Issuu on Google+

O CRISTÃO e a ORAÇÃO

Wilhelmus à Brakel


WILHELMUS À BRAKEL The Christian's Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2007. p. 443-464 / 879-887.

Traduzido e revisado por Diagramado por Rev. Alan Rennê Fabio Martins Alexandrino Lima

Original aqui: http://www.abrakel.com/p/christians-reasonable-service.html Imagem de capa: http://en.wikipedia.org/wiki/File%3ADuerer-Prayer.jpg

Fonte: http://www.cristaoreformado.com/search?q=WILHELMUS+%C3%80+BRAKEL

Brasil – 2013


SOBRE WILHELMUS À BRAKEL NOTA BIOGRÁFICA SOBRE O AUTOR1 Wilhelmus à Brakel nasceu no dia 2 de janeiro de 1635 em Leeuwarden, filho único de Margaretha Homma e de Theodorus à Brakel, um pastor reformado de extraordinária piedade e que veio a ser conhecido por sua obra intitulada De Trappen dês Geestelycken Levens (Os Degraus da Graça na Vida Espiritual). Wilhelmus e suas cinco irmãs foram criados num lar extraordinariamente temente a Deus. Wilhelmus foi convertido quando menino, provavelmente sob a pregação de seu pai e as orações e rogos de sua mãe. Ele frequentou a escola de latim de Leeuwarden, e depois ingressou na academia de Franeker com dezenove anos de idade, em 1654. Tendo completado os seus estudos em 1659, a Classis[2] de Leeuwarden o admitiu no ministério. Devido à falta de vagas na época, à Brakel continuou seu treinamento teológico por alguns anos em Utrecht, sob Gisbertus Voetius e Andreas Essenius. À Brakel serviu cinco congregações da igreja nacional da Holanda durante um ministério de quase cinquenta anos. Seu primeiro encargo foi em Exmorra, Friesland (1662-1665), uma congregação difícil por causa da indiferença espiritual generalizada. Durante o seu ministério ali, ele casou-se com Sara Nevius, viúva de Henricus Vege, que tinha sido pastor em Benthuizen. Após a perda do seu primeiro marido, Sara morou em Utrecht, onde participou dos conventículos de Voetius e amadureceu espiritualmente. Ela foi uma grande dádiva para à Brakel e seu ministério. A segunda congregação de à Brakel, em Stavoren (1665-1670), era maior e lhe propiciou um pastorado mais frutífero. A seguir, à Brakel foi para a florescente cidade portuária de Harlingen (1670-1673), onde o seu ministério e o de seus três colegas foram abençoados com numerosas conversões. De 1673 a 1683, à Brakel serviu a grande congregação reformada de Leeuwarden, que se reunia em três edifícios de igrejas diferentes, tinha seis ministros e milhares de membros. Todos os domingos três cultos eram dirigidos na Grote Kerk (a Grande Igreja), dois na Galileerkerk (a Igreja da Galileia) e dois na Westerkerk (a Igreja do Oeste). Três cultos em dias de semana também eram mantidos a cada semana. Cidade onde nasceu e a maior cidade da Friesland, Leeuwarden se gabava de ter uma população de quase 20.000 habitantes. Na parte final da década de 1670, à Brakel envolveu-se em três controvérsias. Primeiro, como ele tinha feito em Stavoren e em Harlingen, à Brakel estabeleceu conventículos em vários locais de Leeuwarden. Essas reuniões consistiam primariamente de pessoas pertencentes a Deus que partilhavam suas experiências de vida interior da fé e que exortavam umas às outras à piedade. Entretanto, o Consistório[ 3] de à Brakel temia que esses conventículos promovessem a ideia de igrejas dentro da Igreja e acabassem levando a cisma; em vista disso, o Consistório desencorajou a prática e, em 1676, a Classis de Leeuwarden repreendeu à Brakel por continuar a promovê-los. Segundo, à Brakel envolveu-se na controvérsia que girava em torno de Jacobus Koelman, ardoroso teólogo da Pós-Reforma que promovia fortes medidas separatistas. Quando Koelman visitou Leeuwarden, à Brakel o deixou pregar do seu púlpito contra os desejos do Consistório, pelo que ele foi repreendido pela Classis de Leeuwarden em 1677. Eventualmente, à Brakel entrou em conflito com o governo sobre Koelman 1

Joel R. Beeke e Randall J. Pedersen, Paixão pela Pureza: conheça os puritanos, publicada pela editora PES, págs. 879885. 2 Assembleia ou conselho eclesiástico com capacidade de tribunal. Nota do tradutor. 3 Conselho que exerce o governo da igreja local. Nota do tradutor.


porque o governo havia deposto Koelman do ofício, e à Brakel acreditava que “nenhum corpo político tinha autoridade para depor ministros”. O governo suspendeu à Brakel de todos os seus deveres ministeriais por quatro semanas, mas à Brakel recusou-se a parar de pregar e de trabalhar. Por último, à Brakel assinou uma declaração na qual prometeu respeitar o governo e exortar outros a respeitá-lo também. O conflito todo veio a ser conhecido por toda parte da Holanda, e a fama de à Brakel espalhou-se nas igrejas por sua defesa dos direitos da Igreja. Finalmente, à Brakel combateu David Flud van Giffen, um ministro seguidor de Cocceius[ 4] e que pregou do púlpito de à Brakel em 1679 que o Salmo 8 era uma profecia do advento de Cristo. Como o sermão gerou insatisfação, à Brakel pregou sobre o mesmo Salmo no domingo seguinte com base numa posição mais classicamente reformada. Ele publicou seu sermão sob o título de Davids Hallelujah, ofte lof des Heeren in den achste Psalme, verklaert (1680), (Aleluia de Davi, ou os Louvores do Senhor no Salmo 8 Exposto). Depois que van Giffen e à Brakel foram reconciliados, à Brakel acrescentou à sua primeira publicação um extenso tratamento da aliança da graça em Hallelujah, ofte lof des Heeren over het genadeverbond opgesteld (1681), (Aleluia, ou os Louvores do Senhor relativos à Aliança da Graça). Depois de vinte e um anos de ministério exercido em Friesland, à Brakel aceitou um chamado pastoral em 1683 para Rotterdam, onde permaneceu pelo resto de sua vida. Rotterdam, uma das maiores cidades da república, com uma população de 55.000 habitantes, proveu-lhe um importante campo de trabalho. Ali também os labores de à Brakel foram grandemente abençoados, na edificação dos piedosos em sua fé e na conversão dos incrédulos. Essas bênçãos foram interrompidas na parte final da década de 1680 por dois grandes conflitos. O primeiro levou à Brakel a distanciar-se de Jean de Labadie e seus seguidores, os labadistas, que estavam tentando promover uma “Igreja ideal”, o que os levou a muitos excessos, inclusive o de aconselhar os crentes a não participarem da Ceia do Senhor em igrejas organizadas, todas as quais eles imaginavam ser corruptas. No segundo, à Brakel engajou-se num novo conflito com o governo quando insistiu em que a Igreja é independente do governo e, daí, o governo não tem direito de proibir a extensão de um chamado pastoral vindo de uma congregação local a um ministro particular. Os anos tranquilos que à Brakel teve na década de 1690 ele dedicou à produção da sua magnum opus, De Redelijke Godsdienst (Discursos Francos sobre o Culto Divino), uma volumosa série de livros que cobrem tanto a teologia sistemática reformada como a ética reformada para leigos interessados, estudantes de teologia e ministros num nível que todos podem entender. Embora ele tivesse dificuldade para encontrar um impressor para a primeira edição (finalmente encontrado um publicador católico-romano), sua obra foi procurada por toda a Holanda dentro de pouco tempo. Redelijke Godsdienst se tornou quase tão popular nos círculos holandeses como o Pilgrim’s Progress de Bunyan nos círculos ingleses. Para o culto doméstico, um típico agricultor do século dezoito costumava ler um “stukje van Vader Brakel” (uma porção ou uma seleção do Pai Brakel) todas as noites, depois de ler as Escrituras. Quando completava a leitura de à Brakel, voltava ao começo e o lia completamente de novo. Redelijke Godsdienst passou por vinte edições, só no século dezoito. Foi reimpresso várias vezes em holandês nos séculos dezenove e vinte também. Esforços para traduzir esta volumosa obra para o inglês (incluindo uma decisão de fazê-lo tomada pelo Sínodo da Igreja Reformada da América em fins do século dezoito) não se materializaram, até o final da década de 1980, mas veio a ser desfrutada em 1995. A singularidade da obra de à Brakel está no fato de que ela é mais do que uma teologia sistemática. A intenção de à Brakel ao escrevê-la é inevitável: ele deseja intensamente que a verdade exposta se torne

4

Convém lembrar que Johannes Cocceius (1603-1669), teólogo e hebraísta holandês, foi um dos principais expoentes da teologia federal (sistema baseado na aliança). Nota do tradutor.


uma realidade experimental nos corações dos que a lerem. De maneira magistral, ele estabelece a crucial relação entre a verdade objetiva e a experiência subjetiva dessa verdade. Além desta obra clássica, à Brakel foi mais bem conhecido em seus dias como um poderoso e efetivo pregador, que podia prender milhares de pessoas com sua eloquência e comunicação intensa. Seu método de pregação era mais analítico que sintético, e era sempre cristocêntrico e experimental. Como faziam os puritanos ingleses, à Brakel aplicava seus sermões a diferentes grupos de pessoas, particularmente aos salvos, aos incrédulos e aos hipócritas. Às vezes ele subdividia a classificação. Por exemplo, entre os incrédulos ele distinguia os ignorantes, os indiferentes, os ímpios e o pecador interessado. Entre os salvos, ele frequentemente propiciava diferentes aplicações aos que estavam interessados e tinham uma fé em Cristo que os levava a “buscar refúgio”, e os que estavam firmes e possuíam plena certeza da fé em Cristo. Ele promovia o exame pessoal, introspectivo, centralizado em Cristo e na Palavra, e advertia muitas vezes contra os pecados da libertinagem e do mundanismo. No verão de 1711, à Brakel adoeceu gravemente. Quando inquirido em seu leito de morte sobre como estava sua alma, ele respondeu: “Muito bem; posso repousar em meu Jesus. Estou unido a Ele e aguardo Sua Vinda para mim; enquanto isso, em me submeto serenamente a Ele”. No dia 30 de outubro de 1711 à Brakel morreu, com setenta e seis anos de idade. Daniël LeRoy e Abraham Hellenbroek pregaram em seu funeral. À Brakel foi um popular e proeminente representante da Pós-Reforma Holandesa de mentalidade puritana. Ele foi tão amado entre seu povo por seu ministério paternal, tanto do púlpito como em sua obra pastoral, que muitos lhe chamaram carinhosamente “Pai Brakel”. Esse título honorário ainda hoje permanece indelével nos lares de muitos holandeses na Holanda, os quais ainda leem sua obra clássica e apreciam a tradição puritana experimental, pietista, que ele tão habilmente representou.


THE CHRISTIAN’S REASONABLE SERVICE – WILHELMUS À BRAKEL NOTA BIOGRÁFICA SOBRE A OBRA5 The Christian’s Reasonable Service foi organizado em três partes. A primeira forma uma teologia sistemática reformada tradicional, tratando principalmente do conhecimento de Deus, dos ofícios de Cristo, da soteriologia, das alianças, da Igreja, e da escatologia. A força desta seção é tripla: clareza de pensamento, eficácia de apresentação e utilidade de aplicação. As seções conclusivas, no fim de cada capítulo, que aplicam as doutrinas particulares discutidas às vidas dos crentes e dos incrédulos, são fortemente iluminadoras. A casuística prática de à Brakel nessas aplicações supera qualquer outro teólogo sistemático, tanto da sua época como da atualidade. Sua casuística representa a teologia experimental puritana, reformada, em sua melhor expressão. A segunda parte expõe a ética cristã e o viver cristão. À Brakel escreve: “No primeiro volume falamos da aquisição da salvação e da aplicação da salvação aos eleitos. No segundo volume vamos tratar da vida do verdadeiro povo da aliança, de sua qualidade e condição”. Esta parte inclui os capítulos 42 a 99, abrangendo a seção de conclusão do volume 2, todo o volume 3 e a maior parte do volume 4 na tradução inglesa. É a seção mais extensa e mais fascinante da obra de à Brakel, reunindo notáveis aplicações sobre uma variedade de tópicos pertinentes a como o cristão deve viver neste mundo. Em acréscimo a um magistral tratamento dos Dez Mandamentos (caps. 45-55) e da Oração do Senhor (caps. 68-74), esta parte trata de diversos tópicos, entre os quais estes: como viver pela fé com base nas promessas de Deus (cap. 42); como exercer amor a Deus e ao Seu Filho (caps. 56,57); como temer e obedecer a Deus e esperar nEle (caps. 59-61); como professar Cristo e Sua verdade (cap. 63); e como exercer uma multiplicidade de graças espirituais, tais como a coragem, o contentamento, a abnegação, a paciência, a integridade, a vigilância, o amor ao próximo, a humildade, a mansidão, o espírito pacífico, a diligência, a compaixão, e a prudência (caps. 62, 64-67, 76, 82-88). Outros tópicos tratados com muito proveito incluem o jejum (cap. 75), a solitude (cap. 77), a meditação espiritual (cap. 78), o canto (cap. 79), os votos (cap. 80), a experiência espiritual (cap. 81), o crescimento espiritual (cap. 89), a apostasia (cap. 90), a deserção espiritual (cap. 91), as tentações (caps. 92-95), a corrupção interior (cap. 96), e trevas e morte espirituais (caps. 97,98). A terceira parte (volume 4, pp. 373-538) é dedicada à história da obra pactual e redentora de Deus, desde o princípio até o fim do mundo. Lembra a obra de Jonathan Edwards, History of Redemption (A História da Redenção), embora não seja tão detalhada como a obra de Edwards; a de à Brakel confina-se mais às Escrituras e tem maior ênfase pactual. Conclui com um detalhado estudo da futura conversão dos judeus extraído de passagens das Escrituras (4:511-538). Nos volumes em holandês, uma quarta parte, que serve como uma espécie de apêndice de 350 páginas e que expõe o livro de Apocalipse, não foi traduzida para o inglês. A obra The Christian’s Reasonable Service representa, talvez, mais do que qualquer outra, o pulsar do coração puritano e o equilíbrio da Pós-Reforma Holandesa. Aqui a teologia sistemática e o cristianismo experimental, vital, são entrelaçados biblicamente e praticamente dentro de uma estrutura pactual, o conjunto todo trazendo a marca de um teólogo-pastor profundamente ensinado pelo Espírito. The Christian’s Reasonable Service combina a erudição e a precisão de Gisbertus Voetius, o ensino de Witsius sobre as doutrinas da fé e da aliança, e as melhores percepções da teologia bíblica propiciadas por Johannes Cocceius. Avassalador na abrangência, quase todos os assuntos de interesse dos cristãos são tratados de maneira extraordinariamente proveitosa, sempre visando a promoção da piedade. Se a pessoa pudesse adquirir somente uma coleção de vários volumes, esta coleção seria uma sábia escolha.

5

Joel R. Beeke e Randall J. Pederson. Paixão pela Pureza: conheça os puritanos. São Paulo: PES, 2010. pp. 885-887.


ORAÇÃO O reconhecimento de todas as perfeições de Deus, e o exercício de todas as virtudes para com Deus se unem em oração – que é um necessário, proveitoso, santo e santificador dever de um cristão. Por conseguinte, o exercício da religião é compreensivamente expresso como orar e clamar a Deus: “daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gênesis 4.26). Desde que a oração procede de uma variedade de movimentos da alma, ela também é referida por várias designações, como (teffila), que significa oração (Salmo 4.2); (techinna), que significa súplica (Salmo 6.10); (siach), que quer dizer queixa (Salmo 64.1); (tse’naqah), que significa clamar ou chorar (Salmo 9.13); (deesis), que significa oração (Tiago 5.16) ou súplica (1 Timóteo 2.1); (hiketeria), que quer dizer súplica (Hebreus 5.7); (enteuksis) (1 Timóteo 4.5), (euchomai) (Tiago 5.16), e (proseuche) (Colossenses 4.2), todas significando oração; e (proskuneo), que significa cultuar (Mateus 4.10).

As várias formas de oração na Escritura Primeiro, há a adoração. Isso ocorre quando, ao ver e reconhecer as perfeições de Deus, reverentemente, curvamo-nos diante do Senhor e rendemos-Lhe honra e glória, e se – seja sem palavras, com pensamentos interiores, ou por meio de palavras externas – nós – falamos da gloriosa honra de Sua majestade, e de Suas maravilhosas obras (Salmo 145.5). Este é também o trabalho dos anjos em relação a Cristo: “E todos os anjos de Deus o adorem” (Hebreus 1.6). Segundo, há a invocação. Isso ocorre quando pedimos alguma coisa a Deus, seja a libertação de algum mal opressor ou iminente, ou o recebimento de algum benefício para o corpo e a alma. “Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei” (Salmo 50.15); “Ele me invocará, e eu lhe responderei... Saciá-lo-ei com longevidade e lhe mostrarei a minha salvação” (Salmo 91.15,16). Em terceiro lugar, há a súplica. Isso ocorre quando, com muita humildade e por apresentar muitos argumentos, perseveramos em oração: “Não obstante, ouviste a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro” (Salmo 31.22); “chorou e lhe pediu mercê” (Oséias 12.4). Em quarto lugar, há o gemido. Isso ocorre quando não podemos achar palavras para expressar nossos desejos ou os assuntos nobres que temos em vista e desejamos ardentemente. O apóstolo os chama “gemidos inexprimíveis” (Romanos 8.26), e o salmista diz: “Na tua presença, Senhor, estão os meus desejos todos, e a minha ansiedade não te é oculta” (Salmo 38.9). Em quinto lugar, há as orações públicas ou comuns. Isso ocorre quando a congregação apela a Deus em qualquer lugar de reunião pública ou em uma casa privada, onde alguém ora de forma audível: “mas havia oração incessante a Deus por parte da Igreja a favor dele” (Atos 12.5). Orações que são oferecidas quando alguns se reúnem para orar em conjunto, são também consideradas orações comuns: “Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mateus 18.19,20). Em sexto lugar, há as orações privadas. Isso ocorre quando levamos nossos desejos particulares diante de Deus. São elas: (1) Orações jaculatórias, que são enviadas ao céu, a Deus, durante o nosso trabalho, enquanto caminhamos, ou durante uma conversa com pessoas. Dessa forma, Neemias orou a Deus, enquanto falava


com o rei (Neemias 2.4), e Moisés, que orou enquanto estava diante do Mar Vermelho com Israel (Êxodo 14.13); (2) Orações sazonais, que por sua vez, são de caráter ocasional, quando um incidente em particular nos leva a procurar a solitude, a fim de orar; ou orações regulares, isto é, nossos tempos devocionais designados pela manhã, ao meio-dia, e à noite. Ambas, jaculatórias bem como sazonais são: [a] Mentais, quando levamos nossos desejos diante de Deus por nos exercitarmos mentalmente, e por meio da reflexão e da contemplação. Isso ocorre sem palavras, como observado nos exemplos de Neemias e Moisés. [b] Orais, que ocorrem quando expressamos nossos desejos com palavras, mesmo se formarmos e pronunciarmos palavras sem usar a voz: “porquanto Ana só no coração falava; seus lábios se moviam, porém não se lhe ouvia voz nenhuma” (1 Samuel 1.13). Pode ser também que expressemos nossos desejos com a voz, fazendo isso mais alto ou baixo, dependendo de quão longe ou perto estamos das pessoas: “De manhã, SENHOR, ouves a minha voz” (Salmo 5.3). Não é à toa que os romanistas elevam as orações mentais acima das orações orais, uma vez que suas orações não são nada por via oral, mas recitações de formas de orações, Pai Nosso e Ave Marias. Em sétimo lugar, há a oração intercessória. Isso ocorre quando desejamos algo de Deus para os outros. Pode ocorrer para a igreja em geral: “Ó Deus, redime a Israel de todas as suas tribulações” (Salmo 25.22); “Faze bem a Sião, segundo a tua boa vontade; edifica os muros de Jerusalém” (Salmo 51.18); “Orai pela paz de Jerusalém!” (Salmo 122.6). Também ocorrer em lugar de indivíduos determinados: “Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele” (Tiago 5.16); “Irmãos, orai por nós” (1 Tessalonicenses 5.25); “Orai uns pelos outros” (Tiago 5.16); “Orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5.44); “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade” (1 Timóteo 2.1,2). Muitos, por diversas vezes, abusam dessa prática em nossos dias dizendo uns aos outros, em cima da despedida: “Recomendo-me às vossas orações”, “Lembre de mim em suas orações”, “Peço suas orações intercessórias”, ou “Ore por mim”. Comumente, fazem isso como expressão de saudação. Além do fato, que é impossível lembrarmos de todos aqueles que fazem esse pedido. É necessário sabermos especificamente que estamos orando em favor de outra pessoa. A pessoa que faz a solicitação deveria ser, em circunstâncias específicas, revelada àqueles cujas orações intercessórias são solicitadas. Só então, alguém pode solicitar interceder por outro, e aquele a quem o pedido tenha sido feito é obrigado a fazê-lo, para que Deus, sendo buscado por muitos, seja também agradecido por muitos. No entanto, a tendência de fazer esses pedidos é frequentemente não mais do que um costume, e isso pode fazer perder de vista a intercessão do Senhor Jesus. Não pode haver intercessão pelos mortos, pois eles já estão onde estarão por toda a eternidade e continuarão a estar; purgatório nada mais é do o inferno em si mesmo. Também não pode haver intercessão por aqueles que cometeram o pecado contra o Espírito Santo: “Há pecado para a morte, e por esse não digo que rogue” (1 João 5.16). Em oitavo lugar, há a oração imprecatória. Aqui devemos ser cautelosos e não ser levados por nossas próprias paixões, como ocorreu com os discípulos de Cristo, que desejaram orar para que o fogo consumisse os samaritanos que não os receberam (Lucas 9.54). Nunca devemos orar pela perdição eterna de alguém, nem pela destruição do corpo de alguém que é nosso inimigo pessoal. Também não podemos


fazer isso em relação àqueles que ofendem a congregação do Senhor. No entanto, se o Senhor nos move a orar contra os que oprimem e perseguem a congregação de uma maneira extraordinária, então, podemos orar a Deus para que os converta, e se não for o caso, para que Deus os puna, para que não sejam capazes de oprimir a igreja. Seria, portanto, evidente, que o Senhor toma vingança contra o sangue de sua igreja e, além disso, Deus seria glorificado nisso: “Enche-lhes o rosto de ignomínia, para que busquem o teu nome, SENHOR. Sejam envergonhados e confundidos perpetuamente; perturbem-se e pereçam. E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo sobre toda a terra” (Salmo 83.16-18). Em nono lugar, há a ação de graças. Tal ocorre quando reconhecemos com alegria a bondade de Deus manifestada em todas as bênçãos temporais e espirituais concedidas a nós. Deve ser feita por bênçãos específicas. Este reconhecimento motivará o suplicante a orar fervorosamente por aquilo que, no presente, ele deseja. Foi o que Jacó fez em Gênesis 32.9-12, assim como a igreja, no Salmo 75.2-5. Portanto, ação de graças e oração estão frequentemente unidas: “em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Filipenses 4.6); “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens” (1 Timóteo 2.1).


A NATUREZA OU ESSÊNCIA DA ORAÇÃO

Em nosso tratamento do assunto da oração iremos, primeiramente, mostrar qual é a sua natureza, e, então, moveremos você ao exercício da oração. A fim de expandir a verdadeira essência da oração, iremos apresentar: 1) sua definição (sobre a qual discorreremos abaixo); 2) suas características; 3) suas ocorrências externas; e 4) o exercício da oração, consistindo em preparação, prática e reflexão. Oração é a expressão de santos desejos a Deus, em nome de Cristo, que, por meio da operação do Espírito Santo, procede de um coração regenerado, junto com o pedido do cumprimento desses desejos. Cada palavra possui importância enfática e necessita ser desenvolvida abaixo. Oração é a expressão de desejos. Com esta frase desejamos expressar qual é a atividade da alma na oração. Há total envolvimento, isto é, o intelecto, vontade, paixões, olhos, boca, mãos, joelhos, a alma inteira, e o corpo inteiro estão envolvidos. (1) O suplicante está focado em si mesmo. Ele conhece, vê e percebe sua deficiência. Ele perece de fome e deseja ser saciado. Ele percebe sua impotência – sua inabilidade para ajudar a si mesmo. Ele também sabe que nenhuma criatura pode lhe conceder isso e ele também não deseja receber isso da criatura. Somente Deus pode dar isso a ele, mas ele sabe e percebe com tristeza e angústia de coração sua indignidade, odiosidade e abominação. Desse modo, Deus pode não ser movido a ajudá-lo por sua disposição – de fato, isto logo provocaria Sua ira. Ele percebe que não é digno – nem de longe – de se dirigir a Deus, pois sua oração é tão pecaminosa e tão deficiente que por ela, não pode mover a Deus para ouvi-lo e ajudá-lo. Ele está focado tão intensamente sobre sua disposição que desfalece em miséria e desespero, e não tem esperança em nada dentro de si ou que procede de si. (2) O suplicante está focado em Deus, mantendo o Senhor diante dele como sendo majestoso, onisciente, glorioso, imanente, santo – bem como gracioso em Cristo, misericordioso, e onipotente. Aqui ele se curva em humildade e treme devido ao respeito que tem. Aqui ele toma liberdade para receber a Cristo e fazer conhecer seus desejos em e por meio dEle, sabendo que Deus é glorificado em ouvir e socorrer pecadores arrependidos. (3) O suplicante está focado nos assuntos que ele deseja – seja a libertação de um sofrimento que o oprime ou o ameaça, ou uma bênção para a alma ou o corpo. Ele percebe quão necessário e benéfico seria para ele ou ser libertado disso ou receber a bênção. Ele sabe o que deseja, vividamente reflete sobre isso, está encantado com isso, e anseia por isso. O suplicante confunde estas três questões. Em um movimento ele foca em si mesmo, Deus e o assunto em questão. Estando nesta disposição, ele não apenas se apresenta diante de Deus como tal, mas também dá expressão aos seus desejos diante do Senhor. A expressão de desejos é vividamente apresenta na Escritura, transmitindo-nos tanto o assunto em si, como também todos aqueles que estão ou estiveram em tal disposição. Além disso, a Escritura desperta inclinações para tal disposição – sim, frequentemente faz com que uma alma esteja disposta. Aquilo que denominamos como uma “expressão”, a Escritura denomina: (1) um derramamento: “... porém venho derramando a minha alma perante o SENHOR” (1 Samuel 1.15); (2)[6] “Oração do aflito que, desfalecido, derrama o seu queixume perante o SENHOR” (Salmo 102.1);

6

Colocamos (1) e (2) no mesmo título, “um derramamento”, visto que as palavras holandesas “uitgieten” e “uitstorten” são traduzidas como “derramar” na KJV.


(3) uma declaração: “Eu tenho declarado meus caminhos, e tu me ouviste” (Salmo 119.26)[7]; (4) uma elevação: “A ti, SENHOR, elevo a minha alma” (Salmo 25.1); (5) um olhar para cima: “De manhã dirigirei a ti a minha oração (isto é, organizar tudo de forma tão organizada, da mesma forma que um exército é organizado em linhas e divisões) e olharei para cima” (Salmo 5.3)[8]; (6) uma conversa: “Quando tu disseste: Buscai a minha face, meu coração disse a ti: Tua face, Senhor, eu buscarei” (Salmo 27.8)[9]; (7) um choro, um suspiro: “Eles choraram a ti, e foram libertos” (Salmo 22.5); “Como a corsa suspira por ribeiros de água, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus” (Salmo 42.1)[10]; (8) uma busca com todo o nosso coração e todo o nosso desejo: “de todo o coração, eles juraram e, de toda boa vontade, buscaram ao SENHOR” (2 Crônicas 15.15)[11]. Todas estas expressões indicam o envolvimento intenso da alma na oração. Quando a alma intenta orar, frequentemente, ela pode não encontrar palavras – sim, todas as palavras são tão inferiores e inadequadas para expressar o desejo e a intensa disposição da alma. Por conseguinte: (1) Ela faz isso por simplesmente manifestar sua disposição ao Senhor; (2) Algumas vezes ela o faz através de um suspiro, que transmite mais do que ela pode expressar; (3) Quando a alma é mais dilatada, ela começa a formular palavras, ainda que de forma estritamente mental, ou silenciosamente, com a boca, apenas movendo os lábios sem fazer barulho, ou ainda com um suave sussurro; (4) Como os desejos aumentam em intensidade, a voz também se torna mais alta, e se está tão longe das pessoas, de maneira que elas não podem ser ouvidas, haverá um chamado; (5) E se as emoções se tornam mais abundantes, haverá lágrimas, especialmente se a esperança e o amor se tornam mais fortes. Quão maravilhoso é quando um homem, que não é movido facilmente às lágrimas e se envergonharia se chorasse (sendo isto incompatível com a sua dignidade), algumas vezes se derrete diante do Senhor, em lágrimas, que correm pelo rosto como rios! A alma nunca esteve mais em seu ambiente do que quando ela foi suave e capaz de chorar de uma forma sincera. Jó, um homem que não era emotivo, foi capaz de chorar: “Clamo a ti” (Jó 30.20). Davi, que era um herói valente, que tinha o coração de um leão, chorou diante do Senhor como uma criança: “todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago” (Salmo 6.6); “não te emudeças à vista de minhas lágrimas” (Salmo 39.12). O bravo e respeitado Paulo, comumente orava com lágrimas: “servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações” (Atos 20.19).

7

Tradução livre. Tradução livre. 9 Tradução livre. 10 Tradução livre. 11 Tradução livre. 8


ORAÇÃO: A EXPRESSÃO DE SANTOS DESEJOS

Nós denominamos oração como sendo uma expressão de desejos – não uma expressão de assuntos. Uma pessoa não convertida que possui um conhecimento crítico de assuntos espirituais, e que, além disso, é eloquente, tem uma voz expressiva, e tem controle sobre suas emoções, pode ter uma percepção da necessidade e da beleza dos assuntos espirituais (embora de uma forma mais natural e como se relacionada com as questões naturais) e apresentá-los em oração de uma forma extremamente emocional e triste. Sim, ela pode agitar suas emoções a tal ponto que pode falar em lágrimas sobre estes assuntos. Isto é particularmente verdadeiro quando ela tem conhecimento que está sendo ouvida ou pode ser ouvida; ou, se ela conduz a oração em uma reunião onde ela pode se tornar agradável por tais expressões e lágrimas, de modo que parece ser muito espiritual, estar muito perto de Deus, e ser inflamada com santo zelo – e ainda assim, não é nada mais do que uma obra natural. Por isso, refiro-me à oração como expressão de desejos, e não de assuntos. Mas o homem é um vaso vazio que deve obter seu enchimento em outra parte – a partir de uma fonte externa a si mesmo. Para este fim o Senhor deu ao homem a capacidade para desejar e dar expressão aos seus desejos. A força dos seus desejos é proporcional à medida que ele é sensível à sua deficiência, a magnitude e caráter desejável dos assuntos que, em seu julgamento, podem satisfazê-lo, e a probabilidade de que eles sejam obtidos. Ele se esforça para expressar esses desejos de acordo com isso. No entanto, isso não significa necessariamente, tornar os desejos santos, e, portanto, não nos limitamos a nos referir à oração como uma expressão de desejos. Em vez disso, a oração é uma expressão de santos desejos. Podemos realmente desejar assuntos temporais de uma forma espiritual, e os assuntos espirituais de uma forma carnal. Os desejos são carnais quando se relacionam com o pecado, ou se desejamos boas coisas com uma motivação pecaminosa, a fim de ganhar honra, amor, favor, vantagens e prazer. Desejamos assuntos temporais e espirituais de uma forma espiritual quando é lícito desejar estas coisas e as desejamos para melhor servirmos a Deus com alegria e zelo – isto é, quando desejamos aqueles assuntos do modo que descrevemos anteriormente, e de um modo que neles pode-se observar, reconhecer e louvar a graça, a bondade, socorro e poder de Deus, encontrando prazer em fazer isto. Chamamos oração de uma expressão de santos desejos dirigidos a Deus. Nós, então, olhamos para além de todas as criaturas – tanto boas como más – sabendo que elas não são capazes de ajudar. E mesmo que elas fossem capazes de ajudar, nunca desejaríamos orar a elas. Não desejamos ser ajudados por ninguém a não ser por Deus, porque O amamos e não queremos dar a sua honra a outrem. (1) É idolatria servir àqueles que por natureza não são deuses (Gálatas 4.8); (2) Deus quer que clamemos apenas a Ele: “Invoca-me” (Salmo 50.15); (3) Apenas a oração tem uma promessa associada a ela: “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Atos 2.21); (4) Somente Deus tem as perfeições exigidas para ser adorado. Aquele que ora corretamente, buscando glorificar a Deus em oração como o Único que é digno de adoração; a Única fonte de todas as boas dádivas; o Único onisciente que conhece o coração e a mente do Espírito; o Único onipotente para quem nada é demasiado maravilhoso; o Único que é bom, misericordioso, gracioso, e o Único que se deleita na misericórdia; o Único que espera que alguém venha a Ele para que lhe seja gracioso; e o Único que é verdadeiro e prometeu ouvir e dar. É por esta razão que o suplicante se volta para o Senhor, prostra-se diante dEle com humildade e reverência, apresenta suas necessidades e suplica pelo cumprimento dos seus desejos, e, então, espera no Senhor. É seu prazer e alegria adorar a Deus.


A ORAÇÃO DEVE SER OFERECIDA EM NOME DE JESUS CRISTO

A oração a Deus deve ser oferecida em nome de Jesus Cristo: “... e o ramo que tu fizeste forte para ti mesmo” (Salmo 80.15); “... por amor do Senhor” (Daniel 9.17); “Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei” (João 14.14); “... a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” (João 15.16). (1) “Em nome de” algumas vezes significa por amor de alguém. “E quem receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe” (Mateus 18.5). Portanto, orar em nome de Cristo é o mesmo que dizer, “Senhor, Tu amas Teu Filho, Tu tens prazer com o Seu sacrifício, e Teu Filho me ama e eu O amo. Agora, oro por causa do amor que tens por Teu Filho, para que Tu me ouças e me conceda o meu desejo”. (2) Às vezes “em nome de” significa sob o comando de: “Nós vos ordenamos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 3.6). Então, significa algo como dizer: “Teu Filho, que é o meu Fiador com Tua aprovação, enviou-me a Ti, e ordenou-me que Te invocasse e pedisse tudo o de que tenho necessidade. Isto me dá coragem para, humildemente, fazer este pedido”. (3) Algumas vezes, e até, mais frequentemente, significa: por amor do próprio Cristo; por amor do seu sofrimento e morte expiatória: “Pela fé em o nome de Jesus, é que este mesmo nome fortaleceu a este homem” (Atos 3.16); “... porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome” (Atos 4.12); “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus” (Hebreus 7.25). Desde que o homem, em razão do seu pecado, separou-se de Deus, ele não pode nem é capaz de vir a Deus de forma imediata. Para ele, Deus seria um fogo consumidor, e ele experimentaria o mesmo que Nadabe e Abiú, que se aproximaram de Deus com fogo estranho e foram mortos por Deus com fogo. No entanto, o Senhor deu Jesus para ser o Fiador e Mediador para que, por meio de Seu sofrimento e morte, reconciliasse os pecadores com Deus e acabasse com a separação. Após a Sua morte, o véu do templo foi rasgado, para que, sem qualquer outro impedimento, o homem fosse capaz de olhar para dentro do Santo dos Santos e nele entrar. Os crentes, então têm a ousadia de ir a Deus “pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hebreus 10.20). Cristo é o único caminho pelo qual alguém pode e deve ir ao Pai (João 14.6). Se nós, portanto, orarmos em nome de Cristo, é como orarmos por causa dos méritos de Cristo. O suplicante recebe a Cristo, que lhe é oferecido, e, assim, torna-se participante de Cristo e de todos os seus méritos. Com estas vantagens, ele vai a Deus e as exibe, e, desta forma, pede a Deus tudo o que deseja. Aqueles que oram nem sempre estão na mesma condição. Alguns não são capazes de assegurar a si mesmos de que são participantes de Cristo. Desde que eles possuem um forte desejo por bênçãos espirituais e temporais, refugiaram-se em Deus. Não obstante, eles não fazem isso diretamente, mas com um olho em Cristo e em Sua satisfação, e oram para que Deus lhes seja graciosa por causa de Cristo e Seus méritos e, assim, os abençoe. Trata-se de orar em nome de Cristo – conquanto a fé seja fraca. Alguns estão assegurados principalmente de sua porção em Cristo; entretanto, há um distanciamento de Deus. Para estes, a prática da oração é, portanto, a sua primeira tarefa para receber a Cristo e refletir explicitamente sobre os Seus méritos enquanto conscientemente se arrependem. Então, eles apresentam ao Pai os méritos de Cristo e oram para que sua súplica pelo cumprimento de seus desejos seja ouvida com base nesses méritos. Alguns vivem a vida mais de perto e habitualmente estão focados no pacto da graça, bem como na satisfação e nos méritos de Cristo. Esses, ao se engajarem na oração, nem sempre necessitam de uma transação expressa com Cristo e uma reflexão específica sobre Seus méritos para o propósito de mostrá-los ao Pai, para dizer que vêm e oram em nome de Cristo e que suplicam o cumprimento dos seus desejos por amor dos méritos de Cristo. Em vez disso, eles se aproximam e permanecem na disposição de


serem participantes do Pacto, filhos, e participantes de Cristo. Eles oram por meio do Pacto e da expiação de Cristo, mesmo que não os mencionem explicitamente. No entanto, devemos tomar cuidado para não ficarmos sem uma clara transação e com um retorno a Cristo rápido e frequentemente, para não perdermos Cristo de vista e nos aproximarmos de Deus de uma forma mais direta, lidar com Deus de um modo menos humilde e de maneira inapropriada.


O ORIGINADOR DA VERDADEIRA ORAÇÃO

Uma verdadeira oração procede do Espírito Santo. O homem, por natureza, está espiritualmente morto, e não tem uma boa disposição de coração nem bons desejos. Ele é cego e ignorante acerca do que realmente pode satisfazê-lo. Não obstante, ele percebe as deficiências do corpo e teme o mal. Ele também se refugia em Deus quando é privado do socorro da criatura; entretanto, nem a disposição do seu coração, nem sua oração é agradável a Deus. Para que alguém ore corretamente, o Espírito Santo deve conceder a disposição, os desejos e as expressões: “E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o espírito da graça e de súplicas” (Zacarias 12.10); “E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gálatas 4.6); “... o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8.26). Isto significa que Ele concede a disposição e os desejos, coloca as palavras na boca, vai adiante delas, e causa a oração. Na proporção do fato de que o Espírito se move de uma forma moderada ou forte, a oração também é mais fraca ou mais zelosa. Às vezes, o suplicante é fervoroso no início de sua oração, mas, então, gradualmente vem mais escuridão e ele se torna cada vez mais maçante. Às vezes ele está na escuridão e apático no início, mas enquanto luta, ele se torna mais vivo. Às vezes ele está completamente fechado dentro de si, e o Espírito não pode produzir uma oração, suspiro, ou lágrimas, e nessa condição, Ele deve se levantar e partir. Algumas vezes ele está tão cheio que não sabe de onde todos estes desejos, palavras, e lágrimas tiveram origem, de modo que ele está mais carente de tempo do que de desejos. Pergunta: Se não podemos orar corretamente sem o Espírito Santo, então, por que somos ordenados a orar pelo Espírito? Resposta: O homem tem um intelecto natural, ele percebe sua deficiência, e a natureza lhe ensina que devemos orar. Sob a administração dos meios de graça ele aprende que o Espírito Santo é o autor da oração, e ele aprende da Palavra de Deus que deve orar a Deus pelo Espírito Santo. Por meio destas convicções e movimentos o Espírito Santo opera no eleito a inclinação para orar e mostra-lhe que ele não tem a disposição correta para a oração, os desejos corretos, nem os expressa adequadamente. O Espírito Santo irá mostrar que deve operar tudo isto nele e que, portanto, ele deve orar pelo Espírito. Dessa forma, ele trabalhou secretamente em oração pelo Espírito, e está, portanto, sempre orando ao Espírito pelo Espírito. Aqueles que, no presente, percebem em si mesmos o início da operação do Espírito orarão para que isso seja aumentado pelo próprio Espírito. O homem, mediante o Espírito Santo ter forjado e estimulado uma disposição de oração na alma, começa a expressar seus desejos de um coração regenerado. O homem regenerado é, portanto, a causa formal de seus atos. Se mesmo um homem natural tem uma inclinação para orar, o homem regenerado tem uma inclinação muito maior devido à disposição do seu coração regenerado. Uma vez que nem todos os regenerados sabem que este é o caso deles, mas visto que todos percebem que têm um coração pecaminoso, e uma vez que todos os tipos de pensamentos pecaminosos, palavras e atos procedem desta disposição pecaminosa, eles se preocupam por não saberem como lhes é permitido orar – sim, algumas vezes eles não se atrevem a orar, pois sentem que estariam zombando de Deus. Como eles se engajam na oração, é sempre sua intenção não pecar, mas eles sempre caem novamente no mesmo pecado. As seguintes passagens vêm às suas mentes: “O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR” (Provérbios 15.8); “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável” (Provérbios 28.9); “Sabemos que Deus não atende a pecadores” (João 9.31). Para sua instrução você deveria saber:


(1) É dever de todos os ímpios se arrependerem e orarem. A abominação não reside no fato de orarem, mas sim que, enquanto oram por assuntos temporais, eles não se arrependem, mas voluntária e conscientemente continuam pecando; nem suplicam a Deus para serem reconciliados com Ele, nem por uma mudança em seus corações e atitudes. Fazem isso rotineiramente, estando acostumados desde a sua juventude a oferecerem uma oração pela manhã e à noite, o que, se negligenciarem os levará a ficarem perturbados. Ou fazem isso de maneira hipócrita, estando desejosos, apesar de seu estilo de vida mundano, a serem estimados como bons cristãos. (2) A oração daqueles cujo coração é reto diante do Senhor, que buscam a reconciliação e o perdão dos seus pecados, que desejam ser libertos do pecado e viver no amor e temor de Deus segundo a Sua vontade, e oram por isto enquanto se esforçam para se concentrarem no Senhor Jesus, não será uma abominação, mas será agradável a Deus. O Senhor procura por tais suplicantes, e os trata com carinho como canas quebradas e pavios que fumegam. Portanto, que isto te dê liberdade. Suas repetidas quedas no pecado são contrárias à sua intenção, você chora, e isso não procede de uma má intenção. Pelo contrário, suas quedas são o resultado da fraqueza, a carne se tornando mais forte do que o espírito.


ORAÇÃO SOB CONSCIÊNCIA DE UM PECADO COMETIDO

Aqueles que, presentemente, sabem que foram trasladados da morte para a vida espiritual, ou que percebem as evidências dentro de si mesmos por meio das quais podem concluir isso (mesmo que a segurança disso não seja tão forte), ocasionalmente entram em uma condição mais pecaminosa do que a tendência comum da vida. Também podem ser levados cativos pelo pecado a tal ponto que, no momento, não podem tomar uma resolução completa, alegre e corajosa de se levantarem desse pecado e de se esforçarem seriamente contra ele. Ou pode ser que quando a tendência de sua vida é boa, ocasionalmente caiam em um pecado específico. Se, sob tais condições, eles imediatamente se engajassem na oração – isto é, sem primeiro examinar a si mesmos, tomando uma resolução para se arrependerem, de maneira que seus corações os convencessem de que estão corretos em sua intenção – isso seria um empreendimento irreverente e desagradável a Deus. Tais pessoas não teriam liberdade na oração, nem orariam com santa atenção, pois seus corações as condenariam enquanto estivessem engajadas na oração. Aqueles que estão em tal condição devem primeiro se recuperar, de modo que possam ter uma intenção reta para batalhar contra o pecado, e de se colocarem em oração para implorarem a Deus pela reconciliação e força contra esse pecado. Então, eles estarão em liberdade, porque seus corações nãos os condenarão (1 João 3.20,21). Ocasionalmente, se algo acontece que uma pessoa regenerada está inteiramente vazia de desejos – não em essência, mas no exercício. Quando tal pessoa se engaja na oração, ela não sabe o que orar, pois não tem vontade para nada. Ela tem perdido de vista o desejo por tais assuntos devido à escuridão espiritual, ou se encontrada desencorajada por não ter recebido o seu desejo após ter orado. Isto fechará o seu coração. O que ela deve fazer? Orar? Ela não pode. Ela deve negligenciar a oração? – tal pessoa negligencia tudo com frequência, e, devido a esta negligência, afasta-se completamente da oração. Ela não pode fazer isso, pois sua natureza regenerada não permitirá e continuamente a inclinará para orar. Tal pessoa não deve resistir a tais fracas inclinações, o que é fácil fazer; pelo contrário, ela deve ser como uma pequenina criança. Ou, como alguém que revive de um desmaio, e se move fracamente, falando baixinho, ela deve seguir suas fracas inclinações, apresentá-las perante o Senhor, perseverar em oração, e familiarizar-se com o Senhor – ou, então, ela apostatará ainda mais. Entretanto, ao fazê-lo ela experimentará que Ele “atendeu à oração do desamparado e não lhe desdenhou as preces” (Salmo 102.17).


O PROPÓSITO DA ORAÇÃO

O propósito para o qual alguém apresenta seus santos desejos é o cumprimento desses desejos, implorando que eles sejam concedidos. O suplicante faz um pedido. Quando alguém faz uma súplica a outro, ele sustentará tal súplica com argumentos; como também é o caso aqui. O suplicante não diz meramente: “Senhor, salve-me, e crie um novo coração dentro de mim; dize à minha alma ‘Eu sou tua salvação’; ensine-me e guie-me”, mas o suplicante ampliará seu pedido por meio de argumentação. Isto deve ser observado em Cristo, Davi, e outros santos, pois isso torna o suplicante: (1) Mais humilde, pois como ele persevera, contemplará a Deus e a si mesmo mais claramente. Ele pensará: “Como me atrevo a falar tão ousadamente – Eu, que sou tão pecaminoso, tão abominável, e tão indigno!” Ele esmorece, por assim dizer, e reconhece que nada é mais incompreensível do que a graça de ele poder falar com Deus e de Deus ouvi-lo. (2) Mais ativo e sua oração mais fervorosa, pois ele percebe a necessidade e o quão desejosos são todos os assuntos, todos os melhores. Seus desejos são despertados, e seu coração é alargado e começa a fluir como um rio. (3) Mais santo em sua oração, pois seu objetivo será o mais genuíno, ele está mais consciente deste objetivo genuíno. Quanto mais genuíno o seu objetivo se torna em desejar um assunto, mais liberdade ele terá em desejá-lo. (4) Mais apto a perseverar em oração, visto que ele, então, vê a questão por todos os ângulos. O desejo, então, gerará outro desejo e estes desejos, por sua vez, originarão outros. Tal perseverança faz com que ele habite mais na presença de Deus; a alma entra e permanece em uma disposição mais santa, e sempre recebe uma bênção. A apresentação de tais argumentos não deve ocorrer de maneira artificial, mas a questão surge espontaneamente do coração que ora e também o Senhor faz com que o assunto chegue ao nosso conhecimento. Teremos, então, procurado ardentemente a glorificação de Deus, cuja glória, bondade, e poder se manifestam em Ele ouvir a oração e conceder o que foi suplicado. Nesse tempo, devemos usar argumentos de tal forma que, se o Senhor nos conceder o nosso desejo, nossas habilidades serão tais que a congregação será edificada e serão para o benefício de outros. Então, novamente nos concentraremos nas promessas de Deus, sendo exercitados com elas até crermos na imutável verdade de Deus de uma maneira mais vívida e podermos ter mais certeza de que este assunto também será a nossa porção – Deus tem prometido ouvir a oração. Em outra ocasião o piedoso apresentará a si mesmo ao Senhor como sendo Seu filho, sabendo que Deus, que se agrada quando seus filhos têm fome e sede dEle, consequentemente, lhes dará algo e irá alegrá-los – da mesma forma que um pai segundo a carne é compassivo para com seus filhos famintos e desejosos, e se alegra em lhes atender os seus desejos e torná-los felizes. Então, novamente, eles apresentarão com urgência os méritos do Senhor Jesus. Eles lembrarão ao Senhor de sua misericórdia previamente manifestada a eles – como Jacó fez em Gênesis 32.9-12, e a igreja, no Salmo 85.1-5. Enquanto estiverem assim ocupados, a fé será despertada, o amor se tornará ativo, eles se engajarão em atitudes mais íntimas, e, com silente resignação, submeter-se-ão à vontade de Deus.


AS CARACTERÍSTICAS DA VERDADEIRA ORAÇÃO

As características da oração são as seguintes: ela é feita com humildade, em espírito e em verdade, com sinceridade, fervor, incessantemente, e pela fé. Em primeiro lugar, há a humildade. Esta é a sensível e humilde disposição do suplicante, decorrente de uma visão da majestade de Deus e da sua própria pecaminosidade, indignidade e impotência para suplicar por sua deficiência ou tê-la suprida por Deus. Em tudo deve o homem ser humilde diante de Deus: “... o que o SENHOR pede de ti... e Andes humildemente com o teu Deus” (Miquéias 6.8). Particularmente, este deve ser o caso daquele que se engaja na oração, para: (1) A criatura, então, se aproxima do seu Criador, humildemente daquele que é majestoso e exaltado, o pecador do Único Santo, o desprezado do Único Glorioso, e o merecedor da condenação do Juiz do céu e da terra, que tem o poder sobre a vida e a morte. Quando Moisés se aproximou da sarça ardente, a voz de Deus ressoou: “Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é terra santa” (Êxodo 3.5). Aqui, alguém pode pensar em verdade: “Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei ante o Deus excelso?” (Miquéias 6.6). Abraão disse: “Eis que me atrevo a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gênesis 18.27). “O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador” (Lucas 18.13). (2) Humildade na oração é muito agradável a Deus: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Salmo 51.17); “... por ti o órfão alcançará misericórdia” (Oséias 14.3). (3) Deus ouve e responde suplicantes humildes: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57.15). (4) Um piedoso suplicante encontra um deleite especial – sim, ele a reconhece como uma grande graça e como uma resposta à sua oração – se, com tal disposição humilde e reverente, ele pode ter uma visão da majestade e glória do Senhor, mesmo se ele não recebeu mais nada à sua oração. Entretanto, ele recebe a segurança imediata de que Deus o ouviu e proporcionará, segundo a Sua vontade, pois Ele “aos humildes concede a sua graça” (1 Pedro 5.5). Em segundo lugar, a oração é feita em espírito e em verdade. Recitar verbalmente o que foi memorizado (mesmo que preste atenção a cada palavra e mesmo que o nosso objetivo geral seja orar a Deus) mas não entender os assuntos, e se ao entendê-los não os desejamos, isso é zombar de Deus. é tolice se nós desejamos um assunto, e para esse fim recitamos a oração do Senhor, uma manhã ou uma oração vespertina, a fim de consegui-lo. Orar em espírito e em verdade: (1) Consiste de uma oração com entendimento; isto é, estar familiarizado com o Senhor a quem se está orando; com o Cristo através do qual alguém se aproxima de Deus; com nós mesmos em nossa perplexidade e indignidade; com o assunto que nós desejamos; e com o objetivo em pedir o assunto. Não apenas é necessário estar familiarizado habitualmente com isto (estando, assim, capazes de estar conscientes se dermos ouvidos a isto), mas é preciso haver um conhecimento real de tudo isto. Assim, enquanto oramos presentemente, perceberemos e observaremos o que está sendo expresso, e por tal


percepção seremos movidos e nos tornaremos ativos: “Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente” (1 Coríntios 14.15). (2) É um exercício da vontade, de maneira que nós desejamos os assuntos em verdade. Nossa consciência deve testificar diante de Deus que nós os desejamos, que isso é o nosso objetivo – não apenas quando considerando o assunto em si, mas também juntamente com as suas circunstâncias presentes, renunciando voluntariamente a tudo aquilo que está em oposição ao assunto desejado. Uma pessoa não-convertida quando ouve o desejo de santidade apresentado como tal talvez dirá: “Sim, eu quero isso, e eu tenho um desejo por santidade”. Se, entretanto, ela vê o pecado como uma prática honesta, se o estima, deleita-se nele, e o considera proveitoso é observado sob essa luz, e percebe que deve renunciá-lo por completo, ela não deseja santidade, mas, sim, o pecado em seu lugar. Alexandre desejava ser Diógenes, se não fosse Alexandre. O jovem rico tinha um desejo por salvação e por guardar os mandamentos de Deus; entretanto, quando ele precisou partilhar os seus bens, afastou-se triste (Mateus 19.21,22). (3) É também acompanhada por reflexão e atenção. Devemos estar atentos para o fato de que a paixão não é executada antes do entendimento e da vontade; pelo contrário, o engajamento do entendimento e da vontade deve preceder, estimular e governar nosso zelo. Se as coisas acontecem dessa forma, o coração permanecerá em uma disposição própria: “Guarda o pé, quando entrares na Casa de Deus [...] Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras” (Eclesiastes 5.1,2). Espírito e verdade são absolutamente essenciais na oração, pois: [1] “Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24); [2] Deus requer o coração: “Dá-me, filho meu, o teu coração” (Provérbios 23.26); [3] Deus conhece o coração, bem como a mente do Espírito: “... porque tu, só tu, és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens” (1 Reis 8.39); [4] Deus deseja a verdade no íntimo (Salmo 58.8); [5] “Ah! SENHOR, não é para a fidelidade que atentam os teus olhos?” (Jeremias 5.3), “porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (João 4.23); [6] Deus odeia e pune aqueles que se aproximam dEle fisicamente e não com o coração: “Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim, obra maravilhosa e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá” (Isaías 29.13,14). Terceiro, deve existir sinceridade e fervor. Isto não consiste em chamar em voz alta, nem com uma longa expressão de palavras em uma sequência fluente, nem em uma junção de argumentos intelectuais de uma maneira apaixonada e chorosa. Tudo isto um homem natural é capaz de fazer. Pelo contrário, fervor é um movimento intenso do coração, que é gerado por um forte desejo, expresso em uma maneira compreensiva e pensativa. Fervor é o envolvimento de toda a energia da alma e do corpo. Ele penetra através de toda a oposição e vence o vaguear dos pensamentos, a letargia da carne, e o surgimento de pensamentos incrédulos (tais como, “Isto é vão; Deus não vai te ouvir; você não receberá o que deseja”, etc.), e os enganos sutis e insinuações de Satanás, etc. O crente não pode desistir tão facilmente, pois seus desejos são também fortes; ele persevera. “Não te deixarei ir se me não abençoares” (Gênesis 32.26). Como a mulher cananeia, o crente persegue o Senhor com oração e súplica (Mateus 15.22). Não obstante, fervor


não leva embora a reverência a Deus, nem a disposição calma e serena da alma. Quietude e fervor andam de mãos dadas aqui. Aqueles que, por assim dizer, não podem fazer chegar a si mesmos à oração, mas, em vez disso, a evitam e olham por cima dela, deveriam se envergonhar. Quando, sem culpa sua, um impedimento se apresenta em seu tempo devocional, eles não estão tristes, mas, secretamente, estão satisfeitos por estarem isentos do dever da oração. É possível que alguém ore mais para satisfazer sua consciência (por ter orado) do que para atingir a satisfação dos seus desejos. Ele permite a si mesmo ser facilmente prejudicado por um pensamento incrédulo, no sentido de que, não será ouvido. Não possui desejos ardentes direcionados a um assunto e, portanto, movem-se de um assunto para outro por meramente enumerá-los – assunto, palavras, e desejos estando ausentes. Isto é um assunto abominável. Se você não tem desejos, então, desapareça. Se você não vir com suas próprias necessidades, você não precisa vir simplesmente por causa da vontade de Deus. Ele não deseja tal serviço morno, apático e preguiçoso. Os sacrifícios e incenso tinham de ser acesos com fogo, e nossas orações também devem ser inflamadas com fervor. As razões para isso são as seguintes: (1) Suplicantes fervorosos são agradáveis aos olhos de Deus: “Meus suplicantes... trarão a minha oferta” (Sofonias 3.10); (2) Uma oração sincera é muito proveitosa diante de Deus: “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tiago 5.16); (3) O crente deve ser fervoroso em tudo aquilo que faz: “... sede fervorosos de espírito” (Romanos 12.11); “Sê, pois, zeloso” (Apocalipse 3.19); (4) Os exemplos dos santos, cujos passos devemos seguir, estimulam-nos a sermos fervorosos na oração. Toda a sua vida consistia de oração. Davi levantava-se à meia-noite. Ele clamou, e chorou; e não cessou. Devemos fazer o mesmo, para que o Senhor possa perceber que nosso objetivo é conhecê-Lo e reconhecêLo como o Doador – como o Único que dá livremente – e que é a graça somente que pode nos ajudar. Quarto, deve existir uma incessante perseverança na oração. “Orai sem cessar” (1 Tessalonicenses 5.17). (1) Perseverança consiste em fazer da oração uma atividade diária, disciplinando-nos a não negligenciarmos a oração e a não a tornarmos uma prática não-familiar. Um cristão é um suplicante. Oração é a verdadeira essência da religião (Gênesis 4.26). (2) Perseverança consiste em sempre estar em uma disposição para a oração. Mesmo se alguém não estiver sempre expressamente engajado na oração, o coração deve, não obstante, estar sempre perto de Deus, estar concentrado nEle, e andar com Ele. Tal disposição trará, de tempos em tempos, oração jaculatórias – seja quando estivermos em solidão, viajando, empenhados em nosso trabalho, ou na presença de pessoas. Neemias orou a Deus enquanto estava falando com o rei (Neemias 2.3-4). (3) Existem assuntos que Deus não concederá de uma vez, mas gradualmente, passo a passo – tais como crescimento na fé, esperança, e amor, vida espiritual, força contra o pecado, e santificação. Portanto, devemos persistir em oração por estes assuntos durante toda a nossa vida. (4) Existem circunstâncias específicas em que temos necessidade especial do socorro do Senhor e da orientação do Espírito. Isto acontece quando temos de sair ou entrar em nosso lar, para realizar uma tarefa especial, entrar na companhia de pessoas, retribuir a alguém uma visita especial, enfrentar situações em que armadilhas foram preparadas para nós, quando devemos fazer uma escolha entre coisas diferentes,


quando devemos contratar um empregado, comprar ou vender, ou nos deparamos com circunstâncias imprevistas. Em cada situação devemos buscar refúgio na oração. (5) Existem assuntos que são extraordinariamente opressivos e ameaçadores, ou que desejamos de uma maneira extraordinária – seu gozo sendo iminente. Pode ser verdade tanto em um sentido temporal quanto espiritual, que nós estamos sujeitos à tentação incomum. Pode ser um pecado extremamente forte, pode ser um forte desejo por algo mais do que uma revelação comum de Deus à alma; podemos estar excepcionalmente desejosos de obtermos segurança de nossa participação em Cristo e na salvação, ou por uma antecipação do céu, etc. Em tais circunstâncias, o suplicante perseverará 1) por expressar a mesma oração, não sendo capaz de desistir até ter recebido algo; 2) por repetição da oração pelo mesmo assunto em tempos diferentes, quer na hora devocional regular, quer ocasionalmente fora desse horário, se houver oportunidade de ficar sozinho e se o desejo se torna fervoroso. Desta maneira, podemos perseverar, olhando para o Senhor (Salmo 34.5) até que o assunto esteja resolvido; isto é, até que o Senhor nos conceda o assunto (ou alguma medida dele) ou torne a alma tão contente com Sua vontade que os desejos não se tornem veementes. Em vez disso, estaremos tranquilos e satisfeitos, estando assegurados de que o Senhor nos fará bem. (6) Algumas vezes haverá um forte desejo pelo bem-estar de outras pessoas – seja a igreja em geral, ou alguém que tem uma necessidade específica ou extraordinária, ou pela eleição de um ministro, presbíteros, ou diáconos. Ou, então, alguém pode ter um forte desejo pelo bem-estar de uma família ou uma pessoa em particular, quer em relação ao corpo ou alma, sejam eles convertidos ou não-convertidos. Marido, esposa, filhos, ou pais podem pesar no coração. Podemos ter um forte desejo por sua conversão e, então, engajamo-nos na oração, não sendo capazes de desistir. Esta oração gerará muitas súplicas, e a repetiremos com frequência outras vezes, até que o Senhor nos conceda o assunto ou nos dê uma confiança tranquila de que a nossa oração por eles foi ouvida, e que o Senhor a atenderá, mesmo se nunca virmos isso. Pode ser também que, o Senhor comece a Se ocultar, e já não nos atrevemos a pressionar o assunto tão fortemente, ou o Senhor pode excluir estas pessoas de nossas orações, não querendo ser abordado por seus filhos em vão. Quando é nosso dever fazer isso, entretanto, não devemos negligenciá-lo devido à frouxidão ou desânimo, mas devemos perseverar até que o Senhor docemente nos refresque, mostrando que nossa sincera oração tem sido agradável a Ele. Teremos, assim, entregado o assunto nas mãos de Deus, nossa oração retornará ao nosso peito (Salmo 35.13), e nossa paz retornará (Mateus 10.13).


EXORTAÇÃO A PERSEVERAR EM ORAÇÃO

A fim de que sejamos incitados a perseverar, consideremos as seguintes questões: (1) Perseverança na oração é recomendada em todos os lugares e ordenada como sendo o nosso dever particular: “sede... na oração, perseverantes” (Romanos 12.12); “com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança” (Efésios 6.18); “Perseverai na oração” (Colossenses 4.2); “Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer” (Lucas 18.1). (2) Perseverança traz a alma a uma boa disposição. Primeiro, ela nos ensina a reconhecer melhor Deus como o livre Doador, que não tem nenhuma obrigação para conosco; que pode dar ou não; e se Ele dá, é somente devido à Sua bondade. Em segundo lugar, ela fará com que o suplicante seja mais humilde, visto que ele percebe que é indigno de todas as graças e bênçãos: “O pobre fala com súplicas” (Provérbios 18.23). Estimaremos uma bênção muito mais se a tivermos recebido sob muitas orações, e teremos mais alegria se percebermos em tudo isso que, Deus respondeu às nossas orações. (3) A perseverança nos levará a receber. Sob longa luta, Jacó foi abençoado (Gênesis 32). Depois de uma longa busca, a mulher cananeia recebeu aquilo que desejava (Mateus 15). Após a frequente repetição de sua oração, Elias recebeu chuva (1 Reis 18). Após a contínua oração da congregação, Pedro, de maneira maravilhosa, foi libertado da prisão (Atos 12). Mediante perseverança unânime em oração e súplica, o Espírito Santo foi derramado no dia de Pentecostes (Atos 1 e 2). Visto que muitos oram, mas apenas uma vez por um assunto, e não perseveram, eles também não o recebem. Portanto, se abstenha de tudo aquilo que dificulte você de perseverar, como por exemplo: letargia, preguiça, descrença de que o assunto não será concedido, divergência entre os nossos desejos (estando parcialmente focado nas coisas espirituais e parcialmente nas terrenas), a instabilidade dos nossos desejos. Tais questões, e outras semelhantes, fazem com que o suplicante facilmente desista de orar e o impedem de orar com frequência. Desse modo, ele seguirá sem receber o cumprimento dos seus desejos. Portanto, restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos.


EXORTAÇÃO A PERSEVERAR EM ORAÇÃO

A quinta característica da oração é que ela é oferecida em fé. Oração requer fé em um sentido especial: “e tudo quanto pedires em oração, crendo, recebereis” (Mateus 21.22); “Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Marcos 11.24); “Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando” (Tiago 1.6). Em primeiro lugar, isso exige que o suplicante seja um crente – alguém verdadeiramente convertido (Tiago 5.16). “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” (Lucas 18.7). Assim como Deus ouve os jovens corvos quando O chamam, assim também Ele ouve uma pessoa não-convertida, e doará algumas bênçãos a ela. Estas são meramente de natureza temporal, no entanto, provenientes da bondade comum de Deus e à parte de Suas promessas. Não obstante, Seus filhos são os herdeiros da promessa e oram através do Espírito de oração. Portanto, “os olhos do SENHOR repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos ao seu clamor” (Salmo 34.15); “Ele acode à vontade dos que o temem; atende-lhes o clamor e os salva” (Salmo 145.19). Segundo, isso exige que o suplicante se aproprie de todas as promessas da Palavra de Deus como tendo sido feitas a ele, e que então considere a si mesmo como um herdeiro da promessa (Hebreus 6.17). Ele ainda deve considerar que não são apenas promessas que têm o sim e o amém em Cristo (2 Coríntios 1.20), mas que, para ele, também são fiéis e verdadeiras – particularmente aquelas que pertencem à audição das orações. Terceiro, é necessário que o suplicante considere, crendo, que: (1) Deus ordenou a oração como um meio de graça para conceder ao homem tudo aquilo que necessita. (2) Deus não só é onisciente e conhece os corações de todos os homens, mas também, durante a oração, olha para o suplicante, toma nota das expressões dos seus desejos, e os ouve (Salmos 34; 145). (3) Deus é onipotente e é capaz de conceder o seu desejo, independentemente de isso ser provável, os meios estarem disponíveis, ou de tudo parecer oposto: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” (Efésios 3.20); “Porque para Deus não haverá impossíveis” (Lucas 1.37). (4) Deus é bom e, portanto, desejoso de dar ao suplicante o cumprimento do seu desejo. Ele está pronto a perdoar (Salmo 86.5), ama livremente (Oséias 14.4), espera, para poder ser gracioso (Isaías 30.18), e se alegra por fazer o bem ao Seu povo (Jeremias 32.41). Na oração, a fé deve reconhecer Deus como tal. (5) Deus é fiel em cumprir todas as Suas promessas feitas aos suplicantes: “Abre bem a boca, e ta encherei” (Salmo 81.10). Quarto, o suplicante deve, com impressão e elevando seu coração crer que: (1) Todo aquele que vem a Deus por intermédio de Cristo, agrada a Deus em Cristo (Daniel 9.23; Atos 10.30,33). (2) O Senhor se satisfaz com saudade, lágrimas, gemidos e o choro de Seus filhos dirigidos a Ele: “mostrame o rosto, faze-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e o teu rosto, amável” (Cântico dos Cânticos 2.14).


(3) Deus vê o seu rosto em Cristo, ouve sua oração, e responde de acordo com Sua vontade: “E será que, antes que clamem, eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Isaías 65.24). Nesses assuntos mencionados o suplicante deve estar certo e seguro, pois eles estão de acordo com a verdade. Quanto mais sustentá-los diante de si com crescente estima, quanto mais orar com fé, mais agradável a sua oração será, mais certo ele estará de que vai obter o assunto pelo qual orou. Entretanto, muitos filhos de Deus são deficientes aqui. Eles não perseguem ativamente esses assuntos mencionados e essas disposições, e aleatoriamente expressam seus desejos. Muitos também são fracos na fé – particularmente para crer que Deus os ouvirá e concederá o seu desejo. “Pois”, eles pensam, “como eu posso crer, visto que sou tão pecaminoso, e, além disso, tenho experimentado com muita frequência que não tenho recebido nada em resposta à minha oração”. Para sua instrução, deve ser observado: (1) Que Deus não ouve a despeito da nossa justiça, mas por causa da justiça de Cristo. Portanto, para aquele que está em Cristo – a medida da graça da luz e vida é irrelevante na medida em que a oração é respondida – é o descuido da sua oração e sua falha em exercitar a fé em oração que impede sua oração de ser respondida. (2) Você não pode dizer verdadeiramente que Deus nunca respondeu sua oração nem que Ele nunca concedeu o desejo pelo qual você orou. É certo que Deus, frequentemente, tem se agradado das suas lágrimas e gemidos, e tem abençoado a sua oração. Não obstante, você nem mesmo percebe essas bênçãos nem as menciona em sua oração. (3) Há casos específicos nos quais esses assuntos foram respondidos, tendo sido trazidos diante de Deus. Contudo, Deus não tem tempo prometido, maneira ou medida. Não sabemos o que é melhor, e se Deus atendesse muitos pedidos nos termos em que os fizemos, posteriormente veríamos que teria sido melhor se não os tivéssemos recebido. O suplicante deve realmente crer que sua oração foi agradável a Deus e que Ele a atendeu. Ele deve se submeter, com contentamento à vontade de Deus, e fazer isso sem murmuração, irritabilidade, incredulidade e sem desviar o pensamento: “Deus não me ama e não me ouve de jeito nenhum”. Isso desagrada a Deus e não é benéfico para o suplicante. (4) Há coisas que, em absoluto, não podemos desejá-las, e, assim, também não podemos orar para recebêlas. Então, o suplicante também não tem liberdade na oração e não deve parecer estranho que ele não as receba. É uma grande tolice desejar que Deus nos dê aquele assunto particular pelo qual não nos atrevemos a orar. Portanto, governe seus desejos de acordo com a vontade de Deus e não seja tão apaixonado em seus desejos por assuntos temporais. Deixe a sabedoria, bondade e vontade de Deus ser o seu prazer. Você será capaz, então, de orar com fé e, de forma submissa, esperar que seja respondido: “é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hebreus 11.6).


Wilhelmus a Brakel - O cristão e a oração