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O Livro de Apocalipse – Rev. Jocarli A. G. Junior

Estudo Quatorze:

Quinto Selo: A Oração dos Mártires [ Apocalipse 6.9-11 ] Com a abertura do quinto selo muda-se o cenário da terra para o céu. O quinto selo não aponta para um momento específico na história da raça humana, mas faz paralelo com as cenas dos primeiros quatro selos. Isto é, ela ocorre durante o tempo entre a ascensão de Jesus e seu regresso.191 Assim como os cavaleiros dos primeiros quatro selos, o quinto selo também retrata uma força. Essa força são as orações dos santos de Deus clamando por vingança contra a humanidade rebelde. 192 Três características tornam-se evidentes na media que o quinto selo é desvendado: as pessoas envolvidas, as orações feitas e as promessas que eles recebem.

I. Os Mártires 9

Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam.

“Vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos” – A palavra altar ocorre vinte e três vezes no Novo Testamento, das quais oito estão no Apocalipse (6.9; 8.3 [duas vezes], 5; 9.13; 11.1; 14.18; 16.7). Uma das questões debatidas pelos teólogos é tentar descobrir se a expressão “altar” se refere ao altar do incenso ou do sacrifício.193

191

KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento, Apocalipse. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 298. 192 MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (191). Chicago: Moody Press. 193 Para Willian Hendriksen esse é o altar de ofertas queimadas em cujas bases o sangue dos animais sacrificados deveria ser derramado, Lv 4.7 (HENDRIKSEN, William. Mais que vencedores. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 146). Já o comentarista George Ladd diz que não há problema algum em assumir as duas posições. Para ele, não há problema em misturar os símbolos e imaginar o céu tanto como o templo de Deus como onde está o seu trono, mesmo não havendo equivalente terrestre para a mistura dos quadros. Porém, mais adiante, ele admite que nesse texto, o altar é claramente o do sacrifício, onde o sangue sacrificial é derramado (LADD, George. Apocalipse, introdução e comentário. São Paulo: Editora Vida Nova, 1984, p. 78). Porém, o comentarista Kistemaker diz que O tempo dos sacrifícios expirou quando Cristo morreu na cruz (Hb 9.26; 10.12); portanto, este é o altar do incenso (KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento, Apocalipse. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 300). Da mesma forma pensa John MacArthur, “o altar que João viu provavelmente é emblemática do altar do incenso no Antigo Testamento (Êx 40.5), por causa da associação do incenso com a oração, cf. 5.8; 8.3-4; Sl 141.2; Lucas 1.10”, (MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (194). Chicago: Moody Press). Warren Wiesbe pensa de forma semelhante: “Assim em Apocalipse, as almas dos mártires “debaixo do altar” mostram que suas vidas foram entregues de modo sacrifical para a glória de Deus” (WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. São Paulo: Editora Geográfica, Vl: 6, 2006, 749).

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O apóstolo João parece apresentar sua visão em um contexto judaico, no qual o sangue de um animal, derramado sobre o altar do sacrifício, representava a vida do animal morto (Lv 17.11; ver também 4.7, 34). Semelhantemente, o sangue dos mártires foi simbolicamente derramado no altar de Deus no céu, onde suas almas encontraram um lugar de repouso. “Mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam” – João dá duas razões pelas quais os mártires foram mortos: por causa da palavra de Deus, e por causa do testemunho que mantiveram. “Mortos por causa da palavra de Deus” – A “palavra de Deus” é o evangelho que Deus deu aos homens e pelo qual eles são salvos, e que inclui as grandiosas realidades da ressurreição e senhorio de Cristo. “Mortos por causa do testemunho que sustentavam” – É uma referência a fidelidade deles a Jesus Cristo (cf. 1.2, 9; 12.17, 19.10, 20.4), o que foi demonstrado por sua proclamação da Palavra de Deus em face do ódio, das ameaças e as hostilidades que recebiam. George Ladd, corretamente afirma que, gramaticalmente, pode significar o testemunho que eles deram de Cristo; mas a partir do estudo desta frase é possível concluir que quem realmente deu testemunho foi Jesus; eles creram neste testemunho, e por causa disto foram mortos.194

II. A Oração 10

Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?

Quanto mais severa se torna a perseguição contra os cristãos, mais urgentemente os santos no céu clamam a Deus para julgar os habitantes da terra e vingar o sangue de seu povo. O clamor dos mártires é muito parecido com o grito dos profetas no Antigo Testamento, que lamentam a aparente lentidão do julgamento Santo sobre o mal.195 “Clamaram em grande voz” – A súplica dos mártires indica insistência e perseverança, e se parece muito com o clamor da viúva da parábola do juiz iníquo. Jesus concluiu a parábola perguntando: “Acaso Deus não fará justiça a seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite?” (Lc 18.7; comparar Sl 79.10).

194

LADD, George. Apocalipse, introdução e comentário. São Paulo: Editora Vida Nova, 1984, p. 78 Palmer, E. F., & Ogilvie, L. J. (1982). Vol. 35: The Preacher's Commentary Series, Volume 35 : 1, 2 & 3 John / Revelation. Formerly The Communicator's Commentary. The Preacher's Commentary series (172). Nashville, Tennessee: Thomas Nelson Inc. 195

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A palavra “clamar” (Krazō, em grego), é uma palavra forte, que enfatiza a necessidade urgente e representa emoções fortes (cf. Mt 9.27, 14.26, 30; 15.22; 20.3031; Marcos 9.24).196 “Soberano Senhor, santo e verdadeiro... ’’ – Os mártires recorrem a Deus reconhecendo o seu governo e atributos. Esta frase ocorre só duas vezes, aqui e na carta à igreja de Filadélfia, onde se aplica a Jesus (3.7). É interessante observar que a palavra “Senhor”, não se trata da palavra geralmente traduzida por Senhor no Novo Testamento – kyrios – mas de um título muito usado para Deus no Antigo Testamento grego, despotes, que significa, governo soberano de Deus sobre todas as coisas.197 Além disso, os mártires recorrem a dois dos atributos de Deus. Porque Deus é santo, Ele deve julgar o pecado (cf. Sl 5.4-5; Hb 1.13, Atos 10.42; Rm 17.31; 2.16, 3.6, 2Tm 4.1). Deus está acima de tudo o que é mau, Ele não pode tolerar o pecado. Ele também é verdadeiro, ou seja, aquele que é fiel à Sua palavra e promessas (Nm 23.19, 1Sm 15.29; Lc 21.33). “Até quando, ó Soberano Senhor?” – Deus disse a Caim depois de ter matado o próprio irmão: “E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim” (Gn 410). Assim como o clamor vem de baixo do altar, para onde corre o sangue derramado, é possível que seja o sangue dos mártires pedindo justiça, e não os mártires exigindo vingança pessoal. 198 Eles oram para que a justiça divina caia rápido sobre os perversos que mataram os jutos; e a justiça virá, porque Deus é santo e verdadeiro. Eles não buscam vingança, mas a vindicação da santidade de Deus. Um clamor pela honra de Deus.

III. A Promessa 11

Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram.

Dois elementos compõem a resposta de Deus para os mártires: um presente simbólico e uma palavra de paciência. “Vestidura branca” – Estas longas e brilhantes vestes brancas eram uma recompensa da graça (cf. 7.9, 14), simbolizando o dom de Deus da justiça eterna e bem-aventurança, a dignidade e a honra (cf. 3.5).199 Elas simbolizam toda a glória que os santos remidos desfrutarão no céu. A cor branca denota santidade (ver 3.4, 5, 18; 4.4; 6.11; 7.9, 13). É importante ressaltar que as almas dos mártires estão repousando junto ao altar; eles ainda não estão se alegrando da presença total de Deus.

196

MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (195). Chicago: Moody Press. LADD, George. Apocalipse, introdução e comentário. São Paulo: Editora Vida Nova, 1984, p. 78 198 LADD, George. Apocalipse, introdução e comentário. São Paulo: Editora Vida Nova, 1984, p. 80 199 MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (196). Chicago: Moody Press. 197

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“E lhes foi dito que repousassem um pouco mais, até que se completasse o número” – O repouso deve ser entendido como sendo o tempo de bem-aventurança e revigoramento junto ao altar.200 Essa não é uma repreensão por impaciência, já que a impaciência é pecado e coisas pecaminosas não entrarão no céu. Pelo contrário, é um convite para parar o choro e de desfrutar da bem-aventurança do céu e descansar até a hora de Deus para a ira chegar.201 “... um pouco mais...” – Esta frase indica que esse tempo não será demorado (cf. João 7.33; 12.35). Jesus se referiu à sua iminente partida quando disse: “Ainda por pouco tempo estou com vocês” (Jo 7.33 KJV) e “Ainda por pouco tempo a luz está com vocês” (Jo 12.35 KJV). Em contraste, as almas debaixo do altar devem esperar pelo tempo quando forem chamadas para o juízo que ocorrerá na consumação. Ninguém, nem mesmo o filho do Homem, conhece o tempo desse clímax, porque é Deus o Pai quem estabelece os tempos e as estações (Mt 24.36; At 1.7). No consenso geral, pelo prisma de nossa compreensão, somos inclinados a pensar que “pouco tempo” é um período curto. Pensamos em termos de tempo cronológico, mas os santos residentes na eternidade devem olhar para aquele breve intervalo, partindo da perspectiva celestial, e aguardar. “A espera de ‘um pouco mais’ é na avaliação divina apenas um momento efêmero, ainda que para nós possa estender-se por eras (cf. 12.12; 20.3).”202 “... até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram” – O término do “pouco tempo” chega quando o número desses santos no céu completarem-se. Ninguém na terra sabe quantos santos haverá, porque João nos diz que contemplou “uma grande multidão que ninguém podia enumerar” (7.9). Somente Deus conhece o número total de seus eleitos. Wiilian Hendriksen observa que o número exato “foi fixado desde a eternidade em seu decreto. Enquanto o número não for completado na terra, o dia do juízo final não virá”.203 Por outro lado, o fim não virá logo, e que a igreja experimentará mais épocas de martírio.204

Conclusão: Quanto mais perto chegamos do fim, mais feroz Satanás se lança contra o povo de Deus. Todavia, nem um fio de cabelo nosso pode ser tocado sem que Deus permita. Satanás pode até atacar alguns santos na terra e inclusive matar muitos deles até onde Deus lhe der permissão. Nesse período, pode até parecer que o adversário está vencendo, mas a primeira e à última palavra pertencem a Deus. Quando a paciência de Deus chegar ao fim, e o cálice de Sua ira transbordar, o tempo do juízo vai se aproximar (Mt 23.32; 1Ts 2.16).

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KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento, Apocalipse. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 303. 201 MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (197). Chicago: Moody Press. 202 Alan F. Johnson, Revelation, em The Expositor’s Bible Commentary, ed. Frank E. Gaebelein (Grand Rapids: Zondervan, 1981), 12.475. 203 HENDRIKSEN, William. Mais que vencedores. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 147. 204 LADD, George. Apocalipse, introdução e comentário. São Paulo: Editora Vida Nova, 1984, p. 80

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