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Revista do Inventário da Língua Guarani Mbya (ILG)


Revista do Inventário da Língua Guarani Mbya


EDITORIAL Esta publicação se constitui como um

seus direitos e de sua importância para a

esforço de fazer valer algumas das colo-

formação da história do país. Isso ajudou

cações do seminário que discutiu o I In-

sobremaneira no curso de todo o proces-

ventário da Língua Guarani Mbya. O levan-

so científico. Os artigos que se seguem são

tamento realizado pelo IPOL - Instituto de

apontamentos que querem trazer para

Investigação e Desenvolvimento em Polí-

um público mais amplo a dimensão da

tica Linguistica – baseou-se em trabalho

pesquisa empreendida pelo IPOL, e, além

conjunto com os próprios Guarani para in-

disso, o posicionamento dos próprios

ventariar sua língua. Nesse sentido, com a

Mbya diante desse novo quadro das políti-

publicação dos principais resultados des-

cas linguísticas. Embora essa medida seja

te Inventário, o IPOL realizou em Floria-

apenas um pequeno passo frente à imen-

nópolis, Santa Catarina, um encontro nos

sa diversidade brasileira, representa um

dias 26 e 27 de Julho com várias lideranças

novo olhar para as questões referentes à

Mbya. As discussões – fundamentais para

língua, fundamentais para a organização

apresentar os resultados da pesquisa –

de um novo arranjo geo-político no Brasil.

foram fortemente debatidas por todos ali

Mesmo que alguns pequenos textos do

presentes, culminando num documento

próprio inventário estejam disponíveis na

final com os principais encaminhamentos

íntegra nesta publicação, a maior parte

às principais instituições públicas. Esta re-

pode ser acessada através da própria pu-

vista se propõe a divulgar alguns pontos

blicação. Ao longo desta revista, poderá

da política pública que possibilitou o estu-

ser visto o documento final produzido a

do em questão, e mais do que isso, pro-

partir dos encaminhamentos dos Guara-

põe-se também a descrever a posição das

ni bem como a entrevista com Rosânge-

próprias lideranças com relação à língua.

la Morelo, Coordenadora Geral do IPOL.

Os Guarani, como pode se perceber, são

As fotografias que integram a publica-

um grupo bastante coeso, consciente dos

ção foram produzidas durante o evento.


trecho extraido do Inventário da Lingua Guarani Mbya

APRESENTAÇÃO Gilvan Müller de Oliveira *

Os Guarani têm discutido sua vida com os brancos e no Estado brasileiro de várias formas; têm atuado para uma política da terra, da saúde, da educação, mostrando seus valores, e buscado os vários níveis de reconhecimento necessários para se viver bem e com dignidade. Agora, surge a oportunidade para a discussão de um dos mais altos valores da cultura Guarani: a língua.

Esta é a função primeira do Inventário da Língua Guarani Mbyá (ILG) e da publicação que o apresenta: possibilitar que os Guarani discutam a sua língua e os mecanismos para o seu reconhecimento, por parte do Estado, que lhes possam interessar. O Estado tem agora elementos para considerá-la como Patrimônio Cultural Imaterial da Nação. Não apenas da nação Guarani, mas da própria nação brasileira, constituída ela mesma de várias outras nações que se relacionam, complementam-se, interpenetram-se e se enriquecem mutuamente.

Talvez possamos dizer que o momento fundador do Inventário Nacional da Diversidade Linguística, em que este livro sobre a Língua Guarani Mbyá se inscreve, tenha sido o Seminário Legislativo sobre a Criação do Livro de Registro das Línguas, realizado na Câmara de Deputados, em Brasília, em 13 de dezembro de 2007, pela Comissão de Educação e Cultura (CEC), pelo Departamento de Patrimônio Imaterial


do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e pelo Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguítica (IPOL), e que nasceu das conversações que esta última Instituição conduziu com o então presidente da CEC, Dep. Carlos Abicalil. Ali os deputados e alguns senadores ouviram, em seis línguas brasileiras, a explicação de como é ser brasileiro, em outra língua que não o Português: em Guarani Mbyá, em Nheengatu, em Hunsrückisch, em Talian, em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e em Gira da Tabatinga.

Todos nós nos sensibilizamos com as demandas das comunidades linguísticas brasileiras para com o uso e a manutenção das suas línguas, constitutivas da nossaformação nacional, a despeito das políticas de repressão e de apagamento que tenham sido conduzidas pelo Estado, e o Dep. Abicalil deu encaminhamento ao processo que culminou com o ILG.

Com a publicação deste livro, presenciamos a outra ponta do processo. Donascimento da ideia até sua materialização no primeiro insumo de planificação – o diagnóstico, expresso neste livro – passaram-se cinco anos. O IPOL teve o privilégio de estar presente em todos os passos da gestação desta nova política linguística do Estado brasileiro, participando das negociações, em todos os níveis, necessárias para que o Inventário se tornasse realidade, e das definições técnicas que instruem os procedimentos de registro. Esta publicação fecha uma fase, a da aplicação, testagem e desenvolvimento da metodologia para cada uma das diferentes


categorias de línguas em questão, e inaugura outra: a da visibilização das línguas brasileiras por meio de iniciativas variadas de inventário que estarão em marcha, processo que ajudará no seu reconhecimento e na sua legitimação, conduzindo a um encontro do País consigo mesmo, com suas múltiplas faces, e à superação da política do Português como língua

O livro é um observatório de vários movimentos da Língua Guarani Mbyá e da sua comunidade falante no espaço brasileiro, conforme explicados na Introdução, e os resultados permitem a interação com uma série de outras políticas na área de cultura e, especialmente, de educação, possibilitando verificar em que medida as escolas indígenas bilíngues e interculturais realizam seu papel de promotores da cultura indígena e da respectiva língua em meio aos movimentos realizados pela comunidade, e como poderiam atuar para atender as expectativas da comunidade. A língua, no entanto, é dos Guarani e continuará a ser dos Guarani que, através do seu uso, das suas lideranças, das suas assembleias, fixarão o futuro da língua no contexto do plurilinguismo brasileiro. O IPOL se orgulha de trazer a público este trabalho, de metodologia inovadora e participativa, e se orgulha mais ainda de ser parceiro do povo Guarani nesta caminhada em direção ao futuro.

* Atual Diretor executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) com sede em Cabo Verde, África


Capa e contracapa do Inventário da Língua Guarani Mbya realizado pelo Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL)


O INVENTÁRIO DA LINGUA GUARANI MBYA

O projeto inventariou a partir da metodologia proposta para o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), a língua indígena Guarani Mbya, falada em seis estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. É coordenado pelo IPOL – Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística e tem o apoio do Ministério da Justiça, através do Conselho Federal Gestor do Fundo de Direitos Difusos – CFDD

JUSTIFICATIVA DO INVENTÁRIO

A língua Guarani Mbya possui grande expressão e representatividade no Brasil, estando presente em mais de 60 (sessenta) municípios em vários estados. Estima-se que, atualmente, haja cerca de 50.000 (cinquenta mil) indígenas Guarani, divididos em diferentes grupos e falando diferentes variedades do Guarani. O grupo Guarani Mbya conta com cerca de 7.000 (sete mil) indivíduos e constitui referência cultural pela sua presença geográfica e histórica no Brasil e países do MERCOSUL, já que é falada por extensa população na Argentina e Paraguai. Além disso, e mais importante, a língua Guarani Mbya possui alta relevância para a memória e identidade do grupo a que diz respeito, atuando na organização dos seus traços identitários mais estáveis e conhecidos.O presente inventário fará com que a língua Guarani Mbya seja visualizada em suas diferentes dinâmicas históricas, sociais e políticas, ampliando o efeito das políticas públicas, através de ações coordenadas de largo alcance. Promoverá desde sua realização, uma participação agentiva dos falantes, que atuarão na execução do trabalho e definição dos materiais a serem disponibilizados, bem como seus usos.


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OJEUPITY AGU

Kova’e ojejapo va’e kue ma onhemombe’u, ha’egui oĩ aguã ojejapo rive va’e kue ayvu re omba’eapo va’e gui pavẽ mbya guarani ijayua kova’e yvy re peteĩ pó peteĩ oja’ao re (6 estados brasileiros) ; Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, ha’egui Espírito Santo re ave. Onhemopena va’e ma (IPOL- Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política lingüística) have oĩ pavẽ ayvu re omba’eapo oipytyvõ va’e (Ministério da Justiça) ha’egui (Conselho Federal Gestor do Fundo de Direitos Difusos- CFDD) reve. ONHEMOMBE’U ANHETENGA

Mbya Guarani hayu ma ojeporu raxa kova’e Yvy re, ikuai ma agỹ reve (60 município) py oparupi. Ha’egui agỹ ma (50.000) rupi rive’i ma nhande kuai Mbya Guarani kuery, amboae kuery revê joo ramie’ỹ e’ỹ nhandeayu va’e revê mbya kuery teĩ. Kova’e Yvy re manje nhande Mbya Guarani ete’i nhande kuai (7.000) rupi rive’i. Mbya Guarani hayu ma oexauka tekoete’i kova’e Yvy re ikuai va’e ave oiporu avi. Ha’egui oiporu avi ayvu Argentina re ha’egui Paraguai re ave. há’e rami vy ma há’eveve va’e ma Mbya Guarani hayu ae ma ojeporu água onhemombe’u va’e rã ikuai va’e kuery nombojeroviaai rã, oikoa py ojexauka haguã amboae kuery oikuaa aguã. Agỹ gua ojejapo va’e kua Mbya Guarani hayu ma ojekuaa rã joo ramie’ỹ rã, kaxo voi onhemboeta vê rã. Onhemombe’u bem’u vê rã vi ijayu va’e kuery voi ombojekuaa rã mba’eapo reko oexauka aguã guembiapo ojeporu aguã.


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PELA DIVERSIDADE LINGUÍSTICA

O INDL COMO INSTRUMENTO POLÍTICO

POVOS INDÍGENAS OU POVOS ORIGINÁRIOS

A LÍNGUA GUARANI MBYA

O GUARANI MBYA NO QUADRO DO INDL

O SENTIDO DE INVENTARIAR A DIVERSIDADE LINGUÍSTICA


A TRADUÇÃO DO GUARANI

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BREVE DISCUSSÃO DA POPULAÇÃO MBYA

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A VOZ MBYA: DEPOIMENTOS DAS LIDERANÇAS

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ENTREVISTA: ROSÂNGELA MORELLO

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DOCUMENTO FINAL

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PELA DIVERSIDADE LINGUÍSTICA

Das 215 línguas faladas em território nacional, aproximadamente 180

são

línguas

indígenas.

Integrado

a

esses

idiomas

ameríndios, figura uma infinidade de conhecimentos ancestrais, transmitidos por séculos através da oralidade e dos costumes. Só mais recentemente alguns estudiosos vem potencializando os esforço para fixação dessas línguas por meio da escrita. A

diversidade

linguística

brasileira

-

violentamente

am-

putada desde o início da colonização, recebe, no entanto, novo impulso no momento atual, em especial com a recente política de salvaguarda desse patrimônio imaterial brasileiro: o Inventário Nacional da Diversidade Lingüística (INDL).

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Por longa data, os índios foram reprimidos em suas manifestações culturais, religiosas ou mesmo cosmológicas. De acordo com os dados da obra do respeitado historiador José Honório Rodrigues, um contingente aproximado de 1.078 línguas indígenas habitava o Brasil pré-colonial. A política lusitana afirmou-se de tal maneira que 85% dessa variedade linguística sucumbiu à imposição da pátria monolíngue. De acordo com a o obra do antropólogo Darcy Ribeiro, 67 línguas desapareceram somente no século XX. Em discurso proferido ao senado brasileiro, Darcy Ribeiro expôs com tristeza os resquícios da política colonial brasileira: “só me cabe dizer, agora,lamentando sentidamente que esta nossa nação brasileira não precisa mais de índio nenhum para existir. Mas não existirá jamais, em dignidade e vergonha, se deixar morrerem – morrerem até de suicídio – os poucos índios que sobreviveram à invasão quinhentista”. Como bem colocou o antropólogo, os direitos culturais e linguísticos só foram concedidos aos índios na Constituição Federal de 1988.

Para se ter uma idéia, o Brasil é o 9º país em diversidade linguística em todo o mundo. A despeito disso, as políticas do Estado sempre foram repressivas às demais línguas diferentes do português. Segundo Gilvan Müller de Oliveira – diretor executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) -, as medidas políticas do Estado brasileiro até recentemente foram políticas de supressão linguística. A expansão européia lançou-se ao mundo destruindo as línguas, como gafanhotos que se espalham por uma plantação.

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A somar-se a isso, o Estado Novo - através de um processo conhecido como “nacionalização do ensino” - impôs o português aos falantes de outras línguas, sobretudo aos imigrantes que vieram depois de 1850. Houve, para tanto, uma forte retaliação a idiomas como o japonês, polonês, o ucraniano, o pomerano, o hunsrückisch, o talian e idiomas ciganos, fortemente falados no Brasil, embora pouco se diga a respeito.

Rainer Enrique Hamel - pesquisador da Universidade Autónoma Metropolitana, Unidad Iztapalapa, México, esteve acompanhando os dois dias do I Encontro sobre o Inventário da Língua Guarani Mbya. Para ele, a realidade ameríndia mexicana guarda semelhanças com o arranjo linguístico brasileiro.


Diante deste quadro calamitoso, o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL) se compôs como um instrumento para fixar uma política de salvaguarda, respeito e promoção às línguas brasileiras. Vindo a debate público em 2006, em um Seminário Legislativo, a proposta de criação do INDL foi amplamente discutida por uma comissão interministerial e interinstitucional – o Grupo de Trabalho de Diversidade Lingüística (GTDL) – coordenada pelo IPHAN que em 2007 publicou um relatório dando as diretrizes para o programa, o qual foi consolidado pela assinatura do decreto 7.387/2010.

A propostas do inventário visam ampliar o espectro de atuação do governo federal na preservação da imensa diversidade nacional. Hoje existem no Brasil dezenas de línguas mal catalogadas com comunidade pequenas falantes. Isso aponta para uma necessidade urgente de reestruturação das políticas de salvaguarda do patrimônio imaterial. Além disso, a globalização aponta cada vez mais para a manutenção dos quadros multilíngues. Não há como sustentar mais a política de imposição de um só idioma. Articulados por blocos econômicos, os países acabam por necessitar de um manejo bem mais incisivo dos seus quadros multiculturais.

O chileno Rainer Enrique Hamel – reconhecido pesquisador da situação linguística mexicana – endossa a necessidade de se repensar a gestão das línguas no contexto da globalização. “Estamos ven-

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do em muitos campos a importância dos conhecimentos indígenas para a gestão dos Estados”, pontua o pesquisador da Universidade Autónoma Metropolitana, Unidad Iztapalapa – México. “Vamos ter um futuro onde os sistemas nacionais de educação não conseguirão permanecer como sistemas monolíngues”, defende,

Nesse sentido, a gestão das políticas linguísticas precisa se colocar como um ponto forte das estratégias de gestão dos Estados Nacionais. O que antes foi reprimido pelo exercício de uma mentalidade monolinguísta deve agora ser estimulado pelas políticas públicas. Não raro pode ser visto pessoas afirmarem que o Brasil é detentor de uma só língua.

Foram realiazdos grupos de trabalho durante o encontro para discutir as questões a serem levantadas. Este critério foi uma importante estratégia para organizar as demandas e encaminhamentos dos próprios Guarani

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O INDL COMO INSTRUMENTO POLÍTICO

O

INDL

foi

instituído

através

da

assinatura

do

decre-

to 7.387 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em nove de dezembro de 2010. Este ato coroa um longo processo de trabalho do GTDL, que instruiu a política de inventário das línguas brasileiras a partir de seis categorias: línguas indígenas de poucos falantes, comunidades indígenas de muitos falantes e grande extensão territorial, língua de comunidades afro-brasileiras, língua de sinais e línguas de imigração e crioulas. Uma das ações do GTDL foi recomendar a execução de projetos pilotos em cada uma delas, visando assim parametrar a implementação do INDL. Os projetos aprovados foram: (1) Inventário da Língua Guarani Mbya, (2) Levantamento Sócio-Linguístico e documentação da língua e das

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Tradições Culturais das Comunidades Indígenas Nahukwa e Matipu do Alto Xingu; (3) Inventário da Língua Ayuru; (4) Língua Asurini do Tocantins; (5) Libras no Nordeste; (6) Inventário da Língua Juruna; (7) Inventário da Diversidade Cultural da Imigração italiana: o Talian e a culinária e (8) levantamento Etnolinguístico de Comunidades Afro-brasileiras: Minas Gerais e Pará.

A antropóloga Fabiola Nogueira, representante do IPHAN, ponderou sobre a nova política federal de inventariação das línguas brasileiras. O desafio é lidar com tamanha diversidade

Fabíola Nogueira Cardoso, técnica em antropologia do Departamento do Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), explícita que a partir do resultado dos oito inventários pretende-se consolidar uma metodologia que possa abarcar da maneira mais adequada essas várias situações linguísticas existentes no país. Para ela, é preciso atender dois artigos do

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decreto: instituir uma comissão para poder avaliar e acompanhar as futuras demandas para inventários de língua, e, a segunda medida seria regulamentar o decreto para estabelecer os procedimentos para implantação do inventário, ou seja, metodologia, orçamento, constituição de equipe, instituições capacitadas e instituições parceiras.

Entretanto, sem a pesquisa estabelecida pelo Grupo de Trabalho de Diversidade Linguística, publicada em 2007, o INDL não teria o arcabouço necessário à sua consolidação. Vários estudiosos, especialistas e membros do Governo se reuniram para constituir suas bases. Para tanto, foi produzido um relatório específico que abordou o histórico das políticas linguísticas do Estado brasileiro até as propostas metodológicas para efetivação da medida de salvaguarda patrimonial. Participaram do GTDL representantes do Ministério da Educação, do IPHAN, do Ministério da Cultura (MinC), Museu do Índio, do Museu Emílio Goeldi, da UNESCO, da Universidade de Brasília, da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Fundação Cultural Palmares e do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Lingüística (IPOL). Diante da globalização, o mundo se articula em blocos econômicos que tem na intercomunicação a pedra angular da troca de bens, serviços e pessoas. As línguas, de um modo geral, são os principais canais que possibilitam esse trânsito cultural. Além disso, faz-se iminente para o Estado brasileiro uma nova percepção dos fluxos

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O Inventário da Língua Guarani Mbya só se consolidou depois de ter sido debatido junto aos próprios indígenas. Para o IPOL, o próprio ato de inventariar uma língua já configura a necessidade fundamental de compartilhar os resultados com a comunidade de falantes

das línguas e da promoção das múltiplas identidades que compõem a nação brasileira. O INDL se consolida, na esteira desse raciocínio, como um banco de dados que poderá a médio-longo prazo compilar nossa diversidade, imprimindo, assim, uma gestão mais responsável das nossas línguas.

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Cenas do material audiovisual coletado durante a pesquisa. A base de dados foi um elemento crucial no decurso da investigação. Para tanto, foi coletada uma ampla gama de imagens e fotografias. Nestas páginas, algumas dos frames dos curta-metragens produzidos pelo IPOL. Os filmes contaram com uma tradução bilingue (guarani/português).

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POVOS INDÍGENAS E POVOS ORIGINÁRIOS: O PRECONCEITO PELA VIA DA GENERALIZAÇÃO

Quando Leonardo Werá Tupã - um dos líderes Guarani Mbya da aldeia Araçai, no Estado do Paraná - defende a substituição da terminologia “indígena” por “povos originários”, ele lança mão do equívoco histórico que determinou a forma com que os diversos povos que habitavam o Brasil antes da chegada dos portugueses. Índias - como argumenta Werá Tupã - era o local que as naus portuguesas esperavam encontrar quando aportarem na costa atlântica do Brasil. Partindo desta incompreensão, cunharam um termo que se estendeu por mais de cinco séculos na literatura, nos hábitos nacionalistas e na constituição do direito. Infelizmente, o termo foi e ainda é reco-

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berto de uma acepção muito pejorativa, sendo recorrentemente mal interpretado por uma considerável camada da população.

Um exemplo acintoso pode ser percebido na série educativa Índios no Brasil. O primeiro episódio ocupa-se em entrevistar diversas pessoas, das mais diferentes situações geográficas e sociolinguísticas, na tentativa de apreender uma acepção geral do que constitui o imaginário do índio no Brasil. Na maioria dos casos, as respostas são reforços enfáticos do estereótipo romântico do índio, como aquele reproduzido pela obra O Guarani, de José de Alencar. Poucas pessoas entendem a real dimensão do indigenismo brasileiro, e mais do que isso, por não entenderem, acabam por exercerem um preconceito contras as próprias origens.

Segundo Werá Tupã - que também assume atualmente o cargo de coordenador da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) da região de Palhoça, em Santa Catarina - a história sempre foi contada pelo olhar do colonizador. Isso ajudou a perpetrar essa mentalidade tacanha do povo brasileiro, embora ele não atribua à culpa ao cidadão, e sim àqueles que construíram a moral exótica na qual o índio é enquadrado. “A informação que chega para a população é errada, por isso que a sociedade não tem culpa disso. A discriminação existe de várias formas. O próprio título indígena é uma forma de discriminar. Mas o Brasil está tão acostumado com isso, que até mesmo nós nos chamamos de povos indígenas”, explica Werá Tupã.

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O professor Gilvan Müller de Oliveira ainda completa que o termo “índios” não passa de uma abstração. Ele explica que o afastamento linguístico do povo Kaingang comparado ao povo Guarani, por exemplo, poderia, por analogia, ser comparado ao afastamento do português em relação ao japonês. Constituem-se como línguas de troncos completamente distintos. Acreditar, por associação, que todos os índios partilham da intercompreensão mútua - na ótica do diretor do IILP – é o mesmo que afirmar que os europeus constituem um único povo. Essa generalização, muito habitual no julgamento dos povos indígenas, aponta para um desconhecimento que fortalece o preconceito.

Gilvan Müller de Oliveira, Diretor executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP)


A LÍNGUA GUARANI MBYA: UM TITÃ EM MEIO À ARIDEZ DA IMPOSIÇÃO MONOLÍNGUE

Os Guarani são uma das populações indígenas mais numerosas do Brasil. Falando o Guarani Mbya, Ñandeva ou Kaiowá (nas denominações mais recorrentes) contabilizam, no Brasil, algo na ordem de 35 mil falantes. Estima-se, aproximadamente, 7 mil falantes do Guarani Mbya em todo território nacional, vivendo em comunidades de vários estados brasileiros. Quando da chegada dos portugueses à costa brasileira, já constituíam um grupo coeso e bem estabelecido, com a transmissão perene dos conhecimentos de sua língua, a língua de um povo que existe há pelo menos dois mil anos.

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Hoje, de acordo com a pesquisa do inventário, pode-se falar numa taxa de transferência da língua superior a 98%. Várias aldeias sustentam quadros de ensino bilíngue (guarani-poruguês/castelhano-guarani). Além do mais, o Paraguai, através da lei federal número 4251 da constituição de 1992, oficializou o Guarani ao lado do castelhano. Apesar de o guarani paraguaio possuir diferenças quando comparado com as demais variações, qualifica-se por ter uma base semântica e léxica aproximada. Segundo estatísticas apresentadas pelo professor Lino Trinidad Sanabria - especialista em Guarani da Universidade Nacional de Assunção (UNA) – dos quase seis milhões de falantes do guarani no Paraguai, aproximadamente 37% são monolíngues. Isso indica a vitalidade histórica da língua, suas raízes e os rumos que tomou no curso da colonização. É evidentemente um titã em meio à aridez da imposição das línguas européias. Diz-se da morte das línguas quando as crianças já não conseguem falar. O Guarani Mbya, a partir dessa lógica, encontra-se em franca expansão.

Partindo de projeções estatísticas, pode-se inferir que no ritmo de crescimento populacional que atingiram, os Guarani em breve, reconstituirão a mesma proporção do princípio da colonização. A população aumenta 5% ao ano, ou seja, o dobro da média nacional. A despeito do que se possa imaginar, estão fortemente estabelecidos em seus respectivos territórios. Possuem orientação


política definida e um sistema de reprodução dos seus valores em permanente manutenção. Para se ter uma idéia, a língua Guarani já foi adotada como língua de trabalho no MERCOSUL, oficializada na Bolívia e na província de Missiones, na Argentina.

Além disso, no Brasil, a língua Guarani foi cooficializada em Tacuru, no Mato Grosso do Sul, seguindo a estratégia de permitir a de cooficialização de línguas em nível municipal inaugurada em São Gabriel da Cachoeira. Os povos Baniwa, Tukano e Nhengatu fizeram a cooficialização em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, no ano de 2002, apesar da lei só ter sido regulamentada no ano de 2006.

O IPOL constatou, em um dos seus levantamentos, que existem vários municípios brasileiros onde a maioria não é falante do português enquanto língua materna. Esses municípios guardam imenso potencial para a implementação da cooficialização. Isso, como no caso do Guarani, incide diretamente sobre o sentimento de pertencimento, de harmonização das relações sociais e de livre-arbítrio no trato com o sentido gerado por cada língua. O Guarani, como relatam seus falantes, é uma língua muito subjetiva, bastante sentimental, com todo um repertório cosmológico próprio.

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O Inventário da Lingua Guarani Mbya foi distribuído para todas as lideranças presentes no encontro. A discussão dos resultados foi uma das prioridades adotadas pelo IPOL, afinal, a língua pertence antes de tudo aos falantes.

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O GUARANI MBYA NO QUADRO DO INDL

Inventário é uma palavra da Língua Portuguesa praticada no Brasil, e deriva de Inventarium, da antiga língua latina. Ela significa principalmente uma listagem (ou levantamento) dos bens deixados por alguém e, ao mesmo tempo, o documento onde se encontram registrados estes mesmos bens. Para os Guarani Mbya, esta palavra sequer existe.

Numa lógica de aproximação, existiria o termo nhenbaeapo nhande reko arandu, cujo significado é, na representação deles, “trabalho onde se junta várias informações sobre o conhecimento Guarani”. Leonardo Werá Tupã atribui à língua a motricidade de todas as relações culturais, sociais, religiosas e existenciais. “A língua, em primeiro lugar é a pró-

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pria cultura”, considera. “Sem língua muitas coisas se perdem. Através dela, se preserva muitas coisas do conhecimento, do cotidiano, do passado”, conclui.

Nesse sentido, o especialista Rainer Enrique Hamel coloca que o livro ainda é o mecanismo hegemônico de distribuição e fixação do conhecimento. Através do registro das línguas, muita da sua articulação e de sua importância fica retida num suporte favorável à preservação. “É Importante tornar as línguas visíveis num contexto de cultura dominante: a escrita, o livro, as fotografias. Muitas pessoas acreditam que as línguas indígenas não devem ser escritas. Eu acredito que elas têm muita vitalidade linguística e cultural e não vejo qualquer impedimento em registrá-las”, completa o estudioso nas questões ameríndias mexicanas.

Justo nesse contexto, de importância e de registro, é que nasce o INDL, sob a coordenação do IPHAN/MinC. O Guarani Mbya - como figura enquanto uma língua com ampla comunidade de falantes - enquadrou-se na categoria de língua indígena de grande população e extensão territorial. O IPOL - Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística – encarregou-se de realizar o projeto que já vinha sendo pesquisado há mais de três anos. Para tanto, foram visitadas 69 aldeias, contabilizando o equivalente a 928 questionários respondidos por 596 indivíduos, 269 chefes de núcleo familiar e 64 líderes ou caciques das comunidades. Recorreu-se também a diversos arquivos de base de da-

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dos, marcação de pontos geográficos pelo GPS, relatórios de pesquisa de campo, registro de imagens fotográficas, registro de lista de palavras, depoimentos audiovisuais e coleta de materiais relevantes para a pesquisa.

Uma extensa variedade de referências sobre os Guarani Mbya foi identificada e usada como ponto de articulação do processo de feitura do Inventário. Também foram confeccionados mapas sobre a configuração atual da língua no cenário geopolítico brasileiro. Para tanto, foram considerados os Estados do Espírito Santo (ES), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Paraná (PR), Santa Catarina (SC) e Rio Grande do Sul (RS). Os Estados do Tocantins (TO) e do Pará (PA), embora também possuam populações Mbya, não foram pesquisados em decorrência de vala geográfica que se interpôs entre os falantes. Uma opção metodológica.

De acordo com o relatório interno da equipe executora do Inventário da Língua Guarani Mbya, “em uma tradição monolínguista, como a brasileira, em que a única língua legitimada pelas aparelhagens do Estado foi a língua portuguesa, pouco se estruturou como campo de conhecimento sobre e nas demais línguas praticadas no país. São praticamente ausentes informações sistematizadas sobre estas línguas. De modo geral, está disponível apenas o número de indígenas pertencentes à determinada etnia, informação a partir da qual se pressupõe a língua por eles falada. no caso das línguas faladas por índios, por exemplo,

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mesmo quando há dados linguísticos por etnia ou território indígena, não estão disponíveis dados sobre a situação sociolinguística das demais possíveis línguas faladas nessas comunidades”. Como resultado constam do Inventário um livro que reúne uma síntese da história e cultura do povo Guarani, e no recorte específico das comunidades falantes do Guarani Mbya inventariadas, apresenta os principais pontos sobre os usos e funcionamento da língua, 11 mapas temáticos, 21 listas de palavras e 9 vídeos com depoimentos na língua, todos eles legendados também em Português. Segundo Hyral Moreira, cacique da aldeia Biguaçu, a importância da elaboração do Inventário é um primeiro passo para se informar o que esta acontecendo nas aldeias, quais proble-

O cacique Hyral Moreira articulou em favor de uma maior atenção para as comunidades indígenas. O Inventário, de acordo com ele, representa um passo positivo em direção a uma política linguística mais adequada, embora isso represente só o princípio de uma trajetória.


máticas estão se sucedendo. “A nossa preocupação com língua sempre existiu. O que não existia era a forma de se preservá-la. Até hoje nós conseguimos mantê-la. Mas nossa preocupação também vai daqui pra frente. Como será com nossos filhos, nossos netos? Se não houver um cuidado público, não sei se conseguiremos preservar nossa língua milenar”, adverte o líder da aldeia de Santa Catarina, preocupado com a manutenção do patrimônio guarani.

A atual coordenadora geral do IPOL, Rosângela Morello, explica que durante as pesquisas de campo, tomou-se um especial cuidado nas entrevistas tanto dos jovens quanto dos mais velhos. “Entrevistamos várias faixas etárias para saber se, por exemplo, os jovens já estavam esquecendo algumas palavras que os mais velhos não esqueciam”, explica. Outra grande questão envolvendo o Inventário da Língua Guarani Mbya diz respeito à interpretação desses depoimentos, que, inevitavelmente, exigiram um grau de complexidade muito elevado para serem feitos.

Joana Epará, professora bilíngue guarani-português da comunidade de Morro dos Cavalos, envolveu-se durante todo o processo do Inventário da Língua Guarani Mbya. Falante fluente do português, do espanhol e do Guarani, Joana compreende todas as três variações da língua no Brasil e ainda compreende o Guarani paraguaio. Ela foi fundamental para estabelecer o contato inicial com as aldeias inventariadas. Ademais, como mesmo pontua a professora, o Guarani é uma comunidade

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única: “Somos todos irmãos”, pontua. “Nós estudamos uma história da educação indígena completamente equivocada. E hoje as coisas representam outra realidade. O Estado, apesar de bem lentamente, tem dado mais atenção para nós, indígenas”. Joana acaba de ingressar num mestrado em educação escolar indígena na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Suas motivações partem sempre do sentimento expressado pela língua: “A língua Guarani sou eu. O Guarani é um só”.

Rosângela Morello, diretora do IPOL, defende um processo do inventário que consiga lidar com a diversidade linguística brasileira. Para isso, tanto as pequenas comunidades de falantes quanto as grandes comunidades devem ser inventariadas.

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O cacique Vehrá Poty fumando seu cachimbo num dos intervalos do seminário. O seu modo de ver a língua o coloca numa posição ativa de liderança.

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O SENTIDO DE INVENTARIAR A DIVERSIDADE LINGUÍSTICA

Para o IPOL não faria sentido desenvolver um trabalho acerca de um língua que não promovesse uma discussão com os falantes. Afinal, tanto a língua quanto a gestão pertencem aos próprios Guarani. Rosângela Morello enfatiza que se deve tomar bastante cuidado com o correr das investigações, caso contrário, correm grande risco de estagnarem em uma biblioteca acadêmica sem uma efetiva aplicação prática. O Inventário, dessa maneira, só se justifica enquanto um propulsor de políticas públicas que beneficiem toda a comunidade Guarani Mbya. Para tanto, o IPOL organizou em Florianópolis – cidade sede do instituto – um encontro com diversas lideranças Guarani Mbya no sentido de discutir os

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resultados da pesquisa e propor novos rumos para a língua dentro da sua atual conjuntura. Mais de 30 lideranças dos seis Estados inventariados compareceram às discussões realizadas nos dias 26 e 27 de julho de 2011. Foram realizados grupos de trabalho, apontamentos e formulações de propostas para o encaminhamento formal aos órgãos públicos. Estiveram presentes repre-

João Maurício “essas medidas acabam por reconhecer e fortalecer a etnicidade das populações indígenas”.

sentantes do IPHAN, do MEC, do MinC e da FUNAI, justo no sentido de encaminhar os levantamentos de maneira eficaz e direta. João Maurício Farias - Assistente técnico da regional da Funai do litoral sul – acredita que medidas como estas acabam por dar mais

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visibilidade às comunidades indígenas, ajudando sobremaneira noutras questões políticas, como por exemplo, a homologação de terras. “Eu acho esse inventário fundamental para consolidarmos o reconhecimento dessas etnias aqui no Brasil, até mesmo no sentido de garantir mais direitos. Esse trabalho certamente traz para o cenário da formação do Estado brasileiro o multicultu-

Joana Arari: “O encontro com as lideraças pode colaborar para a construção de novas políticas linguísticas”.

ralismo. Assim é possível mostrar para a sociedade brasileira que o Guarani é uma língua viva, em crescimento”, argumenta. “Na medida em que as pessoas começarem a entender quem são es-

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ses índios, quais os direitos que eles têm, isso acaba por facilitar até mesmo a restituição dos seus direitos fundiários”, finaliza.

Joana Arari, representante da coordenação geral de culturas populares e tradicionais do Ministério da Cultura (MinC), acredita que as políticas participativas são o modelo essencial para as políticas indigenistas. “Nós trabalhamos sempre escutando o que as comunidades têm a dizer, portanto, acho que este tipo de encontro é valioso. É um desdobramento do próprio Inventário da língua”. A idéia, segundo a representante do Ministério da Cultura, é sempre fortalecer ao máximo os caracteres da transmissão e dos usos cotidianos, fundamentais para a sobrevivência de qualquer idioma.

As lideranças ocuparam-se em discutir os rumos da língua guarani nos dois dias de encontro. Para eles, expressar-se em Mbya consiste num exercício de preservação e respeito às próprias raizes.

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A TRADUÇÃO DO GUARANI MBYA: AS BARREIAS ENTRE O COSMOLÓGICO E O PRAGMÁTICO

O ofício da tradução - como salienta Wanderley Cardoso - é um trabalho que requer técnica e empenho, sobretudo no caso de uma língua indígena como o Guarani Mbya, repleto de um conteúdo cosmológico próprio, muitas vezes dispare diante da semântica do português. “Na maioria das vezes a palavra em Guarani não existe em português. Existe mais é o sentimento. A maneira com que você vai traduzindo é a soma do pensamento de várias pessoas que nós tentamos colocar na transcrição”, explica o tradutor que se envolve com o ofício há aproximadamente sete anos. Wanderley - em conjunto com Joana Epará e Myrian Lucia Cardoso – foram os

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responsáveis por todas as traduções tanto do guarani para o português quanto do português para o guarani no processo de feitura do Inventário. Além disso, traduziram todos os curtas-metragens realizados pelo IPOL nas aldeias visitadas. Joana explica que - apesar de se envolver constantemente com o ofício de tradução – sua maior dificuldade reside na transcrição do guarani para o português. A professora bilíngue compreende espanhol, português, guarani ñandeva, kaiowa e mbya, além de compreender também a variação da língua oficial no Paraguai. Entretanto, transitar por uma língua que se legitimou pela transmissão oral e por outra bastante livresca interpõe-se como uma dificuldade.

Myrian acredita na existência de dois modelos de tradução: um ao pé da letra, embora neste se perca completamente o contexto da transcrição, e o outro, mais adequado, em que se deve conhecer profundamente a cultura no sentido de manter a maior fidelidade dos aspectos subjetivos. Nesse sentido, ela advoga em favor do ensino bilíngue. Para ela, na medida em que os jovens puderem transitar com facilidade entre os dois idiomas, torna-se mais fácil a obtenção dos direitos e do reconhecimento da cultura guarani de um modo geral. “Ajuda os jovens, ajuda as lideranças a pensar o que fazer com a língua. Queremos ter certeza que estamos cultivando nossa língua, nossa cultura”, defende. O trabalho de campo do Inventário da língua Guarani Mbya demonstrou através dos seus questionários os caracteres da transmissão da língua. De acordo com os questionários respondidos, tanto os filhos quanto os netos nos círculos familiares Mbya aprendem a língua numa taxa de transmissão intergeracional superior a

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98%. Segundo o relatório do IPOL: “o ensino da Língua Guarani Mbya e a intenção de ensiná-la às gerações focalizadas são fatos afirmados pela quase totalidade dos chefes de família entrevistados”, comprovando, portanto, um alto grau de valorização da língua pelos falantes. A vontade e a necessidade de perpetuar as tradições e a cultura são os principais motivos relatados.

Logo, transitar entre línguas - para os guarani - consiste num exercício valioso para trazer aos demais povos um pouco da cultura e da espiritualida de milenar dos povos guarani. Consolidando essa perspectiva política de valorização da língua, o encontro sobre o Inventário da Lingua Guarani Mbya foi registrado simultaneamente nas línguas Guarani e Português. O documento final deliberado em suas duas versões pode ser lido adiante, nesta revista.

Como mesmo afirmou Wanderley ao periódico catarinense Notícias do Dia - na ocasião em que a jornalista pediu-lhe para formular uma frase em ambos os idiomas – “pende kuery Juruá kuery peikua’a ore kuery reko”. Ou seja, “que vocês não indígenas possam entender os nossos costumes através do conhecimento indígena”.

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O Mbya Aldo usa seu tablet durante o encontro entre as lideranรงas


BREVE DESCRIÇÃO DA POPULAÇÃO GUARANI MBYA

As fronteiras geográficas dos Estados Nacionais não correspondem às fronteiras dos povos indígenas. As relações de proximidade por vezes extrapolam territórios nacionais, causando um estranhamento ligado às relações de nacionalismo e de identidade. Os Mbya se encontram concentrados em sua maioria na Argentina, no Paraguai, na Bolívia e no Brasil, e, apesar de em alguns casos guardarem distinções dialetais, são um povo que se agrupa um torno da mesma unidade. Há, portanto, uma incoerência nos modos de articulação dos povos indígenas e dos Estados Nacionais; e essa questão se estende inclusive a delicada questão fundiária. Os Guarani Mbya pertencem à família linguística do Tupi-Guarani, no entanto, a língua originou-se do tronco maior, o Tupi. No Brasil, as variações são entre o Mbya, o Nhandeva ou Xiripá ou Ava Guarani e o Kaiowa. Contudo,

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de acordo as autoridades científicas no assunto, não existem limites claros entre as variedades. Elas podem receber dos falantes outras designações que não essas.

Como mesmo aponta o estudo realizado pelo IPOL, o Guarani - em conjunto com o Aimara e o Garifuna – é das poucas línguas latino americanas faladas representativamente em quatro países. Para se ter uma idéia, a primeira gramática da escrita pelo padre Montoya data a primeira metade do século XVII. Isso mostra a importância do estudo da língua nos primórdios da colonização da América Latina, embora ainda existam poucos trabalhos sistematizados sobre o Mbya, o Nhandeva e o Kaiowa. São um povo de forte unidade estendido por toda América latina. As estimativas feitas pela Assembléia Continental, realizada na cidade de Porto Alegre – em abril de 2007 – apontam para um número equivalente a 255 mil Guarani vivendo no continente americano. Os dados do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) enumeram aproximadamente 85 mil Guarani nos Brasil, Paraguai e Argentina.

A FUNASA, de acordo com as estatísticas de atendimento à saúde, contabilizou 21.557 Guarani brasileiros. Os Mbya, dentro dessa lógica, somariam algo entre cinco e sete mil, embora todos esses cálculos levem em conta bases demasiado especulativas. A pesquisa do Inventário faz pela primeira vez uma discussão sobre o número de falantes da língua, distintamente dos dados quase sempre embasados na etnia. Considerando a margem de erro própria a projeções estatísticas e tomando por base as comunidades

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inventariadas, o estudo permite confirmar as projeções de cerca de 7 mil falantes do guarani Mbya no Brasil. Não raro, encontram-se muitos Guarani radicados em bases que são trilíngues ou mesmo quadrilíngues. Além das taxas de transferência da língua materna serem altíssima, por se tratar também de um povo fronteiriço, as aptidões para falar várias línguas verificam-se em várias aldeias. Isso mostra o quão forte é o arcabouço cultural desse povo, extremamente voltado para a percepção de um mundo cosmológico, espiritualizado e repleto de um rigor favorável à luta pelos seus direitos.

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Momento do registro audiovisual dos depoimentos das lideranรงas.

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VOZ MBYA

DEPOIMENTOS DAS LIDERANÇAS


CACIQUE MARCO ANTÔNIO OLIVEIRA DA SILVA ALDEIA MASSIAMBU, SANTA CATARINA

Tenho orgulho de ser guarani, sobretudo quando comecei a me envolver com a liderança. Antigamente, quando era mais novo, eu sentia um pouco de vergonha de ser índio. Nós éramos muitos discriminados pela sociedade. Depois que eu fui entendendo como era o mecanismo das coisas. Passei, então, a ter orgulho de ser guarani. Hoje sabemos que a cultura vai se difundindo com outras. Uma das nossas principais bandeiras é manter a nossa identidade. Por isso é importante lutarmos pelos nossos direitos, pela demarcação das nossas terras. Dessa forma, podemos nos organizar melhor, valorizar mais o trabalho coletivo, as conversas coletivas, a vivência. Podemos, assim, passar todas as informações de antigamente para os mais novos. Os mais velhos sentam num lugar, ao redor da fogueira, e começam a contar as histórias de como eram as coisas antes. E agente vai guardando isso. E depois agente já vai ficando mais velho e já vai passando isso para as crianças. Por isso que é importante para nós a cultura, a língua, a crença, entrar na casa de reza, chegar à casa das pessoas, conversar. Isso é importante, pois agente vê que na sociedade não indígena já não existe isso. Cada um vive no seu próprio mundo, individualista. Eu mesmo, quando mais novo, falava só em português. Parece que era mais bonito falar em português. Com o passar do tempo - com os mais velhos falando que nós temos que valorizar nossa cultura, nossa língua – eu percebi, se nós, as lideranças, não falarmos para as pessoas que temos que valorizar tanto nossa identidade, nós mesmos vamos nos perder.


CACIQUE HYRAL MOREIRA ALDEIA BIGUAÇU, SANTA CATARINA

A elaboração do inventário pra mim é só um primeiro passo para se informar o que está acontecendo nas aldeias. E quais problemáticas estão atingindo essas aldeias. É importante que essa proposta de inventariar a língua possa elaborar uma medida que sirva como política pública. Nós, ao contrário do que se pensa, sempre nos preocupamos com a preservação da língua. O que não existe é uma maneira adequada de fazê-lo. Até o momento nós conseguimos preservar ela. Mas a preocupação vem daqui para frente. Como será daqui ha 50 anos? Se não existir uma política pública em defesa da língua Guarani, não vamos conseguir manter esse idioma que é milenar, que, apesar de todas as adversidades, ainda se mantêm vivo. Acredito que a população indígena tem se esforçado muito nesse sentido. Nós, como se sabe, só tivemos acesso aos nossos direitos a partir da constituição de 1988. Antes era inclusive proibida a prática. Muitas culturas se extinguiram por essa razão. Esse inventário é, em minha opinião, o primeiro passo. Foi importante fazer esse levantamento para ter subsídios para questionar outras questões. Mas ainda há muito que fazer.


VHERÁ POTY ALDEIA AMARAL, SANTA CATARINA

Estamos no momento em uma situação de vitória, mas ao mesmo tempo com várias dificuldades e vários pontos que estamos enfrentando, a nossa luta de sempre. Agente sempre manteve o nosso costume - não gosto de dizer cultura – por que quando nos referimos a cultura no contexto do Brasil já vem com uma coisa definida, de como a cultura é. Gosto de pensar em costumes originários, vindos dos nossos ancestrais. Hoje estamos tentando nos incluir na sociedade brasileira, mas não de uma forma brasileira, mas com os direitos originários. Temos de reivindicar pelos nossos sistemas e as nossas visões. Por que tudo o que se separa na sociedade ocidental por quadros – educação, saúde – nós não separamos. Estamos, nesse sentido, procurando uma política pública adequada para nós. A minha educação não vem a partir de uma escrita ou de uma visão política. Envolve toda uma cosmologia guarani, o canto, a palavra, a imagem. Nossa base principal são os velhos, eu diria que eles são dicionários em pessoa. Precisamos sempre procurar vivenciar outros costumes. Tentamos viver a diversidade. É importante que as pessoas não indígenas vejam o nosso lado. É preciso criar uma política a partir do entendimento do nosso povo, intimamente ligado a natureza. A sociedade ocidental fala de água como fonte da vida, mas será que somente água? Não a natureza como um todo? É impossível alguém que não é índio ser índio. Mas é preciso entrar no nosso mundo para ver melhor como nós vemos as coisas. Precisamos dialogar, nos compreender melhor. As formas de convivência tem que ser positivas para as duas partes.


ENTREVISTA

ROSÂNGELA MORELLO, COORDENADORA GERAL DO IPOL

1) Qual foi a principal motivação do IPOL em inventariar a língua Guarani Mbya? A predileção por uma das línguas indígenas mais faladas do Brasil se deveu a que?

O IPOL teve o privilégio de atuar na instituição da política do Inventário Nacional da Diversidade Linguística do Brasil/INDL desde sua concepção, tendo defendido uma participação agentiva das comunidades linguísticas no processo. Realizar o Inventário da língua Guarani Mbya em seis estados – Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – foi uma consequência dessa posição de trabalho. Este Inventário aliou o diálogo histórico do IPOL com as comunidades indígenas, em especial, as lideranças Guarani – vale lembrar que Leonardo Wera, de Santa Catarina, participou em 2006, por indicação do IPOL,

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do Seminário Legislativo que culminou com o decreto do INDL, em 2010 – com o propósito de executar o projeto piloto para instruir metodologicamente os novos inventários de línguas indígenas de grande população e extensão territorial. Como antes nunca se tinha inventariado línguas no Brasil, vivemos intensamente o desafio de construir o próprio sentido de inventário de uma língua, além de toda a logística para realizar o trabalho. O fato de o IPOL ter acumulado muita experiência na área de políticas linguísticas para a educação bi e plurilíngue – inicialmente em contexto indígena, mas que logo se ampliou para as línguas de imigração e regiões de fronteira – propiciou a base para esta complexa tarefa. Foram três anos de muitas aprendizagens, de muito diálogo com lideranças Guarani, indigenistas e instituições parceiras, de formação de equipes especializadas e pesquisas em arquivos, trabalhos de campo, registros em áudio e vídeo, enfim, de construção de uma trajetória de trabalho e de instrumentalização da Língua Guarani que ficam agora à disposição do povo Guarani para que continue sua luta por melhores condições de vida.

2) O resultado do Inventário da Língua Guarani Mbya vai – na ótica do IPOL – aportar novas conclusões para o estudo das línguas indígenas no Brasil?

Pela primeira vez uma língua indígena de grande expressão política e territorial foi inventariada. Isso significou, basicamente, a construção de uma ótica de trabalho que foi a de inventariar línguas, algo distinto da

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descrição de línguas. Sustentando uma metodologia específica, conforme se pode ler no livro Inventário da Língua Guarani Mbya, o Inventário focaliza informações que abarcam os modos de se nomear a língua, os âmbitos de sua circulação, seu status, sua taxa de transmissão, sua história e os valores sociais e políticos a ela agregados. Sistematizamos, assim, dados sociolinguísticos, históricos e políticos fundamentais para o adequado planejamento de ações que conduzam a uma política linguística voltada à valorização e fortalecimento da língua. Logicamente, todas as informações ali reunidas podem ser objetos de investigações aprofundadas, em trabalhos futuros.

3) Quais foram as principais dificuldades encontradas no processo de inventariar a língua Guarani Mbya?

A perspectiva e a metodologia do Inventário requerem uma sistematização de informações sobre a situação social, política e linguística da comunidade em estudo. Como se sabe, a consolidação do Estado brasileiro como monolíngue em Português apagou ou silenciou as mais de 180 línguas indígenas e outras dezenas de línguas de imigração, além das línguas crioulas, afro-brasileiras e de sinais. As condições atuais de muitas destas línguas são muitas vezes desconhecidas, ou, quando muito, são parte de estudos descritivos. Há uma enorme dispersão das informações. No caso da língua Guarani Mbya, essa situação dificultou tanto o planejamento prévio adequado do trabalho quanto sua execução, uma vez que não pudemos contar previamente, no campo da gestão das polí-

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ticas publicas do Estado, com mecanismos administrativos e financeiros ajustados para atender as especificidades de um trabalho dessa envergadura. Fomos construindo ao longo do percurso – com erros, acertos e muita conversa –as possibilidades para o trabalho se consolidar.

4) O IPOL – enquanto instituto de políticas linguísticas – pretende dar continuidade ao processo de estudo e preservação da diversidade brasileira fomentado pelo Inventário Nacional de Diversidade Linguística (INDL)? Assumidamente, existe a pretensão de se inventariar outra língua?

A realização de novos inventários é parte da política de regulamentação do Decreto n° 7.387 que por hora tramita no IPHAN. Temos todos enviado esforços para avançarmos nessa direção, consolidando as categorias de línguas, os modos de inventariá-las e os recursos mínimos necessários para a realização de novos inventários. É preciso que se estabeleça essa regulamentação para que as demandas se consolidem. Temos, de todo modo, colocado à disposição de nossos parceiros nossa qualificação técnica e política para este trabalho. O IPOL se apresenta, atualmente, como um in tituto com larga experiência na formulação de bases digitais de dados sobre línguas brasileiras visando a sua gestão nos mais variados contextos, respeitando sempre a interlocução com as comunidades linguísticas e suas demandas históricas e políticas. Os diagnósticos sociolinguísticos para a implantação de escolas bilíngues e interculturais, o censo linguístico do município de Santa Maria de Jetibá e agora o inventário da

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língua Guarani Mbya, uma língua de grande população e extensão territorial, portanto, com grande volume de informações, exemplificam essa atuação. E nossos parceiros sabem que podem contar com esta nossa experiência.

5) Qual foi a principal motivação de produzir um encontro com as lideranças Mbya para discussão dos resultados do estudo?

A política do Inventário Nacional da Diversidade Linguística – INDL, na qual se inscreve o Inventário da Língua Guarani Mbya, almeja mobilizar uma nova forma de atuação do Estado Brasileiro em defesa dos direitos linguísticos, e para tanto, é fundamental que as comunidades linguísticas sejam agentes em todo o processo. Afinal, trata-se de salvaguardar e promover a língua, um bem que estrutura política, simbólica e historicamente a comunidade que a fala. O trabalho de inventariar exige visitas às comunidades, diálogo sobre o que entra ou não no documento final, formas de interagir e descrever cada aspecto dos usos da língua. É um trabalho de muitas delicadezas e forte potencial mobilizador das identidades. O Encontro foi um momento de socialização dos resultados do trabalho realizado, um momento de reflexão e encaminhamentos com a participação também de representantes do governo que conduziu a um documento final, disponibilizado em www.ipol.org.br. Foi também um momento de comemoração pelo fato do Inventário proporcionar à Língua Guarani Mbya seu reconhecimento como patrimônio cultural imaterial da nação brasileira.

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ENCONTRO SOBRE O INVENTÁRIO DA LINGUA GUARANI MBYA

DOCUMENTO FINAL

26 e 27 de julho de 2011. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

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N

os dias 26 e 27 de julho aconteceu o ENCONTRO SOBRE O INVENTÁRIO DA LINGUA GUARANI MBYA, em Florianópolis, reunindo lideranças

Guarani dos seis estados inventariados – Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo –, representantes de instituições do Governo e especialistas com o objetivo de discutir os resultados do Inventário da Língua Guarani Mbya (ILG), e seus desdobramentos para a promoção desta língua. O Encontro foi promovido pelo IPOL - Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística, instituição responsável por executar o referido Inventário que se iniciou em 2008, com o apoio do Conselho Federal Gestor do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (CFDD) da Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça.

O ILG foi concebido como um projeto piloto para, juntamente com outros sete projetos contemplando línguas de imigração, de sinais, indígenas de poucos falantes e afrobrasileira, consolidar a proposta de criação do Inventário Nacional da Diversidade Lingüística (INDL), instruída pelo relatório do Grupo de Trabalho da Diversidade Lingüística (GTDL), publicado em 2007.

Destinado a reunir informações variadas sobre a língua e seus usos sociais, o inventário abrangeu 69 aldeias de seis Estados brasileiros (ES, SP, RJ, PR, SC, RS), somando um total de 928 questionários respondidos. O trabalho de pesquisa contemplou ainda a busca de informações sobre a língua Guarani em arquivo e base de dados, marcação de pontos das aldeias por GPS, relatórios das idas a campo e registro audiovisual de depoimentos e de listas de palavras. O resultado de todo o trabalho foi compilado em um relatório de-

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talhado entregue ao IPHAN/MinC para o reconhecimento da Língua Guarani Mbya como patrimônio cultural imaterial da nação brasileira. Pontos fundamentais do relatório foram reunidos em um livro - Inventário da Língua Guarani Mbya –, o qual forneceu a base para os debates durante o Encontro

Após exposição do trabalho realizado e da socialização de dados inventariados, os participantes se reuniram em cinco grupos, tendo por foco avaliar e sugerir encaminhamentos sobre a relação da língua Guarani Mbya com 1) Educação; 2) Sistemas de Saúde; 3) Mídia; 4) Produção de conhecimentos e 5) Atividades artísticas.

SÍNTESE DAS DISCUSSÕES E DOS ENCAMINHAMENTOS DADOS EM CADA GRUPO

1. A Língua e a Educação Avaliação

-Nem todas as escolas têm currículo reconhecido. Muitas Secretarias de Educação não reconhecem a escola diferenciada. -O ensino da língua Guarani não está equiparado com o português. -A sequencialidade da aprendizagem em Guarani é prejudicada a partir do 5º ano, quando se começa o ensino disciplinar com vários professores.

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-É necessário apoio à produção de materiais didáticos. -O objetivo da escola deve ser discutido e exige uma atuação da comunidade. Muitas vezes os professores não sabem qual caminho seguir: se falam e ensinam em Guarani ou em Português. -Um modelo possível é o de Boa Esperança/ES., implementado após discussão com a comunidade. Consiste em: - Alfabetização até 3º ano: só em Guarani. - 4º e 5º anos: só em Português. - 6º ao 9º anos: uma matéria falada e escrita em Guarani. - Outro modelo possível é o implementado na Aldeia Bracuí em que o ensino do 6º ao 9º anos de idade só acontece em Guarani

ENCAMINHAMENTOS -As lideranças propõem-se a realizar intercâmbios de material didático produzido nas aldeias. - São necessárias formações para produzir material para o ensino. O Estado do Paraná tem implementado cursos com este fim, mas não o de Santa Catarina. - A representação do MEC esclarece a vantagem de se implementar políticas de ensino (formação docente, produção de materiais, etc.) via Territórios Etnoeducacionais. As lideranças solicitam que seja agendada uma reunião para discussão sobre o Território Etnoeducacional Guarani. Após consulta ao MEC, esta reunião ficou agendada para 26 a 28 de outubro de 2011, em São Paulo.

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2. A Língua e os Sistemas de Saúde Avaliação

-Em muitas aldeias, não se fala o Guarani nos postos de saúde e em outras o atendimento é somente em português. -Quando precisam ir a hospitais, não conseguem saber qual é a doença. Há dificuldade para o atendimento, para os exames. As mulheres não estão habituadas a exames. Os homens também não. Às vezes as índias fazem cesariana sem necessidade. Seria importante ter um acompanhante bilíngue.

ENCAMINHAMENTOS -Promover uma capacitação especifica para o agente de saúde. É fundamental que a capacitação aconteça dentro da comunidade e que os formadores tomem em conta a realidade da aldeia. -É preciso que as lideranças e agentes de saúde promovam a escrita em Guarani dentro do posto para facilitar o acesso ao atendimento. - A população indígena tem acesso à saúde integral, regulamentada pela Constituição. Liderança guarani esclareceu que houve avanço neste sentido, com incentivo aos hospitais para atendimento diferenciado. A lei regulamentou o atendimento na aldeia. No entanto, não há um entendimento da situação de indígenas que moram fora das aldeias. -Levar o pajé ao hospital é uma tendência. Faz parte do atendimento diferenciado. -Em Santa Catarina, tem acontecido do médico ter contato com o líder espiritual guarani, articulando a medicina tradicional e a de laboratório.

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- Há o programa Hospital Amigo do Índio. Foi sugerido de se buscar a lei e ver estratégia para implementá-la.

3. A Língua e a Imprensa Avaliação

- Há muita comparação com a língua Guarani do Paraguai, que não é indígena. A imprensa divulga notícias que prejudicam os Guarani. - Há pouca divulgação sobre os Guarani e quando há, é negativa. - Hoje, tudo o que é língua guarani parece ser a mesma coisa. No entanto, há muitas diferenças.

ENCAMINHAMENTOS - Em vez de língua indígena, chamar o Guarani de língua originária do povo Guarani. Lingua originária para todas as línguas indígenas. O Canadá reconhece os povos como povos originários. No Brasil ainda são denominados de índios. Por isso seria importante trazer a debate a verdadeira história Guarani. - Desenvolver conjuntamente estratégias de promoção e divulgação da língua: publicação de jornal, produção de vídeos, material instrutivo (como está fazendo o Ministério do Desenvolvimento Social: vai publicar um livro sobre bolsa família em 33 línguas indígenas). - As instituições e lideranças podem buscar contratos com Museu do Índio para que os documentos oficiais sejam redigidos nas línguas, trabalhando assim o seu prestígio.

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- A produção de documentos (tais como relatórios das reuniões) em língua Guarani é uma estratégia de promoção da língua. O presente encontro, pela primeira vez, produziu simultaneamente relatórios nas duas línguas – Português e Guarani – ambos disponibilizados pelo IPOL. -Encaminhar ao IBC e TV Brasil uma solicitação para cota de exibição da cultura indígena na televisão. Poderia ser duas ou três vezes por semana para exibir programas. Esta proposta será enviada para as Organizações indígenas para deliberarem sobre essa participação. Foi sugerido ainda um encontro conjunto – lideranças indígenas, MEC, MinC, IPOL para formatar a proposta. - Foi sugerido um encontro para discussão da história Guarani, para a escrita dessa história. - Ficou indicada a necessidade de se criar um mecanismo de financiamento no MEC, FUNAI e IPHAN para o audiovisual. - Ficou indicada a necessidade de se criar um mecanismo de disponibilização e gestão de recursos para produção de séries de documentários, envolvendo todas as línguas brasileiras. - Considerou-se fundamental que as instituições e lideranças presentes se empenhem em estabelecer, em especial, um plano de trabalho de promoção e divulgação para as línguas reconhecidas, entre elas, o Guarani Mbya.

4. A Língua e a Produção de Conhecimento Avaliação

- A produção de conhecimentos acontece majoritariamente em Português. Ou então há uma tradução do que está disponível em Português. Uma pro-

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dução em língua Guarani deve levar em consideração a tradição guarani, o modo do guarani de falar. A produção dos materias – livros, cds, etc. – deve ter claros os objetivos. A produção somente na língua Guarani deve ser incentivada. Há pouca produção nesta língua, inclusive a escola produz pouco em língua Guarani. Fazer um desenho de casa de reza é fácil. Mas fazer a casa de reza é um conhecimento que a escola não dá. É um conhecimento transmitido em Guarani com muitas sutilidades dessa cultura. - O conhecimento não pode ser a representação, mas o fazer. E a avaliação deve ser de tudo, e não só do que está no livro. Nao é so o material final que deve ser considerado. O material de conhecimento produzido deve ser ele mesmo objeto de conhecimento. - Sobre falar Espanhol nas aldeias: as lideranças esclareceram que os que vieram da Argentina falam fluentemente e outros aprenderam a falar com eles. Demonstraram a preocupação de que a língua Guarani Mbya possa ser considerada como originária de outro país, pois quando um entrevistado indígena diz que ele sabe falar o espanhol a mídia pode achar que ele não é brasileiro.

ENCAMINHAMENTOS -É preciso mais parceria com o MEC para mais materiais para/em Guarani. -A produção de material exige pesquisa com os mais velhos. Considerou importante pensar em estratégias para esse tipo de pesquisa. - Houve um esclarecimento, por parte do diretor do IILP, de que o risco de falar o Espanhol é produzido pela ideologia do monolinguismo. No atual momento, faz parte da política do governo brasileiro e do Mercosul, criar uma

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mentalidade positiva sobre falar outra língua, que não ameace a idéia de ser brasileiro. - Foi recomendado que o INDL devesse produzir uma campanha nacional de valorização das línguas e do plurilinguismo, para modificar esse imaginário.

5. A Língua e as Atividades Culturais Avaliação

- O ILG mostra as atividades dentro da aldeia. Muitas delas não são atividades da cultura guarani, e sim da rotina da comunidade (aniversário, festas, etc.). É preciso separar estes tipos de eventos na hora de se promover políticas de valorização da cultura guarani. - O ILG mostra 12 Aldeias sem Opy no RS. As lideranças esclareceram que são na verdade acampamentos. Alguns têm mais de 20 anos, e têm área já demarcada, mas que não é reconhecida. Dentro de um ano pode ser que a situação mude e já há um projeto próprio de construção de Opy. - Coral Tenonde Porã é exemplo de sucesso. O Coral foi criado em SP em 1996, no encontro do campeonato indígena. Quatro aldeias se uniram, fizeram e lançaram o CD, hoje muito vendido.

ENCAMINHAMENTOS DO IPOL Após o Encontro, e tendo analisado as demandas e encaminhamentos registrados, o IPOL, como instituição executora do ILG, solicita que as instituições e lideranças presentes se empenhem na consecução das políticas propostas no evento, consideradas fundamentais para a ampliação da diversidade lin-

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guística no Brasil, de modo geral, e para a promoção da língua Guarani Mbya, de modo específico.

Na qualidade de Instituição que historicamente defende e promove políticas em prol dos direitos das comunidades linguísticas minorizadas, solicita especial atenção dos presentes para que façam chegar às instâncias governamentais dos Municípios e Estados inventariados pelo ILG as demandas aqui sistematizadas. Muitas das solicitações exigem uma participação efetiva e articulada dos Ministérios da Educação, Saúde, Cultura, Ciência e Tecnologia, das Secretarias de Educação, Saúde e Cultura dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de janeiro, São Paulo e Espírito Santo.

Em vista dessa articulação necessária, o IPOL recomenda a realização de uma conferência nacional sobre políticas linguísticas, que contemple as demandas não somente da comunidade linguística Guarani Mbya, mas de todas as que formam a sociedade brasileira, contemplando as instituições que as represente.

O IPOL considera que uma conferência desta natureza qualifica a política do Inventário Nacional da Diversidade Linguística – INDL, possibilitando que ela concretize seus objetivos principais, a saber, o de promover pela língua, equidade social e exercício pleno da cidadania por todos nós brasileiros.

Por: IPOL – Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística Florianópolis, 30 de setembro de 2011.

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Todos os participantes do I Encontro sobre o Inventário da Língua Guarani Mbya. Poder público, especialistas e os próprios guarani discutiram durante dois dias os rumos da língua diante das políticas públicas

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Equipe do IPOL responsável pela feitura do Inventário. Todos contribuiram significantemente para todos as fases do processo, desde a pesquisa à realização do encontro entre as lideranças


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Revista ILG  

Revista do I Inventário da Língua Guarani Mbya

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