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Anuário de Tendências

CADERNO ESPECIAL

OVERTOURISM? abordagenS E

soluções Entrevista a LUÍS ARAÚJO

“ Desconcentração da procura é fundamental ” TENDÊNCIAS

GERAção Z

Como os criadores do Big Data desafiam a indústria do turismo

2018 | €7,50

CRIAÇÃO DE VALOR EM TURISMO NOVOS CONCEITOS E PRODUTOS


EDITORIAL

TURISMO EM 2018:

O SUCESSO COMO CONSEQUÊNCIA ANTÓNIO JORGE COSTA Presidente IPDT

Fechamos 2017 com as receitas turísticas a atingir os 15 153 milhões de euros, um recorde absoluto para o turismo nacional. Este crescimento é notório, mesmo a “olho desarmado”, já que se sente a presença dos turistas no nosso país ao longo de todo o ano. O sucesso da dinâmica turística nacional é indiscutível, havendo relatos de crescimento em todas as regiões do país (continente e ilhas). Por outro lado, este crescimento não resulta apenas de melhores desempenhos nos mercados tradicionais, mas também, da diversificação dos mercados emissores, onde se destacam a China, o Brasil, a Polónia e os EUA. Passo a passo, podemos afirmar que Portugal está fazer do turismo um setor líder, que possa vir a levar a cabo a Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável. Este é um bom prenúncio, já que, como afirma o Secretário Geral da OMT, no seu artigo de abertura desta edição, “o crescimento sustentado do turismo traz imensas oportunidades de bem-estar socioeconómico e de desenvolvimento”. Porém, este crescimento, se não devidamente gerido, pode levar à redução da qualidade do serviço e ao excesso de crescimento da oferta, como suportam os membros do Barómetro do Turismo do IPDT. Este crescimento e as reações mais ou menos apaixonadas que têm despoletado pelo mundo fora, deram o mote para esta edição, onde decidimos analisar se

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

3


4 EDITORIAL

em Portugal se vive um fenómeno de overtourism, e o que fazer para antecipar ou gerir este tipo de sobrecargas. Falamos com decisores e importantes organizações da cadeia de valor do turismo e conduzimos algumas peças de investigação onde analisamos, comparativamente, o crescimento do turismo nas principais cidades europeias e portuguesas. Ao mesmo tempo que procuramos identificar soluções para o crescimento exponencial do turismo, olhamos para ferramentas como o Big Data, que nos permitem uma gestão eficiente dos fluxos turísticos nos territórios mais procurados, permitindo desenhar uma experiência mais personalizada do produto turístico. Certos de que o turismo é uma solução e não um problema, fomos tentar perceber a relação entre o crescimento dos fluxos turísticos em Portugal e os índices de pobreza, constatando que o turismo, pensado e desenvolvido de forma sustentável, pode contribuir para a atenuação dos níveis de pobreza e, consequentemente, para a melhoria da qualidade de vida das comunidades. Para tal, é fundamental conhecer as alterações no comportamento e perfil dos turistas e aí caraterizamos a chamada “Geração Z”, e a sua forma de comprar experiências turísticas, como as que Ricardo Pinto tão bem descreve no seu artigo sobre San Remo. Esta narrativa do Ricardo Pinto permite compreender que o sucesso dos destinos, nomeadamente ao nível municipal, reside na capacidade de gerir os recursos e de os transformar em produtos turísticos, como fica claro da análise aos quatro casos que apresentamos: Melgaço, Vila do Conde, Vila Nova de Gaia e Santa Maria da Feira. Se tivesse de resumir a lição central que se pode retirar da leitura do “Turismo’18”, diria que, quando há imaginação, vontade política e capacidade de gestão, o sucesso é uma mera consequência!

Uma boa leitura e até ao “Turismo’19”. •

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

Anuário de tendências

TURISMO’18 DIRETOR

António Jorge Costa

EDIÇÃO

Daniela Rodrigues

DESIGN

Rita Paupério

EQUIPA EDITORIAL

Catarina Pacheco, Daniela Alves, Daniel Costa, João Bastos, João Gomes, Marcília Almeida

PARTICIPARAM NESTE NÚMERO

Ana Paula Meira, Carlos Lacerda, Daniel Frey, David Harland, Desidério Silva, Eduardo Vítor Rodrigues, Elisa Ferraz, Emídio Sousa, Francisco Lorite, Inês Bastos, Iwona Fluda, Janine Fluyt, Luís Araújo, Manoel Batista, Marta Guerreiro, Pedro Machado, Ricardo Pinto, Vítor Costa, Zurab Pololikashvili

DIREÇÃO DE MARKETING Mónica Montenegro

DIREÇÃO DE COMUNICAÇÃO Daniela Rodrigues

CONSULTOR EDITORIAL Richard Teare

COPYRIGHT

IPDT Rua Rainha D. Estefânia, 246, 3º 4150-303 Porto T. +351 226 097 060 ipdt@ipdt.pt www.ipdt.pt Todos os direitos reservados. Esta publicação não pode ser reproduzida, total ou parcialmente, sem prévia autorização do IPDT. Todos os artigos assinados são responsabilidade exclusiva dos autores.

IMPRESSÃO

Gráfica MVide T. +351 256 420 930 geral@mvide.com www.mvide.com ISSN 1647-6247 Depósito Legal 253208/07

IMAGENS

Fotolia, Hufton + Crow, IPDT, Pexels, Torel Avantgarde

TIRAGEM

5000 exemplares

ANO XII


6 DESTAQUES

Por um setor turístico mais competitivo e responsável 008

BARÓMETRO DO TURISMO

INSTITUCIONAL

EDIÇÃO ESPECIAL

TENDÊNCIAS

BIG DATA E O TURISMO

010

020

BEST IN TRAVEL

CADERNO ESPECIAL

OS DESTINOS MAIS SUBESTIMADOS DO MUNDO

OVER TOURISM?

046

048

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


DESTAQUES

À CONVERSA COM

LUÍS ARAÚJO

TURISMO DE PORTUGAL

058

GERAÇÃO Z E O FUTURO DO TURISMO

TURISMO E POBREZA RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO

080

086

Estará o seu município no caminho certo?

VIAGEM NO TEMPO

096

112

VIAGENS

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

7


8 INSTITUCIONAL

Por um setor turístico mais competitivo e responsável Zurab Pololikashvili Secretário Geral Organização Mundial do Turismo

JUNTOS PODEMOS TRADUZIR O TURISMO EM MAIS INVESTIMENTO, MAIS EMPREGO E UMA MELHOR SOCIEDADE PARA TODOS.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


INSTITUCIONAL

As chegadas de turistas internacionais cresceram 7% em 2017, atingindo um total de 1,3 mil milhões. Este é um registo histórico. Hoje, 10% do PIB mundial, 10% dos empregos mundiais e 7% das exportações totais do mundo provêm do turismo. Estas são, naturalmente, boas notícias para todos. No entanto, além de consolidar o crescimento do setor, precisamos crescer melhor. Precisamos transformar estes números em benefícios para todas as pessoas, sem deixar ninguém para trás. Precisamos dissociar o crescimento do uso dos recursos naturais. Colocar as mudanças climáticas no cerne da nossa agenda. Para tornar o turismo mais inteligente, mais competitivo e mais responsável. Precisamos fazer do turismo um setor líder para cumprir a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável e a consecução dos nossos objetivos comuns - os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

O CRESCIMENTO SUSTENTADO DO TURISMO TRAZ IMENSAS OPORTUNIDADES DE BEM-ESTAR SOCIOECONÓMICO E DESENVOLVIMENTO. No entanto, traz também muitos desafios. Adaptar o nosso setor aos desafios da segurança, às mudanças constantes nos mercados e à necessidade de gerir os limites dos nossos recursos naturais deve ser prioridade na nossa ação comum. Nesta perspetiva, a Organização Mundial de Turismo propõe as seguintes áreas como prioridades no desenvolvimento turístico:

1. Educação e criação de emprego; 2. Inovação e tecnologia; 3. Segurança; e 4. Sustentabilidade e Mudanças Climáticas. Para avançar com estas prioridades será essencial:

1. Abraçar a transformação digital; 2. Adaptar-se a novos modelos de negócio; 3. Desenvolver uma melhor gestão do crescimento do turismo; e 4. Investir em educação. •

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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10 BARÓMETRO DO TURISMO

BARÓMETRO DO TURISMO EDIÇÃO ESPECIAL

01.

COMPARANDO COM 2017, COMO PERSPETIVA A EVOLUÇÃO DOS SEGUINTES INDICADORES DO TURISMO NACIONAL PARA 2018?

MELHOR IGUAL PIOR

RECEITAS TURÍSTICAS

5%

Nº DE DORMIDAS NA HOTELARIA

6%

Nº DE TURISTAS

5%

GASTO MÉDIO POR TURISTA

5% 0%

20%

76%

21%

73%

76%

20%

28% 10%

20%

68% 30%

40%

50%

60%

70%

80%

90%

100%

A maioria dos inquiridos acredita que os indicadores vão registar evolução positiva do turismo em Portugal, em 2018. Nota, porém, para o facto de cerca de 5% dos respondentes, nos quatro indicadores, referirem que 2018 apresentará resultados inferiores aos de 2017.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


BARÓMETRO DO TURISMO

02.

COMPARANDO COM 2017, COMO PERSPETIVA PARA 2018, A EVOLUÇÃO DO TURISMO NACIONAL NOS MERCADOS ABAIXO:

CHINA

89%

11%

EUA ALEMANHA

52%

34%

14%

PORTUGAL

63%

31%

0,6%

BRASIL BÉLGICA

67%

30%

0,3% FRANÇA

73%

22%

0,5%

45% 48%

0,6%

45% 50%

0,5%

42%

HOLANDA 0,8% 36%

ESPANHA JAPÃO

56%

0,8% 34%

64%

0,2% 33%

IRLANDA

56%

12% ITÁLIA RÚSSIA REINO UNIDO

50,0%

32%

63%

0,5% 31%

53%

16%

MELHOR

27% 27%

45%

IGUAL PIOR

A China deverá ser o país com maior crescimento turístico em Portugal. Também os Estados Unidos, a Alemanha, a França e o Brasil apresentarão resultados positivos. Os mercados português, belga e holandês deverão crescer moderadamente. Pelo oposto, emerge a dúvida sobre o grau de evolução do mercado britânico, resultante do efeito Brexit.

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12 BARÓMETRO DO TURISMO

03.

EM 2018, QUAL SERÁ A REGIÃO PORTUGUESA COM MAIOR POTENCIAL DE CRESCIMENTO? 36%

AÇORES 21%

LISBOA E VALE DO TEJO

20%

PORTO E NORTE 9%

ALENTEJO

7%

CENTRO

5%

ALGARVE MADEIRA

3%

Um em cada três inquiridos afirmam que os Açores são a região que mais irá crescer em 2018. Seguem-se as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Porto e Norte de Portugal.

04. 2,9%

QUAL DEVERÁ SER A APOSTA PARA 2018, COM O OBJETIVO DE MELHORAR A COMPETITIVIDADE DE PORTUGAL COMO DESTINO TURÍSTICO?

2,9%

5,9% 5,9%

38,2%

Qualificação dos RH e do serviço Reforço da promoção Segurança, limpeza e recuperação (cidades e zonas ardidas)

7,4%

Manutenção de rotas aéreas/capacidade aeroportuária Ordenamento do território e requalificação de infraestruturas Autenticidade / Manutenção da imagem

8,8%

Diversificação de oferta e mercados/combate à sazonalidade Fiscalização do setor Outros 13,2% 14,7%

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BARÓMETRO DO TURISMO

05.

QUAIS OS FATORES QUE TERÃO UM IMPACTO MAIS POSITIVO NO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO PORTUGUÊS EM 2018?

29,4%

SEGURANÇA E ESTABILIDADE ECONÓMICA E POLÍTICA 18,5%

QUALIDADE E DIVERSIDADE DA OFERTA TURÍSTICA 12,6%

NOTORIEDADE E BOA IMAGEM DO DESTINO

10,1%

PROMOÇÃO

9,2%

LOCALIZAÇÃO, CLIMA E HOSPITALIDADE RELAÇÃO QUALIDADE/PREÇO

7,6%

INSTABILIDADE EM MERCADOS CONCORRENTES

5,0%

REFORÇO DAS LIGAÇÕES AÉREAS E CAPACIDADE AEROPORTUÁRIA

4,2%

OUTROS

06.

3,4%

QUAIS OS FATORES QUE TERÃO UM IMPACTO MAIS NEGATIVO NO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO PORTUGUÊS EM 2018?

29,4%

DEGRADAÇÃO DE INFRAESTRUTURAS/FALTA DE ORDENAMENTO 18,5%

IMAGEM DOS FOGOS FLORESTAIS/DESTINO INSEGURO

12,6%

INSTABILIDADE E INCERTEZA FISCAL, ECONÓMICA E SOCIAL

10,1%

REDUÇÃO DA QUALIDADE DO SERVIÇO/PRODUTO

9,2%

AUMENTO DOS PREÇOS E CRESCIMENTO EXCESSIVO DA OFERTA DIFICULDADE NA MANUTENÇÃO DA IMAGEM DE DESTINO SEGURO

7,6%

BREXIT | DESVALORIZAÇÃO DA LIBRA

5,0%

ESTABILIZAÇÃO/CRESCIMENTO DOS MERCADOS CONCORRENTES

4,2%

OUTROS

3,4%

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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14 BARÓMETRO DO TURISMO

07.

EM 2018, QUAL DEVERÁ SER O PRODUTO TURÍSTICO CENTRAL, A COMUNICAR INTERNACIONALMENTE POR PORTUGAL? SOL E MAR

17%

CITY-BREAKS

17% 17%

GASTRONOMIA E VINHOS TOURING CULTURAL E PAISAGÍSTICOS

13%

TURISMO DE NATUREZA

13% 6%

TURISMO DE NEGÓCIOS TURISMO RELIGIOSO

5%

GOLFE

5%

SAÚDE E BEM-ESTAR

5%

TURISMO NÁUTICO OUTROS

2% 1%

Sol e Mar, City Breaks e Gastronomia e Vinhos surgem como produtos centrais na promoção de Portugal para 2018. O Touring Cultural e Paisagístico e o Turismo de Natureza surgem, também, como importantes marcas de comunicação.

FICHA TÉCNICA Universo: 177 membros | Respostas: 66 | Período de auscultação: 18 a 26 outubro de 2017 | Tratamento dos dados: IPDT

MEMBROS DO PAINEL Alexandre Abade (Oásis Atlântico Holding); Alexandre de Almeida (Hotéis Alexandre de Almeida); Alves de Sousa (Hotel Britania – Hotéis Heritage); Ana Barbosa (TurAventur); Ana Ferro (Galerias Paris Porto); Ana Salazar (Universidade Fernando Pessoa); Anabela Almeida (Consolidador.com); Anabela Correia (Inatel Turismo); André Barreto (Estalagem Quintinha São João); Andrew Zino (Nature Meetings); António Belmar da Costa (AGEPOR - Associação dos Agentes de Navegação de Portugal); António Ceia da Silva (Turismo do Alentejo); António Condé Pinto (APHORT); António Diogo (Welcome Portugal - Viagens e Turismo); António Lacerda (Agência Promoção Turística do Alentejo); António Loureiro (Travelport); António Martinho; António Mota; António Trindade (Porto Bay); António Vidal (APECATE- Ass. Port. Emp. Congr. Anim. Turística e Eventos); Armando Conceição; Assis Correia (Associação Comercial e Industrial do Funchal); Bruno Pereira; Cândido Mendes (Federação Portuguesa de Turismo Rural); Carina Monteiro (Workmedia, Publituris); Carla Moreira (Escola de Hidroterapia e SPA); Carlos Fernandes (ESTG-IPVC); Carlos Martins (Solmelia); Carlos Martins (OPIUM); Carlos Paneiro (TAP Portugal); Carlos Torres (EST/APAVT); Carolina Morgado (Revista Turisver); César Gonçalves (PriceWaterHouseCoopers); Conceição Estudante; Correia da Silva (TT-ThinkTur); Cristina Ávila (Associação de Turismo dos Açores); Cristina Dias; Cristina Gouveia (Citur); Cristina Siza Vieira (Associação da Hotelaria de Portugal); Desidério Silva (Região de Turismo do Algarve); Diamantino Pereira; Diogo Vaz Guedes; Domingos Silva; Duarte Correia (World2Meet); Eduardo Cabrita (MSC Cruzeiros); Eduardo Jesus; Eduardo Souto Moura (AICEP); Elidérico Viegas (Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve); Emídio Gomes; Fátima Vila Maior (FIL – Feira Internacional de Lisboa); Filipe de Pina (Top Atlântico); Fernando Mendes (Montepio); Fernando Silva (Quinta das Escomoeiras); Fernando Vieira (ANA Aeroportos, S.A.); Francisco de Calheiros (Associação de Turismo de Habitação); Francisco Sampaio; Francisco Teixeira (Melair); Frèdéric Frère (Travelstore); Frederico Costa (Pousadas de Portugal); Gama Mor; Gavin Eccles (SATA); Gonçalo Salgado (GeoStar); Hélio Loureiro (Hotel Porto Palácio); Henrique Moura; Henrique Montelobo (Onyria Resorts); Henrique Veiga (Aequitate); Humberto Ferreira (Publituris); Isabel Cardoso (Bairent); Isabel Morais (Sogrape Vinhos); Isabel Pilar (Cosmos); Jan E. Ringertz (The Yeatman); João Monteiro (Hotéis Rurais de Portugal); João Pereira de Faria (El Corte Inglés); Joaquim Ribeiro (J.A.S.E. – Empreendimentos Turísticos); João Paulo Reis (Scalivete); João Silva (Team Quatro); João Welsh; Joaquim Almeida (ARAC); Joaquim Anes Pinto (Hotel Beach & Golf); Joaquim Antunes (Instituto Politécnico de Viseu); Jorge Abrantes; Jorge Aníbal Catarino; Jorge Gassin (Barceló Hotel Beds); Jorge Humberto (Turismo Região de Lisboa); Jorge Jesus (Andaz); Jorge Marrão (Deloitte); Jorge Osório; Jorge Rebelo de Almeida (Grupo Vila Galé); Jorge Rodrigues (Templar - Rotas e Destinos Turísticos); Jorge Umbelino (Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril); José Arimateia (Visabeira Turismo); José Bastos; J. Carlos Pinto Coelho (Onyria Resorts); José Elias (Revista Turisver); José Roquette (Grupo Pestana); Júlio Meirinhos; Júlio Mendes (Universidade do Algarve); Lourenço Marçal (Grupo Continental); Luciano Gouveia (Palheiro Estate); Luigi Valle; Luís Luz; Luís Marques (AETUR); Luís Monteiro D´Aguiar (Eurofun); Luís Patrão; Luís Veiga (Natura - IMB Hotels); Manuel Dias (MDTUR); Manuel Espírito Santo; Manuel Fialho (Restaurante “O Fialho”); Manuel Marques (Douro Azul, S.A.); Manuela Sarmento (Universidade Lusíada); Maria José Catarino (Hoti Hotéis); Maria José Silva (RAVT); Mário Ascenção (HAAGA-HELIA - University of Applied Sciences); Margarida Belém (Câmara Municipal de Arouca), Mário Ferreira (Douro Azul, S.A.); Mário Gonçalves (AHRESP); Mário Machado (Springwater); Marta Bensaude Pires (Bensaude Turismo); Marta Guerreiro (Secretaria Regional da Energia, Ambiente e Turismo dos Açores); Marta Sá Lemos (APDL); Melchior Moreira (Turismo do Porto e Norte de Portugal); Miguel Cymbron (VIP Hotels); Miguel Júdice; Miguel Moital (Universidade de Bournemouth); Miguel Quintas; Miguel Simões de Almeida; Miguel Sousinha; Miguel Velez; Mónica Fernandes (Lisboatur); Nazir Din (SANA Hotels Portugal); Noel Dias; Nuno Azevedo; Nuno Fazenda (Turismo de Portugal, IP); Nuno Santos (Solferias); Nuno Santos; Orlando Carrasco (International Consultants Iberia); Paulo Águas (Universidade do Algarve); Paulo Fernandes (Grupo Lena); Paulo Lei (Ferpinta Turismo); Paulo Mendes (Airmet); Paulo Neves (Instituto para a Promoção e Desenvolvimento da América Latina); Paulo Parreira (Sítios); Paulo Rita (ISCTE); Paulo S. Cunha (Casa da Música); Pedro Aires Abreu (AICEP); Pedro Advirta (Clube Viajar); Pedro Ferreira (APAVT); Pedro Gordon (GEA Portugal); Pedro Lopes (Grupo Pestana); Pedro Machado (Turismo do Centro); Pedro Pereira (Hotel Miraparque); Pedro Silva (Turismo do Centro); Raul Geraldes (Pelicano Travel); Ricardo Magalhães (CCDR-N); Rita Soares (Martins Soares); Roberto Gomes (Associação de Promoção da Madeira - APM); Rocha de Matos (Associação Industrial Portuguesa); Rodolfo Faustino (Turismo de Macau); Rodrigo Machaz (Memmo Baleeira Hotel); Rosário Torres Costa (Turismo de Portugal, IP); Rui Ochôa (Event Point); Salvador Alves Dias (Associação de Jornalistas Portugueses de Turismo); Sancho Silva (Cestur); Sandra Carvão (Organização Mundial do Turismo – OMT); Sérgio Gonçalves (ACIF-CCIM); Sónia Almeida (ADERE); Susana Ribeiro; Susana Luz (Air Plus International); Teresa Vieira (Sociedade de Turismo da Feira); Tiago Raiano (New Tour Azores, SA); Valente de Oliveira (Associação Empresarial de Portugal); Vasco Malaquias de Lemos; Virgínia Trigo (ISCTE); Víctor Manique; Vítor Fraga (SDEA); Vítor Neto (Ex-Secretário de Estado do Turismo); Vítor Silva (Turismo do Alentejo).

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


TENDÊNCIAS

Turismo em 2018: tendências e oportunidades

Com o final de mais um ano, torna-se importante fazer um balanço do que foi o ano passado e do que está para vir. As viagens, como sempre, assumem um papel bastante importante, sendo que o setor da hotelaria e turismo tem registado rápidos e significativos aumentos. Ainda que algumas escolhas sigam uma linha de continuidade do ano anterior, surgem também novidades no que diz respeito à forma como os turistas viajam.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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16 TENDÊNCIAS

1. PLATAFORMAS DE RESERVA ONLINE Prevê-se que, em 2018, a aliança entre os hotéis e as empresas que partilham alojamento seja consolidada. A tendência da partilha de experiências com os proprietários dos alojamentos, como por exemplo a gastronomia, está a crescer cada vez mais, o que leva os viajantes a optarem por este tipo de alojamento. Cada vez mais os hotéis mostram-se preocupados com o crescimento destas empresas, que consequentemente invadem o seu negócio. A Airbnb, uma das empresas mais representativas no ramo da partilha de alojamento, está atualmente presente em mais de 65.000 cidades, e é bastante procurada pelos turistas. Ao trabalharem em conjunto, os hotéis e as empresas de partilha de alojamento podem oferecer mais opções aos viajantes e atingir um público mais amplo.

2. EXPERIÊNCIAS ÚNICAS Hoje em dia, os turistas, principalmente os millennials, procuram experiências nativas quando viajam. Estes turistas pretendem experimentar de tudo, mas de forma diferente. Procuram interagir com as pessoas locais e experimentar novas culturas.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

A procura pela experiência no mundo real, numa expetativa de fuga às zonas de conforto habituais, é despoletada pelo crescente nível de conforto sentido na vida quotidiana, gerando necessidade de fazer algo diferente. A partilha de experiências por via digital, como no caso dos blogs, suscita também o interesse dos viajantes. Para dar resposta a estas necessidades, os destinos apresentam respostas mais genuínas e criativas. Por exemplo, a Airbnb começou a oferecer experiências por forma a conseguir atrair mais clientes.

3. SUSTENTABILIDADE As escolhas dos turistas enquanto viajam têm um efeito tangível no bem-estar social, económico e ambiental de um país. Segundo a Organização Mundial do Turismo, o turismo “responsável” pode contribuir para os objetivos de desenvolvimento sustentável do destino. Os turistas, sobretudo os millennials, mostram-se cada vez mais preocupados com os seus altos níveis de consumo, o que também se verifica quando viajam. É crescente a disposição dos viajantes em visitar locais protegidos e parques naturais, promovendo a reconciliação com o meio ambiente. Esta consciencialização está também presente na escolha do tipo de alojamento: os apartamentos e as eco-vilas são cada vez mais procurados, o que também se verifica na escolha de modos de transporte mais eficientes. A bicicleta, o comboio ou o metropolitano, modos de deslocação menos poluentes, são opções cada vez mais utilizadas nas experiências turísticas.


TENDÊNCIAS

4. A TECNOLOGIA E AS REDES SOCIAIS O desenvolvimento tecnológico tem assumido um papel fundamental na transformação do turismo. Um dos grandes objetivos da Google é tornar possível aos seus utilizadores “sonhar, planear, reservar e experimentar” as viagens, tendo assim um papel muito mais direto nas escolhas de viagem dos utilizadores. Caso se garanta a união entre a oferta e a procura, talvez estejamos muito próximos da pura intermediação online. O desenvolvimento tecnológico pode, no entanto, gerar algumas preocupações no que respeita à privacidade dos utilizadores. Contudo, e segundo alguns estudos recentes, essa preocupação não afeta os millennials, que encaram a realidade virtual como a melhor forma de obterem informação sobre os destinos, optando assim por disponibilizar os seus dados pessoais em troca de informação mais personalizada. As redes sociais, por seu turno, ocupam um destaque crescente em qualquer organização. Hoje em dia, quase todas as experiências são partilhadas nestes canais. Estar presente neles e oferecer experiências positivas torna-se praticamente obrigatório. As experiências e opiniões favoráveis dos outros utilizadores são bastante influenciadoras na hora da decisão dos novos clientes, pelo que se torna essencial ter como primeira preocupação a satisfação dos clientes.

5. SAÚDE E BEM-ESTAR O culto da saúde continua ser uma das tendências do turismo. O bem-estar físico e emocional é um grande motivo para viajar: seja para apreciar as paisagens através de uma caminhada, para usufruir de um SPA ou um tratamento de beleza, para praticar desportos e meditação ou até para refletir e tomar decisões acerca do futuro. Existem vários conceitos no que respeita ao turismo de saúde e bem-estar, alguns considerados de luxo. Entre eles, podemos encontrar resorts com os mais variados serviços, tais como médicos, alimentação orgânica, tratamentos de saúde baseados no ADN do viajante, que determinam a sua dieta, tratamento no SPA e plano de exercícios, desfrutando de instalações sensacionais em destinos únicos.

6. BLEISURE Ao viajar por motivos profissionais, o turista pode aproveitar para estender a sua estadia num certo destino para conhecer um pouco mais a cidade/região e as suas culturas. Considera-se, então, que este turista pratica o bleisure. Segundo o estudo do Perfil do Turista que visita o Porto e Norte de Portugal realizado pelo IPDT, o turista que viaja em bleisure possui rendimentos acima da média, o que o torna propenso ao consumo. Estes turistas procuram autenticidade, descoberta e inspiração. Recebem informação acerca dos destinos através de todos os canais: emails, aplicações móveis, páginas de reserva online, blogs, redes sociais e eventos. Os conteúdos que mais chamam a sua atenção são inspiradores, educacionais, divertidos e sobretudo personalizados. Atualmente, cerca de 50% dos turistas que viajam em negócios praticam o bleisure, e esta tendência deverá sofrer um acentuado crescimento durante os próximos anos.

7. GERAÇÃO Z Este é o ano em que os nascidos no ano 2000 atingem a maioridade. Pertencem à Geração Z, antecedida pelos millennials. Estes jovens praticamente nasceram com as novas tecnologias. Para eles a sua utilização é tão natural como respirar. O uso da tecnologia é essencial para este grupo. As redes sociais e o uso da internet, em geral, são meios de socialização indispensáveis para esta geração, uma vez que, além de estarem em contacto quase permanente com conhecidos e amigos, dedicam também parte do seu tempo a pesquisar informações de destinos e novos produtos em diferentes plataformas. De forma a dar resposta a este público, é importante que as empresas desenvolvam estratégias de inovação adequadas, uma vez que estes consumidores exigem, constantemente, novos produtos. Esta geração irá representar uma onda de mudanças com grande impacto na indústria do turismo.

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18 TENDÊNCIAS

8. SEGURANÇA De acordo com uma pesquisa do World Travel Market, 71% dos turistas mostram-se preocupados, com medo de sofrer um ataque terrorista, durante as suas viagens. Este fator, com maior preponderância nos últimos anos, vem sendo determinante para a escolha do próximo destino de viagem. Sendo um elemento sensível e imprevisível, a questão da segurança vem sendo trabalhada, intensamente, pelas entidades gestoras dos destinos. O trabalho desenvolvido verifica-se na implementação constante de medidas de segurança, quer físicas, em áreas de maior afluência de pessoas, como a colocação de pilaretes e o seu maior policiamento; quer em termos de comunicação, preparando conteúdos que apoiem o turista na sua decisão, incutindo mensagens de segurança. As medidas promovidas têm alcançado os seus objetivos, constatando-se evoluções favoráveis nos indicadores de perceção de segurança em destinos como Egito, Tunísia e Turquia. Importa reforçar que o fator (in)segurança não determina uma diminuição do número de viagens, influenciando, apenas, o destino de viagem. Assim, os destinos deverão manter o seu trabalho ativo, garantindo elevados níveis de segurança, uma vez que este será um elemento preponderante para os turistas, na decisão dos seus destinos, durante os próximos anos.

9. CRESCIMENTO Nos últimos anos verificaram-se aumentos constantes no número de turistas internacionais, alcançando-se recordes de viagens todos os anos. O ano de 2017 encerrou com um aumento de cerca de 5% de viagens internacionais, face a 2016, segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT). De acordo com o World Travel Market, três em quatro diretores do turismo mundial acreditam que se verificará um novo crescimento da procura de viagens em 2018. Segundo a OMT, esta tendência dever-se-á manter durante a próxima década, estabelecendo-se novos recordes de viagens. A conjugação de fatores importantes, como a maior oferta de viagens de baixo custo, a melhor preparação dos

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

destinos para receber os turistas e a facilidade de interação e promoção através das redes sociais, são alguns dos elementos cruciais para manter o crescimento gradual do turismo, à escala mundial.

10. CLIMA As mudanças climatéricas são um dos temas mais debatidos e estudados nos últimos tempos. Em 2017 observamos 3 grandes furacões (Harvey, Irma e Maria), assistimos a episódios de calor extremo no verão, atingindo temperaturas recorde afetando o quotidiano da sociedade. Não obstante ser um tema que requer intervenção de todos, com vista a minimizar o seu impacto - e de difícil controlo pelos agentes do turismo - o clima é um dos elementos mais influenciadores da escolha dos destinos de viagem dos turistas. A variação meteorológica constante interfere não apenas no pré-viagem mas, sobretudo, durante a experiência, sendo esta influenciada pelo sol ou chuva, pelo frio ou calor. O grau de satisfação do turista encontra-se diretamente relacionado com o clima, devendo ser promovidas medidas que potenciem a maior dinamização dos destinos em situações climatéricas adversas, garantindo a possibilidade de descoberta do destino de formas alternativas e igualmente atrativas. Sendo o clima um dos temas mais emergentes da agenda mundial, acredita-se que será um fator decisivo nas viagens efetuadas dos próximos anos, emergindo novos destinos, definindo-se novos padrões de utilização, novas motivações e expetativas.

ALIANDO AS 10 TENDÊNCIAS DE MERCADO A UMA VISÃO PRÓ-ATIVA SOBRE OS DESTINOS, OS GESTORES PODERÃO ELABORAR POLÍTICAS MAIS EFICIENTES PARA O SUCESSO TURÍSTICO, A RENTABILIDADE ECONÓMICA E A SUSTENTABILIDADE DOS TERRITÓRIOS. •


20 TENDÊNCIAS

BIG DATA E O TURISMO

O TURISMO VEM-SE POSICIONANDO COMO UM DOS SETORES DE ATIVIDADE MAIS INOVADORES, ACOMPANHANDO O DESENVOLVIMENTO DE DIVERSAS ÁREAS, NOMEADAMENTE A TECNOLOGIA, INCORPORANDO-A PARA INCREMENTAR A QUALIDADE DOS SERVIÇOS E PRODUTOS E, SOBRETUDO, MELHORAR A FORMA DE COMUNICAR COM O TURISTA. Efetivamente, a relação entre tecnologia e turismo vem-se aproximando, obtendo proveitos bastante positivos. Importa reter a diminuição das percentagens de pessoas que recorrem aos serviços das agências de viagens, tornando-se frequentes as reservas diretas, quer de alojamento e viagens, como de atividades turísticas e restauração.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


TENDÊNCIAS

SEGUNDO O GOOGLE TRAVEL STUDY, MAIS DE 65% DOS TURISTAS MUNDIAIS FAZEM AS SUAS RESERVAS ATRAVÉS DA INTERNET, RECORRENDO, CADA VEZ MAIS, A SMARTPHONES.

A maior utilização do mundo online pelos turistas, para a organização das suas viagens é um paradigma incontornável, que deve ser ponderado pelos players do destino. As pesquisas, reservas e comentários efetuados pelos turistas na internet, nas redes sociais e em outros meios digitais geram um conjunto de informação diversificada, em bruto, denominado Big Data: um importante elemento para a definição de estratégias e ações concretas.

DA ANÁLISE DOS DADOS AO CORRETO POSICIONAMENTO TURÍSTICO A informação gerada pelas inúmeras pesquisas e reservas online, é uma importante ferramenta de trabalho que deverá ser analisada, permitindo concluir de que forma um determinado produto poderá melhorar a sua presença no mercado e alcançar mais clientes. É precisamente aqui que emerge o principal elemento do Big Data: o importante não é tanto o volume, mas sim como são aproveitados, tratados e interpretados os dados acumulados. Através de uma análise orientada aos dados, os gestores ficam na posse de importante informação sobre os clientes, em tempo real, permitindo operacionalizar ações, alcançando mais proveitos e rentabilizando os recursos existentes. Trata-se de uma gestão on time, que requer cuidado e atenção às frequentes alterações das exigências/ necessidades/interesses do mercado, mantendo um correto posicionamento, agilizando o portfólio de produtos existente de forma eficiente. No setor do turismo, a análise do Big Data, permite conhecer importantes variáveis sobre o mercado, resultante das pesquisas e reservas online, tais como datas com maior procura, produtos/monumentos com maior interesse, nacionalidades com pesquisas mais frequentes, entre outros. Em síntese, transforma os dados em informação útil sobre os utilizadores/visitantes, os seus movimentos e preferências. Esta informação poderá impulsionar a organização de campanhas promocionais direcionadas para um determinado público, a capacitação do destino para receber melhor uma determinada nacionalidade, ou mesmo a contratação de recursos humanos para melhorar o serviço prestado em momentos de maior procura do destino. Permite, ainda, a receção de feedback dos turistas no momento, permitindo percecionar o grau de satisfação, e de que forma poderá ser melhorada a experiência do mesmo.

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VANTAGENS E DESAFIOS DO BIG DATA As vantagens associadas à análise efetuada ao Big Data permitem, aos destinos, enquadrarem as ações futuras da oferta, de forma coerente, eficiente e sustentável. Entre as vantagens enumeram-se as seguintes, como as que mais se destacam: 1. Fiabilidade Os dados extraídos são baseados em ações do visitante real e não em inquéritos realizados. Isto significa que são analisadas ações concretas em vez de declarações de intenção.

6. Novas oportunidades de negócio Os resultados da análise desta informação podem ser relacionados com os dados internos de cada empresa de turismo para determinar se a oferta está ajustada à expetativa real e comportamento efetivo dos visitantes. Se tal não se verificar, surge a possibilidade de criar novas estratégias, linhas de negócios ou outros produtos personalizados à medida do público-alvo. Não obstante a evolução do conceito da análise do Big Data, principalmente nos últimos anos ainda existem vários desafios e questões a melhorar, nomeadamente: • A conjugação das estruturas tradicionais com as estruturas de gestão do Big Data; • A diferença entre o número de profissionais com conhecimentos de Big Data - ainda relativamente pequeno - e o grande número de empresas dedicadas ao setor do turismo;

2. Representatividade Tendo em conta todas as fontes de informação analisadas, podemos dizer que a base de amostragem é significativamente maior, relativamente à pesquisa convencional.

• Definição do respeito pela privacidade dos visitantes em relação aos seus dados. Estes devem ser usados de forma responsável para garantir benefícios sem violar a privacidade.

3. Detalhe e capacidade de segmentação Dado o volume e a fiabilidade dos dados, a enumeração das preferências dos visitantes ganha outro detalhe e capacidade de segmentação (atividades, gostos, necessidades, etc.). Estes dados permitem otimizar os resultados da gestão do turismo, uma vez que possibilitam conhecer com maior exatidão as expetativas, comportamentos e necessidades dos visitantes.

DESTINOS DE FUTURO, DESTINOS INTELIGENTES

5. Novos fluxos de informação

A harmonia entre as vantagens e os desafios impostos pelo Big Data será um fator determinante para o sucesso futuro dos destinos. Atuar no momento, criar relações de proximidade orientadas para as principais motivações do turista, será um paradigma de futuro, que exigirá aos destinos um grau de compromisso com o detalhe da experiência oferecida e, principalmente, a forma como o turista perceciona os produtos e a sua comunicação.

O maior conhecimento sobre o público-alvo vem a partir de dados extraídos dos próprios utilizadores. Os sistemas que gerem as telecomunicações e as transações financeiras via terminais móveis permitem detetar cada uma das escolhas feitas online. Isto permite determinar os gostos e preferências dos clientes. Além disso, o aumento da tecnologia móvel e a disseminação de novas aplicações permite-nos avaliar e partilhar opiniões.

No futuro, mais do que no passado, o word-of-mouth tornar-se-á um fator determinante para a escolha dos destinos, dada a preponderância do online no quotidiano da sociedade. Desse modo, os destinos deverão assumir uma postura pró-ativa, inteligente, sustentável, assente na análise constante da informação disponível - o Big Data - alcançando índices de procura e competitividade mais sustentáveis. •

4. Cruzamento de dados e fontes A extração de dados estruturados e com referências de localização geográfica permite que os mesmos possam ser relacionados com informação proveniente de outras fontes, nomeadamente com a que advém das redes sociais.

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Criação de valor em turismo: novos produtos e novos conceitos

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O SETOR DO TURISMO TEM SIDO ÍMPAR NO RÁPIDO E ININTERRUPTO CRESCIMENTO DOS ÚLTIMOS ANOS, SENTIDO TANTO A NÍVEL NACIONAL COMO INTERNACIONAL. O comportamento do setor é influenciado por vários fatores externos aos destinos como a instabilidade política, ataques terroristas, alterações sociodemográficas, avanços tecnológicos, entre outros. O conjunto destas variáveis vai alterando, por sua vez, o processo de tomada de decisão dos turistas, modificando o que estes procuram nas suas experiências. Com o aumento da competitividade entre destinos e empresas turísticas, torna-se imperativo pensar na criação de valor em turismo, com novos produtos e novos conceitos, capazes de concorrer neste ambiente competitivo e de dar resposta às alterações que vão acontecendo no ambiente turístico. De forma a manter a competitividade do destino é igualmente essencial que os seus stakeholders se esforcem por aumentar a qualidade.

MILLENNIALS E EXPERIÊNCIAS A experiência tem um papel cada vez mais central para os turistas, sendo que, quando estes planeiam a viagem, criam o desejo de adquirir experiências em detrimento de serviços ou produtos, deixando o turista de ser apenas comprador para ser também coprodutor. Isto leva à necessidade do planeamento em turismo ter em conta a importância da criação das experiências, sendo estas fruto de uma cocriação entre a oferta e procura, não podendo ser completamente controladas pela primeira. A hotelaria é uma das áreas que se tem adaptado às novas necessidades, tendo dado maior enfâse em transformar o alojamento, num serviço mais do que numa experiência.

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Um exemplo disso é a marca Accor que lançou um novo segmento de hotéis denominado de Jo & Joe, inspirada no co-living e Hostels e concebido de forma a ir de encontro às expetativas dos millennials e, de quem como eles, adota a cultura de partilhar, da espontaneidade e da experiência. Localizados nos centros das cidades, com bons acessos a transportes públicos e perto de pontos de interesse, estas unidades são descritas como espaços vibrantes, com um design disruptivo que, mais do que apenas uma solução de alojamento, pretendem ser um potenciador de experiências. O hotel tem espaços como o “Happy House” onde se pode relaxar, cozinhar ou lavar roupa, tal como em casa. O espaço “Together” uma área


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comum de quartos que se partilham, sem sacrificar a privacidade de cada um, com cacifos, luzes de leitura e portas USB, onde os hóspedes têm acesso a áreas comuns de lazer e casas de banho. A marca já abriu um Hotel em Hossegor (França) e pretende expandir-se para cinquenta destinos até 2020.

TECNOLOGIA A tecnologia é outra das áreas que tem causado alterações no turismo, com uma crescente importância para o turista, sendo utilizada desde a fase da pré-viagem até ao seu pós. No setor hoteleiro, um estudo realizado pela Oracle Hospitality a turistas americanos e europeus, revela que 60% dos hóspedes continua a preferir falar em pessoa com o staff da receção ou concierge do que com robots, ou seja é preciso existir um correto equilíbrio entre o uso de tecnologia e as interações pessoais. Segundo o mesmo estudo os turistas desejam agora ter mais controle na sua experiência de alojamento, tornando-a mais personalizada, podendo nestes casos a tecnologia ajudar a facilitar estes desejos. Relativamente às principais iniciativas tecnológicas, que os hóspedes consideram que os hotéis deviam implementar, encontram-se a possibilidade de escolher a localização específica do quarto, formas de partilhar informação sobre atividades no destino, a agilização de processos de check-in e check-out e formas automáticas de fazer requisições de serviços. Um exemplo da implementação de tecnologia em hotéis ao serviço do hóspede é o Evolution Lisboa Hotel. Este pertence a um novo conceito de hotéis, denominados de Evolution, da cadeia SANA HOTELS, orientado para um viajante urbano e para as novas tecnologias. Nestes hotéis o cliente tem mais controlo da sua experiência como a possibilidade de efetuar o check-in num terminal eletrónico e escolher o quarto que pretende. Através da app do hotel é possível controlar todos os equipamentos do quarto, como luzes, estores, ar condicionado. Estão ainda disponíveis, 24 horas por dia, serviços como ginásio, spa, sauna, bem como refeições que podem ser realizadas à hora que o cliente quiser. Não é só nos hotéis que há uma necessidade de acompanhar as tendências tecnológicas, também nos destinos isto acontece, como o caso de Cascais. Este é um dos destinos que apostou em soluções tecnológicas para

se tornar mais eficiente tanto para residentes como para turistas. Um dos sistemas implementados mais realçados é a mobilidade Mobi Cascais que consiste na existência de 14 ilhas equipadas com um sistema inteligente de aluguer de bicicletas. Este aluguer pode ser feito através da app móvel ou através de um cartão que os habitantes e turistas podem requisitar. Estas interfaces permitem ainda o acesso a outras modalidades de transporte e, através da app MobiCascais, é possível determinar a posição atual de autocarros bem como efetuar o pagamento do estacionamento dentro da vila.

SUSTENTABILIDADE No turismo, o ano de 2017 foi marcado por ser o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento, promovendo o papel do turismo no desenvolvimento económico, social, cultural e ambiental. A sustentabilidade é atualmente um fator importante para os turistas nas suas viagens, nomeadamente na escolha do hotel, havendo uma maior pressão para uma maior consciencialização, dado que o setor hoteleiro contribui com cerca de 20% das emissões geradas pelo turismo (UNWTO/UNEP). O destino Açores iniciou o processo para se tornar o primeiro arquipélago do mundo a ter o selo de destino sustentável pelo Global Sustainable Tourism Council, sendo que são ainda escassos, a nível mundial, os destinos certificados em turismo sustentável. O destino quer que o seu tipo de turismo traga benefícios para o território, não querendo tornar-se um destino de massas. Através da colaboração de toda a cadeia de valor do turismo pretende-se que a sustentabilidade se transforme numa mais-valia para os Açores enquanto destino turístico. Outro exemplo de sustentabilidade no setor é o caso do Neya Lisboa Hotel que foi distinguido em janeiro de 2018 com o prémio Green Project Awards 2017 na categoria turismo, com o projeto Sustentabilidade. O estabelecimento hoteleiro tem um projeto que visa a sustentabilidade tripartida: ambiental, económica e social. Além de integrar soluções que visam a eficiência energética e a diminuição da pegada ecológica, o hotel tem outras iniciativas como o Quarto Solidário, em colaboração com o Hospital Dona Estefânia, onde proporciona alojamento gratuito a famílias carenciadas com crianças internadas. •

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O novo turismo: mais atento, mais personalizado INÊS BASTOS Jornalista

A PERSONALIZAÇÃO DOS NOVOS CONCEITOS DE HOTELARIA, RESTAURAÇÃO E ATÉ ALGUNS SERVIÇOS DE ANIMAÇÃO TURÍSTICA JÁ SE FEZ SENTIR EM 2017, MAS É A GRANDE APOSTA PARA ESTE ANO. Os hóspedes já não se satisfazem com os típicos quartos business - ou pelo menos estes não são suficientes para as férias em família -, os clientes já não se ficam pela boa comida que vem para a mesa e conhecer uma cidade como todos os outros a conhecem já não enche as medidas de quem viaja.

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E O QUE É QUE MUDOU? O poder de compra das camadas mais informadas da sociedade. Na verdade, uma geração mais instruída passou a ter capacidade económica para sair e viajar, muito graças ao crescimento exponencial das companhias low-cost. Ora, se há coisa que as camadas mais jovens sabem fazer é divertirem-se e autocarros de sightseeing massificados não são propriamente sinónimo de diversão. O turismo respondeu e criou percursos noturnos, criou ofertas pedestres e programas adequados aos seus desejos notívagos.

E ATÉ ISSO, AGORA, JÁ É POUCO. CADA VEZ MAIS O TURISTA GOSTA DE SE SENTIR ESPECIAL. É um número, parte de um grupo, durante o período laboral e, por isso mesmo, quando está de férias deseja ser diferente, sentir-se diferente. Não é por acaso que, cada vez mais, vemos pequenas casas de turismo rural. Pequena é igual a poucos quartos. E poucos quartos significa mais privacidade e, por consequência, mais atenção por parte dos responsáveis pelo espaço. E já nem é necessário sair do alojamento para conhecer a região: os produtos regionais entraram de rompante pelas cozinhas e são servidos ao pequeno-almoço como se de troféus se tratassem. O hóspede não é um número de reserva: tem um nome do início ao fim do processo, senta-se à mesa da família, é parte de um grupo muito mais restrito e especial do que o departamento onde trabalha. É convidado a fazer parte da família. Se há ramo do turismo que mais tem crescido nos últimos meses é, sem dúvida, o rural. É, na verdade, aquele que ainda tem muita mais margem de crescimento pela frente. E há lá coisa mais bonita do que ver um mar de possibilidades para o turismo que mais se adequa ao nosso país? Porque é que se diz ser o que mais se adequa ao nosso país? Porque não nos falta o património. Se há coisa que não nos falta são casas de família, muitas vezes plantadas no meio de grandes herdades ou quintas. Ter poucos quartos disponíveis passou a ser uma vantagem. Tem espaço para ter cavalos? Ainda melhor. Faz-se um programa equestre para que os hóspedes possam ter aulas privadas. Tem tradições vinícolas e vinhas plantadas? Jackpot! Constrói-se todo o alojamento em torno do vinho, com provas e até convidando o hóspede a tomar parque do processo. É, essencialmente, esta a tendência dos serviços turísticos para 2018. Quem vem (e quem vai também) quer sentir que faz parte do seu destino. Que viveu ali e não só visitou, que fez parte da sua vida e da sua história, que aproveitou como um local e não como um outsider. A resposta tem sido exímia por parte dos prestadores de serviços: personalização, personalização, personalização... O que o cliente quer, o cliente tem. E ainda leva um produto regional feito pela Dona Maria, que já faz isto há mais de cinquenta anos.

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Há casas de turismo rural totalmente esgotadas, que em vez de terem um calendário com a sua disponibilidade no seu site, anunciam na rede social Facebook os fins-de-semana onde ainda conseguem encaixar mais alguém. Porquê? Porque só têm seis quartos, todos diferentes e decorados com amor e objetos vindos de viagens feitas ao longo dos anos e porque não há nada mais personalizado e especial do que ser-se recebido no seio de uma família onde a correria das crianças faz parte do dia-a-dia das férias.

EM PORTUGAL JÁ TÍNHAMOS FAMA DE FAZER QUEM NOS VISITA SENTIR-SE ESPECIAL. AGORA TORNÁMO-NOS MÁQUINAS DE PERSONALIZAÇÃO. E OS CLIENTES (SEJAM ELES TURISTAS PORTUGUESES OU ESTRANGEIROS) ESTÃO A RESPONDER DE FORMA MAIS DO QUE POSITIVA. COMO? QUEREM VOLTAR. •

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Arte e hotelaria fundem-se para dar origem a um conceito único na cidade do Porto

O cenário competitivo a que assistimos alterou a lógica da criação de valor no setor do turismo, levando a que os agentes abandonassem abordagens ultrapassadas, apostando em relações de parceria com benefícios inequívocos para fornecedores e clientes. Pensar na criação de valor para o turismo tendo como objetivo único a performance financeira é redutor e desvaloriza a perceção das necessidades dos clientes e condições que podem influenciar o sucesso a longo prazo. As organizações devem gerar valor partilhado e não exclusivamente lucro, numa necessidade constante de reinvenção e desenvolvimento de conceitos inéditos, capazes de ir ao encontro das novas expetativas dos turistas de hoje. Esta tendência estará na origem da promoção da inovação e do aumento de produtividade da economia global. Nesta perspetiva, nunca fez tanto sentido criar novos conceitos em hotelaria e turismo, razão pela qual começam a surgir muitas unidades hoteleiras com filosofias inovadoras, centradas na qualidade do acolhimento, na diferença, no pormenor e na geração de valor para o consumidor. É neste contexto que surge o Torel Avantgarde, o terceiro hotel do grupo Torel em Portugal e o primeiro no Porto. Um hotel inaugurado no Porto em 2017, situado na Rua da Restauração, com um conceito vanguardista e único na cidade, onde a arte e a decoração têm a mesma importância como a qualidade do colchão, fazendo deste quase um hotel-museu, num desafio constante aos sentidos.

O hotel já foi considerado um dos melhores novos hotéis da Europa pelo jornal britânico The Guardian e ambiciona no futuro fazer parte do ciclo de visitas obrigatórias da cidade.

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O Torel Avantgarde ocupa um edifício dos anos 40 onde todos os quartos têm nomes de artistas. Todas as peças que decoram este hotel boutique - mobiliário, quadros, almofadas e tapetes são de criação nacional, numa homenagem à portugalidade. O objetivo é ser uma montra do que melhor se faz no país e oferecer ao hóspede aquilo que é local.


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À CONVERSA COM

FRANCISCO LORITE Diretor Torel Avantguarde

O Torel Avantgarde começou a operar em setembro. Fale-nos um pouco do conceito inerente a este novo projeto. O Torel Avantgarde é um novo hotel boutique de cinco estrelas no Porto. O conceito de Avantgarde tem como base o edifício, cuja origem remonta ao período do Estado-Novo, ou seja, anos 40. Tal como os artistas de vanguarda, propusemo-nos a criar algo completamente novo, com o objetivo de estabelecer um lugar onde a arte não é apenas um complemento, mas sim o foco das atenções em todos os sentidos. É um espaço para viver arte, tocar arte, e sentir o coração e a paixão do artista.

Como boutique hotel, qual é o valor acrescentado que distingue o Torel Avantgarde dos outros hotéis 5 estrelas da região? O nosso conceito, o que nós chamamos a nossa “Portugalidade” e sem lugar a dúvida o nosso acolhimento.

Portugalidade: O Torel Avantgarde, o primeiro Hotel 5* decorado exclusivamente por Artistas/Designers e produtos Portugueses é por isso uma homenagem à portugalidade.

Portugal está em destaque tanto na decoração como na gastronomia e em tudo o mais que pode ser vivenciado neste espaço.

Estamos perante o desenvolvimento de um novo conceito em hotelaria. Qual a importância deste tipo de projetos para o turismo da cidade, da região e do país? O Porto é sem lugar a dúvida uma cidade em pleno crescimento e onde diariamente nascem novas propostas de carater arrojado e inovador. O Avantgarde não quis deixar passar este momento para ser mais uma referência nesta cidade que está sempre em constante movimento. Depois do estudo prévio de mercado, notámos que a cidade estava a precisar de projetos para um segmento médio-alto pois a cidade e o próprio país merece.

Qual o perfil do turista que procura o Torel Avantgarde? Estamos a falar de uma faixa acima dos 40-45 anos com um alto poder de aquisição.

Que balanço faz dos primeiros meses de operações e quais as perspetiva futuras? Sem dúvida o balanço é muito positivo. Depois dos primeiros meses de teste pretendemos que este ano seja de consolidação. •

De forma a valorizarmos e divulgarmos o talento nacional, recorremos exclusivamente a designers, artistas e artesãos portugueses e, no nosso hotel,

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DAVID HARLAND Diretor Executivo Eden Project International

The Eden Project

PARUM VELIBERNAM, ULPARIB EATIORE HENDES DOLOREM

ma doluptatus, que veria volore voluptas es quo dit, suntem quam anda quamus.

Utes dolo es am as et et ut voluptur aut mo explit estrum apiendam, nis modi sintiur? Odis non pa nem fugit voluptation pario ma doluptatus, que veria volore voluptas es quo dit, suntem quam anda quamus. Omnis nis voluptae nonsequi coraepe num, illabor essinvereni blabore ndebit volorehendis ut a volum corero volorup tatus, is esci dolesci etusdan dnumquun tempedis aut ut alia nam atus es andae volest, volorion porerat vendaest diciis eum quis maiorrovid maiorru ptiate quat harchit, eseque dolorate.

Apernunite que etrus senimanum in virit? quem Romnes hillegi liciervis pati, quem, quit L. Seris ideffrehebut atia cerudacchuis perniae conihinam eo, tam ante audefacciis, num ut vivir hala nesta ia omaions ulibus hortus num nos Maris sede iam P. Liae, nonsi etiam uterfic avesse essente nontime dicit, tum

©Hufton+Crow

Uptium quate et ut laborio. Et quiae minus et perisqui dent et aspid utet endam rendam volupta doluptaquis pe veles et am es essitiam venis nos maximod itiost, entem acessed quodissed quibus eosam dolorene prehent ulparcit modi verit odia volorpos rerro volessum quam fugiae. Utes dolo es am as et et ut voluptur aut mo explit estrum apiendam, nis modi sintiur? Odis non pa nem fugit voluptation pario

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EBIS ETUR RESTIAE MAXIMIL ET EUMQUI DI CUPTAESTIS VOLENE SI RESSEQUICES.


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O PROJETO EDEN TEM COMO MISSÃO EXPLORAR A NOSSA DEPENDÊNCIA DO MEIO NATURAL, UTILIZANDO O CONHECIMENTO PARA ESTIMULAR PESSOAS A TRANSFORMAREM OS LOCAIS ONDE VIVEM E A QUESTIONAR SERIAMENTE SOBRE O NOSSO FUTURO E QUAL DEVERÁ SER A SUA IMAGEM.

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A nossa “casa” em Cornwall, no Reino Unido (a mais de 400km da capital, Londres) é um típico jardim contemporâneo do século XXI, combinando um jardim botânico, uma coleção de plantas bastante rica, um parque e um destino turístico. É um teatro vivo de plantas e pessoas. O projeto Eden é propriedade da EDEN Trust, uma associação de caridade britânica que delega as operações diárias do projeto EDEN em Cornwall à sua empresa subsidiada - Eden Project Limited (EPL) - e as matérias internacionais e de consultoria à empresa Eden Project International Limited (EPIL).

A VISÃO DA EDEN TRUST É: • Ser uma associação de cariz educacional e social, que ambiciona interligar as pessoas entre si e com o ambiente onde vivem; • Envolver o máximo de pessoas no maravilhoso mundo onde vivem, a pensar sobre a sua dependência e sobre as ameaças que enfrenta; • Estimular e envolver os visitantes através de uma combinação de arquitetura moderna, conteúdos científicos vanguardistas, uma fantástica cultura hortícola, um conjunto de arte que estimula o pensamento e eventos deslumbrantes. No Reino Unido, a primeira manifestação física do Eden - Projeto Eden - foi uma extraordinária conquista estabelecida como um dos grandes projetos do Milénio,

marcando o ano de 2000, e sendo atualmente um destino turístico internacional que conjuga plantações e obras arquitetónicas em cenários idílicos. Qualquer visitante fica deslumbrado quando vê o Eden pela primeira vez permanece escondido do olhar até ao último momento - emergindo aí a espetacular arquitetura dos biomas e dos edifícios associados, onde existia o antigo poço de extração de argila de Bodelva (aldeia no sul de Cornwall). Os biomas foram projetados pelos arquitetos de classe mundial Nicholas Grimshaw & Partners, inspirando-se no Grande Conservatório de Paxton em Chatsworth, na Palm House em Kew, nas cúpulas geodésicas de Buckminster Fuller e em Frei Otto, que desenhou o Pavilhão alemão na Expo 67. A sua construção foi complexa mas esteticamente atrativa, dando a sensação de um conjunto de bolhas de sabão formando-se entre si. Este complexo incorpora muita tecnologia inovadora, bem como o uso de material reciclado, permanecendo, até hoje, como uma das maiores estufas do mundo. Os edifícios de apoio incluem o Core Building, de 2005, que possui uma escultura de uma semente gigante de Peter Randall-Page, o Link Building que possui um telhado em relva e o Edifício de Receção aos visitantes: obras descritas como “deliberadamente discretas, bem pensadas e elegantes” (Pevsner, The Buildings of England, Cornwall, Yale University Press, 2014). Importa referir que o Eden é um projeto social que existe para promover a educação pública e a investigação sobre a fauna, a flora e outros aspetos do mundo natural.

©Hufton+Crow

O Eden procura ligar as pessoas entre si, e com o meio onde vivem, ajudando-as a explorar a sua relação com a natureza, de forma excitante e inspiradora.

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O projeto partilha histórias sobre as nossas ligações e dependências das plantas e uns dos outros, enquanto promove uma mudança positiva que gostaria que fosse vista como um símbolo de esperança. O Eden é, e sempre será, um “projeto” de resposta às mudanças que ocorrem no mundo, abordando novos desafios e utilizando novos conceitos e ideias.

Com quase 20 milhões de visitantes até à data, o Eden é uma atração mundial para todas as faixas etárias com os mais variados interesses, sustentado por projetos de transformação e programas de aprendizagem. Foi também um ato de provocação para provar o que os humanos são capazes de fazer, em termos de criatividade, se incentivados de forma positiva.

Sabe-se que o século XXI trouxe-nos muitos desafios: a segurança alimentar, o acesso à água, os fluxos migratórios populacionais, o aumento da população mundial, a extinção de animais e plantas, o aumento do custo da energia e as mudanças económicas constantes - tudo resultado de uma evidente mudança climática.

Os novos desafios do mundo requerem o melhor de todos nós: criatividade, engenho, compreensão, empreendedorismo, humanidade e, sobretudo, a nossa capacidade de trabalhar em conjunto na construção de sociedades mais saudáveis e resilientes. Tudo é possível: os seres humanos são empreendedores e inovadores quando lhes possibilitam implementar a sua própria ideia.

MAS O QUE PODEMOS FAZER? SENTAR E CHORAR, OU FAZER ALGO PARA COMBATER ESTA MUDANÇA? A regeneração do Eden situado num local onde antes existia um poço de extração de argila é um símbolo de transformação e demonstração do que todos juntos, colaborando, podemos fazer. O Eden trabalha e também partilha exemplos de projetos práticos tanto perto de Cornwall como em todo o mundo, que explorem novas formas de viver no século XXI. As receitas das entradas dos visitantes, bem como o dinheiro que gastam no destino, são direcionados para a logística do local, bem como para projetos de educação social, também desenvolvidos a nível internacional. O Eden é uma empresa social que procura dar o máximo de benefícios possíveis ao maior número de pessoas, tentando demonstrar que, através da melhoria do meio ambiente, dos meios de subsistência e dos edifícios, conseguimos construir sociedades mais fortes capazes de trabalhar ladoa-lado. O projeto espera demonstrar que a sustentabilidade se encontra na correta gestão dos negócios, tratando-se de um valor de futuro crucial para a cidadania. O Eden é o local onde as pessoas vêm pela boa comida, música, arte, exibições, eventos anuais, mas também pela simples beleza dos seus jardins. Hoje, mais de um milhão de pessoas por ano viajam das mais remotas partes do Reino Unido para visitar o Eden.

Assim, promovemos o nosso maior evento longe da nossa casa em “Cornwall”, o The Big Lunch, que decorre, todos os anos em junho e que conta com mais de 9 milhões de participantes. O The Big Lunch é uma ideia simplificada do Eden. O objetivo é conseguir juntar o maior número de pessoas por todo o Reino Unido para almoçar com os seus vizinhos, num ato simples de comunidade, amizade e diversão. A ideia foi tão bem recebida que existem vários planos para expandir a ideia para os diversos países da Commonwealth. Tendo isto em consideração, no último ano anunciamos a criação de uma nova empresa para conduzir e expandir o projeto Eden pelo mundo. A Eden Project International Ltd (EPIL) é uma nova entidade, integrante da organização-mãe Eden Trust, com o objetivo de se associar a outras organizações e entregar a missão do projeto Eden, alcançando benefícios sociais e ecológicos durante o atual momento de declínio do meio ambiente e de ruturas sociais. Seguindo esta visão, o Eden Project International está, atualmente, a desenvolver quatro projetos na China e outros na Austrália e na Nova Zelândia. Mas mais projetos internacionais - no Médio Oriente e na América do Norte deverão ser anunciados nos próximos meses. Trata-se de um esforço interminável e que se apoiará no turismo como mecanismo para atrair mais e mais pessoas para a vertente social do Eden. Como diz no letreiro da nossa entrada em Cornwall “somos pessoas normais a tentar mudar o mundo”. Venha visitarnos, aqui o esperamos! •

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Novas formas de entender e acolher a sustentabilidade DANIEL FREY CEO Green Growth

Ao utilizar o termo “sustentabilidade” muitos, inclusive colegas e profissionais, ainda não entendem o verdadeiro significado da palavra. Assim parece-me importante revisitar a sua definição e a agenda proposta para o setor do turismo. E, ademais, o que realmente significa turismo sustentável e quais os seus objetivos?

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A campanha da OMT/UNWTO TRAVEL.ENJOY.RESPECT define cinco aspetos chave que refletem as áreas também promovidas durante 2017 - Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento:

1. CRESCIMENTO ECONÓMICO SUSTENTÁVEL E INCLUSIVO 2. INCLUSÃO SOCIAL, EMPREGO E REDUÇÃO DE POBREZA 3. EFICIÊNCIA DOS RECURSOS, PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE E ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS 4. VALORES CULTURAIS, DIVERSIDADE E PATRIMÓNIO 5. ENTENDIMENTO MÚTUO, PAZ E SEGURANÇA

Sugiro que os profissionais se familiarizem com a “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” e os “17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável” (ODS). Tomar contacto com os conceitos e definir ações concretas e metas mensuráveis (resultados e KPIs) apoiará o compromisso com a agenda proposta.

2017 FOI ANUNCIADO COMO O ANO DO TURISMO SUSTENTÁVEL PERGUNTO: O QUE É QUE REALMENTE CONCRETIZAMOS?

E desafio-vos a fazer a mesma pergunta às vossas empresas/departamentos. É certo que em 2017 conseguiu-se uma maior consciencialização e houve momentos, projetos e iniciativas positivos. Mas o que importa é o que será feito em 2018 e no futuro: investir tempo e esforço na definição de uma estratégia que incentive o empenho de todos na realização de objetivos e num envolvimento assumido com os diversos aspetos da sustentabilidade, deverá ser prioritário não só para governos, mas também para empresas - tanto públicas como privadas. Entre corporações e empresas ainda é comum recorrer à certificação como solução, acreditando que controlos, relatórios anuais e algumas ações de RSE darão resposta suficiente. Mas esta abordagem é superficial e não responde à necessidade real de enfrentar as alterações climáticas e demais aspetos da sustentabilidade para fazer da nossa indústria um colaborador ativo e consciente. Existem muitas iniciativas interessantes no mundo mas o essencial assenta na definição do PORQUÊ da nossa ação e na criação dum conceito e estratégia que nascem de dentro para fora, transformando-os em ações sustentáveis, concretas e mensuráveis, que estimulem o empenho de todas as partes interessadas de acordo com as metas para a indústria.

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São muitas as razões para que o desenvolvimento sustentável tenha vindo a ganhar protagonismo nos últimos anos. Hoje, faz parte e permanecerá na agenda de todos, não sendo, como esperado por alguns, uma moda passageira. O que arriscamos se não alinhamos e assumimos o compromisso? O turismo é uma das maiores fontes de emissões de CO2 (em 4º lugar na Europa). Mas a questão não se restringe às emissões; há muito mais que contribui para o turismo e o seu impacto na sociedade, cultura, biodiversidade e habitat, etc. Precisamos de assumir as nossas responsabilidades e colaborar com todas as partes interessadas para minimizar os impactos negativos. Hoje fala-se muito em aumentar o número de visitantes; durante muitos anos procurou-se incrementar o volume mas o novo paradigma e foco para os destinos, regiões e cidades assenta em “valor acima de volume”. Precisamos ponderar de novo as nossas estratégias para, desde o início, integrar posições sustentáveis e considerações a longo prazo. O que significa isto em termos concretos? • Com números de visitantes em constante crescimento e as viagens a tornarem-se mais acessíveis, a sobrelotação é um termo cada vez mais comum, seja em relação a cidades, regiões ou países. Os viajantes sentem os seus efeitos na pele. É evidente a necessidade de medidas preventivas, uma vez que não é possível regredir. • É fundamental definir uma estratégia para o turismo, analisar a motivação e comportamento dos turistas bem como planear o crescimento e a qualidade do setor, estabelecendo o tipo de visitante que um determinado sítio pretende atrair, concebendo e adaptando as infraestruturas ao volume de afluência. • Portugal e os seus destinos necessitam atrair mais marcas internacionais; a falta destas atua negativamente na composição da sua oferta. • A procura de experiências de excelência aumentará – a pressão no mercado de trabalho (falta de profissionais devidamente habilitados) intensificar-se-á. Atualmente os salários no setor não são competitivos, contribuindo para o êxodo

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

de jovens talento o que, por sua vez, impacta negativamente na qualidade da oferta. Será necessário tomar medidas para enfrentar esta área de competitividade. • Mais uma vez foco na nova geração - as nossas escolas profissionais e os institutos superiores precisam de se comprometer com a sustentabilidade primeiramente como um valor integrado no fazer negócio, e como parte integrante de toda a educação, não apenas como uma cadeira à parte. • O planeamento do turismo deve envolver todas a partes interessadas e focar um retorno positivo para todos. Todos estes aspetos estão relacionados com atenuar os efeitos de ameaças reais - é provável que cada vez mais lugares sejam ameaçados em termos ambientais, sociais e/ou estéticos, pela sua própria popularidade. Consequentemente tornam-se mais vulgares as restrições ao acesso a recursos naturais frágeis devido a preocupações com possíveis prejuízos ambientais (limitação de números de visitantes, etc) bem como um crescente ressentimento dos habitantes perante a “invasão” turística. Em conclusão, a sustentabilidade assume um papel cada vez mais importante e estratégico no turismo; o seu sucesso a longo prazo depende do empenho verdadeiro dos profissionais, empresas, autoridades, cidades, destinos, regiões e países e o seu esforço no sentido de viver os valores e envolver todas as partes interessadas. A sustentabilidade é tanto uma obrigação como uma responsabilidade cívica que devemos tentar traduzir em ações concretas para o nosso quotidiano. É também uma viagem ao longo da qual há uma aprendizagem contínua. Quando iniciei esta viagem fui obrigado a questionar certas formas de abordar a vida, tanto ao nível profissional como pessoal. No mundo de negócios chamamos a isto gestão de mudança, que, ao meu ver, é a chave para a implementação da sustentabilidade nas empresas. Na minha vida privada, tenho a sorte de viver numa pequena exploração biológica onde esforçamo-nos, tanto quanto possível, por viver a sustentabilidade no dia-a-dia, cultivando a terra, criando os nossos animais,


TENDÊNCIAS

implementando uma abordagem que visa utilizar todas as partes de tudo que é produzido num ciclo perpétuo de autossuficiência. Conseguir um grau de autossuficiência não é só um sonho; requer trabalho árduo. Mas tem muitas compensações.

UM ASPETO INTERESSANTE DESTE PROCESSO É TOMAR CONSCIÊNCIA QUE, NO NOSSO PASSADO RECENTE, ESTA FORMA DE VIVER ERA “NORMAL”; HOJE TIVEMOS DE REDESCOBRIR O QUE ERA “NORMAL” E DAR-LHE UM NOME: SUSTENTABILIDADE. Antigamente era, em parte, simplesmente uma forma de subsistência - ao meu ver, a facilidade do nosso mundo de consumismo e a maior disponibilidade de rendimento têm contribuído em certa medida para um afastamento dos ciclos naturais da vida e muitos têm caído na armadilha do consumo. No fundo, a sustentabilidade não é nada de novo: recordo a forma como os meus avós geriam os seus recursos - era a forma “normal” de viver pois não havia supermercados a vender tomate fora da época, embalado em esferovite e plástico! Para mim, a sustentabilidade tem muito a ver com integridade; não posso pregar o que não assumo na minha vida particular. É uma atitude e uma convicção que, hoje, virou um estilo de vida que implica determinados valores. Contudo, é importante manter a humildade de permitir aos outros terem outra visão e ideias, até porque as facetas da sustentabilidade são muitas - isto serve também de contraponto para questionar a minha própria posição. Tenho vindo a perceber que o investimento de tempo e esforço mais importante centra-se no ajudar as novas gerações a encontrar formas de entender e acolher a sustentabilidade - esta é certamente uma área onde focar os nossos esforços:

A CRIAÇÃO DE UMA NOVA GERAÇÃO DE PROFISSIONAIS. • TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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40 CAPÍTULO

EXPLABO LITATIA NEMQUAM QUIAS AUT MOLOR PARUM VELIBERNAM, ULPARIB EATIORE HENDES DOLOREM AZORES

G

CHIN aut mo WAT Utes dolo es am W asHA et LE et ut voluptur explit estrum apiendam, nis modi sintiur? Odis non pa nem fugit voluptation pario ma doluptatus, que veria volore voluptas es quo dit, suntem quam anda quamus. Omnis nis voluptae nonsequi coraepe num, illabor essinvereni blabore ndebit volorehendis ut a volum corero volorup tatus, is esci dolesci etusdan dnumquun tempedis aut ut alia nam atus es andae volest, volorion porerat vendaest diciis eum quis maiorrovid maiorru ptiate quat harchit, eseque dolorate.

Uptium quate et ut laborio. Et quiae minus et perisqui dent et aspid utet endam rendam volupta doluptaquis pe veles et am es essitiam venis nos maximod itiost, entem acessed quodissed quibus eosam dolorene prehent ulparcit modi verit odia volorpos rerro volessum quam fugiae. Utes dolo es am as et et ut voluptur aut mo explit estrum apiendam, nis modi sintiur? Odis non pa nem fugit voluptation pario

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

ma doluptatus, que veria volore voluptas es quo dit, suntem quam anda quamus. Apernunite que etrus senimanum in virit? quem Romnes hillegi liciervis pati, quem, quit L. Seris ideffrehebut atia cerudacchuis perniae conihinam eo, tam ante audefacciis, num ut vivir hala nesta ia omaions ulibus hortus num nos Maris sede iam P. Liae, nonsi etiam uterfic avesse essente nontime dicit, tum

EBIS ETUR RESTIAE MAXIMIL ET EUMQUI DI CUPTAESTIS VOLENE SI RESSEQUICES.


GO! GO!


42 TENDÊNCIAS

Destinos com prazo de validade O AQUECIMENTO GLOBAL E A CONSEQUENTE SUBIDA DO NÍVEL DO MAR, CONJUGADOS COM OUTROS FATORES TÊM VINDO A AMEAÇAR A SUSTENTABILIDADE DE DESTINOS TURÍSTICOS MUNDIALMENTE CONHECIDOS, LEVANTANDO MUITAS INTERROGAÇÕES QUANTO AO SEU FUTURO. Nesta perspetiva, lançamos uma lista de oito destinos que terá de visitar antes que desapareçam.

MALDIVAS As imagens paradisíacas que as Maldivas nos oferecem vivem no imaginário de todos, no entanto, podemos estar próximo de perder a possibilidade de visitar este destino. Com cerca de 80% do país apenas a um metro acima do nível do mar, os especialistas calculam que nos próximos anos o arquipélago possa ficar submerso. Estas preocupações levaram o governo das Maldivas a ponderar comprar territórios noutros países para acolher a população.

BANGUECOQUE Banguecoque é uma experiência única de mistura de culturas, sons e cheiros. Contudo, o crescimento urbano acelerado, as chuvas severas e a subida do nível do mar, aliados a uma localização geográfica sensível, posicionam a capital tailandesa como um destino em perigo. Os cientistas afirmam que Banguecoque submerge dois a cinco centímetros todos os anos, valores que, a continuar, poderão afundar a cidade até 2030.

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Maldivas

Banguecoque

Veneza

Mar Morto

TENDÊNCIAS

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VENEZA É um dos principais destinos turísticos mundiais, considerada uma das cidades que todos devem visitar, pelo menos, uma vez na vida. Debate-se com um aumento do nível da água de um milímetro todos os anos, levantando preocupações quanto ao futuro da cidade, reforçadas com as cheias dos últimos anos. Embora a um ritmo mais lento que as Maldivas e Banguecoque, Veneza poderá, nas próximas décadas começar a afundar no mar que, até hoje, é uma das suas imagens de marca para os inesquecíveis passeios de gôndola.

O Mar Morto é uma das principais atrações turísticas da região, reconhecido pela sua elevada concentração de sal, superior à existente nos oceanos. Surgem agora preocupações sobre o futuro do Mar Morto, uma vez que nos últimos cinquenta anos perdeu um terço do seu volume, fruto das drenagens excessivas efetuadas no Rio Jordão, seu principal afluente. Mantendo-se este ritmo, calcula-se que o Mar Morto secará nos próximos 50 anos.

Ilha dos Galápagos

MAR MORTO

A maior barreira de corais do mundo acolhe uma imensa biodiversidade de vida aquática, que diariamente atrai milhares de turistas a atividades de mergulho, oferecendo imagens e experiências únicas de contacto com a vida animal. O aumento da temperatura média dos oceanos aliado à poluição decorrente da atividade do homem, está a ameaçar a sobrevivência dos habitats aqui existentes, verificando-se já a extinção de algumas espécies de fauna e flora, nos últimos anos. Os cientistas avançam que os próximos 50 anos serão determinantes para a conservação ou extinção das espécies da Grande Barreira de Corais Australiana.

ILHA DOS GALÁPAGOS A ilha que foi popularizada pelo estudo de Charles Darwin, e que é considerada pela UNESCO como um museu vivo e uma vitrine da evolução das espécies, atrai todos os anos TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

Grande Barreira de Corais Australiana

GRANDE BARREIRA DE CORAIS AUSTRALIANA


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milhares de turistas. A combinação de um crescimento turístico descontrolado e a pesca industrial exagerada tem afetado as espécies existentes, alarmando a sociedade. A autenticidade do destino poderá estar em perigo, sendo que, mantendo-se o ritmo atual, é expectável que a Ilha dos Galápagos deixe de existir como é conhecida hoje.

Antártida e o Ártico

ANTÁRTIDA E O ÁRTICO Os Polos Norte e Sul são, recorrentemente, apresentados como cenários únicos, onde a vida animal predomina, e onde a intervenção humana ainda não se faz notar. No entanto, com o aquecimento global verifica-se o constante descongelamento dos glaciares, fazendo aumentar o nível de água dos oceanos. Calcula-se que, nas próximas décadas, os Polos possam descongelar totalmente, colocando em causa a sobrevivência de todas as espécies aí existentes, bem como a população mundial, resultante do aumento do nível do mar.

ALPES

Alpes

Os mantos de neve que todos os dias cobrem o maciço Alpino são uma das principais imagens de marca da região, que atrai milhões de turistas ávidos pela contemplação das paisagens e pelos desportos de neve. O aquecimento global tem afetado esta região, que assiste a uma diminuição de 3% do gelo glaciar, todos os anos. Os especialistas defendem que no próximo século, os Alpes poderão ficar descobertos de neve, afetando o destino e a sua imagem de marca.

ESTAMOS POR ISSO PERANTE UM ENORME DESAFIO, QUE DIZ RESPEITO A TODOS NÓS, ENQUANTO CIDADÃOS DO PLANETA. CABE A TODOS, ENQUANTO TURISTAS, PRESERVAR OS LOCAIS E AS SUAS ESPÉCIES AUTÓTONES, ADOTANDO MEDIDAS RESPONSÁVEIS, DE FORMA A GARANTIR QUE AS IMAGENS IDÍLICAS DO NOSSO PLANETA POSSAM PROSPERAR PARA AS PRÓXIMAS GERAÇÕES. • TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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ESLOVÉNIA

Ilhas FaroÉ

Destino imperdível de castelos históricos, paisagens alpinas pitorescas e gastronomia e vinhos de grande qualidade.

Lar de maravilhas naturais exploradas através de barcos de pesca antigos que contrastam com lojas modernas e restaurantes com estrelas Michelin.

LADAHK

LAPÓNIA

É dos poucos lugares na Terra que permanece inexplorado com a serenidade calma da montanha, vistas incríveis e uma rica herança budista.

Atmosfera mágica e cenários de tirar o fôlego, perfeitos para férias de Inverno com direito a auroras boreais e trenós puxados por huskies.

LOFOTEN

MADAGÁSCAR

Excelente pesca, atrações naturais deslumbrantes como as luzes do norte e o sol da meia-noite e pequenas aldeias inexploradas.

É um sonho para os aventureiros. A ilha está repleta de vida selvagem endémica e além disso tem algumas das melhores praias do Oceano Índico.

MERGUI

PUGLIA

Isolado e por explorar, no sul de Myanmar, é composto por 800 ilhas desertas de praias de areia branca, densas selvas e águas cristalinas.

Praias paradisíacas e paisagens verdejantes de olivais e vinhas. Esta região do sul da Itália produz ainda alguns dos melhores vinhos do país.

SALTA

Wadi Rum

Um paraíso para trekking, rafting, 4x4 e outras atividades de aventura. Visite alguns dos exemplos mais emblemáticos da arquitetura colonial do país.

Destino de aventuras para acampar no deserto sob as estrelas, montar cavalos árabes, fazer caminhada e escalada entre as formações rochosas.

Europa

Ásia

Europa

Ásia

América

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Europa

Europa

África

Europa

Ásia


BEST IN TRAVEL

OS DESTINOS MAIS SUBESTIMADOS DO MUNDO Fonte: Harper’s Bazaar

Numa altura em que se fala muito de excesso de turistas em alguns destinos vale a pena conhecer alguns locais menos frequentados e, muitas vezes, subestimados pelos turistas.

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48 CADERNO ESPECIAL

CADERNO ESPECIAL

OVER TOURISM? TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


CADERNO ESPECIAL

25%

dos turistas internacionais sentiu que o destino que visitou estava “over-crowded” em 2017

9%

(o equivalente a 100 milhões de turistas) afirmou que esta saturação afetou a sua experiência no destino ESTUDO DO WORLD TRAVEL MONITOR QUE ENVOLVEU 29 MIL TURISTAS DE 24 PAÍSES EUROPEUS, ASIÁTICOS E AMERICANOS (2017).

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50 CADERNO ESPECIAL

O QUE É? Overtourism - ou saturação turística - refere-se aos lugares onde os residentes ou visitantes pensam que há uma concentração excessiva de pessoas e que a qualidade de vida do destino ou da experiência se deteriorou de forma inaceitável.

PORQUÊ? 1. Hoje em dia é mais barato viajar em função do crescimento de empresas low-cost tanto na aviação como no alojamento. 2. Surgimento de novos mercados emissores - casos como Índia e China - com maior poder de compra, menos restrições políticas e volumes populacionais muito elevados, que levam a uma aceleração do crescimento do turismo internacional. 3. Novos hábitos de consumo. Com uma valorização crescente das viagens e experiências em detrimento da compra de bens.

AMBIENTE QUENTE NA EUROPA Se é verdade que 2017 foi um ano em que muitos destinos mundiais registaram recordes de visitas e hóspedes, também é inegável que nunca se ouviu falar tanto em conceitos como overtourism, turistificação, saturação turística ou até turismofobia, com registo de vários protestos de residentes e medidas tomadas pelas autoridades locais em alguns destinos. Veneza debate-se há muito contra a saturação. Em Barcelona, disparam atos de vandalismo contra o turismo de massas. Nas paredes da capital catalã abundam inscrições com as palavras de

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ordem “tourist go home”. A turismofobia tornou-se a discussão do momento em Espanha. Os protestos não se limitam ao território espanhol e outros países europeus, como Itália e Croácia viram os seus centros históricos mais relevantes repletos de mensagens que ilustram o descontentamento dos residentes face ao aumento de fluxos turísticos. Em Roma, foi imposta a proibição de comer ou remar nas fontes da cidade e beber na rua, à noite. Medidas semelhantes foram implementadas em Milão, mas de contornos mais alargados, uma vez que no bairro de Darsena, durante a época de verão, foram proibidos desde a passagem camiões de comida até à utilização de selfie-sticks.


CADERNO ESPECIAL

DESAFIOS • Privatização do espaço público • Congestionamento dos espaços públicos • Aumento da especulação imobiliária • Perda de poder de compra por parte dos residentes nos destinos • Perda de autenticidade dos destinos • Perda de população nos centros urbanos

EM PORTUGAL, LISBOA E PORTO COMEÇAM A EVIDENCIAR SINAIS DE DESCONFORTO. Com o ambiente quente que se vive em torno das vantagens e desvantagens do turismo na vida das comunidades locais, importa perceber como aproveitar o crescimento do setor, sem cair na massificação dos destinos quando o número de visitantes dos grandes centros já ultrapassa largamente o de residentes. Nesta perspetiva, é necessário repensar as estratégias dos destinos e, mais do que impedir que os turistas cheguem, importa incentivá-los a diversificar as suas atividades, reduzir a sazonalidade e, principalmente, atender às necessidades das comunidades locais.

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52 CADERNO ESPECIAL

SOLUÇÕES ESTRATÉGIAS DE PREÇOS Variar o valor das taxas turísticas e preços das atrações na época alta.

DIRECIONAR AS CAMPANHAS DE MARKETING Fazer menos e melhor, investir mais no planeamento e menos na promoção e atrair mercados que realmente têm interesse para o destino.

CONTROLAR ACESSOS Contadores online que informam dos lugares que estão saturados e impor limite de pessoas que podem entrar nos centros históricos.

DESCENTRALIZAR A PROCURA NO DESTINO Só é possível em parte visto que os atrativos icónicos do destino vão ser sempre procurados. Podem é ser complementados de formas diferentes, promovendo a atividade turística noutras zonas do destino.

INDICADORES DE ATIVIDADE ADEQUADOS Utilizar unicamente como indicadores da “saúde” do setor as chegadas de turistas e dormidas, e medir recordes de visitas, é errado. É preciso quantificar os efeitos reais no destino.

GARANTIR QUE O CONTROLO DO TURISMO É LOCAL E NÃO INTERNACIONAL Com a expansão do turismo, grande parte dos negócios são controlados por grupos internacionais o que dificulta a gestão do desenvolvimento dos destinos.

MUDAR O PARADIGMA: MAIS TURISTAS NÃO SÃO MELHOR TURISMO Incentivar estadas mais longas e desencorajar excursionistas e turistas “selfie-stick”.

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CADERNO ESPECIAL

A referência ao termo “overtourism” é cada vez mais frequente no debate sobre o futuro (e presente) do setor do turismo. O grau de crescimento dos principais destinos mundiais, verificados, sobretudo, na presente década, resultante de um conjunto de variáveis socioeconómicas favoráveis, permitiu que o turismo se posicionasse como um dos principais motores de crescimento das cidades.

UM DESAFIO. DIFERENTES ABORDAGENS

A sua crescente preponderância para a riqueza nacional cativou os principais decisores e políticos, apostando, cada vez mais, no turismo como meio para prosperar economicamente, conscientes de que os benefícios seriam muito positivos.

Barcelona restringiu a construção de mais alojamentos turísticos e baniu a utilização de segways e scooters elétricas nas principais áreas turísticas.

Porém, o crescimento turístico a que se assiste - muitas vezes descontrolado, não planeado - tem gerado uma fase de desconfiança quanto aos benefícios para os destinos, principalmente para as comunidades locais. São, cada vez mais, frequentes as manifestações antiturismo e as contestações aos novos investimentos em empreendimentos turísticos. Em Espanha, o número de manifestações tem crescido exponencialmente, tendo sido criado um grupo antiturismo, denominado Arran, que organiza ações de protesto, reivindicando a necessidade de “devolver” as cidades às comunidades locais, ao invés da aposta descontrolada na procura por turistas. Nos últimos meses, os protestos têm alcançado novos níveis, verificando-se ataques de vandalismo a autocarros turísticos, e o desenho de mensagens de protesto nos principais locais públicos. Dado o atual ambiente, alguns especialistas temem que os protestos possam evoluir para confrontos físicos. As críticas alegam a diminuição da qualidade de vida para as comunidades locais, resultante dos ambientes industrializados, tematizados, inflacionados e orientados para o consumo turístico. Não apenas ao nível do custo de vida quotidiano, com o aumento dos preços dos produtos essenciais e restaurantes, os espaços públicos sobrelotados, mas também com os comportamentos dos turistas, não condizentes com as normas culturais e sociais, são elementos destacados pelos locais, alegando a deterioração dos destinos e perda de autenticidade. Numa fase de intenso debate, protesto e pensamento sobre o futuro do turismo, importa analisar como alcançamos este ponto, que medidas estão a ser implementadas, e de que forma nos podemos fortalecer em prol de um turismo mais sustentável e de respeito pelas comunidades locais.

Amesterdão declarou que não destinará mais verbas para a promoção da cidade, orientando esforços para combater a concentração turística, direcionando os fluxos para mais áreas da cidade - ou mesmo para cidades vizinhas - através do IAmesterdam Card.

Em Cinque Terre (Itália) pondera-se limitar o número de turistas anuais em 1,5 milhões - atualmente 2,5 milhões os turistas que visitam este destino a cada ano. Praga criou uma equipa “anti-conflito” que percorre as ruas da cidade, alertando os turistas para respeitar as normas da comunidade local. Dubrovnik vai cortar o número de visitantes que podem entrar no centro histórico. Em 2016 a cidade recebeu avisos por parte da UNESCO que a sua posição como Património Mundial poderia estar em risco devido aos aumentos de turistas e excursionistas, incluindo de cruzeiros, que todos os dias invadem a cidade. A praia mais famosa da Tailândia - Maya Bay - que recebe até 5 mil visitantes por dia - vai estar interdita entre os meses de junho e setembro de 2018, de forma a permitir a recuperação dos recifes de coral. Cerca de 80% dos recifes da Tailândia foram destruídos, tendo como principais causas a construção de hotéis à beira-mar, as âncoras de barcos e os resíduos de plástico deitados ao mar. As medidas começam agora a surtir os primeiros efeitos, porém os dados disponíveis são elucidativos do clima de saturação dos destinos turísticos que, antes de o serem, são espaços onde os locais nascem, crescem, trabalham, casam, têm filhos, envelhecem e morrem, como em qualquer outro sítio do mundo.

É ESTA AUTENTICIDADE QUE ATRAI OS TURISTAS EM PRIMEIRO LUGAR.

AO PERDÊ-LA, TODOS PERDEMOS. • TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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54 CADERNO ESPECIAL

JANINE FLUYT Diretora de comunicação Marketing de Amesterdão

TORNAR AMESTERDÃO MAIOR Devido à crescente prosperidade na maioria das partes do mundo, juntamente com a possibilidade de voar de forma económica e as diminuições dos custos de alojamento, em função do aumento das opções de APA, cada vez mais pessoas viajam. Além disso, Amesterdão é uma cidade aliciante para se viver e trabalhar, não só para empresários e colaboradores nacionais, como também internacionais.

POR ISSO ESTÁ CADA VEZ MAIS OCUPADA A CADA DIA QUE PASSA.

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CADERNO ESPECIAL

AMESTERDÃO É, DESDE HÁ MUITO TEMPO, UMA CIDADE ALTAMENTE ATRATIVA. DEVIDO AO SEU ADN: ABERTA, CRIATIVA, INCLUSIVA E ORIENTADA PARA O COMÉRCIO. E também porque temos uma ampla oferta de lazer e cultura. Vejamos apenas as cinco grandes instituições icónicas do Museumplein: Rijksmuseum, Museu Van Gogh, Museu Stedelijk, Concert Hall e Orquestra. Economicamente, beneficiamos disso. As nossas taxas de desemprego são muito baixas e a maioria das pessoas beneficia do conforto. Não está em jogo a comodidade em algumas partes de Amesterdão, mas a qualidade de vida no geral. Na opinião pública, também internacional, consta a ideia de que toda a cidade está a transbordar de visitantes. Mas não é esse o caso. Algumas partes da cidade, principalmente o centro, sofrem de incómodos - ruídos, obstáculos, lixo - causados pela sobrelotação nestas zonas da cidade. Expandir, profissionalizar o turismo e estabelecer parcerias de forma a enfrentar e encontrar soluções para situações desafiantes é o nosso principal negócio. Focamo-nos de igual forma nos três grupos: visitantes, residentes e empresas/organizações/institutos. Uma das soluções para a sobrelotação em algumas zonas de Amesterdão é a descentralização, tornando Amesterdão maior. Concentramo-nos nas nossas campanhas e informações de visitantes online, offline e nas nossas lojas físicas, nas amplas ofertas culturais e de lazer: no centro e nos arredores de Amesterdão. Mas nós fazemos Amesterdão ainda maior, promovendo a zona metropolitana, apresentando também o Castelo de Amesterdão (Muiderslot), as praias (Haarlem/Zandvoort), a moda (Outlets in Lely stad). E começamos uma colaboração com Haia e Roterdão, a fim de estimular os visitantes a ir além de Amesterdão. A atratividade da metrópole Amesterdão é indiscutível, e continua a crescer. Isto pode trazer oportunidades, mas também ameaças. E especialmente agora, o papel do marketing é crucial. Ao usar o poder da região metropolitana de Amesterdão, estamos a proteger-nos contra o possível lado negativo do sucesso. Certificamo-nos de que o caráter

único da nossa cidade e região é preservado e protegido, para todos os que vivem, trabalham e estudam na nossa cidade e também para todos que a visitam. Fazemos isto através da otimização e centralização do marketing estratégico da cidade, focado na melhoria adicional da qualidade de vida, e preservando a prosperidade na cidade e na região. Trabalhamos em conjunto com os nossos 1100 parceiros. O nosso papel na gestão dos desafios em algumas partes da cidade é:

1. Estimulamos a descentralização dos visitantes. Ao identificar outros locais, os bairros tornam-se mais atraentes. Nós fazemos Amesterdão maior. E nós facilitamos os processos com informações online, offline e físicas. Facilitamos as escolhas, apoiando através de soluções digitais, como a Choochem, o nosso Chatbot.

2. Profissionalizamos a hotelaria, apresentando várias possibilidades na nossa cidade, ao gerir a reputação.

3. Colaboramos com os nossos parceiros, trabalhando juntos para construir a reputação de Amesterdão. Definimos soluções para os problemas causados pelos incómodos da sobrelotação de algumas zonas. Lançamos o convénio de Wallen, por exemplo. Criamos regras de comportamento e qualidade para grupos na área da luz vermelha. Estamos a trabalhar numa campanha que identifica os problemas causados por grupos específicos de visitantes, visando uma mudança de comportamento. O governo local e a polícia estão focados em aspetos como: limpo, seguro e respeitoso. Procuram medidas que evitem a monocultura nas ofertas de lojas, e que preservem as possibilidades dos visitantes e habitantes fazerem compras multiculturais. Estão à procura de formas de obter mais adesão a conceitos como o Airbnb. O governo local estabeleceu também um limite de crescimento de alojamento em hotéis. Uma vez que se trata de um desafio complexo, os resultados ainda não são proeminentes, visíveis ou tangíveis. No entanto, a nossa abordagem sobre a divulgação funciona. 25% dos nossos visitantes internacionais visitam também lugares fora de Amesterdão, na metrópole. Por isso, continuaremos a enfatizar a redução da sobrelotação, estimulando a visita a outras zonas de Amesterdão e da região. •

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56 CADERNO ESPECIAL

À CONVERSA COM

Janine Fluyt Diretora de Comunicação Turismo de Amesterdão

Estamos focados na profissionalização do turismo e na conexão com os nossos parceiros. O movimento de turistas para locais menos populares dentro da cidade ou para destinos próximos dentro do país foi viável? Qual foi a abordagem de Amesterdão para a situação? Nós aconselhamos as zonas da cidade sobre como se apresentarem, o perfil a adoptarem e como se promoverem. No fundo, como desenvolverem a área para que valha a pena visitar. Também fazemos campanhas focadas em outras zonas e no resto da região. Por exemplo, a campanha vencedora: “Visitou Amesterdão, veja a Holanda”. Estas campanhas são apoiadas com o nosso city card e um bilhete de viagem na região de Amesterdão. Facilitar o transporte é um dos critérios mais importantes para a propagação dos visitantes.

Uma das caraterísticas mais valorizadas pelos turistas que visitam Amesterdão é a hospitalidade. Como é que se consegue sensibilizar a população para a importância de continuar a bem-receber os turistas? O valor acrescentado proporcionado pelos visitantes à economia é essencial para o bem-estar de Amesterdão. Mas o principal desafio é manter o bemestar, a riqueza e a capacidade de viver em equilíbrio, para que se mantenha um lugar atraente para estar, viver, trabalhar e visitar.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

A tecnologia e o conhecimento são a chave para a estratégia de Amesterdão? Sim, também. Temos bastante experiência em city branding. Temos uma rede de 1100 parceiros altamente comprometidos com a cidade e usamos técnicas inteligentes para desenvolver as possibilidades coloridas de Amesterdão e da região. Mas a chave é também uma rede de mobilidade. A propagação funciona apenas se as pessoas puderem aceder a outros lugares com mais facilidade.

Quantos turistas foram registados em Amesterdão em 2016, e quantos são esperados em 2017? Os dados de 2017 ainda não estão disponíveis. Em 2016, hospedamos 17 milhões de visitantes nacionais e internacionais. Prevemos um aumento de visitantes de mais de 10%. Embora não tenhamos números exatos, podemos afirmar que em 2017 existiram mais pessoas a visitar Amesterdão.

Que medidas devem ser implementadas no futuro, no que respeita ao overtourism? Ao apresentarmos tudo o que Amesterdão tem para oferecer, não só promovemos uma imagem sustentada do destino como uma cidade cultural, como também estimulamos as pessoas a fazerem mais que o usual. Esta é a diferença entre apenas apresentarmos a cidade ou apresentarmos centenas de possibilidades, que apoiam a dispersão. Estamos focados em fazer Amesterdão maior. O melhor exemplo que podemos ter é Paris. Ao visitar Versailles, toda a gente diz que esteve em Paris. Contudo, se consultarmos um mapa, verificamos que para lá chegar é necessário atravessar algumas “fronteiras” regionais. Esta é a chave para tornar a cidade maior. •


58 CADERNO ESPECIAL

À CONVERSA COM

LUÍS araújo Presidente Turismo de Portugal

O turismo nas principais cidades europeias tem crescido de forma significativa. As cidades portuguesas não são exceção. Quais têm sido os grandes desafios e de que forma tem o Turismo de Portugal lidado com esta situação? Uma das principais metas da estratégia turística nacional, e da atuação do Turismo de Portugal, assenta no desenvolvimento turístico convergente com a conservação e a valorização do património natural e cultural do país, com disseminação da procura turística por todo o território. Diria que, atualmente, esse é um dos nossos maiores desafios: promover a desconcentração da procura para evitar a sobrecarga dos destinos mais visitados. O modo como o fazemos abrange várias vertentes: da valorização do património ao apoio ao investimento, passando pela criação de um calendário de eventos de relevância turística, ao longo de todo o ano e nas várias regiões do país. Neste sentido, o Turismo de Portugal desenvolveu programas específicos de apoio à valorização e qualificação do destino, como o Programa Valorizar - que define os termos e condições de concessão de apoios financeiros a projetos de investimento e a iniciativas que tenham em vista a regeneração e reabilitação dos espaços públicos com interesse para o turismo, promovendo condições para a desconcentração da procura, a redução da sazonalidade e a criação de valor.

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CADERNO ESPECIAL

Este programa de apoio ao investimento na valorização do país enquanto destino turístico, pretende dotar os agentes turísticos, públicos e privados, de um novo instrumento financeiro que crie condições para potenciar e melhorar a experiência turística. São abrangidos, por exemplo, projetos que promovam a valorização do património e dos recursos endógenos das regiões, a diversificação da oferta, turismo de natureza, turismo equestre, revitalização de termas e dinamização turística das aldeias. Os projetos e iniciativas suscetíveis de apoio são definidos em linhas de financiamento específicas, estando atualmente disponíveis a Linha de Apoio à Valorização Turística do Interior, a Linha de Apoio a o Turismo Acessível e a Linha de Apoio a Projetos Wi-Fi em Centros Históricos. Para reforçar a atratividade de destinos regionais, a desconcentração da procura e o desenvolvimento das várias regiões do país, foi desenvolvido também o Programa Revive que promove e agiliza os processos de rentabilização e preservação do património público que se encontra devoluto, tornando-o apto para afetação a uma atividade económica com finalidade turística, gerando riqueza e postos de trabalho. Foram identificados 30 imóveis, com aptidões turísticas, nestas condições e preparados dossiês com uma descrição de cada um, em português, inglês e mandarim, dirigidos a potenciais investidores, e também aos mercados internacionais, para que através da reabilitação destes imóveis, seja valorizado o património, qualificando os sítios e devolvendo-os à fruição pública. Com o objetivo de captar mais fluxos de procura e aumentar a atratividade ao longo de todo o ano, o Turismo de Portugal criou o Programa de Captação de Congressos Internacionais e Eventos Corporativos, tendo constituído uma equipa especializada e desenvolvido uma plataforma que agrega toda a informação relevante sobre eventos em Portugal www.meetingsinportugal.com -, a qual integra um Fundo de Captação de Eventos e Congressos. O calendário de provas internacionais de surf foi, também, alargado, tendo Portugal passado a ser o

único país a receber todas as provas da World Surf League (WSL). Paralelamente, foi lançado o Programa 365 Algarve, com centenas de eventos culturais a realizarem-se entre outubro e maio, precisamente para combater a sazonalidade nesta região. Também no âmbito da cultura, o Turismo de Portugal desenvolveu a plataforma Portuguese Music Festivals - www. portuguesemusicfestivals.com - que agrega toda a oferta nacional no campo dos festivais de música. O turismo religioso é outra das apostas do Turismo de Portugal para aumentar os fluxos, fora da época alta, e atrair turistas de mercados não tradicionais. Neste sentido, têm sido desenvolvidos materiais promocionais, como filmes e brochuras, que dão a conhecer as principais manifestações religiosas e os locais e roteiros associados à religião católica e judaica, em Portugal.

Tudo com o objetivo de incentivar a procura por todo o território, de forma mais homogénea, mitigando a sazonalidade e demonstrando a capacidade do setor em gerar mais receita e mais emprego, durante todo o ano e por todo o país. Têm conseguido encontrar equilíbrio entre a satisfação de turistas e residentes? De que forma? Por enquanto, parece-me que este ponto de equilíbrio tem sido uma questão pacífica. Contudo, é um desafio a que o Turismo de Portugal não consegue responder sozinho, estando disponível para, em parceria com as entidades e prestadores de serviços envolvidos, encontrar as melhores soluções para todas as partes.

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Na sua opinião, a tentativa de encaminhar turistas para destinos nacionais menos procurados e conhecidos é uma opção? Que medidas foram - ou vão ser tomadas nesse sentido? Sim, é cada vez mais uma opção e os resultados obtidos em 2017 assim o comprovam. As medidas implementadas para promover a desconcentração da procura (mencionadas acima), resultaram num crescimento de hóspedes em todas as regiões.

Uma das caraterísticas mais valorizadas pelos estrangeiros que visitam Portugal é a hospitalidade. Como é que se consegue sensibilizar a população para a importância de continuar a bem-receber os turistas? A “arte de bem receber” é inata aos portugueses, faz parte da nossa maneira de ser enquanto povo, somos hospitaleiros por natureza e os primeiros a enaltecer as nossas qualidades “lá para fora”. O Turismo de Portugal tem procurado envolver a população na promoção do país, através da participação direta nas campanhas de turismo interno. Em 2017, por exemplo, desenvolvemos a campanha “Faça um Plano pelo Centro de Portugal”, com o objetivo de promover a região afetada pelo maior incêndio de sempre do país, em que quatro realizadores desafiaram os portugueses a contribuir com imagens para cada um dos filmes. O resultado foi a participação de mais de duas mil pessoas. Também as campanhas “Ponha Portugal no Mapa”, a que se seguiu a “Ponha Portugal no Seu Mapa”, contaram com a participação dos portugueses que partilharam o que de mais bonito e inspirador existe no nosso país, através de pequenos vídeos que mostravam o que este destino representa para quem cá mora. Durante dezasseis semanas, recebemos perto de três mil vídeos e conseguimos criar como que um vídeomapa de Portugal, através de 16 filmes promocionais inteiramente editados com estas imagens submetidas pelos participantes. O objetivo foi o de envolver os portugueses nestas campanhas, incentivar as férias

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em Portugal e aumentar a procura por regiões com menor pressão turística, mitigando a sazonalidade. No entanto, apesar de sermos um povo simpático, não podemos descurar a importância da aposta na qualificação dos recursos humanos, ponto essencial para o desenvolvimento do turismo em Portugal e o aumento da sua competitividade. O turismo será, cada vez mais, um fiável gerador de emprego, com o consequente aumento das exigências na formação e qualificação do serviço turístico, que conduz a um inevitável ajuste nos modelos de contratação e crescimento da procura de profissionalização da atividade turística. Atualmente, nas doze escolas, de norte a sul do país - Porto, Douro/Lamego, Viana do Castelo, Coimbra, Oeste, Estoril, Lisboa, Portalegre, Setúbal, Vila Real de Santo António, Portimão e Faro - a grande preocupação reside em aproximar as necessidades da procura com a oferta, conferindo uma nova abordagem à formação. A gestão das escolas tem vindo a ser reforçada através de uma nova estratégia de desenvolvimento e da transformação de cada escola num espaço de estímulo ao empreendedorismo, em estreita articulação com a realidade local e os seus múltiplos agentes. Neste sentido, o Turismo de Portugal desenvolveu um programa abrangente, na sua rede de doze Escolas de Turismo, que denominou Tourism Training Talent (TTT), focado essencialmente no talento das pessoas, no desenvolvimento de soft skills, na inovação e na internacionalização dos profissionais do turismo, como base de sucesso do setor em Portugal. Este programa visa o aumento das competências dos alunos e profissionais, adaptando a sua formação às novas tendências, abrindo as escolas à comunidade e incentivando o empreendedorismo, ampliando o papel da formação a outras atividades e valorizando as carreiras, promovendo o trabalho no turismo. Assim, foi realizado um extenso trabalho de revisão dos currículos de todos os cursos de especialização tecnológica, incorporando disciplinas e métodos inovadores de aprendizagem


CADERNO ESPECIAL

em artes performativas, no digital, em gestão e comunicação, adequados aos novos perfis de turistas, às novas tendências e como resposta direta à evolução do mercado. Esta é a única rede escolar, em Portugal, que tem cursos especializados e ministrados totalmente em língua inglesa e, em complemento aos cursos, desenvolve projetos de estágios Internacionais e programas de intercâmbio, assegurando a captação de alunos estrangeiros. O Turismo de Portugal está também fortemente empenhado na formação de bons profissionais, abertos à inovação, às transformações do negócio, versáteis, empreendedores e com capacidade para acompanhar as novas tendências. Neste sentido, foram lançados dois programas de aceleração, o Tourism Creative Factory e o Open Kitchen Labs, com propostas de acompanhamento à criação de micro-negócios e desenvolvimento de ideias de negócios específicas para o setor, com uma forte interligação à economia de base regional. Há ainda a aposta num projeto diferenciador no sistema formativo, a plataforma online Connective, que proporciona aos alunos das Escolas de Turismo o acesso a uma vasta rede de mentoring de âmbito internacional, permitindo exponenciar o sucesso da sua formação e perspetivas de carreira. As Escolas do Turismo de Portugal formam mais de três mil alunos por ano, preparando-os para o primeiro emprego e qualificam, simultaneamente, cerca de 3.800 profissionais desta atividade, visando um crescente prestígio das profissões turísticas. Tendo em conta estes dados, até 2020, o Turismo de Portugal ambiciona que a sua Rede Escolar atinja a capacidade máxima de formação, 4.000 alunos, e uma empregabilidade média de 90% (situa-se atual mente nos 88%) estimulando, desta forma, a criação de mais em-prego e mais qualificação no setor e reduzindo as assimetrias regionais. Recentemente, a Organização Mundial do Turismo, agência das Nações Unidas responsável pela promoção da sustentabilidade do setor, distinguiu o projeto formativo das escolas do Turismo de Portugal -

Tourism Training Talent - com o primeiro lugar na categoria Inovação e Políticas Públicas da 14ª edição dos prémios UNWTO, pelo seu exemplo de capacitação das futuras gerações de recursos huma nos do setor. O projeto está a ser analisado por países como a Colômbia, Roménia, Marrocos, Croácia e Cazaquistão, para possível adaptação aos seus mercados. Cada vez mais temos a certeza de que, apesar de ambiciosa, a estratégia que foi delineada é a resposta adequada aos desafios de um mercado em constante mutação. Propomos um sistema de formação inovador, onde as Pessoas e o seu Talento são a base do sucesso de um setor. Pretendemos formar profissionais com empregabilidade que contribuam para tornar Portugal, cada vez mais, um destino turístico de excelência, um país onde o trabalho é valorizado e onde se investiu nas pessoas, nas suas qualificações, qualificando as profissões do turismo e atraindo talento.

Que medidas esperam vir a implementar para minimizar os impactos do chamado “overtourism”, que atualmente afeta alguns dos principais destinos europeus? Quando se verificam índices consistentes de crescimento, como Portugal tem vindo a ter nos últimos anos, uma das principais preocupações reside em manter elevados níveis de satisfação das comunidades locais, integrando-as na nova realidade. E é neste sentido que estamos a desenvolver todas as medidas já mencionadas, para que os turistas estrangeiros, mas também os nacionais - descubram o que cada região tem para oferecer. No entanto, realço que em Portugal ainda estamos a uma grande distância de ser afetados pelo overtourism. Não podemos comparar a nossa realidade com a de destinos estabelecidos como Barcelona ou Londres. E acredito que, com a Estratégia Turismo 2027, não vamos correr esse risco.

O nosso fim será sempre captar mais e melhor Turismo. •

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OVERTOURISM Análise IPDT

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EM


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NÚMEROS

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AS PRINCIPAIS CIDADES EUROPEIAS ESTÃO PREOCUPADAS COM O CRESCENTE NÚMERO DE TURISTAS As grandes metrópoles europeias são, atualmente, as primeiras a debater-se com a questão do overtourism. Paris, Londres, Barcelona, entre outras, sempre se posicionaram como destinos turísticos de referência, contudo, com a introdução dos voos low-cost assistimos a uma verdadeira revolução, com um aumento nunca visto das viagens internacionais.

Para efeitos de análise, o artigo incidirá sobre os seguintes destinos:

Amesterdão, Barcelona, Dubrovnik, Islândia, Londres, Maiorca, Paris, Praga e Veneza - apontados como os principais locais que se encontram próximos do ponto de overtourism. Os dados tratados têm como fonte os relatórios anuais, publicados pelos gabinetes nacionais de estatística dos respetivos países. Considerando o atual momento de protesto, onde os residentes defendem que as cidades se estão a esgotar, decide-se encetar uma primeira reflexão, tentando entender se existe uma relação direta entre o aumento do número de turistas nos destinos e a diminuição da população residente. Através dos dados referentes a 1980 e 2016, verificamos realidades completamente distintas. Conclui-se que os destinos que operam a indústria do turismo há mais anos tiveram, de facto, um decréscimo considerável.

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VENEZA É O EXPOENTE MÁXIMO DO ABANDONO DOS CENTROS HISTÓRICOS. ENTRE 1980 E 2016 PERDEU 41% DOS SEUS RESIDENTES. Fixa-se agora em, apenas, 55 mil habitantes. Também Barcelona, cidade onde os protestos têm sido mais intensos, verificou uma diminuição da população, em 9%. Pelo oposto, Amesterdão e Londres apresentam crescimentos populacionais consideráveis, 13% e 37% respetivamente. Quanto a Paris, Praga e Dubrovnik as variações são residuais. Contudo, se focarmos a análise a 2012 e 2016, anos onde o turismo estabeleceu recordes estatísticos, verificamos que a tendência se mantém. Veneza, Palma de Maiorca, Barcelona e Paris surgem como destinos onde se verificaram quebras populacionais. A cidade italiana surge, novamente, como a que apresenta resultados mais negativos com, aproximadamente, menos 6% da população residente.


CADERNO ESPECIAL

OPINIÃO DESIDÉRIO SILVA Presidente ERT Algarve

O turismo é um dos maiores pilares das economias mundiais e um importante veículo para o progresso e o desenvolvimento social das regiões. O turismo mundial cresceu 6% em 2017 face ao ano anterior, sendo que a indústria turística representa 10% do PIB mundial, empregando 1 em cada 10 pessoas, de forma indireta ou indireta.

Mediante a importância do setor para a economia e o desenvolvimento regional, é imperioso apostar na diversificação da oferta turística e na descentralização dos fluxos turísticos. Neste âmbito, as Entidades Regionais de Turismo possuem um papel fundamental na estruturação de produtos adaptados e na promoção dos destinos, contribuindo para o desenvolvimento regional de forma mais integrada. Nesse trabalho diário, não podemos esquecer que o panorama do turismo está em mudança: os viajantes são movidos por novas necessidades e expetativas, e a competitividade entre destinos é cada vez maior.

HOJE EM DIA, OS VIAJANTES PROCURAM CADA VEZ MAIS A AUTENTICIDADE E A REALIZAÇÃO DE EXPERIÊNCIAS ÚNICAS. Pretendem entrusar-se no quotidiano das populações que visitam, querendo contactar diretamente com a cultura local, através, por exemplo, da gastronomia que é, cada vez mais, um dos principais fatores de atratividade de um destino. Não podemos esquecer que os viajantes estão atentos ao seu impacto sobre a economia e a vida das populações locais. Em Portugal, e mais especificamente no Algarve, a atividade turística ainda tem potencialidades e perspetivas de crescimento. Mas o principal desafio prende-se em crescer de forma sustentável, respeitando a identidade cultural de cada destino, a proteção do meio ambiente, do património, das tradições seculares e dos recursos naturais. Só assim se conseguirá salvaguardar a sustentabilidade do destino a longo prazo, para que mais turistas possam desfrutar da região e os residentes usufruir de uma maior qualidade de vida. É nesse sentido que o Algarve tem vindo a orientar a sua estratégia de modo a manter um equilíbrio entre os anseios dos turistas e as necessidades dos residentes, pois acreditamos que o turismo bem estruturado e administrado irá contribuir, significativamente, para o desenvolvimento local sustentável. •

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Uma vez mais Amesterdão e Londres são as cidades analisadas que apresentam maiores crescimentos populacionais, 5,5% e 5,8%, respetivamente. Esta tendência comprova o sucesso das políticas implementadas ao nível da sustentabilidade dos destinos e da presente harmonia entre o crescimento turístico e populacional. Em síntese, encontra-se um paralelo entre o decréscimo ou manutenção da população com o aumento do turismo em áreas turísticas já consolidadas, e um aumento dos residentes, nos destinos emergentes e/ou consolidados recentemente, provavelmente justificável pelo aumento do número de empregos disponíveis que atraem população às cidades em questão. Tendo esta visão, requer-se a análise ao crescimento do número de turistas, permitindo elucidar sobre o real crescimento turístico dos destinos. Assim, confrontando os dados de 2012, 2014 e 2016, constata-se que existiu um crescimento gradual, ao longo dos anos, na maioria das situações, superior a 10%.

AS MARCAS ALCANÇADAS PELOS DESTINOS, EM 2016, SÃO FUNDAMENTAIS PARA DEBATER AS QUESTÕES DO OVERTOURISM. A exemplo, Paris e Londres registaram números de turistas superiores a 35 milhões, também a ilha de Maiorca apresentou uma marca próxima dos 15 milhões, enquanto Veneza se aproximou dos 10,5 milhões de turistas. As taxas de crescimento registadas entre 2012 e 2016, permitem, igualmente, explicar o quotidiano atual das cidades em questão. O destaque vai para a Islândia que, após a crise financeira de 2008, vem retomando a sua posição económica, alavancada pelo turismo. Reflexo dessa aposta são os resultados alcançados: um crescimento de 62,5% do número de turistas entre 2012

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e 2016. Igualmente, a cidade de Dubrovnik verificou um crescimento turístico na ordem dos 32%. A cidade que serve como pano de fundo para a série “Guerra dos Tronos”, registou um número de turistas próximo de 1 milhão, em 2016. Londres e Amesterdão surgem com um crescimento superior a 20%. Nota ainda para Paris, que apesar de registar um elevado número de turistas anuais (36 milhões), diminuiu em 1% essa marca, resultado, talvez, do impacto negativo dos sucessivos atentados terroristas de 2015 e 2016. Face ao aumento verificado, os destinos vêm reforçando o número de alojamentos disponíveis, para satisfazer os níveis de procura.

As taxas de ocupação-cama são também um importante fator a considerar para percecionar o efeito turístico nos destinos. Através deste elementos, disponíveis nos relatórios anuais dos Gabinetes Nacionais de Estatística, podemos considerar se os destinos se encontram próximos da sua capacidade de carga. Utilizando os mesmos anos de referência, verificamos que os destinos em análise apresentam resultados distintos. Acompanhando o crescimento turístico, a Islândia apresenta uma taxa de ocupação-cama de 59%, mais 13 p.p. em relação a 2012. Destaque para Londres e Amesterdão que apresentam as maiores taxas de ocupação-cama anuais, superiores a 80%, sugerindo que se encontram próximas da sua capacidade de carga desejável. Pelo oposto, constata-se a diminuição da taxa de ocupação nas cidades de Paris, Barcelona e Veneza. Poder-se-ia justificar esta diminuição com um aumento considerável das camas disponíveis, porém tal não se verificou, ao nível da hotelaria tradicional. Existem mesmo políticas para restringir novas construções de empreendimentos turísticos, sobretudo em Barcelona. Assim, este valor poderá ser justificado com o surgimento preponderante na experiência turística, dos sites de reserva de alojamento privado (ex. Airbnb), elemento não considerado nesta análise, dado não existirem dados disponíveis. Outro elemento para apoiar esta conclusão é o facto de tanto Barcelona como Paris, serem os destinos com maior oferta de alojamento no referido site de reservas.


CADERNO ESPECIAL

TAXA OCUPAÇÃO-CAMA 2012-2016

58,7%

Islândia Dubrovnik

65,0%

Praga

65,1% 84,1%

Londres

69,5%

Paris

79,5%

Palma de Maiorca

71,4%

Barcelona

81,8%

Amesterdão

66,3%

Veneza 40

45

50

55

60

65

70

75

80

85

90

Ocupação-Cama %

2016

2014

2012

Os valores apresentados permitem concluir que os destinos se encontram numa fase de intensa atividade turística, onde o fator sazonalidade vem perdendo o efeito que outrora teve. A distribuição turística ao longo do ano é um elemento preponderante para a análise dos destinos, verificando-se picos durante as épocas alta e ligeiras reduções nos meses de época baixa.

Maiorca, um dos destinos onde os protestos anti-turismo vêm tendo maior repercussão internacional, recebe, por dia, 42 mil novos turistas. Veneza, quase 30 mil turistas. Barcelona, Amesterdão e Praga aproximadamente 20 mil novos turistas. Estes valores permitem elucidar sobre os ambientes “saturados” oferecidos nos destinos selecionados para análise.

Assim, abordando os números disponíveis numa ótica simplificada, com o objetivo de elucidar o momento de sobrelotação dos destinos em análise, serão disponibilizados os dados, permitindo percecionar a preocupação do equilíbrio entre os residentes e os turistas. Considerando os dados disponíveis, encetou-se uma análise ao número médio de turistas por dia, ao longo do ano.

Porém, estes valores são ainda mais elucidativos, se considerarmos que os “novos” turistas permanecem, em média, mais do que uma noite. Em média, os destinos referidos apresentam estadas médias que variam entre 2 e 5 noites. Assumindo as chegadas turísticas internacionais e a respetiva estada média dos destinos, e dividindo pelo número de dias do ano, alcançamos o número real de turistas que as cidades têm todos os dias, durante 1 ano.

OS DADOS SÃO ESCLARECEDORES. Por exemplo, todos os dias do ano, chegam a Paris e Londres, aproximadamente, 100 mil novos turistas.

Paris com 270 mil turistas, Londres com 400 mil turistas são, de novo, os destinos que apresentam maior número de visitantes durante um dia. Fruto da sua maior estada média (7 noites), a ilha de Maiorca apresenta um dado interessante: se distribuirmos o número de turistas por dia, alcançamos a marca de 300 mil turistas diários! TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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OPINIÃO MARTA GUERREIRO Secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo Governo dos Açores

Nos dias de hoje, falar de turismo é fazer com que um local seja global, tornando as tendências mais abrangentes. É por isso que cada país e cada região devem percorrer um caminho de construção de um posicionamento diferenciador, que acrescente valor e que consolide a sua notoriedade face aos concorrentes, motivando o crescimento dos mercados potenciais. Cada destino deve ter um duplo olhar: de dentro para fora e de fora para dentro. Só com esta duplicidade de atuar e de agir é que cada região poderá ter a real perceção do seu posicionamento e do caminho que deve adotar. Esperando-se que o PIB mundial alcance, em 2018, um crescimento médio de 3,1% o turismo deverá continuar a registar taxas bastante acima desta cifra. Contudo, tensões geo-políticas, a perspetiva de subida dos preços dos combustíveis e alguma dose de incerteza sobre os impactos do Brexit, levam a que as perspetivas para 2018 sejam um pouco menos animadoras que as verificadas em 2017. Há uma tendência para os destinos mais periféricos da zona Euro manterem níveis de crescimento mais acentuados (como a Irlanda e Portugal), por via do reforço dos rendimentos disponíveis e correspondentes fluxos de saída de turistas de economias emergentes, em especial da Europa de Leste. Por outro lado, a pujança da economia Americana continuará a permitir aumentos significativos dos fluxos de turistas deste país em viagens internacionais. Com este cenário, as perspetivas para os Açores em 2018 são de um crescimento de dormidas significativo, mas mais contido que em 2017. O grande potencial turístico dos Açores é reconhecido a nível mundial. Com um clima ameno durante todo o ano, temperatura da água do mar invejável, localização privilegiada, boas condições de proporcionar tranquilidade, relaxamento, paz interior, segurança, mas, acima de tudo, com condições de natureza e ambientais ímpares, os Açores posicionam-se na perfeição no segmento turístico que tem registado um dos mais acelerados crescimentos a nível mundial: o turismo de aventura e de natureza ativa, com elevada responsabilidade ambiental e social. Fruto desta dinâmica turística internacional sem precedentes e perante um mercado global com níveis de competitividade muito superiores ao passado, conseguimos, em 2017, viver o melhor ano do turismo nacional e da região. É este sucesso, que nos motiva a seguir em frente, satisfeitos pelos triunfos, mas desafiando-nos a acompanhar o ritmo de um mundo em constante mudança. Acreditamos que os Açores são o paradigma de que o desenvolvimento sustentável é indissociável do moderno planeamento turístico, em resultado do nosso empenho para compatibilizar o crescimento económico, com a responsabilidade social e ambiental, tornando a qualidade ambiental numa vantagem competitiva. •

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


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Cidades como Veneza (65 mil), Barcelona, Praga (48 mil) e Amesterdão (37 mil), surgem, também como importantes destinos, com elevado impacto do número de turistas. Emerge o caso de Veneza que, por dia, recebe 65 mil turistas, face a uma população residente de 55 mil. Dubrovnik, que fruto da conjugação das chegadas de turistas por via área e marítima (cruzeiros), recebe, por dia, 9 mil turistas. Este valor levanta preocupações, principalmente, pela UNESCO que recomenda que ambientes classificados Património da Humanidade, tais como Dubrovnik, não possuam mais de 4 mil turistas em simultâneo.

DESTINOS

Nº TURISTAS/DIA

Amesterdão

37 033

Barcelona

48 092

Dubrovnik

9 194

Islândia

41 982

Londres

470 082

Maiorca

301 924

Paris

270 009

Praga

48 819

Veneza

65 087

Adotando os mesmos períodos de análise, 2012 e 2016, verificam-se dados relativos à variação da população que importa apresentar. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística - e os respetivos Anuários Estatísticos Regionais -, entre 2012 e 2016 as cidades do Porto e Lisboa obtiveram uma quebra populacional de 5,9% e 3,7%, respetivamente. Os dados obtidos estabelecem paralelo com os principais destinos turísticos, alcançando marcas significativamente próximas do exemplo de Veneza. É certo que o turismo não será a única razão para a redução verificada, uma vez que ambas as cidades vinham registando oscilações na população residente nos anos anteriores ao período de análise. Já Albufeira, pelo oposto, regista um crescimento populacional de 1,1%, entre 2012 e 2016, marca enquadrada na média dos destinos internacionais analisados. Importa reforçar que foi neste período que se verificou um maior rejuvenescimento das cidades e a requalificação de muitos edifícios abandonados. Quanto ao crescimento turístico, analisando os anos de 2012, 2014 e 2016, (Anuários Estatísticos Regionais) as três cidades registaram aumentos consideráveis, destacando-se Lisboa e Porto, com marcas de 55% e 72%, respetivamente, entre 2012 e 2016. Quanto a Albufeira, registou-se um aumento de 33%. A nível internacional, este crescimento apenas encontra paralelo com a Islândia. Ainda assim, os valores registados em Portugal são superiores.

E PORTUGAL, ONDE SE SITUA? Partindo para o caso nacional selecionaram-se para análise três cidades com elevados fluxos turísticos, designadamente Albufeira, Porto e Lisboa. A mesma análise efetuada acima permite-nos percecionar o ponto onde se encontram os destinos nacionais, face aos internacionais, que iniciam agora o debate sobre o overtourism.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

CRESCIMENTO NÚMERO TURISTAS 2012-2016

72%

55% 33%

Porto

Lisboa

Albufeira


CADERNO ESPECIAL

As percentagens de crescimento apresentadas, ganham uma nova interpretação quando verificamos o número concreto de turistas que as três cidades recebem, em média, por dia. Não se verificando valores próximos dos destinos internacionais analisados, quer Porto, Lisboa e Albufeira, registam valores elevados. Evidencia-se Lisboa, com aproximadamente 12 mil novos turistas todos os dias. Ao inserirmos o elemento da estada média, alcançamos o número de turistas que visitam, diariamente os destinos. Em média, Lisboa tem, todos os dias, 30 mil turistas visitando, em simultâneo, os seus principais pontos de interesse. Já a cidade do Porto apresenta, um valor consideravelmente inferior, situando-se nos 9 mil turistas diários. Importa fazer uma comparação com a cidade de Dubrovnik, que regista um número similar e que, também, é Património da Humanidade da UNESCO. A cidade de Albufeira, fruto da elevada estada média (5,2 noites), apresenta também um número interessante para análise, 22 mil turistas, todos os dias, durante o ano.

DESTINOS

NOVOS TURISTAS/DIA

TURISTAS REAIS/DIA

4 286

22 260

Lisboa

12 515

30 318

Porto

4 488

9 041

Albufeira

2016

2016

Estes valores têm implicado uma forte aposta no número de camas disponíveis, com um aumento considerável da oferta de empreendimentos turísticos, principalmente na cidade do Porto. Não obstante o aumento da oferta, verificou-se um crescimento elevado - entre 2012 e 2016 - das taxas de ocupação-cama, destacando-se o Porto com 14 p.p.. Lisboa e Albufeira situam-se num aumento de 7 p.p.. Ao nível da concentração turística, importa analisar o número de turistas por km2, que todos os dias, as três cidades nacionais recebem, e verificar se estes se encontram próximos da realidade internacional. Os resultados alcançados são semelhantes entre si, situando-se, ainda assim, na média dos destinos internacionais analisados, e que se debatem com a questão do overtourism. A cidade de Lisboa, que apresenta maior número de turistas, possui todos os dias 300 turistas por cada km2, enquanto a cidade do Porto se fixa nos 228. Quanto a Albufeira, o valor diminui para 158 turistas por km2. Face a estes resultados, entende-se que este indicador deverá pesar e integrar as estratégias futuras delineadas para a sustentabilidade do turismo nas cidades nacionais. Importa reforçar que, a este valor, dever-se-á adicionar o número de residentes que todos os dias estão nas cidades, o que levará a uma densidade populacional superior.

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TURISTAS/km2 /dia

300

228

158

Porto

Lisboa

Albufeira

CONCLUSÃO Cabe a todos assumir uma postura consciente e ponderada, para que usufruamos dos destinos na sua plenitude, conservando o património para as gerações futuras, partindo dos princípios da equidade, sustentabilidade e do respeito por todos.

Os dados analisados são elucidativos do ambiente turístico que os principais destinos, nacionais e internacionais, se debatem. À medida que aumenta a preocupação sobre o overtourism, e proliferam as notícias e as medidas estabelecidas para acautelar o impacto dos grandes fluxos turísticos, o número de turistas vai aumentando, dia após dia. Carecem políticas efetivas e estratégicas que visem promover destinos sustentáveis, onde a harmonia entre residentes e turistas seja o objetivo futuro. Termina-se esta reflexão sobre o impacto do turismo nos destinos com um dado que deverá ser alvo de novas análises. Fazendo uma relação direta entre o número de residentes e os turistas existentes, quantos turistas existem por cada residente? Os números são claros e, em alguns casos, preocupantes. Veneza, Albufeira, Maiorca, Dubrovnik e Paris lideram os indicadores. Se tomarmos o caso da cidade italiana, por ano, existem 177 turistas por cada residente. A cidade portuguesa, embora com um número bastante menor, apresenta uma marca a analisar: 39 turistas por cada residente. Também Lisboa e Porto têm, por ano, 9 e 8 vezes, respetivamente, mais turistas que residentes, valores superiores, por exemplo, a Londres, Barcelona e Praga.

Tendo estes dados, algumas questões Se levantam:

Estaremos, atualmente, próximos da capacidade de carga dos destinos? Teremos, no futuro, cidades para visitar ou para residir? Qual será o equilíbrio ideal entre turismo e quotidiano das comunidades locais? Não obstante estas interrogações quanto ao futuro, certo é que o turismo é um paradigma do presente e do futuro das cidades e continuará a crescer. • TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


CADERNO ESPECIAL

OPINIÃO PEDRO MACHADO Presidente ERT Centro de Portugal

É quase um consenso generalizado o extraordinário momento que se vive em Portugal, em particular, no turismo. Vive-se um ciclo de crescimento acentuado, assente no pressuposto de estarem reunidas as condições para atribuir ao “setor estrela”, os meios financeiros que lhe permitam consolidar a procura, conquistar o mercado interno e reforçar o posicionamento e notoriedade internacional que Portugal já granjeia.

Importa preparar o futuro para que estes indicadores não sejam fugazes e para que o nosso país mantenha níveis elevados de atratividade e procura turística. Esta é uma premissa sustentada no otimismo dos números que o setor turístico atingiu, bem como, na estratégia de atração de novos mercados. São boas notícias a abordagem ao mercado asiático e o reforço da nossa posição no Canadá e no mercado Americano. Portugal foi considerado o “Melhor Destino Turístico do Mundo”, nos World Travel Awards de 2017, tendo sido o primeiro país europeu a conquistar esta distinção. É incontestável o efeito positivo deste prémio na cadeia de distribuição e no aumento do volume de vendas, nomeadamente noutros setores da economia. Com isto, é esperado o reforço das atividades económicas e das relações comerciais. Se atendermos a que, já em 2017, se verificou um crescimento em Portugal de 40% do mercado chinês, 60% do brasileiro e 45% do americano, são bons os auspícios para 2018. A par deste crescimento, começam a surgir questões como a massificação dos destinos, ameaçando tornar-se numa séria preocupação. Exige-se uma reflexão sobre sustentabilidade e definição de estratégias potenciadoras da integração harmoniosa dos turistas com o destino e as comunidades locais, potenciando o respeito pelas suas caraterísticas distintivas, bem como pela cultura e património. Urge encontrar formas de estruturação, promoção e segmentação que potenciem a “dispersão” dos turistas para as restantes zonas do país. Apesar da trágica efeméride dos incêndios de junho e de outubro, que afetaram de forma dramática mais de 60% do território do Centro de Portugal, o INE indica que em outubro 2017 houve um aumento de 20,4% no total de dormidas em hotelaria, em comparação com o período homólogo de 2016, tendo crescido quatro vezes mais que a média nacional. Num ano em que Portugal ganhou mais de 2500 prémios e distinções internacionais, a ambição para 2018 é continuarmos a ser “os melhores”, sendo este o desígnio para o esforço diário de sermos excelentes e únicos. •

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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74 CADERNO ESPECIAL

À CONVERSA COM

VÍTOR COSTA Diretor geral Associação de Turismo de Lisboa

O Turismo nas principais cidades europeias tem crescido de forma significativa. Lisboa não é exceção. Quais têm sido os grandes desafios e de que forma tem o Turismo de Lisboa lidado com esta situação? O turismo e Lisboa protagonizam uma história com 20 anos, ao longo dos quais uma quase esquecida capital europeia deu lugar a um destino turístico de eleição, que contribui de forma muito significativa para a economia nacional. Espera-se muito de Lisboa e a verdade é que as sucessivas metas têm sido superadas, dando lugar a desafios cada vez mais ambiciosos, entre eles a capacidade aeroportuária e a sustentabilidade do desenvolvimento turístico. O número recorde de 27 milhões de passageiros no Aeroporto de Lisboa, em 2017, evidenciou algumas limitações e uma preocupação exacerbada pelo tempo de espera para a entrada em operação do aeroporto complementar do Montijo. Não obstante, o tema da sustentabilidade turística é, certamente, o maior desafio que temos pela frente. Os benefícios económicos do turismo devem ser aproveitados para ajudar a resolver questões que afetam quem nos visita e quem em Lisboa reside e trabalha, nomeadamente os transportes públicos, a qualidade dos serviços urbanos e o usufruto dos equipamentos culturais.

Melhorar estes aspetos é decisivo para a população residente, mas também é uma condição essencial para que o turismo possa continuar a crescer.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


CADERNO ESPECIAL

Sente que Lisboa tem conseguido encontrar equilíbrio entre a satisfação de turistas e residentes? De que forma? Lisboa tem uma relação de sucesso com o turismo e essa relação é reconhecida pelos lisboetas. Mais de 90% da população que reside e trabalha em Lisboa tem uma opinião positiva ou muito positiva sobre os turistas e a contribuição do turismo para a capital portuguesa. Por influência do turismo, a cidade tem hoje mais vida para 91% dos residentes e para 80% dos que aqui trabalham. A expressividade destes dados do estudo da Intercampus, realizado para a Associação de Turismo de Lisboa, assenta numa estratégia concertada entre entidades públicas e privadas que, ao longo dos últimos anos, tem reforçado a atratividade de Lisboa enquanto destino turístico de excelência, refletindo-se na qualidade de vida dos lisboetas. O dinamismo e a capacidade de inovação são a receita de sucesso para o efeito multiplicador do turismo, mas também para a requalificação do património, disponibilização de novos equipamentos, enriquecimento da qualidade e da diversidade dos produtos e promoção de uma agenda cultural eclética que a todos beneficia.

A tentativa de encaminhar turistas para zonas menos procuradas dentro da cidade, ou até para cidades vizinhas é uma opção? Que medidas foram, ou vão ser, tomadas nesse sentido? Lisboa apresenta condições ímpares para ter uma oferta única e foi por isso que, no Plano Estratégico para o Turismo na Região de Lisboa até 2019, sublinhámos a importância de desenvolver a oferta turística e aprofundar o relacionamento entre a cidade de Lisboa e as Centralidades (Sintra, Cascais, Arrábida e Arco do Tejo). Descentralizar os fluxos turísticos passa por oferecer produtos complementares à oferta turística de Lisboa e proporcionar um mosaico de experiências a quem nos visita, desde o turismo náutico ou de natureza, passando pelo surf, mergulho, gastronomia e enoturismo. É neste sentido que temos

estado a trabalhar através da promoção de produtos de referência e da harmonização da oferta turística dos concelhos que se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento, mas que partilham caraterísticas ricas, únicas e complementares.

Uma das caraterísticas mais valorizadas pelos estrangeiros que visitam Portugal é a hospitalidade. Como é que sensibilizam a população para a importância de continuar a bem-receber os turistas que visitam a capital? A contribuição do turismo para a capital portuguesa tem sido muito valorizada, tanto em termos económicos como na criação de emprego, na reabilitação da cidade e qualidade de vida dos lisboetas. No geral, a população que reside e trabalha em Lisboa tem uma opinião positiva ou muito positiva sobre os turistas, logo é neste quadro otimista que a tão conhecida e apreciada hospitalidade acaba por surgir naturalmente.

Que medidas esperam vir a implementar para minimizar os impactos do chamado “overtourism”, que atualmente afeta alguns dos principais destinos europeus? A nossa visão é a de que o número crescente de turistas em Lisboa deve ser visto como uma oportunidade de valorização da oferta a vários níveis. É por essa razão que consideramos a sustentabilidade o nosso principal desafio, pois se há procura, a oferta deve melhorar, contribuindo assim para o crescimento do turismo e para a qualidade de vida de quem trabalha e vive em Lisboa. Fazer melhor é sempre possível e há que continuar a trabalhar na qualificação do destino em benefício do todo. No caso de Lisboa, a fórmula de sucesso associada ao crescimento sustentado do turismo passa pela melhoria da qualidade da oferta que tem por base políticas públicas adequadas dos serviços prestados, nomeadamente ao nível dos transportes, habitação, reabilitação urbana e segurança. •

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76 CADERNO ESPECIAL

À CONVERSA COM

CARLOS LACERDA CEO ANA | AEROPORTOS DE PORTUGAL

O turismo nas principais cidades europeias tem crescido de forma significativa. As cidades portuguesas não são exceção. Qual o papel dos aeroportos nesta realidade? É um facto que o crescimento recente das principais cidades europeias tem sido impulsionado pelo turismo, nas suas atividades diretas e nas que ficam a montante/jusante.

Os aeroportos são peças fundamentais no desenvolvimento turístico de uma região e de um país e existe efetivamente uma correlação entre o crescimento do turismo e o desenvolvimento da conectividade aérea. Ainda assim, importa não esquecer que são as caraterísticas das cidades e das regiões que determinam a procura turística. As pessoas não viajam com o objetivo de ver ou conhecer um aeroporto, este é um ponto de passagem e claro, uma parte da experiência da viagem, mas os aeroportos são sobretudo um facilitador do processo, oferecendo capacidade adequada e qualidade de serviço que contribua para uma experiência positiva de quem nos visita. Os aeroportos geridos pela ANA têm dado o seu contributo para que este desenvolvimento turístico

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

seja possível. É uma grande responsabilidade sabendo que em Portugal, um destino periférico, 95% dos turistas chegam de avião. Esta é uma realidade que está muito presente na ANA Aeroportos/VINCI Airports, quer na gestão diária das suas infraestruturas e serviços, quer no investimento efetuado junto de companhias aéreas para potenciar o desenvolvimento de rotas para os aeroportos da rede. Em termos de capacidade aeroportuária sabemos que nos cabe a missão de gerir uma rede importante de aeroportos, sendo cada um deles - em Portugal - especial. Somos um pouco vaidosos e achamos que a região norte tem um excelente aeroporto, com excelentes acessibilidades, ligações diretas a 72 cidades e um serviço exemplar, reconhecido internacionalmente, já que soma 11 pódios em 12 anos na categoria “Best European Airport” sendo distinguido entre aeroportos europeus acima de 2M de passageiros nos prémios ACI ASQ (Airports Council International - Airports Service Quality). O Aeroporto Sá Carneiro (Porto) acaba de ser premiado pela Airports Council International como o segundo melhor Aeroporto da Europa na categoria de 5-15 milhões de passageiros.

A tentativa de encaminhar turistas para zonas menos procuradas das cidades tem sido uma das estratégias adotadas por alguns destinos internacionais. Tendo em conta que a mobilidade é um dos requisitos fundamentais para que esse objetivo seja alcançado, na sua opinião, em Portugal o que é necessário para que outras cidades possam tirar partido do sucesso turístico de Lisboa e Porto?


CADERNO ESPECIAL

O alargamento das áreas de atração turística, para zonas menos utilizadas das cidades ou mesmo para regiões vizinhas é importante para gerir adequadamente a excessiva pressão turística sobre o centro das cidades, mas também será no futuro um fator chave de diferenciação da oferta, permitindo um posicionamento mais competitivo dos destinos. No caso de Portugal, temos a felicidade de ter regiões e outras cidades, próximas das nossas principais cidades de Lisboa e Porto com um enorme potencial, por exemplo, o Vale do Douro, Alentejo, região Oeste de Lisboa, só para ilustrar esta ideia. Vejo mais as “zonas menos procuradas das cidades” como nichos escondidos que os turistas procuram como complemento das principais atrações. Todos os turistas gostam de conhecer os clássicos e de descobrir os locais mais recônditos, mais genuínos. O crescimento dessas zonas depende da capacidade de se desenvolverem sob um conceito, seja associado a lazer, praia, história, artes, desporto, comércio, restauração. São zonas que se promovem e posicionam com uma oferta turística alternativa ou complementar. E sim, claro que a mobilidade é um fator chave para a estratégia de promoção de qualquer zona turística. As novas tendências ao nível da aplicação do digital à mobilidade e ao turismo vão ser determinantes para que este alargamento das áreas de captação turística se efetive.

Segundo a revista Time Out - que recentemente classificou a cidade do Porto como a segunda cidade mais entusiasmante do mundo - um quinto dos residentes considera que a existência de demasiados turistas é um dos principais problemas do destino. Que comentário lhe merece esta observação? Esta tensão é natural e vai sempre existir, faz parte do processo de abertura das cidades. É como se estivéssemos num novo momento de “descobrimentos”, mas invertido: o mundo a

redescobrir-nos. O Porto é uma cidade incrível que se tem desenvolvido extraordinariamente. Está a fazer um caminho muito interessante de desenvolvimento de ofertas turísticas que convivem com a cidade, sem lhe tirar o essencial do seu ADN. A região norte tem a grande vantagem de ter uma oferta turística muito diversa, pelo que o crescimento pode passar não só pelo desenvolvimento da cidade do Porto, como sobretudo de inúmeras localidades e atrações turísticas na proximidade. A região tem mantido o produto turístico certo e infraestruturas já bastante desenvolvidas nesse sentido.

Na perspetiva da ANA, o que deve ser feito, por exemplo na Região Norte, para aproveitar e partilhar este sucesso com municípios de interior? À ANA cabe o papel de desenvolver a capacidade aeroportuária e trabalhar com todos os stakeholders no sentido de desenvolver mais tráfego aéreo. É um trabalho que fazemos diariamente com as companhias aéreas e restantes partes interessadas do setor do turismo. Estamos atentos e disponíveis na medida em que reconhecemos o impacto da nossa atividade no setor, mas, na verdade, nada mais podemos ser do que facilitadores. Potenciamos a partilha de informação com a comunidade aeroportuária e os demais intervenientes diretos e indiretos no desenvolvimento turístico, ouvimos as suas preocupações e procuramos integrá-las no nosso trabalho, mas não nos compete promover o produto turístico. Estamos igualmente atentos à evolução da procura do aeroporto do Porto e a investir no sentido de alargar a capacidade aeroportuária. Pelo contrário, mantemo-nos atentos e acompanhamos o desenvolvimento dos produtos turísticos, que depois usamos cada vez mais na nossa promoção do destino às companhias e operadores turísticos. No Norte, por exemplo, promovemos toda a região e não apenas a cidade do Porto, porque acreditamos que ao fazê-lo estamos a melhorar significativamente os nossos argumentos de venda. •

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78 CADERNO ESPECIAL

À CONVERSA COM

ANA MEIRA CEO Hotel Meira

O turismo nas principais cidades europeias tem crescido de forma significativa. As cidades portuguesas não são exceção. Quais têm sido os grandes desafios para a hotelaria tendo em conta esta nova realidade?

É incontornável o crescimento do turismo nas principais cidades da Europa, com especial enlevo para Lisboa e Porto, no entanto, os desafios são exatamente os mesmos de há vinte anos atrás! Reformulando… não são os desafios, que tanto ansiamos, que nos preocupam, mas a falta de estratégia a nível estrutural para os pôr em marcha! Como poderemos encarar novos desafios se não sabemos, na essência, quais são e de que se compõem! Não farei questão de ser “politicamente correta”, o que me deixa à vontade para dizer que não acredito em desafios sem o conhecimento de uma estratégia prévia e que a mesma não existe a nível local, regional ou nacional… na verdade, é mais um “salve-se quem puder” ou “pura inspiração” ou ainda “navegação à vista”. Seria, para todos os atores envolvidos, mais interessante, estruturante e eficaz se o rumo turístico do país, com incidência em cada região, fosse

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

partilhado. Não me refiro à comunicação das entidades institucionais, “quiçá brilhante nos últimos anos”, mas à forma como são trabalhados os vários “recursos” de cada região. Refiro “recursos” não de forma inocente, sabemos que os produtos turísticos (compósitos) só se deveriam assumir como tal depois de trabalhados na base com o envolvimento de todos os agentes económicos da região. Ao contrário da maré, posso afirmar que o grande desafio da região Norte de Portugal tem sido e continua a ser a capacidade (mais ou menos criativa) de fazer face à sazonalidade verificada em toda a região.

Na sua opinião, os destinos turísticos portugueses estão preparados para gerir situações de excesso de turistas? De que forma? Gostaria, tremendamente, que a minha resposta fosse positiva, mas de facto a resposta é “Não” e vai no sentido do desalinhamento total das entidades envolvidas no processo: Turismo de Portugal, IP/ Turismo do Porto e Norte de Portugal, Entidade Regional/ Empresas Público/ Privadas/ Escolas de Turismo/ Operadores de Mercado/Operadores Turísticos/ Juntas Freguesia/ Autarquias, etc. Na minha opinião, devemos preparar-nos (continuadamente) para a possibilidade de uma melhor previsão e conhecimento da procura, face à oferta de novos destinos/ produtos turísticos, por nós, propostos. Como? Com formação, capacitação/ qualificação dos recursos humanos; com adequação das expetativas dos alunos e formandos das Escolas


CADERNO ESPECIAL

de Hotelaria e Turismo e afins face à nova realidade turística do país; com a reformulação de alguns conteúdos programáticos que estão desajustados e se mantém inalterados há largas décadas; com o projetar de novos planos de estágio técnico para os alunos do 1º, 2ª e 3º ano, construindo pontos-chave de comunicação e articulação de necessidades com os hotéis, restaurantes, empresas de animação turística, etc… alterando e reformulando com criatividade e engenho o futuro dos profissionais de um país vocacionado para o turismo e para a excelência no bem-servir. Não queria deixar de referir também o património, lato sensu, e a sua importância na identidade de um país… sem a sua preservação, estudo e cuidado, não é possível o desafio da criação de novos produtos turísticos, nem o cruzar de todas estas maravilhosas valências. Para quê falar de excessos, se quase tudo nos falta?

Apesar de acreditar na tendência de descentralização, por motivos óbvios, para destinos nacionais menos conhecidos, é ainda incipiente a tradução em número de dormidas. Seria vital nos auto propormos a algumas questões: • O que queremos ser no futuro (que já começou) como região • O que temos para oferecer a quem nos visita • De que forma nos organizamos (contexto nacional, regional e local) na proposta de novas ofertas • Como tornar o Norte de Portugal num destino sustentável • Como fazer a partilha de conhecimento e emoções dos vários atores envolvidos

Na sua opinião, a tentativa de encaminhar turistas para destinos nacionais menos procurados e conhecidos é uma opção?

• Como preparar o destino, recursos e produtos turísticos preferenciais

A palavra “tentativa” não gera, por si só, qualquer confiança, como consegue destabilizar todo um processo sem consequências…

• Como iremos gerar e capacitar novos RH

• Como, quando e com quem queremos trabalhar

• Como equilibrar destino, procura e oferta • Como monitorizar objetivos previstos vs resultados obtidos

All aboard! •

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80 CADERNO ESPECIAL

TURISMO E POBREZA, RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO Análise IPDT

TURISMO’17 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


CADERNO ESPECIAL

A IMPORTÂNCIA DO TURISMO ENQUANTO MOTOR DE DESENVOLVIMENTO TEM-SE AFIRMADO NOS ÚLTIMOS ANOS. Em 2016 contribuiu 10% para o PIB mundial, tendo sido responsável por 292 milhões de empregos (1 em cada 10). No mesmo ano as chegadas de turistas internacionais cresceram 3,9% atingindo 1.235 milhões, mais 46 milhões do que no ano anterior. IMPORTÂNCIA DO TURISMO NA ECONOMIA NACIONAL Em Portugal a atividade turística tem-se afirmado como um importante impulsionador da economia. Em 2016 o setor do turismo representou 12,5% do PIB nacional, um aumento de 5,8% em relação ao ano transato. Segundo o Ministro da Economia, o turismo é mesmo o “segundo motor da economia”, contribuindo em 28% para o crescimento das exportações, valores aos quais se devem acrescentar os dados da AHRESP que anunciam que em 2016, um terço dos empregos gerados se devem ao turismo. Em 2017 os dados registaram novos recordes. Atingiu-se, pela primeira vez, a marca dos 20 milhões de hóspedes e os proveitos cresceram 18% face a 2016.

PORQUÊ O TURISMO? Com base nos documentos elaborados pela UNWTO na sua iniciativa do Turismo Sustentável - Eliminação da pobreza (ST-EP), foram identificadas algumas razões pelas quais o turismo pode ajudar: Valorização de diferentes recursos O turismo valoriza caraterísticas como climas quentes, um rico património cultural, paisagens intactas e

biodiversidade abundante. Estas potencialidades estão particularmente presentes em áreas rurais, obtendo estas uma vantagem comparativa para o turismo enquanto estão em desvantagem na maioria dos outros setores económicos. Interligação Como o produto turístico é constituído por diferentes stakeholders, tendo uma grande e variada cadeia de valor, os gastos dos turistas podem beneficiar uma amplitude de setores como a agricultura, artesanato, transportes e serviços. Aproximação entre consumidores e produtores O turismo é, habitualmente, uma atividade que aproxima consumidores e produtores, sendo que é consumido no local da produção. A interação entre turistas e comunidades mais pobres pode ter diversos benefícios que podem ser desde uma maior consciencialização cultural, ambiental, de valores e problemas económicos, ao aumento de investimentos locais em infraestruturas. O sucesso do turismo enquanto atenuador dos níveis de pobreza vai depender de: • Até que ponto o setor do turismo está integrado na economia nacional através de ligações com outros setores e integração em cadeias de valor regionais e nacionais. • Se as receitas geradas pelo turismo são usadas no desenvolvimento de infraestruturas para suportar empresas locais, em particular pequenas e médias empresas, e se desenvolvem as aptidões e organismos necessários para dinamizar a economia local. • Se as políticas e estratégias adotadas pelos governos, se encorajam o aumento de investimento doméstico e estrangeiro no turismo, a transferência de tecnologia e know-how, se promovem atividades de trabalho intensivo, e se áreas das comunidades mais desfavorecidas são abrangidas pelo setor. • Esforços que assegurem que as atividades turísticas estão a ser realizadas de forma sustentável e alcançam os objetivos económicos, sociais e ambientais.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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82 CADERNO ESPECIAL

POBREZA EM PORTUGAL Em 2016 existiam na União Europeia 117,5 milhões de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social (23,4% da sua população). Portugal é um dos países da UE com elevados níveis de pobreza, ficando acima da média com 25,1% da sua população (2,6 milhões) em risco de pobreza (2016). A partir de 2014, após o pico da crise económica onde os níveis de pobreza se agravaram, é possível verificar de uma forma genérica um declínio nos indicadores de pobreza, sendo evidenciadas melhorias. Este declínio coincide com crescimentos mais avultados no desempenho da atividade turística em Portugal.

2013 2016 LIMIAR DE RISCO DE POBREZA (€)

4 937€

5 442€

TAXA DE DESEMPREGO

16,2%

11,1%

30%

27%

TAXA DE PRIVAÇÃO MATERIAL

25,5%

19,5%

% POPULAÇÃO EM RISCO DE POBREZA OU EXCLUSÃO SOCIAL

27,5%

25,1%

TAXA DE INTENSIDADE DE POBREZA

TURISMO VS NÍVEIS DE POBREZA A fim de perceber a relação entre o crescimento do turismo e os níveis de pobreza em Portugal foi realizada uma análise que visou identificar relações entre os indicadores de desempenho da atividade, como hóspedes, proveitos da hotelaria e taxa de desemprego, com indicadores das condições de vida e de emprego, como o limiar de risco de pobreza e a taxa de desemprego. Da análise entre os proveitos da hotelaria e o limiar do risco de pobreza identificou-se uma correlação positiva muito forte (0,95) evidenciando que, quando os proveitos da hotelaria crescem, cresce de igual forma o limiar da pobreza. Entendendo que o limiar do risco de pobreza é o limite do rendimento abaixo do qual se considera que uma família se encontra em risco de pobreza, vemos que, por exemplo, a partir de 2013, ao mesmo tempo que existem crescimentos significativos nos proveitos da hotelaria, aumenta também o limiar, que se fixou em 2016 nos 5442€ (453,5€ por mês). A correlação entre os hóspedes e o limiar de risco de pobreza corroborou a correlação positiva forte (0,93) atestando que um crescimento no turismo pode relacionar-se com o aumento do rendimento estabelecido como limiar de risco de pobreza.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


CADERNO ESPECIAL

milhões €

5550

3100

5350

2700

5150 2300 4950

milhões €

5550

20 19

5350

18

5150

17 16

4950

15

1900 1500

4750

14

4550

13

4750 4550

2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016

2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016

Proveitos hotelaria

Hóspedes

Limiar de risco de pobreza

Limiar de risco de pobreza

Para compreender se o setor do turismo está a ajudar a desenvolver a economia na perspetiva da criação de emprego observou-se a relação entre os proveitos da hotelaria e a taxa de desemprego, tendo sido obtida uma correlação negativa forte (-0,78). Desta forma é visível que, quando os proveitos crescem, a taxa de desemprego baixa, sendo especialmente visível a partir de 2014. Em 2016 os proveitos atingiram novos recordes com 9,9 mil milhões de euros e a taxa de desemprego registou 11,1%, o valor mais baixo entre os anos analisados. Em todos os gráficos é possível observar-se que a partir de 2014 ocorrem os crescimentos mais significativos nos indicadores do desempenho do turismo e, simultaneamente, a partir desse ano melhoram os indicadores de emprego e condições de vida.

%

milhões €

3100 2700 2300 1900 1500

A relação entre turismo e a atenuação dos níveis de pobreza não é linear, sendo que está, em grande parte, dependente da forma em como o setor está estruturado e organizado.

2011 2012 2013 2014 2015 2016

Proveitos hotelaria

18 16 14 12 10 8 6 4 2 0

Taxa desemprego

O TURISMO PENSADO E DESENVOLVIDO DE FORMA SUSTENTÁVEL, ASSUMINDO ASSIM UMA RESPONSABILIDADE TAMBÉM SOCIAL, PODE CONTRIBUIR PARA ATENUAÇÃO DOS NÍVEIS DE POBREZA E CONSEQUENTE MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA DAS COMUNIDADES. •

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86 TENDÊNCIAS

1995

geração Z MILLENNIALS GERAção y

1980

1965

PÓS II GUERRA MUNDIAL

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

geração x baby boomers


TENDÊNCIAS

GERAÇÃO Z

E O FUTURO DO TURISMO

A GERAÇÃO Z JÁ ESTÁ A IMPACTAR A INDÚSTRIA TURÍSTICA, MAS O SEU EFEITO ESTÁ AINDA LONGE DE SE FAZER SENTIR EM PLENO. Porém, antes de abordar as consequências que traz e poderá vir a trazer ao turismo, importa definir e caraterizar esta geração.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

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88 TENDÊNCIAS

Os indivíduos nascidos a partir de meio da década de 90 são considerados como parte da Geração Z, todavia, entre os vários especialistas da área, não é consensual o ano até o qual deixam de o ser. Alguns destes apontam o ano de 2005, enquanto que outros alargam o espetro até, no máximo, 2016.

O QUE NINGUÉM PODE CONTESTAR, PORÉM, É O FACTO DE QUE ESTA GERAÇÃO NÃO SABE O QUE É VIVER SEM TECNOLOGIA. Apesar dos millennials, anteriores à Geração Z, também terem uma relação muito próxima com a tecnologia e dominarem bem as respetivas ferramentas, ainda se recordam de como era a sua vida sem smartphones e sem internet. A forma como os Z’s cresceram a interagir com a tecnologia tornou-os muito informados, pois a resposta a todas as questões esteve sempre à distância de um clique. A expansão da internet por todo o mundo nos últimos anos eliminou as fronteiras, o que justifica que a Geração Z tenha uma atitude muito mais tolerante quanto às diferenças que possam existir entre os povos.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

Ao mesmo tempo, o seu crescimento ficou marcado, por um lado, pela crise financeira global que iniciou em 2008 e, por outro, pelos atos terroristas que se globalizaram e se tornaram cada vez mais frequentes. Estes eventos influenciaram esta geração que, ao contrário dos millennials, se tornou mais realista e cautelosa. Os jovens desta geração (com, no máximo, 20 anos de idade em 2018) estão prestes a entrar no mercado de trabalho e, por consequência, a obter os seus próprios rendimentos.

O RESULTADO? AS VIAGENS EM TURISMO DOS Z’S VÃO AUMENTAR DE FORMA EXPRESSIVA.


TENDÊNCIAS

O QUE A GERAÇÃO Z REPRESENTA HOJE PARA O TURISMO?

COMO É QUE SE VÃO COMPORTAR NO FUTURO?

Apesar de não estarem atualmente em pleno no mercado de trabalho (e turístico), os Z’s colocam já desafios exigentes ao setor do turismo. Estes serão decisivos para o sucesso das empresas turísticas que procurem satisfazer este tipo de turista.

Apesar de hoje em dia o mercado emissor turístico da Geração Z ainda não ser tão grande quanto o dos millennials, em 2020 os Z’s vão já representar 40% do total dos consumidores e terão todo o seu rendimento disponível alocado ao turismo3. Importa às empresas turísticas compreender como é que esta geração se vai comportar no futuro.

A Geração Z viaja mais do que qualquer outra geração quando tinha menos de vinte anos de idade. Estes são, desde que o turismo se globalizou, os indivíduos que começaram a fazer viagens mais cedo, seja com os amigos, com a sua família ou mesmo sozinhos.

Em primeiro lugar, a internet será indubitavelmente o centro da dinâmica turística: o local para procurar informação, para consultar o feedback de clientes, para reservar a viagem e as atividades, para partilhar conteúdos. Ainda assim, o destino, além da questão tecnológica, tem de garantir a autenticidade e singularidade da experiência turística, também permitindo que o turista interaja e conheça os usos e costumes da comunidade local.

No mesmo sentido, a vontade dos indivíduos desta geração é um dos fatores mais relevantes no momento da tomada de decisão dos seus pais aquando da escolha de um destino. Num estudo da IBM1 sobre a relação entre as marcas e os Z’s, mais de 70% destes indivíduos afirmam influenciar as decisões familiares na compra de vários tipos de produtos e serviços.

Em segundo, a Geração Z opta maioritariamente pelas redes sociais aquando da partilha online das suas experiências. Há neste contexto um aspeto peculiar que diz respeito à valorização da privacidade. A presença nas redes massificadas, em que os seus pais e familiares já começam a frequentar, é evitada ao invés de novas redes4. Em termos de redes sociais, e de acordo com a Hootsuite5, a Geração Z:

Nesta fase e neste momento, a Geração Z: • Procura destinos que potenciem a “shareability”. Os hotéis, por exemplo, devem criar locais que permitam a recolha de boas fotografias e vídeos para a partilha nas redes sociais. • Interessa-se por conhecer pessoas de diferentes culturas e entender os seus costumes e tradições. • Valoriza as experiências de influencers que seguem nos canais online (redes sociais, YouTube, blogs) e pretende replicá-las. Um estudo da Defy Media2 sobre o comportamento desta geração identificou que mais de 60% dos Z’s poderão vir a adquirir um produto ou serviço quando sugerido por um YouTuber, enquanto que apenas 45% o farão quando a sugestão vem de meios como a televisão ou o cinema.

• Aborrece-se com facilidade: os conteúdos têm de ser apelativos o suficiente para captar a sua atenção. Em média, a Geração Z tem um tempo médio de atenção de apenas 8 segundos (vs. 14 segundos dos millennials). • É resistente à publicidade: não gostam de ser incomodados com publicidade online, em especial banners e pop-ups que não acrescentem qualquer valor à sua navegação. Num recente estudo da empresa de investigação Kantar Millward Brown6, mais de metade (52%) dos Z’s afirmaram utilizar “ad-blockers” para afastar a publicidade de websites e aplicações móveis que visitam. Sustentabilidade, ambiente e natureza são, em terceiro lugar, dimensões essenciais para esta geração no turismo. As preocupações com estas áreas influenciam o seu processo de tomada de decisão no turismo: qual o

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90 TENDÊNCIAS

destino, que atividades realizar, que recursos proteger, entre outros fatores. Os Z’s estão comprometidos com a proteção do meio-ambiente, defendem uma alimentação cada vez mais saudável e utilizam produtos ecológicos e amigos do ambiente7. Posteriormente, realça-se outro facto curioso dos Z’s no turismo, evidenciado num artigo recente de Deep Patel na Forbes8, que é a sua posição independente face a qualquer marca. Esta geração desvaloriza os programas habituais de fidelização das marcas turísticas para poder fazer as suas escolhas de forma mais livre. Por fim e pelo facto de terem crescido na época da crise/recessão, os Z’s tornaram-se também sensíveis a variações no preço. Por essa razão, comparam preços em diferentes plataformas e valorizam “best deals”. No mesmo sentido, é um mercado com tendência a privilegiar economias de partilha7.

mais de

apenas

mais de

influenciam decisões familiares sobre compras de produtos e serviços

têm perceção positiva sobre publicidade online no mobile

utilizam AdBlockers

poderão vir adquirir um produto ou serviço quando sugerido por um YouTuber vs. 45% face à televisão ou cinema

IBM, 2017

Kantar Millward Brown, 2017

Kantar Millward Brown, 2017

Defy Media, 2016

70% 30% 52% 60% AS 3 MUDANÇAS QUE VÃO EXIGIR DO SETOR A adaptação do mercado turístico à Geração Z será complexa e longa, contudo existem três áreas que as empresas e os agentes devem privilegiar. TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

ESTAR - Presença online As empresas turísticas que não apostem numa presença online simplesmente não conseguirão atrair a atenção da Geração Z. Estes viajantes procuram informação para os seus problemas, curiosidades e inspiração nos vários canais online. Ou o produto turístico está online ou deixa de existir. Estudar que canais os Z’s privilegiam é um trabalho essencial: que bloggers ou YouTubers seguem; quais as redes sociais populares mas que ainda lhes dão alguma privacidade; ou de que forma pesquisam nos motores de busca.


TENDÊNCIAS

SER AUTÊNTICO Oferta de experiências Esta geração valoriza a experiência nas suas viagens, mais do que as gerações anteriores (à exceção dos millennials). Querem que a sua viagem seja autêntica, real. Apesar desta geração ter, mais do que outras, o preço como fator determinante da procura turística, está disposta a pagar um valor extra para disfrutar de “once-in-a-lifetime experiences”. Depois de atraídos ao destino por fotografias e vídeos de outros viajantes (conhecidos ou influencers digitais), os Z’s querem viver as experiências retratadas. Mas, além disso, precisam que a experiência possa ser partilhável.

SER RÁPIDO Rapidez na resposta Estes jovens nasceram com a resposta para todos os seus problemas no seu smartphone ou tablet. Mais do que qualquer outra geração, esta exige respostas rápidas (e fáceis) e o setor do turismo deve estar preparado para isso, tal como acrescentou Iñaki Ortega9 numa das suas recentes dissertações sobre a Geração Z. Este facto justifica a crescente utilização das aplicações de mensagens pelos Z’s, sendo que algumas empresas já têm Chatbot’s (ou apenas Bot’s) que, de forma automática e através do recurso a inteligência artificial, conseguem responder às questões colocadas e resolver problemas. •

1

IBM - Institute for Business Value, “Uniquely Generation Z - what brands should know about today’s youngest consumers”, janeiro de 2017;

2

Defy Media, “Acumen Report – Constant Content”, fevereiro de 2015;

3

Digital Tourism Think Tank, “Gen Z: the New Destination Disruptors”, julho de 2016;

4

Business Insider, “Millennials have taken down dozens of industries but it looks like Gen Z will be the ones to hurt Facebook”, janeiro de 2018;

5

Hootsuite, “The Social Media Habits of Generation Z”, julho de 2017;

6

Kantar Millward Brown, “Ad Reaction - Gen X, Y and Z”, janeiro de 2017;

7

Hosteltur, “Los Z Toman El Mando y revolucionan el sector turístico”, dezembro de 2017;

8

Deep Patel, “5 Differences Between Marketing To Millennials Vs. Gen Z”, novembro de 2017;

9

Iñaki Ortega, “Iñaki Ortega (Deusto): La irreverencia y la inmediatez de la generación Z son la chispa de la innovación”, junho de 2016.

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92 TENDÊNCIAS

IWONA FLUDa Investigadora Consultora de marketing

Geração Z

Como os criadores do Big Data desafiam a indústria de viagens O que há de novo na indústria de viagens? Rápidas mudanças, originadas pela revolução tecnológica. As mais recentes tendências estão definitivamente conectadas com o aumento do Big Data como um novo grupo-alvo no horizonte de rápido crescimento, e influenciam toda a indústria com a sua nova abordagem e o seu grande potencial: a Geração Z.

TURISMO’17 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


TENDÊNCIAS

ESQUEÇA OS MILLENNIALS. A GERAÇÃO Z TEM O PODER DE MUDAR TODA A INDÚSTRIA MAIS RAPIDAMENTE QUE O QUE PENSAMOS, MAS VAMOS COMEÇAR...

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94 TENDÊNCIAS

Para percebermos melhor este tópico, é importante definir a Geração Z. Demograficamente falando, esta geração inclui pessoas nascidas entre meados da década de 1990 e meados dos anos 2000. As suas caraterísticas podem ser amplas, tornando-se difícil generalizar acerca de toda a geração. No entanto, há uma coisa que a distingue de outras faixas etárias: a Geração Z é a primeira geração digitalmente nativa, uma vez que foi cercada por tecnologia impulsionada pela Internet desde o início. O acesso fácil ao mundo digital teve um impacto inquestionável sobre o caráter, o desenvolvimento (social) e o comportamento da Geração Z em muitos aspetos, como por exemplo na forma como comunicam. O mundo online tornou-se, em muitos aspetos, um mundo paralelo ao offline para a Geração Z, uma vez que foi adotado como parte integrante das suas vidas. Eles podem criar o seu próprio ambiente online ao envolverem-se constantemente nas redes sociais, influenciando o seu desenvolvimento. O Instagram, o Snapchat e o YouTube são os canais de redes sociais mais comuns. Partilhar informações, fotografias e vídeos, estar constantemente em contacto com os amigos e seguidores e ter liberdade de expressão no mundo digital torna-os criadores da sua própria identidade online, influenciando a sua personalidade offline. O mundo online engloba não só as redes sociais, mas também os motores de busca e os websites, que são as principais fontes de inspiração para o processo de tomada de decisão e para o desenvolvimento de planos de viagem. Contudo, a internet também é um lugar onde a Geração Z deixa uma pegada de dados maciça.

SIM. BIG DATA. O Big Data representa grandes conceitos, também na indústria de viagens. A variedade dos dados não estruturados criados no mundo online pode parecer inútil na perspetiva do negócio, mas a combinação da variedade e a capacidade de entender as conexões existentes fazem toda a diferença. TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

E isto é importante porquê? O conteúdo criado, por exemplo, no Instagram mudou completamente a indústria de viagens e turismo. A geração Z não só cria esses dados numa base constante, mas também reconhece as oportunidades relacionadas com eles. O seu acesso constante à informação, a sua capacidade e as infinitas possibilidades de criar e divulgar conteúdo, a consciência do seu impacto e atitude blasé em relação à privacidade, definem os novos hábitos de consumo da Geração Z. Além disso, a Geração Z confia mais nas opiniões dos seus amigos e seguidores online do que em outras fontes. Por último, mas não menos importante, a Geração Z está ciente das possibilidades das redes sociais e do Big Data - também é assim que cria as suas próprias oportunidades de negócios.

VAMOS FALAR DA GERAÇÃO Z • Relação com o dinheiro: não podemos dizer que a Geração Z tem muito dinheiro para gastar em férias, mas reconhece o valor de viajar e ter pouco dinheiro não os impede de partir para uma aventura. A Geração Z está sempre à procura das melhores ofertas. • Relação com as companhias aéreas: todas as estatísticas apontam na mesma direção: a Geração Z é generosa no que respeita aos gastos com voos: um quarto do seu dinheiro é investido em voos. Isto representa mais do que em qualquer outra geração. • Relação com o alojamento: a Geração Z procura alojamento mais barato durante a sua viagem. • Relação com ofertas dos destinos: a Geração Z quer aventura! Os seus representantes adoram atividades ao ar livre, combinadas com visitas a locais remotos e interação com as comunidades locais. Todas as informações acima sobre a Geração Z e os vestígios que deixam online são cruciais para o Big Data e para as perspetivas de negócios. Os vestígios online disponíveis podem ser encontrados nas seguintes fontes: e-mails, reservas (por exemplo, data e hora de partida e chegada, cidade de destino e partida), itinerários, alojamento (por exemplo, hotel, conexões de aluguer de automóveis), inquéritos, transportes, preços,


TENDÊNCIAS

cancelamentos, comentários dos clientes (comentários em redes sociais), geolocalização, histórico de pesquisas, histórico de compras.

A GERAÇÃO Z É UMA GERAÇÃO ALTAMENTE ENVOLVIDA E PELO MUNDO ONLINE. A PEGADA ONLINE REGISTADA DIARIAMENTE É ENORME. A Geração Z também influencia outras pessoas através de redes sociais (gostos, seguidores, conteúdo etc.). Isto apenas para mencionar alguns aspetos. As companhias aéreas, por exemplo, também recolhem informações sobre os pontos de cartão de crédito obtidos, escolhas alimentares durante o voo, milhas usadas, bagagem despachada, compras durante o voo, gastos nas lojas duty free. É uma quantidade significativa de dados úteis.

ENTÃO, O QUE É QUE AS EMPRESAS PODEM FAZER COM ISTO? É aqui que o Big Data Analytics necessita de ser considerado como um transformador do setor. Graças ao Big Data Analytics, as empresas são capazes de projetar novas estratégias de negócios, com base em informações profundas dos clientes, analisar as tendências e melhorar as suas estratégias de marketing. Podem medir, observar, analisar dados e, assim, compreender os seus clientes mais exigentes para implementar estratégias relevantes e melhorar/criar produtos e serviços para eles. Mas isto não é tudo. Ao usar o Big Data de forma eficaz, podem diferenciar-se dos seus concorrentes, por exemplo melhorando as suas estratégias de preços.

Este é apenas o começo para a indústria de viagens, e esta oportunidade empresarial não deve ser perdida!

Resumindo, a Geração Z é uma geração altamente envolvida e influenciada pelo mundo online. É, também, responsável pela inconsciente criação do Big Data, que terá, no futuro, ainda mais poder para influenciar a tomada de decisões nas viagens. Do ponto de vista técnico, isto significa que a Geração Z deixa uma enorme pegada online diariamente. Até 2030, prevê-se que seja a Geração Z a gastar mais dinheiro em viagens. Numa perspetiva de negócios, é uma oportunidade para analisar as pegadas, identificar padrões, entender as necessidades desse grupo e direcionar ofertas personalizadas dentro de anúncios (sociais) de marketing, que atendam às suas necessidades. É possível fazê-lo melhor do que para qualquer geração anterior e, claro, trará lucro às empresas que trabalharem as estratégias de marketing corretamente. E aqui estamos nós a falar sobre 90% de toda a geração que influencia o mundo online. Esta é a principal razão pela qual é crucial para a indústria de viagens reconhecer a Geração Z como transformadora do setor, e implementar as estratégias necessárias para satisfazer a maioria dos clientes desta geração. •

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Desafios da Implementação da estratégia turística Municipal

Estará o seu município no caminho certo?

O TURISMO, MAIS DO QUE UMA MODA, É UM FENÓMENO ECONÓMICO E SOCIAL DE PRAZO ILIMITADO. TRATA-SE DE UM DOS SETORES ECONÓMICOS COM MAIS RÁPIDO CRESCIMENTO EM TODO O MUNDO. Nesta perspetiva, os municípios que apoiam o turismo e o alinham com as iniciativas de desenvolvimento económico, verificam investimentos multissetoriais significativos e o reconhecimento e apoio da população, como retorno direto desse esforço. O desenvolvimento turístico equilibrado de um destino exige uma estratégia objetiva, ajustada a novas realidades e perfis de consumo. Enquanto setor multidisciplinar, o turismo necessita de uma política integradora das várias dimensões que lhe são conexas.

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


DESAFIOS

PODEMOS DIVIDIR O PLANEAMENTO ESTRATÉGICO EM TURISMO EM 5 FASES PRINCIPAIS: 1. Diagnóstico Identificação do estágio de desenvolvimento do destino; estudo dos fluxos turísticos; posicionamento do destino junto dos concorrentes; análise das tendências globais do turismo.

2. Estratégia Visão e missão; objetivos e metas a atingir; opções estratégicas para o produto e mercados; planos de marketing e de ação.

3. Implementação Estratégias detalhadas para alcançar resultados; abordagens para trabalhar com parceiros e stakeholders; sistemas de gestão da informação e conhecimento; questões operacionais e calendarização.

4. Monitorização Análise da evolução das metas; partilha de resultados; ajuste de estratégias; melhoria de desempenho

5. Capacitação Envolvimento dos residentes; turismo nas escolas; colaboração público-privada; sustentabilidade ambiental, económica e social.

Focando-nos na última das fases propostas, a da capacitação, lançamos a reflexão:

OS RESIDENTES ESTÃO PREPARADOS PARA ACOLHER OS TURISTAS? A COMUNIDADE RECONHECE OS BENEFÍCIOS DO TURISMO? Agora que já ponderou nas questões que colocamos, vamos a casos práticos. O que é que se faz bem, a nível municipal no que à implementação e capacitação turística diz respeito?

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98 DESAFIOS

Santa Maria da Feira: o mais prestigiado palco de eventos nacional Apesar das dinâmicas turísticas, reconhecidas nacional e internacionalmente, o turismo de Santa Maria da Feira apresenta ainda um enorme potencial de crescimento. Daí surgiu a necessidade de desenvolver um Plano Estratégico e de Marketing para o setor, com o objetivo de tornar Santa Maria da Feira no mais prestigiado palco de eventos nacional.

80%

CAMAS EM ESTABELECIMENTOS HOTELEIROS

+4,3% CRESCIMENTO MÉDIO ANUAL DAS DORMIDAS (2008-2015)

+9%

CRESCIMENTO MÉDIO ANUAL DOS PROVEITOS DE APOSENTO (2009-2015)

156MIL 61%

46€

VISITAS NAS ATRAÇÕES TURÍSTICAS (2016)

PREÇO MÉDIO/NOITE (QUARTO DUPLO)

DAS DORMIDAS SÃO DO MERCADO PORTUGUÊS (2015)

METAS 2021

145MIL

DORMIDAS

41

%

OCUPAÇÃO -CAMA

TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS

31,5% TAXA DE SAZONALIDADE

260MIL VISITAS NAS ATRAÇÕES TURÍSTICAS


DESAFIOS

EMÍDIO SOUSA Presidente Câmara Municipal Santa Maria da Feira

Inovação, empreendedorismo, business intelligence e melhoria constante da experiência e do serviço são conceitos que os destinos devem priorizar na sua estratégia. O turismo é um dos setores que mais tem crescido em todo o mundo e que se tem revelado dos mais resilientes face às crises que têm assolado o mundo desde o início deste século. A Organização Mundial do Turismo continua a prever um crescimento sustentado dos fluxos turísticos nos próximos anos estimando que, em 2030, as chegadas internacionais dupliquem face a 2010, atingindo-se 1,8 mil milhões de chegadas. O setor é uma das prioridades da economia portuguesa sendo já a maior atividade exportadora do país e posicionando Portugal como o 15º destino mais competitivo do Mundo, num mundo onde a indústria do turismo é responsável por cerca de 10% de toda a atividade económica global. O período é de crescimento, contudo cabe a nós, decisores políticos, definir metas e objetivos, num planeamento integrado do turismo de horizonte alargado, alinhando a estratégia com os desafios emergentes do século XXI. Considerando a inovação, o empreendedorismo, o business intelligence e a melhoria constante da experiência e do serviço, enquanto elementos fundamentais da sua estratégia. É neste contexto de crescimento que perspetivamos, para Santa Maria da Feira, uma oportunidade única para a consolidação e internacionalização do destino, tendo definindo, como objetivo coletivo para 2021, ser o mais prestigiado palco de eventos nacional assente nas dinâmicas do binómio cultura/negócios. Para atingir o enunciado objetivo coletivo, envolvendo residentes e toda a cadeia de valor do turismo local, foram identificados elementos do território únicos e inimitáveis, com potencial de desenvolvimento turístico, e criados quatro polos turísticos (Castelo e Centro Histórico; Europarque; Termas e Natureza e Turismo Industrial). As estratégias realistas devem atender ao diagnóstico e auscultação das bases. Feito o diagnóstico elaboramos um plano estratégico com metas claras, definidas para 2021, entre as quais se destacam alcançar as 145 mil dormidas, aumentar para 41% a taxa de ocupação-cama, alcançar o número de 260 mil visitantes nas atrações turísticas e reduzir a taxa de sazonalidade para 31,5%. Procuramos sobretudo construir um referencial estratégico para os agentes e investidores do território, um referencial para a competitividade de Santa Maria da Feira, planeando um dos setores económicos do futuro, considerando as necessidades do setor, na era

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do turismo INTELIGENTE; INFORMADO e INDEPENDENTE, que se poderia resumir a três objetivos:

1. melhorar a oferta do destino e da experiência do visitante 2. melhorar o desempenho do destino 3. reforçar a notoriedade do destino Definidos os objetivos e a estratégia para lá chegar, Santa Maria da Feira coloca agora a tónica na originalidade, pioneirismo, criatividade, capacidade de inovação, profissionalismo e experiência, enquanto atributos diferenciadores que se devem potenciar, por forma a trilhar caminhos que atraiam cada vez mais visitantes ao território. Os eventos e ações culturais, o Castelo, a Fogaça da Feira, a Cortiça e o Papel, o Europarque, as Termas das Caldas de São Jorge e os cursos ribeirinhos do Uíma e Inha têm um papel central no desenvolvimento da Estratégia Turística de Santa Maria da Feira, apostando-se numa visão de complementaridade para a visitação turística composta por uma diversidade de experiências e atividades. Não obstante a preponderância destes elementos centrais, identificamos um outro ativo que pretendemos envolver e potenciar - a diáspora, os Feirenses no Mundo. A partir das memórias e afetos pretendemos instituir, em cada Feirense no Mundo, a missão de ser o melhor embaixador do destino e da marca Santa Maria da Feira.

COM ESTAS AÇÕES PLANEADAS E CONCERTADAS ESTOU CERTO QUE PROMOVEREMOS O DESENVOLVIMENTO SOCIAL, ECONÓMICO E AMBIENTAL DE TODO O NOSSO TERRITÓRIO ATRAVÉS DO TURISMO. Consciente da minha missão enquanto autarca local, atento à proximidade do futuro quadro comunitário 2021- 2027, não posso deixar de alertar que agora é o momento para promover o diagnóstico e a discussão, identificando as necessidades específicas dos territórios, devidamente enquadradas nas regiões, no país e na globalidade do Mundo no qual a Europa se inscreve. Só com planeamento rigoroso e visionário será possível garantir a melhor preparação dos instrumentos de financiamento para um setor no qual inovar constantemente é fundamental. •

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DESAFIOS

Vila Nova de Gaia: Take the Ocean Home

UM EM CADA 3 TURISTAS VISITA O PORTO E NORTE DE PORTUGAL (PNP) PARA APROVEITAR O CLIMA E AS PRAIAS, SEGUNDO DADOS DO ESTUDO DO IPDT SOBRE O PERFIL DO TURISTA QUE VISITA O DESTINO, RELATIVOS AO VERÃO IATA 2016. Estes números acompanham o comportamento do turista europeu.

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Procurando tirar partido da popularidade internacional do Porto e Norte de Portugal, mais concretamente da cidade do Porto, que tem conhecido um forte incremento turístico nos últimos anos, o Município de Gaia tem como objetivo posicionar-se como a área balnear da cidade do Porto. Com 15 quilómetros de extensão de praias (é o município com mais praias com bandeira azul em Portugal), aliando iniciativas levadas a cabo no âmbito da dinamização de eventos, a realização de atividades lúdico-educativas e a candidatura ao programa “Quality Coast” Gaia oferece uma experiência complementar de lazer, associada à saúde e ao bem-estar, proporcionada pela qualidade das suas praias. A campanha “Take the Ocean Home” tem como objetivo estratégico aumentar a notoriedade de Vila Nova de Gaia e das suas praias junto dos mercados internacionais e, consequentemente, desenvolver os negócios locais da marginal e diminuir a sazonalidade da procura turística no destino. •

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O programa “Take the Ocean Home” terá lugar durante a época balnear de 2018, prolongando-se até outubro, através da disponibilização de transportes gratuitos que vão levar os turistas às praias de Gaia.


DESAFIOS

EDUARDO RODRIGUES Presidente Câmara Municipal Vila Nova de Gaia

OS DESAFIOS DO CRESCIMENTO TURÍSTICO O município de Vila Nova de Gaia tem vivido, com orgulho, mas igualmente com preocupação, o exponencial aumento de visitas de turistas.

A CADA ANO QUE PASSA, OS NÚMEROS REVELAM RESULTADOS EXCECIONAIS E NÚMEROS DESAFIANTES PARA O FUTURO. Em 2016, por exemplo, registaram-se mais de seis milhões de dormidas na região Norte.

Pelas caves do Vinho do Porto, no Centro Histórico de Gaia, passaram mais de um milhão de turistas. Beneficiamos, com orgulho, desta cada vez mais forte “marca Porto” e estamos a criar um conjunto de canais para cativar os turistas a visitarem Gaia uma segunda e, até, uma terceira vez - a reabilitação do Centro Histórico e a requalificação da orla fluvial, nomeadamente dos areinhos de Oliveira do Douro e de Avintes, são excelentes exemplos disso mesmo. Temos, por isso, de continuar atentos e empenhados para que o turismo tenha reflexos inquestionáveis no crescimento económico da região, explorando ao máximo as suas potencialidades, que poderão ser decisivas para o futuro do concelho de Gaia, da região Norte e, até, do País. Neste contexto, é fundamental que idealizemos iniciativas a pensar naqueles que nos visitam e em cativar gente que não conhece a região para vir cá; mas é agora que temos, também, de assumir um projeto suficientemente atrativo para fazermos voltar quem já cá esteve. É imperativo diversificar o menu de atratividade de Gaia e da região - da Red Bull Air Race aos santos populares; do Fórum Internacional Gaia Todo um Mundo à recuperada Festa de Reis -, com roteiros variados e destinados a diferentes públicos, com uma oferta cultural abrangente e com um município cada vez mais preparado para bem receber os seus visitantes. •

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Vila do Conde: Branding e cultura pró-turismo Vila do Conde é, há várias décadas, um dos principais destinos balneares do norte de Portugal e local de muitas segundas residências de verão e fim-de-semana. Numa altura em que o turismo se assume como atividade de extrema relevância para a economia local, com capacidade de potenciar e agregar vários setores económicos, surgiu a necessidade de responder de forma mais eficaz às novas dinâmicas dos mercados e de um público cada vez mais diversificado e exigente. Foi neste contexto que Vila do Conde tomou a decisão de elaborar o Plano Estratégico de Desenvolvimento e Marketing Turístico, que fornece orientações específicas a todos os intervenientes no setor, para que o município surja como um dos principais roteiros turísticos da região e do país. Nesta perspetiva, e depois de definida a estratégia, Vila do Conde avançou com a criação de uma marca para o turismo, que foi recentemente apresentada no decorrer da Bolsa de Turismo de Lisboa de 2018.

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A marca reflete a história, a diversidade, a tradição, o bem-receber e a acessibilidade enquanto grandes valores do turismo de Vila do Conde. Tem como objetivo principal reforçar a notoriedade do município a nível nacional e internacional, identificando o destino e a oferta de experiências que o distinguem dos concorrentes. E porque os habitantes locais são um elemento fundamental na experiência turística e, como tal, devem ser parte integrante de qualquer estratégia que envolva o desenvolvimento do turismo, o município de Vila do Conde vai avançar com uma campanha de sensibilização dos residentes. A ação visa, essencialmente, alertar para a importância do setor na economia e na sociedade do município, na perspetiva de acolher positivamente todos os visitantes. •


DESAFIOS

ELISA FERRAZ Presidente Câmara Municipal Vila do Conde

Confirmando uma crescente animação no setor do turismo, Portugal foi eleito, no ano passado, como o melhor destino do mundo pelos World Travel Awards, tendo sido visitado por mais de 12 milhões de turistas, o que confirma o relatório da Organização Mundial do Turismo e a colocação do nosso país entre os vinte melhores destinos turísticos do mundo. Esta procura crescente de Portugal, potenciada pelas condições existentes e com distribuição pelos mais diversos segmentos da oferta turística, beneficia claramente o país no seu todo, e tem evidentes reflexos, por exemplo, na clara melhoria dos índices económicos e na criação de emprego, absorvendo mesmo ativos provenientes de setores de atividade que foram duramente atingidos pela recente crise financeira e económica.

Vila do Conde foi sempre um destino turístico muito atrativo, mas o mencionado aumento significativo do fluxo de visitantes trouxe uma nova realidade e novas exigências. Estes novos desafios têm de ser avaliados em todas as suas dimensões, com o objetivo de melhorar os canais de informação, os meios de acolhimento, a atração pelos potenciais polos de interesse, a adequação da atividade económica ligada ao setor, o envolvimento dos residentes e, naturalmente, a consolidação do concelho como um destino turístico de excelência. Existem realidades geográficas excecionais, num território em que a presença do litoral se cruza e harmoniza com o rural, com uma diversidade paisagística excecional, com uma gastronomia única, com uma marcante agenda cultural e de eventos, com um precioso património monumental, testemunho de mais de dez séculos de história, e com ofertas diversificadas que se baseiam no cruzamento de excecionais condições naturais que têm o mar, o rio, a natureza, e também as pessoas, como fatores indissociáveis de atratividade. Existe no concelho um conjunto significativo de tradições populares, corporizadas nas suas festas e romarias, que acontecem ao longo do ano, estando ainda dotada de um conjunto de núcleos museológicos nos quais se evocam memórias da vivência comunitária, de artes, ofícios e de personalidades ligadas à cultura, que aqui nasceram e/ou residiram. O mesmo acontece no campo das artes tradicionais, destacando-se as rendas de bilros, que constitui uma manifestação artesanal de excelência, bem como a construção naval em madeira, de que Vila do Conde é uma referência incontornável, não só na construção de embarcações, mas também na sua ligação à expansão marítima portuguesa e às atividades ligadas ao mar e às pescas, que estiveram na génese da criação do projeto municipal “Vila do Conde: um porto para o Mundo”, que está em marcha e que tem como grande objetivo a sua classificação como Património Mundial da Humanidade.

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Para a promoção e cativação de visitantes, é fundamental a estreita colaboração que tem vindo a ser desenvolvida com a Turismo do Porto e Norte de Portugal, tal como a integração deste município na Área Metropolitana do Porto, a que se acrescentam a proximidade da Galiza e do destino Porto, a invejável situação geográfica do concelho e o conjunto de infraestruturas que o servem, como é o caso dos vários eixos rodoviários, do aeroporto, muito próximo, e do recentemente inaugurado terminal de cruzeiros de Leixões. Desta forma, e com estas condições excecionais, cumpre-nos afirmar Vila do Conde como um destino turístico de eleição, promovendo as riquezas e potencialidades do concelho, e fazendo a respetiva promoção num significativo conjunto de mercados, proporcionando o desenvolvimento do setor e promovendo o aumento exponencial das suas potencialidades.

VILA DO CONDE É O SEU DESTINO! •

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14,6MIL 2015

26

MIL META 2021

HÓSPEDES

26,4MIL 2015

52

MIL META 2021

DORMIDAS

VISITANTES ATRAÇÕES TURÍSTICAS

50MIL 2015

71

MIL

META 2021

Melgaço: o destino de natureza mais radical de Portugal TURISMO’18 _ ANUÁRIO DE TENDÊNCIAS


DESAFIOS

EM 2015, O MUNICÍPIO REGISTOU UM AUMENTO DE 25% NO NÚMERO DE VISITANTES NOS ESPAÇOS CULTURAIS, FACE A 2014. Tendo por base a premissa de que o turismo é um poderoso impulsionador do desenvolvimento dos territórios e das comunidades, o Município de Melgaço apostou no desenvolvimento de um Plano Estratégico e de Marketing para o Turismo. Ao longo do desenvolvimento do trabalho concluiu-se que uma das ações prioritárias era a criação de uma marca forte, que representasse o turismo de Melgaço em linha com a estratégia definida.

O plano está, desde finais de 2017, em fase de implementação e, hoje, o turismo de Melgaço já tem uma identidade, podendo dirigir-se ao mercado com uma imagem positiva, que lhe permite ser reconhecido face a outros destinos turísticos. A implementação do plano estratégico em Melgaço passa também pelo desenvolvimento de uma campanha de marketing digital com o objetivo de dar a conhecer a oferta turística do destino a potenciais segmentos de mercado e dinamizar a venda, conduzindo e incentivando o turista a um processo de regresso ou de recomendação com novas experiências. A campanha, com a duração de doze meses, estará em curso durante todo o ano de 2018.

Melgaço está consciente da importância de sensibilizar residentes, trade e stakeholders para a importância do turismo na economia e na sociedade. Neste sentido, será lançada em breve uma campanha de sensibilização no destino, tendo em vista a melhoria da experiência do visitante e a proteção do destino, na perspetiva da preservação da autenticidade e dos atributos naturais e ambientais que o caraterizam e diferenciam. •

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MAnoel batista Presidente Câmara Municipal Melgaço

O turismo em Portugal tem vindo a afirmar-se como um setor verdadeiramente estratégico para a nossa economia. As inúmeras distinções e prémios internacionais, pelas marcas de produtos de excelência mundial, por cidades eleitas destinos de topo nos rankings internacionais, evidenciam uma evolução muito positiva.

A região do Porto e Norte de Portugal tem registado as maiores taxas de crescimento turístico ao nível de Portugal continental. Um cenário animador que traz oportunidades ao norte do país, e às quais Melgaço não é indiferente. Esta nova realidade representa uma maior responsabilidade para mantermos este ritmo de crescimento, potenciando e preservando os nossos recursos mais diferenciadores, tendo por base a premissa de que o turismo é um poderoso impulsionador do desenvolvimento dos territórios e das comunidades. Para que este potencial se torne efetivo, é fundamental sabermos onde estamos, para onde queremos ir e qual o caminho a percorrer. Por essa razão desenvolvemos o presente Plano Estratégico e de Marketing para o Turismo de Melgaço. Trata-se de uma ferramenta para o desenvolvimento futuro do nosso turismo e fornece orientações aos agentes económicos, contribuindo para a criação de emprego e melhoria da qualidade de vida dos nossos habitantes. Estamos certos que o correto posicionamento e ação à escala municipal é indispensável, seja no reconhecimento do potencial turístico, seja como facilitador e promotor de um programa de ação que estruture e configure o produto turístico e o seu desempenho em benefício dos melgacenses. Desta forma, Melgaço pretende tornar-se o destino de natureza mais radical de Portugal, onde é possível praticar desportos de rio e montanha durante todo o ano, ao sabor de um Alvarinho único e de um fumeiro inigualável. Para tal comprometemo-nos a transformar o setor do turismo na alavanca da economia de Melgaço, através de um desenvolvimento sustentado, participado e inclusivo, em que todos os agentes locais se revejam e tenham orgulho em fazer parte. Ao longo do desenvolvimento deste trabalho concluímos também que a criação de uma marca forte, que representasse o turismo de Melgaço em linha com a estratégia definida, era uma das ações prioritárias. Partimos para a implementação e, hoje, o turismo de Melgaço já tem uma identidade. Podemos dirigir-nos ao mercado com uma imagem positiva, que nos permite sermos reconhecidos entre outros destinos turísticos. •

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112 VIAGENS

RICARDO PINTO Sub-diretor de informação Lusa Comentador de Política Nacional RTP Professor Universidade Fernando Pessoa

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Viagem no tempo


VIAGENS

O turismo permite que viajemos no espaço. Mas há locais que nos levam a viajar no tempo.

SAN REMO É UM DESSES SÍTIOS MÁGICOS.

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114 VIAGENS

No momento em que abandonei a autoestrada E80, que me ligou do sul de França ao sul de Itália, e comecei a descer a Via Ludovico Ariosto, o conta-quilómetros do carro somava quilómetros, mas os olhos descontavam anos.

APROXIMANDO-ME DE SAN REMO ERA FÁCIL SENTIR QUE ESTAVA A ENTRAR NUM OUTRO TEMPO, NUMA OUTRA DIMENSÃO. NUMA OUTRA ERA. Quando se passa pelo Santuario della Madonna della Costa, já nos arredores da cidade, a sensação é de que recuamos várias décadas. As ruas parecem ter parado no tempo. Não porque estejam degradadas, ou abandonadas. Mas porque parece que retiveram o sabor subtil de uma época em que San Remo era o destino de eleição de quem ansiava por férias numa praia solarenga no sul da Europa. Nem era preciso que existisse um hotel chamado Belle Époque – como existe, perto do famoso Casino de San Remo para percebermos que atravessa a cidade uma evidente nostalgia pelo século que passou, quando as suas praias eram símbolo de postais de férias, com senhoras de largas saias e sombrinhas para o sol e homens em fatos de banho de corpo inteiro. Contudo, San Remo não parou no tempo. Viveu esse tempo e arrastou-o consigo até ao presente. Por isso, na época alta, pelas ruas estreitas da cidade os mais idosos cruzam-se com jovens; os que se espraiam calmamente ao sol dividem o passadiço com os que correm para os mil

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eventos que enchem diariamente a urbe. E parece haver lugar para todos: numa pequena praça, no cimo de um morro onde apenas se chega por vias íngremes, uma banda inovadora toca temas da nova música europeia; uns metros abaixo, numa rua bem mais acessível a pernas cansadas, um outro palco deixa apreciar as melodias da época em que San Remo era a capital do festival de música italiana, realizado na cidade sem interrupção desde 1951, antes mesmo da chegada da televisão a Itália, em 1955. No Casino de San Remo, a fachada do edifício ainda preserva todo o encanto da altura em que o maestro da estação pública de radiodifusão italiana, Giulio Razzi ensaiava orquestras para o festival que ajudava a popularizar o mais recente “gadget”: os recetores de televisão. As imagens e os sons do festival de San Remo que chegavam aos milhares de espetadores espantados em frente à pantalha eram o reflexo de uma cidade que fazia sonhar com dias de praia e noites de diversão. Nas praias de San Remo, ainda se encontram os rituais tradicionais de aluguer de tendas e cadeiras, a recolha dos brinquedos de areia no final da tarde, a compra de gelados a vendedores com gestos largos e pregões bem sonoros. Nada daquilo é estranho para quem viveu a sua infância numa qualquer estância balnear europeia na segunda metade do século XX: ali, se fecharmos os olhos e abstrairmos a babel de linguajares, podemos imaginar-nos numa praia em Mira, ou Mindelo, nos anos 70, sem que haja muito para mudar. O espírito dessa época sente-se em muitos locais. Mas talvez em nenhum outro se sinta tanto como na Piazza San Siro, que semanalmente recebe, nos dias quentes de San Remo, os torneios de Burraco – um jogo tradicional de


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cartas organizado pelo clube de Bridge local. Dezenas de habitantes saem das suas casas, alguns nas suas melhores roupas domingueiras, outros em confortáveis preparos de verão, para se sentarem com ar sorridentemente sóbrio em mesas de quatro jogadores. Pela noite dentro, vão trocando de mesa, à medida que perdem, ou ganham, com a garra italiana disfarçada de “fair-play”, enquanto olham para as “mãos” que lhes calham em sorte, ou azar. Não fosse o computador que assenta os resultados dos jogos e os projeta num écran de LED’s para que todos consultem e pensaríamos que estávamos nos anos 50 do século passado, em sessões que rivalizariam, e resistiriam à invenção do televisor. Alguns metros ao lado destas partidas, na Piazza Colombo, um eufórico apresentador conduz um bem “kitsh” concurso de Miss San Remo, misturada com uma serenata dançante, anunciada em cartazes que falam em moda e beleza, tudo

em letras de forma que parecem retirados de campanhas publicitárias em estilo Art Nouveau. E as concorrentes mostram compaixão pela fome no Mundo e preocupações ambientais, enquanto desfilam em fato de banho perante um júri com as mais afamadas personalidades da vida económica e política da região. Umas ruas mais acima, com vista sobre o porto velho, jovens a finalizar os seus programas Erasmus fazem “uploads” de fotos no Instagram de um festival de Heavy Metal, enquanto trocam histórias por entre copos de plástico de cerveja. Esta é a outra San Remo:

a cidade que percebe que o passado não existe sem um futuro e que arranca soluções do seu passado nobre de retiro estival, como quem planta novas árvores de sementes antigas.

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VISITAR SAN REMO NUMA NOITE QUENTE DE AGOSTO É, NA VERDADE, UM EXERCÍCIO DE VIAGEM INTEMPORAL. O segredo da cidade está neste mister de conseguir misturar o passado com o presente e o presente com o futuro. Percebe-se isso muito bem nas ruas que se iniciam com lojas de comércio globalizadas e atuais e se prolongam com velhos botecos que mantêm a atmosfera de séculos passados. Tudo em perfeita harmonia. Tudo sem que se sinta a existência de guetos, evitando fronteiras urbanísticas. San Remo recorda que o conceito de destino turístico se está constantemente a redesenhar. A reinventar. O destino turístico não é apenas um ponto geográfico. Por vezes, pode ser, também, um ponto no tempo. Uma viagem no espaço e uma viagem no tempo. •

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A edição de 2018 da revista Turismo'18 abordou a temática do Overtourism - abordagens e soluções; a geração Z - como os criadores do Big Dat...

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