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Página Dupla | Cláudia Dubard

Autismo: diagnóstico e tratamento precoce servem de garantia para o desenvolvimento de crianças que sofrem do transtorno; a fundadora do Instituto SER mostra como o cuidado é eficiente

LEANDRO FERREIRA/AAN

COMUNICAÇÃO PLENA

Kátia Camargo katia.camargo@rac.com.br

A

Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 2 de abril como o Dia Mundial do Autismo. Em 2010, a ONU declarou que, segundo especialistas, acredita-se que este transtorno de desenvolvimento atinja cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo. O Abril Azul marca os esforços na luta pela inclusão e atenção qualificada aos pacientes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O envolvimento, porém, deve ser permanente, com políticas públicas de saúde e educação voltadas às famílias. De modo geral, o transtorno se caracteriza por alterar a interação social, a comunicação, a interpretação do código social, os sentimen4

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tos, a inflexibilidade e outros movimentos. Os sintomas permanecem com a pessoa durante toda a vida, mas podem ser melhorados com atenção qualificada e diagnóstico precoce. Segundo pesquisas do CDC (Center of Deseases Control and Prevention) - órgão do governo norte-americano - há uma criança com TEA para cada 68 nascidos, sendo que a predominância é do sexo masculino (quatro meninos para uma menina). Cláudia Dubard, fundadora e diretora do Instituto SER, conversou com a Metrópole sobre o tema. O Instituto SER é uma clínica-escola que trata e desenvolve de forma integral crianças, adolescentes e adultos com TEA. Existe a necessidade de uma intervenção precoce, para a melhoria da qualidade de quem tem o transtorno. O cuidado é decisivo para o desenvolvimento da criança. Isso porque a neuroplasticidade - capacidade do cérebro de fazer novos caminhos e novas redes de transmissão de informação – é muito mais potente em crianças menores. Isso significa que, quanto mais cedo se iniciar um tratamento, maior a chance do cérebro criar conexões e caminhos ainda desconhecidos. A criança tem evolução maior. . Revista Metrópole - O que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA)? Cláudia Dubard - O TEA é classificado como um transtorno ou distúrbio do neurodesenvolvimento, cujas características envolvem alterações qualitativas e quantitativas da comunicação, seja ela linguagem verbal ou não-verbal, da interação social e do comportamento, com padrões repetitivos, estereotipados e interesses restritos. É possível prevenir? Cuidados com a gestante e com a criança que está sendo gerada podem ampliar a possibilidade de um desenvolvimento saudável. Podemos dizer que muitos estudos apontam para a exposição à poluição, remédios ingeridos pela gestante e o consumo de drogas como possíveis fatores de risco. Embora a ciência não tenha identificado as reais causas do transtorno, muitos neurocientistas apontam genes implicados no TEA. Existem graus diferentes de TEA? Existem níveis de manifestação do Transtorno. No espectro, o nível de gravidade varia de pessoas que apresentam um quadro leve e com total independência e discretas adaptações, até aquelas depen-

dentes para as atividades de cuidados pessoais. Podem variar tanto em relação ao perfil da sintomatologia quanto ao grau de acontecimento. Quando se trata desses graus, falamos em “continuum” sintomático, no qual as características podem mudar com a estimulação e o tratamento. Como identificar que uma criança tem Transtorno do Espectro Autista? Existem exames, sintomas? O diagnóstico será médico, junto a uma equipe transdisciplinar, e com certa complexidade. No entanto, padrões de comportamento podem indicar se a criança está no quadro de risco e, independente do fechamento do diagnóstico, a criança

“A intervenção precoce possibilita que o prognóstico e muitas habilidades sejam adquiridas em tempo, para que esta pessoa siga o desenvolvimento natural, levando-se em conta a plasticidade cerebral, a neuroplasticidade que ocorre intensamente nos primeiros anos de vida.” deve ser estimulada. Existe a escala MCHAT (http://autismo.institutopensi.org. br/ferramentas-de-apoio/instrumentosdiagnosticos/escalas-m-chat/), disponível na internet, que indica alguns padrões e que pode auxiliar pais e sensibilizar na busca de ajuda profissional. Por que é importante intervir precocemente? A intervenção precoce possibilita que o prognóstico e muitas habilidades sejam adquiridas em tempo, para que esta pessoa siga o desenvolvimento natural, levando-se em conta a plasticidade cerebral, a neuroplasticidade que ocorre intensamente nos primeiros anos de vida. Por que ocorre mais em meninos (já que a estimativa é 4 meninos para uma menina)? Infelizmente, ainda não existe nenhuma comprovação científica sobre o motivo. O que temos são apenas os dados do órgão americano CDC (Centers for Disease Con-

trol and Prevention), que estimam quatro meninos para uma menina. Pesquisas apontam que existem 70 milhões de pessoas com TEA no mundo. O crescimento vem aumentando nos últimos anos? Por que? Nos critérios de diagnósticos para o autismo, até meados de 1990, para ser considerada autista, a criança precisava não interagir socialmente e nem se comunicar. Depois, foi considerado que se ela tivesse alguma alteração na qualidade da comunicação e da interação social, em comparação a outras crianças da mesma idade, também era considerada com TEA. O aumento do conhecimento sobre o transtorno, tanto pelas famílias, como pelos médicos, também tem feito o número de diagnósticos aumentar. A probabilidade é que causas multifatoriais genéticas e ambientais juntas se combinem para uma pré-disposição. Existe algum estudo que pressupõe que cortar o glúten faz com que as crianças melhorem? Para tratar problemas intestinais, dietas especiais foram desenvolvidas para as pessoas com TEA. No caso do estudo com glúten e outras proteínas, os pesquisadores acreditam que há uma melhora na inflamação do intestino. A inflamação produz substâncias que vão para a corrente sanguínea e afetam o sistema nervoso. Nada é comprovado e o importante é continuar a investigação das hipóteses e garantir o prazer e a receptividade da alimentação saudável dessas pessoas. Quando foi criado o instituto SER? Como funciona? O Instituto SER foi idealizado em 1985 e inaugurado em 1989. Atuamos como clínica-escola de crianças, adolescentes e adultos com TEA, permitindo o desenvolvimento de suas habilidades desde a estimulação precoce ao Ensino Médio, por meio de um modelo pedagógico transdisciplinar. Qual é o objetivo do Abril Azul? O objetivo deste mês é a conscientização sobre o autismo. Hoje, mais do que conscientizar, procuramos acolher, tratar, desenvolver habilidades e criar estratégias diferenciadas para que essas pessoas sejam incluídas na comunidade. O Abril Azul procura incentivar o olhar diferenciado e respeitoso para as ações governamentais, educacionais, de saúde e proteção social para essas pessoas. campinas 8/4/18

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