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R E V I S T A

INTEXTO

O Amor na Terceira Idade A velhice chegou. E agora?

Idosos de Sobradinho encontraram na dança uma forma de continuar a vida

Qualidade de vida na terceira idade

A melhor idade do

mercado de trabalho Quais sĂŁo os planos de idosos depois da aposentadoria


R E V I S T A

INTEXTO

Editorial

Expediente

A digitalização da informação tem alterado as formas de produção, distribuição e comercialização dos produtos jornalísticos. O surgimento da web potencializou essas mudanças e fez surgir novas rotinas/formas de trabalho para os profissionais envolvidos.

Professor responsável Alberto Marques (MTB/SE 1045) Projeto gráfico e Direção de arte Emerson ëCello

O lançamento da Revista InTexto representa parte do esforço do IESB para manter seus alunos atualizados com as mudanças do mercado. A publicação multimídia é produzida pelos alunos do sexto período de jornalismo, na disciplina Comunicação e Multimídia. É um produto feito no Projeto Integrador. A primeira edição aborda o tema Idosos. A matéria da capa, “A melhor idade do mercado de trabalho”, foi produzida pelos alunos Caetano Camargo, Indira Efel, Gabriela Miranda e Mariana Oreiro. Além disso, nesta edição, você encontrará matérias sobre a importância da dança para a terceira idade, o romance depois dos 60 anos e sobre o que deve ser feito para manter a qualidade de vida. Você também poderá ler outras questões fundamentais para as pessoas com mais de 60 anos. Este trabalho representa o esforço, a aplicação dos conhecimentos e, sobretudo, a dedicação em tratar a temática de uma maneira humanista. Pois, a formação do jornalista não requer só o conhecimento teórico e da técnica, mas também o conhecimento do outro e a preocupação em olhar para o lado e ver que a apuração não serve, somente, para cria factoides. Serve para mostrar um mundo fora do senso comum.

Editoras Gabriela Sobral, Mariana Oreiro Coordenação do Curso de Jornalismo Daniella Goulart

Coordenação Interina do Curso de Jornalismo Bárbara Costa Direção Geral do IESB Eda Coutinho Machado Redação (61) 34454577

Repórteres do 6º semestre de Jornalismo Adriana Oliveira de Araújo de Lima | Arthur Gouveia de Lima | Bruno Sousa Lima | Caetano Sperandio Tonet Camargo | Carolina Machado Alves | Eduardo dos Santos Silveira Barbosa | Estephany Priscilla Nunez Barbosa | Felipe Eduardo Vieira Fonseca | Fernanda Gabrielle Rodrigues Martins | Fernanda Silva Magalhães | Gabriela Nascimento Miranda | Gabriela Sobral Marques Feitosa | Guilherme Santos Queiroz | Indira Efel Garin | Jose Carlos de Freitas Oliveira | Leonardo Domingos de Oliveira Brito | Marília Ribeiro Figueira | Mariana Oreiro de Miranda e Silva | Matheus Terra Teixeira | Nicole Soares de Vasconcelos | Olavo Denecial de Araújo | Paula dos Santos Oda | Rafaela Carballo Marrocos | Rafaela Ferreira Polito | Ronnyel Borges Caetano | Soraya Lima Lustosa | Suélen Gontijo de Lima | Thaís da Costa Barros Antonio.


SumĂĄrio

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A velhice chegou. E agora?

A melhor idade do mercado de trabalho O amor na terceira idade

Qualidade de vida na terceira idade

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09 11 13

Respeite os mais velhos!

SaĂşde mental para idosos

Terceira tecnologia


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A velhice chegou. E agora? Idosos de Sobradinho encontraram na dança uma forma de continuar a vida

Arthur Gouveia Bruno Sousa Soraya Lustosa

Q

uarta-feira, três da tarde. Enquanto milhares de pessoas trabalham ou estudam em todo o país, um grupo de idosos em Sobradinho, região administrativa do Distrito Federal, se encontra para tratar de outro assunto: diversão. Os moradores da região já se acostumaram. Mas quem passa pela primeira vez em frente ao local onde se reúnem, o Centro de Convivência do Idoso, mais conhecido como CCI orkut, pode até se espantar com o barulho do som embalado pelo forró ou até mesmo com a quantidade de idosos que entram ali. Animados por hits antigos e modernos, cerca de 200 pessoas lotam o salão para dançar. A única regra para frequentar o CCI é ter acima de 45 anos, embora

não seja exigido nenhum documento de identificação para entrar no local. Enquanto casais rodopiam pelo pátio, um longo banco de madeira “acolhe” os que ainda não conseguiram um par para dançar. Forma-se então uma espécie de fila de espera. Se a companhia desejada não aparecer, não há problema: mulher com mulher também dançam juntas sem empecilho algum. Do Centro de Convivência do Idoso já saíram muitas histórias interessantes, como os inúmeros romances e, até mesmo, casamentos. Eva Alves Cabral, 64, namora há bastante tempo com um senhor que conheceu no forró, mas ela prefere não revelar a identidade do amado. “Eu tenho um ficante, como dizem hoje por aí. Já são 14 anos de felicidade”, comemora a relação, que mais parece um casamento moderno. Viúva com três filhos e dois netos, ela conta que

após ficar doente foi indicada a frequentar o centro de convivência para reverter seu quadro clínico. “Eu acho muito bom vir pra cá e dançar. Eu fiquei viúva e entrei em depressão. Na época que isso aconteceu, me indicaram vir para o CCI. Desde então, tudo mudou”, afirma. O casal Rômulo Vieira, 77, e Maria Salete Gomes Silva, 71, tem mais tempo de namoro que Eva e seu parceiro misterioso: estão juntos há 19 anos. Eles se conhecerem em outro Centro de Convivência do Idoso, no da região administrativa de Planaltina, mas passaram a frequentar o de Sobradinho logo em seguida. A alegre Maria Salete, piauiense e corredora de rua, ainda se recorda de quando conheceu seu Rômulo e conta para todos sem constrangimento algum. “Eu que cheguei nele”, confessa. Revista | 1o 2011

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A velhice chegou. E agora?

Todas essas Marias e Evas ilustram centenas de idosos que encontraram uma forma de se divertir e garantir alegria na fase pós-adulto. Uma das reclamações feitas pelos frequentadores do Centro diz respeito à falta de opção de lazer voltada para o público da terceira idade. As palavras de Eva resumem o que muitos ali já vivenciaram um dia. “Às vezes o idoso fica em casa e não tenho apoio necessário da família. Às vezes também sofre pela falta do que fazer e não é compreendido. Aqui, no CCI, a história é outra”, desabafa.

Números não param de subir Dados do último censo populacional feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam para um crescimento da população acima dos 65 anos em todo o país. Em 1991, esse grupo representava 4,8% do total de indivíduos no Brasil. Em 2000, o valor saltou para 5,9% e atingiu o patamar de 7,4%, em 2010. Especificamente na região Centro-Oeste, houve um crescimento de 3,3 %, em 1991, para 4,3%, em 2000, e 5,8%, em 2010. Para o pesquisador em Informações Geográficas e Estatísticas do IBGE, Gabriel Borges, o envelhecimento populacional, indicado pelo acentuado estreitamento da base da pirâmide etária, é decorrente do contínuo declínio dos níveis de fecundidade observados no Brasil desde a década de 1960. “A queda da mortalidade tem aumentado a importância no envelhecimento populacional”, afirma. “As últimas projeções do IBGE, (Projeção da População do Brasil por sexo e idade: 1980-

2050 - Revisão 2008) apontam que este percentual seria de 13,3 % em 2030”, completa. Os grupos etários com menos de 20 anos já apresentam uma diminuição absoluta no seu contingente. A afirmação leva em consideração o crescimento da população do Brasil nesses últimos dez anos, principalmente em função do desenvolvimento da parcela adulta, com destaque também para o aumento da participação de quem tem mais de 60 anos. Em todo o país, a cidadãos com 80 anos ou mais chega a quase três milhões de habitantes. Com o rápido aumento da população idosa (tanto em termos relativos quanto absolutos), as demandas por benefícios e serviços ligados à Seguridade Social (Assistência Social, Previdência Social e Saúde) devem ser também crescentes, já que os idosos representam uma parte significativa destes gastos. “Isto, no longo prazo, acarretaria uma maior alocação de recursos direcionada a estes grupos”, explica Borges.

Crescimento com qualidade de vida A qualidade de vida é um fator fundamental em qualquer etapa da vida do ser humano. Contudo, com o passar dos anos, ela se torna ainda mais importante na vida do idoso, tanto pelas características físicas quanto pelas psicológicas. Para prolongá-la, é necessário ir além dos exercícios físicos. Chegar à terceira idade com saúde também requer sentir prazer pela vida, como explica a médica de família e comunidade Gisele Coutinho. Segundo ela, a velhice é uma fase em que o idoso tem muito mais doenças, como artrose e hipertensão. As atividades físicas sempre ajudam a melhorar a saúde, porque aumentam a massa muscular, diminuem as dores e a qualidade do sono é melhor. Porém, faz uma ressalva. “É recomendável que os idosos façam qualquer coisa que os proporcionem prazer. Qualquer coisa dê prazer para eles já está valendo”, afirma.

A música “Baião”, de Luiz Gonzaga, embala os encontros semanais do CCI. Revista | 1o 2011

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De acordo com Gisele, fazem parte desse grupo pessoas que muitas vezes perderam os objetivos e pensam não ter mais ‘utilidade’. “Isso gera depressão, isolamento. Existem várias atividades que podem ser feitas em grupo. Isso ajuda os idosos a se socializarem, a encontrarem companhia, parceiros”, conclui.


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A melhor idade do mercado de trabalho Quais são os planos de idosos depois da aposentadoria

Caetano Camargo Indira Efel Gabriela Miranda Mariana Oreiro

Com o envelhecimento da população brasileira, cada vez maior desde 2000, essa evolução da absorção de pessoas com mais experiência pelo

mercado de trabalho pode muito bem crescer. No Centro-Oeste, a população de idosos teve um crescimento, passando de 3,3% em 1991, para 4,3% em 2000 e 5,8% em 2010. Ao observar o comportamento da acordo com matéria publicada na Veja (Ed. 2218, de 25 de maio) intitulada “Vovô está on-line”, que a ideia recente de um idoso de óculos e bengala na mão vem deixando de ser regra. Dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a participação das pessoas com mais de 65 anos no mercado foi uma das que mais cresceu. Em 1991, esse número era de 4,8% e em 2000 passou para 5,9%. O

Andressa Anholete / Jornal de Brasília

E

xperiência. Quando o assunto é mercado de trabalho esse é um conceito que vale tanto para os jovens quanto para os que estão próximos da aposentadoria. Os primeiros ainda não têm, e os outros têm de sobra. Mas isso nem sempre é o que conta para os empregadores. Segundo o membro do Conselho Federal de Economia, Newton Marques, o mercado de trabalho encara a situação de outro jeito: dá mais prioridade para a produtividade em ritmo acelerado do que para o conhecimento, que por vezes não traz tanto retorno para as empresas privadas.

Revista | 1o 2011

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A melhor idade do mercado de trabalho

Prazer, sou aposentado

Seu Roberto empalha cadeiras há 30 anos

crescimento continuou. Só no ano passado a participação dos idosos na população residente era de 7,4%. E quanto maior o alargamento do topo da pirâmide etária brasileira, mais é a incidência de idosos que buscam se movimentar na economia do país, como forma de aumentar a renda familiar. Contudo, de acordo com Newton Marques, em boa parte das situações, quanto mais idade, maior o peso para o empregador. Marques explica que os idosos precisam manter a produtividade no nível dos mais jovens, mas a saúde já não acompanha o mesmo ritmo de antes. “O salário é igual à produtividade marginal, ou seja, as pessoas têm que dar um retorno para empresa de tal forma que pague o salário dela. Essa que é a lógica do sistema econômico”. Na hora de procurar o mercado e permanecer ativo, o economista diz que o idoso sofre a possibilidade de ser descartado, principalmente após a aposentadoria. Entretanto, ele afirma que existem as “notas de rodapé”, ou seja, as exceções. Segundo dados do IBGE, em 2009 cerca de 20% dos idosos aposentados no Brasil estavam ativos no mercado, o equivalente a cerca de quatro milhões de pessoas. Esse é o caso de Lorivaldo Soares, 73 anos. Ele não desistiu da vida depois de aposentado e garante uma fonte de renda e motivação maior. Lorivaldo se aposentou há dez anos, mas trabalha diariamente em uma das primeiras bancas de Jornal da cidade. A história dele se confunde com o aniversário de Brasília, faz 51 anos que a banca existe na primeira quadra da cidade, 108 sul. O baiano veio trabalhar na construção de Brasília. Na mala carregava os pinceis que usaria para ser pintor, mas por um acaso do destino todo o material foi roubado e ele teve de começar a trabalhar na entrega de jornais. Foi então que se apaixonou pelas letras e decidiu abrir um negócio rentável com investimento escasso. Para o baiano, a principal motivação para continuar trabalhando é ter um objetivo maior. Objetivo este que é seguido à risca, porque ele conta que pretende viver por mais 30 anos, com o sonho de alavancar novos projetos. Lorivaldo almeja iniciar um novo empreendimento com a compra de um ônibus de turismo. E não para por aí. “E dentro desse projeto sempre adubando a idéia original, sempre visualizando mais cinco, dez anos para frente”. De acordo com ele, o prazer de trabalhar aumenta a expectativa de vida. Revista | 1o 2011

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Para uma parcela da população, a mudança no status de empregado para aposentado pode acarretar em desligamento automático da vida produtiva. É devido a isso, que idosos têm procurado entrar na onda dos concursos públicos em Brasília. Newton Marque se utiliza da explicação econômica para analisar o caso. Para ele, isso ajuda a complementar a fonte de renda (além da aposentadoria), pois o setor privado não dá chance para essa faixa etária, e assim é possível se manter no mercado. “[A escolha de fazer] o concurso público é porque o aposentado não encontra no setor privado ninguém que receba ele. É uma forma de ele ter um salário razoável. A experiência não vai ser jogada fora e não vai ficar em casa. Mas esses casos ainda continuam sendo as notas de rodapé”, enfatiza o economista. Hoje a aposentada, Garibaldina Gurgel, 76 anos, desfruta da estabilidade financeira, fruto de vários anos trabalhando no serviço público. Faz cerca de 20 anos que se aposentou pelo Superior Tribunal Militar (STM), o quinto órgão para o qual ela prestou concurso e passou, na década de 80. Garibaldina começou a trabalhar aos 18 anos no Tribunal de Justiça de Natal (RN), sua terra de origem. O marido dela, que era militar, mudava de cidade constantemente junto com a mulher e os filhos. Garibaldina se aposentou como técnica judiciária e em 1988 até recebeu uma condecoração do mérito judiciário militar das mãos do ministro Rafael de Azevedo Branco. Ela ainda guarda todas essas lembranças da época. Máquina de escrever, medalhas e fotografias do tempo em que exercia uma atividade remunerada. Para ela, o concurso público foi uma forma de conseguir uma renda fixa, continuar trabalhando e garantia de um futuro bom para os filhos e para ela mesma, que hoje investe sua aposentadoria em viagens pelo país.

Eu = Trabalho A psicóloga Tarsila Flores explica que quando chega a hora da aposentadoria, o idoso, que não se preparou para esse dia, se vê em uma situação que pode levar


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A melhor idade do mercado de trabalho

ra com direito a entretenimento. Ambos investem na saúde mental e física e seguem à risca a dica da psicóloga: “buscar ter opções de preenchimento do tempo com coisas saudáveis que sejam do seu interesse. E não somente viver mecanizado pelo trabalho e pelo cotidiano”.

Distração consciente

Newton Marques diz que mercado exige produtividade dos idosos

a depressão. A psicóloga conta que para o ser humano a vida significa trabalho e quando isso termina tudo perde sentido. “Se não existe mais trabalho eu não sou nada. Então existe uma tendência a um episódio depressivo”. A rotina de ir ao trabalho e lidar com diversas situações se torna passado e, por isso, a dica da psicóloga é manter-se aberto às novas experiências e constituir novos planos de vida. Tarsila lembra que esse tipo de precaução deve ocorrer com no mínimo um ano de antecedência. De acordo com a psicóloga, é preciso uma preparação quando a

mudança de status vem chegando e isso deveria ser oferecido pelas empresas. Para Tarsila, pode deve haver um trabalhado de forma prática durante toda a vida. Algo parecido com a famosa música do Titãs, composta por Sérgio Brito, Epitáfio. As histórias de Lorivaldo e Garibaldina só se assemelham no quesito aproveitar a vida, o famoso “Carpe Diem”. Os projetos futuros dele envolvem a atuação no mercado de trabalho na área de turismo e os dela são parecidos, ela pretende continuar viajando com o marido pelo Brasil. Enfim, a aposentadoria contribui para gerar o fluxo financeiro do país, ago-

É só estar atento. Ao percorrer as entrequadras da Asa Sul tem dias em que é possível encontrar Roberto de Andrade, de 61 anos, em seu “escritório móvel”. É na calçada que ele encontra espaço para montar e personalizar, expondo sua atividade, o ambiente de trabalho. A história parece familiar: paraibano veio à Brasília na intenção de criar os filhos longe do sertão. Mas a animação e intensidade que conseguem se destacar em meio a timidez na hora da entrevista lhe conferem o ar autêntico de um idoso que se mantém trabalhando. Faz 30 anos que Roberto aprendeu, sozinho e observando os outros fazerem, esse ofício que sustentou a família durante anos. Empalhar cadeiras. Hoje é conhecido por onde passa e, assim, já tem uma clientela cativa. Sua chamada “fama” também ajuda na hora de guardar as cadeiras, que não consegue transportar para onde mora em Samambaia. O jeito é pedir nos pontos de táxi de confiança que guardem seus materiais. Ele conta ainda,que não se aposentou pelo governo, mas diz que prefere assim. Para Roberto, o trabalho desenvolve as pessoas e é melhor do que ficar em casa ou gastando dinheiro, bebendo num boteco. Viúvo com os filhos fora de casa, o único companheiro que lhe restou foi o trabalho. “Trabalhar ocupa o tempo. Desenvolve a gente. Distrai”, afirma. Pessoas mais velhas têm dificuldade para permanecer no mercado de trabalho depois de aposentadas. Revista | 1o 2011

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A melhor idade do mercado de trabalho

Aos 96 anos e trabalhando

Quem guarda a portaria do Ministério da Justiça (MJ) é o João Pereira dos Santos, senhor contente e eterno estudioso. Mesmo com um nome comum entre os brasileiros, ele é mais uma história que merece ser compartilhada. Sempre pontual, ele é conhecido por todos e com seus 96 anos desbanca muitos jovens, com sua disposição. Ele trabalha lá, no Ministério, desde 1977. Mas quem pensa que ele já tem planos de parar está muito enganado. Sergipano de Propriá, ele diz que só para de trabalhar quando a memória começar a falhar. Durante um pequeno passeio pelos corredores do Ministério, Pereira demonstra tudo o que abstraiu de conhecimento durante a vida, e está com tudo na ponta da língua. Para as pessoas que passam por ele no corredor, junto com o cumprimento vem a pergunta sobre assuntos gerais, que vão desde pequenos eventos até grandes notícias, capas de jornais diários. Os que não sabem responder recebem a explicação, o que mostra que ainda vai demorar muito para a Revista | 1o 2011

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memória deixar Pereira na mão. Ele sabe até mesmo quantas ruas tem em São Paulo. “Pode me perguntar de qualquer país do mundo que eu respondo”, afirma orgulhoso. De acordo com o funcionário do MJ, ele não traz essa sabedoria de um curso superior e sim da leitura de mais de 500 livros, parte do acervo pessoal. Sem esquecer os jornais que lê diariamente. De acordo com ele, a falta de hábitos como este da leitura é um dos grandes problemas para o Brasil não crescer, se equiparando aos países desenvolvidos. Ele ainda lembra: “os idosos são uma biblioteca que quando morre acaba tudo”. Por isso, os colegas brincam, eles dizem que Pereira é uma enciclopédia ambulante. Mesmo assim, ele se mantém humilde. “Quem sabe menos das coisas ainda sabe mais do que eu”, diz. Poucas horas com o sergipano funcionam como uma aula de história. Pereira nasceu em 1914 e, por isso, pode ver e vivenciar muitos acontecimentos históricos no Brasil e no Mundo. Uma

das experiências que guarda na memória é ter trabalhado para a família de Getúlio Vargas. O sergipano lembra, inclusive, do episódio em que o presidente tirou a própria vida. “Enquanto eu viver eu nunca vou me esquecer da família Vargas”, conta. Pereira se aposentou há 44 anos. Mas mesmo com a aposentadoria nas mãos, ainda não quis deixar de trabalhar. Foi já depois de sete anos aposentado, que entrou para o Ministério da Justiça e não parou até hoje. Quando perguntam de onde ele tira força para continuar, Pereira revela o segredo: não parar de trabalhar. Esse exemplo pode muito bem ser visto de perto, ou de longe, já que nem óculos ele usa. Ele conta que só o joelho está começando a incomodar, mas ainda não é motivo para usar muleta. E encerra com essa dica: “para viver bem é preciso fazer exercício físico, se alimentar conforme as prescrições médicas, ter um bichinho de estimação e amar muito o próximo. Esse é o segredo”.


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O Amor na Terceira Idade

R Nicole VASCONCELOS Gabriela SOBRAL Themes SANTOS Stephany NUÑES

omance, troca de olhares e um novo amor não acontecem somente entre jovens. Com o aumento da expectativa de vida e da independência do idoso, quem está na terceira idade já não fica mais em casa assistindo a futebol ou tricotando. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde 2003 o número de casamentos a partir dos 60 anos aumentou 44%. Os dados do IBGE também mostram que os homens são os que mais se casam: e representam quase

o dobro do número de mulheres. Isso tem uma explicação nada romântica: existem mais mulheres do que homens na população, tornando mais difícil as alternativas de casamentos das mulheres idosas. Com a maturidade, vem a autoconfiança e a vontade de encontrar um novo parceiro. Este É o caso da aposentada Bárbara Alves, de 91 anos. Aos 13, quanto deveria estar debutando, Bárbara se casou. A experiência não foi boa. Ela diz que, quando nova, não sabia lidar com a Revista | 1o 2011

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O amor na terceira idade

falta de afetividade do marido. Já madura, descobriu uma forma diferente de viver o casamento. Depois de viúva, Bárbara casou-se mais duas vezes. A última foi aos 80 anos com John Mayer, de 86 anos. Ele faleceu recentemente, mas ela guarda recordações carinhosas dos sete anos desse amor.

A melhor idade trouxe para dona Bárbara a descoberta do verdadeiro amor

Depois de oito anos de namoro o romantismo ainda permacene entre este casal

Pessoas da melhor idade não estão apenas atrás de compromisso sério. Eles também querem amizades e diversão. O Grupo dos Mais Vividos, organizado pelo Sesc Brasília, é um exemplo disso. Todas as terças-feiras há reuniões com atividades de entretenimento, palestras com profissionais de saúde e bailes. Nesses espaços, eles podem se descontrair e quem sabe até engatar um romance. Antônia Medeiros e Davi Campos, ambos com 83 anos, conheceram o Grupo e são frequentadores assíduos. Eles contam que essas atividades são muito importantes para a integração, troca de experiências e para estar conectado com o mundo atual. Além disso, dizem que serve para paquerar e fazer novos amigos. Nazareno Vasconcelos afirma que o galanteio não se perde com o tempo. Ele conta que aos 71 anos começou a namorar Valdênia Souza, de 32 anos. Eles se conheceram na casa da filha de Nazareno e começaram um relacionamento que já dura oito anos. Ele diz que sempre teve um jeito especial de tratar as mulheres e que isso funciona até hoje. Para os que optaram pelo casamento na terceira idade, existem algumas garantias judiciais, como a obrigatoriedade do regime de separação de bens, determinada pelo Código Civil Brasileiro. O objetivo é proteger o patrimônio das famílias. O casal Luiz Ernesto e Socorro se conheceram no baile e namoram há 3 anos.

Revista | 1o 2011

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Qualidade de vida na terceira idade

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O

grupo de estudiosos em qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde (OMS), The WHOQOL Group, propõe um conceito subjetivo de qualidade de vida. Segundo eles, qualidade de vida é a percepção do indivíduo de sua posição na vida. Isso envolve o contexto da cultura e dos sistemas de valores nos quais vive, e, também, está relacionada aos objetivos, expectativas, padrões e preocupações de cada um. É um conceito amplo e difícil de definir padrões certos ou errados. Engloba a saúde física, o estado psicológico, o nível de independência, as relações sociais, as crenças pessoais e a relação com as características do meio ambiente. Em termos mais concretos, os itens que a OMS leva em consideração para essa avaliação refletem na percepção que têm os indivíduos de que suas necessidades estão sendo satisfeitas ou, ainda, que lhes estão sendo negadas oportunidades de alcançar a felicidade e a auto-realização, com independência de seu estado de saúde físico ou das condições sociais e econômicas.

Carolina Alves Olavo Denencial Paula Oda Rafaela Ferreira

Em busca de alcançar a felicidade, a auto-realização e se integrar na sociedade, os idosos brasileiros podem procurar atividades que visam associar

o lazer à prevenção ou à melhora da saúde. Na Capital do País, onde 5,8% da população é idosa, segundo dados do Censo 2010, empresas e órgãos estão investindo em atividades destinadas ao público de mais idade, mas, por enquanto, não há muitas opções para entreter os aposentados.

Sesc Isso pode ser comprovado pelo grupo dos mais vividos do Serviço Social do Comércio (Sesc). A instituição, que é pioneira em programas destinados exclusivamente para a terceira idade, criou o primeiro grupo há mais de 50 anos em São Paulo e aos poucos foi se espalhando pelo país, inclusive por Brasília. Há grupo dos mais vividos em todas as unidades do Sesc do Distrito Federal. A diferença entre os centros são as atividades realizadas por cada um deles e a quantidade de participantes. No Sesc da 913 Sul, o grupo já existe há cerca de 35 anos e é o maior da cidade. Hoje, coordenado pela aposentada Jandira Silva e pela terapeuta ocupacional Alessandra Castro, existem mais de 800 idosos cadastrados. Mas nem todos participam frequentemente das atividades. As atividades realizadas por eles são: palestras voltadas para a saúde e a vida do idoso, bingo, Revista | 1o 2011

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Qualidade de vida na terceira idade

BAILE DO SESC Já o coral acontece toda segunda e quarta-feira, sempre das 14h às 16 horas. O professor e músico-terapeuta, Wander Oliveira, de 64 anos, 27 deles dedicados a lecionar para os idosos, afirma que, até se tornar professor da terceira idade, tinha resistência às pessoas com mais de 60 anos por acreditar que a velhice era algo ruim, que as pessoas ficavam doentes. Porém, tudo mudou. Hoje, além de ser um idoso, Oliveira é amigo e conselheiro dos participantes do coral. “Para o idoso, um grupo como esse é muito bom, melhora muito a vida emocional. Tem gente que entra aqui com depressão, no começo não quer fazer nada, chora muito, alguns querem até morrer. Mas basta um tempinho aqui que a pessoa muda, fica feliz.” O baile é uma das atividades preferidas dos idosos

teatro, dia de beleza, passeios em hotéis fazenda, visitas ao parque da Água Mineral, baile dançante e o coral. Para participar, é preciso ter mais de 60 anos, fazer a carteirinha da instituição e se inscrever no grupo. A terça-feira é o dia do encontro de, pelo menos, 180 integrantes do grupo dos mais vividos no Sesc da 913 Sul, sempre das 15h às 18 horas. Na ocasião, acontece uma palestra ou um bingo antes do momento da

dança. Essas são as atividades que eles mais gostam e esperam, segundo a coordenadora Jandira. Como comprova a aposentada de 80 anos, Marluce Mirttself, que é umas das integrantes pioneiras. Devido a problemas de saúde, ela anda com a ajuda de uma cadeira de rodas, mas não falta a nenhum encontro. “Isso aqui é a minha família. Preciso ver minhas amigas toda semana para me dar prazer de viver. Aproveito e danço um pouquinho”, diz ela.

O grupo de jogadores é formado por homens e mulheres

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O Sesc também oferece outras atividades com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do idoso, como a natação, hidroginástica e aulas de dança. Segundo a diretora da unidade da 913, Márcia Junqueira, um dos objetivos é proporcionar atividades variadas para agradar a terceira idade e para não deixá-los ociosos. Ela lembra que os eventos do grupo dos mais vividos são gratuitos.

Veteranos do Basquete Com objetivo de interagir com novas pessoas, praticar uma atividade física, ter uma boa saúde e ainda aproveitar a paixão pelo basquete, há 22 anos foi fundada a Associação de Veteranos e Amigos do Basquetebol de Brasília (Avabra). Ao todo são 108 participantes que, às segundas e quartas-feiras, se encontram no ginásio do colégio Caseb, localizado na 909 Sul, para jogar. Formado por homens e mulheres, o grupo é bem organizado. Tem estatuto, ficha de filiação e regimento interno. Tanto esforço deu certo. Desde a origem, a associação já conquistou mais de quatro títulos e representou o Brasil no Campeonato Mundial de Basquetebol Veterano em Helsinki, na Finlândia. Neste ano, quatro jogadores foram convocados para a seleção brasileira.


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Qualidade de vida na terceira idade

Idosos do Basquete Saúde Diferente de tempos atrás, o idoso de hoje é ativo e está longe de ser o velhinho que só quer descansar. Com uma expectativa de vida maior, eles procuram atividades para aproveitar melhor o tempo e buscar a tão sonhada qualidade de vida. De acordo com as últimas pesquisas registradas pelo Ministério da Saúde sobre esportes e lazer na terceira idade, relativas ao ano de 2007, cerca de 50% das pessoas que alcançaram a velhice fazem exercícios físicos e buscam, pelo menos uma vez por semana, uma atividade que lhes dê prazer. Entre as mais praticadas, está assistir a TV, ouvir rádio, cuidar das plantas, jogar dominó, cartas ou xadrez. Para a psicóloga social Simone Cerqueira da Silva as atividades complementares são essenciais para o idoso porque desenvolvem a integração do grupo na sociedade. Dessa forma, eles se sentem mais úteis, um fator determinante para a saúde mental do ser humano. Além disso, o lazer

contribui com a saúde das pessoas com mais de 60 anos, precavendo o envelhecimento precoce e evitando e revertendo o aparecimento tanto das doenças crônicas, como a hipertensão e a diabetes, quanto das súbitas, como o infarto e o derrame. O médico geriatra Jerson Lins Freguiane ressalta a importância das atividades de lazer, mas alerta que são necessários cautela e cuidados extras porque os idosos não possuem mais a resistência de quando eram jovens. “Buscar qualidade de vida é fundamental. O idoso precisa disso para ter uma vida completa e harmônica, porém a estrutura física já não é mais a mesma, pelo contrário, ela está enfraquecida. É muito importante ter atenção para estar melhorando os níveis glicêmicos, o colesterol, a pressão arterial e estar piorando a estrutura óssea, a tensão muscular.” Entre os cuidados mais importantes para o idoso, está a alimentação. Segundo o livro da autora Andelis RC, A importância de alimentos vegetais na proteção da saúde: fisiologia da nutrição protetora e preventiva de enfermidade degenerativas, de 2001,

“as frutas e verduras são essenciais para uma alimentação saudável, os estudos afirmam que estes alimentos podem ajudar a prevenir patologias importantes, como as doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer, principalmente do trato digestivo”. A autora garante que “a baixa ingestão de frutas e verduras causa 19% do câncer gastrointestinal, 31% das cardiopatias isquêmicas e 11% dos acidentes vasculares cerebrais. Cerca de 2,7 milhões de óbitos podem ser atribuídos à baixa ingestão desses alimentos”. O Brasil tem cerca de 14 milhões de pessoas com mais de 65 anos, segundo o Censo 2010. Isso equivale a 7.4% da população atual, uma diferença de mais de três milhões de idosos se comparado a 1991, quando foi feita a penúltima edição do Censo. Os motivos para o aumento da terceira idade são vários, mas todas refletidas no aumento da expectativa de vida, que passou a ser de 73 anos. O coral acontece toda segunda e quarta-feira, sempre das 14h às 16 horas.

Nutricionista, Alda Ramos, tira dúvidas sobre a alimentação dos idosos e prepara receitas práticas e saudáveis

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Respeite os mais velhos!

A sociedade ocidental contemporânea deslocou os idosos da ordem de importância que eles já tiveram. Algumas tribos indígenas ainda preservam os mais velhos como símbolo de sabedoria

Thaís ANTONIO Felipe EDUARDO Ronnyel BORGES Suelen GONTIJO

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m algumas cidades européias como Berlim, Paris e Barcelona, os metrôs e ônibus não possuem assentos preferenciais. Num primeiro momento, pode-se pensar na inadequação desse tipo de organização do espaço público em países tão evoluídos do ponto de vista das relações sociais coletivas. O que ocorre nesse tipo de estrutura social é uma atribuição de valor inata ao comportamento do indivíduo sobre questões que transitam na esfera da coletividade. A prioridade é assunto tão sério, que chega a ser óbvio. Simplesmente, nesse modelo de relações sociais, não cabem assentos exclusivos. Cabe a cada cidadão

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a consciência de levantar-se ou não quando entra um idoso, um cadeirante ou uma grávida. Essa forma de perceber o coletivo vai tão além da imposição, que o cidadão que faz parte desse tipo de organização tira do Estado a responsabilidade e assume para a si certas questões que permeiam as relações sociais. Na Inglaterra, por exemplo, as pessoas mais velhas são chamadas de Sênior Citizes, que significa “cidadão sênior”. Mas nem todas as sociedades contemporâneas ocidentais têm o mesmo comportamento frente a situações como essa. O antropólogo Roberto DaMatta, no livro


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Respeite os mais velhos

A Casa e a Rua, diz que “Na rua a vergonha da desordem não é mais nossa, mas do Estado. Limpamos ritualmente a casa e sujamos a rua sem cerimônia ou pejo… Não somos efetivamente capazes de projetar a casa na rua de modo sistemático e coerente, a não ser quando recriamos no espaço público o mesmo ambiente caseiro e familiar”. Reproduzimos, fora de casa, comportamentos que não teríamos entre os nossos familiares e deixamos de reconhecer que as pessoas mais velhas são símbolos de sabedoria que merecem nosso respeito. José do Egito Souto Oliveira, de 62 anos, conta que sofre na hora de usar transportes públicos ou quando precisa se sentar em locais em que todos os assentos estão ocupados. “É muito dificil alguém levantar e me dar uma cadeira”, conta. José foi criado na roça e não consegue se acostumar com alguns hábitos da vida moderna, em uma cidade como Brasília. “O pessoal antigo é mais humilde. O de hoje é mais agitado”, declara. Maria Helena Bernardes Cangussú (linkar de alguma forma com o vídeo) sentiu preconceito ao encarar um trabalho na iniciativa privada aos 59 anos. Acabou fazendo um concurso para a Secretaria de

Educação e voltou para o serviço público, onde havia trabalhado por 30 anos. “Eu não guardo magoa”, afirma. “Os problemas vêm pra gente crescer”. Ela também conta que já foi ofendida enquanto estacionava o carro. “Disseram que a minha vaga era a de idoso”. Ela tem cabelos brancos por conta de uma medicação contra alergia que precisou tomar e acredita que essa característica causa impactos na visão dos mais jovens em relação a ela. “O que mais interfere é a cor do cabelo”, afirma. Mas ela diz que não tem medo de envelhecer. “Eu vejo o passar do tempo como uma vida”. A deputada federal Erika Kokay, que é membro das Comissões de Direitos Humanos e de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, acredita que a sociedade atual vive um momento de ahistoricidade, o que significa que as pessoas têm uma certa aversão à história, ao passar do tempo. “É uma etapa da ditadura do prazer e de uma busca da felicidade muito superficial”, explica. “As pessoas estranham e não acolhem os idosos, porque fogem do modelo de perfeição, do aqui e agora”. Para Erika, negar a importância dos idosos é como desprezar o fato de que todos envelhecemos um

dia. “Um tratamento digno para os idosos tem significado maior do que o simples respeito à pessoa. Significa reconhecer a nossa história, a nossa própria trajetória de vida”, afirma. Ela acrescenta ainda a importância de empoderar os mais velhos a partir de políticas específicas. “É preciso recuperar a auto-estima deles. O Estado tem que rer uma política de busca ativa, para conhecer a realidade não de forma estatística, mas saber quem são, o que precisam”, diz. Para o antropólogo Roque Laraia, esses comportamentos são reflexos da organização da sociedade brasileira. “A sociedade brasileira é uma sociedade muito individualista. As pessoas estão muito preocupadas com si próprias e não têm tempo para pensar em outras categorias”, explica. Mas ele lembra que isso não ocorre em todos os lugares do Brasil. “O Brasil é um pais que tem uma enorme diversificação cultural e muitos estágios de desenvolvimento. Em muitas partes do País você vai encontrar respeito aos idosos”. Laraia explica que a parte mais tradicional costuma ter muito respeito por essas pessoas. Assim como os índios Tupinambás, os primeiros a ter contato com os Portugueses na época do descobrimento do Brasil. Nessas comunidades o idoso tem um grande prestígio. Um “Conselho dos velhos” costuma se reunir com o chefe tribal para discutir os assuntos da aldeia. Os jovens respeitam tanto os idosos, que sequer se dirigem a eles – esperam que os mais velhos se dirijam, como deferência por tanta experiência. “Os idosos são pessoa que tem sabedoria maior porque são depositários do conhecimento do grupo. São as pessoas que se preocupam em guardar as memórias do mito”, afirma Laraia. “Em uma sociedade em que a tradição é oral, o que vale é a pessoa que é maior depositário de memória”. Revista | 1o 2011

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Saúde mental para idosos Como estão os serviços de saúde mental para idosos no DF Eduardo Barbosa

A saúde mental no Distrito Federal, assim como em todo o Brasil, sofre pelo descaso e, principalmente, pela falta de conhecimento do assunto pela maioria da população. Somados a esse desconhecimento geral, a saúde mental de idosos ainda carrega crenças e estereótipos, o que deteriora a divulgação de serviços voltados para esse público e a qualidade com que esses serviços são oferecidos. A terceira idade sofre com a falta de respeito, de acessibilidade e, em especial, de medidas voltadas para suas necessidades específicas. De acordo com dados da própria Secretaria de Estado de Saúde do DF, o órgão não possui nenhum projeto com atividades relacionadas à saúde mental de idosos. Iniciativas isoladas, como terapia comunitária, grupos terapêuticos oferecidos por universidades e pelo Hospital Universitário são algumas das poucas opções para contemplar os idosos do DF. Antônia Rodrigues, 65, usuária de alguns serviços de promoção de saúde mental do DF, atualmente é atendida no Centro Idosa conta sobre experiências com serviços de promoção de saúde mental

de Atendimento e Estudos Psicológicos (CAEP), na Universidade de Brasília, conta sua experiência. A maior parte das instituições que atendem esta parcela da população são quase sempre Revista | 1o 2011

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filantrópicas e se resumem a casas de acolhimento. Enfermeiras e voluntários responsáveis por cuidar da saúde mental dos idosos assumem a função sem ter formação adequada. A estagiária do curso de graduação de Psicologia da Universidade Bruna, aluna de graduação da psicologia, fala sobre diferença no atendimento a idosos

de Brasília (UNB), Bruna Santos, sobre a experiência prática que teve com pessoas da terceira idade e as diferenças entre o trabalho com este público e os mais jovens. No DF, um exemplo de promoção da saúde para idosos é o Viva Mais. O programa é uma iniciativa conjunta do Instituto de Psicologia e do Decanato de Gestão de Pessoas da Universidade de Brasília. O grupo, coordenado pelas psicólogas Sheila Murta e Isolda Gunther, se propõe a trabalhar os vínculos afetivo-sociais, a ocupação e a autonomia, principalmente, após a aposentadoria. Para a psicóloga, existe a necessidade de implementação de programas de promoção de saúde mental para idoso.

Sheila comenta sobre a necessidade da implementação de programas que atendam a terceira idade: Para maiores informações sobre os serviços de saúde mental oferecidos pelo Distrito Federal, acesse o site www.saude.df.gov. br ou entre em contato com a Secretaria de Saúde do DF pelo telefone 3348-6100. Também é possível tirar dúvidas pelo serviço de discagem 160.


Ajudar ao próximo: Uma ótima maneira para envelhecer com alegria Adriana LIMA Carlos FREITAS Leonardo BRITO

para cada 100 jovens. Com isso as pessoas da terceira idade terão ainda mais espaço na nossa sociedade.

Idosos encontram em trabalhos comunitários uma forma de ocuparem seu tempo, ajudar a quem precisa e se sentir feliz.

Vicky Tavares faz parte dessa estatística. Aos 63 anos, trava lutas diárias para cuidar de mais de 20 crianças e adolescentes portadoras do vírus da AIDS. Vovó Vicky, como é carinhosamente conhecida pelas crianças que cuida, conta que o trabalho social sempre esteve presente em sua vida. “Eu nasci num lar social, tive essa sorte. Minha tia fazia um trabalho belíssimo. Por isso fui criada fazendo trabalho social. Então começar a trabalhar com crianças portadoras do vírus da Aids não foi por a caso”, afirmou a idosa.

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epois de uma vida inteira de trabalho e de cuidados com a família, idosos que doam seu tempo para ajudar ao próximo contrariam os que acreditam que descansar é o maior desejo de quem atinge a terceira idade. A disposição e solidariedade motivam vários idosos a dedicar seu a tempo ao trabalho social. Além de ser uma oportunidade de se manterem ocupados, a atividade tem um nobre objetivo: ajudar o próximo. De acordo com o último censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas com mais de 60 anos tem crescido no país. A perspectiva é que em 2050 o Brasil tenha cerca de 63 milhões de idosos. Existirá então, 173 idosos

A instituição que abriga as crianças dá acompanhamento médico, educacional e psicológico. Contudo, Vovó Vicky só consegue manter o trabalho por meio de doações da sociedade. O seu esforço para levantar recursos é diário, porém, Vovó Vicky afirma que não há satisfação maior do que ver uma de suas crianças recuperadas graças ao seu trabalho. “Já tive casos de crianças com risco de morte, crianças em fases terminais. Mas graças a Deus, e a um trabalho cheio de amor e muita dedicação na área de saúde, hoje temos crianças com a carga viral zerada e isso é um milagre”, disse a Vovó. Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que no Distrito Federal, a população mais pobre é composta, em sua maioria, por idosos sem benefícios da previdência social ou mulheres com filhos. Segundo o levantamento, 85% dos extremamente pobres não têm qualquer tipo de ocupação, consequência da baixa escolaridade.

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Mas não foi a falta de condições financeiras que desanimou o senhor Antonio José de Almeida, o Antônio da batata. Assim como Vovó Vicky, o idoso de 66 anos encontra sua felicidade ajudando ao próximo. Há 19 anos Antônio da batata recebe de uma cooperativa uma quantia semanal de batatas. O alimento é distribuído para milhares de pessoas nas cidades de Santa Maria, Recanto das Emas e Samambaia. “Deus colocou esse projeto nas minhas mãos. No domingo venho carregar o caminhão, com cerca de 100 a 120 toneladas de batatas e distribuo na terça e na quinta. Tudo é de Graça”, conta Antonio das batatas. Ele ainda sonha em ampliar o atendimento de sua associação e criar uma creche e uma casa de recuperação para dependentes químicos. Embora os cabelos já grisalhos e as marcas de expressão que o tempo deixou em seu rosto, Antonio das batatas diz que ajudando ao próximo encontra mais vitalidade e alegria em sua vida. “Minha infância foi muito sofrida, desde cedo trabalhava na roça. Hoje, Minha maior alegria é ver uma família feliz. Foi passando fome que aprendi como é difícil a vida de quem passa por isso. Minha vida é essa, tenho minha missão, pois ajudar o povo é ajudar a mim mesmo”. No Brasil o idoso tem se destacado não apenas pelo trabalho que presta à sociedade. Recentemente, a mineira Maria Gomes Valentim entrou para o Guinnes World Records, o antigo “Guinnes Book”, como a pessoa mais velha do mundo ainda viva. Vovó Vicky conta sua história de vida e fala sobre seu trabalho com crianças portadoras do vírus da Aids. Revista | 1o 2011

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Ajudar ao próximo

Terceira Tecnologia

Guilherme Queiroz Marília RIBEIRO Matheus Terra Rafaela Marrocos

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uso de tecnologias vem sendo constantemente relacionado à geração Y. Mas mesmo que ainda seja estranho para alguns, o mundo digital já tem a terceira idade como população. Antes, eram apenas vistos como espectadores da explosão de novidades tecnológicas e alheios à era multimídia.

de da Califórnia, em Los Angeles. Além disso, usuários mais velhos, segundo o especialista em usabilidade Tim Fidgeon, costumam se deparar com dificuldades ao usar a internet: decorar regras e manusear o mouse, por exemplo. Nesta faixa etária, o uso de palavras como útil e amigável melhoram as reações em relação a sites. E-mails e mecanismos de busca são os mais procurados.

Há dez anos, essa geração não correspondia sequer a 5% da população brasileira. Hoje, são 14 milhões de pessoas acima de 65 anos no país, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Quase um quarto deles tem acesso à internet e permanecem conectados, em média, seis horas por mês, de acordo com Ibope eRatings. Este índice chega a 36 horas para os aposentados. A navegação pode ajudar na preservação da memória desta geração, de acordo com a Universida-

Fidgeon também aponta que os mais velhos têm dificuldades para usar a barra de rolagem, entendem pouco a linguagem técnica (“janela minimizada”; “maximize a janela”) e costumam clicar pouco em links. O medo de bugs e vírus fazem com que este público tenha aversão a downloads.

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A proximidade desta geração com a informática fez com que fosse percebida como público-alvo para uma série de iniciativas. Au-

las de computação, chamadas de “alfabetização digital”, foi uma alternativa encontrada pelo empresário Edison Dytz. A professora especializada em terceira idade, Camila, diz que por intermédio de jogos, como paciência, a usabilidade do computador deixa de ser um obstáculo. “Evitamos termos técnicos. Preferimos que a experiência com o computador ensine. Os jogos são essenciais para transpor a barreira do diferente”. O ritmo do aprendizado é dado pelos próprios alunos. “Somos facilitadores. Apresentamos o computador para que eles façam o uso da melhor maneira”, diz. O governo também se posiciona. O programa DF Digital se propõe a oferecer gratuitamente uma oportunidade de inclusão digital, com cursos de informática e internet. Chamados de Geração III, as turmas da terceira idade também tem espaço.


21 Esta preocupação é suportada pelo poder de consumo dos mais velhos. Os idosos representam 43% da classe renda mais alta, acima de dez salários mínimos. Desta maneira, não apenas os serviços começam a se adaptar. Mais de sete milhões de aparelhos celulares são de propriedade da terceira idade. E a tendência já muda a forma com que as empresas de telefonia desenham os seus produtos. Sejam eles mais complexos ou mais simples, alguns se propõe a entender mais sobre a tecnologia.

Tablets, como o iPad, também começam a ter vez. A interface intuitiva é ideal para ganhar este público. “Em um toque, consigo pelas figuras abrir o que eu quero. Seja e-mail, mapas ou a internet”, diz Manoel Nazareth. A questão da multimidialidade também desperta interesse. “Ler uma revista sem ser em papel me incomodou no começo. Mas levar várias delas dentro da minha bolsa e sem peso é demais”, diz Aracy Santos.

Luiz Gottshall utilizou este interesse como negócio. O administrador fazia visitas em casa para ensinar truques básicos de smartphones. “Minha intenção não era de um negócio direcionado para a terceira idade. Mas acabou que muitos me procuraram. E não era para saber de um celular qualquer, queriam apli-

Outra febre da era tecnológica são os videogames e a terceira idade também não poderia ficar fora dessa. O Nintendo Wii, que tem um sistema remoto que capta o movimento dos jogadores, já teve comprovado alguns benefícios para a saúde dos idosos: aumento da capacidade cognitiva e da memória, auxílio na coordenação motora e melhora no senso de equilíbrio.

cativos de iPhone, entender sobre Blackberry e falar sobre acesso a internet”, afirma.

DF Digital O DF Digital é um programa de inclusão digital, social e tecnológica do Distrito Federal que já atendeu 170 mil pessoas desde o ano de sua criação, em 2007. São mais de 100 centros com salas de aula, que possuem de 20 a 30 computadores para uso individual. São ao todo 70 cursos promovidos pelo DF Digital, divididos em três categorias: escola integral, cursos avulsos e pacotes/ocupações. No segundo semestre do ano passado, 26 representantes da terceira idade se formaram no curso da geração III. Há idosos que aderem a tendência tecnológica, mas existem ainda aqueles que detestam.

São ao todo 70 cursos promovidos pelo DF Digital. Localize um centro mais próximo de você. Revista | 1o 2011

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