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Informativo do movimento indígena do Distrito de Iauaretê EDITORIAL

DESTAQUES DESTA EDIÇÃO

Este informativo é parte do projeto 375 PDPI - Manejo Pesqueiro em Iauaretê vol. 2 ed. 1, agosto de 2010

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L adilson F ontoura F reitas /CEPI, 2010 e A ndré M artini /ISA, 2009.

A queima da casa do CERCI

Como vocês, leitores, poderão ler neste número, enfrentamos dificuldades e passamos por muitas tristezas: dentre elas, talvez a maior tenha sido o incêndio criminoso da casa coletiva (wi’i) do CERCI, que deixou órfãos por toda a Iauaretê, desde alunos que aprendiam as danças tradicionais naquele lugar até mesmo professores que, com os velhos conhecedores, vinham aprendendo os conhecimentos originais dos povos indígenas do Alto Rio Negro. Dificuldades, também, aconteceram com o trabalho da Estação de Piscicultura, por conta do fenômeno Im¡koho dikayusehe, que os não-indígenas chamam de mudanças climáticas. Refletindo a partir da cultura tradicional indígena, nesse número os técnicos tentam entender o que aconteceu e pensar junto com a comunidade.

Maloca do CERCI, antes e depois do incêndio criminoso.

COIDI recebe a posse do Hospital São Miguel

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Mas as dificuldades são sempre enfrentadas e, por isso, temos também boas notícias. A continuidade das oficinas técnicas e de conhecimentos tradicionais, uma parceria entre a Escola São Miguel, a Estação de Piscicultura, o CERCI e com a participação de diversos conhecedores da região tem permitido que os jovens entrem em contato com muitos conhecimentos fora da sala de aula. Como os leitores poderão ver, este trabalho tem sido muito importante para a Escola São Miguel.

D ácio T eixeira /CEPI, 2009

Espaço para atividades culturais e políticas dos moradores de Iauaretê e região é o que não falta. Com apoio da Diocese de São Gabriel, o antigo prédio do Hospital São Miguel foi repassado para a COIDI, e existem planos para que ali seja implementado um grande centro cultural, com biblioteca, sala de inclusão digital, laboratório audiovisual, sala de exibição de cinema e espaços para atividades coletivas.

Nivaldo Castilho, presidente da COIDI e Dom Edson, Bispo de São Gabriel da Cachoeira, durante ato de cessão do prédio do antigo Hospital de São Miguel para a COIDI.

E MAIS Oficinas já realizadas pelo Projeto Manejo Pesqueiro 4 Estação de Piscicultura e mudanças climáticas 7 Ministério da Cultura adota projetos culturais dos povos indígenas do Rio Negro 8 Escola São Miguel - uma nova história 10 CEPI - Pesquisadores indígenas

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Então, leitores, quando as dificuldades parecem maiores que a força do movimento indígena, uma grande porta é aberta. Registramos nesse número a visita informal do Secretário Executivo do Minc, Alfredo Manevy, em Iauaretê, que resultou na criação de um programa cultural para o alto e médio Rio Negro, com a finalidade de apoiar as atividades de registro, pesquisa e valorização cultural que acontecem em toda a região. Portanto, esperamos que em breve, no terceiro número do Katisehé, tenhamos muitas outras boas notícias para contar para vocês. Enquanto isso, gostaríamos de receber sugestões e mesmo críticas dos parentes sobre o conteúdo dos informativos Katisehé; quem quiser colaborar, basta entrar em contato com a direção da Escola São Miguel, em Iauaretê.

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O que podemos pensar sobre a queima da casa do CERCI De acordo com os sábios indígenas, na verdade a casa coletiva (wi’i) é uma pessoa viva, desperta através de benzimentos de vitalidade e proteção contra ataques de inimigos e espíritos da natureza. Representada por uma mulher, avó do universo (ye’pa masó Tukano), seus esteios são suas pernas e braços; seus caibros são suas costelas; os cipós que prendem o caraná às ripas são suas veias, e o caraná que cobre essa casa são seus cabelos. Assim como a avó do universo protegeu os ancestrais que estavam se transformando durante a viagem da cobra de transformação (pamîri yukisi’i), a casa coletiva protegia seus habitantes. Antigamente cada grupo indígena vivia em seu território. O grupo de irmãos do mesmo clã e suas mulheres viviam numa mesma grande casa, chamada de wi’i, junto aos pais e avós. Essa casa é uma réplica de todo o universo, e pode ser comparado a outros lugares sagrados, pamîri wi’i, onde as pessoas vivem, adquirem conhecimentos e se transformam de crianças para adultos e, finalmente, nos sábios anciões.

A ndré M artini /ISA, 2009

Antes da chegada dos missionários católicos, as pessoas viviam nesse ambiente da paz e tranqüilidade (a’pekósehé), criando seus filhos, partilhando alimentos, fazendo as cerimônias para que as constelações passassem com tranqüilidade, sem trazer doenças. Ali também recebiam seus cunhados e amigos, oferecendo ou recebendo dabucuris, fortalecendo a ligação entre os grupos indígenas.

Interior da Casa coletiva, esteio com pinturas e instrumentos de dança, que contam sobre o surgimento da humanidade.

No dia 25 de dezembro de 2009, na noite de natal, um dos patrimônios mais importantes de todo o distrito de Iauaretê, a casa coletiva (wi’i) do Centro de Revitalização das Culturas Indígenas de Iauaretê (CERCI) foi criminosamente incendiada e completamente destruída. Nesse número do Katisehé, gostaríamos de dar destaque a esta tragédia, nunca antes contada por escrito, tratando da história dessa casa de conhecimento, para fazer as pessoas entenderem o que representa este crime contra todos os povos indígenas da região.

Partimos do que chamamos “movimento de revitalização cultural”, que hoje acontece em todas as regiões do Rio Negro. Ele é a tentativa de retomada e registro dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas que, com a chegada dos missionários salesianos, foi rotulada como “atrasada” e mesmo “satânica”. Todos foram proibidos de realizar suas festas e viver da forma como os ancestrais viviam. A partir do final da década de 80, o movimento indígena se organizou para exigir seus direitos, garantidos pela Constituição Federal: de ter suas terras reconhecidas, sua cultura e modo de vida respeitados. Esse movimento, liderado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), conseguiu grande vitória em 1998, quando foi reconhecida e homologada a Terra Indígena do Alto Rio Negro. Com a garantia de suas terras, foi a vez de lutar para melhorar a condição de vida de seus habitantes e valorizar sua cultura.

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Em diversas regiões do Rio Negro, surgiram iniciativas para valorizar a cultura indígena: as Escolas Indígenas Diferenciadas, com formação e valorização de professores indígenas; os registros de patrimônio cultural, como a série “Narradores Indígenas”, organizada pela FOIRN e, também, a ideia de reerguer as casas sagradas para retomada das danças e cerimônias tradicionais. Em Iauaretê, a idéia de criar uma casa coletiva para abrigar o Centro de Revitalização das Culturas Indígenas de Iauaretê (CERCI), surgiu no primeiro encontro realizado pelos diretores do Centro, na comunidade de Santa Rosa, Alto Uaupés, nos dias 27, 28, e 29 de agosto de 1999. Houveram ainda mais dois encontros: o segundo, realizado na comunidade de São José de Iauaretê, com o objetivo de discutir o tema da Pagelança, Kumuá e Bayaroá; e o terceiro, cujo tema foi medicina tradicional, discutido na terceira assembléia realizada em Iauaretê nos dias 2 a 5 de Outubro de 2002 na comunidade de Aparecida. Nessas reuniões estiveram presentes 131 alunos e 5 professores. Esses encontros foram realizados com apoio da Organização não-governamental Saúde sem Limites (SSL). Foi no quinto encontro, realizado no dia 7 de Abril de 2005, com a participação das 10 comunidades que compreendem o povoado de Iauaretê, juntos a outras associações e professores, que a idéia de um centro para revitalização da cultura indígena começou a se concretizar. No dia 11 do mesmo mês a limpeza da área onde seria construída a casa coletiva (wi’i) foi iniciada; apenas 5 pessoas estavam ajudando na ocasião. O trabalho terminou no dia 14 de Abril. Todo o trabalho de preparação do terreno durou três semanas. No dia primeiro de Maio de 2005, um grupo de pessoas viajou para a comunidade de Paraná Jucá, onde tiraram os esteios, travessões e caibros necessários para construir a casa. Essa atividade durou 3 semanas. Esses materiais foram transportados com o barco Calha Norte até o porto principal de Iauaretê, onde tiveram de ser carregados pelas pessoas até o terreno da casa, em Aparecida. O caraná para a cobertura foi adquirido junto ao pároco de Iauaretê, sendo necessárias 3 viagens para o transporte completo. Assim, o esqueleto da maloca começou a ser arquitetado. Para erguer a casa sagrada do CERCI, foram necessários mais 11 meses de trabalho, pois havia apenas 8 diaristas que estavam ajudando a procurar cipó, caibros, ripas e cascas de Envira. Ao final conseguimos 500 cascas e 1.002 feixes de caraná. Todos estes custos foram apoiados pelo PDPI, através do projeto 97 – revitalização cultural de Iauaretê

Nossa casa sagrada foi inaugurada do dia 19 de Abril de 2006, considerado pelos não-indígenas como “dia dos índios”. Foi um grande passo em nome da cultura. Poucos tiveram a coragem de, inicialmente, seguir essa idéia; mas, no final, toda a população de Iauaretê aprovou: renascia novamente o interesse da população, especificamente da juventude, com relação à cultura da qual eles sempre fizeram parte. Desde a sua inauguração, o CERCI passou a ser um tipo de instituição semelhante à escola, onde todos os ensinamentos e conhecimentos culturais tradicionais podiam ser obtidos pelos moradores de Iauaretê de maneira apropriada, sejam eles assalariados, professores ou jovens alunos. A maior escola de Iauaretê, São Miguel, também passou a dar valor à importância desse centro de cultura. Foi ali que muitos alunos aprenderam as danças e a tocar os instrumentos pertencentes a sua etnia, além de entenderem seu surgimento e todos os seus significados. Toda a riqueza que ainda tinha persistido ao tempo e à ação dos missionários foi repassada para as gerações posteriores graças aos movimentos e eventos que foram realizados pelo CERCI. Ali foram preparados dois livros, um deles sobre medicina tradicional e o outro para que as crianças aprendessem a origem dos povos indígenas desde cedo. Com o incêndio da casa coletiva do CERCI, todo esse trabalho foi perdido. Quem gostava de freqüentar o local para aprender sobre medicina tradicional, benzimentos, narrativas de origem, danças com vários instrumentos e até mesmo a forma apropriada de tratar os parentes não têm mais essa oportunidade. O prejuízo material ficou por volta de 180.000 mil reais; mas os danos para o movimento indígena, para a cultura e para os jovens de Iauaretê e região não podem ser calculado em dinheiro.

A ação de uma ou mais pessoas irresponsáveis que incendiaram a casa coletiva (wi’i), e que vão sofrer as conseqüências por destruírem um lugar sagrado, não pode representar o fim dessa luta. O movimento indígena está conseguindo recursos para a reconstrução de uma nova casa sagrada, onde os enfeites dos antigos possam voltar a ser usados. As famílias de Iauaretê poderiam perceber a importância deste movimento, ajudarem a reerguer este patrimônio que era de todos e ajudar os jovens a entenderem e valorizarem as coisas que são feitas com muito esforço em benefício da comunidade.

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Oficinas realizadas (PDPI)

no primeiro semestre de 2010

A rlindo M aia /EPY a , 2010

A rlindo M aia /EPY a , 2010

Dando continuidade às atividades de formação de alunos em conhecimentos técnicos e tradicionais, apresentadas no boletim anterior (dez/2009), neste semestre foram realizadas as seguintes Oficinas:

W9hêkihi p5’õki, puças produzidos pelos alunos durante a oficina de tucum.

Instrutor fazendo matapi durante oficina de armadilhas tradicionais de pesca.

Oficina de Tucum

Armadilha de pesca tradicional

Essa oficina de tucum aconteceu na primeira quinzena do mês de novembro de 2009, durante 5 dias. As instrutoras foram duas mulheres da AMIDI (Associação das Mulheres Indígenas do Distrito de Iauaretê), Elza Brazão e Otília Alves, especialistas no trato com o tucum. Trinta alunos aprenderam fabricar duas espécie de puçá, puçá enfiado(w9hêkihi p5’õki) e puçá amarrado (w9hêkihi di’téki).

Esta oficina foi dedicada à construção de miniaturas das armadilhas de pesca tradicionais: matapi (kasawí) e matapi de lua (muhîp7 kasawi), cujo esta última poucas pessoas dominam a técnica de construção na região. Eles aprenderam que estas armadilhas exigem muitas regras de comportamento para serem feitas: tem de fazer silêncio; tem que estar em abstinência sexual; e não pode nem mesmo espantar insetos, porque, caso contrário, essa agitação passa para armadilha, que é percebida pelos peixes. No caso do matapi de lua (muhîp7 kasawi) é mais eficiente que outros matapis, os peixes não conseguem escapar; por outro lado, irrita mais os peixes que não são capturados – o ideal é usar um benzimento para isso não acontecer (o que não foi ensinado na oficina, apenas mencionado).

O puçá enfiado é utilizado para recolher os peixes pequenos após a aplicação do timbó, por exemplo; enquanto o puçá amarrado é usado para recolher peixes maiores, inclusive os que estão boiando após realizarem a piracema. Este último puçá (w9hêkihi di’téki) exige as mesmas regras de comportamento citadas para os matapis. É importante destacar que o processamento do tucum atualmente é visto como uma atividade feminina, pois as mulheres fazem enfeites para vender, entre outras coisas. Mas antigamente os velhos faziam suas linhas de tucum para pescar, a partir das folhas verdes, adultas, enquanto as mulheres usam a rama, que ainda não deu folhas. Isso foi ensinado na oficina, ou seja, que o tucum não é um trabalho exclusivamente feminino.

Esta oficina teve a participação dos 30 alunos da escola São Miguel e aconteceu na última semana do mês de outubro de 2009, durante cinco dias. Os instrutores foram Guilherme Maia e Laureano Maia da etnia Tukano e diretores do CERCI. Participaram também 4 professores que acompanhavam os alunos. (ver box na página 6)

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I sraelI srael V ieiraV,ieira 2010 , 2010

A rlindo M aia /EPY a , 2010

Oficina de extração de hipófises e técnicas de piscicultura.

Oficina de construção de viveiro semi-escavado.

Extração de hipófise (reprodução artificial de peixes)

Construção de viveiro semi-escavado

Na primeira quinzena do mês de abril de 2009, os instrutores foram os dois técnicos da estação piscicultura: Jaciel Freitas e Israel Arcanjo. Eles ensinaram a retirar uma glândula que fica na cabeça dos peixes (hipófise) que, quando preparada e injetada em outros peixes adultos, fazem com que se reproduzam, mesmo fora da piracema. Essa oficina contou com a participação de dez alunos da Escola São Miguel, e durou cinco dias. Nesse período, os alunos também tiveram oportunidade de contar pós-larvas de arari-pirá (total de 80.000 mil) e pós-larvas aracu de três pintas (dûume), (total de 20.000), contribuindo, assim, com o trabalho prático da estação de piscicultura.

Na última semana do mês de março e primeira semana do mês de abril de 2010, 80 alunos da escola São Miguel do ensino médio e fundamental tiveram uma oficina de como se constrói um viveiro semiescavado para criação de peixes em cativeiro. Os instrutores foram os técnicos da estação de piscicultura Zezinho dos Passos e Israel Vieira. Além de ensinar a técnica necessária para construir viveiros, o objetivo desta atividade era também construir um viveiro próximo à escola, para que os alunos praticassem a piscicultura freqüentemente. Esta atividade está em andamento: o que aconteceu foi que esta obra foi iniciada bem no começo da estação das chuvas aqui na região, o que impediu o término da construção da barragem. Por isso vai ela vai continuar no segundo semestre, quando acontecer o inicio do sol no mês de setembro.

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O cuidado necessário para se trabalhar com as armadilhas tradicionais de pesca

A rlindo M aia /EPY a , 2010

J ulio C ezar T rindade /CEPI, 2010

É importante saber que a pesca é uma atividade arriscada para quem a pratica. Lembramos que, antes da transformação, todos viviam juntos: peixes, animais, plantas e quem viria a se transformar em gente. Depois da transformação, alguns grupos étnicos herdaram o nome de alguns peixes (doê, bu’û, bo’teâ), o que mostra essa ligação de origem, e explica porque antigamente os mais velhos não comiam peixes do rio – apenas pequenos peixes do igarapé. Com o passar do tempo, com a transformação dos povos (pa’mîri masa) e com as migrações para os grandes rios, os pa’mîri masa foram pegando essa prática de se alimentar com os peixes grandes, sempre se protegendo para que não adquirir doenças.

Matapi construído durante oficina de armadilhas tradicionais de pesca.

Sr. Guilherme Maia, presidente do CERCI e instrutor de conhecimentos tradicionais ensinando aluno da Escola São Miguel a fazer um matapi.

No caso do preparo de armadilhas, o importante é que os peixes não consigam percebê-la no rio ou igarapé. Para isso, existem diversas condutas que o pescador deve seguir se quiser que sua armadilha funcione.

Quando se faz um cercado, um matapi, um cacuri ou um caia, em primeiro lugar tem que tirar materiais como jupati (bupú) e cipó (misî) sempre em jejum; mais importante quando faz o matapi, cacurí ou caiá é ficar muito atento, não espantar mutuca (nurâri) nem abelha (mumîk5) quando voam perto de seu ouvido (ti’oripé), afastar o animal apenas com o uso de um graveto (yukî dipi); não pode urinar (õ’ré), mas, se tiver que urinar não pode pegar no pênis, e a solução é fazer um mini gancho (no’p5hiakã), e, por fim, não pode responder se outra pessoa pergunta.

Os conhecedores que deram oficinas neste tema passaram informações importantes: primeiro, que essas armadilhas eram apenas construídas pelos homens – se as mulheres fossem fazer isso, não conseguiriam produzir tapioca, por exemplo. Quando se constrói o cercado, ou um matapi, este conhecimento já vinha sendo transmitido pelos ancestrais: tem regimento de jejum (peixe, caça, pimenta fresca, comida quente, coisas doces), desde quando tira o cipó para amarrar o cercado até a instalação da armadilha no rio ou igarapé. Antigamente segundo disse um de nossos instrutores, os pais e avôs recomendavam que, quando a pessoa tem esposa, não pode ter relação sexual durante o período de trabalho; é preciso também pouca conversa com a esposa; sair da casa ainda no escuro e, também, o pescador precisa se alimentar bem pouco. Durante atividade de fabricação e instalação da armadilha, pouca conversa; nada de peidar (I’tâ puti) e nem se assustar com qualquer coisa. O cheiro do sexo e o sentimento do susto passa para a armadilha, que espanta os peixes.

Para concluir todo o trabalho tem que fazer um benzimento (basesehé) no local criando como se fosse uma casa de dança (wi’í), organizando tudo com o pensamento, principalmente a bebida caxiri - todas as espécies -, com seus coxos bem mornos. Com isso, durante a piracema, os peixes poderão realizar uma boa festa (reprodução): é que, na verdade, para eles é o dia de dança da gente peixe (wa’î masa) que literalmente fazem festa; os peixes são os seus enfeites como cocares, chocalhos etc... Se todas estas armadilhas forem bem preparadas os peixes não vão se assustar e tão pouco eles vão percebê-las: aí se captura sem problema os peixes para a alimentação. Quando não se obedece estas regras, poderá perder todo o seu trabalho; sua esposa não vai dar carinho e a família poderá pegar doenças.

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Estação de Piscicultura

E uclides

da

C unha /CEPI, 2009

os desafios com as mudanças do tempo e os conhecimentos tradicionais

Cercado tradicional no igarapé Miriti, armadilha usada em função das variações do nível da água.

A mudança climática (Imîkoho dikayusehe) influencia muito na vida cotidiana dos pa’mîri masa. O verão (ki’má) e o inverno (po’êki) não ocorrem como antigamente. Para os povos indígena da região, vazante e enchente são fundamentadas pelos ciclos de constelações e ecológicos, como ãyâ (jararaca), pamô (tatu), mihâ (jacundá), dasiáw5 (camarão), yaî (onça), yõkoa teéro (pleiades) wa’î kasa (jirau de peixes), siô yapu (cabo de enxó), yehê (garça), diâ yo’o (ariranha) e uû pahigi (jabuti).

Nossos pais, e os mais velhos, sabem que todas as atividades indígenas se baseiam nesse ciclo, como por exemplo, a época de construção de cacuri, de caiá e cercado de matapi, e também, as práticas de agricultura. Por isso, a equipe da estação de piscicultura não teve tempo de construir cercado no igarapé miriti como fazia em outros anos. A explicação é simples, a época da enchente (po’êro) chegou fora do tempo; por isso as piracemas dos peixes aconteceram sem ninguém esperar, totalmente fora do tempo. Ainda mais os peixes não têm desenvolvido seus óvulos para uma boa reprodução. Na estação de piscicultura, Imîkoho dikayusehe (mudança climática) afetou bastante as atividades

realizadas, especialmente, em relação a reprodução dos peixes. Esse ano essa atividade foi muito fraca, inclusive, foi perdida a época de piracema - principalmente do aracu riscado. O po’êro (enchente) chegou fora do tempo, isso dificultou na captura de peixes da piracema para a colheta de ovos para serem incubados nos laboratórios da estação. Outros fatores que prejudicaram o trabalho foi que os viveiros da estação de piscicultura ficaram com baixo nível da água, o que ajudou a aquecer a água dos açudes, principalmente da barragem I, o que resultou na perda dos ovos da espécie de aracu riscado; o abastecimento de água suja nas incubadoras dificultou a eclosão dos ovos pois esta espécie é muito sensível. Aconteceram problemas também com as plantações. Com a temperatura muito quente, as frutas não se desenvolveram bem como deveriam, principalmente pupunha, ingá, umari, assai, miriti e etc. Essas frutas seriam usadas para alimentar os peixes e aves que criamos na estação. Já com a criação das aves, aconteceu bem diferente. Teve boa produção de pintos no verão, mas apareceram muitos predadores como Iso yoásõ (jacuraru), aâ (gavião) e assim devoraram quase toda a criação de animais (aves).

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A rquivo

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Ministério da Cultura adota projetos culturais dos povos indígenas do Rio Negro

Apresentação cultural e artística em homenagem ao Secretário Executivo do Ministério da Cultura (Minc), Alfredo Manevy (direita) durante sua visita a Iauaretê.

A parceria entre o Ministério da Cultura (Minc) - através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) -, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e o Instituto Socioambiental (ISA) iniciou-se com a demanda de alguns líderes indígenas do registro da Cachoeira de Iauaretê, em 2004/2005. Nesse tempo, foi conduzida uma pesquisa por Geraldo Andrello (Universidade Federal de São Carlos - Ufscar) e Ana Gita de Oliveira (IPHAN) para compreender todos os significados culturais deste local sagrado para os povos indígenas da região. No ano de 2005, a Cachoeira da Onça foi incluída como Patrimônio Imaterial Nacional pelo IPHAN, o que resultou em um plano de Salvaguarda. Para dar continuidade às atividades culturais e salvaguarda desse Patrimônio Imaterial foi implantada o Pontão de Cultura na FOIRN, que conta com orçamento próprio (repassado pelo IPHAN) para apoiar e fomentar atividades nas áreas de registro, pesquisa e valorização cultural. Em vários momentos a FOIRN e os seus parceiros tentaram integrar todos os projetos de cultura da região em uma única plataforma. De acordo com levantamento conduzido pelo ISA e pela FOIRN, coordenado por André Martini (ISA) e Andreza Andrade, incluindo as sub-regionais da federação, chegamos a um número de 83 projetos em andamento ou em fase de proposição no médio e alto Rio Negro.

No mês de fevereiro deste ano, o Secretário Executivo do Ministério da Cultura, Sr. Alfredo Manevy, veio em período de férias para São Gabriel da Cachoeira. Tomando contato com o trabalho da FOIRN e outras associações de base, resolveu prolongar sua viagem para visitar a Cachoeira da Onça em Iauaretê. Outras pessoas o acompanharam: André Martini – ISA; Erivaldo Cruz – FOIRN e Adão Oliveira. Durante a viagem a comitiva passou pela cachoeira de Ipanoré e aproveitou para visitar o buraco de surgimento da humanidade (pa’m¡ri pee), conforme a tradição dos povos indígenas da região. Chegando em Iauaretê, Alfredo foi recebido pelas lideranças da COIDI, representantes da CERCII, da maloca Koivathe, pela direção, professores e alunos da escola São Miguel, dentre outros. O Secretário executivo Alfredo Manevy e sua comitiva foram convidados pela gestora da Escola São Miguel, Bernadette Araújo da Silva - Tariana, para assistir às apresentações de algumas danças e músicas tradicionais desempenhadas pelos alunos da Escola Estadual Indígena São Miguel.

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Na oportunidade, os sábios da localidade acompanharam e mostraram os pontos mitológicos da Cachoeira da Onça que foram registrados como Patrimônio Imaterial Nacional. Também, a comitiva que acompanhava o Secretário Executivo, juntamente com os líderes locais, foram participar de uma festa tradicional na Maloca Koivathe. Durante o evento foram apresentadas várias danças culturais pelos Tariana do grupo Koivathe; pelos diretores do CERCI, Guilherme e Laureano Maia – Tukano, e pelos alunos da Escola Indígena Tariana. Nessa festa, foram usados os basá busá repatriados do Museu do Índio em Manaus, conforme contamos no boletim Katisehé n.1, Dezembro de 2009. Sempre em clima de alegria, Alfredo conquistou a simpatia das lideranças e dos habitantes de Iauaretê. Tanto que o Secretário Executivo do MINC recebeu o apelido tradicional Wãtî Sipé Mari, por causa de seus cabelos compridos e sua barba prova de que a visita criou laços de amizade entre o Secretário Executivo, sua comitiva e todos os que estiveram presentes nesses eventos.

Elaboração da Plataforma (FOIRN/ISA/MINC) Após o retorno da comitiva que acompanhava Alfredo Manevy em sua viagem até Iauaretê, e da reunião com a direção da FOIRN, o Secretário sugeriu que fizéssemos um documento para firmar uma parceria duradoura com o Ministério da Cultura, do qual ele mesmo participou. Assim nasceu a Plataforma de Cultura do Rio Negro.

O objetivo da Plataforma de Cultura do Rio Negro é integrar as principais ações na área de cultura em uma única linha de ação consolidada num documento de cooperação formal entre as partes. Ela prevê apoio para as atividades culturais desenvolvidas pelos sábios indígenas, pelas escolas e pelos pontos de cultura, além de aumentar a capacidade de realizar esses trabalhos com a possibilidade de doação de equipamentos e com a construção de novos espaços culturais. Por exemplo, está prevista a construção de um grande centro cultural em São Gabriel da Cachoeira, em parceria com a FOIRN, o ISA e Prefeitura Municipal, que doou um terreno para a realização da obra na rua Domingos Sávio. Isso ocorreu durante uma visita de uma comitiva do Minc, entre os dias 9 e 10 de junho deste ano, com a presença do Secretário da Identidade e Diversidade (SID), Américo Córdula; Elaine Tozzi, Coordenadora Geral da Secretaria da Cidadania Cultural (SCC); Ana Gita de Oliveira, Coordenadora Geral de Identificação e Registro/Patrimônio Imaterial/ IPHAN e Débora Peters, assessora da Secretaria Executiva. Durante a visita, foram acompanhados por Erivaldo Cruz e Maximiliano Menezes (FOIRN) e André Martini (Antropólogo/ISA). Outro projeto que já está é a construção de uma Casa (wi’i) de revitalização cultural em São Gabriel da Cachoeira, cujo objetivo é a retomada de conhecimentos xamânicos, incluindo o uso de kapí e outras plantas medicinais. Coordenam este projeto Adão Oliveira, assessor ISA/FOIRN e os conhecedores Mário Tuyuka, Feliciano Lana (Desana) e Higino Tenório (Tuyuka).

Qual a importância dessa plataforma para os povos indígenas do Rio Negro? São Gabriel da Cachoeira é um município cuja população é composta quase que totalmente por indígenas (95%), que pertencem a 23 etnias – aproximadamente 35.000 pessoas. A instalação de um Centro Cultural dos Povos Indígenas, que vai ser um prédio público, ajudará a valorizar a história de resistência cultural desses povos, dentro de uma filosofia geral do Ministério da Cultura, da FOIRN e do ISA de valorizar a cultura e os conhecimentos dos povos indígenas do Rio Negro.

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Portanto, essa nova parceria com o Minc-IPHAN e suas secretarias é um fato histórico para os povos indígenas do rio Negro. Será muito importante, porque beneficiará não somente pequenos grupos localizados, mas toda a população indígena. Representa também uma grande mudança de relação do movimento indígena com o governo brasileiro que, até há pouco tempo atrás, enxergava a cultura indígena como algo atrasado a ser eliminado. Alfredo Manevy recebe documentos com solicitações do grêmio estudantil da Escola Indígena São Miguel.

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Escola Estadual Indígena São Miguel uma nova História em nossas mãos Mudando a História “Após 80 anos de luta enfrentando vários desafios na educação formal, proposta pelos missionários salesianos com o intuito de transformar nosso modo de vida e nos deixar como os brancos, como era na época a política de todo o governo nacional: os brancos achavam as populações indígenas inferiores, e que deveriam deixar sua cultura e modo de vida para se integrar à sociedade nacional.” Com a ampliação dos direitos indígenas para a educação (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), que garante o direito à educação diferenciada para populações tradicionais e indígenas, a Escola Estadual Indígena São Miguel conseguiu finalmente firmar uma de suas perspectivas: propor atividades extra-curriculares em parceria com outros setores de trabalho existentes em Iauaretê. Assim os alunos e os professores da Escola São Miguel começam a freqüentar regularmente o Centro de Estudo de Revitalização da Cultura IndígenaCERCI, Associação das Mulheres Indígenas do distrito de Iauaretê-AMIDI, a Coordenadoria Indígena do distrito de Iauaretê-COIDI e Estação de Piscicultura de Iauaretê (parceiro número um da escola). Todas estas instituições trabalham de maneira a valorizar os conhecimentos indígenas, seja resgatando aquilo que eles têm de específico ou adaptando a tecnologia dos brancos para que eles se enquadrem na realidade social da região. Líderes, professores e comunidades controlando a troca de saberes

indígenas

Essa parceria com outros setores de trabalho completa a educação formal e estimula o aprendizado através de pesquisas. A aprendizagem com a pesquisa tem sido um fator tutor para os alunos e professores da parte diversificada (arte arumã, arte tecelagem, arte, dança e música indígena e a agricultura). Tanto os alunos como professores (parte diversificada) acompanharam as oficinas promovidas pelo projeto “Manejo Pesqueiro”, e que enriqueceram seus conhecimentos através de palestras, amostras e por fim com a prática. Temos visto que no final de cada oficina, os técnicos da estação de piscicultura, que fazem parte do projeto PDPI faziam o possível para apresentar os resultados, sempre registrados por João Arimar, cinegrafista aprovado no curso de VIDEO NAS ALDEIAS DE IAUARETÊ; e também com fotografias tiradas pelos pesquisadores do CEPI e pelos técnicos da estação de piscicultura. Usando estes novos métodos de contar histórias criados pelos não-indígenas, o resultado de cada atividade de oficina foi consolidado para todos os alunos e professores, reproduzindo os conteúdos gerados durante as atividades, que incluem a redescoberta de muitos conhecimentos tradicionais.

Estamos pensando que mais adiante os jovens poderão apresentar aos seus pais e às suas comunidades esses vídeos, essas fotos e mesmo escritos que contam estas histórias. Significa que o resultado dessa parceria está enriquecendo aos alunos e professores o conhecimento de sua cultura, de sua educação e de suas riquezas tradicionais. Temos visto que para a escola, essa parceria com outras instituições indígenas tem dado bons resultados, o que não tinha acontecido há mais de 80 anos com a instituição de ensino formal. Como foi dito no informativo anterior (dez/09), a partir dessa iniciativa os professores mostraram que são capazes de aprender os conhecimentos dos mais velhos e repassar aos seus alunos. Como também muitos alunos já trazem de casa muitas coisas que seus pais ensinaram, mostrando que este saber está vivo em Iauaretê.

Essa forma de trabalho com a escola aumenta seu potencial no campo da educação e consegue atender a demanda do ensino e da aprendizagem na política da educação diferenciada. Valorizar quem somos sem andar para trás A política atual da escola São Miguel é preparar alunos indígenas para enfrentar os dois mundos: dos indígenas e não-indígenas. Por isso, os alunos da escola São Miguel não estão atrelados somente com o conhecimento tradicional e sim paralelo ao conhecimento do núcleo comum para concorrer de igual para igual com os não-indígenas em qualquer instituição de ensino - seja do ensino médio a pósgraduação – seja no mundo de trabalho; mas, também, estarem preparados para viverem a realidade de sua região, habitando suas comunidades. Temos muitas dificuldades, pois a política atual de educação do governo tem motivado aos dos 3º ano do ensino médio, 9º ano e 5º ano enfrentarem a prova Brasil para medir suas capacidades de aprendizagem. No estado do Amazonas, as escolas que atingirem a média ideal nos seguimentos avaliados ganham o prêmio de R$ 30.000, (trinta mil reais) e os professores dessas turmas ganham o décimo quarto salário. Isso tem motivado muita dedicação dos professores e alunos para aumentarem a qualidade do ensino formal. No entanto, essa avaliação do governo ignora todos os conhecimentos indígenas que estamos tentando valorizar com nossas atividades, e, até mesmo, inibem as atividades extra-curriculares. Porque não uma Prova Brasil diferenciada, com participação dos líderes e conhecedores indígenas, em uma equipe interdisciplinar, na sua formulação?

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Centro de Pesquisadores Indígenas de Iauaretê - CEPI

D ácio T eixeira /CEPI, 2010

Mas as atividades do CEPI não param por ai: foram propostos novos temas de pesquisa, dentre eles o suicídio; sobre instituições públicas (federais, estaduais e municipais, associações indígenas); sobre política partidária e por último, a pesquisa sobre grupos étnicos existentes no distrito de Iauaretê. Essa preocupação norteia em Iauaretê, pois os alunos e a própria população local não tem o registro documentário desse conhecimento. Então a idéia é colocar esses temas por escrito e para ficar disponível a todos.

Pesquisadores em atividade de mapeamento de lugares sagrados.

O CEPI tem a função de pesquisar temas relevantes para as comunidades do distrito de Iauaretê, produzir conteúdos a partir de suas pesquisas e disseminar a sua produção. O Centro de pesquisas fez seu planejamento para o ano de 2010, e iniciou seus trabalhos. O primeiro trabalho foi o registro de lugares sagrados na região de Iauaretê (baixo Uaupés/até Campo alto: 03/03/10), (Uaupés a Cima/até Umari: 05/03/10) e (Papuri/até Pari Ponta: 08/03/10), locais estes onde os pescadores freqüentam constantemente, mas que, muitas vezes, desconhecem que é preciso ter cuidado para pescar, seguir regras de comportamento e usar benzimentos para garantir sua saúde. Essa atividade é complementar à pesquisa anterior, qual seja, o Censo Socioeconômico e Pesquisa de opinião sobre Pesca em Iauaretê. As entrevistas dessa primeira pesquisa já foram encerradas, e já temos resultados dos dados de Vila Fátima: lá vivem, atualmente, 139 pessoas, distribuídas em 17 casas, sendo que 90% dos moradores se identificaram como Hupda. Também aparecem vários dados preocupantes, por exemplo: que 2/3 dos jovens entre 16 e 18 anos nunca estudaram, e apenas uma minoria dos jovens da comunidade têm acesso ao ensino médio; que a alimentação por peixes é muito baixa, sendo que cada pessoa chega a consumir por semana, no máximo, 0,3 kg de pescado; e que 80% de toda a entrada de dinheiro vem do governo federal (aposentadoria ou bolsa família). Outro grande impacto dos dados da pesquisa foi saber que nenhuma casa costuma comer junto com residentes de outra, mesmo que façam parte da mesma família – o que representa uma grande mudança do padrão tradicional de consumo de alimentos, que, antigamente, todos partilhavam refeições. Pretendemos demonstrar esses dados em outros produtos e, em breve, teremos os dados de todas as comunidades de Iauaretê.

Fala-se muito do povo indígena ser de cultura oral, que aprende por meio de audição, demonstração e prática. Históricamente, tivemos uma grande mudança com a introdução da educação formal salesiana, que nos ensinou a escrita. Hoje lutamos para que ambas as formas de registro e transmissão de conhecimentos (oral e escrito) seja realmente uma riqueza valorizada na realidade. A cultura oral era/é uma forma de transmissão de conhecimentos dos indígenas, pois, para alguns tipos de conhecimentos especiais, se aplicavam regras tradicionais de transmissão de conhecimentos dentro do grupo étnico e do clã (ni’kí po’rã, como é tradicionalmente chamado com muito respeito) que outros grupos não podem saber. Por outro lado, partindo para documentários e registros dessas riquezas culturais que são permitidos para o conhecimento de todos, podemos utilizar o que aprendemos com os de fora, a escrita, a leitura, e a língua portuguesa, fotografia, filmagens, livros e publicações como esse informativo. Essa promoção humana são instrumentos fundamentais para os que vivem hoje documentarem e registrarem seus conhecimentos, suas tradições, crenças, lendas e até seu modo de vida cultural. O que nos preocupa é como manter este importante trabalho, porque a bolsa desses pesquisadores está terminando no final de agosto (2010). É uma tristeza para a equipe, e esperamos que alguém possa dar apoio como vinhamos recebendo do ISA. Por enquanto, o grupo está animado, apesar de ter passado numa fase muito difícil, quando fala de pesquisa de campo. Agora que tem mais domínio nesse campo de trabalho, termina a sua bolsa. Mas temos perspectivas: como noticiamos na página 8, existe uma grande parceria com o Ministério da Cultura, que poderá inaugurar um Pontão de Cultura em Iauaretê; além disso, em fevereiro de 2011, abrem-se editais para o programa “Ciência na Escola” da FAPEAM, que pode garantir bolsas para os alunos continuarem pesquisando.

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Coordenadoria das Organizações Indígenas de Iauaretê (COIDI)

Muitas vezes a população de Iauaretê não entende e valoriza o trabalho dos líderes eleitos democraticamente, em assembléia. A coordenadoria também não conta com recursos próprios (apenas recebe apoio do Projeto PDPI - Manejo Pesqueiro) e mesmo alguns representantes eleitos abandonaram seus cargos, como o Tesoureiro e a Secretária da instituição. Da diretoria eleita em 2007, apenas Presidente e Vice-Presidente permanecem. Antes de 2009, a COIDI não possuía nem mesmo uma sede própria; tinha apenas uma sala cedida no galpão do antigo hospital. No entanto, aconteceu um fato histórico, quando no mês de Agosto de 2009, a COIDI firmou um documento junto à diocese de São Gabriel da Cachoeira representada pelo bispo Dom Edson para a legalização do repasse da estrutura do antigo hospital São Miguel para ser a sede da COIDI, onde também no momento da assinatura estiveram presentes as seguintes testemunhas: padre Jorge como a testemunha da Diocese, Erivaldo Almeida Cruz representando a FOIRN, Geraldo Veloso Ferreira coordenador do CEPI e Dácio Teixeira, pesquisador do CEPI. Assim se deu o repasse da estrutura do antigo hospital São Miguel que se tornou efetivamente a sede da COIDI O longo processo de ocupação do prédio do antigo hospital, pelo movimento indígena Em 2002, durante a gestão Basílio Brito como Presidente da COIDI, a Diocese atendeu a uma solicitação da COIDI para um escritório, cedendo uma sala. Nessa época, no prédio principal do Hospital, ainda funcionava uma unidade de enfermaria com apoio da Diocese e da SUSAM. Em 2006, essa pequena enfermaria foi desativada, e todo o prédio ficou abandonado. No mesmo ano, a COIDI, por meio do seu presidente José Roberto Nogueira, enviou oficio à Dom Song, então Bispo de São Gabriel, pedindo a liberação de toda a área construída para o movimento indígena. No entanto, haviam planos da Prefeitura Municipal de São Gabriel para inaugurar uma creche no local, mas aconteceram problemas na negociação entre a prefeitura e a diocese - pela questão da cobrança de um aluguel mensal - e a rejeição por parte da comunidade em instalar uma creche em um antigo hospital. Mesmo com a rejeição da instalação da creche no local, ainda foram-se três anos de negociações para que a Diocese finalmente entendesse o objetivo principal da COIDI: construir ali um Centro Cultural, onde todas as associações de base e os moradores da região pudessem ter espaço para trabalhar, se reunir, demonstrar e executar sua arte, além de terem acesso a cinema, internet e biblioteca. Finalmente, com a chegada de Dom Edson, a Diocese decidiu ser parceira desse grande projeto dos povos indígenas da região e cedeu o prédio.

A ndré M artini /ISA, 2009

A COIDI enfrenta suas dificuldades.

Antigo Hospital São Miguel, hoje centro administrativo e cultural do movimento indígena de Iauaretê (COIDI).

Com essa conquista, nosso antigo parceiro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) decidiu aceitar a solicitação do movimento indígena para a restauração do prédio histórico, construído em 1939. Durante o mês de maio de 2009, dois técnicos do IPHAN visitaram o local para fazer um levantamento e desenvolver o projeto de restauração. Eles foram acompanhados por Adão Oliveira, assessor da FOIRN e do ISA, Nivaldo Castilho e Eliseu Pedrosa, Presidente e vice-presidente, respectivamente, da COIDI. Esse levantamento levou em conta o plano de ocupação do movimento indígena: sala de cinema, sala para edição de materiais audiovisuais, centro de pesquisas, local para mostra dos Basá Busá, biblioteca do CERCI e alojamento para membros e colaboradores do movimento indígena.

Expediente CERCI | CEPI | COIDI | Escola São Miguel | Estação de Piscicultura Ya

Organização André Martini, ISA | Arlindo Maia, EPYa | Geraldo Veloso, CEPI Textos e revisão Adão Oliveira, André Martini, Arlindo Maia, Dácio Teixeira, Fátima Maia, Geraldo Veloso, Guilherme Maia, Israel Arcanjo Vieira e João Arimar Noronha Lana Fotos André Martini, Arlindo Maia, Dácio Teixeira e João Arimar Noronha Lana Projeto gráfico Renata Alves de Souza | Tipográfico Comunicação Realização

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Katisehé - Volume 2  

Informativo do movimento indígena do Distrito de Iauaretê. Esta publicação é parte do projeto 375 PDPI - Manejo

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