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Uma misteriosa organização. Uma história de amor que atravessou a Segunda Guerra Mundial. Um universo repleto de atrocidades. E tudo começa com uma simples carta...

cortesia da autora

“Um livro que permanece na mente do leitor por muito tempo após o término da última página. Uma história enriquecedora, que evoca tanto um sentimento de tristeza quanto de esperança.” – The Huffington Post

Thaisa Frank cresceu entre o Meio-Oeste americano e o Bronx, em Nova York. Neta de um teólogo presbiteriano e de um judeu hassídico de origem romena que gostavam de discutir textos em aramaico, sua obra reflete dualidade cultural. Formada em filosofia da ciência, desenvolveu sua habilidade com a escrita trabalhando como editora de textos e ghost-writer. Além do romance Os óculos de Heidegger, publicou diversas coletâneas de contos e novelas e também ensaios críticos sobre literatura e arte. Coautora de Finding Your Writer’s Voice: A Guide to Creative Fiction, foi professora no departamento de graduação da San Francisco State University e da Universidade de San Francisco e professora visitante de escrita criativa na Universidade da Califórnia.

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“Utilizando-se da narrativa precisa que lhe rendeu tantos elogios, Thaisa Frank apresenta uma história surreal sobre um assunto que não pode ser esquecido.” – Booklist

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Thaisa Frank Os óculos de Heidegger

da amizade em meio às piores adversidades. O livro sugestivamente ilustra o Holocausto por meio de um estado quase de sonho. Thaisa Frank reconstrói com habilidade a paisagem da Alemanha nazista a partir de um ponto de vista totalmente original.

Thaisa Frank

Os óculos de Heidegger

Em seu romance de estreia, Thaisa Frank apresenta uma história fantástica que tem como cenário a Operação Postal, programa nazista que obrigava os judeus enviados aos campos de concentração a escreverem cartas aos familiares ainda livres como forma de controlar os registros sobre o assunto. Em Os óculos de Heidegger, o destino dessa correspondência é um bunker secreto, onde um grupo de intelectuais é orientado a responder às cartas dos familiares desses prisioneiros. Chamado de Complexo dos Escribas, o objetivo do projeto era, por um lado, manter um registro da correspondência trocada no período e, por outro, garantir um sobrenatural plano de segurança: evitar que os espíritos dos mortos dedurassem a Solução Final nazista. Apesar das ordens absurdas e potencialmente confusas, os cerca de cinquenta escribas vivem em relativa paz sob a supervisão de Elie e Gerhardt, amantes que trabalham secretamente para a Resistência. Certo dia, uma tarefa é passada pelo próprio Goebbels: responder a uma carta do filósofo Martin Heidegger para seu amigo e oculista Asher Englehardt, prisioneiro de Auschwitz. Diante da suspeita de que talvez a prosaica correspondência contenha algum tipo de mensagem cifrada capaz de desmantelar os planos do Terceiro Reich, os escribas e seus líderes se veem às voltas com o desafio de responder ao filósofo de uma forma que desencoraje uma nova troca de cartas e garanta a permanência tranquila dos confinados no local. Uma história ao mesmo tempo de amor e de suspense, Os óculos de Heidegger mescla filosofia com romance, e mostra o valor

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Os óculos de Heidegger Thaisa Frank

Tradução de Mauro Pinheiro

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Copyright © 2010 Thaisa Frank Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e fatos são produtos da imaginação da autora ou empregados num contexto fictício. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência. título original Heidegger's Glasses preparação Clarissa Peixoto revisão Milena Vargas revisão das cartas em francês, espanhol, italiano e alemão Ana Resende diagramação ô de casa

cip-brasil. catalogação-na-fonte sindicato nacional dos editores de livros, rj F912o Frank, Thaisa. Os óculos de Heidegger / Thaisa Frank ; tradução de Mauro Pinheiro. - Rio de Janeiro : Intrínseca, 2013. 288 p. : 23 cm Tradução de: Heidegger's glasses ISBN 978-85-8057-308-4 1. Ficção americana. I. Pinheiro, Mauro, 1957-. II. Título. 13-0782.

cdd: 813 cdu: 821.111(73)-3

[2013] Todos os direitos desta edição reservados à Editora Intrínseca Ltda. Rua Marquês de São Vicente, 99/3o andar 22451-041 – Gávea Rio de Janeiro – RJ Tel./Fax: (21) 3206-7400 www.intrinseca.com.br

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Este livro é dedicado à memória de Stanley Adelman — datilógrafo experiente, amigo de inúmeros escritores.

E a DS, Fred e Ike Dude.

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Sumário Notas da curadora ..................................................................9 Prólogo ...................................................................................15 As ordens ...............................................................................21 A barganha ............................................................................83 A Floresta Negra .................................................................121 O Anjo de Auschwitz .........................................................139 Os fugitivos..........................................................................181 O túnel .................................................................................231 O baú ....................................................................................265

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Notas da curadora

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ssa exposição de cartas data, aproximadamente, de 1942 até o final da Segunda Guerra Mundial. A maioria foi escrita sob coerção, fazendo parte de um programa chamado Briefaktion, ou Operação Postal. Algumas são cartas dos guetos ou bilhetes trocados entre prisioneiros nos campos de concentração. As cartas da Operação Postal esclarecem as estratégias alemãs durante a Segunda Guerra Mundial que geralmente são ofuscadas por eventos históricos mais dramáticos. Operação Postal ou Briefaktion O Briefaktion foi criado para tranquilizar os parentes ansiosos em relação aos deslocamentos e deportações de seus familiares, assim como para dissipar os rumores sobre a Solução Final, que o Reich queria manter em sigilo a qualquer custo. Essas cartas eram, em geral, escritas assim que os prisioneiros chegavam — normalmente, antes de serem levados até um bosque idílico ou alamedas de pinheiros que camuflavam as câmaras de gás. As cartas não eram enviadas diretamente a seus destinatários, mas a partir de um escritório situado em Berlim chamado Associação dos Judeus, o que tornava impossível saber suas origens. As respostas eram endereçadas mais uma vez a Berlim e raramente eram entregues; a maioria não tinha mesmo como ser lida, já que grande parte dos destinatários havia sido assassinada. Todo o sistema resultou em enormes quantidades de correspondências nunca lidas, algumas das quais foram recuperadas após a guerra. O sobrenatural e a Sociedade Thule Era de conhecimento geral que Hitler consultava astrólogos. Bem menos conhecido é o fato de que o Terceiro Reich depositava surpreendente confiança no mundo sobrenatural para estratégias relacionadas à guerra e à Solução Final. Um grupo

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chamado Die Thule-Gesellschaft (Sociedade Thule), composto de místicos, médiuns, membros do Reich e homens selecionados da SS reunia-se regularmente para canalizar os conselhos do plano astral. A Sociedade Thule recebeu este nome com base no conceito de Ultima Thule, de Lanz von Liebenfels, um local extremamente frio onde viveria uma raça de super-homens. Hitler não comparecia a essas reuniões e proibiu Liebenfels de publicar seus livros assim que alcançou o poder, provavelmente para ocultar a própria fascinação pela Ultima Thule. Heinrich Himmler (que supostamente carregava um exemplar do Bhagavad-Gita consigo para todo lado, a fim de abrandar sua culpa em relação à guerra) era o membro mais proeminente da Sociedade Thule. As mensagens consideradas oriundas do plano astral eram incorporadas às estratégias do Reich. Embora evitasse essa Sociedade, Hitler confiava no apoio e nos conselhos de diversos místicos, astrólogos e clarividentes. Dentre eles, o mais famoso é Erik Hanussen, que ensinou Hitler a hipnotizar as multidões. Joseph Goebbels e o Paradoxo da Propaganda Em trinta de abril, pouco antes de cometer suicídio, Hitler nomeou Goebbels chanceler do Reich. Mas Goebbels manteve esse cargo apenas por um dia. Quando os russos recusaram um tratado que era favorável ao Partido Nazista, Goebbels acompanhou Hitler no suicídio, juntamente com a esposa e seus seis filhos. Com a sua morte, o Regime Nazista perdia a sua voz. Goebbels era um orador brilhante — engraçado, sarcástico e imparcial. Seu lema mais famoso era: Se quiser contar uma mentira, conte uma grande mentira. Goebbels foi muito hábil ao esconder a confiança do Reich no ocultismo — uma confiança que não compartilhava. Ele desdenhava abertamente da obsessão de Himmler pelo sobrenatural, e pode ter sido uma influência fundamental para dissuadir Hitler de se unir à Sociedade Thule. No entanto, teve um êxito bem inferior ao tentar esconder a Solução Final. Muitos alemães foram convencidos pela propaganda de Goebbels; outros, contudo, sabiam sobre os campos de concentração, como fica evidente se considerarmos a participação dos alemães na Resistência e a ação de membros do Partido Nazista que utilizavam sua influência para salvar judeus, assim como o Partido da Rosa Branca, um grupo radical de estudantes que distribuía panfletos a respeito dos campos de concentração. Martin Heidegger e a Segunda Guerra Mundial Entre os alemães que negavam ter qualquer conhecimento sobre a Solução Final estava o filósofo Martin Heidegger — uma figura enigmática do regime nazista. Em 1933, tornou-se membro do partido e foi nomeado chanceler da

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Universidade de Freiburg. Um ano depois de ter assumido o cargo, ele se demitiu. Alguns membros do partido, que viam Heidegger como um rival, ficaram ressentidos com a nomeação para a chancelaria. Outros consideravam sua filosofia uma bobagem. E o próprio Heidegger acreditava que a Alemanha estava traindo a promessa de retornar às suas raízes culturais. Suas críticas ao partido eram vociferantes; por outro lado, ele nunca renunciou ou denunciou o partido, nem sequer numa evasiva entrevista póstuma publicada pela Der Spiegel. A filiação de Heidegger ao partido tem gerado acaloradas discussões sobre se haveria doutrinas nazistas em sua filosofia. Alguns filósofos sentem que existe clara evidência de que sim e, com frequência, referem-se à famosa conversa com Karl Löwith antes da guerra, na qual ele afirmou que uma de suas ideias mais importantes (historicidade) era a base de seu envolvimento político. Outros filósofos pensam que Heidegger foi incapaz de integrar sua filosofia e sua política, e veem demasiado revisionismo nas opiniões que ele exprimia. Heidegger é ainda reconhecido como uma grande influência no pensamento filosófico moderno, assim como na poesia e na arquitetura. Ironicamente — considerando sua filiação com as opiniões produzidas pelo chauvinismo —, ele levantou questões convincentes sobre a natureza da existência, a natureza do instinto de rebanho e a natureza do próprio pensamento. Ele também escreveu e discursou com grande sofisticação sobre o impulso humano para evitar a consciência da mortalidade. Mais de dez anos antes do Reich chegar ao poder, os óculos do próprio Heidegger foram um dos vários catalisadores para uma revelação sobre esse aspecto da existência humana, e ele os mencionou em sua obra seminal, Ser e tempo. Zoë-Eleanor Englehardt, curadora convidada Museu da Tolerância, cidade de Nova York

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Pr贸logo

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m 1920, durante um inverno como todos os outros, o filósofo Martin Heidegger olhou para seus óculos e sentiu-se alheio ao mundo familiar. Ele estava em seu gabinete em Freiburg, mais de cento e sessenta quilômetros ao sul de Berlim, olhando pela janela os galhos secos e espessos de um olmo. Sua esposa encontrava-se de pé a seu lado, servindo uma xícara de café. Os raios de sol varavam a cortina de voile, lançando fachos sobre sua coroa de tranças louras, sobre a mesa escura e a xícara branca. De repente, um estorninho bateu contra a vidraça da janela e caiu lá fora. Heidegger pegou seus óculos para observar e, ao se inclinar, derramou o café. Sua esposa limpou a mesa com o avental, e ele limpou óculos com um lenço. Inesperadamente, ele olhou para as finas hastes douradas dos óculos e as duas lentes e não soube dizer para que serviam. Como se nunca tivesse visto um par de óculos ou não soubesse como eram usados. Então, o mundo todo se tornou estranho: a árvore era uma confusão de formas, a janela manchada de sangue, uma figura oblonga flutuante, e, quando outro estorninho passou voando, ele viu somente a escuridão em movimento. Martin Heidegger nada mencionou à esposa. Juntos, eles limparam tudo, enquanto resmungavam. Ela trouxe mais café e saiu do gabinete. Heidegger esperou que o mundo voltasse a seu lugar e, finalmente, o tique-taque pertencia de novo ao relógio, a mesa se tornou uma mesa e o chão voltou a ser algo sobre o qual se pode caminhar. Em seguida, ele foi até sua mesa e escreveu sobre esse instante para um colega filósofo chamado Asher Englehardt. Embora os dois se encontrassem com frequência para um café, gostavam de escrever um ao outro sobre esses momentos inusitados: o martelo tão frouxo que sua cabeça sai voando como um passarinho. O quadro que está torto a ponto de fazer o cômodo parecer sinistro. A maçã no meio da rua que nos faz esquecer para que servem as ruas. A coisa que parece perto porque está sendo vista de longe. A impressão de não estar em casa. O mundo tornando-se alheio a si mesmo. Alguns dias depois, Asher Englehardt respondeu-lhe em sua caligrafia familiar e apressada, repreendendo Heidegger por sempre agir como se a sensação fosse

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nova. “Não há nada de substancial com que possamos contar, Martin”, ele escreveu. “Todas essas xícaras e óculos e o que mais as pessoas têm ou fazem são arrimos que nos protegem de um mundo que surgiu muito antes de alguém saber para que serviam os óculos e que continuará por muito tempo após não haver mais ninguém para se lembrar deles. É um mundo estranho, Martin. Mas não podemos jamais ficar alheios a ele, porque vivemos nele o tempo todo.” Asher acreditava nisso resolutamente e continuou acreditando vinte anos depois, quando ele e seu filho foram retirados de sua casa em Freiburg e deportados em vagões de gado para Auschwitz.

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Droga Mamo, Czy mogłabyś przynieść mi buty które trzymałam w kredensie? Wiem że będę je potrzebować do podróży. Kocham, Mari

C Querida mamãe, Pode me trazer os sapatos que eu guardo no armário? Sei que precisarei deles para a viagem. Com amor, Mari

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As ordens

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uase um quarto de século após a revelação de Heidegger sobre seus óculos, uma mulher com uma fita de seda vermelha no pulso dirigia um jipe capturado do exército americano até uma aldeia no norte da Alemanha. A energia elétrica havia sido cortada na aldeia e o posto avançado — uma construção de madeira num local afastado no campo — teria facilmente passado despercebido, se ela já não tivesse ido muitas outras vezes até lá no escuro. Era uma noite extremamente fria de inverno, a neve caía em seu rosto enquanto caminhava pelo campo. Ela parou para limpar os olhos e observou o céu. Estava deslumbrante, muito estrelado, tão vasto que parecia cinzelado em diferentes galáxias. Mesmo àquela altura da guerra, ela se sentia feliz. Acabara de levar clandestinamente três crianças para a Suíça, enganando um guarda. Chamava-se Elie Schacten. Elie olhou para os cães de caça de Órion e os dispersou em pontos luminosos — flores de gelo no céu escuro. Depois, bateu duas vezes numa porta encoberta. A porta se abriu, a mão de um oficial da SS a puxou para dentro e ele a beijou na boca. — O que aconteceu? — perguntou ele. — Você devia ter chegado ontem. — Tive um problema com a embreagem — explicou Elie. — Você devia ficar contente por eu estar aqui agora. — Eu estou contente — disse o oficial. — Mas acho que você está aprontando alguma coisa, minha graciosa amiguinha. — Eu não sou sua graciosa amiguinha — falou Elie, soltando-se dele e dando uma olhada ao redor. — Como está o bazar? — Você não vai acreditar no que conseguimos — disse o oficial. — Cinco quilos de chocolate holandês. Conhaque francês. Estátuas de um castelo austríaco. Eles estavam falando do posto avançado — uma cabana de pinheiro sustentada por vigas tortas. Havia uma janela comprida com cortinas pretas e o local estava apinhado de objetos provenientes das invasões a lojas e residências. Também estava frio ali. O vento soprava pelas rachaduras da parede e o fogão a lenha estava vazio. Elie apertou sua echarpe e avançou pelo labirinto de relógios,

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livros, casacos, armários e duas cadeiras de oculista até um sofá de veludo. O oficial arrastou oito malas abarrotadas de cartas e se curvou tão próximo de Elie que ela sentiu sua respiração. Soltando os cabelos, ela protegeu o rosto. — A rosa híbrida não tem aparecido ultimamente — disse o oficial, referindo-se ao perfume dela. Ele se inclinou ainda mais e tocou os cachos louros de seu cabelo. Elie sorriu e começou e ler cartões-postais e cartas. A imensa quantidade sempre a surpreendia. A maioria era da Operação Postal — cartas escritas sob coerção nos campos de concentração ou nos guetos e, com frequência, apenas momentos antes de o autor ser levado para um vagão de gado ou para uma câmara de gás. A maior parte era escrita em papel fino e frágil, e trazia um carimbo vermelho sobre os endereços dos parentes. As instruções no carimbo eram: “Encaminhar automaticamente todas as correspondências judaicas para: 65 Berlim, Iranische Strasse.” Elie examinou-as sem ler — seu único propósito era identificar o idioma. Ela tentava ignorar a repulsa — nunca parava para olhar o nome do autor ou o que estava escrito. Às vezes, enquanto tentava dormir, frases dessas cartas passavam por sua mente — mentiras apressadas e aterrorizadas, exaltando as condições dos campos de concentração. Mas examinando-as rapidamente, não percebia nada — exceto quando via a enorme mala postal marcada com um A de Auschwitz. Além de ser uma mala maior do que as outras, também parecia a mais abarrotada do mundo, como se viesse de outro universo. Elie sempre tinha a impressão de ter chegado com aquela mala, e fez uma pausa antes de ler a primeira carta. — O que houve? — perguntou o oficial. — Só estou cansada — respondeu ela. — Só isso? O oficial, que adorava uma fofoca, sempre tentava se intrometer no passado de Elie, pois, naquele tempo, as pessoas caíam de paraquedas no mundo, como se tivessem acabado de nascer, com documentos novos para prová-lo, e ela não era diferente — a filha de católicos poloneses transformados em alemães por Goebbels. Sua aparência correspondia a todos os critérios arianos. Seu sotaque alemão era perfeito. Elie olhou para alguns rolos de lã enfiados entre duas bicicletas. Depois voltou a arrumar as cartas. O oficial acendeu um cigarro. — Você não vai acreditar — disse ele —, mas um judeu conseguiu fugir de Auschwitz. Passou pela cerca com a benção do Comandante. — Não acredito — falou Elie.

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— Todos já sabem no Reich — prosseguiu o oficial. — Um homem da SS foi até o Comandante e disse que o sujeito possuía um laboratório, e o Reich precisava usá-lo na guerra, portanto era preciso que ele saísse para assinar alguns papéis. Então o Comandante concordou e agora não conseguem encontrar o laboratório ou o nome do homem da SS. Já estão achando que ele nem existe. Eles o chamam de “Anjo de Auschwitz”. — Meu Deus! — exclamou Elie. — Isso é tudo que você tem para dizer? Porra, é um escândalo. E Goebbels não vai fuzilar o Comandante. Disse que não devem incomodá-lo. Elie brincou com os fios de sua fita vermelha em volta do pulso. Não podia tirar a fita porque, junto aos documentos especiais, ela lhe dava liberdade incondicional para viajar e anistia em caso de estupro, saque ou assassinato. O oficial se aproximou e se ofereceu para desemaranhar os fios. Um deles tinha uma águia de metal na ponta — tão pequena que o bico era do tamanho do buraco de uma agulha. Ele parou e admirou a habilidade artesanal. Ela o deixou desemaranhar a fita e contou os objetos encostados nas paredes: cinco espelhos de moldura dourada, quinze máquinas de escrever, um globo, sete relógios, oito mesas, rolos de lã de caxemira branca, uma tigela, doze cadeiras, um manequim de alfaiate, cinco abajures, inúmeros casacos de pele, baralhos, caixas de chocolate e um telescópio. Um bazar, pensou ela. O Reich pode saquear de tudo, menos o calor. — Preciso voltar — disse ela, levantando-se. — Se eu perceber algum código da Resistência, avisarei. — Passe a noite aqui — pediu o oficial, batendo no sofá confiscado. — Não encostarei a mão em você. Prometo. — Você não tem só mãos — disse Elie. — Meus pés são seguros também — disse o oficial. Ele apontou para o buraco em uma de suas botas e ambos riram.

C Como sempre, Elie aceitou a oferta de levar o que quisesse do posto avançado — desta vez, quatorze rolos de lã, um relógio de pêndulo, o telescópio, o globo, dez casacos de pele, o manequim de alfaiate, dois espelhos dourados, três caixas de baralho e meio quilo de chocolate. Ela também aceitou quando ele se ofereceu para carregar tudo aquilo através do campo, onde a neve ainda estava macia e o céu ainda prometia um espetáculo de luz. Elie deixou o oficial beijar sua boca uma só vez e abraçá-la por mais

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tempo do que ela gostaria. Depois, saiu dirigindo pelas profundezas dos bosques do norte da Alemanha, onde os pinheiros escondiam a lua. A certa altura, uma menina descalça cruzou a estrada correndo. Elie não se surpreendeu; no estágio em que se encontrava a guerra, as pessoas surgiam de repente, como animais. Mas ela não podia parar, nem sequer para oferecer um pedaço de pão. Havia tantos guardas quanto árvores. E um único resgate já era suficientemente perigoso. Os pinheiros foram ficando mais espessos; o vento soprava através do teto de lona do jipe, e o medo que Elie tinha do escuro só aumentou, assim como o pavor de estar sendo seguida. Concentrou-se na estrada, como se sua única missão fosse dirigir para sempre. Além de seus temores, havia o espanto causado pelo Anjo de Auschwitz. Elie sempre encontrava boas rotas de fuga para as pessoas — esgotos nos guetos, túneis sob as fábricas. Mas nunca contemplara uma fuga de um campo de concentração. Ela se perguntou se o anjo era um rumor. Que maneira melhor de irritar o Reich do que sugerir que um lugar como Auschwitz não era inviolável? Perto das três da manhã, alcançou uma estrada de terra, e o veículo começou a sacudir, fazendo soar o tique-taque do relógio de pêndulo. A fita no pulso de Elie roçava contra a alavanca de marcha, lembrando-lhe que estava acorrentada ao Reich. Depois de olhar pelo retrovisor e certificar-se de que não estava sendo seguida, ela fez uma curva fechada, entrando numa clareira onde outro jipe e dois Kübelwagens estavam estacionados perto de uma cabana de telhado arredondado. A clareira tinha uma torre de observação na entrada e um poço atrás, perto do bosque. Um homem alto de farda e suéter verde amarrotado correu em sua direção e a abraçou. Em seguida, ele a ajudou a descarregar o jipe. Levaram o telescópio, o manequim de alfaiate, os rolos de lã, os casacos, os espelhos, o chocolate, os baralhos, o relógio, o globo, as malas com as cartas e uma cesta de alimentos para aquele trailer. No interior, havia um estrado e uma mesa de madeira rústica. Do lado oposto à porta, uma lareira. À esquerda, outra porta em arco, que dava para uma rampa. Elie e o oficial arrastaram tudo pela rampa até um exíguo poço e carregaram o elevador. Ele se inclinou para beijá-la, mas ela sacudiu a neve do casaco e se afastou, os pensamentos tomados pelo anjo. — O que houve? — perguntou ele. — Só metade de você gosta de mim? — Tudo em mim gosta de você — respondeu Elie. — Estou só guardando a outra parte para mais tarde.

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Caro Luigi, E stato un viaggio facile anche se lungo. E bellissimo qui. Vieni a trovarmi. Con amore, Rosaria

C Caro Luigi, Foi uma viagem tranquila, ainda que longa. É lindo por aqui. Venha me encontrar. Com amor, Rosaria

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O

oficial foi para o quarto deles — quatro metros e meio acima da rampa — e Elie seguiu pelo pequeno poço, descendo quase dez metros. O elevador do poço era uma pequena gaiola abarrotada, e ela ficou aliviada quando conseguiu girar a maçaneta em forma de losango. Dava para um caminho de pedras rosadas iluminado pelas lâmpadas a gás. Do lado oposto ao pequeno poço, havia uma grande porta de mogno onde se lia Gleichantworten Mögen (Responder da mesma forma), inscrito no mesmo garboso semicírculo que Arbeit Macht Frei (O trabalho liberta). Elie abriu a porta e se viu em uma área do tamanho de um pequeno ginásio, onde mais de quarenta pessoas dormiam sobre suas mesas. Ela ouviu o som dos roncos e murmúrios. Se alguém se mexesse ou mudasse de posição de maneira brusca, papéis certamente cairiam no chão. As paredes estavam cobertas por máquinas de costura, tigelas variadas, casacos, espelhos, máquinas de escrever. A mesa de Elie ficava logo na entrada, de frente para as outras. Assim que acendeu seu lampião a querosene, as pessoas acordaram e a cumprimentaram. Uma porta na outra extremidade foi aberta, e mais dezesseis pessoas entraram. Todos se amontoavam em torno de Elie, perguntando se ela estava bem e correndo para apanhar o tesouro que trouxera. Ela abriu o cesto de alimentos e eles aplaudiram quando viram presunto, frango assado, salsichas, peixe defumado, queijo, cigarros, vodca, fleischkonserve, Ersatzkaffee e treze pães frescos — um presente do padeiro, cuja sobrinha Elie ajudara a fugir para a Dinamarca. Eles abriram a vodca e brindaram à notícia sobre o avanço dos russos. Em seguida, brindaram a Elie: — A Elie! — disseram. — A nossa Gnädige Frau! Elie ergueu seu copo e embrulhou a carne fresca e um pedaço de pão em um tecido macio. Depois, voltou ao pequeno poço e estava a caminho do quarto que dividia com o oficial quando o encontrou subindo a rampa. Ele segurou a mão dela e seguiram para o quarto, o último vestígio de vida na superfície. Era um pequeno quadrado branco, com janelas retangulares que começavam no teto e se tornavam trapezoidais à medida que se aproximavam do chão. Elie só queria se aconchegar nos braços do oficial e lhe dizer quanto sentira saudade, mas temia começar a chorar, por estar tão exausta. Em vez disso, iluminou o quarto com o lampião a querosene com um leve ar de desaprovação. Havia meias, cartas de baralho, botas e livros espalhados pelo chão. Além de outro suéter verde. — Isso aqui está parecendo o posto avançado — comentou.

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— Na verdade, Elie, troquei os lençóis — disse o oficial. — Que bom! — Então, estou desculpado? — Talvez. Ela colocou seu casaco sobre uma cadeira. Em seguida, abriu os braços: — Minhas duas metades estão prontas para você, agora — disse ela.

C Elie dizia que se mudara do pequeno quarto escuro sob a terra porque as pessoas precisavam de mais espaço para dormir. Mas todos sabiam que era porque ela amava Gerhardt Lodenstein, o Oberst do Complexo. — Quanto mais loucas são as coisas, mais longos parecem três dias. Por que você demorou tanto? — perguntou ele, levando-a para a cama. — Quanto menos você souber, melhor — respondeu Elie. — Os SS estão matando pessoas como se fossem moscas. Fico preocupado. — Nas fronteiras não há tanta loucura — disse Elie. — Eu estava com três crianças sob os cobertores e o SS mal olhou. Eles pararam de acreditar nesta guerra. Todo mundo parou. — Não Himmler e Goebbels — disse Lodenstein. — Nem os campos de concentração. Cada dia matam mais gente. A menção aos campos fez Elie se lembrar da história do anjo. Ela beijou Lodenstein, retirou o revólver da jaqueta e chutou as botas para longe. Depois entrou sob as cobertas, de saia, blusa e com a fita de seda vermelha. — Você não pode dormir vestida, Elie. — Hoje em dia, muita gente dorme — respondeu ela. — Eu sei, mas ainda estamos seguros aqui. — Ainda — disse Elie. — Ainda é seguro o suficiente. Elie sorriu e ele a despiu com cuidado. Quando a tocou, ela se sentiu tão frágil quanto a fita que ele tinha desamarrado — a fita que, com os documentos confidenciais, lhe davam liberdade para viajar. Ele a puxou para si. Ela se afastou. — Alguma coisa está errada. O que aconteceu com você lá fora? — perguntou ele. Ela tocou a colcha. Era um edredom de penas revestido de seda cinza que viera de uma casa saqueada em Amsterdã. — Está a maior confusão por lá — disse ela. — E temos que dormir sob esta colcha idiota do Reich.

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— Mas não é isso que está incomodando você. Lodenstein apagou o lampião a querosene e a escuridão reinou suave, quase tangível. Ele tocou em Elie e o corpo dela parecia feito de renda. Fizeram amor lentamente. Quem pode resistir à sensação de ser feita de renda?, ela pensou. Só alguém que sabe que está a ponto de morrer asfixiado ou não sabe se seus filhos vão comer no dia seguinte. Somente alguém que tem de andar quilômetros perigosamente numa noite fria de inverno. Lodenstein adormeceu, mas Elie ficou acordada, pensando no homem da SS que se transformara em anjo. Imaginou sua conversa com o Comandante, o prisioneiro sendo avisado de que podia partir. Imaginou os dois saindo de Auschwitz. Se uma pessoa consegue sair, duas pessoas conseguem, pensou ela. E depois, três. E quatro. Antes de Goebbels lhe dar os documentos de identidade, ele mostrara a Elie fotografias de Auschwitz, procurando indícios de compaixão. Ela tomara cuidado para não revelar nada enquanto observava as fileiras de alojamentos e as cercas de arame farpado avermelhadas erguidas em volta do campo, parecendo congeladas pelo vento. Os arames empenachados lembravam runas, mas eram capazes de rasgar a pele. O que seria preciso fazer para uma pessoa passar pela cerca?, pensou.

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Uma misteriosa organização. Uma história de amor que atravessou a Segunda Guerra Mundial. Um universo repleto de atrocidades. E tudo começa com uma simples carta...

cortesia da autora

“Um livro que permanece na mente do leitor por muito tempo após o término da última página. Uma história enriquecedora, que evoca tanto um sentimento de tristeza quanto de esperança.” – The Huffington Post

Thaisa Frank cresceu entre o Meio-Oeste americano e o Bronx, em Nova York. Neta de um teólogo presbiteriano e de um judeu hassídico de origem romena que gostavam de discutir textos em aramaico, sua obra reflete dualidade cultural. Formada em filosofia da ciência, desenvolveu sua habilidade com a escrita trabalhando como editora de textos e ghost-writer. Além do romance Os óculos de Heidegger, publicou diversas coletâneas de contos e novelas e também ensaios críticos sobre literatura e arte. Coautora de Finding Your Writer’s Voice: A Guide to Creative Fiction, foi professora no departamento de graduação da San Francisco State University e da Universidade de San Francisco e professora visitante de escrita criativa na Universidade da Califórnia.

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“Utilizando-se da narrativa precisa que lhe rendeu tantos elogios, Thaisa Frank apresenta uma história surreal sobre um assunto que não pode ser esquecido.” – Booklist

www.intrinseca.com.br

Thaisa Frank Os óculos de Heidegger

da amizade em meio às piores adversidades. O livro sugestivamente ilustra o Holocausto por meio de um estado quase de sonho. Thaisa Frank reconstrói com habilidade a paisagem da Alemanha nazista a partir de um ponto de vista totalmente original.

Thaisa Frank

Os óculos de Heidegger

Em seu romance de estreia, Thaisa Frank apresenta uma história fantástica que tem como cenário a Operação Postal, programa nazista que obrigava os judeus enviados aos campos de concentração a escreverem cartas aos familiares ainda livres como forma de controlar os registros sobre o assunto. Em Os óculos de Heidegger, o destino dessa correspondência é um bunker secreto, onde um grupo de intelectuais é orientado a responder às cartas dos familiares desses prisioneiros. Chamado de Complexo dos Escribas, o objetivo do projeto era, por um lado, manter um registro da correspondência trocada no período e, por outro, garantir um sobrenatural plano de segurança: evitar que os espíritos dos mortos dedurassem a Solução Final nazista. Apesar das ordens absurdas e potencialmente confusas, os cerca de cinquenta escribas vivem em relativa paz sob a supervisão de Elie e Gerhardt, amantes que trabalham secretamente para a Resistência. Certo dia, uma tarefa é passada pelo próprio Goebbels: responder a uma carta do filósofo Martin Heidegger para seu amigo e oculista Asher Englehardt, prisioneiro de Auschwitz. Diante da suspeita de que talvez a prosaica correspondência contenha algum tipo de mensagem cifrada capaz de desmantelar os planos do Terceiro Reich, os escribas e seus líderes se veem às voltas com o desafio de responder ao filósofo de uma forma que desencoraje uma nova troca de cartas e garanta a permanência tranquila dos confinados no local. Uma história ao mesmo tempo de amor e de suspense, Os óculos de Heidegger mescla filosofia com romance, e mostra o valor

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Os óculos de Heidegger  

Material promocional. Copyright © Thaisa Frank, 2010 (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013) Todos os direitos reservados

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