TURISMO'19 - IPDT

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Anuário de Tendências

Entrevista a LUÍS ARAÚJO

“Os portugueses são o fator-chave do sucesso do turismo em Portugal” TENDÊNCIAS

OS ROBOTS ESTÃO AÍ DESAFIOS E OPORTUNIDADES DA ROBÓTICA NO SETOR DO TURISMO

CADERNO ESPECIAL

turismo como motor de requalificação dos centros históricos 2019 | €9,50

SUSTENTABILIDADE

QUEREMOS SER MELHORES TURISTAS?

Experiência dos turistas vs Qualidade de vida dos residentes



EDITORIAL

TURISMO EM 2019: CRESCER EM VALOR ANTÓNIO JORGE COSTA Presidente IPDT

O projeto “Turismo em” comemora treze edições numa altura em que o turismo em Portugal celebra o melhor ano de sempre da sua história. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de hóspedes em Portugal ascendeu aos 21 milhões em dezembro de 2018, mais 1,7% que no ano anterior. Os resultados positivos estendem-se às dormidas e receitas. No ano passado, o turismo nacional registou 57,6 milhões de dormidas e 16,6 mil milhões de euros em receitas, números que ultrapassam significativamente os registos de 2017.

O êxito do turismo nacional é inegável e Portugal está a fazer um trabalho notável! No entanto, mais do que crescer em número de turistas, a estratégia deve ser clara: crescer em valor, diminuir a sazonalidade e aumentar o turismo em territórios de baixa densidade. Dedicamos um artigo à análise destas questões a apresentamos 10 soluções com vista a mitigar as desigualdades territoriais e aumentar a competitividade do setor em Portugal. Como temática central para a edição deste ano trouxemos o papel do turismo enquanto motor da requalificação dos centros históricos, analisando os casos das duas maiores cidades do país. O desafio da requalificação urbana em Portugal,

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2 EDITORIAL

por via do turismo, é agora o de criar condições para que o país continue a ser o melhor destino do mundo, não só para visitar, como para viver. Esta edição foca-se também nas grandes tendências para o turismo ao longo deste ano, com especial destaque para crescente robotização que se vive no setor. Com efeito, a indústria hoteleira enfrenta uma série de desafios, incluindo a escassez de mão-deobra (sobretudo qualificada), o aumento do número de viajantes internacionais e o crescente volume de dados dos consumidores. A escassez de mão-de-obra qualificada é, aliás, um dos grandes desafios que se colocam ao setor. Cerca de 60% das 350 mil pessoas que trabalham no turismo têm formação ao nível do ensino básico. Para que Portugal continue a ser um dos destinos mais competitivos do mundo, é necessário inverter esta situação. E porque, segundo Luís Araújo, “os portugueses são o fator-chave do sucesso do turismo em Portugal”, neste número damos a conhecer um resumo da primeira edição do Programa Nacional de Qualificação da Administração Local Autárquica para o Turismo - ALA+T - cuja segunda edição terá lugar este ano. Outro dos temas em destaque é a sustentabilidade. Muitos destinos estão a implementar políticas com o objetivo de minimizar os impactos do turismo de massas. O que aqui lhe propomos é uma série de comportamentos a adotar para nos tornarmos melhores turistas. E porque a parte mais interessante de uma viagem é a sua preparação, encerramos este número com um artigo de Ricardo Pinto, que nos diz tudo o que precisamos de saber para subir o Monte Kilimanjaro.

Esperando que esta edição seja do vosso agrado, desejo a todos uma boa leitura e até ao “Turismo em 2020”! •

Anuário de tendências

TURISMO’19 DIRETOR

António Jorge Costa

EDIÇÃO

Daniela Rodrigues

DESIGN

Rita Paupério

EQUIPA EDITORIAL

Daniela Alves, Daniel Costa, João Bastos, João Gomes, Marcília Almeida

PARTICIPARAM NESTE NÚMERO

Alfonso Vargas-Sanchéz, Eduardo Santander, Francisco Calheiros, John Bowen, Luís Araújo, Manoel Baptista, Marta Guerreiro, Matt Walker, Paulo Nunes de Almeida, Ribau Esteves, Richard Butler, Ricardo Valente, Ricardo Pinto, Tim Fairhurst, Zurab Pololikashvili

DIREÇÃO DE MARKETING Mónica Montenegro

DIREÇÃO DE COMUNICAÇÃO Daniela Rodrigues

CONSULTOR EDITORIAL Richard Teare

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ISSN 1647-6247 Depósito Legal 253208/07

IMAGENS

Adobe Stock, IPDT, Pexels

TIRAGEM

5000 exemplares

ANO XIII

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


Negócio e lazer em Macau. Uma dupla feliz. Macau é o sítio ideal para se combinar uma viagem de negócios com um ou vários dias extra de lazer, uma tendência que se tem vindo a verificar, devido à grande diversidade de atracções e às condições excelentes para este tipo de viajante exigente, com ou sem acompanhante. Uma porta para a China desde há séculos, Macau sabe receber bem, como atestado pelo número crescente de espaços interessantes para reuniões de qualquer envergadura e para os gostos mais diversificados. Alguns dos locais incluídos no “Centro Histórico de Macau”, listado como Património Mundial da Humanidade desde 2005, até podem ser alugados para eventos, o que lhes confere um sabor histórico invulgar, mas tão típico de Macau. O salto para o século XXI é visível no contínuo desenvolvimento de infraestruturas modernas e sofisticadas nas margens da península de Macau, na Ilha da Taipa e no aterro conhecido por “Cotai”, entre as ilhas da Taipa e Coloane, sendo o último o local da maior concentração de hotéis e “resorts” do topo de gama em Macau, de espaços para exposições e reuniões, centros comerciais, restaurantes, bares, clubes e entretenimento, facilmente a percorrer a pé. Nos últimos anos Macau tem primado no sector da gastronomia,

embora comer bem seja, desde sempre, uma paixão e realidade nesta região do mundo. Em finais de 2017, Macau integrou a rede de Cidades Criativas da UNESCO, na área de gastronomia. E no recém-publicado Guia Michelin Hong Kong / Macau, Macau soma 19 restaurantes de várias cozinhas – chinesas, japonesa, italiana, francesa - com um total de 30 estrelas Michelin, o que é extraordinário para um território tão pequeno. Na distinção “Bib Gourmand”, conferida aos restaurantes que oferecem menus de três pratos por menos de 40 Euros, encontra-se um restaurante de comida portuguesa entre os nove estabelecimentos indicados em Macau. À excelência deste “hardware” acrescenta a história multifacetada de Macau, visível nos seus templos e igrejas, nas fortalezas e parques, nos museus e nas praças públicas, tornados vivos pelos seus habitantes de origens tão diversas, com um rico calendário de eventos que ilustram a multiculturalidade vivida diariamente em Macau. Na área do entretenimento cultural e desportivo, espectáculos e competições de grande nível e com estrelas mundiais atraem os fãs regularmente aos estádios, arenas e teatros, para além de existirem shows residentes ao longo de vários meses em diversos “resorts”. Fica o convite: Venha Sentir Macau ao Seu Estilo!

Para mais informações ou sugestões contacte: Centro de Promoção e Informação Turística de Macau em Portugal Av. 5 de Outubro, 115 r/c LISBOA Tel: (+351) 217 936 542 E-mail: geral@turismodemacau.com.pt www.turismodemacau.com.pt


4 DESTAQUES

A RELEVÂNCIA DO TURISMO NA CHEGADA DE 2019 006

INSTITUCIONAL

BARÓMETRO DO TURISMO EDIÇÃO ESPECIAL

PORTUGAL

onde e como queremos crescer?

010

022

TENDÊNCIAS

PORTUGAL

CINE-TURISMO: QUANDO O CENÁRIO SE TORNA O DESTINO

Portugal melhor destino turístico do mundo

032

040

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


DESTAQUES

5

À CONVERSA COM

LUÍS ARAÚJO TURISMO DEPORTUGAL

CADERNO ESPECIAL

046

TENDÊNCIAS

OS ROBOTS ESTÃO AÍ

TURISMO COMO MOTOR DE REQUALIFICAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS

DESAFIOS E OPORTUNIDADES

090

064

QUEREMOS SER MELHORES TURISTAS?

POLE! POLE! OU COMO SUBIR LENTAMENTE O KILIMANJARO

SUSTENTABILIDADE

VIAGENS

100

117 TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


6 INSTITUCIONAL

A relevância do turismo na chegada de 2019

Zurab Pololikashvili Secretário Geral Organização Mundial do Turismo

PORTUGAL PROVOU SER LÍDER EM INOVAÇÃO E EDUCAÇÃO.

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


INSTITUCIONAL

OS NÚMEROS MAIS RECENTES DA OMT REVELAM QUE AS CHEGADAS DE TURISTAS INTERNACIONAIS CRESCERAM 5% EM 2018.

No ano passado, Portugal recebeu o Prémio da OMT para Políticas Públicas na Educação e, este ano, mostrou um forte apoio aos nossos concursos para start ups, implementando políticas que apoiam os empresários. Como a digitalização provoca uma rutura positiva em todos os setores económicos, o turismo está a tornar-se uma das maiores atividades humanas de um mundo mais conectado, informado e voltado para o exterior - e um dos mais impactantes nas economias, sociedades e meios de subsistência. Enquanto setor, devemos adaptar-nos às mudanças das tendências de consumo, garantindo, ao mesmo tempo, que, quando há crescimento, há também um compromisso crescente para com o desenvolvimento sustentável. Ao olharmos para 2019, devemos fazer um balanço das tendências que afetam o setor e explorar como o turismo pode responder aos desafios que se colocam.

O TURISMO MUNDIAL CONTINUARÁ A CRESCER EM 2019. No entanto, precisa de continuar a adaptar-se à transformação digital que vemos em todos os setores. O investimento contínuo em tecnologias digitais disruptivas é fundamental para promover a inovação e o empreendedorismo. Por sua vez, traz oportunidades para alcançar objetivos dentro da Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, incluindo inclusão, fortalecimento da comunidade, gestão eficiente de recursos e criação de empregos dignos e equitativos. São necessárias novas políticas capazes de maximizar o potencial do turismo para criar mais e melhores empregos, impulsionados pelos avanços tecnológicos. O principal foco da OMT para 2019 será a promoção de oportunidades de educação e o desenvolvimento de competências que possam ajudar a melhorar o emprego no turismo. As comemorações oficiais do Dia Mundial do Turismo em 2019, que decorrem na India a 27 de setembro, serão dedicadas a explorar de que forma pode o turismo proporcionar empregos dignos. Vale a pena destacar a considerável contribuição do turismo para a geração de empregos, em comparação com outros setores. O turismo é responsável por um em cada dez empregos em todo o mundo. Estima-se que um emprego no setor do turismo crie cerca de um e meio empregos, adicionais ou indiretos, nas economias relacionadas. O turismo também provou ser uma atividade económica resiliente. Após a crise económica global de 2010, o número de chegadas de turistas internacionais em todo o mundo cresceu 4% ou mais. Portugal é pois um exemplo da resiliência e confiabilidade para o setor. Tendo resistido à crise, as chegadas internacionais mais do que dobraram no país, entre 2015 e 2017, e parecem dar sinais de continuar a crescer de forma constante. No entanto, precisamos de políticas e ações para equilibrar o desajuste que existe entre as competências de turismo que são ensinadas e aquelas que os empregadores de turismo efetivamente precisam. Devem também abordar os desafios do emprego justo, que colocam as mulheres, jovens e comunidades rurais em risco de discriminação no mercado

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8 INSTITUCIONAL

de trabalho do turismo. Para tal é necessária uma abordagem mais holística do futuro do trabalho no setor, com oportunidades educacionais e cooperação, bem como vontade política para que o turismo esteja vinculado a outros setores económicos importantes. A OMT iniciou o ano com a 2ª Conferência Global sobre Empregos e Crescimento Inclusivo na Jamaica, em janeiro, que se concentrou em apoiar os principais criadores de emprego e inovadores do turismo, micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). O acesso ao financiamento, a proibição de regulamentações comerciais e competências desadequadas são os principais obstáculos que as MPMEs enfrentam, inclusive as de turismo. Para apoiar o crescimento e a inovação contínuos do turismo, os legisladores devem procurar criar um ambiente favorável às MPMEs que melhorem as suas perspetivas económicas, superem os obstáculos ao trabalho digno e garantam que as suas atividades sejam ambientalmente sustentáveis. A importância da qualidade e da educação relevante para o emprego no turismo serão tópicos cada vez mais importantes à medida que o setor sofre transformações. A lacuna existente entre as qualificações disponíveis e a realidade do local de trabalho é um fator importante que afeta o emprego no turismo e o desenvolvimento de talentos, resultando muitas vezes na escassez de mão-de-obra com competências “à prova do futuro”. Para desenvolver as competências necessárias para futuras oportunidades de trabalho, incluindo soft skills, os programas de educação em turismo devem ser revistos por instituições de ensino, setor privado, governos e parceiros tecnológicos. Para além disso, será necessário apoiar estágios ou bolsas de estudo, juntamente com educação e formação especializadas - particularmente em inovação e desenvolvimento de competências tecnológicas.

AS PERSPETIVAS PARA O TURISMO, UM SETOR ROBUSTO E FIÁVEL QUE CONTRIBUI DE FORMA INESTIMÁVEL PARA A ECONOMIA MUNDIAL E PARA A AGENDA 2030, SÃO EXTREMAMENTE POSITIVAS. Com o fluxo constante de informações e conexões que temos hoje em dia, é necessário adaptação para que as mudanças na tecnologia e nos comportamentos dos consumidores se traduzam em oportunidades de maior prosperidade e qualidade de vida, sem esquecer a sustentabilidade social e ambiental. Na OMT, continuaremos a trabalhar com os nossos parceiros a fim de posicionar o setor como uma prioridade política e estabelecer uma liderança de pensamento ao nível do conhecimento e da criação de políticas para o desenvolvimento do turismo. •

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10 BARÓMETRO CAPÍTULO DO TURISMO

BARÓMETRO DO TURISMO EDIÇÃO ESPECIAL

01.

COMPARANDO COM 2018, COMO PERSPETIVA A EVOLUÇÃO DOS SEGUINTES INDICADORES DO TURISMO NACIONAL PARA 2019?

MELHOR IGUAL PIOR

RECEITAS TURÍSTICAS

15,6%

Nº DE DORMIDAS NA HOTELARIA

18,7%

Nº DE TURISTAS

18,7%

GASTO MÉDIO POR TURISTA

37,5%

10%

34,4%

46,9%

39,1%

42,2%

10,9% 0%

46,9%

48,4% 20%

30%

40%

40,7% 50%

60%

70%

80%

90%

100%

A maioria dos inquiridos acreditam que os indicadores irão verificar uma evolução positiva, do turismo em Portugal, em 2019. Nota, porém, para o facto de cerca de 16% dos respondentes, em média, nos 4 indicadores, referirem que 2019 terá resultados piores que os de 2018.

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BARÓMETRO DO TURISMO

02. EUA

COMPARANDO COM 2018, COMO PERSPETIVA PARA 2019, A EVOLUÇÃO DO TURISMO NACIONAL NOS MERCADOS ABAIXO:

74,6%

22,8%

1,6%

CHINA

66,7%

31,7%

1,6% BRASIL 17,7% FRANÇA

53,2%

29,1% 39,7%

14,3%

41,3%

PORTUGAL 7,9% ESPANHA

36,5% 33,4% 12,8% 32,3%

ALEMANHA 15,3%

58,7% 53,8% 48,4%

30,7%

66,1%

3,2% 23,1%

HOLANDA

12,9% 21,3%

RÚSSIA 14,8%

20,9%

ITÁLIA

19,4% 14,5%

IRLANDA REINO UNIDO

50,8%

4,8%

BÉLGICA

JAPÃO

46,0%

19,4% 7,9%

25,4%

53,1% 63,9% 59,7% 66,1% MELHOR IGUAL

66,7%

PIOR

Os E.U.A. deverão ser o país com maior crescimento turístico em Portugal. Também a China, o Brasil e a França apresentarão resultados positivos. Os mercados português, espanhol, belga, alemão, japonês e holandês deverão crescer moderadamente ou manter-se. Já o mercado britânico deverá continuar a cair, em resultado do efeito Brexit.

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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12 BARÓMETRO CAPÍTULO DO TURISMO

03.

EM 2019, QUAL SERÁ A REGIÃO PORTUGUESA COM MAIOR POTENCIAL DE CRESCIMENTO? 35,9%

PORTO E NORTE 25,0%

LISBOA E VALE DO TEJO

21,9%

AÇORES ALENTEJO CENTRO

9,4% 7,8%

ALGARVE 0,0% MADEIRA 0,0%

Um em cada três inquiridos afirma que o Porto e Norte de Portugal será a região que mais irá crescer em 2019. Seguem-se as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Açores.

04.

QUAL DEVERÁ SER A APOSTA PARA 2019, COM O OBJETIVO DE MELHORAR A COMPETITIVIDADE DE PORTUGAL COMO DESTINO TURÍSTICO?

7,4% 3,7%

31,5%

5,6%

QUALIDADE DOS RH, DO SERVIÇO, DA OFERTA E DO PRODUTO SEGURANÇA, LIMPEZA, ACESSIBILIDADES E IMAGEM DO PAÍS REFORÇO DA PROMOÇÃO E CRIAÇÃO DE EVENTOS

5,6%

REFORÇO DE ROTAS AÉREAS/AUMENTO DE CAPACIDADE/ NOVO AEROPORTO LISBOA DIVERSIFICAÇÃO DE DESTINOS DO INTERIOR/ ACESSOS E DINAMIZAÇÃO DE EVENTOS NO INVERNO

9,3%

MELHORIA DA RELAÇÃO QUALIDADE/PREÇO REGULAÇÃO/FISCALIZAÇÃO DO SETOR/REDUÇÃO DO IVA DIVERSIDADE E COMPLEMENTARIDADE DE PRODUTOS

9,3% 16,7% 11,1%

TURISMO’19 _ANUÁRIO TURISMO’19_ ANUÁRIODE DETENDÊNCIAS TENDÊNCIAS

OUTROS


BARÓMETRO DO TURISMO

05.

QUAIS OS FATORES QUE TERÃO UM IMPACTO MAIS POSITIVO NO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO PORTUGUÊS EM 2019?

24,5%

SEGURANÇA E ESTABILIDADE ECONÓMICA E POLÍTICA 17,6%

QUALIDADE E DIVERSIDADE DO PRODUTO E DA OFERTA TURÍSTICA

13,7%

NOTORIEDADE E BOA IMAGEM DO DESTINO

12,7%

RELAÇÃO QUALIDADE/PREÇO

9,8%

LOCALIZAÇÃO, CLIMA E HOSPITALIDADE

7,8%

REFORÇO DAS LIGAÇÕES AÉREAS E CAPACIDADE AEROPORTUÁRIA

06.

PROMOÇÃO E COMUNICAÇÃO

3,9%

PLANEAMENTO ESTRATÉGICO E EVENTOS

3,9%

INSTABILIDADE EM MERCADOS CONCORRENTES

2,9%

OUTROS

2,9%

QUAIS OS FATORES QUE TERÃO UM IMPACTO MAIS NEGATIVO NO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO PORTUGUÊS EM 2019?

19,8%

CRESCIMENTO DOS MERCADOS CONCORRENTES/GEOPOLÍTICA

17,8%

FALTA DE VOOS E ACESSIBILIDADES AÉREAS/AEROPORTO DE LISBOA 12,9%

EXCESSIVA CONCENTRAÇÃO GEOGRÁFICA/DESIGUALDADES TERRITORIAIS INSTABILIDADE/GREVES E EXCESSO DE TAXAS/FISCALIDADE

9,9%

BREXIT | DESVALORIZAÇÃO DA LIBRA

9,9%

ESCASSEZ/REDUÇÃO DE QUALIDADE DOS RH E DO SERVIÇO/PRODUTO PRESTADO AUMENTO DOS PREÇOS E CRESCIMENTO EXCESSIVO DA OFERTA

7,9% 6,9%

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, INCÊNDIOS, LIMPEZA, SINALÉTICA E SEGURANÇA

5,0%

DESACELERAÇÃO DO CRESCIMENTO ECONÓMICO EUROPEU/MUNDIAL

5,0%

OUTROS

5,0%

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

13


14 BARÓMETRO CAPÍTULO DO TURISMO

07.

EM 2019, QUAL DEVERÁ SER O PRODUTO TURÍSTICO CENTRAL, A COMUNICAR INTERNACIONALMENTE POR PORTUGAL? 30,2%

TOURING CULTURAL E PAISAGÍSTICO TURISMO DE NATUREZA

12,7%

CITY BREAKS

12,7% 12,7%

SOL E MAR

11,1%

TURISMO DE NEGÓCIOS

7,9%

SAÚDE E BEM ESTAR

7,9%

GASTRONOMIA E VINHOS

4,8%

OUTROS TURISMO RESIDENCIAL

0,0%

TURISMO NAÚTICO

0,0%

GOLFE

0,0%

TURISMO RELIGIOSO

0,0%

A multiplicidade de produtos turísticos verifica-se nas respostas obtidas. Para 2019, os inquiridos referem que Portugal deverá comunicar internacionalmente as suas múltiplas vertentes turísticas, em particular no Touring Cultural e Paisagístico, seguindo-se o de Sol e Mar, os City Breaks e o turismo de Natureza.

FICHA TÉCNICA Universo: 159 membros | Respostas: 64 | Período de auscultação: 10 a 18 outubro de 2018 | Tratamento dos dados: IPDT

MEMBROS DO PAINEL Alexandre Abade (Oásis Atlântico Holding); Alexandre de Almeida (Hotéis Alexandre de Almeida); Alves de Sousa (Hotel Britania – Hotéis Heritage); Ana Barbosa (TurAventur); Ana Ferro (Galerias Paris Porto); Ana Salazar (Universidade Fernando Pessoa); Anabela Almeida (Consolidador.com); Anabela Correia (Inatel Turismo); André Barreto (Estalagem Quintinha São João); Andrew Zino (Nature Meetings); António Belmar da Costa (AGEPOR - Associação dos Agentes de Navegação de Portugal); António Ceia da Silva (Turismo do Alentejo); António Condé Pinto (APHORT); António Diogo (Welcome Portugal - Viagens e Turismo); António Fernandes (ACIF-CCIM); António Lacerda (Agência Promoção Turística do Alentejo); António Loureiro (Travelport); António Martinho; António Mota; António Trindade (Porto Bay); António Vidal (APECATE- Ass. Port. Emp. Congr. Anim. Turística e Eventos); Armando Conceição; Assis Correia (Associação Comercial e Industrial do Funchal); Bruno Pereira (Câmara Municipal do Funchal); Cândido Mendes (Federação Portuguesa de Turismo Rural); Carina Monteiro (Workmedia, Publituris); Carlos Costa (Nau Hotels); Carlos Fernandes (ESTG-IPVC); Carlos Martins (Solmelia); Carlos Martins (OPIUM); Carlos Paneiro (TAP Portugal); Carlos Torres (ESHTE); Carolina Morgado (Revista Turisver); Conceição Estudante; Correia da Silva (TT-ThinkTur); Cristina Ávila (Associação de Turismo dos Açores); Cristina Dias; Cristina Gouveia (Citur); Cristina Siza Vieira (Associação da Hotelaria de Portugal); Desidério Silva; Domingos Silva; Duarte Correia (World2Meet); Eduardo Cabrita (MSC Cruzeiros); Eduardo Jesus; Eduardo Souto Moura (AICEP); Fátima Vila Maior (FIL - Feira Internacional de Lisboa); Fernando Fernandes (Quinta das Escomoeiras); Fernando Vieira (ANA Aeroportos, S.A.); Francisco de Calheiros (Associação de Turismo de Habitação); Francisco Teixeira (Melair); Frèdéric Frère (Travelstore); Frederico Costa (Pousadas de Portugal); Gama Mor (TAP Portugal); Gavin Eccles; Gonçalo Salgado (GeoStar); Hélio Loureiro (Hotel Porto Palácio); Henrique Moura; Henrique Montelobo (Onyria Resorts); Henrique Veiga (Aequitate); Isabel Cardoso (Bairent); Isabel Morais (Sogrape Vinhos); Isabel Pilar (Cosmos); Jan E. Ringertz (The Yeatman); João Fernandes (Região de Turismo do Algarve); João Monteiro (Hotéis Rurais de Portugal); Joaquim Ribeiro (J.A.S.E. – Empreendimentos Turísticos); João Paulo Reis (Scalivete); João Silva (Team Quatro); João Welsh (TopAtlântico Madeira); Joaquim Almeida (ARAC); Joaquim Anes Pinto (Hotel Beach & Golf); Joaquim Antunes (Instituto Politécnico de Viseu); Jorge Abrantes (Turismo de Portugal, IP); Jorge Aníbal Catarino; Jorge Gassin (Barceló Hotel Beds); Jorge Humberto (Turismo Região de Lisboa); Jorge Jesus; Jorge Marrão (Deloitte); Jorge Rebelo de Almeida (Grupo Vila Galé); Jorge Rodrigues (Templar - Rotas e Destinos Turísticos); Jorge Umbelino (Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril); José Arimateia (Visabeira Turismo); J. Carlos Pinto Coelho (Onyria Resorts); José Elias (Revista Turisver); José Roquette (Grupo Pestana); Júlio Meirinhos; Júlio Mendes (Universidade do Algarve); Lourenço Marçal (Grupo Continental); Luciano Gouveia (Palheiro Estate); Luigi Valle; Luís Luz; Luís Marques (AETUR); Luís Monteiro D´Aguiar (Eurofun); Luís Patrão; Luís Veiga (Natura - IMB Hotels); Manuel Dias (MDTUR); Manuel Fialho (Restaurante “O Fialho”); Manuel Marques (Douro Azul, S.A.); Manuela Sarmento (Universidade Lusíada); Maria José Catarino (Hoti Hotéis); Maria José Silva (RAVT); Mário Ascenção (HAAGA-HELIA - University of Applied Sciences); Margarida Belém (Câmara Municipal de Arouca), Mário Ferreira (Douro Azul, S.A.); Mário Gonçalves (AHRESP); Marta Bensaúde Pires (Bensaude Turismo); Marta Guerreiro (Secretaria Regional da Energia, Ambiente e Turismo dos Açores); Marta Sá Lemos (APDL); Melchior Moreira; Miguel Cymbron (VIP Hotels); Miguel Júdice (Quinta das Lágrimas); Miguel Moital (Universidade de Bournemouth); Miguel Rui (El Corte Inglés); Miguel Simões de Almeida; Miguel Sousinha; Miguel Velez; Mónica Fernandes (Lisboatur); Nazir Din (SANA Hotels Portugal); Noel Dias; Nuno Azevedo; Nuno Fazenda (Turismo de Portugal, IP); Nuno Santos (Solferias); Orlando Carrasco (International Consultants Iberia); Paulo Águas (Universidade do Algarve); Paulo Lei (Ferpinta Turismo); Paulo Mendes (Airmet); Paulo Parreira (Sítios); Paulo Rita (ISCTE); Paulo S. Cunha (Casa da Música); Pedro Aires Abreu (AICEP); Pedro Ferreira (APAVT); Pedro Gordon (GEA Portugal); Pedro Lopes (Grupo Pestana); Pedro Machado (Turismo do Centro); Pedro Pereira (Hotel Miraparque); Pedro Silva (Turismo do Centro); Raul Geraldes (Pelicano Travel); Ricardo Magalhães (CCDR-N); Rita Soares (Martins Soares); Roberto Gomes (Associação de Promoção da Madeira - APM); Rocha de Matos (Associação Industrial Portuguesa); Rodolfo Faustino; Rodrigo Machaz (Memmo Baleeira Hotel); Rosário Torres Costa (Turismo de Portugal, IP); Rui Ochôa (Event Point); Salvador Alves Dias (Associação de Jornalistas Portugueses de Turismo); Sancho Silva (Cestur); Sandra Carvão (Organização Mundial do Turismo – OMT); Sónia Almeida (ADERE); Susana Ribeiro; Susana Luz (Air Plus International); Teresa Vieira (Sociedade de Turismo da Feira); Tiago Raiano (New Tour Azores, SA); Valente de Oliveira (Associação Empresarial de Portugal); Vasco Malaquias de Lemos; Virgínia Trigo (ISCTE); Vítor Fraga (SDEA); Vítor Neto (Ex-Secretário de Estado do Turismo); Vítor Silva (Turismo do Alentejo).

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16 TENDÊNCIAS

O QUE HÁ DE NOVO EM 2019 01. GEOPOLÍTICA DESPESAS TURÍSTICAS INTERNACIONAIS:

ANO DAS INCERTEZAS GEOPOLÍTICAS 2019 será um ano marcado pela incerteza e por algum tumulto em termos políticos e geoestratégicos um pouco por todo o mundo e com impacto no turismo.

1º CHINA

258 mil milhões US$

Além de ser o ano das decisões quanto ao Brexit, também a relação comercial entre os EUA e a China e o crescente fenómeno do populismo na América Latina, serão assuntos que vão marcar a agenda de 2019 e que afetarão a política e a economia e, por essa razão, também a atividade turística.

AS INCERTEZAS PARA O TURISMO:

2º E.U.A.

135 mil milhões US$ TOTAL 1.340 mil milhões US$

Brexit: • Preços das viagens aéreas entre o Reino Unido e a União Europeia caso não haja acordo; • Validade dos passaportes dos cidadãos britânicos; • Seguros aquando de viagens na U.E.. Caso não se concretize qualquer acordo, os cartões europeus de saúde registados no R.U. deixarão de ser válidos.

E.U.A. e China: • Os problemas diplomáticos entre ambos resultam no receio de viajar entre estes países - E.U.A. e China já aconselharam os seus nativos a evitar viajar para o outro país; • Este são os dois mercados emissores mais importantes do mundo - o 1º e o 2º em 2017 em despesas turísticas internacionais. Em 2017 quase 1/3 da despesa mundial veio de turistas residentes nestes países.

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TENDÊNCIAS

02. MERCADOS A COMPANHIA NAS VIAGENS JÁ NÃO É REQUISITO AS VIAGENS A SOLO EM CRESCIMENTO Não é novo no turismo, mas o segmento dos viajantes a solo está a ganhar uma relevância cada vez maior e 2019 será o ano em que se afirmará definitivamente no mercado turístico.

O PORQUÊ DA VIAGEM A SOLO: • Não precisam de ceder às vontades do companheiro de viagem; • Tomam todas as decisões para o seu próprio benefício; • Fazem uma melhor gestão do tempo.

ALGUNS NÚMEROS: • 40% dos viajantes em 2018 são Baby Boomers que fizeram uma viagem a solo. Cerca de 21% do público analisado afirma que vai fazer uma viagem sozinho no futuro próximo. Fonte: Booking.com num estudo a 20.500 viajantes mundiais em 2018

• 25% dos Millennials Americanos pretendem fazer uma viagem a solo nos próximos 12 a 24 meses.

QUEM É? Idade 51% - mais de 65 anos 32% - 55 aos 65 anos Género 88% - feminino Quando procuram informação 32% 6 meses antes 23% 1 ano antes 18% 3 meses antes Como pesquisam informação 95% internet 67% plataforma “Solo Traveller” 32% brochuras 32% família e amigos 28% jornais e revistas 27% documentários na TV Modo de reserva da viagem 60% forma independente 40% agência ou operador turístico Tipo de viagens preferidas 47% excursão em grupo 43% city breaks 41% caminhada/ hiking 38% comboio 36% atividades educativas (gastronomia, pintura, línguas) 34% cruzeiro fluvial Mês preferido 57% outubro 55% setembro 48% maio 45% abril O que valoriza mais enquanto viajante a solo 82% tours, cruzeiros, resorts sem suplementos single 81% hotéis com quartos single ou tarifas para viajantes a solo 50% mais opções de suplementos gratuitos em cruzeiros 31% mesas comunitárias em restaurantes

Fonte: Travel Agent Central Fonte: Solo Traveler

• 36% dos viajantes asseguram que no futuro pretendem fazer pelo menos uma viagem sozinhos.

Este estudo teve 1118 respostas e faz parte do “Reader Survey” do Solo Traveler, a principal plataforma online de viajantes a solo.

Fonte: Travel Leaders Group

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18 TENDÊNCIAS

MELHORES DESTINOS A SOLO SEGUNDO A CONDÉ NAST TRAVELLER

AVENTURA

CITY BREAK

CANADÁ

NOVA IORQUE

CULTURA

FAZER AMIGOS

SINGAPURA

BELFAST

COMER E BEBER

AUSTIN (TEXAS)

SURF

PORTUGAL

DESTINOS MAIS SEGUROS PARA VIAJAR SOZINHO segundo a WeGoPlaces

1. SINGAPURA 2. NORUEGA 3. ISLÂNDIA 4. FINLÂNDIA 5. UZBEQUISTÃO FONTE: A agência de viagens Wegoplaces em conjunto com o gabinete de negócios estrangeiros britânico, elaborou um “Relatório de Segurança de Viagens a Solo 2019”. Os dados foram obtidos a partir do Relatório Global de Leis e Pedidos da Gallup, do Global Peace Index 2018 e das diretrizes do gabinete de negócios estrangeiros do Reino Unido. A Gallup questionou moradores de 142 países sobre como se sentem seguros a caminhar sozinhos à noite, a confiança que têm na polícia local e se já foram agredidos ou assaltados, entre outras coisas. Depois, compilaram as respostas “positivas” numa pontuação do Índice de Lei e Ordem para cada país. Quanto maior a pontuação, maior o sentimento de segurança da população.

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TENDÊNCIAS

03. PORTUGAL O ANO DOS INVESTIMENTOS PÚBLICOS COMO HÁ MUITO NÃO SE VIA EXPANSÃO AEROPORTUÁRIA DE LISBOA / ASSINADA EM 2019 / 1,3 MIL MILHÕES DE EUROS A expansão aeroportuária de Lisboa, cujo acordo entre o Estado português e a ANA - Aeroportos de Portugal foi assinado em janeiro de 2019, contempla a criação do Aeroporto do Montijo e a expansão do Aeroporto Humberto Delgado. O aeroporto do Montijo, cuja abertura está prevista para 2022, será “vocacionado para ligações ponto-a-ponto e de médio curso”, segundo Pedro Marques, antigo Ministro do Planeamento e Infraestruturas do atual Governo. Este terá 36 posições de estacionamento de aeronaves, 25 das quais de contacto, permitindo registar 24 movimentos por hora. A expansão do Aeroporto Humberto Delgado vai reforçar o seu estatuto enquanto hub da região. Com as obras, o aeroporto poderá registar até 48 movimentos por hora. O custo desta expansão será suportado pela concessionária privada, a ANA/VINCI Aeroportos, sem utilização de fundos públicos. Até 2028, o investimento da concessionária será superior a 1,3 mil milhões de Euros. Este será dividido aproximadamente da seguinte forma: • 50% no Aeroporto Humberto Delgado; • 40% no Aeroporto do Montijo; • 10% para a Força Aérea (para compensar a Força Aérea pelo uso da base) e para reforço/melhoria das acessibilidades.

EXPANSÃO DO METRO DO PORTO E DO METRO DE LISBOA / INTERVENÇÕES COMEÇAM EM 2019 / 517 MILHÕES DE EUROS Em dezembro de 2018 o Conselho de Ministros aprovou os projetos de expansão das empresas do Metro de Lisboa e do Metro do Porto. A expansão do Metropolitano de Lisboa contempla a construção de um novo troço de dois quilómetros entre o Rato e o Cais do Sodré, com a construção de duas novas estações (Estrela e Santos). A empreitada inclui ainda a remodelação das instalações do Cais do Sodré e intervenções nos viadutos do Campo Grande, de forma a ligar as atuais linhas Verde e Amarela. Quanto ao Metro do Porto prevê-se a construção de uma nova linha (Linha Rosa) entre a Casa da Música e São Bento, numa extensão de 2,8 quilómetros e com quatro novas estações subterrâneas (Casa da Música, Galiza, Hospital de Santo António e São Bento). A empreitada contempla também a expansão da Linha Amarela, entre Santo Ovídio e Vila d’Este, com um troço de 3,2 quilómetros e três novas estações (Manuel Leão, Hospital Santos Silva e Vila d’Este). Os trabalhos, tanto no Metro do Porto, como no Metro de Lisboa, terão início no primeiro semestre de 2019, prevendo-se a sua conclusão em 2023. A expansão no Porto terá um custo superior a 307 milhões de euros, comparticipados em 107 milhões de euros por fundos comunitários (PO SEUR), enquanto que a de Lisboa vai-se cifrar nos 210 milhões de euros com a comparticipação de 83 milhões de euros através de fundos comunitários (PO SEUR).

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20 TENDÊNCIAS

04. MARKETING CONFIANÇA CADA VEZ MAIOR NOS INFLUENCERS As marcas têm apostado cada vez mais na promoção dos seus produtos através de influencers (bloggers/ instagrammers/ youtubers) e no turismo acontece exatamente esse fenómeno. A crescente “influência dos influencers” no processo de tomada de decisão dos turistas não deve ser ignorado pelas empresas e decisores da atividade turística. Ainda assim, a verdadeira novidade de 2019 é a alteração do perfil do influencer, isto em termos globais. Hoje não são só os influencers que começaram nos seus quartos e sem seguidores que têm protagonismo nos canais digitais, pois as celebridades também começam a criar conteúdo nas suas redes sociais, acabando por influenciar as decisões e ações dos seus fãs/seguidores. Ao mesmo tempo, as marcas/destinos turísticos vão procurar cada vez mais estabelecer uma relação duradoura com os influencers (em vez de “ações one-off”), tendo em conta os resultados positivos que têm sido gerados.

EM PORTUGAL

CANDIDATOS AO PRÉMIO INFLUENCERS NO TURISMO DA FEIRA DAS VIAGENS BLOGGER

INSTAGRAMMER

YOUTUBER

• Viaje Comigo (www.viajecomigo.com) • Fugas (www.publico.pt/fugas) • Viagens & Miúdos (www.viagensemiudos.pt) • Alma de Viajante (www.almadeviajante.com) • Nomad Revelations (www.joaoleitao.com) • Viajar Entre Viagens (www.viajarentreviagens.pt) • Sapo Viagens (www.viagens.sapo.pt) • Contramapa (www.contramapa.com) • Daily Cristina (www.dailycristina.com) • Turista Profissional (www.turistaprofissional.com) • Casal Mistério (www.casalmisterio.com)

• Nomad Revelations (@joaoleitaoviagens) • Viajar Entre Viagens (@viajarentreviagens) • Viagens a 4 (@viagensa4) • Joana & André (@honeymooners) • Joel Santos (@joelsantosphoto) • Carlos Bernardo (@omeuescritorioelafora) • Carina & Ivo (@onewayticketrip) • Matilde e Miguel (@travelb4settle) • Elefante de papel (@ritaferrorodrigues) • João Cajuda (@joaocajuda)

• João Cajuda (@joaocajuda) • Elefante de papel (@elefantedepapel) • Bumba na Fofinha (@bumbanafofinha)

www.premioinfluencersfeiradasviagens.pt

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TENDÊNCIAS

O QUE SÃO AS “PROGRESSIVE WEB APPS”? Aplicações móveis acedidas através da web. Funcionam como uma aplicação nativa mas não é necessário fazer o download numa “app store”. A aplicação “corre” unicamente no web browser.

A MENOR IMPORTÂNCIA DAS APP’S EM 2019, 1 EM CADA 5 MARCAS VÃO ABANDONAR AS SUAS APLICAÇÕES MÓVEIS A aposta nas aplicações móveis não tem dado os resultados que as marcas esperariam há uns anos atrás e isso justifica a elevada taxa de abandono em 2019 pelas marcas. Os números são da Gartner, uma empresa de referência mundial em consultoria e investigação, que identifica as “progressive web apps” como alternativa. O impacto no turismo poderá ser expressivo já em 2019, tendo em conta a aposta significativa nos últimos anos das marcas e empresas da área no desenvolvimento de aplicações móveis para a melhoria da experiência do visitante. •

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Turismo em Portugal

Onde e como queremos crescer?

2018 FOI O MELHOR ANO DE SEMPRE PARA O TURISMO NACIONAL Em 2017, Portugal ultrapassou a meta dos 20 milhões de turistas. No ano passado alcançamos mais de 21 milhões.

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PORTUGAL

Segundo dados do INE (Instituto Nacional de Estatística), o país recebeu 21,05 milhões de hóspedes em 2018, um acréscimo de 1,7% face a 2017. Dos 21 milhões de turistas que chegaram a Portugal em 2018, 12,8 milhões eram internacionais, mais 0,4% face a 2017. Uma subida ligeira, depois do aumento de 12% entre 2016 e 2017. Os turistas nacionais registaram um desempenho francamente melhor em relação a 2017, com um acréscimo de 3,9%, para os 8,2 milhões de hóspedes. Entre 2008 e 2018 as dormidas de residentes cresceram 28,2% e as de não residentes aumentaram 56,1%. Mais do que crescer em número de hóspedes, Portugal quer crescer em valor. Esta é uma diretiva da Estratégia 2027 do Turismo de Portugal. Como tal, se o crescimento

nas chegadas de turistas não foi tão expressivo em 2018 como em 2016 e 2017, o mesmo não aconteceu com os proveitos. Com efeito, as receitas do turismo aumentaram 9,6%, para um novo recorde de 16,6 mil milhões de euros em 2018, face a 2017, tendo o saldo da balança turística atingido 11,9 mil milhões de euros, segundo o Banco de Portugal. Isto significa que, em 2018, os turistas gastaram 45 milhões de euros, por dia, em Portugal. Se analisarmos o gráfico que se segue, observamos que o Norte foi a região nacional que mais cresceu, em termos percentuais, em 2018, no que diz respeito ao número de hóspedes. Alentejo e Açores também tiveram crescimentos significativos. O Centro e a Madeira foram as únicas regiões que registaram pior desempenho em 2018, face a 2017.

HÓSPEDES 2017/18 (%) 6 5

4,6

3,8

4 3

1,8

2

1,5

2,6

1 0

-0,2

-1 -2 -3 -4 -5

-3,8 NORTE

CENTRO

LISBOA

ALENTEJO

ALGARVE

AÇORES

MADEIRA

Fonte: INE 2018

No que às receitas diz respeito, houve evolução positiva em todo o território. Mais uma vez a região Norte registou melhor desempenho do que as restantes, com um expressivo crescimento homólogo de 12%, o único a dois dígitos. Açores e Lisboa também cresceram de forma significativa, perto dos 8%.

PROVEITOS GLOBAIS NO ALOJAMENTO 2017/18 (%) 14 12

12,0

10

7,9

7,5

8

5,2

6 4

4,7

2,5

1,1

2 0

NORTE

CENTRO

LISBOA

ALENTEJO

ALGARVE

AÇORES

MADEIRA

Fonte: INE 2019 (Proveitos em estabelecimentos hoteleiros, apartamentos turísticos e outros)

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24 PORTUGAL

como queremos crescer? Enquanto assistimos ao desacelerar do crescimento no número de turistas que chegam ao país, as receitas turísticas continuam a aumentar em todo o território. A Secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, tem afirmado que Portugal está a crescer em valor. Ao diversificar produtos e mercados, o país tem conseguido atrair turistas que gastam mais, afirmando-se pela qualidade e diversidade da oferta e por ser um destino para todo o ano, numa ótica de crescimento sustentável. Esse é, precisamente, um dos aspetos mais importantes desta nova onda

turística - a diminuição da sazonalidade do turismo - tornando-se uma atividade sustentável ao longo do ano e em todo o território. Segundo a Secretária de Estado do Turismo, o crescimento de 1,7% ao nível de hóspedes, que se verificou no ano passado, aconteceu integralmente nos meses de época baixa, levando a que, em 2018, a taxa de sazonalidade registasse o valor de 36% - o mais baixo de sempre. Esta é, simultaneamente, a sazonalidade mais baixa de todos os países do Mediterrâneo, segundo o Turismo de Portugal. A estratégia deverá passar por continuar a apostar em produtos que permitam trazer mais turistas, ao longo de todo o ano, como o turismo cultural, o turismo religioso, o cycling e o walking. O programa cultural 365 Algarve é um exemplo de sucesso e vai já para a sua quarta edição.

onde queremos crescer? Para além de querermos crescer ao longo de todo o ano, também queremos que o crescimento seja mais equilibrado em todo o território, para que todos possam tirar partido dos benefícios inerentes ao sucesso do turismo. Nesta perspetiva, vamos começar por analisar a relação entre dormidas e número de habitantes por NUT III, procurando identificar os territórios que, em teoria, têm maior potencial para o crescimento do turismo.

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PORTUGAL

DORMIDAS POR HABITANTE EM 2017 (NUT III) 45,97

Algarve

32,87

Região Autónoma da Madeira Alentejo Litoral Região Autónoma dos Açores Médio Tejo Área Metropolitana de Lisboa Alentejo Central Área Metropolitana do Porto Oeste Região de Coimbra Alto Alentejo Beiras e Serra da Estrela Baixo Alentejo Alto Minho Alto Tâmega Cávado Viseu Dão Lafões Douro Região de Aveiro Terras de Trás-os-Montes Beira Baixa Região de Leiria Ave Lezíria do Tejo Tâmega e Sousa

8,40 7,33 6,66 5,89 5,37 3,42 3,35 3,27 3,23 3,19 2,86 2,82 2,64 2,20 2,09 2,05 1,90 1,85 1,80 1,80 1,12 0,78 0,70 6,35 PORTUGAL Fonte: INE 2018

Tendo como premissa que em Portugal existiam, por dia, 6 turistas por habitante em 2017, verificamos que a grande maioria dos territórios estão abaixo deste valor, excetuando o Algarve, a Região Autónoma da Madeira, o Alentejo Litoral, a Região Autónoma dos Açores e o Médio Tejo, onde a estada média é, tradicionalmente, maior. Madeira, Algarve e Alentejo Litoral são destinos que tendem a ser mais sazonais que Lisboa e Porto, por exemplo, e devem ser analisados de forma particular, na perspetiva da necessidade de crescimento ao longo de todo o ano, com ênfase no período de época baixa. O caso dos Açores, sendo um destino jovem, em crescimento, a aposta deverá passar por trabalhar a imagem de destino único e inimitável, com um serviço de elevada qualidade. No caso do Médio Tejo, estes valores poderão ter sido impulsionados pelo ano do centenário de Fátima, que coincidiu com a visita do Papa

Francisco e levou muitos visitantes ao território diga-se concelho de Ourém - existindo em Fátima uma grande concentração de visitantes que não é comum a toda a região. Dos territórios que apresentam menos turistas por habitante, temos a Lezíria do Tejo, Beira Baixa, Regiões de Leiria e de Aveiro, Terras de Trás-os-Montes, Tâmega e Sousa e Ave. Todos estes territórios apresentam menos de duas dormidas por cada habitante, pelo que apresentam potencial para o crescimento do turismo. De notar que muitos destes territórios se localizam a 1 hora ou menos dos aeroportos de Lisboa e Porto, o que pode representar mais um argumento para que sejam integrados numa estratégia de “alargamento” das grandes cidades, com vista à desconcentração de turistas.

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26 PORTUGAL

TAXA DE OCUPAÇÃO-CAMA EM 2017 - NUT III 64,9

Região Autónoma da Madeira

58,4 53,8 51,6 49,4

Área Metropolitana de Lisboa Área Metropolitana do Porto Algarve Região Autónoma dos Açores

40,3 39,5 37,7 37,5 36,4 36,0 34,4 31,7 31,7 30,7 29,6 29,3 28,1 27,5 27,0 26,9 26,8 26,0 25,5

Alentejo Central Médio Tejo Cávado Oeste Região de Coimbra Região de Aveiro Região de Leiria Baixo Alentejo Ave Alto Minho Alentejo Litoral Alto Tâmega Lezíria do Tejo Douro Beiras e Serra da Estrela Tâmega e Sousa Alto Alentejo Beira Baixa Viseu Dão Lafões Terras de Trás-os-Montes

16,0 48,9

PORTUGAL

Fonte: INE 2018

Se analisarmos também a Taxa de Ocupação-cama em 2017, por NUT III, verificamos que as Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto, o Algarve e as Regiões Autónomas da Madeira e Açores têm as taxas de ocupação mais elevadas do país, o que sugere equilíbrio entre a oferta de camas e a procura turística. Em termos de potencial de crescimento, este gráfico vai ao encontro do anterior. Terras de Trás-os-Montes, Douro, Tâmega e Sousa, Alto Tâmega, Beira Baixa, Viseu Dão Lafões, Beiras e Serra da Estrela, Alto Alentejo, Lezíria do Alentejo e Alentejo Litoral têm taxas de ocupação inferiores a 30%, pelo que podem ser territórios de aposta para o turismo.

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PORTUGAL

QUE SOLUÇÕES? Agora que temos uma ideia mais concreta dos territórios nacionais com maior potencial de crescimento do turismo, sem afetar a dimensão social, propomos avançar com algumas estratégias, com vista a mitigar essas desigualdades.

As 10 soluções que de seguida se apresentam são sugestões do Painel de Membros do Barómetro do Turismo do IPDT que constam da edição 58 ( jan 2019) e que agora divulgamos.

1. PROMOÇÃO EXTERNA CONTEMPLANDO TODAS AS REGIÕES

6. MELHORIA DA FISCALIDADE

Com vista à captação de turistas para regiões menos visitadas, apostando no marketing relacional e no marketing digital direcionado.

Estabelecer benefícios fiscais com vista ao desenvolvimento do interior do país, sobretudo em época baixa, para que esses territórios possam ter uma oferta verdadeiramente concorrencial.

2. PROMOVER DESCONCENTRAÇÃO DE VISITANTES E DISTRIBUIÇÃO TEMPORAL

7. APOSTAR EM NOVOS MERCADOS E NOVOS PRODUTOS

Crescer em territórios com menos visitantes e ao longo de todo o ano, para que os benefícios do turismo possam chegar a todos. Promover o trabalho em rede de forma a estruturar produto turístico, facilitando a venda e atração de turistas.

Atrair novos mercados que possam compensar eventuais quebras dos mercados tradicionais, minimizando a dependência do setor face aos mesmos, a par do desenvolvimento de novos produtos, tais como turismo de natureza, micro turismo em Espanha, turismo de Inverno em Portugal, segmento MI, etc.

3. DIVERSIFICAR E QUALIFICAR A OFERTA TURÍSTICA Valorizar e promover os aspetos culturais únicos diferenciadores de cada território, mantendo a autenticidade que os carateriza.

8. PROMOVER A SUSTENTABILIDADE Continuar a trabalhar para um turismo que salvaguarde o ambiente e os recursos naturais, garantindo o crescimento económico e a satisfação das necessidades de gerações presentes e futuras.

4. INVESTIR NO CAPITAL HUMANO Melhorar a formação, qualificação e remuneração dos trabalhadores, sobretudo em territórios do interior do país, criando condições para fixar famílias e evitar a desertificação.

5. MELHORIA DA MOBILIDADE E ACESSIBILIDADES Para que os turistas que chegam aos aeroportos consigam visitar zonas do interior do país, é fundamental investir na mobilidade e nas acessibilidades rodoviárias e ferroviárias. Esta medida deve ser acompanhada de partilha e divulgação de informação de apoio aos turistas.

9. MELHORAR SERVIÇOS AEROPORTUÁRIOS As incontornáveis questões do aeroporto Humberto Delgado e do novo aeroporto do Montijo estão em cima da mesa e representam um passo importante para o futuro do turismo no país, a par do desenvolvimento de novas rotas e da melhoria dos serviços aeroportuários.

10. PROMOVER EVENTOS A captação de eventos de grande dimensão e fora da época alta, sobretudo em regiões do interior do país, é uma das medidas mais eficazes para a redução da sazonalidade e para a desconcentração.

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28 PORTUGAL

proposta de Modelo de desenvolvimento turístico nacional para a administração pública Uma vez analisada a forma como se pretende crescer, e em que área geográfica, bem como as soluções a implementar para atingir esse desiderato, propõe-se a adoção de um modelo que interligue estas dimensões e auxilie os decisores no processo de tomada de decisão.

A

Baixa performance Baixa pressão social Destinos em fase inicial de desenvolvimento turístico: • Os negócios tendem a não ser muito rentáveis mas existe margem de crescimento. • Necessitam de investimento para crescer e de qualificação dos RH. PRINCIPAL MEDIDA:

4. INVESTIR NO CAPITAL HUMANO

B

Os destinos são divididos em quatro quadrantes, de acordo com a sua posição (acima ou abaixo) face ao valor nacional das dormidas por habitante e de um valor de referência assumido pela indústria turística da taxa de ocupação 1/3 das camas ocupadas.

Alta performance Baixa pressão social Destinos com alguma experiência mas com margem de progressão no que diz respeito à atração de visitantes: • Os negócios existentes tendem a ser bem sucedidos e isso atrai investimento. • A relação entre visitantes e locais é positiva. Turistas devem ser distribuídos temporalmente e espacialmente dentro da unidade territorial. PRINCIPAL MEDIDA:

10. PROMOVER EVENTOS

Enquanto que o primeiro indicador sugere uma avaliação de performance de um destino, o segundo refere-se à pressão turística num dado território.

PERFORMANCE / TAXA DE OCUPAÇÃO

C A. M. Porto A. M. Lisboa Região de Leiria Região de Coimbra Região de Aveiro Oeste Cávado Alentejo Central

Alto Alentejo Lezíria do Tejo Baixo Alentejo Beiras e Serra da Estrela Beira Baixa Viseu Dão Lafões Terras de Trás-os-Montes Douro Tâmega e Sousa Alto Tâmega Ave Alto Minho

R. A. Madeira Algarve R. A. Açores Médio Tejo

B

C

A

D

PRESSÃO SOCIAL / DORMIDAS POR HABITANTE

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

PRINCIPAL MEDIDA:

2. PROMOVER A DESCONCENTRAÇÃO DE VISITANTES E DISTRIBUIÇÃO TEMPORAL

D

Alentejo Litoral

Alta performance Alta pressão social. Destinos num estágio de desenvolvimento avançado, com resultados positivos: • Apostar no crescimento em valor. • O aumento da procura turística deve ser distribuído ao longo do ano.

Baixa performance Alta pressão social Destinos que recebem alguns turistas mas cujos negócios não têm rentabilidade elevada: • Repensar a estratégia para o turismo. • Os negócios podem e devem ser otimizados. A aposta em melhores turistas poderá fazer sentido. PRINCIPAL MEDIDA:

7. APOSTAR EM NOVOS MERCADOS E NOVOS PRODUTOS •


TENDÊNCIAS

PROMOÇÃO DO CRESCIMENTO TURÍSTICO EM ZONAS DE BAIXA DENSIDADE POPULACIONAL Alfonso Vargas-Sánchez

Broken Hill, Austrália

Universidade de Huelva, Espanha

A medida do sucesso dos destinos turísticos foi apoiada num paradigma quantitativo baseado no crescimento de variáveis como o número de turistas, o número de dormidas e outras semelhantes. Quanto mais altas as taxas correspondentes, melhor. No entanto, a massificação e o mais recente fenómeno do “overtourism”, que eleva o turismo ao nível de insustentável, colocam em questão essa corrida rumo ao crescimento.

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30 TENDÊNCIAS

Para avaliar os benefícios, ou não, desse crescimento, é importante observar como se distribui: um crescimento menos sazonal (menos concentrado no tempo) e territorialmente mais solidário (que dispersa os fluxos e permite a chegada dos benefícios do turismo a outras comunidades) vai merecer um melhor julgamento (e as políticas que o levaram nessa direção) do que um crescimento igual em quantidade, mas com efeitos opostos aos descritos. Consequentemente, os gestores dos destinos turísticos devem avançar para uma métrica de sucesso diferente, que incorpore variáveis qualitativas como as indicadas, e outras, que indiquem não apenas a quantidade, mas também como se processa esse crescimento.

POR ESTAS E OUTRAS RAZÕES, SOBRETUDO AS NOVAS TECNOLOGIAS, A DINÂMICA ATUAL DA INDÚSTRIA DO TURISMO DESAFIA AS CAPACIDADES DE GESTÃO DOS DESTINOS. Por exemplo, o desafio não é tanto enchê-los de visitantes em certas épocas do ano, mas fazê-lo em outros momentos e com pessoas cujo perfil é mais interessante de acordo com o modelo de turismo que se pretende desenvolver. E é aí que entram as áreas de baixa densidade turística e, em geral, também populacional, na linha de conseguir um turismo mais descentralizado e solidário do ponto de vista territorial. Sabemos que este não é um problema novo e, portanto, que não tem solução fácil. Apesar disso, podem ser identificados dois campos de ação complementares: a dispersão de turistas que vão para destinos (urbanos, de praia...) saturados e a procura que os destinos de baixa densidade podem gerar por conta própria, de acordo com sua atratividade. Seja como for, o conhecimento do

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mercado é essencial, seja desses turistas “emprestados” de destinos saturados (nem todos os turistas são suscetíveis de serem tirados dos grandes centros de atração), como os “próprios”, em virtude da procura que são capazes de gerar, tendo em conta os novos modos de vida e as experiências que o turista do século XXI procura. A este respeito, é essencial que essas áreas de baixa densidade - rural e interior, com vias de acesso limitadas, mas, precisamente por tudo isso, genuinamente autênticas - definam o seu próprio modelo diferenciado de desenvolvimento turístico e encontrem um nicho onde criar o seu próprio mercado, dependendo dos seus recursos mas também das caraterísticas do duplo “input” de potenciais turistas referido no parágrafo anterior. Exemplos de modelos alternativos ao turismo massivo que poderiam ser citados como referências a ter em conta nestes casos são os conhecidos como “Slow Tourism”, “Cittaslow”, “Albergo Diffuso”, ou Turismo Criativo (também chamado Turismo Laranja), para cuja implementação é necessário o trabalho em rede e a cooperação entre agentes públicos e privados do complexo mosaico turístico. Nesse sentido, e colocando ênfase na cooperação intermunicipal, por serem geralmente pequenos municípios com recursos muito limitados de todos os tipos, a experiência mostra que o sucesso de tal cooperação é facilitado por uma combinação de homogeneidade e heterogeneidade:

• Homogeneidade do ponto de vista de necessidades e capacidades, da existência de objetivos compartilhados e um firme compromisso com um projeto comum construído com base na reciprocidade, isto é, em que todas as partes ganham.

• Heterogeneidade na perspetiva da diversidade e complementaridade de recursos, evitando que as respetivas ofertas sejam repetitivas


TENDÊNCIAS

e monótonas. Neste sentido, a organização de rotas, com uma coordenação adequada entre os núcleos participantes, pode contribuir para colocar em valor turístico, ao mesmo tempo em que salvaguarda, o património cultural material e imaterial que os define. Apesar das dificuldades, há exemplos que evidenciam que o objetivo de promover o crescimento do turismo em áreas de baixa densidade populacional é possível: da remota cidade mineradora de Broken Hill, na Austrália, para os “Pueblos Mágicos” do México, passando pelos pequenos municípios de Castelmezzano e Pietrapertosa na província italiana de Potenza com o seu “Volo dell’Angelo”. A cooperação intermunicipal, superando as diferenças políticas, tem sido a chave para o desenvolvimento turístico de um recurso cultural como as pegadas de dinossauros encontradas na província de Barcelona, beneficiando as três pequenas populações envolvidas; mesmo em escala internacional, como no caso da cooperação entre os municípios de Sanlúcar de Guadiana (em Espanha) e Alcoutim (em Portugal-Algarve) para o lançamento da única tirolesa transfronteiriça do mundo. Também em Portugal, Tavira é a coordenadora nacional do movimento Cittaslow, ao qual estão agregadas mais cinco cidades; na Vila de Pereira do Campo (Montemor-o-Velho) existe um projeto de “Albergo Diffuso”; Loulé é um destino dentro da Rede de Turismo Criativo e a aldeia da Cerdeira (Lousã) tornou-se uma plataforma dentro dessa organização internacional; o projeto CREATOUR Portugal é um novo esforço, centrado nas pequenas cidades e zonas rurais, para ligar os setores cultural e criativo ao turismo.

EM SUMA, MAIS IMPORTANTE DO QUE O PRÓPRIO DESTINO É O QUE AS PESSOAS LÁ PODEM FAZER.

Pietrapertosa, México

Assim sendo, a principal limitação está em nós próprios, nas nossas capacidades de configurar um modelo diferenciado e torná-lo conhecido. Tudo é possível se começarmos a trabalhar numa tela em branco, sem nos autolimitarmos à priori. •

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32 TENDÊNCIAS

SET-JETTING É uma combinação das palavras set (cenário) e jet (voar) e designa as viagens turísticas que têm como destino cenários de filmes. O termo foi usado pela primeira vez no jornal norteamericano The New York Post. Com o lançamento de um novo filme, surgem ofertas para que os turistas conheçam o local onde o filme foi feito, para além de tours, merchandising e outras experiências associadas.

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TENDÊNCIAS

Cine-turismo: Quando o cenário se torna o destino

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34 TENDÊNCIAS

O audiovisual tem o poder único de transformar lugares e pessoas. Em boa verdade, quem nunca quis ir a Paris depois de ver a Torre Eiffel num filme?

QUAL O VERDADEIRO IMPACTO DOS FILMES NO TURISMO?

O turismo induzido por filmes, também conhecido por set-jetting, cine-turismo ou turismo cinematográfico, integra as visitas turísticas a um destino ou atração em resultado da sua exibição em televisão ou na tela do cinema. A crescente popularidade deste segmento deve-se, principalmente, ao aumento das viagens internacionais e ao desenvolvimento da indústria do entretenimento. Hoje sabe-se que quando um destino é apresentado no cinema e/ou na televisão terá a registar, na maioria dos casos, um impacto positivo a nível turístico.

Não há números concretos quanto ao peso deste segmento no setor no turismo, no entanto, em 2012, a Tourism Competitive Intelligence avançou que 40 milhões de turistas internacionais escolheram o seu destino porque viram um filme num local específico.

Um dos principais benefícios económicos do cine-turismo é que pode trazer receitas para a comunidade local. Tem potencial para revitalizar comunidades rurais e aumentar o turismo nos centros urbanos. Os visitantes dos cenários de filmes desejam uma experiência no local que lhes conte uma história emocionante. Vários estudos sugerem que os filmes podem influenciar não apenas a tomada de decisões de férias a curto prazo, como também afetar a prosperidade dos destinos a longo prazo.

O cine-turismo é, em muitos casos, uma fonte de receita constante ao longo de todo o ano, contribuindo para a redução da sazonalidade que afeta muitos destinos. Esta forma de turismo também contribui para aumentar o valor cultural e patrimonial do destino. Muitos locais de património que servem como cenário ganham popularidade após a estreia, porque adquirem significado específico com a narração do filme. Embora os filmes tenham impactos positivos nos destinos, em termos económicos, culturais, de notoriedade e imagem, também há desvantagens que devem ser cuidadosamente consideradas, tais como a perda de privacidade, dificuldade de acessos, congestionamento do tráfego ou destruição do ambiente natural. Outra questão não menos importante tem que ver com as atitudes dos residentes face às equipas de produção e ao grande número de turistas que chegam ao destino.

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Entre alguns filmes de grande impacto e avultadas receitas de bilheteira encontramos uma relação interessante com o setor do turismo. Com efeito, segundo Hudson & Ritchie (2006): • O filme “Harry Potter” registou 50% de aumento no turismo em todos os locais de filmagem; • “The Beach”, protagonizada por Leonardo DiCaprio, provocou um aumento de 22% no segmento de jovens que viajaram para a Tailândia no ano de 2000; • O clássico “Braveheart” conduziu a um acréscimo de 300% no turismo para o Monumento de Wallace, na Escócia; • Graças ao filme “Mission Impossible 2”, o Parque Nacional de Sydney registou um acréscimo de 200% no número de visitantes no ano 2000; • Para a Turquia (Canakkale) viajaram mais 73% de turistas, graças ao filme “Troy”; • Lyme Park, no Reino Unido, viu crescer em 150% o número de visitantes na sequência das filmagens de “Pride and Prejudice”. Em alguns casos a realidade pode confundir-se com a ficção e mudar a forma como um lugar é visto. A Nova Zelândia transfigurou-se depois das filmagens de “Lord of the Rings”. A triologia de filmes alcançou uma legião de fãs em todo mundo e o destino conseguiu capitalizar essa notoriedade. Segundo a Tourism New Zealand, 17% de turistas internacionais em férias desembarcaram no país graças ao filme “Hobbit”, outra trilogia de Peter Jackson. Com efeito, a Vila Hobbiton, que se tornou cenário das duas obras citadas, recebe por ano 360 mil turistas.


Hogwart train

TENDÊNCIAS

CINETURISMO EM ESPANHA É APOSTA DE SUCESSO

Thailand

Pelo reconhecido impacto em termos promocionais e de imagem que este segmento potencia, torna-se uma aposta cada vez mais preponderante por parte dos agentes ligados ao setor do turismo. Consciente desta realidade, a Spain Film Comission (SFC) promoveu, na edição 2019 da FITUR (Feira de Turismo de Madrid) uma nova secção - Cine Screen Tourism - dedicada ao turismo cinematográfico, como resposta ao crescente interesse despertado para conhecer os lugares de filmes e séries de sucesso. A ação tem como objetivo dar mais visibilidade às produções cinematográficas que apresentam destinos turísticos, ao mesmo tempo que estimula a indústria de viagens a vender destinos que estão em alta nos filmes.

Lyme Park

Scotland

PORTUGAL, DESTINO DE FILMAGENS INTERNACIONAIS Em Portugal o casamento entre cinema e turismo também está de pedra e cal. Em 2018 foi aprovado o Fundo de Apoio ao Turismo e Cinema, um instrumento desenhado para captar grandes eventos internacionais para Portugal, promover a produção cinematográfica e audiovisual, com o objetivo de afirmar Portugal como um destino de filmagens e cinema. Os 14 projetos já aprovados, no âmbito dos incentivos à captação de filmagens em Portugal, preveem um investimento total de 23,7 milhões de euros no país.

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DEPOIS DOS FILMES, AS SÉRIES E TELENOVELAS Depois do cineturismo, o turismo associado a séries e telenovelas tem ganho mais peso. O motivo parece simples. Com efeito, só os filmes de grande impacto conseguem produzir efeito no turismo. Já as séries e telenovelas, porque prendem os seguidores durante mais tempo, são capazes de criar laços mais intensos e duradouros. Os operadores turísticos de alguns destinos decidiram aproveitar esta nova tendência criando uma intensa promoção turística que inclui roteiros personalizados, totalmente adaptados a uma determinada série de TV. É o caso da On Location Tours, que criou uma rota de autocarro em Nova Iorque, com três horas e meia de duração, que segue os passos de Carrie Bradshaw e das suas três amigas ao longo de mais de 40 locais emblemáticos, que surgem na série norte-americana “Sex and the City”.

O IMPACTO DAS TELENOVELAS NO TURISMO REGIONAL O turismo associado a telenovelas e séries é um fenómeno que tem ganho preponderância, também em Portugal. Estes formatos tornaram-se um veículo promocional com retorno significativo. Com um universo de espetadores considerável, as séries e telenovelas são um bom investimento para os destinos, que ganham notoriedade e beneficiam do interesse e curiosidade dos seguidores em conhecer os locais das filmagens. Algumas séries e telenovelas causam tamanho entusiasmo entre os seus seguidores que estes acabam por programar viagens para conhecerem os cenários onde foram filmadas. A repercussão turística de exibições televisivas não é novidade, mas o seu aproveitamento como recurso turístico por parte dos destinos é. A escolha de uma região para filmar uma telenovela baseia-se no enredo, mas o apoio das autarquias e das empresas locais também é um fator decisivo. Em Portugal há cada vez mais casos de parcerias nesse âmbito. Temos exemplo de várias regiões portuguesas que assumem, cada vez mais, um papel de destaque na ficção nacional e tornam-se destinos de eleição, ganhando notoriedade graças às telenovelas:

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“A OUTRA” CATAPULTA TRÁS-OS-MONTES De acordo com o município, Vila Flor ganhou muitos visitantes graças à novela “A Outra”, exibida pela TVI, que deu a conhecer locais icónicos do município e de Trás-os-Montes. Museus, restaurantes e hotéis referiam aumento de turistas no decorrer das gravações.

ARCOS DE VALDEVEZ FOI PALCO DE “DEIXA QUE TE LEVE” A telenovela foi gravada em Arcos de Valdevez e, segundo a delegação de turismo daquela região, prolongou a época alta turística no concelho. A autarquia contribuiu com 120 mil euros para a produção da novela, que considerou um excelente investimento, tendo em conta que o concelho registou um aumento muito grande de turistas.

FLOR DO MAR, NA MADEIRA E ILHA DOS AMORES, NOS AÇORES Na Ilha da Madeira, a telenovela “Flor do Mar” provocou um crescimento estimado de 15% nas entradas turísticas. A secretaria regional e as câmaras municipais da região investiram 500 mil euros na produção. Nos Açores, foi o caso da telenovela “Ilha dos Amores”. As paisagens insólitas, as arribas basálticas e os recantos únicos de São Miguel foram protagonistas da telenovela da noite exibida pela TVI, que contou com apoio do Governo regional, da SATA e de várias empresas do arquipélago. Outros exemplos são a telenovela Vidas Opostas que filmou em Aveiro, Sintra, Amarante, Melgaço, etc, Coração d’Ouro”, onde o Douro e o Porto foram cenário, ou “Mar Salgado” que foi gravada em Setúbal; “Santa Bárbara”, que exibiu Grândola, ou “Bem-Vindos a Beirais”, cujo cenário foi o Bombarral. •


TENDÊNCIAS

À CONVERSA COM

MANOEL BAPTISTA Presidente Câmara Municipal de Melgaço

O audiovisual tem o poder de transformar lugares e pessoas. A gravação de telenovelas em destinos nacionais tem aumentado nos últimos tempos. Qual o caminho para tornar esta uma aposta de sucesso?

Unir os agentes locais em torno de um objetivo: divulgar a uma grande escala o nosso território, mostrando as nossas mais valias, as nossas riquezas e o que nos distingue dos demais territórios. Criar a expetativa e a vontade nos telespetadores de nos descobrirem e depois responder e corresponder a essas expetativas quando os recebemos.

O Rio Minho, Castro Laboreiro, Quinta de Folga, a Alameda Inês Negra, as Termas de Melgaço, bem como diversas imagens das deslumbrantes paisagens do Destino de Natureza Mais Radical de Portugal, são cenários da telenovela da SIC “Vidas Opostas”. Esta exposição é importante para a promoção do destino? Que feedback têm recebido?

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A presença num produto televisivo que chega a casa das pessoas, com uma narrativa onde está integrada a nossa paisagem desperta a curiosidade em quem não nos conhece. Atenção que estamos a falar de um produto que chega a vários pontos do globo, onde há melgacenses que sentem vaidade e orgulho em ver a sua terra na televisão, mas também a potenciais turistas que ficam deslumbrados com as nossas paisagens. Mesmo naturais de Melgaço nos confessaram desconhecer alguns dos recantos exibidos na telenovela. Estas iniciativas são importantes e representam um dos melhores investimentos de promoção, porque surgimos integrados numa história. Fazemos parte da vida daquelas personagens e desta forma criamos laços com o telespetador. É muito mais valioso que a publicidade pura e dura, porque é comunicação a frio, no sentido de que não está integrada numa história. Melgaço fez parte de um storytelling . Não é por acaso, que todos os municípios concorrem para integrar as suas paisagens nas narrativas das telenovelas. Sem dúvida é o produto com maior audiência e maior resultado no retorno da empatia, da emoção e da conquista de públicos. O neuromarketing explica-nos bem esta associação.

Se os personagens foram felizes aqui, também o telespetador sabe que o será. No âmbito de uma campanha de marketing que o IPDT está a desenvolver para Melgaço, foram recentemente lançados novos vídeos que pretendem promover o território como o “destino de natureza mais radical de Portugal”. Qual o impacto e a importância destas iniciativas no município? Como sabemos em comunicação, a perceção é tão importante como a realidade, por isso não nos basta ser, é preciso aparecer e parecer. Esses

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vídeos enaltecem o melhor do território, ao acrescentar à realidade o valor comunicacional que a torna apetecível porque a mostramos, exibimos, amplificando o seu valor.

Sob o mote “crescemos juntos”, o executivo municipal promoveU uma campanha pioneira de sensibilização da população para a importância do Turismo. Cumprimentar, informar, sorrir e proteger são os mandamentos para bem receber o turista, com a tradicional hospitalidade das gentes da região. Acredita que, para além de promover o destino é fundamental preparar as pessoas para saber receber os turistas? Essa é uma questão que nos preocupa muito. A autarquia tudo tem feito para sensibilizar os operadores privados para essa necessidade, mas no nosso território a realidade não é diferente da vivida nos outros municípios e há até situações em que o turismo é visto como algo negativo. Vejam-se os debates nacionais a esse propósito. Melgaço adotou uma estratégia baseada na concorrência. Esta permite, por um lado, conquistar quota de mercado aos destinos concorrentes e, por outro, diferenciar os seus serviços e experiências. Para o efeito, os agentes devem oferecer um serviço ou experiência de alta qualidade por um preço justo e competitivo e que seja facilmente percebido por todos os visitantes. No futuro, ainda assim, os setores público e privado devem agir para que o destino seja reconhecido pela sua qualidade e aspetos singulares, contribuindo para a evolução para uma estratégia de preço premium. Esta deve resultar de um processo de qualificação continuada, para que a excelência do destino e a diferenciação no mercado seja percebida, ou seja é fundamental saber receber para fidelizar e atrair novos públicos. •



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Portugal melhor destino turístico do mundo Portugal está na moda e os prémios para o turismo português têm-se tornado um hábito nos últimos anos. Recentemente o país foi eleito o melhor destino turístico do mundo pelo segundo ano consecutivo pelos World Travel Awards, também conhecidos com os “óscares do turismo mundial”.

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Desde 2015, o número de artigos internacionais sobre o destino Portugal aumentou 107%. Publicações como a Forbes, The Washington Post, The Guardian ou Lonely Planet, só para enumerar algumas, renderam-se aos encantos do nosso país. Segundo o Travel BI do Turismo de Portugal, em apenas 5 anos (2013-2017), Portugal passou de:

14,4 milhões de hóspedes para 20,6 milhões 41,6 milhões de dormidas para 57,5 milhões 30,2 euros de RevPAR para 50,2 euros 39,7% de taxa de ocupação para 51,6% 9,2 mil M€de receitas turísticas para 15,2 mil M O setor do turismo tem sido um dos mais dinâmicos em Portugal e sinal disso é também o número de empregos criados. Entre o terceiro trimestre de 2017 e o de 2018 foram criados 100 mil novos empregos líquidos, 40% dos quais em turismo, segundo António Correia de Campos, presidente do Conselho Económico e Social (CES). Este momento áureo é reflexo de um trabalho bem sucedido que agregou conhecimento de mercado, correto posicionamento, flexibilidade comercial e, sobretudo, a valorização dos portugueses enquanto ativo diferenciador da oferta.

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COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI? 1. DEFINIÇÃO DE UMA ESTRATÉGIA TURÍSTICA

3. DAS LOW-COST AO CRESCIMENTO EM VALOR

Quando em 2006 foi lançado o PENT - Plano Estratégico Nacional para o Turismo - Portugal deu o primeiro passo para a sua afirmação no mercado. Para dar resposta aos excelentes resultados alcançados, aliados às novas exigências do mercado, o Turismo de Portugal lançou, em 2016, o documento “Estratégia 2027”, apresentando uma abordagem inovadora que coloca as pessoas como ativo único da oferta nacional, e que foca novos mercados e eixos para o desenvolvimento turístico do país nos próximos anos.

A emergência das companhias aéreas low-cost veio alterar os momentos e os comportamentos dos turistas. As tradicionais longas viagens para um só destino deram lugar à descoberta de mais destinos, em diversos short-breaks durante o ano, em detrimento da longa estada média num só local, num só momento de férias.

2. A ESTABILIDADE PORTUGUESA, NA INSTABILIDADE INTERNACIONAL Plantar para colher. No início da presente década, o turismo, sobretudo na Europa, via-se pressionado pela instabilidade política vivida nos, até então, principais destinos turísticos. O ambiente nestes países fez com que o mercado procurasse novos destinos com boa estrutura turística, competitiva e segura. Portugal, reflexo do bom trabalho desenvolvido, e sobretudo pelas excelentes condições criadas, emergiu naturalmente como um must visit. O certo é que soubemos trabalhar o mercado, estudá-lo, cativá-lo e tornar Portugal mais do que um destino “de moda”, uma referência de mercado, um destino de eleição.

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Portugal, conforme comprova a Estratégia 2027, vem adaptando a sua oferta na procura de mais e melhor turismo. Atrair turistas que viajam todo o ano, por todo o país e que gastem mais dinheiro no território é a chave para o turismo nos próximos anos, alinhando a nossa oferta com um desígnio nacional - crescer em valor.

4. LIDERAR O TURISMO DO FUTURO Cerca de 60% das 350 mil pessoas que trabalham no setor do turismo têm formação ao nível do ensino básico. Para um turismo mais competitivo e para que Portugal continue a ser um dos destinos mais competitivos do mundo, é necessário inverter esta situação. Manter o país como melhor destino turístico do mundo é consequência de uma aposta intensa na inovação da oferta turística e na qualificação dos recursos humanos. No último ano o Turismo de Portugal tem apresentado diversas ferramentas e programas que visam a maior facilidade de acesso à informação, o estímulo à investigação e inovação e à capacitação das pessoas. Destacam-se projetos como o TravelBi, o Sigtur, o Portal Bussiness, o Programa ALA+T e o Centro de Inovação do Turismo (NEST) que vieram dar novas ferramentas ao setor, no cumprimento da visão estratégica para o nosso país: Liderar o Turismo do futuro.


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ALA + T PROGRAMA NACIONAL DE QUALIFICAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO LOCAL AUTÁRQUICA PARA O TURISMO O turismo é um dos principais motores da economia portuguesa. Num contexto em que o crescimento do setor é um paradigma atual, é importante estimular intervenções estratégicas eficientes, competitivas e sustentáveis. Foi neste contexto que surgiu o programa ALA + T, com o objetivo de dotar técnicos superiores e dirigentes de entidades públicas, locais e regionais, de competências estratégicas e de marketing para o desenvolvimento dos territórios através do turismo, na perspetiva do mercado e dos novos perfis de consumo. Promovido pelo IPDT - Turismo e Consultoria, com o apoio do Turismo de Portugal, o programa desenrolou-se em três fases: Seminário de Abertura; Master Classes Temáticas; Projetos de Desenvolvimento Turístico, dinamizadas entre setembro 2018 e fevereiro 2019.

NÚMEROS DA 1ª EDIÇÃO

160

PARTICIPANTES em representação de 90 municípios 3 comunidades intermunicipais 1 entidade regional de turismo

65h

FORMAÇÃO +

ACOMPANHAMENTO ONLINE

5

MASTER CLASSES

15

ESPECIALISTAS na gestão e dinamização dos destinos turísticos

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PROJETOS DE DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO

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FASE I - SEMINÁRIO DE ABERTURA | 21 E 22 DE SETEMBRO DE 2018 O evento explorou temas como a importância do turismo para a economia, bem-estar social através do turismo, desenvolvimento do turismo em regiões de baixa densidade e os desafios da gestão turística em áreas costeiras e em grandes cidades. Os temas foram ilustrados com casos internacionais, apresentados por Robert Maitland, Richard Butler, Alfonso Vargas-Sanchez, David Simmons, entre outros.

FASE II - MASTER CLASSES | OUTUBRO – NOVEMBRO DE 2018 As Master Classes foram ministradas por quadros dirigentes do Turismo de Portugal, permitindo uma troca única de ideias e experiências entre os representantes dos governos central e local. Os temas das Master Classes foram: • Estratégia, Mercados e Consumidores • Desenvolvimento e Inovação de Produtos • Marketing 4.0 • Planeamento, Empreendedorismo e Atividades Turísticas • Investimento e Negócios no Turismo

2ª EDIÇÃO Está previsto o arranque da 2ª edição do programa ALA+T em maio de 2019. Dirigido a novos participantes e entidades, esta segunda edição tem como objetivo que, no final, todas as entidades da administração local autárquica nacional possam integrar e estar envolvidas na network gerada pela iniciativa do IPDT em conjunto com o Turismo de Portugal. TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

FASE III - PROJETOS DE DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO | DEZEMBRO DE 2018 - FEVEREIRO DE 2019 Os projetos foram avaliados por um júri composto por representantes do Turismo de Portugal e do IPDT e apresentados publicamente numa sessão que decorreu no dia 20 de fevereiro de 2019, em Castelo Branco. Os melhores projetos serão implementados com o apoio do Turismo de Portugal.

A PLATAFORMA ONLINE 24H/7D A plataforma online desenvolvida para o projeto permite ter acesso a documentos, links, registo de aprendizagem e um fórum onde formandos e tutores podem interagir, trocando ideias sobre os tópicos em discussão. A metodologia do projeto foi desenvolvida pelo IPDT e é baseada numa abordagem mista de desenvolvimento de competências (aprendizagem presencial e à distância - através da plataforma de gestão de projetos online do IPDT).

As inscrições serão limitadas a 150 participantes, entre executivos e técnicos superiores de: • Câmaras Municipais • Comunidades Intermunicipais e Áreas Metropolitanas • Entidades Regionais de Turismo • Associações de Municípios • Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional


O QUE NOS RESERVA O FUTURO? Os desafios são claros: crescer em valor, diminuir a sazonalidade e aumentar o turismo em territórios de baixa densidade. O alcance deste objetivo estratégico permitirá ao turismo posicionar-se, ainda mais, como um setor âncora da economia nacional. A sustentabilidade do destino será fundamental para que se construam sub-destinos equipados com estruturas e competências que permitam trabalhar este elemento, comunicando e apresentando ao mercado novas dimensões, socialmente responsáveis. Nos próximos anos, também se prevê que a tecnologia seja um dos mais importantes elementos da procura e da oferta. Embora Portugal tenha já implementadas diversas iniciativas nesta área, manter-se atualizado e dentro das necessidades de mercado é uma exigência essencial para continuar a trilhar o caminho do sucesso. Por fim, importa referir que os destinos que querem fazer do turismo um setor estratégico devem optar por medidas assentes em políticas dirigidas para a qualidade. A aferição da qualidade não se deve restringir ao mero desígnio de satisfação das expetativas dos clientes nos equipamentos turísticos, mas deve ser um conceito muito mais abrangente, isto é, que englobe a integração ambiental, a identidade e valorização cultural, o capital humano, a criatividade e inovação. Sendo assim, aumentar a qualificação dos profissionais atuais que operam no turismo e reconverter outros, contribuindo para uma melhoria progressiva dos níveis de qualidade do serviço e da experiência turística, é fundamental para que o setor continue a crescer de forma sustentável. •

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À CONVERSA COM

LUÍS ARAÚJO Presidente Turismo de Portugal, IP

O IPDT lançou recentemente o programa de qualificação transversal para o turismo ALA+T que conta com o apoio e envolvimento do Turismo de Portugal. Como avalia a importância da qualificação dos recursos humanos para o futuro do turismo? Os portugueses são o fator-chave do sucesso do turismo em Portugal. Não falo apenas da hospitalidade, uma caraterística que nos é reconhecida enquanto povo, mas também na qualidade dos recursos humanos que trabalham neste setor. Importa, cada vez mais, valorizar a formação e a qualificação de quem trabalha no turismo e, neste campo, a estratégia turística nacional - ET 2027 delineou uma meta bastante clara: duplicar o nível de habilitações do ensino secundário e pós-secundário de 30% para mais de 60%. Nos últimos anos temos vindo a investir nas Escolas do Turismo de Portugal, atualizando os currículos para a nova realidade de um mundo digital, apostando nas soft skills e nas áreas comportamentais, adequandoos aos novos perfis de turistas e às novas tendências, incentivando o empreendedorismo e, no fundo, aproximando a formação às necessidades do mercado. Este projeto educativo, denominado Tourism Training Talent, foi implementado nas 12 Escolas do Turismo

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de Portugal e foca-se essencialmente no talento das pessoas, na inovação e na internacionalização dos profissionais do turismo, como base do sucesso do setor em Portugal. Anualmente, estas escolas formam cerca de 1.400 alunos de Formação Inicial e 4.500 de Formação Contínua (profissionais e desempregados), com uma taxa de empregabilidade de 90%, de acordo com o Estudo de Inserção Profissional relativo a 2017, o índice mais elevado dos últimos dez anos. Apesar da sua recente implementação, este modelo formativo foi distinguido com o primeiro lugar na categoria Inovação e Políticas Públicas da 14ª edição dos prémios UNWTO (2018), agência das Nações Unidas responsável pela promoção da sustentabilidade do setor, pelo seu exemplo de capacitação das futuras gerações de recursos humanos do setor, e está a ser analisado por países como a Colômbia, Roménia, Marrocos, Croácia e Cazaquistão, para possível adaptação aos seus mercados. O Turismo de Portugal está fortemente empenhado na formação de bons profissionais, abertos à inovação, às transformações do negócio, versáteis, empreendedores e com capacidade para acompanhar as novas tendências.

Pretendemos formar profissionais com empregabilidade que contribuam para tornar Portugal, cada vez mais, um destino turístico de excelência, um país onde o trabalho é valorizado e onde se investiu nas pessoas, qualificando as profissões do turismo e atraindo talento.

Ressalvo, contudo, que a formação é uma responsabilidade de todos os agentes do setor, públicos e privados. É, sem dúvida, a grande aposta da Estratégia Turismo 2027, mas a qualificação dos recursos humanos deve ser uma ação concertada, e devem ser privilegiadas sinergias entre os vários organismos e as escolas de turismo que promovam o emprego, a valorização das pessoas e, consequentemente, o aumento dos rendimentos dos profissionais do turismo.

Valorizar as carreiras do turismo é a melhor forma de atrair mais profissionais para o setor. E não só, a aposta na formação é também um passo estratégico para desenvolvermos o território através do turismo. Tendo em conta que são as entidades públicas locais e regionais que, em primeira mão, interferem na valorização e apoio ao desenvolvimento do turismo, importa dotá-las com as competências de negócio e de marketing que, por um lado, vão ao encontro dos mercados e dos novos perfis de consumidores e, por outro, promovam a oferta de produtos turísticos compósitos e de maior valor acrescentado, assim como de maior riqueza, emprego e bem-estar para a região. Os organismos públicos, desde o nível local ao regional, com responsabilidades no desenvolvimento e na gestão do turismo, têm um importante papel a desempenhar nesta ambição de promover uma procura mais homogénea por todo o território, durante todo o ano. É necessário criar condições de atratividade e de estruturação de oferta em municípios que não são tradicionalmente destinos turísticos e em que o turismo pode assumir um papel importante na estratégia de desenvolvimento. Existe um enorme potencial de crescimento do turismo em Portugal e seguimos uma estratégia que nos permitirá alcançar todos os objetivos delineados.

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A 1ª edição do programa ALA+T colocou em contacto mais de 100 entidades públicas nacionais, entre CM’s, CIM’s, ERT’s, envolvendo e qualificando alguns elementos dos seus quadros. Esta iniciativa pioneira poderá ser o catalisador de novas sinergias a nível nacional, permitindo o surgimento de projetos supramunicipais, não limitados pelas tradicionais distribuições geográficas e onde o produto é o elemento chave? O programa ALA+T foi a primeira experiência do género e com resultados muito positivos. O objetivo é promovermos mais iniciativas conjuntas, não só com parceiros públicos, mas também privados.

Podemos esperar outras iniciativas e apoios do turismo de Portugal nesta vertente da qualificação dos RH? Há algum projeto em marcha? Sim, a aposta na formação e capacitação dos profissionais de turismo é uma prioridade na atuação do Turismo de Portugal. Temos a decorrer, ou a arrancar muito brevemente, quatro formações que foram desenvolvidas em parceria com outras entidades. Um desses exemplos é o programa BEST - Business Education for Smart Tourism, uma parceria entre o Turismo de Portugal, a CTP e as associações empresariais do setor, dirigido a empresários, empreendedores e gestores de turismo e que visa criar as condições para aumentar o valor gerado pelos seus negócios em face dos atuais desafios, dinâmicas e tendências do setor. O programa é constituído por um conjunto de ações e iniciativas de formação e qualificação que abordam temas como o digital, o marketing, os modelos de financiamento, a gestão financeira e operacional e os recursos humanos. No âmbito deste programa, que terá periodicidade anual, serão desenvolvidas ações em todo o território nacional.

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Outro exemplo é o REFUTUR, desenvolvido em parceria com a Presidência do Conselho de Ministros e com o Alto Comissariado para as Migrações, um curso de formação para capacitação em turismo exclusivamente dirigido a refugiados e imigrantes integrados ao abrigo de programas coordenados pelo Alto Comissariado para as Migrações. Esta formação pretende qualificar os participantes com competências profissionais que os habilitem a trabalhar em empresas do turismo, sendo que podem optar pelas vertentes de restauração ou alojamento, permitindo adquirir as competências essenciais para o acesso à atividade profissional. O curso, com a duração total de 158 horas, inclui ainda um estágio integrado com a duração de um mês, proporcionando uma aprendizagem prática em contexto de trabalho a realizar em unidades hoteleiras e de restauração. Estamos também a desenvolver, em parceria com o IEFP, uma Formação de Formadores do Turismo e outra de Formação para Licenciados de outras áreas.

Acredita que, desta forma, o turismo pode tornar-se efetivamente, fator de desenvolvimento sustentável e de coesão social? Sem dúvida, capacitar sobre estruturação de produtos turísticos, captação de investimento, dinamização de redes locais, marketing territorial e digital, inovação em turismo, mercados, produção de conteúdos e instrumentos de apoio ao turismo é essencial para potenciarmos o turismo local e regional enquanto fator de desenvolvimento económico, de preservação ambiental, de valorização cultural e de bem-estar social.

A responsabilidade é de todos nós, agentes do setor. A nossa ambição é que o turismo e a economia nacional beneficiem desta que é uma das atividades


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mais geradoras de riqueza e emprego em Portugal. Apontou como um dos grandes desafios para o turismo a questão do crescimento, particularmente, um tem que ver com o próprio crescimento em si: onde é que queremos crescer? O que é que está a ser feito para que os benefícios do turismo cheguem a todo o território e ao longo de todo o ano? Para além da grande aposta que tem vindo a ser feita na formação e qualificação enquanto fator de desenvolvimento, ambicionamos crescer em valor. Temos de continuar a promover os produtos que ainda têm potencial de crescimento e atingem segmentos com maior capacidade financeira, segmentar os mercados e focar a mensagem. Outro desafio é a redução dos efeitos da sazonalidade e o alargamento do turismo a todo o território. Portugal tem atualmente uma taxa de sazonalidade de 36,5% (2017), a mais baixa de todos os países do Mediterrâneo. Acredito que em 2018 este índice ainda tenha diminuído mais um pouco. Conseguimos, finalmente, combater a sazonalidade, principalmente em destinos como o Algarve, e estamos a conseguir, de facto, esbater as épocas altas e as épocas baixas.

que possamos manter os bons resultados também nos meses de menor procura.

Como vê a evolução até aqui e o que podemos esperar para 2019? A Estratégia Turismo 2027 foi delineada para um período de dez anos, pelo que ainda é prematuro fazer balanços. Contudo, os números não mentem e os resultados que temos vindo a alcançar, mês após mês, são um bom prenúncio de que esta estratégia está a funcionar. Quanto a 2019, o que ambicionamos é um crescimento em valor, com as receitas a crescerem a um ritmo superior ao das dormidas, que já começámos a notar em 2018 mas que queremos impulsionar durante este ano. O objetivo é criarmos as condições necessárias para que os turistas que nos visitam queiram permanecer mais tempo, gastem mais dinheiro no destino, se desloquem pelo país e que tenham experiências memoráveis que os façam ter vontade de regressar, não só para visitar como para viver, investir e criar empresas.

Diria que 2019 vai ser um ano de consolidação do turismo nacional. •

Em 2016, a sazonalidade era de 37,6% e temos o objetivo de reduzi-la para 33,5% até 2027. Estamos a conseguir esta redução através da aposta em produtos que trazem mais pessoas ao longo de todo o ano, como o Turismo Cultural, o Turismo Religioso, o Cycling e o Walking. Em 2019, iremos dar especial atenção ao Enoturismo e ao Turismo Literário, dois produtos que ainda têm potencial para crescer. Vamos, cada vez mais, apostar na promoção do destino Portugal em mercados não tradicionais, e reforçar a comunicação nos mercados habituais, para

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FRANCISCO CALHEIROS Presidente Confederação do Turismo de Portugal

O Sucesso do Turismo CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE ESCREVEU UM DIA QUE “NINGUÉM É IGUAL A NINGUÉM. TODO O SER HUMANO É UM ESTRANHO ÍMPAR”. Suponho que não teria em mente, no contexto em que escreveu estas palavras, a importância das pessoas na vida das empresas modernas enquanto recurso único e irrepetível, mas arrisco pensar que provavelmente concordaria comigo.

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Os automatismos, a robotização e muitas outras tecnologias invadem todos os dias organizações em todo o mundo, alterando modelos de negócio e de gestão, modos de produção, processos de trabalho, etc. Reproduzem-se, copiam-se, adquirem-se por empresas de áreas diversas. O único recurso que não podem reproduzir com o grau de rigor de uma máquina são as pessoas, esses “estranhos ímpares”. E são elas o seu maior ativo, o que pode fazer a diferença entre o sucesso e o insucesso de uma organização. E o turismo não é excepção. Bem pelo contrário, porque depende inteiramente de pessoas: as que viajam, as que acolhem, as que prestam um serviço. São justamente sobre estas últimas que agora me vou deter enquanto garante da qualidade e autenticidade da experiência dos turistas.

A afirmação de Portugal como destino de excelência depende diretamente da formação e qualificação dos profissionais de turismo. Há muito ainda a fazer neste domínio, mas, em bom rigor, estamos no caminho certo. O modelo de ensino português, público e privado, que forma os profissionais de Turismo é reconhecido pela sua qualidade e inovação. A título de exemplo, a Organização Mundial do Turismo considerou o projeto formativo “Tourism Training Talent” ministrado nas escolas do Turismo de Portugal como o melhor na categoria de Inovação e Políticas Públicas. Em 2017, a taxa de empregabilidade dos alunos formados nestas instituições atingiu os 90%, o índice mais alto dos últimos dez anos. Por outro lado, valorizar as carreiras de turismo é uma forma de não só atrair mais pessoas para a atividade, mas estimular os atuais profissionais a investir nas suas competências, combatendo a falta de recursos em volume e qualificações. O turismo necessita de captar e reter talento e, para que isso aconteça, importa que as entidades públicas, as empresas e as escolas concentrem esforços nessa missão. Que deve incluir uma atenção especial pelas profissões eventualmente menos apelativas do ponto da vista da procura, mas essenciais ao bom desempenho da atividade como é o caso dos empregados de mesa, de quarto ou copeiros.

A CTP tem vindo a alertar desde há muito para a importância de investir em boas propostas de valor no domínio da formação que assegurem uma adaptação plena às necessidades do mercado, aos novos padrões comportamentais e de consumo dos visitantes, como igualmente tem pugnado por políticas que contribuam para o crescente prestígio das profissões turísticas. Enquanto Organismo Intermédio, a CTP tem como objetivo a consolidação do Programa da formação-ação “Melhor Turismo 2020” pela perceção da importância da aposta neste tipo de intervenção, pela aplicabilidade direta e consequentes resultados imediatos e visíveis na capacitação dos recursos humanos das PME intervencionadas. Lançado em 2016, este Programa visa uma intervenção estruturada em conjuntos de PME às quais apresenta soluções comuns e coerentes, face a problemas e oportunidades diagnosticados no seio das mesmas. Os seus objetivos gerais são, entre outros, os de aumentar a capacidade de gestão das empresas participantes de forma a promover a reorganização, a inovação e a mudança, bem como a qualificação dos seus recursos humanos em domínios relevantes.

CONTRIBUIR PARA A AFIRMAÇÃO DE PORTUGAL COMO DESTINO RECONHECIDO PELA QUALIDADE E EXCELÊNCIA DOS SEUS SERVIÇOS TURÍSTICOS É A NOSSA META. E é também o melhor caminho para prestigiar as pessoas que têm no turismo a sua profissão e das quais depende - em tudo - o sucesso da nossa atividade. •

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54 TENDÊNCIAS

Como será o turismo daqui a uma década?

Podemos esperar mudanças significativas no setor?

RICHARD BUTLER Professor Universidade de Strathclyde Reino Unido

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

Antecipar tendências para o setor do turismo ao longo da próxima década e meia e identificar os principais desafios e questões é fantasioso, uma vez que são poucas as projeções ou previsões que tenham sido precisas quando vistas em retrospetiva. Olhemos para a situação do setor há quinze anos atrás para perceber o quanto o turismo mudou desde essa época e como é similar hoje.


TENDÊNCIAS

Se analisarmos brevemente algumas especulações recentes sobre o futuro do turismo verificamos algumas expetativas e questões comuns. Scott e Gossling, por exemplo, identificam cinco fatores principais como influenciadores do desenvolvimento do turismo, (social, tecnológico, económico, ambiental e político), com a instabilidade política e terrorismo como subfatores das primeiras e últimas grandes questões. Dwyer examina os motores da globalização do turismo e identifica cinco elementos similares (económicos, tecnológicos, demográficos, sociais e políticos) e observa a mudança de atitudes em relação aos direitos humanos, valores sociais e movimento de pessoas. Buckley debate as megatendências do turismo e foca os mesmos cinco fatores avançados por Scott e Gossling na identificação de seis tendências de larga escala: efeitos das mudanças climáticas, custos mais elevados de combustível, novas tecnologias, impacto do crescimento nos países do BRIC, conflito armado e geopolítica, e ligações e conflitos entre turismo e conservação. Essas forças são endógenas e exógenas ao turismo e têm sido fatores importantes na sua evolução e crescimento ao longo das décadas. O turismo já revelou ser capaz de, simultâneamente, gerar grandes mudanças e grande inércia ao longo dos tempos. Regra geral, são as mudanças que chamam a atenção da comunicação social e de investigadores pelas razões óbvias: são mais estimulantes de comentar do que os elementos do turismo que pouco mudaram. No entanto, é importante, ao olhar para o futuro, perceber que o turismo não mudou tanto assim desde as suas origens primitivas. As razões básicas para que haja turismo permanecem as mesmas.

DESAFIOS 1. MUDANÇAS NAS MOTIVAÇÕES E RESTRIÇÕES

Um dos primeiros desafios é determinar se as forças básicas de direção e limitação que operam no turismo vão mudar significativamente na próxima década e meia, e, em caso afirmativo, de que forma. Ao longo dos séculos, muitas das restrições acima mencionadas foram reduzidas para um número cada vez maior de pessoas, como mostra o aumento constante do número de viajantes internacionais, segundo a Organização Mundial do Turismo. No entanto, a maioria dessas restrições ainda existe para muitos turistas, mesmo que o leque de possibilidades em termos de localização, calendário, forma e natureza das deslocações tenha aumentado consideravelmente. As opções aumentaram devido à melhoria dos transportes, maior facilidade de deslocação através da simplificação de vistos e outras restrições políticas e melhorias gerais na segurança. No entanto, ainda há muitos destinos que estão fora de alcance ou são desconhecidos. Ao identificar possíveis tendências futuras, é necessário olhar para o passado, porque ele projeta uma grande sombra sobre o futuro e modela, em grande medida, o que faremos daqui para a frente. Há poucos sinais de que as motivações básicas para viajar tenham mudado significativamente, portanto, analisar as motivações e preferências dos turistas em 2030 não será muito diferente do que enfrentamos até hoje.

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56 TENDÊNCIAS

Em termos de restrições e limitações à participação no turismo, o preço é uma das principais, e provavelmente continuará a ser. Todas as previsões sugerem níveis crescentes de riqueza a nível mundial, embora com taxas de crescimento diferentes a nível mundial e, dependendo dos diferentes cenários económicos globais, os custos de participação no turismo também aumentarão. No entanto, pode-se concluir que as restrições financeiras deverão diminuir até 2030 para muitas pessoas, permitindo que novos participantes se envolvam no turismo. Muitos deles provavelmente virão da China e da India, onde o número de viajantes deverá continuar a crescer. As melhorias no transporte, incluindo mais rotas aéreas, tarifas relativamente mais baixas, viagens ferroviárias de alta velocidade e maior mobilidade pessoal vão servir para reduzir as restrições causadas pelos serviços de transporte, e exigir maior capacidade em termos das infra-estruturas relacionadas. Por sua vez a flexibilização de vistos e de outras restrições de, poderá reduzir as limitações políticas às viagens e aliviar algumas perceções negativas de segurança em alguns destinos.

como resultado do seu desenvolvimento, e tornar os destinos atuais capazes de acolher um crescente número de visitantes.

Finalmente, as redes sociais, a internet e outras formas de comunicação significam que mais turistas potenciais podem encontrar informações sobre possíveis destinos com mais facilidade do que no passado e, essa tendência, talvez acima de todas as outras, deverá manter-se no futuro.

É claro que é importante que surjam novos destinos turísticos, já que os existentes estão perto de atingir, ou já atingiram, níveis de saturação. O termo overtourism está a ser cada vez mais usado em locais como Veneza, Barcelona, Ilha de Skye, na Escócia, e Boracay nas Filipinas. O overtourism não é o mesmo que o excesso de lotação. Representa uma situação em que o número de visitantes sobrecarrega os serviços e instalações disponíveis e também se torna um sério inconveniente para os residentes nesses locais. Como o descontentamento parece estar a aumentar, as Organizações de Gestão de Destinos vão enfrentar novos desafios e terão de reorientar os seus esforços. Em alguns casos isso vai implicar a mudança da ênfase de atrair mais visitantes para tornar os destinos mais capazes de lidar com os visitantes atuais e futuros de forma eficaz. Assim, pode-se esperar que, até 2030, um número crescente de destinos deixe de apostar num crescimento em número de visitantes para privilegiar a renovação de serviços, ampliação de capacidade e desenvolvimento de operações mais eficientes. O objetivo será lidar com números crescentes de turistas com qualidade e, ao mesmo tempo, aliviar o impacto que a atividade turística possa ter nos residentes. Caso contrário, o oposto manter-se-á.

Em suma, com restrições reduzidas, e uma população global maior, capaz de participar do turismo, o crescimento contínuo do turismo internacional e nacional é quase inevitável, a menos que ocorra uma catástrofe global.

As questões que surgem, portanto, são onde devem ser desenvolvidos os novos destinos, que formas de turismo poderão surgir, que restrições podem ser reduzidas e que motivações podem impulsionar o turismo futuro.

2. OVERTOURISM E SUBDESENVOLVIMENTO Está a tornar-se cada vez mais claro que o sucesso do turismo, tanto a nível nacional como internacional, deu origem a problemas em alguns destinos, a braços com dificuldades em lidar com números crescents de turistas, de forma satisfatória e apropriada, sem oposição dos residentes. Uma forma de reduzir tais pressões é criar novos destinos. Outra é melhorar a resiliência dos destinos existentes. Os desafios, portanto, a este respeito, são identificar potenciais novos destinos e prever quaisquer problemas que possam surgir

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A ideia do turismo espacial existe há muito tempo. Aventurar-se no espaço próximo, para um grupo com poder económico e em busca de prestígio, talvez seja uma realidade próxima. Chegar além da atmosfera da Terra, em viagens orbitais é um passo mais ambicioso e ainda mais caro. A despesa, o risco, a necessidade de preparação cuidadosa, o desconforto relativo e o curto período de tempo envolvido serão suficientes para tornar as viagens espaciais impossíveis ou pouco atraentes para a grande maioria das pessoas nas próximas décadas, pelo menos. O efeito das rotações impostas para fornecer alguma gravidade pode inviabilizar que as aeronaves tenham janelas


TENDÊNCIAS

de visualização reais e o espaço interior terá que ser muito limitado. Assim, em termos de desenvolvimento significativo do turismo espacial, para além de um grupo muito restrito de pessoas, até 2030, é altamente improvável, para além de que outras restrições podem vir a afetar as viagens espaciais em massa, antes mesmo que comecem. A criação de destinos inteiramente novos para um grande número de turistas, em áreas que nunca foram turísticas é, não só difícil, como relativamente improvável, pelo menos até 2030. Poder acomodar um grande número de visitantes requer a construção de hotéis e outras formas de alojamento e a existência de toda a gama de serviços e instalações associadas. Tais desenvolvimentos demoram anos para serem concluídos, mesmo quando há licenciamentos, para além do tempo necessário para a criação de novos mercados e para que a promoção seja bem-sucedida. Na Europa, embora o desenvolvimento possa estar próximo do máximo em destinos turísticos consolidados, como França e Itália, ainda existe capacidade em partes de Espanha, Chipre e Grécia, em países vizinhos do Adriático, como Croácia e Albânia, e mais a oeste, Portugal. Um grande ponto de interrogação permanece sobre o provável padrão de desenvolvimento do turismo nos países muçulmanos do Mediterrâneo como a Turquia, o Egito e a Tunísia em particular, e também no Líbano, Jordânia, Líbia e até mesmo na Síria. Na Ásia, já há reações ao superdesenvolvimento nas Filipinas e na Tailândia, mas o crescimento contínuo é quase certo, dado o apelo cultural e climático de muitos dos países da região e o grande crescimento da China, um mercado próximo. Na América do Norte, o espaço é relativamente abundante e o mercado também, pelo que o contínuo desenvolvimento de resorts e destinos em todo o continente não deve cessar. Na América Central, é possível novo crescimento, mas dependerá da situação económica e política de cada país. A América do Sul registou apenas desenvolvimento limitado, tendo em conta as atrações potenciais, e é uma das áreas com maior probabilidade de desenvolvimento nas próximas duas décadas, se os serviços de transporte para e dentro da região forem ampliados e a estabilidade política garantida. África, além dos países costeiros do norte, continua a ser uma área problemática no que diz respeito ao turismo, com grandes atrações, mas problemas de segurança, saúde e política que continuam a limitar o setor de atingir todo o seu potencial. Os problemas em curso tornam improvável que a situação mude significativamente até 2030, embora os países africanos como Madagáscar, Maurícias e Seicheles, devam continuar a crescer em número de turistas.

3. DESAFIOS POLÍTICOS E DE SEGURANÇA Aquele que é, provavelmente, o maior desafio para o turismo a nível global é condicionado e controlado por forças exógenas.

A segurança tornou-se uma questão crítica para os destinos turísticos em muitos países. Embora ao longo das décadas o Médio Oriente tenha sido reconhecido como problemático em termos de segurança, tanto para residentes como para visitantes, essas questões

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58 TENDÊNCIAS

começaram a surgir em destinos anteriormente seguros como Paris, Londres, Berlim, Bruxelas, Boston e Mombai. O risco de conflito, sob qualquer forma, é um grande desafio para todos os destinos turísticos. Os turistas geralmente evitam destinos que possam por em risco a sua segurança pessoal, embora, ironicamente, as consequências dos conflitos sejam desde sempre grandes atrações turísticas. A verdade é que o conflito resulta na partida imediata dos turistas e pode ter consequências a médio prazo, como foi testemunhado na Tunísia, após o massacre de turistas em 2015. Também o Egipto registou quebra no número de turistas nos ultimos anos. Restaurar a paz e a tranquilidade nesses países não é responsabilidade do turismo, embora o desenvolvimento do setor possa ajudar a reconstruir essas economias e, consequentemente, a estabilidade dos países. Por volta de 2030, Timor Leste poderá ter uma indústria turística próspera capaz de ajudar o país a recuperar do conflito vivido na conquista da independência. Os países que sofreram conflitos civis no passado, como o Chipre ou a Colômbia, mostraram evidências encorajadoras de que o “turismo fénix” pode realmente emergir dos períodos sombrios de conflito. O sucesso do turismo em países recém-independentes como a Lituânia, Letônia e Estónia, e países emergentes como Croácia, Eslovénia e Sérvia também mostram aquilo que pode ser feito quando o mercado turístico acredita que a paz está estabelecida e a segurança garantida. O grande desafio para o turismo e para o mundo em geral está no Médio Oriente, uma área que possui atrações turísticas notáveis, mas que tem sido marcada por conflitos e distúrbios politicos ao longo das décadas. Apesar disso, existe turismo em Israel, Jordânia, Palestina e talvez cada vez mais para a Arábia Saudita, que até 2030 poderá registar um grande crescimento turístico. Ultrapassar o imaginário negativo da guerra e do conflito leva tempo, mas existem casos de sucesso como a exJugoslávia, que o fez em duas décadas.

4. ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS As alterações climáticas e suas consequências são o “elefante na sala” do turismo. Independentemente dos exageros que possam existir, é inegável que as alterações climáticas estão em curso e que grande parte dessa evolução se deve à atividade humana. No que ao turismo

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diz respeito é preciso reconhecer que viajar é um grande problema para o aquecimento global. Nos próximos anos, apela-se para uma redução do que é frequentemente denominado “viagens discricionárias”, ou seja, o que é visto como viagem não essencial em comparação com viagens de e para o trabalho, para obter os bens essenciais, por razões médicas e para fornecer os serviços básicos que, provavelmente, se tornarão cada vez mais comuns e acompanhados por ações que vão impor restrições às viagens de lazer de variadas formas. O preço deverá ser a primeira das limitação impostas, através de impostos e taxas sobre o combustível de aviação, resultando inevitavelmente num aumento das tarifas aéreas e, provavelmente, num número reduzido de viagens, o que representaria um duplo golpe para as companhias aéreas. Quaisquer limitações nas viagens afetaria diretamente o turismo, com consequentes impactos no gasto turístico e no emprego, o que, por sua vez, poderia levar a instabilidade em regiões e países com economias fortemente dependentes do turismo. Assim, à medida que se fazem tentativas para mitigar os efeitos das alterações climáticas, através da redução das viagens, é provavel que os benefícios do turismo sejam mais reduzidos. É claro que os turistas em geral não desejam ser privados da oportunidade de viajar para os locais desejados, nem reduzir as suas viagens de lazer ou mudar significativamente as suas atividades.

A maior parte do setor do turismo ignorou os desafios das alterações climáticas. Corporações individuais, particularmente cadeias de alojamento trouxeram significativas melhorias na redução do consumo de energia, de água e na construção de edifícios, reduzindo assim a pegada ecológica. Os fabricantes de aviões reduziram o consumo de combustível, por quilómetro percorrido e por passageiro transportado, através de motores mais económicos, aeronaves mais leves e rotas inteligentes, mas o consumo de combustível na aviação ainda é um grande problema. Os navios de cruzeiro fizeram ainda menos. Este meio de transporte turístico aumentou muito nas últimas duas décadas e é provável que continue a crescer até 2030, pelo menos. No entanto, infelizmente, as emissões de carbono e outros tipos de poluição provenientes dos navios de cruzeiro vão continuar a ser um problema no futuro.


TENDÊNCIAS

Até 2030, não haverá grandes avanços em termos da redução drástica do consumo de energia pelo turismo. A pressão política dos governos, o lobby de grupos ambientalistas e talvez as críticas gerais dos consumidores podem forçar uma redução nas viagens, mas é provável que isso seja um assunto menor em 2030, na maior parte do mundo. Elencados os desafios há duas questões que emergem. A primeira é que os desafios a serem enfrentados em 2030 provavelmente serão os mesmos que o turismo enfrenta hoje mas com ênfases diferentes. Alguns podem ser reduzidos, como as restrições. Outros, como as pressões ambientais em relação às alterações climáticas e ao excesso de turismo, provavelmente aumentarão em importância e potenciais efeitos negativos no setor. Segurança e proteção estão além da missão do turismo e a indústria permanecerá à mercê dos beligerantes até que a paz global e local seja estabelecida.

Os desafios e as questões levantadas por novos destinos e novas formas de turismo provavelmente não serão muito diferentes daqueles que enfrentamos hoje, embora em áreas específicas possam mudar consideravelmente dependendo da negociação política. O Brexit e o seu impacto sobre o turismo na Europa é um exemplo perfeito.

EMBORA A FORMA COMO DESCOBRIMOS LUGARES E COMO CHEGAR LÁ CONTINUE A MUDAR, EM GERAL, ATÉ 2030, O CENÁRIO GLOBAL DO TURISMO SERÁ ALTERADO MARGINALMENTE E EM ALGUMAS CARATERÍSTICAS-CHAVE, MAS AINDA ASSIM TOTALMENTE RECONHECÍVEL EM COMPARAÇÃO COM A FORMA COM HOJE O CONHECEMOS. •

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60 BEST IN TRAVEL

LISBOA

Amesterdão

Eleita “Melhor Cidade Destino” e “Melhor Destino City Break” a nível mundial, nos últimos World Travel Awards, a capital portuguesa adquiriu definitivamente o estatuto de destino turístico global. Lisboa foi, por larga maioria, o destino mas votado pelo painel de especialistas do Barómetro do Turismo.

A cidade dos canais é uma das mais charmosas capitais europeias. As bicicletas são o meio de transporte por excelência e o ambiente é de tolerância e diversidade. Em 2017 anunciou uma forma criativa de lidar com o excesso de turistas e é visto como destino referência a nível mundial.

Açores A imagem de destino seguro, com beleza mística, experiências únicas e grande preocupação pelas questões de sustentabilidade económica, cultural, social e ambiental fazem do Arquipélago dos Açores um caso de referência para o turismo a nível nacional e internacional.

Alentejo Além das paisagens, vinhos únicos e hotéis sem igual, o Alentejo é destino de visita obrigatória. A não perder: O Alqueva é certificado pela Starlight Tourism Destination da UNESCO, que atesta a qualidade para observação de estrelas. Aproveite a oportunidade para viajar pelo universo sem precisar de telescópio.

Barcelona Os costumes, a arquitetura, a boa gastronomia, a arte e até a língua fazem desta uma cidade incomparável. Face aos problemas com excesso de visitantes, o destino tem um novo plano para impulsionar o efeito multiplicador do turismo em setores estratégicos e promover a gestão integrada de destinos além da cidade de Barcelona.

Viena A clássica e ao mesmo tempo moderna Viena, plantada nas margens do rio Danúbio, brinda os visitantes com museus, palácios e jardins magistralmente cuidados. As belas salas de espetáculo por onde passam as maiores companhia de ópera e bailado fazem deste um marco cultural da Europa.

Porto

Paris

A arquitetura, a cultura, a gastronomia, o comércio, a sofisticação e a descoberta. O Porto coleciona prémios e é um dos mais bem sucedidos destinos nacionais. Na verdade, a segunda maior cidade do país tem tudo e é visita obrigatória para os apreciadores de boa comida e design.

A icónica capital francesa é frequentada por milhões de turistas todos os anos. Vibrante, sedutora, romântica, origem da cultura e da arte, a cidade luz ou cidade do amor, como é conhecida, tem uma interminável lista de qualidades que fazem da visita obrigatória.

Guimarães

Istambul

Com uma história e cultura milenares, anteriores à formação da nacionalidade, Guimarães é uma das mais belas cidades da Europa, onde o velho e o novo mundo convergem numa simbiose perfeita. Em 2012, foi considerada Capital Europeia da Cultura e reúne mais do que bons motivos para merecer uma visita.

É a única cidade do mundo localizada em dois continentes (Europa e Ásia). Istambul é simultaneamente antigo e contemporâneo, onde muralhas, palácios e mesquitas se misturam com edifícios modernos e pontes monumentais. O dinamismo económico e cultural da cidade fazem dela um destino a não perder.

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BEST IN TRAVEL

O Painel de especialistas do Barómetro do Turismo do IPDT elegeu um TOP de destinos (nacionais e internacionais) tendo em conta questões como sustentabilidade ambiental, qualidade de vida dos residentes, gestão de fluxos turísticos, modelo de governação do turismo e tecnologia, inovação e experiências.

BEST IN TRAVEL TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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PUBLICIDADE 01/2019


64 CADERNO ESPECIAL

CADERNO ESPECIAL

turismo como motor de requalificação dos centros históricos TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


CADERNO ESPECIAL

O DESAFIO DA REQUALIFICAÇÃO URBANA EM PORTUGAL, POR VIA DO TURISMO, É CRIAR CONDIÇÕES PARA QUE O PAÍS CONTINUE A SER O MELHOR DESTINO DO MUNDO, ASSEGURANDO A QUALIDADE DE VIDA DOS RESIDENTES.

Portugal

O nível de atividade de reabilitação urbana aumentou 32,1% em dezembro de 2018, face a igual período do ano anterior, terminando assim 2018 com um crescimento significativo, segundo dados da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN).

Portugal vive um bom momento em termos turísticos, a par da atração de investimento estrangeiro e de um ambiente económico propício, ligado às baixas taxas de juro. Estes fatores têm dado um relevante contributo para o vigor do setor imobiliário. O impulso da reabilitação urbana é indissociável do fenómeno do alojamento local (AL). Com efeito, nos últimos três anos, a oferta de AL em Portugal disparou. Transformou-se numa importante alternativa à hotelaria tradicional e num motor da reabilitação urbana, gerando um ciclo de desenvolvimento. Cidades renovadas tornam-se destinos mais atrativos, gerando um aumento da competitividade. No entanto, há que considerar os desafios que hoje se colocam à reabilitação urbana no nosso país. Respeitar as origens dos espaços reabilitados, valorizar o património, promover o bem-estar da população ou implementar uma reabilitação sustentada são apenas alguns dos obstáculos que se colocam ao setor. No fundo, o caminho do sucesso reside na aposta numa reabilitação urbana sustentada, que constitua uma fonte de atração de moradores e turistas e que permita a conservação e a reabilitação de edifícios para o futuro.

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66 CADERNO ESPECIAL

O CAMINHO DA REGULAMENTAÇÃO PORTUGAL FOI UM DOS PRIMEIROS PAÍSES A REGULAR O SETOR DO ALOJAMENTO LOCAL Em novembro de 2014 entrou em vigor o Decreto-Lei nº 128/2014 que veio desburocratizar o processo de licenciamento do AL. Em outubro de 2018, entrou em vigor a Lei 62/2018, cujas principais alterações são:

MUNICÍPIOS COM MAIS PODER O novo enquadramento legal para o arrendamento de curta duração dá às autarquias o poder de definir áreas de contenção, onde a abertura de novas unidades de alojamento local fica condicionada à autorização dos municípios. Nessas áreas um mesmo proprietário pode ter, no máximo, 7 estabelecimentos de AL. O objetivo é preservar a realidade social dos bairros e lugares. Os municípios são responsáveis pela aprovação e vistoria do AL.

PROCEDIMENTO DE REGISTO Comunicação prévia com prazo - entregue no balcão único eletrónico. As autarquias têm 10 dias úteis para se oporem (20 dias para hostels). Terminado o prazo, é emitido automaticamente o título válido de abertura ao público, podendo a atividade ser iniciada.

O PAPEL DOS CONDOMÍNIOS A Assembleia de Condóminos pode opor-se à existência de uma unidade de alojamento local, nos casos em que haja queixas reiteradas dos vizinhos.

SEGUROS PARA HÓSPEDES E TERCEIROS Passa a ser obrigatória a existência de seguros de responsabilidade civil, que cubram riscos de incêndio e danos patrimoniais e não patrimoniais causados a hóspedes e a terceiros. A falta de um seguro válido passa a ser fundamento para o cancelamento do registo de alojamento local.

NOVA MODALIDADE DE AL Passam a existir quatro modalidades de AL: aos apartamentos, moradias e estabelecimentos de hospedagem, somam-se agora os quartos (quando a exploração do AL é feita na residência do locador, que corresponde ao seu domicílio fiscal, sendo a unidade de alojamento o quarto).

Porto: o melhor destino Europeu de 2017 A 4 de dezembro de 1996 a UNESCO classificava o centro histórico da cidade do Porto como Património Cultural da Humanidade. Uma área que ronda os 49 hectares e inclui a parte da cidade interior ao traçado da antiga muralha Fernandina e algumas áreas adjacentes, integrando um total de quase 60 monumentos. Passaram 22 anos desde esse marco na história do município e muita coisa mudou. O Porto debatia-se com problemas de desertificação, com famílias a procurarem casa nos subúrbios, com encerramento de negócios devido aos centros comerciais, com graves problemas ao nível da degradação patrimonial e insegurança.

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


CADERNO ESPECIAL

Reabilitação, repovoamento, mobilidade e cultura foram os vértices da transformação da cidade e, muito em particular, do centro histórico. A Cimeira Ibero-Americana de 1998, a Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura e o Metro do Porto foram só algumas das intervenções que impulsionaram o renascimento da cidade. No entanto, foi o turismo o motor de arranque da evolução dos últimos anos e, muito provavelmente, do futuro. Hoje, o Porto é uma cidade onde o antigo e o novo se fundem - o património caraterístico da muralha, dos edifícios históricos e das pontes - e o património moderno, dos hotéis, dos barcos turísticos, do metro e da animação noturna e diurna, levando a que fosse eleito o melhor destino Europeu em 2017.

OS TURISTAS ENCANTAM-SE PELA DICOTOMIA DA CIDADE, PELA AUTENTICIDADE DAS GENTES E PELA GASTRONOMIA. TRAZEM COM ELES EMPREGO, RENDIMENTO E AJUDAM A ECONOMIA A CRESCER. No entanto, há outros desafios a enfrentar, como a “gentrificação” - que conduz à saída de habitantes do centro para outras zonas da cidade - e a reabilitação de edifícios sem preocupação de preservar o património. Soluções apressadas e pouco sustentadas podem resultar a curto prazo, mas a médio ou longo prazo podem ter efeitos negativos em termos de atração turística, quer pela perda de originalidade dos edifícios quer pela degradação prematura.

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Centremos pois a nossa análise na questão concreta da reabilitação urbana, mais concretamente na relação existente entre o centro histórico do Porto e o Alojamento Local. Os dados utilizados na análise do IPDT são do registo nacional de turismo, à data de 12 de fevereiro de 2019.

UTENTES

7 316

UNIDADES DE ALOJAMENTO

87%

APARTAMENTOS

7%

6%

MORADIAS ESTABELECIMENTOS DE HOSPEDAGEM

46,8%

anteriores a 1951

53,2%

posteriores a 1951

Fonte: RNT

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68 CADERNO ESPECIAL

Há aproximadamente 7300 unidades de alojamento local (AL) na cidade do Porto. Dessas, quase metade encontram-se em edifícios que têm mais de 67 anos, ou seja, construídos antes de 1951. Mas há outras conclusões a retirar:

UNIDADES CONCENTRADAS GEOGRAFICAMENTE Se analisarmos a localização das unidades de alojamento local por freguesia, verificamos que a grande maioria (68,5%) se situa na união de Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, que abrangem a zona histórica e a Baixa do Porto.

2 EM CADA 10 UNIDADES DE AL LOCALIZAM-SE NO CENTRO HISTÓRICO 18% das unidades de alojamento local da cidade (cerca de 1300), localizam-se na zona do Centro Histórico, que inclui os sítios classificados como património mundial pela UNESCO.

A MAIORIA DAS UNIDADES SÃO APARTAMENTOS O peso dos apartamentos no AL do Porto é elevado. Na verdade, 87% das unidades são apartamentos, enquanto que apenas 7% são moradias e 6% são estabelecimentos de hospedagem.

CAPACIDADE PARA 35 MIL TURISTAS O alojamento local da cidade do Porto tem capacidade para cerca de 35 mil utentes e os números continuam a crescer.

Antes da publicação do Decreto-Lei n.º 128/2014, que veio aprovar o regime jurídico da exploração dos estabelecimentos de alojamento local, as unidades registadas (pouco mais de 400) encontravam-se, quase exclusivamente, em imóveis construídos antes de 1951. Este Decreto veio harmonizar o cenário: após a sua publicação o número de imóveis para AL anteriores vs. posteriores a 1951 equilibrou. Os números não enganam. A reabilitação é, atualmente, a principal força motriz do mercado imobiliário do Porto e grande impulsionadora do forte dinamismo que hoje se sente no centro histórico da cidade, onde os setores da habitação e do turismo são os alvos preferenciais de investimento. O AL veio dar um significativo impulso na reabilitação do património construído da cidade, no entanto, ainda muito pode ser feito.

O TURISMO COMO PARTE DA SOLUÇÃO? O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, defende que o Porto está a inverter um processo muito antigo de esvaziamento do centro histórico. Efetivamente a cidade vive uma atmosfera vibrante e a reabilitação está em curso, podendo o turismo ser parte da solução. Analisando o mapa de freguesias da cidade percebemos que a percentagem de unidades de alojamento local existentes em edifícios com mais de 67 anos é bastante significativa.

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


CADERNO ESPECIAL

UNIDADES DE ALOJAMENTO LOCAL ANTERIORES A 1951 (%)

PARANHOS

RAMALDE ALDOAR NEVOGILDE CEDOFEITA

CAMPANHÃ LORDELO DO OURO SANTO ILDEFONSO FOZ DO DOURO

MASSARELOS BONFIM

VITÓRIA MIRAGAIA

16 - 30% 31 - 45%

SÉ SÃO NICOLAU

46 - 60%

No caso da União de Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, o número de unidades de AL anteriores a 1951 é de 48%, número que sobe para 51% na freguesia de Campanhã. No centro histórico é de apenas 43%. Estes números podem sugerir que o alojamento local na cidade do Porto tende a aproveitar melhor os edifícios antigos que se localizam fora do Centro Histórico do que os que estão localizados na zona do Centro Histórico. Com efeito, os dados indicam que 1 em cada 2 unidades de AL estão localizadas em edifícios muito antigos (anteriores a 1951) e que, possivelmente, terão sido entretanto requalificados para fins turísticos. A localização das unidades de AL em imóveis antigos também conduz a reflexão. Nas freguesias mais afastadas do centro histórico diminui consideravelmente o número de unidades de AL integradas em edifícios anteriores a 1951 (e que, provavelmente, terão sido reabilitados para poderem servir fins turísticos). Criar condições para a reabilitação de edifícios antigos, mobilidade e promoção em freguesias mais distantes do centro histórico, pode ser uma dupla oportunidade. Por um lado, promove a dispersão de turistas, aliviando a pressão e, por outro, assegura que a reabilitação urbana chega, de forma mais equilibrada, a outros pontos da cidade. A requalificação de edifícios para fins turísticos, para responder à procura crescente, levanta, naturalmente,

questões quanto ao impacto na qualidade de vida da população. A fuga de residentes das freguesias do centro histórico para zonas periféricas da cidade e concelhos vizinhos é a principal preocupação. Para minimizar esses impactos, é necessário garantir a manutenção de edifícios residenciais na zona histórica, a preços que as famílias possam suportar. É importante criar infraestruturas de apoio familiar (como creches, escolas ou parques infantis); fomentar a implementação de empresas ligadas à prestação de serviços, potenciando a residência de novas famílias; classificar lojas históricas para que se consigam manter no local, etc. A autarquia portuense está sensibilizada para estas questões, tendo já implementado medidas neste sentido. Atualmente, a CMP está a estudar um regulador de isenções que ajude a promover a revitalização da malha urbana, através da atribuição de benefícios a proprietários de prédios urbanos arrendados para fins habitacionais no Centro Histórico.

Assegurar que o turismo contribui para o desenvolvimento económico, social e cultural da cidade, sem afetar a sua sustentabilidade e sem perder autenticidade devem ser as linhas orientadoras do processo de transformação da cidade, do qual o turismo é parte indissociável. TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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70 CADERNO ESPECIAL

CAFÉ “A BRASILEIRA” Um dos mais emblemáticos cafés da cidade do Porto abria pela primeira vez as portas ao público no dia 4 de maio de 1903. Era lugar prestigiado, frequentado por senhores de smoking e damas de chapéu de abas. Com o passar dos anos foi perdendo a preponderância de outros tempos, à medida que o centro histórico perdia população e vitalidade. Fechou portas em 2013. Cinco anos depois, o edifício do centenário café A Brasileira, no Porto, reabriu. Além da cafetaria, oferece um restaurante de autor e um hotel de cinco estrelas com 90 quartos e seis pisos a cheirar a canela, café ou anis. A obra de reabilitação do Grupo Pestana permitiu devolver à cidade um dos seus mais icónicos espaços, que mantem o mesmo design, convidando as pessoas a uma viagem pelo passado. O espaço recuperou também as antigas tertúlias mensais dedicadas ao universo do café e do chá, num formato mais moderno. Esta tendência de recuperação de espaços comerciais históricos ocorre um pouco por todo o país e são estes lugares que ajudam a manter viva a identidade das cidades.

Lisboa: 9 em cada 10 unidades de alojamento local são em edifícios com mais de 65 anos Em 2018, Portugal registou 21 milhões de hóspedes, sendo que mais de seis milhões ficaram na Área Metropolitana de Lisboa e mais de quatro milhões na zona norte do país. O turismo em Lisboa cresce a olhos vistos e a cidade nunca está sozinha. Há sempre visitantes nas ruas, filas para visitar monumentos, esplanadas e jardins cheios, com a “movida” própria de uma grande cidade europeia. Lisboa é cada vez mais atrativa e ganhou alma e dinamismo económico muito por força do turismo. O aumento da procura tem levado a debates e reflexões nas classes técnicas e políticas.

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CADERNO ESPECIAL

A AUTARQUIA JÁ COMEÇOU A INTERVIR NO SENTIDO DE ZELAR PELA QUALIDADE DE VIDA DOS HABITANTES, NUMA COEXISTÊNCIA PACÍFICA COM OS TURISTAS, TORNANDO-SE PIONEIRA A NÍVEL NACIONAL. Nesta perspetiva, desde outubro de 2018 é mais difícil licenciar imóveis para AL na cidade. A autarquia determinou que apenas 25% da habitação disponível pode ser afeta ao alojamento local e há já cinco bairros da capital - Castelo, Alfama, Mouraria, Bairro Alto e Madragoa - qualificados como áreas de contenção - áreas onde o licenciamento de AL está interdito durante 1 ano. A requalificação urbana, ainda que por via do turismo tem, inegavelmente, impactos positivos, permitindo que a cidade ganhe nova vida. No entanto, há fatores a considerar e que têm motivado alertas por parte de vários especialistas, designadamente a falta de exigência no setor, conduzindo, por exemplo, à destruição da gaiola pombalina e, como tal, da estrutura antissísmica dos edifícios. Isto porque Lisboa foi a primeira cidade do mundo construída para resistir a sismos e essa é uma caraterística cultural que importa preservar, para além da questão da segurança. A análise centra-se na questão da reabilitação urbana, mais concretamente na relação existente entre o centro histórico e o Alojamento Local. Os dados utilizados na análise do IPDT são do Registo Nacional de Turismo, à data de 12 de fevereiro de 2019.

99 168 UTENTES

17 769 UNIDADES DE ALOJAMENTO

90%

APARTAMENTOS

9%

ESTABELECIMENTOS DE HOSPEDAGEM

77,7%

anteriores a 1951

1%

MORADIAS

22,3%

posteriores a 1951

Fonte: RNT

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72 CADERNO ESPECIAL

Há aproximadamente 18 mil unidades de alojamento local (AL) em Lisboa. Dessas, quase 80 por cento encontram-se em edifícios que têm mais de 67 anos, ou seja, construídos antes de 1951. Mas há outras conclusões a retirar:

UNIDADES CONCENTRADAS GEOGRAFICAMENTE Se analisarmos a localização das unidades de alojamento local por freguesia, verificamos que a grande maioria (73%) se situa nas Freguesias de Santa Maria Maior, Misericórdia, Arroios, São Vicente e Santo António.

6 EM CADA 10 UNIDADES DE AL LOCALIZAM-SE NO CENTRO HISTÓRICO 64% das unidades de alojamento local da cidade (cerca de 11 mil), localizam-se na zona do Centro Histórico, nas freguesias de Campo de Ourique, Estrela, Misericórdia, Penha da França, Santa Maria Maior e São Vicente.

A MAIORIA DAS UNIDADES SÃO APARTAMENTOS O peso dos apartamentos no AL de Lisboa é muito grande. Na verdade, 90% são apartamentos, enquanto que apenas 9% são estabelecimentos de hospedagem.

CAPACIDADE PARA 100 MIL TURISTAS O alojamento local em Lisboa tem capacidade para cerca de 100 mil utentes.

De acordo com informação do município de Lisboa, desde 2011 foram lançados no mercado de alojamento cerca de 8000 fogos que estavam devolutos, que vieram aumentar a oferta de habitação. Mas destes 8000 há uma parte, cerca de 20%, que foram ocupados por alojamento local. O AL veio dar um significativo impulso na reabilitação do património construído da cidade, no entanto, muitos especialistas afirmam que há ainda muitos imóveis para recuperar na capital. Analisando o mapa de freguesias da cidade percebemos que a percentagem de unidades de alojamento local existentes em edifícios com mais de 67 anos é bastante significativa e aumenta à medida que nos aproximamos do centro histórico. No caso das freguesias de Santa Maria Maior e Misericórdia, o número de unidades de AL existentes em edifícios anteriores a 1951 é superior a 85%. No centro histórico é de 86%. Estes números podem sugerir que o alojamento local em Lisboa tende a aproveitar de forma muito efetiva os edifícios antigos que se localizam dentro do Centro Histórico. Com efeito, os dados indicam que quase 9 em cada 10 unidades de AL estão localizadas em edifícios muito antigos (anteriores a 1951). A maioria destes edifícios antigos estariam degradados ou abandonados sendo provável que tenham sido entretanto requalificados para fins turísticos.

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CADERNO ESPECIAL

UNIDADES DE ALOJAMENTO LOCAL ANTERIORES A 1951 (%)

SANTA CLARA

OLIVAIS

LUMIAR

PARQUE DAS NAÇÕES

CARNIDE

ALVALADE

SÃO DOMINGOS DE BENFICA

MARVILA AREEIRO AVENIDAS NOVAS

BENFICA

BEATO

CAMPOLIDE

ARROIOS PENHA DE FRANÇA SANTO ANTÓNIO

ALCÂNTARA

CAMPO DE OURIQUE

SÃO VICENTE

0 - 25% AJUDA ESTRELA

MISERICÓRDIA

SANTA MARIA MAIOR

26 - 50% 51 - 75%

BELÉM

76 - 100%

À semelhança do que acontece no Porto, a localização das unidades de AL em imóveis antigos também conduz a reflexão que, no caso de Lisboa, é ainda mais evidente, tendo em conta a maior disparidade. Nas freguesias mais afastadas do centro histórico diminui o número de unidades de AL integradas em edifícios anteriores a 1951.

Perante estes números, há uma outra questão que se coloca. Se no centro histórico de Lisboa, 9 em cada 10 unidades de alojamento local estão inseridas em edifícios muito antigos, há uma forte probabilidade destes edifícios já terem sido requalificados. Será que ainda há muitos imóveis para renovar na zona do centro histórico de Lisboa?

Nesta perspetiva, a aposta poderá passar por centrar esforços na criação de condições para a reabilitação de edifícios antigos em freguesias mais distantes do centro histórico, assegurando condições de mobilidade para que os visitantes possam facilmente deslocar-se às principais zonas turísticas.

Estará a reabilitação urbana a valorizar o que mais nos carateriza: pequeno comércio, bairros com vizinhos que se conhecem, autenticidade das fachadas, calçada portuguesa?

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74 CADERNO ESPECIAL

LOJAS COM HISTÓRIA Não só de alojamento vive a recuperação urbana em Lisboa. Manter e valorizar o que mais nos carateriza é uma das principais preocupações, designadamente ao nível do comércio local. Com o passar dos tempos, muitos estabelecimentos icónicos acabaram fechados ou significativamente alterados, dando lugar a estabelecimentos descaraterizados e lojas orientais. A preocupação de recuperar esse património cultural e histórico é evidente, contribuindo para que Lisboa se mantenha uma cidade autêntica, única e impossível de imitar. Nesta perspetiva, surgiu o projeto Lojas Históricas, criado pela Câmara Municipal de Lisboa para salvaguardar e dinamizar o comércio histórico, tradicional e de proximidade da cidade: retrosarias, chapelarias, óticas, farmácias, barbearias e restaurantes lisboetas com muitos anos de vida. O objetivo é promover e preservar estes espaços de prestígio na capital, dando-lhes, em muitos casos, uma nova vida. O programa conta atualmente com 142 estabelecimentos comerciais, com a freguesia de Santa Maria Maior a concentrar o maior número de estabelecimentos desde que a distinção começou a ser atribuída, em 2016.

CONCLUSÃO A análise dos dados permite concluir que nos últimos anos se observa uma indiscutível requalificação urbana, impelida pela reabilitação de edifícios que durante décadas estiveram abandonados, que degradavam a imagem das cidades. As cidades estão a tornar-se lugares mais agradáveis, não só para turistas, como para habitantes. Acresce que, pela renovação dos edifícios, outrora vazios, ganha-se em segurança e também na vivência dos espaços, das ruas e do comércio local e tradicional.

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O crescimento do turismo em Portugal tem um papel fundamental na reabilitação urbana. Não obstante, também acarreta desafios que não podemos perder de vista, se queremos que as cidades continuem a ser bons lugares para visitar mas, acima de tudo, bons lugares para viver. •



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CADERNO ESPECIAL

Turismo e Comércio: Construir uma Cidade Inovadoramente Tradicional RICARDO VALENTE Vereador do Pelouro da Economia, Turismo e Comércio Câmara Municipal do Porto

“TEMOS O DESTINO QUE MERECEMOS. O NOSSO DESTINO ESTÁ DE ACORDO COM OS NOSSOS MÉRITOS” ALBERT EINSTEIN

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78 CADERNO ESPECIAL

Aos dias de hoje, o Porto afirma-se como uma Cidade Viva, onde apetece viver, excelente para visitar, para partilhar e para fazer compras, com oportunidades de negócio e com potencial para crescer. O PORTO É UMA CIDADE DESASSOSSEGADA, LUMINOSA E VOLTADA PARA UMA CUMPLICIDADE COLETIVA!

No momento atual, o turismo tem como objetivo proporcionar repouso, descanso, lazer, atividades lúdicas e conhecimento de outras culturas. Foi no século XX que o turismo ganhou a sua identidade atual, com a evolução exponencial da urbanização em todas as geografias, com o aparecimento dos novos meios de transporte, a fundação de várias companhias aéreas, os novos meios de comunicação, o aumento dos níveis de vida proporcionados por um Mundo assente na liberdade do comércio e em democracias liberais, onde a liberdade de circulação de pessoas e bens assume relevância essencial. Nesse seguimento, as cidades passaram a ser um ponto fundamental do Turismo de Massas, considerado como uma das grandes revoluções do século XX. Logo, o turismo passou a ser um fator que contribui diretamente para a transformação do território urbano e para o melhoramento da economia do mesmo. Mais ainda, a partir dos meados do século XX o turismo torna-se num agente renovado e com novas tendências: passou

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a encarar a cidade e os seus bens como uma forma de marcar a diferença e captar diversos fluxos. Na segunda metade do século XX, num período de diversificação e segregação da atividade turística, o turismo urbano, cultural e patrimonial ganha uma nova motivação nos centros históricos das cidades, pelo que a cidade deixa de ser um lugar fundamentalmente de produção, para se tornar um espaço de consumo, serviços, comércio e, em geral, uma imagem a mostrar a visitantes e investidores, reais e potenciais. Sabemos que os designados “centros históricos” são parte relevante de uma cidade qualquer que ela seja. No caso do Porto este centro é Património da Humanidade, o que lhe confere um carater ainda mais excecional. Os “centros” marcam o início e as origens da cidade, tendo um caráter que suporta valores históricos, culturais, sociais, económicos, espaciais, urbanísticos, identitários e de pertença. Deste modo, os centros históricos são hoje ponto importante do culto e alma de uma cidade, ponto de referência do passado, local de memória a salvaguardar e a reabilitar.


CADERNO ESPECIAL

TODO O PROCESSO DE REABILITAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS DEVE SER FORMULADO DE FORMA A VALORIZAR E A PRESERVAR OS SEUS VALORES. Mais ainda, a reabilitação deve ter como desiderato restabelecer e melhorar as zonas degradadas da malha urbana, valorizando o seu caráter residencial e o património histórico-arquitetónico de forma a garantir a manutenção da população residente nos centros. Assim, a reabilitação urbana tem que ser sinónimo de requalificação, regeneração, revivificação, revitalização, conservação e preservação. Ora tal só é gerado de forma harmoniosa numa cidade multifuncional, onde convivam os residentes, o comércio e a atividade turística, que suporta parte relevantíssima da economia da cidade. O centro é o ponto referencial de comércio, serviços, cultura e turismo disponível aos moradores e a todos os utilizadores da cidade.

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80 CADERNO ESPECIAL

O DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO OBRIGA AO PROCESSO DE REABILITAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS, SENDO QUE NECESSITA PARA O SEU DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO DA DIVERSIDADE ECONÓMICA, SOCIAL E CULTURAL, E DA PRESERVAÇÃO DA IDENTIDADE DO LUGAR. Um dos vetores estratégicos da atuação municipal nos últimos anos tem passado por orientar as políticas para o interior da cidade, políticas essas concretizadas através da fixação de residentes, da atração de capital humano qualificado, de ações concertadas que visam a dinamização de dois setores fundamentais: o turismo e o comércio. A participação e o envolvimento dos comerciantes da cidade na promoção de novas dinâmicas, realizados através de um diálogo de proximidade, de partilha e de desafios bilaterais constantes são fundamentais para a cidade que se vive hoje: diferente, transformada e cosmopolita. E esta capacitação do setor comercial, gerando mais conhecimento, mais competências gerais, sociais e profissionais é fundamental para que nos adaptemos aos desafios presentes e futuros. Um desses desafios, senão o maior, é exatamente o de fixar serviços e residentes, para uma cidade com vida que em cada dia se supera e com ofertas de comércio e de turismo mais criativas, mais inovadoras, mais versáteis e ajustadas às necessidades de todos. A cidade já assimilou esse desafio e adapta-se, diariamente, para melhorar a qualidade de vida dos seus residentes e visitantes, e aproveita essa oportunidade para renovar edifícios e fachadas, para criar novos negócios e emprego.

Em suma: para ser competitiva! Assistimos a inúmeras requalificações de quarteirões degradados, com imediata ocupação por novos habitantes, por novo comércio; por novas empresas e por empresas que procuram no Porto o porto de embarque do talento que necessitam para explorar atividades inovadoras no mercado global. Um dos desafios com que a cidade se depara em termos de turismo e de comércio é que o seu crescimento seja alicerçado numa lógica e dinâmica ao mesmo tempo ambiciosa, moderna, mas eclético e adaptado a todos os cidadãos da cidade do Porto. Trata-se pois de trabalharmos em conjunto com vista a um crescimento dos setores comercial e do turismo de forma sustentada, em torno de um conceito único de cidade. Só este trabalho em rede, entre todos os atores da cidade, assegurará esse crescimento sustentado, essa notoriedade global, sem desvirtuar a nossa genuinidade, as nossas raízes e tradição.

SEMPRE PORTO PONTO. •

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CADERNO ESPECIAL

Paulo Nunes de Almeida Presidente AEP

Manter bons ventos no setor do turismo

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82 CADERNO ESPECIAL

PENSO SER UNÂNIME A PERCEÇÃO SOBRE A CRESCENTE IMPORTÂNCIA QUE O SETOR DO TURISMO TEM VINDO A REPRESENTAR PARA A ECONOMIA PORTUGUESA. Mesmo os que, de uma forma mais ou menos profunda, desconhecem as estatísticas, não terão quaisquer dúvidas em afirmar esta maior representatividade. Basta estar atento à atividade quotidiana, onde a proliferação de estabelecimentos ligados à hotelaria, sobretudo nas grandes cidades, mas também nos territórios afastados do litoral, ou a “sobrelotação” dos aeroportos constituem dois claros exemplos. A juntar a tudo isto temos os “óscares” internacionais - os World Travel Awards - que em 2018 premiaram o nosso país, pelo segundo ano consecutivo, como o melhor destino turístico do mundo. É um prémio do qual nos devemos orgulhar. Significa que Portugal é competitivo neste setor - mais do que isso, é mundialmente competitivo, na medida em que estamos perante uma atividade que é, por definição, transacionável e internacionalizável. Portugal surge também bem posicionado no ranking The Travel & Tourism Competitiveness Index 2017, ocupando a 14ª posição, num total de 136 países, onde se destaca o pilar da “Proteção e Segurança”, em que revelamos ainda um melhor desempenho relativo (11ª posição). Todo este impulso que a atividade turística tem vindo a registar em Portugal é especialmente relevante para a estratégia de crescimento e desenvolvimento económico sustentável que preconizo para o país, muito assente na aposta do investimento e das exportações.

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Os serviços têm vindo consistentemente a ganhar representatividade na estrutura das exportações portuguesas globais, assumindo atualmente um peso em torno de 30%, onde a rubrica “Viagens e turismo” pesa já mais de metade das exportações globais de serviços.

A par do contributo para o aumento da intensidade exportadora, o setor do turismo gera um importante efeito de arrastamento em múltiplos setores de atividade económica, promove uma forte criação de emprego e colabora de forma muito significativa para a reabilitação dos espaços e preservação de património, para a valorização dos recursos endógenos e para a fixação de empresas e pessoas nos territórios. Ao longo dos últimos anos, a evolução positiva nos vários indicadores globais da oferta turística tem sido acompanhada pela capacidade do setor em aumentar os níveis de ocupação fora da chamada “época alta”, entre os meses de julho e setembro, reduzindo assim a sazonalidade. A esta menor sazonalidade, acresce o aumento da proporção de hóspedes estrangeiros, com o Reino Unido a manter-se como o principal mercado emissor (representando mais de um quinto do total das dormidas de não residentes), seguido da Alemanha, Espanha e França. É muito importante que todos estes “bons ventos” que pairam sobre o setor do turismo em Portugal prossigam no médio e longo prazos. Porém, neste como em tantos outros setores, os desafios são muitos. A especificidade desta atividade, em particular pelo seu cariz transacionável, impõe uma crescente adaptação às tendências do mercado global, com consumidores cada vez mais informados e exigentes. São imensos os sinais de que o setor tem vindo a adaptar-se e a modernizar-se, incorporando inovação e fazendo uso das tecnologias digitais ao longo de toda a cadeia de valor. Neste âmbito, é muito importante a questão da formação e qualificação dos recursos humanos, promovendo a aquisição das competências que o mercado impõe.


CADERNO ESPECIAL

Sendo certo que este é um desafio transversal aos diversos setores da economia nacional, no caso da atividade turística coloca-se com especial acuidade, face ao elevado peso da componente humana na prestação de serviços ao cliente. Nesta matéria, apesar dos enormes progressos alcançados, nomeadamente com o importante contributo das Escolas de Hotelaria e Turismo, é preciso fazer mais. Os dados dos Quadros de Pessoal, do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, mostram que 61,4% dos trabalhadores por conta de outrem na atividade de Alojamento, Restauração e Similares possuem como nível máximo de habilitação o terceiro ciclo do ensino básico, manifestamente pior que o valor médio observado para a totalidade das atividades económicas, já de si muito desfavorável (51,7%).

TRABALHADORES POR CONTA DE OUTREM, POR ATIVIDADE ECONÓMICA, SEGUNDO O NÍVEL DE HABILITAÇÃO (2017) 100% 90% 80%

0,03% 0,4% 5,6%

0,2% 2,0% 15,7%

Doutoramento Mestrado Licenciatura

32,6%

30,4%

70% 60%

Ensino Secundário e Pós Secundário Máximo Ensino Básico

50% 40% 30% 20%

61,4%

51,7%

10% 0

ALOJAMENTO, RESTAURAÇÃO E SIMILARES

TOTAL

Fonte: Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social - Quadros de Pessoal, 2017; Cálculos próprios.

Profissionais qualificados constituem uma mais-valia para uma boa imagem e um turismo de elevada qualidade, diferenciador e potenciador de maiores ganhos de competitividade.

Simultaneamente, à semelhança do que vem sucedendo em diversos setores de produção de bens transacionáveis, também neste setor “produtor de serviços” transacionáveis importa continuar a promover a diversificação dos mercados emissores, atraindo turistas de mercados não tradicionais, reduzindo por essa via a concentração e, consequentemente, o grau de risco. A par de uma estratégia que incorpore um número mais alargado de mercados emissores, importa também continuar a apostar em diversos nichos de mercado, de que são exemplo o turismo de negócios, de saúde e bem-estar, face à dinâmica demográfica, em particular ao crescente peso dos “seniores” na sociedade, ou o turismo religioso. A este propósito, o recente anúncio pelo Papa Francisco de que em 2022 a realização das Jornadas Mundiais da Juventude ocorrerá em Portugal é mais um “bom vento” esperado para o setor do turismo. Terminava, sublinhando que a competitividade e sustentabilidade do setor do turismo passarão muito pela forte interação que se conseguir entre os diversos stakeholders, materializado por um trabalho integrado e em rede - envolvendo atores públicos e privados – que possa influenciar e potenciar uma trajetória ininterrupta de crescimento e desenvolvimento de tão importante atividade económica. •

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86 TENDÊNCIAS

Economia de serviço ou experiência: qual é o seu negócio? Matt Walker Chief storyteller LikeWhere

Ao longo de 2018 surgiram previsões que apontavam para o aparecimento de uma nova economia no setor do turismo a Economia Pós-Experiência.

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TENDÊNCIAS

A palavra “experiência” não parece transmitir valor ao consumidor, pelo menos de forma que permita que as marcas diferenciem a sua oferta. O discurso da Economia de Experiência (pioneiro de J. Pine e J. Gilmore) é tão predominante no turismo que as companhias aéreas e as marcas - por medo de se tornarem irrelevantes - foram compelidas a adotar o paradigma do marketing. Do orçamento ao luxo, a invasão semântica da Economia de Experiências transformou tudo. Entretanto, avançar com a existência de uma nova economia, sem diagnosticar a mercantilização de experiências ou propor uma nova unidade de valor económico, é prematuro.

AS DUAS ECONOMIAS NO SETOR O turismo tem duas unidades de valor económico: serviço e experiência. A indústria baseia-se no serviço, mas a expetativa do viajante é medida pela experiência. O advento do digital trouxe novos valores de consumo e reformulou a viagem como um ciclo de vida com muitas fases, desde o planeamento, reserva e transporte para consumir uma experiência no destino. O turismo entrou num estado esquizofrénico quando incluiu uma falsa dicotomia entre serviço e experiência, onde os provedores de serviços tentam oferecer experiências sem terem em conta a excelência do serviço.

EM DETERMINADO MOMENTO (DÉCADAS ATRÁS), UM VOO ERA UMA EXPERIÊNCIA EM SI. HOJE EM DIA, AS COMPANHIAS AÉREAS TÊM CONSCIÊNCIA QUE A MELHOR EXPERIÊNCIA DO SEU SERVIÇO É SER CONVENIENTE E COMUM A ECONOMIA DE EXPERIÊNCIAS Naturalmente, as marcas que adotam a linguagem da Economia de Experiências e, ao mesmo tempo, dão ao serviço a possibilidade de recuperar o atraso estão a tentar acompanhar os valores do consumidor num mercado maduro. Alguns estudos no âmbito das gerações emergentes (Y e Z) revelam a mudança para o consumo de “experiências” mais do que para as coisas, porque as “experiências” os fazem sentir mais conectados, mais autênticos e contribuem para um sentido de pertença. Um olhar superficial através das redes sociais vem confirmar isso mesmo; as pessoas partilham as suas experiências muito mais do que a compra de um novo brinquedo.

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As pessoas organizam os seus perfis online, decidem o que partilhar com o público com base no que consideram autêntico ou no que é mais provável que se revele como autêntico. Um estudo do New York Times refere que 84% dos utilizadores de redes sociais partilham coisas que refletem a forma como querem ser vistos. O imperativo comercial de qualquer marca que pretenda afirmar-se na Economia da Experiências é tornar a experiência do seu produto ou serviço como autêntica. O objetivo principal da Economia da Experiências é criar uma ligação emocional positiva entre a marca e o cliente. A grande diferença entre a Economia de Serviços e a Economia de Experiências reside no comportamento do consumidor: como é que gasta o seu tempo? A economia de serviços é medida em tempo economizado para o cliente. A Economia de Experiências é medida em tempo bem gasto para o cliente.

NUM RECENTE RELATÓRIO DA IATA: • 82% dos passageiros revelam que querem informações em tempo real nos seus dispositivos pessoais; • 65% estão dispostos a partilhar dados pessoais para maior segurança. UM ESTUDO DA FLIGHTVIEW DESCOBRIU QUE: • 70% dos passageiros estavam dispostos a pagar por voos diretos; • 60% estavam dispostos a conduzir até duas horas para conseguir um voo direto. TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


TENDÊNCIAS

A expetativa do cliente em todos os momentos, desde a partida de casa até aterrar no destino é economizar tempo. No entanto, desde que chega ao destino, até que regressa a casa, a expetativa incide no tempo gasto. A economia pós-experiência surge num mundo em que influenciadores e celebridades da internet anunciam a próxima tendência, tendo-se tornado mais um exercício de marca do que uma busca de valor económico.

O SERVIÇO NUMA ECONOMIA DE EXPERIÊNCIAS A indústria do turismo opera numa economia de serviços que deve ter como expetativa promover experiências memoráveis aos clientes. O cenário ideal será tornarmo-nos uma economia ServEx, isto é, um ótimo serviço que potencia experiências transformadoras. Estas são as três vertentes que as grandes marcas de serviços podem abordar para promover a Economia de Experiências:

1. O comportamento do consumidor é um ótimo indicador de negócio Fornece visão e mantém o foco no essencial. Se os clientes estão a tentar economizar tempo – Bem-vindos à economia de serviços. Nesta economia, o valor e a diferenciação da marca são determinados pela qualidade do serviço, sem a qual não há forma de negociar na Economia da Experiências.

2. Investir na cultura corporativa O núcleo da Economia da Experiências é a existência de momentos memoráveis através de ligações humanas fortalecidas. A mudança nos valores do consumidor penaliza as empresas que forem incapazes de criar empatia com o cliente. Na Economia de Experiências a cultura corporativa tóxica afasta qualquer marca do negócio - talvez não imediatamente, mas eventualmente.

3. Pensar para além dos objetivos simples Adotar uma abordagem integrada ao ciclo de vida da viagem, identificando as experiências que os clientes querem ter e fazer um rebranding aos serviços facilita essas experiências. Desta forma cria-se uma trajetória clara do produto ou serviço para a experiência. Acabamos de completar o ciclo e identificamos a necessidade de maior personalização (novamente) na indústria do turismo. •

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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90 TENDÊNCIAS

John Bowen Cristian Morosan University of Houston, USA

Atenção indústria hoteleira: os robots estão aí!

A indústria hoteleira enfrenta uma série de desafios, incluindo escassez de mão-de-obra, aumento no número de viajantes internacionais e grandes volumes de dados de consumidores.

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TENDÊNCIAS

Alguns gestores hoteleiros britânicos alertaram que podem vir a enfrentar a escassez de 60.000 trabalhadores se a imigração na União Europeia for controlada de forma muito rígida. Nos Estados Unidos, as autoridades do Federal Reserve previam uma taxa de desemprego de 3,6%, que seria a mais baixa dos últimos 50 anos. Como resultado, a escassez de mão-de-obra tornou-se uma grande preocupação nos EUA. Taiwan está também com problemas de falta de mãode-obra devido ao envelhecimento da população e a baixa taxa de natalidade. Há um número crescente de viajantes internacionais da Ásia e do Sudeste Asiático. Muitos trabalhadores do setor hoteleiro na Europa falam vários idiomas, mas raramente o mandarim ou outras línguas usadas na Ásia. Nos Estados Unidos, a maioria dos trabalhadores hoteleiros não é bilingue e, aqueles que são, normalmente falam inglês e espanhol. Existem portanto desafios de comunicação. Até 2030, prevemos que as organizações multiunitárias que efetivamente planeiem e implementem o uso de robótica e inteligência artificial nos seus sistemas de prestação de serviços, tenham uma vantagem competitiva relativamente àqueles que não o fazem.

Temos assistido a uma introdução gradual da robótica na indústria do turismo. Alguns especialistas do setor prevêem que esta lenta introdução esteja prestes a transformar-se numa explosão. A PWC estima que um quarto dos empregos do turismo nos E.U.A. sejam automatizados até 2030. O CEO da H.I.S., a empresa que apresentou a primeira receção composta por robôs no Henn-na Hotel no Japão afirma que os robots são uma forma de

executar tarefas da área hoteleira, num país onde a taxa de desemprego é inferior a três por cento. Com efeito, prevê-se que mais de metade dos empregos nos hotéis do Japão será feita por máquinas. O McKinsey Global Institute estima que entre 400 milhões e 800 milhões de empregos atuais serão automatizados até 2030. Como é que a Inteligência Artificial e a robótica serão utilizadas pela indústria turística?

ADOÇÃO DOS ROBOTS

Prevê-se que os robots sejam rapidamente adotados nos próximos 20 anos. A literatura atual apoia esmagadoramente a ideia de que a utilidade e o desempenho (ou seja, a capacidade do sistema concluir uma tarefa) é o principal impulsionador da adoção dos robots. Para criar valor, o robot deve executar uma determinada tarefa melhor do que os sistemas concorrentes. Além disso, os sistemas devem ser (1) projetados com interfaces de utilizador que sejam atrativos para segmentos de utilizadores em simultâneo, a fim de facilitar as primeiras impressões e emoções, (2) semelhantes na sua utilização, relativamente a outras plataformas contemporâneas e (3) suficientemente personalizáveis para serem atrativos para segmentos de utilizadores diferentes e variados (por exemplo, adaptação baseada em metas organizacionais, estratégias, abordagens de marketing, caraterísticas sociodemográficas ou psicográficas dos consumidores, etc). Espera-se que o uso de robótica e IA não seja diferente dos processos psicológicos que, eventualmente, levam os utilizadores a seguir o curso normal da utilização do sistema: contemplando,

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explorando, usando e falando. No entanto, isto exige que os sistemas se possam integrar no ambiente de serviço e abordar as tarefas críticas para a entrega do mesmo. Por exemplo, deve-se esperar que os robots front-ofthe-house respondam a comandos de voz - sejam precisos no entendimento de vários idiomas e sotaques, reconhecendo os utilizadores para recordar episódios de serviço anteriores. Outros exemplos incluem aplicativos robóticos back-of-the-house, com a aprendizagem de hábitos de trabalho dos funcionários por parte dos robots.

MUDANÇA DE PARADIGMA Funcionários e clientes do setor hoteleiro estão envolvidos no processo de prestação de serviços, com elevados níveis de interação entre eles. A revolução dos robots vai interromper os atuais sistemas de prestação de serviços, à medida que os seres humanos forem substituídos por máquinas. Isso exigirá a criação de novos sistemas. Embora algumas empresas substituam certas posições por robots, as empresas com visão de futuro vão criar novos sistemas de prestação de serviços projetados para incorporar os robots. Alguns restaurantes substituíram certas posições por robots. Por exemplo, o Caliburger criou um robot que consegue cozinhar hambúrgueres: deteta quando estão prontos, pega neles e colocaos numa bandeja, onde os humanos assumem o acabamento do produto. O restaurante Creator projetou um sistema em que uma máquina é capaz de

assegurar todo o processo de produção do hamburguer, desde triturar a carne, grelhar, ralar queijo, cortar e cozer o pão, fatiar tomates e cebolas, etc. A empresa alega que a economia de mão-deobra possbilita o uso de ingredientes de qualidade, como a carne de gado criado a pasto, que normalmente não é usada em hambúrgueres de 6 dólares. Outro benefício é a filtragem do fumo proveniente do processo por parte do robot. À medida que o custo da robótica é reduzido, as empresas que criem sistemas projetados para usar robots terão uma vantagem competitiva. Esta tecnologia disruptiva poderá ser o fim de operadoras de múltiplas unidades que não adotam ou não adaptam os seus sistemas de prestação de serviços. Ao projetar e implementar novos sistemas, as organizações devem ter em conta que os clientes fazem parte do sistema de prestação de serviços. Se os colaboradores são sujeitos a formação, os clientes também podem ser. Com as mudanças nos sistemas de prestação de serviços exigidos pelo uso da robótica, tanto clientes quanto funcionários vão necessitar de orientação e formação por parte de seres humanos, para serem capazes de usar os sistemas.

BENEFÍCIOS DA ROBÓTICA A capacidade e as aplicações de informação existentes são tão vastas que a única forma de aproveitar o seu verdadeiro valor é através da IA, aplicada a programas. As informações são passadas para robots ou humanos que as podem usar para criar

A INDÚSTRIA DO TURISMO ENFRENTA DOIS DESAFIOS COM A INFORMAÇÃO: O QUE USAR E COMO USAR. TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


TENDÊNCIAS

boas experiências para os hóspedes, de forma a que os dados pessoais sejam usados de maneira discreta e segura. Por exemplo, um cliente que viaja acompanhado, pode não ter o mesmo parceiro de viagem que teve na última vez. Qualquer personalização mencionando especificamente a última viagem pode resultar numa experiência memorável pela negativa, e é precisamente isso que é necessário evitar. A IA pode dar sugestões sobre como criar ou co-criar uma boa experiência sem revelar informações particulares. Se soubermos que a pessoa gosta de um determinado vinho tinto, um servidor robot poderia sugerir três vinhos sendo esse um deles, ao invés de dizer: “Deseja o mesmo vinho que bebeu quando esteve cá há duas semanas?” A robótica permitirá que os hotéis ofereçam serviços que antes eram proibitivos pelo custo elevado. Carros autónomos podem ir buscar passageiros ao aeroporto. O carro poderá ainda fazer o check-in no hotel e configurar o smartphone para usar como chave. Com base nas informações disponíveis sobre o hóspede, o carro pode dar sugestões sobre restaurantes próximos ao hotel. O automóvel será capaz de fazer perguntas e, com base nas respostas, o carro pode fazer reservas para o hóspede. Enquanto se dirigem para o hotel, o hóspede pode ver um grande estádio do outro lado do rio e perguntar sobre ele. O carro pode reconhecer o edifício e depois fornecer informações sobre o mesmo. O robot assume assim as funções de transfer, rececionista, concierge e guia turístico. O robot não só possibilita uma grande experiência inicial para o cliente, em nome do hotel, como também cria valor adicional ao economizar o dinheiro e/ou o tempo do cliente. O robot permite uma experiência muito mais envolvente do que a viagem do aeroporto até ao hotel com a maioria dos taxistas. A tecnologia na hotelaria tem sido prejudicada pela falta de interface entre os vários sistemas. Isso deve-se à natureza fragmentada dos programas projetados para tarefas específicas, o que torna a indústria ineficiente e sujeita a erros. Para abordar a ineficiência e o potencial de erro, os novos robots devem basear-se em interfaces integrados com todos os outros sistemas de uma organização. Os hotéis mais recentes já estão a trabalhar no sentido de utilizar a infraestrutura com mais eficiência. Ao implantar robots no topo dessa infraestrutura integrada, os sistemas estarão em melhor posição para aprender as operações do hotel e restaurante, implantar ferramentas mais eficientes em caso de erros e fornecer melhores sugestões aos decisores. A maioria das ferramentas de robótica e inteligência artificial foram desenvolvidas para ser usadas por entidades comerciais. No entanto, nos últimos 10 a 15 anos, muitos sistemas baseados em robótica e inteligência artificial destinam-se a consumidores, para servirem como auxílio à tomada de decisão, potenciando economia de tempo e dinheiro e experiências melhoradas. Por exemplo, os aplicativos podem sincronizar calendários dos consumidores, enviar lembretes, efetuar pagamentos e, eventualmente, aprender as rotinas de viagens dos hóspedes para melhor responder às suas necessidades.

Até 2030, cada vez mais produtos de viagem serão reservados e comprados por máquinas, sem necessidade de interação humana. A co-criação do produto de viagem será desenvolvido por máquinas e software de IA, representando o hóspede e a organização hoteleira; ambos os sistemas entenderão as necessidades dos seus clientes. TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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94 TENDÊNCIAS

ACOLHIMENTO E TECNOLOGIA

Um importante desafio a ser abordado pelos sistemas de robótica e inteligência artificial é a combinação entre hospitalidade e tecnologia. O acolhimento baseia-se na interação humano-humano. No entanto, os serviços tendem a transformar-se à medida que (1) os visitantes se sentirem atraídos pela robótica e pela IA nas configurações do dia-a-dia; (2) e pela eficiência proporcionada por tais sistemas, o que facilitará o uso exploratório e sua adoção. É provável que os novos modelos de serviço se adaptem para incorporar a automação e as respostas dos consumidores sem necessariamente se tornarem deficientes em hospitalidade. No futuro, através de um robot de recepção ou lobby, o hóspede poderá fazer perguntas no seu idioma nativo e receber respostas nesse mesmo idioma. O robot será capaz de reconhecer e conversar na maioria das línguas conhecidas, criando um ambiente que ajuda a deixar os clientes à vontade.

SEGMENTAÇÃO O surgimento de técnicas analíticas baseadas em dados divulgados voluntariamente e involuntariamente pelos consumidores criou uma nova onda de desenvolvimento de sistemas que analisam e envolvem os consumidores. No entanto, nem todos os consumidores têm a mesma capacidade de resposta a coisas novas e, portanto, os futuros sistemas de prestação de serviços usando robots terão de ser baseados em esquemas de segmentação que levem em consideração as várias e graduais respostas dos consumidores a esses sistemas. Há dois tipos de segmentação que afetam o uso da robótica (especialmente aqueles que envolvem tarefas de interface com o cliente), que serão geracionais e dependentes da classe do serviço (economia, luxo, etc.). Os millennials têm sido apelidados de geração digital, pois cresceram com a tecnologia. Os millennials e as gerações seguintes devem adaptar-se prontamente à robótica como parte do sistema de prestação de serviços. Os boomers, no entanto, são um grupo misto em relação à confiança e à competência no uso da tecnologia. As empresas hoteleiras que se concentram nos boomers vão ter necessidade de equipar os robots com sistemas de prestação de serviços.

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Em relação à classe do serviço, aqueles que forem conscientes do fator preço vão apreciar os hotéis e restaurantes de serviço limitado, que reduzam custos recorrendo a robots e passem algumas dessas economias de custos para o consumidor. Essas empresas vão poder oferecer um bom produto a um preço baixo. Os hóspedes de propriedades de luxo entendem como valor a capacidade de conseguirem o que querem, quando querem. Estão habituados a serem mimados pelos humanos. As propriedades de luxo têm de adaptar essas necessidades à robótica. À medida que as empresas do setor vão introduzindo robótica, é importante que entendam os seus clientes, e de que forma vão interagir ou não com os robots.

OS ROBOTS VÃO TORNAR-SE UM ATIVO IMPORTANTE DE MUITAS ORGANIZAÇÕES DO TURISMO NA PRÓXIMA DÉCADA. A procura por robots será impulsionada, em parte, pela escassez de mão-de-obra, pela necessidade de comunicar com um número crescente de viajantes internacionais e pela criação conjunta de uma experiência inesquecível para os hóspedes, utilizando efetivamente os dados disponíveis dos clientes. A introdução da robótica será uma grande rutura para o turismo. O seu sucesso vai exigir uma reformulação do sistema de prestação de serviços, de modo que os robots criem valor para o cliente, fornecendo um produto melhor, preços mais baixos ou ambos. A reformulação da prestação de serviços também deve incluir estratégias para manter padrões de atendimento ao clientes elevados. Entender as necessidades dos diferentes segmentos de clientes face à robótica, vai ser importante para o design de novos sistemas de serviços. Por fim, haverá um lugar no mercado para que os restaurantes e hotéis boutique se diferenciem, continuando a recorrer a equipas totalmente humanas. •


SUSTENTABILIDADE

Eduardo Santander Diretor Executivo European Travel Commission

Turismo Europeu: Promover o Crescimento Sustentável

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É AMPLAMENTE RECONHECIDO QUE A EUROPA É O DESTINO TURÍSTICO NÚMERO 1 DO MUNDO. NO ANO PASSADO ADIVINHAVA-SE UM FUTURO PROMISSOR, CONSIDERANDO QUE A EUROPA ATINGIU NOVO RECORDE DE CHEGADA DE TURISTAS INTERNACIONAIS, RESULTANDO NUM AUMENTO POSITIVO NO DESEMPENHO FACE AO ANO ANTERIOR.

Os fatores que contribuíram para esse desenvolvimento positivo incluem a recuperação dos principais mercados de origem, os esforços de marketing para promover viagens fora de época alta e atividades promocionais temáticas. O futuro do setor turístico parece próspero e é expectável que as chegadas de turistas internacionais à Europa ascendam aos 745 milhões até 2030. No entanto, a indústria do turismo europeu enfrenta uma crescente concorrência global de destinos emergentes que atraem um número significativo de turistas.

turismo sustentável não contempla apenas os benefícios económicos para a região, mas também as responsabilidades das partes interessadas, ligadas ao ambiente sociocultural e natural, que estão na base da oferta única de turismo da Europa.

A sustentabilidade no turismo deve ser considerada em três dimensões diferentes, embora interligadas:

A Organização Mundial do Turismo (OMT) prevê que os destinos na Ásia e no Pacífico, sobretudo, venham a beneficiar do crescimento das viagens intra-regionais e ganhem a maior parte dos novos desembarques até 2030. Consequentemente, o nordeste da Ásia substituirá a Europa Meridional e Mediterrânea como sub-região mais visitada em 2030.

1) IMPACTO ECONÓMICO

Para continuar a ser o principal destino turístico do mundo, a Europa deve responder aos padrões de mudança do turismo global e aproveitar o potencial dos mercados emissores do futuro. A classe média em expansão é um mercado crescente para destinos europeus, devendo os stakeholders garantir o desenvolvimento de um turismo sustentável.

A indústria do turismo gera (direta e indiretamente) 10,2% do PIB total da UE-28, um número que se prevê que ascenda a 11,2% do PIB até 2027.

Desde o surgimento do termo na década de 1980, convencionou-se que o desenvolvimento do

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O turismo na Europa é frequentemente discutido em termos dos seus benefícios económicos. O turismo provou ser um dos poucos setores resilientes nas frágeis economias da Europa durante anos de crise económica.

Para ser mais específico: a contribuição total do setor para o PIB é maior do que o impacto dos setores mineiro, produtos químicos, ensino superior e construção automóvel na Europa e representa um dos principais empregadores do continente.


SUSTENTABILIDADE

O turismo é um importante impulsionador do desenvolvimento económico e social. O setor estimula o crescimento económico e gera receitas, emprego e investimento na Europa, através das exportações para os mercados de origem em todo o mundo. Ajuda a sustentar o nosso património cultural e natural, fornece receitas para financiar instalações e infra-estruturas de que os visitantes e residentes beneficiam e promove a consciência de uma identidade e cidadania europeia comum, que se distingue pela sua diversidade. Para além da contribuição direta para a economia da região através da entrada de receitas dos serviços de turismo, o setor produz um efeito secundário que beneficia o reconhecimento do património cultural e natural único da Europa. Com efeito, pode ajudar as comunidades locais a desenvolver um produto de turismo cultural e/ ou natural que possa gerar novas fontes de receita e emprego. Além disso, a atenção pública pode resultar no aumento do investimento público e privado, bem como no desenvolvimento de uma responsabilidade compartilhada de preservar os ativos em benefício da comunidade local e das gerações futuras.

2) IMPACTO SOCIOCULTURAL Ao mesmo tempo que promove e colhe os benefícios do impacto económico do turismo, o turismo europeu também precisa de ser uma indústria socialmente responsável, acessível a todos, independentemente da sua origem. Neste contexto, gostaria de mencionar especificamente três grupos:

disponível para lazer, pelo que têm potencial para o futuro, embora exijam produtos e serviços turísticos adaptados às suas necessidades.

• Segmentos socioeconómicos: Considerando a vasta oferta da Europa, é possível proporcionar experiências memoráveis aos turistas independentemente dos orçamentos de que dispõem para viajar. A relação custo-benefício competitiva da Europa precisa ser melhor comunicada e promovida, beneficiando todas as regiões. Para além de tornar o turismo europeu mais acolhedor para segmentos específicos de visitantes, a dimensão social do turismo sustentável também defende a salvaguarda da autenticidade sociocultural das comunidades de acolhimento, que de modo algum deve ser negligenciada no desenvolvimento de produtos e serviços.

3) IMPACTO AMBIENTAL Manter a posição da Europa enquanto destino turístico número 1 do mundo também significa preservar o autêntico caráter natural da região e atuar de maneira responsável com a população. Não há dúvida de que o turismo, em particular o turismo de massas, coloca pressão sobre os recursos naturais da região, aumenta a poluição e provoca impactos no ambiente físico. O desenvolvimento de formas alternativas ao turismo de massas é, portanto, essencial, exigindo investimento e promoção de produtos e práticas ecologicamente respeitosas.

• Pessoas com mobilidade reduzida: Segundo a OMS, cerca de mil milhões de pessoas têm necessidades especiais em termos de acessibilidade, o que equivale a 15% da população mundial. É um segmento com expressão crescente que exige o design de uma indústria de turismo universalmente acessível (não só ao nível de produtos mas também de comunicação, por exemplo, websites). É importante salientar que estes grupos incluem não apenas pessoas com deficiências, mas também famílias e viajantes idosos.

• Envelhecimento da população: Em todo o mundo há uma parcela crescente de cidadãos idosos (25% da população europeia). São um segmento com poder aquisitivo elevado e com tempo

No entanto, o desenvolvimento sustentável do turismo na Europa é inibido por três fatores principais:

• A conduta e as políticas corporativas geralmente colocam o crescimento económico acima das preocupações sociais e ambientais, em particular em períodos de dificuldades financeiras.

• A natureza sazonal da procura provoca impactos nas três dimensões da sustentabilidade. A sazonalidade afeta mais de 96% dos destinos cujo equilíbrio sustentável é muitas vezes ameaçado durante os períodos de pico, que sobrecarregam as capacidades social e natural. Na Europa, o fenómeno é particularmente evidente nos meses de julho e

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98 SUSTENTABILIDADE

agosto, quando o volume de noites turísticas é 3 a 6 vezes superior ao registado em janeiro e fevereiro. Da mesma forma, fora da época alta, a viabilidade económica e o emprego são preocupantemente instáveis.

• O desenvolvimento sustentável exige liderança política e colaboração a vários níveis o que é em si um desafio, considerando a complexidade e a fragmentação inerentes ao setor do turismo. Tendo esses factos em consideração, a Organização Mundial de Turismo refere que o desenvolvimento sustentável do turismo deve integrar quatro objetivos essenciais:

• Manter a satisfação do turista em níveis elevados • Garantir uma experiência significativa para os turistas • Aumentar a consciencialização sobre questões de sustentabilidade • Promover práticas de turismo sustentável

Qual é o contributo da European Travel Commission (ETC) para a competitividade do turismo europeu? No centro da estratégia da ETC estão o estímulo à competitividade e a promoção do crescimento sustentável do setor turístico europeu, aumentando a consciencialização sobre o “Destino Europa” em mercados de longa distância. A Europa deve tirar partido da sua oferta turística e reforçar a quota de mercado quer nos mercados emergentes, quer nos estabelecidos. Isto significa que, em todos os esforços, a Europa deve alinhar o seu mix de mercado e identificar segmentos desfavorecidos (por exemplo, turismo sénior, LGBTQ, etc.) e expandir ainda mais a sua compreensão do desenvolvimento de produtos pan-europeus. Através da promoção de experiências transnacionais, a Comissão Europeia de Viagens procura, em particular, aumentar a visibilidade da infinidade de produtos disponíveis, ao mesmo tempo que cria consciência para a diversidade da região. Um pilar essencial para alcançar o crescimento sustentável do turismo europeu são as parcerias público-privadas, seguindo uma abordagem focalizada com objetivos comuns e alcançáveis.

PARA CONTINUAR A SER O PRINCIPAL DESTINO TURÍSTICO DO MUNDO, A EUROPA DEVE RESPONDER AOS PADRÕES DE MUDANÇA DO TURISMO GLOBAL E APROVEITAR O POTENCIAL DOS MERCADOS EMISSORES DO FUTURO.

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SUSTENTABILIDADE

A estratégia de longo prazo da ETC foca-se no desenvolvimento de parcerias públicoprivadas para promoção do turismo europeu e de produtos e experiências turísticas temáticos pan-europeus, transnacionais (como rotas culturais, património) que inspirarão e serão adaptados a diferentes mercados, grupos e segmentos de viajantes. Para resumir o que foi descrito antes, a ETC acredita firmemente que quatro das coisas mais importantes para apoiar o crescimento sustentável do setor do turismo europeu são:

1) As organizações turísticas continuem a reforçar as suas colaborações sob a égide de uma promoção conjunta de marketing comum europeu; 2) Através de pesquisas de mercado, descobrir os temas que promovem o desenvolvimento de produtos pan-europeus; 3) Cooperação profunda entre partes públicas e privadas interessadas, aos níveis continental, nacional e regional. 4) O estabelecimento de uma reputação de produtos especializados que atraiam e satisfaçam as necessidades de diferentes segmentos de viajantes. •

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Queremos ser melhores turistas?

#travelenjoyrespect Preparada por ocasião do Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento (2017), a brochura “Dicas para um Viajante Responsável” da Organização Mundial do Turismo destaca os princípios do Código de Ética para o Turismo, diretamente relacionados com os turistas, a fim de ajudar os viajantes a adotarem comportamentos mais responsáveis.

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SUSTENTABILIDADE

Os últimos anos têm testemunhado o fortalecimento de sentimentos anti-turismo um pouco por toda a Europa. De Amsterdão a Veneza ou Barcelona, os habitantes locais estão cada vez mais preocupados com o impacto que o turismo tem nas suas cidades. No entanto, o problema do chamado “overtourism” não é novo. Já em 1998, os especialistas faziam soar o alarme sobre Veneza, sugerindo que a cidade não poderia suportar mais do que 25 mil turistas por dia. O pico da época alta de 2017 contabilizou perto de 70.000. Muitos destinos estão a implementar políticas com o objetivo de diminuir os efeitos do turismo de massas, enquanto sensibilizam os turistas para que assumam a sua responsabilidade e comecem a respeitar os lugares que visitam. O excesso de pessoas em determinados locais não prejudica apenas a qualidade de vida dos residentes como também degrada a experiência do turista.

O overtourism não tem só impactos sobre os destinos, atrações turísticas, infraestruturas locais e residentes. Também prejudica os próprios viajantes. Cerca de 25% dos turistas internacionais tiveram a sensação de que o destino escolhido para férias tinha excesso de pessoas, segundo dados de um estudo de 2017 da World Travel Monitor, aplicado a 29.000 viajantes internacionais em 24 países da Europa, Ásia e Américas. Para além disso, 9% - o equivalente a cerca de 100 milhões de turistas - disseram que o excesso de turistas afetou a qualidade da viagem.

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Na verdade, não há soluções rápidas para o problema e, para reduzir os seus impactos é necessária uma combinação de diversos fatores. Podemos começar por nos concentrarmos nas nossas atitudes enquanto turistas, e naquilo que podemos fazer para sermos mais amigos dos destinos, isto é, turistas responsáveis.

O Turismo Responsável tem como fundamento “criar lugares melhores para as pessoas viverem e lugares melhores para as pessoas visitarem”. O Turismo Responsável exige que os operadores, hoteleiros, governos, residentes e turistas assumam a responsabilidade de tornar o turismo mais sustentável.

QUE COMPORTAMENTOS PODEMOS ADOTAR ENQUANTO TURISTAS? TRATE BEM OS LOCAIS E DESCUBRA COMO A GENTILEZA É RETRIBUÍDA AO CONSEGUIR ENVOLVER-SE NO SEU QUOTIDIANO E CULTURA A SUA EXPERIÊNCIA ENQUANTO TURISTA FICA MAIS RICA E OS LOCAIS TAMBÉM BENEFICIAM DA INTERAÇÃO

VANTAGENS

TURISMO RESPONSÁVEL

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SUSTENTABILIDADE

1. MENOS SHORT-BREAKS, MAIS ESTADIAS PROLONGADAS As companhias aéreas de baixo custo cresceram muito nas últimas décadas. A capacidade de um portuense viajar mais barato de avião para Paris do que de combóio para Lisboa subverte os comportamentos de viagem. Hoje em dia é fácil pensarmos em apanhar um avião e ir passar um fim-de-semana a uma capital europeia. Os intervalos costumam ser curtos, uma vez que o tempo de férias não acompanha o apetite crescente pelas viagens. A duração da viagem de três e quatro dias é hoje mais popular do que a tradicional pausa de duas semanas. Ficar mais tempo no destino, em vez de optar por viagens mais curtas e superficiais, possibilita viver experiências mais significativas e memoráveis.

2. LUGARES MENOS VISITADOS Segundo um estudo do WTTC (World Travel and Tourism Council) 70% dos visitantes estão concentrados em 20% dos países. O overtourism só existe num número relativamente pequeno de destinos super populares. E porque é que tantos turistas viajam para esses destinos? Trata-se de uma questão particularmente interessante quando pensamos que a maioria dos viajantes valorizam a autenticidade. Na realidade, assistimos ao contrário. Parece existir uma tendência para que as pessoas sigam a multidão, criando surtos de interesse que podem ser difíceis de gerir. Um estudo recente mostrou que, para Estocolmo, as cinco principais atrações respondem por 42% dos comentários do TripAdvisor. As redes sociais contribuem para essa concentração excessiva de pessoas num número reduzido de lugares. Talvez fosse interessante dispormo-nos a correr alguns riscos, pesquisar com mais atenção e encontrar experiências diferentes em lugares menos procurados.

3. COMPORTAMENTOS ADEQUADOS AO DESTINO Os destinos mais procurados pelos turistas citam frequentemente o comportamento desordeiro como um grande problema. Por exemplo, Dublin proibiu festas de despedida de solteiro na zona do Temple Bar. Veneza emitiu orientações aos turistas sobre comportamentos apropriados. A forma de vestir também não é consensual em todo o mundo: o que é normal numa praia francesa é totalmente desadequado em culturas mais conservadoras. Se queremos ser bem recebidos pelos locais devemos ter em atenção à cultura e costumes do destino. Por exemplo, no Sri Lanka, na Tailândia e na Malásia quem exibir tatuagens religiosas será multado, pois trata-se de uma afronta às crenças dos nativos.

4. ÉPOCA BAIXA Em muitos destinos o overtourism é sazonal. Maiorca, Barcelona, Veneza, Paris, Dubrovnik são muito mais tranquilos no inverno. Enquanto que no dia mais movimentado de 2017 se registaram cerca de 10 mil visitantes em Dubrovnik, durante todo o mês de dezembro foram apenas 26 mil. Outro exemplo, um turista que queira visitar Machu Picchu, deve considerar ir em novembro ou abril. Talvez apanhe um ou outro dia mais húmido ou enevoado, mas tem a garantia de que se vai cruzar com muito menos turistas.

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5. SALVAGUARDA DO MEIO AMBIENTE Também no setor do turismo, há uma série de comportamentos que o turista pode adptar para diminuir a pegada ecológica, desde a escolha de voos diretos (menos emissões de CO2), usar garrafas reutilizáveis, para evitar o desperdício, recolher o lixo que produzir e, idealmente, o que não foi produzido por si, usar transportes públicos ou andar a pé, economizar água e energia, reutilizando as toalhas nos hotéis, são algumas das práticas possíveis.

6. PATRIMÓNIO CULTURAL E ARTÍSTICO Respeitar o património artístico, arqueológico e cultural dos destinos, contribuindo para a sua preservação e transmissão às gerações futuras. Atenção especial à preservação e valorização dos monumentos, santuários e museus, bem como de locais históricos e arqueológicos, quando estejam em grande parte abertos à frequência turística.

7. PRODUTOS E ARTESANATO LOCAIS Fazer compras aos vendedores locais valoriza e incentiva o comércio dos destinos. Em muitos locais grande parte da população vive mesmo dessa atividade, sendo esta uma forma de retribuir a hospitalidade e levar para casa uma lembrança da viagem.

8. LEGISLAÇÃO DO DESTINO O respeito pelas culturas locais, pelas suas gentes e crenças é um elemento-chave para que a experiência turística seja bem sucedida. Um dos principais fatores é, sem dúvida, aceitar e respeitar as leis e normas locais, evitando momentos constrangedores, multas ou até ser detido. Por exemplo, face ao crescimento do turismo em Roma, o governo decretou a proibição de comer e beber junto aos principais pontos de interesse, inclusive aqueles que se encontram em espaços públicos. A multa poderá ascender aos 500 euros. Outro exemplo é Singapura, conhecido como o país das multas. Saiba que está a infringir a lei se comprar uma pastilha elástica, não descarregar o autoclismo ou fumar em espaços públicos.

O turismo deve ser planeado e praticado como um meio de realização individual e coletiva. Quando praticado com mente aberta, é um fator insubstituível de autoconhecimento, tolerância mútua e aprendizagem sobre as diferenças entre povos e culturas.

TODOS NÓS TEMOS UM PAPEL A DESEMPENHAR NO DESENVOLVIMENTO DE UM TURISMO SUSTENTÁVEL. Governos, organizações e comunidades devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance para facilitar as dinâmicas do setor, mas enquanto convidados, os visitantes podem fazer a diferença. • TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


Cascata das Porqueiras


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Sustentabilidade e turismo de cidades Tim Fairhurst Secretário-Geral European Tourism Association

DE QUE FORMA OS DESTINOS PERMANECEM LOCAIS VIÁVEIS E DESEJÁVEIS PARA VIVER, TRABALHAR E VISITAR? Este é um desafio para todos nós, não apenas para a indústria do turismo.

TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


SUSTENTABILIDADE

É um tema controverso a nível local, polarizando opiniões e alimentando antagonismos. O ressentimento local em algumas cidades é real e crescente. Para dar um exemplo recente: no dia 20 de dezembro de 2018, centenas de autocarros turísticos bloquearam o tráfego em Roma, ao longo de várias horas, com os motoristas a protestarem contra a proibição de acederem ao centro histórico. Em muitos destinos europeus, a nível nacional e local, há uma mudança política de um modelo de crescimento do turismo medido em volume, cujo sucesso é medido em função do valor. Desta forma abre-se o debate sobre a forma como o valor é gerado e percebido. Esse debate necessário impulsionará o desenvolvimento e a diversificação de produtos, bem como a otimização da capacidade. Embora devam ser os destinos a tomar decisões, também é verdade que não podem trabalhar sozinhos. Melhores conversas sobre o turismo nas cidades levarão a melhores soluções; soundbites ofensivos não. As cidades e os empregos que envolvem estão em constante fluxo. A transformação continuará a ser impulsionada pela tecnologia e pela procura do consumidor. É necessário gerir a mudança de forma a que se garanta o emprego e o ambiente de negócios de que ela depende. Isso requer diálogo construtivo e tomada de decisão baseada em evidências. Também é preciso investimento para assegurar as condições necessárias para comunidades locais e visitantes. Todos queremos melhores infra-estruturas, acessibilidades e qualidade do ar.

Queremos um ambiente no qual o património urbano possa ser protegido e desfrutado no futuro e as comunidades urbanas possam permanecer socialmente ricas e distintas. Essa visão é atrativa, mas requer uma estratégia de médio e longo prazo. É importante lembrar que as decisões que afetam a forma como o turismo é vivido são tomadas localmente: acordos de licenciamento para alojamento local; impostos cobrados aos visitantes; acesso ao tráfego.

SERÁ QUE OS DECISORES POLÍTICOS DISPÕEM DE FERRAMENTAS E RECURSOS SUFICIENTES? A política local é um trabalho difícil, muitas vezes solitário e as decisões necessárias podem não ser populares. A indústria precisa de refletir sobre como se adaptar para ser compreendida e aceite por parte da comunidade do turismo, a fim de ser vista como agregadora de valor. E este é também o objetivo dos turistas: dar um contributo positivo. O mesmo acontece com os fornecedores: os hostels e hotéis que oferecem instalações para uso da comunidade local revelam a mudança positiva que pode ser encabeçada com imaginação e determinação.

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Há que dispender tempo a desenvolver soluções práticas. A procura por turismo de lazer está em crescimento, assim como o mercado potencial (apenas cerca de 8,7% da população chinesa tem passaporte). Temos que estar conscientes de que os residentes têm que reconhecer claramente os benefícios do turismo para serem bons anfitriões e sentirem se são efetivamente bem-vindos, ou apenas tolerados porque economicamente necessários. Numa era de sites de comparação de preços e consumidores informados, o “turismo de massas” é uma corrida lotada, com proveitos diminutos, num mercado altamente competitivo. É também uma simplificação perigosa: um rótulo para algo desagradável e prejudicial. Precisamos de ter cuidado com os rótulos, porque habitualmente ficam. Por exemplo, o overtourism. É um termo que temos de usar com cautela. Evoca a mesma lógica malthusiana da “superpopulação”. Quem merece ser turista? Quem decide a capacidade de carga de uma cidade? Quem coloca a placa na porta que diz “Não há vagas”?

O turismo é uma parte vital da economia, merece apoio, não estigmatização. Onde existem obstáculos, estes devem ser tratados de forma criativa.

A SOLUÇÃO DE PROBLEMAS IMPULSIONA A INOVAÇÃO. PRECISAMOS DE PONTES, NÃO DE BARREIRAS.

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Recentemente, num grande evento de turismo da UE, um palestrante convidou os participantes a concordarem que qualquer restaurante ou bar que contivesse mais de 50% de não-locais era um lugar que a evitar por um turista exigente. E perguntou quem iria gostar de ter um parque de estacionamento de autocarros turísticos à porta de casa? Trata-se de estética ou outra coisa? O pressuposto tácito era que a presença de turistas torna um lugar inautêntico, e que o turismo em grupo é uma imposição indesejada, tolerada apenas pelo valor económico que encerra. A retórica contra o turismo evoluiu do comentário do viajante indignado que partilha o seu ponto de vista, para a oposição populista. Oposição a quê, exatamente? A xenofobia deslocada é um estranho prisma através do qual se pode ver o mundo. Para aumentar a aceitação, é necessário fomentar a consciencialização e o envolvimento. A ETOA tem investido recursos nestas áreas. Idealmente, turistas e residentes coexistiriam numa simbiose perfeita: a procura local sustenta uma cultura distintiva que, por sua vez, atrai visitantes que contribuem com valor económico, além de promover a consciencialização e a compreensão interculturais. Não é fantasioso sugerir que o turismo promove a paz, apesar da disputa que existe nas ruas da cidade. É importante lembrar que mais turismo, na maior parte da Europa, seria bem-vindo. Apenas uma minoria de destinos está a ter problemas com a procura, especialmente nas épocas de pico. Melhor turismo é o objetivo de todos, incluindo dos próprios visitantes, de cuja curiosidade e interesse dependem mais de um em cada dez empregos na indústria turística da UE. Pelos turistas e pelas comunidades que são visitadas, devemos trabalhar continuamente no sentido de melhorar o funcionamento do setor turístico. •


SUSTENTABILIDADE

Açores: no rumo do Turismo Sustentável Marta Guerreiro Secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo do Governo dos Açores

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O TURISMO TEM-SE ASSUMIDO, A NÍVEL INTERNACIONAL, COMO MOTOR E PRINCIPAL IMPULSIONADOR DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. A sua gestão é colaborativa, é multissetorial (serão poucos setores de atividade económica tão transversais como o turismo), tem visibilidade e está sujeito a apreciação interna e externa.

Nos Açores, os níveis de crescimento do setor têm tornado a atividade turística em mais um dos motores de desenvolvimento económico, criação de emprego e geração de riqueza em cada uma das nove ilhas do arquipélago. Acreditamos que estamos num bom caminho em variados níveis, mas não nos deslumbramos com os números positivos que temos vindo a registar ao longo dos últimos anos. Aliás, este crescimento do setor tem trazido muitos desafios, motivo pelo qual consideramos imprescindível posicionarmo-nos como um destino sustentável. As deslumbrantes belezas naturais associadas à autenticidade da história e tradições permitem que os Açores se afirmem, cada vez mais, no plano nacional e internacional, como um destino europeu no meio do atlântico, reconhecido como ilhas vulcânicas preservadas e de natureza exuberante, exclusivo, de beleza mística, onde se pretende que os nossos visitantes sejam recebidos como convidados especiais que, em segurança, têm ao seu dispor uma variedade de atividades e produtos, seja em terra ou no mar. Tal acontece, acreditamos nós, não só pela autenticidade dos nossos recursos naturais e das nossas paisagens, bem como pela existência de um património histórico único

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que, em conjunto, têm afirmado os Açores como um destino europeu no meio do atlântico, que oferece um leque de experiências exclusivas em terra e mar, com um nível de conforto e segurança elevado, onde cada visitante é recebido como convidado especial em cada uma destas ilhas vulcânicas de natureza exuberante. Este cenário faz com que o Destino Turístico Açores esteja fortemente associado a práticas de desenvolvimento sustentável, fruto de uma estratégia contínua que tem sido levada a cabo pelos últimos Governos Regionais e entidades ligadas aos setores do turismo e do ambiente, defendendo políticas conciliatórias de boas práticas ambientais, salvaguardadas, legalmente, para que se possa preservar a identidade, os ecossistemas e a qualidade de vida dos açorianos, nunca descurando o progresso da Região. A criação desta Secretaria Regional, na presente legislatura, que alia os setores da Energia, Ambiente e Turismo é mais uma prova do empenho do Governo dos Açores na implementação de políticas que promovam o desenvolvimento sustentável em todas as suas vertentes. Este é, sem dúvida, um rumo já iniciado, mas que tem vindo as ganhar mais força e mais expressão desde que assumimos o compromisso da certificação dos Açores como destino turístico sustentável através dos critérios da GSTC - Global Sustainable Tourism Council e a chancela das Nações Unidas, meta que pretendemos atingir durante este ano. Um destino turístico certificado como sustentável, por um Organismo de Certificação acreditado pela GSTC, no nosso caso a EarthCheck, significa que o destino turístico está em conformidade com os mais altos padrões sociais e ambientais do mercado. À medida que existe um aumento da preocupação pública sobre os efeitos nocivos e os impactos positivos das viagens e do turismo, a certificação oferece uma solução de confiança para os consumidores de viagens, para questões ambientais e sociais complexas. A EarthCheck, é uma organização líder em benchmarking, certificação e consultoria científica para viagens e turismo, desde 1987, apresentando um programa que se baseia nos princípios da Agenda 21 para o desenvolvimento sustentável, utilizado, atualmente, em mais de setenta países em todo o mundo em seis idiomas.


Efetivamente, esta decisão representa um desafio acrescentado e uma responsabilidade para com o futuro. Um futuro onde o turista sinta que os Açores são efetivamente uma referência. Um destino em que o desenvolvimento económico equilibrado é feito em respeito pelo ambiente e pela cultura. E esse respeito passa, e muito, pela valorização dos nossos produtos regionais e do artesanato, mas, principalmente, através da valorização das pessoas: os açorianos e os turistas. Neste sentido, este é também um processo colaborativo e de envolvimento com os vários stakeholders ou interlocutores regionais. Pretende-se, assim, que todos os fornecedores regionais incorporarem estratégias de sustentabilidade económica, ambiental e social, mais capazes e resilientes e prol do futuro, possibilitando uma maior robustez no processo de sustentabilidade do destino turístico Açores. Queremos que se forme um movimento de arrasto em todo o tecido empresarial e institucional regional. A prova disso mesmo é o facto de termos em curso uma iniciativa que denominámos Cartilha de Sustentabilidade, que se carateriza por ser um fórum dinâmico de debate e partilha de práticas sustentáveis, com subscrições anuais de objetivos alinhados com os de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e a respetiva monitorização. O alinhamento de estratégias comuns entre as entidades privadas e públicas em prol do desenvolvimento sustentável é um caminho necessário para o reforço do posicionamento do nosso destino, mas também para a antecipação de tendências já visíveis nos novos consumidores e, portanto, para a capacidade de resiliência de todas as empresas regionais. Temos vindo a defender que falar em sustentabilidade é atuar com responsabilidade no que às matérias de preservação e valorização diz respeito, mas também é uma enorme oportunidade, face às possibilidades de desenvolvimento associadas.

ACREDITAMOS QUE ESTAMOS TODOS EMPENHADOS NESTE DESÍGNIO. Por isso, trabalhamos neste rumo que queremos que seja o mais inclusivo e abrangente possível, num movimento comum regional, porque quem nos procura espera que valorizemos as nossas tradições, a nossa cultura, os nossos produtos e a nossa genuinidade. •

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José Ribau Esteves Presidente Câmara Municipal de Aveiro Presidente Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro

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DESAFIOS

Turismo na Região de Aveiro A Região de Aveiro tem uma relação muito especial com a água, no caso com a água salgada da Ria e do Mar, pela condição geográfica que a natureza lhes determinou e pelas opções de vida que os seus Cidadãos foram assumindo ao longo dos tempos e continuam a assumir formatando, muitas das atividades económicas que produzem emprego e riqueza.

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É com um elevado grau de intimidade que esta terra e esta água vivem, partilhando planícies e serras, referenciados nos seus mais belos e conhecidos postais, que alimentam boa parte da sua atividade económica, alicerçados em alguns dos seus mais importantes equipamentos públicos, numa criação ao longo dos séculos de uma cultura de caráter forte e único, que torna este território absolutamente distinto. Os onze Municípios da Região de Aveiro - ÁGUEDA, ALBERGARIA-A-VELHA, ANADIA, AVEIRO, ESTARREJA, ÍLHAVO, MURTOSA, OLIVEIRA DO BAIRRO, OVAR, SEVER DO VOUGA E VAGOS -, dão um contributo individual relevante e variado, constituindo na sua oferta somada na Ria e na Região de Aveiro, um destino cada vez mais atrativo, como cultura e natureza, com história e modernidade. A aposta no Associativismo Municipal para gerir devidamente os episódios que assumem uma dimensão marcadamente supramunicipal, é uma realidade muito contributiva para o desenvolvimento desta região de Portugal, e que neste ano de 2019 comemora 30 anos da sua existência, da sua atividade e das suas muitas realizações que concretizámos juntos. Fica o convite para nos acompanhar em www.regiãodeaveiro.pt ou em www.riadeaveiro.pt e em especial para que conheça e disfrute deste seu território que tem história, experiências e gastronomia únicas para contar e disfrutar.

Aveiro, Cidade dos Canais Urbanos da Ria de Aveiro, Doce e Contemporânea, a capital da Região, vive uma fase importante da sua vida com forte ritmo de crescimento turístico, assume a condição de elemento central de uma Ria e de uma Região de Aveiro que vale muito mais pelo seu todo, recolhendo contributos relevantes para esse processo de crescimento, da Universidade de Aveiro, das Empresas multinacionais da indústria e dos serviços aqui sedeadas, das Empresas do setor turístico que têm crescido em número e em capacidade, numa aposta determinada para que a notoriedade e a economia cresçam a par para patamares muito mais elevados.

ESPERAMOS POR SI.

Uma nota final para os eventos que marcam o calendário ao longo de todo o ano, na sua maioria com liderança de organização das Câmaras Municipais da Região de Aveiro, e com uma relevante riqueza e diversidade, que compõem com vida e animação marcante, a estruturação deste produto turístico que vale a aposta conhecer: A RIA E A REGIÃO DE AVEIRO. •

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VIAGENS

Pole! Pole! Ou como subir lentamente o Kilimanjaro ANDO HÁ TRÊS ANOS PARA SUBIR O MONTE KILIMANJARO. MAS AINDA BEM. A PARTE MAIS INTERESSANTE DE UMA VIAGEM É A SUA PREPARAÇÃO.

RICARDO PINTO Sub-diretor de informação Lusa Comentador de Política Nacional RTP Professor Universidade Fernando Pessoa

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“Pole! Pole!” Ando com esta expressão em swahili na minha cabeça há três anos. E sempre que me lembro dela, a minha alma aquece na razão inversa do frio que estarei a passar quando a pronunciar no uso para que a treinei.

HÁ TRÊS ANOS, NA VÉSPERA DE COMPLETAR 50 ANOS, COMECEI A PLANEAR A SUBIDA AO MONTE KILIMANJARO, A MONTANHA MAIS ALTA DE ÁFRICA. O nome da montanha devo-o ter ouvido pela primeira vez quando em criança o meu pai me educou com a literatura de Ernest Hemingway, num livro, de capa esbatida com o desenho de uma silhueta de pico rugoso e as palavras douradas: “As neves do Kilimanjaro”. As histórias à volta do Kilimanjaro, a imagem do pico Uhuru, a 5,895 metros, o desafio da sua escalada, tudo se foi infiltrando em mim, ao longo de décadas, como um desejo que se vai controlando subtilmente. Até que um dia dei por mim com a decisão tomada de finalmente subir a montanha e uma conta bancária que me permitia olhar para a despesa da viagem sem vertigens. Tinha quase 50 anos e achei que o dia de aniversário de meio século era uma bela data para atingir o topo mais elevado de África, pegar no telemóvel e registar fotograficamente o momento para memória futura.

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Sempre acreditei que a melhor parte de uma viagem é a sua preparação. Por isso, uma hora depois da minha irrevogável decisão, iniciei aquela que foi uma longa preparação da aventura que se tornou uma espécie de “santo graal” da minha vida de viajante. O primeiro passo foi recolher a informação essencial que me permitisse sobreviver à escalada. A tarefa de conhecer o Kilimanjaro deve ter demorado várias semanas a Hemingway, quando se documentou para o livro sobre a montanha, no verão de 1935, no regresso de um safari em África. Mas, no meu caso, em pleno século XXI, em poucos dias reuni todos os dados de que necessitava. A primeira recomendação dos textos de sobrevivência que consultei foi a expressão em swahili:

“Pole! Pole!”. Que, basicamente, quer dizer: “Mais devagar! Mais devagar!” Numa equipa com guias locais, que falam swahili, pareceu-me avisado decorar a palavra que lhes poderia gritar do sopé de uma subida íngreme, quando me sentisse a ficar atrasado em relação ao passo apressado deles. A palavra pronuncia-se “polei” e os livros dizem que a expressão é usada pelos guias, para avisar os escaladores mais apressados que não percebem a importância de uma subida lenta, para evitar o que os médicos chamam de “mal da montanha”,


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ou “doença das alturas” - uma condição associada aos efeitos de altitudes por exposição aguda à baixa pressão de oxigénio, que ocorre acima dos 2400 metros de altitude. Mas a verdade é que desde muito cedo me pareceu que esse não seria um cuidado para o meu guia, por muito cauteloso que ele fosse com a minha condição física. Não sei porquê, mas nunca me imaginei a correr, na frente de experimentados carregadores tanzanianos, sobre superfícies geladas em inclinações de 15%, com temperaturas negativas, a altitudes onde o oxigénio rareia, enquanto eles me gritavam “Pole! Pole!”… Carregadores. Ora aí está uma outra expressão que rapidamente me interessou. A ideia de transportar uma mochila de 15 quilos até ao topo da mais alta montanha africana, sempre me preocupou. A legislação da Tanzânia proíbe que alguém suba

o Kilimanjaro sem a presença de um guia credenciado. Parece-me bem. Mas também não me parecia nada mal que a exigência se estendesse aos carregadores de mochilas e tendas. Felizmente, na pesquisa que fiz na Internet, percebi que não faltam empresas que incluem, para além do obrigatório guia, carregadores experimentados e possantes, preparados para as intempéries e sem receio de subirem com dezenas de quilos de equipamento atrelados às costas. Aliás, para meu gáudio, percebi que a maior parte dessas agências inclui na equipa um cozinheiro, treinado para confecionar as refeições mais adequadas ao esforço das subidas. Um mito que rapidamente se desfez na minha cabeça foi a do trepador solitário, perdido na imensidão branca da montanha, a olhar o horizonte sem um único ser humano em redor. Por ano, tentam a subida ao Kilimanjaro cerca de 35 mil pessoas. Nem todas atingem o pico mais alto,

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mas ainda assim, em algumas passagens mais estreitas, a dificuldade não está no isolamento, mas nos verdadeiros engarrafamentos, com dezenas de “trekkers” em fila a aguardar o momento da travessia. Nem os elevados preços que as empresas de guias cobram parecem desmobilizar o interesse no Kilimanjaro. Uma escalada bem organizada pode custar entre 5 e 15 mil euros, sem contar com as viagens aéreas até ao aeroporto internacional que serve as cidades de Arusha e Moshi. Uma estatística que naturalmente me interessou foi a de número de mortes entre os que se atrevem a chegar ao pico Uhuru. Sossegou-me saber que apenas 7 a 10 não regressam com vida, anualmente, geralmente devido a edemas cerebrais, provocados pela altitude. Numa perspetiva mais otimista, os números sobre os que desistem apenas porque estão cansados revelam que o fracasso está associado às subidas pelos trajetos mais rápidos. O topo do Kilimanjaro pode ser alcançado a partir de seis pistas - três pelo lado sul (Machame, Umbwe e Marangu), duas por oeste (Shira e Lemosho) e uma por nordeste (Rongai). A minha opção foi para o trajeto Mashame - cinco dias a subir, com uma média de sete horas diárias de caminhada, e dois dias a descer. O truque para esta subida relativamente rápida é ir aclimatando o corpo a grandes altitudes, progressivamente, subindo diariamente acima do lugar onde se

vem dormir, para que haja habituação à ausência de oxigénio. Na troca de mensagens com o guia que me levará, percebi que a dificuldade maior será o Muro Barranco - uma falésia que assusta à primeira vista, obrigando os “trekkers” a usar as mãos em vários momentos, para escalar paredes de rocha escura. Mas a recompensa é deliciosa, com as vistas a partir da placa Shira, ou a paisagem da Torre de Lava, sobre a estepe africana. O truque é ir bem equipado para estas mudanças de clima, ao longo de uma subida que começa com calor africano e termina com frio himalaico. A lista recomendada é interminável: 5 pares de roupa interior, 4 camisolas leves, 2 camisolas grossas, 2 pares de calças, casaco impermeável, um par de calças de montanha, um boné, uma lâmpada, óculos de sol, luvas leves, luvas quentes, “trekking polés”, botas de neve, sandálias, 5 pares de meias, um par de meias grossas, um saco de viagem, uma mochila de 90 litros, saco-cama para todas as estações, botijas de águas, creme para bolhas, pastilhas de purificação de águas, repelente de insetos, baterias, barras energéticas, etc, etc… Há três anos que me deleito com a preparação da viagem, confesso. Há três anos que adio a viagem (porque tive uma gripe, porque fui afligido por uma tendinite no calcanhar de Aquiles), mas juro que não é por falta de vontade. Nem de coragem (sobretudo depois de saber que um senhor de 85 anos alcançou o pico Uhuru, em 2014).

SE TUDO CORRER BEM, 2019 SERÁ O MEU ANO KILIMANJARO. MAS, CLARO, “POLE! POLE!” • TURISMO’19 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS



Na Solverde temos o local perfeito para celebrar os dias mais felizes da sua vida e perpetuรก-los na memรณria de cada convidado.


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