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Acervo Instituto Memória Brasil – Direção e Autoria: Assis Ângelo

Ano I – nº 6 – 1/10/2012

Muito mais do que um violão quebrado Se alguém perguntar a qualquer brasileiro(a) acima de 60 anos quem é Sérgio Ricardo é quase certo que ouvirá como resposta algo no gênero “Ah, é aquele cara que quebrou o violão e jogou na plateia num festival da Record”, referência a um episódio ocorrido há 45 anos, mas que marcou para sempre a vida dele e, na época, a do País. Mas Sérgio Ricardo – nascido João Lufti –, hoje octagenário, merece ser lembrado por muito mais do que um violão quebrado. Ecletíssimo, além de cantor e compositor, é pintor, escritor, roteirista e diretor de cinema. E foi até ator, galã de novelas na extinta TV Rio. São dele, por exemplo, o filme A noite do espantalho, um clássico; a trilha do filme Deus e o diabo na terra do sol, de Gauber Rocha; e o samba Zelão, o mais famoso dos quase 300 títulos de sua discografia. É esse Sérgio Ricardo multifacetado que você encontra nesta sexta edição de Jornalistas&Cia Memória da Cultura Popular, que tem como pano de fundo mais uma preciosidade resgatada do acervo do Instituto Memória Brasil, de Assis Ângelo: a reprodução da entrevista que o artista lhe deu em 1991,

Assis entrevista Sérgio Ricardo em 1991

publicada no nº 13 da revista Memória, do Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo. Embora traga apenas uma ínfima parcela da imensa produção de Sérgio/João, esta edição com certeza acrescentará preciosas informações sobre ele na memória dos sessentões. E, para os mais jovens, será uma boa oportunidade de conhecer um pouco desse grande artista brasileiro. Boa leitura! Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli

Sérgio Ricardo em três tempos Por Assis Ângelo

I

Essa inclusão – uma conquista artística e pessoal – era para ele motivo de orgulho e alegria; reconhecimento, mesmo, de uma carreira que iniciara no começo dos anos de 1950, no Rio de Janeiro. Mas o público, dormente e irracional naquele momento de bulício contínuo, estimulado por ativistas de festivais, o impediu de se apresentar como queria. O resultado foi o que se viu: um artista indefeso, solitário, acuado, transtornado, quebrando um sonho e o seu instrumento musical mais querido, cujos restos foram atirados à turba sedenta de escândalos e sacrifícios. Aquela violência ficaria para sempre

marcada na retina e memória das pessoas de bem e na história da música e dos festivais musicais. No dia seguinte um jornal de linha sensacionalista da cidade paulistana era disputado pela plebe nas bancas, aos empurrões e berros. A manchete em letras graúdas, de duplo sentido, dizia: Violada na Plateia. Além da inacreditável e polêmica “violada” ocorrida no teatro Paramount, na Brigadeiro Luis Antônio, aquela noite registrava o surgimento do movimento tropicalista dos baianos Caetano e Gil e a afirmação na música popular de nomes que começavam a aparecer, como Edu Lobo (Ponteio), Chico

Fotos: R. Girão

A noite de 21 de outubro de 1967 jamais seria esquecida por Sérgio Ricardo, pois foi aquela a noite mais longa e triste de toda a sua vida; aquela em que ele por segundos, nervoso, se descontrolou e explodiu uma montanha de decepção e raiva no violão em que tão bem, por tempos, treinara sossegada e carinhosamente para aconchegar em seu peito e ajudá-lo a mostrar ao País o belo e pungente samba Beto Bom de Bola, que compusera em homenagem ao grande futebolista Mané Garrincha, seu amigo e fã. O samba para Mané fora incluído entre as finalistas do III Festival da Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record, de São Paulo.

Sérgio Ricardo, Théo de Barros e José Hamilton Ribeiro participaram em 2008 do seminário As Repercussões do Ano 1968 no Centro Cultural BNB, em Fortaleza, sob a mediação de Assis Ângelo

Buarque/MPB4 (Roda Viva), Roberto Carlos (Maria, Carnaval e Cinzas)... Um filme-documento, Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, foi rodado em 2010, trazendo de volta o episódio. Triste noite foi aquela, a de 21 de outubro de 1967.

II

Conheci o paulista de Marília João Lutfi, filho de dona Maria Mansur e seu Abdalla, há duas décadas, na capital de São Paulo. À época eu chefiava o Departamento de Imprensa da Companhia do Metropolitano – Metrô e publicava artigos e reportagens em jornais e revistas da cidade e do Distrito Federal.

Em 1991 entrevistei-o para o Jornal de Brasília e a revista Memória, do Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo, que tinha como editor o atual vice-presidente do Instituto Memória Brasil, o jornalista e escritor Roniwalter Jatobá. Nós nos reencontramos outras vezes. Na manhã do dia 8 de maio de 2007 voltei a entrevistá-lo na casa de uma de suas filhas, Adriana, em São Paulo. E por telefone várias vezes, para programas que comandei nas rádios Capital e Trianon. Em julho de 2008 estivemos juntos num evento multimídia sobre o infindável ano de 1968, promovido pelo Centro

Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, em que fui mediador e curador de uma exposição. Participaram desse evento, além de Sérgio, o compositor e instrumentista Théo de Barros, coautor da moda de viola Disparada, com Vandré, e José Hamilton Ribeiro, único jornalista brasileiro a cobrir a guerra do Vietnã. Há pouco lhe perguntei sobre a sua discografia, sobre seus discos novos etc.. Ele disse que tem gravado, sim, e lançado discos no formato de CD, mas que são muito difíceis de achar no mercado. E aí brinquei: – É comum os grandes artistas serem


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reconhecidos depois que morrem e aí seus discos vendem como água. Ele respondeu, rindo: – Dessa história, eu estou fora. Sérgio tem três filhos: Adriana, Marina e o caçula João.

III

Sérgio Ricardo fez 80 anos no dia 18 de junho de 2012. Estudou música e teve várias profissões, inclusive a de locutor de rádio. É pianista, cantor, compositor, pintor, escritor, ator, roteirista e diretor de cinema.

Passista

Foi galã das novelas Está escrito no céu e A mulher de branco, na extinta TV Rio. Os maestros Guerra Peixe e Ruffo Herrera foram dois de seus professores. Em 1950, ele conheceu o compositor Tom Jobim, a quem substituiu na tarefa de tocar piano na Boate Posto 5, no Rio, cidade que trocou por Marília quanto tinha 20 anos de idade. Pelas mãos do animador e produtor musical Miéle, Sérgio foi levado à casa de Nara Leão e rapidamente se enturmou com o pessoal da Bossa Nova.

Grafiteiro

Esquenta mulher

Pinturas de Sérgio Ricardo

das suas origens libanesas e do cinema brasileiro, como mostram recortes de jornais da época. Seu primeiro disco, de 78 RPM, trouxe a toada Vai jangada (de Geraldo Serafim e Newton Castro) e o samba-canção Sou igual a você (de Alcir Pires Vermelho e Nazareno de Brito), lançado em setembro de 1957 pela extinta RGE. Um ano depois, pela mesma RGE, lançaria o segundo disco, com o samba Rosa do mato (dele com Geraldo Serafim) e a toada Cafezinho, só dele; como só dele eram as músicas do disco seguinte, lançado pela extinta Todamérica: Ausência de você (samba) e O nosso olhar (samba-canção). Depois disso, Sérgio Ricardo lançaria mais dois discos de 78 RPM, também com músicas autorais: O nosso olhar e Zelão; e Esquecendo você e Fim de noite. Beira os 300 títulos a sua discografia,

constituída de compactos, LPs e CDs. Sua música mais conhecida é o samba Zelão, com dezenas de regravações no Brasil e no exterior. Apreciador de emboladas nordestinas e poemas de cordel, neles Sérgio se inspirou para musicar Estória de João-Joana, de Carlos Drummond de Andrade, em 1985, com orquestração de Radamés e regência de Alexandre Gnattali (ver box De Drummond para Sérgio). São de sua autoria os livros O elefante adormecido, Elo-Ela e Quem quebrou meu violão. Sua obra está sendo catalogada pela filha Marina.

Disco de 78 RPM com Zelão, a música mais famosa de Sérgio, gravada originalmente em 5/4/1960

Página de jornal libanês sobre o filme O pássaro da aldeia, que Sérgio filmou naquele país

Livros de Sérgio Ricardo

Sua paixão pelo cinema é antiga, data de 1952. Ele participou do ciclo Cinema Novo e até compôs, em menos de uma hora, a trilha do filme Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. É longa a sua filmografia, iniciada com o curta-metragem O menino da calça branca, que ele próprio bancou, roteirizou, dirigiu e rodou na extinta favela Macedo Sobrinho, no Humaitá, Rio, em 1961, que contou com o cartunista Ziraldo no elenco. Esse filme foi premiado em festivais de cinema da Califórnia (EUA), da Guanabara e Bahia. Depois fez outros, como Esse mundo é meu, Juliana do amor perdido e A noite do espantalho, um clássico. Esse mundo é meu, um longa-metragem que conta a história de dois casais pobres, foi bastante elogiado pela crítica no Brasil, na Itália, na França e no Líbano. No Líbano – terra do pai Abdalla –, ele dirigiu em 1965, sem saber nenhuma palavra em árabe, o longa O pássaro da aldeia, com o elenco todo formado por atores libaneses. Esse filme, cuja temática era o drama da imigração, foi todo rodado na cidade de Sidnaia e jamais exibido no Brasil. Nas entrevistas que deu, Sérgio falava

Assis, no acervo do IMB, com o LP do poema Estória de João-Joana, de Drummond, que Sérgio musicou – Foto Andrea Lago


nº 6 1/10/2012 Pág. 3 (Íntegra da entrevista que Sérgio Ricardo deu a Assis Ângelo em 1991, publicada no nº 13 da revista Memória, do Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo)

Sérgio Ricardo A noite do violão quebrado O compositor paulista lembra dos antigos festivais e faz um balanço do seu trabalho na música popular brasileira Por Assis Ângelo

Trinta anos depois da famosa noite da bossa-nova no Carnegie Hall, de Nova York, completados em 21 de novembro de 1991, e 24 após a polêmica noite em que quebrou um violão no palco do Teatro Paramount, em São Paulo, João Mansur Lufti, mais conhecido pelo pseudônimo de Sérgio Ricardo, faz um balanço da sua carreira artística. No total, gravou 13 discos de longa duração (LPs). Tem inéditas em disco as trilhas sonoras de filmes como Terra em transe, Guerra dos pelados, Vozes do medo e muitas músicas. Além de Quem quebrou meu violão, seu terceiro e último livro, publicou Elo: ela (poesia) e O elefante adormecido, cordel ilustrado por ele a bicode-pena. Em setembro de 1991, entre os dias 10 e 15, enquanto sua obra era exposta no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, e ele aguardava o lançamento de Quem quebrou meu violão, pela Editora Record, Sérgio Ricardo falou a Memória. Memória – Existem dois Sérgios na cabeça de algumas pessoas: um de “antes” e outro de “depois” da famosíssima noite de 21 de outubro de 1967, quando você quebrou um violão e o atirou à plateia ensandecida, que não te deixava cantar Beto Bom de Bola, classificada para a final do 3º Festival da MPB promovido pela TV Record. É isto mesmo? Sérgio Ricardo – Sim, pode até ser feita essa divisão. O que eu era antes? Era um homem-sonho, um artista sonhador. O que, aliás, deveria ter seguido na estrada da vida. Esse é o lado encantador do meu trabalho. Mas o que veio depois foi a consciência de uma realidade contundente da vida brasileira, que me persegue até hoje. Não que resida mágoa nela, é mais uma constatação de que a gente tem que assumir nossos pensamentos, nossas pomento dos artistas da chamada vanguarda brasileira, que me parece um pouco comprometedor com a própria realidade do Brasil, porque permite, com seu antropofagismo natural, deglutir o que vem de fora para depois vomitar uma coisa que se diz brasileira. Esse comportamento, que é uma derivação do colonialismo, persiste até hoje e nos prejudica muito por ser negativo para o desenvolvimento da nossa própria cultura. Mas há, também, a elite de

Você sabia?

... que o cantor e compositor Sérgio Ricardo é também pintor, escritor, ator e cineasta?

Capa e miolo da revista Memória, com a entrevista de Sérgio a Assis)

“A machadada que rompeu o elo cultural, o elo econômico, foi o AI-5. De lá pra cá, só retrocedemos. De tudo isso, restaram marcas profundas e uma triste lembrança, além de um vazio em todas as áreas.” sições. Antes de 1967, eu tinha assumido um compromisso com a transformação da cultura brasileira, que se processou de 1960 em diante com o nascimento do Cinema Novo, com o advento do CPC (Centro Popular da Cultura). Era uma coisa que marchava para um mesmo ponto, com um dado filosófico que era a transformação da política brasileira, da situação escritório. Esse é o grande problema. Há uma certa gente que fica nos seus ateliês “ilhados” da realidade. Eu faço, aqui, uma autocrítica, pois a tendência natural do artista é se isolar. Mas, assim que pude, saí desse casulo, desse isolamento. No sertão de Pernambuco, tive contato com camponeses, com um outro universo. Foi quando pude verificar o quanto a gente fica deformado quando encasulado. A relação com o homem da terra, por exemplo, nos revela coisas importantíssimas, impossíveis de serem descobertas no isolamento. Isso tudo pra dizer o seguinte: até 1967 o meu pensamento era voltado a pesquisas, para a coisa do sonho brasileiro, da criação de uma nova linguagem, de uma linguagem

Sérgio Ricardo e a ditadura

O Painel do Leitor da Folha de S.Paulo do último dia 29/9 traz uma carta de Alfredo Spínola de Mello Neto que diz respeito à atuação de Sérgio Ricardo na época da ditadura militar: “Sobre o editorial Em memória de Herzog (Opinião, 26/9), vale registrar que, em 30 de março de 1973, houve missa, na catedral da Sé, em São Paulo, em memória de Alexandre Vannucchi Leme, preso pela famigerada Operação Bandeirantes no dia 16 daquele mês e morto dois dias depois em decorrência da tortura a que foi

brasileira, de toda essa preocupação que o artista, naquela época, tinha com o seu engajamento político-social e artístico. Na minha opinião, aquele foi o único movimento verdadeiramente cultural do Brasil. Não só lidávamos com música, mas com teatro, cinema, literatura, enfim, todas as artes estavam presentes num mesmo espírito. Na verdade, repito, esse é que foi o grande movimento de cultura que houve até hoje no Brasil. Os outros movimentos foram restritivos, na minha opinião. Cada qual com suas características, mas frutos de uma pequena elite, de uma elite pequeno-burguesa, que determinava certos comportamentos estéticos, mas muito pouco filosóficos. Não havia a profundidade de um objetivo. Era mais, digamos, uma masturbação intelectual. Isso, de certa forma, criou um comportaprópria. A partir desse ano, verifiquei que tudo isso havia se rompido com a mídia, que chegava para interferir direto no processo natural, histórico, de forma contundente e absolutamente poderosa, no sentido de impor uma determinada cultura, um determinado comportamento, uma coisa qualquer à sociedade. A nossa força simples e natural não vinha armada com os instrumentos necessários para um bom combate. Quer dizer: as nossas

Você sabia?

... que Sérgio Ricardo compôs a trilha do filme Deus e o diabo na terra do sol em menos de uma hora?

submetido nas dependências do tenebroso DOI-Codi. Embora ateu, fui um dos organizadores dessa missa, celebrada por dom Paulo Evaristo Arns, que teve cunho muito mais político do que religioso. Apesar de a cidade ter sido cercada por barreiras em algumas de suas artérias mais relevantes, como as marginais, com o intuito de dificultar a circulação da população, cerca de 5.000 pessoas estiveram presentes, e o cantor Sérgio Ricardo veio do Rio de Janeiro especialmente para cantar nessa missa. Esta, sim, foi a manifestação pública pioneira contra a ditadura.”


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armas eram os estilingues dos nossos estilos, os revolverezinhos de espoleta da nossa fantasia. E, como se sabe, isso não tem força alguma contra os canhões das multinacionais ou as imposições do mercado econômico, do poder econômico. Esse movimento que vinha antes de 1967, parecia natural. Mas, em seguida, veio o “cala-boca” geral, que foi a decretação do AI-5, aniquilando de uma tacada só o pensamento brasileiro, o avanço do processo de liberdade. Na minha opinião, a machadada que rompeu o elo cultural,

o elo econômico, foi o AI-5. De lá pra cá, só retrocedemos. De tudo isso, porém, restaram marcas profundas e uma triste lembrança, além de um vazio em todas as áreas. Mais que nunca, a ingenuidade de determinados artistas contribuiu para o processo de deterioração cultural que ainda hoje reina no Brasil. Memória – Essa consciência que hoje você tem data da noite da “violada” ou do AI-5, que baixou sobre a cabeça de todos no dia 13 de dezembro de 1968? Sérgio Ricardo – A partir daquele fa-

tídico 13 de dezembro passou a “pintar”, pra mim, a verdadeira alienação que ainda hoje se vê. Mas isso, de alguma forma, já vinha se esboçando na minha cabeça desde 1964, com a censura, com o próprio caráter do poder ditatorial, da repressão. Claro, aquela noite de 67, pra mim, tem um significado muito importante, não só pelo gesto do violão quebrado, que isso é uma bobagem, mas pelo simbolismo do gesto em si. Naquele momento a mídia começava a atuar, começavam a se estender pelo Brasil as redes de televisão. Aquilo

tudo começou virar poder absoluto, com o qual o povo não contava. Era uma coisa importantíssima. Hoje, o que concluo daquilo tudo é o seguinte: a plateia havia, no festival anterior, adquirido uma importância de personagem dentro dos musicais. Um festival sem plateia não tinha sentido nenhum, porque a plateia, num contexto político, inclusive, parecia usar o microfone colocado à frente do palco para dar o seu berro de descontentamento. De que forma? Ora, usando o seu poder contra o “outro” da história que, no caso, era o júri contratado para julgar as músicas. Era o poder instituído. Tudo imposto. Somente o júri poderia determinar quem ganhava ou não. Quem era bom e quem era ruim. E a plateia já estava ali, com sua experiência do festival anterior, para interferir e se sobrepor ao poder do júri, para dizer que a música que ela (a plateia) queria era outra. Era assim, era uma coisa sempre contrária

“As noites, lá em casa, eram muito bonitas. O meu pai tocava alaúde enquanto a minha mãe cantava. Os vizinhos apareciam sempre para assistir e até participar dos saraus. Foi, sem dúvida, um tempo muito bom.”

mente, sem pena, sem dó, sem piedade. Era terrível! Quando, de repente, alguém chegou e, demagogicamente, solicitou silêncio. E o que se viu foi um aumento de ouriço, de gritaria, lembra? Depois disso, e ali mesmo, eu tive várias reflexões. Eu demorei pra tomar qualquer atitude. Fui deixando o pessoal vaiar. Na hora, me vieram várias ideias como, por exemplo, a lembrança do relato de um piloto que havia se acidentado no Amazonas há muitos anos. Seu avião, para não se arrebentar nas árvores, foi levado a pousar numa lagoa. Quando o piloto e seu colega estavam saindo do avião, constataram, surpresos, que a lagoa estava rodeada de macacos, numa zoeira infernal diante do desconhecido. Aí, então, eles tiveram de voltar para o avião, porque estavam atordoados com o barulho. Imagem idêntica eu vi ali no palco, na minha frente, diante de um público ensandecido. Você não pode

Você sabia?

...Que o acervo do Instituto Memória Brasil abriga mais de 150 mil itens, entre discos de todos os formatos, partituras, fotos, livros, jornais e revistas antigas?

ao júri. De repente, era como se fosse um teatro, um teatro fantástico, onde o artista era mero figurante da história. Isso, por outro lado, dava total liberdade à televisão, que endossava as vaias e o desrespeito do público contra os artistas. Sim, era mesquinha essa relação entre a televisão e o artista. Não esqueçamos, porém, que a televisão precisava do artista para formar a sua matéria-prima, que era o festival. E não o respeitando, permitia que o artista fosse vaiado e ridicularizado diante do chamado grande público. Era uma relação sadomasoquista, já que o artista, direta ou indiretamente, sabia onde estava pondo os pés. Nunca vi um abandono, uma solidão tão grande. Eu me sentia sozinho diante do microfone, diante das câmeras que procuravam pegar um close meu. A plateia me atacava, me vaiava insistente-

De Drummond para Sérgio

Carta do poeta Carlos Drummond de Andrade ao artista da música popular Sérgio Ricardo, logo após o lançamento do LP com o poema Estória de João-Joana, datada de 29 de maio de 1985: Não me canso de ouvir e reouvir o nosso “cordel musical”, e toda vez que o faço é com a sensação de que a sua voz e a sua música deram aos versos deliberadamente rústicos do original uma grave e profunda beleza, avivando a significação existencial da estória. E daí me vem uma emoção que mal sei controlar, pois me entrego todo a ela, chegando às vezes ao ponto daquele “nó na garganta” que diz mais do que as nossas palavras. Você não avalia, meu caro Sérgio, quanto me tocou essa sua interpretação melódica do poema, de um acabamento técnico primoroso, mas sobretudo de uma carga poderosa de integração no espírito daquilo que eu aprendi a dizer e que ficou tão luminosamente explícito no seu trabalho musical. É lindo, lindo, e não preciso acrescentar nada. Sinto-me orgulhoso e recompensado por essa parceria que tanto me honra. O abraço agradecido e afetuoso, e toda admiração do seu Carlos Drummond de Andrade

Você sabia?

... que Sérgio Ricardo gosta de literatura de cordel, tanto que musicou um poema do gênero de Carlos Drummond, Estória de João-Joana, originalmente lançado em LP?


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imaginar o caos que era aquilo! O clímax de tudo, no teatro, era o personagem principal, ou seja, o próprio público, que estava dizendo ao júri que não admitia que tal música fosse classificada. E a “tal” música, “coincidentemente”, era a minha Beto Bom de Bola. Aos berros, o público dizia que não ia me deixar cantar. Pra mim, pra minha cabeça, aquilo era coisa natural, espontânea, instintiva. Mas uma atitude precisava ser tomada. E depressa. Faltava apenas coragem pra dizer: “gente, isso está errado!” Ali, naquele momento, eu estava sozinho, acuado. Memória – Bom, quando quebra o violão e joga os pedaços para “a plateia”, você, naquele instante, já não estava raciocinando bem, certo? Sérgio Ricardo – Sim. Mas também é verdade que aquele público não tinha cul-

pa de tudo que estava ocorrendo ali. Tentei raciocinar um pouco mais. Tanto assim que, no ano seguinte, aquele mesmo público veio me aplaudir pela apresentação de Dia da Graça (5º lugar no 4º Festival de MPB), em novembro e dezembro de 1968, tomando, inclusive, as minhas dores em relação à censura, que tinha proibido um determinado trecho da música. Memória – Na sua visão, o que mudou no Brasil de 1967 para cá? Sérgio Ricardo – Acho que, a partir daquele episódio, ficou denunciada uma personalidade do artista brasileiro em relação ao sistema. Tanto assim que, no ano seguinte, Caetano Veloso repetia atitude idêntica à minha, só que com outras palavras, mas igualmente reagindo contra o comportamento de uma turma insana, também em São Paulo. Foi uma

bela reação, diga-se de passagem. Com isso, ficou claro que o artista brasileiro não é um idiota, pois sabe muito bem o que acontece com a sua realidade. Ficou claro, também, que era o sistema que interferia nitidamente na cultura. A partir daí, desse entendimento, eu fui verificando o quanto cresciam os meios de comunicação e o quanto isso tudo representava para nós, artistas, e para a sociedade em geral. Sim, o fenômeno era superabrangente, já àquela época, de tal forma que pode, como se vê hoje, transformar quase completamente a mentalidade de cidadãos comuns. No decorrer dos anos, a televisão, em especial, “fez” a cabeça dos brasileiros. Pena. Aliás, durante a ditadura militar, a televisão virou um instrumento muito forte de manipulação do governo. Terrível! Os artistas, hoje, estão na pior fase que já vi. E essa situação

veio com a ditadura, que passou como um trator sobre todos nós. Memória – Quando você diz que os artistas estão “na pior”, você se refere à criação artística propriamente dita ou...? Sérgio Ricardo – As duas coisas, porque uma coisa depende da outra. Veja, hoje há uma escassez muito grande de tudo. O próprio artista está desanimado a seguir na sua profissão e acaba optando por rumos diferentes, em vez de fazer como Geraldo Vandré, que, segundo soube, tem superado o seu silêncio com canções, com trabalho, não deixando parar sua produção. Mas nem todos puderam fazer isso, infelizmente. Eu fiz. Continuei produzindo, embora não tivesse condições de mostrar essa produção ao público. Sim, há o aspecto de o artista desanimar e, consequentemente, fazer com que a sua obra mingue um pouco. Por outro

lado, existe um número fantástico de obras escondidas nas gavetas à espera de um momento propício para serem mostradas. Não custa lembrar, porém, que o verdadeiro artista brasileiro tem ficado sem condições de trabalho, e sua obra, apagada, obscurecida por essa cortina de fumaça que a todos nos cega. Está difícil entender a cultura brasileira nos dias de hoje, especialmente a cultura musical mais recente. Veja bem, hoje os jovens não sabem o que é frevo, não sabem o que é bumba-meu-boi, não sabem o que é maracatu, não sabem nada. Sabem quem são, no entanto, os Stings da vida. Memória – Você nasceu... Sérgio Ricardo – Eu sou paulista, de Marília. Nasci no dia 18 de junho de 1932. O meu pai é sírio e minha mãe é filha de sírios. O meu pai veio para o Brasil com 18 anos de idade e acabou dando com

os costados em Marília, uma cidade que, quando nasci, tinha só mato. Era uma cidade nova. À medida que eu crescia, a cidade também crescia, o que eu ia precisando, a cidade ia conquistando. Fui para o grupo escolar quando o grupo escolar foi inaugurado; fui para o ginásio quando o ginásio foi inaugurado. Ao mesmo tempo que tudo isso ocorria, eu passava a ter a experiência de não só ver uma cidade crescer, brotar, mas também de, culturalmente, participar da sua vida, do seu crescimento; ouvindo e vivendo as coisas diretamente com a gente do campo. Em mim, essa experiência permanece ines-

Você sabia?

... que Sérgio Ricardo dirigiu um filme sobre imigração no Líbano sem falar uma palavra em árabe?

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quecível. Havia também muita gente do Nordeste, gente que chegava em busca de uma vida melhor. Também tinha japonês, árabe, italiano, enfim, tinha em Marília do meu tempo essa coisa cosmopolita. Uma salada de culturas regionais muito grande. Com isso, eu fiquei muito ligado à terra, à coisa regional. Sim, mas eu sonhava morar na cidade grande porque, depois de certo tempo, entendia que o meu estudo de música, lá, chegara num ponto que não dava mais para aprender nada, para evoluir, para desenvolver a minha capacidade musical natural. Memória – Como foi que a música entrou, de fato, na sua vida? Sérgio Ricardo – Muito cedo. Aos 8 anos, a minha mãe, dona Maria Mansur,

que tinha uma grande paixão pelas artes, resolveu incentivar os filhos a estudar música. Ela cantava muito bem. Tinha uma voz afinadíssima. As noites, lá em casa, eram muito bonitas. O meu pai, seu Abdalla Lufti, tocava alaúde enquanto a minha mãe cantava. Os vizinhos apareciam sempre para assistir e até participar dos saraus, que eram frequentes. Foi, sem dúvida, um tempo muito bom. Memória – E os irmãos? Sérgio Ricardo – Tenho dois irmãos e uma irmã. O que vem depois de mim, o Tufik, trabalhou em orquestras, é violinista. Ele chegou, inclusive, a integrar a Orquestra Sinfônica Brasileira, do Karabtchevsky. O meu irmão, o Dib, é ainda hoje considerado o melhor diretor de fotografia

do Brasil. A minha irmã, Candura, casou-se. Ela tocava piano muito bem. Tinha uma grande sensibilidade musical. Todos nós estudamos piano quando crianças. Eu e o Tufik nos dedicamos mais, tanto que Marília ficou pequena para os nossos sonhos. Fui para São Vicente, no litoral paulista, porque lá um tio meu tinha uma emissora de rádio, a Rádio Cultura. Ganhei grande experiência nessa rádio, inclusive porque a discoteca ficava inteiramente à disposição. Ouvi muita coisa boa, coisas que fizeram a minha cabeça. Foi nessa rádio, aliás, que eu pude identificar melhor o que, musicalmente, mais me agradava. Isso, quando eu tinha 17 anos, em 1949, por aí. Em 1950, eu já estava no Rio de Janeiro. Depois de prestar o serviço militar, fui trabalhar na noite,

como pianista. Durante oito anos seguidos fiquei trabalhando como músico de boate e como ator de televisão. Cheguei até a fazer relativo sucesso como ator. Isso, na TV Rio. Também fui contratado pela Tupi, de São Paulo, quando o pai do compositor e maestro Théo de Barros, Theófilo de Barros Filho, era o diretor. Como ator, a minha situação no Rio era bem melhor que em São Paulo. Na TV Rio eu desempenhei papéis principais. Participei de uma novela chamada Está escrito no céu, de Pedro Anysio, que alcançou bastante sucesso. Eu era o galã. Isso, em 1951/1952. Memória – Como é a música que você está fazendo hoje? Mudou muito?

Sérgio Ricardo – A minha filosofia de trabalho é a mesma. A minha forma musical evoluiu, porque estudei muito durante esse tempo que andei sumido da mídia. Fiz curso de contraponto, cheguei a fazer intromissões orquestrais etc. Quer dizer, o meu conhecimento musical, instrumental, expandiu-se bastante. Estou mais voltado para um som, para uma melodia brasileira. Basicamente, porém, a letra continua sendo a extensão da minha poesia, refletindo a realidade à minha volta. Tem um poema, por exemplo, que chama-se Guriatã. O guriatã é um passarinho que não tem personalidade própria, que imita todos os outros passarinhos que estão à sua volta.

Então achei isso parecido com a coisa do brasileiro na arte. A letra é assim: Guriatã quando canta/Não se sabe se é sabiá/Se canário, acauã, araponga/Imita a milonga que ouvir pelo ar/Assim é que nessa terra/ Muitos se põem a cantar/Quando ouvem a eterna cantilena/Sonora cartilha que lhes vêm ditar/A passarada chamou/Guriatã venha cá/Desiste da voz alheia/Se bela ou se feia/Faz tua voz cantar. [N. da R.: Em recente entrevista a Assis, Sergio tocou essa música e fez um balanço de sua carreira, falando do Brasil, da censura e do poeta Carlos Drummond de Andrade. Veja em http:// migre.me/aVjRi.]

Discografia (LPs e compactos simples)

1958 – LP – Dançante nº 1 [Todamérica, LPP-TA-332] 1960 – LP – A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo [Odeon, MOFB 3168] 1961 – LP – Depois do Amor [Odeon, MOFB 3239] 1963 – LP – Um Senhor Talento [Elenco, ME-7] 1964 – LP – Deus e o Diabo na Terra do Sol [Forma, FM-3] 1964 – LP - Esse Mundo é Meu [Forma, FM-5] 1966 – CS – Quando Vem Dia Primeiro / Samba de Enredo [Philips, 365132 PB] 1967 – CS – Sou Pobre, Pobre [Philips, C-14, lado B] 1967 – LP – A Grande Música de Sérgio Ricardo [Philips, R765012L] 1968 – CS – Sérgio Ricardo no Festival Nacional de MPB [RCA, LC-6448] 1968 – CS – Aleluia / Deus e o Diabo na Terra do Sol [Beverly, BCS-101] 1968 – CS – Dia da Graça / Canto do Amor Armado [RCA Victor, LC 6483] 1969 – LP – Arrebentação [equipe, EQC-800002-A] 1971 – LP – Coleção História da Música Popular Brasileira – Sérgio Ricardo [RCA – Abril Cultural 37] 1973 – LP – Sérgio Ricardo [Continental, SLP-10 093] 1973 – CS – Mágoas / Adriana [Continental, CS 50509] 1974 – LP – A Noite do Espantalho [Continental, 1-35-404-018] 1975 – LP – Sérgio Ricardo / MPB Espetacular [RCA, 103.0147] 1977 – CS – Ponto de Partida [Marcus Pereira, MPCD - 825] 1979 – LP – Do Lago a cachoeira [Continental, 2-01-404-011] 1980 – LP – Vandré & Sérgio Ricardo Juntos [Fonte, 001.404.003] 1980 – LP – Flicts [Philips, 6349432] 1983 – LP – Para viver um grande amor [CBS, 138259]

Expediente – Jornalistas&Cia Especial Memórias da Cultura Popular é uma publicação mensal da Jornalistas Editora Ltda. (Tel. 11-38615280) em parceria com o Instituto Memória Brasil • Diretor: Eduardo Ribeiro (eduribeiro@jornalistasecia.com.br) • Produção do conteúdo: Assis Ângelo (assisangelo@uol.com.br) • Editor-executivo: Wilson Baroncelli (baroncelli@jornalistasecia.com.br) • Diagramação e Programação visual: Paulo Sant’Ana (pr-santana@uol.com.br). É permitida a reprodução desde que citada a fonte.

Especial Cultura Popular Nº 6  

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