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Rui Marques

A primeira característica que podemos verificar é que a estrutura é constituída por agentes interdependentes que só são compreensíveis no quadro do seu contexto. A segunda aponta para a não-linearidade, já referida anteriormente, em que pequenas mudanças podem conduzir a grandes efeitos, sendo o inverso também verdadeiro (efeito paradoxal), não havendo correlação linear entre o efeito inicial e o resultado final. Como terceira propriedade, evidencia-se a adaptação, que permite a adequação a novas condições do ambiente e, como quarta característica, salienta-se a emergência, em que, como já se referiu, se destaca que da soma das partes surge uma realidade nova, que extravasa essa simples soma. Uma outra propriedade dos sistemas adaptativos complexos é a auto-organização, que permite ultrapassar o caos. Acresce a estas propriedades o controlo distribuído em que, por oposição ao modelo hierárquico tradicional, a ordem se estabelece sem controlo central, bem como a sétima propriedade, que resulta da ação e reação dos agentes interdependentes, que é capaz de gerar cooperação e competição, e que se pode designar de co-construção. Finalmente, a última propriedade que se sinaliza é a imprevisibilidade. Em linha com esta leitura, a mesma autora defende que, não sendo possível controlar ou prever com certeza o comportamento de um sistema complexo adaptativo, é possível geri-lo. Para tal, é necessário criar, entre outras estratégias, uma visão partilhada do futuro; ter algumas regras simples para lidar com a complexidade (o que não é sinónimo de simplificação); considerar que não há resistência, mas sim atração; aproveitar a diversidade e a tensão geradas pela complexidade como ativadoras de criatividade e inovação; fazer da experimentação e do modelo tentativa-erro a forma de aprender a lidar com a complexidade118.

1.4.4. Complexidade e políticas públicas A complexidade traz enormes desafios para a conceção de políticas públicas e para a organização dos serviços públicos que devem executar essas políticas, desde logo porque os sistemas complexos são auto-organizados e interdependentes, o que significa que cada indivíduo ou unidade interpreta, age ou reage adaptando-se à ação de outros e tendo a influência do seu entendimento do contexto, os recursos disponíveis e a interação nos sistemas. Esta interação, como os seus efeitos de retroação positiva ou negativa, faz com que muitas vezes o efeito desejado não ocorra e que efeitos inesperados se manifestem119. 64

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Problemas Sociais Complexos e Governação Integrada  

Esta publicação resulta de uma versão resumida e atualizada da tese de doutoramento de Rui Marques “Problemas Sociais Complexos e Governação...

Problemas Sociais Complexos e Governação Integrada  

Esta publicação resulta de uma versão resumida e atualizada da tese de doutoramento de Rui Marques “Problemas Sociais Complexos e Governação...

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