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© 2010 Jonathan Alpeyrie

foi assistente editorial numa grande editora nova-iorquina. Formada pela Universidade de Chicago e mestre em Fine Arts pela Universidade de Nova York, hoje se dedica integralmente a seus livros e a novos projetos editoriais — passa boa parte do tempo em trens, ônibus e aviões e escreve sem parar, no notebook ou em guardanapos. Vive no Brooklyn, que chama de “o lugar mais feliz da Terra”, tem dez tatuagens, gosta de cozinhar, bebe café demais e sempre exagera no ketchup. Também é autora de antes que eu vá.

estarei segura. (...)

Fico imaginando se

a intervenção vai doer.

Quero acabar logo com isso.

É difícil ter paciência.

É difícil não sentir medo

sabendo que ainda não fui curada, apesar de até agora eu não

amor

ouvi muitas vezes que quando

eu fosse curada do

ficaria feliz e em segurança

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Eu acreditava nisso. Antes.

Agora tudo mudou, e posso dizer que hoje prefiro

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mil simo de segundo a viver cem anos de amor por um único

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Foto da capa © 2011 Gustavo Marx Arte de Erin Fitzsimmons e Hilary Zarycky

LAUREN OLIVER

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achavam que amar er a algo sublime. mas isso foi antes de encontr arem a cur a .

“noventa e cinco dias, e então

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mentira.

deliria. Mesmo assim

ter sido acometida pelo me preocupo.

amor levava as pessoas à loucura. Dizem que antigamente o

(...) É o mais mortal entre todos os males: você pode morrer de amor ou da falta dele.”

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para erradicar definitivamente o

amor e garantir o bem-estar da população, todos os cidadãos, ao completar dezoito anos, passam por um tratamento obrigatório fornecido pelo governo. Depois, livres do mal, jamais irão experimentar o gosto amargo do sofrimento — e tampouco os sabores fortes da euforia, do arrebatamento, da paixão.


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Tradução de Rita Sussekind

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Para todas as pessoas que no passado me infectaram com amor deliria nervosa — vocês sabem quem são. Para as pessoas que me infectarão no futuro — mal posso esperar para ver quem serão. E em ambos os casos: Obrigada.

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um As doenças mais perigosas são aquelas que nos fazem pensar que estamos bem. — Provérbio 42, Shhh.

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á sessenta e quatro anos o presidente e o Consórcio identificaram o amor como uma doença, e faz quarenta e três anos que os cientistas descobriram uma cura. Todas as outras pessoas de minha família já passaram pela intervenção. Minha irmã mais velha, Rachel, está livre da doença há nove anos. Está protegida do amor há tanto tempo que diz que nem consegue se lembrar dos sintomas. Minha intervenção está agendada para daqui a exatos noventa e cinco dias: três de setembro. Meu aniversário. Muitas pessoas temem a intervenção. Algumas até resistem. Mas eu não estou com medo. Mal posso esperar. Faria amanhã, se pudesse, mas é preciso completar dezoito anos, às vezes um pouco mais, antes de ser curado pelos cientistas. Do contrário, a intervenção não funciona corretamente: as pessoas acabam sofrendo danos cerebrais, paralisia parcial, cegueira ou consequências piores. Não gosto de pensar que continuo andando por aí com a doença em meu sangue. Às vezes sou capaz de jurar que posso senti-la se movendo por minhas veias como algo estragado, tipo leite azedo. Isso faz com que me sinta suja, me faz pensar em crianças pirracentas, em resistência, em meninas doentes raspando o chão com as unhas, arrancando os cabelos, babando. E, é claro, faz com que eu me lembre de minha mãe.

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Depois da intervenção, ficarei feliz e segura para sempre. É o que todos dizem: os cientistas, minha irmã e tia Carol. Passarei por esse procedimento e em seguida serei pareada a um menino que os avaliadores escolherão para mim. Em alguns anos, nós nos casaremos. Recentemente comecei a sonhar com a cerimônia. Estou sob uma tenda branca, usando flores nos cabelos. Estou de mãos dadas com alguém, mas, sempre que me viro para olhar, seu rosto fica embaçado, como se estivesse fora de foco, e não consigo distinguir seus traços. Mas suas mãos estão frias e secas, e meu coração bate compassado no peito — e no sonho eu sei que ele sempre vai bater nesse ritmo, sem falhar, saltar, girar ou acelerar; apenas tum, tum, tum, até que eu morra. Segura e livre de dor. Nem sempre tudo foi bom como é agora. Na escola, aprendemos que antigamente, nos tempos sombrios, as pessoas não percebiam quão mortal era a doença do amor. Durante muito tempo ela era inclusive encarada como um sentimento bom, a ser celebrado e buscado. Claro que essa é uma das razões que o tornam tão perigoso: afeta nossa mente, impedindo-nos de pensar com clareza ou tomar decisões racionais sobre nosso próprio bem-estar (esse é o sintoma número doze, listado na seção “Amor deliria nervosa” da décima segunda edição da Suma de hábitos, higiene e harmonia, ou Shhh, como a chamamos). Naquela época, as pessoas identificaram outras doenças, como estresse, problemas cardíacos, ansiedade, depressão, hipertensão, insônia, transtorno bipolar, sem perceber que eram, na verdade, apenas sintomas que, na maioria dos casos, resultavam do amor deliria nervosa. É claro que ainda não estamos completamente livres do deliria nos Estados Unidos. Até que a intervenção seja aperfeiçoada, até que seja segura para menores de dezoito anos, jamais estaremos totalmente protegidos. A doença ainda ronda, sufocando-nos com vastos tentáculos invisíveis. Já vi inúmeras pessoas não curadas sendo arrastadas para a intervenção, tão torturadas e devastadas pelo amor que prefeririam arrancar os próprios olhos ou se atirar no arame farpado que cerca o laboratório a ficar sem ele. Há muitos anos, no dia de sua intervenção, uma menina conseguiu se soltar das amarras e chegar ao telhado do laboratório. Atirou-se de lá rapi-

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damente, sem gritar. Durante dias após o ocorrido a imagem de seu rosto foi exibida para nos lembrar dos perigos do deliria. Seus olhos estavam abertos, e o pescoço, retorcido em um ângulo anormal, mas, pelo jeito como a bochecha estava apoiada na calçada, dava para pensar que ela se deitara para tirar um cochilo. Surpreendentemente, havia bem pouco sangue — apenas um fio escuro escorrendo dos cantos da boca. Noventa e cinco dias, e então estarei segura. Estou nervosa, é claro. Fico imaginando se a intervenção vai doer. Quero acabar logo com isso. É difícil ter paciência. É difícil não sentir medo sabendo que ainda não fui curada, apesar de até agora eu não ter sido acometida pelo deliria. Mesmo assim me preocupo. Dizem que antigamente o amor levava as pessoas à loucura. Isso é ruim o bastante. A Shhh também conta histórias sobre aqueles que morreram por causa de amores perdidos ou nunca encontrados, e isso é o que mais me assusta. É o mais mortal entre todos os males: você pode morrer de amor ou da falta dele.

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dois Devemos estar sempre em guarda contra a doença; a saúde de nossa nação, de nosso povo, de nossas famílias e de nossas mentes depende de vigilância constante. — “Medidas básicas de saúde”, Shhh, 12ª edição.

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cheiro de laranja sempre me fez pensar em funerais. Na manhã de minha avaliação, é esse o cheiro que me acorda. Olho para o relógio na mesinha de cabeceira. São seis horas. A luz está cinzenta, o brilho do sol se intensificando nas paredes do quarto que divido com as duas filhas de minha prima Marcia. Grace, a mais nova, está sentada em sua bicama e, já vestida, me observa. Tem uma laranja inteira em uma das mãos. Está tentando mordê-la, como se fosse uma maçã, com seus dentinhos infantis. Meu estômago se revira, e preciso fechar os olhos novamente para afastar as lembranças do vestido quente e desconfortável que fui forçada a usar quando minha mãe morreu, do murmúrio de vozes e da mão grande e áspera me passando laranjas e mais laranjas para chupar, a fim de que eu ficasse quieta. Comi quatro laranjas no enterro, pedaço por pedaço, e quando sobrou apenas um montinho de cascas em meu colo comecei a chupá-las também, usando o gosto amargo para ajudar a afastar as lágrimas. Abro os olhos e Grace se inclina para a frente, com a laranja acomodada na mão estendida. — Não, Gracie. — Empurro as cobertas e me levanto. Meu estômago está se fechando e se abrindo como um punho. — Não é para comer a casca, sabia?

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Ela continua piscando para mim, com seus grandes olhos cinzentos, sem dizer nada. Suspiro e me sento a seu lado. — Aqui — digo. Mostro como descascar a fruta com a unha, desenrolando espirais de um tom alaranjado vivo e deixando-as cair no colo de Grace, enquanto tento prender a respiração para não sentir o cheiro. Ela me observa em silêncio. Quando termino, ela segura a laranja descascada com as duas mãos, como se fosse uma bola de vidro que temesse quebrar. Eu a cutuco. — Vá em frente. Pode comer agora. — Ela simplesmente encara a laranja. Eu suspiro e começo a separar os gomos para ela, um a um. Enquanto isso, sussurro no tom mais gentil possível: — Sabe, as outras pessoas seriam mais legais com você se você falasse às vezes. Ela não responde. Não que eu realmente esperasse uma resposta. Minha tia Carol nunca a ouviu falar uma palavra sequer em todos os seus seis anos e três meses de vida — nem uma única sílaba. Carol acha que há algo errado com o cérebro dela, mas os médicos ainda não encontraram nada. Ela é burra como uma porta, afirmou Carol categoricamente outro dia, observando Grace virar diversas vezes um bloco colorido nas mãos, como se fosse algo lindo e milagroso, como se esperasse que de repente ele se transformasse em outra coisa. Levanto-me e caminho em direção à janela, afastando-me de Grace, de seus olhos grandes que me encaram e de seus dedos finos e ágeis. Sinto pena dela. Marcia, mãe de Grace, está morta. Ela sempre disse que nunca quis ter filhos. É um dos pontos negativos da intervenção; na ausência do deliria nervosa, algumas pessoas acham de mau gosto ter filhos. Por sorte, são poucos os casos de distanciamento completo — em que uma mãe ou um pai não consegue estabelecer um vínculo normal, apropriado e responsável com os filhos e acaba afogando-os, sufocando-os ou espancando-os até a morte quando choram. Mas foi dois o número de filhos que os avaliadores decidiram para Marcia. Na época, pareceu uma boa escolha. Sua família havia obtido altos índices de

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estabilidade na análise anual. O marido, cientista, era muito respeitado. Eles moravam em uma casa enorme na rua Winter. Marcia preparava todas as refeições e dava aulas de piano para ocupar o tempo livre. Mas, quando surgiu a suspeita de que o marido de Marcia era um simpatizante, é claro que tudo mudou. Ela e as filhas, Jenny e Grace, foram obrigadas a se mudar de volta para a casa da mãe de Marcia, minha tia Carol, e aonde quer que fossem as pessoas sussurravam e apontavam para elas. Grace não se lembra disso, é claro; eu me surpreenderia se ela tivesse qualquer lembrança dos pais. O marido de Marcia desapareceu antes do julgamento. Provavelmente, foi uma coisa boa. Os julgamentos servem mais para manter as aparências. Simpatizantes quase sempre são executados. Quando não, ficam trancados nas Criptas para cumprir três sentenças consecutivas de prisão perpétua. Marcia sabia disso, é claro. Tia Carol acha que foi por isso que seu coração parou apenas alguns meses após o desaparecimento do marido, quando ela foi acusada no lugar dele. Um dia depois de receber a intimação, ela estava caminhando pela rua e pá! Um ataque cardíaco. Corações são frágeis. Por isso é preciso ser tão cuidadoso. Hoje o dia será quente, posso perceber. Já está quente no quarto e, quando abro a janela para deixar sair o cheiro de laranja, o ar lá fora parece denso e pesado como uma língua. Respiro fundo, inalando o aroma limpo de algas e de madeira úmida, ouvindo os gritos distantes das gaivotas voando em círculos infinitos sobre a baía, em algum lugar além dos prédios baixos, cinzentos e oblíquos. Na rua, o motor de um carro é ligado. O ruído me assusta e dou um pulo. — Nervosa com a avaliação? Eu me viro. Tia Carol está na porta do quarto, com as mãos unidas e os dedos cruzados. — Não — respondo, apesar de ser mentira. Ela sorri discretamente, apenas algo breve e efêmero. — Não se preocupe. Vai ficar tudo bem. Tome banho e depois eu ajudo a pentear seu cabelo. Podemos revisar suas respostas no caminho.

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— Tudo bem. Minha tia continua me encarando. Eu me sinto pouco à vontade, e cravo as unhas no parapeito atrás de mim. Sempre detestei que me olhassem. Obviamente, precisarei me acostumar. Durante o exame, quatro avaliadores passarão quase duas horas me encarando. Vestirei uma camisola fina de plástico meio transparente, como aquelas usadas em hospitais, para que possam ver meu corpo. — Sete ou oito, eu diria — diz minha tia, torcendo os lábios. É uma nota satisfatória, e eu ficaria feliz com ela. — Mas você não receberá mais que seis se não se arrumar. O último ano de escola está quase acabando, e a avaliação será minha prova final. Nesses últimos quatro meses fiz todos os meus testes curriculares — matemática, ciências, avaliações orais e escritas, sociologia, psicologia e fotografia (uma eletiva de especialização) — e devo receber os resultados nas próximas semanas. Tenho bastante certeza de que fui bem o suficiente para ser encaminhada para uma universidade. Sempre fui uma aluna razoável. Os assessores acadêmicos vão analisar minhas qualidades e fraquezas e me encaminharão a uma faculdade para uma formação. A avaliação é o último passo para que eu seja pareada. Nos meses seguintes, os avaliadores me enviarão uma lista de quatro ou cinco compatibilidades aprovadas. Um deles se tornará meu marido depois que eu me formar. (Presumindo que eu obtenha aprovação em todas as disciplinas. Garotas que não passam para a universidade são pareadas e se casam logo após o ensino médio.) Os avaliadores farão o possível para me vincular a pessoas com resultados semelhantes nas avaliações. Eles tentam ao máximo evitar grandes disparidades em inteligência, temperamento, condição social e idade. É claro que de vez em quando ouvimos histórias assustadoras: casos em que uma menina pobre de dezoito anos é dada a um homem rico de oitenta. As escadas soltam seu gemido desagradável, e a irmã de Grace, Jenny, aparece. Ela tem nove anos e é alta para a idade, mas muito magra: ossuda, com o peito para dentro, como um tabuleiro deformado. É horrível dizer isso, mas não gosto muito dela. Jenny tem a mesma aparência pálida e cansada da mãe.

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Ela se junta à minha tia na porta e me encara. Tenho apenas um metro e cinquenta e oito, e Jenny, por incrível que pareça, é apenas alguns centímetros mais baixa que eu. É uma bobagem me sentir insegura na frente de minha tia e de minhas primas, mas um formigamento sobe por meus braços. Sei que todas estão preocupadas com meu desempenho na avaliação. É fundamental que eu seja pareada com alguém bom. Jenny e Grace ainda estão a anos de distância das respectivas intervenções. Se eu me casar bem, isso significará mais dinheiro para a família daqui a alguns anos. Também pode fazer com que os murmúrios cessem; suspiros fragmentados que quatro anos após o escândalo ainda parecem nos perseguir onde quer que estejamos, como o ruído de folhas sendo levadas pelo vento: Simpatizante. Simpatizante. Simpatizante. É apenas ligeiramente melhor que outra palavra que me seguiu durante anos após a morte de minha mãe, um sibilo como o de uma cobra, ondulando, deixando seu rastro de veneno: Suicídio. Uma palavra furtiva, uma palavra que as pessoas sussurram, resmungam e tossem: uma palavra que deve ser espremida entre mãos em concha ou murmurada atrás de portas fechadas. Apenas em meus sonhos eu a escutava sendo gritada, berrada. Respiro fundo, e então me abaixo e puxo a caixa plástica sob minha cama para que minha tia não me veja tremendo. — Lena vai se casar hoje? — Jenny pergunta à minha tia. Sua voz sempre me lembrou abelhas zumbindo no calor. — Não seja burra — diz minha tia, mas sem irritação. — Você sabe que ela não pode se casar até que esteja curada. Tiro minha toalha da caixa e me ajeito. Aquela palavra — casar-se — faz minha boca secar. Todos se casam assim que concluem sua educação. É como funciona. “Casamento é Ordem e Estabilidade, a marca de uma sociedade Saudável.” (Ver a Shhh “Bases da sociedade”, p. 114.) Pensar nisso, no entanto, faz meu coração se agitar freneticamente como um inseto atrás de um vidro. Nunca toquei em um garoto, obviamente — o contato físico entre não curados de sexo oposto é proibido. Para falar a verdade, nunca conversei com um garoto por mais de cinco minutos, a não ser que eu considere meus primos, meu tio e Andrew Marcus, que ajuda meu tio na loja Stop-N-Save

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e vive enfiando o dedo no nariz e limpando-o na parte de baixo das latas de legumes. E, se não for aprovada nas disciplinas — por favor, Deus, por favor, Deus, permita que eu passe —, eu me casarei assim que for curada, em menos de três meses. O que significa que terei minha noite de núpcias. O cheiro de laranja continua forte, e meu estômago se revira outra vez. Enterro o rosto na toalha e respiro fundo, esforçando-me para não passar mal. Lá embaixo, ouço o barulho de louças. Minha tia suspira e olha para o relógio. — Precisamos sair em menos de uma hora — diz. — É melhor você se apressar.

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estarei segura. (...)

Fico imaginando se

a intervenção vai doer.

Quero acabar logo com isso.

É difícil ter paciência.

É difícil não sentir medo

sabendo que ainda não fui curada, apesar de até agora eu não

amor

ouvi muitas vezes que quando

eu fosse curada do

ficaria feliz e em segurança

par a sempr e.

Eu acreditava nisso. Antes.

Agora tudo mudou, e posso dizer que hoje prefiro

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mil simo de segundo a viver cem anos de amor por um único

reprimida por uma

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achavam que amar er a algo sublime. mas isso foi antes de encontr arem a cur a .

“noventa e cinco dias, e então

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mentira.

deliria. Mesmo assim

ter sido acometida pelo me preocupo.

amor levava as pessoas à loucura. Dizem que antigamente o

(...) É o mais mortal entre todos os males: você pode morrer de amor ou da falta dele.”

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para erradicar definitivamente o

amor e garantir o bem-estar da população, todos os cidadãos, ao completar dezoito anos, passam por um tratamento obrigatório fornecido pelo governo. Depois, livres do mal, jamais irão experimentar o gosto amargo do sofrimento — e tampouco os sabores fortes da euforia, do arrebatamento, da paixão.

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