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CARLA:

Ainda bem que perguntas isso. A ciência, para além dos testes de que temos vindo a falar, dispõe de um processo de

validaçãofundamental: a comunidade científica.

CLÁUDIA: Explica lá isso melhor. Sempre tive curiosidade em saber como funcionam os “bastidores” da ciência.

CARLA:

Pois tens agora um excelente livro para te explicar isso. Chama-se O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias — Crónicas

das Fronteiras da Ciência e o seu autor é Jorge Buescu, um cientista português. Recomendo-to vivamente. Vai apetecer-te lê-lo todo de seguida, de uma ponta a outra. Entre outras coisas, ele explica como funciona a comunidade científica. CLÁUDIA: Sou toda ouvidos. CARLA:

É muito simples. O melhor exemplo disso é o do refereeing, uma espécie de arbitragem. Eis como funciona. Um trabalho, para ser

considerado científico, tem de ser validado pela comunidade científica, ou seja, ser aceite pelos outros especialistas nessa matéria. Como se processa essa aprovação? Através da peer review, isto é, a aprovação pelos pares.

CLÁUDIA: E como é que os trabalhos novos são dados a conhecer?

CARLA:

Através das revistas da especialidade. Uma revista científica digna desse nome tem obrigatoriamente de possuir um sistema

derefereeing, através do qual os artigos que são enviados para publicação são avaliados por especialistas mundiais no assunto (no mínimo dois, mas por vezes três ou mais). O papel destes referees é precisamente o de tentar encontrar falhas na teoria que é defendida no artigo, num autêntico teste de falsificabilidade!

CLÁUDIA: Quer dizer: esses especialistas fazem o papel de advogados do diabo...

CARLA:

É isso mesmo. No final deste processo, que pode demorar meses, elaboram um relatório sobre o artigo onde é recomendada uma de

três coisas: não publicar, reenvio ao autor para correcções ou aceitação. Quando há correcções a fazer, o processo repete -se, o que pode demorar anos. No caso de ser finalmente publicado, o artigo vai ser lido e posto à prova não por dois ou três especialistas, mas pela comunidade científica inteira.

CLÁUDIA: Um número enorme de advogados do diabo!

CARLA:

Nem duvides! Cada um deles vai tentar descobrir falhas na nova teoria dada agora a conhecer. Por aqui se pode ver que a publi cação de

uma artigo científico numa revista da especialidade, só por si, não garante qualquer glória ao seu autor. Só depois de passad as todas estas fases o artigo é considerado aprovado pela comunidade científica e aquilo que afirma pode ser considerado conhecimento legitimamente científico. Agora vê bem: se uma teoria resiste a testes rigorosos de refutabilidade isso deve significar, em princípio, que a teoria é convincente. Mas atenção: isso não garante que a teoria não seja falsa.

CLÁUDIA: Porquê? Não passou nos testes?

CARLA:

É verdade que passou naqueles testes, mas o trabalho do cientista não pára aí. Popper defende que o cientista deve continuar a realizar

testes cada vez mais rigorosos e severos, em vez de se contentar com os bons resultados já obtidos.

CLÁUDIA: Não se deve “deitar à sombra da bananeira”...

CARLA:

É isso mesmo. Ele é muito claro nesse aspecto: nunca poderemos estar seguros de que a nossa teoria não venha a ser substituíd a por

outra que se revele mais adequada. Até é bom que isso aconteça, aliás, porque significa que existe um progresso no conhecimento ou, como diz Popper, uma cada vez maior “aproximação à verdade”.

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MARCO:

Podes resumir isso em poucas palavras?

CARLA:

Bom, eu não tenho a tua capacidade de síntese, mas vou tentar. Em alternativa ao método científico tradicional, Karl Popper propõe

um novo método, que se caracteriza pela formulação arrojada e imaginativa de hipóteses. Estas hipóteses são depois testadas a través de testes severos e rigorosos, que têm o poder de as falsificar, mas não de as confirmar. Assim entendido, o método científico deixa de se apoiar na indu ção (generalizar a partir dos casos observados), e passa a ser constituído por conjecturas ousadas que depois são submetidas a testes rigorosos. Popper designa-o por método das conjecturas e refutações(ou falsificacionismo). Nesta perspectiva, o cientista não erra ao colocar uma conjectura interessante que é posteriormente refutada, mas cometeria um erro se apresentasse uma conjectura que não permitisse qualquer refutação, ou se continuasse a defendê-la quando os dados empíricos a refutam.

CLÁUDIA: Pelo que ouvi, podemos concluir que Karl Popper foi um filósofo muito inovador. Diz-me uma coisa: se tivesses de escolher de entre os seus contributos originais para a filosofia da ciência, que aspectos destacarias como mais importantes?

CARLA:

Hum, deixa cá pensar... Talvez destacasse três aspectos, que até estão interligados.

MARCO:

Qual o primeiro?

CARLA:

O primeiro é, sem dúvida, o facto de ter mudado o critério de cientificidade.

CLÁUDIA: Que palavrão! Que é que isso significa?

CARLA:

É muito simples. O critério de cientificidade é aquilo que permite dizer que determinado enunciado é científico.

CLÁUDIA: Já percebi! É uma espécie de “certificado de garantia”: certifica que a teoria que obedecer a esse critério é científica de certeza.

CARLA:

Sim, é essa a ideia. Ora, no método científico simples o critério era a verificabilidade. De acordo com o critério de verificabilidade,

podemos afirmar que uma teoria é científica sempre que ela foi verificada experimentalmente, isto é, foi confirmada por um gr ande número de experimentações.

CLÁUDIA: Para Popper não é esse, claro...

CARLA:

Pois não. Ele propõe como critério de cientificidade a falsificabilidade. De acordo com este novo critério, uma conjectura só deve ser

considerada científica se enunciar com rigor e clareza as condições em que pode ser falsificada. É essa disponibilidade para poder ser refutada que, segundo Popper, caracteriza o verdadeiro espírito científico.

MARCO:

Muito bem. E a segunda inovação?

CARLA:

A segunda decorre da anterior: Popper fornece-nos umcritério claro para distinguir uma hipótese científica de uma não científica.

MARCO:

Qual é esse critério?

CARLA:

O critério é este: para uma hipótese ser considerada científica é necessário que essa hipótese possa ser refutada por meio de testes

rigorosos. Popper recomenda que formulemos as teorias de maneira tão clara quanto possível, de modo a expô-las à refutação sem ambiguidades. O

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cientista não se limita a apresentar a sua conjectura; deve também enunciar aquilo que, no caso de acontecer, prova que a sua conjectura é falsa. E depois vai realizar os testes, exactamente para ver se acontece aquilo que era suposto não acontecer.

CLÁUDIA: Ou seja, vai tentar encontrar cisnes negros...

CARLA:

Já vi que percebeste. É dessa forma que uma teoria genuinamente científica se coloca permanentemente em risco. A ideia é esta:

quanto mais falsificável um enunciado for, mais útil é à ciência. Mas, para ser falsificável, ele não deve ser vago: tem que ser claro e directo.

MARCO:

Dá-me um exemplo.

CARLA:

Imaginemos que são cinco para o meio dia. Neste caso, o enunciado “É meio dia em ponto” é falso. Apesar disso, contém mais

informação e revela-se mais útil do que este: “Estamos entre as dez da manhã e as quatro da tarde”. Algumas conjecturas utilizam este “truque” (a vagueza) para passarem por científicas.

MARCO:

Referes-te a quê?

CARLA:

Refiro-me à astrologia, por exemplo. Já repararam que as previsões dos astrólogos são sempre vagas? Isso permite encontrar

posteriormente alguns acontecimentos que, eventualmente, “encaixem” na previsão feita.

CLÁUDIA: Pois é, tens razão. Se um astrólogo previr, para o próximo ano, que vão acontecer desgraças num país europeu, quase de certez a que acerta. Mas se ele dissesse exactamente que desgraça seria e qual o país onde ela se iria verificar, então seria facílimo saber se a previsão era ou não verdadeira.

MARCO:

Quer isso dizer que, para Karl Popper, a astrologia não é uma ciência...

CARLA:

Exactamente. Mas não é por ter falhado nas previsões que o astrólogo não merece ser considerado cien tista. Isso é absolutamente

irrelevante! A razão é esta: as hipóteses astrológicas não são formuladas com clareza e precisão e não indicam quais as circu nstâncias em que se pode provar que são falsas; como não se conhecem os factos capazes de as refutar, não é possível testá-las; como não são susceptíveis de testes, as hipóteses da astrologia não são científicas. É por isso que a astrologia, à luz deste critério, é considerada uma pseudociência.

MARCO:

Para concluir: qual é a vantagem de existir esse critério de demarcação entre ciência e não ciência?

CARLA:

Como já afirmei, quanto mais falsificável for um enunciado, mais útil à ciência ele é. Enquanto que uma hipótese não falsific ável é

inútil para a ciência, uma hipótese falsificável é sempre de grande utilidade. Se não passou nos testes de falsificabilidade, leva os cientistas a formularem outra hipótese que resista melhor; se passou nos testes, a teoria merece ser levada a sério.

MARCO:

Tinhas falado em três aspectos particularmente importantes que, na tua opinião, se podem encontrar na filosofia da ciência de Karl

Popper. Já apresentaste dois: a mudança de critério de cientificidade e o critério de demarcação entre ciência e não ciência. Só falta o terceiro...

CARLA:

Que está intimamente relacionado com os anteriores e que é este: ele defende uma nova concepção da ciência, bastante diferente da

concepção que tradicionalmente se ensina nas escolas.

CLÁUDIA: Qual a principal diferença?

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CARLA:

A principal diferença é esta: a ciência deixa de ser visto como um conhecimento inequivocamente verdadeiro e passa a ser encarado

como um conhecimento aproximado. Há dois aspectos em que esta mudança se torna evidente. O primeiro é este: enquanto que segundo a perspectiva tradicional da ciência o conhecimento é constituído por «leis», na concepção de Popper fala-se de «conjecturas». O segundo aspecto tem a ver com as expectativas da ciência: segundo a perspectiva tradicional, a ciência aspira à verdade; para Popper, no entanto, a expectativa é bem mais modesta: uma vez que foi posta de parte essa ilusão de uma verdade indiscutível, o objectivo da ciência é a construção de conjecturas concebidas para serem melhores do que as conjecturas (ou teorias) anteriores.

CLÁUDIA: Ou seja: nunca saberemos com toda a certeza se uma teoria é verdadeira, apenas podemos saber que é melhor que a anterior.

CARLA:

Exactamente. É por isso que prefere falar em «aproximação à verdade».

in CAFÉ, Carlos, Eles não sabem que eu sonho – Um jovem poeta no país da Ciência, Porto, Edições Asa, 3ª ed., 2005, pp. 113 a 120

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Diálogo sobre as Principais Teses de Popper  

Karl Popper

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