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Rui Marques

Também Haynes (2015a) aborda a temática dos serviços públicos enquanto sistemas complexos. Recorda que a aplicação da metodologia dos sistemas complexos à administração e políticas públicas tem um paralelo com outras áreas científicas como a Meteorologia, cuja previsão rigorosa do tempo, a médio prazo, é impossível. Isto deve-se ao elevado nível de instabilidade e à retroação dinâmica com o sistema e contrasta com a alta previsibilidade de outras ciências, como a Física. Diz o autor que, tal como a Meteorologia, muitos dos sistemas humanos são extremamente difíceis de prever e controlar, dada a sua instabilidade e o dinamismo dos seus elementos. O ambiente das políticas públicas, enquanto sistema complexo, “é imprevisível, instável e dinâmico. Isto cria dificuldades quando se implementa um controle tradicional de gestão, do topo para a base”121. Da dinâmica resultante decorre da retroação, interação e relações, as organizações e os contextos políticos em que os gestores públicos e profissionais trabalham são particularmente desafiantes. A OCDE (2009) deu igualmente atenção ao contributo que a ciência da complexidade e abordagem aos sistemas complexos pode oferecer às políticas públicas. Sugere, por exemplo, que várias das ferramentas e técnicas utilizadas na ciência da complexidade podem ser úteis para o domínio das políticas públicas, como sejam os modelos multiagente, a análise de redes, exploração de dados, modelização por cenários, análises de sensibilidade e modelação dinâmica de sistemas. Refere-se também que da aplicação dos conceitos, das ferramentas e das técnicas da complexidade resultam algumas consequências relevantes que alteram o padrão tradicional do desenho e aplicação de políticas públicas: 1) Previsibilidade – a abordagem da complexidade permite identificar tendências e probabilidades, mais do que prever eventos específicos. Torna-se necessário que os decisores políticos aprendam a planear e a decidir em condições de incerteza e imprevisibilidade. 2) Controlo – nos sistemas lineares, o controlo decorre da identificação de relações de causa-efeito e da intervenção junto das causas, para condicionar os efeitos. Quando não há essa relação linear causa-efeito, como acontece nos sistemas complexos, os decisores necessitam de investir mais na influência que no “comando-controlo”.

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Problemas Sociais Complexos e Governação Integrada  

Esta publicação resulta de uma versão resumida e atualizada da tese de doutoramento de Rui Marques “Problemas Sociais Complexos e Governação...

Problemas Sociais Complexos e Governação Integrada  

Esta publicação resulta de uma versão resumida e atualizada da tese de doutoramento de Rui Marques “Problemas Sociais Complexos e Governação...

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