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O EDUCADOR DA CULTURA DE PAZ – MAIS QUE O LIVRO

rsonalidade. A Organização Mundial da Saúde (KRUG et al, 2002) enfatiza a questão dos esforços comunitários, os quais são intervenções que

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OBJ ETIVO


O MATERIAL - FORÇA | LUTA | AGRESSIVIDADE Qualquer luta é uma demonstração de força (MULLER, 2007, p. 25).

2007, p. 26

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O MATERIAL - FORÇA | LUTA | AGRESSIVIDADE

Luta A função da luta é criar as condições de diálogo, estabelecendo uma nova relação de força que obrigue o outro a me reconhecer como um interlocutor necessário. Então, torna-se possível abrir uma negociação para estabelecer os termos de um acordo que coloque um ponto final ao conflito (MULLER, 2007, p. 24).

Em “O Princípio da Não Violência”, de Jean-Marie Muller (2007), encontramos a orientação de que, quando não se consegue estabelecer o diálogo, temos a alternativa da luta como ação não violenta, de forma a conseguir a interação entre as partes conflitantes para que, finalmente, o diálogo se faça presente e as leve em direção à tolerância e à compreensão. A luta, portanto, é uma ação que tem por objetivo criar uma nova relação de força para estabelecer um equilíbrio entre as forças contrárias, de modo que os direitos e os deveres de cada indivíduo sejam garantidos. Dessa forma, a luta não é briga, não utiliza recursos violentos, mas isso não quer dizer ser passivo, submisso, deixar de se expressar e de ter suas posições. A atitude de não violência pede que lutemos e tenhamos força para sustentarmos a ausência de qualquer intenção de violência, e que sejamos capazes de fazer escolhas saudáveis para lidarmos com os impasses naturais da nossa existência.

Agressividade A ação não violenta coletiva deve permitir canalizar a agressividade natural dos indivíduos, de forma que não se expresse através dos meios da violência destruidora, meios que possibilitam outras violências e injustiças, mas por meios justos e pacíficos que possam construir uma sociedade mais justa e pacífica (MULLER, 2007, p. 79).

A agressividade nasce do estado de frustração e, sendo natural que a vida nos ofereça “nãos”, ela é igualmente natural na condição humana. O verbo agredir vem do latim aggredi, cuja etimologia ad-gradi significa caminhar-se em direção, ir ao encontro. Em “O Princípio da Não Violência”, Jean-Marie Muller diz que, em apenas um sentido derivado, o verbo agredir significa caminhar contra, assim como na guerra o caminhar em direção ao inimigo significa atacá-lo. Dessa maneira, especialmente para os educadores, é importante a compreensão de que agressividade não é, necessariamente, ruim. Existe uma agressividade do bem, positiva, construtiva, que nos coloca de pé e na direção da busca de soluções e alternativas para romper obstáculos e realizar nossas necessidades e sonhos. A agressividade nos tira do sofá e nos coloca no caminho. É preciso ficar em pé e ir na direção daquilo que buscamos. Dessa forma, é um equívoco desejar que uma criança ou um adulto não seja agressivo. A agressividade é fundamental, pois promove a continuidade e o desenvolvimento da vida.

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LIVRO DO EDUCANDO

Segundo a compreensão profunda e sábia de Humberto Maturana, Nobel de Biologia, educar é, antes de tudo, configurar espaços de convivência onde o educando possa usufruir de si e do outro, respeitando o outro e, na polaridade indivíduo/comunidade, privilegiar o desenvolvimento do todo, da comunidade, reduzindo os equívocos do individualismo. A maioria das situações de violência que presenciamos decorre de frustrações e da dificuldade que temos em resolver os conflitos de forma saudável e pacífica. Segundo Matthieu Ricard (2007, p. 19), “alcançar a felicidade duradoura como modo de ser é uma habilidade que se adquire. Isso requer esforço constante no treino da mente e no desenvolvimento de qualidades como paz interior, atenção plena e amor altruísta”. Para que as pessoas caminhem no sentido de desenvolver habilidades que as auxiliem, faz-se importante perceberem seus estados interiores e os dos outros, bem como expressá-los para adquirirem atitudes como dialogar, compreender, ser bom, ter compaixão e respeito, etc. Além disso, é preciso que desenvolvam atitudes para atuarem como antídotos contra as emoções que podem vir a ser destrutivas.

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O MATERIAL - LIVRO DO EDUCANDO

Vejamos, por exemplo, as atitudes dos jovens que não obtêm a aprovação no vestibular: eles cortam os excessos de lazer, as noitadas, concentramse e reorganizam o tempo para estudar numa nova postura construtiva. Da mesma forma, no nono mês, a mãe grávida está desconfortável, ansiosa, e, assim, fica frustrada. A criança, incomodada com a insuficiência de espaço, também se frustra. Desse quadro de frustração de ambos, expresso em respostas fisiológicas e psicológicas, surge a agressividade que promove o nascimento. Sendo assim, a nossa própria vida está ligada à capacidade de expressar construtivamente a agressividade. Há, no entanto, outra agressividade que não é do bem. Essa é do mal, não é da luz, mas sim das sombras; não é construtiva, é destrutiva. A essa agressividade damos o nome de violência. É uma energia que se perverte, que se desvia para a destruição, inclusive para a autodestruição. Cabe, então, uma pergunta básica: por que, ora a agressividade é dirigida construtivamente, mas ora vai para o caminho da destruição ou para a violência? O desequilíbrio significativo entre satisfações e frustrações, predominando as últimas, pode nos dar a resposta. Quando acontece na vida de uma pessoa um profundo desequilíbrio entre satisfações e frustrações, tendo muito mais frustrações que satisfações, a agressividade é canalizada para a violência. Ela desvia de sua condição natural e se canaliza para a destruição. Devemos cuidar para reduzir as condições que criam frustrações e educar para que as percepções dessas frustrações se transformem com o ‘bem-pensar’, que amplia a compreensão da realidade.


Livro 4 - Educador