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CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR

PRESIDENTE Fernando Medina

Directora, Curadora Sara Antónia Matos

VEREADORA DA CULTURA Catarina Vaz Pinto

Adjunto de Direcção Pedro Faro

DIRECTOR MUNICIPAL DE CULTURA Manuel Veiga

Conservação e Produção Sara Antónia Matos Pedro Faro Hugo Dinis Joana Batel

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA EGEAC Joana Gomes Cardoso Sofia Meneses Manuel Veiga

Comunicação e Assessoria de Imprensa Pedro Faro Hugo Dinis Investigação Sara Antónia Matos Pedro Faro Hugo Dinis Coordenação Editorial Sara Antónia Matos Serviços Administrativos Isabel Marques Teresa Cardoso Apoio ao Serviço Educativo Teresa Cardoso Atelier-Museu Júlio Pomar / EGEAC Rua do Vale, 7, 1200-472 Lisboa, Portugal Tel: + 351 215 880 793

Apoio / Parceria

OFICINA CULTURAL INSTITUTO POLITÉCNICO DE VIANA DO CASTELO Presidente Rui Teixeira Administradora dos Serviços de Acção Social Margarida Amorim Pereira Oficina Cultural Vitor Monteiro Oficina Cultural Instituto Politécnico de Viana do Castelo Largo 9 de Abril 4901-911 Viana do Castelo Portugal Tel: + 251 258 825 472 Aberto todos os dias 9h00-22h00


JÚLIO POMAR Da cabeça à mão Obras do acervo do Atelier-Museu Júlio Pomar

2019


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INSTITUTO POLITÉCNICO DE VIANA DO CASTELO

APRESENTAÇÃO A Oficina Cultural do Instituto Politécnico de Viana do Castelo [IPVC] foi criada com o intuito de fomentar o desenvolvimento de atividades de índole artística e cultural no IPVC, orientadas para a promoção da educação artística, não só ao nível dos alunos do IPVC, mas também das crianças e jovens da região, e da comunidade em geral, numa perspetiva de aproximação entre os atuais e antigos alunos da instituição com esta comunidade. A Oficina Cultural tem desenvolvido, ao longo dos últimos anos, toda uma programação que visa estimular o contacto com a arte por parte dos nossos alunos, de outros jovens e da população em geral, proporcionando à comunidade interna e externa do IPVC o acesso a obras de alguns dos mais importantes artistas plásticos portugueses. A questão da educação artística revela-se um dos principais pilares da forma de atuar da Oficina Cultural. A idealização de uma exposição vai para lá do mero conceito de compilar obras de arte num espaço. É intenção que cada exposição conte uma história. Uma história das peças expostas, uma história do artista, uma história das influências, uma história da técnica, uma história do contexto em que as obras foram criadas.


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VENHAM TODOS VIVER JÚLIO POMAR Rui Teixeira [Presidente do IPVC]

A Oficina Cultural do IPVC, na sua missão de Educar e promover o desenvolvimento, pessoal e social, pela Cultura e pela Arte, junta ao seu firmamento mais uma estrela: Júlio Pomar. Júlio Pomar, ao lado de Cargaleiro, José Guimarães e muitos outros que já passaram entre nós, pela sua universalidade, passam a integrar a constelação dos nossos mitos e uma parte distintiva da nossa memória institucional. AGRADECEMOS AO ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR esta honra e esta oportunidade. Convidamos todo o Minho – as suas pessoas – muito especialmente a nossa comunidade e os nossos jovens a melhor conhecerem um dos maiores vultos da nossa arte e cultura contemporâneas, da pintura ao desenho, à escultura, à cerâmica, à gravura, à escrita. Júlio Pomar foi eclético e plural nas expressões, com uma obra que estende por sete décadas, mas, em Júlio Pomar, antes de mais e a par do artista ímpar, viveu um grande homem livre, um grande cidadão e um grande democrata. Júlio Pomar inspira-nos e desafia-nos a construirmos novas linhas do horizonte – a novas formas de ver e, sobretudo, a vermos para além do que se vê. Venham, todos, viver e saborear com Júlio Pomar novos olhares do futuro, de todos e de cada um de nós.


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ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR Sara Antónia Matos [Directora]

APRESENTAÇÃO O Atelier-Museu Júlio Pomar tem por missão conservar, divulgar e aprofundar o conhecimento da obra de Júlio Pomar nos seus diversos aspectos, fomentar a reflexão crítica e o debate em torno das artes e da cultura contemporâneas. A estrutura museológica integra um conjunto de equipamentos culturais do município de Lisboa que promove junto dos públicos um acesso às artes e à produção cultural. Desde 2 de Janeiro de 2015, o Atelier-Museu passou a integrar a rede de equipamentos culturais geridos pela EGEAC. Operando no domínio da arte contemporânea e procurando abarcar a pluralidade de expressões que constituem o seu corpus actual, o Atelier-Museu é palco de diversas exposições e eventos, procurando semear a liberdade do olhar, a postura crítica e a abertura que caracteriza o autor que lhe dá nome. HISTÓRIA E ENQUADRAMENTO DO PROJECTO ARQUITECTÓNICO Em 2000, a Câmara Municipal de Lisboa adquire um antigo armazém na Rua do Vale, na freguesia das Mercês, destinado a ser o atelier do artista e, mais, tarde, museu a integrar a rede de estruturas museológicas do Município. O nome do equipamento que veio a ser criado – Atelier-Museu – , segundo um projecto de requalificação de Álvaro Siza Vieira, transporta a memória do programa fundador e adequa-se às características funcionais do espaço. De recorte austero e linhas depuradas, integrando-se discretamente na malha arquitectónica do bairro, o edifício, composto por dois pisos, apresenta um corpo central de área expositiva, duas reservas, zonas de serviço, escritório e recepção, escondendo um pátio exterior em seu redor por onde é feito o acesso dos visitantes. Dispõe ainda de um conjunto de equipamentos de auditório, com meios audiovisuais e capacidade para 60 lugares sentados, adaptável ao espaço e a cada situação pontual, permitindo a realização de conferências, lançamento de livros/catálogos e o acolhimento de outros eventos.


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PROGRAMA MUSEOLÓGICO E ACTIVIDADES COMPLEMENTARES Como lugar de especificidade e pólo de divulgação da obra de Júlio Pomar, o Atelier-Museu engloba um programa de exposições que procura dar conta da pluralidade técnica e temática da obra deste autor, reconhecido, por várias gerações, como um artista multifacetado. O acervo abrange um vasto conjunto de obras que não pode ser apresentado numa única mostra mas que vai sendo exposto periodicamente, a par de um programa de actividades complementares, práticas e teóricas, que envolvem arquitectos, artistas, curadores, pensadores das diversas áreas e público em geral. Privilegiando o depósito, mas recorrendo também a obras emprestadas que se consideraram seminais na produção artística de Júlio Pomar, o programa expositivo abrange mostras parciais do acervo, antologias de desenho, ilustrações para obras literárias, artes decorativas, entre outras vertentes, que certificam a dimensão plural a que a obra sua obra está ligada. O Atelier-Museu acolhe também exposições de outros artistas, da sua e de outras gerações, nacionais e internacionais, emergentes e consagrados, propondo um diálogo com o espaço e com a obra de Júlio Pomar. ACERVO O Atelier-Museu Júlio Pomar conta com um acervo de várias centenas de obras, doadas pelo artista à Fundação Júlio Pomar e depositadas por esta no Atelier-Museu. A relevância deste acervo, que inclui pintura, escultura, desenho, gravura, cerâmica, colagens e assemblage, prende-se também com o testemunho histórico que envolve. O conjunto de obras que compõe o depósito mostra, talvez como nenhum outro no panorama das artes plásticas nacionais, o percurso de um artista que experienciou diferentes épocas, períodos e contextos políticos, absorvendo influências plásticas e, simultaneamente, quebrando com elas. Assim, a um só tempo, este acervo constrói e integra em si uma parcela da história da arte, num arco temporal que vai do neo-realismo à completa assunção da modernidade, espelhando a conquista da autonomia artística e dos seus desenvolvimentos plásticos. Além das obras de arte, o acervo documental e bibliográfico referente ao artista é composto por centenas de imagens, livros e catálogos, artigos de jornal e outros registos históricos. Estes permitem enquadrar a obra do artista em cada época e contexto, e perceber o seu impacto estético e sociocultural. Considerando este domínio, o trabalho do museu envolve também o estudo e sistematização contínua do acervo.


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PROGRAMA DE ITINERÂNCIAS Além das exposições que desenvolve no seu interior, o Atelier-Museu, em 2015, começou o seu programa de itinerâncias levando “portas-fora” a obra de Júlio Pomar, tendo desenvolvido parcerias com várias instituições com o sentido de levar a obra do autor a outras regiões do país, descentralizando-a assim das grandes metrópoles. Neste âmbito enquadra-se a exposição “Júlio Pomar: Da cabeça à mão”, com obras do acervo do Atelier-Museu Júlio Pomar na Oficina Cultural do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, com quem foi um privilégio colaborar.


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JÚLIO POMAR Estudos (Mãos) 1953 Caneta sobre papel 22 x 35 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000046


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JÚLIO POMAR Estudos (Mãos) 1953 Caneta sobre papel 22 x 35 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000047


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JÚLIO POMAR: Da cabeça à mão Obras do acervo do Atelier-Museu Júlio Pomar Pedro Faro / Hugo Dinis

«(…) os desenhos (…) são fundamentalmente diferentes da pintura que até hoje tenho feito. Estes são uma coisa que se joga no instante, ou tudo ou nada, ou resultam logo ou há que recomeçar tanta vez até que saiam. (…) Como eu desenho no chão e vou espalhando os papéis, ao fim de uma sessão de trabalho não há sítio livre onde ponha o pé. Às vezes para só um aproveitável, ou mesmo nada. - Porque é que há fases em que tu fazes só desenho? Por uma necessidade de obter resultados rápidos. E também por provocação do incontrolável. Posso pintar horas a fio e muitas, quando desenho tenho de para amiúde, fazer pausas, arejar. É extremamente fatigante mesmo se o desenho tem o ar de sair leve e sem esforço.» Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar1

A convite da Oficina Cultural do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, o Atelier-Museu Júlio Pomar/EGEAC organiza a exposição Júlio Pomar: Da cabeça à mão, que inclui uma selecção de diferentes núcleos de desenho na obra do artista: bestiário, caveiras, auto-retratos, cavalos-alados, e as ilustrações para O Mundo Desabitado de José Gomes Ferreira e La Chasse au Snark de Lewis Carroll. Tendo como ponto de partida a prática do desenho, e aquilo que no desenho parece sempre ter interessado a Pomar, ou seja «a vitalidade da linha e a justeza da alusão»2, as obras escolhidas para a exposição permitem sublinhar a ideia de desenho enquanto pensamento, ou como perguntaria o próprio artista, num dos vários textos que publicou sobre o tema, «penso, logo desenho»? Para Júlio Pomar, «olhar

1 Silva, Helena Vaz da, Júlio Pomar, Edições António Ramos, Lisboa, 1980, p. 80. 2 Pomar, Júlio, Júlio, «Sem título», Pomar — 1 Ano de Desenho / 4 Poetas no Metropolitanto de Lisboa, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1984, in Pomar, Júlio, Temas e Variações, Parte Escrita III, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar / Documenta, Lisboa, 2014, p. 126.


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um desenho é pôr o olhar à escuta das sonoridades desse traço, do que ele diz, do que sugere, do que ele cala»3. É da relação entre a cabeça, que processa o que se vê, e a acção da mão sobre o papel, que se define um sinuoso e extasiante percurso, com surpresas e realidades subtis e sensíveis, da cabeça à mão e da mão à cabeça. Parafraseando a obra de Bruce Nauman From hand to mouth [Da mão à boca] (1967), o título adoptado para esta exposição, Da cabeça à mão, sublinha o modo como o desenho pode ser considerado «pensamento em prática». Mais do que a simples e virtuosa intuição do saber-fazer ou do saber desenhar bem, o desenho, muitas vezes objecto de reflexão teórica para o artista em vários textos ao longo do seu percurso, pode ser entendido como um saber-ver e um saber-pensar perante o desafio da representação de corpos, de objectos, de factos, de narrativas com que o artista se depara. Para Júlio Pomar, «a noção de desenho estende-se a muitas coisas, a muitos ramos de actividade, tem muitas aplicações: o desenho de um bordado, os desenhos de uma gravata, as linhas (ou o desenho) de um avião, o perfil, ou o desenho do nariz da nossa namorada, etc. Quer dizer: na vida prática, na linguagem corrente jamais restringimos a noção de desenho à cópia, ou à representação de determinado objecto»4. Ao entender que o desenho sempre acompanhou, na forma de inúmeros estudos, ilustrações e cadernos de viagem, o processo de trabalho de Júlio Pomar, podemos inferir que se trata de uma forma de pensamento rápido, eficaz e sem presunção, e não apenas um mero esboço, sem qualidades estéticas, sobre a realidade representada. Paradoxalmente, para o artista, o desenho nunca se tornou numa disciplina, nem se autonomizou completamente. A apresentação de desenhos de diferentes períodos permite entender que existem linhas estilísticas e programáticas diversas. A comparação entre os vários desenhos nesta exposição, nomeadamente os de representação de animais, revela-se deste modo um exercício de verificação da visão ampla que caracterizou desde sempre a actividade deste artista. Os dois Estudos (Mãos) de 1953, em contraste com os dois desenhos Caveira de 1959, denotam a variedade de registos assumidos por este artista sobre o papel. Por um lado, os estudos das mãos revelam uma acuidade precisa, quase académica, ao estruturar detalhadamente as proporções dos dedos e das mãos em diferentes registos de movimento das mesmas. Estes minuciosos traços a sanguínea, ao trabalhar com subtis elementos de construção de volume e luz, manipulação de claro-escuro, indiciam, desde cedo, a segurança da mão de Júlio Pomar neste tipo 3 Pomar, Júlio, ibidem, Temas e Variações, p. 218. 4 Pomar, Júlio, «Divulgando I – O Que é o Desenho?», in Horizonte, Lisboa, nº1, 1-15 de Novembro, p. 6, 1946, in Pomar, Júlio, Temas e Variações, Parte Escrita III, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar /Documenta, Lisboa, 2014, p. 96.


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de registo. Por outro lado, os dois desenhos das caveiras, a tinta-da-china preta, aparentemente, resultam da aplicação de uma pincelada quase única, um gesto (forma mínima), que sintetiza uma ideia de representação da morte – vanitas. Porém, este desenho tem a memória da vitalidade e a força desse gesto, transcendendo a própria ideia de morte. Outros desenhos de caveiras, realizados do natural, em Paris, em 1963, feitos com traços a caneta, indiciam uma execução livre e expressiva, fazendo parecer vivas estas caveiras. Podem encontrar-se vários auto-retratos – em pinturas e desenhos – de Júlio Pomar, com diferentes investimentos semânticos sobre a figura do próprio artista, por vezes isolada, vagamente delineada ou esboçada com mais e menos detalhe. De 1946 a 1991, quatro desenhos de grafite sobre papel mostram o artista, e a forma como se faz representar, em diferentes momentos, tornar-se, à medida que o tempo passa, cada vez menos contida, com um traço cada vez mais expressivo, assumindo a vontade progressiva de fixar os elementos físicos em sínteses formalmente mais complexas. Aqui, pode quase escutar-se a sonoridade de cada traço. Silencioso, delicado, forte e gracioso, o Auto-retrato, de 16 de Julho de 1946, é um notável e inquietante desenho de um jovem artista com vinte anos, com um virtuoso sentido de síntese. Por sua vez, em Auto-retrato (sem data), o traço multiplica-se e ganha um expressivo sentido pictórico: mancha e sombra. Sorridente, o Auto-retrato, de 1968, realizado quando o artista está em Paris, no ano das grandes revoltas geracionais, surge a partir de um riscar a folha de papel que se intui ser veloz, numa tentativa de fixar uma imagem naquilo que ela tem de mais espontâneo. De uma fase mais avançada da vida do artista, o Auto-retrato, de 1991, onde aparecem, além da cara, as suas mãos e braços, é um desenho que procura fixar o movimento de um corpo. Por fim, na pintura Duplo Auto-retrato do Artista, de 2004, o sorridente artista, já velho, com as mãos no topo de uma bengala, encostado a telas de pintura, contempla o sorridente artista jovem, com toda a vida pela frente, numa representação que explora a figuração e a abstração. A pintura confronta o espectador com uma representação desse olhar amadurecido sobre a inevitável passagem ou movimento – termo tão caro ao artista – do tempo. O movimento perpétuo, do jovem ao velho ou da vida à morte, está presente, de um modo narrativo e ilustrativo, no desenho A Origem das Espécies, Darwin, realizado em 1945 em Évora, por ocasião da IX Missão Estética de Férias. Neste painel, que serviu de suporte visual à conferência Duas Épocas e Duas Atitudes, proferida por Mário Ruivo na Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António de Aguiar, o artista representa oito figuras animais, do peixe ao


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réptil, do macaco ao homem, alinhados, da esquerda para a direita, segundo a teoria evolucionista de Darwin. A ilustração sobre a origem das espécies dá uma particular importância à representação da mão do macaco, «de braço estendido, expondo o polegar que depois é representado no homem que segura um objecto nas mãos. A evolução até ao polegar oponível permite duas leituras distintas, embora com pontos de contacto evidentes. De um ponto de vista político, é condição fundamental para a afirmação do homem enquanto trabalhador, mas também enquanto ser que pode agir e modificar as suas circunstâncias. Já no campo da arte, é através do polegar que se torna possível a amplitude de movimentos de mão, imprescindível para o processo da pintura, reforçado, inclusivamente, pelo desenho da curva acentuada da cauda que ocupa o eixo central do painel – ideia que se prolonga na importância que o gesto vai assumir ao longo da obra de Pomar»5. Numa conversa, ainda não publicada, com Marcelin Pleynet, Júlio Pomar refere que o seu primeiro contacto com o desenho à vista de animais deu-se precisamente no Jardim Zoológico de Lisboa, por volta dos 13 anos, quando o tio lhe ofereceu um passe de acesso livre. Desde esse momento o artista deu início ao desenvolvimento de um imenso bestiário, de que se apresentam obras de 1952 em diante. A variedade de técnicas, como o desenho, a litografia, a gravura, o linóleo, associa-se a diferentes modos de representação, por vezes, rigorosos, gráficos e ilustrativos, outras vezes poéticos, espontâneos e livres. Todas estas formas de representar os diferentes animais parecem indicar um repertório alargado e extenso. O delírio e a liberdade também se encontram presentes nos desenhos cavalos-alados / pégaso presentes na exposição. Estes desenhos de curvas rebuscadas e formas elípticas exprimem mestria e controlo na representação anatómica destes seres equídeos maravilhosos, transportando-nos para um lugar idílico e fascinante. Este conjunto de desenhos fez parte das ilustrações de O Romance de Camilo de Aquilo Ribeiro, que Júlio Pomar realizou em 1957. Podem encontrar-se, no extenso percurso artístico de Júlio Pomar, vários exemplos paradigmáticos de uma relação profícua entre o trabalho plástico e a literatura através de diferentes trabalhos de ilustração de obras literárias, mais e menos conhecidas do grande público. Grande parte do trabalho em desenho que o artista realizou está aliás associado à ilustração de literatura, sendo os casos mais conhecidos o trabalho que desenvolveu para as obras Dom Quixote de la Mancha (1959 e 2005) de Cervantes, Pantagruel em 1967 de Rabelais, e Guerra e Paz entre 1956 e 1958, de Tolstói. De entre estes projectos de ilustração, a que o artista 5 Silveira, André, Sem Capricho ou Presunção, O Fado por Júlio Pomar & Novas Doações, Atelier-Museu Júlio Pomar, Museu do Fado, Lisboa, 2015, p. 149.


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se dedicou afincadamente, encontramos O Mundo Desabitado em 1960 de José Gomes Ferreira e La Chasse au Snark em 1999, de Lewis Carroll, originalmente editado em 1876. Em ambos os casos, bem como noutras ilustrações, encontra-se uma exploração muito livre do texto literário. As duas cenas – refeição e músico – do conto O Mundo Desabitado de José Gomes Ferreira, que Pomar ilustra, no essencial, são esquematizações limite de figuras humanas – esqueletos ou corpos disformes, numa tensão existencial vibrante e desafinada. Angustiantes, porque acusam quase sempre a presença da morte na vida, estes estudos são, no entanto, ligeiramente diferentes da versão definitiva publicada. Por contraste, a exuberância das personagens – sineiro, advogado, talhante, banqueiro, engraxador, bilharista, padeiro e o castor – do livro de La Chasse au Snark de Lewis Carroll é revelada através das cores fortes e traços grotescos que o artista lhes imprimiu. A única regra que parece conduzir Júlio Pomar em qualquer obra, e em particular nos trabalhos de ilustração que fez ao longo da sua carreira para muitas obras literárias de outros autores, é a assumpção de que pode, enquanto artista, tomar todas as liberdades que quiser, não subjugando as imagens que cria a uma ideia pré-definida ou demasiado colada ao texto. Para Júlio Pomar, «desenhar será pôr em situação os elementos de uma relação»6 e talvez por isso mesmo o desenho enquanto modo de representação da realidade se tenha tornado tão livre no percurso deste artista.

6 Pomar, Júlio, «Os desenhos para o Romance de Camilo», por ocasião da exposição «Júlio Pomar – Estudos para o Romance de Camilo de Aquilino Ribeiro», no Centro Cultural de Belém, Lisboa, 2012, in Pomar, Júlio, Temas e Variações, Parte Escrita III, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar / Documenta, Lisboa, 2014, p. 298.


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JÚLIO POMAR Auto-retrato 1968 Grafite sobre papel 31,5 x 23,8 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000013


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JÚLIO POMAR Auto-retrato s.d. Grafite sobre papel 21 x 13,3 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000012


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JÚLIO POMAR Auto-retrato 1991 Grafite sobre papel 37,5 x 33,4 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000014


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BIOGRAFIA JÚLIO POMAR

JÚLIO POMAR, que nasceu em 1926 em Lisboa, frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e as Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto, tendo participado em 1942 numa primeira mostra de grupo, em Lisboa, e realizado a primeira exposição individual em 1947, no Porto. Nesses anos, a sua oposição ao regime de Salazar acarreta-lhe uma estada de quatro meses na prisão, a apreensão de um dos seus quadros pela polícia política e a ocultação dos frescos com mais de 100 m2, realizados para o Cinema Batalha no Porto. Permanece em Portugal até 1963, ano em que se instala em Paris. De uma obra que se prolonga por sete décadas, destaca-se, após o período inicial, dito neo-realista, as exposições «Tauromachies» e «Les Courses» (Paris, 1964 e 1965); a participação numa mostra dedicada ao quadro de Ingres Le Bain Turc pelo Museu do Louvre (1971); as séries de pinturas Mai 68 (CRS SS) e Le Bain Turc (Lisboa); as exposições «L’Espace d’Eros» (Bruxelas, 1978) e «Théâtre du Corps» (Paris, 1979); «Tigres» (Paris, 1981 e Lisboa, 1982); «Um ano de desenho – quatro poetas no Metropolitano de Lisboa» (Centro Arte Moderna da FCGulbenkian,1984); «Ellipses» (Paris, 1984); e «Mascarados de Pirenópolis» (Madrid, 1988). No final da década de oitenta, uma estada no Alto Xingú, na Amazónia, está na origem das exposições: «Los Indios» (Madrid) e «Les Indiens» (Paris), em 1990, a que se segue «Pomar/Brasil», antologia organizada também pelo CAM e apresentada em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa. O Ministério da Cultura francês convidou Júlio Pomar a realizar um retrato de Claude Lévi-Strauss, que precedeu o do presidente Mário Soares para a galeria oficial do Palácio de Belém (1991). Seguiram-se as exposições «Pomar et la Littérature» (Bélgica, 1991), «Fables et Portraits» (Paris, 1994), sendo a temática ficcional retomada em «O Paraíso e Outras Histórias» (Lisboa, 1994), e «L’Année du cochon ou les méfaits du tabac» (Paris, 1996). A presença da Amazónia reaparece em «Les Joies de Vivre» (Paris, 1997) e «Les Indiens – Xingú 1988-1997» (Biarritz). A série La Chasse au Snark é mostrada em Paris (1999) e em Nova Iorque (2000).


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Mostrou «Pinturas Recentes», inéditas em Portugal, em Aveiro (2000), e em 2002 «Os Três Efes – Fábulas, Farsas e Fintas» em Lisboa, a que se sucedem «Trois travaux d’Hercule et quelques chansons réalistes» e «Méridiennes –Mères Indiennes» (Paris, 2002 e 2004); «Fables et Fictions» (Tunísia, 2004), que se prolonga em «A Razão das Coisas», assemblages e bronzes, na Casa de Serralves, no Porto (2009, depois itinerante). Em 2004, apresenta uma exposição antológica no Sintra Museu de Arte Moderna – Colecção Berardo a que deu o nome «Autobiografia», e as décadas recentes da obra de Júlio Pomar foram mostradas no Centro Cultural de Belém, sob o título «A Comédia Humana». Em 2008, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, incluiu numerosas assemblages inéditas na mostra «Cadeia da Relação». Em 2009 expôs «Nouvelles aventures de Don Quixote et Trois Tristes Tigres» (Paris), e em 2012-13 «Atirar a albarda ao ar» na Cooperativa Árvore, Porto, e Galeria 111, em Lisboa. Além da obra de pintura, desenho, escultura, cerâmica, gravura, etc., Júlio Pomar escreveu Catch: thèmes et variations, Discours sur la cécité du peintre, Et la peinture? (Éditions de la Différence, Paris, 1984, 1985 e 2000), os dois últimos traduzidos por Pedro Tamen com os títulos Da Cegueira dos Pintores (Imprensa Nacional, 1986) e Então e a Pintura? (Dom Quixote, 2003); e duas colectâneas de poesias Alguns Eventos e TRATAdoDITOeFEITO (Dom Quixote, 1992 e 2003). Júlio Pomar instituiu, em 2004, uma Fundação com o seu nome, reunindo uma colecção com cerca de 400 obras em pintura, escultura, desenho, gravura, serigrafia e artes decorativas, da sua autoria, que depositou no Atelier-Museu Júlio Pomar– o qual abriu as portas ao público, a 5 de Abril de 2013, com uma exposição centrada na colecção que a sua Fundação depositou no acervo do Atelier-Museu. No ano de 2013, já com o Atelier-Museu em pleno funcionamento, foi atribuído ao artista o grau de Doutor Honoris Causa, pela Reitoria da Universidade de Lisboa. E em 2014, como forma de reconhecimento pela cooperação da CML e pelo trabalho do Atelier-Museu - EGEAC, faz uma nova adenda à doação para acrescentar um número significativo de obras de arte à colecção em depósito no museu, alargando assim as suas possibilidades de trabalho. A fim de facultar ao público ferramentas de análise, o Atelier-Museu Júlio Pomar continua a apostar fortemente no seu projecto editorial, tendo editado até à data 20 publicações, entre as quais se destacam os catálogos e as entrevistas aos artistas, nomeadamente a entrevista de fundo realizada, durante 2 anos, ao pintor,


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com o título: O Artista Fala – conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro [Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar/Documenta, Lisboa: 2014]. No que se refere ao projecto editorial são de destacar ainda as 3 publicações, dos textos críticos que o autor publicou entre 1942 e a actualidade, podendo pela primeira vez ter-se acesso à “Parte Escrita” da sua obra – a qual tem sido considerada por diversos pensadores: tão importante quanto a parte plástica: Notas sobre uma arte Útil; Da Cegueira dos Pintores; Temas e Variações [Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar/Documenta, Lisboa: 2014]. Faleceu com 92 anos de idade em Maio de 2018, em Lisboa.


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JÚLIO POMAR Duplo Auto-retrato do Artista 2012 Acrílico, carvão e pastel sobre tela 115 x 148 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000365


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DIVULGANDO I – O QUE É O DESENHO? Júlio Pomar 1946

Diz-se muita vez: fulano desenha bem, sicrano o que não sabe é desenhar, por outro lado a noção de desenho estende-se a muitas coisas, a muitos ramos de actividade, tem muitas aplicações: — o desenho de um bordado, os desenhos de uma gravata, as linhas (ou o desenho) de um avião, o perfil, ou o desenho do nariz da nossa namorada, etc. Quer dizer: na vida prática, na linguagem corrente jamais restringimos a noção de desenho à cópia, ou à representação de determinado objecto. Constatamos que empregamos realmente a palavra «desenho» com um sentido bem mais largo do que aquele que lhe damos ao referirmo-nos ao quadrinho com um pôr-do-sol e um par abraçado que está por cima do aparador da sala de jantar. Quando vamos comprar uma gravata e dizemos que o seu desenho nos agrada, de certeza que não procuramos saber o que ele representa: não nos interessa nem procuramos lá ver narizes, pernas ou lábios. Nunca pomos a nós próprios esta questão. Agrada? Não agrada? É bonito? É feio? — e andou. Ora, leitor amigo, agarra na tua gravata e pensa lá bem porque é que o seu desenho te agrada. Porque da combinação das suas linhas, sejam rectas ou curvas de milhentos tipos, resulta uma harmonia, harmonia para a qual concorrem apenas a ordenação e a qualidade das linhas, isto é, as várias relações existentes entre elas. Duas linhas, postas em conjunto, podem harmonizar-se ou não se harmonizarem.— Assim tu dirás: é bonito ou é feio. Se o artista for capaz de as harmonizar, isto é, de criar entre elas relações de boa vizinhança, tu dirás que ele é um bom artista. E repetindo: porque ele possui faculdades e conhecimentos que lhe permitem tirar partido das relações entre as linhas. Vamos a outro exemplo: o teu quarto de dormir tem vários móveis. Ora os móveis não estão à toa no meio da casa, mas arrumados. Que fizeste para arrumá-los? Tiveste de escolher posições para os móveis que permitissem a sua fácil utilização e, simultaneamente, dessem ao aposento um aspecto agradável: nem muito afastados nem uns em cima dos outros — a sua colocação não foi arbitrária. Escolheste uma série de relações não só entre eles, mas também entre eles e o aposento, ou os elementos deste — paredes, portas, janela, etc. A operação que


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fizeste é idêntica à do homem que desenha. Arruma os seus móveis, que são linhas, formas dentro do seu quarto, que é o papel, de harmonia com as suas paredes, que são os limites deste. Tu não foste com certeza dispor os móveis de modo a formar uma cara ou a cruz das caravelas; jogavas com formas, com superfícies, e foi da sua proximidade ou do seu afastamento, das suas relações mútuas, que tu obtiveste um conjunto harmonioso. O homem que desenha pode pretender, de facto, representar um rosto ou a cruz das caravelas; mas de qualquer modo ele jogará sempre com linhas e com formas que, não obstante se assemelharem a rostos ou caravelas, são sempre linhas e formas, e como tal estão condenadas a actuar. Isto é: antes de entrar em linha de conta com o que o retrato do Sr. Fulano ou um parzinho abraçado ao pôr-do-sol nos podem dizer (as qualidades de bom sujeito do Sr. Fulano, ou o enlevo romântico do parzinho) nós somos chocados pelas relações entre as linhas ou as formas que compõem o retrato do Sr. Fulano ou o par abraçado. E é por meio destas relações que a gente vem a achar que o Sr. Fulano tem, de facto, cara de bom sujeito, ou, pelo contrário, parece ser um refinado patife; ou que o parzinho se derrete em manteiga ou se vira corajosamente para o mundo. Mas a questão chega até mais longe: quando vimos como era vasta a noção de desenho, para alguma coisa foi: eu queria mostrar-te, leitor amigo, que não existem diferenças essenciais entre o desenho de uma estátua grega e o de um moderno avião; que, se o avião nos parece belo, é pela mesma razão que a estátua; e que, se as razões que nos levam a considerar o avião como belo não existirem no retrato do Sr. Fulano ou no quadro do parzinho, mal vai para eles o negócio do desenho. Existem portanto coisas comuns no avião e na estátua. Que coisas são essas? Dirás: um avião tem hélices, asas, e muitas coisas mais; a estátua tem cabeça, pernas, braços… Decididamente, não era a esta espécie de coisas que nos referíamos — nem um avião tem braços, nem a estátua tem hélices. Mas ambos são formas. Formas são volumes e linhas que, como as pessoas, podem andar bem ou mal relacionadas. Claro que, se elas andarem mal relacionadas, não são possíveis de entender. E o caso do mau desenho que, para mal dos nossos pecados, é uma coisa que anda muito espalhada — tal como certos alimentos deteriorados, que se vendem e comem à falta de melhor. Mas deixemos este caso; aprendamos a conhecer os que nos agrada e sempre que possível as razões por que nos agrada.

«Divulgando I — O que é o desenho?», in Horizonte, Lisboa, n.º 1, 1-15 de Novembro de 1946, p. 6.


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JÚLIO POMAR Desenho do natural, caveiras, Paris 1963 Esferográfica 10 (20,7 x 13,5 cm) + 2 (13,5 x 20,7 cm) Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000215/6 Inv. AMJP000224.A.B.C.D.E.F.G.H.I.J.


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JÚLIO POMAR Caveira 1959 Tinta-da-china e pincel sobre papel 15,5 x 15,7 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP00209


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JÚLIO POMAR Caveira 1959 Tinta-da-china e pincel sobre papel 10 x 14,4 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP00210


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JÚLIO POMAR Estudo para O Mundo Desabitado De José Gomes Ferreira, 1960 Tinta-da-china sobre papel 35 x 25,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000741


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JÚLIO POMAR Estudo para O Mundo Desabitado De José Gomes Ferreira, 1960 Tinta-da-china sobre papel 25,5 x 35 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000742


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JÚLIO POMAR A Origem das Espécies, Darwin 1945 Pastel e carvão sobre papel, colado sobre tela 113 x 225 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000353


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JÚLIO POMAR Galo 1959 Água-forte Mancha 35 x 27,8 cm | Papel 52 x 38,2 cm Atelier Gravura, Lisboa Prova de artista V Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000264


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JÚLIO POMAR Elefante 1952 Linóleo Mancha 14,5 x 17 cm | Papel 24 x 48,2 cm Ed. Autor Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000242


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JÚLIO POMAR Javali 1952 Linóleo Mancha 14,5 x 17 cm | Papel 24 x 48,2 cm Ed. Autor Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv.AMJP000243


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JÚLIO POMAR Dois lacraus 1963 Esferográfica sobre papel 20,9 x 13,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000217


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JÚLIO POMAR Camaleão e sapo 1963 Esferográfica sobre papel 20,8 x 13,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000218


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JÚLIO POMAR Cavalo – o triste amigo (Fabulário) 1958 Litografia Papel 27,5 x 21,8 cm Ex. n.n. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000292


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JÚLIO POMAR Chacal (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm Ex. n.n. (No verso: “bom para marcar”) Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000291


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JÚLIO POMAR Crocodilo (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm Ex. n.n.; ass., dat. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000289


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JÚLIO POMAR O lobo, o bode e a raposa (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm Ex. XII/XV; ass., dat. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000285


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JÚLIO POMAR Abutre – O rei das aves (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm Ex. n.n.; ass., dat. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000290


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O DESENHO, ETC. Júlio Pomar 2003

Todo o desenho é o resultado de uma deambulação do olhar do pintor e uma vez o desenho mostrado, o espectador deverá descobrir nele os itinerários que o pintor definiu. Todo o olhar é selectivo. Frente a um conjunto de objectos, de acidentes ou de signos, ele apoia-se sobre os que já conhece. O acto de ver organiza-se como uma leitura. O olhar tem uma economia própria; identifica o que a sua experiência conhece e põe de lado o que reconhece como alheio a esta. Olhar um desenho é pôr o olhar à escuta das sonoridades de traço, do que ele diz, do que sugere, do que ele cala. Na posição de escuta há mais disponibilidade, um deixar acontecer, uma postura que exige tempo. Não vai com pressas e é no vagar do espírito com que é olhado que um desenho poderá começar a cantar. O signo que à primeira vista se impõe não faz mais que introduzir um jogo rápido ou lento de compensações, um oscilar de pesos que recompõe o equilíbrio que tanto gera a imagem como é toda a ferramenta do desenho, pincel, pena, lápis, etc., é uma prótese que conduz a mão e que com ela se combina, a montada que a mão cavalga e com ela faz um corpo só, unidade aberta a um jogo mútuo de possibilidades e compensações. A ferramenta marca o desenho mas é a mente do artista que comanda a mão. Mas comandar aqui é também saber escutar. A possibilidade de diálogo, a abertura de um diálogo; não se esqueça que o acaso é a mais rigorosa e selectiva das hipóteses. Quando escrevo tento ser claro. Isto de escrever é tão revelador como desenhar. O comércio de ilusões faz-se numa loja ao lado.

«O desenho, etc.», in desdobrável de exposição em São João da Madeira, 8 de Março de 2003.


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JÚLIO POMAR La Chasse au Snark – O Engraxador 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000186


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JÚLIO POMAR La Chasse au Snark – O Castor 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000189


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JÚLIO POMAR La Chasse au Snark – O Advogado 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000183


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JÚLIO POMAR La Chasse au Snark – O Bilharista 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000187


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JÚLIO POMAR La Chasse au Snark – O Sineiro 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000182


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JÚLIO POMAR La Chasse au Snark – O Talhante 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000184


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JÚLIO POMAR La Chasse au Snark – O Padeiro 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000188


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JÚLIO POMAR La Chasse au Snark – O Banqueiro 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000185


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OS DESENHOS PARA O ROMANCE DE CAMILO Júlio Pomar Lisboa, Outubro de 2012

Desenhar será pôr em situação os elementos de uma relação. A ilustração de um texto poderá ser encarada como a hipótese de visualização da sua leitura, uma espécie de síntese do que o texto evoca. E por outro lado a ilustração servirá de pretexto a uma análise das situações que constituem a narrativa e será o resultado da selecção dos elementos que deverão assegurar a necessária comunicabilidade. Do já visto se partirá para o imaginado, e aí se irá revelar a qualidade do observador, a invenção do artista e o entendimento do leitor que este começou por ser. Para esclarecimento do visitante desta exposição, sublinha-se o facto de que os desenhos que nela se mostram não são os que integraram a edição original do livro de Aquilino, perdidos por incúria minha, mas os que se guardaram entre todos os estudos que preparam aqueles. Cada um dos desenhos que devia servir de ilustração fora ensaiado e repetido tantas vezes quanto as julgadas necessárias para a clareza da imagem, tal como o actor busca limpidez na boa articulação das palavras que compõem o texto dramático. A maior parte destes desenhos foi destruída, conservando-se apenas aqueles em que se julgou ver uma hipótese de clareza.

«Os desenhos para o Romance de Camilo», por ocasião da exposição «Júlio Pomar – Estudos para o Romance de Camilo de Aquilino Ribeiro», no Centro Cultural de Belém, Lisboa. http://www.ccb.pt/sites/ccb/ pt-PT/Programacao/Exposicoes/Pages/JulioPomarOut2012aJan2013.aspx


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JÚLIO POMAR Cavalos-alados / Pégaso s.d. Tinta permanente sobre papel 51,9 x 44,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000357.A, B, C, D, E, F, G, H


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LISTA DE OBRAS A Origem das Espécies, Darwin 1945 Pastel e carvão sobre papel, colado sobre tela 113 x 225 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP00353

Abutre – O rei das aves (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm Ex. n.n.; ass., dat. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000290

Elefante 1952 Linóleo Mancha 14,5 x 17 cm | Papel 24 x 48,2 cm Ed. Autor Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000242

O asno e o porco (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm “Prova de ensaio” n.n.; ass., dat. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000284

Javali 1952 Linóleo Mancha 14,5 x 17 cm | Papel 24 x 48,2 cm Ed. Autor Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv.AMJP000243

Chacal (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm Ex. n.n. (No verso: “bom para marcar”) Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000291

Perú 1957 Água-forte Mancha 9 x 9,5 cm | Papel 20,2 x 17,4 cm Prova de artista V Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000255

Crocodilo (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm Ex. n.n.; ass., dat. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000289

O lobo, o bode e a raposa (Fabulário) 1958 Litografia Papel 28 x 22 cm Ex. XII/XV; ass., dat. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000285

Cavalo – o triste amigo (Fabulário) 1958 Litografia Papel 27,5 x 21,8 cm Ex. n.n. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000292


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O Leão Velho (Fabulário) 1958 Litografia Papel 27,7 x 21,8 cm Ex. n.n.; ass., dat. Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000286 Metamorfoses do Macaco (Fabulário) 1958 Litografia Papel 27,5 x 21,8 cm Ass. Impressa Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000287 Galo 1959 Água-forte Mancha 35 x 27,8 cm | Papel 52 x 38,2 cm Atelier Gravura, Lisboa Prova de artista V Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000264 Mocho 1960 Marcador sobre papel 25,4 x 20,6 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000211 S/ título (Touro) 1960 Tinta-da-china sobre papel 56 x 49 cm (moldura) Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000744

Macaco 1962 Litografia 28,1 x 22,1 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000296 Papagaio 1962 Litografia 28,1 x 21,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000295 Camaleão e sapo 1963 Esferográfica sobre papel 20,8 x 13,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000218 Dois lacraus 1963 Esferográfica sobre papel 20,9 x 13,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000217 Três aves 1963 Marcador sobre papel 20,8 x 13,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000221 Duas cegonhas 1963 Esferográfica sobre papel 21 x 13,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000219


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Duas aves 1963 Esferográfica sobre papel 20,9 x 13,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000220

Estudos (Mãos) 1953 Caneta sobre papel 22 x 35 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000046

Cavalo (estudo Delacroix) 1963 Esferográfica sobre papel 13,5 x 21 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000214

Estudos (Mãos) 1953 Caneta sobre papel 22 x 35 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000047

Courbet Louvre s.d. Grafite sobre papel 14,6 x 21 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu

Caveira 1959 Tinta-da-china e pincel sobre papel 15,5 x 15,7 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP00209

Tartaruga 1965 Tinta-da-china sobre papel 21,8 x 12,7 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000361.A4 Corvo 1984 Marcador sobre papel 27 x 21,1 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000453 Corvo 1984 Marcador sobre papel 27 x 21,1 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000452

Caveira 1959 Tinta-da-china e pincel sobre papel 10 x 14,4 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000210 Desenho do natural, caveiras, Paris 1963 Esferográfica 10 (20,7 x 13,5 cm) + 2 (13,5 x 20,7 cm) Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000215/6 Inv. AMJP000224.A.B.C.D.E.F.G.H.I.J.


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Auto-retrato 16 de Julho de 1946 Grafite sobre papel 37,5 x 21,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000010

Estudo para O Mundo Desabitado De José Gomes Ferreira, 1960 Tinta-da-china sobre papel 35 x 25,5 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000741

Auto-retrato s.d. Grafite sobre papel 21 x 13,3 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000012

Estudo para O Mundo Desabitado De José Gomes Ferreira, 1960 Tinta-da-china sobre papel 25,5 x 35 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000742

Auto-retrato 1968 Grafite sobre papel 31,5 x 23,8 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000013

La Chasse au Snark – O Sineiro 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000182

Auto-retrato 1991 Grafite sobre papel 37,5 x 33,4 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000014

La Chasse au Snark – O Advogado 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000183

Duplo Auto-retrato do Artista 2012 Acrílico, carvão e pastel sobre tela 115 x 148 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000365

La Chasse au Snark – O Talhante 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000184

Cavalos-alados / Pégaso s.d. Tinta permanente sobre papel 51,9 x 44,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000357.A, B, C, D, E, F, G, H

La Chasse au Snark – O Banqueiro 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000185


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La Chasse au Snark – O Engraxador 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000186 La Chasse au Snark – O Bilharista 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000187 La Chasse au Snark – O Padeiro 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000188 La Chasse au Snark – O Castor 1999 Lápis de cera e pastel de óleo sobre papel 31,9 x 23,9 cm Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu Inv. AMJP000189


EXPOSIÇÃO

CATÁLOGO

Artista Júlio Pomar

Coordenação Hugo Dinis

Curadoria Pedro Faro / Hugo Dinis

Textos © Rui Teixeira © Sara Antónia Matos © Júlio Pomar © Pedro Faro / Hugo Dinis

Produção Hugo Dinis Vitor Monteiro Montagem Vitor Monteiro Design Gráfico Paula Prates

Design Gráfico Paula Prates Fotografias © António Jorge Silva / AMJP © Fundação Júlio Pomar Revisão Atelier-Museu Júlio Pomar Tiragem 700 exemplares Depósito Legal 000000/19 Impressão e Acabamento BLISQ © Atelier-Museu Júlio Pomar, 2019 1.a Edição, Março de 2019


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Catálogo de Júlio Pomar  

"Da Cabeça à mão" Obras do acervo do Atelier-Museu Júlio Pomar

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