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O Livro de Apocalipse – Rev. Jocarli A. G. Junior

Estudo Seis:

Pérgamo: Uma Igreja Mundana [ Apocalipse 2.12-17 ] A igreja de Pérgamo, como grande parte da igreja de hoje, tinham deixado de ouvir as advertências bíblicas contra o mundanismo. O ponto central dessa carta é alertar a igreja sobre o risco da perigosa mistura do povo de Deus com o engano doutrinário e com a imoralidade do mundo. Em conformidade com o padrão geral das sete cartas, a carta a Pérgamo se desdobra em sete etapas: o correspondente, a igreja, a cidade, o louvor, a admoestação, a ordem e o conselho.

I. O Correspondente (Ap 2.12) 12

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes:

O dono da espada de dois gumes afiada é o Senhor Jesus Cristo, ressuscitado e glorificado tal como registrado no 1.16. Ele, através do inspirado apóstolo João, é o autor desta carta. Assim como as cartas de Éfeso e Esmirna, Cristo se identifica com uma das frases descritivas de visão de João em 1.12-17. A espada afiada de dois gumes refere-se à Palavra de Deus. Hebreus 4.12 diz que “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração”. O apóstolo Paulo também usa a metáfora de uma espada para descrever a Palavra (Ef 6.17). Essa espada de dois gumes retrata a potência da Palavra e o poder de expor e julgar os mais íntimos pensamentos do coração humano.71 Ao falar sobre a Segunda Vinda de Jesus, o apóstolo João escreve que “Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus TodoPoderoso” (Ap 19.15). Ou seja, esta não é uma introdução promissora, é uma ameaça. É a primeira introdução negativa de Cristo para uma das sete igrejas. A igreja de Pérgamo enfrentaria um julgamento iminente se abandonasse totalmente a Deus e se comprometesse com o mundo.

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MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (83). Chicago: Moody Press. Para Walvoord, a espada é uma representação simbólica da capacidade dupla da Palavra de Deus. Ela é capaz de separar os crentes do mundo e condenar o mundo por causa do pecado. Era a espada de salvação, assim como a espada de morte. Walvoord, J. F., Zuck, R. B., & Dallas Theological Seminary. (1983-c1985). The Bible knowledge commentary : An exposition of the scriptures (2:936). Wheaton, IL: Victor Books.

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II. A Igreja (2.12a) 12

Ao anjo da igreja em Pérgamo...

O livro de Atos não registra a fundação da igreja em Pérgamo. De acordo com Atos 16.7-8, Paulo passou por Mísia (a região em que estava localizada Pérgamo) em sua segunda viagem missionária, mas não há registro de que o apóstolo tenha pregado o evangelho e fundado uma igreja ali. Provavelmente, a igreja de Pérgamo foi fundada durante o ministério de Paulo em Éfeso, quando o evangelho foi pregado em toda a província da Ásia (Atos 19.10).

III. A Cidade (2.12b) 12

... a igreja em Pérgamo...

A cidade de Pérgamo ficava ao norte do rio Caico, na zona sul de Mísia (leste da Turquia), era um dos maiores centros culturais da época helenística. Ao contrário de Éfeso e Esmirna, Pérgamo não era uma cidade portuária, mas ficava localizado a cerca de quinze milhas do Mar Egeu. No entanto, como antiga capital, Pérgamo era considerada a maior cidade da Ásia. O escritor romano Plínio, chamou-a de “a mais ilustre da cidade da Ásia” (citado em Robert H. Mounce, O Livro do Apocalipse, A New International Commentary sobre o Novo Testamento [Grand Rapids: Eerdmans, 1977], 95). Quando João concluiu Apocalipse, Pérgamo tinha sido a capital da Ásia por quase 250 anos (desde 133 a.C., quando o seu último rei transferiu seu reino a Roma).72 Pérgamo sobrevive até hoje como a cidade turca de Bergama. A cidade de Pérgamo possuía uma grande biblioteca (com 200.000 volumes de manuscritos), perdia apenas para Alexandria. A biblioteca de Pérgamo era tão impressionante que Marco Antônio enviou de presente a sua amante, a Cleópatra, a rainha do Egito. Segundo a lenda, buscando construir uma biblioteca tão grande quanto à de Alexandria, no terceiro século a.C. o rei de Pérgamo tentou atrair o bibliotecário de Alexandria para a sua cidade. Mas, o governante egípcio ficou sabendo do plano, se recusou a permitir a saída do bibliotecário, e em retaliação proibiu a exportação do papiro para Pérgamo. Por necessidade, os cidadãos de Pérgamo desenvolveram o pergaminho, feito de peles de animais, que veio a superar o papiro. Pérgamo gloriava-se de seus conhecimentos e cultura. Na verdade, a palavra pergaminho é uma derivação da palavra Pérgamo.73 Pérgamo era um importante centro de culto para quatro das principais divindades do mundo greco-romano, e os templos eram dedicados a Atena, Asclépio, Dionísio e Zeus. Além disso, Pérgamo construiu o primeiro templo dedicado ao culto do imperador na Ásia (29 a.C.), em homenagem ao imperador Augusto. Mais tarde, a cidade construiu mais dois templos, honrando os imperadores Trajano e Sétimo Severo. A cidade tornou-se assim o centro do culto ao imperador na província. Em outros lugares da Ásia, os cristãos sofriam uma vez por ano, quando eram obrigados a participarem do culto de adoração ao imperador. Mas, em Pérgamo, os cristãos

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MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (84). Chicago: Moody Press. MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (85). Chicago: Moody Press.

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estavam em perigo todos os dias. É provável que o mártir Antipas (2.13) tenha sido executado por se recusar a adorar o imperador.

IV. O Elogio (2.13) 13

Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita.

Apesar das circunstâncias difíceis, os crentes de Pérgamo corajosamente defendiam sua fé em Jesus Cristo. O Senhor os elogiou por perseverarem e viverem onde está o trono de Satanás, onde Satanás habita. Muitas sugestões têm sido oferecidas para entender o que significa a expressão “trono de Satanás”. O culto a Zeus. Alguns o identificam com o magnífico altar de Zeus, que dominava a acrópole de Pérgamo. Essa impressionante estrutura poderia facilmente merecer a designação de trono de Satanás. Era considerada um das sete maravilhas do mundo antigo. O culto a Asclépio (Esculápio). Outros ligam o trono de Satanás com a adoração ao deus Asclépio que prevaleceu em Pérgamo. Asclépio era conhecido como o deus da cura, e as pessoas procuravam o templo de Asclépio, na cidade de Pérgamo para serem curadas. Asclépio era representado por uma cobra, e cobras não venenosas vagavam livremente no seu templo. Os suplicantes em busca de cura, dormiam ou deitavam-se no chão do templo, esperando ser tocado por uma das serpentes (representando simbolicamente o próprio deus) e, assim, serem curadas. Tal simbolismo, sem dúvida, lembra aos cristãos de Satanás (cf. Ap 12.9, 14, 15, 20.2).74 O culto ao imperador. Outros lembram que, como mencionado acima, Pérgamo era o principal centro de culto ao imperador na província da Ásia. Por sua recusa em adorar o imperador, e não aos deuses pagãos, que os cristãos enfrentavam a execução. Portanto, o trono de Satanás, poderia facilmente ser entendido como uma referência ao poder de Roma, sob o “deus deste mundo” (2Co 4.4), ao blasfemar contra o verdadeiro Deus pelo culto de adoração ao imperador. Apesar de todas as circunstâncias difíceis, os crentes habitavam em Pérgamo. O verbo “habitar” significa uma residência permanente. Apesar da perseguição e os sofrimentos, os crentes de Pérgamo abraçavam a fé e não negavam a Cristo. Os crentes fiéis em Pérgamo exemplificaram a verdade das palavras de Cristo em Mateus 16.18: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Nenhuma quantidade de oposição satânica pode destruir a fé salvadora genuína. Além do mais, é importante observar que Satanás parece ter a superioridade até que compreendamos que o Apocalipse contrasta Deus e Satanás. Jesus se assenta no glorioso e celestial trono de seu Pai (3.21), e Satanás governa seu tenebroso reino 74

MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (86). Chicago: Moody Press.

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(16.10). A palavra trono aparece quarenta e duas vezes no Apocalipse: quarenta se referem ao trono de Deus, e duas, ao trono de Satanás e da besta (2.13; 16.10). Em outros termos, não é Satanás, e, sim, Deus que está no controle.75

V. A Admoestação (2.14-15) 14

Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas 15 aos ídolos e praticarem a prostituição. Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.

Depois de elogiar os crentes, Cristo informou-os de que tinha algumas coisas contra eles. Especificamente, Jesus Cristo estava preocupado com duas heresias que a igreja em Pérgamo estava tolerando. Alguns que sustentavam a doutrina de Balaão. A história de Balaão, um profeta do Antigo Testamento está registrado em Números 22-25. Balaão era um profeta verdadeiro que prostituiu seu dom em troca de uma soma em dinheiro paga pelo rei Balaque, o qual contratou o profeta para amaldiçoar o povo de Israel. Deus impediu que Balaão amaldiçoasse Israel - na verdade, Deus transformou as maldições em bênçãos! Mas, Balaque ainda recebeu o serviço pelo qual havia pago. De que maneira? Ao seguir o conselho de Balaão e fazer amizade com os israelitas, convidando-os a adorar e a banquetear-se com os moabitas junto a seus altares pagãos.76 Os israelitas caíram na armadilha, e muitos adotaram a “política de boa vizinhança”. Comeram carne de altares idólatras e tiveram relações sexuais ilícitas como parte de ritos pagãos. Esse ato de desobediência e de transigência redundou na morte de 24 mil pessoas (Nm 25.1-9). Assim como os israelitas que foram seduzidos pela falsa doutrina de Balaão, alguns na igreja de Pérgamo foram atraídos para misturar-se com o sistema pagão (cf. Judas 10-11). Porém, assim como Deus castigou Israel por tal união, o Senhor Jesus Cristo, ameaça fazer o mesmo nesta passagem. Outros sustentavam a doutrina dos nicolaítas. Ainda que a informação concernente a essas pessoas seja escassa, entendemos que o estilo de vida dos nicolaítas era caracterizado pelos pecados de imoralidade sexual, em comer alimento oferecido aos ídolos e em perverter os ensinamentos apostólicos (2.14-16)77. Pondo ênfase na liberdade cristã, evidentemente ensinavam que as atividades físicas pertencentes ao sexo e ao alimento não eram pecaminosas.

75

KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento, Apocalipse. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 177. 76 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. São Paulo: Editora Geográfica, Vl: 6, 2006, 731. 77 KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento, Apocalipse. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 178.

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Por causa dessa falha, a igreja foi repreendida e convidada a arrepender-se. Os nicolaítas e os que tinham adotado sua doutrina e práticas tinham que enfrentar Jesus, o qual viria com a espada afiada de dois gumes, isto é, a palavra de Deus.

VI. A Ordem (2.16) 16

Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca.

O único remédio para qualquer comportamento pecaminoso é o arrependimento. Nas Escrituras, arrependimento significa uma mudança de mentalidade que resulta em uma mudança de comportamento. Embora a tolerância seja elogiada em nossa cultura moderna, tolerar o ensino herético ou comportamento pecaminoso na igreja não é uma virtude, mas um pecado.78 A igreja não pode tolerar o pecado de qualquer forma. A igreja precisava arrepender-se do seu desvio doutrinário e do seu desvio de conduta. Para a igreja de Corinto, que tolerava um homem acusado de incesto, Paulo escreveu: “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado” (1 Coríntios 5.6-7). Antipas, a testemunha do Senhor, havia sentido a espada de Roma, mas a igreja de Pérgamo sentiria a espada de Cristo, caso não se arrependesse. É importante ressaltar que não se trata de uma referência à volta do Senhor, mas sim a um julgamento presente que sobrevém à igreja quando ela é desobediente à Palavra de Deus. Note que o Senhor chama a igreja ao arrependimento, porém declara guerra aos nicolaítas. Ele lutará contra eles com a espada afiada de dois gumes que procede de sua boca (v. 12), e com essa espada ele julgará os ímpios. E isso inclui os nicolaítas e seus adeptos. Os que estão servindo a Satanás e visam a destruir a igreja terão que enfrentar a espada de seu guerreiro e seu vitorioso Senhor.79 Mas, aqueles que se arrependerem desfrutarão da misericórdia do Altíssimo. Pois, o Senhor honra suas promessas e cancela suas ameaças feitas ao pecador arrependido.

VII. O Conselho (2.17) 17

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.

Cristo conclui sua carta com palavras de aconselhamento e encorajamento. Como vimos, a frase “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”, sublinha 78

MacArthur, J. (1999). Revelation 1-11 (87). Chicago: Moody Press. KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento, Apocalipse. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 170. 79

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a importância vital das palavras de Cristo e a responsabilidade dos crentes em ouvir e prestar atenção. Como é o caso com as outras seis cartas, as promessas são dirigidas ao vencedor, uma frase que engloba todos os crentes (1João 5.4-5). Cristo promete três coisas para os membros fiéis da igreja em Pérgamo. Em primeiro lugar, Ele promete dar-lhes de comer do maná escondido. O maná era o alimento que Deus enviou do céu para o povo de Israel durante a peregrinação no deserto (Êx 16.14). De acordo com Êxodo 16.33, os israelitas, para lembrar a disposição divina, guardavam um vaso com maná dentro da Arca da Aliança durante suas viagens. O maná escondido representa Jesus Cristo, o Pão da Vida que desceu do céu (João 6.48-51). Ele fornece alimento espiritual para aqueles que depositam sua fé nEle. O maná escondido simboliza todas as bênçãos do conhecimento de Cristo (Ef 1.3). Em segundo lugar, Ele promete dar uma pedrinha branca. Há muita especulação sobre o que significa a pedrinha branca. Contudo, parece melhor, compreender a pedra branca, à luz do costume romano de concessão de pedras brancas para os vencedores em competições esportivas. Uma pedra branca, com a inscrição do nome do atleta servia como seu bilhete para um banquete de premiação especial. Nessa visão, Cristo promete à entrada dos vencedores a comemoração da vitória eterna no céu. Em terceiro lugar, Ele promete um novo nome. Haverá um novo nome escrito na pedra o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe. Como é evidente a partir dessa frase, não podemos saber o que esse novo nome é até que o recebamos (cf. Dt 29.29 ). A palavra “novo” (Kainos), não significa novo em contraste com o velho no tempo, mas novo, no sentido de qualidade diferente. O novo nome servirá para cada cristão a sua admissão na glória eterna. O peitoral do sumo sacerdote tinha doze pedras, cada uma delas tinha o nome de uma tribo escrito nela (Êx 28.21). Semelhantemente, uma pedra branca com o nome individual do crente escrito nela está sempre na presença de Deus.

Conclusão: Cristo ama a Sua igreja, mas não tolera pecado associado com a adoração. Os cristãos de Pérgamo tinham que arrepender-se de sua falha em não expulsar os nicolaítas e seus seguidores de seu meio. Tinham que perceber o erro de seu caminho, pois se Jesus odiava as obras dos nicolaítas (2.6), assim também devia proceder seu povo. Por isso ele convocou os cristãos a uma vida de vigilância, a reforçar a disciplina e a expulsar de seu meio os nicolaítas e seus adeptos. Os cristãos de hoje também são tentados a buscar realização pessoal fazendo concessões indevidas. Porém, o nome Pérgamo também significa “casado” e lembra que toda congregação é “noiva de Cristo” e deve manter-se pura (2Co 11.1-4).

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