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| Revisão da Literatura Os Aspectos Psicológicos nos Portadores de DTM Psychological aspects of people with temporomandibular joint dysfunction (TMD) 1

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Fabiana Fernandes NASCIMENTO ; Marilda de Oliveira COELHO ; Guilherme Garcetti RIBEIRO .

Resumo

Abstract

A dor é assunto comum entre a maioria dos profissionais da saúde. Na odontologia especificamente quando se refere a dores orofaciais ou distúrbio temporomandibular (DTM), este assunto vem despertando cada vez mais necessidade de especialistas. Atualmente a DTM é um termo amplo que abrange um grande número de distúrbios funcionais do sistema estomatognático, da articulação temporomandibular (ATM) e dos músculos craniocervicais, com as inter-relações do sistema nervoso e do psiquismo. As pesquisas apontam de modo geral, a participação considerável de fatores psicológicos na etiologia das DTMs. Especialmente nos casos considerados como crônicos, são relatados associações de sintomas de depressão, estresse e elevada ansiedade. No intuito de ampliar a investigação e adaptar mecanismos psiquícos que possibilitem aos portadores de DTMs qualidade de vida, se faz necessário uma reflexão e o entendimento de aspectos de personalidade comum entre os portadores de dores orofaciais, especificamente as DTMs. Este estudo desperta a necessidade de incluir critérios de diagnóstico, centrados nos aspectos psíquicos para uma maior investigação sobre as DTMs. Será que as DTMs podem ser desencadeantes de depressões e estresse, ou seriam estas patologias uma das causas das DTMs?

Pain is a frequently discussed issue among health professionals. In dentistry, specifically when it refers to orofacial pains or temporomandibular joint dysfunction (TMD), demand for new specialists has been increasing. Currently, TMD is an ample term that comprises a wide number of functional disorders of the stomatognathic system, of the temporomandibular joint (TMJ) and of the craniocervical muscles with the interrelations of the nervous system and the psychism. Researches show considerable participation of psychological facts in the etiology of TMDs. Association of symptoms of depression, stress and high anxiety are mentioned especially in the cases considered to be chronic. With the aim to increase investigation and adapt psychic mechanisms that make quality of life possible for the people who have TMDs, it is necessary to consider and understand the aspects of personality which are common among people who suffer from orofacial pains, specifically TMDs. From this study, arises the necessity to include criterion of diagnosis focused on the psychic aspects for a better investigation about TMDs. Do TMDs generate depression or stress, or are these pathologies one of the causes of TMDs?

Palavras Chave

Keywords Temporomandibular joint disfunctionorofacial – disorders of the stomatognathicdepression - stress

Disfunção temporomandibular, dor orofacial e aspectos psicológicos. 1. Psicóloga CRP: 19450/04, Formada pela Universidade de Franca-SP, 2001. 2. Orientadora, mestre e doutora. 3. Co-orientatdor – Especialista em endodontia pela UNESP- Araçatuba e Mestre em Endodontia pela USP Bauru.

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Fabiana Fernandes Nascimento; Marilda de Oliveira Coelho; Guilherme Garcetti Ribeiro.

Introdução Nota-se que a contemporaneidade tem produzido sujeitos cada vez mais ansiosos. Diante disso, algumas patologias têm sido freqüentes no dia a dia da população, dentre elas: depressão, transtornos de ansiedades, bulimia, anorexia, estresse, transtorno compulsivo obsessivo e também as dores orofaciais, destacando as desordens temporomandibulares (DTM). Sendo pouco conhecida a causa exata destas disfunções, acredita-se de maneira geral que há uma somatória de fatores contribuintes, mecânicos, neurofisiológicos e psicológicos que podem influenciar na predisposição da condição de dor orofacial. As pesquisas apontam de modo geral, a participação considerável de fatores psicológicos na etiologia das DTMs. Especialmente nos casos considerados como crônicos, são relatados associações de sintomas de depressão, estresse, e elevada ansiedade. No intuito de ampliar a investigação e adaptar mecanismos psíquicos que possibilitem aos portadores de DTMs qualidade de vida, se faz necessário uma reflexão e o entendimento de aspectos de personalidade comum entre os portadores de dores orofaciais, especificamente as DTMs. No entanto, essa pesquisa busca aprofundar através do olhar da psicologia compreender os traços de personalidade presentes nos portadores de DTMs, e ajudar no preenchimento de uma lacuna existente na bibliografia pertinente aos aspectos psicológicos presentes nessa patologia .Revisão da Literatura

Merskley em 19902, após revisar alguns fundamentos históricos dos conceitos atuais de dor, considera através da história associações simbólicas para a dor. Os primeiros relatos de dor encontrados na literatura são atribuídos aos deuses, que arremessavam suas flechas sobre os seres. Para Aristóteles, a dor era entendida como “uma paixão da alma”, que de certo modo resultava da intensificação de outra experiência sensorial. Platão considerava a idéia de a dor ser oriunda do interior do organismo, uma idéia que provavelmente iniciou o conceito de que a dor é uma experiência emocional4. A subjetividade da dor permeia outras instâncias, e Freud, apresenta a idéia de que os sintomas físicos poderiam resultar de processos de pensamentos. Ele considerou que os sintomas como a dor poderiam desenvolver-se como solução para os conflitos emocionais. Para Nasio (2005)3, “de maneira geral a dor é a expressão de um conflito”. De acordo com o DSM IV, as dores são classificadas em dois grupos: nível ou eixo1, que está relacionado a fatores físicos, e nível ou eixo2, que está intimamente ligado a condições psicológicas. Dor é assunto comum entre a maioria dos profissionais da saúde. Na odontologia especificamente quando se refere a dores orofaciais ou DTM, este assunto vem despertando cada vez mais necessidade de especialistas. Segundo o Dr. Aprígio Zangerolami em entrevista a Silva 9, especialista em dor orofacial (DOF), relata que “O consultório de um especialista em DTM e DOF deve ser preparado para o atendimento de pacientes que tem como queixa principal a dor: Os aspectos subjetivos da dor são os mais importantes a serem considerados no diagnóstico” 7.

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Os Aspectos Psicológicos nos Portadores de DTM

Atualmente a DTM é um termo amplo que abrange um grande número de distúrbios funcionais do sistema estomatognático, da articulação temporomandibular (ATM) e dos músculos craniocervicais, com as inter-relações do sistema nervoso e do psiquismo. Ela tem como sinônimos, disfunção craniomandibular ou disfunção da ATM. Sabe-se que as DTMs acometem uma parcela significativa da população. Apesar de estudadas há muito tempo, não há ainda, um consenso a respeito de seus fatores etiológicos e o melhor tipo de tratamento. Alguns autores acreditam que a cronificação da alguns casos pode levar à quadros de depressão e comorbidades.

Discussão De acordo com Canto em 20051 "O paciente portador de DTM ou DOF é um doente crônico que geralmente demora anos para buscar tratamento. Como os sinais e sintomas são muito subjetivos e podem estar ligados a outros problemas médicos (depressão, enxaqueca, odontológicos), o dentista muitas vezes era o ultimo a ser procurado". Outro fator contribuinte e de importante consideração, são os problemas dentários que podem levar a um mau funcionamento da ATM, causando sintomas como dores de cabeça freqüente, dores de ouvido, estalos ou dores no rosto, etc. Como a maioria das pessoas não sabe que tem DTM, é freqüente ver alguns pacientes passarem por muitos profissionais da área médica como neurologistas, otorrinos, psiquiatras, sem diagnóstico ou tratamento. Vale ressaltar a importância de compreender o indivíduo no modelo biopsicos-

social, para compreender a origem da DTM. Um novo olhar para o portador de DTM necessita ser inserido como requisito para o diagnóstico. Uma vez que a dor desempenha diversos papéis na vida do paciente, dentre eles os ganhos secundários. Nestes casos, portador de DTM passa a barganhar nas relações, e muitas das vezes tornando a dor como um motivo para ser diferente e receber "mais" atenção ou até mesmo vantagens. Dependendo das experiências emocionais vividas principalmente na infância, o portador pode usar a dor para chamar atenção, expressar sofrimentos, substituir outras formas de agressão e até mesmo evitar responsabilidades. Deste modo, a dor pode fazer do paciente o centro das atenções, e em alguns casos passa a ser positivo ao ego, beneficiando o mesmo a partir da experiência dolorosa, dificultando a exclusão da mesma devido aos ganhos secundários. Outro fator importante a ser pensado é que a DTM se localiza na face, tendo ressonâncias diretas no conceito de auto-imagem corporal. A face é uma das formas diretas de interação e utilizamos essas estruturas para expressar sentimentos, emoções e nos alimentarmos. Atualmente o ritmo imposto pela sociedade capitalista, engloba na vida laboral e social, produções em altas escalas e indivíduos mais dinâmicos nas relações. Com isso a sociedade tem sido obrigada a viver com situações estressoras cada vez mais freqüentes no cotidiano, e nem sempre o individuo tem um nível de consciência que permita a elaboração de conflitos gerada por esse novo modelo social. Naturalmente a sociedade evolui, e herda patologias e traços de personalidades cada vez mais individualistas, introspectivos

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Os Aspectos Psicológicos nos Portadores de DTM

introspectivos e preocupados com o “ter” se esquecendo de sentir e “ser”. Nota-se que um dos reflexos dessas mudanças de ritmos de vida, solicita do psiquismo adaptações tanto físicas quanto emocionais. Porém, alguns indivíduos possuem dificuldades de elaborar esses conflitos, que geralmente iniciam na mente, e acabam por atingir o físico em um processo de “somatização”., A DTM certamente tem feito parte desses conflitos. Para Okeson4 é importante para o clínico observar as questões de alterações somatoformes, para que seja adaptado e se necessário modificar o enfoque.

Conclusão Em vista da falta de artigos correlacionando aspectos psíquicos com DTMs encontrados na literatura, fica uma porta aberta para uma ampla linha de pesquisa. Diante desta realidade, torna-se imprescindível compreender o elevado índice de diagnóstico de DTMs na nossa contemporaneidade, e nos faz repensar (descartando as questões fisiológicas e anatô-

micas). Será que as DTMs são fatores desencadeantes de depressões, estresse ou seriam estas patologias uma das causas das DTMs? Quais os aspectos de personalidades presentes em portadores de DTMs?

Referências 1. Canto L. G. Senso crítico e trabalho em equipe. Rev. Assoc. Paul. Cir Dent., v. 59, n. 3, p. 170, 2005. 2. Merskley, H. Some features of the history of the Idea of pain. Pain, n. 9, p. 3-8, 1980. 3. Nasio J. D. A dor de amar. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 100. 4. Okeson, P. J. Dores Bucofaciais de Bell. 5 ed. São Paulo: Quintessence, 1998, 500. 5. Okeson, P. J. Tratamento das desordens temporomandibulares e oclusão. 4 ed. São Paulo: Artes Médica. 6. Oliveira, A. S., Bermudez, C. C., Souza, R. A., Dias, E. M., Castro, C. E. S., Bérzi, F. Impacto da dor na vida de portadores de disfunção temporomandibular. J. Appl. Oral Sci. V.11, n.2, Bauru abr./jun. 2003. 7. Revista associação paulista cirurgiões dentistas 2005; 59(3): 16777 8. Selaimen, C., Brilhante, D. P., Grossi, M. L., Grossi, P. K. Avaliação de depressão e de testes neuropsicológicos em pacientes com desordens temporomandibulares. Ciência & Saúde Coletiva. 12 (6): 1629-1639, 2007. 9. Silva, R. S. Ajustando a mira. Rev. Assoc. Paul. Cir Dent., v. 59, n. 3, p. 167-177, 2005.

Endereço para Correspondência Fabiana Fernandes do Nascimento Av. Vitalino Resende do Carmo, 121 Santa Maria - Uberlândia/MG E-mail: fabiana@integrare.ps.br Tel: (34) 9206-1211V

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