Page 1

“Uma história escrita de dentro para fora, repleta de detalhes inesquecíveis, depoimentos que metem medo, relatos de incompetência e acidentes e de consequências pretendidas e outras não.” – Ke n n eth Maxwe ll, Folha de S. Paulo

“Elio está para 1964 como Suetônio está para os Doze Césares. Só que com melhor estilo e mais isenção...” – Car los He itor Cony, Folha de S. Paulo

O sacerdote e o feiticeiro

Prêmio abl C at eg o r i a Ensaio

3. A Ditadura Derrotada

– Marcos Sá Cor rêa

Elio Gaspari

“Surpresa: A ditadura derrotada..., terceiro livro da coleção e primeiro de um tríptico intitulado o sacerdote e o feiticeiro, conseguiu melhorar o que era irretocável. Trata-se, mais uma vez, de cerca de quinhentas páginas de texto, encorpado por mais de 1500 notas de pé de página e uma vasta bibliografia. Fechado, é um tijolaço. Aberto, é levíssimo.”

Elio Gaspari

O sacerdote e o feiticeiro

3. A Ditadura Derrotada


Envergonhada.indd 6

12/10/13 5:30 PM


Elio Gaspari

O sacerdote e o feiticeiro

3. A Ditadura Derrotada 2a edição


© 2003, 2014 by Elio Gaspari

preparação

Kathia Ferreira

revisão

Eduardo Carneiro Vania Santiago

pesquisa iconográfica

Porviroscópio Projetos e Conteúdos Coordenador: Vladimir Sacchetta

pesquisa

Paula Sacchetta

projeto gráfico Victor Burton

diagramação e tratamento de imagens

ô de casa

cip - brasil . catalogação - na - fonte sindicato nacional dos editores de livros , rj

G232d Gaspari, Elio, 1944A ditadura derrotada / Elio Gaspari. - [2. ed.] - Rio de Janeiro : Intrínseca, 2014. 544 p. : il. ; 23 cm. Continua com: A ditadura encurralada Apêndice Inclui bibliografia e índice ISBN 978-85-8057-432-6 1. Ditadura - Brasil. 2. Perseguição política - Brasil. 3. Tortura Brasil. 4. Brasil - Política e governo - 1974-1979. I. Título. 13-05257

cdd: cdu:

981.063 94(81)’1964/1985

[2014] Todos os direitos desta edição reservados à Editora Intrínseca Ltda. Rua Marquês de São Vicente, 99/3o andar 22451‑041 – Gávea Rio de Janeiro – RJ Tel./Fax: (21) 3206‑7400 www.intrinseca.com.br


“Esse troço de matar”

D

e todas as conversas com seus futuros ministros, a mais demorada e reveladora foi a que Geisel teve com o general Dale Coutinho um mês antes da posse. Eram velhos conhecidos, sem intimidades. ­Começaram-na tratando de assuntos aparentemente triviais, como o casamento recente de Coutinho, tirado da solidão da viuvez por uma senhora vinte anos mais moça. O general contou que pensara afastar-se mas decidira pedi-la em casamento. “Muito melhor você casar do que você ter uma vida irregular”, disse-lhe Geisel. “Pela minha formação que meus pais me deram, me repelia uma outra situação que não o casamento. Eu achava injusto, eu gostando dela, eu não poder apresentá-la, isto é uma humilhação para ela”, respondeu o general. Passaram à safena de Coutinho. Ele reportou que seguia uma dieta e fazia exercícios em dias alternados, pedalando uma bicicleta ergométrica. Levava sua pulsação a 120 em dez minutos. Esgotadas as duas questões extracurriculares, Geisel convidou-o para o Ministério do Exército e engatou uma dissertação política. Louvou os êxitos da Revolução e foi ao tema:


312

A ditadura derrotada

Na área política continuamos com a mesma droga. (…) Todos nós, de um modo geral, temos uma repulsa ao político, mas o político é necessário. Nós não podemos ter os políticos só para dar uma fantasia, quer dizer, não vamos ter o político para chegar no dia lá e votar no general Geisel ou votar no Médici. Não é? Ou chegar no dia tal e votar a lei que o governo quer. Quer dizer, isso tem que evoluir. Eu não vou fazer, eu vou ver se consigo fazer um esforço para melhorar esse país, tem que trabalhar nesse sentido. Não vou dar aos políticos o que eles querem, não vou, não vou me mancomunar com eles, mas vou viver com eles, eu tenho que viver com eles. Porque senão como é? Nós vamos, nós temos a outra alternativa, que é ir para uma ditadura. Então vamos fechar esse troço, vamos fechar Congresso, vamos fechar tudo isso e vamos para uma ditadura, que é uma solução muito pior. Não é? Quer dizer, esse é um dos quadros em que a Revolução, no meu modo de ver a coisa, fracassou. (…) Ora o sujeito vai conversar com os políticos, ora dar coice nos políticos, fecha o Congresso, abre o Congresso, e vivemos nessa porcaria. Temos que ver se melhoramos esse quadro, vamos ver se a gente consegue melhorar esse partido da Arena, vamos ver se a gente dá... porque em todo lugar onde você chega é um saco de gatos. (...)

O general ouvia em silêncio.

Eu, hoje em dia, tenho que pensar, ô Coutinho. Admitindo que eu consiga governar cinco anos. O que que vai ser nesses cinco anos? A quem eu vou passar e como é que eu vou passar isso? Não é verdade? Eu muitas vezes dizia ao Castello, digo: “Não adianta o senhor estar fazendo lei, isso e aquilo, sem pensar como vai ser depois”. (…) Nós vamos pensar em eternizar esse quadro que está aí? Não pode. Passaram-se dez anos (…) você pega, analisa essa nossa Revolução, e você vê que ela foi uma coisa que eu chamei muitas vezes de arca de Noé, entraram todos os bichos lá dentro: como ela também não durou na sua parte operacional, não houve depu-


“Esse troço de matar”

313

ração. Você teve como líderes políticos, teve o seu Lacerda, teve o seu Magalhães Pinto, teve o seu Adhemar de Barros. (…) Na área militar você teve Justino Alves Bastos, você teve Amaury Kruel e teve uma série de outros. Não é? Então aí começou a primeira salada. Acabou o Lacerda se juntando com Juscelino e com Jango. Não é? O Magalhães Pinto, que é um grande revolucionário e não sei o quê, era um sujeito que comia também no cocho do Jango. Foi muito tempo o homem do Jango. Você pega os outros revolucionários da área civil, e você repara que eles estão quase todos contra nós. Você pega o Aliomar Baleeiro, era líder revolucionário, não era? Pega Adaucto Lúcio Cardoso. Pega o meu amigo Daniel Krieger. Liberal, porque não sei o quê, porque isso, porque o Ato 5. (...) Você não conta com essa gente, não é? Esses são piores do que os outros. Porque eles, por personalismos, por vaidade, abandonaram o barco, querem fazer bonita figura. Então, você não pode hoje em dia estar dizendo só: “É revolucionário, não é revolucionário”. Se você for fazer essa triagem, acaba quase sozinho. (...)

Dale Coutinho foi seco: “Na área política só houve decepções para mim”.

GEISEL: Mas, olha aqui, não houve de nossa parte a preocupação de melhorar. Não houve. Tanto o governo do Costa e Silva como o do Médici de certa maneira escorraçaram os políticos, como sendo uma lepra. Eu posso escorraçar os políticos se eu resolver não ter mais política. Mas isso não é mais possível. Se nós queremos ter um regime aberto, democrático no país algum dia, nós temos é que construir uma política, não é? Agora, isso evidentemente é um trabalho perseverante de muitos e muitos longos anos. Não sou eu que vou dizer que em cinco anos eu vou retomar, mas a gente tem que trabalhar para isso. É um trabalho difícil, persistente, tenaz. Temos que ser realistas. COUTINHO: É, se continuar sem uma abertura aí, isso vai ter que acabar numa ditadura mesmo.


314

A ditadura derrotada

GEISEL: Eu sei, mas e aonde é que vai parar? COUTINHO: Aí não para mais. GEISEL: Inclusive, Coutinho, vamos pôr a mão na consciência. O nosso Exército tem condição de durar numa ditadura? Com os nossos homens? Porque os nossos homens, dentro do Exército tem muita gente boa, mas também tem muita gente que não presta. Você sabe muito bem disso. Tem de tudo. O Exército é de certa forma uma representação do que é a nação. Assim como tem gente boa lá fora, aqui dentro também tem. É claro que nós temos outra formação. Mas quantas vezes você chega com o sujeito lá em cima e você começa a ter uma surpresa, o sujeito é individualista, é personalista. (…) O Exército pode manter uma ditadura? Eu acho que o Exército pode manter uma ditadura, mas não a longo prazo. Não dura. Outro setor onde a Revolução não conseguiu fazer nada e que está aí, continua a mesma porcaria, é a Justiça. Nós nunca tivemos ministro da Justiça. Olha aqui, o Castello botou o Milton Campos, um homem de primeira ordem, liberal. Olha aqui, quem foi ministro da Justiça durante grande parte do governo Castello fui eu. O Costa e Silva arranjou um ministro da Justiça que era revolucionário mas era louco, o seu Gaminha.1 Agora o Médici botou aí um ministro da Justiça que é o quê? É muito bom sujeito, mas é inoperante. (…) Você tem problema de padre, que é um problema sério, complicado. Você hoje em dia tem problema de entorpecente. Você continua a ter o problema da subversão. Tem uma infinidade de problemas lá.

A palavra “subversão” acendeu a loquacidade de Coutinho: “Os comandantes de exército estão sem um respaldo legal para esse problema. A verdade é essa. (...) Para a guerra externa a gente tem legislação, mas para a nossa guerra específica não temos. Muitas vezes eu era obrigado a deter um homem por mais de trinta dias. Era ilegal. (...)”.

1  Professor Luiz Antonio da Gama e Silva, ex-reitor da USP.


“Esse troço de matar”

315

Geisel contornou o assunto: “Nós temos problemas na área econômica. (...) O Delfim, querendo fingir que não tem inflação, não deixa os preços seguir naturalmente. Então, ele agora não quer deixar subir o preço da gasolina como deve subir. Ele entrou na mentira. Ele está entrando no sistema do Jango, subsídio (...)”. “Está se voltando ao tempo do Juscelino”, observou o general. Geisel continuou: “Tudo isso é a preocupação de criar a imagem do Médici. Eu acho que o Médici não precisa disso. Foi o único sujeito que conseguiu levar a Revolução para o povo. Então ele não precisa dessa coisa. Mas é a entourage, o Delfim (...). Hoje em dia existe um dique represando a inflação, e esse dique vai romper quando eu for presidente. Então eu sou ruim porque a inflação foi para vinte e tanto. Mas eu estou aqui para isso, eu sou pago para isso, não é verdade? Eu não tenho razões personalistas. Não me queixo do Médici”. Seguindo sua pauta, foi ao item seguinte:

Eu não abro mão do Ato 5. O Ato 5 é um cajado. Eu sou besta de abrir mão desse negócio? Eu sei lá o que que vem. Como essa história de abertura e descompressão. Ah, eu sou um sujeito profundamente democrático. Toda a minha vida fui. Eu sempre fui um homem muito simples, despido de coisas, e cansei de ir com minha mulher fazer compra na feira. Agora, não sou nenhum burro de amanhã fazer uma vasta abertura, fingir aí uma democracia e depois ter que recuar dois, três, quatro passos. Eu não vou ­recuar. Eu só vou caminhar para a frente, devagar, para não ter que recuar, não é? Seria uma beleza eu chegar: não há mais censura, e agora o troço é vontade, e a Câmara vota como quer, e não sei o quê. E no dia seguinte está o estudante fazendo bagunça na rua, está o padre fazendo meeting, está não sei o quê. Não aconteceu isso com o Costa e Silva? Quer dizer, o Castello fez uma Constituição, convencido de que aquilo era para valer, o Costa e Silva na sua boa intenção quis cumprir, e dali a pouco estava a esculhambação aí. Os estudantes foram inclusive apedrejar e pintar lá o Tribunal Militar. Então eu não vou voltar para trás. (...)


316

A ditadura derrotada

COUTINHO: Naquele AI-5, eu estava vendo que o presidente ia cair. Ia cindir a Revolução. GEISEL: (...) É evidente. Brincaram tanto com o fogo, mexeram tanto, tanto, tanto. Ou o governo faz um ato institucional, ou então isso aqui vai virar bagunça. (...) COUTINHO: Mas estavam dispostos a fazer com ele ou sem ele. (...) GEISEL: Ele fez o AI-5 constrangido como o Castello fez o AI-2 constrangido, também. Porque por tendência eles não fariam, eles foram quase que obrigados. Agora, eu não quero ser obrigado. Quando for o caso, eu aplico. Porque se amanhã tiver um ministro, um desembargador, não sei o quê, salafrário, fazendo um mundo de bandalheiras por aí, e eu tiver as provas do troço, eu faço, porque eu tenho o AI-5. (…) Eu vou aplicar é racionalmente, com moderação e com decência e pronto.

Finalmente, Geisel chegou ao ponto que Coutinho esperava: “Agora vamos ver (...) o problema da subversão nossa. Bom, eu acho que a subversão continua. Esse negócio não se acabou. Isto é um vírus danado que não há antibiótico que liquide com facilidade. Está amainado. Está resolvido. Você vê, de vez em quando há uma desarticulação, morre gente, ou é gente presa, ele continua a se movimentar. (...) E fazem uma propaganda externa tremenda contra o Brasil”. Dale Coutinho fechou a guarda: “(...) Repare o seguinte. Que antes de 64 não havia propaganda praticamente nenhuma contra nós. E ninguém mais investia no nosso país. Hoje, com toda essa propaganda que há, quem tem, quer vir investir no Brasil, que é obrigado a fazer um estudo mais detalhado sobre o nosso país, ele não titubeia e vem. (...)” Geisel manteve-se na posição: “Temos que dar valor relativo a isso”. O general também: “A resposta é o nosso progresso. Porque isso para mim é coisa de dom Helder, dessa turma progressista por aí. Eu acho que ninguém que tivesse vontade de empregar dinheiro no Brasil, tenha deixado de empregar”. Geisel recuou: “(...) o Brasil hoje em dia é considerado um oásis. É a área mais procurada. (...)”.


“Esse troço de matar”

317

Coutinho tinha o recado do porão: “E eu que fui para São Paulo logo em 69, o que eu vi naquela época para hoje... Ah, o negócio melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre nós, foi quando nós começamos a matar. Começamos a matar”. Geisel: “Porque antigamente você prendia o sujeito e o sujeito ia lá para fora. (...) Ó Coutinho, esse troço de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser”. Dale Coutinho contou sua experiência no IV Exército: “Eu fui obrigado a tratar esse problema lá e tive que matar. Tive que matar. Outro dia ainda tive uma satisfação que, no último relatório do CIE, a origem, o fio, o início da meada dessa guerrilha lá em Xambioá começou num estouro que nós fizemos em 1972 lá em Fortaleza. Foi dali que um falou que tinha guerrilheiros no norte de Goiás, não sei o quê”.

GEISEL: Sabe que agora pegaram o tal líder e liquidaram com ele. Não sei qual é o nome dele. COUTINHO: É. O Chicão. Luizão. [Referia-se a Osvaldão, o guerrilheiro Osvaldo Orlando da Costa, morto semanas antes.] GEISEL: Bom, o que eu queria assinalar é isso. Nós vamos ter que continuar ano que vem. Nós não podemos largar essa guerra. Infelizmente nós vamos ter que continuar. É claro que vamos ter que estudar (...)* processo, vamos ter que repensar...

(Continuavam. Exterminavam-se o PC do B no Araguaia e a APML nas cidades. Havia pelo menos vinte guerrilheiros no mato. Fugiam como bichos e, quando não morriam na cena da captura, eram assassinados na prisão. O guerrilheiro Piauí 2 foi capturado nesses dias. Viram-no duas vezes. Numa, amarrado, quando o colocaram numa camionete. Noutra, com os olhos vendados, quando desceu de um helicóptero e foi metralha-

* Pedaço de difícil audição. Pode ser “algum processo” ou “um novo processo”. 2  Antônio de Pádua Costa, 28 anos, ex-aluno do Instituto de Física da UFRJ.


318

A ditadura derrotada

do à beira de um igarapé.3 A matança continuava também com os que se rendiam. Esse foi o caso de Cilon da Cunha Brum, o Simão, de 26 anos, ex-estudante de economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que se entregou em janeiro, foi mantido numa base de apoio do Exército e executado.4 O mesmo sucedeu a Josias.5 Sumiu no dia 18 de dezembro, mas, segundo um relatório da Marinha, só morreu no dia 15 de fevereiro de 1974, véspera do encontro de Geisel com Dale Coutinho.6 Uma semana depois, desapareceram no Rio Eduardo Collier Filho e Fernando Santa Cruz Oliveira. Ambos estudavam direito e militavam na APML, que nada tinha a ver com a guerrilha do Araguaia. Teriam sido levados para o DOI de São Paulo. Estava-se aí no prosseguimento da política de extermínio das organizações armadas que agiam no meio urbano, iniciada em 1971.)7 Dale Coutinho retomou o fio que perdera minutos antes:

Aí é que entra a Justiça. Eu comandei exército e sofri habeas corpus em cima de mim. É que os comandantes de exército estão completamente sem cobertura legal das ações deles. A gente assume a responsabilidade porque tem que assumir. Eu me lembro que eu perdi… morreu lá dentro do meu DOI um homem, foi justamente em cima daquele que veio o habeas corpus. O homem tinha morrido dentro do meu DOI. E eu tive que responder. Eu crente que já tinha acabado o negócio com o Perdigão,* o relator, um brigadeiro, passaram uns dois ou três meses veio outro. Agora pior, porque veio em cima de mim e do meu major-chefe do meu DOI. Aí eu não deixei ele responder.8

3  Para a prisão, declarações de José Francisco Dionísio, Salviana Xavier Lima, Sinvaldo de Souza Gomes e Adalgisa, José e Pedro Moraes da Silva aos procuradores Felício Pontes Jr. e Guilherme Zanina Schelb, e Sonia Zaghetto, “Guerrilha ainda tortura lembranças”, O Liberal, 5 de junho de 2001. Para a morte, entrevista de Manuel Leal Lima, o Vanu, em O Globo de 2 de maio de 1996, capa e 1o Caderno, pp. 8-10. 4  Liniane Haag Brum, Antes do passado, p. 126. 5  Tobias Pereira Júnior, 24 anos, ex-estudante de medicina. 6  O Globo, 28 de abril de 1996, p. 15, reportagem de Adriana Barsotti, Aziz Filho e Consuelo Dieguez. 7  Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, Dos filhos deste solo, pp. 501-2. * Brigadeiro Armando Perdigão, ministro do Superior Tribunal Militar. 8  Coutinho refere-se ao caso de Ezequias Bezerra da Rocha. Conversa de Geisel com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.


“Esse troço de matar”

319

Geisel estava diante de um ministro do Exército que não lhe pedia diretrizes. Ao contrário, mostrava-se disposto a unificar a doutrina de acordo com os métodos que empregara no IV Exército. O presidente eleito retomou o tema da unidade militar:

Nós temos que estudar bem isso. Vamos ver se nós conseguimos uma certa uniformidade nisso. Eu não tenho... Eu confesso a você que eu não estudei isso em minúcias. Se nós amolecermos na ação, não tenha dúvida que isso cresce. Isso é um fogo, está meio apagado. Se você parar, daqui a pouco ele levanta outra vez. Agora, neste quadro todo, nós só conseguimos viver esses dez anos porque nós conseguimos nos unir. As Forças Armadas, apesar de certos personalismos, certas coisas, nestes dez anos, elas conseguiram se unir. A técnica da intriga do Juscelino e do Jango, dessa gente, era nos dividir: era o general do povo, era o Lott, era isso, era aquilo (...).

Geisel pontilhou o restante da conversa com momentos fraternais, mas sempre hierárquicos:

Me botaram neste abacaxi, agora vão ter que confiar em mim. Eu estarei sempre com os ouvidos e os olhos abertos para receber toda e qualquer crítica. (...) Nós dois podemos nos entender. A partir desta hora você é um homem meu. Você bota o seu coração à mostra. Você não crie compromissos, não avance às vezes certas situações para não criar dificuldades, porque muitas vezes você pode inocentemente assumir um compromisso, chega para mim e não pode, aí você fica mal. Eu nunca vou lhe deixar mal. Agora, para poder haver isso, você tem que se abrir comigo. Vocês têm é que ter confiança em mim. (...) Muita coisa que eu vou fazer, vocês vão achar errado. Mas vocês têm que partir do


320

A ditadura derrotada

princípio que eu estou fazendo porque acho que está certo. E vocês têm que muitas vezes chegar a mim e dizer: “Olha, chefe, está acontecendo isso, eu estou pensando isso”. E eu vou dizer: “Não, você não tem razão, ou tem”. Quer dizer, a convivência que vocês têm que ter comigo tem que ser... têm que ter confiança, têm que acreditar em mim. Agora, têm que ter a franqueza de me dizer as coisas. Eu não sou dos tais que só quer receber notícia agradável. Claro que você não vai me dar notícia ruim na hora que eu vou dormir. Deixa para o outro dia de manhã, para pelo menos eu dormir à noite tranquilo. (...) Eu, por exemplo, não sou do tipo que gosta de ser cortejado (...). Vou dizer não muitas vezes a vocês, e vou discutir, e vou ficar veemente.9

Estavam no fim do que Geisel chamaria depois de “três horas de parola”, quando ele disse ao futuro ministro:10 “Coutinho, nós estamos 100% em tudo”. Terminara o treino. Ia começar a quarta Presidência da Revolução, o 21 período de governo republicano. Duraria 1.826 dias, de 15 de março de 1974 a 15 de março de 1979.

9  Reunião de Geisel com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 10  Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 16 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.

A ditadura derrotada 311a320  

Trecho de divulgação de "A ditadura derrotada", de Elio Gaspari

Advertisement