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III

Rick Riordan UM CHAMADO do amigo

© Marty Umans

RiCK Riorda n

1964, em San Antonio, Texas, Estados Unidos, e hoje mora em Boston com a mulher e os dois filhos. Autor best-seller do The New York Times, premiado pela YALSA e pela American Library Association, por quinze anos ensinou inglês e história em escolas de São Francisco, e é a essa experiência que ele atribui sua habilidade em escrever para o

Se você está familiarizado com esses personagens ancestrais, vai ficar impressionado pelo modo como Riordan os utiliza. Se não os conhece, esta será uma apresentação empolgante. The Guardian

missão: dois novos meios-sangues foram encontrados, e sua ascendência ainda é desconhecida. Como sempre, Percy sabe que precisará contar com o poder de seus aliados, com

E OS OLIMPIANOS

sua leal espada Contracorrente... e com uma caroninha da mãe. O que eles ainda nem desconfiam é que

a m aldição do titã

RICK RIORDAN nasceu em

“A oeste, cinco buscarão a deusa acorrentada, Um se perderá na terra ressecada, A desgraça do Olimpo aponta a trilha, Campistas e Caçadoras, cada um brilha, A maldição do titã um deve sustentar, E, pela mão do pai, um irá expirar.”

Grover deixa Percy a postos para mais uma

os jovens descobertos não são os únicos em perigo: Cronos, o Senhor dos Titãs, arquitetou um de seus planos mais traiçoeiros, e nossos heróis serão presas fáceis. Um monstro ancestral foi despertado – um ser com poder suficiente para destruir o Olimpo –, e Ártemis, a única capaz de encontrá-lo, desapareceu. Percy e seus amigos têm apenas uma semana para resgatar a deusa seques-

público jovem. Além das séries Percy Jackson

trada e solucionar o mistério que ronda o

e os olimpianos e Os heróis do Olimpo, inspiradas

monstro que ela caçava.

na mitologia greco-romana, Riordan assina

Divertidíssima e repleta de ação, esta ter-

a bem-sucedida série As crônicas dos Kane, que

ceira aventura da série coloca nosso herói

visita deuses e mitos do Egito Antigo.

e seus aliados frente a frente com o maior desafio de suas vidas: a terrível profecia da maldição do titã.

III Arte de capa de SJI Associates, Inc. Ilustração © 2014 John Rocco

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Rick Riordan

E OS OLIMPIANOS

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tradução de raquel zampil

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Copyright © 2007 Rick Riordan Edição em português negociada por intermédio de Nancy Gallt Literary Agency e Sandra Bruna Agencia Literaria, SL.

título original The Titan’s Curse preparação Laura Boekel revisão Maria José de Sant’Anna Maria da Glória Carvalho diagramação Ilustrarte Design e Produção Editorial

cip-brasil. catalogação na publicação sindicato nacional dos editores de livros, rj. R452M 2. ed. Riordan, Rick, 1964A maldição do titã / Rick Riordan ; tradução Raquel Zampil. - 2. ed. - Rio de Janeiro : Intrínseca, 2014. 336 p. ; 21 cm. (Percy Jackson e os olimpianos ; 3) Tradução de: The Titan’s Curse ISBN 978-85-8057-541-5 ISBN 978-85-98078-58-8 (Capa © John Rocco 2007) 1. Mitologia grega - Literatura infantojuvenil. 2. Poseidon (Divindade grega) - Literatura infantojuvenil. 3. Hades (Divindade grega) - Literatura infantojuvenil. 4. Zeus (Divindade grega) Literatura infantojuvenil. 5. Literatura infantojuvenil americana. I. Zampil, Raquel. II. Título. III. Série. 14-13601

CDD 028.5 CDU 087.5

[2014] Todos os direitos desta edição reservados à Editora Intrínseca Ltda. Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar 22451-041 – Gávea Rio de Janeiro – RJ Tel. / Fax.: (21) 3206-7400 www.intrinseca.com.br

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Para Topher Bradfield, um campista que fez toda a diferenรงa

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sumário

UM

Minha operação de resgate termina muito mal

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DOIS

O vice-diretor tem um lança-mísseis

26

TRÊS

Bianca di Angelo faz uma escolha

37

QUATRO

Thalia põe fogo na Nova Inglaterra

52

CINCO

Faço uma ligação subaquática

64

SEIS

Um velho amigo morto vem visitar

82

SETE

Todos me odeiam, com exceção do cavalo

98

OITO

Faço uma promessa perigosa

119

NOVE

Aprendo a cultivar zumbis

129

DEZ

Destruo alguns foguetes

146

ONZE

Grover fica com um lamborghini

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DOZE

Pratico snowboard com um porco

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TREZE

Visitamos o ferro-velho dos deuses

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QUATORZE

Tenho um problema de barragem

206

QUINZE

Luto contra o gêmeo malvado do Papai Noel

227

DEZESSEIS

Encontramos o dragão do mau hálito eterno

247

DEZESSETE

Levanto alguns milhões de quilos

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DEZOITO

Uma amiga diz adeus

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DEZENOVE

Os deuses votam em como nos matar

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VINTE

Ganho um inimigo como presente de natal

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um

˜ o de resgate minha operaca termina muito mal

Na sexta-feira anterior às férias de inverno, minha mãe arrumou para mim uma maleta de viagem e algumas armas mortais e me levou até um novo internato. No caminho, pegamos minhas amigas Annabeth e Thalia. Era uma viagem de oito horas de Nova York até Bar Harbor, no Maine. Chuva e neve fustigavam a estrada. Annabeth, Thalia e eu não nos víamos fazia meses, mas entre a nevasca e o pensamento voltado para o que estávamos prestes a fazer, estávamos nervosos demais para conversar. Exceto minha mãe. Ela fala mais se fica nervosa. Quando finalmente chegamos a Westover Hall, estava escurecendo, e ela havia contado a Annabeth e a Thalia todas as constrangedoras histórias de bebê que havia para contar a meu respeito. Thalia limpou a janela embaçada do carro e espiou lá fora. — É, isso vai ser divertido. Westover Hall parecia o castelo de um cavaleiro do mal. Era todo de pedras negras, com torres e janelas estreitas, e um grande conjunto de portas duplas de madeira. Erguia-se sobre um penhasco escarpado, coberto de neve, que dava vista para uma grande floresta gelada de um dos lados e para o oceano cinzento e agitado do outro. [9]

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— Vocês têm certeza de que não querem que eu espere? — perguntou minha mãe. — Não, obrigado, mãe — respondi. — Não sei quanto tempo vai levar. Vamos ficar bem. — Mas como é que vocês vão voltar? Estou preocupada, Percy. Torci para não ficar vermelho. Já era bastante ruim depender de minha mãe para me levar até minhas batalhas. — Está tudo bem, sra. Jackson. — Annabeth sorriu, tranquilizadora. Seus cabelos louros estavam enfiados debaixo de um gorro de esqui e os olhos cinzentos tinham a mesma cor do oceano. — Vamos mantê-lo longe de encrencas. Minha mãe pareceu relaxar um pouco. Ela acha que Annabeth é a semideusa mais equilibrada a chegar à oitava série. E tem certeza de que Annabeth sempre impede que eu seja morto. Ela tem razão, mas isso não quer dizer que eu tenha de gostar desse fato. — Muito bem, queridos — disse minha mãe. — Vocês têm tudo de que precisam? — Sim, sra. Jackson — respondeu Thalia. — Obrigada pela carona. — Suéteres extras? O número do meu celular? — Mãe... — Sua ambrosia e seu néctar, Percy? E um dracma de ouro para o caso de precisar entrar em contato com o acampamento? — Mãe, fala sério! Vamos ficar bem. Andem, meninas. Ela pareceu um pouco magoada, e eu lamentei por isso, mas estava pronto para saltar daquele carro. Se mamãe contasse mais uma história sobre como eu ficava uma gracinha na banheira quando tinha três anos, eu ia me enterrar na neve e congelar até a morte. Annabeth e Thalia me seguiram, saindo do carro. O vento soprava, atravessando meu casaco como punhais de gelo. [10]

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Assim que o carro da minha mãe estava fora do campo de visão, Thalia disse: — Sua mãe é tão legal, Percy. — Ela é legal — admiti. — E você? Tem contato com a sua mãe? Assim que fiz a pergunta, desejei ter ficado calado. Thalia era ótima em lançar olhares diabólicos, ainda mais com as roupas punk que sempre usava — o casaco militar rasgado, a calça de couro preto e as correntes, o rímel preto e aqueles olhos azuis intensos. Mas o olhar que ela me dirigiu agora era um perfeito “dez” na escala do mal. — Se isso fosse da sua conta, Percy... — É melhor entrarmos — interrompeu Annabeth. — Grover deve estar nos esperando. Thalia olhou para o castelo e estremeceu. — Tem razão. O que será que ele encontrou aqui que o fez enviar o pedido de socorro? Ergui os olhos para as torres escuras de Westover Hall. — Nada de bom — presumi. As portas de carvalho se abriram rangendo e nós três entramos no saguão em meio a um redemoinho de neve. — Uau — foi tudo que pude dizer. O lugar era imenso. As paredes eram revestidas por estandartes de batalha e vitrines com armas: rifles antigos, machados e um monte de outras coisas. Bem, eu sabia que Westover era uma escola militar e tudo o mais, porém a decoração parecia de matar. Literalmente. Minha mão foi até o bolso, onde eu mantinha minha caneta esferográfica letal, Contracorrente. Eu já podia pressentir algo de errado naquele lugar. Algo perigoso. Thalia esfregava o brace[11]

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lete de prata, seu item mágico favorito. Eu sabia que estávamos pensando o mesmo. Uma batalha se aproximava. Annabeth começou a dizer: — Queria saber onde... As portas se fecharam violentamente atrás de nós. — Ooo.k. — murmurei. — Acho que vamos ficar algum tempo por aqui. Eu podia ouvir uma música ecoando, vinda da outra extremidade do saguão. Parecia dance music. Escondemos nossas maletas atrás de uma coluna e começamos a caminhar naquela direção. Não havíamos ido muito longe quando ouvi passos no piso de pedra, e um homem e uma mulher saíram das sombras para nos interceptar. Ambos tinham cabelos grisalhos curtos e uniforme preto com debrum vermelho, no estilo de militar. A mulher tinha um leve bigode e o homem estava perfeitamente barbeado, o que me pareceu meio invertido. Ambos caminhavam rígidos, como se tivessem cabos de vassoura presos às costas com fitas adesivas. — Então? — perguntou a mulher. — O que estão fazendo aqui? — Hã... — Percebi que não havia me programado para essa possibilidade. Ficara tão concentrado em chegar até Grover e descobrir o que estava errado que não pensei que alguém poderia estranhar três crianças entrando sorrateiramente numa escola à noite. Não havíamos conversado no carro sobre como entraríamos. — Senhora, estamos apenas... — comecei. — Ora! — interrompeu o homem, o que me fez pular. — Não é permitida a entrada de visitantes no baile! Vocês serão ecs-pulsos! Ele tinha sotaque — francês, talvez. Pronunciava o x como em pixel. Era alto e tinha um rosto aquilino. As narinas se abriam e fechavam quando ele falava, o que tornava muito difícil não fitar [12]

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seu nariz, e seus olhos eram de cores diferentes — um castanho, outro azul —, como os de um gato de rua. Calculei que ele estivesse prestes a nos atirar na neve, mas, nesse momento, Thalia deu um passo à frente e fez algo muito estranho. Ela estalou os dedos. O som foi agudo e alto. Talvez fosse apenas a minha imaginação, mas senti uma rajada de vento surgir de sua mão e atravessar a sala como uma onda. A tal lufada passou sobre todos nós, fazendo farfalhar os estandartes nas paredes. — Ah, mas não somos visitantes, senhor — disse Thalia. — Frequentamos esta escola. O senhor lembra de nós: eu sou Thalia. E estes são Annabeth e Percy. Estamos no oitavo ano. O professor estreitou os olhos de duas cores. Eu não sabia o que Thalia estava pensando. Agora provavelmente seríamos punidos por mentir e atirados na neve. Mas o homem pareceu hesitar. Ele olhou para a colega. — Sra. Tengiz, conhece estes alunos? Apesar do perigo que corríamos, tive de morder a língua para não rir. Uma professora chamada Tem Giz? Ele só podia estar brincando. A mulher piscou, como se alguém acabasse de acordá-la de um transe. — Eu... sim, creio que sim, senhor. — Ela nos olhou, franzindo o cenho. — Annabeth. Thalia. Percy. O que estão fazendo fora do ginásio? Antes que pudéssemos responder, ouvi mais passos, e Grover chegou correndo, sem fôlego. — Vocês conseguiram! Vocês... Ele interrompeu a fala quando viu os professores. [13]

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— Ah, sra. Tengiz. Dr. Espinheiro! Eu, hã... — O que é isso, sr. Underwood? — perguntou o homem. Seu tom deixava claro que ele detestava Grover. — O que quer dizer com eles conseguiram? Estes alunos moram aqui. Grover engoliu em seco. — Sim, senhor. Claro, dr. Espinheiro. Eu só quis dizer que estou muito contente por eles terem conseguido... o ponche para o baile! Está delicioso. E foram eles que fizeram! O dr. Espinheiro nos fuzilou com o olhar. Concluí que um de seus olhos tinha de ser falso. O castanho? O azul? Ele parecia querer nos arremessar da torre mais alta do castelo, mas nesse momento a sra. Tengiz disse, um pouco fora do ar: — É, o ponche está excelente. Agora vamos, todos. Vocês não podem mais sair do ginásio! Não esperamos que ela repetisse. Partimos com uma porção de “Sim, senhora” e “Sim, senhor” e algumas continências, só porque parecia a coisa certa a fazer. Grover nos conduziu apressadamente pelo saguão, na direção da música. Eu podia sentir os olhos dos professores nas minhas costas, mas caminhava próximo a Thalia e perguntei em voz baixa: — Como é que você fez aquele negócio de estalar os dedos? — Refere-se à Névoa? Quíron ainda não mostrou a você como fazer isso? Um nó desconfortável formou-se em minha garganta. Quíron era nosso principal treinador no acampamento, mas nunca tinha me ensinado nada desse gênero. Por que ele havia ensinado a Thalia e não a mim? Grover nos impeliu para uma porta onde se lia a palavra ginásio no vidro. Apesar da dislexia, consegui ler. [14]

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— Essa foi por pouco! — disse Grover. — Graças aos deuses vocês chegaram aqui! Annabeth e Thalia abraçaram Grover. Eu o cumprimentei com a mão espalmada. Era bom vê-lo depois de tantos meses. Ele estava um pouco mais alto e tinha um pouco mais de barba, mas, fora isso, era o mesmo de sempre ao se passar por humano — um boné vermelho sobre os cabelos castanhos encaracolados, a fim de esconder os chifres de bode, jeans largo e tênis com pés falsos para disfarçar as pernas peludas e os cascos. Vestia uma camiseta preta, cujos dizeres levei alguns segundos para ler. Estava escrito: westover hall: praça. Eu não tinha muita certeza se isso era... hã... a patente de Grover ou apenas o lema da escola. — Então, qual é a emergência? — perguntei. Grover respirou fundo. — Encontrei dois. — Dois meios-sangues? — perguntou Thalia, perplexa. — Aqui? Grover assentiu. Encontrar um meio-sangue já era bastante raro. Durante o ano, Quíron havia posto os sátiros em plantão de emergência e os mandado aos quatro cantos do país, esquadrinhando as escolas do quinto ano até o ensino médio em busca de possíveis recrutas. Era época de desespero. Estávamos perdendo campistas. Precisávamos de todos os novos combatentes que pudéssemos encontrar. O problema era que não havia muitos semideuses por aí. — Irmão e irmã — informou ele. — Estão com dez e doze anos. Não sei quem são seus pais, mas são fortes. E nosso tempo está se esgotando. Preciso de ajuda. — Monstros? [15]

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— Um. — Grover parecia nervoso. — Ele está desconfiado. Não creio que já tenha certeza, e hoje é o último dia do período letivo. Estou certo de que não vai deixá-los ir embora sem decifrar o caso. Esta pode ser a nossa última chance! Todas as vezes que tento me aproximar deles, ele está lá, bloqueando a minha passagem. Não sei o que fazer! Grover olhou para Thalia desesperado. Tentei não ficar aborrecido com isso. Grover costumava olhar para mim em busca de respostas, mas Thalia tinha primazia. Não só porque seu pai era Zeus. Thalia tinha mais experiência do que qualquer um de nós em se defender de monstros no mundo real. — Certo — disse ela. — Esses meios-sangues estão no baile? Grover assentiu. — Então vamos dançar — decidiu ela. — Quem é o monstro? — Ah — disse Grover, olhando ao redor, nervoso. — Vocês acabam de conhecê-lo. É o vice-diretor, o dr. Espinheiro. Uma coisa estranha nas escolas militares: as crianças ficam totalmente enlouquecidas quando há um evento especial que lhes permita se livrar do uniforme. Acho que é porque tudo é tão rígido o resto do tempo que elas sentem que, em ocasiões fora da rotina, precisam compensar essa rigidez ao máximo ou coisa parecida. Havia bolas de gás pretas e vermelhas por todo o chão do ginásio, e os garotos as chutavam na cara uns dos outros, ou tentavam se estrangular com as serpentinas de papel crepom presas às paredes. As garotas andavam de um lado para o outro em grupos, como sempre fazem, usando muita maquiagem e blusinhas de alça fina, calças de cores berrantes e sapatos que pareciam instrumentos de tortura. De vez em quando, cercavam o pobre coitado de um garoto, como um cardume de peixes, dando gritinhos e risa[16]

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dinhas, e, quando elas finalmente o deixavam, o garoto tinha fitas nos cabelos e um monte de riscos de batom pelo rosto. Alguns dos caras mais velhos se pareciam mais comigo — pouco à vontade, nos cantos do ginásio, tentando se esconder, como se a qualquer minuto fossem precisar lutar por suas vidas. Naturalmente, no meu caso, isso era verdade... — Lá estão eles. — Grover fez um gesto com a cabeça na direção de um casal de crianças discutindo nas arquibancadas. — Bianca e Nico di Angelo. A garota usava um gorro verde que caía sobre o rosto, como se estivesse tentando escondê-lo. O garoto era obviamente seu irmão mais novo. Ambos tinham cabelos escuros e sedosos e pele morena, e gesticulavam muito com as mãos enquanto falavam. O garoto embaralhava algum tipo de carta. A irmã parecia repreendê-lo por alguma coisa. Ela ficava olhando à volta o tempo todo, como se pressentisse que algo estava errado. — Eles já... bem, você já contou a eles? — perguntou Annabeth. Grover sacudiu a cabeça. — Você sabe como é. Isso poderia colocá-los ainda mais em perigo. Quando se dão conta de quem são, seu cheiro se torna mais forte. Ele olhou para mim e eu assenti. Nunca entendi de fato como os meios-sangues “cheiram” para os monstros e os sátiros, mas sabia que esse cheiro pode significar a morte. E quanto mais poderoso você se torna como semideus, mais cheira a almoço de monstro. — Então vamos pegá-los e dar o fora daqui — disse eu. Comecei a me adiantar, mas Thalia pousou a mão no meu ombro. O vice-diretor, o dr. Espinheiro, havia saído de uma porta perto da arquibancada e estava parado junto aos irmãos di Angelo. [17]

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Ele acenou friamente com a cabeça em nossa direção. O olho azul pareceu brilhar. A julgar por sua expressão, supus que Espinheiro não havia sido enganado pelo truque de Thalia com a Névoa, afinal. Ele desconfiava de quem éramos. Estava só esperando para ver por que estávamos ali. — Não olhe para as crianças — ordenou Thalia. — Temos de esperar uma oportunidade de pegá-las. Precisamos fingir que não estamos interessados nelas. Despistá-lo. — Como? — Somos três meios-sangues poderosos. Nossa presença deve confundi-lo. Misturem-se. Ajam com naturalidade. Dancem um pouco. Mas fiquem de olho naquelas crianças. — Dançar? — perguntou Annabeth. Thalia assentiu. Ela virou o ouvido na direção da música e fez uma careta. — Argh. Quem escolheu Jesse McCartney? Grover pareceu ofendido. — Eu. — Ah, meus deuses, Grover! Isso é tão careta! Você não pode tocar, hum, Green Day ou algo assim? — Green o quê? — Deixa pra lá. Vamos dançar. — Mas eu não consigo dançar. — Consegue, se eu conduzi-lo — disse Thalia. — Vamos lá, menino-bode. Grover gemeu quando Thalia agarrou sua mão e o levou para a pista de dança. Annabeth sorriu. — O que foi? — perguntei. [18]

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— Nada. Só que é legal ter Thalia de volta. Annabeth ficara mais alta do que eu desde o último verão, o que eu achei meio incômodo. Não costumava usar nenhuma joia, exceto pelo colar de contas do Acampamento Meio-Sangue, mas agora usava brinquinhos de prata no formato de corujas — o símbolo de sua mãe, Atena. Ela tirou o gorro de esqui e os longos cabelos louros caíram sobre os ombros. Por alguma razão, isso fez com que parecesse mais velha. — Então... — Tentei pensar em algo para dizer. Ajam com naturalidade, Thalia nos dissera. Você é um meio-sangue em uma missão perigosa: o que, diabos, é natural? — Hum, tem desenhado algum edifício legal ultimamente? Os olhos de Annabeth se iluminaram, como sempre acontecia quando falava sobre arquitetura. — Ah, meus deuses, Percy. Na minha escola nova, faço desenho em perspectiva como matéria eletiva, e tem um programa de computador superlegal... Ela continuou explicando como havia projetado um enorme monumento que queria construir no Marco Zero, em Manhattan. Falou sobre suportes estruturais e fachadas e coisas desse tipo, e eu tentei prestar atenção. Sabia que ela queria ser uma superarquiteta quando crescesse — ela adorava matemática, edifícios históricos e tudo o mais —, mas eu mal compreendia uma palavra do que estava dizendo. A verdade é que eu estava meio desapontado por saber que ela gostava tanto assim da nova escola. Era a primeira vez que Annabeth frequentava uma em Nova York. Eu tinha esperanças de vê-la mais vezes. Ela e Thalia estavam matriculadas nesse internato no Brooklyn, que era perto o bastante do Acampamento Meio-Sangue para que Quíron pudesse ajudar no caso de elas se meterem em [19]

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alguma encrenca. Como era uma escola só para meninas, eu frequentava a MS-54, em Manhattan, e mal as via. — É, ah, legal — disse eu. — Então você vai ficar lá o resto do ano, é? A expressão dela ficou sombria. — Bem, talvez, se eu não... — Ei! — chamou Thalia. — Ela estava dançando uma música lenta com Grover, que tropeçava nos próprios pés e chutava as canelas dela com uma cara de quem queria morrer. Pelo menos os pés dele eram falsos. Diferentemente de mim, ele tinha uma desculpa para ser desajeitado. — Dancem, vocês também! — mandou Thalia. — Parecem idiotas aí parados sem fazer nada. Olhei nervosamente para Annabeth e, em seguida, para os grupos de garotas que percorriam o ginásio. — E então? — perguntou Annabeth. — Hã, quem eu devo tirar para dançar? Ela me deu um soco na barriga. — Eu, Cabeça de Alga. — Ah. Ah, está bem. Então fomos para a pista de dança, e eu olhei para ver como Thalia e Grover estavam se arrumando. Coloquei a mão no quadril de Annabeth, e ela agarrou minha outra mão, como se estivesse prestes a me aplicar um golpe de judô. — Não vou morder você — disse ela. — Francamente, Percy. Vocês, garotos, não têm bailes na sua escola? Não respondi. A verdade é que tínhamos. Mas eu nunca, hã, dançava neles. Em geral, era um dos garotos jogando basquete, no canto. Arrastamos os pés de um lado para o outro por alguns minutos. Tentei me concentrar nos pequenos detalhes, como as serpen[20]

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tinas de papel crepom e a poncheira — em qualquer coisa exceto o fato de Annabeth ser mais alta do que eu e de minhas mãos estarem suadas e provavelmente nojentas, e de eu ficar pisando nos dedos dos pés dela. — O que você estava dizendo antes? — perguntei. — Está tendo problemas na escola ou algo assim? Ela apertou os lábios. — Não é isso. É o meu pai. — Hum, hum. — Eu sabia que Annabeth tinha um relacionamento difícil com o pai. — Achei que as coisas estivessem melhorando entre vocês. É a sua madrasta de novo? Annabeth suspirou. — Ele resolveu mudar. Justamente quando eu estava me acostumando com Nova York, ele aceitou esse emprego estúpido como pesquisador para um livro sobre a Primeira Guerra Mundial. Em São Francisco. Ela disse isso da mesma forma como diria Campos da Punição ou uniforme de ginástica do Hades. — Então seu pai quer que você vá para lá com ele? — perguntei. — Para o outro lado do país — disse ela, infeliz. — E meios-sangues não podem viver em São Francisco. Ele devia saber disso. — O quê? Por que não? Annabeth revirou os olhos. Talvez ela pensasse que eu estava brincando. — Você sabe. Está bem lá. — Ah — eu disse. Não tinha a menor ideia do que ela estava falando, mas não queria parecer estúpido. — Então... você vai voltar a morar no acampamento ou o quê? — É algo mais sério do que isso, Percy. Eu... eu devia lhe contar uma coisa. [21]

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De repente ela congelou. — Eles sumiram. — O quê? Segui seu olhar. As arquibancadas. As duas crianças meios-sangues, Bianca e Nico, não estavam mais lá. A porta perto das arquibancadas estava escancarada. O dr. Espinheiro não se encontrava em nenhum lugar à vista. — Precisamos buscar Thalia e Grover! — Annabeth olhava à sua volta freneticamente. — Ah, para onde eles foram? Venha! Ela saiu correndo no meio da multidão. Eu estava prestes a segui-la quando uma horda de garotas se interpôs em meu caminho. Dei a volta, desviando-me delas, a fim de evitar o tratamento fita-e-batom, e, quando consegui me livrar, Annabeth também havia desaparecido. Contornei todo o lugar, procurando por ela, Thalia ou Grover. Em vez deles, vi algo que fez o meu sangue gelar. A cerca de quinze metros, caído no chão do ginásio, estava um gorro verde, exatamente como o que Bianca di Angelo estava usando. Perto dele, viam-se algumas cartas espalhadas. Então vi de relance o dr. Espinheiro. Ele saía apressado por uma porta na extremidade oposta do ginásio, levando as crianças di Angelo pela nuca, como se fossem gatinhos. Eu ainda não conseguia ver Annabeth, mas sabia que ela seguira para o outro lado, à procura de Thalia e Grover. Eu quase corri atrás dela, mas então pensei: Espere. Lembrei-me do que Thalia dissera no saguão de entrada, olhandome surpresa quando perguntei sobre o truque de estalar os dedos: Quíron ainda não mostrou a você como fazer isso? Pensei na maneira como Grover tinha olhado para ela, esperando que ela salvasse a pátria. [22]

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Não que eu estivesse ressentido com Thalia. Ela era legal. Não era culpa dela ser filha de Zeus e receber toda a atenção... No entanto, eu não precisava correr atrás dela para resolver todos os problemas. Além disso, não havia tempo. Os di Angelo estavam em perigo. Eles podiam já estar desaparecidos quando eu encontrasse meus amigos. Eu conhecia monstros. Era capaz de lidar com aquilo sozinho. Tirei Contracorrente do bolso e corri atrás do dr. Espinheiro. A porta levava a um corredor escuro. Ouvi sons de luta à frente, então um grunhido de dor. Tirei a tampa de Contracorrente. A caneta cresceu em minhas mãos até eu me ver segurando uma espada grega de bronze, de cerca de noventa centímetros, com cabo de couro. A lâmina brilhou levemente, lançando uma luz dourada nas fileiras de armários. Disparei pelo corredor, mas, quando cheguei à outra extremidade, não havia ninguém ali. Abri uma porta e estava de volta ao saguão principal de entrada. Eu tinha dado uma volta completa. Não via o dr. Espinheiro em parte alguma, mas lá estavam, no lado oposto da sala, os irmãos di Angelo. Eles estavam paralisados de terror, olhando diretamente para mim. Avancei devagar, baixando a ponta da espada. — Está tudo bem. Eu não vou machucar vocês. Eles não responderam. Seus olhos estavam cheios de pavor. O que havia de errado com eles? Onde estava o dr. Espinheiro? Talvez ele tivesse pressentido a presença de Contracorrente e batido em retirada. Os monstros detestavam armas celestiais de bronze. — Meu nome é Percy — disse eu, tentando manter a voz controlada. — Vou tirar vocês daqui, levá-los para um lugar seguro. [23]

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Os olhos de Bianca se arregalaram. Os punhos se apertaram. Somente quando era tarde demais percebi o que o olhar dela queria dizer. Ela não estava com medo de mim. Estava tentando me avisar. Dei meia-volta e alguma coisa fez UIIIISH! A dor explodiu em meu ombro. Uma força semelhante à de uma imensa mão me puxou para trás e me atirou contra a parede. Brandi a espada, mas não havia nada para atingir. Uma risada fria ecoou pelo saguão. — Sim, Perseu Jackson — disse o dr. Espinheiro. Seu sotaque desfigurou o J no meu sobrenome. — Eu sei quem você é. Tentei libertar meu ombro. Meu casaco e minha camisa estavam espetados na parede por uma espécie de espinho — um projétil negro, semelhante a um punhal, de cerca de trinta centímetros. Ele havia arranhado a pele do meu ombro ao atravessar a roupa, e o corte queimava. Eu já sentira algo assim antes. Veneno. Forcei-me a me concentrar. Eu não ia desmaiar. Uma silhueta negra agora movia-se em nossa direção. O dr. Espinheiro entrou na área iluminada pela luz pálida. Ele ainda parecia humano, mas seu rosto era demoníaco. Tinha dentes brancos perfeitos e seus olhos castanho/azul refletiam a claridade da minha espada. — Obrigado por sair do ginásio — disse ele. — Odeio esses bailinhos de escola. Tentei novamente brandir a espada, mas ele estava fora do meu alcance. UIIIISH! Um segundo projétil surgiu de algum ponto atrás do dr. Espinheiro. Mas ele aparentemente não se movera. Era como se alguém invisível estivesse atrás dele atirando facas. Perto de mim, Bianca gemeu. O segundo espinho empalou-se na parede de pedra, a um centímetro do rosto dela. [24]

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— Vocês três virão comigo — determinou o dr. Espinheiro. — Quietos. Obedientes. Se fizerem um só ruído, se gritarem por socorro ou tentarem lutar, vou lhes mostrar o quanto minha mira pode ser precisa.

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III

Rick Riordan UM CHAMADO do amigo

© Marty Umans

RiCK Riorda n

1964, em San Antonio, Texas, Estados Unidos, e hoje mora em Boston com a mulher e os dois filhos. Autor best-seller do The New York Times, premiado pela YALSA e pela American Library Association, por quinze anos ensinou inglês e história em escolas de São Francisco, e é a essa experiência que ele atribui sua habilidade em escrever para o

Se você está familiarizado com esses personagens ancestrais, vai ficar impressionado pelo modo como Riordan os utiliza. Se não os conhece, esta será uma apresentação empolgante. The Guardian

missão: dois novos meios-sangues foram encontrados, e sua ascendência ainda é desconhecida. Como sempre, Percy sabe que precisará contar com o poder de seus aliados, com

E OS OLIMPIANOS

sua leal espada Contracorrente... e com uma caroninha da mãe. O que eles ainda nem desconfiam é que

a m aldição do titã

RICK RIORDAN nasceu em

“A oeste, cinco buscarão a deusa acorrentada, Um se perderá na terra ressecada, A desgraça do Olimpo aponta a trilha, Campistas e Caçadoras, cada um brilha, A maldição do titã um deve sustentar, E, pela mão do pai, um irá expirar.”

Grover deixa Percy a postos para mais uma

os jovens descobertos não são os únicos em perigo: Cronos, o Senhor dos Titãs, arquitetou um de seus planos mais traiçoeiros, e nossos heróis serão presas fáceis. Um monstro ancestral foi despertado – um ser com poder suficiente para destruir o Olimpo –, e Ártemis, a única capaz de encontrá-lo, desapareceu. Percy e seus amigos têm apenas uma semana para resgatar a deusa seques-

público jovem. Além das séries Percy Jackson

trada e solucionar o mistério que ronda o

e os olimpianos e Os heróis do Olimpo, inspiradas

monstro que ela caçava.

na mitologia greco-romana, Riordan assina

Divertidíssima e repleta de ação, esta ter-

a bem-sucedida série As crônicas dos Kane, que

ceira aventura da série coloca nosso herói

visita deuses e mitos do Egito Antigo.

e seus aliados frente a frente com o maior desafio de suas vidas: a terrível profecia da maldição do titã.

III Arte de capa de SJI Associates, Inc. Ilustração © 2014 John Rocco

O maldição do tita - capa FECHAMENTO.indd 1

www.intrinseca.com.br

a m aldição do titã

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A maldição do titã - NOVA CAPA  

Material promocional. © 2007 Rick Riordan (Rio de Janeiro. Intrínseca, 2014) Todos os direitos reservados.

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