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Pinturas de Felipe Duarte | Curadoria de Aglaíze Damasceno

ME CONTE A EXPERIÊNCIA

MAIS ÍNTIMA

QUE VOCÊ CONTARIA

PARA UM

COMPLETO ESTRANHO

Transformando histórias de desconhecidos em pinturas, descobrimos que temos muito mais em comum que de diferente.


meconte.net catálogo para os apoiadores e parceiros Muito obrigado pelo seu apoio. Nesse breve catálogo apresentamos todas as obras e os relatos que deram origem à elas. Essa é nossa primeira exposição e ela não teria acontecido sem os apoiadores e equipe citados no fim desse catálogo. Caso tenha interesse de adquirir, expor ou representar alguma dessas obras entre em contato: (021) 8133 5531 - Felipe Duarte ( duarte.felipe@gmail.com ) (021) 3439 7472 - Estúdio Pira ( contato@estudiopira.com ) Lembre-se que seu quadro vai vir com o relato gravado sobre belas placas de madeira envernizada. O Meconte.net é uma produção do Estúdio Pira - www.estudiopira.com Essa exposição contou com a curadoria de Aglaíze Damasceno e pinturas de Felipe Duarte. Agradecemos especialmente Sérgio Manhães, Paula Novaes e Cláudia Marquesi e toda a equipe do Espaço Cultural do Banco Central. Caso queira deixar o seu relato para as exposições futuras: www.meconte.net


INTACTO, VIRGENZINHO, NUNCA NA VIDA DÍPTICO ACRÍLICA SOBRE MADEIRA 200 X 140 CM

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO?

Na casa dele, um banho, cama, beijo. Eis que eu descubro o que ele queria: meu cu. Não! Meu cu não! Intacto, virgenzinho, nunca na vida eu havia conseguido dar. Cu pra mim era algo sujo, humilhante e doía. Dor e sexo, desde quando combinavam no meu vocabulário? Mas ele ia comer, via-se nos olhos dele. Adiantava eu dizer não? Adiantava chorar? Foi em vão. De bruços, eu já não sabia se entrava em desespero, chorava, gritava, mordia o travesseiro... Ele me confortava, foi devagar, cuidadoso. Ele certamente sabia o que fazia, sem desespero, um pouco mais de lubrificante, mas putamerda, como doía! Foram minutos infinitos de tentativas, e eu ia me rendendo aos poucos... Lembro-me de ter passado pela cabeça uma sensação de morte: se lutar é pior, se


Na casa dele, um banho, cama, beijo. Eis que eu descubro o que ele queria: meu cu. Não! Meu cu não! Intacto, virgenzinho, nunca na vida eu havia conseguido dar. Cu pra mim era algo sujo, humilhante e doía. Dor e sexo, desde quando combinavam no meu vocabulário? Mas ele ia comer, via-se nos olhos dele. Adiantava eu dizer não? Adiantava chorar? Foi em vão. De bruços, eu já não sabia se entrava em desespero, chorava, gritava, mordia o travesseiro... Ele me confortava, foi devagar, cuidadoso. Ele certamente sabia o que fazia, sem desespero, um pouco mais de lubrificante, mas putamerda, como doía! Foram minutos infinitos de tentativas, e eu ia me rendendo aos poucos... DETALHES DE “INTACTO, VIRGENZINHO, NUNCA NA VIDA“ Lembro-me de ter passado pela cabeça uma sensação de morte: se lutar é pior, se entregue, Natalia. Eu me entreguei. O tempo passou rápido, e eu fui ao inferno e voltei. Mas com a mesma intensidade que alguém experimenta viajando à lua, talvez. Libertei alí a escrava que me habitava. Pensei (e acho que falei): você pode comer meu cú pra sempre, se quiser. QUAL FOI O DETALHE MAIS MARCANTE?

Dor.


UM PSICOPATA AO OLHAR DOS MEUS CONHECIDOS ÓLEO SOBRE MADEIRA 80 X 120 CM

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO?

Sempre fui um livro aberto e dificilmente deixaria de dizer algo a um estranho, contanto, é claro, que não fosse algo que pudesse me fazer mal ou a outra pessoa, porem é claro que as vezes deixamos escapar, correto? Pois bem... eu já namorei e vivi, chegando até a morar com alguém que nunca amei, um momento da minha vida onde me sentia a pior pessoa do mundo, me sentindo inclusive alguém totalmente sem sentimentos, tinha medo até de parecer um psicopata ao olhar dos meus conhecidos na época. QUAL FOI O DETALHE MAIS MARCANTE?

O pensamento de que apesar de ter sido em um momento de caos pra mim, foi quando eu finalmente consegui que a pessoa que eu sempre quis se apaixonasse por mim e estamos juntos.


DETALHE DE “TODOS OS DIAS”

TODOS OS DIAS ÓLEO SOBRE MADEIRA 80 X 120 CM

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO?

Sonho com ela todos os dias. TODOS. QUAL FOI O DETALHE MAIS MARCANTE?

A verossimilhança.


UM DEUS TESUDO ACRÍLICA SOBRE MADEIRA 100 X 140 CM

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO?

Uma vez fodi tão belamente numa praia deserta, sob a luz das estrelas, que um deus tesudo veio me ver. Quando ele chegou tomei um susto tão grande que não consegui mais trepar, mas ele ficou tão seduzido que não me largou mais o resto da noite inteira. QUAL FOI O DETALHE MAIS MARCANTE?

A presença do deus era uma nuvem de consciencia que me abraçava por completo e fazia cada parte da minha pele se arrepiar. Era assim que eu sabia que ele estava lá. E que ainda sei, quando ele calha de me visitar.


LEVEI DUAS SEMANAS PRA CONSEGUIR ENCHER AS BANDEJAS ACRÍLICA SOBRE MADEIRA 80 X 120 CM

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO?

Antes da vasectomia eu ejaculei em duas cubas de gelo que guardei por anos no freezer, pra caso mudasse de ideia com o chegar da velhice. Levei duas semanas pra conseguir encher as bandejas. Em agosto de 2011 viajei a trabalho e pedi pra uma vizinha cuidar da minha casa, botar comida pro gato, essas coisas. Falei pra ela ficar à vontade pra tomar café ou almoçar lá em casa, e podia até atacar o bar, ela gostava de uísque eu tinha umas garrafas de Bala 12 compradas no Duty Free. Só tinha me esquecido de que ela bebia on the rocks. QUAL FOI O DETALHE MAIS MARCANTE?

Foi a parte que eu descobri que minha vizinha bebeu minha porra mesmo


RITUAL ACRÍLICA SOBRE MADEIRA 120 X 120 CM

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO? Ela pensou em Sofia e um tom nublado invadiu sua mente. Pegou a bombinha e começou a tirar o leite dos peitos cheios. O alimento escorria misturando-se à água do chuveiro. As lágrimas escorriam e ela parecia se melar dos líquidos da vida. Era uma longo ritual de prazer e dor. A dor do peito aliviava enquanto se acentuava a dor da alma. Era no fundo um ritual de limpeza. Precisava recomeçar e enquanto aquele leite se formasse era quase impossível descobrir algum atalho. Não dormia mais. Desde aquela manhã suas noites eram observar o sono do parceiro e fechar os olhos e entrar numa espécie de transe. Olhos. Esse foi um dos transes marcantes. Eram muitos olhos, de raças diferentes, de idades diferentes. Mas eram também olhos de planetas diferentes. Olhos de ETS, amendoados ou muito redondos. Eles desfilavam no escuro do quarto num show de emoções. Olhos abertos, espertos, chorosos, suplicantes ou até sorridentes. Ela levantava, se arrastava para o banheiro, lavava o rosto, sentia a angústia, uma espécie de suplício, o desejo de dormir, esquecer. Voltava para a cama e invejava o sono tranqüilo dele. Fechava os olhos e começava a dança dos olhos. Era uma dança silenciosa, como se toda a humanidade (o universo?) desfilasse seus olhos para ela. Parecia ouvir o choro distante de um bebê. Quem estaria alimentando Sofia? O choro de bebês. Muitos bebês choravam. Choravam de fome. Ela resolveu se entregar naqueles inúmeros choros, Ela tinha leite e os bebês onde estavam? De repente os vários chorinhos angustiados viraram um só, e aquele choro ela conhecia. Entregou-se por instantes e pouco a pouco se deu conta do que via. Uma mulher, uma


alimentando Sofia? O choro de bebês. Muitos bebês choravam. Choravam de fome. Ela resolveu se entregar naqueles inúmeros choros, Ela tinha leite e os bebês onde estavam? De repente os vários chorinhos angustiados viraram um só, e aquele choro ela conhecia. Entregou-se por instantes e pouco a pouco se deu conta do que via. Uma mulher, uma sereia, toda dourada sorria para ela. Surpresa, começou a olhar a cena perdendo o espanto e o medo. Afinal a linda mulher sereia sorria, parecia doce. A cena era de uma total harmonia. Perdido, no dourado daquele ser, se viam inúmeros bebês. Todos nus, em movimento, naqueles movimentos de dança dos bebês. Seu olhar foi subindo e lá estava Sofia nos braços daquele anjo sereia. Mamava tranqüila e transmitia toda a paz que uma mãe pode desejar a seu bebê. Sofia não sofria de fome como tantas crianças no mundo. Estava fora do mundo, naquele sono súbito que a havia surpreendido. A ela, e a todos, numa bela manhã de domingo. Que eu consiga aprender com isso, pensava ela naquela semana. Sofia foi muito esperada e amada. Seus seis irmãos tocavam o barrigão, sentiam os movimentos e depois assistiam, como a um espetáculo, seu primeiro banho, seus movimentos. Ouviam entusiasmados seus gritinhos. Foi para um mercado. Os olhos nublados, os seios latejando. Foi para a banca de flores, olhou procurando qual delas fazia parte daquela história. Seus olhos pararam de repente numa florzinha pequena, cor de rosa. Ela conhecia de passagem, mas nunca havia comprado e nem sabia seu nome. Com dificuldade pediu ao rapaz, um maço. Ele prontamente atendeu aquela mulher magra, que há uma semana não conseguia mastigar, só tomava líquidos, e sonhava com olhos de bebês e sereia. Numa voz pequena, puxada lá das raízes, ela perguntou: "Qual o nome dessa flor?" Ele respondeu distraído no pacote: "- Sempre Viva". Lá foi ela com sua Sempre Viva a caminho do mar. Estacionou. Desceu na praia e com as mãos chorando cavou um buraco, não mais para abrigar uma barriga, que como numa caverna abrigava uma vida, mas para servir de vaso à Sempre Viva. Sentou na areia e totalmente em silêncio


pacote: "- Sempre Viva". Lá foi ela com sua Sempre Viva a caminho do mar. Estacionou. Desceu na praia e com as mãos chorando cavou um buraco, não mais para abrigar uma barriga, que como numa caverna abrigava uma vida, mas para servir de vaso à Sempre Viva. Sentou na areia e totalmente em silêncio esperou a chegada do barulho do mar com suas ondas espumantes. Ela não sabe precisar quanto tempo se passou, mas o mar chegou. E chegou. Seus olhos fixos nunca perceberam com tanta clareza o MOVIMENTO. O mar veio. Balançou. Carregou as flores num golpe de onda. Foram engolidas num segundo, como Sofia, pra algum lugar. Um grito dentro dela, ela mesma ouviu. Só ela ouviu e sentiu como se uma foice ceifasse seu peito esquerdo. Era esse o peito que Sofia mais gostava. Toda mãe sabe que seus bebês têm preferência. Alguns bebês são mortos pela ganância, outros pela pobreza, fome, miséria. Alguns escolhem partir. Vieram só para partir. Ela levantou, olhou para o mar, numa mistura de agradecimento e medo e seguiu sem enxergar até o carro. Chovia em seus olhos. Seguiu para casa e sentiu um enorme amor por aquela mulher que amamentava Sofia. Uma semana depois resolveu repetir o ritual da praia. Voltou ao mercado, à mesma barraca e com voz firme pediu: - Uma Sempre Viva, por favor. Um outro rapaz respondeu que não tinha, haviam acabado. Ela pestanejou e levantou o olhar pelas prateleiras onde estavam alguns materiais para fazer arranjos e lá no alto, na última prateleira, havia um maço de Sempre Viva, cor de rosa, já arrumado para presente. O rapaz, quando informado, subiu na escada para apanhar aquela flor desejada, reclamando de como ela poderia ter ido parar ali. Ora, estava esperando. Ela sabia que tudo que aprendeu naquela semana seria revisto, revisitado, reavaliado, revivido por toda sua vida e que os vasos sempre que possível teriam Sempre Vivas. Ela também descobriu mais tarde que o tempo dessas flores coincide com o tempo de vida e ida de Sofia, a que estará sempre viva.


DETALHES DE “RITUAL”


DETALHE DE “EU ERA MUITO TÍMIDO”

EU ERA MUITO TÍMIDO ÓLEO SOBRE MADEIRA 80 X 120 CM

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO?

Eu era muito tímido. Perdi a virgindade tarde. Com 19 anos. Foi na praia de Ipanema, à noite. Dois moradores de rua assistiram tudo do início ao fim.


ELIXIR DE EPIFANIA ACRÍLICA SOBRE SOBRE MADEIRA MADEIRA 100 100 XX 140 140 CM CM ACRÍLICA

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO?

Voltando pra casa depois de uma sessão de cinema com amigos, me lembro de estar comentando o filme, quando um deles parou e olhou pra dentro de um boteco e exclamou “Ei! Uma fanta de garrafa de vidro! Eu tenho que tomar isso!" Todos paramos e entramos no boteco, esperando ele tomar a tal Fanta. Nem estava tão boa, alias. Enquanto todo mundo conversava eu estava perdido na minha vertigem. Não conseguia conceber interromper meu curso pra satisfazer um capricho - sair do ‘programa’ pra fazer meu dia ficar um pouco mais feliz. Eu, até ali, tinha feito um esforço hercúleo pra reprimir todos os meus desejos - a troco de nada. Por algum motivo eu me envergonhava de ter caprichos e vontades e achava que isso de alguma maneira me tornava uma pessoa egoísta. Voltei pra casa pensando. Daquele dia em diante comecei a ouvir meus caprichos e vaidades e só quem convive comigo sabe o quanto isso me fez bem. QUAL FOI O DETALHE MAIS MARCANTE?

A geladeira onde a Fanta estava, a porta de vidro contra a parede de azulejo e o elixir de epifania que ela virou depois daquela interrupção inesperada."


DETALHE DE “QUANDO EU ERA CRIANÇA”

QUANDO EU ERA CRIANÇA ÓLEO SOBRE MADEIRA 120 X 120 CM

ME CONTE A EXPERIÊNCIA MAIS ÍNTIMA QUE VOCÊ CONTARIA PRA UM COMPLETO ESTRANHO?

Quando eu era criança, minha mãe me fazia rezar todas as noites. Eu rezava pedindo pra conseguir esconder meus defeitos. Eu entendia que todo mundo precisa ter defeitos, eu só queria conseguir esconder os meus. QUAL FOI O DETALHE MAIS MARCANTE?

O medo.


FICHA TÉCNICA CONCEPÇÃO  e COORDENAÇÃO Estudio Pira PINTURA Felipe Duarte CURADORIA AglaÍze Damasceno PRODUÇÃO Felipe Duarte Guilherme Maueler Joriam Philipe Luisa Fosco Mariana Paraizo Natalia Tanus Julia Hartung Serra ILUMINAÇÃO Giulia del-Penho COLABORAÇÃO Aline Gall Bianca Zaltman Brenda Leal Elisa Ribeiro Fabiana Mimura Ismar Pazo João Lamego Jorge Fosco Laura Santiago Paula Novaes Paulo Borges Rani Messias Sergio Manhaes Vinicius Costa

BENFEITORES Alex Oliveira de Assis Amilton Silva de Macedo Ana Carolina Bringhenti Ana Maria Lameira Ana Regal Augusto Gutierrez Caio Valentim Camila Ravagnani Cyndi Richa Dadá Maia Daniel Fosco Erik Dana Fernanda Robusti Filipe Duarte Marcelino Gabriela Vuolo Isabelle Goldfarb Jake Marmustein João de Lima Pessanha João Maia Peixoto Júlia Hartung Serra Lais Fontenelle Pereira Leandro Njaine Borges Letícia Lervolino Lizie Oliveira Evangelista Luisa Chaves Berçot Manoela Rónai Porto Marcella Maria Custodio Marcia Regina da Silveira Marcio Luis Silva Godoy Marcio Paraizo Marco Antonio Muniz Marcos Nioac de Salles Maria Laura Rosenbusch Mariana Nioac de Salles Marina Araujo Travassos

Mauricio Busnello Furtado Milton Pimentel Nicole Ballalai Benevides Pablo Soares de Castro Philipe Joriam Renata Freihof Ricardo Durski Batista Roberto Duarte Guimarães Roberto Maueler Robson Taranto Junior Solange Elizabeth Maueler Tatti Simões Templo Coworking Ulysses Cardoso Vilela Vinicius Cury


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