaz de quebrar as paredes que foram construídas para resistir a um vampiro novo e enlouquecido. Mas Nathanial não tinha se transformado. Porém, só por garantia, Spade fechou a porta atrás de si. Ela era lacrada por travas automáticas. Ele precisaria do interfone para informar ao guarda quando o deixar sair. “Acorde,” ele disse, dando uma sacudida no homem. Nathanial disparou em uma série de movimentos agitados que fizeram Spade o imobilizar contra a parede com as presas para fora, a fúria fluindo devido a tentativa de ataque sorrateiro. Mas assim que os olhos de Nathanial focaram em Spade, ele parou de se debater. “Oh, é você,” Nathanial disse, relaxando. “Você me assustou.” Spade o empurrou de volta para a cama estreita. “Devo acreditar que isso foi um acidente?” ele perguntou com um sarcasmo pesado. Aqueles olhos castanhos que eram tão parecidos com os de Denise o encararam. “Você não sabe o que normalmente acontece quando alguém me cutuca quando estou dormindo. Eu aprendi a acordar lutando.” Spade podia imaginar o que acontecia. Pacote de negócios. Ele ainda não conseguia sentir pena do homem. Não depois do que Nathanial custou a Denise – e agora a ele – mas ele certamente fez Spade apreciar mais ainda a lembrança de massacrar os guardas de Web. Ninguém merece viver depois de fazer isso.


“Você não poderia estar mais seguro comigo em relação a isso,” Spade respondeu. “Eu estou aqui para aprender tudo que você sabe sobre matar demônios.” Nathanial sorriu ao ouvir isso, fazendo seu rosto parecer mais infantil. Ele devia ser bem jovem quando fez aquele pacto com Raum. Vinte? Vinte e um? “Agora esse é um assunto do qual eu gosto de falar,” Nathanial disse com óbvio deleite. “Apenas acerte um no meio dos olhos com aquela faca. Morte instantânea.” “Que faca? Uma faca de prata? A cor sumiu do rosto de Nathanial. “Quando você me pegou, você não pegou a faca também?” “Que.Faca,” Spade proferiu, sua calma já se esticando ao ponto de romper. Nathanial se levantou reclamando, seus movimentos muito mais rápidos do que seriam os de um humano. “Como você poderia não saber sobre a faca? Você sabia de mim! Você sabia o que eu era, o que a garota era, e como aconteceu. Como você não podia saber sobre a maldita faca?” Spade o golpeou quase de forma casual, fazendo Nathanial se espatifar sobre a cama. “Não perca seu tempo se queixando de mim quando você deveria estar respondendo minha pergunta.” O lábio de Nathanial estava sangrando aonde Spade o acertou. Ele estancou o sangue imediatamente, limpando no cobertor, olhando para Spade com tensão exalando por todos os poros. Então Nathanial soltou uma risada curta e sem divertimento. “Você é o primeiro vampiro em setenta anos que não vai atrás do meu sangue. Até mesmo os guardas, que eram proibidos de beber de mim, constantemente roubavam uns goles. Eu nem ao menos sei como reagir com você o ignorando.” “Reaja me contando sobre a faca,” Spade respondeu com um tom frio como gelo. “Apenas armar feitas de seus próprios ossos podem matar um demônio corpóreo. Por isso que os ossos de demônio são quase impossíveis de conseguir. Se um demônio mata outro demônio, ele destrói os ossos. Mas um demônio vai manter uma arma como defesa contra outros demônios. Eu roubei a faca de osso do demônio que me marcou quando o enviei de volta ao submundo. Apenas no caso de ele voltar algum dia.”


Spade considerou o que ele disse. Seu conhecimento sobre demônios consistia na maior parte em informação sobre os não corpóreos que possuíam humanos, então o que Nathanial disse podia ser verdade. Mas também poderia ser pura merda. Só tinha um jeito de ter certeza. Ele agarrou Nathanial, o imobilizando contra a parede. O homem lutou com uma força considerável apesar de seu batimento cardíaco, mas ele não poderia se soltar de Spade. Porém o que ele fez foi fechar os olhos ao primeiro movimento de Spade. Sujeito esperto. “Eu não vou te machucar. Eu só quero ter certeza de que o que você está me contando é verdade. Abra os olhos.” “Não,” Nathanial arfou. “Você poderia me obrigar a fazer qualquer coisa.” “Tenha dó, você tem nada que eu queira exceto seu conhecimento,” Spade replicou brevemente. “Se eu não estivesse falando a verdade, por que eu me importaria em te hipnotizar? Qualquer coisa que eu pudesse querer, eu sou forte o suficiente para pegar sem usar meu olhar.” A pulsação de Nathanial soava como um estouro de boiada e ele cheirava a medo, mas devagar suas pálpebras trêmulas foram se abrindo. Spade usou o poder de seu olhar, procurando dominar a força de vontade por trás daqueles olhos castanhos. O rapaz também era mais forte nisso do que Spade imaginava. Então, mais uma vez, Nathanial precisaria de uma fortaleza mental feita de aço para agüentar o tratamento de Web nas últimas décadas sem ficar louco. Spade afastou esse pensamento, porque o levava a uma relutante admiração que ele não poderia se dar ao luxo de sentir. “Abra sua mente,” Spade disse, com mais poder fluindo dele. Ele sentiu a ruptura da determinação de Nathanial como se fizesse um som audível. Então ele afastou a confusão de conhecimentos até ter certeza de que qualquer coisa que ele perguntasse a Nathanial seria respondida com a verdade. “Como você mata um demônio?” Nathanial repetiu a mesma resposta de antes em um tom monótono que Spade estava acostumado a ouvir de alguém que estava hipnotizado. O rapaz não estava mentindo. Ele realmente não deve acreditar que ao revelar tal informação o trazia mais perto de sua própria destruição. “Por que você acha que te capturei?” Spade perguntou em seguida, apenas para ter certeza. “Para salvar sua namorada,” Nathanial murmurou. “Para que eu pudesse ajudá-la a controlar o poder das marcas.”


Não, Nathanial não tinha idéia de qual era seu destino. Spade afastou uma centelha de remorso. Ele e Denise poderiam não ter um futuro juntos, mas isso não significava que ela não poderia ter um futuro livre da essência do demônio. Spade iria garantir que Denise voltasse a ser humana do jeito que ela queria, com sua família a salvo. Por sua própria culpa, Nathanial era o preço a pagar por isso. “Quem tem a faca?” Spade perguntou, apesar de ele já adivinhar a resposta. “Web. Ele a mantém perto de si sempre. Com medo do demônio matá-lo para me conseguir de volta.” Sem dúvida Raum teria realmente tentado matar Web para reaver Nathanial, se ele soubesse que Web o tinha. Mas agora Spade o tinha e Web saberia que Nathanial contaria a respeito da faca. Maldito inferno, Web estaria esperando Spade tentar pegar a faca. Ele sabia que Spade precisava dela, só que não pelos mesmos motivos que Web a mantinha com ele. A boca de Spade se retorceu. Parecia que Web ia ter outra chance de matá-lo afinal de contas. “Você nunca vai tentar escapar de mim,” Spade disse, olhando profundamente nos olhos de Nathanial. “Diga.” “Eu nunca vou tentar escapar de você,” Nathanial repetiu vagarosamente. Provavelmente Web tinha forçado a mesma diretriz em Nathanial. O rapaz tinha lutado com ela quando Spade o arrastou para fora da cada de Web, mas sem ter consciência do que estava fazendo. No caso de Spade, ele não estava usando o comando para manter Nathanial com ele indefinidamente, mas apenas por um curto espaço de tempo. Só até ele o entregar para Raum, onde, se tudo desse certo, ele também estaria abrindo mão de Denise. Devolvendo a ela a frágil e letal humanidade que acabaria os separando para sempre. Ao reconhecer isso, a amargura cresceu dentro dele, mas ele a afastou. É o que ela quer mais do que qualquer coisa. Até mesmo mais do que a mim. “Certo, então. Acorde,” Spade disse, soltando Nathanial. O outro homem piscou e balançou a cabeça como que para clarear os pensamentos. “Encontrou o que você precisava saber?” O maxilar de Spade se apertou. “Sim.” E ele estava agindo sem rumo.


CAPÍTULO TRINTA E UM. Denise ficou acordada, esperando por Spade retornar. Quando ela ouviu a porta da frente bater, ela correu até o corredor, esperando alcançar Spade antes que ele desaparecesse nos quartos do andar de cima. Mas, embora ela esperasse, ninguém subiu as escadas. Talvez ele tivesse ido direto para o escritório novamente. Denise desceu as escadas e verificou o cômodo onde eles tinham brigado, mas estava vazio. Então ela espiou dentro dos outros cômodos do primeiro andar. Nada. Finalmente ela foi para a frente da casa novamente, o coração dando um pulo quando ela percebeu movimento na entrada. Tão rápido como o otimismo cresceu ele morreu quando a silhueta escura nas sombras se virou e Denise viu que era Alten. Bones estava errado. Estava amanhecendo, mas Spade não voltou afinal de contas. “Oh, oi, Alten,” ela disse querendo disfarçar o embaraço. “Eu estava apenas...” Obviamente esperando por alguém que não ia aparecer. “Se você está procurando por Spade, ele desceu as escadas,” Alten disse. “Ele ainda parecia nervoso. Eu deixaria estar se fosse você.” De uma hora pra outra, o humor de Denise mudou novamente. Ele voltou. Ele pode estar nervoso sim, mas Spade estava de volta. Bom, nervoso ou não, eles iam conversar. Eles tinham muitas coisas para colocar nos eixos para Spade a estar evitando. “O que tem lá embaixo?” Alten deu de ombros. “O café da manhã dele.” Certo. Essa casa era de um vampiro, o que significava que existia um buffet vivo sob eles. Talvez se alimentar faria Spade estar com um humor melhor antes que ela falasse com ele. Ela podia ter esperança. “Me mostre,” ela disse, apertando o roupão ao redor do corpo. “Não acho que seja uma boa idéia – espera!” Denise já tinha se virado e começado a se afastar. Ela encontraria sozinha. A casa era grande, mas se fosse como qualquer outra casa comunitária de vampiros, o porão seria algo reformado em um local aconchegante para viver. “Tudo bem, eu te mostro,” Alten disse, parecendo frustrado. Ela lhe dirigiu um sorriso meigo. “Que bondade a sua.”


A aparência dele dizia que bondade não tinha nada a ver com isso. Denise o seguiu até a parte de trás da casa e desceu a escadaria que levava a – ela achava – um porão pomposamente decorado. Para sua surpresa, apenas dois humanos estavam no grande sofá, assistindo TV. A mesa de bilhar, o local dos computadores, cozinha e sala de exercícios pareciam estar vazias. “Onde está todo mundo?” A menos que essa fosse a menor comitiva de vampiros que ela já viu, estavam faltando vários humanos. O garoto no sofá olhou pra cima. “Está amanhecendo, então eles estão dormindo. Ninguém costuma vir comer ao amanhecer.” Então onde estava Spade? “Onde está o vampiro que desceu aqui agora pouco?” O garoto deu um sorrisinho cínico e apontou para o corredor. “Siga os sons. Kristie é uma gritadora.” Raiva irrompeu em Denise. Spade não podia tê-la substituído por outra pessoa tão rápido, podia? Olha o que aconteceu na primeira noite em que Rachel e Ross deram “um tempo”, uma voz interior zombou dela. Denise rosnou, fazendo Alten levantar as sobrancelhas. Ela empurrou a mão de Alten pra longe dela quando ele foi lhe agarrar o braço, lançando a ele um olhar perigoso. “Pronto pra lutar comigo até um dos dois ir ao chão? Porque é o único jeito de você me impedir de ir em frente naquele corredor.” “Não é–“ “Não o que?” Denise interrompeu Alten. “Não é da minha conta? Eu vou julgar isso!” Denise seguiu pelo corredor que o jovem tinha apontado, ficando ainda mais pálida enquanto escutava gemidos nítidos e altos. Spade tinha chegado a menos de 15 minutos atrás! Bastardo! Algo feriu a palma da mão. Denise olhou pra baixo, nada surpresa em ver aquelas horríveis garras que haviam substituído suas unhas e seus dedos estavam se alongando de forma impossível. Culpa dele. Ela fechou as mãos o melhor que pode sem a machucar novamente e esmurrou a porta de onde vinham os sons, a fúria a fazendo agir de forma impulsiva. “Abra essa porta!”


Alguns segundos depois, a porta se abriu para revelar Ian, totalmente nu, muito ereto e altamente irritado. “Que diabos é o seu problema?” Denise pôde sentir o rubor queimar seu rosto. Atrás de Ian, uma jovem nua também lançou a Denise um olhar irritado enquanto Alten soltava algo que parecia um riso abafado. “Um... deixa pra lá,” Denise gaguejou, virando, escondendo as mãos, aquele rubor em suas bochechas ficando ainda mais quente. Ian bateu a porta, resmungando algo sobre interrupções grosseiras. Os gritos agudos femininos de dentro do quarto reiniciaram quase que imediatamente. “Eu tentei te dizer que não era Spade lá,” Alten disse quando Denise voltou do quarto. Ele nem tentou esconder o sorriso irônico. “Você podia ter tentado mais,” Denise despejou, ainda tentando sem sucesso a apagar de sua mente o que tinha visto. “Eu definitivamente nunca precisaria saber que Ian tinha um piercing lá.” Alten tentou abafar outra risada que foi interrompida pela voz de Spade atrás dele. “O que você está fazendo aqui?” ___ O guarda tinha recém deixado Spade sair da cela de Nathanial quando a voz de Denise o alcançou. Por que ela estava lá embaixo? Havia algo de errado? Será que Raum a tinha encontrado enquanto ele estava fora? Spade subiu as escadas como um louco chegando ao porão a tempo de testemunhar Alten rir. Denise estava na frente de Alten, com o rosto corado, as mãos atrás das costas. “O que você está fazendo aqui?” ele exigiu, a agarrando pelos ombros e a cheirando profundamente. Nenhum cheiro do demônio em sua pele. Sua visão ficou menos vermelha de raiva. A boca de Denise estava aberta e os olhos arregalados. Spade se forçou a soltá-la, dar um passo para trás e a não se aproximar dela rosnando. Olhando para ela, tão adorável, era mais do que Spade podia agüentar. As palavras de Ian soaram em sua cabeça com toda a tentação pecaminosa de uma cobra rodeando uma maçã. Se eu fosse você, eu a transformaria a despeito de sua objeção...


Ele afastou aquela linha de pensamento traiçoeira quando ele percebeu que as mãos dela ainda estavam para trás. Essa não era sua postura normal, e seus ombros estavam se contorcendo como se ela os tivesse mexendo. Spade não a agarrou novamente; ele se moveu para trás dela mais rápido do que ela pôde se desvencilhar. Uma praga escapou dele quando viu as garras apontando de suas mãos mesmo que ela tentasse escondê-las. Ela se moveu parcialmente de novo. Egoísta, bastardo tolo, Spade se revoltou. Ele devia ter considerado essa possibilidade. Certo que saber que Denise não pretendia que eles tivessem um futuro juntos o tirou do sério, mas ele devia ter ficado. Afinal de contas, suas emoções despedaçadas não se manifestariam em uma transformação física horrível como a dela. “Denise.” Spade fez com que a voz soasse mais calma do que ele estava enquanto ele continuava a se xingar. “Eu peço desculpas por brigar com você. Para que você veio aqui embaixo?” Alten começou a se afastar. Denise fixou o olhar nele como se quisesse seguilo. “Eu queria falar com você, mas talvez nós devêssemos esperar até você dormir um pouco,” ela murmurou. Não quando esperar poderia significar outra transformação completa nela. Apesar de que estar tão perto de Denise era como ter o coração perfurado por agulhas de prata, Spade não ia deixar aquilo acontecer de novo. “Me diga agora, sobre o que era que você queria falar comigo?” Os olhos dela ficaram brilhantes e ela piscou. “Tudo está acontecendo tão rápido,” ela quase sussurrou. “Quero dizer, um mês atrás, eu ainda estava de luto por Randy, e agora você me faz pensar sobre me transformar em uma vampira para que possamos ter incontáveis anos juntos, e eu... algumas vezes, não sei se estou pronta para o que eu sinto por você.” Ela estava pensando sobre se transformar? Spade não pôde evitar se não acariciar o rosto dela enquanto cada nervo dentro dele se retesava com uma expectativa ansiosa. Por favor, que seja isso. Por Cristo, ele se desculparia de joelhos por ter saído naquela hora, se fosse esse o caso. “Pronta?” ele perguntou gentilmente, mas também com ironia. “A vida nunca espera até que você esteja pronto. Eu não estava pronto para me transformar em um vampiro, mas eu me transformei. Eu não estava pronto para perder alguém que eu amava há um longo tempo atrás, mas aconteceu. Você não estava pronta para ter o marido assassinado, mas ele foi. Você certamente não estava pronta para um demônio te marcar, mas ele o fez. A nenhum de nós


deve estar pronto para o que sentimos um pelo outro, mas isso não significa que esses sentimentos vão desaparecer.” Spade se abaixou para mais perto dela, com a voz ficando mais baixa. “Aqui estamos, Denise. Prontos ou não.” Ela sustentou seu olhar, seus olhos ainda brilhando. “Você está certo. Eu não me importo se estou pronta; eu preciso de você. E acho que descobri um jeito que vai funcionar para nós dois–“ Spade não conseguiu conter a fome e o desejo que o arrebataram ao ouvir Denise dizer que precisava dele. Seus lábios pressionaram os dela, a língua exigindo a misteriosa e inebriante doçura de sua boca. A língua dela era como fogo líquido aveludado, incendiando sua necessidade mais distante enquanto que, depois de uma breve hesitação, ela retribuiu ao beijo. Spade pegou seus pulsos com uma mão, os mantendo para trás. Não era por medo ou repulsa das garras, mas sim porque fazia com que os seios dela se pressionassem mais inteiramente contra seu peito. Denise gemeu quando ele pegou um de seus sedutores seios com a mão que estava livre, o roupão e camisola de seda que ele tinha deixado para era não era uma barreira de verdade contra seu toque. Ele pegou o mamilo, que já estava duro, entre os dedos e deu uma beliscada leve e sensual. Denise gemeu contra a boca dele. O cheiro dela amadureceu para uma luxúria viciante com o desejo. Ela parecia se afundar em seus braços mesmo que se esfregasse contra ele em um quente e decidido abandono. Ele tinha sido um tolo em pensar que poderia deixá-la ir. Ela invadiu as barreiras que ele tinha erguido ao redor de seu coração, o fazendo sentir mais do que ninguém tinha feito. Mesmo se ele tivesse apenas algumas poucas décadas com ela, teria que ser o suficiente. Denise abaixou a cabeça, interrompendo o beijo, sua respiração atingindo o pescoço dele em profundas arfadas. “Spade... espere...” É verdade, eles estavam no porão com dois humanos os observando com cara de bobos a cada movimento deles. Spade ergueu Denise e andou rapidamente para fora da sala, exigindo sua boca para outro beijo. O desejo fazia com que seu gosto fosse mais forte e mais doce ao mesmo tempo, o incendiando, o fazendo incapaz de não acariciar seus quadris e seios enquanto a carregava. Denise emitiu sons abafados contra a boca dele enquanto sua temperatura parecia subir em vários graus. Seu cheiro inebriante ficava mais forte também,


o hipnotizando. Ele chegou ao primeiro andar quando ela afastou a boca com uma força e velocidade que ele não esperava dela. Algo quente, úmido e inacreditavelmente delicioso se espalhou por sua língua. “Spade, eu–“ Ele não conseguiu evitar e engoliu. Seu gemido gutural a fez parar de falar meias sentenças. Os olhos castanhos fixados na boca dele – e arregalados. Nada que não fosse semelhante a sua própria morte o faria parar de lamber os lábios, e então os dela, para pegar o traço do sangue dela que restava de quando ela se moveu tão rapidamente e arranhou o lábio inferior em sua presa. Spade quase podia sentir a iontoxicante ambrósia se infiltrar em suas veias. Seu coração não batia, mas ele tinha direcionado seu sangue na direção sul logo no primeiro beijo, circulando lá para o manter duro para ela. O sangue de Denise parecia correr por lá também, fazendo com que seu desejo, já fervendo, se tornasse uma fome louca. Agora. Tudo para ela, agora. Como último ato de respeito a propriedade em que estavam, ele andou com grande dificuldade para o quarto mais próximo, não se importando em ver se ele conseguiu fechar a porta com o chute que deu antes de cair no chão em cima dela. ___ O primeiro pensamento de Denise ao ver seu sangue manchando os lábios de Spade foi Oh merda. Então o fogo que surgiu no olhar dele e o jeito que ele dominou sua boca no beijo seguinte a fez decidir que auto-preservação era superestimada. Claro, ela deveria estar gritando por ajuda para Bones, mas era certo que Spade não tinha intenção em deixá-la ir até que os efeitos de seu sangue tomassem seu rumo. Mas apesar de seu sangue ter obviamente o afetado, Spade não tinha tentado mordê-la. Se Denise gritasse por Bones, significaria que Spade iria parar o que ele estava fazendo – e ela não queria que ele parasse. A língua dele mergulhou repetidamente em sua boca, torcendo e retorcendo com intensidade sedutora, logo Denise sentiu que respirar também era superestimado. Uma mão de Spade ainda mantinha as dela para trás, mas a outra... oh, a outra corria por todo seu corpo, do jeito mais erótico e sem misericórdia, apertando, acariciando e sondando; experimentando seu corpo nos pontos mais sensíveis. Ele arrancou violentamente a camisola e roupão com um ruído de impaciência, sua boca no seio dela antes que Denise pudesse respirar. “Tão macia, firme e quente, tudo de uma vez só,” Spade murmurou enquanto ele lambia seu seio. Uma sucção forte e repentina a fez arquear, mas ao


mesmo tempo em que ela se deleitava com as sensações daquele gesto, a mão dele foi parar entre suas pernas, pressionando intensamente seu clitóris. Denise não conseguia parar de gritar. Ela olhou para a camisa de Spade com frustração, querendo sentir a pele dele na dela, não tecido. E as calças... será que ela já tinha odiado alguma coisa tanto quanto ela odiava as calças dele nesse momento? “Me solta,” Denise gemeu, puxando as mãos. Spade as segurou mais firme. “Não.” Um murmúrio baixo vindo contra seus seios fazia de sua recusa algo muito sensual. Claro. Suas mãos tinham garras feias e dedos apavorantes. Não era de se espantar que Spade não a queria tocando nele com elas; elas eram grosseiras e perigosas. Pensar em suas mãos foi um balde de água fria em sua paixão. “Spade, talvez nós não devêssemos–“ Uma pontada de prazer atravessou seu seio, tão afiada e rápida que ela não pôde respirar. Quando ela conseguiu suspirar de forma irregular, o suspiro se tornou um gemido tão repentino, pois um calor arrebatador incendiou seu mamilo. Ela não teve tempo de processar o que causou isso antes que o outro mamilo fosse incendiado pelo mesmo calor inacreditável. O que Spade tinha feito com ela? Denise deu uma olhada para baixo e outro grito a arrebatou. Gotas de sangue pontilhavam seus mamilos próximas a duas marcas distintas de perfuração. Eles palpitavam com o prazer mais surpreendente em harmonia com sua pulsação. De alguma forma, Spade se esfregava entre suas pernas com exatamente os mesmos intervalos que a pulsação, quase a fazendo ter um orgasmo naquele instante. Ainda assim, uma pontinha de medo passou pelo olhar extasiado de Denise. Ele a tinha mordido. Quanto mais de seu sangue Spade podia beber antes de arremessá-lo em uma loucura que o levaria a drená-la, possivelmente até a morte? A boca de Spade estava manchada de vermelho enquanto ele a esfregava entre seus seios, deixando um borrão carmesim. Então ele a trouxe para mais perto, roçando os lábios nos dela. “Me beija,” ele ordenou com uma voz de intimidade. Denise hesitou, dividida entre a urgência de fazer aquilo e sua aversão instintiva ao sangue dela na boca dele.


A mão de Spade foi do meio de suas pernas para apertar seu mamilo. A onda de calor que se seguiu a fez se sacudir para trás tão forte que sua cabeça bateu no chão. Quando ele fez a mesma coisa no outro mamilo, ela estava quase chorando de prazer. Mais. Mais. Não me importo que isso me mate, apenas mais. “Me beije.” Denise colou a boca na do Spade, lambendo seus lábios, provando o sabor forte acobreado, e então passando a língua por dentro para encontrar a dele. Ele emitiu um som irregular e deslizou para frente, seus quadris abrindo totalmente as pernas dela, a mão que estava livre baixou as calças. A forte investida dentro dela foi tão inesperada, profunda e violenta que Denise mordeu a língua de Spade em um reflexo incontrolável. Ele gemeu, investindo de novo com a mesma força, enviando um tremor de prazer pelo corpo dela. “Tão excitante... tão bom.” O murmurar dele no ouvido dela a fez tremer com veemência. Ela arqueou os quadris antecipando a próxima investida – mas ao invés disso ela sentiu a língua dele entre suas pernas. Seus olhos se abriram surpresa que Spade tinha escorregado por seu corpo antes mesmo dela perceber. Agora suas coxas emolduravam a cabeça dele ao invés de seus quadris, o cabelo preto cobrindo seu rosto enquanto ele a lambia com firmeza e uma rapidez impressionante. “Eu não sei o que vicia mais, seu sangue ou seu mel aqui,” ele refletiu com a voz áspera antes de outra lambida intensa que a fez se contorcer em êxtase. Então, uma longa e forte investida a fez gritar no segundo seguinte, Spade a preenchia tão profundamente que ela gemeu. Outra investida, e outra, e outra– A boca dele foi para baixo novamente, a língua estimulando a carne com a mesma fome e frenesi. Antes que ela pudesse gritar de paixão, o membro duro substituiu a língua, a fazendo tremer com as poderosas investidas que a rasgavam por dentro. Denise percebeu que Spade soltou suas mãos somente quando ela se viu sem saber por um momento se a próxima coisa que estaria agarrando com as pernas era a cabeça ou os quadris dele. Ele se movia em um piscar de olhos, alternando continuamente entre a possuir com a boca ou com aquelas profundas investidas de fazer a mente girar. Seus seios palpitavam, enquanto suas entranhas se contorciam com a diversidade de sensações a bombardeando.


Spade se colocou de joelhos, a puxando com ele, as mãos se fechando sobre os quadris dela para segurá-la perpendicular enquanto ele começava a penetrá-la tão rápido, com tanta força que lágrimas saíram dos olhos dela. Mesmo assim, Denise queria mais. Ela queria mais dessa selvageria dele, mais do quanto ele a apertava para segurá-la ou mais do quanto seus gemidos ficavam mais altos e mais urgentes. Seus seios se arremetiam contra o peito dele a cada rápida e ardente investida, mamilos pegando fogo da fricção da camisa dele nas perfurações das mordidas. Ela estava tão perto de gozar. Tão perto... Presas se afundaram em seu pescoço no instante seguinte. Antes que ela pudesse ter medo, o calor a queimou por dentro como uma bomba, a balançando em ondas e mais ondas de êxtase. Aqueles espasmos a controlaram, a fazendo esquecer de tudo exceto as sensações que apertavam e pulsavam, caindo como uma cascata vindo de seu centro, preenchendo seu corpo com onda após onda de êxtase. Ela não sabia se Spade ainda bebia dela, e ela não se importava. Se isso é morrer, Denise pensou, eu recomendo totalmente.


CAPÍTULO TRINTA E DOIS. Não engula. Não engula. Spade repetia mentalmente cada vez que ele mordia Denise, estancando o sangramento das perfurações superficiais com um leve beliscão. A pressão forçava o líquido de suas presas para mais fundo no corpo dela, aumentando o calor prazeroso, até que ela não o percebesse limpando o sangue de sua boca ao invés de engolir. Mesmo assim, na primeira vez que ele ingeriu o sangue, quando ela cortou o lábio, o fez se sentir bêbado, fazendo com que ele a possuísse de forma mais rude do que pretendia – e a forma com que ela respondeu a isso acabou com seu controle. Ele nunca tinha ficado tão excitado por uma mulher, nunca se perdeu tanto quanto quando ele estava dentro de Denise. Ela levou sua força de vontade e substituiu por uma necessidade extrema, o transformando de um conhecedor controlado de sexo para um inexperiente fervoroso que mal podia conter seu esperma. Spade atingiu o clímax logo depois dela, com um urro de satisfação. Ele rolou para o lado até ficar deitado de costas, Denise meio jogada sobre seu peito. Ela estava arfando, seu lindo corpo corado, os dedos, distraidamente, acariciando os mamilos. Em um momento enquanto eles faziam amor, as mãos dela haviam voltado ao normal, com a pele macia e as unhas roídas substituindo aquelas garras e unhas afiadas. “Agora, me fale sobre seu acordo,” ele disse, sabendo que concordaria com o que quer que fosse. “Me dê um minuto,” Denise respondeu, ainda sem fôlego. Spade deu risada. “Leve o tempo que quiser. Eu não vou a lugar algum.” E ele não ia mesmo. Não importando o quanto poderia machucar mais tarde. As mãos macias dela tocaram seu peito. “O que você – ei! Minhas mãos voltaram ao normal. Sorte sua, caso contrário eu o teria rasgado.” Ele pegou uma das mãos e a beijou. “Teria valido a pena.” Ela sorriu, então sua expressão ficou séria. “Quando você foi embora antes, foi somente pela duração de nossas vidas ser tão fora de sintonia assim que eu me livrar dessas marcas? Não por você ter algum problema por eu ser de uma espécie diferente da sua?” Ele podia responder a pergunta dela, mas Spade sabia de outra forma de fazer Denise entender.


“Eu estava apaixonado no século XVIII. Giselda também me amava, mas ela não queria se transformar em uma vampira. Eu pensei que, com o tempo, ela mudaria de idéia. Após um ano de relacionamento, meu criador precisou de mim e eu tive que partir. Mas quando se aproximava o momento do meu retorno, Giselda me mandou uma mensagem dizendo que ela me encontraria em minha casa. No caminho, ela e seu cocheiro ficaram encalhados. Eles não foram muito longe antes dos desertores chegarem.” Spade parou, aquele antigo sofrimento e raiva ainda repercutindo em sua lembrança. Denise enroscou a mão na dele. “Conte-me o resto, Spade.” Ele a puxou para si, encontrando forças pela sua proximidade. “Giselda correu, tentando despistá-los na floresta, mas eles eram mais rápidos. Todos os cinco espancaram, estupraram e a sodomizaram. Mesmo depois de sofrer um ataque tão brutal, Giselda manteve o bom senso e esperteza. Ela fingiu estar morta até ela achar que eles tinham ido embora. Então ela se arrastou e começou a andar em direção a minha casa. Mas o ex capitão voltou para recuperar a espada que tinha esquecido na pressa de tirar as calças. Ele seguiu a trilha de sangue na neve, e quando ele encontrou Giselda, ele cortou sua garganta tão profundamente que quase arrancou sua cabeça. Então ele jogou seu corpo de uma ravina. Foi onde eu a encontrei. Ela estava tão coberta de sangue que eu quase não a reconheci quando olhei pela primeira vez.” Denise suspirou devagar. “E ontem, Web segurava uma faca na minha garganta. Oh Deus, que lembranças aquilo deve ter causado a você–“ “Sim,” Spade disse firmemente. As mãos dela eram bálsamos em seus ombros. “Você está deixando algo de fora. Giselda não teria estado viva pra te contar esses tipos de detalhes.” Spade a encarava sem piscar. “Nós os soubemos depois que Crispin e eu capturamos os bastardos e os forçamos a descrever tudo que tinham feito a ela.” Giselda foi vingada completamente, mas como Denise sabia muito bem, vingança não faz a dor ir embora. Spade tocou seu rosto. Se essa era a chance de fazê-la entender, ele não iria guardar nada. “Eu consegui superar a morte de Giselda, mas eu não conseguiria se tivesse que sofrer pela sua.”


Os olhos dela brilharam com lágrimas. “Como eu disse, eu também não quero te perder. E se... eu ficasse humana, mas eu não envelhecesse e fosse mais difícil de matar?” Somente uma coisa poderia ser responsável por tal estado, mas ele tinha que ter certeza. “Você estaria disposta a beber meu sangue?” A voz dele estava calma, camuflando suas emoções extremas. Denise assentiu, esticando a mão para tocar o pescoço dele com um afago. “Sim.” Spade não pôde evitar – ele a puxou com força contra ele, o alívio transbordando de suas veias em uma sensação quase palpável. Se Denise bebesse dele todos os dias, mesmo que uma quantidade pequena, seria suficiente para extender sua vida indefinidamente. Ela ainda poderia ser morta mais facilmente do que um vampiro, mas com o sangue dele, ela também poderia ser transformada em um ghoul, se ela encontrasse um fim precoce... “Isso significa que estamos bem?” Denise perguntou segurando a respiração. Ele a sentou para trás, com o alívio se transformando em alegria. “Sim. E eu estou incrivelmente apaixonado por você.” ___ Ela ouviu aquelas palavras como se ecoassem através dela. Apaixonado por você, apaixonado por você, apaixonado por você. Uma felicidade como ela nunca pensou que sentiria passou por ela, fazendo Denise sorrir assim como o rosto de Spade ficou embaçado através das lágrimas dela. “Eu te amo também,” ela sussurrou. Sua respiração ficou presa enquanto Spade a esmagava contra ele, levantando e a rodopiando até que suas pernas balançassem loucamente. Denise riu apesar de ela mal poder respirar de tão apertado e possessivo que era o abraço. “Eu nunca pensei que me sentiria assim novamente,” ele suspirou no ouvido dela. “Oh, querida, eu sinto como se você tivesse me trazido de volta a vida.” As palavras dele fizeram lembrar tanto como ela se sentia que sufocou um soluço. Ela tinha sentido aquele vazio terrível e enfraquecedor por apenas quinze meses. Como Spade agüentou sentindo isso por quase 150 anos? A culpa a corroeu por dentro imediatamente depois que ela pensou. Ela não deveria ter levado mais tempo para amar alguém novamente? Spade levou. Ela era uma má pessoa por se sentir assim tão rápido?


Spade a colocou no chão, gentilmente afastando o cabelo do rosto dela. “Você sempre vai amá-lo,” ele disse, como se tivesse lido sua mente. “Isso não morre só porque ele morreu, ou porque agora você me ama. Seu amor por ele é parte de quem você é. É uma linda parte, Denise. Não fique triste com isso, e eu nunca terei ciúme disso.” Os olhos de Denise se encheram de lágrimas de novo. Spade estava certo. Randy e Giselda os haviam feito quem eles eram hoje. Agora eles deixariam o horror de suas mortes para trás e, seguindo em frente, levariam somente as melhores partes deles para o futuro... “Eu quero que você saiba que se fosse possível eu voltar a ser humano, e fosse isso que você quisesse de mim, eu o faria,” Spade sussurrou. “Não há nada que eu não fizesse para estar com você, Denise. Sinto muito que eu não possa lhe dar a vida normal que você queria, mas eu prometo adorar você a cada dia pelo resto de sua nova vida.” “Eu te amo,” Denise falou engasgada, sorrindo quando ele a beijou com uma paixão e fome que a fez curvar a espinha. Três batidas altas e fortes, seguidas por um berro de “Abra essa porta!” a fizeram pular imediatamente, assustada. “Que diabos?” Spade resmungou, a soltando para abrir a porta com uma carranca. Ian estava de pé do outro lado. “O que há de errado com você, batendo desse jeito?” Spade exigiu saber. Ian lançou um olhar perverso a Spade, que vestia apenas sua camisa, e então olhou para Denise enquanto ela fechava o roupão apressadamente. “Pagando na mesma moeda,” Ian disse sussintamente. Então foi embora, assobiando. ___ Spade viu Denise limpar o prato, fechando os olhos enquanto raspava o último bocado de torta de creme de banana. Ela tinha uma cara de felicidade enquanto engolia que Spade tomou nota mentalmente para levar uma fatia grande para cima com ele mais tarde. E então espalhar por toda sua pele. Crispin olhou por cima de seu computador. “Mencheres está aqui.” Spade se levantou, ainda não o sentindo, mas confiando que Crispin estava certo. Desde que Mencheres compartilhou seu poder com Crispin há quase um ano e meio atrás, seu amigo podia sentir o outro vampiro bem antes de qualquer um.


Depois de mais ou menos um minuto, Spade sentiu a primeira movimentação de energia no ar, fraca a princípio, mas distinta, enquanto o poder de Mencheres se estendia e o encontrava. Algo dentro de Spade se ligou, uma forma de conhecimento que ele reconheceria em qualquer lugar, mesmo que ele estivesse entre mil vampiros. Ficava mais forte ao aproximar de Mencheres, até Spade pôde sentir as emoções do outro vampiro tão bem quanto o redemoinho da aura eletrizante que distinguia Mencheres com um dos mais poderosos vampiros existente. Tal era o elo entre Spade e Mencheres, o vampiro que o criou. Spade abriu a porta. Em um minuto um Aston Martin prata dobrava a esquina da entrada de carros. Quando ele parou na casa, um vampiro egípcio de cabelos pretos saiu com uma graça que era impressionante até para os mortos-vivos. “Spade,” Mencheres disse, um sorriso marcando a fisionomia que parecia mais jovem do que Spade, mesmo que Mencheres tivesse bem mais de quatro mil anos. “Eu posso ver que você está feliz novamente. Estou contente.” Spade abraçou Mencheres, acostumado a vibração que tal contato produzia. Seu criador sempre parecia um relâmpago ambulante. “Estou muito feliz,” Spade respondeu, desejando o mesmo para Mencheres. Mas a tristeza emanava de seu criador, escurecendo sua fisionomia com mais melancolia do que qualquer um que parecesse estar com seus vinte e poucos anos deveria carregar. Denise se debruçou na entrada. Ela ficou nervosa em ver Mencheres novamente. A última vez tinha sido naquela véspera de Ano Novo fatídica, mas Spade precisava de seu criador se ele quisesse conseguir a faca de osso de demônio com a menor quantia de perigo. “Oi,” Denise disse, exteriormente parecendo tão calma que se Mencheres não pudesse farejar seu desconforto – ou ler sua mente – ele nunca saberia. “Que adorável ver você novamente, Denise,” Mencheres a cumprimentou, se curvando. Crispin deu boas vindas a seu co-regente de forma mais fria que Spade. Ele ainda não tinha perdoado completamente Mencheres por seu segredo com Cat no ano passado, mas Crispin também sabia o quanto era necessária a presença de Mencheres. Web estaria esperando um ataque, então ele estaria preparado, mas até mesmo as melhores defesas de Web não poderiam parar os poderes de Mencheres. O vampiro mega Mestre podia congelar dúzias de vampiros em completa imobilidade com sua telecinese. Com a ajuda de Mencheres, Spade podia passear e pegar a faca de Web sem o outro vampiro


nem ser capaz de piscar para impedi-lo. O único motivo de Spade não ter trazido Mencheres ao ataque surpresa para pegar Nathanial foi que não havia tempo para seu criador chegar. Porém, assim que os cumprimentos apropriados foram trocados e todos estavam sentados na sala de jantar, exceto por Fabian, que flutuava, Mencheres o surpreendeu. “Eu recebi uma ligação de Web mais cedo,” seu criador declarou. “Ele queria saber se eu sabia que o vampiro que eu criei e meu co-regente tinham atacado sua casa de surpresa para roubar sua propriedade. Quando eu sugeri que Web reclamasse para os Guadiões da Lei se ele tivesse um caso, ele exigiu que eu lhe desse um recado, Spade.” O rosto de Denise ficou pálido, mas Spade não deixou nenhuma emoção transparecer. “E essa mensagem é?” “Web disse, „Eu sei o que ela é e o que você quer, então proponho um trato.‟” Mencheres respondeu, com seu olhar cor de carvão fixo em Denise, com interesse. Spade xingou entre os dentes assim como Crispin resmungou, “Como diabos ele descobriu? Nós afundamos o barco para que nada do sangue dela pudesse ser encontrado.” Spade repassou aquele momento terrível em sua mente, quando Web atacou o barco. Ele havia segurado Denise na frente dele, mas ela usava luvas, então Web não teria visto as marcas de demônio. Então ele a havia esfaqueado no estômago, mas Web não tinha colocado a mão ensangüentada na boca – a menos que tivesse feito isso mais tarde? “Ele deve ter visto minhas mãos,” Denise disse discretamente. “Elas haviam se transformado quando eu agarrei o braço dele.” “É verdade,” Spade sussurrou, lembrando das garras rasgando as luvas e fincando nos braços de Web. “Depois de manter Nathanial por tanto tempo, ele saberia o que causava aquela transformação em você.” Mencheres ergueu uma curiosa sobrancelha negra. “Eu vou ser colocado a par do segredo?” “Não aqui,” Spade disse, com uma sacudida de cabeça indicando o resto da casa. Todos nessa mesa sabiam o que havia no sangue de Denise e todos seus efeitos, mas era o máximo que Spade queria que a informação se espalhasse. Apesar de Web agora saber também. Spade reprimiu outra maldição. A quem ele tinha contado? Será que haviam outros, até agora, correndo para agarrar a


chance de pegar Denise para seu próprio negócio sórdido de Dragão Vermelho? Ele só podia esperar que a ganância de Web o mantivesse em silêncio sobre o assunto. Afinal de contas, Web não queria compartilhar a informação de que Nathanial estava com outros. Talvez ele ainda procurasse monopolizar o mercado de Dragão Vermelho não revelando a outra fonte da droga. De qualquer maneira, não havia possibilidade de Spade o deixar viver. Mesmo depois que Denise se livrar de suas marcas, Web ainda podia persegui-la na esperança de que seu sangue ainda fosse uma droga de alguma forma. E se Web tivesse sucesso em pegar Denise e percebesse que o sangue dela era normal... ele não teria motivo para deixá-la viver. Um pedaço de madeira da mesa rachou em sua frente. Spade olhou pra baixo, percebendo que, inconscientemente, ele apertou a borda até quebrar. “Desculpa,” ele disse, apesar de não se importar com a mesa. “Web deixou um número para eu ligar pra ele?” “Deixou,” Mencheres respondeu. “Você vai ligar pra ele?” “Sim vou. Agora.” Menchere ergueu os ombros em um ato elegante, então discou uma série de números em seu celular, entregando a Spade quando terminou. No segundo toque a voz de Web fluiu pela linha. “Você repassou meu recado para Spade?” “Ele repassou,” Spade disse firmemente. “Que tipo de trato você propõe?” Web soltou uma risada agradável e fingida. “Spade, eu devo dizer que você me surpreende. Matando meu sócio em Vegas. Assassinando meus guardas. Roubando minha propriedade, tudo para tirar de mim a fonte dos meus negócios – quando você já tinha uma fonte. Se eu tivesse percebido que você era tão inescrupuloso, ganancioso e empreendedor, eu poderia ter vindo a te conhecer antes disso. “Eu também sou impaciente,” Spade afirmou com uma voz fria, “então diga sua oferta para um trato.” “Me dê a garota e você pode ter a faca. Você ainda possui metade do comércio de Dragão Vermelho com Nathanial, o que deve ser mais do que suficiente pra você.” Spade engoliu a raiva assassina que o fazia querer listar todos os jeitos terríveis que ele ia usar para matar Web. Ao invés disso, ele forçou a voz a continuar fria e firme.


“Prefiro a garota. Que tal trocar Nathanial pela faca ao invés disso?” Web riu. “Porque sem a faca, Nathanial é uma responsabilidade, como você deve saber agora. Eu não sei como a garota conseguiu as marcas, mas o demônio de Nathanial, se retornar, vai procurar por ele com toda a vingança do inferno. E nós dois sabemos que a garota vale mais do que Nathanial. Eu estou sendo generoso permitindo você manter o que roubou de mim, mas se você não me der algo em troca... bem, eu não tenho nada a perder perseguindo você por toda a terra, tenho?” Spade ficou em silêncio por um longo momento, encarando Denise, que sabia o suficiente por ouvir seu lado da conversa para ela ficar nauseada. “Certo,” ele disse, estendendo uma mão quando Denise engasgou. “Aonde você quer se encontrar?” “Bem aqui em Mônaco, claro,” Web respondeu prontamente. “O píer Fontvieille. Tenho certeza de que você lembra onde é.” O pier que Web tinha sob vigilância. O maxilar de Spade se apertou. Ele estaria indo para uma armadilha onde Web tinha a vantagem de estar em casa. Ele fixou o olhar em Mencheres. Mas eu tenho minha própria armadilha. “Certo, então. Amanhã a noite.” “Estou ansioso para isso,” Web disse levemente. “Oh, mas você tem que entender que se eu ouvir que Mencheres está em algum lugar perto de Mônaco, vou presumir que você pretende me enganar e nosso trato está cancelado. E a caçada começa.” “Você não pode esperar que eu apareça sem proteção,” Spade revidou. “Vamos lá. Sou um homem de negócios, não um estúpido.” Web emitiu um ruído de paciência exagerada. “Ta bom. Traga sua pequena amiga incendiária, se faz você se sentir melhor – apesar de que ela teve alguns problemas com isso outro dia, não teve? Talvez as histórias que ouvi sobre os poderes dela sejam exageradas.” “Crispin nunca permitiria que sua esposa fosse sem ele. Você deve saber disso, então sua oferta de deixar Cat ir não é verdadeira,” Spade disse, com um tom duro. “Nesse caso, eu presumo que sua oferta de trocar a garota pela faca não seja real também, então não temos nada mais a dizer. Pode me caçar o quanto quiser.” “Espere!” Web gritou, assim que Spade estava pra desligar o celular. “Tudo bem, traga o caçador de recompensas também,” Web disse, despejando. “Mas apenas os dois e a garota, ou eu vou pensar o pior.”


Web deve ter uma grande quantidade de poder a postos, para concordar tão prontamente em Cat e Crispin irem com ele. “Um motorista e Nathanial também,” Spade afirmou. “Ou então como saberei que você me trouxe a faca certa e não algo que você escolheu com um vendedor de equipamentos de caça?” Web soltou outra risada baixinha. “Esperto e implacável. Nós podemos ter uma parceria proveitosa no futuro. Oh, e seu motorista tem que ser humano. Não posso deixar você levar outro vampiro forte, posso?” Bastardo inteligente. “Até amanhã a noite.” Ele desligou o celular, silenciosamente olhando para os rostos ao redor da mesa. Todos menos Denise tinha escutado o outro lado da conversa. Mencheres parecia sombrio. “Por que você concordaria em eu não ir, Spade? Você sabe que ele pretende te matar e ele vai saber se eu estiver por perto. Web tem espiões por Mônaco inteira.” Spade olhou fixamente para Mencheres. Então devagar, seu olhar se virou para Cat, a ex-mestiça que agora era o único vampiro existente que sugava alimento ao beber sangue nosferatu ao invés de humano. “Porque seu poder estará lá, Mencheres, mesmo que você não esteja.”


CAPÍTULO TRINTA E TRÊS. A SUV entrou no porto Fontvieille, montes de hotéis glamurosos atrás deles e barcos luxuosos em frente. Porém as luzes ao longo do porto estavam apagadas, a única consideração as muitas janelas de hotéis que dariam vista para o estacionamento. Denise mesmo mal podia enxergar e ela estava lá embaixo, o manto de escuridão seria suficiente para ocultar de qualquer espectador dos arranha-céus o que quer que fosse acontecer nos próximos minutos. Spade olhou para ela no assento do passageiro. Ele não disse nada, mas seu rosto dizia muito. Denise se forçou a sorrir. Spade não poderia gastar nenhuma energia se preocupando com ela. Ele, Bones e Cat tinham o suficiente para lidar tentando ficarem vivos essa noite. E mais uma vez, ela seria colocada isolada, em segurança, enquanto aquilo estava acontecendo. Denise estava tão cheia de ser a pessoa cujos entes queridos lutavam por ela, ao invés de encarar ela mesma o perigo. Se ela pudesse trocar de lugar com Spade, Cat ou Bones, ela o faria em um piscar de olhos. Mas é claro, nenhum deles a deixaria fazer isso. Isso vai mudar, Denise prometeu a si mesma. Ela conhecia o mundo no qual ela estava se comprometendo, então ela aprenderia a melhor forma de viver nele. Isso significava ficar mais dura, mas ela estava pronta. De fato, apesar de ela não ter dito a Spade, ela não estava descartando a possibilidade de se tornar uma vampira algum dia. Beber o sangue de Spade regularmente seria seu experimento. Ela não era a mesma pessoa de antes, ansiosa por esperar afastada da linha de frente. Ou no porão. Mas primeiro todos eles tinham que sobreviver a essa noite. Denise olhou para Cat. Sua amiga parecia agitada, não que Denise a culpasse. Todas as esperanças de vitória dependiam de uma habilidade que Cat não sabia controlar totalmente. Bones e Spade estavam confiantes de que quando fosse a hora, ela iria dar conta. Denise invejava e temia por Cat por aquela incrível responsabilidade. Quando que Denise foi a pessoa confiada a cuidar de tudo para aqueles que dependiam dela? "Tudo certo," Spade disse calmamente. "Vamos fazer isso." Oliver, o motorista humano para esse evento, ficou atrás da direção, mantendo a SUV ligada, mas Denise, Spade, Cat, Bones e Nathanial sairam. Denise olhou ao redor, não notando os outros vampiros que ela sabia que estavam lá. O pessoal de Web. Provavelmente eles estavam escondidos atrás de cada sombra.


O ponto na palma da mão de Denise coçava embora a pequena ferida tenha curado depois que Spade esfregou seu sangue sobre ela. Nada era visível no exterior, mas dentro da palma de sua mão havia uma minúscula cápsula transmissora. Nathanial também tinha uma implantada no mesmo lugar. Apenas para o caso de nos separarmos, então Mencheres pode rastrear vocês, Spade tinha digo. Denise sabia o verdadeiro motivo por trás do transmissor, mesmo que Spade não tivesse falado. No caso de Web vencer e o resto de nós sermos mortos. Web não poderia matar ela ou Nathanial; eles eram muito valiosos. Mas ela e Nathanial eram os únicos que Web pretendia que sobrevivessem essa noite. Ela achou que ia vomitar. O rosto de Spade não mostrava expressão alguma quando ele pegou seu braço em uma mão e o de Nathanial na outra. Seu parente não tinha falado nada, nem no avião em direção a Mônaco e nem no carro a caminho do porto. Denise sabia que Nathanial havia sido informado de seu papel essa noite, mas ela se perguntava o motivo de seu silêncio. Ele estava com medo de ser capturado por Web novamente? Certamente ela estaria, se ela fosse ele, apesar de que o que ela pretendia para Nathanial era muito pior... Denise lembrou que, em primeiro lugar, ela não tinha nada a ver com Nathanial fazer uma barganha com Raum, mas o argumento parecia vazio. Ela olhou para as tatuagens cobrindo as marcas em sua pele. Se houvesse um outo jeito de removê-las. Sua atenção foi tomada quando Web apareceu no fim do pier. Ele devia estar lá o tempo todo; era para onde Spade estava andando, mas ela só o notou quando estava no pier. O cabelo cor de areia desgrenhado de Web era visível na escuridão, mas aqueles olhos cor de cobalto assustadores ainda estavam muito encobertos na escuridão para ela ver. "Boa noite," Web gritou, como se fosse um encontro social. Então ele falou no telefone. "Estamos bem, Vick?" Denise não ouviu a resposta, mas quando a postura casual de Web relaxou ainda mais, ela podia adivinhar o que era. Sim, apenas seis deles haviam vindo para Mônaco, assim como combinado, o que deve ser o que os espiões de Web relataram. "Não confia em mim?" Spade perguntou, com um tom insinuando divertimento. Denise não sabia como Spade podia soar tão friamente natural. Ela estava quase desmoronando perante as circunstâncias, e ela era a pessoa mais segura no pier, assim como Nathanial.


"Apenas sendo cauteloso," Web respondeu levemente. "Você foi um pouco rude durante nosso último encontro." Spade riu daquilo, soltando o braço de Denise. "Tenho certeza de que você teria agido do mesmo jeito se fosse eu." Agora Denise estava perto o suficiente para ver o brilho nos olhos de Web. "Verdade." Ela sabia, claro, mas ver os olhos de Web se agitarem com falça indiferença confirmava que isso era uma armadilha. Web não tinha intenção de deixar Spade, Bones ou Cat sairem desse pier. Seu coração começou a bater rápido. E se não funcionar? "Como você vê, eu trouxe a garota," Spade disse, sem desviar o olhar de Web. "Agora, me mostre a faca." Web retirou um estojo preto fino de seu casaco, parecido com uma caixa de jóias para uma pulseira. Denise piscou. A faca era realmente pequena assim? Web abiu a caixa, revelando uma lâmina pálida que era toda da mesma substância cor de creme desde a ponta afiada até o punho espesso entalhado. Osso de demônio. "Escorregue pra cá," Spade exigiu. "E então eu lhe envio a garota." Web não discutiu, o que deixou Denise ainda mais nervosa. Ele realmente deviam estar cercados para ele se sentir tão confiante. Ele fexou a caixa e então a deslizou pelo pier, os observando com um sorriso cintilante. Nathanial a recolheu, pegando a faca e segurando na luz do luar. Ele assentiu. "É ela." "E agora a garota," Web disse suavemente. Denise deu uma última olhada em Spade antes de andar em frente, devagar. Os olhos de Web passaram por ela de um jeito que a fez sentir andando para seu túmulo. Pacotes fechados. Venda de sangue. Os planos dele para ela a fariam viver num inferno, se ele tivesse sucesso essa noite. Denise estava quase ao alcance de Web quando o sorriso sumiu do rosto dele. Ele emitiu um chiado e seus olhos ficaram verdes. "O que é isso?" Web se irritou. Suas mãos se ergueram lentamente das laterais do seu corpo como se estivessem sendo puxadas por um grande peso. Atrás dela, Denise ouviu Cat gemer. Ela olhou pra trás, vendo as mãos de Cat estendidas para frente e o verde brilhando de seus olhos.


"Mencheres envia seus cumprimentos," cat rosnou. "Corra!" Spade gritou para Denise, puxando várias facas de suas mangas. Gritos irromperam da escuridão, e o porto que parecia vazio de repente estava inundado de movimento. Denise agarrou o braço de Nathanial e eles correram pelo pier, quase colidindo com um vampiro que apareceu do nada. Porém, quando o vampiro foi agarrá-la, ele ficou lento, como se estivesse se movendo debaixo d'água. Antes que ele pudesse tocá-la, Bones cravou uma faca de prata através de seu coração. "Vá," Bones ordenou. Muitos outros vampiros tentaram pará-la, mas eles ascilavam quase como bêbados, como se eles tivessem perdido a coordenação de seus membros. Ela e Nathanial conseguiam mergulhar por baixo dos braços estendidos e continuar ondo em direção ao estacionamento e a SUV. "Rápido," Cat gritou, a voz dela soando cansada. "Eu não posso segurá-los por muito mais tempo." Oliver apareceu, correndo em direção a eles, golpeando e cortando com arrepiante eficiência cada vampiro que cruzava seu caminho. Com os movimentos deles reduzidos a menos que o mais lerdo dos humanos e Oliver estimulado por sangue de vampiro, o pessoal de Web estava quase indefeso. "Depressa," Oliver disse. Os três correram para o estacionamento, pulando para dentro da SUV e partindo antes que Denise recuperasse o fôlego. ___ Web lutava para puxar uma faca enquanto Spade se aproximava, mas ele não pôde mover as mãos a tempo. Por Cristo, ela conseguiu, Spade pensou. Cat não tinha absorvido o poder de Mencheres para imobilizar pessoas, ou então ela não teria tempo de aprender a usá-lo com destreza como seu criador fazia, mas ela ganhou o suficiente ao beber o sangue de Mencheres para reduzir Web e seus homens a uma velocidade menor do que de um humano. Felizmente ela conseguiu desviá-lo dele, de Crispin, Nathanial, Alten e Denise, o que era a maior preocupação deles. Se nenhum deles pudesse se mover, o poder seria inútil. Mas com apenas o pessoal de Web afetado, não importava quantos deles houvessem, eles não teriam chance. Ele quase sentiu pena em matá-los quando eles estavam tão em desvantagem, exceto pelo que eles pretendiam com Denise. Spade olhou nos olhos de Web enquanto segurava sua faca no peito do outro vampiro. E sorriu.


"Você nunca irá usá-la," Spade disse antes de enfiar a faca no peito de Web. Nenhum Kevlar* para atrapalhar o caminho enquanto penetrava ao máximo. Web realmente esperava que sua armadilha fosse o suficiente. * O colete a prova de balas. "Não," Web sussurrou. Spade ignorou. Com dois empurrões firmes, ele virou a faca, rasgando o coração de Web. Quando ele a puxou, Web estava sem vida no pier, sua pele começando a enrugar do jeito que todos os vampiros faziam quando encontravam a verdadeira morte. Cat estava de joelhos, suas mãos estendidas para cima, ondas do poder emprestado de Mencheres emanando dela, lançando uma rede ao redor do porto. O olhar verde brilhante dela encontrou com o de Spade. "Rápido. Eu não posso segurá-los por muito mais tempo," ela disse. Spade olhou para trás dela, vendo Oliver, Denise e Nathanial pulando para dentro da SUV. Ele se sentiu aliviado. Oliver os levaria para fora da cidade, onde Mencheres e Ian esperavam as margens da cidade. Denise estaria segura. Spade se juntou a Crispin para se mover letalmente através do pessoal de Web, os cortando com golpes rápidos e precisos de sua espada. Ele não mostou misericórdia. Cada vampiro de Web era uma ameaça a Denise, se Web tivesse revelado o que estava no sangue dela. As palavras de Nathanial ecoavam em sua mente. Você não sabe o que normalmente acontece quando alguém me ataca quando estou dormindo... Até mesmo os guardas, que eram proibidos de provar de mim, constantemente roubavam goles. É o que esses vampiros teriam feito a Denise. Todos eles mereciam morrer por isso. Com um grito alto, o poder de Cat sobre os vampiros cessou. Urros de raiva rasgaram o porto enquanto os homens restantes de Web lutavam com toda a velocidade e poder de sua herança de vampiros. As mãos de Spade se apertaram em suas facas enquanto ele soltava seu próprio urro de raiva na noite. Ele não se importava se eles ainda estavam em maior número, ele não ia fugir. Deixe-os tentar derrubá-lo. Ele não iria parar de lutar até todos eles estarem mortos. ___ Oliver dirigia a uma velocidade que normalmente assustaria Denise, mas ela não disse nada. Vampiros Mestre podiam correr mais do que sessenta milhas


por hora. Alguns podiam voar nessa velocidade – ou mais rápido. Oliver tinha motivos para afundar o pé no acelerador. "Eu acho que ele o matou," Nathanial murmurou. Um sorriso iluminando seu rosto, o fazendo parecer jovem de partir o coração, mesmo que Denise soubesse que ele era décadas mais velho do que ela. "Eu acho que o filho da puta finalmente morreu!" "Eu tenho certeza que ele matou Web," ela disse, lembrando da expressão no rosto de Spade enquanto ele se aproximava do outro vampiro. Denisse conteve um tremor. Se ela alguma vez visse aquele olhar no rosto de alguém, ela saberia que a morte viria a seguir. "Eu odiei vampiros por mais de setenta anos, mas essa noite eu amo alguns poucos deles," Nathanial disse. Sua voz continha uma satisfação selvagem que vibrava. "Eu espero que ele mate todos eles. Cada filho da puta que sobrar." Denise não disse nada estúpido como, Era realmente tão ruim quando Web o tinha? Claro que era. Se não ouvesse mais nada, pelo menos Nathanial podia se sentir vingado essa noite. Mas ela não podia evitar perguntar uma coisa. "Por que você fez isso? Por que você fez aquele trato com Raum?" Oliver lhe lançou um olhar de censura no espelho retrovisor. "Você não deveria falar com ele," ele murmurou. "Spade disse que ele não queria que você o fizesse." Nathanial a encarou, seu rosto empalidecendo. "O que você disse?" "Por que você fez o acordo?" Denise repetiu, ignorando o que Oliver disse sobre não falar com ele. Nathanial ainda a encarava como se de repente ela desenvolvesse chifres e cauda. Sua boca se abriu e fechou várias vezes antes que ele pudesse conseguir falar. "Você sabe o nome dele. Eu nunca disse a ninguém o nome do demônio. Como você sabe o nome dele?" "Não fale com ele," Oliver rosnou do assento da frente. Denise respirou fundo, encontrando o olhar castanho e chocado de Nathanial. Enquanto ela olhava, ela quase pôde ver o conhecimento se formando nos olhos dele. Quando pôde sentir o horror emanando dele enquanto juntava as peças.


"Ele te mandou atrås de mim," Nathanial sussurrou. "É por isso que seu namorado me roubou de Web. Não para te ajudar a controlar o poder de suas marcas, mas para me devolver a ele."


CAPÍTULO TRINTA E QUATRO. O som que veio da garganta de Nathanial a perseguiria. Era uma mistura de choro e a mais desesperadora risada que Denise já ouviu. ”Eu devia saber,” Nathanial disse, ainda lamentando. “Eles nunca me deixaram perto de você, o que achei estranho já que eu devia estar lá pra te ajudar. Então eles nunca me pediram pra te contar sobre os truques que aprendi para parar a transformação, e também manter os impulsos mais vis sob controle. Há meditações, certas ervas que você coloca juntas em infusão para beber... mas nada disso importa agora, importa?” Oliver diminuiu o suficiente para fuzilar Nathanial com o olhar. “Não fale com ela novamente,” ele disse. “Pare!” Denise gritou. “Deixe ele falar.” “Spade não–“ “Eu sei que Spade não me quer falando com ele,” Denise interrompeu. “Mas até mesmo prisioneiros condenados têm direito as últimas palavras.” Ela olhou firme para Nathanial. “Você nunca respondeu minha pergunta. Por que você fez isso? Você tem alguma idéia do que sua decisão acabou me custando? Raum assassinou não sei quantos membros da minha família procurando por você. Ele ameaçou matar os poucos que restaram e me marcou para me forçar a te encontrar. Você merece falar, mas eu mereço saber por quê.” “Eu não tenho um bom motivo. Eu era um fazendeiro pobre da década de sessenta que esbarrou no ocultismo depois de um sacerdote febril ficou em minha casa. Enquanto ele estava delirando ele falou sobre demônios. Não me assustou; me fascinou. Eu sempre sonhei em ser mais do que eu era e o padre, inconscientemente, me deu as ferramentas pra fazer isso. Quando ele ficou melhor, eu o enganei fazendo ele acreditar que eu queria ajudar o trabalho dele, mas ao invés disso, eu realmente procurei aprender como convocar e prender um demônio. Nathanial parou e suspirou. “Eu tinha dezenove anos. Jovem, estúpido e arrogante. Depois que eu convoquei Raum e barganhei por vida longa e poder, eu o enviei para o lugar de onde ele veio. Eu pensei que ninguém podia me machucar. Mas então eu descobri que não podia controlar os efeitos de suas marcas. Eu queria ser poderoso, mas eu não queria me transformar nos monstros dos meus pesadelos. Eu encontrei o padre que enganei e implorei para ele me ajudar. Juntos nós aprendemos como conter os gatilhos de transformação e como controlar no que eu me transformava, quando aquilo não era o suficiente. Quando ele morreu, ele deixou instruções para outros padres


me ajudarem. Foi um deles que me contou sobre vampiros, e como um vampiro demonologista podia ser capaz de obscurecer minhas marcas no caso de Raum retornar. Eu consegui as tatuagens e pensei... posso ser capaz de viver uma vida semi-normal. Mas o vampiro que me levou ao demonologista sabia que meu sangue era diferente. E depois que eu consegui as tatuagens, ele me vendeu para Web. “Você barganhou sua alma para um demônio,” Oliver disse sem pena. “Você merece o que vem acontecendo com você.” “Eu sei que eu mereço!” Nathanial gritou. “Você não sabe quantas vezes eu desejei poder voltar no tempo para que eu nunca tivesse feito aquela barganha, mas eu fiz. Durante todos os setenta anos com Web, a cada coisa horrível e degradante que ele fez comigo, a única coisa que me mantinha são era saber que sempre podia ser pior.” A voz dele se quebrou em dor. “E agora vai ser, e eu sei que não é mais do que eu mereço, mas isso não me faz ter menos medo.” Denise pensou em seus primos e tias assassinados, seus pais e as enormes ameaças de Raum que ele mataria o resto de sua família se ela não devolvesse o homem sentado em sua frente. Então ela pensou no sorriso corajoso de Randy antes de ele passar pela porta do porão, e da culpa e covardia que a tomaram desde então. “Se você pudesse ter qualquer coisa que quisesse, o que seria?” ela perguntou a Nathanial calmamente. “Isso é fácil.” A voz dele era uma lixa. “Eu quero viver sem ter medo ou ser usado ou ter vergonha. Eu quero uma segunda chance.” Denise fechou os olhos por um momento. Quando ela os abriu, ela sabia o que tinha que fazer. “Oliver, encoste por um segundo,” ela disse. Ele lhe lançou um olhar medido. “Eu não vou deixar ele ir, não importa o que você diga.” “Eu sei,” Denise respondeu. “Eu só quero que você pare por um momento. Eu prometo, eu não vou pedir pra você o deixar ir.” Oliver lhe lançou um olhar desconfiado, mas encostou para a lateral. Nathanial soltou um gemido. “Não se preocupe. Eu não poderia fugir disso nem se eu quisesse – e acredite em mim, eu quero. Mas Spade deve ter feito algo comigo quando me hipnotizou. Eu não posso nem agarrar a maçaneta da porta pra abri-la sozinho.”


“Bom,” Oliver disse brevemente, olhando ao redor antes de colocar o carro em ponto morto. Ele encontrou o olhar de Denise pelo espelho retrovisor. “Parece seguro o suficiente aqui por enquanto, o que você quer?” Denise respirou fundo. “Sinto muito.” Então ela pegou a arma que Spade tinha deixado para ela no banco de trás e bateu com a coronha na cabeça de Oliver. ___ Spade vagava pelas docas, procurando por mais algum homem de Web. O cheiro de morte pairava no ar, aguçado com o aroma pungente de sangue de morto-vivo. Spade apreciou. Era o cheiro da segurança de Denise. A luta tinha sido brutal, mas agora a maior parte do pessoal de Web estava morto. Alguns poucos conseguiram fugir completamente. Cat e Crispin estavam ocupados empilhando os corpos em um dos barcos grandes, onde uma explosão lhes daria uma versão moderna de um funeral Viking. Na opinião de Spade, era mais digno do que eles mereciam, mas eles não podiam deixá-los a céu aberto como estavam para os humanos encontrá-los. Chamas iriam queimar qualquer evidência paranormal no sangue deles, deixando apenas um monte de corpos carbonizados no barco, com idades variadas, para serem encontrados, sem traços sobrenaturais deixados pra trás. Quanto ao monitoramento de Web nas docas... eles seriam encontrados e destruídos. Crispin já tinha hipnotizado alguns humanos para esquecerem da matança que viram. Quando a polícia não apareceu, Spade suspeitou que Web os tinha avisado antes para ficarem longe das docas. Web não podia ter feito de Mônaco seu lar sem ter influência com as autoridades humanas locais. Spade sentiu uma satisfação sombria enquanto procurava pelo porto e nos arredores dos hotéis e não encontrava mais vampiros. Quanto aos poucos que escaparam, ele os encontraria. Eles não tinham um Mestre de sua linhagem para protegê-los agora. Não levaria muito tempo para encontrá-los, especialmente não com a recompensa que ele pretendia colocar neles – preferivelmente entregues mortos ao invés de mortos-vivos. “Spade!” Sua cabeça se virou quando reconheceu a voz de Oliver, o medo percorreu sua espinha. Ele devia levar Denise e Nathanial para Mencheres e ficar com eles até Spade se juntar a eles mais tarde. Spade voou na direção da voz de Oliver, vendo que o outro homem tinha acabado de chegar nas docas. A pé.


“Onde está Denise?” ele exigiu saber, descendo dos céus para agarrar Oliver. “Por que ela não está com você?” “Ela me nocauteou,” Oliver disse debilmente. “Ela esteve falando com Nathanial, e então ela me golpeou. Eu nem a vi levantar a arma, ela foi tão rápida. Quando eu recobrei a consciência, ela já tinha ido. Eu procurei por ela, mas não encontrei a SUV. Eu não sei por quanto tempo estive apagado...” Spade jogou a cabeça pra trás e urrou com dor. Só havia um motivo para Denise ter feito tal coisa. Ela ia atrás do demônio sozinha. ___ “Eu não acho que isso vai funcionar,” Nathanial murmurou. Denise lhe lançou um olhar reprimido. A palma da mão ainda queimava onde ela tinha tirado o transmissor depois de deixar o corpo inconsciente de Oliver na beira da estrada. Aquela pancada na cabeça não levaria muito tempo para sarar, com o sangue de vampiro que ele tomou antes. Ela tirou o transmissor de Nathanial também. Ela não podia passar por tudo isso apenas pra Mencheres rastreá-los e a impedir. “Você lembra qual é a alternativa, certo? Se você gosta de sua alma e quer mantê-la por mais algum tempo, você vai parar de dizer que isso não vai funcionar e começar a pensar que vai.” “Raum é um demônio antigo e poderoso. Você é só uma humana. Como você acha que pode lutar com Raum o suficiente para esfaqueá-lo nos olhos? Chame seu namorado. Ele tem uma chance melhor de derrotar Raum.” “Se eu fizer isso, eu poderia muito bem atirar em você com essa arma. Seria mais misericordioso.” “Você podia atirar em mim quanto quisesse, não vai me matar,” Nathanial disse friamente. “Se fosse fácil de eu morre, eu não estaria aqui. Eu tentei todas as formas de me matar durante os anos. Me enforquei. Atirei em mim mesmo. Me esfaqueei. Pulei de um penhasco. Me explodi. Alguém até cortou minha cabeça fora–“ “Não,” Denise engasgou. “Você não sobreviveu a tudo isso.” Nathanial lhe deu um olhar cansado e esgotado. “Você não sabe o que essas marcas são, sabe? Se eles tivessem me deixado falar com você antes, eu poderia ter dito. Elas são extensões do poder de Raum. Todo o poder dele, incluindo seu poder regenerativo. Então, assim como nada, exceto aquela faca de osso pode matar um demônio, nada, exceto aquela faca de osso pode


matar alguém marcado por um demônio. Levei algum tempo pra descobrir isso, mas então, Thomas me convenceu a não usar a faca em mim.” “Quem é Thomas?” “Era. Thomas era o padre que eu enganei e mais tarde me ajudou.” Denise deu outra olhada nele enquanto dirigia. “Você não pode ter realmente sobrevivido ao ter a cabeça cortada, né?” “Você sabe como vampiros tem os membros crescidos novamente depois de cortados?” Nathanial fez um gesto de cortar através de sua garganta. “Nova cabeça, mesma aparência, no espaço de uma hora. Fez a pessoa que me decapitou se cagar antes de desmaiar.” Denise lembrou de Raum a provocando no dia que ele a marcou, dizendo que agora ela estava além da morte mortal. Ela não percebeu o quanto longe ele queria dizer. “Mas eu sangrei quando Web me esfaqueou. Spade teve que me curar.” “Claro que você sangrou. Mas ele não tinha que curar você. Você teria se curado logo sozinha. Poderia levar um dia. Você não foi marcada a tanto tempo, você disse. Quanto mais você tem a essência do demônio em você, mais rápido você irá curar.” Isso era tudo tão difícil de assimilar – e assustador. Se ela tivesse sucesso, ela seria marcada pelo resto da vida... e aquela vida poderia durar mais do que ela imaginou. Ou poderia terminar antes do sol nascer. “Nós precisamos de Spade se você vai tentar matar Raum,” Nathanial disse pela décima vez. Denise deu uma resposta sem desviar o olhar da estrada. “Você não entende? Spade não vai arriscar minha vida por sua alma. Ele vai te oferecer a Raum em um piscar de olhos. Eu não posso envolvê-lo.” Nathanial ficou em silêncio por um longo tempo. “Por que você está fazendo isso por mim? Assumindo o demônio quando você poderia apenas me entregar e ter de volta a sua vida?” Ela soltou um longo suspiro. Porque ela não poderia viver consigo mesma se entregasse ele ao demônio, sabendo o que aconteceria. Porque ela decidiu que ela não era mais a mesma pessoa que ficou lá embaixo no porão naquela fatídica véspera de Ano Novo. Era hora de ela ser firme. De encarar os monstros ao invés de deixar os outros lutarem por ela.


“Você disse que queria uma segunda chance? Bem, Nathanial, eu também.”


CAPÍTULO TRINTA E CINCO. Denise estava de pé debaixo do píer, a areia terminando em ondas a alguns passos atrás dela. A SUV tinha acabado de afundar sob as águas escuras, se enchendo rapidamente com suas janelas e portas abertas. Denise levantou a arma, mirando em Nathanial. Ela nunca atirou em alguém na sua vida, mas isso estava para mudar. “Tem certeza de que isso é necessário?” Nathanial soltou um suspiro de impaciência. “Você está determinada a lutar sozinha com Raum, então você vai precisar do elemento surpresa – e Denise, mesmo com o elemento surpresa e se transformando em o que quer que você ache que é forte o suficiente para derrotar um demônio, suas chances não são tão boas.” “Você não pode ser mais animador?” Ela já estava nervosa sobre encarar e lutar com o demônio. Ouvir seus pressentimentos das chances dela não estavam ajudando. Nathanial a olhou firme. “Você deveria chamar o Spade.” “Você tem um baita desejo de morte,” ela murmurou. “Pela última vez, eu não vou chamar Spade. Ponto final.” Denise não estava contando a Nathanial o outro motivo para ela manter Spade fora disso, além do fato de que ele absolutamente nunca a deixaria fazer isso. Raum tinha um machado para afiar com Spade depois de todas aquelas bombas de sal. Se Spade aparecesse em algum lugar perto do demônio, Denise não tinha dúvida de que Raum tentaria matá-lo. Com sua capacidade desconhecida para ferimentos, ela tinha mais chances do que Spade. E ela seria amaldiçoada se ficasse pra trás mais uma vez e deixasse o homem que ela amava lutar – e morrer – por ela. “Então se Raum sabe que essas balas não vão te matar, qual é o ponto para eu atirar em você?” “Porque se eu estiver ferido o suficiente, eu não posso me transformar. Você não seria capaz de se transformar naquele dia depois do seu ferimento a faca se Spade não tivesse te curado. É por isso que Web me mantinha quase sem sangue o tempo todo, além de vender o sangue, claro. Ele sabia que se não fizesse isso eu me transformaria em algo que poderia acabar com ele. Se Raum me vir ferido, incapaz de me transformar, ele ficará muito mais inclinado a achar que você não o está traindo.” As palmas da mão dela estavam suando, fazendo a arma ficar escorregadia para segurar. “Onde, ah, você quer o tiro?”


“Se for no ombro, não vai parecer convincente o suficiente. No coração pode me matar, se o Raum remover as marcas de mim. Essa é sua melhor chance de atacar, quando ele estiver concentrado em retirar seu poder de mim de volta para ele. Aponte para o centro. Vai levar tempo o suficiente para curar para que Raum não suspeite, mas deve estar curado o suficiente para não me matar quando eu me tornar humano de novo.” “Mas se eu acertar um órgão principal e você ainda não estiver curado o suficiente quando se tornar humano novamente, isso pode te matar. Eu acho que eu deveria apenas atirar na sua perna ou algo do tipo.” Nathanial acenou com a mão. “Olhe, nós não temos muito tempo. Seu namorado provavelmente está vasculhando a área procurando por você, então se você quer mantê-lo fora disso, você precisa mirar na barriga e atirar em mim agora. Se eu acabar morrendo por causa do ferimento a bala, ainda vai ser um destino muito melhor do que Raum tem em mente.” Denise deu um passo para frente, centralizando a atenção do lado do umbigo de Nathanial, e então puxou o gatilho. Ele cambaleou pra trás, segurando a lateral de seu corpo, vermelho pingando de seus dedos. “Filha da mãe,” ele ofegou. “Desculpe,” Denise disse em vão. “Está tudo bem.” A voz de Nathanial estava rouca de dor. “Agora, esconda a faca do demônio na areia perto do seu pé. Então tudo que você precisa fazer é cortar aquelas tatuagens dos seus antebraços. Assim que o feitiço de proteção for alterado, Raum saberá. Ele virá correndo, acredite em mim.” Denise tentou se acalmar e então se lembrou que ficar nervosa só ajudaria nesse caso. O que estimulava uma transformação? Fome, nervoso, dor, stress e desejo sexual. Ele tinha quatro desses cinco. Seria suficiente para estimular sua transformação. Claro, Nathanial pensou que não havia nada que Denise pudesse imaginar forte ou terrível o suficiente para derrotar o demônio. Bem, Nathanial não estava lá naquela noite de véspera de Ano Novo. Ela viu uma das criaturas que matou dúzias de poderosos vampiros, ghouls e seu marido. Ela invadiu o porão e trucidou a mãe de Cat. Somente o feitiço que criou tais abominações sendo quebrado segundos depois e muito sangue de vampiro salvaram Justina. Raum não tinha idéia do tipo de horror que Denise tinha escondido em seus pesadelos, mas ela estava prestes a mostrar pra ele. “Eu estou pronta,” ela disse, jogando o celular mais acima, na areia, mas enterrando a faca do demônio a poucos centímetros de seus pés.


Então ela pegou uma das facas de prata que tinha roubado de Oliver e cortou seu antebraço, com cuidado para remover somente a pele e não cortar os tendões. Ou artérias. Queimou e pulsou com um ardor terrível, a fazendo suar e engolir o choro. Quase pronto. Quase... “Maldito Deus, isso dói,” ela sussurrou quando terminou. “Cuidado.” A voz de Nathanial era assustadoramente divertida. “Não amaldiçoe Deus agora. Nós precisamos de toda ajuda que pudermos ter.” Denise fez uma rápida caricatura de um sorriso, mas então colocou a faca no outro braço antes de perder a coragem. Doeu tanto quanto o primeiro, e foi mais difícil, com o sangue fazendo a faca ficar escorregadia e seus dedos tremendo de dor. Quando ela cortou a última gravação perto do pulso, ela estava arfando, suas unhas começaram a se curvar como aquelas garras horríveis que agora, ela percebia que sempre foram do monstro em seus pesadelos. Do mesmo em que ela pretendia se transformar em breve. A faca caiu de seus dedos e Denise dobrou os braços, os segurando perto do peito para estancar o sangramento. Quando ela olhou de volta para Nathanial, alguém estava de pé em sua linha de visão. “Olá, Denise,” Raum bramiu. ___ Spade circulava pelos céus de Mônaco, focando a visão em cada veículo que remotamente lembrasse uma SUV. Ele voou sobre todo o principado duas vezes e ainda não tinha encontrado. E se Denise tivesse descartado a SUV e pego outro carro? Afinal de contas, ela tinha uma arma; seria fácil ela forçar alguém a sair de seu veículo. E se procurar pela SUV fosse uma perda de tempo que poderia custar a vida de Denise? Crispin também voava. Cat procurava no chão com Oliver, como nenhum deles era capaz de voar. Fazia quase meia hora e nenhum sinal de Denise ou Nathanial. Ela teria saído de Mônaco tão rápido? Que direção ela teria ido? Droga, por que ela tinha feito isso? Aquele trapaceiro de demônios não valia isso! “Mencheres!” Spade disse de repente em voz alta. Ele se dirigiu para o topo da construção mais próxima, discando seu celular no caminho. “Você a encontrou?” foram as primeiras palavras de seu criador.


“Não,” Spade disse de forma curta. “Mas você não pode rastreá-la de outro jeito? Há alguns meses atrás, suas visões do futuro não estavam mais aparecendo, mas elas retornaram desde então? Ou você pode usar seu poder para ver onde Denise está agora? Soou como se Mencheres suspirasse. “Minhas visões não retornaram. Eu não vejo mais nada... e também não posso usar meu poder para indicar a localização de Denise. Isso também se foi de mim.” “Por que diabos você não encontrou um jeito de consertar isso!” Spade quase gritou no celular, o medo o deixando irracional. “Eu nunca, nem uma vez, pedi para você usar seu poder para mim antes. Por que, agora, quando eu mais preciso de você, você é inútil pra mim?” Ele desligou antes que Mencheres pudesse responder, querendo manter a linha livre no caso de Denise ligar. Ela ainda tinha o celular que ele deu a ela. Estava no banco de trás junto com a arma. Spade tentou acalmar o pânico crescente nele enquanto retornava aos céus novamente. O destino não podia ser tão cruel ao fazer isso com ele duas vezes, podia? Ou talvez, Destino era exatamente cruel assim, o deixando se apaixonar por outra humana, para outra vez, a morte arrancá-la dele. ___ Raum encarou Denise, os olhos negros iluminados com brasas vermelhas e os cabelos castanhos claro soprando na brisa fria que vinha da água. Ele vestia jeans e uma camiseta com “Tem enxofre?” estampado na frente dela. Se ela não soubesse o que ele era, a aparência bizarramente normal não a faria olhar pra ele duas vezes. Mas ela sabia o que ele era, e o cheiro de enxofre a envolveu como um abraço não desejado. “Você ousa me chamar aqui, tão perto da água salgada? Você acha que isso a faz segura? Estou muito, muito desapontado com você,” Raum proferiu, avançando um passo na direção dela. “Você tirou vantagem da minha bondade, quebrou nosso acordo–“ “Raum,” Denise interrompeu. “Olhe atrás de você.” O demônio girou devagar e então sua risada ecoou. Ele cercou Nathanial e o agarrou alegremente, o girando com a mesma exuberância desinibida com que Spade a rodou na outra noite. “Nathanial, meu protegido a tanto tempo perdido, que feliz estou em te ver novamente!” Raum exclamou. Ele até beijou Nathanial na boca, com um som alto de estalido. “Ah, você tem um gosto tão desesperadamente doce. Eu pretendo me divertir tanto com você, você sabe.”


Nathanial gritou por algo que o demônio fez. Denise não podia ver o que era pelas costas de Raum, mas o que quer que fosse, era doloroso. “Você acha que isso machuca?” Raum chiou, seu tom mudando de alegre para algo tão baixo. Denise mal podia ouvi-lo. “Você não tem idéia do que é agonia, seu pequeno lixo traiçoeiro, mas você vai saber. Para sempre.” Não importa o que acontecesse em seguida, Denise estava satisfeita por tudo que fez nas últimas duas horas. Ela não poderia viver sabendo que enviou alguém para o que Raum tinha planejado para Nathanial. Sim, Natnahial fez sua barganha com o demônio, mas droga, ele já tinha pagado o suficiente por isso durante o tempo em que esteve com Web. Ele foi um garoto estúpido que cometeu um erro terrível, mas ele não deveria ser punido eternamente por isso. E se ela sobrevivesse ao que faria em seguida, ela pararia de se punir também. Por deixar Randy ser morto, pelo aborto... tudo isso. É hora de nós dois sermos perdoados, Denise percebeu. Mais do que hora. “Raum,” ela disse, levantando a voz. “Eu quero sair daqui, mas primeiro eu quero que você prove que pode dar meu pagamento.” O demônio se virou, ainda embalando Nathanial em um abraço mais apertado do que um amante usaria. “Oh, verdade?” Raum desdenhou. “E como você acha que vai me fazer provar isso?” O perigoso desafio na voz do demônio teria feito Denise recuar tremente, cinco semanas atrás, mas não essa noite. Ela sustentou aquele olhar avermelhado sem piscar. “Você me prometeu que se eu trouxesse Nathanial para você, você deixaria minha família em paz para sempre. E que você tiraria essas marcas e sua essência de mim, me fazendo voltar a ser uma humana normal. Você pode dizer que estou um pouco esperta com você depois de tudo que passei, então por que você não me mostra primeiro que vou sobreviver ao remover das marcas. Ou eu vou correr tão rápido quando eu puder de volta aos vampiros e você pode tentar me perseguir enquanto carrega Nathanial.” Um sorriso brincou nos lábios de Raum. “Muito fogo de artifício agora, não é? Eu gosto desse seu lado Denise. É muito atraente.” O jeito que ele enfatizou aquela última palavra fez Denise arrepiar, mas ela sabia que era por isso que ele tinha feito. Raum a queria encolhida de medo e assustada, mas se ela o deixasse confundi-la pelo menos uma vez, ela não teria coragem de seguir em frente com o resto.


“Tire as marcas de Nathanial. Deixe-me ver que ele é normal de novo. Então tire as minhas e nós podemos seguir caminhos separados, eu sozinha e você com ele. Como você concordou.” “Não faça isso, por favor,” Nathanial implorou. Lágrimas pingavam de seus olhos e o desespero em seu rosto era palpável. “Isso é muito rápido. Você não quer me torturar quando eu serei capaz de me curar repetidas vezes? Você não queria me fazer gritar por um longo tempo, Raum? Você não pode fazer isso se eu for humano!” Truque inteligente, Denise pensou. A expressão do demônio era séptica quando Denise terminou de falar, mas depois de ouvir Nathanial, ele sorriu com tanta antecipação maléfica que parte dela queria fugir ao mero sinal disso. Não ouse, ela se ordenou. Você pode derrotá-lo. Ele nunca vai esperar que você lute. “Por que, Nathanial, você as aproveitou pelas últimas longas décadas, não foi? Você sabe que não importa o que eu faça com você, é melhor do que vai acontecer assim que você for humano e eu puder te matar. Eu planejei passar meu tempo brincando com você primeiro, mas–“ “Sim, sim, brinque comigo!” Nathanial gritou. Mais lágrimas escorreram. “Eu mereço, você ganhou isso...” “Mas isso será tão mais divertido!” Raum disse, com a voz se transformando em um rugido feroz. Então Raum agarrou os antebraços de Nathanial, as mãos do demônio cobrindo aquelas tatuagens complexas, antes dele enterrar os dedos dentro da pele de Nathanial. Nathanial gritou de forma aguda e penetrante. Aquele cheiro de enxofre aumentou enquanto um zumbido nebuloso parecia preencher o ar. “Sente isso?” Raum falou por entre os dentes. “É o fim da sua imortalidade, garoto!” Agora, Denise disse a si mesma. Ela arranhou profundamente as pernas com as mãos em forma de garras, trazendo uma explosão de dor. Em sua mente, ela focou na imagem de uma das criaturas daquela véspera de Ano Novo. Criaturas tão nojentas, tão poderosas, elas não existiam em lugar nenhum, exceto no mundo sombrio da mais proibída magia negra. Aquele sentimento de caos cego se espalhou por seu corpo, o mesmo que ela sentiu quando se transformou no barco. Porém dessa vez, Denise não tentou lutar contra ele. Ela alimentou a selvageria, a expandindo com todas as


imagens horríveis daquela noite. Focando em todos os detalhes da criatura que meses de anti-depressivos, terapia e distância do mundo dos mortos-vivos ainda não a deixaram esquecer. Sua pele parecia que ia estourar, ondas de dor e energia se movendo por todo seu corpo em rajadas tipo relâmpagos. Somente uma pequena parte dela estava ciente de que Raum se virou para lhe lançar um olhar interrogativo. “Que diabos?” ele murmurou. Um rugido saiu da garganta dela, tão horrível e alto com os sons que a assombravam em seus pesadelos. Então Denise se curvou e puxou a faca de osso da areia. Ela mostraria para o demônio que diabos. Com outro rugido sobrenatural, Denise atacou Raum.


CAPÍTULO TRINTA E SEIS. Spade sentiu a vibração em seu bolso mesmo com o vento ondulando suas roupas. Ele pegou o celular, a esperança saltando nele quando viu os números de quem estava chamando. “Denise!” ele gritou enquanto atendia. “Onde você está?” Um bramido terrível se ouviu ao fundo antes de Spade ouvir a voz fraca de Nathanial. “Rápido. Eu não posso ajudá-la. Eu nem ao menos posso dizer quem ela é...” “Onde ela está” Spade vociferou. Ele mataria aquele cara podre se algo tivesse acontecido a ela. Ele arrancaria a carne de seus ossos– “Debaixo de um dos dois piers comerciais em Porto Vieux, Marselha. Rápido.” Spade xingou enquanto desligava. Marselha era mais de uma hora e meia dali, mesmo na sua maior velocidade. Denise poderia afastar o demônio por tanto tempo? Ele impulsionou o corpo como uma bala na direção norte enquanto discava para Crispin. Ele atendeu ao primeiro toque. “Ela está debaixo de um dos dois piers comerciais em Porto Vieux, Marselha. O demônio está lá. Onde você está?” “Ainda estou em La Condamine, quase duas horas de lá,” Crispin respondeu com declarada frustração. E Mencheres estava ainda mais longe, em Genoa. “Chegue lá o mais rápido que você puder,” Spade disse, desligando. Ele canalizou toda sua energia não em seu corpo, mas em um ponto a sudeste de distância. Ele tinha que estar lá. Não aqui, lá. Agora. Denise precisava dele. Vá mais rápido. Flashes do corpo machucado de Giselda no fundo da ravida encheu sua mente – o cabelo cheio de sangue, o rosto congelado em dor, o corpo ainda mais quente do que a neve ao redor dela. Ela estava morta há apenas umas duas horas antes de ele chegar naquele dia. Saber que pouco tempo tinha passado entre sua chegada e sua morte o assombrava por mais de um século, mas agora ele perderia Denise por meros minutos? Ele não iria falhar. Ele não podia. Vá.Mais.Rápido. O chão ficou borrado abaixo dele. Apenas a extensão de água no horizonte importava, o chamando com o sussurro, Ela está aqui. Se ele se concentrasse


o suficiente, ele achou que quase podia sentir Denise, podia sentir o gosto de sua luta contra o demônio como ácido em sua língua. Vá. Mais rápido. O tempo passou. A água escura à distância se tornou mais do que uma mancha nublada abaixo do céu. As construções alinhadas na costa se cristalizaram como blocos indistintos e deformados. Depois de poucos minutos, ele pôde perceber a basílica como ponto de referência, com sua estátua dourada da Virgem Maria como se ela estivesse espiando por cima de Marselha. Ele mudou a direção um pouco para seguir em direção a Porto Vieux. Não muito longe agora. Vamos, Denise. Continue lutando. Alguns minutos mais tarde, o contorno dos piers se tornaram visíveis. Spade alinhou mais seu corpo, tentando evitar ao máximo a resistência do vendo, sua capacidade de poder no apogeu. Ainda assim, ele não podia ver o que estava debaixo dos piers. Ele não estava no ângulo certo ainda, ele ainda estava muito alto... Spade inclinou o mais baixo que pôde ir sem arriscar bater em alguma das estruturas entre ele e seu alvo. Mesmo com o vento fazendo barulho, o primeiro uivo chegou a sua audição acurada. Eles soavam como o latido dos malditos. Será que aqueles era os sons de Denise ainda lutando com o demônio, ou Raum rindo sobre sua vitória? Vá. MAIS RÁPIDO. Ele avistou a parte de baixo dos piers nos próximos segundos, que pareciam se estender como uma teia no tempo. Os sons vinham daquele que estava mais perto dele. Spade focou nele, vendo uma protuberância masculina que tinha que ser Nathanial deitado na areia. Mas mais a frente dele, com água pelos joelhos, duas formas se confrontavam em um combate violento. Duas formas. O coração de Spade parecia que ia explodir em seu peito. Denise ainda estava viva. E ainda assim, ele sabia que sua força estava deteriorando. Perda de sangue devido a luta combinado com a expulsão de todo seu poder para alcançá-la o mais rápido que ele podia, deixaram Spade quase tonto por passar o limite da fraqueza. Ele chegou a tempo de lutar com o demônio, mas ele quase não tinha energia sobrando. Tudo que eu preciso fazer é segurá-lo até Crispin chegar aqui, Spade pensou assustadoramente. Ele apenas precisava manter Denise viva até lá. Ele podia fazer isso. O demônio não deve ter prata, afinal de contas.


As silhuetas juntas em um jogo de morte ficavam mais claras a cada segundo. Spade nunca tinha visto o demônio antes, mas até a essa distância, era óbvio que nenhum deles estava na forma humana. Dois monstros igualmente horríveis lutavam entre si na arrebentação. Garota esperta, o pensamento passou por sua mente. Denise deve ter arrastado o demônio para dentro da água salgada, sabendo o quanto iria machucá-lo. Mais alguns segundos mostraram que uma das criaturas tinha uma pálida faca de osso. Spade não podia dizer qual era Denise. Uma das criaturas tinha músculos cheios de bulbos, uma cabeça enorme e deformada, e um corpo poderoso coberto com pele que parecia cheia de bolhas. O outro era tão grande quanto, com uma aparência que parecia ser derivada da mais grotesca versão do túmulo– Spade mirou neles, movendo os braços para frente para segurar os punhos em uma linha reta. Com a ferocidade da batalha, nenhum deles percebeu sua aproximação. Seus rosnados e uivos de fúria ressoavam em seus ouvidos, um deles agora parecia muito familiar. Ele avançou sobre a criatura enorme de pele cheia de bolhas com toda sua velocidade, o derrubando para longe do outro. Os dois caindo no chão de areia macia, cobrindo a criatura com água salgada e seu próprio corpo. O tremendo impacto atordoou Spade também, mas ele forçou seu corpo para se virar, segurando a criatura em cima dele. Seus braços apertando ao redor da figura que lutava pra se libertar, tentando travar a cabeça dele na posição. A criatura empinava e batia tão poderosamente, Spade sabia que se ele não a soltasse logo, seus braços seriam arrancados das juntas. “Denise, agora!” ele tentou gritar, mas sua boca se encheu de água salgada e areia. Sua cabeça inteira estava debaixo d‟água. Ela não podia ouvi-lo, ou talvez ela estivesse tão longe mentalmente até para entender. As garras da criatura se fincaram no braço que Spade usava pra segurar ao redor do pescoço. Despedaçando. Dor e pressão cresciam no corpo de Spade, mas ele não soltou. Ele teria que ser cortado em pedaços antes de soltar aquela monstruosidade de volta para Denise– Um grito agudo rebentou pelos ouvidos de Spade, insuportável até mesmo no casulo de água e areia. Então aquela criatura palpitante e que se debatia começou a tremer, suas garras não rasgavam mais Spade, mas ao invés disso, deslizavam. O mar parecia ferver ao redor dele, a espuma nublando a pouca visão que ele tinha, até que não viu mais nada além de espuma branca. E então a criatura que parecia de pedra em cima dele começou a encolher... até ser empurrada e novas garras cravarem em sua pele.


Spade deixou a outra criatura puxá-lo, não afastando as mãos monstruosas que o agarravam. Ele piscou, tentando tirar a areia dos olhos, mas ainda conseguiu ver a rápida decomposição do corpo aos seus pés. As órbitas oculares eram buracos negros com aquela faca de osso ainda enfiada em um deles. Então Spade se virou para a forma grosseira do grande zumbi devorador inclinando a cabeça em sua direção. “Afaste-se, você não sabe se esse é ela!” Nathanial gritou. “Sim, eu sei,” Spade respondeu, gentilmente agarrando os braços deformados e ignorando as pontadas de dor causada pelas garras ainda cravadas nele. “Está tudo bem, querida. Você pode parar agora. Olhe para ele. Você conseguiu. Ele se foi.” E ela tinha conseguido, por mais incrível que fosse. Adorável, corajosa e gentil Denise. Caçadora de demônios. Aquelas garras se soltaram de seus braços e aquela cabeça bestial se deixou cair, olhando para baixo como se estivesse com vergonha. Spade não hesitou. Ele a puxou para um abraço, notando com ironia que na forma que ela escolheu, arrancada direto daquela terrível véspera de Ano Novo, eles era agora da mesma altura. “Está tudo bem, querida,” ele repetiu, a acariciando. “Acabou. Você pode voltar para mim agora, Denise, volte...” Durante os vários minutos que levou para Nathanial engatinhar até lá, cheirando fortemente a sangue, o corpo de Raum tinha se transformado em ossos na arrebentação e Denise tinha se transformado de volta a ela mesma. Spade manteve um pé em cima dos restos do demônio enquanto tirava a camisa e a cobria com ela. A maioria das roupas dela tinham sido rasgadas além da decência na luta com Raum, ou rasgadas por seu corpo expandir em um tamanho muito maior. “Spade,” ela finalmente sussurrou, lágrimas brilhando em seu olhar. “Você me conheceu. Mesmo daquele jeito, você sabia que era eu,” “Claro que sim,” ele respondeu, a abraçando mais forte. Um alívio alarmante o atravessou, misturado com alegria enquanto o pânico das últimas horas se acalmava. Denise estava segura. Ela estava inteira. Ele não pediria por mais nada da vida. “Eu não pude fazê-lo,” ela disse, com a voz macia. “Sinto muito por te preocupar, e por bater em Oliver, mas eu não pude entregar Nathanial a ele. Teria destruído algo em mim que eu me recuso a perder, e eu também não podia arriscar que Raum se vingasse de você por aquelas bombas de sal.”


“Eu não quero falar sobre isso agora.” Sim, ele ainda estava chateado por como ela arriscou a vida de forma tão imprudente, mas ele não queria censurála no momento. Ele estava contente demais por ela estar viva. Ela suspirou de forma irregular. “Spade... as marcas são permanentes agora. Somente Raum podia removê-las, e ele está morto. Eu não posso morrer como estou, a menos que você apunhale meus olhos com aquela faca do demônio, mas eu ficarei assim. Se você não pode lidar comigo sendo uma – metamorfa, eu vou entender–“ “Garota tola,” ele cortou, se afastando para olhar dentro dos olhos castanhos. “De acordo com o que você acabou de dizer, você está mais segura agora do que nunca seria, mesmo como uma vampira. Então eu não dou a mínima sobre sua ocasional mudança de forma. Você poderia se transformar em um zumbi, um lobisomem ou um gato de novo. O que quer que você goste. Eu ainda estarei lá, e eu ainda estarei perdidamente apaixonado por você.” Ela o abraçou com força. “Eu te amo tanto,” ela engasgou. Spade retribuiu o abraço com a mesma paixão, aquele sentimento de alegria e alívio crescendo ainda mais. Ele falou sério. Se Denise fosse uma vampira, bem, prata era fácil de arrumar, mas facas de demônio? A única que ele conhecia estava na cavidade do olho do corpo de Raum, e Spade trituraria os ossos restantes até virarem pó para que nenhuma outra arma pudesse ser forjada dele. Mesmo ela ainda agarrada a ele, Denise começou a rir. “Nathanial pode me mostrar como controlar melhor as transformações, mas mesmo assim, você nunca tem que se preocupar comigo me transformando em um gato de novo. Você não sabia? Sou alérgica a gatos.”


Epílogo. Denise colocou o buquê de flores no túmulo. Elas eram misturadas com pinhas. Ela sabia que ele teria as apreciado mais do que lilases, tulipas e rosas. Ela deu uma olhada pelo cemitério. A primavera estava definitivamente em pleno andamento cobrindo os ramos nus das árvores fazendo com que voltassem a ter seus casacos de folhas. O chão abaixo dela era macio. Aquecido pelo sol. Não duro e frio como foi no dia em que ela o enterrou. “Hey,” Denise disse baixinho, secando uma lágrima enquanto tocava a lápide gravada Randolph MacGregor. Amado filho e marido. “Eu queria te dizer que estou com alguém. Você o conheceu antes. Seu nome é Spade. Sim, eu sei, um vampiro, certo? Nós não estamos juntos há muito tempo, mas algumas vezes... você simplesmente sabe. Eu sabia com você. Eu te disse que te amaria para sempre e eu vou.” Denise fez uma pausa para secar outra lágrima. “Eu amo ele também e eu sei que isso é certo. Pode ser cedo, mas é certo. E eu sei que você teria odiado o que fiz comigo mesma desde que você morreu, então eu queria te dizer que me libertei da culpa e do medo. Quando eu me lembrar de você, Randy, eu vou sorrir, não chorar. Você é uma parte de mim. Uma das melhores partes. Eu só queria te dizer isso.” Ela endireitou o corpo, tocando de leve a lápide mais uma vez. “E se você encontrar alguém chamada Giselda,” ela sussurrou, “diga a ela que ela é parte de Spade também. Uma linda parte. Por favor, agradeça a ela por isso.” Denise tocou os dedos na boca, os beijando, e então colocando contra o nome dele. “Adeus.” Seus olhos secaram enquanto ela andava para onde Spade esperava com o carro, mas elas não tinham sido lágrimas de tristeza. Elas eram de uma lembrança calorosa, e quando Denise andou em direção aos braços de Spade, ela estava sorrindo. “Pronta pra ir, querida?” ele perguntou, beijando o topo da cabeça dela. Ela não precisou olhar pra trás. “Sim, estou pronta.” Nathanial abriu a janela do banco de trás. “Agora eu vou encontrar minha família?” Ele fez a pergunta com tanta esperança que o sorriso de Denise se ampliou. Depois disso, eles iam para a casa de seus pais, onde Denise iria apresentar Nathanial para o resto da família dele, por mais distante que possa ser.


E ela iria reapresentar Spade para seus pais como seu novo genro. Eles haviam se casado duas vezes nas últimas duas semanas. Uma vez com um juiz de paz e uma vez no estilo dos vampiros, cortando as palmas das mãos e se declarando em frente a Cat, Bones, Alten, Ian, Mencheres e um fantasma que Denise ainda não podia ver. Aquele casamento podia não ser reconhecido pela sociedade dos vampiros, pois Denise nunca poderia se transformar em uma, mas para Spade, ele contava, o que era tudo com o que ela se importava. “Agora você pode conhecer nossa família.”

FIM…

A série Night Huntress World continua em Eternal

Kiss Of

Darkness.

Créditos:

Equipe Night Huntress de Tradução. Night Huntress [Oficial]

Jeaniene frost a primeira gota de carmesim 4,7  
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