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O OUTRO LADO DA MATERNIDADE Atualmente 57 milhões de lares brasileiros são chefiados por mulheres., que ao carregarrem sozinhas a responsabilidade de criar um filho, acabam sendo isoladas pela sociedade.

É HORA DELAS O futebol das mulheres já foi proibido por lei, e até hoje as atletas brasileiras sofrem com falta de estrutura, e profissionalização.

MULHERES 7 X MACHISMO 1 Três mulheres diferentes contam como o machismo aparece no mundo geek.

POR QUE MULHER? Youtube lança campanhas com o objetivo de amplificar vozes femininas e questionar diversos padrões impostos às mulheres.

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índice

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EDIÇÃO ÚNICA | JUNHO DE 2017 | FACULDADE CÁSPER LÍBERO

Mãe solteira, NÃO! A realidade por trás do termo popular é complexa. Mulheres que criam seus filhos sozinhas sofrem com a solidão, hipersexualização e exclusão social.

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30 Tudo igual só dentro das 4 linhas A diferença entre a modalidade masculina e feminina é brutal. As atletas brasileiras sofrem com a falta de estrutura, salário, categorias de base e, pricipalmente, profissionalização.

38 Game over no machismo Três mulheres contam sobre suas experiências e perspectivas no mundo geek, nerd e gamer. Em um ambiente predominantemente dominado por homens, o machismo reina.

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50 Lugar de mulher? O maior canal de vídeos do mundo está apaixonado pelas mulheres. A razão é a importância dos temas que elas trazem.Feminismo, pautas LGBT, negritude e construção são alguns dos assuntos abordados.


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editorial

Se estou só, deve ser a solidão de ser a primeira a despertar, de respirar o primeiro sopro frio da manhã sobre a cidade, de ser a única acordada numa casa envolta em sono.”

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O feminismo é o despertar em um mundo adormecido

A sensação de descobrir o feminismo é como o episódio descrito neste poema de Adrienne Rich. É a emoção de respirar pela primeira vez, o fôlego de vida entrando pelas narinas - a esperança de, finalmente, assumir uma posição no mundo. Como todo despertar, entretanto, o feminismo é um choque. É uma rajada fria no corpo após o desenrolar de panos quentes. Choque. Você, de repente, se vê absolutamente acordada, mas sozinha. Todos ao seu redor estão presos em um sono denso, profundo. Você quer acordá-los. Você grita, mas ninguém lhe dá ouvidosv. Está sozinha. Mas espere… Se você for até a janela e abrir a cortina, tenho certeza que haverá uma mulher, Madalena, na casa ao lado… Ela estará abrindo os olhos. Esta edição da revista Madalena surge com o objetivo de desestruturar o estereótipo de revista para mulheres. Foi construída para colocar em destaque figuras invisibilizadas pela sociedade, para posicionar lado a lado, página à página, mulheres que se vêem sozinhas. Mulheres indígenas, negras, portadoras de deficiências, gordas, jogadoras de futebol, simplesmente mulheres. Madalenas. A desigualdade de gênero é o cobertor que aquece toda sociedade, e a Madalena chegou para ser vendaval de inverno.

Publicação experimental para fins exclusivamente acadêmicos, desenvolvida pelos alunos do 2º ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero no ano de 2017. Orientação: Profª Drª Cândida Almeida Reportagem e projeto gráfico: Bruna Frasson, Carolina Cotes, Camila Simões, Isabella Câmara, Nina Ratti. Agosto/2017

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A R T E

Teresinha Soares, Xifópagas uterinas, da série “A mulher em 10 parágrafos”, 1968. Crédito: Jorge Bas tos.

Quem tem MEDO de MULHERES na arte? WANDA PIMENTEL E TEREZINHA SOARES ARTISTAS BRASILEIRAS ENTRE A ARTE Por Nina Ratti

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“ENTRE A WANDA E A TEREZINHA, SOU MAIS A TEREZINHA. A WANDA É MUITO INSTAGRAM, AQUELA COISA DA FOTO NO PRATO”.

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Revista Madalena entrevistou Cristina Silva, historiadora, negra, desenhista e uma das educadoras do MASP presente nas duas exposições em curso no subsolo e mezzanino. A mostra Envolvimento com um conjunto de 27 pinturas marcou o início da carreira de Wanda Pimentel, carioca nascida em 1943. A série chegou até 1984 todavia o período mais produtivo da artista, abordado no museu foi entre 1968 e 1969.

Iniciada nos estudos em 1964 no Rio de Janeiro, Pimentel foi aluna do pintor Ivan Serpa, conhecido por suas rigorosas abstrações geométricas. Influenciada pela arte figurativa como a arte pop americana e inglesa e pelo nouveau réalisme francês mas também pela nova objetividade no Brasil, mesclou estas tendências aparentemente inconciliáveis desenhando formas abstratas geométricas dentro das representações do mundo contemporâneo cotidiano. As pinturas simbolizam o corpo feminino, mesmo que se vejam somente pernas e pés em precisos enquadramentos domésticos como por exemplo a sala, o quarto, a cozinha, o banheiro, o quarto de costura. Os quadros parecem revelar um zoom nos recortes feitos de linhas retas precisas, cores chapa-

das em preto, branco e com mais uma cor primária - o vermelho ou o verde. Há um tensionamento entre os corpos e os objetos e justamente o envolvimento entre eles. Aparecem elementos estruturais submetidos ao rigor, ao controle e à disciplina, ícones do estereótipo feminino, com as panelas e o ferro de passar roupa mas também outros como fios de fumaça, garrafas que transbordam e leite derramado exprimindo desorganização, o caos dentro da ordem. A leitura da obra da artista se insere num contexto histórico específico, o final dos anos 60. A massificação dos meios de comunicação e a indústria cultural estavam em pleno fermento bem como as reivindicações pelos direitos das mulheres pulsantes junto com os movimentos estudantis.

Exposição no MASP “Envolvimentos” de Wanda Pimentel e “Quem tem medo de Terezinha Soares?”. Foto: Nina Ratti

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No Brasil foi a época da ditadura militar (1964-1985), começando com o golpe de estado pelos militares e intensificada em 68 com o AI-5 no fechamento do congresso, proibição de manifestações sociais e políticas e expressões de crítica ao estado de exceção consideradas como atos subversivos. Os Envolvimentos de Wanda Pimentel, saturados e contrastantes, podem então sugerir uma crítica sutil mas pungente ao sistema de repressão passado e que ainda, de certa forma, permeia as camadas políticas de nosso país. A hegemonia do artista masculino na arte e as representações femininas feitas por eles durante séculos construíram uma imagem e mensagem sobre o universo feminino nos quais uma visão única a partir de um dos gêneros sobrepujou qualquer outra perspectiva e anseios que pudessem diferir de um certo padrão criado e reforçado pelos detentores do capital simbólico patriarcal. Ainda sobre a recepção de Wanda Pimentel por parte de duas visitantes paulistas que moram no Rio para estudar Direito e Sociologia, uma delas comenta: “A arte dela tem mais a ver com minha geração como mulher do que com a da minha mãe ou avó”. Percebe-se uma certa conexão com a atualidade e este envolvimento permanece em transformação. Desce-se a escadaria vermelha de degraus largos e hiper baixos ala Lina Bo Bardi e no espaço amplo do subsolo antes de chegar ao restaurante do museu, encontramos Michel, segurança e orientador que trabalha a dois anos e meio no MASP. Sua função é dar as boas vindas, indicar a localização dos textos, obras e fotos, proibir fotos com flashes e limitar a aproximação dos visitantes além das linhas de segurança desenhadas no chão.

“Como você é mulher, não posso falar certos termos para explicar aquela obra da Terezinha Soares. Se você fosse homem, eu não teria problema em dizer. Pode ser que alguém se ofenda ou vá reclamar do que eu falei”, comenta recatado e temeroso o segurança a respeito de uma das obras interativas de Terezinha Soares, uma grande escultura branca que vista do alto revela formas que representam o entrelaçamento do ato sexual e suas sinuosidades. As mais de sessenta obras de Soares entre pinturas, gravuras, cartazes, relevos, objetos, instalações, performances, poesias e happenings foram produzidas entre 66 e 73 numa progressão meteórica e a artista encerrou sua carreira em 76. O principal conteúdo é a representação do corpo feminino nas várias facetas do erotismo, relação do corpo com os costumes morais, o consumo, os mecanismos, o sexo e a política. Os elementos sexuais assumem uma força libertária durante a ditadura e realça a contracorrente das convenções machistas. Quem tem medo de Terezinha Soares? É o nome da exposição dedicada à artista plástica mineira nascida em 1927, escritora e defensora dos direitos e emancipação das mulheres. Além de pioneira em tratar as questões feministas, ela foi professora, funcionária pública, miss e a primeira vereadora de Araxá, sua cidade Natal. O título da exposição remete ao caráter contestatório, transgressor e antipatriarcal de suas obras. Apropriado de um artigo de jornal publicado em 73 relativo à peça de Edward Albee (1918-2016) Quem tem medo de Virginia Woolf ? (1962). Segundo Albee, esta pergunta significa: “Quem tem medo de viver a vida sem falsas ilusões?”. E no contexto da mostra do MASP, pergunta-se: “A quem incomoda

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(e incomoda) a arte de Terezinha Soares e por quê?”. Segundo os educadores do evento, a média de visitantes nas duas exposições têm alcançado o número de 800 pessoas diariamente. A maior parte do público que visita a exposição de Wanda Pimentel também desce até o segundo subsolo para observar e conhecer a mostra de Terezinha Soares.


Não existe nenhuma indicação de censura por faixa etária para ambas. Entretanto, chama a atenção o fato de na semana passada, uma escola católica da capital de São Paulo ter limitado o acesso de suas turmas de crianças em visita à exposição de Terezinha Soares. O tabu sobre o sexo e suas formas, o moralismo religioso ainda estão arraigados

em nossa cultura e permeiam as instituições de ensino brasileiras mesmo em âmbito cosmopolita como São Paulo com uma força restritiva evidente. Entre os anos 60 e 70 as obras feministas revolucionaram a arte mundial contemporânea questionando e criticando a falta de representatividade. Soares e Pimentel são mulheres

expoentes do cenário brasileiro de arte desde os tempos do autoritarismo até hoje e o fato de estarem expostas juntas e complementares em duas mostras em um espaço tradicionalmente elitista e de privilégio urbano como o MASP, pode apontar para uma tendência e reforço dela na visibilidade da causa feminista e sua estética. ■ Quadro de Wanda Pimentel da série “Envolvimentos”, 1968. Foto: Nina Ratti.

Obras de Terezinha Soares, pioneira na arte feminista, no Museu de Arte de São Paulo trata da sexualidade e questões de gênero. WFoto: Nina Ratti.

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A R T E

peito que explode Curadoria: Bruna Frasson

kahuna é estranho como agora me sinto míope para mim. não para o meu reflexo no espelho, sei de cor cada detalhe dele. mas míope para um eu que viveu sempre dentro de mim, fazendo pirraça para os meus desejos, e chorando baixinho quando sua teimosia não reinava. estou, talvez, completamente cega para a poesia fúnebre que sempre me definiu mais do que meu próprio nome. eu sou o desague de tudo que fui, e mesmo assim, não tenho conhecimento o suficiente de mim para nomear todos os meus afluentes. eu sou poesia nova e disforme que ainda não se estabeleceu como gente, não se estabeleceu como bicho, não se estabeleceu como arte.

eu sou uma hemorragia de palavras que, na maioria das vezes, nem rima nem combina. eu sou parte do resultado de todas as minhas adições e subtrações. eu sou o que fica quando me olham. e o que paira junto com todas as coisas que deixei no ar. eu sou o sorriso que morde o canto da boca e diz que é amor. eu sou a minha sensação torta de plenitude individual e o enraizamento de crenças empíricas do meu universo. eu não rimo, não metrifico nem padronizo. eu nasci com um sopro e guardo em mim, o segredo desta leveza desregrada.

(Maria Beatriz da Fonseca)

construção social eu

cigarro construção social associada aos poetas os quais não necessariamente gostariam de fumá-lo alivia a dor.

cada pedaço de poesia um fragmento do meu ser cada verso uma parte de quem sou. sou o que escrevo e escrevo o que sou me descubro dessa forma pois, olhar sozinha para dentro sem testemunho escrito dói.

você construção social relacionada à minha angústia não gostaria de senti-lá mas você me acordou e esqueceu-se de me colocar para dormir.

(Mariana Dantas)

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ojos morochos

você, submarino

estes teus olhos castanhos que eu gosto tanto de mirar tão risonhos, tão distantes.

eu sou mar-oceano e você, submarino ando tão agitada você, tão sóbria, tão metal (que nem minha ressaca puxa) queria ser lagoa e lhe prender dentro de mim.

eu posso ver com meus olhos-sonhos (castanhos-teus) o entrelace macio dos nós dos dedos. esse mar que é teu abraço engolindo meu coração. posso sentir nossas coincidências pulando carnaval (lado a lado). dançando ao vento fazendo festa dessa sorte que foi encontrar.

(Bruna Frasson)

hoje meu coração resmunga por motivo que nem ele conhece tantos são, ele bem sabe mas por que não só os esquece?

tu se foi me fui também tu alvorece eu alvoroço tu floresce eu entristeço tu amanhece eu insônia tu transborda eu vazio tu se encontra perco a mim em tua ausência

a frase não falada o sorriso não dado a mágoa guardada o sentimento contido as expectativas frustradas tudo trancado transborda teimoso não sabes que assim machuca-te só a ti mesmo? destranca-te, coração seja extravasa-te não mais resmungue encante pulsa teu brilho que por nele falar o sol lá fora tá a te esperar

(Bruna Somma)

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H I S T Ó R A

MULHERES

DEMÔNIOS

O mito de Lilith e a demonização da mulher social na atualidade Por Bruna Frasson

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criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Esta passagem, retirada da Bíblia Sagrada, relata o mito da origem do primeiro homem e da primeira mulher. Quando pensamos nestes termos, os nomes que nos vêm à mente são: Adão e Eva. Segundo à Bíblia, entretanto, Eva veio da costela de seu esposo, Adão, e não criada ao mesmo tempo que ele, como a mulher da passagem citada. Quem é essa, então, também formada à imagem e semelhança de Deus? Tal pergunta não pode ser respondida com base no livro dos cristãos, já que, em 325 d.C, quando realizado o Concílio de Nicéia, diversos textos foram reformulados e, até mesmo, excluídos da Bíblia Sagrada. Estes, mais conhecidos como evangelhos apócrifos, foram retirados pela justificativa de não serem considerados frutos de revelação divina. Fadados à destruição, os fragmentos acabaram sendo recolhidos e confinados nos cofres do Vaticano, guardando histórias como de Lilith, conhecida na tradição hebraica como a primeira mulher de Adão. A primeira resistência feminina ao domínio masculino. Com e c e m o s , portanto, a narrativa da dessacralização do femin i n o , da recusa e do abandono.

DE S SACRALI ZAÇ ÃO X DEMONIZAÇÃO A dessacralização do feminino tem origem no momento em que Lilith é ocultada do livro dos cristãos. Entretanto, Mesmo com a tentativa de apagamento, os curadores e editores do livro cristão deixaram passar algumas falhas de discurso, algumas brechas que indicavam a presença da primogênita. Quem ler com atenção, pode encontrá-la nas entrelinhas, nos detalhes – como no fragmento de abertura. Segundo a crença semita, Lilith, em busca por igualdade – já que foi feita do pó, assim como Adão –, rejeita o papel de submissão que lhe foi imposto e foge do Jardim do Éden. Após a fuga, sua imagem é distorcida e transformada, assim como a imagem de qualquer mulher que se atreva a não se curvar diante o patriarcado. E então começa sua jornada como “divindade do mal”, “ruína dos homens e crianças”. “POR QUE DEVO DEITAR-ME EMBAIXO DE TI? POR QUE DEVO ABRIR-ME SOB TEU CORPO? POR QUE SER DOMINADA POR TI? ACONTUDO, EU TAMBÉM FUI FEITA DE PÓ E POR ISSO SOU TUA IGUAL” Passagem retirada do milenar Alfabeto de Ben Sirá

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Adão, sentindo-se sozinho pede outra esposa ao Deus todo poderoso, e ele o presenteia com Eva, feita agora a partir dele, de sua costela – para que não se rebelasse. Seria pura, submissa, mansa, muito diferente da primeira esposa. Na Cabala judaica, Lilith é concebida como a serpente que persuadiu Eva a comer o fruto proibido. E Eva, no livro cristão é tida como a responsável pela ruína do Éden e da humanidade – a que cometeu o primeiro pecado –, já que convenceu Adão a se alimentar da árvore da ciência do bem e do mal. Nem a carne da carne foi poupada da demonização. Adão, é claro, foi completamente eximido da culpa. Lilith adquiriu diversas facetas ao longo da história das culturas; em povos como sumérios e babilônios, ela era cultuada por seus poderes de fertilidade, mas também era apontada como demônio, espírito maligno. Era a deusa da Lua, deusa de fases. Tal associação pode ser comparada a imagem atual que a sociedade interpreta a natureza da mulher. A faceta materna feminina é exaltada e romantizada, enquanto a mulher humana, com desejos e sentimentos diversos – principalmente os que vão em direção contrária aos dos homens – é malquista, mal vista. Lilith sou eu. Lilith é sua mãe, sua tia e sua avó. Lilith é você. ■


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P O L Í T I C A

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MARÇO UM RETRATO DA LUTA DAS MULHERES PELO DIREITO À APOSENTADORIA. Por Bruna Frasson

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pesar do dia oito de março possuir diversas facetas, foi apenas uma que tomou conta das ruas de todo o país em 2017. Enquanto a feminilidade frágil ficou em casa – ao lado do estereótipo de mulher que veio ao mundo para cozinhar, lavar e agradar seus maridos –, saíram às ruas a resiliência e a luta. Há um mito que diz que tecelãs grevistas foram queimadas no dia oito de março de 1857 e, então a data foi criada em

homenagem à elas, entretanto, não existem registros históricos desse acontecimento. De acordo com a historiadora Temma Kaplan, os franceses acabaram criando tal história para ocultar suas origens soviéticas. O dia, na verdade, foi fixado com a greve de trabalhadoras da cidade de Petrogrado, no ano de 1917, que acabou impulsionando a tomada de poder do governo da URSS por Lênin. Ele, então, decidiu tornar a data um dia comemorativo.

Sua origem, contudo, se dissipou com o passar dos anos. O dia acabou sendo moldado segundo às noções capitalistas. Mulheres passaram a ganhar presentes pelas grandes mães que são, por servirem seus maridos, tudo isso, logo após um longo e cansativo dia de trabalho. As mulheres ganharam, sim, diversos direitos ao longo dos anos, mas a carga apenas foi dobrada e não redividida. O peso dos lares ainda está nos ombros do sexo feminino. Neste ano, 2017, outra carga pousou Cartazes pintados pelas mulheres da marcha. Foto Bruna Frasson

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sobre as mulheres: a reforma da previdência, que traz o retrocesso de diversos direitos conquistados. O projeto, sob o subterfúgio de que mulheres têm maior expectativa de vida, tinha como uma de suas ideias aumentar em 5 anos o tempo de trabalho de mulheres urbanas, igualando, assim, aos homens. A proposta, no entanto, ignorou o fato, já citado, de que mulheres possuem dupla

jornada: trabalham dentro e fora de casa. Além de desconsiderar a conjuntura de má remuneração e condições de trabalho precárias em que se encontram milhares de mulheres brasileiras, principalmente as que estão inseridas no mercado informal. Foi sob este pano de fundo que cerca de 30 mil mulheres se reuniram na Praça da Sé para um encontro de combate. Dentre a

multidão era possível avistar negras, índias, cadeirantes, idosas e crianças. Era possível tocar a densidade da luta. Os tambores presentes ecoavam sobre os gritos de “Aposentadoria fica, Temer sai”. Espero que quem ousou dizer que “lugar de mulher é no fogão”, tenha sentido o calor e perigo das chamas proferidas dos lábios confrontadores. Nós dizemos: nenhum direito a menos. ■

Frente Intersindical se posicionando e reivindicando seus direitos. Foto Bruna Frasson

Início da movimentação pelas ruas de São Paulo. Foto Bruna Frasson

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O movimento tambpem contava cm a presença de crianças. Foto Bruna Frasson

Mulheres indígenas marcaram presença nas ruas, mostrando sua força. Foto Bruna Frasson

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Mulheres dão as mãos como forma de resistência. Foto Bruna Frasson

A marcha saiu da Praça da Sé e foi em direção ao Largo da Batata. Foto Bruna Frasson

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S O C I E D A D E

Homem feminista? A INTRODUÇÃO DE INDIVÍDUOS DO SEXO MASCULINO NO MOVIMENTO DIVIDE OPINIÕES Por Camila Simões | Ilustração: Divulgação

“DETESTO HOMEM QUE SE INTITULA FEMINISTA. ACHO VÁLIDO APOIAR A NOSSA CAUSA (QUE NA VERDADE NÃO FAZ MAIS QUE A OBRIGAÇÃO), MAS NADA DE DIZER ‘EU SOU FEMINISTA’. HOMEM JÁ TEM PROTAGONISMO E PRIVILÉGIO EM TUDO, E O FEMINISMO É UM MOVIMENTO FEITO POR MULHERES E PARA MULHERES, AGORA HOMEM QUER VIRAR PROTAGONISTA NO NOSSO MOVIMENTO TAMBÉM? EU NÃO ACHO LEGAL. ELES NÃO SABEM E NEM SENTEM NA PELE TUDO QUE PASSAMOS, ENTÃO NOS APOIAR JÁ É MAIS DO QUE SUFICIENTE.” Disse Thabata Menezes, estudante de 21 anos, em uma rede social.

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em dúvidas só uma mulher entende o que é ser mulher. Acordar todos os dias e ter um salário menor, ser subjugada por causa de seu gênero, ouvir homens falando de você como se fosse um pedaço de carne e ter seu corpo totalmente sexualizado não é algo que faz parte da rotina masculina. Segundo o “Mapa da Violência 2012 – Homicídio de Mulheres”, no Brasil a cada cinco minutos uma mulher é agredida, 11 minutos uma é estuprada e duas horas uma é vítima de homicídio. Inserir um homem no feminismo é mostrar medos que eles nunca terão. É tentar explicar o que significa a frase “todo homem é um estuprador em potencial” e ouvir um “nossa, eu nunca faria isso” ou “não generalize!”. Eles não sabem o que é andar numa rua escura durante a noite e sentir muito medo de um homem que está andando atrás de você. Não sabem o que é ter que ser sempre magra, depilada e pronta para transar no momento em que seu parceiro quiser. Ser mulher é ter pressões de todos a todo momento, por coisas ausentes no universo masculino. Cabe simplesmente às mulheres a função de construir e protagonizar o feminismo, definindo suas pautas e estratégias. O mínimo esperado é garantir que elas tenham poder inequívoco de decisão sobre suas próprias lutas. Um movimento que

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tem decisões de pessoas que não estão inseridas no meio desprivilegiado não é empoderador e não tem uma real mudança. COMO FAZER PARA APOIAR O FEMINISMO SEM PROTAGONIZA-LO? Para ser pró-feminista (ou seja, apoiar o movimento sem necessariamente se intitular do meio) é preciso entender que existe uma grande diferença entre conseguir enxergar o machismo e sofrê-lo na pele. Não cabe a nenhum homem dizer a uma mulher o que é o machismo, afinal não é ele que sofre. Não é papel masculino dizer o que deve ser feito ou que é relevante ou não. Afinal, o movimento é das mulheres para as mulheres. Podemos pegar como exemplo o caso dos atletas da Faculdade Cásper Líbero esse ano. Nas fotos para os jogos universitários de comunicação (JUCA) alguns estudantes fizeram gestos que representavam vaginas, enquanto outros fizeram a “sarrada”. As universitárias apontaram o machismo do ato, que foi parar até em grandes jornais. Nesse momento vários homens apareceram e insistiram que elas estavam enganadas e “loucas”, já que segundo eles, não havia machismo nenhum ali, eram só estudantes “sendo


estudantes”. Nesse caso o homem invade um lugar de fala que só pertence às mulheres. Esse comportamento tem o nome de mansplaining e mostra a total falta de preocupação com a situação, no qual o homem está mais preocupado em fazer valer sua opinião baseada em “achismos” do que ouvir quem não aguenta mais ver esse tipo de situação. O feminismo não consiste em odiar os homens. O objetivo, desde o começo, foi a igualdade entre os sexos. É não mais ser silenciada, estuprada, tratada como objeto. É ter voz dentro do seu próprio meio. É deixar de ser submissa só por ser do sexo feminino. “MAS ALGUNS HOMENS FAZEM DIFERENÇA NO FEMINISMO, POXA!” Em 2016 um movimento chamado “HeForShe” (traduzido como “ElesPorElas”) viralizou nas redes por chamar os homens para lutar lado a lado com as mulheres. Segundo eles, a missão do projeto seria a igualdade dos gêneros, para que todas as vozes fossem ouvidas, independentemente do sexo. “Todo mundo tem algo a dizer. Cada um tem um papel. Cada uma das contribuições é essencial para se atingir a igualdade de gênero.” Não é preciso dizer que a campanha foi um sucesso. Com apoio de vários países e quase um bilhão e quatrocentas assinaturas online, o projeto contou com discursos de celebridades como Emma Watson para impulsionarem a mensagem que o projeto queria passar. No Brasil, o canal GNT se propôs a conseguir cem mil assinaturas de homens brasileiros. Caio Blatt, ator brasileiro, foi um dos que marcou presença na estreia do projeto no Brasil e fez questão de assinar e mostrar seu compromisso com a igualdade de

gênero. Porém, vimos um comportamento totalmente contrário no começo deste ano. Em abril, a figurinista Susslen Tonani, no blog chamado “#Agoraéquesãoelas” do jornal A Folha de São Paulo, acusou o também ator, José Mayer, de assédio sexual. No relato, a vítima afirmava que o artista colocou a mão em sua genitália e disse que ela era seu desejo sexual antigo. Pouco tempo depois o mesmo Caio que apoiou veemente a igualdade de gênero saiu em defesa de seu colega, dizendo que não houve nenhuma intimidação, apenas uma “brincadeira fora de hora” e condenou a ação da rede Globo (na qual Mayer tem um contrato) de afastá-lo das telinhas por tempo indeterminado. Nesse caso podemos ver como o machismo ainda é enraizado na sociedade e defendido por homens que se dizem “feministas”. Enfrentar uma situação real de machismo é bem diferente do que simplesmente idealizá-la.

Mulher protestando com o cartaz “Mulheres bravas mudarão o mundo”.

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Quando você é homem e apoia ou se cala diante de um amigo que está se vangloriando por ter transado com uma mulher, ou até mesmo chamando-a de vadia por não querer ficar com ele, você está, mesmo de modo inconsciente, reforçando uma ideia que há muito tempo que vem sendo enraizada na sociedade. Você está tirando a voz de uma mulher. As pequenas ações contam muito mais para a mudança do que “textões” no Facebook ou assinar petições para fingir ser diferente dos outros. A diferença é no dia-a-dia e não vem do dia para a noite. Talvez você não perceba isso justamente por ser um homem. Você não vai entender porque simplesmente não é a sua realidade. Então, por favor, de uma vez por todas, aceite: O seu lugar não é no feminismo. O respeite, seja pró-movimento, mas não finja entender algo que você nunca será capaz de fazer. ■


S O C I E D A D E

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Mãe solteira,

NÃO!

A REALIDADE POR TRÁS DO TERMO POPULAR É COMPLEXA. MULHERES QUE CRIAM SEUS FILHOS SOZINHAS SOFREM COM A SOLIDÃO, HIPERSEXUALIZAÇÃO E EXCLUSÃO SOCIAL. Por Isabella Câmara | Ilustrações: Thaiz Leão

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er mãe não é moleza e isso não é segredo para ninguém. Ter o sono privado, preocupar-se excessivamente com o bebê, passar pela dura fase da amamentação e, principalmente, conciliar a vida social com a nova rotina, são problemas inevitáveis para uma mãe. A soma desses fatores deixa qualquer uma esgotada. No caso das mulheres que, por opção ou não, precisam cuidar dos filhos sozinhas, essa rotina tem um peso ainda maior. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 38,7% das casas são chefiadas apenas por mulheres. Isso equivale a aproximadamente 57 milhões de lares brasileiros. Apesar de ser uma situação bastante comum e recorrente no país, ser uma mãe solo ainda é um grande desafio. As mulheres que carregam sozinhas essa responsabilidade da criação de um filho acabam sendo isoladas pela sociedade. Ainda que a guarda seja compartilhada e o pai passe algum tempo com a criança, a mãe é a pessoa mais responsabilizada pela

tarefa. E a maneira como a sociedade trata e exige das mães solo é um problema de todos nós. MAS POR QUE NÃO MÃE SOLTEIRA? Simples! Ter um filho não implica no estado civil das mulheres. Infelizmente, o termo mãe solteira é muito popular e leva milhares de pessoas a utilizá-lo para se referir às mulheres que criam seus filhos sozinhas. O termo não traduz a complexidade do que é ser uma mãe solo na sociedade atual brasileira. A antiga expressão é considerada pejorativa, pois carrega consigo uma série de estigmas e preconceitos que as mulheres sofrem por terem filhos fora de um relacionamento considerado o ideal pela sociedade. OS PRECONCEITOS? Letícia Carvalho, podóloga na Zona Leste de São Paulo, tem uma filha de apenas dois anos, fruto de um relacionamento casual da especialista com um amigo. Apesar de ainda ser pequena

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a criança viu o pai apenas duas vezes. Letícia conta que as dificuldades enfrentadas para criar a filha sozinha contribuíram para o seu crescimento pessoal, mas acha que no futuro, a filha pode sofrer as consequências do abandono. Embora essa seja uma realidade, o preconceito ainda existe e com uma força tamanha. Letícia Carvalho, por exemplo, afirma já ter sido excluída na escola da filha. “Eu senti dificuldade em ser aceita pelo grupo de pais. Eles sempre excluíam minha filha e eu de qualquer confraternização fora do ambiente escolar. Nós nunca éramos chamadas em festinhas de amiguinhos”, conta. A dificuldade em ser aceita não fica somente no âmbito social. O mercado de trabalho também é um problema para as mães solo. Marcela*, estudante de enfermagem, foi obrigada a se afastar do pai de seu filho após sofrer uma série de ameaças. Quando começou a procurar um estágio, a estudante ouviu de diversas recrutadoras que a prioridade das empresas era contratar mulheres sem essa questão. Questão que, no caso, significava filhos. “Nun-


ca é fácil. Mas com a gente fica ainda mais difícil. Isso acontece porque os patrões sabem que caso aconteça algum problema nós seremos as únicas responsáveis”. De acordo com Thaiz Leão, criadora da página Mãe Solo, o que não falta é preconceito. A designer engravidou enquanto estava no terceiro ano da faculdade e, de início contou com o apoio do pai da criança, um amigo o qual mantinha uma relação casual. Após o homem “desistir” da ideia de ser pai, Thaiz encarou de cara o julgamento da sociedade. E ele vinha de todos os lados. Uma das maiores dificuldades para a designer foi encontrar uma casa para morar com seu filho. Nesse ponto a confiabilidade da mulher era colocada em cheque. “Mesmo que eu tivesse dinheiro e cumprindo todos os requisitos da casa tinha gente que me negava aluguel. ‘Já que não conseguiu segurar o marido, vai conseguir segurar a casa? ’, era o que eles pensavam”, conta Thaiz.

Thaiz Leão criou a página “Mãe Solo” em maio de 2014, depois do nascimento de seu filho, Vicente. Atualmente, seu facebook conta com mais de 70 mil curtidas.

QUANDO HÁ TRABALHO, É EM DOBRO A quantidade de ocupações que Letícia Carvalho possui revela a realidade de quem precisa se virar para sustentar um filho sozinha. Dar conta da criação e do sustento é um jogo de malabarismo para diversas mães solo, e com ela não seria diferente. A podóloga conta que diversas vezes teve que ir trabalhar com a filha, ou mesmo cancelar clientes para chegar a tempo de buscá-la na escola. Sua rotina é tão cheia que, muitas vezes, ela precisa reservar um tempo próprio para si mesma. Ela conta que chega a fechar um horário em sua agenda somente para se dedicar às suas necessidades. Mas logo se arrepende. “Muitas vezes, nesse tempo, eu ainda me sinto culpada por estar ociosa”, confessa.

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PAPO DE PARA MULHER

MULHER

O julgamento da sociedade é uma das maiores barreiras que uma mãe solo pode enfrentar. O medo começou logo no início para Francine* que, por receio da reação da família, postergou a verdade. Sem saber quem era o pai da criança, a estudante de odontologia contou para seus pais sobre a gravidez apenas quando estava completando sete meses de gestação. Mas, para sua surpresa recebeu apoio total. Para a estudante, dói ver como, em boa parte das vezes, o julgamento parte de mulheres. Ao contrário do que pensava, foi de fora que veio o juízo mais amargo. Umas das perguntas que Francine* mais ouvia de suas amigas eram “Onde está o pai da criança?” ou “Tão nova e já é mãe solteira?”. Perguntas aparentemente ingênuas, mas que se tornam incômodas quando recorrentes. Com Thaiz Leão não foi diferente. A designer conta que nunca teve educação sexual. Nem da família, nem da sociedade. Seu primeiro contato com a saúde foi traumatizante. “Eu estava sozinha, querendo fazer o teste que eu achava que deveria fazer para descobrir a gravidez e a assistente social virou para mim dizendo que eu estava louca”, relembra. Esse tipo de tratamento intimida uma mulher que está passando por uma situação como essa sozinha. Existem várias visões em cima das mães que tem um filho mas não são casadas. A imagem de uma mulher divorciada é um pouco menos impactante do que a de uma que teve um filho fora de uma relação. De acordo com a criadora da página Mãe Solo, essa diferença se deve pela instauração do divórcio na família tradicional brasileira. “Hoje é

mais fácil de se lidar com uma mãe que já foi casada e agora está sozinha, do que com uma que teve um filho totalmente fora de uma relação ideal”, afirma Thaiz. Mesmo assim é complicado. Fernanda Teixeira, que é formada em Letras, percebeu que a relação com o ex-marido não se encaixava no molde planejado para si. “Eu achava um absurdo cuidar sozinha da casa”, revela Fernanda. O fim não demorou a chegar. Hoje, ela é mãe solo e divide a guarda com o pai da criança. Fato que, de acordo com ela, não diminui a cobrança e responsabilidade. “Teve uma vez que o pai do meu filho esqueceu ele na escola e eles brigaram comigo, por não ter lembrado ele de pegar o Alexandre”, conta.

HIPERSEXUALIZAÇÃO E RELACIONAMENTO Além do preconceito, as mães sofrem com a hipersexualização de seus corpos. Alguns homens ainda enxergam o ato de amamentar com um olhar sexual. Os tabus que cercam a amamentação ainda são muitos. São tantos que hoje existem hospitais que restringem o acesso de homens à UTI neonatal. É o caso do Hospital São Luiz, de São Paulo. A instituição alega que essa medida foi implantada por privacidade e para evitar situações desconfortáveis no momento da amamentação. Ou seja, ainda existem mulheres que se sentem desconfortáveis em amamentar na frente de outros homens. Esse fato revela a

Thaiz Leão engravidou de Vicente com 23 anos e hoje cria seu filho sozinha. Foto: Carolina Cotes

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cultura machista e hipersexualizada no modo de perceber a amamentação. Ainda existe uma dificuldade em compreender que a essência da amamentação é algo natural. E que o seio, nessa situação, não possui caráter sexual. Fernanda Teixeira concorda. “Para mim é um absurdo um homem sentir prazer na alimentação do meu filho”, afirma ela. Relacionamento enquanto mãe, é fácil? Não, não é. Fernanda conta que na maioria dos casos, os homens as subjugam e deixam claro que está “fazendo um favor” em se relacionar com elas. Logo após, eles estabelecem uma série de critérios e gostos para manter a relação. Outro fator que atrapalha o relacionamento de uma mãe solo é um fato que está impregnado no imaginário dos homens. Muitos acreditam que por se relacionar com uma mãe se tornarão automaticamente pais da criança. “Isso é muito usado contra a gente. Eles não conseguem separar maternidade, sexualidade e vida afetiva. É óbvio que ele terá

contato com o meu filho, mas isso não significa que ele será o pai”, desabafa Fernanda. Não só o relacionamento é difícil, o modo de chegar até ele também é complicado. Segundo Thaiz Leão, a melhor e a pior forma de se relacionar enquanto mãe é em aplicativos de relacionamento. São úteis pois possuem a capacidade de aproximar as mães que não têm condições de sair de casa com pessoas que, inicialmente, compartilham o desejo de um relacionamento casual. De certa forma, eles oferecem uma certa autonomia para a mulher. “Era o máximo que eu tinha, meu filho no quarto e eu mexendo no celular na sala, lugar que dava para ouvir caso ele chorasse”, relata Thaiz. Tudo lindo, certo? Não! Até em apps de relacionamento as mães solo sofrem um certo preconceito. Elas contam que ao destacarem no perfil que tinham um filho, sofriam uma série de ataques e ouviam xingamentos diários. “Mãe não deve estar no

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tinder e blá blá blá”. A designer afirma que muita gente esquece que uma mãe ainda é mulher e que, como mulher, possui necessidades sexuais. Para a maioria, segundo ela, mães são asexuadas. “A vida no aplicativo é um looping. Você fica um tempo, acaba ficando mal e desinstala. Por fé na humanidade, nós instalamos de novo, tentamos, ficamos bravas, depressivas, e assim sucessivamente”, conta Thaiz. Fernanda Teixeira revela que se relacionou com um colega de classe logo após a separação. Mas como esperado, não deu certo. A relação era complicada e eles não mantinham nenhum compromisso sério. Com o passar do tempo, ele revelou que não poderia manter uma relação com ela. O motivo? A maternidade. Fernanda conta que na época ele confessou que não a apresentaria para os pais, pois ela já era mãe. ■ *Alguns nomes foram modificados para preservar a identidade da mulher.


O que as mães solo NÃO aguentam mais ouvir? Todo mundo tem algumas frases que não suporta mais escutar. E com as mães solo não é diferente. Separamos as frases mais comuns no cotidiano de uma mulher que cria seu filho sozinha. Confira as famosas frases – e as inéditas respostas:

1. “EU SEI COMO É” Não, você não sabe. É uma experiência tão individualiza que nem eu sei como é. Thaiz Leão

2. “COITADA, VOCÊ CRIA SEU FILHO SOZINHA?”

Empatia não é pena. Não confunda! Francine* 3. “AINDA DÁ TEMPO DE ARRUMAR UM PAI PRO SEU FILHO” Eu não estou em busca, ok? Ok. Marcela* 4. “MAS VOCÊ NÃO QUIS CASAR COM O PAI DA CRIANÇA?” Poderia querer se ele pelo menos tivesse assumido. Letícia Carvalho

5. “QUE LINDO SEU BEBÊ, CADÊ O PAI?”

Dessa eu nem comento... Letícia Carvalho

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E S P O R T E

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Tudo igual só dentro das 4 linhas A DIFERENÇA ENTRE A MODALIDADE MASCULINA E FEMININA É BRUTAL. AS ATLETAS BRASILEIRAS SOFREM COM A FALTA DE ESTRUTURA, SALÁRIO, CATEGORIAS DE BASE E, PRINCIPALMENTE, PROFISSIONALIZAÇÃO. Por Isabella Câmara / Fotos: Divulgação

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imensões do gramado? Cerca de 105 metros de comprimento e 68 metros de largura, de acordo com o padrão estabelecido pela FIFA. Altura do gol? Aproximadamente 2,44 metros. Bola? Deve possuir um formato esférico com peso mínimo de 410 gramas. Formação de times? Por volta de 11 jogadores titulares em cada equipe. As regras? Todas as 17 leis, estabelecidas pela International Board, valem tanto para os homens quanto paras as mulheres. Fora das quatro linhas, porém, a história muda completamente. Quase não parece o mesmo esporte. Enquanto o futebol masculino movimenta bilhões de reais por ano, produz novos ídolos a cada dia e leva milhares de torcedores a lotar estádios, no Brasil a modalidade feminina ainda luta por mais espaço, reconhecimento e, principalmente, a profissionalização das jogadoras. Entre as mulheres, são exceções os casos de atletas bem remuneradas, como Marta, que atualmente joga no Orlando Price, dos Estados Unidos, e recebe uma quantia anual em torno de US$ 400 mil.

Há muitas razões para o desprestígio do futebol das mulheres. Um dos principais motivos é a própria história da modalidade - ou a ausência dela. Devido à sua proibição, de 1941 a 1979, muito do que foi produzido sobre o esporte feminino se perdeu. Porém, isso não significa que as mulheres não o praticavam. FUTEBOL FEMININO JÁ FOI PROIBIDO O registro de partidas femininas é pontual, datado desde 1913. Na maioria das vezes, as partidas eram amistosos e jogos beneficentes, que dependiam de comunidades religiosas e de outras instituições para serem realizados. Mesmo assim a prática era tratada de maneira curiosas e moralmente repreendida. “ÀS MULHERES NÃO SE PERMITIRÁ A PRÁTICA DE DESPORTOS INCOMPATÍVEIS COM AS CONDIÇÕES DE SUA NATUREZA, DEVENDO, PARA ESTE EFEITO, O CONSELHO NACIONAL DE DESPORTOS BAIXAR AS NECESSÁRIAS INSTRUÇÕES ÀS ENTIDADES DESPORTIVAS DO PAÍS” 31 | Madalena

Esse era o decreto que chegou à legislação em abril de 1941. Criada pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), a lei que determinava a prática como ilegal considerava que o ato de jogar futebol masculinizava a mulher, que deveria ser sempre bela e sensual para impressionar os homens. Outro fator importante que serviu como motivo para a proibição do esporte era o mito da esterilidade da mulher que jogava futebol pois, naquela época, era a vista como a principal responsável por gerar filhos fortes. A partir desse momento, o machismo e o moralismo se embasavam nesse suposto argumento científico, que foi contestado somente anos mais tarde. Pouco tempo depois, em 1965, outro decreto foi criado para tornar a proibição expressa da prática do futebol. “Não é permitida a prática feminina de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”, dizia a Deliberação nº. 7 de 1965. Somente em 1979 foi revogada uma lei que impedia a prática do futebol por mulheres.


O primeiro brasileirão feminino foi disputado pelo primeira vez em 2013. Foto: Divulgação Um dos grandes fatores que possibilitou essa suspensão da lei foi a pressão popular. Nos últimos anos do regime militar, o aumento das liberdades individuais e a onda feminista que invadia o Brasil naquela época fez com que algumas mulheres passassem a ignorar a lei e criassem as primeiras equipes e ligas para as mulheres. Segundo Silvana Goellner, pesquisadora de futebol feminino e professora de educação física na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), não se pode relacionar ou comparar o futebol das mulheres com o dos homens. O conjunto histórico da modalidade feminina foi prejudicado pela proibição e pelo forte preconceito que permeou durante décadas. As consequências são enormes diferenças entre os gêneros. Enquanto a estreia do futebol masculino nos Jogos Olímpicos foi em 1908, a das mulheres ocorreu somente em 1996. A Copa do Mundo masculina, por exemplo, ocorreu em 1930 para os homens e 1991 para as mulheres. O Brasileirão feminino teve sua primeira edição em 2013, diferentemente do masculino tem seu início datado em 1971.

Se comparado ao futebol dos homens, a ideia ausência estará sempre presente no imaginário da grande massa. De acordo com Silvana Goellner, com essa visão restrita, os avanços e os movimentos em prol ao futebol das mulheres estarão sempre em segundo plano e, consequentemente, não terão grande destaque quando comparado ao espetáculo do futebol masculino. A MELHOR DO MUNDO Apesar dos incentivos reduzidos, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino é considerada uma das melhores do mundo. E a coleção de títulos impressiona. Só no Campeonato Sul-Americano, que possui apenas 7 edições até agora, a seleção do Brasil é detentora de seis títulos, conquistados em 1991, 1995, 1998, 2003, 2010 e 2014. Outro campeonato dominado pela Seleção Brasileira é o Torneio Internacional Caixa, no qual as brasileiras levaram para casa sete dos oito troféus que disputaram. A seleção feminina ainda não conquistou o ouro em nenhuma Olimpíada. Entre seus títulos

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olímpicos, estão duas medalhas de prata, conquistadas em Atenas (2004) e Pequim (2008). Apesar desse fato, a competição esportiva realizada no Rio de Janeiro, em 2016, demonstrou um pouco da força das mulheres que vestem a camisa do país possuem. Mesmo perdendo o bronze para o Canadá, o público demontrou otimismo em relação ao futebol das mulheres. O caso mais curioso que demonstra essa mudança foi o de Bernardo, um garoto que viralizou na internet após substituir o nome de Neymar pelo de Marta em sua camisa da seleção. Na imagem, um garoto veste a camisa 10 do Brasil com o nome de Neymar riscado e o de Marta escrito à mão – e seguido por um coração. NÃO TEM SALÁRIO, NEM PROFISSIONALIZAÇÃO O grande impedimento para o desenvolvimento do futebol das mulheres é a falta de profissionalização da categoria. Mesmo nos grandes clubes que possuem estrutura de futebol feminino, os salários mais altos giram em torno de R$ 3 mil reais.


Já em clubes menores a situação contratual é ainda mais precária. Geralmente, as atletas são contratadas por temporada ou campeonato, e recebem uma ajuda de custo que, muitas vezes, são menores do que o salário mínimo. “O FUTEBOL AINDA NÃO É UMA CARREIRA PARA AS MULHERES” Na maioria das vezes, as jogadoras não possuem carteira assinada e, em seus contratos, a cláusula relacionada a benefícios para a saúde, alimentação e transporte não está inclusa. Assim, a maior parte das atletas se vê obrigada a ter uma dupla jornada para garantir certa segurança e estabilidade. No Grêmio, time do Sul do Brasil, as jogadoras recebem mensalmente uma quantia que varia entre R$ 700 e R$ 1 mil, valores que exigem uma outra ocupação. Capitã do tricolor, Karina Balestra de Luz também cumpre expediente em outro endereço. A jogadora mantém uma escolinha de futebol em parceria com a ex-atleta e técnica do Grêmio, Patrícia Gusmão. Além dos baixos salários, o valor das premiações também impede o crescimento do futebol das mulheres. Até o ano de 2016, não havia nenhum tipo de bonificação ao término do campeonato feminino. De acordo com a CBF, o time campeão do Brasileirão Feminino 2017 receberá R$ 120 mil. Já o Palmeiras, atual vencedor da competição, recebeu R$ 17 milhões em 2016. NEM PATROCINADOR, NEM PÚBLICO 420 ingressos foram vendidos na primeira partida do Brasileirão Feminino de 2017, número que gerou um prejuízo de cerca de R$ 5.000 reais. Estádios vazios e pouco interesse do público são fatos

considerados “normais” em jogos femininos estaduais. Entra em cena a questão da visibilidade. Emissoras da TV aberta não transmitem jogos femininos após a novela das 9. Das 140 partidas do campeonato brasileiro, 10 tiveram seus direitos comprados à Sport TV, canal pago do Grupo Globo. Já a Band Sports e a TV Brasil pagaram pela transmissão de 15 jogos, mas os exibirão somente dois dias depois da Sport TV. Devido à baixa visibilidade, os patrocinadores do futebol feminino também acabam sendo escassos. Os anunciantes fixos do futebol masculino, como o Banco Itaú, Chevrolet, Vivo, Brahma e Johnson & Johnson, pagam cerca de R$ 283 milhões cada para a exibição dos seus anúncios durante a transmissão dos jogos. Já a Caixa Econômica Federal, a única patrocinadora do futebol das mulheres, desembolsa cerca de R$ 10 milhões anualmente. O baixo interesse dos patrocinadores e das emissoras de televisão na compra dos direitos de transmissões dos jogos e, consequentemente, o número pequeno de público cativo nos estádios ajudam a explicar a lenta expansão do futebol das mulheres no Brasil. De acordo com a pesquisadora Silvana Goellner, a grande aliada da visibilidade do futebol feminino atualmente é a rede social. “A mídia alternativa tem feito um papel muito importante e fundamental para que as pessoas reconheçam a importância do futebol das mulheres”, diz a professora. Já que os jogos de futebol feminino não entram na programação das grandes emissoras, os clubes encontraram uma outra maneira de disseminar a modalidade muito mais acessível. Diversos times se auto promovem e transmitem seus jogos via Facebook ou no Instagram.

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FALSO ACOLHIMENTO Por determinação da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), a partir de 2018 todas as equipes brasileiras masculinas serão obrigadas a ter uma equipe feminina para participar da Libertadores e da Copa Sul-Americanas. A decisão é vinculada ao programa de licenciamento de clubes criado pela CBF, no qual exige também uma estrutura adequada para as equipes femininas, incluindo uma categoria de base consolidada. Tal decisão é considerada um uma assistência ao futebol das mulheres, mas ainda não é suficiente. Atualmente, somente 7 dos 20 clubes masculinos que participam da Série A do Brasileirão possuem uma equipe feminina. Muitos clubes não ativam seu departamento feminino, somente se associam a times já existentes, emprestando a camisa e o nome do time para a equipe das mulheres. Entretanto, os clubes não oferecem as mesmas condições que são dadas aos homens. As condições de contrato continuam precárias, falta a estrutura adequada, a profissionalização e bons salários. A VIDA LÁ FORA O Exterior é a saída financeira – mas poucas mulheres conseguem. Segundo a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), hoje há cerca de 40 jogadoras atuando fora do país. Os destinos escolhidos são os Estados Unidos, Europa e Ásia, locais que possuem as estruturas necessárias para a efetivação do futebol feminino como um esporte profissional. Karina Balestra da Luz é um exemplo das que chegaram lá. A jogadora também superou o preconceito dos professores que, na época, não entendiam o interes-


se da garota pelo futebol. Aos 15 anos, passou a fazer parte da equipe feminina do Internacional, recebendo como ajuda de custo, um valor em torno de R$ 300. Após 7 temporadas no clube colorado, Karina atingiu o auge de sua carreira, a convocação para a seleção brasileira. Em 2003, ao lado de estrelas do futebol feminino como Marta e Cristiane, a jovem jogadora venceu o Pan-Americano de Santo Domingo. Ao retornar para o futebol estadual, Karina integrou o Botucatu, recebendo um salário de R$700. Antes de chegar ao exterior, a jogadora passou por diversos clubes de São Paulo, como o Juventude, São Bernardo e Corinthians. A grande chance chegou e Karina aproveitou e permaneceu, durante três temporadas, no FC Suwon, um clube da cidade sul-coreana, Suwon. Lá viveu como uma celebridade. A jogadora conta que na Coreia do Sul, o futebol feminino é quase tão valorizado quanto o masculino. A brasileira chegava a faturar US$ 120 mil por temporada e disputava grandes clássicos com público de 65 mil pessoas. Devido à distância de seus familiares e do país de origem,

Karina Balestra começou a refletir sobre o esforço de morar do outro lado do planeta. Mesmo com uma proposta de renovação no Suwon, a jogadora decidiu retornar ao Brasil. HÁ ESPERANÇA Mesmo com um cenário desanimador e não muito favorável ao futebol feminino, há uma crescente onda de meninas que sonham em seguir dos passos das grandes jogadoras brasileiras. Longas filas marcaram a seletiva do Internacional, que contou com mais de 300 mulheres de várias partes do Brasil. O número elevado surpreendeu os organizadores da primeira peneira feminina do time colorado. A grande procura levou o Internacional a promover outra seletiva no segundo semestre. O colorado aprovou cerca de 60 jovens nessa primeira peneira e prepara sua equipe para o Campeonato Gaúcho. O significado de tamanho interesse, segundo Silvana, sugere um certo otimismo. “Isso significa que há um grande número de demanda que antes era reprimida”.

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No Brasil, as potências do futebol feminino são times desconhecidos, como o Kindermann, Rio Preto e Indaramduba, clubes que oferecem uma estrutura maior ao futebol feminino e, na medida do possível, um suporte financeiro adequado as jogadoras. “Nós sempre esperamos que o crescimento do futebol feminino se dê pelo incentivo dos grandes clubes, mas talvez o caminho seja para o outro lado”, afirma a Silvana Goellner. A grande aposta dos apoiadores do futebol feminino são as equipes que unem tradição, futebol e resistência, clubes que estão há muito tempo enfrentando dificuldade em emplacar o futebol das mulheres. Isso sugere que o futebol masculino não deve ser exemplo ou meta para o feminino. Cada modalidade deve se adaptar a um modelo próprio, levando em consideração as especificidades de cada estilo de jogo. É um erro comum medir a qualidade das mulheres a partir dos homens, mas talvez, segundo Silvana Goellner, o padrão de futebol masculino não seja o adequado às mulheres. É necessário criar e valorizar um novo estilo de jogo, o das mulheres. ■

Karina Balestra da Luz, jogadora do Grêmio, recebe um salário isório comparado ao recebido pelos homens. Foto: Divulgação


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T E C N O L O G I A

GAME OVER no machismo TRÊS MULHERES LUTAM PARA MOSTRAR QUE O MUNDO GEEK TAMBÉM PERTENCE A ELAS Por Nina Ratti

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rês lados mulher da força. As nerds, geeks e gamers. Apaixonadas por cultura pop, aficionadas pela tecnologia, jogadoras, super-heroínas. Não necessariamente nessa ordem. Com as mãos no joystick desde a tenra idade e desenvolvendo estratégias para superar as fases do mundo real, Gabriela Colicigno, Beatriz Blanco e Kelly Cristina Nascimento compartilharam com a Revista Madalena suas desventuras nem sempre em série. QUEM SÃO ELAS? Três monstrinhos icônicos dos precursores de jogos eletrônicos tatuam o braço em homenagem ao pai já falecido que trabalhava na IBM com tecnologia e jogava Atari. Denotam a paixão eterna da pesquisadora, jornalista e professora Beatriz Blanco pelo mundo game. São os space invaders, vilões de um jogo de 78 inspirado no clássico da ficção científica Guerra dos Mundos de Herbert George Wells. A professora Blanco, atual editora assistente do Bonus Stage - site com matérias, vídeos e podcasts sobre jogos, video-games e cultura pop - transformou seu hobby em trabalho. Desde os 4 anos jogando videogame apoiada pelos pais, e tendo uma mãe que joga muito até hoje, nasceu em Nova Odessa, cidade pequena e pacata do interior de São Paulo e foi estudar Cinema na UNICAMP. Descontente com o curso, transferiu-se para “Midialogia”, integrando a terceira turma do curso e en-

contrando ali um ambiente hostil em relação ao seu modo “nerd” de ser, até mesmo por parte de uma professora que lhe aconselhou a ler menos e a sair mais. Kell, apelido masculino adotado por Kelly Cristina do Nascimento para poder mestrar jogos RPG para evitar preconceitos por ser mulher. Negra, rpgista há 21 anos, especialista em literatura e terror, adepta ao pan africanismo e editora de “O lado negro da força - heróis de rosto africano” que trata do “despertar da representatividade” por meio dos personagens negros quase sempre relegados a posições de pouco prestígio nas histórias ficcionais, filmes, narrativas, quadrinhos e cultura pop. Formada em Biologia no Mackenzie e Administração pela FGV, partiu para o mestrado em Teoria dos Jogos na área de Economia. Trabalha no mercado financeiro, na área de risco há muitos anos mas continua a escrever sobre Literatura e Quadrinhos principalmente. Sobre o engajamento nos movimentos feministas, nascimento expõe: “Estou bem cansada do feminismo. Virou bandeira. Você diz que é feminista mas você não tem atitudes feministas reais. Isso vem de todas as militâncias. Fala, fala, fala e esvazia o discurso”. Com um corte de cabelo estiloso e óculos grandes, Gabriela Colicigno, a Gabi se autodenomina “Jornalista, ruiva, nerd, geek e louca por chocolate. Passa a maior parte do tempo do dia no computador, vendo seriados no Netflix, lendo um livro, ouvindo música ou

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brincando com os gatos”. Criadora do site e blog Who’s Geek, desenvolve também um canal no Youtube junto com seu namorado Roberto Fideli, jornalista e cinéfilo. A ENTRADA DAS MULHERES NO MUNDO GEEK Colicigno lê Harry Potter desde os 8 anos e é difícil alguém saber mais do que ela sobre o assunto. Com forte influência pelos pais também nerds, referências sobre Star Wars, Crônicas de Nárnia, participações em fóruns na internet, eventos cosplay e horas grudada em um game boy gosta muito de estudar, aprofundar conhecimentos e saber tudo sobre tudo. Escreve para uma revista chamada Mundo Nerd e tendo já estudado sobre cultura de fãs na iniciação científica durante a graduação, agora rumo ao mestrado para entender como as mulheres se identificam como nerds. O que é ser nerds para elas. Quer entender se o que elas acham que é ser nerd e como elas se sentem dentro da comunidade de cultura pop reflete todas as teorias sobre cultura pop e sobre ser nerd. AS DIFICULDADES No começo dos trabalhos sobre games em uma redação prevalentemente masculina, Beatriz Blanco enfrentou um episódio de preconceito. Sendo ela a única mulher da equipe, ao escrever sobre o Feminismo nos Games, um dos colegas de trabalho reagiu agressivamente dizendo que o site estava virando “feminazista”. Na ocasião


O produto nerd, geek ou gamer segue padrões estéticos que reforçam a realidade social de uma hegemonia caucasiana, ocidental, católica e masculina. Foto: Divulgação. os demais colegas do grupo apoiaram Blanco e o agressor acabou decidindo ir embora. A gamer hoje em dia se sente mais confortável, mas nos conta que às vezes se sentia intimidada, era um pouco mais difícil propor pauta, mas não sabe o quanto era a insegurança de nós mulheres de sermos assertivas porque somos educadas a não nos intrometer ou o quanto era por parte do outro masculino. Os fóruns online também costumam ser arenas de combate nos quais as mulheres recebem comentários hostis como “Essa mina nem deve ter jogado e fica aí falando”. Ou então nos vídeos sobre análises de jogos para console, alguns homens se revoltam e deixam mensagens depreciativas ou vulgares. “Já aconteceu de leitor me procurar no inbox e pediu para eu mandar foto do meu pé” nos conta Blanco. A internet é um meio

aberto e sem fronteiras nem censuras, entretanto, o público neste momento parece reagir no combate aos chamados “trolls”. Segundo Mariana Coutinho do site Tech Tudo, “Na Internet, a gíria derivou-se da expressão “trolling for suckers”, algo como “lançando a isca para trouxas”. Assim, na rede o termo designa uma pessoa cujo comportamento tende a desestabilizar uma discussão e irritar outras pessoas. Acredita-se que o significado surgiu na década de 80 em um fórum de discussões chamado Usenet. Uma brincadeira no fórum propunha que as pessoas utilizassem o que a professora Judith Donath, do M.I.T, chama de tática “pseudo-naïve” (da falsa ingenuidade). Isto é, eles deviam fazer perguntas idiotas e usar argumentos levianos sobre algo sério para ver quem morderia a isca e realmente se irritaria. ”

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BRASIL X EXTERIOR No exterior os sites falando de cultura pop com o olhar negro são muito mais frequentes do que no Brasil. Ao trabalhar com um grupo masculino em “O Lado Negro da Força”, Nascimento traz à tona a surpresa muito feliz de contar com homens de linha pan-africana que cultivam uma linha de pensamento na qual a mulher é a geradora da vida, na qual Deus é mulher e então há um respeito maior pelo gênero feminino. RACISMO GEEK Quanto ao aspecto racial somado ao gênero feminino, “Quando você é negro você tem uma vivência com relação à cultura pop que é completamente diferente de qualquer outra pessoa. Não me in-


teressa militar, é só falar de cultura pop. Sem levantar viés de militância você está militando muito mais do que se você estivesse ali batendo naquela tecla”, explica a rpgista Kelly Cristina Nascimento. Por ser negra e ser mulher, Nascimento diz que o preconceito é “o combo, o pacote completo”. Assinava com nome de homem senão ninguém respeitava. E quando aparecia e não era reconhecida como a mulher ruiva, de óculos e peituda, causada estranhamento. “SOU UMA MINORIA DENTRO DE UMA MINORIA DENTRO DE UMA OUTRA MINORIA. O MUNDO NERD É RACISTA E VENENOSO. PERCEBO O AMBIENTE MUITO TÓXICO. NÃO TEM SANIDADE QUE AGUENTE DISCUTIR SOBRE”.

Nascimento cresceu nos anos 90 e sendo de classe média, era a única negra a estudar em seu colégio católico. Ligava a TV e via que todo mundo era branco. A primeira Barbie negra que teve foi aos 9 anos e uma amiga trouxe dos Estados Unidos. Só mais tarde passou a se ver representada pela Diana da Caverna do Dragão, a Tempestade - heroína do X-Man e considera que o papel da cultura pop é mostrar representação. Uma das poucas pessoas a escrever sobre whitewashing que é “ quando você pega um personagem de qualquer etnia e transforma ele em um personagem branco. Você apagou metade da história dela, “lavou” a cor e a cultura da personagem”, a autora alerta para os riscos da hegemonia branca e falta de consciência da pluralidade. Se alguém não escreve no início do livro que cor tem o personagem, o senso comum faz com

Nos eventos de RPG, as mulheres ainda enfrentam o preconceito e a hostilidade, não só como jogadoras mas sobretudo quando tornam-se protagonistas e mestras. Foto: Nina Ratti

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que você pense que o personagem é branco. Branco é só 10% da população mundial. O caucasiano é o centro das atenções e isso impacta diretamente na formação da auto-estima das crianças. Para a construção de certos personagens é importante a cor da pele para suas histórias e enquadramento cultural. Para a personagem dos Jogos Vorazes por exemplo, o anúncio do casting foi exclusivo para atrizes brancas e loiras. Outro caso de whitewashing é o da personagem Hermione do Harry Potter. J.K. Rolling descreve o seu cabelo como “fluffy”, fofo, cresce para o alto, ela Nascimento afirma que ela tem todas as características de uma pessoa negra. Só não é explicitada a cor da pele. Menina inteligente, o nariz mais largo, ela é dentuça, mesmo quem lê o livro e vê o filme, perde isso. Depois alisa o cabelo e essas são todas


as questões de uma pessoa negra. Todos os fenótipos apontam para uma pessoa negra. Não existe nenhum ganhador do Oscar segundo o Huffington Post que não represente um personagem histórico, é um preconceito intrincado que passa por normal. O fenótipo dos atores negros no Brasil, dos considerados bonitos têm fenótipo branco. Dizem ser uma espécie de licença poética. “O bom ator interpreta qualquer coisa”. Então cadê o negro interpretando esses papéis? Até para quem é negro é difícil desconstruir. GEEK E FEMINISMO Junto com o namorado, Gabriela Colicigno tem o canal Who’s Geek no youtube. É comum, porém, que as pessoas a vejam como mera acompanhante. Por exemplo, toda vez que vão juntos à Comic Con Experience, evento brasileiro de cultura pop. Gabriela está lá, cobrindo as principais áreas dessa indústria de jogos, quadrinhos, filmes e TV. Mas pessoas perguntam se está lá por causa do namorado. “VOCÊ VEIO AQUI ACOMPANHAR SEU NAMORADO? OU VIRAM PARA ELE E DIZEM: - SUA NAMORADA VEIO TE ACOMPANHAR? E ELE SÓ RESPONDE; NA VERDADE EU VIM ACOMPANHAR ELA PORQUE EU NEM GOSTO DESSE TIPO DE EVENTO”, INDICA COLICIGNO. Sobre a audiência do canal, 70% é masculino pois o assunto ficção científica ainda tem todo um estigma de “coisa de homem”. E a faixa etária de acesso é mais alta do que outros canais feitos por meninas que falam de romance e fantasia para adolescentes.

Todavia tem muito canal feito por mulher. Os três maiores canais de literatura no Brasil são feitos por mulheres: Tati Feltrin, Pam Gonçalves, Bel Rodrigues com mais de cem mil inscritas cada uma. Isabella Lubrano do canal ler Antes de Morrer que estudou na Faculdade Cásper Líbero passou de 100 mil inscritos nesta semana. Uma coisa que tem chamado muita a atenção de Blanco é a presença de mães e filhas, muita família. Grupos de mulheres de várias faixas etárias está aumentando um pouco, mas ainda é tímido, mulher no competitivo ainda é minoria e tem competição que ainda tentam separar. É esporte digital, não faz sentido separar. Mas tem melhorado, elas têm se sentido mais seguras. Para Kelly o desgaste e esvaziamento dos discursos, os movimentos feministas para a rpgista estão perdendo a coerência. “FORA DA MILITÂNCIA FAÇO A DIFERENÇA. ABRDO O MESMO ASSUNTO COM UM VIÉS MAIS LEVE E CONSIGO PASSAR A MESMA MENSAGEM QUE QUERO”

REPRESENTATIVIDADE NO MUNDO POP Na análise das questões do produto game, Colicigno diz que o maior dos problemas não seria nem essa associação com sensibilidade, feminilidade, é a parte sexualizada. Os games, principalmente esses de fantasia online têm personagens hipersexualizadas. Mas esse movimento todo de cobrança das empresas por uma representatividade melhor tem dado resultados. Tem alguns jogos que corrigiram falhas do tipo, com armaduras completas como tem que ser numa luta, personagens diver-

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sas, gordas, com cabelo curto. Nós

temos uma grande variedade de personagens masculinos, mas de feminino normalmente não, você tem poucas opções e elas são hipersexualizadas.

Por outro lado, a gente tem produtores extremamente machistas dizendo que a personagem anda pelada no jogo é porque ela “respira pela pele”. Essa é a resposta mais absurda que ele podia ter dado aos fãs. A opção de customização seria um ganho enorme, porque aí você estaria abarcando todo mundo. As meninas que gostam e que não gostam de armaduras mais sexualizadas. O problema não é só esse da gente ser fragilizada. Não é porque o jogo é violento que ele não é pra menina e não é porque o jogo é mais sensível que ele não é pra menino. É jogo e todo mundo tem que poder jogar. Blanco complementa lembrando que historicamente os games da tradição japonesa são dedicados ao público masculino, matar inimigo. Agora, tem overwatch com uma “cara” mais diversa. Diversidade de personagens um pouco maior. Counter Strike é puramente masculino. A protagonista de Horizon, não é sexualizada. Zelda é minha franquia preferida, mas ela ainda é coadjuvante, aparece como memória. O produto é a última fronteira. Existem alguns games nos quais você pode trocar o gênero e customizar para todas as personagens, mas ainda é estereotipado. PERSPECTIVAS O FUTURO

PARA

Na reação contra a indústria cultural pouco inclusiva, segundo Kelly Nascimento, o caminho é cobrar. Não comprar, não consumir é o caminho. Por que vai ter um filme sobre o Pantera negra agora?


A Super Comic Con é uma convenção anual dedicada aos quadrinhos. Na London 2012 o principal convidado foi Stan Lee, criador do homem aranha. Foto: Nina Ratti

Porque a indústria da cultura pop não é boazinha, é porque a Marvel se tocou que existe um mercado gigantesco na África, o continente inteiro. Em menos de 20 anos o quadrinhos de heróis na África seja a mesma coisa que o mangá no Japão. Personagens afro-centrados. Não é só torná-lo negro, se não é um autor negro, não vai conseguir transmitir algo que provoque empatia com o público. Todo mundo usa o videogame como uma forma de escapismo, não só os caras, mas as meninas também, afirma Colicigno. “Se a gente quer uma mudança de verdade nessa área, no cinema, nos quadrinhos, a gente tem que ter mulheres produzindo conteúdo. Não adianta ter equipes só formadas por homens, a mudança vai começar aí. Vai começar com a gente cobrando e com essas empresas contratando mulheres desenvolvedoras de games, mulheres desenhistas, chefes mulheres. Sou otimista, mas sou bem realista, não vai ser de uma hora pra outra. Acho que ainda tem muita coisa e que uma hora a gente chega lá”.

Já Blanco considera que agora estamos em um momento crítico no qual a mulher conseguiu falar que joga, conseguiu marcar presença. As mulheres estão se organizando e o que a gente tem que tomar cuidado é não deixar essa discussão ficar pobre. Ficar só na representatividade. É importante a representatividade para mostrar a diversidade, para mostrar que as pessoas existem. Só que as empresas já estão começando a adotar isso como bandeira e já estão começando a jogar isso e daqui a pouco vai ter a mesma constituição de 98% da indústria com homens só que fazendo game do que eu chamo como “fanservice” de militância, é feito para a militância gostar. E muitas vezes ele é superficial. “EU ACHO QUE AGORA O QUE A GENTE TEM QUE DEMANDAR É, AS MULHERES GAMERS, INCENTIVAR MENINAS QUE ESTÃO QUERENDO ENTRAR NESSE CAMPO, PRESTIGIAR JOGOS FEITOS POR MU-

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LHERES, QUESTIONAR AS DESENVOLVEDORAS SOBRE QUANTAS MULHERES TÊM NO DESENVOLVIMENTO DE GAMES E AVANÇAR COM AS DISCUSSÕES”. Avançar para essa discussão sobre a violência, minorias não representadas que não são só mulheres, tem muita gente que não está bem representada nos games, tornar os games uma mídia mais completa, eles tem muito potencial pra isso, eles merecem ser uma coisa melhor. A indústria mainstream é muito repetitiva, limitada, tem coisas maravilhosas no mercado alternativo. Mas o mercado alternativo não chega para todo mundo. ■ “TENHO MEDO QUE O FEMINISMO VIRE CAMISETA DE “GIRL POWER” E QUE ESSA COISA NA REPRESENTATIVIDADE NOS GAMES VIRE ISSO. É UM COMEÇO MAS ACHO QUE A GENTE TEM QUE AVANÇAR ALÉM DAÍ”.


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S A Ú D E

“MULHER QUE VAI PRA CAMA NO ~ PRIMEIRO ENCONTRO NAO SERVE PARA CASAR.” A GERAÇÃO DE MULHERES CANSADAS DE SER UM OBJETO SEXUAL MASCULINO Por Camila Simões | Ilustração: Divulgação

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escobrir que um amigo perdeu a virgindade com uma prostituta não é algo surpreendente para ninguém, nem mesmo no século XXI. Também não é incomum ouvir como algum homem é incrível por transar com muitas mulheres, enquanto se trocarmos ele por alguém do sexo feminino, a mesma será considerada “vagabunda”, “puta” ou “vadia”. A mulher é vista como um ser passivo, que não tem vontades, apenas obedece às ordens de um homem. Com a sua sexualidade não é diferente. Desde pequenas somos ensinadas que o nosso corpo é um templo e precisamos “guarda-lo” para alguém que realmente o mereça. Somos criadas por uma sociedade patriarcal que realmente não se importa com o prazer feminino, desde que sempre haja comida na mesa, casa limpa e roupa lavada, claro. Segundo pesquisa do Projeto de Sexualidade (Prosex) da Universidade de São Paulo, metade das mulheres entre 18 e 70 anos nunca tiveram um orgasmo e apenas 40% se masturba. A sexóloga Priscila Junqueira, em uma entrevista à revista VEJA afirmou que muitas mulheres chegam a seu consultó-

rio sem nunca ter se tocado. Elas ainda têm uma mentalidade de que o sexo é algo sujo, feio e pecaminoso, não conhecem seu corpo e nem o que dão prazer. O Tabu de nosso próprio corpo começa quando ainda somos crianças e é carregado para a vida adulta. Cada vez que você era repreendida por explorar seu corpo, deixava seu autoconhecimento de lado e sentia culpa por estar fazendo exatamente o que meninos da sua idade estavam fazendo. Aos quinze anos, provavelmente seus pais quiseram ter uma conversa sobre como os homens só queriam se aproveitar de você e te “jogar fora”. Talvez você tenha se sentido muito mal, assustada e em perigo, como se todo mundo que tentasse se aproximar fosse um monstro. Saiba que esse foi exatamente o objetivo. Mesmo que eles tenham tido apenas a intenção de te proteger, repassaram um discurso que há muitos séculos trata a mulher como apenas um objeto de prazer para o homem. Afinal, se você não descobriu muita coisa sobre o próprio corpo e foi ensinada a “esperar o homem certo” para iniciar sua vida sexual, como saber o que é um orgasmo? Como saber a sensação de ter um?

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A sociedade criou gerações de mulheres que não sabem sequer como chegar ao orgasmo, mesmo tendo filhos e sendo casadas há muitos anos. Aos 53 anos, a que a partir daqui vamos chamar de Joana, nos conta que sua família a ensinou o conceito de castidade desde cedo. “MINHA MÃE ERA CATÓLICA E SEMPRE ME DISSE PARA GUARDAR O MEU TESOURO. CASEI COM VINTE ANOS E TIVE O PRIMEIRO FILHO COM MENOS DE UM ANO DE CASADA, MAS NUNCA GOSTEI REALMENTE DE SEXO. EU SÓ ESPERAVA QUE MEU MARIDO TERMINASSE LOGO. DOÍA MUITO E HOJE EM DIA É PIOR AINDA.” Ao ser perguntada se já teve um orgasmo, foi perceptível o constrangimento. Depois de um momento pensando, Joana afirmou que acredita que não, já que nunca sentiu prazer na relação. A ideia da mulher como uma figura passiva e “de casa” esteve sempre presente em uma sociedade que via o homem como dono de sua esposa ou namorada. Cele-


“EU SÓ FAZIA ISSO PRA QUE ELE NÃO PROCURASSE FORA. SE ELE ME ABANDONASSE EU FICARIA SOZINHA, SEM EMPREGO E COM TRÊS FILHOS PARA CRIAR.” bridades como Humphrey Bogart, famoso ator americano, mostravam o machismo por meio de frases como: “As mulheres são muito simples. Nunca conheci uma que não entendesse um tapa na boca”. E nem é preciso ir tão longe para ouvir tais absurdos. Millôr Fernandes, humorista e jornalista brasileiro, afirmou que “o melhor movimento feminino ainda é o dos quadris”.

A NOVA GERAÇÃO: Anuladas sexualmente, financeiramente e com todas as responsabilidades de casa em suas costas, as mulheres estão cansadas. A nova geração feminina e feminista não quer saber de rótulos e muito menos precisa de um homem para dizer o que fazer ou não. Jornada dupla ou tripla não é mais algo aceito por elas. Marido? Só se for para dividir as tarefas de casa sem se sentir um herói por isso. Filhos? O pai por acaso vai ajudar ou só ficará sentado no sofá esperando a jan-

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ta? Vai reclamar se forem sair e a mãe demorar a se arrumar porque teve que dar banho e arrumar os filhos enquanto o pai não faz nada? Se for assim, elas dizem “Não, obrigada!”. “SOLTEIRA POR OPÇÃO NÃO POR FALTA DE OPÇÃO” É o bordão das que não aguentam mais ter todas as responsabilidades nas costas. Estaríamos nós assistindo uma revolução que mudará todos os paradigmas e estigmas contra as mulheres? É o que esperamos. ■


M O D A

MULHER EM RODAS DE MODAS

HELOISA ROCHA, BLOGUEIRA INCLUSIVA COM OSSOS DE CRISTAL E PERSONALIDADE DE FERRO Por Nina Ratti | Fotos: Acervo Pessoal

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rmani Junior na etiqueta maior. 6A, 118 cm na menor. O casaco preto de tecido ligeiro e corte refinado, dobrado por sobre a mesa de um café da Avenida Paulista, denota elegância e estilo. A dona dessa peça cobiçada por qualquer fashionista é Heloisa Rocha. No seu último dia de férias, um compromisso após o outro, entrevistas, encontros, provas de roupas feitas sob medidas para projetos universitários, encontramos a idealizadora do blog Moda em Rodas para o compartilhamento de uma vivência muito peculiar de corpo, beleza, ética e gênero. Com uma tia e avó costureiras, cresceu vendo revistas de moldes, aprendendo sobre tecido, modelagem e na dificuldade de encontrar vestidos de festa para seu tipo de corpo e dimensões, contava com a habilidade de sua tia. Nascida em Aracajú (SE) e erradicada em São Paulo, Rocha tem 32 anos, é graduada em jornalismo e pós-graduada em comunicação jornalística. Atual redatora na rádio universitária da Faculdade Cásper Líbero, a Rádio Gazeta AM, fala inglês e espanhol e se auto define no Instagram como “portadora de osteogênese imperfeita, com menos de um metro de altura, cadeirante e em busca do look ideal!”. Em outubro de 2015 lançou o Moda em Rodas no Instagram pela possibilidade de postar o look, o texto e a marcação do lugar onde adquiriu a peça. Um grande diferencial que permite uma exp ansão de sua proposta é o texto em português, inglês e também em espanhol. Atualmente sua página tem 2800 seguidores provenientes do mundo todo, Uruguai, Itália, Estados Unidos, Venezuela, Espanha,

Brasil. A maioria são seguidoras mulheres, poucos os homens pois os looks são prioritariamente dedicados ao gênero feminino. O Moda em Rodas fala para um público com e sem deficiência pois quer agregar. A grande parte do público deficiente no Brasil são pessoas com baixa escolaridade, nível social desfavorecido, e Heloísa Rocha é uma pessoa completamente fora da curva pois trabalha na sua área de formação, consegue viajar para a Europa e reconhece estar em um nível diferente e privilegiado. Por isso, traz fotografias de peças que custam desde dez reais até as marcas mais renomadas e caras da alta costura como Armani. Ela nos conta que tem dois pares de sapatos praticamente idênticos, um comprou e outro ganhou de presente. Um é da C&A, loja popular e outro é da Zara, marca europeia com custo das roupas mais elevado. “Se vestir bem não é dinheiro, é busca”. Sua profissão na área da comunicação prevê o contato com o público, as coberturas, o atendimento de pessoas de todos os tipos. Por isso sente a “EU ME VISTO NO DEPARTAMENTO INFANTIL, NUNCA NEGUEI ISSO. MEU TAMANHO É 6 ANOS DE IDADE. NÃO DÁ PARA EU CHEGAR NA RUA, CONHECER UM HOMEM, CONHECER ALGUÉM, ESTAR NUM BAR VESTINDO UMA CAMISA DA FROZEN, VESTINDO A BARBIE”.

necessidade da adequação tanto da sua faixa etária que não condiz com a sua dimensão corporal de menos de um metro de altura. Gostar de moda não significa ser uma vítima da moda. Como

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sempre curtiu redes sociais e algumas pessoas com deficiência já a seguiam, as solicitações de dicas, truques, conselhos para as melhores combinações de cores e texturas lhe despertaram a vontade de ampliar essa ajuda de maneira pública. Juntando o fato de que na supervisão dos quadros do assunto “moda” na rádio onde trabalha, ao cobrir um evento da importância como o Fashion Week precisou estudar e aprofundar seus conhecimentos, terminologia, nomenclatura, verbetes. Começou então a acompanhar desfiles, ler, entender muito mais sobre o assunto. Nenhuma blogueira lhe serviu como inspiração para criar o seu Moda em Rodas. Não havia uma proposta que abordasse dicas de looks com imagens e texto explicativo indicando suas motivações para a escolha, nome dos lugares onde comprou e demais informações. Alguns blogs ou canais no youtube feitos por deficientes abordam a maquiagem, mas o vestuário é deixado de lado. Tendo uma presença constante na web, a blogueira teve que trabalhar muito bem sua autoestima para lidar com todo e qualquer tipo de comentário e estar preparada para ataques dos potenciais haters espalhados pela rede. Um dos episódios de maior desafio e questionamento pessoal e profissional foi a postagem da primeira foto em biquíni. Como expor seu corpo na internet com qualidades e defeitos, diferenças evidentes em relação ao padrão estético vigente sem que isso ferisse a sua reputação e nome no mercado? “Sou eu, eu vou colocar minhas imperfeições. É quase um nude. É uma exposição muito grande, fora isso eu tenho um outro trabalho, eu tenho um nome, eu fiquei em conflito”.


Heloísa Rocha entrevista o senador Eduardo Suplicy para a Rádio Gazeta AM.

“SE EU QUERO QUE ELAS SEJAM FEMININAS, QUE ELAS SE AMEM, ELAS SE GOSTEM, ELAS TÊM QUE SE GOSTAR DE BIQUÍNI OU DE CASACO. E AÍ EU BOTEI A FOTO. ” Todas as fotos que Rocha coloca em suas páginas são bem planejadas e nunca deleta nenhuma delas. Esta insegurança fez com que refletisse sobre a importância de enfrentar os próprios temores e avaliar o quanto o preconceito consigo e as pressões sociais e auto-discriminações agem nas mulheres. A publicação da foto suscitou grande angústia embora seu conteúdo não fosse nada explícito nem vulgar. A autora explicou onde confeccionou o modelo, qual era a concepção e não caiu na apelação ou no ensaio sensual. Ao contrário de toda a

expectativa de uma possível rejeição por meio de comentários agressivos, a foto de biquíni foi um sucesso. A moda inclusiva está engatinhando no mesmo parâmetro no mundo, nos EUA já existem top model com deficiência, mas não são uma Gisele Bündchen, não são celebridades, não são desejadas. Ao invés de unir, a moda

“POR QUE UMA MULHER FEMINISTA NÃO PODE SER VAIDOSA? SE UMA MULHER É ESTUDIOSA ELA NÃO PODE SE VESTIR. SE UMA MULHER É VAIDOSA, É FÚTIL? A MULHER LÉSBICA TEM QUE SE VESTIR IGUAL A UM HOMEM. COSTUMAMOS ESTEREOTIPAR. NÃO EXISTE ISSO, CADA UMA TEM SEU JEITO. ”

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como é feita hoje em dia desagrega. Os manequins são corpos perfeitos, mulheres lindas e para o senso comum é um universo só de consumismo e futilidade. Em contrapartida a moda Plus Size cresceu bastante e este aspecto vem favorecendo as mulheres a se sentirem poderosas, belas, de bem com seus corpos mesmo que não queiram emagrecer e femininas. Os padrões estéticos de beleza da mulher em nossa sociedade para ser desejada ou se tornar um símbolo sexual tem sido magra, alta, branca, cabelo perfeito, pele ideal. Se não estiver de acordo com estes parâmetros, a mulher passa a achar que não entrará em nenhuma roupa. Vende-se esta imagem na novela, no cinema, na publicidade e enfim na rua. Rocha indica que deveríamos seguir menos as celebridades e que cada uma de nós somos únicas no mundo


com estilo e características próprias: “Infelizmente toda mulher quer se vestir igual a Marina Ruy Barbosa, ela quer ser a Bruna Marquezine, a Grazi Massafera. São mulheres lindas, eu não tiro isso. Uma mulher com deficiência faz publicidade de hospital, de campanha solidária, de campanha do governo. Andando pelo shopping, todos os manequins são iguais. A moda não inclui, exclui”. Um guarda-roupa é algo a ser construído e conquistado. É um trabalho de garimpagem no qual há muitos erros e acertos. No blog Moda em Rodas a aparência do look ideal encontrado de imediato é só uma ilusão. Há todo um trabalho de pesquisa por trás de cada composição e Rocha faz questão de deixar claras as dificuldades e desventuras para chegar a cada resultado. Se mulher, deficiente, nordestina nunca fizeram com que Heloísa Rocha se colocasse em segundo plano. Ela sempre “botou a cara para bater” e cultivou uma auto ironia para lidar com os aspectos de suas condições de vida. Contando com uma boa educação de pais que a tratavam como qualquer outra criança e com as exigências normais, adquiriu uma personalidade forte e decidida, sem caber dentro de rótulos impostos pela sociedade. Muitas pessoas de sua convivência esquecem que ela é deficiente justamente por conta da sua postura. Ela é a primeira que tira sarro, responde à todas as perguntas com grande espontaneidade e assim quebra logo o gelo, derruba muros e desfaz os preconceitos. Com seu projeto e perspectiva, Heloísa vai mostrando um outro olhar para o corpo feminino. Nem coitada nem super-heroína, constrói modos e modas plurais, inclusive inclusiva.

Heloísa Rocha entrevista o apresentador Ratinho para a Rádio Gazeta AM.

Heloísa Rocha, jornalista e idealizadora do blog no Instagram “Moda em Rodas”. Edição Única | 49


I N T E R N E T

YOUTUBE MULHERES 50 | Madalena


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LUGAR DE MULHER? O MAIOR CANAL DE VÍDEOS DO MUNDO ESTÁ APAIXONADO PELAS MULHERES. A RAZÃO É A IMPORTÂNCIA DOS TEMAS QUE ELAS TRAZEM.

Por Carolina Cotes | Fotos: Divulgação

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or que mulheres quase não aparecem em livros de história? Por que roupas femininas têm menos bolsos? Qual a razão delas ganharem menos? Aliás: por que não podem ser gordas? A maior plataforma de vídeos do mundo quer responder essas perguntas em 8 vídeos.

O QUE O YOUTUBE ESTÁ FAZENDO No dia 8 de março, Dia Internacional da Luta das Mulheres, o Youtube lançou uma série de campanhas e projetos para amplificar as vozes femininas, homenageando e inspirando as criadoras de conteúdo. Com a intenção de estimular os usuários do site a compartilharem vídeos de mulheres inspiradoras. INICIATIVA 1: #PorQueMulher O projeto foi resultado de uma parceria do YouTube Spa-

ce com a ONG feminista cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação, Think Olga. Em uma sequência de vídeos produzidos por mulheres youtubers, o objetivo era questionar diversos padrões impostos às mulheres. Por que mulher não pode ser gorda? Por que mulher nã o envelhece? Por que mulher ganha menos? Por que mulher não aparece em livros de história? São algumas das perguntas respondidas nos vídeos de Maíra Medeiros (do canal Nunca Te Pedi Nada), Jéssica Tauane (do canal Gorda de Boa), Xan Ravelli (do canal Soul Vaidosa), entre outras. INICIATIVA 2: #HerVoiceIsMyVoice #AVozDelaÉAMinhaVoz No vídeo de prom oção da campanha global, mais de 20 criadoras do mundo todo receberam destaque por conta dos debates promovidos em seus canais, entre elas, as brasileiras

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Nátaly Neri (do canal Afros e Afins) e Taty Ferreira (do canal Acidez Feminina). Dessa forma, a campanha pretende “aumentar o volume das vozes de mulheres e honrar o impacto que elas têm em todos nós”. Mas peraí… Por que uma empresa que possui quase um terço de todos os usuários da internet quer lançar campanhas desse gênero? “Mulher tem que se dar o respeito”, “não pode falar palavrão”, “tem que se comportar como mocinha se não, não vai arrumar namorado”. Se você é mulher, com certeza já ouviu pelo menos uma frase dessas. Barreiras erguidas por frases como essas surgem quando uma mulher tenta abordar assuntos como sexualidade, gênero, igualdade, feminismo, entre outros. Superar esse obstáculo é muito difícil, poucas conseguem . É preciso muita força na peruca para passar por cima de tudo e todos apenas para ter o direito de se expressar.


O segredo de Nataly Neri é o equilíbrio que a youtuber faz em seu canal ao mesclar os assuntos moda e militância.

O QUE AS MULHERES ESTÃO FAZENDO

FEMINISMO NEGRO E MODA - NATALY NERY

A resposta está na relevância dos assuntos abordados pelas youtubers mais populares do país. Dentre eles, sexo, vida LGBT, negritude, feminismo e até tarefas denominadas como “masculinas”. E, com os debates, uma audiência de respeito. A seguir, você conhece um mapa completo dos principais temas e das mais importantes estrelas dessa nova era. Conheça o trabalho de cada youtuber e o que elas pensam sobre a atitude do Youtube.

Com mais de 195 mil inscritos, o canal Afros e Afins de Nataly Neri já ultrapassou 6 milhões de visualizações. A estudante de Ciências Sociais deu início ao seu canal em julho de 2015 com o objetivo de abordar em seus vídeos assuntos ligados à moda. Como fazer suas próprias roupas, di cas de brechó e até como fazer suas tranças e dreads pautaram o começo da trajetória da youtuber. Porém o que a tornou única e já até a levou aos palcos do programa da Fátima Bernardes foi o fato de mesclar o co nteúdo de seu canal com fe-

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minismo negro, empoderamento da mulher e negritude de modo didático e explicativo. “Conseguir chegar aos espaços em que a minha fala geralmente não chega é uma grande realização. Outra coisa incrível também é ver a resposta que estou tendo das pessoas próximas de mim, as mulheres negras. É ver que, de alguma fo rma, o meu trabalho está influenciando positivamente”. HUMOR E ESTILO DE VIDA - LETTICIA MUNNIZ Formada em Rádio e TV pela Faculdade Cásper Líbero, o


canal leticialeticialeticia de Letticia Munniz tem por volta de 6.500 inscritos. Seus vídeos já alcançam mais de 300 mil visualizações na plataforma, sendo o canal criado neste ano. O foco da youtuber é quebrar o tabu de mulher que fala sobre sexo e através do humor abordar assuntos que tangem o feminismo liberal. “Quem não é familiar e não está aberto para o feminismo, fala que ele é chato. Então abordar ele de uma maneira engraçada faz as pessoas enxergarem”. Letticia opta por não utilizar termos específicos da militância e acredita ser um bom caminho para conquistar novos usuários. “A partir do momento em que meu canal começou a impactar e ajudar a vida de outras mulheres eu decidi que vou continuar pois sei que é importante para elas. Cheguei a um ponto em que não dou mais conta de responder todas as mensagens”.

“VOCÊ TEM O DIREITO DE DISCORDAR, MAS NÃO O DIREITO DE ME FAZER PARAR DE FALAR“

TEMÁTICA LOUIE PONTO

LGBT

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Mulher, lésbica e feminista. Algo que pode assustar muitas pe ssoas hoje em dia. Mas essa é Louie (apelido adotado pela youtuber em seu canal). Com mais de 160 mil inscritos, os vídeos de temática LGBT ultrapassam aos 4 milhões de visualizações. Através de uma pegada mais simples, Louie iniciou seu canal em 2008 postando covers de músicas e até vídeos de músicas autorais. Hoje podemos encontrar no Louie Ponto vídeos abordando temas como relacionamentos abusivos, cultura do estupro, como se assumir para sua família, entre outros.“Acho que todos mundo tem uma responsabilidade social. A gente sempre pode ser uma influência para alguém, seja para um amigo ou alguém da família. E no caso de uma pessoa que tem algum tipo de visibilidade na mídia, essa responsabilidade é ainda maior”. “Vejo muitos vídeos no Youtube com uma temática LGBT falsa, como vídeos ‘trollei meu pai dizendo que sou gay’, ‘sou sapatão, é mentira’, entre outros. E o grande problema é que um tema muito complexo que afeta muitas pessoas está sendo tratado de forma irresponsável”. REFLEXÃO E FEMINISIMO - MAIRA MEDEIROS

Para Letticia Munniz o humor é a chave para abordar assuntos mais delicados.

“Oi, eu sou a Maíra Medeiros e aqui você vai encontrar: histórias, Girl Power, coisas estranhas e muito AMOR”. Assim está descrito o canal Nunca Te Pedi Nada, criado em 2015, de Maíra Medeiros. Aos 31 anos de idade, a youtuber já conta com mais de 520 mil inscritos e 30 milhões de visualizações. Seu cabelo arco íris é sua marca registrada. Em seu canal aborda assuntos desde sexualidade, feminismo e questionamentos à padrões de beleza até desabafos de sua vida pessoal e dicas de cabelo. “Foi

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uma grande honra ter sido chamada como madrinha da ação #PorQueMulher que tinha como objetivo explicar historicamente e socialmente coisas que as mulheres sempre faziam e não se davam conta”. Por mais que ação do mês de março tenha ido bem, a youtuber tem suas críticas à plataforma, e não se sente contemplada pelo Youtube. “A desigualdade de gênero é evidente quando vemos que dentre os Top 10 criadores temos apenas 2 mulheres”. “Você tem o direito de discordar, mas não tem o direito de me fazer parar de falar” TAREFAS “MASCULINAS” - PALOMA CIPRIANO Quem disse que mulher não pode rebocar uma parede? Pintar sua casa? Assentar piso? Usar uma serra? A jovem de 23 anos de Minas Gerais prova que mulher pode tudo isso e muito mais. Criado em 2013, o canal de Faça Você Mesmo já conta com mais de 145 mil inscritos e mais de 8 milhões de visualizações. E o conteúdo de seus vídeos é bem simples, ela ensina mulheres a botarem a mão na massa. “Não trabalho em obra ou nada relacionado a construção. Eu faço esse tipo de coisa, porque preciso mesmo”. A youtuber decidiu fazer os tutoriais para a plataforma por sugestão de sua mãe, e botou a mão na massa por conta de problemas financeiros. “A melhor coisa é poder passar o pouco conhecimento que tenho e ver que muitas pessoas estão recebendo essas informações e utilizando para melhorar suas vidas, assim como eu tento fazer com a minha. Além disso, a repercussão do canal no YouTube está me dando muitas oportunidades, como viajar para São Paulo e Rio de Janeiro, lugares que nunca tinha ido, e minh as participações em programas de TV, que nunca pensei que iria fazer”. ■


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Revista Madalena  

Devido à falta de representatividade das mulheres em revistas femininas, a revista Madalena surge com o intuito de conectar toda e qualquer...

Revista Madalena  

Devido à falta de representatividade das mulheres em revistas femininas, a revista Madalena surge com o intuito de conectar toda e qualquer...

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