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Problemas sociais complexos e governação integrada

Finalmente, Weber (1978) define a burocracia moderna como um território de regras gerais: conhecidas, enunciadas, aprendidas, respeitadas e executadas. Estas regras são definidas em abstrato, sem estar relacionadas com um caso concreto e devem ter aplicação universal, gerando procedimentos estandardizados e previsíveis. Esta disciplina reduziria a margem de liberdade do funcionário, nomeadamente de eventuais abusos, em função da desejada proteção do cidadão. Destes princípios resulta que a burocracia moderna tem impacto nas estruturas, nos procedimentos e nas pessoas e tem como principal consequência a previsibilidade do seu funcionamento, tendo em vista a máxima eficiência. A propósito desta dimensão, Gajduschek (2003) chamava a atenção para eventuais erros na interpretação da racionalidade burocrática como simples sinónimo de eficiência, devendo, na sua perspetiva, ser valorizada a importância da burocracia como fator de redução da incerteza, quer nos procedimentos internos, quer nos resultados finais. Esta visão, que hoje nos parece datada e banal, correspondeu a um enorme salto face a modelos anteriores, representando uma vanguarda associada quer à democracia, quer ao capitalismo mais desenvolvido. Não é por isso desajustado que Weber (1978) lhe tenha atribuído uma superioridade técnica face a outros modelos, nomeadamente a administração carismática, fazendo o paralelo entre o salto proporcionado da não-mecanização para a mecanização. Entre os seus pontos fortes, enuncia a “velocidade, a precisão, a desambiguação, conhecimento dos dossiers, continuidade, discrição, unidade, subordinação estrita, redução de fricções e de custos materiais e humanos”. Esta superioridade técnica pode resultar da construção da burocracia moderna ser um misto de observação, de razão e de “imaginação estruturada”127. Conduziu o seu fundador à convicção que podia ter gerado um “tipo ideal”, atribuindo-lhe ainda uma hegemonia em que “desde que a burocracia tenha um carácter “racional”, com regras, equilíbrio entre meios e fins bem como objetividade fatual continuará a contribuir para destruir estruturas de dominação não racionais”128.

2.1.2. As limitações, disfunções e visões complementares da burocracia Como regra, não há modelos perfeitos. A burocracia não é exceção. É bom ter presente que o próprio Weber a situou como “tipo ideal”, provavelmente com 71

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Problemas Sociais Complexos e Governação Integrada  

Esta publicação resulta de uma versão resumida e atualizada da tese de doutoramento de Rui Marques “Problemas Sociais Complexos e Governação...

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Esta publicação resulta de uma versão resumida e atualizada da tese de doutoramento de Rui Marques “Problemas Sociais Complexos e Governação...

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