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do Cinema Roma ao F贸rum Lisboa breve hist贸ria de um espa莽o de cidadania


do Cinema Roma ao Fórum Lisboa breve história de um espaço de cidadania

ficha técnica | EDIÇÃO Assembleia Municipal de Lisboa / Departamento de Apoio aos Órgãos do Município | COORDENAÇÃO José Bastos | TEXTO, INVESTIGAÇÃO & PAGINAÇÃO Isabel Fiadeiro Advirta | APOIO NA INVESTIGAÇÃO Lucinda Tamagnini Figueiredo | EXECUÇÃO GRÁFICA Divisão de Imprensa Municipal | EDIÇÃO COMEMORATIVA DOS 50 ANOS DO EDIFÍCIO DO FÓRUM LISBOA Março de 2007 | 600 exemplares


prefácio Este livro é um recordatório para que as memórias nos não atraiçoem e as verdades se não percam, que ficamos a dever ao saudável voluntarismo e iniciativa da Dra. Isabel Advirta. Mas este livro é também uma reconstituição, fruto da consciência profissional, mas também cívica da sua Autora, sem esquecimentos ou cedências confortáveis: estão lá todos e cada um (Lucínio Cruz, Ribeiro Belga, Laura Elário, Pedro Bandeira Freire, Manuel Lima, Divas) e com eles nós, num percurso nunca acabado. Nesta publicação é ainda impressiva, uma inteligente e subtil crítica à cegueira da burocracia que tolhe a Liberdade, na descrição do percurso de um sonho e da sua realização, como tantas vezes sucede, apelando à nossa atenção e envolvimento. Do Cinema Roma ao Fórum Lisboa, breve história de um espaço de Cidadania, não se reduz, todavia - o que já não seria pouco - a uma memória de um espaço, que nos leva a conhecê-lo e das gentes que o foram fazendo: é também uma promessa de futuro com penhor de um passado, protagonizando a sua Autora o arrojo que muito antes e além do seu tempo, Ribeiro Belga, seu criador - que conheci, criança, em Angola – ousou, numa curiosa fusão de atitudes que cruzam o tempo e se encontram neste Fórum, nesta Cidade de Lisboa, que se quer e se faz intercultural, plural, como este espaço. A Presidente

Paula Teixeira da Cruz


introdução O Fórum Lisboa, sede da Assembleia Municipal de Lisboa, foi um dos grandes cinemas de Lisboa que pôde ser preservado pela autarquia, e devolvido à cidade para palco de iniciativas imprescindíveis à construção da cidadania. Vinda do Cinema São Jorge, a Dra. Isabel Advirta tem vindo a trabalhar no Fórum de forma a garantir a operacionalidade das reuniões/sessões da AML. Curiosa, desde logo quis que o antigo Cinema Roma “lhe falasse” do seu passado. Entusiasmou-se e entusiasmou-me. Pesquisou e bisbilhotou. Aproveitou o encerramento do Fórum em Agosto para tal. E constatou: não existia qualquer documentação do que fora o cinema Roma. Esta falha tornou-se ainda mais óbvia quando foi iniciado o processo de pesquisa documental: na verdade, e embora existam alguns livros ou capítulos de livros publicados em Portugal sobre cinemas, os raros, raríssimos que referem o Roma fazem-no de passagem, a vol d'oiseaux, constantando a sua existência e pouco mais. Deste deserto de informações procurou-se reunir a documentação necessária para se poder divulgar a(s) história(s) desta casa, desde a sua abertura em 1957 ao seu funcionamento nos dias de hoje. Da recolha de informação dispersa, organizou-se os dados descobertos de forma clara e simples. Este processo, longe de estar terminado, tem neste livro a sua primeira forma pública. Outras, certamente, se seguirão. Não se pretende com este trabalho, pois, um levantamento técnico ou arquitectónico exaustivo, mas antes contribuir para que se perceba e aprecie o lugar do Roma e do Fórum Lisboa na Cidade. Sempre que possível, privilegiou-se algum enquadramento histórico e cultural e testemunhos de vida, indispensáveis para melhor se compreender o percurso sinuoso do cinema. Como Cinema Roma, o espaço conquistou o seu lugar na história cinematográfica da Lisboa do Séc. XX. Como sede da AML tem honrado o seu papel como palco de algumas das mais importantes discussões políticas que à cidade dizem respeito. O futuro... a todos nós (lisboetas) pertence.

José Bastos Novembro de 2005


História(s) da construção do Roma “E Lisboa conta, desde ontem, com mais um agradável cinema a que deram o nome de Roma, c e r t a m e n t e p o rq u e n a Av e n i d a d e R o m a s e e n c o n t r a , uma acolhedora casa de espectáculos de linhas simples mas elegantes. Não se trata de um cinema de Bairro, porque não fica mal numa cidade como a nossa e não destoa comparado com os outros que se encontram em vários pontos da nossa capital”.

O comentário consta no jornal República, na sua edição de 16 de Março de 1957, e retrata o coroar de um processo moroso, complexo e só possível graças à vontade de um homem, Joaquim Braz Ribeiro Belga: a edificação do cinema Roma.

Vista aérea do Areeiro. No cimo da foto, ao centro, é visível o terreno onde viria a ser construído o Roma. Foto: fundo SNI; Arquivo de Fotografia de Lisboa – CPF / MC

A COMPRA DO TERRENO O Diário Municipal de 2 de Outubro de 1953 explicita as condições de “alienação de um terreno situado na avenida de Roma destinado à construção de cinema, teatro, ou cinema e teatro”. A parcela à venda no local onde viria a nascer o cinema Roma tinha a superfície total de 1050m2 ao preço de 900$00 o m2, confrontava por todos os lados com terrenos da Câmara Municipal de Lisboa (CML) e era proveniente de expropriação feita aos herdeiros do Conde da Guarda. O Diário Municipal refere também o prazo de 6 meses para o início da obra e de dois anos até à sua conclusão. O PLANEAMENTO DO EDIFÍCIO A memória descritiva que acompanha o projecto inicial de construção do Cinema Roma está assinada pelo arquitecto Lucínio Cruz e data de 14 de Abril de 1954. Nele, está explícita a ideia inicial de aliar o aproveitamento do espaço de uma grande plateia dividida por zonas a um terraço para sessões ao ar livre.

A preocupação de fazer uma sala com qualidade de projecção foi grande: “Com a nova técnica adoptada pelos produtores de filmes, “cinescópio e panorâmico”, a cabine de projecção deverá ficar numa posição tal que o ângulo de projecção sobre o écran não seja superior a 5 graus”, ângulo que permitiria uma boa projecção e evitaria “um desequilíbrio no desenrolar das cenas e uma aberração perspéctica com o alongamento da figura humana no sentido vertical”. Esta

O presidente do Município, general França Borges, procedendo à inauguração do prolongamento da avenida João XXI (melhoramento de grande importância para o trânsito na parte norte da cidade) Foto do fundo “O Século”- Arquivo de Fotografia de Lisboa CPF/MC


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teoria, já demonstrada em revistas de cinema da altura, presidiu à motivação da inclinação da sala. Naquele documento, aparece uma referência ao público esperado no cinema: “como se trata de um cinema de bairro, não houve a preocupação de aplicar materiais ricos nem grandes baixos-relevos ou pinturas murais. Existe sim a preocupação de proporcionar ao espectador uma boa projecção e sonorização, assentos confortáveis, tiragem forçada do ar e sua renovação e dar cinema às classes menos abastecidas”. A natureza das matérias a aplicar em pavimentos, paredes, tectos e demais revestimentos foram estudados sob “um ponto de vista económico, embora estivesse presente a preocupação de se tirar partido, através da sua cor e composição, do ambiente a dar à sala e seus móveis”. Contemplando a valência de cinema ao ar livre, e prevendo os ventos das noites de Agosto e Setembro, o projecto incluía uma protecção em todo o perímetro do terraço, para os clientes da esplanada. Para acesso a esta zona foram previstos dois elevadores com lotação para 10 pessoas cada. As galerias que envolviam parte da sala destinavam-se a bar e “estacionamento do público” durante os intervalos. DIFICULDADES INESPERADAS

Este parecia o projecto ideal para um grande Cinema numa nova avenida. Os dados estavam lançados, e aparentemente tudo se desenrolaria rapidamente, até porque os prazos previstos para a obra eram diminutos. No entanto, Portugal dos finais dos anos 50 assistiu à rigorosa aplicação da Lei de Protecção ao Teatro, que indirectamente foi responsável por um atraso de anos na construção do Roma. Esta Lei, apesar de amplamente contestada, levantava constantes problemas à construção de cinemas.

Requerimento da CML à Inspecção dos Espectáculos em 1954

Mas Joaquim Braz Ribeiro Belga, longe de desistir do seu sonho de construir o Cinema Roma, envia um requerimento ao Presidente do Conselho no qual expunha os acontecimentos, desde a compra em hasta pública do do terreno até ao primeiro grande problema: um despacho, datado de Julho de 1954 e em resposta ao pedido de construção do Roma, com um teor pouco incentivante: “Aguarde, por convir rever o problema em relação com o funcionamento que agora vai iniciar-se da lei de protecção ao Teatro.”


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Argumentando que, de acordo com as condições da hasta pública do terreno, mandara “elaborar os projectos para um edifício destinado a cinema, verificando-se no mesmo a obediência a todas as condições legais exigidas”, Joaquim Ribeiro Belga alega que o facto de ter avançado com projectos arquitectónicos, pagamentos à CML, estudos de estabilidade e outras necessidades técnicas, se vê com uma “soma de capitais completamente imobilizados e na absoluta ignorância do tempo em que poderá vir a realizar o edifício projectado”. Mais, acrescenta que a CML ao alienar o terreno em hasta pública nos termos em que o fizera “reconhece implicitamente que o terreno tem as condições necessárias para a construção de um cinema sem exploração”.

Continuando a exposição, Joaquim Braz Ribeiro Belga concorda com o interesse nacional de protecção ao teatro, recordando que “estão funcionando como cinemas casas que foram expressamente construídas para teatro S. Luís, Éden, Politeama, que há um Teatro fechado que funciona de longe em longe - Trindade, que foi autorizada a demolição de um – Ginásio e que há Cine Teatros funcionando como cinemas – Império, acrescendo que este último com lotação para cerca de 2000 pessoas se situa no mesmo bairro, a cerca de 800 metros do local onde o requerente adquiriu o terreno para construção do cinema”. O parecer da Inspecção dos Espectáculos (IE) fora no sentido da autorização da construção do cinema, considerando que o Roma se localizaria num “bairro excêntrico”; na opinião da IE, as novas casas de espectáculos a construir deveriam sempre permitir espectáculos teatrais excepto “em bairros excêntricos não dotados de cinema”. O documento ajuda a compreender um pouco o panorama cultural da Lisboa de então quando refere que “em Lisboa, excluindo o Teatro D. Maria II, estão em exploração cinco teatros quase todos condenados a desaparecer, quer por imposição urbanística quer por carência de comodidade e higiene que tem sido tolerada e 35 cinemas dos quais três foram construídos especialmente para teatros.” A pressão para a construção do Roma era grande. Em Outubro 1954 o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Álvaro de Salvação Barreto, junta-se à luta de Joaquim Ribeiro Belga e envia ao Inspector-geral dos Espectáculos um pedido “para efeito de poder ser fundamentada qualquer resolução sobre o assunto, se digne mandar informar o que tiver por conveniente”, dado o facto de aquele se ter comprometido a iniciar a obra no prazo de seis meses a partir da data de arrematação sob a cláusula de reversão do terreno para a CML. Alguns meses depois, já no decorrer de 1955, a construção do edifício é finalmente autorizada.

Requerimento de Joaquim Ribeiro Belga, Março de 1957


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A CONSTRUÇÃO DO EDIFÍCIO

Em Julho a Inspecção-geral dos Espectáculos emite um parecer: “que embora em princípio o projecto mereça aprovação, esta contudo só será definitiva quando, num novo aditamento a apresentar” se considerem algumas alterações principalmente a nível de segurança, como a instalação de bocas-de-incêndio, aumentar e melhorar as saídas da sala, melhorar as condições de segurança e vigilância da cabine do bombeiro de serviço e que seja apresentado o projecto de ocupação do terraço bem como o da electricidade. Tratam-se, portanto, já de pormenores técnicos finais, e não de alterações de fundo ao projecto arquitectónico. No entanto este foi alterado por vontade expressa de Ribeiro Belga e do Arq. Lucínio Cruz, por mais de uma vez.

Maio de 1956 - construção do Roma

Em Setembro de 1955, na resposta ao parecer da IE , a empresa responsável pelo Roma apresenta os novos projectos solicitados mas duvida da ocupação projectada para o terraço: “é praticamente impossível prever desde já qual o fim como vai ser explorado, mas será sempre dentro do âmbito de Cinema de Esplanada”. Em Janeiro de 1956, desiste-se de vez da utilização do terraço, que estava previsto “para funcionar como cinema ao ar livre”, mas devido ao seu custo exagerado pensou o proprietário fazer a sua eliminação e por consequência a cobertura deixou de ser em terraço. Desta alteração resultaram outros ajustamentos, como a supressão dos elevadores. Finalmente o Roma conseguira vencer as adversidades e ser construído, embora com algumas alterações ao projecto inicial. O Auto da 1ª Vistoria da Inspecção dos Espectáculos, datado de 12 de Março de 1957, autoriza a abertura do Cinema (para três dias depois!) referindo “que as instalações do Cinema Roma estão em condições de funcionamento”, apontando no entanto algumas disposições a modificar (indicações das instalações sanitárias e dos locais para fumadores, bem como outras disposições menores.)

Maio de 1956 - construção do Roma

O mesmo Auto refere que será necessário proceder à reserva de lugares cativos, na fila A do Balcão Central, para o Governador Civil (A9), Fiscalização da Inspecção dos Espectáculos (A8), Fiscalização das Contribuições e Impostos(A11), PSP (A10) e GNR(B10).


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ROMA, DOCUMENTO DE UMA ÉPOCA

Com o Roma, nascera um documento de época, e por motivos distintos. Por um lado, a sua construção na horizontal, prolongando a plateia e desnivelando-a, dando origem a três diferentes pisos, era pouco usual em Portugal. Na Europa de então, a construção dos cinemas era feita quase sempre em altura, jogando-se com a altitude dos balcões e com a existência de camarotes de forma a poder encaixar-se o máximo de lugares possível no mínimo de espaço disponível para a construção. Mesmo os cinemas muito grandes e com um comprimento considerável tinham também balcões que ajudavam a aproveitar o espaço disponível.

Fachada do Roma - 1957

Os outros dois cinemas de Ribeiro Belga em Lisboa – Aviz e Estúdio 444 – partilhavam a característica do Roma de ter balcões apenas como prolongamento desnivelado da plateia. Esta opção, além de menos dispendiosa, permite de facto uma visão do écran mais democrática: todos os lugares da sala são bons lugares para se ver o filme. Desaparecidos os outros dois cinemas referidos, em Lisboa resta o Roma como testemunho do trabalho do grupo Ribeiro Belga. Por outro lado, é também um representante dos grandes cinemas dos anos 50 e, mesmo sendo diferente destes, vem na linha dos grandes cinemas que se construíram nas décadas de 40/50 como o Império, o Monumental e o São Jorge, entre outros. O que aponta para mais uma característica que o distingue dos outros cinemas da altura: não sendo um cine-teatro, as dimensões do palco do Roma permitiam, e permitem, algumas utilizações que não estritamente o cinema. Também pelos trabalhos do artista plástico responsável pela coordenação mobiliário, decoração e painéis, Manuel Lima, o Roma marcou a diferença.

Pormenor do painel do Foyer Pequeno

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JOAQUIM BRÁS RIBEIRO BELGA (1913-1972) Alentejano de Montemor-o-Novo, Joaquim Braz Ribeiro Belga entrou no negócio dos cinemas a pouco e pouco, ganhando a confiança de investidores que nele reconheciam integridade, inteligência e força de vontade. A sua paixão pela actividade cinematográfica vinha do pós-Segunda Guerra Mundial, quando conheceu negociantes espanhóis que procuravam coproduzir longas metragens destinadas ao país vizinho, recém-saído da Guerra Civil. Aproveitando a oportunidade comercial, Ribeiro Belga soube associar-se a estes na produção e distribuição de filmes. Já em Lisboa, criou uma distribuidora importantíssima, a Doperfilme, através da qual entraram em Portugal muitos filmes europeus, tendo mais tarde conseguido a representação da Universal International. Acoplada à Doperfilme fundou toda uma estrutura composta por várias outras empresas que, juntas, abrangiam todos os sectores da indústria cinematográfica, como a Talma Filmes (produtora e distribuidora) ou a Sacil (exibição em salas), entre outras. Todas estas empresas constituíam o Grupo Ribeiro Belga, um dos maiores no meio cinematográfico durante largos anos. Dos vários cinemas que detinha - espalhados pela província e pelas antigas colónias - o Roma era um dos construídos de raiz pelo Grupo Ribeiro Belga, em parceria com várias outras entidades/sócios, e a concretização de um sonho pessoal de Ribeiro Belga. Na construção do Roma, inovou e conseguiu inaugurar um cinema moderno, elegante e de grande qualidade técnica, ainda hoje amplamente reconhecida. Em Lisboa, além do Roma, Ribeiro Belga foi também responsável pela construção de outro cinema, o Estúdio 444, que fora em tempos uma garagem, e também pela adaptação do Cinema Aviz, que era o antigo Cinema Palácio. Visionário, no auge da guerra colonial decidiu expandir o negócio dos cinemas para África, calculando que dali viria negócio. E ao longo de alguns anos foi investindo grande parte dos lucros das empresas em Portugal nos territórios ultramarinos, sendo responsável pela construção de vários cinemas, principalmente em Angola e Moçambique, muitos dos quais existem ainda hoje. Mas a ligação África-Portugal foi além da simples exploração dos cinemas. Ribeiro Belga deslocava-se frequentemente aos territórios portugueses em África, e foi assim que em 1959 descobriu o Duo Ouro Negro em Luanda, tendo sido a pessoa responsável pela sua vinda a Lisboa no mesmo ano,


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onde aliás se estrearam no Roma. O Duo Ouro Negro é um caso especial de sucesso, mas ao longo dos anos Ribeiro Belga foi solidificando as trocas culturais entre os dois continentes, também pela dinamização da música africana em Portugal, nomeadamente através da vinda de variadíssimos artistas ao nosso país. Além de África, também as relações com a música brasileira foram privilegiadas, e os espaços culturais de Ribeiro Belga foram frequentemente palco de espectáculos de música popular brasileira. De forte personalidade, Ribeiro Belga deixou impressa em quem o recorda uma memória forte. De dois dos episódios que ajudam a perceber a força deste homem, um retrata a sua generosidade e outro o seu pragmatismo. Generosidade porque certa vez, perante um seu funcionário que se casara há pouco tempo, decidiu ajudar a dar um impulso na vida de casado aumentando o seu ordenado… para o dobro. Pragmatismo porque perante uma pessoa que, devendo-lhe algum dinheiro, estava disposto a tentar negociar o pagamento da dívida até em troca de trabalho, resolveu no acto, e sem grandes hipóteses explicativas, propor o pagamento de uma pequena percentagem da divida, perdoando o restante. Em 1972, e na sequência de um acidente vascular-cerebral após uma viagem a África, Ribeiro Belga acaba por falecer, já em Lisboa. Patrão respeitado e tido como muito correcto, Ribeiro Belga conseguiu ser lembrado por aqueles que trabalharam para ele como alguém com excelente olho para o negócio e simultaneamente como uma pessoa humana e justa. Desempoeirado, sem preconceitos, tratava todos da mesma forma, independentemente de quaisquer valorizações sociais. Apesar de pouco dado a demonstrações carinhosas, apreciava muito a lealdade e a rectidão e sabia compensar as pessoas nos momentos-chave. Ribeiro Belga (ao centro, em baixo) com os sócios do Roma e a equipa de arrumadoras, num almoço oferecido por estas aos patrões, na ocasião do 1º aniversário do Roma, em Março de 1958.

Foi sem duvida uma pessoa extremamente importante na actividade cultural e cinematográfica: além de responsável pela construção de vários cinemas e produção de filmes e documentários, dinamizou claramente a exibição de cinematografias europeias no nosso país. A actividade de distribuição de Ribeiro Belga, graças à qual entraram e foram exibidas no país várias cinematografias europeias (foi o primeiro distribuidor cinematográfico a divulgar em Portugal filmes da nouvelle vague francesa como os de Truffaut e Godard), conferiu uma importância adicional ao papel de Ribeiro Belga no panorama cinematográfico português.


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O Roma afirma-se A GRANDE NOITE DE INAUGURAÇÃO Os jornais diários da época ilustram a grandeza do acontecimento na Lisboa de 1957. Eis o relato do Diário de Lisboa na apresentação do novo cinema:

O Roma exibiu o filme Contos Romanos na sua estreia.

Silvana Pampanini (ao centro, de vestido escuro) na abertura do Roma, com a equipe de arrumadoras do Cinema.

“Enquanto Lisboa se estende lançando a sua rede habitacional para a periferia da cidade velha, as zonas comerciais vão-se gradualmente afastando do centro para criarem, afinal, novos centros que a própria exploração comercial de diversões vai explorando. Em relação às salas de espectáculo o facto passa-se de igual forma. Assim, para servir uma cidade nova que se ergue para Norte, apareceu primeiro o Cine-teatro Monumental, depois o Império, a seguir o Alvalade, mais tarde o Avis e, desde ontem, o Cine-Roma situado na avenida que tem o mesmo nome da Cidade Eterna, entre a de João XXI a e Rua de Edison. O novo cinema, construído em pouco mais de dois anos, tem lotação para mais de um milhar de espectadores, com uma ampla plateia e uma tribuna que descem para o palco formando um segmento de coroa circular. As linhas arquitectónicas do edifício são sóbrias, como é norma nas novas casas de espectáculos e a própria decoração dos corredores e pátios prima pela descrição. As cadeiras da sala, forradas a verde, são cómodas e o ambiente cria no público uma sensação de bem-estar. A sessão inaugural ficou assinalada pela presença de Silvana Pampanini, a formosa artista italiana que participa no filme exibido, uma produção em cinemascópio e a cores, intitulada “Contos Romanos”. Foi ela porém a grande “vedeta” da estreia, recebida com aplausos à entrada do cinema por uma multidão de curiosos e aplaudida também dentro da sala, onde distribuiu largamente sorrisos e autógrafos. Num dos intervalos Silvana Pampanini foi ao palco, apresentada por Fernando Pessa, e dirigiu aos espectadores algumas palavras de agradecimentos pela forma como fora recebida. A sua beleza incontestável e a maneira simples como se apresentou cativaram o publico, que a aplaudiu sem reservas. O filme exibido, sem atingir a craveira das obras-primas, é uma película agradável pela sua leveza e despretensão, com algumas belas imagens de Roma e uma história que faz sorrir ou até mesmo rir sem esforço com a curta aparição


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de Tótó e Vittorio de Sica. A vida de quatro rapazes romanos entregues às maquinações fraudulentas de um deles, é contada com graça. Ao espectáculo assistiram os Srs. Ministro da Presidência, governador civil de Lisboa, secretário nacional da Informação e inspector-geral dos Espectáculos.”

O Diário Popular, descrevendo os complementos apresentados, refere um pequeno filme/ documentário, “com apontamentos graciosíssimos até nas legendas, A Sina Saiu Certa, animada com uma interpretação do gracioso artista Raul Solnado” o qual, infelizmente, aparenta estar perdido. Mas o Diário Popular continua: ”À tarde, os proprietários do cinema, Sr. Joaquim Ribeiro Belga, Eng. António Praça, Fernando Santos e o produtor espanhol Pedro Curet convidaram os representantes da Imprensa e os críticos cinematográficos para uma visita ao novo cinema. A sala de espectáculos, de um só piso mas em três planos, bem lançados o que dá uma excelente visão de todos os lugares, tem acomodações para mil espectadores, sendo as cadeiras muito confortáveis. O palco estendese a toda a largura da sala e é provido de “écran” panorâmico, com 14 metros de extensão. Rodeia a sala um amplo corredor, onde estão instalados os “bars” e vestiários e toda a decoração e mobiliário, elegantes e sóbrios, foram orientados pelo artista plástico Manuel Lima que também executou alguns painéis de lindo sentido moderno. Aos convidados foi servido um “cocktail” que teve a presença de Silvana Pampanini, que entreteve larga conversação com todos os jornalistas, e dos produtores italiano Marquês Giancarlo Cappelli e francês Conde de Robien, que acompanharam aquela vedeta a Lisboa.”

O Foyer em 1957 correspondia ao actual átrio de entrada.

O evento causou tantas impressões diferentes, que o relato do jornal O Século escolhe outros detalhes para transmitir o acontecimento aos seus leitores: “Lisboa conta, desde ontem, com uma nova sala de espectáculos: o Cinema Roma. Manda a verdade dizer que a sua abertura ficará assinalada como mais uma feliz iniciativa a juntar a tantas outras, não só do espírito empreendedor e ousado do empresário e distribuidor de filmes Sr. Joaquim Ribeiro Belga – cujas faculdades de inteligência e de actividades são credoras de todas as homenagens – mas também dos seus sócios Sr. Eng.º António Praça; o milionário espanhol D. Pedro Couret, figura de relevo nos meios cinematográficos de Madrid e Paris; e Fernando Santos, fundador e proprietário da firma distribuidora Sonoro Filmes, que igualmente são dignos de louvores pela pela

Anúncio no Século do dia da abertura do Roma.


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coragem que evidenciaram em dotar o popular bairro de Alvalade com uma sala de espectáculos edificada, desde os alicerces, com o mais escrupuloso respeito por tudo quanto envolve problemas de ordem técnica, conforto e distribuição de lugares, sem deixarem de ser meticulosamente considerados os requisitos modernos indispensáveis num cinema de estreias de primeira categoria.

Jornal República, 15 de Março de 1957

O Roma em 1957 tinha capacidade para 1056 pessoas.

A convite da gerência, os representantes da Imprensa visitaram ontem de tarde o Roma, cuja monumental fachada constitui a primeira nota marcante do seu feliz traçado. Um exame mais atento às suas amplas perspectivas torna os olhos cativos de muitos pormenores de construção, sobretudo no que se refere ao aproveitamento do espaço destinado às vitrinas, para servirem d e mos t ruá ri o à af ix a ç ã o de c art az es e, ai nda, à res ol uç ão d os problemas de acesso ao átrio principal, cujo desafogo permite ao público dirigir-se às bilheteiras sem demoras e tornar menos morosa a entrada de espectadores na sala. Esta, pelo seu risco, em tudo diferente de qualquer outra casa de espectáculos da capital, deixou os visitantes surpreendidos. Evidenciando uma ligeira inclinação, que revela a preocupação de valorizar as cadeiras da plateia, a qual se sucedem, em planos mais afastados semelhantes a dois degraus espaçosos, os lugares de balcão especial e de balcão, tudo reflecte o desejo de bem servir o público, proporcionando-lhe as melhores condições de visibilidade de qualquer ponto da sala. Salienta-se ainda, pelo ef e i t o d e s e d u ç ã o q u e s e d es p r e n d e d o c o nj u n t o d o am b i e n t e, a distribuição de luz, a delicadeza dos pormenores da decoração pelo pintor Manuel Lima, a suavidade das tintas, a comodidade das poltronas em todos os lugares: o desafogo dos corredores, atapetados; o estudo das condições acústicas da sala realizadas pelo Sr. Eng. Cavaleiro Ferreira, e ter-se-á uma ideia agradável do considerável esforço despendido pelo notável artista Lucínio


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Cruz, arquitecto, por ter levado a cabo a construção do Roma, em cerca de dez meses. No primeiro pavimento estão instalados um espaçoso “bar” e amplos vestiários.A tela foi alvo de cuidados especiais. Mede 14 metros e ocupa toda a largura da sala para obedecer às dimensões de “écran panorâmico e satisfazer as exigências de projecção de filmes rodados em cinemascópio.”

A primeira vez que o Roma abriu ao público contava com 1056 lugares, mais 355 do que a actual capacidade máxima. Cinema de grande sucesso entre as gentes das novas avenidas, o fim que inicialmente fora previsto - “dar cinemas às classes menos abastadas” - acabou por não ser cumprido, e o Roma tornou-se um Cinema com os seus rituais e público próprio e exigente. Classificado pela Inspecção-geral dos Espectáculos como sendo de 2ª classe, obtém autorização “para a realização de espectáculos ou divertimentos públicos de cinema e variedades”. Apesar de ser um cinema simples – em comparação com os exemplares luxuosos frequentes na época – o ambiente era considerado excepcional por quem o frequentava. E desde cedo começou a ganhar clientela assídua. Incontornável era Fernando Pessa, que todos os dias de manhã dava a volta ao cinema de bicicleta, sempre de chapéu e com a mala a tiracolo. Pessa foi, aliás, um cliente dos mais assíduos, tendo inclusivamente apresentado muitos dos espectáculos do Roma começando, como não podia deixar de ser, pela inauguração.

Equipa do Roma em 1957, nas escadas que ligavam a Plateia ao actual Foyer e que foram eliminadas. (ver abaixo)

Os bares eram pequenos e funcionavam à direita de quem entra no átrio do cinema, no piso térreo e no 1º piso, uma vez que o Foyer grande não existia. E a sua falta fazia-se sentir. NECESSIDADE DE ALTERAÇÕES Em Abril de 1957, já com o Cinema em funcionamento pleno, deu entrada na CML um pedido de obras de alteração ao Roma. O arquitecto Lucínio Cruz justifica as alterações e ampliação do Cinema Roma através da necessidade sentida de aumentar a área dos Foyers reservado ao público, e que “tem dado lugar a grandes aglomerados e consequente falta de comodidade” para o público, “único elemento real”, tornando-se por isso imprescindível o aumento do Foyer esquerdo. Assim, os pilares existentes mantiveram-se (são as colunas que hoje atravessam o Foyer Grande), havendo uma deslocação da parede exterior com respectivas portas e janelas, configurando um espaço já muito semelhante ao que é hoje o Foyer. E assim o cinema acabou por encerrar para obras em Agosto de 1958, reabrindo a 30 de Outubro, já com o Foyer, exactamente um ano e meio depois de ter sido inaugurado.

Projecto do Roma, 1954.


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Em Setembro de 1959 há um novo pedido de alterações “fruto de uma série de observações colhidas durante o funcionamento da sala de espectáculos. O público com os seus caprichos é por vezes quem dita a melhor solução a adaptar ou a transformar o existente” e assim a empresa do Cinema Roma “sempre pronta a atender o público e proporcionar-lhe bem-estar e conforto durante o tempo do espectáculos” apresentou mais algumas alterações, como a demolição da escada no Foyer lateral esquerdo. As escadas tinham sido necessárias antes da construção do Foyer, uma vez que serviam um acesso suplementar à plateia. Construído o Foyer e perdida a necessidade da porta suplementar, que fora fechada, as escadas tinham deixado de fazer sentido. E um ano mais tarde são exactamente no mesmo local colocadas as vitrinas interiores centrais, que por lá continuam.

Foyer do Roma após as obras de alteração de 1958

Um auto de vistoria da Inspecção dos Espectáculos datado de Agosto de 1964 refere a instalação recente de um novo ecrã (com 16m de comprimento por 7,30m de altura) que permite a projecção de filmes em 70 milímetros, bem como a existência de novas máquinas de projecção (Cinemecânicas – Vitoria 8). Este auto refere ainda que “nos espectáculos pelo sistema Todd AO – 70 mm as quatro primeiras filas da plateia, num total de 110 lugares, não oferecem condições de visibilidade perfeita pelo que deve ser interdita a sua utilização”. Data de Janeiro de 1970 o pedido de Ribeiro Belga Lda. de construção de uma zona de escritórios na parte superior do Foyer lateral esquerdo, com acessos completamente independentes. O parecer do Conselho Técnico da Direcção dos Serviços de Espectáculos, de Fevereiro do mesmo ano, é favorável: “A ampliação projectado está proporcionada com o actual volume do cinema, originando-se, assim, um edifício misto, nos termos em que a legislação em vigor o permite. Na verdade, tratando-se de uma zona com acessos absolutamente independentes e construída com materiais incombustíveis. A área retirada ao Foyer considera-se de admitir, em principio. Dada a informação, que consta da memória, de que as novas instalações se destinam apenas a escritório da empresa, o que parece não se coadunar com as soluções em planta, entende este Conselho Técnico que deverá o interessado explicitar quais os tipos de utilização realmente previstos, em que se esclareça não surgirem proximidades ou vizinhanças perigosas ou incómodas para o normal funcionamento do cinema”.

Esta construção deu origem aos pisos que hoje albergam os serviços da Assembleia Municipal de Lisboa. Pedido de construção de três pisos.

Enquanto as alterações à arquitectura se sucediam, sintomáticas de novas necessidades sentidas, o Roma ia conquistando cada vez mais o seu lugar na cultura cinematográfica e não só de Lisboa.


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OS CINEMAS NA CIDADE Os cinemas em Lisboa foram avançando com o desenvolvimento da própria cidade. Nos inícios do século 20 existiam nas zonas mais centrais, onde estava concentrado o comércio: a Baixa e o Chiado. Eram frequentados por público de elite intelectual e eram ainda experimentais. À medida que o próprio cinema se vai popularizando, cresce a tendência de alargar a arte a espaços menos centrais na cidade. A nível de entretenimento familiar o Cinema assume-se como concorrencial à popularidade de feiras, circos e teatros, espectáculos por excelência de grande tradição popular. Dados os requisitos técnicos necessários, o cinema começa por utilizar os meios disponíveis, adaptando-se ao existente, em salas circunstanciais – veja-se o caso da primeira sessão de “fotografia animada” em Lisboa, no Real Colyseu de Lisboa, na Rua da Palma, em 1896 – e só paulatinamente se inicia o processo de autonomia construtiva. O primeiro edifício construído de raiz para receber sessões cinematográficas foi o Chiado Terrasse, em 1908. Sucederam-se várias outras salas, algumas deles ainda hoje de pé embora nem sempre como cinema, como o Politeama (1913) ou o Tivoli (1924). A segunda metade dos anos 20 trouxe para Portugal a linguagem modernista também na arquitectura, e corresponde – na edificação de cinemas – à expansão geográfica da construção, que deixa o coração da cidade e se começa a estender pelas zonas “de bairro”, algumas na altura quase periféricas, como o Royal na Graça (1929), o primeiro cinema a receber o cinema sonoro ou o Paris, na Estrela (1931).

Cinema Roma, 1958

As décadas de 40-50 correspondem à construção das grandes salas, preparadas para receber projecções de maior qualidade em ecrã gigante, correspondentes ao prestígio que começava a caracterizar a capital. É nesta época que aparecem alguns dos mais monumentais cinemas da cidade, como o Condes (1951), o Monumental (1945/51), o São Jorge (1950) ou o Roma, de 1957.

Com a crise do cinema – provocada em parte pela explosão da televisão – surge a necessidade de reduzir o tamanho das salas de forma a rentabilizar o investimento e a própria exploração. Já nos anos 60, a legislação muda e passa a permitir a construção de salas de cinema em edifícios com outras funções. Foi o início dos cinemas multiplex, em que num espaço é possível escolher de entre alguns filmes. Sob o ponto de vista de riqueza arquitectónica são tendencialmente salas mais desinteressantes. Esta tendência tem-se mantido até aos nossos dias, basta relembrar os últimos cinemas a serem inaugurados na cidade (UCI e Alvaláxia). No entanto, e desde meados dos anos 90, notou-se alguma tendência de preservação de salas arquitectonicamente valiosas e qualificadas. A compra, pela autarquia, do Roma e mais tarde do São Jorge sintomaticamente demonstra a preocupação com o futuro destas salas, muitas das quais irremediavelmente perdidas para sempre.


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Relatório de incidente com bombeiro

Relatório do Batalhão Sapadores Bombeiros


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CINEMA MAS NÃO SÓ Ao longo dos anos, muitos e muitos eventos se sucederam, aliando-se muitas vezes às exibições cinematográficas ou complementando-as. Além, obviamente, dos muitos filmes que se impuseram como imperdíveis por si só, mesmo sem quaisquer actividades complementares. Desde a sua abertura que o Cinema Roma esteve destinado a ser um pólo de acontecimentos não apenas cinéfilos mas também recreativos, musicais, políticos, sociais e educativos. Um embrião de Fórum, portanto. Vários acontecimentos diferentes complementavam as sessões cinematográficas, que eram um verdadeiro acontecimento para quem as podia frequentar. Ir ao cinema exigia uma postura que em pouco se assemelha à que se assiste hoje em dia. Os cinemas assumiam também um importante papel de “banco de namoro”, dado que a troca de um beijo num jardim público podia dar lugar a uma reprimenda ou até uma ida à esquadra policial mais próxima, razão pela qual muitos namoros tinham início nas salas de cinema. As salas do cinema como espectáculo, e não apenas de exibição de cinema, contavam com uma equipa de pessoal alargada. No Roma, faziam parte da equipa 16 arrumadoras efectivas, 6 porteiros, 4 bilheteiras (além de mais um elemento para colmatar as folgas), duas “senhoras de toilete” (e uma para fazer as folgas), 4 projeccionistas, o gerente, o secretário e o fiscal: quase 40 pessoas. Além do pessoal de limpeza, que era constituído por uma equipa de 10 a 12 pessoas.

Foto de Salvador Almeida Fernandes, Arquivo Fotográfico de Lisboa, C.M.L.

Cada uma desta categorias profissionais obedecia a rigorosos padrões e cumpria com brio as suas funções. A Revista Cinéfilo já pelo menos desde 1939 que enaltecia as qualificações dos projeccionistas: “A escolha de projeccionistas, no nosso País, não tem sido feita com o severo critério de ser honesto perante o público, como é de uso lá fora. Os projeccionistas (este seu verdadeiro nome; o de “operador” nada ou bem pouco significa) – os projeccionistas americanos, por exemplo – são quasi engenheiros. Uma carta de projeccionista não pode ser entregue a qualquer pessoa – porque não se justifica que centenas de espectadores sejam vítimas do pouco saber ou experiência do chefe de cabina.”

Além da qualidade da projecção, importava receber bem os espectadores e fazê-lo com profissionalismo e aprumo. As arrumadoras do Roma, cujo fardamento era examinado diariamente pelo fiscal antes de se abrirem as portas, eram conhecidas como o grupo das mais bem fardadas de Lisboa.

Projecto da fachada do Roma, 1970


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Os cinemas eram “de Estreia”, como o Roma, ou “de Reprise”. Cada sala de cinema de estreia exibia um filme em exclusivo, o que permitia criar a sua personalidade cinéfila própria. No caso do Roma, eram exibidos principalmente filmes europeus, que eram os distribuídos pelas empresas do grupo Ribeiro Belga. Para se comprar o bilhete, era comum haver filas maiores do que as de hoje, uma vez que o cinema era um entretenimento de crescente popularidade e de grande adesão. As sessões eram só à tarde (matiné) e à noite (soirée). Distribuíam-se os programas, onde constavam dados do filme a exibir bem como uma relação dos complementos.

Equipa do Roma, finais dos anos 50

As luzes apagavam-se, os cortinados abriam-se e a sessão começava. Mas não com o filme propriamente dito, que esse só viria depois do primeiro intervalo. Antes, ainda se podia ver um pequeno documentário ou filmagens de locais e ainda um magazine de actualidades ou um pequeno filme de animação, além das apresentações das próximas estreias. Findo o primeiro intervalo, iniciava-se o filme propriamente dito, com direito a um intervalo próprio.

No Roma, este ritual foi frequentemente abalado por espectáculos e acontecimentos paralelos, como quando aliado à projecção do filme Fim de semana em Londres foi realizada uma passagem de modelos num estrado montado para o efeito e que inviabilizou aliás a utilização de algumas filas da plateia; ou quando os espectadores ao saírem da sessão se depararam com uma exposição de fotografias “da província de Angola” exposta em cavaletes no Foyer “de forma a não prejudicar a segurança”; ou ainda numa ocasião em que, aliado ao filme A vida é sempre igual, em que a entrada era apenas feita por convites, se pôde assistir, no intervalo, a um evento marcadamente comercial: uma demonstração de um novo modelo de máquina de lavar. Estes são apenas exemplos de inúmeras variações à “simples” ida ao cinema. Mas o ritmo do cinema foi também amiúde alterado por motivos estritamente cinematográficos. Exemplos importantes são os ciclos de cinema, alguns dos primeiros realizados no país.

Arrumadoras do Roma, impecavelmente fardadas, com Maria Angêla.

O ROMA FAZ HISTÓRIA Lauro António foi pioneiro e responsável, no inicio dos anos 60, por um ciclo de cinema dedicado aos audiovisuais em cinema, seguramente um dos primeiros ciclos realizados em Portugal. Com alguns colegas da Faculdade que frequentava e com o apoio de dois ou três professores, conseguiram concretizar um evento que pretendia dar relevo aos audiovisuais, o qual teve um sucesso considerável, conseguindo salas sempre completas de público obviamente ávido de sessões fora do comum e de oportunidades culturais distintas das habituais.


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LAURA ELÁRIO passou a sua vida profissional no Roma. “O Cinema estava para abrir e fiz o pedido 15 dias de antecedência, já estava a equipa toda preenchida. Mas fui aceite e no dia seguinte, através de um postal, mandaram-me logo chamar”, recorda. Com as datas na ponta da língua e uma memória verdadeiramente espantosa, Laura confessa que se emociona cada vez que volta ao “seu” Roma. E foi não já no Roma mas no Fórum Lisboa que recordou o seu percurso profissional, indissociável da vida do Cinema. Motivos de tão forte ligação? Talvez os mais de 30 anos que passou no Cinema. Certamente o ambiente e o espírito de equipa e de entre-ajuda terão contribuído para um profundo sentimento de pertença. “Foi sempre um ambiente muito bom, vivemos momentos muito bons, de muita felicidade, tínhamos uma boa empresa, incluindo os patrões que eram muito bons para nós, apesar de muita gente falar mal dos patrões… nós nunca tivemos razão de queixa dos nossos! Era uma equipa muito unida, nunca tivemos problemas.” Srª Dª Laura Elário no terraço do Fórum, local onde petiscou com os colegas muitas vezes, ao longo dos anos.

O brio profissional e a exigência também contribuíram para um orgulho desmedido na farda envergada. “Chegamos a aparecer no jornal como as empregadas mais bem fardadas de Lisboa… e era verdade! A gente andava sempre impecável. E com muita disciplina, chegavam-nos a perguntar se estávamos na tropa...”

“Tivemos aqui grandes artistas internacionais, o Cinema era conhecido como a fina flor de Lisboa”, recorda. Das presenças de artistas, recorda com maior vivacidade a de Silvana Pampanini na estreia, de Sarita Montiel com o filme Carmen, la de Ronda, “que foi um êxito: foi quando se inaugurou o salão (bar). Toda a praceta estava cheia de gente!” Mais tarde veio Marisol, por duas vezes também… Carmen Sevilha, Elis Regina… Mas vários outros artistas, também portugueses passaram pelo Roma, de Amália Rodrigues ao Duo Ouro Negro, recorda. “Foram tantos e com tanta categoria que seria difícil dizer todos os nomes!”. A recordação dos rituais do Roma nos anos 60 deixa estampadas no rosto de Laura as saudades da sua querida profissão: “chegámos a ter matinés dançantes, a segunda matiné à Segunda feira, no salão. Vinha aquela camada jovem, entre os 14 e os 18 anos, mas com uma postura e num ambiente – não era nada do que se vê agora! Entravam aqui, não se ouvia uma palavrão…Achávamos muita piada porque eram muito novinhos.” Laura assistiu, naturalmente, aos sucessos e aos grandes êxitos de bilheteira. Uma experiência muito marcante, já no pós 25 de Abril, prendeu-se com o filme Emanuelle : “está a fazer exactamente 30 anos que fui entrevistada pela Dra. Maria Elisa Domingues - o programa era sobre o filme Emanuelle. Foi um filme com um êxito tremendo, que esteve em cartaz 4 meses e meio!” A angústia do encerramento do Roma é ainda visível em Laura. “ Quanto voltei cá, em 1997, ao espectáculo de Simone e de Carlos Quintas… foi uma grande emoção, uma saudade que não faz ideia. Principalmente por ter sido um ambiente muito bom! Às vezes dizem “são muitas mulheres”, mas continuamos todas a ser amigas, depois destes anos todos!”


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A equipa de arrumadoras do Roma com Henrique Mendes e Simone de Oliveira.

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Também na década de 60, o jovem Pedro Bandeira Freire resolve aproveitar o “tempo morto” entre as sessões e propor a Portal da Costa, crítico de cinema e gerente do Roma na altura, um ciclo “Música e Cinema”. E semanalmente, durante mais de um ano, por volta das 18h30, decorreu uma sessão de cinema seguida de uma actuação de uma banda ou artista. O sistema era simples: o cinema era alugado ao organizador, que se encarregava de trazer o filme, a banda e o público. Foram dezenas de filmes e de grupos musicais que passaram pelo Roma na altura, dinamizando o Cinema e o panorama cultural lisboeta. O conceito funcionava: os filmes eram escolhidos também pela banda sonora e o conjunto que actuava no palco após a exibição estava de algum modo relacionado com o filme projectado. Como exemplo: o filme Sait-on jamais tinha música do Modern Jazz Quartet, que entre os seus elementos contava com um xilofonista; e o grupo escolhido para actuar nesse dia tinha também o mesmo género de som, sendo que o xilofonista era Mário Viegas. No âmbito deste ciclo, pisaram o palco do Roma importantes nomes da música nacional como Jorge Machado, Hélder Martins ou Thilo Krassman, entre muitos outros. Mais uma vez, o sucesso da iniciativa confirmava que o público reagia bem perante uma oferta cultural mais complexa do que aquilo que normalmente lhe era disponibilizado. Além destas, de origem externa, houve outras iniciativas cinéfilas organizadas pela empresa do Roma, como a “Semana do Cinema Espanhol”, motivo de visita ao nosso país de realizadores como Bardem ou Berlanga. Estes acontecimentos, juntamente com as inúmeras e constantes presenças das estrelas, do cinema europeu e não só, foram sempre o garante e o motivo da grande agitação e animação que existiam à volta do Roma. Os eventos recreativos tiveram também um papel especial na história do Roma. Anualmente, o Cinema era extremamente concorrido por outros motivos que não os cinematográficos, pelo menos em duas ocasiões: o Carnaval e a Passagem de Ano. Nas noites de fim do ano, o Roma promovia “festas de arromba”! As pessoas ao entrarem recebiam uma bolsa com brinde: uma garrafinha com espumante, as 12 passas e outras surpresas variáveis. O tecto estava cheio de balões, que à meia noite rebentavam num som ensurdecedor. Era um dos reveillons mais famosos de Lisboa, e que fazia jus à sua fama pela animação e pela qualidade dos conjuntos musicais presentes na data.

Assistência à festa infantil do Grémio Nacional das Empresas de Cinema, no cinema Roma, 1962. Fundo O Século, Arquivo de Fotografia de Lisboa – CPF / MC

Também o Carnaval do Cinema Roma era um acontecimento especial e concorrido, considerado por alguns como o maior Carnaval de Lisboa, a par do antigo Monumental. Os cinemas eram por excelência um prolongamento do Carnaval popular, em que as programações especiais para o efeito


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atraíam as pessoas, por vezes em bailes até às tantas - matinés infantis, soirées para os adultos. Foi aliás num Carnaval de arromba que o Roma proporcionou aos muitos lisboetas que lá acorreram três espectáculos sempre esgotadíssimos da grande Elis Regina com Jair Rodrigues, nomes-mito da música brasileira. Além das duas ocasiões referidas, era extremamente frequente haver um espectáculo de variedades complementar à sessão cinematográfica. Como eram as sessões especiais, as programadas por Igrejas Caeiro às Quartas-feiras e dedicada às donas de casa, ou ainda as dedicadas aos estudantes, onde se desenvolveram paixões e despertaram inúmeros amores, para referir algumas que fizeram sucesso. Outros eventos populares eram os concertos de conjuntos, uns já de renome e outros ainda em fase de lançamento na carreira musical. O Roma foi palco da estreia de marcos da música portuguesa, como o Duo Ouro Negro, que o próprio Ribeiro Belga ajudara a chegar a Portugal continental exactamente com o intuito de iniciarem uma carreira na dita então metrópole.

Crianças que participaram no concurso de máscaras do cinema Roma, 1965. Fundo O Século, Arquivo de Fotografia de Lisboa CPF/MC

Mas o Roma foi palco de outros lançamentos fundamentais para a história da música popular portuguesa como o disco de estreia de Sérgio Godinho, Romance de Um Dia na Estrada, e o álbum de estreia a solo de José Mário Branco, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, ambos editados pela Sassetti. A visita e participação de Escolas no Roma verificou-se também desde o início da história deste cinema. Principalmente no Natal mas não só, as crianças tinham oportunidade de ver os filmes infantis do momento, e de caminho um desenho animado em jeito de complemento. Além das escolas, era comum fazerem-se sessões, mais ou menos privadas, nomeadamente a pedido de empresas que alugavam a sala para o efeito, proporcionando os patrões aos seus empregados uma benesse a cujo acesso seria difícil de outro modo. Mas também de fracassos se fez a história do Roma. Um filme importante na história da exibição cinematográfica portuguesa - até por ter estado mais de um ano em exibição - foi Música no Coração, de Robert Wise, que estreou simultaneamente no Roma e no Tivoli. No entanto, no início o filme foi um fracasso de bilheteira em ambos os cinemas. O Roma substituiu-o rapidamente, mas após insistência do distribuidor para que Música no Coração ficasse em exibição por mais tempo, o Tivoli acede. Entretanto, em frente a este cinema o São Jorge estreara Goldfinger, fita extremamente

Anúncio de Elis Regina e Jair Rodrigues no Roma, 1966


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concorrida em termos de acorrência de multidões. E assim, após lotar o São Jorge, as pessoas que não conseguiam bilhete tiveram a tendência de atravessar a Avenida e ir ao Tivoli. Ao ver Música no Coração gostam, espalham a palavra, e num processo bastante comum de construção de sucessos de bilheteira o filme de Wise tornou-se um dos maiores sucessos de sempre em termos de exibição em Lisboa. No entanto, no Roma não esteve em cartaz tempo suficiente para poder viver esta afluência. Enquanto o Roma acolhia todas estas experiências, o panorama e a lógica do(s) cinema(s) foi-se alterando. MUDAM-SE OS TEMPOS

Matinés infantis. A artista Marisol procedendo à distribuição de prémios na matiné infantil no cinema Roma, 1964. Fundo O Século, Arquivo de Fotografia de Lisboa CPF/MC

A exploração, que até determinada altura fora feita em termos de tempo (um só filme podia estar vários meses numa só sala), começou paulatinamente a ser feita em quantidade: o mesmo filme passou a estrear em várias salas simultaneamente, e a exploração começou a fazer-se não em tempo mas em número de salas. Esta estratégia, directamente relacionada com o domínio norte-americano que se começou a impor, implicou directamente grandes alterações na exploração dos cinemas. À medida que a televisão e o vídeo ganharam adeptos e se foram desenvolvendo, começou a ser insustentável um filme ficar muito tempo numa sala, sendo o ciclo de vida do filme no cinema encurtado tendo em conta a saída em vídeo e mesmo a sua difusão na televisão. Ou seja, se ao fim de alguns meses de exibição cinematográfica o filme podia ser requisitado num clube de vídeo, obviamente que o tempo de exibição tinha que ser bastante diminuído. Este facto obrigou a que houvesse uma exploração conjunta, pelo que os cinemas começaram a ser muito semelhantes nas escolhas dos filmes que exibiam, sacrificando as características próprias outrora privilegiadas. O Roma, que sempre exibira filmes mais marginais, foi um dos cinemas mais prejudicados com esta nova lógica de exploração cinematográfica. Também o ritual de deslocação ao cinema estava já muito mais normalizado. Apesar das condições de projecção e qualidade técnica das mesmas serem cada vez melhores, ou talvez também em parte por este motivo, ir ao cinema era já um acto comum, algo feito por impulso ou pelo menos de modo mais automático.

Diário Popular de 15 de Outubro de 1964.

Uma das grandes vantagens do Roma era o tamanho do seu ecrã, entretanto aumentado, e que proporcionava condições excepcionais de exibição quer em formato cinemascópio quer em 70 milímetros.


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Os intervalos deixaram de vir pré-assinalados na fita, cabendo a cada projeccionista decidir onde pausar o filme. A regra no Roma era escolher uma cena calma, sem grande tensão dramática, num máximo de 65 minutos decorridos de filme, dependendo da duração total do filme. Fruto das mudanças de lógica de exibição, nasceu um fenómeno novo: as ante-estreias. Estas tendiam a ser eventos de grande prestígio, onde se usava o tapete vermelho e em que os convidados eram estritamente seleccionados. Entretanto, em 1972, morre Joaquim Braz Ribeiro Belga e sucede-lhe, na gerência da empresa, um sobrinho. MUDAM-SE AS VONTADES O período que segue ao 25 de Abril foi, em termos de exibição cinematográfica, absolutamente excepcional em Portugal, e as causas não são difíceis de depreender: podia-se finalmente ver os filmes proibidos pela censura ao longo das últimas décadas. E o Roma conhece alguns dos seus mais estrondosos êxitos de bilheteira neste período, à semelhança do que acontece um pouco por todo o país.

Crianças que assistiram à festa de Natal realizada no cinema Roma, 1962. Fundo O Século, Arquivo de Fotografia de Lisboa – CPF / MC

Destes, os filmes eróticos – que de erótico nem sempre tinham muito! – foram dos que obtiveram mais sucessos. Para assistir a Harlis - Amor entre mulheres, por exemplo, as pessoas chegaram a comprar bilhetes por dois mil escudos, no mercado negro. A afluência às bilheteiras era enorme, e frequentemente as sessões esgotavam muito antes de chegar sequer a meio da fila acumulada para comprar bilhetes. A abertura ao estrangeiro potenciou novas mudanças na lógica cinematográfica de Lisboa, e tornou-se mais difícil a exploração de cinemas fora do grupo norte-americano que conquistou grande parte do mercado em Portugal. A Lusomundo começou a ter uma crescente agressividade comercial, que rapidamente se alastrou às restantes grandes empresas exibidoras, e que a pouco e pouco levou a um estrangulamento de mercado. E tanto a distribuição como a exibição por parte do grupo Ribeiro Belga começaram a ressentir-se. Por outro lado, os cinemas do grupo Ribeiro Belga eram afastados do centro, e os cinemas de bairro foram os que mais e mais rapidamente se ressentiram com a crescente importância da televisão, uma vez que as famílias tinham uma alternativa fácil ao programa: ficar em casa. Os cinemas do centro da cidade, tal como os teatros, tendiam a continuar a ter uma carga quase mítica de local de espectáculo onde se ia ver e ser visto, estrear a última moda e saber dos últimos mexericos sociais.

A equipa das arrumadoras do Roma, início dos anos 70.


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Sentindo a necessidade de se aliar a uma das empresas dominantes, a empresa detentora do Roma cede à Lusomundo parte do capital. E apesar de o Roma ter sempre acolhido e exibido filmes distribuídos por outras empresas, como a Castello Lopes ou a própria Lusomundo, o forte da sua programação eram os filmes distribuídos pelo grupo Ribeiro Belga. Nos finais dos anos 70 este processo alterou-se definitivamente, e através desta nova parceria começam a passar no Roma principalmente filmes representados em Portugal pela Lusomundo, que iam alternando aos distribuídos pelas empresas do grupo Ribeiro Belga. Paralelamente às alterações cinematográficas o Roma continua, nos finais dos anos 70 e início dos anos 80, a ser palco de mudança.

VII Congresso Nacional do PSD, Cinema Roma, 1979. Foto de João Nascimento, Arquivo do PSD.

Anos antes de vir a ser sede da Assembleia Municipal de Lisboa, o edifício acolheu eventos importantes para o desenrolar da actividade política e, consequentemente, dos destinos de Lisboa e do país. Foi aqui, a título de exemplo, que Francisco Sá Carneiro foi reeleito Presidente da Comissão Política Nacional, no VII Congresso do PSD, em 16 e 17 Junho de 1979, sendo na sequência deste Congresso que viria a assumir a liderança do Governo AD eleito pouco depois. Terá sido também neste evento que Sá Carneiro terá sido apresentado a Pedro Santana Lopes, no Foyer do Cinema. O cinema português, que sempre fora privilegiado na exibição no Roma, continua a poder contar com este local para apresentar muitos dos seus filmes, embora nem sempre para o público em geral. Foi no Roma, mais concretamente na sala de provas do 2º piso, que foi seleccionado o filme Manhã Submersa, de Lauro António, para representar Portugal no Festival de Cannes. O realizador recorda-se do acontecimento: “No Roma talvez se tenha dado a sessão mais importante para mim com um filme meu durante toda a minha vida: foi na sala de provas que passou pela, primeira vez a Manhã Submersa quando cá veio PierreHenri Deleau o director da quinzena dos realizadores do Festival de Cannes, e que veio a Portugal escolher filmes para levar para o festival de Cannes. Na altura o Instituto Português de Cinema organizou a sessão para o Pierre-Henri Deleau e foi lá que o filme passou… nas piores condições!

Cinema Roma, 1979. Foto de João Nascimento, Arquivo do PSD.

Acho que nunca sofri tanto na minha vida. A cópia tinha saído há pouco tempo da Tobis, a sessão começou e cerca de 20 minutos depois começou a não se ouvir nada. Ao principio fui à cabine de projecção


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para ver se havia algum problema, mas não era nada com o filme, era com a máquina que tinha tido um problema qualquer. E o filme foi assim até ao fim…. Acho que nunca devo ter suado tanto na minha vida! A ver um filme que podia ter algumas hipóteses de ir ao festival de Cannes a vê-lo passar numas condições miseráveis…. Às tantas perguntei ao Pierre-Henri Deleau se ele queria parar, ele respondeu que não, que se percebia… e no final seleccionou o filme! Disse que tinha percebido que aquilo eram condições técnicas da máquina, mas que caso fosse da cópia para o recuperarmos até ao festival! O dia foi dramático, mas foi dos dias mais importantes da minha vida em termos de cinema e de evolução, porque o facto de ter ido a Cannes onde foi muito bem recebido alterou por completo a percepção do filme não só em todo o mundo como inclusivamente em Lisboa.”

Depois de mais alguns grandes êxitos de bilheteira (com Terra Sangrenta por exemplo, as pessoas às 10h da manhã já formavam fila para conseguirem bilhete), em 13 de Outubro de 1988, o Roma exibe o filme Comboio em Fuga, de Andrei Konchalovsky, que foi a sua última sessão, com direito a muita emoção e algumas lágrimas.

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A festa do Carnaval incluía até o pequeno almoço, às 07h.

Lotação da sala 1957: 1056 lugares 1962: 1099 lugares 1973: 1032 lugares 1986: 976 lugares 1997: 701 lugares

Sala de projecção do Fórum em plena actividade

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DIVAS veio parar ao cinema por acaso: o pai era, em Moçambique, projeccionista de um dos cinemas ligado ao grupo Ribeiro Belga. E desde cedo o filho foi tomando contacto com o mundo das máquinas de projecção e das bobines. Entre o ver fazer e o começar a ajudar foi um passo, incentivado em grande medida pelo pai. Uma vez aprendido o básico do ofício, e ganha a experiência à custa de ir ajudando aqui e ali, Divas aprendeu os segredos de uma boa projecção. Quando, após o 25 de Abril, a sua família veio para Lisboa, o seu percurso foi, naturalmente, dar mais uma vez ao cinema. E mesmo sem ter tido alguma vez esse objectivo profissional específico, Divas teve um convite para ir fazer as férias de um trabalhador e acabou por se tornar projeccionista profissional, agregado ao Roma desde os finais dos anos 70. A facilidade de adaptação teve uma grande ajuda: as máquinas instaladas no Roma eram iguais às com que lidava em Moçambique. Na altura, o Roma possuía o maior ecrã da cidade, sendo dos poucos cinemas que podia exibir filmes em 70 milímetros. “O Cinemascope do Roma antigo era quase os 70mm do Condes, agora imagine o nosso 70mm!” recordou, orgulhoso, o projeccionista. E de facto, apesar de estarmos na altura da decadência dos grandes cinemas, vir ao Roma era ainda um ritual especial. Para se ter uma ideia, basta imaginar que “o fiscal, antes de abrir a porta, passava revista às arrumadoras e aos porteiros, tinham que estar na linha, os fardamentos bem vestidos… esta era uma sala com prestígio.” Quando em 1988 o Roma encerrou, Divas teve a sorte de ter um convite para manter a sua profissão mas deslocála uns metros: foi inaugurar os cinemas King, aos quais continua ligado sendo projeccionista do Monumental.

Divas, projeccionista do Roma de 1979 a 1988

Recorda com saudades o última dia do Roma, em que se exibiu o filme Comboio em fuga: “as pessoas que lá tinham estado na vida toda, fizeram daquilo uma casa, estavam muito tristes… Houve pessoas que passaram a vida lá, ainda hoje vivem na zona, foi muito duro”.

Quando a CML adquiriu o edifício e o reabriu, quis o destino que Divas fosse chamado para fazer a abertura do Fórum Lisboa, anos depois de o ter encerrado. “Emocionalmente, estava calmo, notei as diferenças das obras, foi bom regressar ao Roma”, recorda, emocionado, o projeccionista.


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O encerramento Dos cinemas do Grupo Ribeiro Belga, o Roma foi o último a fechar. O Aviz fechara já em 30 de Setembro de 1987 e no último dia do mesmo ano fora a vez do Estúdio 444. Este fenómeno de fecho de salas foi generalizado, não apenas em Portugal mas um pouco pelo mundo ocidental fora, e embora cada cinema tenha uma história, vivência e motivações próprias, alguns factores comuns podem ser apontados como parcialmente responsáveis pelo processo. O primeiro prende-se com o surgimento de um outro fenómeno que é muito mais interessante para as grandes empresas, que entretanto tinham conseguido dominar o mercado: os cinemas multiplex. Por outro lado, também a lei que exigia que os cinemas tivessem que ser edifícios autónomos e que uma sala não poderia estar integrada noutra superfície comercial foi alterada, dando rapidamente origem a cinemas em centros comerciais, que entretanto começaram a aparecer com alguma força. Estes motivos aliados frequentemente ao conforto das salas em si e à qualidade da projecção com máquinas e tecnologias novas, levam a uma nova fórmula de trilogia compras-jantar-cinemas sem sair do mesmo espaço, apelo apetecível a uma sociedade urbana em galopante instinto consumista. E o cinema passa a ser encarado por muitos como um produto de consumo para um público urbano e com pouco tempo para “gastar” em cultura. Referem os números do então Instituto Português de Cinema que estavam 394 salas de cinemas abertas em 1981, número que dez anos mais tarde já tinha sido reduzido para 291, a nível nacional, sendo que nestas salas estão incluídas cada vez mais salas com reduzido número de espectadores. Não é difícil vislumbrar o real significado destes números, se nos lembrarmos que nos dez anos em questão, de 1981 a 1991, fecharam alguns dos gigantes cinemas lisboetas como o Monumental, o Tivoli, o Pathé, o Éden e, claro, o Roma. Como resultado, os grandes cinemas – mesmo os que foram sendo comprados pelas grandes distribuidoras - acabaram por ser desactivados como cinema. O Roma não foi excepção e durante uns anos foi utilizado como armazém da Lusomundo. Data de 1993 um pedido da Lusomundo S.A. à Direcção Geral dos Espectáculos e das Artes em que consta o cinema Roma, entre outros recintos, e em que é pedido por se encontrarem “encerrados há longos períodos devido à sua total inviabilidade comercial e aos avultados prejuízos acumulados ao longo dos últimos anos de exploração” que seja dada baixa nos respectivos registos e que “seja tomada nota da consequente desafectação definitiva de actividades cinematográficas”.

Projecto de alteração ao Roma datado de 1982, que mostra a tentativa de rentabilizar o espaço, transformando o Foyer em pequenas lojas.


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Na reunião de Câmara de 27 de Dezembro de 1996 foi aprovada a compra do Cinema Roma pela Câmara Municipal de Lisboa. Declarações à comunicação social do então presidente da autarquia, Dr. João Soares, referem “a salvação da uma sala de espectáculos” e a “necessidade de instalar convenientemente a Assembleia Municipal de Lisboa” como os motivos para esta compra, no valor de 1 milhão de contos. O contrato-promessa assinado em 11 de Março de 1997 foi efectuado através da EPUL, entre esta e os sócios do Roma que discordaram quanto ao preço de venda do imóvel. Alexandre o Grande, de Robert Rossen, estreou no Roma em 1957

Alexandre o Grande, de Oliver Stone, ante-estreou no Fórum Lisboa em 2004

O projecto de João Soares previa a adaptação da ala direita do edifício para se instalarem os serviços da AML, evitando-se a construção de um edifício adjacente, hipótese que chegou a ser equacionada. A sala seria também adaptada à realização de conferências e ao visionamento de cinema num grande écran. As obras, avaliadas inicialmente em 590 mil contos (vieram a custar 620 mil) estariam prontas em Julho de 1997. Encomendadas e supervisionadas pela EPUL e CML, as obras levantaram alguma celeuma. Victor Gonçalves, deputado municipal do PSD, discordou do processo uma vez que a proposta aprovada em sessão de Câmara previa a aquisição do antigo cinema “devidamente reabilitado e reequipado” por um valor máximo total de um milhão e 590 mil contos, ficando as obras a cargo dos antigos proprietários. A verdade é que com ou sem polémicas, a compra do imóvel veio pôr fim a anos de impasse quanto à instalação condigna da AML, que até ali funcionara num edifício sem condições logísticas ou de dignidade, na Rua Teixeira de Pascoaes, bem perto do Fórum Lisboa, num edifício em cujas traseiras chegou a ser aberto um enorme buraco durante a gestão de Jorge Sampaio, onde deveria nascer um espaço de raiz para a Assembleia Municipal. Mas o projecto encalhou nos protestos dos moradores dos prédios vizinhos. Funcionando durante alguns anos sem quaisquer condições, nos tempos que precederam a compra do Roma a AML reunia-se no Teatro Maria Matos.

Fórum Lisboa. Foto da DCI, CML

Com o cinema Roma “nas mãos”, a CML pretendeu desde sempre não só instalar ali a AML, mas também manter o espaço aberto a eventos culturais, sociais, educativos, políticos e cívicos considerados de interesse para a cidade. A ideia era a de criar um fórum da cidade de Lisboa. E foi com este objectivo que as obras de reabilitação e adaptação procuraram manter as características de cinema, enquadrando-as o mais possível com a possibilidade de se transformar num espaço multifacetado.


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O Roma renasce como Fórum A INAUGURAÇÃO DO FÓRUM LISBOA O Fórum Lisboa acabou por ter duas inaugurações: uma sessão solene da AML, pela primeira vez na sua nova sede, e um evento cultural mais aberto a convidados externos à edilidade. A AML reuniu-se pela primeira vez no Fórum Lisboa no dia 7 de Novembro de 1997, também sob algumas críticas da oposição, nomeadamente do grupo parlamentar do PSD que considerou inaceitável que na cerimónia apenas discursassem os presidentes da CML e AML. Na noite seguinte, 8 de Novembro de 1997, houve então a ante-estreia do filme “Pour Rire”, de Lucas Belvaux, distribuído pela Atalanta. Nessa noite, vários clientes habituais do Roma puderam constatar que o Fórum Lisboa mantivera a estrutura da sala e que os melhoramentos introduzidos beneficiavam o edifício. Entre outros responsáveis e dinamizadores das concorridas sessões e espectáculos do Roma, vieram à estreia do Fórum Lisboa Fernando Pessa e Igrejas Caeiro. Por coincidência, o projeccionista contactado para aquela sessão, a primeira do Fórum Lisboa, foi precisamente o responsável, quase 20 anos antes, pela projecção do último filme no Roma, Comboio em Fuga. O FÓRUM LISBOA HOJE O Auditório Principal tem capacidade de 701 lugares e está provido de mobiliário adequado a um plenário com mesas de apoio rebatíveis e equipado com som, luz, tradução simultânea, projecção em vídeo e cinema.

Sessão Solene da AML, Novembro 1997, fotos DCI -CML

Possui acessibilidades para deficientes, dispondo de duas plataformas elevatórias de acesso ao auditório e palco. A versatilidade deste espaço é evidente no possível vasto leque de utilizações, de sala de cinema (equipada com projecção em cinema em 35 e 16 mm e projecção em Vídeo) a sala de conferências, passando por sala de espectáculos (concertos e expressões teatrais). Além do auditório, existem outros espaços que pontualmente acolhem eventos próprios ou complementam a actividade programada na sala principal.

Inauguração do Fórum Lisboa, Novembro 1997 foto DCI-CML


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A Sala de Apoio, no 1º piso é um espaço vocacionado para a realização de eventos com número restrito de participantes, como reuniões, acções de formação e workshops. O Foyer Grande, com serviço de cafetaria, tem múltiplas funções, considerando que tem características de Bar, onde podem ser servidos cocktails, portos de honra, almoços, coffee-breaks, etc. Por outro lado, tem as características de Foyer, espaço aberto para a realização de exposições artísticas nas áreas da pintura, fotografia, cinema, escultura, lançamentos de novos livros e discos, realização de performances, debates, conferências de imprensa, etc. O Bar Pequeno é um espaço de bar e café por excelência, com características que permitem transformálo em Sala VIP.

Inauguração do Fórum Lisboa, Novembro 1997 Foto da DCI, CML

Desde 1997 que o Fórum Lisboa tem acolhido as sessões da AML e tem sido simultaneamente um pólo cultural mas também cívico, educativo e social primordial para o modus vivendi da cidade de Lisboa. A gestão do Fórum Lisboa passou em Abril de 2003 para a EGEAC, Empresa Municipal de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural, juntamente com os Teatros S. Luís e Maria Matos, o Cinema São Jorge e o Padrão dos Descobrimentos, voltando em Agosto de 2005 a ser de responsabilidade directa da CML, em colaboração com a AML.

FIM Foyer do Fórum Lisboa. Foto da DCI, CML


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Montagem de v谩rios jornais. Segundo dados da Cinemateca Portuguesa, no Roma estrearam 699 filmes e foram repostos 17.

Montagem com bilhetes do Roma e do F贸rum Lisboa, de 1957 a 2005


bibliografia | Fernandes, José Manuel, Cinemas de Portugal, Edições INAPA, 1995 | Tavares Dias, Marina, Lisboa Desaparecida, Quimera, 1987 | Tostões, Ana, Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50, FAUP, 1997 | outros | Arquivo do SNI Documentação de Cinema, na Torre do Tombo | Processo do Cinema Roma/Fórum Lisboa na Divisão de Gestão de Arquivos da CML | Processo do Cinema Roma/Fórum Lisboa na Inspecção Geral das Actividades Culturais | imprensa | A arquitectura portuguesa, nº12, 4ª série, Jul/Out 1957 | Várias edições dos jornais A Capital, Diário de Notícias, Diário de Lisboa, Diário Popular, O Século, Público, República e das revistas Cinéfilo e Imagem | outras fontes | conversas com Almeida Faria, Divas, Laura Elário, Lauro António, Manuel Moreira e Pedro Bandeira Freire. agradecimentos | Dra. Amália Dias e equipa do Gabinete de Estudos Olissiponenses | Armanda Parreira | Divas | Divisão de Comunicação e Imagem | Dra. Elsa Ferreira e equipa da Hemeroteca Municipal de Lisboa | Dra. Inês Viegas e equipa da Divisão de Gestão de Arquivos | Arq. Jorge Carvalho e Engª Cristina Fadigas da Divisão de Património Cultural | Joaquim Mendes | Eng. Joaquim Valente e equipa da Divisão de Recintos de Espectáculos da Inspecção Geral de Actividades Culturais | José de Almeida Faria | Júlio Pisa, Vítor António e Arquivo do PSD | Laura Elário | Lauro António | Manuel Moreira | Dra. Maria de Lurdes Baptista e equipa do Arquivo Fotográfico Municipal da CML | Dra. Paula Ucha e equipa da sala de leitura da Torre do Tombo | Dr. Paulo Leme e Arquivo de Fotografia de Lisboa | Pedro Bandeira Freire | Teresa Barreto Borges e equipa do Centro de Documentação e Informação da Cinemateca Portuguesa | Videoteca Municipal de Lisboa 1ª edição: Novembro de 2005 2ª Edição (revista): Março de 2007


Comprado pela Câmara Municipal de Lisboa em 1997, o Cinema Roma teve um percurso extremamente variado até se tornar o equipamento multifacetado de excelência que é o Fórum Lisboa.


Do Cinema Roma ao Fórum Lisboa - breve história de um espaço de cidadania