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lombada 39mm

Vencedor do Prêmio Strega

PHILIPPE MATSAS/OPALE/LEEMAGE/MONDADORI PORTFOLIO

Nascido em Nápoles, em 1969, Antonio Scurati é professor de Literatura Contemporânea na Universidade de Comunicação e Línguas (IULM) de Milão. É colunista do La Stampa e autor de vários ensaios. Estreou em 2002 com Il rumore sordo della battaglia, que ganhou os prêmios Kihlgren, Fregene e Chianciano. Em 2005, com o romance histórico Il survivuto, conquistou a edição XLIII do prêmio Campiello. Com Una storia Romantica, de 2008, recebeu o Mondello, e, em 2015, com a publicação de Il tempo migliore della nostra vita, recebeu o Viareggio e outros prêmios, como o de Seleção Campiello. Com M, o filho do século foi laureado com o Prêmio Strega, o mais importante da literatura italiana.

“SOU O DESGARRADO POR EXCELÊNCIA, O PROTETOR DOS DESMOBILIZADOS, O DESNORTEADO EM BUSCA DO CAMINHO. MAS A QUESTÃO EXISTE E É IMPRESCINDÍVEL LEVÁ-LA ADIANTE. NESTA SALA SEMIVAZIA, COM AS NARINAS DILATADAS, FAREJO NOSSOS TEMPOS, ESTENDO O BRAÇO, PROCURO O PULSO DA MULTIDÃO E TENHO CERTEZA DE QUE MEU PÚBLICO ESTÁ PRESENTE.”

ANTONIO SCURATI

O PRIMEIRO ROMANCE SOBRE O FASCISMO CONTADO POR BENITO MUSSOLINI: O FILHO DE UM SÉCULO QUE FEZ DE NÓS O QUE SOMOS.

O FILHO DO SÉCULO

É inegável: a Itália está cansada de sua classe política, o véu que protege a democracia nunca esteve tão frágil, o povo clama por renovação. Estamos em 1919, e é neste cenário que se apresenta um simples filho de ferreiro, um incansável agitador político, ex-líder socialista expulso do próprio partido, diretor de um pequeno jornal de oposição: Benito Mussolini. Mas o que resta a ser dito sobre esse personagem? O romance M, o filho do século responde a essa pergunta trazendo uma história construída a partir dos olhos do ditador, seus amigos, suas amantes e seus inimigos. Valendo-se de enorme base documental, abordando esse regime autocrático pela primeira vez de dentro e sem nenhum filtro político ou ideológico, Antonio Scurati cria uma trama totalmente calcada na realidade — no período que vai até 1925 —, porém recorrendo ao ritmo e à atmosfera envolvente da narrativa ficcional. Em um enredo digno de um roteiro de filme de ação, Scurati, muitas vezes irônico, ácido e — por que não? — irreverente, brinda o leitor com uma premiada obra-prima da escrita. Mas nem por isso ele atenua fatos ou banaliza atrocidades. Ao aproximar o leitor de um dos maiores ditadores do século XX, mostrando também seus percalços, mazelas e habilidades, o autor revela como a história é definida por pessoas, em última análise, comuns, com o consentimento — ou ignorância — de outras pessoas comuns.

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O FILHO DO SÉCULO


ANTONIO SCURATI

O FILHO DO SÉCULO Tradução de Marcello Lino


Copyright © 2018 by Antonio Scurati Publicado mediante acordo com The Italian Literary Agency. título original

M: Il figlio del secolo preparação

Ilana Goldfeld Milena Vargas revisão

João Sette Camara Juliana Pitanga diagramação

Julio Moreira | Equatorium Design adaptação de capa

Túlio Cerquize imagem do verso

A multidão aclama Benito Mussolini / Piazza Venezia, Roma. ©Hi-Story/Alamy/IPA cip - brasil . catalogação na publicação sindicato nacional dos editores de livros , rj

S442m Scurati, Antonio, 1969M, o filho do século / Antonio Scurati ; tradução Marcello Lino. 1. ed. - Rio de Janeiro : Intrínseca, 2019. 816 p. ; 23 cm. Tradução de: M, il figlio del secolo ISBN 978-85-510-0607-8 1. Mussolini, Benito, 1883-1945. 2. Chefes de Estado - Itália Romance italiano. I. Lino, Marcello. II. Título. 19-60680 CDD: 923.1 CDU: 929:32 Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária CRB-7/6439 [2019] Todos os direitos desta edição reservados à

Editora Intrínseca Ltda. Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar 22451-041 – Gávea Rio de Janeiro – RJ Tel./Fax: (21) 3206-7400 www.intrinseca.com.br


Fatos e personagens deste romance documental não são fruto da imaginação do autor. Cada acontecimento, personagem, diálogo ou discurso aqui narrado é, ao contrário, historicamente documentado e/ou fidedignamente testemunhado por mais de uma fonte. Dito isso, também é verdade que a história é uma invenção à qual a realidade traz consigo seus próprios materiais. Todavia, não é nada arbitrária.


“Eu sou uma força do passado.” Pier Paolo Pasolini


1919


Fundação dos Fasci di Combattimento* Milão, Piazza San Sepolcro, 23 de março de 1919

Aproximamo-nos da Piazza San Sepolcro. Cerca de cem pessoas, todos homens sem importância alguma. Somos poucos e estamos mortos. Esperam que eu fale, mas nada tenho a dizer. O cenário está vazio, inundado por 11 milhões de cadáveres, uma enchente de corpos — reduzidos à gosma, liquefeitos — transbordada das trincheiras do Carso, do Ortigara, do Isonzo. Nossos heróis já foram mortos, ou logo o serão. Amamos todos eles, sem distinções. Estamos sentados sobre a pilha sagrada dos mortos. O realismo que se segue a cada enchente abriu meus olhos: a Europa se tornou um palco sem personagens. Todos desapareceram: os homens barbados, os pais grandiosos e melodramáticos, os magnânimos liberais choramingões, os oradores grandiloquentes, cultos e floreados, os moderados e seu bom senso, a quem desde sempre devemos nossa desgraça, os políticos esgotados que vivem sob o pânico da destruição iminente, mendigando a cada dia um adiamento do inevitável. Para todos eles, o sino tocou. Os homens velhos serão atropelados por essa massa enorme, 5 milhões de combatentes pressionam nas fronteiras territoriais, 5 milhões de homens que retornam. É preciso acertar o passo, um passo apertado. A previsão não muda, * Os Fasci Italiani di Combattimento (no singular, Fascio di Combattimento), conhecidos em português como Grupos Italianos de Combate, foram uma organização paramilitar fundada em 1919 que viria a se tornar, mais tarde, o Partido Nacional Fascista. Um de seus fundadores foi Benito Mussolini. (N. do T.) 11


o tempo continuará ruim. A guerra ainda está na ordem do dia. O mundo segue rumo a dois grandes partidos: os que lá estiveram e os que não estiveram lá. É o que vejo, tudo isso é o que vejo com clareza nessa plateia de delirantes e desvalidos, porém nada tenho a dizer. Somos um povo de veteranos, uma humanidade de sobreviventes, de restos. Nas noites de extermínio, agachados nas crateras, uma sensação semelhante ao êxtase dos epiléticos nos agitou. Falamos brevemente, lacônicos, assertivos, em um ímpeto violento. Metralhamos as ideias que não temos e então voltamos a cair no mutismo. Somos como fantasmas de insepultos que deixaram a palavra entre as pessoas na retaguarda. No entanto, esta, somente esta, é a minha gente. Eu bem sei. Sou o desgarrado por excelência, o protetor dos desmobilizados, o desnorteado em busca do caminho. Mas a questão existe e é imprescindível levá-la adiante. Nesta sala semivazia, com as narinas dilatadas, farejo nossos tempos, estendo o braço, procuro o pulso da multidão e tenho certeza de que meu público está presente. A primeira reunião dos Grupos de Combate, alardeada por semanas pelo Il Popolo d’Italia como um compromisso fatídico, foi marcada no Teatro dal Verme, com capacidade para 3 mil pessoas. Mas o vasto auditório foi cancelado. Entre a grandiosidade do deserto e a pequena vergonha, preferimos a segunda. Nós recuamos para esta sala de reuniões do Círculo da Aliança Comercial e Industrial. É aqui que eu devo falar agora. Entre quatro paredes forradas por um triste papel verde-musgo, de frente para a insignificante pracinha cinzenta paroquial, entre as douraduras que tentam em vão tirar do torpor as poltronas Biedermeier, em meio a umas poucas cabeleiras desalinhadas, calvícies, cotocos, veteranos emaciados que respiram a asma de menor importância dos comércios ordinários, de antigas prudências e meticulosas avarezas de balancetes. No fundo da sala, vez por outra, surge curioso algum sócio do círculo. Um atacadista de sabão, um importador de cobre, pessoas desse tipo. Lança um olhar perplexo, volta a fumar charuto e a beber seu Campari. Mas por que eu devo falar?! 12


A presidência da assembleia foi assumida por Ferruccio Vecchi, fervoroso intervencionista, capitão dos Arditi posto em licença por motivos de doença, moreno, alto, pálido, magro, com os olhos encovados: os estigmas da degeneração patológica. Um tuberculoso excitável e impulsivo que prega com violência, sem substância nem medida, e nos momentos de destaque das manifestações públicas exalta-se como um possesso, tomado por um delírio demagógico e, então... é quando se torna perigoso de verdade. A secretaria do movimento será quase certamente confiada a Attilio Longoni, um ex-ferroviário ignorante, caxias e tolo como só os honestos sabem ser. A ele ou a Umberto Pasella, nascido na prisão, filho de um carcereiro que se tornou vendedor, sindicalista revolucionário, garibaldino na Grécia, ilusionista nos circos itinerantes. Escolheremos os outros dirigentes a esmo entre os que fizeram mais alvoroço nas primeiras fileiras. Por que devo falar a esses homens?! Por causa deles, os fatos superaram todas as teorias. É gente que toma a vida de assalto como um comando. Tenho à minha frente apenas a trincheira, a borra dos dias, a área dos combatentes, a arena dos loucos, o sulco dos campos arados com tiros de canhão, os facínoras, os deslocados, os delinquentes, os genialoides, os ociosos, os playboys pequeno-burgueses, os esquizofrênicos, os negligenciados, os desaparecidos, os erráticos, os notívagos, os ex-presidiários, os reincidentes, os anárquicos, os sindicalistas incendiários, os gazeteiros desesperados, uma boemia política de veteranos, oficiais e suboficiais, homens hábeis no manejo de armas de fogo ou cortantes, aqueles que se redescobriram violentos em face da normalidade do retorno, os fanáticos incapazes de ver com clareza as próprias ideias, os sobreviventes que, acreditando serem heróis consagrados à morte, confundem uma sífilis mal curada com um sinal do destino. Eu sei, vejo-os aqui na minha frente, conheço-os de cor e salteado: são os homens da guerra. Da guerra ou do seu mito. Eu os desejo como o macho deseja a fêmea, e, ao mesmo tempo, desprezo-os. Sim, eu os desprezo, mas não importa: uma época chegou ao fim e outra se iniciou. Os escombros se acumulam, os destroços se conectam uns 13


aos outros. Eu sou o homem do “depois”. E faço questão de ser. É com esse material decadente — com essa humanidade residual — que se faz a história. De qualquer maneira, é o que está diante de mim. E, atrás, nada. Atrás, tenho o dia 24 de novembro de 1917. Caporetto. A agonia da nossa época, a maior derrota militar de todos os tempos. Um exército de 1 milhão de soldados destruído em um fim de semana. Atrás, tenho o dia 24 de novembro de 1914. O dia da minha expulsão do Partido Socialista, a sala da Sociedade Humanitária onde amaldiçoaram meu nome, os operários para quem até o dia anterior eu era o ídolo derrubando-se uns aos outros para ter a honra de me esmurrar. Agora, recebo todos os dias seus votos de morte. É o que desejam a mim, a D’Annunzio, a Marinetti, a De Ambris, e até a Corridoni, que morreu há quatro anos na terceira batalha do Isonzo. Desejam a morte a quem já morreu. A essa altura, nos odeiam porque os traímos. As multidões “vermelhas” pressentem a iminência do seu triunfo. Em seis meses, desmoronaram três impérios, três casas que governavam a Europa havia seis séculos. A epidemia da gripe “espanhola” já contagiou dezenas de milhões de vítimas. Os acontecimentos traduzem irrupções apocalípticas. Semana passada, em Moscou, reuniu-se a Terceira Internacional Comunista. O partido da guerra civil mundial. O partido daqueles que querem me ver morto. De Moscou à Cidade do México, em todo o planeta. Começa a época da política das massas e nós, aqui dentro, somos menos de cem. Mas isso também não importa. Ninguém mais acredita na vitória. Já chegou e tinha gosto de lama. Nosso entusiasmo — juventude, juventude! — é uma forma suicida de desespero. Estamos com os mortos, são eles que respondem ao nosso apelo nesta sala semivazia, aos milhões. Lá embaixo, na rua, os gritos dos aprendizes invocam a revolução. Nós rimos. Já a fizemos. Empurramos aos chutes este país para a guerra, em 10 de maio de 1915. Agora todos nos dizem que esta terminou. Mas nós continuamos a rir. A guerra somos nós. O futuro nos pertence. Não adianta, não há nada a ser feito, eu sou como os animais: sinto o tempo por vir. 14


Benito Mussolini é de constituição física forte apesar da sífilis. Essa sua robustez lhe permite trabalhar continuamente. Descansa até altas horas da manhã, sai de casa ao meio-dia, mas não volta antes das 3h da madrugada, e essas quinze horas, salvo uma breve pausa para as refeições, são dedicadas à atividade jornalística e política. É inclinado aos prazeres sensuais, o que é perceptível pelas muitas relações estabelecidas com várias mulheres. É emotivo e impulsivo. Essas suas características o tornam sugestivo e persuasivo em seus discursos. Entretanto, apesar de falar bem, não se pode defini-lo exatamente como um orador. É, no fundo, sentimental, o que atrai muitas amizades e cativa as pessoas. É desinteressado, generoso, e isso lhe rendeu uma reputação de altruísmo e filantropia. É muito inteligente, astuto, comedido, reflexivo, conhece bem os homens, suas qualidades e defeitos. Afeito a simpatias e antipatias imediatas, é capaz de sacrifícios pelos amigos, e é tenaz nas inimizades e nos ódios. É corajoso e audaz; é organizado, capaz de tomar decisões rápidas; mas não é igualmente tenaz em suas convicções e seus propósitos. É ambiciosíssimo. É movido pela convicção de que representa uma força considerável no destino da Itália e está decidido a reforçá-la. É um 15


homem que não se conforma com posições secundárias. Quer ter a primazia e dominar. No socialismo oficial, ascendeu rapidamente de origens obscuras a uma posição eminente. Antes da guerra, foi o diretor ideológico do Avanti!, o jornal que guia todos os socialistas. Naquela competência, foi muito apreciado e amado. Alguns de seus antigos companheiros e admiradores confessam ainda hoje que ninguém soube compreender e interpretar como ele a alma do proletariado, o qual viu com dor sua traição (apostasia) quando, em poucas semanas, se transformou de apóstolo sincero e apaixonado pela neutralidade absoluta em apóstolo sincero e apaixonado pela intervenção bélica. Não acredito que isso tenha sido determinado por cálculo de interesses ou de lucro. Também é impossível estabelecer quanto de suas convicções socialistas, nunca renegadas publicamente, se perderam nas transações financeiras indispensáveis à continuação da luta por meio do Il Popolo d’Italia, o novo jornal que fundou, no contato com homens e correntes de outra fé, em conflito com os antigos companheiros, sob a pressão constante do ódio indomável, da animosidade ácida, das acusações, dos insultos, das calúnias incessantes por parte de seus antigos seguidores. Mas, caso essas alterações secretas tenham se verificado, engolidas na sombra das coisas mais próximas, Mussolini nunca deixará isso transparecer, e sempre desejará parecer — e talvez sempre se iluda em ser — socialista. Esta, segundo a minha pesquisa, é a figura moral do homem, em contradição com a opinião de seus antigos companheiros de fé e adeptos. Dito isso, se uma pessoa de grande autoridade e inteligência souber encontrar na sua mente o ponto de menor resistência, se souber, antes de mais nada, ser-lhe simpático e insinuar-se em seu espírito, se souber demonstrar-lhe qual é o verdadeiro interesse da Itália (porque eu acredito no patriotismo dele), se com muito tato oferecer-lhe os fundos indispensáveis para a ação política à qual se acordou, sem dar a 16


impressão de uma vulgar domesticação, Mussolini se deixará conquistar aos poucos. Mas, com o seu temperamento, nunca será possível ter certeza de que, em alguma curva do caminho, ele não vá desertar. Como já foi dito, trata-se de um homem emotivo e impulsivo. Certo é que, em campo adversário, Mussolini, homem de pensamento e de ação, escritor eficaz e incisivo, orador persuasivo e vivaz, poderia se tornar um comandante, um combatente temível. Relatório do inspetor-geral de segurança pública Giovanni Gasti, primavera de 1919

Fasci de ação entre intervencionistas No salão do Círculo da Aliança Comercial e Industrial, aconteceu ontem uma reunião para a fundação dos Fasci di Combattimento regionais entre associações de intervencionistas. Na reunião, discursaram o industrial Enzo Ferrari, o capitão da tropa de elite dos Arditi, Vecchi, e muitos outros. O prof. Mussolini ilustrou os fundamentos sobre os quais a ação dos Grupos deveria ser realizada, ou seja: valorização da guerra e de quem nela combateu; demonstração de que o imperialismo, pelo qual os italianos são culpabilizados, é desejado por todos os povos, sem exclusão da Bélgica e de Portugal, e por isso se opõe aos imperialismos estrangeiros que prejudicam nosso país e se opõe a um imperialismo italiano contra as outras nações; por fim, aceitação da batalha eleitoral sobre o “fato” da guerra e oposição a todos os partidos e candidatos que a contestaram.

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As propostas de Mussolini, após os discursos de numerosos oradores, foram aprovadas. Na reunião, diversas cidades da Itália estavam representadas. Corriere della Sera, 24 de março de 1919, coluna “Le conferenze dominicali”

Furto de três toneladas de sabão Alguns ladrões invadiram o armazém de Giuseppe Blen, no número 4 da Via Pomponazzi, e conseguiram levar 64 caixas de sabão com 50 quilos cada. É evidente que os operadores deviam estar em número elevado para suportar carga tão pesada e volumosa e que, para mais de três toneladas de mercadoria roubada, deviam ter à disposição carroças e cavalos ou caminhões. O fato é que tal operação, demorada, barulhenta e a olhos vistos, foi realizada sem que tenha sido possível colher informações úteis sobre os audaciosos ladrões. O valor da mercadoria roubada chega a cerca de 15 mil liras. Corriere della Sera, 24 de março de 1919, coluna “Le conferenze dominicali”

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Benito Mussolini Milão, início da primavera de 1919

Poucas ruas separam a Via Paolo da Cannobio, onde fica a sede da redação do Il Popolo d’Italia, o chamado “covil número 2”, da seção milanesa da Associação dos Arditi, na Via Cerva número 23, o covil número 1. Quando, na primavera de 1919, Benito Mussolini sai do seu escritório para jantar em uma trattoria, aquelas são ruas fedorentas, miseráveis e perigosas. O Bottonuto é um resquício da Milão medieval encravado na cidade do século XX. Uma rede de becos e lojas, igrejas paleocristãs e prostíbulos, estalagens e tabernas, repleta de ambulantes, putas e vagabundos. A origem do nome é incerta. Talvez provenha do postigo que antigamente se abria do lado meridional, pelo qual passavam os exércitos. Alguns dizem que a palavra, que evoca glândulas inchadas, seja a corruptela do patronímico de um mercenário alemão que morreu na comitiva de Frederico Barba Ruiva. De qualquer modo, o Bottonuto é uma poça pútrida bem atrás da Piazza del Duomo, o centro geométrico e monumental de Milão. Para atravessá-lo, é preciso tapar o nariz. A sujeira exala das muralhas, o Vicolo delle Quaglie está reduzido a um mictório, as pessoas estão encharcadas com o mofo das alfurjas, se vende de tudo, os roubos e as surras acontecem à luz do sol, os soldados fazem algazarra na entrada dos bordéis. Todos, direta ou indiretamente, exploram a prostituição. Mussolini janta tarde. Sai depois das 22h da toca de diretor — um cubículo que dá para um pequeno pátio, espécie de tripa vertical ligada à sala da redação por um mezanino gradeado — e, após acender um cigarro, dirige-se a passos rápidos, de bom grado, para as ruas 19


pestilentas. Os bandos de órfãos descalços apontam para ele empolgados — “el matt”, o louco, gritam uns aos outros —, os mendigos esticam a mão, sentados na imundície da sarjeta, os cafetões encostados nos umbrais das portas o cumprimentam com um aceno de cabeça respeitoso, mas sigiloso. Ele retribui a atenção de todos. Com alguns, para e troca duas palavras, faz arranjos, marca encontros, chega a pequenos acordos. Concede audiência à sua corte dos milagres. Passa em revista aqueles homens fechados em uma jaula como um general em busca de um exército. Não foi assim, por acaso, que sempre se fizeram as revoluções: armando todo o submundo social com revólveres e granadas? Qual é, afinal, a diferença entre o veterano desajustado, o desmobilizado crônico que por uns trocados vigia o jornal e o “racheté”, o marginal habitual que vive explorando a prostituição? Todos são mão de obra especializada. É o que ele sempre repete para Cesare Rossi — seu colaborador mais próximo, talvez o único conselheiro de verdade —, que se escandaliza com a promiscuidade daquela gente. “Ainda somos fracos demais para abrir mão deles”, costuma lhe dizer para aplacar seu desdém. Fracos demais, sem dúvida: o Corriere della Sera, jornal da arrogante burguesia liberal, dedicou à fundação dos Fasci di Combattimento um breve relato de apenas dez linhas, o mesmo espaço reservado à notícia do furto de 64 caixas de sabão. Seja como for, Benito Mussolini, nessa noite do início de abril, contempla ainda por alguns instantes sua corte dos milagres, estica o pescoço para o alto e para a frente, cerra os maxilares, levanta o rosto em direção ao céu em busca de ar respirável, a cabeça já quase calva. Ergue a lapela do paletó, esmaga o cigarro sob o sapato, aperta o passo. A cidade está envolta em trevas, e os becos da depravação arrastam-se atrás dele como um enorme organismo minado, um gigantesco predador ferido que manca rumo ao fim.

Via Cerva, por sua vez, é uma antiga rua aristocrática calma e silenciosa. As casas elegantes de dois andares, arejadas por amplos 20


pátios arquitetônicos, lhe dão um tom romântico. Cada passo sobre o asfalto lustroso ressoa na noite, deslocando em pequenas ondas concêntricas a atmosfera de claustro. Os Arditi ocuparam uma loja com fundos que pertence ao sr. Putato, pai de um deles, bem em frente ao palácio dos Visconti di Modrone. Não foi fácil conseguir uma casa para aqueles veteranos exaltados que incomodam os burgueses circulando no inverno com a lapela da farda regulamentar aberta sobre o peito nu e o punhal na cintura. Soldados formidáveis quando se tratava de atacar as posições inimigas, preciosos em tempos de guerra, mas detestáveis nos de paz. Agora os Arditi, quando não estão refestelados em um bordel ou acampados em um café, aquartelam-se sem cerimônia naqueles dois cômodos despojados, embriagando-se em plena luz do dia, fantasiando sobre as próximas batalhas e dormindo no chão. É assim que passam o tempo do interminável pós-guerra: mitificam o passado recente, reagem de maneira histérica a um futuro iminente e consomem o presente fumando um cigarro atrás do outro. Os Arditi venceram sua guerra ou, pelo menos, é o que dizem a si mesmos. Mitificam-se a ponto de Gianni Brambillaschi, um rapaz de 20 anos entre os mais exaltados, chegar a escrever em L’Ardito, o órgão oficial da nova associação: “Quem não combateu nos batalhões de assalto, mesmo que tenha morrido na guerra, não participou da guerra.” Certamente, porém, sem eles a linha do Piave não teria sido rompida com a contraofensiva que, em novembro de 1918, permitiu a vitória sobre os exércitos austro-húngaros. A feroz epopeia do arditismo iniciara-se com as chamadas “Companhias da Morte”, divisões especiais de engenheiros responsáveis pela preparação do terreno para o ataque da infantaria de trincheira. À noite, cortavam as grades e deflagravam minas não detonadas. De dia, avançavam arrastando-se, protegidos por couraças absolutamente inúteis, desmembrados pelos disparos de bombarda. Em seguida, cada armada — infantaria, bersaglieri, alpina — começou a formar as próprias esquadras de atacantes, escolhendo entre os soldados mais 21


experientes e corajosos das companhias os que seriam capacitados em lançamento de granadas, manuseio de lança-chamas e metralhadora. Mas foi o treinamento com punhal, arma latina por excelência, que fez a diferença. Ali começou a lenda. Em uma guerra que aniquilara a concepção tradicional do soldado como agressor, na qual eram os gases abrasivos e as toneladas de aço disparadas de locais remotos que os faziam explodir imóveis nas trincheiras, em um massacre tecnológico decorrente da superioridade do fogo defensivo em relação à mobilidade do soldado lançado no ataque, os Arditi trouxeram de volta a intimidade do combate corpo a corpo, o choque causado pelo contato físico, a convulsão do morto transmitida pela vibração da lâmina ao punho do matador. A guerra nas trincheiras, em vez de produzir agressores, havia formado milhões de combatentes com uma personalidade defensiva, inspirada na identificação com as vítimas de uma inevitável catástrofe cósmica. Naquela guerra de ovelhas prontas para o abate, eles trouxeram de volta a confiança em si mesmos que só é obtida através da mestria em esquartejar um homem com uma arma de corte de lâmina curta. Sob o céu das tempestades de aço, entre a morte anônima em massa e o massacre como produto industrial em larga escala, eles trouxeram de volta a individualidade levada a limites extremos, o culto heroico dos guerreiros antigos e aquele terror especial que só pode ser transmitido pelo esfaqueador que vai pessoalmente até a toca em que a pessoa está escondida para matá-la com as próprias mãos. Além disso, os Arditi cultivaram todas as vantagens da esquizofrenia. As unidades especiais não eram submetidas à disciplina do soldado de tropa, não marchavam, não cumpriam os massacrantes turnos nas trincheiras, não estropiavam as costas cavando túneis subterrâneos nem entalhando galerias na rocha, mas viviam de maneira justa na retaguarda, onde, nos dias de batalha, eram recolhidos pelos caminhões do departamento administrativo e jogados aos pés das posições a serem conquistadas. Aqueles homens podiam, no mesmo dia, degolar um oficial austríaco no café da manhã e jantar bacalhau 22


na manteiga em uma trattoria da região de Vicenza. Normalidade e homicídio, de manhã à noite. Benito Mussolini, após ser expulso do Partido Socialista, ao perder as armadas do proletariado, recrutou-os logo, instintivamente. Em 10 de novembro de 1918, no dia da comemoração da vitória, após o discurso do deputado Agnelli no Monumento aos Cinco Dias de Milão, o diretor do Il Popolo d’Italia instalou-se em meio aos Arditi no caminhão que desfraldava a bandeira preta com o crânio. No Caffè Borsa, erguendo os cálices de espumante, brindou a eles dentre os milhões de combatentes. “Companheiros de armas! Eu os defendi quando o covarde os difamava. Sinto algo de mim nos senhores e talvez os senhores se reconheçam em mim.” E aqueles combatentes destemidos, que em seus dias de glória vinham sendo humilhados pelo Alto Comando com longas marchas sem objetivos militares na planície vêneta entre o Piave e o Adige que tinham como propósito utilizar guerreiros que, da noite para o dia, tinham se tornado incômodos e inúteis, se identificaram com ele. Mussolini, odiado e odiador profissional, sabia que o rancor deles se acumulava, que logo seriam veteranos descontentes com tudo. Sabia que, à noite, sob as tendas, xingavam os políticos, os Altos Comandos, os socialistas, os burgueses. No ar, havia a “gripe espanhola” e, nas baixadas, na direção do mar, a malária. Ao serem marginalizados, enquanto definhavam por causa das febres e a morte despudorada se afastava na lembrança, os Arditi compartilhavam cantis de conhaque e liam em voz alta as palavras daquele homem que, do seu escritório em Milão, neles exaltava “a vida sem abatimentos, a morte sem pudores”. Durante três anos, tinham sido uma aristocracia de guerreiros, uma falange enaltecida nas capas das revistas infantis: lapela ao vento, granadas nas mãos e faca entre os dentes. Em poucas semanas, após voltarem à vida civil, seriam uma multidão de desajustados. Seriam 10 mil minas errantes. * * * 23


A trattoria Grande Italia é um estabelecimento modesto, engordurado e enfumaçado. O ambiente é humilde, o preço, módico, a clientela, fiel, mas apressada. A essa hora da noite, é composta em sua maioria por jornalistas e gente do teatro, autores, comediantes, nenhuma bailarina. Na escuridão, destacam-se apenas as toalhas quadriculadas brancas e vermelhas sob as garrafas do Gutturnio das Colli Piacentini. Os clientes são todos homens, e quase todos já estão bêbados. Mussolini aproxima-se de uma mesa de canto em que três homens o esperam. É uma mesa afastada, distante das vitrines, de onde é fácil vigiar a entrada. À direita, vê-se a saleta reservada de onde provém a algazarra de uma mesa de tipógrafos socialistas. Quando Benito Mussolini tira o paletó e o chapéu antes de se sentar, aquela parte do estabelecimento silencia por um instante. Em seguida, a agitação aumenta. Ele foi reconhecido. De repente, é o centro da conversa. Seus comensais também são indivíduos notórios. À sua direita, está sentado Ferruccio Vecchi, estudante de engenharia, romanholo como Mussolini, fundador do movimento futurista, intervencionista e muito condecorado capitão dos Arditi. Em janeiro, fundou a Caixa de Ajuda Mútua do Ardito e a Federação Nacional Arditi d’Italia. Cavanhaque preto de mosqueteiro, emaciado, olhos encovados, tuberculoso, sedutor impiedoso. A seu respeito, circulam relatos inverossímeis e extraordinários: ferido mais de vinte vezes, diz-se que tomou de assalto sozinho, lançando granadas, uma trincheira austríaca, e trepou com a mulher do coronel enquanto ela dormia ao lado do marido à noite. A parte sanguinária da mesa, contudo, está à frente de Mussolini. Ali está sentado um indivíduo baixo, atarracado, o pescoço taurino dá a impressão de que a cabeça se encaixa diretamente ao tronco. No rosto roliço, um sorriso apalermado nos lábios úmidos evoca as crueldades absolutas da infância. De vez em quando, o menino-touro levanta a cabeça, prende a respiração e olha para o nada como se estivesse diante da objetiva de um fotógrafo. Além da pose, sua roupa também é teatral: embaixo do paletó militar verde-acinzentado, veste um sué24


ter preto de gola alta com um bordado no centro, um crânio branco com um punhal entre os dentes. Do cinturão que segura as calças, pende outro punhal, verdadeiro, com empunhadura de madrepérola. Chama-se Albino Volpi, 30 anos, marceneiro, várias vezes acusado de delitos comuns, alistado nos Arditi, condenado pelos tribunais ordinários por desacato a funcionário público, furto, arrombamento, lesões com agravantes, e pelo tribunal militar por deserção. A seu respeito, não há relatos de feitos extraordinários, apenas fofocas sussurradas. Há duas lendas sobre ele, uma heroica e outra criminosa. Diz-se que, durante a guerra, possuído pela violência, saía à noite por conta própria, engatinhando desde a última trincheira até o fosso dos inimigos, no mais absoluto silêncio. Armado apenas com um punhal e, pelo simples prazer de ouvir o murmúrio sibilante do sangue arterial em contato com o ar, degolava a sentinela adormecida. Há boatos de que tinha um jeito único de empunhar a faca... Certamente foi um dos “jacarés do Piave”, os invasores especializados em atravessar o rio à noite para assassinar as sentinelas na margem sob o domínio dos austríacos. Nus, com o corpo lambuzado de argila cinza para se camuflar com a vegetação ribeirinha, atravessavam a nado a corrente das gélidas cheias de outubro, levando uma pequena morte feroz ao campo inimigo. Não ajudavam em quase nada, nem no plano tático nem no estratégico, porém os jacarés do Piave foram indispensáveis para vencer a guerra. Criaturas lendárias — talvez até inexistentes, criadas pela propaganda — guardavam um segredo transmitido desde o início dos tempos: a noite é escura e cheia de terrores. “Não existe mais combate corpo a corpo”, dizia-se, com pesar, sobre a Primeira Guerra Mundial. “Nenhum criminoso jamais foi herói de guerra”, repetiam desde sempre os oficiais íntegros, os honestos. O homem sentado diante de Mussolini, debruçado sobre uma caçarola de repolhos temperados com pele, patas e cabeça de porco, como um animal que mergulha o focinho ensanguentado nas vísceras da presa, poderia desmentir as duas afirmações. Na mesa de Mussolini, fala-se pouco. A ração é consumida em silêncio, o fundo do copo é visto com melancolia. Já se sabe tudo. Mas 25


um sujeito grande e barulhento se aproxima daquela mesa, gravata preta ao vento, chapéu de aba larga inclinado, e começa a vociferar sobre incidentes vagos e gravíssimos, explosões, brigas sanguinolentas. Não está claro se trata-se de um relato ou de uma ameaça. Mussolini sinaliza para que ele se cale. O indivíduo ameaçador e delirante fica esperando, boquiaberto, exibindo uma cratera onde ficavam antes os dois incisivos superiores, partidos por uma pedrada recebida durante um comício de rua. Chama-se Domenico Ghetti, e é também romanholo. Anarquista, exilado na Suíça com Mussolini durante a juventude, assassinou padres, é desonesto, violento, conspirador, desvalido. Depois, porém, Mussolini lhe indica uma cadeira e pede para ele uma terrina de lasanha ao sugo. Se o diretor do Il Popolo d’Italia pode voltar a pé para casa sozinho à noite, é também graças à simpatia que, apesar de tudo, suscita nos ambientes da violentíssima anarquia milanesa. Ghetti põe-se a comer e, na mesa dos Arditi, o silêncio retorna. A balbúrdia, em contrapartida, aumenta na saleta reservada bem ao lado. O vinho desce e a cantoria sobe. Os trabalhadores do Avanti!, jornal socialista com sede na Via San Damiano, bem atrás da Via Cerva, entoam a plenos pulmões “Bandiera rossa trionferà!”. Brindam ao 17 de fevereiro, o dia em que Milão e a Itália, após a breve ressaca pela vitória da nação sobre os históricos inimigos austríacos, descobriram com perplexidade que havia um novo inimigo no futuro: a revolução bolchevique. Naquele dia memorável, 40 mil operários em greve desfilaram até a Arena ao som de trinta bandas, desfraldando milhares de bandeiras vermelhas e erguendo cartazes que amaldiçoavam a guerra vitoriosa recém-concluída. Uma agitação sádica na qual os mutilados eram exibidos como horríveis provas vivas do combate desejado pelos patrões. Os socialistas cuspiam na cara dos oficiais fardados que, até o dia anterior, eram seus comandantes de ataque, pediam a redistribuição das terras e a anistia para os desertores. Para a outra Milão, nacionalista, patriótica, pequeno-burguesa, que em 1915 dera 10 mil voluntários à guerra a favor da Itália de Be26


nito Mussolini, parecia que, naquele cortejo, “os monstros da decadência estavam voltando à vida”, o mundo recém-pacificado “estava cedendo a uma doença”. Mussolini e os que pensavam como ele ficaram impressionados, em especial, com o fato de os socialistas colocarem para desfilar à frente do cortejo mulheres e crianças. O ódio político berrado pelas bocas sensuais das mulheres e dos imberbes era assustador, consternava e deixava perplexo o tipo de homem adulto que desejara a guerra. O motivo era muito simples. O grito antimilitarista e antipatriótico de mulheres e crianças permitia àquele homem mesquinho, autoritário, patriarcal e misógino pressagiar algo aterrorizante e inédito: um futuro sem ele. Enquanto o cortejo desfilava pelas ruas, os burgueses, os comerciantes, os hoteleiros logo fecharam as janelas, baixaram as grades e trancaram as portas. Diante daquele futuro, muravam-se na prisão do presente. No dia seguinte, Mussolini assinou um editorial agressivo, intitulado “Contra a fera que está voltando”. O paladino da intervenção bélica prometeu solenemente defender os mortos insultados pelos manifestantes, segundo as suas palavras, defendê-los até as últimas consequências “mesmo à custa de cavar trincheiras nas ruas e nas praças da nossa cidade”. Na mesa dos socialistas, já estão tomando licores e grapa. O escarcéu se propaga. Alimentado pelo álcool, o ódio deles vai ganhando contornos mais nítidos. O nome de Mussolini, o “traidor”, pode ser ouvido com nitidez, gritado por uma voz enrouquecida. Na mesa de canto, Albino Volpi, dedicando-se a esmiuçar a pele de porco, muda, de modo instintivo, a maneira de empunhar a faca. Mussolini, pálido, ofendido pelos insultos dos velhos companheiros, mas prudente, o detém com um imperceptível sinal negativo da cabeça. Estreita ligeiramente os olhos, abre um pouco os lábios, inspirando ar entre os dentes, como que invadido pela gangrena lenta de um sofrimento antigo, um desgosto amoroso da juventude, um irmão que morreu de varíola. O “traidor”, então, se recupera. Vira a cabeça em busca de quem o acusa. Seu olhar encontra o de um jovem — deve ter, quando mui27


to, 20 anos — pequeno, ruivo, com sardas sobre a pele clara. O rapaz o encara com o orgulho de quem está contribuindo para a redenção de uma humanidade oprimida. Mussolini pega o chapéu. Rejeita de maneira enérgica a escolta dos Arditi. Enquanto ruma para a saída, tem a impressão de ver de rabo de olho Albino Volpi voltar a mudar o modo de segurar a faca. Mussolini vira a cabeça e vai para a rua. “Arditi contra pacifistas, socialistas contra fascistas, burgueses contra operários, homens de ontem contra homens de amanhã.” A noite de Milão o acolhe como o campo de duas forças mescladas que vivem a mesma vida, dividem o espaço das suas artérias, com a sensação clara, constante, de que uma delas deve matar a outra. Em casa, em Foro Bonaparte, Rachele, sua mulher, e dois filhos o esperam. Mas ainda é cedo. Ele decide passar mais uma vez no Bottonuto, parar no Vicolo delle Quaglie, livrar-se das toxinas do dia em uma prostituta, uma daquelas mulheres públicas, desejadas e desprezadas, que ele e os outros veteranos gostam de chamar de “urinóis de carne”. Enquanto Benito Mussolini volta a pé pela Via Cerva, tem a impressão de ouvir um grito dilacerado de dentro do restaurante. Mas não tem certeza. Talvez seja apenas a cidade que grita no sono.

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lombada 39mm

Vencedor do Prêmio Strega

PHILIPPE MATSAS/OPALE/LEEMAGE/MONDADORI PORTFOLIO

Nascido em Nápoles, em 1969, Antonio Scurati é professor de Literatura Contemporânea na Universidade de Comunicação e Línguas (IULM) de Milão. É colunista do La Stampa e autor de vários ensaios. Estreou em 2002 com Il rumore sordo della battaglia, que ganhou os prêmios Kihlgren, Fregene e Chianciano. Em 2005, com o romance histórico Il survivuto, conquistou a edição XLIII do prêmio Campiello. Com Una storia Romantica, de 2008, recebeu o Mondello, e, em 2015, com a publicação de Il tempo migliore della nostra vita, recebeu o Viareggio e outros prêmios, como o de Seleção Campiello. Com M, o filho do século foi laureado com o Prêmio Strega, o mais importante da literatura italiana.

“SOU O DESGARRADO POR EXCELÊNCIA, O PROTETOR DOS DESMOBILIZADOS, O DESNORTEADO EM BUSCA DO CAMINHO. MAS A QUESTÃO EXISTE E É IMPRESCINDÍVEL LEVÁ-LA ADIANTE. NESTA SALA SEMIVAZIA, COM AS NARINAS DILATADAS, FAREJO NOSSOS TEMPOS, ESTENDO O BRAÇO, PROCURO O PULSO DA MULTIDÃO E TENHO CERTEZA DE QUE MEU PÚBLICO ESTÁ PRESENTE.”

ANTONIO SCURATI

O PRIMEIRO ROMANCE SOBRE O FASCISMO CONTADO POR BENITO MUSSOLINI: O FILHO DE UM SÉCULO QUE FEZ DE NÓS O QUE SOMOS.

O FILHO DO SÉCULO

É inegável: a Itália está cansada de sua classe política, o véu que protege a democracia nunca esteve tão frágil, o povo clama por renovação. Estamos em 1919, e é neste cenário que se apresenta um simples filho de ferreiro, um incansável agitador político, ex-líder socialista expulso do próprio partido, diretor de um pequeno jornal de oposição: Benito Mussolini. Mas o que resta a ser dito sobre esse personagem? O romance M, o filho do século responde a essa pergunta trazendo uma história construída a partir dos olhos do ditador, seus amigos, suas amantes e seus inimigos. Valendo-se de enorme base documental, abordando esse regime autocrático pela primeira vez de dentro e sem nenhum filtro político ou ideológico, Antonio Scurati cria uma trama totalmente calcada na realidade — no período que vai até 1925 —, porém recorrendo ao ritmo e à atmosfera envolvente da narrativa ficcional. Em um enredo digno de um roteiro de filme de ação, Scurati, muitas vezes irônico, ácido e — por que não? — irreverente, brinda o leitor com uma premiada obra-prima da escrita. Mas nem por isso ele atenua fatos ou banaliza atrocidades. Ao aproximar o leitor de um dos maiores ditadores do século XX, mostrando também seus percalços, mazelas e habilidades, o autor revela como a história é definida por pessoas, em última análise, comuns, com o consentimento — ou ignorância — de outras pessoas comuns.

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M, o filho do século  

M, o filho do século  

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