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SOBRE A TRADUTORA DO ANTIGO NORUEGUÊS

outras aventuras em: Leia

Cressida Cowell foi criada entre Londres e uma ilha pequena e pouco habitada a oeste da Escócia. Sempre teve certeza de que ali viviam dragões, e por conta disso ficou encantada com a oportunidade de traduzir as memórias do maior Herói Viking de todos os tempos.

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ção de capa: C hris Gibbs

Cressida adoraria ter um dragão de estimação.

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Da série que inspirou o filme COMO TREINAR O SEU DRAGÃO www.intrinseca.com.br

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Copyright do texto e das ilustrações © 2013 Cressida Cowell Publicado originalmente na Grã-Bretanha, em 2013, por Hodder Children’s Books.

TÍTULO ORIGINAL

How to Betray a Dragon’s Hero TRADUÇÃO

Raquel Zampil PREPARAÇÃO

Marcela de Oliveira REVISÃO

Carolina Rodrigues Danielle Freddo Marcela Lima ADAPTAÇÃO DE CAPA E PROJETO GRÁFICO

Julio Moreira TRATAMENTO E ADAPTAÇÃO DAS ILUSTRAÇÕES

ô de casa CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

C915c Cowell, Cressida Como trair o herói de um dragão / texto e ilustrações Cressida Cowell ; tradução Raquel Zampil. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Intrínseca, 2014. 408 p. : il. ; 21 cm. (Como treinar o seu dragão ; 11) Tradução de: How to betray a dragon's hero ISBN 978-85-8057-494-4 1. Dragões - Literatura infantojuvenil inglesa. I. Zampil, Raquel. II. Título. III. Série. 14-09738

CDD: 028.5 CDU: 087.5

[2014] Todos os direitos desta edição reservados à Editora Intrínseca Ltda. Rua Marquês de São Vicente, 99, 3o andar 22451-041– Gávea Rio de Janeiro – RJ Tel./Fax: (21) 3206-7400 www.intrinseca.com.br

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SOBRE SOLUÇO Soluço Spantosicus Strondus III foi um esgrimista impressionante, encantador de dragões e o maior Herói Viking que já existiu. Mas suas memórias retratam a época em que ele era um garoto bastante comum que achava difícil ser Herói.

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~ SUMÁRIO ~ A amaldiçoada ilha do Amanhã.......................................13 Prólogo, por Soluço Spantosicus Strondus III..................27

1. Sua mãe disse para não sair do esconderijo................32 2. Estávamos justamente nos perguntando de que lado você está.......................................................................53

3. O plano está dando errado............................................75 4. Dois olhos vermelhos suspensos no ar.........................91 5. A mordida de um Dragão-espião Vampiro....................101 6. O outro lado da história..............................................119 7. O sonho de Banguela...................................................143 8. Vocês não encontrariam o acampamento secreto de Alvin nem se procurassem por cem anos....................158

9. No abrigo de guerra de Alvin.....................................172 10. Deslealdade e traição...............................................183 11. O teste de um Herói................................................204 12. Aquele traiçoeiro traidor de traidores.....................235 13. Enquanto isso, sob a plataforma..........................240 14. Camicazi dá uma pequena aula sobre como gerar caos e confusão.....................................................254

15. Chamou, madame?.................................................259 16. Meu dente... Onde está meu dente?.......................280 17. A luta de espadas..................................................289 18. Um capítulo muito curto no qual, por cinco minutos, tudo parece estar dando certo................................309

19. Tudo dá errado de novo, e muito rápido...................313

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20. A última canção de Barbadura, o Terrível..............327 21. Véspera do Juízo Final na ilha do Amanhã...............345 22. A Ponta do Herói, na décima primeira hora.............381 23. Mais um dia..............................................................388 Epílogo de Soluço Spantosicus Strondus III...................392

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Ainda não conhecemos o Amanhã. Ainda não ousamos ir até lá. Já houve uma próspera cidade na ilha do Amanhã. As bandeiras do Oeste Mais Selvagem tremulavam com bravura nas torres de centenas de esplêndidos castelos. Era uma cidade construída com o trabalho escravo de homens e dragões, embora, como muitas outras antes e depois dela, fosse bela e gloriosa. Um século atrás, contudo, Barbadura, o Terrível, o Último Rei do Oeste Mais Selvagem, fez algo verdadeiramente pavoroso. O filho de Barbadura, Soluço Spantosicus Strondus Segundo, junto com seu dragão, Furioso,

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organizou uma pacífica Petição dos Dragões pleiteando que seu pai pusesse fim à desgraça da escravidão. Barbadura confundiu Petição com Rebelião. E matou o próprio filho com a própria espada, Lâmina da Tempestade, e o sangue dele foi derramado em seu próprio Trono. Aquele foi o começo da Maldição lançada sobre o Trono e sobre a ilha do Amanhã. A cidade acabou sendo destruída pelo exército de dragões que tinha ido até lá, a princípio, para um protesto pacífico. As centenas de esplêndidos castelos foram destruídos pelo fogo, e o dragão Furioso, capturado e preso por correntes inescapáveis nas profundezas de uma prisão na floresta. Barbadura, o Terrível, arrependeu-se de seu crime medonho. Jurou que jamais haveria outro Rei do Oeste Mais Selvagem, a não ser que esse Rei pudesse ser um homem melhor do que ele fora. Então, Barbadura criou uma Tarefa Impossível. Espalhou dez das Coisas do Rei pelos quatro cantos mais distantes do mundo. As Coisas seriam guardadas por terríveis monstros e dragões. Somente um verdadeiro Herói poderia reuni-las, pôr fim à Maldição e tornar-se o próximo Rei do Oeste Mais Selvagem. Na improvável hipótese de que um dia houvesse um Herói grandioso o bastante para completar a Tarefa Impossível, esse Herói seria coroado – mas somente no

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décimo segundo dia do Juízo Final, conhecido como Juízo Final de Yule, que acontece uma vez por ano e apenas na ilha do Amanhã – aos pés do Trono em que o filho de Barbadura fora assassinado. Nesse meio-tempo, Barbadura nomeara guerreiros, humanos e dragões tão assustadores e terríveis quanto se podia imaginar, para serem Guardiões na fortaleza em ruínas da ilha do Amanhã. Todos foram instruídos a matar imediatamente qualquer um que tentasse entrar sem permissão em seu território. Agora, mais do que nunca, o Arquipélago precisa de um Rei. Pois o dragão Furioso escapou da prisão na floresta onde Barbadura, o Terrível, o escravizara, e está lançando sua própria Maldição sobre os humanos que passou a odiar. Seu objetivo é a extinção de toda a raça humana. E o dragão Furioso está vencendo. Ele já incendiou todo o norte do Arquipélago. Os Vikings estão sendo obrigados a viver em esconderijos subterrâneos, com medo do dragão. Nada pode detê-lo. Nada, exceto um novo Rei, pois a ele será revelado o segredo da décima Coisa Perdida, a Joia do Dragão, uma joia que tem o poder de destruir os dragões para sempre. Há apenas uma época do ano em que um possível Rei tem permissão de entrar no território do Amanhã. Em uma das doze manhãs dos Doze Dias do Juízo Final.

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Estamos no solstício de inverno, e esta é a manhã do nono dia do Juízo Final. Eis que agora ela chega, a figura bastante alta de um barqueiro solitário, remando da terrível ilha do Amanhã, atravessando o pequeno canal do Estreito do Herói, em direção às Montanhas Assassinas. O barqueiro é o Guardião Druida da ilha do Amanhã. Ele tem os olhos cobertos por uma venda que não poderá ser retirada até um novo Rei do Oeste Mais Selvagem ser coroado. A venda representa seu papel como um juiz imparcial e implacável e seu total comprometimento como Guardião Druida. No entanto, por uma intervenção sobrenatural, ele parece perceber que há alguém, com um pequeno grupo de seguidores, à sua espera na praia. A figura é Oso, o Criminoso Feioso. Sua esperança renasce. Finalmente... no último instante... um Herói irá reivindicar o Reino! O Guardião Druida teme que o dragão Furioso esteja perto demais de extinguir a raça humana. O velho para o barco nas Areias Cantantes da Praia da Oferenda do Barqueiro, abre bem os braços e declara, assim como seu pai, o pai de seu pai e o pai do pai de seu pai fizeram por muitos anos antes dele: – Aquele-ou-aquela-que-seria-o-rei, aproxime-se do Amanhã se tiver coragem! Somente aquele ou aquela com as Coisas Perdidas do Rei pode ser coroado Rei e viver...

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E então se volta para Oso, o Criminoso Feioso, e faz a solene pergunta: – Você é o próximo Rei? Oso responde: – Sou. – É o representante escolhido por todas as Tribos do Arquipélago? – indaga o Guardião Druida. Oso concorda. – Trouxe uma oferenda para o barqueiro? – Sim. O velho, ao mesmo tempo ávido e esperançoso, diz com pompa: – Então me mostre as Coisas. Oso, o Criminoso Feioso, estala os dedos para seus seguidores, que, um a um, se aproximam trazendo as Coisas. Elas são: um dragão sem dentes, a segunda melhor espada de Barbadura, um escudo romano, uma flecha da terra que não existe, a pedra do coração, a coisa que tiquetaqueia, a chave, o Trono, a Coroa e a Joia do Dragão. Os seguidores de Oso, o Criminoso Feioso, depositam as Coisas na praia diante do Guardião Druida e recuam. O velho dá um passo à frente para examiná-las. Ele passa muito, muito tempo analisando todas as Coisas com seus dedos longos e sábios, tomando o cuidado de sentir cada objeto de todos os ângulos, para verificar se está tudo certo.

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E então dá um passo para trás. Uma nota sombria surge em sua voz quando ele declara: – Estas Coisas são FALSAS. A réplica do dragão sem dentes é particularmente medíocre, e é cruel de sua parte fazer isso a uma criatura indefesa. Vamos abrigá-la aqui no Amanhã. – (Oso, o Criminoso Feioso, tinha arrancado os dentes de um pequeno Dragão Trotador com o intuito de fingir que aquele era o dragão

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banguela da Profecia.) Oso, o Criminoso Feioso, fica tão branco quanto lã de ovelha. – Quanto a VOCÊ, Oso, o Criminoso Feioso – continua o Guardião Druida –, saiba de uma coisa: aquele que ousa se aproximar do Amanhã com uma oferenda inaceitável sofre uma morte rápida e horrível, assim como seus seguidores. “APAREÇAM, GUARDIÕES DO AMANHÃ! VENHAM E FAÇAM O SEU PIOR!”

Ao redor de Oso, o Criminoso Feioso, e de seus seguidores, a areia da praia começa a borbulhar. E então do

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solo brotam criaturas de inimaginável horror, imensas e terríveis, clamando por vingança. Não há tempo para reagir, não há tempo para se defender. Oso, o Criminoso Feioso, e seus seguidores nem sequer têm tempo de ver se são dragões ou algo pior. As criaturas agarram os Vikings, que gritam e se debatem, e disparam para cima, cada vez mais alto, em direção ao céu, subindo mais e mais, passando pelas nuvens e alcançando o frio asfixiante de gelo e

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fogo da camada superior da atmosfera – e então os homens desaparecem. Voltarão a terra apenas como cinzas e chuva roxa. E esse é o tamanho do ódio que os Guardiões do Amanhã sentem por aqueles que tentam se aproximar de seu litoral sem as Coisas. O Guardião Druida suspira. Acaricia gentilmente a cabeça do pobre Dragão Trotador banguela e diz a ele, com uma voz suave, que tudo ficará bem. Então murmura para si mesmo:

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– Mais dois dias... Apenas mais dois dias até que um Herói venha e salve todos nós. Cansado, ele volta com dificuldade ao seu barquinho. Veja bem, ele não espera de fato que tal Herói apareça. Por que esperaria? Este ritual acontece regularmente há noventa e nove anos, e somente indignos vieram. Cansado, o velho começa a remar de volta à ilha do Amanhã. Ele vai aguardar por mais dois dias que um Herói venha e reivindique a coroa. Se um Herói não aparecer até o décimo primeiro dia, na véspera do Juízo Final, então será tarde demais. As regras que Barbadura estabelecera um século antes são invioláveis. As fronteiras do Amanhã tornarão a se fechar até o ano seguinte. E então SERÁ de fato tarde demais. Até lá, o dragão Furioso ficará muito poderoso. Este ano é a única chance que eles têm. Um Herói deverá reivindicar o Trono, com todas as Coisas Perdidas, até o décimo primeiro dia do Juízo Final... ...ou tudo estará perdido.

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PRÓLOGO, POR SOLUÇO SPANTOSICUS STRONDUS III, O ÚLTIMO DOS GRANDES HERÓIS VIKINGS Os eventos presentes nestes dois últimos livros de minhas memórias se passaram em apenas quarenta e oito horas, durante os últimos dois dias do Juízo Final, quando eu tinha catorze anos, e aviso que são os mais sombrios e aterrorizantes, e também os mais difíceis de descrever. Pois foi quando enfrentei tanto os Guardiões do Amanhã, de Barbadura, o Terrível, quanto o verdadeiro poder e a ira do dragão Furioso. Foi o tempo em que os dragões se viram diante do risco da extinção. No começo deste livro, a guerra havia chegado ao Arquipélago, dragões e humanos tentavam eliminar uns aos outros, e eu estava sendo caçado ao mesmo tempo pelos terríveis dragões da Rebelião dos Dragões, pela bruxa e por Alvin, o Traiçoeiro. Olho para trás, para o pálido e magricela garoto-que-eu-fui-um-dia, e sinto uma imensa ansiedade por ele, que ainda não sabe o que está por vir. Ele se encontra no meio dessa guerra pavorosa, portanto já viu a morte, mas ainda não perdeu

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ninguém que ama. Está começando a entender o que significa carregar o fardo da culpa e da responsabilidade de ser um líder. Mas ainda não aceitou esse fardo como seu destino. Será que ele conseguirá salvar os dragões no fim? Anseio por ajudá-lo. Quero ultrapassar o abismo do espaço, das estrelas e do tempo e segurar sua mão para ajudá-lo a enfrentar tudo isso. Mas, é claro, ele vive no passado, esse país distante, e por mais alto que eu grite, o garoto-que-eu-fui-um-dia não conseguirá me ouvir. Agora que sou um homem muito, muito velho, olhando para trás, para a minha vida, posso ver um padrão e uma razão para a escuridão daquele tempo. Coisas grandiosas são feitas apenas com o amor e a dor. Uma grande espada deve ser forjada com o melhor aço. Mas o que a torna realmente grandiosa é o que acontece com ela depois. Chamamos isso de o “teste” da espada. A espada é forjada e batida pelo martelo reluzente até ganhar forma. Ela é levada ao calor feroz do fogo, onde amolece, e então é mergulhada na água, para voltar a enrijecer. Quanto mais alta a temperatura, mais ardente o fogo, e mais resistente e melhor a espada se torna.

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O processo de testar a espada pode fortalecê-la ou destruí-la. O mesmo poderia ser dito sobre a Formação de um Herói.

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1. SUA MÃE DISSE PARA NÃO SAIR DO ESCONDERIJO Era uma noite fria e enevoada nas Montanhas Assassinas. Uma ótima noite para traição. Os humanos não deveriam andar pelas florestas das Montanhas Assassinas naqueles tempos de guerra. Se os dragões da Rebelião sequer suspeitassem de que havia humanos entre as árvores queimadas daqueles caminhos nebulosos nas montanhas, eles os caçariam e os matariam. Mas, em algum lugar no meio daquela floresta, muito distante de qualquer ajuda, uma voz humana aterrorizada gritava: “Socorro! Socorro! Socorro!”, e um pequeno grupo de humanos e dragões – bravos, porém tolos – havia partido para oferecer assistência.

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Soluço Spantosicus Strondus Terceiro estava montado nas costas de um dragão Sombra Mortal, voando tão perto das copas das árvores que de vez em quando suas grandes asas roçavam os galhos chamuscados mais altos. Sombras Mortais são como camaleões, então o belo dragão de três cabeças tinha exatamente a cor do céu da meia-noite, repleto de estrelas que se moviam lentamente por seu corpo reluzente. Os joelhos do garoto tremiam com o esforço de se segurar na sela. Soluço tinha uma aparência muito comum para alguém tão procurado por tantas pessoas. Um adolescente pequeno, magricela e maltrapilho, com o Traje Antichamas em farrapos, o rosto contundido e arranhado, os cabelos rebeldes e o olhar assustado de alguém que fora perseguido por muita gente por muito tempo. A guerra e o exílio deixaram-no parecido com um espantalho.

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A espada estava a postos, os ouvidos, zumbindo com o penetrante vento gélido, e Soluço espiava por cima da asa do Sombra Mortal enquanto voava. Seu coração batia acelerado com a visão da terra enegrecida lá embaixo, e ele tentava descobrir de onde vinha aquela voz sofrida e aguda. – Socorro! Socorro! Socorro! – gritava, e agora eles podiam ver a luzinha brilhante de uma fogueira queimando no coração da floresta, piscando como um vaga-lume ou como a chama de sua curiosidade.

HICCUP

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Não era de admirar que Soluço estivesse nervoso, pois aquele território estava arrasado e destruído pelo fogo da Rebelião dos Dragões, e o dragão Furioso perseguia Soluço, e somente Soluço, mais que qualquer outra coisa. Ele fizera a promessa solene de reduzir o mundo inteiro a cinzas procurando por ele.

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Havia jurado que nenhuma rocha, nenhuma ilha, caverna ou precipício seria um esconderijo seguro para o garoto. Os resultados da lunática caçada do dragão Furioso estavam na paisagem mutilada e destroçada à volta deles, os cadáveres retorcidos das árvores, os restos queimados dos penhascos destruídos.

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– Ah, pelo amor de Thor – sussurrou Perna-de-peixe, o melhor amigo de Soluço, sentado atrás dele no Sombra Mortal. Perna-de-peixe era, em comparação, ainda mais magricela e maltrapilho que Soluço, com os óculos quebrados empoleirados precariamente na ponta do nariz. – A Rebelião dos Dragões pode nos fazer em pedacinhos! Sua mãe disse para NÃO SAIR DO ESCONDERIJO EM HIPÓTESE ALGUMA – protestou Perna-de-peixe. – Só precisamos ficar escondidos por

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mais dois dias, até a Véspera do Juízo Final, quando encontraremos o restante dos Companheiros da Marca do Dragão nas Areias Cantantes da Oferenda do Barqueiro. Isso é TUDO que precisamos fazer. Sua mãe disse que cuidaria de todo o resto...

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– Mas e se fosse um de nós completamente sozinho aí nessa floresta? – argumentou Soluço. – Tem razão – respondeu o amigo, segurando firmemente a espada com a mão trêmula. – Eu sei que você está certo... Só que é tão assustador... Soluço e seus dois amigos humanos estavam brancos feito larvas após ficarem um mês sem ver a luz do dia. Era a primeira vez que saíam depois de tanto tempo. Seus dragões haviam se alternado, aventurando-se do lado de fora para buscar comida e lenha. Agora os dez Companheiros da Marca do Dragão haviam deixado a segurança do esconderijo diante daquele pedido de ajuda apavorado e distante. À medida que se aproximavam da luzinha, o grito desesperado ia ficando cada vez mais perto, e era impossível não reagir ao medo na voz. O que poderia estar acontecendo àquela pessoa para fazê-la berrar de tal maneira? – Socorro! Socorro! Socorro! O pedido de ajuda de um humano não podia ser ignorado. Soluço engoliu em seco, olhando para as árvores lá embaixo. Um dia aquela havia sido uma floresta

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viva. Agora estava imóvel como a morte, chamuscada, queimada e arrasada pela intensidade da ira do dragão Furioso. O terceiro ser humano nas costas do Sombra Mortal era uma pequena e feroz Ladra do Pântano chamada Camicazi. Parecia que uma família de esquilos hiperativos dera uma festa de arromba em seus cabelos. – Ah, vamos lá, Perna-de-peixe – sussurrou Camicazi, assoviando feliz. – Você sabe que temos que fazer isso. Além do mais, preciso de um pouco de exercício. Ficamos confinados naquele esconderijo por muito tempo.

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Francamente, a essa altura, Camicazi estava tão entediada que, se Soluço tivesse sugerido pegar carona pendurado nas garras do dragão Furioso, ela teria aceitado. – Um pouco de exercício? – rugiu Perna-de-peixe. – Um pouco de exercício? Isto não é a versão Viking de um programa de exercício para garotas. Três pequenos dragões de caça e um dragão de montaria voavam logo acima do Sombra Mortal. Dois dos dragões de caça pertenciam a Soluço: um, Presa de Odin, era muito velho, e tinha asas rasgadas e esfarrapadas, e o outro, Banguela, era bem jovem, o menor e mais desobediente dragão de caça do Arquipélago. O terceiro dragão de caça era uma Dragoa-temperamental dourada chamada Mosca da Tempestade, que também tinha pele de camaleão e pertencia a Camicazi. O dragão de montaria, Caminhante do Vento, era uma criatura gentil de asas e pernas compridas e rasgadas. Ele abanou a cauda, que mais parecia uma

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bandeira, aguardando, esperançoso, que os outros decidissem o que fazer. – V-V-Vamos para casa... – choramingou Banguela em dragonês, a língua que os dragões usavam para se comunicar. Apenas Soluço podia entendê-lo, pois era um encantador de dragões. Os imensos olhos verde-claros de Banguela estavam esbugalhados de pavor. Na verdade, ele não se importava muito com humanos estranhos que não pertenciam a ele. Ele só queria ir para casa, mas nunca admitiria isso na frente de Mosca da Tempestade. Banguela era apaixonado por ela, então tentava se exibir sempre que ela estava por perto. – Está f-f-frio demais para f-f-ficar aqui fora... – reclamou o dragãozinho. Banguela era gago, e isso ficou ainda mais evidente porque ele tremia muito.

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– Bem, eu disse para você usar seu casaco, não disse? – rebateu Soluço. – Eu falei várias vezes! Mas você respondeu que não, que sentiria muito calor com ele... – Aquele c-c-casaco me faz parecer um maricas... – protestou Banguela. – E, na verdade, B-B-Banguela n-n-não está com frio... B-B-Banguela sente muito c-c-calor... talvez um pouquinho de calor d-d-demais... Banguela precisa voltar para o esconderijo e se r-r-refrescar... O calorento Banguela na verdade sentia tanto frio que estava praticamente azul. – Não é porque B-B-Banguela tem medo dos dragões da Rebelião – bufou Banguela. – Não, não, NÃO. Banguela pode lutar contra os dragões da Rebelião com uma das asas amarrada nas costas, é, eu posso, Mosca da Tempestade – gabou-se ele. – Não é verdade, Presa de Odin? E Banguela uma vez m-m-mordeu o dragão Furioso TÃO FORTE no traseiro que ele chorou...

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Mas Banguela está com um pouco de calor e com asas problemáticas... OLHEM... Banguela estendeu uma das asas e deixou a ponta ficar bem mole. – Flip-flop, flip-flop... – murmurou Banguela em um tom meigo de autoconsolação. – É, eu mesma estou sentindo cócegas no fundo da garganta – sibilou Mosca da Tempestade, piscando os olhos travessos. Ela falava em norueguês, pois era um dos raríssimos dragões que sabiam a língua humana. – Talvez devêssemos voltar e nos deitar um pouco... talvez eu devesse voltar e buscar o casaco de Banguela... Você fica uma gracinha com seu casaco, sabia? – Ah, você acha? – perguntou o dragãozinho, repensando o casaco. – Bobagem, vocês vão se sentir melhor com um pouco de ar fresco – ralhou Camicazi. – Você deve estar

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com indigestão, Mosca da Tempestade. Precisa parar de engolir aqueles esquilos inteiros. – INDIGESTÃO? – exclamou Mosca da Tempestade, ofendida. Seu lindo corpo de serpente naquele momento estava roxo (a cor que ela adquiria quando mentia), mas à medida que ficava zangada, uma névoa negra saía da área de seu coração, como uma gota de tinta se espalhando lentamente pela água. – INDIGESTÃO? Eu sou uma artista, um espírito livre... Vou aonde o vento me leva... Espíritos livres não têm indigestão... – Devo adverti-lo de que isso pode ser uma armadilha de Alvin e seus seguidores para você – avisou Presa de Odin com um sibilo ofegante. Presa de Odin era um dragão pequeno e enrugado que parecia um cãozinho dachshund flácido e murcho feito uma ameixa seca. Suas orelhas ficaram roxas e tremiam, como sempre acontecia quando havia PERIGO por perto.

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– Acredite na experiência de meus mil anos, Soluço – disse Presa de Odin. – Aquela luz está muito estranha para ser uma fogueira. Nunca vi uma fogueira que se mexe... não, em mil anos não vi. Ele estava certo. A fogueira estava se movendo, muito, muito lentamente, vale abaixo. Às vezes era coberta pela névoa pesada e bruxuleante, ou escondida pelas copas das árvores. Mas então cintilava, ganhando vida outra vez, len-ta e gradualmente, só um pou-qui-nho mais adiante. Uma fogueira que andava? Isso certamente era impossível! O humano havia parado de gritar. De alguma forma, isso era ainda mais assustador. Teria o dono da voz sido morto e engolido por qualquer terror que pudesse estar à espreita naquela silenciosa paisagem destruída? Eles estavam quase alcançando a luz, que estava maior, mais brilhante e mais forte, e Soluço podia sentir o cheiro característico de uma fogueira. O grupo agora seguia o rio que serpenteava como uma sinistra cobra adormecida pelo centro do vale. O rio fez uma curva. E lá estava... Uma fogueira, queimando em uma ilha de gelo, que deslizava com rapidez pela correnteza do rio. Deitado de bruços na ilha de gelo estava um ser humano, acorrentado a um dragão de montaria adormecido, um Furacão, que tinha cicatrizes e marcas de chicotadas por todo o corpo.

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Soluรงo percebeu no mesmo instante por que aquela pessoa estivera gritando. Correndo ao longo das margens do rio e por entre as รกrvores, havia formas

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escuras de uma gigantesca matilha de Presas-de-lobo. Ele devia estar acampando em algum lago congelado rio acima, e o gelo se partiu durante a noite, carregando-o em sua pequena jangada improvisada rio abaixo, onde seu cheiro foi detectado pelos Presas-de-lobo. Presas-de-lobo não faziam parte da Rebelião, graças a Thor. Não tinham asas, mas ainda assim eram matadores persistentes.

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Alguns deles já estavam na água, tentando subir na jangada sem fazer barulho, com as línguas malignas para fora, e o humano desesperado os empurrava com a espada. Bem, isso explicava por que a pessoa estivera gritando. Mas por que havia parado de gritar? E por que aqueles Presas-de-lobo, que lutavam para subir a bordo da jangada de gelo, perseguiam sua presa sem uivar, sem emitir som algum? Ah, pelo amor de Thor, ah, pelo amor de Thor... O humano tinha parado de gritar porque havia Outra Coisa acampada nas margens do rio naquela noite, muitas Outras Coisas que ainda dormiam ali, e essas Outras Coisas eram muito piores que os Presas-de-lobo. Com uma sensação de horror, Soluço percebeu que o que ele pensara serem troncos de árvores logo abaixo da superfície da água nas corredeiras, na parte mais rasa do rio, não eram troncos de árvores. Eram Asas de Navalha, Línguas-de-sogra, Catadores-de-cérebro e Bárbaros, algumas das espécies mais aterrorizantes da Rebelião dos Dragões. E também não eram poucos. Havia dragões da Rebelião submersos ao longo de toda a margem até onde os olhos alcançavam. Por todos os lados, no raso, era possível ver as silhuetas semelhantes a panteras dos dragões

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adormecidos, refrescando os corpos quentes como fornalhas nas correntes geladas do rio. Uma espiral de névoa verde-amarelada sulfurosa e enjoativa saía deles conforme as escamas quentes entravam em contato com a água congelante. Um imenso Bárbaro roía, durante o sono, os restos estraçalhados de uma árvore gigantesca que fora partida com violência e arrancada do solo, as pobres raízes delicadas espalhadas como uma espécie de sacrilégio. Outro, um Catador-de-cérebro, segurava os patéticos restos de um casaco humano ensanguentado que Soluço esperava sinceramente que não pertencesse a um Companheiro da Marca do Dragão. Suas silhuetas escuras e sinistras emanavam ameaça e medo. Soluço incitou o Sombra Mortal a descer, tentando alcançar o pobre e apavorado humano na jangada de gelo, que seguia rapidamente pelo rio abaixo deles. Três pares de olhos humanos e sete de olhos de dragão se estreitaram para enxergar em meio à névoa a pessoa deitada de bruços na ilha móvel de gelo golpeando os focinhos dos Presas-de-lobo que tentavam subir em sua jangada e arrastá-lo para baixo. Era um homem. Um rapaz. Um rapaz que àquela altura já havia perdido a esperança de que alguém o resgataria, e dava para ver

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em seu rosto derrotado e aterrorizado que ele achava que iria morrer em breve. Soluรงo quase engasgou ao reconhecer o jovem. Era Melequento.

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SOBRE A TRADUTORA DO ANTIGO NORUEGUÊS

outras aventuras em: Leia

Cressida Cowell foi criada entre Londres e uma ilha pequena e pouco habitada a oeste da Escócia. Sempre teve certeza de que ali viviam dragões, e por conta disso ficou encantada com a oportunidade de traduzir as memórias do maior Herói Viking de todos os tempos.

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ção de capa: C hris Gibbs

Cressida adoraria ter um dragão de estimação.

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Da série que inspirou o filme COMO TREINAR O SEU DRAGÃO www.intrinseca.com.br

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