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Parceria

Núcleo em Rede Informativo Mensal do Instituto Elo | Julho 2009

Edição 09

Eles são o que você lê?

Oficina de mídia do Fica Vivo! do NPC Serra levanta questionamentos sobre os meios de comunicação através do teatro

A peça é resultado das experiências vividas na oficina e pretende provocar reflexões como o que é a mídia e qual o seu papel; como ela reproduz e aumenta preconceitos da sociedade sobre os aglomerados; o que é sensacionalismo; qual é a influência da publicidade no conteúdo dos meios massivos; e como o público é induzido ao consumo por meio da propaganda. Para isso, os alunos produziram cenas inspiradas nessas perguntas e no cotidiano. A montagem se passa em dois núcleos: o dos locutores do programa de rádio Microfonia e o de seus ouvintes, que debatem o tema com a platéia. Os jovens elaboraram todo o roteiro com base no Teatro do Oprimido. Shirley Ribeiro, técnica social do Fica Vivo!, acredita que a iniciativa é importante.”Não é uma coisa vinda de fora. Eles se dispõem a discutir isso para mudar o que é possível no entorno deles”, reforça. A peça já havia sido apresentada outras vezes em escolas e na comunidade. Joziane Queiroz, 14 anos,

Foto: Carolina Jácome

A forma como a mídia representa moradores de vilas e favelas foi tema de muitas discussões entre os jovens da oficina de mídia do Fica Vivo! no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, que deram origem à peça de teatro É ou não É?. A montagem, apresentada em 14 de julho no Centro Cultural Vila Marçola, ilustra algumas situações em que a realidade dos aglomerados urbanos é distorcida em reportagens dos veículos de comunicação. “O objetivo é ampliar essa discussão para a comunidade e debater sobre os meios de comunicação”, explica a oficineira de mídia Simone Moura.

Jovens da Serra querem seu próprio espaço de comunicação. Ao centro, de branco, a oficineira de mídia Simone Moura

lembra que, em um desses momentos, um aluno da Escola Estadual Laura das Chagas Ferreira disse que seu amigo morreu por bala perdida e um jornal relatou que ele havia morrido por participar de uma briga entre gangues. “Para eles [mídia], quem mora no aglomerado usa drogas, rouba, mata. Eles não querem saber se você estuda, se quer um futuro melhor”, alerta a aluna da oficina. Para Joziane, está na hora das pessoas conhecerem o que há de bom na região. O grupo também estimula a apropriação dos veículos de comunicação pelos moradores. “Queremos mudar a imagem do lugar

Criado por Augusto Boal (1931-2009) na década de 1970, a teoria tem a premissa de que qualquer pessoa pode fazer teatro. Além disso, a platéia interfere na peça, dando opiniões ou escolhendo o desfecho. Ela defende o uso do teatro como ferramenta revolucionária e como “meio de expressão de pessoas que não têm o poder do diálogo”, explica Ramon Gustavo, multiplicador do Teatro do Oprimido e parceiro da oficina. Há várias técnicas que possibilitam a reflexão da realidade, como o teatro jornal, que se vale de uma matéria divulgada na mídia para criar cenas, e o teatro invisível, usada na peça É ou Não É?, em que a platéia interage com os atores tentando adivinhar o que a acontece na cena.

fazendo nossa própria mídia”, frisa Simone. Beatriz Alvarenga, 15 anos, participante do grupo, enfatiza: “Não queremos entrar na mídia massiva, quero o meu espaço”. Para conquistar esse lugar, os participantes produzem o programa Microfonia, na rádio comunitária Pé da Serra, e um fanzine bimestral que expõem as mesmas questões do teatro. A oficina atua há mais de dois anos no aglomerado. Por meio dela, também foi criado o coletivo Gera Ação, em que os jovens desenvolvem ações culturais. Eles fizeram, por exemplo, o documentário Microfonia no Ar, em parceria com o Centro Cultural Vila Marçola, sobre o programa de rádio. Em julho de 2008, Simone foi ao Rio de Janeiro representar a oficina e mostrar o documentário em uma conferência da Associação Mundial dos Radiodifusores Comunitários (Amarc). Lá, ela foi selecionada para apresentar esse trabalho no Taller Intensivo Gestión Integral de La Radio Comunitária, em Buenos Aires, de 6 a 10 de agosto.

Núcleo Serra R. Bandoniam, 122, Vila Marçola-Serra Belo Horizonte [31] 3282-6652


Reflexão

Alerta contra as drogas

NPC de Neves promove encontros reflexivos com grupo de beneficiários da Ceapa Foto: Arquivo NPC

Ceapa incentiva a reflexão sobre as consequências do uso das drogas

“Estou aliviado. Há sete meses estou trabalhando e fico tranquilo por ver meu antecedente criminal limpo”, declara Gedeon Oliveira, 31 anos, um dos 86 beneficiados por um projeto reflexivo para usuários de drogas promovido pela Central de Apoio às Penas Alternativas (Ceapa), do Núcleo de Prevenção à Criminalidade (NPC) de Ribeirão das Neves. Gedeon, assim como os demais jovens, foi encaminhado pelo Juizado Especial Criminal do Município de Ribeirão das Neves por ser autuado em posse de drogas para consumo próprio, tendo de cumprir uma medida socioeducativa por infligir o artigo 28 da lei 11.343/2006 . Em junho e julho, a equipe da Ceapa em Ribeirão das Neves ficou responsável pela reflexão com os infratores sobre os perigos que as drogas causam para a saúde e o risco social para eles que, como pena alternativa, participaram de encontros semanais. “Logo no começo já analisamos a relação prejudicial que as drogas têm em nossa vida”, analisou Gedeon. Refletir e cumprir O NPC, por meio da Ceapa, firmou um acordo com o judiciário do município e fez uma triagem de 86 jovens, em um contingente de 100 pessoas, autuadas por consumo de drogas ilícitas, para participar de uma medida alternativa como cumprimento da pena. Os técnicos 2

sociais do programa analisaram cada caso e dividiram os beneficiários em dois grupos, sendo que 38 deles participaram de encontro único para uma advertência qualitativa, prevista na lei antidrogas. Os outros 48 jovens fizeram um programa educativo, desenvolvido durante quatro encontros, com duração de duas horas por semana. De acordo com Joelma Pereira, técnica social da Ceapa, esse tipo de pena estimula a participação do jovem na sociedade sem o privar da liberdade e do convívio social. “O objetivo do projeto, tal como do programa, é a reflexão Conhecida como Lei Antidrogas, foi sancionada em agosto de 2006. Ela não determina a pena privativa de liberdade como medida para quem apenas consome drogas. A partir de então, estipulou-se as seguintes penas para usuários de drogas: advertência sobre os efeitos das drogas; prestação de serviços à comunidade e medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativos. A Lei Antidrogas, no entanto, não descriminalizou a conduta de porte de entorpecente para consumo próprio, apenas diminuiu a carga punitiva. A posse de drogas para uso pessoal continua sendo crime.

da atitude anterior do sujeito, e não a condenação, o julgamento”, ressaltou a técnica. Samuel Wanderson, 25 anos, reconhece a oportunidade de conseguir resolver um deslize. “A lição é clara: não se envolver com essas coisas. Não quero repetir essa experiência. Além de tudo, foi muito bom pelo fato de fazer novas amizades e pelo incentivo das pessoas do grupo. É um estimulo para estabilizar a vida”, enfatizou o jovem. Para desenvolver os encontros do programa educativo, o NPC fez parceria com o Centro de Atendimento Psicossocial para Usuários de Drogas (CAPSad), uma instituição da prefeitura que oferece atendimento à dependentes de álcool ou outras drogas, e com o programa Papo Legal, da Terra da Sobriedade, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), que trabalha em prol da prevenção, recuperação e reinserção de dependentes químicos na família e na sociedade. Durante os encontros, foram discutidas a contextualização histórica da lei antidrogas, as novas perspectivas de atuação junto ao usuário, os mitos e verdades sobre o consumo de entorpecentes, como ocorre a motivação para o uso e a motivação para o tratamento da dependência. Ainda houve a apresentação de uma cartilha com informações sobre a rede de atendimento ao usuário de drogas como o CAPSad, o Centro Mineiro de Toxicomania e o SOS Drogas. Os próximos grupos de beneficiários serão atendidos através de uma licitação da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) com uma instituição que promoverá esses encontros socioeducativos e com caráter de pena alternativa. A Ceapa continuará fazendo a intermediação do poder judiciário com a entidade selecionada. “Espero que a iniciativa continue para alertar outras pessoas sobre os males que as drogas promovem”, deseja o beneficiário Cristiano Teixeira, de 29 anos. Núcleo Ribeirão das Neves - Centro Pça. da Esplanada, s/n, casa 16 Ribeirão das Neves [31] 3625-4687


Caminhada

Fica Vivo! movimenta comunidade do Novo Aarão Reis, em Belo Horizonte Jovens percorreram as ruas do bairro com objetivo de atrair novos participantes

Fotos: Paulo Proença

Ao som de tambores e berimbaus, cerca de 150 jovens do Novo Aarão Reis percorreram as ruas do bairro, no dia 27 de junho, para divulgar as atividades que desenvolvem por meio do Fica Vivo!. O evento Na correria com o Fica Vivo!, promovido pelo Núcleo de Prevenção à Criminalidade (NPC) do bairro Ribeiro de Abreu, teve como objetivo atrair jovens do local que ainda não participam do programa. Atualmente, 350 meninos e meninas da região, todos na faixa etária de 12 a 24 anos, aprendem teatro, dança de rua, axé, capoeira, grafite e futebol masculino e feminino através de oficinas. A caminhada partiu da Unidade Municipal de Ensino Infantil (Umei) Betinho, onde integrantes da oficina de teatro declamaram textos, escritos por eles mesmos, que falavam sobre o que os jovens querem. A frase “Precisamos de incentivo e amor de verdade, só trabalho criativo transforma a comunidade” foi uma que teve destaque. O grupo da oficina de capoeira apresentou-se em uma grande roda animada por todos os presentes. Guiados pelo grupo de percussão do bairro Paulo VI, outra região atendida pelo Fica Vivo!, o cortejo seguiu pelas ruas do Novo Aarão Reis, fazendo paradas em pontos estratégicos. Em cada pausa, havia uma nova performance de teatro do grupo e apresentações de diferentes oficinas do programa. “Organizamos a caminhada para atender ao desejo dos jovens que já participam. Eles acham o programa muito legal, mas pouco conhecido. Muitos amigos deles poderiam participar, mas não vão por desconhecimento”, conta Wilson Paquil, oficineiro de teatro e responsável pela direção artística e dramatúrgica do evento. O trajeto seguiu sob o embalo dos versos “Ô venha pra cá, venha conhecer, quanta coisa boa que espera por você. Se você não acredita, eu vou mostrar pra você”. A música e a animação chamavam a atenção dos moradores, que saíam de suas casas para assistir às exibições e recebiam, das mãos dos jovens, folhetos com a relação de oficinas oferecidas no bairro, com local e horário de realização.

“É muito legal participar do Fica Vivo!. Antes eu ficava em casa, sem fazer nada. Agora tenho uma atividade”, diz Welbert Felipe da Silva, 16 anos, que participa da oficina de axé. Sabrina Alves Roberto faz parte do grupo de teatro e diz ter descoberto sua paixão. “Quero ficar no teatro até estar velhinha”, planeja. O oficineiro de capoeira Pedro Vanderlei Ferreira Júnior ressalta a importância da intervenção na comunidade. “Em várias partes do bairro, os moradores não conheciam o programa”. Ele acredita que a oportunidade de participar de atividades culturais pode ajudar os jovens a focarem suas vidas longe da criminalidade. “Muitos participantes da minha oficina já falam que querem ser professores também. Isso faz com que eles usem o tempo para conseguir as graduações até tornarem-se mestres e alcançar esse objetivo”. Correria A caminhada pelo bairro recebeu o nome de Na correria com o Fica Vivo! com base na tentativa da equipe técnica do programa de se apropriar de uma gíria comum entre os jovens da região. “Eles usam essa expressão para chamar os colegas para alguma atividade, sendo que muitas vezes é para a prática de coisas erradas. Nossa intenção foi partir desse lugar que eles já conhecem, mas utilizando para uma coisa positiva”, explica a técnica social do programa, Juliana Reis. A última parada aconteceu na praça principal do bairro, na avenida Hum, onde os jovens da oficina de grafite mostraram suas habilidades de desenho e pintura em um muro autorizado. O encerramento aconteceu na Escola Municipal Hebert José de Souza, com um lanche especial servido para todos. Nos próximos meses, a equipe técnica do programa irá monitorar o número de participantes das oficinas do bairro para avaliar os resultados do evento.

Núcleo Ribeiro de Abreu R. Feira de Santana, 12 Belo Horizonte [31] 3435-9583 3


Cinema

Fotos: Pimenta Filmes

Documentário de jovens da PPL foi exibido em festival internacional de cinema

As andanças de um grupo de jovens, moradores da Pedreira Prado Lopes, pelas ruas e becos do aglomerado foram tema do documentário Pedreira em Ação, exibido em 2 de junho no CineCufa 2009 - O cinema na tela da favela. O festival internacional de cinema, que aconteceu no Rio de Janeiro de 30 de junho a 5 de julho, exibiu produções realizadas por moradores e representantes de favelas do Brasil e de outros países. O documentário foi um dos selecionados entre mais de 350 filmes inscritos e também foi exibido no bairro Cidade de Deus, em 5 de julho, como parte da mostra itinerante do evento. Pedreira em Ação exibe, em 33 minutos, diversas atividades desenvolvidas pelo Grupo Mobilização, formado por cerca de 25 jovens do Aglomerado Pedreira Prado Lopes. O grupo nasceu em 2005 fomentado pelo Fica Vivo!. Em 2008, o programa Mediação de Conflitos propôs a realização do projeto temático Mobilização, tendo como foco a reorganização desses jovens. “O objetivo era constituir capital social e humano a partir da articulação da juventude, fazendo com que ela volte seu olhar para questões inversas à criminalidade”, explica Corinne Julie, técnica social do Mediação de Conflitos. O curta-metragem Pedreira em Ação é um

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Caminhada marcou a Luta Antimanicomial em Ipatinga

dos produtos do projeto, feito em formato de making of para registrar e multiplicar o trabalho e o conhecimento desenvolvidos pelos jovens nas ações comunitárias. O roteiro das filmagens foi desenvolvido com a participação do grupo, orientado por uma produtora de vídeo. As imagens mostram momentos como as reuniões semanais realizadas pelos jovens e um encontro que aconteceu em um hotel fazenda para discutir temas como gravidez na adolescência e o envolvimento com a criminalidade. “Nosso objetivo é divulgar o trabalho dos jovens com a comunidade. Foi por isso que inscrevemos o documentário nesse e em outros festivais, para que não fique arquivado”, ressalta Jozeli Rosa de Souza, uma das jovens do Grupo Mobilização. Um fórum comunitário promovido

pelo grupo também é mostrado no documentário. Nessa ação, os jovens percorreram a comunidade levantando as principais dúvidas da população a respeito das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, que estão acontecendo na região. A partir das questões apontadas, foi realizado o 1º Fórum de Ação, no qual representantes da Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel) responderam às questões dos moradores.

Núcleo Pedreira Prado Lopes R. Arariba, 235 Belo Horizonte [31] 3422-5567

Tome nota

NPC Jardim Felicidade tem novo endereço O Núcleo de Prevenção à Criminalidade (NPC) do bairro Jardim Felicidade, em Belo Horizonte, está em novo endereço: rua Tenente João Ferreira, 85, Jardim Guanabara. Os telefones de contato são (31) 3435-3569 e [31] 3435-1381.

Expediente Instituto Elo Diretor-Presidente: Kris Brettas - Diretor Administrativo-Financeiro: Gleiber Gomes Informativo Núcleo em Rede Assessora de Comunicação: Liliane Lessa - Jornalista Responsável: Ana Paula Ferreira (12606/MG) Reportagem e redação: Ana Carolina Jácome, Ana Paula Ferreira e Paulo Proença Design Gráfico: Henrique Cardinali e Sônia Silva Tiragem: 2.000 exemplares - Impressão: Pampulha Editora - Publicado em 27 de julho de 2009 Rua Guajajaras, 40, 10o andar, sala 3 - Belo Horizonte - MG - 30.180-100 www.institutoelo.org.br/ Contatos: (31) 3309-5617 / comunicacao@institutoelo.org.br

Nova sede do NPC Jardim Felicidade

O Instituto Elo é uma associação privada sem fins lucrativos, qualificada como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) pelos governos federal e estadual, que atua na gestão de projetos em parceria com as iniciativas pública e privada. Nos Núcleos de Prevenção à Criminalidade, o objetivo do Instituto é desenvolver, em parceria com a Secretaria de Estado de Defesa Social, ações relativas à prevenção social da criminalidade e da violência por meio da implantação, desenvolvimento e consolidação dos NPCs. Neles, são executados os programas Fica Vivo!, que atende jovens em situação de risco social; Central de Apoio às Penas Alternativas, responsável por monitorar o cumprimento de penas e medidas alternativas; Reintegração Social do Egresso do Sistema Prisional, que trabalha para a reinserção das pessoas que deixaram o sistema penitenciário; e Mediação de Conflitos, voltado para a resolução extrajudicial de problemas.


Núcleo em Rede - Julho/2009 - Edição 9  

Informativo mensal produzido pelo Instituto Elo no Termo de Parceria celebrado com a Superintendência de Prevenção à Criminalidade (Spec), d...

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