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FESTA DA PORCIÚNCULA Com o coração transbordante de alegria neste dia da Festa do Perdão de Assis, e servindo-nos das palavras de Francisco saudamos a virgem feita Igreja, palácio, tabernáculo, vestimenta e casa de Deus (cf. SalBVM 4-5). E com as próprias da filha e serva do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo, agradecemos Àquele que olhou a humildade de sua serva e a cumulou de graça: “A minha alma engradece o Senhor e meu espírito exulta em Deus, meu salvador" (Lc 1,46-37). Celebramos hoje a dedicação desta Basílica de Santa Maria dos Anjos. Uma Basílica exaltada por conservar em seu interior, como tesouro precioso, a Igrejinha da Porciúncula. Esta capela que Francisco reconstruiu com as suas próprias mãos, com verdadeiro amor filial à Rainha dos Anjos, nos primeiros anos de sua conversão (cfr. 1Cel 21), e onde, no final de sua vida, compreendeu o Evangelho (cfr. 1Cel 22). Lugar santo entre os santos, no qual viu nascer a Ordem dos Frades Menores com o dom dos primeiros frades, e onde, há oitocentos anos, recebeu na fraternidade franciscana a sua Plantinha, a jovem Clara de Assis (cfr. LegM 2,8). Lugar onde eram celebrados os primeiros Capítulos da Ordem seráfica e no qual os frades da primeira hora partiam em missão. Lugar, enfim, amado por Francisco mais do que qualquer outro (cfr. 2Cel 18), porque dedicado à Mãe de Deus e onde, movido por este amor, Francisco pediu para ser transportado para exalar o seu último suspiro de vida, aqui onde havia recebido o espírito da graça (LegM 14, 3). A Porciúncula é, antes de tudo, um lugar, que graças ao irmão e pai São Francisco, esta pequena porção de terra (isto significa porciúncula), converteu-se num espaço do Espírito de fé (Bento XVI), onde podemos ter acesso à graça do perdão e da misericórdia. O chamado perdão de Assis, ou melhor, a Indulgência da Porciúncula, obtida pelo próprio são Francisco em 1216 do Papa Honório III, transformou este lugar num espaço privilegiado de penitência e de graça, particularmente para os pobres que não podiam fazer a peregrinação para Santiago, Jerusalém ou Roma, seja por causa da distância geográfica, seja pelas ofertas que estas indulgências exigiam, principalemnte a da Terra Santa, e que eram a fonte principal do sustento da Igreja local..


Francisco, que desde sua conversão havia descoberto a pobreza e os pobres, pedindo ao Papa que a recepção da indulgência não implicasse nenhum peso econômico, foi movido pela fraterna solicitude por aquelas pessoas que, por falta de meios ou de forças, não podiam fazer uma longa viagem. A indulgência da Porciúncula é um gesto de profunda solidariedade por parte de Francisco com aqueles que não podiam dar nada, senão sua fé, sua oração, sua disponibilidade em viver segundo o Evangelho, sua condição de pobre. Mais do que uma viagem longa, e quase sempre, muito difícil por causa dos perigos dos caminhos para Compostela, Terra Santa ou a Cidade Eterna, o que se pedia e o que se pede para obter o perdão da Porciúncula, além da confissão sacramental e comunhão, a recitação do credo e a oração pelo Santo Padre, é iniciar uma viagem interior de conversão, um encontro com a radicalidade do Evangelho, como fez o próprio são Francisco neste mesmo lugar, uma pronta disponibilidade para pôr em prática as exigências evangélicas. O perdão de Assis, como qualquer outra indulgência, não é um rito mágico, isto é, não se pode pretender obter a indulgência da Porciúncula, permanecendo ancorados numa situação de pecado. Não se pode pretender desfrutar a graça do perdão de Assis permanecendo em nossa mediocridade. Se o pecado é rompimento de uma relação amorosa entre o homem e Deus, um abismo profundo que nos separa d’Ele e como consequencia, dos outros (cfr. Rm 1,20-25), para obeter o perdão de Assis é necessário desfazer esta barreira que se interpõe entre nós e Deus e que nos impede de ter uma autêntica relação com o Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor e com os outros. Se o pecado habita em nós, como diz São Paulo (cfr. Rm 7,20-21), e nos faz seus escravos e prisioneiros (cfr. Rm 6,17.20; 7,14), se querendo fazer o bem, fazemos o mal (cfr. Rm 7,19), para desfrutar a misericórdia do Senhor é necessário uma vontade firme para erradicá-lo de nós, uma luta que nos leva a experimentar em nós mesmos aquilo que sabemos pela fé: que o pecado foi vencido por Cristo. Queridos irmãos e irmãs, caros peregrinos: Deus é clemente e bom, rico em misericórdia, afirmam as Sagradas Escrituras. Esta é uma das verdades de


fé entre as mais maravilhosas e feliz. A revelação nos mostra como o drama do pecado é também um drama no coração de Deus, que constata como o homem, fazendo um uso não correto de sua liberdade (cfr. Mt 7,20), transgride o verdadeiro amor. Cada um de nós, criado à imagem e semelhança de Deus, temos o terrível poder de dificultar Deus em sua vontade de dar-nos a vida e vida em plenitude. Cada um de nós, por causa do pecado, cai numa escravidão da qual não se pode sair com os próprios meios. É justamente nesses momentos que Deus não nos abandona. A sua misericórdia é a chave para nos libertar desta escravidão, ensinando-nos a amar de modo sincero e autêntico. O Pai nos ama! E esta certeza nos leva a aderir a Cristo, a caminhar numa atitude de conversão constante: arrependei-vos, crede no Evangelho (Mc 1,15), repete hoje o Senhor a cada um de nós, convocados a celebrar o perdão de Assis. Neste compromisso sabemos que não estamos sós. A origem de toda autêntica conversão é o olhar de Deus sobre o pecador. Um olhar que se traduz numa busca amorosa constante, em paixão até a cruz, em perdão sem medida, como no caso de Levi (cfr. Mc 2,13-17), de Zaqueu (cfr. Lc 19,1-10), da adúltera (cfr. Jo 8,1-11), do ladrão (cfr. Lc 23, 39-43), da samaritana (cfr. Jv 4,1-30). Quando o ser humano descobre e prova o Deus da misericórdia e do perdão, não pode viver senão convertendo-se constantemente a Ele (Dives in misericordia, 13). Vai e não peques mais (Jo 8,11). O perdão é dado gratuitamente, porém, o homem é convidado a corresponder a este perdão com um sério compromisso de vida renovada. Celebrando a indulgência da Porciúncula, aproximemo-nos, caros irmãos e irmãs, do sacramento da reconciliação e da misericórdia. O senhor nos espera, como o pai da parábola do filho pródigo (cfr. Lc 15,11-32). Um coração contrito e humilde o Senhor não despreza. Ele está sempre pronto a resgatar da escravidão (cfr. Gal 4,3ss), a renovar a sua aliança conosco e a restaurar a dignidade de filhos (anel e vestes novas). E então, provaremos e veremos que o Senhor é bom, que Ele nos liberta do pecado e cura nosso coração ferido (cfr. Sal 33). E sentiremos, também, que a festa que o pai preparou é para cada um de nós, e que o filho que estava morto e que voltou à vida somos tu e eu. E, então, bendiremos o Senhor em cada momento porque a sua bondade e misericórdia não têm limites.


Maria, mãe da misericórdia, mãe do belo amor e do temor, do conhecimento e da santa esperança (cfr. Sir 24,24, neo vulgata), através da qual recebemos Aquele que é a manifestação suprema do amor de Deus pela humanidade, ela, a cheia de graça (Lc 1,28), obtenha-nos a graça de participar em plenitude da graça e do perdão que hoje o Senhor nos oferece. Fiat, fiat, amém, amém.

PORCIUNCULA