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Fevereiro-Abril 2019

editorial

DO MURMÚRIO DAS FONTES E DA SOMBRA DO ARVOREDO

Quando o jovem estudante Braúlio Caldas visitou a Penha, em agosto de 1885, deixou registadas num breve poema as impressões evocadas por uma nascente da serra, dedicada a Santa Catarina: “Murmura, fonte, murmura...” Além de motivo poético, a água que brota dos rochedos de granito da Penha era, desde há longo tempo, um recurso essencial a Guimarães, correndo encanada pela encosta abaixo para abastecer tanques e chafarizes públicos, havendo diversas providências para a sua conservação e defesa, de modo a que o abastecimento nunca faltasse. Mais difícil, porém, era o acesso à água no topo da própria Penha, não surpreendendo por isso que Albano Belino, primeiro presidente da Comissão promotora de melhoramentos da Penha, instalada em 1886, manifestasse a necessidade de prospetar água para regar plantas, abastecer lagos e, antes de mais, saciar os romeiros que subiam a montanha. Desejava-se, nessa época, “fazer de um monte um jardim, da solidão um recreio, da «Penha», enfim, um melhoramento de Guimarães” . Verdadeiros beneméritos seriam aqueles que conseguissem “encher de árvores e

água” a Penha, criando “uma estância de verão, pitoresca e deliciosa”, refrigério dos “pobres vimaranenses alagados em suor”. Como expoente deste desígnio, foi elaborado o plano de um parque pelo jardineiro-paisagista Jerónimo Monteiro da Costa, em 1898, delineado em torno de um futuro templo dedicado a Nossa Senhora da Penha, procurando harmonizar a devoção religiosa com a fruição e o recreio, sob o copado de arvoredos frondosos. Volvido mais de um século, a Penha converteu-se numa estância de vilegiatura, paisagem modelada pela mão humana, que transformou inóspitas penedias num parque arborizado, lugar de referência e de encontro para várias gerações de visitantes. Contudo, a envolvência atual desta estância, sobretudo na encosta voltada à cidade, tem sofrido surtos construtivos desenfreados, requerendo uma estratégia de salvaguarda que o Plano Diretor Municipal parece não ter conseguido garantir. Assim, as notícias de trabalhos em curso que visam caracterizar o património natural da Penha, para criação de uma área protegida de âmbito local, a que acrescem as dos processos de classificação de um conjunto arbóreo e de exemplares isolados, pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, não poderiam ser mais oportunas. Esperamos que estes processos sejam participados pelos cidadãos, permitindo articular interesses desencontrados num objetivo comum, que contribua para a salvaguarda da “pérola de encanto” cantada pelo poeta vizelense. Sobretudo, esperamos que as atuais e futuras gerações continuem a conhecer os caminhos que levam à Penha, e a encontrar nela o murmúrio das fontes sob a copa de magníficas árvores. Guimarães, março de 2019 Manuel Miranda Fernandes

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Alto Penha nº 51  

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