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UM BREVE ESTUDO SOBRE A FORMA DE GOVERNO DA IGREJA

Joelson Galv達o Pinheiro


Produzido por Joelson GalvĂŁo Pinheiro

Diagramado por Fabio Martins

Imagem de capa: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Lorimer,_Ordination.jpg

Brasil – 2013


INTRODUÇÃO Não falaremos sobre este assunto de maneira detalhada, mas tentaremos lançar as bases para esta doutrina tão importante para a Igreja de Cristo, e, assim, termos uma visão geral do assunto.

A IMPORTÂNCIA DO ASSUNTO De quem é a Igreja? A forma de governo da Igreja é um assunto importante, pois ela responde esta pergunta que merece nossa atenção. A forma de governo que nós aderirmos vai nos dizer quem é o dono da Igreja. No passado, muitos irmãos e irmãs em Cristo, levaram tão a sério este assunto que estiveram prontos a perder títulos, confortos e até a própria vida para defenderem o “Direito Divino” de governo da Igreja, ou seja, que Cristo tem o direito de dizer como a Igreja deve ser governada, pois Ele é o dono da Igreja e ela deve ser governada de acordo com a Sua Palavra (Mateus 16:18; Efésios 1:22).


1. AS OPÇÕES EXISTENTES

Na história da Igreja tem havido diferentes visões acerca de como a Igreja deve ser governada. Historicamente falando, podemos mencionar pelo menos três tipos diferentes de formas de governo, e, é claro, cada uma destas três formas apresentam tantas variações que talvez seja impossível de mencionar cada uma detidamente. Mas vejamos estas diferentes visões de maneira resumida: 1.1. Episcopal Este nome vem do grego “episkopos” (1Timóteo 3:1; Tito 1:7) e significa “supervisor”, “superintendente”, alguém que está na liderança. Nesta visão existem três tipos básicos de ofícios na igreja: o Bispo, o Presbítero (chamado também de sacerdote) e os Diáconos. De acordo com esta visão, tanto o Presbítero quanto o Diácono, são oficiais da igreja da congregação local, enquanto o Bispo exerce autoridade sobre uma área mais ampla e os oficiais locais respondem a ele. E, junto com estes oficiais, há também outras subdivisões que geralmente existem, tais como Arcebispo, Arquediáconos, etc. 1.2. Independente Esta visão ensina que o governo da igreja termina na congregação local e as reuniões dos oficiais de diversas congregações são, na melhor das hipóteses, simplesmente para consulta e conselho. Nenhum outro corpo maior fora da congregação local pode exercer autoridade sobre a congregação. Os Independentes são, contudo nem sempre, Congregacionalistas também; isto quer dizer que os oficiais da igreja não agem diretamente sob Cristo, mas como representantes da congregação. Neste caso, a própria congregação é coorte final de apelo na Terra. 1.3. Presbiteriano Presbiterianismo rejeita tanto a visão Independente quanto a hierarquia de oficiais (visão Episcopal). Não há maior ofício do que o do ancião (em grego “Presbyteros), mas anciãos de diversas congregações podem se reunir naquilo que geralmente é chamado de presbitério para realizarem atos de governo sobre as diversas congregações. Cremos que esta forma de governo é a mais bíblica, conforme veremos. Esta visão está também diretamente ligada à doutrina do governo civil que ensina que a Igreja e o Estado são separados, mas ambos devem ser governados sob Cristo e sob Sua Palavra, e certos deveres específicos são, para cada um, atribuídos por Cristo. Neste ponto, destacamos que rejeitamos a forma de governo Presbiteriana moderna apresentada nas alterações


que foram feitas na Confissão de Fé de Westminster em 1788, pois tal visão apoia a multiplicidade de denominações cristãs, algo que o Presbiterianismo original sempre rejeitou.1

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Ver apêndice.


2. OFICIAIS LOCAIS

2.1. O Fundamento da Igreja O Senhor Jesus fundou e estabeleceu Sua Igreja sob Si mesmo. Ele é o fundamento de Sua própria Igreja; porém, Ele mesmo designou pessoas para revelarem a verdade de Deus ao Seu povo, para isto Ele fez uso dos Seus apóstolos e profetas ao longo da era Vetero e Neo-Testamentária (Efésios 4:11). Neste sentido, o fundamento da Igreja está sobre estas pessoas (Efésios 2:20). Estes homens, apesar de serem pecadores e falíveis, escreveram infalivelmente a Palavra de Deus inspirados pelo Espírito Santo, revelando assim a vontade de Deus para os homens (2Pedro 1:21). E é por isto que apóstolos e profetas aparecem como primeiros na lista de dons do Espírito (Efésios 4:11; 1Coríntios 12:28). Os requisitos para Profeta e Apóstolo não podem mais ser cumpridos por ninguém hoje (Atos 1:21,22) e o cânon da Escritura já está fechado, portanto, não temos nem teremos mais apóstolos verdadeiros hoje (Apocalipse 2:2). Na passagem de Efésios supracitada, é também feito uma referência aos “evangelistas”. Lemos nas Escrituras que homens como Timóteo cumpriram este ministério (2Timóteo 4:5). Vemos também que este cargo específico revelado por profecia pelos apóstolos (1Timóteo 4:14; 1Timóteo 1:18). Parece-nos que estes evangelistas eram assistentes dos apóstolos. Também temos evangelistas como Marcos, Mateus e Lucas, que escreveram os evangelhos (por isso são evangelistas). Neste sentido, o cargo de evangelista cessou juntamente com o apostolado. Temos na igreja hoje, evangelistas no sentido amplo da palavra (alguém que evangeliza), mas não temos mais no mesmo sentido que Timóteo e outros evangelistas do Novo Testamento. “Os oficiais que Cristo apontou para a edificação de Sua igreja, e para o aperfeiçoamento dos Santos, são, alguns extraordinários, como apóstolos, profetas e evangelistas, que já cessaram.” (Forma de Governo de Westminster) 2.2 Oficiais Permanentes (Presbíteros e Diáconos) Ainda que não tenhamos mais apóstolos e profetas, temos a Bíblia completa e Cristo designou para Sua Igreja, oficiais que permaneceriam, não para trazer novas revelações, para expor a revelação completa de Deus, administrar as ordenanças e cuidar do rebanho de Deus de acordo com as Escrituras. A Palavra de Deus descreve estes oficiais usando os seguintes termos: Presbíteros (anciãos), Bispos, Pastores, Mestres e Diáconos.


2.3. Presbíteros Presbíteros (anciãos) e bispos são a mesma coisa. A palavra usada no grego é “presbuteros” e é algumas vezes traduzida por ancião (Atos 15:2; Atos 20:17). “Episkopos” é traduzida por bispo algumas vezes (Filipenses 1:1). Quando lemos Atos 20:17,28 e Tito 1:5-9, percebemos que estas palavras se referem a mesma coisa. Todos os Presbíteros são pastores. Os Presbíteros devem apascentar o rebanho de Deus (Atos 20:28; 1Pedro 5:1,2). Eles devem guiar o rebanho de Deus alimentando-o e protegendo-o, assim como um pastor o faz com suas ovelhas. Toda congregação deve ter Presbíteros. Presbíteros existiam em Jerusalém (Atos 15:2), Eféso (Atos 20:17); Filipos (Filipenses 1:1; Creta (Tito 1:5). Em todas elas haviam uma pluralidade de presbíteros, esta era a norma. Alguns Presbíteros são Ministros da Palavra. Paulo diz a Timóteo: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (1Timóteo 5:17). Isto indica que alguns dos presbíteros que além de governar a Igreja com outros presbíteros, também têm uma tarefa particular de pregar a Palavra de Deus. Romanos 12:7-8 diferencia entre “ensinar” e “presidir”. Em Efésios 4:11 existem pastores e doutores (mestres). A palavra ministro é usada, no Novo Testamento para vários tipos de serviços, incluindo o ministério da Palavra (Efésios 3:7; Colossenses 1:7; 1Tessalonicenses 3:2; 1Timóteo 4:6). Já que o ministério dos apóstolos não mais continua hoje, a palavra “ministro” é aplicada aos presbíteros de maneira geral; e ainda que nem todos os presbíteros sejam ministros da palavra, todos eles são igualmente responsáveis de velar pelas almas do rebanho de Cristo (Hebreus 13:17). Presbíteros no Antigo Testamento. Como já vimos, a palavra ancião significa presbíteros, e esta palavra aparece, segundo estudiosos das Escrituras, mais de mil vezes no Antigo Testamento. Vejamos algumas delas: - No tempo de Moisés (Êxodo 18:12; Deuteronômio 31:28);


- No tempo do Rei Davi (1Crônicas 21:16); - No tempo do Rei Salomão (1Reis 8:1); - No tempo do Rei Josias (2Reis 23:1); - Bem como em diversos outros textos (Esdras 10:14; Salmo 107:32; Ezequiel 8:1; Provérbios 31:10-23; Joel 1:14; etc). 2.4. Diáconos A instituição dos Diáconos O ofício do Diácono foi instituído no Novo Testamento (Atos 6:1-7). A palavra “ministério” no verso 1 é a palavra “diakonia” em grego; e a palavra “sirvamos”, no verso 2, é a palavra “diakonos”. Apesar de sempre ter havido cuidado com os pobres e viúvas em Israel, o oficio de diácono aparece somente no Novo Testamento. Diáconos são diferentes de presbíteros A Igreja de Filipos tinha Bispos e Diáconos (Filipenses 1:1). O apóstolo Paulo dá separadas listas de qualificações para Presbíteros e Diáconos (1Timóteo 3:1-13). Os Diáconos devem cuidar das necessidades físicas Quando lemos o texto da instituição dos Diáconos (Atos 6:1-7), notamos que o papel deles era cuidar das viúvas e de todos que estavam sendo esquecidos na distribuição diária (verso 1). E os Apóstolos disseram que não poderiam abandonar o ministério da Palavra para servirem às mesas (verso 2). A palavra mesa é “trapeza” no grego e era usada às mesas usadas para se trabalhar com dinheiro (Mateus 21:12; João 2:15; aparece traduzida por banco em Lucas 19:23). Disto concluímos que o trabalho dos Diáconos está relacionado às necessidades físicas da Igreja (distribuição de alimento, tesouraria, etc). A importância do Diácono Não deve existir hierarquia na Igreja. Os Presbíteros não estão acima dos Diáconos, mas estes são ofícios diferentes para necessidades diferentes. Os Apóstolos consideraram que o trabalho dos Diáconos era importante, por isso constituíram homens para isso (Atos 6:3). A Palavra de Deus fala sobre a importância de cuidar das necessidades físicas da Igreja (Tiago 2:15;16; Gálatas 6:10; 1Timóteo 5:3,9,16; Mateus 25:31-46). O próprio Cristo atribui a palavra “diakonos” a Si mesmo (Marcos 10:45).


3. O ESTABELECIMENTO DOS OFICIAIS NA CONGREGAÇÃO LOCAL

3.1. Escolha e Ordenação Os Presbíteros e Diáconos devem ser eleitos em cada Igreja pela congregação e ordenados pelos Presbíteros já existentes (Atos 6:1-7; Atos 14:23; Atos 15:22; 1Timóteo 5:22; Tito 1:5; 1Timóteo 5:19). Em resumo, isso significa que pelo menos três coisas precisam coincidir na escolha e ordenação de um oficial: 1. O candidato ao ofício deve reconhecer e aceitar para si mesmo o chamado para o ofício; 2. A congregação deve elegê-lo como oficial (Presbítero ou Diácono); 3. Os Presbíteros já existentes (oficiais que governam a Igreja) devem verificar se o candidato tem as qualificações necessárias e ordená-los. Estas três coisas que precisam coincidir na forma de governo Presbiteriana. Isto difere tanto do governo Episcopal (onde os oficiais são escolhidos pelos Bispos e/ou outros oficiais) quanto dos Independentes (naqueles onde a congregação é quem decide dando a palavra final quanto à escolha dos oficiais). 3.2. As Qualificações Exigidas Cristo, sendo Senhor e Rei de Sua Igreja, determina quais são as qualificações para aqueles que serão os Seus oficiais. Ele o faz isso pelo Espírito Santo (João 16:13) inspirando seus Apóstolos. Qualificações para Presbíteros: 1Timóteo 3:1-7; Tito 1:5-9. Qualificações para Diáconos: Atos 6:3; 1Timóteo 3:8-13. Todos os irmãos devem atentar para estas qualidades e percebê-las naqueles que eles pretendem escolher para desempenharem as respectivas funções de cada ofício.


4. CONEXÕES COM OUTRAS CONGREGAÇÕES

4.1. Sem hierarquia Como já vimos, não deve existir hierarquia de um oficial sobre o outro na Igreja de Cristo. Na forma de governo Episcopal, o Bispo governa os Presbíteros de uma determinada região, os próprios Bispos são governados por outros oficiais que estão acima deles, e assim por diante. Mas já vimos que palavra “Bispo” e a palavra “Presbíteros” são sinônimas no Novo Testamento. Portanto, não há hierarquia. 4.2. Dons para apenas um corpo A Igreja é descrita no Novo Testamento como sendo um corpo e não vários (Efésios 1:22,23; Efésios 5:23); e os dons (neste caso estamos considerando os oficiais), são para este corpo único (1Coríntios 12:27,28). No verso 28, vemos que o dom de governo é mencionado. Isto significa que estes dons eram não apenas para uma congregação local, mas para o corpo de Cristo. 4.3. Igreja e Igrejas A palavra “Igreja” é usada para indicar uma única congregação e muitas congregações podem ser chamadas de “Igrejas” (1Coríntios 11:16; Gálatas 1:2). Mas o povo de Deus como um todo pode ser chamado de “a Igreja” (Gálatas 1:13; Filipenses 3:6), e em Mateus 16:18 lemos que Cristo edifica uma Igreja. As várias congregações que existiam em Jerusalém (Atos 12:24; Atos 21:20) eram chamadas de “a Igreja que estava em Jerusalém” (Atos 8:1; Atos Atos 12:5; Atos 15:4). Em Éfeso havia um número grande de Cristãos professos (Atos 19:17-20), e nem todos habitavam (ou frequentavam) a casa de Áquila e Priscila que estava em Éfeso (1Coríntios 16:19), mas encontramos uma referência “a Igreja” e aos “Anciãos” em Éfeso. Portanto, a palavra “Igreja” não se refere apenas, no Novo Testamento, a uma congregação em particular, mas a um grupo de congregações. 4.4. Sínodo em Atos 15 No livro de Atos capítulo 15 (versos 1 e 2), vemos que houve uma contenda contra Paulo e Barnabé a respeito da circuncisão, pois alguns dos Judeus disseram que se os gentios não fossem circuncidados, eles não seriam salvos. Lemos que houve uma Assembleia (ou Sínodo) na Igreja de Jerusalém entre os Apóstolos e Ancião (verso 6) para discutir esta questão. A decisão do que deveria ser dito aos irmãos gentios foi feita pelos Apóstolos e Anciãos (verso 22,23). Depois lemos no capítulo seguinte (Atos 16:4,5) que


aquilo que foi determinado pelos Apóstolos e Anciãos era para ser observados em todas as Igrejas. Com isto percebemos que não havia hierarquia (governo Episcopal) entre Apóstolos e Anciãos, pois todos tomaram a decisão juntos. E também não havia separação (governo Independente) entre as Igrejas, pois todas tiveram que acatar a decisão dos Apóstolos e Anciãos, não foi apenas um Sínodo para consulta, mas para determinar o que era certo fazer em todas as Igrejas. Com isto entendemos que uma congregação local não deve exercer jurisdição sobre outra congregação, mas os Presbíteros de ambas as congregações podem se reunir para realizar atos de governo sobre as congregações. 4.5. Sem individualismo “No mundo de hoje onde todo mundo quer ‘fazer o que quer’, Cristãos devem resistir a tentação de pensar que eles não precisam da comunhão e da superintendência de uma Igreja. Congregações individuais também devem resistir a esta tentação procurando comunhão com outras congregações até mesmo unindo-se ao governo da Igreja por Presbíteros de tais congregações agindo juntos. Isolar-se pode facilmente levá-los doutrinas e práticas excêntricas tanto no Cristão individual como na congregação. Precisamos dos freios e do equilíbrio do Presbiterianismo Bíblico. ‘Semelhantemente vós jovens, sede sujeitos aos anciãos; e sede sujeitos uns aos outros, e revesti-vos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.’” (1Pedro 5:5). (David Silversides).2 “Independentismo: implícita, lógica e necessariamente uma eclesiologia de divisão” (Rev. Gavin Beers). 3

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SILVERSIDES, David. Is Presbyterian Biblical? Loughbrickland Reformed Presbyterian Church. 2008.

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Frase retirada do seu perfil (Gavin Beers) no facebook.


5. CONCLUSÃO

A Escritura afirma: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus.” (1 Coríntios 10:31). Cremos que a forma de governo que na história foi chamada Presbiterianismo, é a mais bíblica, pois cremos que ela é a que mais glorifica a Deus por pelos menos dois motivos: 1. Ela luta para promover a união do povo de Deus rejeitando a pluralidade de denominações numa nação. A desunião do povo de Deus com certeza não é algo que honra a Deus, temos visto que pessoas de outras religiões frequentemente acusam os Cristãos de serem muito desunidos com as suas múltiplas denominações. Cremos que devemos orar para que a Igreja seja cada vez mais unida em doutrina e prática, e o Presbiterianismo (clássico) é de imensa ajuda quanto a esta questão. “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer” (1 Coríntios 1:10). 2. Esta forma de governo reflete a própria Santíssima Trindade. “O Deus trino é em Si mesmo um ‘Presbitério’ – como pode ser visto na ordenação do Filho pelo Pai com o Espírito, no próprio batismo de Cristo (Mateus 3:16; Isaías 61:1). Na verdade, desde toda a eternidade, o Filho estava sempre com o Pai e com o Espírito eterno – antes que o mundo existisse (...) No início dos tempos, todas estas Três Pessoas agiram em conjunto, como Um Presbitério, em divina harmonia, na criação do universo (Gen 1:1-3). Eles assim o fizeram na formação da família humana em Sua reta imagem (Gen 1:26-28; 5:1-4; Ec 7:29; Rm 2:14; Ef 4:24-29)”. (Francis Nigel Lee).

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LEE, Francis Nigel. Artigo: Rev. John Owen Re-Presbyterianized. 2000.

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O QUE O “ESTABLISHMENT PRINCIPLE” NÃO É OU NÃO ENSINA:

1) Não é mesma coisa que o Princípio Erastiano. Algumas pessoas se confundem achando que a doutrina que cremos ser bíblica (Establishment Principle) é, na verdade, a mesma coisa que o erastianismo (que ensina que o Estado tem autoridade para interferir na Igreja e na administração das ordenanças e sacramentos desta). O “Establishment Principle” não ensina isto. Ele não ensina que o Estado deve ou tem autoridade para tais coisas. Mas ensina que a autoridade civil deve servir a Deus cumprindo o seu papel sem interferir na Igreja. Esta doutrina ensina que não somente a Igreja, mas também o Estado deve reconhecer os direitos divinos de Cristo como Rei. Alguns apelam para a Assembleia de Westminster, dizendo que nela alguns defendiam a visão erastiana. Sim, é verdade que existiam tais pessoas; mas os tais foram refutados, especialmente pelos puritanos escoceses (covenanters/pactuantes) que participaram da Assembleia. 2) Não ensina que o magistrado civil deve obrigar a todas as pessoas a serem tornarem Cristãs. Este princípio não ensina que o Estado tem o poder para usar a espada para converter a pessoas ao evangelho. Esta função pertence à Igreja. A ela é dada a ordem pregar o evangelho usando a espada da Palavra de Deus. A espada do magistrado civil é apenas para a punição dos malfeitores (Romanos 13:1-4), enquanto que a espada da Igreja é a própria Palavra de Deus (Hebreus 4:12). Isto significa que na prática o Estado não deve obrigar ninguém a amar o seu próximo, mas ele teria autoridade para punir aquele que prejudicasse o seu próximo (roubando-o, matando-o, etc). 3) O “Establishmente Principle” não é a mesma coisa que “Teonomismo Reconstrucionista”. Este movimento chamado Teonomismo tem crescido e tomado certa notoriedade em nosso país, e esta doutrina ensina que as leis de Deus devem ser aplicadas pelo Estado na sociedade de hoje, porém, ensina que somente os crimes cometidos contra a segunda tábua do decálogo (os dez mandamentos) é que devem ser punidos, e não os que são cometidos contra a primeira tábua (ou todos os dez). Em outras palavras, o homicídio e o adultério, por exemplo, não deveriam ser tolerados, mas a idolatria, a corrupção do culto, o blasfemar o nome de Deus e a violação do dia do Senhor sim, podem e devem ser tolerados. E é precisamente nisto que este movimento, até onde sei, difere do “Establishment Principle”. Pois este ensina que o magistrado civil deve governar usando as duas tábuas da lei, todo o decálogo.


REFUTANDO / REJEITANDO O PRINCÍPIO VOLUNTÁRIO

O Princípio Voluntário é o mais aceito pelos cristãos de nossos dias no que diz respeito a relação entre a Igreja e o Estado. Este princípio ensina que ambos (Igreja e o Estado) têm papéis completamente diferentes e estão caminhando em direções completamente opostas, portanto, estão completamente separados ao ponto de não haver um dever da parte do magistrado civil de glorificar a Deus cumprindo Sua Palavra, mas deve haver uma neutralidade do Estado em todas as questões religiosas, deixando todas as pessoas escolherem aquilo que quiserem fazer de acordo com a sua consciência (referente à religião). Porém, consideramos as seguintes coisas: 1) A impossibilidade da neutralidade religiosa. É impossível alguém ou alguma instituição ser neutra em questões de religião. A razão para isto é simples: Nosso Senhor Jesus claramente ensinou isto: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” (Mateus 12:30). Não existe neutralidade quanto a Cristo, não existe um terceiro caminho, não existe ficar em cima do muro, pois a tanto indecisão quanto ficar em cima do muro são contra Cristo. Muitos concordam que isto deve ser aplicado quando estivermos evangelizando alguém e a pessoa disser: “Bem, eu não aceito tudo o que você diz sobre Jesus, mas também não sou contra Ele.” Aí podemos aplicar, acreditam, este texto de Mateus 12:30 para a pessoa. Mas quando falamos de instituições e do Estado, este princípio, para estas pessoas, parece não valer. Quanta incoerência! 2) Falsa liberdade. Os que acreditam no Princípio Voluntário clamam por uma liberdade de religião e de consciência. Mas será isto verdadeiramente uma liberdade? Creio que não. Pensemos da seguinte forma: a idolatria é pecado? Acho que todos os cristãos concordarão que sim. O nosso Senhor Jesus disse que todo aquele que pratica pecado é escravo dele (João 8:34). Como pode haver então liberdade na prática da idolatria? Na verdade está se dando liberdade para pecar (Gálatas 5:13). A verdadeira liberdade está em amar somente a Deus como o único Deus e servi-Lo e adorá-Lo conforme Ele mesmo instituiu. 3) As consequências do Principio Voluntário. Quais seriam as consequências do Principio Voluntário? Para sabermos isto, basta olhar ao nosso redor. Vemos uma multidão de falsas igrejas e seitas crescendo cada vez mais com um único propósito: mandar milhões de pessoas para o inferno. E, segundo este principio, do ponto de vista


civil, não há nenhuma problema nisto, já que o Estado deve ser neutro e todos devem ter a sua em liberdade. Este princípio não é apenas anticristão, mas também completamente ateu, pois é contra Cristo, Sua glória e Sua coroa, e, portanto, deve ser rejeitado com toda a nossa a força de nossa alma!


ALGUMAS IMPLICAÇÕES PRÁTICAS

Em resumo, esta doutrina ensina que a relação entre Igreja e Estado deve ser mútua no sentido em que ambos devem trabalhar juntos como o mesmo propósito: visar a glória de Deus. Apesar de terem diferentes papéis, ambos devem ter este mesmo propósito, pois o Senhor para isto os criou e os estabeleceu. Portanto, neste ponto, muitos podem questionar sobre a grande distância que estamos de que isto aconteça na prática, especialmente em um país como o nosso onde política é sinônimo de corrupção, engano, mentira, etc. Diante disto, o que, como cristãos podemos ou devemos fazer? 1) Não devemos eleger candidatos a cargos civis que não estejam de acordo com esta verdade da Escrituras, ou seja, não devemos votar em políticos que não temem a Deus e que não buscam a Sua glória (Deuteronômio 23:22). Se votarmos em tais candidatos sabendo que eles não temem ao Senhor, seremos cúmplices dos seus pecados que virão no futuro, pecados que são destrutivos para nossa sociedade, pois tais homens são contra o Senhor e contra o Seu ungido, e, portanto, serão alvos da ira de Deus (Salmo 2). 2) Devemos orar pelo magistrado civil (1Timóteo 2:1,2). Devemos orar que o Senhor levante pessoas que desejem governar de acordo com a Palavra de Deus, e assim podermos votar nelas. Também devemos orar para que o magistrado aprove leis de acordo com a Palavra de Deus; vemos neste texto que o Apóstolo Paulo diz que devemos orar pelos reis e por todos que estão em eminência, mas com qual propósito? Ele diz: “para que tenhamos uma vida sossegada, em toda a piedade e honestidade”. Isto significa que devemos orar para que sejam aprovadas leis que favoreçam a Igreja de Cristo. O Catecismo Maior de Westminster diz na pergunta 191, sobre a oração que Senhor nos ensinou, que devemos orar para que a igreja seja mantida pelo magistrado civil, pois o Senhor Jesus nos diz que devemos orar para que a vontade de Deus seja feita tanto na terra como no céu. 3) Devemos crer nas promessas de Deus. Existem muitas promessas nas Escrituras no que diz respeito ao magistrado civil servindo a Deus. Além de lermos muitos exemplos de reis Israelitas e de outras nações servindo ao Senhor, também lemos que isto é uma promessa de Deus relacionada ao avanço do evangelho (veja, por exemplo, Isaías 60:1012). Alguns podem dizer que isto é impossível que aconteça, mas respondemos dizendo


que isto já aconteceu muitas vezes na história de humanidade (como na época dos reformadores e puritanos, por exemplo); mas também respondemos que devemos viver pela fé e não pela vista; devemos crer como Abraão; diante da promessa de Deus de que ele teria um filho, tendo uma esposa estéril e que com o passar dos anos teve o seu ventre amortecido e ele mesmo também já sendo velho demais (uma total impossibilidade de que a Palavra de Deus se cumprisse, do ponto de vista humano), creu e isto lhe foi imputado por justiça; a Escritura nos diz que ele “em esperança, creu contra a esperança” e “não enfraquecendo na fé, não atentou para o seu próprio corpo já amortecido” e “não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus, estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer.” (Romanos 4). Que tenhamos a mesma fé esperança que Abraão teve e que possamos orar ao Senhor lhe rogando que Ele mesmo santifique Seu nome, faça o Seu reino avançar e que somente a Sua vontade seja feita no céu e na terra! Amém.

BIBLIOGRAFIA SILVERSIDES, David. Is Presbyterian Biblical? Loughbrickland Reformed Presbyterian Church. 2008. LEE, Francis Nigel. Artigo: Rev. John Owen Re-Presbyterianized. 2000. The form of Presbyterian Church-government according to the Westminster Standarts (1645). The Divine Right of Church Government. By Sundry Ministers of Christ Whithin The City of London. 1654.


APÊNDICE A RELAÇÃO BÍBLICA ENTRE O ESTADO (MAGISTRADO CIVIL) E A IGREJA DE CRISTO

Uma questão importante que, como Cristãos, devemos considerar, no que diz respeito a sociedade e o bem comum dos homens, é a seguinte: Qual deve ser a relação entre o Estado e a Igreja de Cristo? Historicamente falando, existem quatro visões ou princípios acerca de como deve ser a relação entre o Estado e a Igreja: 1) Principio Católico Romano: nesta visão, o Estado deveria ser submisso a Igreja. O papa é, segundo o Catolicismo Romano, o cabeça da Igreja e também do Estado. Isto significa que ele tem poder não somente sobre a Igreja, mas também sobre o Estado; tendo assim, poder para criar e afirmar as leis civis de uma nação. Ele é o vicário de Cristo, ou seja, o substituto de Cristo, portanto, tem o poder de dominar e governar todas as nações. Esta visão não é encontrada nas Escrituras. Lemos nelas que somente Cristo é o Cabeça da Igreja (Efésios 1:22) e somente Ele é o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores (Apocalipse 19:16). 2) Princípio Erastiano: esta visão é o oposto da visão acima, na visão anterior a Igreja deveria dominar o Estado, enquanto nesta o Estado deveria dominar e governar a Igreja. Neste caso, o Estado teria poder de administrar os sacramentos (ceia e batismo), a disciplina (tendo poder para excluir pessoas da Igreja) e qualquer outra ordenança de Deus, incluindo a própria pregação da Palavra. Temos muitos exemplos das Escrituras de autoridades civis, como reis, que tentaram fazer coisas relacionadas ao templo e aos sacerdotes (ou seja, a Igreja da Antiga Aliança), e de como estes foram condenados e reprovados por Deus (2Crônicas 26:16-20; 1Samuel 13:8-14). 3) Princípio Voluntário: nesta visão, o Estado e a Igreja estão completamente separados. Ambos têm propósitos diferentes e estão caminhando em rumos diferentes. Deste modo, o Estado deve sempre ser laico e secular, e nunca deve interferir em matérias de fé. Todos numa nação devem ter liberdade para fazer parte da religião que quiser e o Estado não pode favorecer nenhuma religião ou denominação cristã. Esta é a posição mais aceitas nas Igrejas Cristãs de nossa época, quer sejam reformadas ou não. Na época da Reforma, apenas aqueles movimentos que eram considerados como seitas eram a favor deste tipo de princípio (Anabatistas, Socinianos, etc).


A Escritura afirma que as autoridades civis foram ordenadas por Deus (Romanos 13:1-4). Isto significa que autoridades civis foram criadas e estabelecidas por Deus, e isto para a Sua própria glória (tudo o que o Senhor faz, estabelece e ordena é para a Sua glória) e também para o bem público (para o bem das sociedades humanas). Portanto, não é bíblico afirmar que o Estado deve ser indiferente em questões de fé e que ele deve tolerar práticas religiosas que estão em desarmonia com a glória de Deus e com o bem público. 4) Princípio do Estabelecimento/Reconhecimento Nacional da Religião Cristã (mas conhecido, em inglês, como “Establishment Principle”): este princípio concorda com os dois primeiros de que deve haver um reconhecimento nacional da religião cristã, porém discorda, ao mesmo tempo, de ambos quando dizem que a Igreja ou o Estado devem governar um ao outro (em seus respectivos princípios). Este princípio concorda com o Princípio Voluntário quando este diz que a Igreja e o Estado têm funções diferentes, porém discorda quando diz que o Estado não tem nada a ver com as verdades de Deus e com a Sua glória. Em resumo: este princípio ensina que tanto a Igreja quanto o Estado (todas as autoridades civis) são criações e ordenações de Deus para, acima de tudo, glorificar Seu próprio nome. Porém, ambos devem fazer isto cada um em sua respectiva área. A Igreja não pode tomar a espada do Estado para aplicar penas capitais, por exemplo, pois isto é função do Estado (Romanos 13:1-4); nem o Estado deve tomar as ordenanças e sacramentos que foram confiados à Igreja para administrá-lo, pois isto é papel somente da Igreja (Mateus 18:17; 1Coríntios 4:1,2; Hebreus 5:4). Isto significa que ambos devem submissão a Deus, porém com papéis diferentes com ambos buscando a glória de Deus servindo-O em seus respectivos e peculiares papéis. Cremos que este princípio, ao contrário dos outros, é bíblico e verdadeiramente reformado. Todas as Confissões Reformadas em suas versões originais e inclusive em sua aplicação prática concordam com este princípio. Veja por exemplo, o que diz o capítulo 23 da Confissão de Fé de Westminster em sua versão original (as versões disponíveis em português, até onde sei, adotaram as alterações que foram realizadas em 1788 pelos Presbiterianos Americanos):


CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER - CAPÍTULO XXIII DO MAGISTRADO CIVIL

I. Deus, o Senhor e Rei de todo o mundo, ordenou o magistrado civil para estar sob Ele e sobre o povo, e isto para Sua própria glória e para o bem público; e, para este fim, o armou com o poder da espada, para defesa e encorajamento daqueles que são bons e para a punição dos malfeitores (Rm 13:1-4; 1Pe 2:13,14). II. É lícito aos cristãos aceitar e exercer o ofício de magistrado, quando para ele é chamado (Pv 8:15,16; Rm 13:1,2,4); e, em sua administração, devem especialmente manter a piedade, a justiça, e a paz segundo as justas leis de cada nação (Sl 2:10-12; 1Tm 2:2; Sl 82:3,4; 2Sm 23:3; 1Pe 2:13); e para este fim, eles podem agora, sob o Novo Testamento, fazer guerra, havendo ocasiões justas e necessárias (Lc 3:14; Rm 13:4; Mt 8:,9,10: At 10:1,2; Ap 17:14,16). III. Os magistrados não podem assumir para si a administração da Palavra e dos sacramentos ou o poder das chaves do Reino do Céu (2Cr 26:18 com Mt 18:17 e Mt 16:19; 1Co 12:28,29; Ef 4:11,12; 1Co 4:1,2; Rm 10:15; Hb 5:4); mas, ele tem autoridade, e é o seu dever, fazer com que a paz e a unidade sejam preservados na igreja, que a verdade de Deus seja mantida pura e inteira; que todas as blasfêmias e heresias sejam suprimidas; todas as corrupções e abusos do culto e da disciplina sejam impedidos ou reformados; e todas as ordenanças de Deus sejam devidamente estabelecidas, administradas e observadas (Is 49:23; Sl 122:9; Esdras 7:23,25-28; Lv 24:16; Dt 13:5,6,12; 2Reis 18:4; 1Cr 13:1-9; 2Reis 23:1-26; 2Cr 34:33; 2Cr 15:12,13). Para uma melhor eficácia destas coisas, ele tem poder para convocar sínodos, estar presentes neles, e providenciar para que o que quer que tenha sido decidido neles esteja de acordo com a mente de Deus (2Cr 19:8-11; 2Cr 29 e 30; Mt 2:4,5). IV. É dever das pessoas orar pelos magistrados (1Tm 2:1,2), honrar as suas pessoas (1Pe 2:17), pagar-lhe tributos e outros impostos (Rm 13:6,7), obedecer às suas ordens legais e sujeitar-se à sua autoridade, e isto por amor a consciência (Rm 13:5; Tito 3:1). Incredulidade ou indiferença de religião não anula a justa e legal autoridade do magistrado, nem absolve o povo da obediência que lhe deve (1Pe 2:13,14,15), obediência de que não estão isentos os eclesiásticos (Rm 13:1; 1Reis 2:35; At 25:9-11; 2Pe 2:1,10,11; Judas 8-11). Muito menos o Papa tem qualquer poder ou jurisdição sobre os magistrados dentro dos domínios deles ou sobre qualquer um do seu povo; e muito menos tem o poder de privá-los dos seus domínios ou vidas, por julgá-los hereges ou sob qualquer outro pretexto (2Te 2:4; Ap 13:15-17). Sugiro o estudo cuidadoso do assunto levando em consideração todos os textos bíblicos citados na versão original da Confissão de Fé.


UM BREVE ESTUDO SOBRE FORMA DE GOVERNO DA IGREJA