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Acervo Instituto Memória Brasil – Direção e Autoria: Assis Ângelo

Possivelmente não exista no Brasil, nos últimos 30 anos, um único artista popular que tenha escapado do olhar, da audição e dos textos de Assis Ângelo, paraibano de João Pessoa que, como vários brasileiros de outras paragens, construiu uma bem sucedida carreira profissional na capital paulista – terra, aliás, que o abrigou inclusive com o maior de seus títulos: o de Cidadão Paulistano, concedido pela Câmara dos Vereadores em 1998. São centenas e centenas de entrevistas que ele fez e, para sorte de nossa história, gravou e documentou, incluindo-as num acervo em que também convivem com milhares de discos, partituras, livros, gravuras, cordéis, perfazendo mais de 150 mil itens, doados oficialmente no final de 2011 para o Instituto Memória Brasil, que ele próprio administra e que num futuro próximo poderá ganhar outra dimensão, se os recursos necessários chegarem. Não é pouco. Falou em cultura popular, em música popular brasileira, ele tem tudo. Ou quase tudo. Desde a primeira gravação em disco feita no Brasil, no começo do Século XX, passando por gravações em vários outros idiomas de artistas como Luiz Gonzaga, até (pasmem) canções inéditas, cantadas e gravadas em seu apartamento, por ninguém menos do que Geraldo Vandré. É ouvir (quem conseguir) e arrepiar. Parceiro desde a fundação do Instituto Memória Brasil, este J&Cia fez um acordo com o seu mentor e mantenedor para resgatar

Ano I – nº 1 – 7/5/2012

pequenos fragmentos desse acervo e os entregar aos jornalistas brasileiros, como uma contribuição cultural. Começamos propositadamente com o Roteiro Musical da Cidade de São Paulo, uma ampla matéria que ele escreveu para a edição nº 105 do suplemento cultural D.O. Leitura (Diário Oficial), publicada em 9/2/1991. É que esse roteiro materializou-se em exposição homônima patrocinada pelo Sesc Santana, sob a curadoria do próprio Assis (ver texto na pág. 5). O sucesso foi tão grande, que ao Sesc não restou outra alternativa do que prorrogar a mostra até 27/5, para que mais gente pudesse ver os discos, cantores, compositores, que fizeram parte da história da metrópole. E não será de se admirar que venha, na sequência, a se transformar em uma exposição itinerante, viajando interior afora, ou mesmo permanente. São Paulo cantada em melodia é tudo de bom. São perto de três mil as músicas que falam da cidade e que Assis identificou. Entre elas os clássicos Rapaziada do Brás, Ronda, Trem das Onze e Sampa. Está lançada a parceria. A cada mês J&Cia trará na íntegra uma das grandes entrevistas de cultura popular feitas por Assis Ângelo. Sempre com alguma explicação que contribua para contextualizar o trabalho. O próximo será Vandré. Agora, é ler o Roteiro e aguardar a próxima, na primeira 2ª.feira de junho, dia 4. Boa leitura! Eduardo Ribeiro

Roteiro musical da cidade de São Paulo

Resultado de duas décadas de pesquisas, Roteiro Musical da Cidade de São Paulo tem por finalidade mostrar que é possível contar muitas histórias por meio da música, inclusive de uma cidade Milhares de artistas não se cansam de cantar a capital paulista de formas, ritmos e gêneros os mais diversos, como sambas, dobrados, marchas, pagodes, valsas, choros, forrós, baiões, xotes, lambadas, toadas, modinhas, maxixes, tangos, em-

boladas, corridos, polcas, rancheiras etc. Loas à cidade onde nasceram a Jovem Guarda, o Tropicalismo, os festivais de música e o QG do baião de Luiz Gonzaga se acham também nos martelos e redondilhas dos improvisadores do Nordeste, como Oliveira de Panelas e Geraldo Amâncio, Zé Francisco, Sebastião Marinho, Andorinha e Palmeirinha, entre muitos. E do Sul, como Gildo de Freitas e Teixeirinha. DJs e MCs que se multiplicam na cidade também não esquecem a temática. Nas obras em referência, até aqui cerca de três mil, há citações a ruas, avenidas, parques, pontes, estádios de futebol, bairros, praças, camelôs, favelas, metrô, garoa, largos, vilas, museus, heróis, paisagens e rios; trabalho, trabalho, trabalho e hinos e odes para agremiações esportivas como

Corinthians, São Paulo e Palmeiras, os mais cantados. Tudo ou quase tudo da cidade, incluindo sua gente e cotidiano, tem sido citado nas obras musicais desde o século 18. Artistas como DJ Hum, Thaíde, Mano Brown, Rappin Hood, Emicida, Sabotage, Criolo e Negra Li se juntam na mistura de estilos e gêneros a Cornélio Pires, Adoniran Barbosa, Mário Zan, Geraldo Filme, Germano Mathias, Jarbas Mariz, Marco Mendes, Edvaldo Santana, Costa Senna e Osvaldinho da Cuíca; Ary Barroso, Sílvio Caldas, Nélson Gonçalves, Mário Albanese, Papete, Tom, Hermeto, Gil, Caetano e Vinicius, que uma vez caiu na besteira de dizer que São Paulo é o túmulo do samba. Na lista de obras dedicadas à cidade chamada de Sampa, Capital Bandeirante, Terra da Garoa e Paulicéia – a mais populosa do planeta depois de Mumbai e Délhi,

na Índia; Istambul, na Turquia; e Karachi, no Paquistão –, aparecem até tragédias, como o incêndio no edifício Andraus e o massacre na Casa de Detenção. Essa história começa em 1990, quando iniciei a pesquisa que rendeu duas páginas no antigo suplemento cultural D.O. Leitura, do Diário Oficial do Estado de São Paulo. A base do texto foram uns duzentos títulos musicais, entre os quais o samba Ronda, de Paulo Vanzolini; o tango Estação da Luz, de Martins/Nasser; canções do paraense Billy Blanco, como O Céu de São Paulo e Grande São Paulo, e de Tom Zé, São São Paulo, Meu Amor; além do chorinho Cidadão Paulistano, de Carlos Poyares; e o blues São Paulo Zero Grau, de Jorge Melo. Depois disso, achei partituras e notas em periódicos já extintos.

O Correio Paulistano, por exemplo, edição de 6 de agosto de 1862, noticiou a existência de um álbum intitulado Melodias Paulistanas, formado por 12 peças para canto e piano, do padre Mamede José Gomes da Silva, diretor do Liceu Paulistano e amigo de Antônio Carlos Gomes, autor de um hino aos estudantes de Direito do Largo de São Francisco: À Mocidade Acadêmica, em parceria com o poeta Bittencourt Sampaio. Mas antes de Mamede e Carlos Gomes, houve quem louvasse a inspiradora cidade: os religiosos Calixto e Anchieta Arzão, em Missa a São Paulo, de 1750. Em 1823, o músico Bento Maurício Arcade compôs Águas do Anhembi. Roteiro Musical da Cidade de São Paulo é, enfim, o que o título sugere: um passeio biográfico pela cidade fundada pelos jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta em 1554. Assis Ângelo


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Roteiro musical da cidade de São Paulo

(transcrição da reportagem publicada na edição nº 105 do suplemento cultural D.O. Leitura, do Diário Oficial do Estado de São Paulo, em 9/2/1991)

São Paulo, Paulo De São Paulo eu vim de lá Quem não gosta de São Paulo Do que é que vai gostá? (Embolada de Manezinho Araújo — 1952)

Desde 1902, quando Chiquinha Gonzaga compôs São Paulo, até hoje, com o samba-enredo de 1991, São Paulo Pátria Mia, da Escola de Samba Águia de Ouro, o autor desta reportagem conseguiu reunir 206 composições musicais sobre a cidade de São Paulo, suas ruas, bairros, problemas, glórias, encantos e desencantos. Todas com as letras, músicas, intérpretes, datas, referências discográficas, variantes e uma infinidade de gravações. Há de tudo um pouco: música erudita, em forma de sinfonias, sambas, valsas, tangos, emboladas, marchas, hinos, cordel. A abundância do material, de autores paulistas ou não, é tanta que o despretensioso texto, inicialmente planejado como levantamento de informações sobre a produção de músicas de carnaval sobre São Paulo, vai transformar-se em livro, o primeiro do gênero. O autor desta pesquisa, que é paraibano, agradece a quem puder enviar-lhe mais informações, pois tudo indica que a produção musical sobre a cidade de São Paulo é muito maior do que a reunida até a fase atual do levantamento. Assis Ângelo

Diálogo criado pelo poeta Guilherme de Almeida, incluído na contracapa de um disco LP do cantor e compositor carioca Silvio Caldas: – Isto é São Paulo. – Será mesmo? – Sim. – Por quê? – Porque São Paulo é a Cidade do Trabalho (...) que conduz um “bull-dozzer”, que abate uma árvore, que serra um toro, que bate uma estaca, que assenta um dormente, que planta um poste, que carrega uma saca, que empedra um alicerce, que ateia uma fornalha, que desanda um malho, que impulsiona um torno, que maneja um tear, que rebita um pino, que canta para ritmar os movimentos de seu corpo que o suor lubrifica. É a alegria do trabalho. Por isso esta cidade canta... O disco reúne onze composições do poeta Lauro Miller falando de bairros da cidade e da própria cidade. *

– São Paulo é um espanto, São Paulo é um gigante! A afirmação, corretíssima, é do compositor e cantor Tom Zé, um baiano de Irará que desembocou na capital paulista nos nervosos anos 60. Ele, como tantos, chegou, gostou e sentou praça, como diria o grande Luiz Gonzaga, o “rei do baião”. O amor de Tom Zé por São Paulo, louco, lúcido e lúdico, está magistralmente registrado em quase toda sua obra, a começar por São Paulo, meu Amor, de 1968:

Casam pela TV Crescem flores de concreto Céu aberto ninguém vê Pelo Norte é veraneio No Rio é banho de mar Todo mundo está de férias E nós é só trabalhar Porém com todo defeito Te carrego no meu peito São, São Paulo, meu amor... (1)

praças, vilas e bairros famosos. Avenida São João, Avenida Paulista, Vila Esperança, Praça da Sé... Ronda, de Paulo Vanzolini, fala da avenida São João e por aí vai. A Avenida Paulista – que este ano está completando 100 anos de existência – já virou tema-musical do maestro e pianista César Camargo Mariano e Kiko Pereira... São inúmeras as obras musicais que de uma forma ou de outra louvam a cidade, as ruas e avenidas – suas artérias –, seus personagens e sua própria história. Algumas dessas obras podem ser consideradas verdadeiros hinos à beleza, à dureza, à valentia da cidade e do seu próprio povo. São Paulo é raçuda, é contraditória, é arrebatadora; ela inspira, cutuca, provoca. Que o digam o baiano Caetano Veloso, autor de Sampa, de 1980, e o paraense William Blanco de Abrunhosa Trindade, o Billy Blanco, que, não satisfeito com São Paulo Jovem, de sua autoria, um samba de 1974, compôs, no mesmo ano, a trilogia musical O Céu de São Paulo, Tema de São Paulo e Grande São Paulo que integra a Sinfonia de São Paulo. Além de sambas em homenagem à cida-

Poucos artistas foram tão felizes como Tom Zé ao retratar em letra e música a cidade de São Paulo. Esse retrato em preto e branco que ganhou o 1º prêmio do júri do 4º Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record, em 1968, foi inspirado num filme de Alain Resnais sobre a bomba atômica norte-americana que dizimou Hiroshima nos anos 40. Poucos sabem disso, como poucos sabem também que o autor de São Paulo, meu Amor, também conhecida como São Paulo, jamais recebeu o merecido prêmio a que fez jus. Bom, mas essa é outra história... São Paulo tem muitas ruas, avenidas,

São, São Paulo, meu amor São, São Paulo, meu amor São oito milhões de habitantes De todo canto e nação Que se agridem cortesmente Correndo a todo vapor E amando com todo ódio Se odeiam com todo amor São oito milhões de habitantes Aglomerada solidão Por mil chaminés e carros

Gaseados à prestação Porém com todo defeito Te carrego no meu peito São, São Paulo, meu amor São, São Paulo, meu amor Salvai-nos por caridade Pecadoras invadiram Todo o centro da cidade Armadas de ruge e batom Dando vivas ao bom-humor Num atentado contra o pudor A família protegida O palavrão reprimido Um pregador que condena Um festival por quinzena Porém com todo defeito Te carrego no meu peito São, São Paulo, meu amor São, São Paulo, meu amor Santo Antônio foi demitido E os ministros de cupido Armados da eletrônica de, foram compostos dobrados (Hino a São Paulo ou São Paulo de Aço, de Victor Dagô), marchas (São Paulo, de Lamartine Babo e Freitinhas) e chorinhos (Cidadão Paulistano, de Carlos Poyares, 1987), baiões (Dia de Cão, de Vicente Barreto e Alceu Valença, 1981), tangos (São Paulo, de Chiquinha Gonzaga,1902), maxixes (São Paulo Futuro, de Marcelo Tupinambá e D. Vampré, 1914), missas (São Paulo, de João Gomes Júnior), xótis (São Paulo Zero Grau, de Jorge Mello, 1976), poemas sinfônicos (São Paulo, de Newton Pádua), twists (Rua Augusta, de Hervê Cordovil, 1965), canções (São Paulo, de Hamlton Moreno), sambas-enredos (São Paulo, Chapadão da Glória, de Silas de Oliveira e Joacir, 1967, e Rua Guilherme de Almeida, de Zeca da Casa Verde, 1975) e até rocks com jeito de blues, como Rock Paulista, de Gonzalo Luís Labrada, 1989. E também um gênero no universo musical da cantoria do repente: Quadrão Paulista, desenvolvido em estrofes de oito versos com sete sílabas, o primeiro rimando com o segundo e o terceiro, o quarto com o quinto, e o sexto com o sétimo, levando o


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oitavo a terminar com o sufixo “ista” para rimar com a palavra mágica paulista. Exemplo do referido Quadrão, de Augusto Pereira da Silva e Marcos Cavalcanti de Albuquerque, o Venâncio: “Vamos falar dos folguedos / Mostrar os seus arremedos / Que serviram de brinquedos para um povo imperialista / Até que entrou na lista / Batuque e marujada / A cana verde e a congada / No folclore paulista” (2). Em tempo: que dos cantadores não se exija tanto a perfeição da linguagem. É comum, e até já tradicional, os compositores de sambas de enredo destacarem, no Carnaval, as figuras mais proeminentes da sociedade, história antiga, letras e artes, como – um exemplo – fez há três anos o G.R.C.E.S. Mocidade Alegre, ao escolher acertadamente o emérito professor, doutor e autor respeitado de música popular Paulo Emílio Vanzolini, que, emocionado, entrou absoluto na avenida Tiradentes – a desativada passarela do samba paulista – ovacionado por milhares de foliões entusiasmados cantando a toda garganta

o tema composto pelos carnavalescos Roberto da Tijuca, Nenê Capitão e Wagner do Cavaco: O Cientista Poeta Paulo Vanzolini, que a certa altura lembrava: “De noite rondo a cidade / Em busca de paz e de amor / Uma triste cena aconteceu / Que abalou meu coração / Na avenida São João”, numa referência direta a Ronda. São Paulo é assim: embora, à primeira vista, insensível, é compreensiva e grata, sabendo reconhecer o quê ou quem nas horas certas faz algo por ela. Seis anos antes de a Mocidade Alegre cantar a plenos pulmões o talento de mestre Vanzolini, saiu Tiradentes afora a escola de Samba Sociedade Rosas de Ouro da Brasilândia garantindo no seu enredo que “se essa rua fosse minha eu implantava / dentro do meu coração / a avenida São João”. É muito amor à cidade, não? O enredo (Uma Boa Ideia, de Royce do Cavaco e Vino “Pequeno Polegar”) não levou a escola à vitória, mas encheu de orgulho os paulistanos. São Paulo canta São Paulo no Carnaval. E antes. E depois. Em 1990 foi a vez do

São Paulo, saía às ruas cantando o enredo Inezita Barroso, a Glória Paulista, de Jorginho de Barueri, que a certa altura diz: “Toca viola, dedilha o violão / No teclado do piano vem fazer uma canção / Viu seu São Paulo crescer / Minha terra bandinha que passou / Até a velha Cantareira / Cedeu seu lugar ao Metrô”. E no refrão, maior destaque: “O tempo passa / Deixa o tempo passar / Inezita Barroso vamos homenagear”. Pois é, São Paulo é São Paulo. No geral (a cidade) e nos detalhes (ruas, vielas, avenidas, praças, vilas, distritos e bairros) São Paulo nunca deixou de despertar amores, paixões e ódios de quem quer que seja. Ora é calma e violenta, como uma donzela que não se deixa facilmente seduzir; ora é submissa e cúmplice. Enfim, tem várias facetas e talvez por isso mesmo seja tão bela e fascinante. Quem há de explicá-la? Os seus poetas, compositores, cantores? Muitos já tentaram... É grande o desafio. No número de peças musicais, eruditas ou populares, feitas em sua homenagem, São Paulo, nesse particular, talvez só se iguale à cidade do

Rio de Janeiro – também, digamos, uma jovem quatrocentona. Quem não conhece de cor ou salteado os versos ou a melodia de Ronda, de 1949 (gravada pela primeira vez em disco de 78 rpm nº 801217, selo RCA Victor, pela cantora paulistana Inezita Barroso, em 1953), ou Trem das Onze, de 1965, Saudosa Maloca, de 1951, (na verdade, o primeiro samba de temática paulistana a ultrapassar fronteiras), Samba do Arnesto, 1953, Iracema, de 1956, Um Samba no Bixiga, de 1955, Vila Esperança, de 1968, Praça da Sé, de 1978, e Rua dos Gusmões, todas de Adoniran Barbosa, um paulista de Valinhos, filho de um casal de imigrantes italianos? Que dizer, então, dos chorinhos, há tempo consagrados, Rapaziada do Brás, de Alberto Mariano, e Rapaziada do Pari, de Edmundo Guimarães, e Lampião de Gás, de Zica Bergami? (essa música foi gravada até no idioma japonês, logo depois do seu lan-

çamento por Inezita Barroso, em 1958). Até o sinuoso maestro Théo de Barros, coautor de Disparada, rendeu-se aos encantos e mistérios da cidade, compondo, em 1979, a canção Praça da República: “Anúncios a cores / Prometem-me flores / Não longe daqui / Promessas e flores / Morrem sem se cumprir / Lá na Praça da República / Pombas voam no céu / Lá no alto o asfalto, a angústia / O assalto, a agressão / Todos temem voar / Assumir e ajudar este mundo / Onde a pressa e pressão / Tocam a multidão / O velho sentado / De frente ao passado / Tão longe daqui / O jovem aceita tudo / Menos pedir / Lá na Praça da República / Há um silêncio no céu / O mais jovem não ouve / E o mais velho não diz a lição / Um aprende a ser só / O outro volta para o

dominó / Toda a sua atenção / Última solidão / Lá na praça tem uma escola / A correr sem poder escapar / Na cultura há uma gaiola / A prender quem não quer pensar / Todos na praça / Têm um pássaro pra soltar / Mas na República / Ninguém pode voar / Anúncios a cores / Prometem-me flores / Se eu desistir / Eu tenho que andar / Sem ver, julgar, reagir / Lá na Praça da República / Bombas caem do céu / O cordeiro da paz / Incapaz de um dia de leão / O pastor quer pregar / Mas o céu não faz tanto terror / Quanto a poluição / O hippie no chão / O circo e o pão / A proibição / E a submissão”. Também o eterno “rei” da embolada, o genial Manezinho Araújo, um pernambucano arretado, autor de Pra Onde vai, Valente? e Cuma é o Nome Dele?, entre outros clássicos da embolada, um gênero poético-musical desenvolvido em compasso binário muito difícil e tradicional na região Nordeste, deslumbrou-se por instantes com a Paulicéia Desvairada e, num fôlego só, compôs nos idos de 1952, pouco antes de abandonar a carreira artística abraçada no princípio dos anos 30, desgostoso

Você sabia? ... Que o jornalista e estudioso da cultura popular Assis Ângelo é presidente do Instituto Memória Brasil, criado em 2011 para preservar e divulgar o seu acervo?

Praça da Sé

G.R.C.E.S. Leandro de Itaquera falar do Parque do Carmo, da Colônia Japonesa que “em seu cultivo é feliz”. No refrão do enredo Itaquera Pedra Dura, Símbolo de um Povo, de Luizinho-Kabello, Beto Muniz, J. Reis, Moskitinho e Turko, a escola cantava: “Itaquera meu orgulho, meu amor / O Estádio do Corinthians, a Cohab e o Metrô...” Nesse mesmo ano, 1985, a Escola de Samba Oba-Oba, de Barueri, município da Grande

Alberto Marino, maestro, violinista, compositor, autor da primeira música que trata de um bairro da capital de São Paulo: Rapaziada do Brás (foto inédita)

que estava àquela altura com os estranhos rumos que a nossa boa música popular já estava tomando, a embolada, ainda inédita em disco, que se inicia da seguinte forma: São Paulo, Paulo De São Paulo eu vim de lá Quem não gosta de São Paulo De que é que vai gostá? Depois de falar da panorâmica topográfica, urbanística, utilitária e demográfica da cidade, o poeta Guilherme de Almeida lembrou, certa vez, que a policromia dos bairros forma um “puzzle” caprichoso que desnorteia qualquer turista. Ele tinha razão ainda mais quando afirmava que “a canção é o arquivo do povo”. E assim compreendendo, autores populares ou de perfil erudito têm captado visões unas e múltiplas da grande musa inspiradora que é São Paulo. Geraldo Filme, por exemplo, em tom nostálgico compôs o samba São Paulo Menino Grande, em 1980. Num trecho, pede: “Lembrar, deixa-me lembrar / Agora que menino cres-


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Estação da Luz

O compositor e cantor popular Vital Farias, paraibano de Taperoá, debochado como ninguém, um dia por acaso, aportou na Paulicéia e sem mais nem menos deixou-se marcar e compôs uma canção a que intitulou de Repente Paulista, que abre o lado B do seu segundo disco LP lançado pela CBS em 1980: “Em pleno frio / Paulista / Perdi meu amor / De vista / Perdi meu terno / De artista / Perdi a caderneta / Do Ministério do / Trabalho / Título de eleitor / Diploma de datilografia / E atestado de alistamento / Militar / Talvez por divertimento / Cuidado com a moça de louça / De bolsa / Na avenida Rebouças / Ninguém pode parar / Bem na avenida Paulista / Perdi toda a segurança / Perdi a caderneta de poupança / Perdi toda esperança / Que eu pensei de por aqui / Eu encontrar / De vez em quando eu sinto / Uma Teresa Batista cansada de / Guerra de / Terra de / Serra de / Céu e de Mar”. O paulista (de Bananal) Pedro Caetano, compositor de sambas imortais, como Com Pandeiro ou Sem Pandeiro (Eu Brinco) e Onde estão os Tamborins?, também não Aos líricos se misturam os agredidos involuntários que vão à forra, como o embolador Cachimbinho, que num improviso criou e desenvolveu o seguinte mote: “São Paulo terra de ninguém / Aqui se salve quem puder”. Numa estrofe, ele canta: Vem gente do Maranhão De todo canto, até de Itatiba Vem gente da Paraíba Vem gente até do Japão Para no dia a dia ganhar o pão Menino, moça e mulher Eu só digo porque é E digo porque convém São Paulo terra de ninguém Aqui se salva quem puder. (6)

Você sabia? ... Que o acervo do Instituto Memória Brasil abriga mais de 150 mil itens, entre discos de todos os formatos, partituras, fotos, livros, jornais e revistas antigas?

ceu / Perdeu sua simplicidade / Não quer mais o seu amor perfeito / E o cravo vermelho, seu amigo do peito / São Paulo, de Anchieta / E de João Ramalho / Onde estão teus boêmios / A tua garoa, cadê teu orvalho? / Lembrar, deixa-me lembrar...”(3) Na mesma linha, o compositor Adoniram Barbosa, tido e havido como o cronista mais musical de São Paulo, e a quem mais corretamente caberia a afirmação de ter sido o artista popular que mais fielmente interpretou o cotidiano paulistano, certa vez desabafou: – São Paulo está completamente mudada, muito diferente da cidade que eu conheci no começo do século. Nem as ruas do meu tempo existem mais. Pena, né?

São Paulo era uma cidade muito bonita. Hoje procuro a minha cidade e não encontro. Está tudo mudado. Pra pior. A violência é grande, a gente sai de casa sem saber se vai voltar. Tem muita gente, muito prédio, corre-corre, automóveis, buzinas. Deus do céu! (...) Apesar de tudo, eu gosto de São Paulo. (4) É estranha, muito estranha, a relação da metrópole com a sua população. Na verdade, essa estranheza é algo que fácil, fácil se aproxima – por que não? – do sadomasoquismo. Em São Paulo o incomum é comum e o absurdo beira as raias do lirismo. A música está no ar:

ficou indiferente à Paulicéia e num ímpeto compôs, em 1985, ano de seu 50º aniversário de carreira artística:

que mais que rapidamente cresce para cima, para baixo e para os lados. Para baixo, sim, pois a tendência natural nos próximos anos é São Paulo ocupar também o subsolo, pois os espaços conhecidos já estão quase todos ocupados. Mas há muita gente que vê lirismo nas diferentes formas arquitetônicas que a cidade exibe, como o paulistano Passoca, corintiano de nascença, que encontrou na música o prazer maior da vida. Viola em punho, em acordes caipiras, ele canta:

Santana, Carandiru Tietê, Ponte Pequena Tiradentes, Luz São Bento, Sé, Liberdade Segue com tranquilidade No Metrô que te conduz São Joaquim, Vergueiro Paraíso, Ana Rosa E depois Vila Mariana Santa Cruz, Praça da Árvore Saúde, São Judas e Conceição Agora está na cara Que chegando a Jabaquara Tá na última estação ... ter-mi-nal

São, São Paulo, meu amor São, São Paulo, meu amor São oito milhões de habitantes De todo canto e nação Que se agridem cortesmente... Perfeito, dizer mais o quê? O retrato de São Paulo feito por Tom Zé é o mais perfeito.

Sim, há quem nota tudo e quem nada nota na gigantesca e às vezes, também, aterradora cidade de São Paulo, cidade

Precisa ver onde moro Fica bem no centro Da cidade de São Paulo Fica bem no centro Mas um pouco mais pro lado Longe da moreninha Perto de algum sobrado Longe do ribeirão Perto da construção Andando na contramão Torcendo para o meu time São Jorge ser campeão. (5)

São Paulo é isso e muito mais, conforme mostra num sarro o grupo musical paulistano Premeditando o Breque: “É sempre lindo andar / Na cidade de São Paulo / O clima engana, a vida é grana / Em São Paulo / A japonesa loura / A nordestina moura de São Paulo / Gatinhas punks / Um jeito yankee de São Paulo / Na grande cidade me realizar / Morando num BNH, na periferia / A fábrica escurece o dia / Não vá se incomodar / Com a fauna urbana de São Paulo / Pardais, baratas / Ratos na rota de São Paulo / E pra você criança / Muita diversão em São Paulo / Tomar um banho no Tietê / Ou ver TV /

Pra quebrar a rotina / Num fim de semana em São Paulo / Lavar um carro / Comendo um churro / É bom pra burro / Um ponto de partida / Pra subir na vida em São Paulo / Terraço Itália / Jaraguá ou Viaduto do Chá”. (7) Mas é mesmo no carnaval que se tem um painel melhor e sério de São Paulo, “palco de culturas regionais e internacionais”, de acordo com enredo da escola de samba Sociedade Rosas de Ouro para o carnaval de 1987, intitulado São Paulo, sua Gente, de Royce do Cavaco e Baianinho. Nesse mesmo ano, o bairro da Barra Funda, “menina que dormia / Onde as águas do

(Metrô — linha Norte-Sul/SP), samba inédito


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rio Tietê brincou”, o largo da Banana, onde “estava a fina flor”, os circos, teatros, bailes passados e até o Metrô foram lembrados e incluídos no enredo Barra Funda, Estação Primeira, de Adilson Victor, Mauro Diniz e Neoci, do G.R.E.S. Mocidade Camisa Verde e Branco. O tema São Paulo é inesgotável, que nem água do mar: quanto mais se tira, mais água há. É o que mostrou o G.R.E.S. Águia de Ouro no carnaval deste ano, no enredo São Paulo Pátria mia, de Douglinhas, Juquinha, Cuca, Quinzinho e Carlinhos: E lá vou eu Emoldurar esta cidade Criando comércio, indústria, capital Também um mundo cultural Arquitetura vai ficar pra eternidade Infraestrutura pra cidade vamos dar Essa São Paulo boa terra da garoa

Nosso futuro é quem dirá... Que mais dizer? São Paulo é São Paulo! E pensar que um dia correu à larga a onda de que São Paulo é o “túmulo do samba”... Na época, meados dos anos 50, creditou-se a afirmação ao poeta-diplomata Vinicius de Morais. (8) Notas

1 – Letra copiada do disco compacto simples nº 365.263 IPB, selo Philips, 1968, de acordo com interpretação da cantora Marília Medalha; noutro disco compacto simples nº 231 P, selo Som/Maior, a mesma obra foi gravada em ritmo de marchinha para o carnaval de 1969 pelo cantor Joel de Almeida, que por conta própria fez alteração em parte da letra; detalhe: em 1968, a Censura Federal vigente na época determinou mudança no original, no que foi prontamente atendida. A obra original pode ser ouvida na própria voz do autor no disco LP nº 20.80.0339, intitulado Sampa, selo Eldorado, 1980. 2 – In Coletânea de Repentistas, série Brasil Caboclo, vol. 2, disco LP nº 120.002 B. 3 – De Geraldo Filme, in disco LP homônimo, nº 29.80.0358 B, selo Eldorado, 1980. No referido LP

estão incluídos outros dois sambas sobre o bairro paulistano do Bixiga: Vai no Bixiga pra Ver e Silêncio no Bixiga, do mesmo autor. 4 – In entrevista ao Autor, publicada no DO Leitura nº 101.09 (10)1990, pág. 16. 5 – In disco LP Sonora Garoa, nº 821.221.1 2, selo Barclay, 1984. 6 – Inédito, gravação doméstica feita em dezembro de 1978; arquivo do Autor. 7 – In disco LP Quase Lindo, nº 1.30.404.009 B, selo Continental, 1983. 8 – “Tudo isso é conversa fiada. Inclusive o Vinicius gostava muito do que eu fazia. Ele achava que eu tinha um estilo maravilhoso, inconfundível, que eu sou um grande artista e tal. Sou, mas isso deve ser conversa dele, né? Mas ele falou tá falado”. In entrevista ao Autor, inserida no livro MPB: História & Histórias, ainda inédito.

Você sabia?

... Que o enorme acervo do Instituto Memória Brasil vem sendo formado há 40 anos e que nele há peças raríssimas que seu presidente, Assis Ângelo, adquire nas viagens que faz pelo País e Exterior?

A exposição no Sesc Santana

O Sesc Santana abriu ao público em 25/1, 458º aniversário da capital paulista, a exposição Roteiro Musical da Cidade de São Paulo, resultado de pesquisa que Assis Ângelo vem desenvolvendo há 22 anos. A partir de uma linha do tempo, foram criados espaços para mostrar que a cidade já foi cantada em quase três mil canções por aproximadamente sete mil autores. Estão disponíveis, ainda, trechos de entrevistas feitas por Assis, que é autor de livros sobre música e folclore, como Pascalingundum, Os Eternos Demônios da Garoa e A Menina Inezita Barroso, além de músicas feitas para os principais times de futebol paulistas. O evento conta com shows, visitas monitoradas e bate-papos musicais mediados pelo próprio Assis. Prevista para terminar em 1º/4, a exposição foi prorrogada até 27/5, por ter despertado muito interesse, principalmente de escolas de todos os níveis, que organizam excursões para as visitas. A mostra fica aberta de 3ª a sábado, das 10h às 21h, e aos domingos, das 10h às 17h, na Área de Convivência II do Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579). Mais informações pelo www.sescsp.org.br.

Entrevista de Paulo Vanzolini (esq.) e Eduardo Gudin Alexandre Nunis

Assis, com Inezita Barroso e Nice, filha de Alberto Marino e título de uma música dele, em sua homenagem: Nice, 1934

Discos raríssimos de futebol expostos no Sesc Santana

Expediente – Jornalistas&Cia Especial Memórias da Cultura Popular é uma publicação mensal da Jornalistas Editora Ltda. (Tel. 11-38615280) em parceria com o Instituto Memória Brasil • Diretor: Eduardo Ribeiro (eduribeiro@jornalistasecia.com.br) • Produção do conteúdo: Assis Ângelo (assisangelo@uol.com.br) • Editor-executivo: Wilson Baroncelli (baroncelli@jornalistasecia.com.br) • Diagramação e Programação visual: Paulo Sant’Ana (pr-santana@uol.com.br). É permitida a reprodução desde que citada a fonte.


nº 1 7/5/2012 Pág. 6

Você sabia? (Músicas, discos, partituras e outras informações desta página estão na mostra do Sesc Santana) Que o cantor paulistano, do Brás, Paraguassu, autor de várias músicas sobre São Paulo, gravou seu primeiro disco de 78 RPM em 1912?

Que na letra do Hino Nacional Brasileiro aparece pela primeira vez a citação literal a um bairro paulistano, o Ipiranga, e que o hino foi gravado pelo tenor Vicente Celestino, em 1921?

Que há gravações do samba Trem das Onze em várias línguas, incluindo a italiana, por Del Turco; e a hebraica, por Matt Caspi, uma espécie de Roberto Carlos de Israel? Que vão de A a Z as quase três mil músicas compostas e gravadas sobre São Paulo?

Que o rei do baião Luiz Gonzaga faz referência a São Paulo em cinco músicas e que até lançou um LP intitulado SP: QG do Baião, em 1971?

Que há 67 músicas com o título “São Paulo”, e que a mais conhecida é a de Lamartine Babo e José Francisco de Freitas, o Freitinhas, ex-aluno do autor da melodia do Hino à Bandeira, o maestro Francisco Braga? Que Paulo Vanzolini é um biólogo respeitado no mundo todo, é PhD em Harvard, membro da Academia Brasileira de Ciências desde 1963 e que foi diretor do Museu de Zoologia da USP, cuja biblioteca ele formou – e depois doou – com os direitos de autor por Ronda e Volta por cima?

Que há mais de 40 músicas que se referem ao Metrô paulistano?

Que Rapaziada do Brás, com “z” no original, foi a primeira música dedicada a um bairro da cidade de São Paulo e que o seu autor, Alberto Marino, tinha apenas 15 anos de idade quando a compôs? Reprodução do selo do disco em que foi gravada pela primeira vez, em 1926, a valsa-choro Rapaziada do Brás, de Alberto Marino, ... ... e o cantor franco-brasileiro Carlos Galhardo, o primeiro a gravar o clássico paulistano com letra do filho dele, Alberto Marino Jr., em 1960

Dicas Entrevistas, reportagens e outras informações sobre a exposição podem ser conferidas nos links a seguir: ••Bom Dia SP – Exposição conta os cem anos da história musical de São Paulo (http://migre. me/8YGsr) ••Fim de semana – Roteiro Musical da Cidade de São Paulo (http://migre.me/8YGxK)

Que Adoniran Barbosa foi garçom do ministro da Guerra Pandiá Calógeras do governo Getúlio Vargas e atuou como ator no filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, em 1953?

Reprodução do selo do disco de 78 RPM com a primeira gravação de uma música de Paulo Vanzolini, Ronda, por Inezita Barroso

Que a cantora Laura Okumura participou do filme de suspense Dama do Cine Xangai cantando o samba canção Ronda, de Paulo Vanzolini, em japonês?

Que é ibitinguense quem nasce em Ibitinga-SP, e que era de lá a compositora e desenhista naïf Zica Bergami, autora da valsa Lampião de Gás? Capa de partitura de um dos clássicos lançados por Inezita Barroso: Lampião de Gás, de Zica Bergami

Que a primeira música feita para a capital paulista (Missa a São Paulo) data de 1750, e a mais recente (Verás que um filho fiel não foge à luta), de 2012?

De

Que Alberto Marino, autor da primeira música sobre um bairro de São Paulo, o Brás (Rapaziada do Brás), era corinthiano e que antes de se doutorar pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco foi crooner da Orquestra Columbia, e que participou da gravação do Hino do Palmeiras?

Que Vinicius de Moraes compôs Dobrado de amor a São Paulo com o pernambucano Antônio Maria, antes de dizer que São Paulo não tinha samba e que esse dobrado foi gravado em 1954 pela carioca Araci de Almeida e Orquestra Tabajara, do paraibano Severino Araújo?

•• Músicas SP – TV Gazeta (http://migre.me/8YGAt) ••Terra da Garoa – Jornal Metro – 24/2/2012 (http://migre.me/8YGDK) ••Inezita Barroso e Assis Ângelo no Sesc Santana – 25/1/2012 (http://migre.me/8YGFT) ••Assis Ângelo e Altamiro Carrilho – Bate-Papo Musical (http://migre.me/8YGKZ) / (http:// migre.me/8YGNU) / (http://migre.me/8YGQp)

••Programa Vida Melhor – Exposição 100 anos de música em São Paulo! (http://migre. me/8YH58) ••Diário do Comércio – SP, 100 anos de música (http://migre.me/8YHel) ••Portal dos Jornalistas – Roteiro Musical... (http://migre.me/8YHot)

papo pro ar

Música para São Paulo

Assis Ângelo, jornalista, estudioso da cultura popular e presidente do Instituto Memória Brasil

http://assisangelo.blogspot.com.br

No começo da segunda parte dos 1990, eu já havia computado cerca de mil músicas de referência à cidade de São Paulo. Numa das visitas que fazia periodicamente a meu escritório, na Paulista, o compositor de temas rurais João Pacífico (1909-1998), autor de pérolas como Cabocla Tereza, Pingo d´Água e Chico Mulato, em parceria com Raul Torres, quis saber mais a respeito da pesquisa que eu vinha desenvolvendo. Contei como tudo começou etc.. E ele, entre curioso e eufórico: – Eu estou nessa pesquisa? – Não, João. Você não tem música que trate de Sampa.

– Tenho, sim. Você não conhece Treze Listas, gravada por Nélson Gonçalves? – Conheço João, mas essa música trata do Estado e não da capital paulista. – É mesmo, mas eu tenho outra: Minha Rua. – Mas nessa você não fala que a rua é da cidade; aliás, nem letra essa músi- João Pacífico (esq.) com Assis ca tem, João. Decepcionado, ele prometeu: – Então vou compor uma, para aparecer na sua lista. Mas não deu tempo, morreu antes.

Especial Cultura Popular Nº 1  

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