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Ano I, nº 06, Junho de 2012 Revista Bimestral Edição: Emanuel de Oliveira Costa Jr. Diagramação Renan da Silva Cunha Revisão Silvia Elizabeth Design e Logos: Ellen Jordana Portilho Mendes Colaboradores Colunistas dessa Edição: Ana Maria Bueno Cunha Bruno de Castro Carlos Ramalhete Diego Silva Ives Gandra Igson Mendes da Silva Ian Farias Kairo Neves Karen Mortean Lenise Garcia Lizandra Danielle Paulo Cremoneze Pe. Inácio José do Vale Pedro Brasilino Prof Ivanaldo Pe. Mateus Maria Rafael Brodbeck

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Opiniões, sugestões ou comentários podem ser encaminhados para www.inguardia.blogspot. com ou para o e-mail: revistainguardia@gmail. com. Os artigos aqui publicados podem ser reproduzidos desde que citada a fonte.

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Sumário

Apresentação - 03 Nossa Equipe - 04

A Homilia do Papa - 07 A Homilia de Pedro - 09 Entrevista In Guardia - 13 Dom Fernando Arêas Rifan Aborto por Lenise Garcia - 19 A morte do direito à vida Direito por Ives Gandra Martins - 20 Os dois Supremos Direito por Bruno de Castro - 21 A chamada Síndrome de Legislativo, seus sintomas e o novo tratamento Teologia por Ian Farias - 22 O Espírito Santo Teologia por Igson Mendes -25 Agostinho e a Cidade de Deus Testemunhos por Pedro Brasilino - 28 A história da Irmã Catherine Holun Liturgia por Kairo Neves - 29 Procissões Eucarísticas Teologia por Padre Mateus Maria - 31 O Rei deste mundo Mundo por Padre Inácio José do Vale - 33 O fundamentalismo mata O catecismo por Carlos Ramalhete - 39 A Revelação de Deus Santos por Ana Maria Bueno Cunha - 41 Santo Antônio de Pádua, prebítero e doutor Santos por Lizandra Danielle - 44 Santo Antônio e seus milagres Pense como os santos - 46 Santo Inácio de Loyola Entrevista In Guardia - 47 Percival Puggina Moral por Paulo Cremoze - 50 Sobre a importância de juízos e palavras G.K. Chesterton por Diego Silva - 51 Padre John O’Connor e o Padre Brown de Chesterton Família por Ivanaldo Santos - 53 O futuro é de quem tiver filhos Santos por Rafael Brodbeck - 56 Carlos D’Áustria: Quem tem medo do Beato? Comportamento por Karen Mortean - 57 Sexo, amor e pornografia Top 10 Ecclesiae - 59


Apresentação

Com muita alegria apresentamos a mais nova edição da Revista In Guardia. Novamente procuramos compilar doutrina católica, vida dos santos, atualidades e temas sugeridos pelos leitores num só lugar. O resultado é uma publicação dinâmica, cujo número de leitores tem crescido a cada edição. O resultado desse esforço é o número crescente de católicos que têm um entendimento ainda maior desse colosso que é a Igreja Católica. Esta edição trará uma belíssima entrevista com Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney, na qual vários temas importantes e atuais foram abordados. Inclusive temas delicados como a respeito da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), as conversações junto à Santa Sé e os seus resultados. Ainda na seção de entrevistas trazemos o brilhante colunista político Percival Puggina. Ele falou sobre a situação atual do Brasil e também de Cuba, país de regime comunista sobre o qual já escreveu um livro. Os temas abordados por ele ajudarão o leitor a entender o que está ocorrendo no país e no mundo atual. A edição como um todo apresenta artigos muito interessantes, desde a sequência dos artigos sobre o Catecismo da Igreja Católica, do Professor Carlos Ramalhete, da espiritualidade das procissões eucarísticas no excelente artigo de Kairo Neves, do Espírito Santo como dom máximo do-

ado à Igreja, na reflexão de Ian Farias, até as palavras dos nossos sacerdotes Pe, Mateus Maria e Inácio do Vale. Além disso, conheceremos a vida e os milagres de Santo Antonio de Pádua, por meio dos artigos assinados por Ana Maria Bueno e Lizandra Danielle. Paulo Henrique Cremoneze, Igson Mendes, Bruno Castro, Diego Guilherme apresentam reflexões sobre temas atuais e para ao crescimento pessoal na fé. Lenise Garcia falará sobre o resultado do ADPF 54 e teremos ainda a participação de um grande jurista do Brasil: Ives Gandra Martins esclarecendo sobre questões de Direito. E uma estreia mais que esperada: a partir desta edição teremos a Coluna TOP 10, na qual saberemos quais os livros mais vendidos pela Editora Ecclesiae, cujo viés é justamente trazer ao público brasileiro as mais importantes obras do universo católico. A coluna trará, além dos mais vendidos, um resumo das obras. Esta edição está recheada de assuntos que contribuirão para formar leigos mais conscientes de sua religião e também será de grande ajuda para a formação de novos sacerdotes, pois, vem crescendo o número de seminários cujos reitores estão imprimindo e repassando para seus internos. Isso só nos estimula a melhorar cada vez mais. Boa leitura a todos. Emanuel Jr/Editor-chefe da Revista In Guardia In Guardia - Junho - 03


Nossa Equipe Emanuel de Oliveira Costa Jr. - Editor Católico, casado, coordenador do Grupo de Coroinhas e Acólitos da Paróquia do Imaculado Coração de Maria em Goiânia/GO, advogado militante, professor, autor de artigos científicos publicados em revistas impressas e virtuais. Mantém o Blog do Emanuel Jr: www.blogdoemanueljr.blogspot.com Twitter: http://twitter. com/emanuelocjr Facebook: Emanuel Jr.

Rafael Vitola Brodbeck - Colunista Católico, casado, é Delegado de Polícia em Sta Vitória do Palmar, RS, coordena o site “Salvem a Liturgia”. Colunista da “Catequese Litúrgica”, na revista mensal “O Mensageiro de Santo Antônio”, dos Frades Menores Conventuais, membro da Sociedade Internacional Santo Tomás de Aquino (SITA/ Roma), e da Academia Marial de Aparecida. É incorporado ao Regnum Christi (1998). Palestrante de Liturgia e doutrina. rafael@salvemaliturgia.com Twitter: http://twitter. com/rafael_brodbeck Ana Maria Bueno da Cunha - Colunista Casada, católica, Farmacêutica- bioquímica, dona de casa, mãe de dois filhos em - Praia Grande/SP. Católica amante da Igreja, da Santíssima Virgem, do Santo Padre o Papa e sempre sedenta da graça de Deus. Mantém o blog Blog: É Razoável Crer? http://razoavelcrer. blogspot.com/ E-mail: anamariabcunha@hotmail.com Kairo Rosa Neves de Oliveira - Colunista Católico, solteiro, estudante universitário, cursa Engenharia Civil na UNESP de Ilha Solteira - SP. Colaborador do site “Salvem a Liturgia”, na coluna de paramentos litúrgicos e dando dicas para solenizar a celebração. Atua no site Movimento Liturgico, responde dúvidas litúrgicas. Mantém, ainda, um blog de imagens litúrgicas, o Zelus. E-mail: kairo@salvemaliturgia.com

Diego Guilherme da Silva. Católico. Solteiro e estudante de Biblioteconomia na Universidade Federal de Minas Gerais. Mora em Belo Horizonte, Minas Gerais. Membro do Centro de Doutrina Social da Igreja Robert Schuman. Criador e editor do site www.chestertonbrasil.org. E-mail.: chestertonnobrasil@gmail.com Ives Gandra da Silva Martins Colunista. Católico. Dispensa maiores apresentações. Ganhador de diversos prêmios, professor em diversas faculdades. Professor Emérito e honoris causa em várias universidades. Doctor Honoris Causa da Universidade de Craiova – Romênia. Um dos mais conceituados tributaristas brasileiros. Supernumerário da Opus Dei. Colar de mérito judiciário em diversos Tribunais do país, bem como medalhas e comendas de mérito cultural. Pedro Brasilino Peres Netto Colunista Solteiro, Católico, estudante de Biomedicina na Universidade Federal de Goiás - UFG, coordenar da Pastoral da Juventude na Paróquia do Imaculado Coração de Maria em Goiânia. Facebook: Pedro Brasilino. Lenise Garcia - Colunista Católica, graduada em Farmácia e Bioquímica pela Universidade de São Paulo, mestrada em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo e doutorada em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo. Atualmente é professora adjunta da Universidade de Brasília, no departamento de Biologia Celular. Numerária do Opus Dei. Presidente do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida – Brasil Sem Aborto


Nossa Equipe Pe. Inácio José do Vale - Colunista É sacerdote católico e Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo em Resende/RJ, é especialista em Ciência Social da religião pesquisador de seitas e conferencista, é Professor de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia de Volta Redonda/RJ. E-mail: pe.inaciojose.osbm@hotmail.com Paulo Cremoneze - Colunista Advogado (especializado em Direito do Seguro e Direito dos Transportes), Pós-graduado “lato sensu” em Direito. Defendo os valores morais, as tradições sociais e religiosas, a família e a vida humana desde a concepção. Procuro viver conforme as virtudes cardeais e as teologais Carlos Ramalhete— Colunista Casado, pai de dois filhos adolescentes, e licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Petrópolis. Trabalha como professor de filosofia e sociologia, além de manter uma coluna no jornal Gazeta do Povo (Curitiba) e o apostolado A Hora de São Jerônimo, o apostolado de apologética católica mais antigo da internet brasileira (www.hsjonline.com). Bruno Dornelles de Castro - Colunista Católico, solteiro, formado em Direito. Dá formações de Doutrina Social da Igreja. Mantém um blog onde escreve sobre política e filosofia (brunodornellesdecastro. blogspot.com). É incorporado ao Regnum Christi. Facebook: Bruno Dornelles de Castro Lizandra Danielle Araújo da Silva - Colunista. Católica, solteira, estudante de Controle Ambiental no Instituto Federal de Goiás. Coroinha há 6 anos na Paróquia do Imaculado Coração de Maria em Goiânia. Twitter: _lizdaniele

Ivanaldo Santos - Colunista. Ivanaldo Santos é filósofo, doutor em estudos da linguagem, professor do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERN. Possui vários livros publicados, entre os quais destacamse: Teologia da Libertação: ensaios e reflexões e Linguagem e epistemologia em Tomás de Aquino. E-mail: ivanaldosantos@yahoo.com.br. Karen Mortean - Colunista Esposa, mãe, enfermeira, especializada na área da educação, instrutora do Método Billings da Ovulação p e lo WOOMB/Cenplafam-BR. Igson Mendes da Silva - Colunista Leigo Católico, Solteiro, Analista de Sistemas do Tribunal de Contas do Amazonas, graduando em Teologia, membro da Paróquia de Santa Luzia, palestrante sobre doutrina, ética aplicada aos meios de comunicações sociais; formador, colabora com movimentos eclesiais ligados a Igreja Católica, Dirige o Apostolado Spiritus Paraclitus que se dedica em promover a fé católica. E-mail: igson. mendes@gmail.com

Silvia Elizabeth - Revisora Formada em Letras pela Universidade Estadual de Londrina e aluna de Especialização em Literatura Brasileira pela mesma Universidade. AtualRenan da mente trabalha no site Christo Nihil Silva Cunha Praeponere como redatora e presta Diagramador serviços para a Editora Ecclesiae Estudante de como revisora. Jornalismo pela Ian Farias de Carvalho Universidade Almeida - Colunista Estadual de Solteiro, católico, SemiLondrina. Editor do Blog Porta narista do Seminário Papa Fidei João Paulo II, Diocese de Pe Mateus Maria Jequié-BA, cursa Filosofia Colunista na Instituto de Teologia de Sacerdote da Arquidiocese Ilhéus. http://beinbetter.wordpress.com/ ou de São Paulo : http://www. reflexoesfranciscanas.com.br/ Twitter: @ianfariasca Skype: ianfarias


A Homilia do Papa VIAGEM APOSTÓLICA AO MÉXICO E À REPÚBLICA DE CUBA (23-29 DE MARÇO DE 2012) SANTA MISSA HOMILIA DO PAPA BENTO XVI Havana, Praça da Revolução José Martí Quarta-feira, 28 de Março de 2012 Amados irmãos e irmãs! endito sejais, Senhor, Deus dos nossos pais (...). Bendito o vosso nome glorioso e santo» (Dn 3, 52). Este hino de bênção do livro de Daniel ressoa hoje na nossa liturgia, convidandonos repetidamente a bendizer e louvar a Deus. Somos parte da multidão daquele coro que celebra o Senhor sem cessar. Unimonos a este concerto de ação de graças, oferecendo a nossa voz jubilosa e confiante, que procura fundar no amor e na verdade o caminho da fé. «Bendito seja Deus» que nos reúne nesta praça emblemática, para mergulharmos mais profundamente na sua vida. Sinto uma grande alegria por estar hoje no vosso meio e presidir a Santa Missa no coração deste Ano Jubilar dedicado à Virgem da Caridade do Cobre. Saúdo cordialmente o Cardeal Jaime Ortega y Alamino, Arcebispo de Havana, e agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu em nome de todos. Estendo a minha saudação aos Senhores Cardeais, aos meus irmãos Bispos de Cuba e doutros países que quiseram participar nesta solene celebração. Saúdo também os sacerdotes, os seminaristas, os religiosos e todos os fiéis aqui reunidos, bem como as autoridades que nos acompanham. Na primeira leitura que foi proclamada, os três jovens, perseguidos pelo soberano babilonense, antes preferem morrer queimados

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pelo fogo que trair a sua consciência e a sua fé. Eles encontraram a força de «louvar, glorificar e bendizer a Deus» na convicção de que o Senhor do universo e da história não os abandonaria à morte e ao nada. De fato, Deus nunca abandona os seus filhos, nunca os esquece. Está acima de nós e é capaz de nos salvar com o seu poder; ao mesmo tempo, está perto do seu povo e, por meio do seu Filho Jesus Cristo, quis habitar entre nós. «Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará» (Jo 8, 31). No texto do Evangelho que foi proclamado, Jesus revela-Se como o Filho de Deus Pai, o Salvador, o único que pode mostrar a verdade e dar a verdadeira liberdade. Mas o seu ensinamento gera resistência e inquietação entre os seus interlocutores, e Ele acusa-os de procurarem a sua morte, aludindo ao supremo sacrifício da Cruz, já próximo. Ainda assim, exorta-os a acreditar, a permanecer na sua Palavra para conhecerem a verdade que redime e dignifica. Com efeito, a verdade é um anseio do ser humano, e procurá-la supõe sempre um exercício de liberdade autêntica. Muitos, todavia, preferem os atalhos e procuram evitar essa tarefa. Alguns, como Pôncio Pilatos, ironizam sobre a possibilidade de conhecer a verdade (cf. Jo 18, 38), proclamando a incapacidade do homem de alcançá-la ou negando que exista uma verdade para todos. Esta atitude, como no caso do ceticismo e do relativismo, produz uma transformação no coração, tornando as

O direito à liberdade religiosa, tanto na sua dimensão individual como comunitária, manifesta a unidade da pessoa humana, que é simultaneamente cidadão e crente

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pessoas frias, vacilantes, distantes dos de- Bento XVI durante homilia mais e fechadas em si mesmas. São pesso- em Havana, Cuba as que lavam as mãos, como o governador romano, e deixam correr o rio da história sem se comprometer. Entretanto há outros que interpretam mal esta busca da verdade, levando-os à irracionalidade e ao fanatismo, pelo que se fecham na «sua verdade» e tentam impôla aos outros. São como aqueles legalistas obcecados que, ao verem Jesus ferido e ensanguentado, exclamam enfurecidos: «Crucifica-o!» (cf. Jo 19, 6). Na realidade, quem age irracionalmente não pode chegar a ser discípulo de Jesus. Fé e razão são necessárias e complementares na busca da verdade. Deus criou o homem com uma vocação inata para a verdade e, por isso, dotou-o de razão. Certamente não é a irracionalidade que promove a fé cristã, mas a ânsia da verdade. Todo o ser humano deve perscrutar a verdade e optar por ela quando a encontra, mesmo correndo o risco de enfrentar sacrifícios. Além disso, a verdade sobre o homem é um pressuposto imprescindível para alcançar a liberdade, porque nela descobrimos ao bem comum de toda a sociedade cubana. os fundamentos duma ética com que todos se podem confrontar, O direito à liberdade religiosa, tanto na sua dimensão individual e que contém formulações claras e precisas sobre a vida e a morte, como comunitária, manifesta a unidade da pessoa humana, que os deveres e direitos, o matrimônio, a família e a sociedade, enfim é simultaneamente cidadão e crente, e legitima também que os sobre a dignidade inviolável do ser humano. É este patrimônio éti- crentes prestem a sua contribuição para a construção da sociedaco que pode aproximar todas as culturas, povos e religiões, as au- de. O seu reforço consolida a convivência, alimenta a esperança toridades e os cidadãos, os cidadãos entre si, os crentes em Cristo de um mundo melhor, cria condições favoráveis para a paz e o decom aqueles que não crêem n’Ele. senvolvimento harmonioso, e ao mesmo tempo estabelece bases Ao ressaltar os valores que sustentam a ética, o cristianismo firmes para garantir os direitos das gerações futuras. não impõe mas propõe o convite de Cristo para conhecer a verQuando a Igreja põe em relevo este direito, não está a reclamar dade que nos torna livres. O fiel é chamado a dirigir este convite qualquer privilégio. Pretende apenas ser fiel ao mandato do seu aos seus contemporâneos, como fez o Senhor, mesmo perante o Fundador divino, consciente de que, onde se torna presente Cristo, sombrio presságio da rejeição e da Cruz. O encontro pessoal com o homem cresce em humanidade e encontra a sua consistência. Aquele que é a verdade em pessoa impele-nos a partilhar este te- Por isso, a Igreja procura dar este testemunho na sua pregação e souro com os outros, especialmente através do testemunho. no seu ensino, tanto na catequese como nos ambientes formativos Queridos amigos, não hesiteis em seguir Jesus Cristo. N’Ele en- e universitários. Esperemos que também aqui chegue brevemente contramos a verdade sobre Deus e sobre o homem. Ajuda-nos a o momento em que a Igreja possa levar aos diversos campos do superar os nossos egoísmos, a sair das nossas ambições e a vencer saber os benefícios da missão que o seu Senhor lhe confiou e que o que nos oprime. Aquele que pratica o mal, aquele que comete ela não pode jamais negligenciar. pecado é escravo do pecado e nunca alcançará a liberdade (cf. Jo 8, Ínclito exemplo deste trabalho foi o insigne sacerdote Félix Va34). Somente renunciando ao ódio e ao nosso coração endurecido rela, educador e professor, filho ilustre desta cidade de Havana, que e cego é que seremos livres, e uma vida nova germinará em nós. passou à história de Cuba como o primeiro que ensinou o seu povo Com a firme convicção de que a verdadeira medida do homem a pensar. O padre Varela indica-nos o caminho para uma verdadeié Cristo e sabendo que n’Ele se encontra a força necessária para ra transformação social: formar homens virtuosos para forjar uma enfrentar toda a provação, desejo anunciar-vos abertamente o Se- nação digna e livre, já que esta transformação dependerá da vida nhor Jesus como Caminho, Verdade e Vida. N’Ele todos encontra- espiritual do homem; de fato, «não há pátria sem virtude» (Cartas rão a liberdade plena, a luz para compreender profundamente a a Elpídio, carta sexta, Madrid 1836, 220). Cuba e o mundo precisam realidade e transformá-la com o poder renovador do amor. de mudanças, mas estas só terão lugar se cada um estiver em conA Igreja vive para partilhar com os outros a única coisa que pos- dições de se interrogar acerca da verdade e se decidir a enveredar sui: o próprio Cristo, esperança da glória (cf. Col 1, 27). Para realizar pelo caminho do amor, semeando reconciliação e fraternidade. esta tarefa, é essencial que ela possa contar com a liberdade reliInvocando a proteção maternal de Maria Santíssima, peçamos giosa, que consiste em poder proclamar e celebrar mesmo publi- que, participando regularmente na Eucaristia, nos tornemos tamcamente a fé, comunicando a mensagem de amor, reconciliação e bém testemunhas da caridade que responde ao mal com o bem paz que Jesus trouxe ao mundo. Há que reconhecer, com alegria, (cf.Rm 12, 21), oferecendo-nos como hóstia viva a Quem amoroos passos que se têm realizado em Cuba para que a Igreja cumpra samente Se entregou por nós. Caminhemos na luz de Cristo, que a sua irrenunciável missão de anunciar, publica e abertamente, a pode dissipar as trevas do erro. Supliquemos-Lhe que, com o valor sua fé. Mas é preciso avançar ulteriormente. E desejo encorajar as e o vigor dos santos, cheguemos a dar uma resposta livre, generosa instâncias governamentais da Nação a reforçarem aquilo que já foi e coerente a Deus, sem medos nem rancores. alcançado e a prosseguirem por este caminho de genuíno serviço Amém. In Guardia - Junho - 08


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA PAULO VI PARA A CELEBRAÇÃO DO X DIA MUNDIAL DA PAZ 1 DE JANEIRO DE 1977 SE QUERES A PAZ, DEFENDE A VIDA

A Homilia de Pedro Homens grandes e responsáveis, Homens inumeráveis e desconhecidos, Homens Amigos Eis-Nos mais uma vez, a décima vez, a vós presente, convosco!

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o dealbar do novo ano de 1977, Nós estamos à vossa porta e batemos (cfr. Apoc 3, 20). Abri-Nos, por favor! Nós somos aquele Peregrino do costume, que percorre as vias do mundo, sem nunca se cansar e sem jamais perder-se no caminho. Somos enviado para vos trazer o habitual anúncio; somos profeta da Paz! Sim, Paz: Paz, andamos Nós a apregoar, qual mensageiro de uma ideia fixa, de uma ideia antiga, mas sempre nova pela necessidade que volta ciclicamente e que a reclama, como uma descoberta, como um dever e como uma beatitude! A ideia da Paz afigura-se alcançada, como expressão equivalente e perfectiva da civilização. Não há civilização sem a Paz. E no entanto, a Paz, na realida-

de, jamais é algo completo, ou seguro. Tendes observado como até as aquisições do progresso podem ser causas de conflitos; e que conflitos! Não julgueis supérflua, e por isso aborrecida, a Nossa mensagem anual em favor da Paz. No quadrante da psicologia da humanidade a Paz, depois da última guerra mundial, marcou uma hora afortunada. Por sobre as imensas ruínas, bem diversas, certamente, nos vários Países, mas universais, como única vitoriosa viu-se a dominar, finalmente, a Paz. E logo as obras e as instituições, que são próprias da Paz, floresceram, como uma vegetação primaveril; e muitas delas resistem e continuam ainda com pujança; são as conquistas do mundo novo; e o mundo faz bem em sentir-se ufano e em manter a eficiência e o desenvolvimento das mesmas; são as obras e as instituições que representam um degrau ascensional no progresso da humanidade. Ouçamos por um instante, chegados a este ponto, uma voz autorizada, paterna e pro-

fética, a voz do Nosso venerável Predecessor, o Papa João XXIII: « A convivência humana, veneráveis Irmãos e diletos filhos, há-de ser considerada, acima de tudo, como uma realidade espiritual: como intercomunicação de conhecimentos à luz da verdade, exercício de direitos e cumprimento de deveres, incentivo e apelo para o bem moral; ademais, como nobre e comum fruição do belo em todas as suas legítimas expressões, como permanente disposição para repartir uns aos outros o melhor de si mesmos e como anelo por uma mútua e cada vez mais rica assimilação de valores espirituais. Valores estes, nos quais encontram a sua perene vivificação e a sua orientação de fundo as expressões culturais, o mundo econômico, as instituições sociais, os movimentos e os regimes políticos, os ordenamentos jurídicos e todos os outros elementos exteriores, mediante os quais se articula e se exprime a convivência no seu incessante devir » (Encíclica Pacem in terris, de 11 de


Abril de 1963: em Acta Apostolicae Sedis, LV, 1963, pág. 266). Mas, esta fase terapêutica da Paz cede o lugar a novas contestações, quer sob a forma de resíduos de revivescentes contendas, apenas provisoriamente compostas, quer sob a forma de fenômenos históricos novos, que brotam das estruturas sociais em continua evolução. A Paz volta outra vez a encontrar-se a braços com o sofrimento: primeiro, nos sentimentos dos homens; depois, em contestações parciais e locais; e depois, ainda, em espantosos programas de armamentos que calculam friamente a potência de terrificantes destruições, superiores à nossa própria capacidade de exprimi-las em medidas concretas. Tentativas sobremaneira louváveis surgem aqui e ali, para esconjurar semelhantes conflagrações; e Nós auspiciamos que tais tentativas levem a melhor sobre perigos incomensuráveis, para os quais elas estão a procurar remédio preventivo. Homens Irmãos: isto, porém, não basta. O conceito da Paz, como ideal diretivo da efetiva atividade do consórcio humano, parece sucumbir frente a um fatal avantajar-se da incapacidade do mundo para se governar na Paz e com a Paz. Na verdade, a Paz não é uma realidade autógena, se bem que tendam para ela os impulsos profundos da natureza humana; a Paz é a ordem; e à ordem aspiram todas as coisas, todos os fato, como a um destino preconstituído, como a uma razão de ser preconcebida, mas que se realiza em concomitância e em colaboração com múltiplos fatores. Por isso, a Paz é um vértice que supõe uma interior e complexa estrutura de sustentação; ela é assim como um corpo flexível que tem de ser corroborado por um esqueleto robusto. Ela é como uma construção que deve a sua estabilidade e a sua excelência ao esforço portador de causas e de condições, que muitas vezes lhe faltam e, mesmo quando se acham presentes e operantes, nem sempre resistem à função que lhes está cometida, de molde a que a pirâmide da Paz possa manter-se estável na sua base e excelsa na sua sumidade. Mas, perante esta análise da Paz, que confirma a excelência e a necessidade da mesma e, simultaneamente, põe em relevo a sua instabilidade e a sua fragilidade, Nós reafirmamos a Nossa convicção: a Paz é obrigatória, a Paz é possível. É esta a Nossa mensagem, que se repete ciclicamente e que toma como próprio o ideal da civilização e se faz eco da aspiração dos Povos, conforta a esperança dos homens humildes e fracos e nobilita com a justiça a segurança dos fortes. É a mensagem do otimismo e o presságio do futuro. A Paz não é um sonho, não é uma utopia e não é uma ilusão; ela não é sequer uma canseira de In Guardia - Junho - 10

Sísifo: não, ela pode ser prolongada e corroborada; ela pode ficar a marcar as mais belas páginas da história, não apenas com os fastos do poder e da glória; mas também, e mais ainda, com aqueloutros fastos melhores da virtude humana, da bondade popular, da prosperidade coletiva e da verdadeira civilização: a civilização do amor. E será verdadeiramente possível? Sim, é possível; deve mesmo sê-lo. Entretanto, sejamos sinceros: a Paz - repetimo-lo - é obrigatória, é possível, mas não sem o concurso de muitas e não fáceis condições. Um discurso sobre as condições da Paz, Nós damo-Nos bem conta disso, é muito difícil e muito longo. Nós não ousaríamos ir agora enfrentá-lo aqui. Deixamos isso aos peritos. Tão somente, porém, Nós não queremos deixar em silêncio um dos seus aspectos, que é sem dúvida primordial. Mas limitamo-Nos neste momento a chamar a atenção para ele e a recomendá-lo à reflexão dos homens bons e inteligentes. E é este: a relação da Paz com a concepção que o mundo tem da Vida humana. Paz e Vida: são bens supremos na ordem civil; e são bens correlativos: Queremos a Paz? Defendamos a Vida! Poderá este binômio « Paz e Vida » apresentar-se quase como uma tautologia, um « slogan » retórico; mas não o é. Ele representa uma conquista longamente disputada durante o caminhar do progresso humano; um caminhar que ainda não che-

gou à sua meta final. Quantas vezes, efetivamente, na dramática história da humanidade o binômio « Paz e Vida » encerra um embate feroz dos dois termos e não um abraço fraternal. A Paz é procurada e conquistada com a morte e não com a Vida; e a Vida afirma-se, não com a Paz, mas sim com a luta, como uma triste fatalidade necessária para a sua própria defesa. O parentesco entre a Paz e a Vida parece brotar da natureza das coisas; mas não sempre, não ainda, da lógica do pensamento e do comportamento dos homens. E esta, se quisermos compreender a dinâmica do progresso humano, é o paradoxo, é a novidade que nós, para este ano da graça de 1977, e depois para sempre, devemos afirmar. E não é fácil, nem é simples conseguir isso, porque demasiadas objeções e objeções formidáveis; guardadas no arsenal imenso das pseudo-convicções, dos preconceitos empíricos e utilitaristas, das chamadas razões de Estado, ou dos costumes históricos e tradicionais, lhe opõem, ainda nos dias de hoje, obstáculos, que se afiguram insuperáveis. E isso com esta trágica conclusão: se Paz e Vida podem, ilogicamente mas praticamente, dissociarse, delineia-se no horizonte do futuro uma catástrofe que, nos nossos dias, poderia ser algo sem medida e sem remédio, quer para a Paz, quer para a Vida. Hiroshima permanece um documento terrivelmente eloquente e um paradigma tremendamente


profético a este propósito. A Paz, por uma hipótese que é de desejar não se ponha, se viesse a ser concebida avulsa do conatural respeito para com a Vida, poderia impôr-se como um triste triunfo da morte; e vêmnos à lembrança as palavras de Cornélio Tácito: « ... ubi solitudinem faciunt, pacem appellant » (Vita di Agricola, 30); ou seja, « onde fazem o deserto, chamam a isso paz ». E reciprocamente: poder-se-á exaltar, com egoística e quase idolátrica preferência a Vida privilegiada de alguns a custo da opressão e da supressão de outrem? Será isso Paz? Para encontrar a chave da verdade neste conflito assim, que de teórico e moral passa tragicamente a ser real, e que profana e ensanguenta, ainda hoje, tantas páginas da convivência humana, é necessário, sem dúvida, reconhecer o primado da Vida, como valor e como condição da Paz. Eis, portanto, a fórmula: « se queres a Paz, defende a Vida ». A Vida é o vértice da Paz. Se a lógica do nosso operar partir da sacralidade da Vida, a guerra, como meio normal e habitual para fazer manter o direito e consequentemente a Paz, fica virtualmente desqualificada. A Paz outra coisa não é senão o triunfo incontestável do direito e, por fim, a ditosa celebração da Vida. Aqui neste ponto a exemplificação seria de nunca mais acabar, como sem fim seria a casuística das aventuras, ou para dizer melhor das desventuras, em que a Vida

é posta em jogo no confronto com a Paz. Nós tomamos como Nossa a classificação que, a tal respeito, foi apresentada segundo « três imperativos essenciais ». É preciso, afirmam estes imperativos, para haver a Paz autêntica e feliz, ater-se ao dever de « defender a Vida, tornar sã a Vida e promover a Vida ». A política dos grandes armamentos imediatamente é chamada em causa. O ditado antigo, que fez e continua a fazer escola na política - « si vis pacem, para bellum » (se queres a paz, prepara a guerra) - não é admissível sem radicais reservas (cfr. Lc. 14, 31 ). Nós, com a sincera audácia dos nossos princípios, denunciamos assim o falso e perigoso programa da « corrida aos armamentos », da competição secreta pela superioridade bélica entre os povos. E se bem que, por uma supérstite e ditosa sapiência, ou por um tácito, mas já tremendo « jogo de força » ( « braço-de-ferro » ) no equilíbrio das forças adversas e mortíferas, a guerra (e que espécie de guerra seria! ) não rebenta, como poderíamos deixar de lamentar o incalculável dispêndio de meios econômicos e de energias humanas para conservar a todos e a cada um dos Estados a sua couraça de armas cada vez mais custosas, cada vez mais eficientes, em detrimento dos balanços para as escolas, culturais, agrícolas, sanitários e civis! Paz e Vida suportam pesos enormes e incalculáveis para manter uma Paz fundada sobre

a ameaça perpétua à Vida, como também para defender a Vida mediante uma ameaça constante à Paz. Dir-se-á: é inelutável. Pode sê-lo numa concepção ainda tão imperfeita da civilização. Mas reconheçamos ao menos que este desafio constitucional, que a competição na corrida aos armamentos estabelece entre a Vida e a Paz, é uma fórmula falaz, e que há-de ser corrigida e superada. Honra seja, portanto, ao esforço já iniciado no sentido de reduzir e, por fim, de eliminar esta absurda guerra fria, que resulta do progressivo aumento do respectivo potencial bélico das Nações, como se estas devessem ser, sem possibilidades de sair disso, inimigas entre si, e como se elas fossem incapazes de dar-se conta de que tal concepção das relações internacionais deveria um dia resultar na ruína da Paz, e também na ruína de inumeráveis vidas humanas. Mas não é só a guerra que mata a Paz. Todo e qualquer delito contra a Vida é um atentado contra a Paz, especialmente quando tal delito abala os costumes do Povo, como frequentemente sucede hoje, com horrenda e por vezes legal facilidade, com a supressão da Vida nascente, com o aborto. Costumam ser invocadas em favor do aborto as seguintes motivações: o aborto visa um refrear o aumento molesto da população e eliminar seres de antemão condenados a deformações, ou à desonra social, ou à miséria proletária, etc. E pareIn Guardia - Junho - 11


ce antes aproveitar do que ser nocivo para a Paz. Mas não é assim. A supressão de uma Vida que está para nascer, ou que já veio à luz, viola antes de mais nada o sacrossanto princípio moral; ao qual se deve referir sempre a concepção da existência humana: a Vida humana é sagrada desde o primeiro momento em que é concebida e até ao último instante da sua sobrevivência natural no tempo. É sagrada: o que é que quer dizer? Quer dizer que ela se acha subtraída a qualquer espécie de arbitrário poder supressivo da mesma, que ela é intangível, digna de todo o respeito, de todo o cuidado e de todo o sacrifício obrigatório. Para quem acredita em Deus isso é espontâneo e instintivo e é obrigatório por lei religiosa transcendente; e também para quem não tem esta dita de admitir a mão de Deus protetora e vingadora de todos os seres humanos, é e deve ser intuitivo, em virtude da dignidade humana, este mesmo sentido do sagrado, isto é, da intangibilidade e da inviolabilidade próprias de uma existência humana vivente. Sabemno e sentem-no aqueles que porventura tiveram a desgraça, a implacável culpa, o sempre renascente remorso, de terem voluntariamente suprimido uma Vida; a voz do sangue inocente clama no coração da pessoa homicida com dilacerante insistência: a Paz interior não é possível por via de sofismas egoísticos! E se o for, um atentado contra a Paz, isto é, contra o sistema protetor geral da ordem, da humana e segura convivência, numa palavra contra a Paz, foi perpetrado: Vida individual e Paz geral andam sempre coligadas entre si por um irrescindível vínculo de parentesco. Se queremos que a ordem social progressiva se sustenha sobre princípios intangíveis, não a ofendamos no coração do seu sistema essencial: o respeito pela vida humana. Também sob este aspecto Paz e Vida são solidárias na base da ordem e da civilização. O discurso pode ainda protrair-se, passando em exame as mil formas com as quais a ofensa contra a vida parece tornarse costume, naqueles ambientes em que a delinquência individual se organiza para tornar-se coletiva, para se garantir a solidariedade e a cumplicidade de classes inteiras de cidadãos, para fazer da vingança privada um vil dever coletivo, do terrorismo um fenômeno de legítima afirmação política e social, da tortura policiesca um método eficaz da força pública, não já dirigida para restabelecer a ordem, mas para impor uma repressão ignóbil. É impossível que a Paz floresça onde a incolumidade da vida se acha assim comprometida. Onde a violência se enfurece acaba a verdadeira Paz. Ao passo que onde os direitos do homem são realmente professados e publicaIn Guardia - Junho - 12

mente reconhecidos e defendidos, aí a Paz torna-se a atmosfera agradável e operosa da convivência social. Constituem documentos do nosso progresso civil os textos onde constam os compromissos internacionais para a tutela dos Direitos dos Homens, para a Defesa das Crianças e para a salvaguarda das liberdades fundamentais do homem. Eles são a epopeia da Paz, na medida em que são escudo para Vida. Estarão completos? Serão eles observados ? Nós todos advertimos que é a civilização que se exprime em tais declarações, e que encontra nas mesmas o aval da própria realidade, plena e gloriosa, se elas são transfundidas para as consciências e para os costumes; ou então, realidade frustrada e violada, se elas permanecem letra morta. Homens, Homens da maturidade do século vinte, vós pusestes assinatura nas Cartas gloriosas da vossa alcançada plenitude humana, se tais cartas forem verdadeiras; haveis sigilado a vossa condenação moral para a história, se elas forem apenas documentos de veleidades retóricas ou de hipocrisia jurídica. O metro está nisto: na equação entre a verdadeira Paz e a dignidade da Vida. Acolhei a Nossa imploração suplicante: que uma tal equação se realize e que sobre ela um novo fastígio se levante no horizonte da nossa civilização da Vida e da Paz, a civilização, dizemo-lo uma vez mais, do amor. E estará tudo dito? Não; resta uma questão ainda por solucionar: como realizar tal programa de civilização ? Como irmanar verdadeiramente a Vida e a Paz? Respondemos em termos que poderão ser inacessíveis para todos aqueles que têm fechado o horizonte da Realidade por um ângulo visual só natural. É preciso recorrer àquele mundo religioso que nós chamamos « sobrenatural ». É necessária a fé para descobrir aquele sistema de eficiências operantes no conjunto das vicissitudes humanas, onde a obra transcendente de Deus se vem enxertar e assim as habilita para efeitos superiores, humanamente falando impossíveis. É necessária a religião, a religião viva e verdadeira, para os tornar possíveis. É precisa a ajuda do « Deus da paz » (Fl. 4, 9). Ditosos de nós, se conhecemos e acreditamos isto; e se, de acordo com esta fé, soubermos descobrir e pôr em prática a relação entre a Vida e a Paz. Porque há uma exceção de capital importância ao raciocínio acima exposto, o qual antepõe a Vida à Paz, e faz depender a Paz da inviolabilidade de Vida: é a exceção que se verifica nos casos em que entra em jogo um bem superior à mesma Vida.

Trata-se de um Bem que é superior em valor ao bem da própria Vida, como a verdade, a justiça, a liberdade civil, o amor do próximo, a Fé ... E então tem cabimento a palavra de Cristo: « Quem ama a própria vida (mais do que estes Bens superiores) perde-a » (cfr. Jo. 12, 25). Isto indica-nos que assim como a Paz deve ser concebida em ordem à Vida, e assim como do ordenado bem-estar assegurado à Vida deve resultar a Paz - ela mesma a harmonia que torna ordenada e feliz, interiormente e socialmente, a existência humana assim também esta existência humana, que o mesmo é dizer a Vida, não pode, nem deve subtrair-se nunca às finalidades superiores que lhe conferem a sua primária razão de ser: para que é que se vive? O que é que dá à Vida, além da ordenada tranquilidade da Paz, a sua dignidade, a sua plenitude espiritual, a sua grandeza moral e, digamos também, a sua finalidade religiosa? Ficará porventura perdida a Paz, a verdadeira Paz, se na área da nossa Vida se derem direitos de cidadania ao Amor, na sua expressão mais elevada, que é o sacrifício? E se o sacrifício, na verdade, entra num desígnio de Redenção e de título meritório para uma existência que transcende a forma e a medida temporal, não recuperará ele, a um nível superior e eterno, a Paz, a sua verdadeira, centuplicada Paz da Vida eterna? (cfr. Mt. 19, 29). Quem for aluno da escola de Cristo pode compreender esta linguagem transcendente (cfr. Mt. 13, 11 ). E porque é que nós não poderemos ser estes alunos ? Ele, Cristo, « é a nossa Paz » ! ( cfr. Ef . 2, 11 ). Isto Nós auspiciamos a todos aqueles a quem chegar esta Nossa abençoadora mensagem de Paz e de Vida! Vaticano, 8 de Dezembro de 1976. PAULUS PP. VI


In Guardia entrevista: Dom Fernando Arêas Rifan Por Emanuel Jr. In Guardia: Como é sempre bom começar do começo, o Sr. pode nos dizer como foi a descoberta de sua vocação sacerdotal? Dom Fernando: Por pura bondade de Deus, eu nasci numa família católica. Meus avós eram muito piedosos, pessoas de oração. Meu pai era congregado mariano, presidente da obra social da paróquia – dispensário do Divino Espírito Santo – e minha mãe do Apostolado da Oração. Eu fui, desde cedo, da cruzada eucarística, coroinha e cantor do coral na minha igreja matriz. Nesse ambiente, surgiu a minha vocação, meu desejo de ser padre, como eram os padres que eu conhecia. Isso estou falando do que acontecia comigo, subjetivamente, porque na verdade não fui eu que escolhi ser padre, foi Nosso Senhor que me chamou. Apesar de filho único, entrei para o seminário aos 12 anos de idade. E lá fiquei por 12 anos, até a minha ordenação sacerdotal, aos 24 anos de idade. Hoje tenho 37 anos de sacerdócio e 10 anos de episcopado. In Guardia: Por que escolheu a então União Sacerdotal São João Maria Vianney para exercer seu sacerdócio? Dom Fernando: As coisas não eram assim naquele tempo. Era uma paróquia, uma diocese e um seminário normais. Entrei para o seminário diocesano, da Diocese de Campos, em 1963, e fui ordenado sacerdote pelo então Bispo Diocesano de

Campos, Dom Antônio de Castro Mayer, na Catedral Diocesana, em 1974. Fui nomeado diretor diocesano do ensino religioso e pároco da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, cargo que exerci por 10 anos, além de secretário do Bispo. Tudo isso na Diocese de Campos. Não havia, naquela época, a União Sacerdotal, que só foi criada em meados dos anos 80. In Guardia: Sabemos que a Administração Apostólica São João Maria Vianney tem um formato, digamos assim, diferente de Dioceses e Arquidioceses às quais estamos acostumados. O Sr. pode nos explicar um pouco sobre como funciona dentro do Direito Canônico? Dom Fernando: A União Sacerdotal reunia os padres que foram tirados das suas paróquias e igrejas pelo Bispo sucessor de Dom Antônio. Eles continuaram atendendo o povo, em capelas particulares, numa situação canonicamente anormal e mesmo irregular. Isso durou até o ano 2001, quando o Beato Papa João Paulo II transformou a união sacerdotal em Administração Apostólica, para regularizar aquela situação e conservar na plena comunhão da Igreja esses sacerdotes (eram 25) e fiéis ligados às formas litúrgicas e disciplinares anteriores do Rito Romano (Liturgia de São Pio V). Canonicamente, a Administração Apostólica é uma circunscrição eclesiástica equiparada a uma Diocese (C.D.C. cânon

368), uma porção do povo de Deus, cujo cuidado pastoral é confiado a um Administrador Apostólico, que a governa em nome do Sumo Pontífice (cânon 371 §2). Ela se compõe, como as outras dioceses, de paróquias, párocos, seminário próprio, cúria, religiosas, religiosos, catequistas e fiéis em geral. A Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney foi criada pelo Decreto “Animarum bonum”, da Sagrada Congregação para os Bispos, de 18 de janeiro de 2002, oficializando juridicamente a vontade de Sua Santidade, o Papa João Paulo II, expressa na carta autógrafa "Ecclesiae unitas", de 25 de dezembro de 2001. Eu sou o atual Bispo Administrador Apostólico, membro do Regional Leste 1 e da CNBB, de cujas reuniões participo normalmente. Já faz 10 anos da criação da nossa Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, evento que celebraremos durante todo esse ano de 2012, usando como lema a frase do salmo 88: “Misericordias Domini in aeternum cantabo” – “Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”, e como tema: “10 anos de graças: gratidão, reflexão e missão”. In Guardia: A Administração Apostólica tem hoje quantas paróquias, clérigos, seminaristas e atinge quantos leigos efetivamente? Dom Fernando: Hoje a Administração In Guardia - Junho - 13


Apostólica tem 33 padres incardinados, 13 paróquias, 3 Reitorias, umas 130 Igrejas e lugares de Missa, 35 seminaristas. Temos umas cem religiosas, 15 escolas e 2 asilos. Temos muitas associações religiosas tradicionais e catequistas. Os fiéis são cerca de 30 mil. Mas a Administração Apostólica é aberta, para todos que desejarem nela entrar, no território coincidente com a Diocese de Campos. In Guardia: Como o Sr. vê a atual conjuntura das vocações sacerdotais, tanto dentro como fora da Administração Apostólica? Dom Fernando: O número dos nossos seminaristas sempre foi nessa margem. Mas sentimos a falta de mais vocações, mesmo aqui na Administração Apostólica. O baixo número de vocações em geral se deve à secularização da sociedade, ao hedonismo reinante, à tibieza e falta de oração, à decadência das famílias católicas, à falta de espírito de heroísmo e tendência individualista entre os jovens. É claro que também a crise na Igreja influenciou e influencia no baixo número de vocações. In Guardia: Uma dúvida comum de muitos seminaristas e também clérigos que nos acompanham é como funciona a formação dos seminaristas. Existe alguma diferença fora do padrão de normalidade dos demais seminários? Quais as matérias estudadas por eles e o que deles é exigido? Dom Fernando: A formação dos nossos seminaristas é regulada pela Congregação para a Educação Católica (para os Seminários e as Instituições de Estudos), que aprovou nosso programa de estudos e regulamento. Aqui, portanto, se estudam todas as matérias exigidas nos demais seminários e o regulamento é semelhante: oração, retiros espirituais, conferências, vida de comunidade, estudo, aulas, recreios, esporte, passeios, distrações etc. A diferença está na disciplina mais tradicional e na

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Liturgia, porque, como toda a Administração, conservamos a forma antiga do Rito Romano e o primado do canto gregoriano, ao lado do polifônico. Temos uma equipe de bons padres formadores que se ocupa do nosso Seminário. In Guardia: Ainda sobre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X temos um Motu Proprio datado de 1988 chamado Ecclesia Dei que, embora pequeno, tratou de forma bem direta as ordenações feitas por D. Lefebvre e a não autorização por parte da Santa Sé. Pois bem, à época o Sr. já fazia parte da então União Sacerdotal São João Maria Vianney. Como o Sr. e seus contemporâneos viram, à época toda a

Opor ao Magistério da Igreja um magistério supremo de consciência é admitir o princípio do livre-exame, incompatível com a economia da Revelação e da sua transmissão na Igreja, assim como uma concepção correta da teologia e da função do próprio teólogo situação? O Sr. pode nos contar um pouco dessa história? Dom Fernando: Nós não éramos nem somos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, mas sim padres diocesanos que com eles tínhamos em comum a Liturgia na forma antiga e a formação tradicional. Foi um tempo de perseguição mais forte à Mis-

sa na forma antiga e aos católicos que a conservavam. Na ocasião, víamos as ordenações feitas por Dom Lefebvre como algo que seria necessário, devido à crise, um caso de necessidade. Por isso as apoiamos. Depois, estudamos melhor os documentos do Magistério, especialmente a Encíclica Ad Apostolorum Principis, de Pio XII, o Motu Proprio Ecclesia Dei Adflicta de João Paulo II e especialmente a “Nota Explicativa” do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, de 24 de agosto de 1996 (mas que só conhecemos no ano 2001), sobre a interpretação autêntica desse Motu Proprio Ecclesia Dei, onde, sobre o “estado de necessidade no qual Mons. Lefebvre pensava se encontrar” se explica que “deve-se ter presente que tal estado deve verificarse objetivamente, e que não se dá jamais uma necessidade de ordenar Bispos contra a vontade do Romano Pontífice, Cabeça do Colégio dos Bispos. Isto de fato significaria a possibilidade de ‘servir’ a Igreja mediante um atentado contra a sua unidade em matéria conexa com os próprios fundamentos desta unidade”. Então chegamos à conclusão que não se poderia jamais ter tomado aquela atitude, que realmente seria contra a doutrina e a Tradição da Igreja. In Guardia: Ainda sobre a FSSPX e o Motu Próprio Ecclesia Dei quanto menciona as ordenações desautorizadas, nesse documento foi expressamente mencionado que (...) “tal ato foi uma desobediência ao Romano Pontífice em matéria gravíssima” (...) e ainda (...)”A raiz deste ato cismático pode localizar-se numa incompleta e contraditória noção de Tradição.” É assim que hoje a Administração Apostólica concebe aquela atitude? Dom Fernando: Com já disse acima, tal conclusão se impõe a quem tem como critério de verdade e orientação o Magistério da Igreja, como temos e devemos ter. A Nota Explicativa do Motu Proprio,


citada acima, falando dessas ordenações episcopais contra a vontade do Papa, procura esclarecer: “Parece antes de tudo que o cisma de Mons. Lefebvre foi declarado em relação imediata com as ordenações episcopais realizadas em 30 de junho de 1988 sem o mandato pontifício (cf. CIC, can. 1382). Todavia, aparece ainda claramente pelos precedentes documentos que tal gravíssimo ato de desobediência constituiu a consumação de uma progressiva situação global de índole cismática”. É pelo Magistério vivo da Igreja que se pauta a nossa Administração Apostólica. Portanto, vemos aquela atitude do mesmo modo que a vê o Magistério. A propósito, escrevi minha Orientação Pastoral – O Magistério vivo da Igreja, onde explico bem a nossa posição. Se mudamos alguma atitude nossa, foi para nos adequarmos às orientações do Magistério. Cito alguns trechos: “Muitas vezes, na ânsia de defender coisas corretas e sob pressão dos ataques dos opositores, mesmo com reta intenção podem-se cometer erros e exageros que, após um período de maior reflexão, devem ser retificados e corrigidos. São Pio X comentava que no calor da batalha é difícil medir a precisão e o alcance dos golpes. Daí acontecerem faltas ou excessos, compreensíveis, mas incorretos. Erros podem ser compreendidos e explicados, mas não justificados. Santo Tomás de Aquino nos ensina: “Não se pode justificar uma ação má, embora feita com boa intenção” (Decem praec. 6 (cf. C.I.C. 1759)”. “Por essa razão, em carta ao Papa de 15/8/2001, os sacerdotes da antiga União Sacerdotal São João Maria Vianney, agora constituída pelo Papa em Administração Apostólica , escreveram: "E se, por acaso, no calor da batalha em defesa da verdade católica, cometemos algum erro ou causamos algum desgosto a Vossa Santidade, embora a nossa intenção tenha sido sempre a de servir à Santa Igreja, humildemente suplicamos o seu paternal perdão"”. “É preciso sempre ajustar a prática com os princípios que defendemos. Se reconhecemos as autoridades da Igreja é preciso respeitá-las como tais, sem jamais, ao atacar os erros, desprestigiá-las. Se houve algum erro ou exagero no passado quanto a isso,

não há nada de mais em se corrigir o erro. Os princípios, a adesão às verdades da nossa Fé e a rejeição aos erros condenados pela Igreja continuam os mesmos. O que é preciso é evitar as generalizações, ampliações e atribuições indevidas e injustas. A justiça e a caridade, mesmo no combate, são imprescindíveis. Se houve alguma falha também nesse ponto, corrigir-se não é nenhum desdouro. Afinal, errar é humano, perdoar é divino, corrigir-se é cristão e perseverar no erro é diabólico”. Também ali explico a correta noção de Tradição, conforme o Magistério da Igreja. E no meu livro “Considerações sobre as formas do Rito Romano”, esclareci bem:

O Motu Proprio Summorum Pontificum foi grandemente aplaudido por nós e, graças a ele, pouco a pouco, muitas dioceses têm adotado a Missa na forma antiga. Creio que o Motu Proprio serviu para dirimir muitos preconceitos “A Igreja ensina que a consciência subjetiva do fiel ou do teólogo não é critério de verdade porque tal consciência subjetiva “não constitui uma instância autônoma e exclusiva para julgar a validade de uma doutrina... Opor ao Magistério da Igreja um magistério supremo de consciência é admitir o princípio do livre-exame, incompatível com a economia da Revelação e da sua transmissão na Igreja, assim como uma concepção correta da teologia e da função do próprio teólogo. Os enunciados da Fé não resultam de uma investigação puramente individual e de um livre exame da Palavra de Deus, mas constituem uma herança eclesial. Se alguém se separa dos Pastores, que velam por manter viva a tradição apostólica, é a ligação com Cristo que se encontra irreparavelmente comprometida” (CDF, Instrução Donum Veritatis). É o Magistério que me faz conhecer o que pertence ou não à Tradição apostólica: não sou eu que deve julgar o Magistério em função do que posso compreender da Tradição. Se o Magistério não está acima da Tradição nem da Sagrada Escritura, está acima de todas as nossas interpretações

da Tradição e da Sagrada Escritura. Isto é o que explicou claramente o Beato João Paulo II ao então Cardeal Joseph Ratzinger: “... não é o antigo como tal nem o novo em si mesmo o que corresponde ao conceito exato da Tradição na vida da Igreja. Este conceito designa, com efeito, a fidelidade duradoura da Igreja à verdade recebida de Deus através dos acontecimentos mutáveis da história. A Igreja, como o pai de família do Evangelho, tira com sabedoria ‘de seu tesouro o velho e o novo’ (cf. Mt 13,52), mantendo-se na obediência absoluta ao Espírito da Verdade que Cristo entregou à sua Igreja como guia divino. Esta delicada tarefa de discernimento a Igreja a cumpre por meio de seu Magistério autêntico (cf. LG 25) (Carta In questo periodo ao Cardeal Ratzinger (04-VIII-1988: AAS, 1988, pgs. 1121-1125). In Guardia: Passando ao Motu Proprio Summorum Pontificum o que o Sr. tem a nos dizer sobre a disseminação do rito extraordinário em meio a Dioceses que antes sequer imaginavam celebrar no rito antigo? Dom Fernando: O Motu Proprio Summorum Pontificum foi grandemente aplaudido por nós e, graças a ele, pouco a pouco, muitas dioceses têm adotado a Missa na forma antiga. Creio que o Motu Proprio serviu para dirimir muitos preconceitos. O Santo Padre Bento XVI explicou que ele deseja a paz litúrgica na Igreja e que a Missa na forma extraordinária poderá fazer muito bem à Liturgia em geral. Esperamos que isso aconteça mais e mais. Aqui no Brasil, as coisas estão andando devagar, pouco a pouco. In Guardia: O que o Sr. diria para os párocos que desejam celebrar no rito Tridentino, mas encontram alguma barreira de ordem pastoral? Como agir? Dom Fernando: Os párocos, tendo formação tradicional, vão compreender o que disse o Papa: que a Missa celebrada na forma antiga só poderá fazer bem. É claro que é preciso ter correta orientação e adesão ao Magistério da Igreja. E os párocos têm autorização dada diretamente pelo Santo Padre para a celebrarem e permitirem sua celebração. In Guardia: Presenciamos em várias Dioceses uma quantidade razoavelmente grande de sacerdotes que gostariam de celebrar no rito Tridentino, contudo o ensino do latim nos seminários não foi bem feito ou simplesmente não aconteceu. Existe alguma forma mais fácil para esses sacerdotes aprenderem o rito? Dom Fernando: A nossa Administração Apostólica, em parceria com outras dioceses, tem promovido pelo Brasil “Encontros Summorum Pontificum”, para incentivar e ensinar aos sacerdotes a Missa na forma In Guardia - Junho - 15


extraordinária. O primeiro encontro foi na Diocese de Garanhuns, em 2010, o segundo na Arquidiocese do Rio de Janeiro, em 2011, e o terceiro será na Arquidiocese de Salvador, Bahia, de 14 a 18 de setembro próximos, com um dia aberto aos leigos. Estamos preparando também cursos práticos de latim litúrgico. Para celebrar a Missa na forma extraordinária os sacerdotes devem conhecer o latim, ao menos básico, e saber pronunciá-lo bem. Há muitos missais bilíngues que poderão ajudar na tradução. In Guardia: Passando às recentes notícias sobre as “negociações” entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o que o Sr. pode nos dizer sobre as expectativas? Dom Fernando: A expectativa é grande. Temos um grande desejo de que eles regularizem sua situação canônica e resolvam logo esse problema da plena comunhão com a Igreja. Pode ser muito difícil, dado a posição que eles tomaram e que muitos deles mantêm, segundo seus escritos atuais. Mas, para Deus, nada é impossível. Rezemos. E, se eles regularizarem sua situação com a Igreja e afinarem sua doutrina com a do Magistério, serão muito bem-vindos e ficaremos alegres com isso. Nós também recebemos a mesma graça. Aliás, quando o Santo Padre lhes levantou a excomunhão, para facilitar o caminho deles à plena comunhão, eu escrevi aos quatro Bispos da Fraternidade: “Eu e toda nossa Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, seus sacerdotes e fiéis, os felicitamos e nos congratulamos de todo o coração com V. Exas. pelo levantamento das excomunhões que vos atingiam e agradecemos ao Santo Padre por este gesto de paternal misericórdia e generosidade, que terá uma frutuosa repercussão em toda a Igreja. Como nós também fomos objeto da mesma bondade do Santo Padre, que levantou a excomunhão de Dom Licínio Rangel em novembro de 2001, o que nos conduziu à nossa completa regularização em 18 de janeiro de 2002, nós estaremos sempre em oração para que V. Exas. possam também chegar à completa regularização de toda a Fraternidade São Pio X, como o desejou o Papa. Nós confiamos todo esse caso ao Imaculado Coração da Santíssima Virgem, a quem V. Exas. com tanta confiança recorreram para a sua solução”. In Guardia: A FSSPX tem a teoria de que as discussões com a Santa Sé têm como fim mostrar às autoridades eclesiásticas que a Fraternidade está plenamente unida ao Magistério perene da Igreja Católica Apostólica Romana, à doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou como se diz, à Tradição da Igreja, ou seja, que In Guardia - Junho - 16

não haveria qualquer perigo de heresia, de ensino contrário à doutrina dos Papas. Seria essa mesma a situação ou o Sr. vê de outra forma? Dom Fernando: Se a Santa Sé aceitar isso, julgando assim, ótimo. Se eles acertarem os ponteiros doutrinários e corrigirem, daqui em diante, muitas afirmações e atitudes não perfeitamente consoantes com a doutrina católica, a reconciliação será perfeita. A Santa Sé disse que o problema deles é doutrinário. Deles. Eles reconhecem que o problema é doutrinário, mas dizem que não é deles, mas da Santa Sé, da Igreja (!). Rezemos para que eles afinem sua doutrina com o Magistério vivo da Igreja. Afinal, é dogma de Fé, definido pelo Concílio Ecumênico Vaticano I, que “esta Sé de São Pedro

permanece imune de todo erro, segundo a promessa de Nosso Divino Salvador feita ao Príncipe de Seus Apóstolos: ‘Eu roguei por ti, para que tua Fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos’ (Lc 22,32)” (Const, Dog. “Pastor Aeternus”, sobre a Igreja de Cristo, D-S 3070 e 3071). Esse mesmo Concílio Ecumênico Vaticano I define que “este carisma da verdade e da fé, que nunca falta, foi conferido a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra...” (Const, Dog. “Pastor Aeternus”, sobre a Igreja de Cristo, D-S 3070 e 3071). Como disse São Pio X: “O primeiro e maior critério da fé, a regra suprema e inquebrantável da ortodoxia é a obediência ao magistério sempre vivo e infalível da Igreja, estabelecido por Cristo columna et firmamentum veritatis, a coluna e o sustento da verdade.” (Alocução


Cum vera soddisfazione, de 10/5/1909). Arvorar-se em juiz ou critério de verdade no lugar do Magistério ou em juiz do Magistério seria pretensão descabida. In Guardia: Por diversas vezes vemos membros da FSSPX e mesmo pessoas não ligadas a ela, mas que tem uma identidade de mais forte ligação com ela, afirmarem que o Rito Novo favorece o surgimento de heresias e isso pode levar a crer que, por esse motivo, não é legítimo. Como o Sr. vê tais afirmações? Dom Fernando: Esta opinião sobre a ilegitimidade do Rito Novo não está de acordo com a doutrina católica e, por isso mesmo, não é aprovada pelo Papa Bento XVI, cuja posição é bem outra. Com efeito, o Santo Padre, o Papa Bento XVI, em sua Carta aos Bispos que

acompanha o Motu Proprio Summorum Pontificum, afirma expressamente, como sendo algo óbvio e lógico: “Obviamente, para viver a plena comunhão, também os sacerdotes das Comunidades que aderem ao uso antigo, não podem, em linha de princípio, excluir a celebração segundo os novos livros. De fato, não seria coerente com o reconhecimento do valor e da santidade do rito a exclusão total do mesmo”. Está claro, portanto, nas palavras do Santo Padre, que se deve reconhecer o valor e a santidade da nova liturgia, e, em consequência, não excluí-la totalmente. Na minha Orientação Pastoral – O Magistério vivo da Igreja, e no meu livro “Considerações sobre as formas do Rito Romano”, explico bem: “Levados pelo legítimo desejo de con-

servar a riqueza litúrgica do rito tradicional e chocados, com razão, em sua fé e piedade com os abusos, sacrilégios e profanações a que deu azo a reforma litúrgica, os católicos da linha tradicional, não querendo ver a “liturgia transformada em show” (Card. Ratzinger) nem querendo compartilhar com erros e profanações que viam, apegaram-se legitimamente às formas tradicionais da liturgia. Por isso, merecem toda a nossa compreensão, nossos louvores e nosso apoio todos os que lutam pela preservação da Liturgia na sua forma tradicional”. “Assim também, em nossa Administração Apostólica, por faculdade a nós concedida pela Santa Sé, conservamos o rito da Missa na sua forma tradicional, isto é, a antiga forma do Rito Romano, como o fazem igualmente muitas congregações religiosas, grupos e milhares de fiéis em todo o mundo. Nós a amamos, preferimos e conservamos por ser, para nós, melhor expressão litúrgica dos dogmas eucarísticos e sólido alimento espiritual, pela sua riqueza, beleza, elevação, nobreza e solenidade das cerimônias, pelo seu senso de sacralidade e reverência, pelo seu sentido de mistério, por sua maior precisão e rigor nas rubricas, apresentando assim mais segurança e proteção contra abusos, não dando espaço a “ambigüidades, liberdades, criatividades, adaptações, reduções e instrumentalizações”, como lamenta o Papa João Paulo II (Enc. Ecclesia de Eucharistia). E a Santa Sé reconhece essa nossa adesão como perfeitamente legítima. Assim, por ser uma das riquezas litúrgicas católicas, exprimimos através da Missa na sua forma tradicional o nosso amor pela Santa Igreja e nossa comunhão com ela”. “Mas jamais se pode usar a adesão à Liturgia tradicional em espírito de contestação à autoridade da Igreja ou de rompimento de comunhão. Há que se conservar a adesão à tradição litúrgica sem pecar contra a sã doutrina do Magistério e sem jamais ofender a comunhão eclesial. Ensina o Papa João Paulo II: ‘A diversidade litúrgica pode ser fonte de enriquecimento, mas pode também provocar tensões, incompreensões recíprocas e até mesmo cismas. Neste campo, é claro que a diversidade não deve prejudicar a unidade. Esta unidade não pode exprimir-se senão na fidelidade à fé comum ... e à comunhão hierárquica’ (Carta apostólica Vigesimus quintus annus)”. “Os limites, impostos pela teologia católica às reservas e críticas, nos impedem, por exemplo, de dizer que o Novus Ordo Missae, a Missa promulgada pelo Santo Padre Paulo VI, seja heterodoxa ou não católica. A sua promulgação (feita pelo Papa Paulo VI e reeditada duas vezes por João In Guardia - Junho - 17


Paulo II e confirmada pelo Papa Bento XVI) (forma, no sentido filosófico) é a garantia contra qualquer irregularidade doutrinal que pudesse ter havido na sua confecção (matéria), embora ela possa ser melhorada na sua expressão litúrgica. E é a sua promulgação oficial, e não o modo de sua confecção, que a torna um documento do Magistério da Igreja”. “Quem, na teoria ou na prática, considerasse a Nova Missa, em si mesma, como inválida, sacrílega, heterodoxa ou não católica, pecaminosa e, portanto, ilegítima, deveria tirar as lógicas consequências teológicas dessa posição e aplica-la ao Papa e a todo o Episcopado residente no mundo, isto é, a toda a Igreja docente: ou seja, sustentar que a Igreja oficialmente tenha promulgado, conserve há décadas e ofereça todos os dias a Deus um culto ilegítimo e pecaminoso – proposição reprovada pelo Magistério (cf. notas 70 e 71) - e que, portanto, as portas do Inferno tenham prevalecido contra ela, o que seria uma heresia. Ou então estaria adotando o princípio sectário de que só ele e os que pensam como ele são a Igreja e que fora deles não há salvação, o que seria outra heresia. Ademais isso não vem significar absolutamente que estejamos aprovando abusos e profanações que ocorrem até com certa frequência em Missas celebradas no novo rito. Estamos falando do rito em latim tal qual foi promulgado pelo Santo Padre Paulo VI e aprovado pelos seus sucessores”. In Guardia: Alguns entendem que a

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melhor forma de “legalização” da situação da FSSPX seria a criação de uma Prelazia Pessoal. Esse seria o melhor caminho? Dom Fernando: Após a afinação doutrinária, creio que essa seria a melhor solução, como foi o nosso caso, a criação da Administração Apostólica Pessoal. Mas isso depende muito das implicações canônicas e da convivência com os Bispos nas suas respectivas dioceses. Creio que a Santa Sé está examinando esta possibilidade. In Guardia: O Sr. sempre tentou deixar bem claro em seus textos a diferença entre o sagrado e o profano no ambiente propício para a celebração da Santa Missa. O que o Sr, pode indicar como profano no Rito de Paulo VI, não dentro dos abusos reconhecidamente cometidos, mas em relação ao rito como consta nas rubricas? Existe esse ponto que podemos chamar “profano”? Dom Fernando: Não posso dizer que haja algo de profano num rito aprovado oficialmente pela Igreja, como é o caso da forma ordinária do Rito Romano. E se houvesse algo profano, foi sacralizado pela aprovação da Igreja. Mas, como já explicamos, isso não quer dizer que o rito seja o melhor possível e que não possa ser melhorado. Eu creio que o rito ordinário, por não ser tão preciso e exigente nas rubricas como é o rito na forma extraordinária, pode dar azo a muitos abusos, devido ao ambiente atual e à falta de formação teológica e litúrgica de muitos.

Por exemplo, a fórmula do rito atual: “com essas ou com palavras semelhantes” (his vel similibus verbis), foi escrita para pessoas de boa formação e de bom senso. Mas, para os que não os têm, pode ser ocasião de introduzir muitas coisas profanas, como nas saudações de início e fim da Santa Missa. Como comentou o então Cardeal Ratzinger: “No novo Missal, encontramos muito frequentemente fórmulas como: sacerdos dicit sic vel simili modo (o sacerdote diz assim ou de modo semelhante)... ou então: hic sacerdos potest dicere (aqui o sacerdote pode dizer)... Esta fórmula do Missal oficializa de fato a criatividade; o padre se sente quase obrigado a mudar um pouco as palavras, de mostrar que ele é criativo, que ele torna presente à sua comunidade esta liturgia; e com esta falsa liberdade que transforma a liturgia em catequese para esta comunidade, destrói-se a unidade litúrgica e a eclesialidade da liturgia” (Card. Ratzinger, Autour de la question liturgique, 24 juillet 2001, Fontgombault). Outro exemplo: a possibilidade de se introduzir instrumentos considerados profanos, tais como guitarras e baterias. Antigamente, e o seguimos na forma extraordinária, não se podia tocar na Igreja quaisquer instrumentos de percussão, cujo som e timbre criam um ambiente profano. Aliás, até hoje, é recomendado o uso do órgão, como o instrumento mais próprio para a Igreja, o que infelizmente não é observado em muitos lugares.


Lenise Garcia

A morte do direito à vida

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m número anterior da Revista In Guardia foi publicado um artigo de minha autoria, antecipando o debate que logo ocorreria no julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF)-54, na qual se solicitava que não fosse considerado crime o aborto (no processo, chamado de “antecipação terapêutica do parto”) de crianças com anencefalia. Como provavelmente o leitor já acompanhou pelos meios de comunicação, o julgamento ocorreu nos dias 11 e 12 de abril, tendo como resultado a aprovação da ADPF, com apenas 2 votos contrários. Talvez poucos tenham percebido a gravidade da decisão do STF ao autorizar o aborto dessas crianças, com o argumento de que “o feto sem potencialidade de vida não pode ser tutelado pelo tipo penal que protege a vida”. O Ministro Marco Aurélio Mello, relator do processo, fez também a colocação de que o anencéfalo seria “natimorto”, contradizendo-se logo a seguir ao afirmar que tem “possibilidade quase nula de sobreviver por mais de 24 horas”. A ninguém ele explicou como pode um natimorto sobreviver. Entre os que se dão conta da gravidade da situação está o Ministro Cezar Peluso, que disse no seu voto que “este é o mais importante julgamento da história desta Corte. O que nela na verdade se tenta definir é o alcance constitucional do conceito de vida e sua tutela normativa”. “A vida não é um conceito artificial criado ... pela ciência jurídica. A vida, assim como a morte, são fenômenos pré-jurídicos, dos quais o direito se apropria para determinados fins, mas que jamais, em nenhuma circunstância, podem regular, de maneira contraditória, a própria realidade fenomênica”. Por mais que sua vida possa ser curta, o anencéfalo não pode ser equiparado a um morto cerebral. Ele respira espontaneamente, e mesmo que a morte ocorra depois de poucos minutos ou horas, o fato é que ele morre, e só pode morrer porque estava vivo. Ao descaracterizar a vida do anencéfalo como direito a ser protegido, o STF deu à luz uma estranha criatura, o “morto jurídico”. Foram desvinculadas a “vida biológica” e a “vida jurídica”, e assim o anencéfalo foi morto por decreto ainda no útero de sua mãe. Curiosa solução para que ele possa ser abortado sem aparente transgressão da lei, uma vez que juridicamente já está morto, desde que o médico e a mãe assim decidam. Entretanto, preservou-se o direito das mães que queiram levar a gravidez até o final. Eu me pergunto que direitos terá essa crian-

ça, ao nascer. Será ela registrada como morta? E se ela perseverar em viver, mesmo que por alguns dias, terá direito à assistência? Segundo o Ministro Marco Aurélio, “jamais se tornará uma pessoa”, é um não-cidadão, juridicamente morto. Entretanto, estava presente no início do julgamento a menina Vitória de Cristo, com seus pais, Marcelo e Joana Croxato. Diagnosticada como anencéfala, mas tendo os seus direitos e dignidade respeitados pelos pais, que optaram por levar adiante a gravidez, ela já está com 2 anos e 3 meses. Casos como os de Marcela de Jesus e Vitória de Cristo fizeram com que se debatesse, no STF, a incerteza do diagnóstico, ou sua vinculação com a impossibilidade de vida, mas optou-se por não incluir isso na decisão. Uma vez aprovada a sentença de morte, ficou para o Conselho Federal de Medicina a impossível tarefa de decidir a quem deverá ser aplicada, ou seja, como diagnosticar, sem possibilidade de erro, a criança anencéfala. O diagnóstico intraútero é de acrania, acompanhado pelo prognóstico de anencefalia, uma vez que o cérebro ainda está em formação e a sua lesão está em processo. Prever, aos três meses de gravidez, como será a deficiência ao nascer é algo similar a examinar uma criança de três anos e prever o seu peso e altura quando tiver nove. De qualquer modo, seja qual for o tamanho da lesão, esta não pode ser argumento para se negar a vida de quem a possui. Outro grave erro que perpassa os votos favoráveis à autorização do aborto é a substituição do julgamento moral feito com base em uma contraposição entre bem e mal – base de todo o ordenamento ético e jurídico - para outra, feita entre felicidade e sofrimento. Evidentemente, ninguém deseja o sofrimento per se. Entretanto, há inúmeras situações na vida humana em que ele é inevitável. Se o estar sofrendo autorizasse qualquer ação, estaríamos diante da derrocada da moral. Além do mais, é falso o alívio trazido pelo aborto, pois as mulheres que a ele recorrem terão de conviver com a lembrança do ato praticado, muito mais dura do que a memória de um filho, mesmo deficiente, recebido com amor e doação de si. Além de abrir portas para o aborto, a sentença as abre também para a eutanásia de pessoas doentes ou idosas “sem potencialidade de vida”, ou cuja “qualidade de vida” possa ser questionada. O aborto do anencéfalo é, na verdade, uma eutanásia fetal. Com o discurso da liberdade, a decisão do STF tem ares totalitários e abre perigosíssimos precedentes de violação do mais básico dos direitos humanos, o direito à vida.

Com o discurso da liberdade, a decisão do STF tem ares totalitários e abre perigosíssimos precedentes de violação do mais básico dos direitos humanos, o direito à vida

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Por Ives Gandra Martins

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Os dois Supremos

m dos mais importantes pilares da atual Constituição foi a conformação de um notável equilíbrio de poderes, com mecanismos para evitar que um poder invada a competência dos outros. Agem harmônica e independentemente (art. 2º). O Supremo Tribunal foi guindado expressamente a “guardião da Constituição” (art. 102), escolhido por um homem só (art. 101, § único), o Presidente da República é eleito pelo povo (art. 77), assim como o Senado e a Câmara (art. 45 e 46). O Congresso Nacional, tem poderes constitucionais para anular quaisquer decisões do Executivo ou do Judiciário, que invada a sua competência normativa (art. 49, inc. XI), podendo socorrerse das Forças Armadas para mantê-la (art. 142), em caso de conflito. Há, pois, todo um arsenal jurídico para assegurar a democracia no país, plasmado na Lei Suprema. Ora, a Suprema Corte brasileira, constituída no passado e no presente, por ínclitos juristas, parece hoje exercer um protagonismo político, que entendo contrariar o artigo 103, § 2º da CF que o impede de legislar. Assim é que, a partir dos 9 anos da gestão Lula-Dilma, o Pretório Excelso passou a gerar normas, como nos casos de empossar candidato derrotado – e não eleito direta ou indiretamentequando de cassação de governantes estaduais (art. 81 da CF), da fidelidade partidária, que os constituintes colocaram como faculdade dos partidos (art. 17 § 1º); do aviso prévio (art. 7º, inc.

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XXII); da relação entre homossexuais (art. 226 § 3º), do aborto dos anencéfalos (art. 128 do C.Penal), para citar apenas alguns. Tem-se, pois, duas posturas julgadoras drasticamente opostas entre os magistrados de antanho e os atuais, que entendem que quando o Poder Legislativo, que deveria produzir a norma, não o faz, caberia à Suprema Corte produzi-la. Denominam, alguns constitucionalistas que vivemos a era do neoconstitucionalismo, o qual comportaria tal visão mais abrangente de judicialização da política. Como velho advogado e professor de direito constitucional, tenho receio dos avanços de um poder técnico sobre um poder político, principalmente quando a própria Constituição o impede (art. 103 § 2º). Nem se argumente que ação de descumprimento de preceito fundamental, de cuja redação de anteprojeto participei ao lado de Celso Bastos, Gilmar Mendes, Arnoldo Wald e Oscar Corrêa, autorizaria tal invasão de competência, visto que tal ação objetivava apenas suprir as hipóteses não cobertas pelas ações existentes de controle concentrado. Meu receio é que, por força dos instrumentos constitucionais de preservação dos poderes, numa decisão judicial de caráter político nacional possa haver conflito que justifique a anulação das decisões do STF pelo Congresso (art. 43, inc. XI) o que poderia provocar indiscutível fragilização do regime democrático no país. É sobre tais preocupações que gostaria que magistrados e parlamentares se debruçassem para refletir.


Bruno de Castro Revista Época

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A chamada Síndrome de Legislativo, seus sintomas e seu novo tratamento

ocês sabem o que é Síndrome de Legislativo? Essa enfermidade normalmente se verifica em pessoas não-eleitas para serem representantes do povo, para, com alguma forma de poder dentro ou fora do Estado, exercerem o poder de governo - que apesar de não ser a realidade, deveria ser originário do legislativo - e utilizam-se assim das manobras mais intolerantes e anti-democráticas. Normalmente os portadores da denominada enfermidade costumavam serem lobistas, dirigentes partidários, sindicalistas, assessores parlamentares e até chefes administrativos das próprias casas legislativas, que, reitero, não foram eleitos pelo povo, mas tiveram o poder delegado pelo representante deste escolhido para liderar com uma autoridade - que não passa do “ser simbólica” ao “ser de fato” - a máquina administrativa em sua determinada casa parlamentar. Hoje, ministros togados do Supremo Tribunal Federal são os que mais intensamente sofrem pela síndrome descrita, e a cura, com a graça de Deus, está já muito próxima! O que causa a enfermidade é muito simples: os membros do órgão constitucional são reflexos ideológicos do próprio chefe do Poder Executivo - e assevero isso porque todos são indicados da confiança do Presidente da República. Todos eles, assim, acabam a possuir um compromisso ideológico: uns com a violação subsidiária com a social-democracia, outros com o próprio marxismo e o restante para tudo que for “novo e progressista”, de forma a tornar o STF um órgão “substituto do legislativo”, e logo da representação popular, para fins de, analogamente, dar letra às leis. Este é o primeiro sintoma da Síndrome. O segundo sintoma é uma grande febre megalomaníaca que propõe revisar toda e qualquer matéria já legislada, como a forma familiar das uniões estáveis, o crime de aborto (salvo nos casos de risco para a gestante ou estupro) ou até mesmo o que é vida! Ora, como um órgão corretivo se atreve a agir como legislativo? E o que é pior, quando sua finalidade maior é justamente a de proteger a Constituição que trás em si o princípio da separação dos poderes, da forma federativa, da legalidade e da dignidade da pessoa humana! De fato, o paciente está mal, muito mal, e o remédio receitado será amargo. Quem detém a qualidade de fiscalizar o STF é o próprio Senado da República, que sabatina e aceita os ministros indicados pelo Presidente. O Senado não agiu, pois o interesse para que o STF aja na causa das minorias, impondo suas políticas

às maiorias, é uma vontade própria da “presidenta” Dilma e de seu partido satânico. Porém, enquanto os coronéis do Senado tomam cafezinho e tratam de assuntos aos quais não se referem à vontade popular que lhes delegou o poder, um projeto de emenda à Constituição que eleva o poder do legislativo em relação ao Executivo, no sentido de ele poder, pela primeira vez após a Constituição de 1988, derrubar medidas provisórias do Executivo de matérias que já tenham sido legisladas anteriormente, está para ser aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal. Não obstante, a droga que provavelmente irá curar o STF desta terrível e anti-democrática síndrome é justamente a emenda que foi adicionada à PEC, no sentido de modificar a palavra “Executivo” por “qualquer órgão”, o que abarcaria as questões em que o STF legislou acima da hermenêutica literal da legislação e da Constituição, como a união estável homossexual, o aborto de anencéfalos e até mesmo a antiga questão do método abortivo da pílula do dia seguinte - em que a Suprema Corte decretou que a vida não começaria na fecundação, mas na nidação, que é a ligação do feto à mãe pelo cordão umbilical. O mais impressionante disso tudo não é somente que o país pode dar verdadeiramente poder a nossos parlamentares, mas o simples fato de que o autor da PEC é um deputado (pasmem!) do PT! Ou seja, até os próprios parlamentares do partido governista que possuem interesse no direito das minorias imposto pelo STF não suportam mais a desvalorização representativa a que são conduzidos. Alguns deputados e senadores podem não perceber, mas estão, silenciosamente, passando pela maior crise já havida no Poder Legislativo. Nunca o poder da representação popular, e assim da própria democracia, foi tão destratado em favor de um órgão que possui a vontade de ser o que é, de fato, o Legislativo. É claro que é muito mais agradável pensar como o Supremo Tribunal Federal o faz: é muito mais ágil, muito mais rápido, e muito menos burocrático. Porém, lembrando a questão de legitimação política exposta por Max Weber, é no respeito ao processo burocrático-legal, nessa dificuldade de ser eleito, de ser representante popular e de passar pelas dificuldades do consenso para promover uma norma ao ordenamento jurídico é que se consolida tal legitimidade, e não na simplicidade de se taxar leis e controlar comportamentos de uma só mesa e de doze cadeiras, fato que, procurei, mas, sinceramente, não encontrei semelhante em parte nenhuma da história, nem mesmo no próprio período absolutista! In Guardia - Junho - 21


“Espírito de Vida, que em princípio pairava sobre o abismo, ajude a humanidade do nosso tempo a compreender que a exclusão de Deus leva a passagem no deserto do mundo, e que somente onde entra a fé florescem a dignidade e a liberdade e a toda sociedade se edifica na justiça”, Bento XVI

Ian Farias

O Espírito Santo: dom máxi C

om grande júbilo a Igreja conclui o Tempo Pascal com a Solenidade de Pentecostes, fazendo memória da vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos e Maria Santíssima, que se encontravam em oração no cenáculo. Cabe-nos aqui ressaltar que nesta Solenidade celebramos o nascimento da Igreja, que ainda estava tomada pelo temor dos discípulos diante das autoridades, as quais haviam matado Jesus, mas que agora já não mais seria tomada pelo temor, mas pela força propulsora do Evangelho que causaria uma modificação na fé dos discípulos tementes. Nas leituras desse acontecimento percebe-se a manifestação do Espírito de Verdade, que impulsiona o cristão a tornar-se anunciador do Evangelho e testemunhar a Cristo com a própria vida, esvaziandose de si mesmos e deixando-se preencher pela completude da graça que faz grandes prodígios. Na primeira leitura tem-se a narração lucana do dia de Pentecostes, dia em que o Espírito vem em profusão sobre os que se encontravam no cenáculo. Para João, o dom do Espírito Santo é consequência da glorificação de Jesus: prometido e entregue. Vale ressaltar que alguns exegetas têm poucas dúvidas de que o relato de Lucas nos Atos (2, 1-13) tenha sido uma construção artificial na qual o evangelista priorizava a reta intenção teológica. No entanto, não cabe aqui fazer uma análise In Guardia - Junho - 22

histórica do tema em questão, mas, sim, da ação do Espírito e de como tais feitos podem influenciar na hodierna sociedade. “Quando chegou o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos. De repente veio do céu um ruído, como de vento de furacão, que encheu toda a casa onde se alojavam” (vv. 1-2). A festa de Pentecostes foi instituída desde o Antigo Testamento. Pentecostes é o nome de uma festa do antigo calendário bíblico, (Ex 23, 16). Originalmente, essa festa é referida como festa da Colheita, dia de alegria e ação de graças; nessa ocasião ofereciam-se as primícias do que a terra produziu. É também a festa da Aliança feita por Deus cinquenta dias depois da saída da escravidão do Egito. O cenário que Lucas transcreve faz memória do “dia do Senhor”, de sua teofania, sua manifestação, ainda que por um modo aparentemente turbulento. O “lugar” que se encontravam era o Cenáculo de Jerusalém. Ali, onde antes reinava o temor ocasionado pela perseguição dos sacerdotes, agora viria a força propulsora que faria com que os discípulos renegassem a todo o medo. E também nós poderíamos indagar-nos sobre quantas vezes deixamos que o temor sufocasse o amor a Cristo e a sua Igreja. A nossa fé parece ser abalada por certas investidas adversas àquilo que professamos. É também nestes instantes que devemos voltar-nos ao Cenáculo e de-

vemos pedir que a Igreja, novo Cenáculo do novo povo de Deus, possa ser sinal da graça santificadora atuante no mundo. Dos que ali estavam presentes encontramos enumerados da seguinte forma: os onze Apóstolos são enumerados por nome, e os primeiros três são Pedro, João e Tiago, as “colunas” da comunidade; juntamente com eles são mencionadas “algumas mulheres”, “Maria, a Mãe de Jesus” e os “irmãos dele”, já integrados nesta nova família, fundamentada não já em vínculos de sangue, mas na fé em Cristo. “Apareceram línguas como de fogo, repartidas e pousadas sobre cada um deles. Encheram-se todos do Espírito Santo e começaram a falar línguas estrangeiras, conforme o Espírito lhes permitia expressar” (v. 3-4). Um único Espírito pousa sobre eles e se distribui.A informação sobre a língua em que falavam parece-nos incoerente. Se no versículo quatro se diz que falavam as “línguas estrangeiras”, no versículo oito se diz que aqueles que ouviam os apóstolos o escutavam em seu próprio idioma. No entanto, cabe notarmos que não se diz que falavam “novas línguas” como alguns grupos utilizaram para justificar as orações “em línguas”. Mas falavam as línguas estrangeiras de todos aqueles que ali se encontravam para a festa e todos podiam compreendê-la como se fosse uma única língua.


imo doado a Igreja É prodigioso notarmos isso! Se por um lado parece que o narrador despreocupase com maiores detalhes no texto, como o momento em que eles começaram a falar ou por que o estrondo os congrega naquele lugar; por outro não deixa de relatar a universalidade da língua. Que língua falavam os que ali estavam congregados senão a linguagem do amor? O amor que nos faz abdicar de nós mesmos, vencermos o comodismo e dirigir-nos em direção ao outro. Esta é a linguagem universal de Pentecostes; esta deve ser a linguagem universal da Igreja. “O amor haveria de reunir na Igreja de Deus todos os povos da terra. E como naquela ocasião um só homem, recebendo o Espírito Santo, podia falar em todas as línguas, também agora, uma só Igreja, reunida pelo Espírito Santo, se exprime em todas as línguas. Se por acaso alguém nos disser: ‘Recebeste o Espírito Santo; por que não falas todas as línguas?’ devemos responder: ‘Eu falo em todas as línguas. Porque sou membro do Corpo de Cristo, isto é, da sua Igreja, que se exprime em todas as línguas. Que outra coisa quis Deus significar pela presença do Espírito Santo, a não ser que sua Igreja haveria de falar em todas as línguas?’” (Dos Sermões de um Autor africano anônimo, do século IV, LH 910). Este aspecto denota a universalidade da Igreja de Cristo. A Igreja Católica não é

composta por várias Igrejas, mas apenas uma, unida ao seu Senhor. A Igreja é o retrato de Pentecostes, desta compreensão de caráter universal. Sim, eis aqui a centralidade do mistério de Pentecostes: dar vitalidade à Igreja! Fazer com que ela seja a garante da veracidade dos Dogmas e mandamentos ensinados por inspiração do Espírito e saber que mesmo na fragilidade de seus filhos ela é constantemente confirmada pelo supremo poder do Espírito Santo e é, ao mesmo tempo, sua portadora. Por este motivo pôde assinalar Santo Irineu: “Onde está a Igreja, ali está o Espírito de Deus, e onde está o Espírito de Deus, ali estão a Igreja e todas as graças, e o Espírito é a verdade; afastar-se da Igreja significa rejeitar o Espírito” e, por conseguinte, “excluir-se da vida” (Adv. Haer. III, 24, 1). A verdadeira vida do homem não é aquela onde ele julga poder, com sua autossuficiência, responder os questionamentos da vida e isolar-se de Deus. Não! A verdadeira vida é viver a liberdade autêntica de filhos de Deus e colocar-se a seu serviço, ser portador do seu Espírito aos homens.E por este Espírito a esperança pode brilhar em meio aos turbulentos dias que afrontam a dignidade de nossa filiação adotiva. Ele quebra a tentação do homem que deseja uniformizar tudo e liberta o homem da escravidão à qual são tentados a lançarem-se. Só o homem livre tem espe-

rança. Quem é escravo não pode esperar, pois reduz-se ao seu mundo, ao seu modo de pensar e não abre-se à graça regeneradora do Espírito, é submisso ao peso e à deterioração da história. Mas a unidade da Igreja vai além dos seus ensinamentos. Desde o Concílio Vaticano II, somos chamados a dialogar também com outros povos. O Documento de Aparecida faz um forte apelo pela unidade de todos os cristãos, sobretudo nesta festa que encerra no hemisfério Sul a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, recordando-nos que os sinais frutíferos da unidade provêm exclusivamente do Espírito: “Às vezes esquecemos que a unidade é, antes de tudo, um dom do Espírito Santo, e oramos pouco por esta intenção” (nº 230). Se observarmos o relato da primeira leitura, a propósito desta dimensão da universalidade, poderemos constatar de forma clara que a universalidade ocorre em meio à diversidade de povos. Os que ali estavam eram “da Mesopotâmia, da Judéia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também romanos, judeus e prosélitos, cretenses, árabes” (vv. 9-11). “No evento do Pentecostes torna-se clarividente que à Igreja pertencem múltiplas línguas e diferentes culturas; na fé, elas podem compreender-se e fecundarse reciprocamente. São Lucas quer claramente transmitir uma ideia fundamental, ou seja, que no próprio ato do seu nascimento a Igreja já é ‘católica’, universal. Ela fala desde o início todas as línguas, porque o Evangelho que lhe é confiado está destinado a todos os povos, em conformidade com a vontade e o mandato de Cristo ressuscitado (cf. Mt 28, 19). A Igreja que nasce no Pentecostes não constitui, acima de tudo, uma comunidade particular a Igreja de Jerusalém mas sim a Igreja universal, que fala as línguas de todos os povos. Sucessivamente, dela hão de nascer outras comunidades em todas as regiões do mundo, Igrejas particulares que são, todas e sempre, realizações da una e única Igreja de Cristo. Por conseguinte, a Igreja católica não é uma federação de Igrejas, mas uma única realidade: a prioridade ontológica cabe à Igreja universal. Uma comunidade que, neste sentido, não fosse católica não seria nem sequer Igreja” (Papa Bento XVI, Homilia de Pentecostes, 2008). Vale ainda recordar que: “Pelo sopro do Espírito Santo e outros meios conhecidos de Deus, a graça de Cristo pode alcançar a todos os que ele redimiu, para além da comunidade eclesial, porém de modos diferentes. Explicitar e promover esta salvação já operante no mundo é uma das In Guardia - Junho - 23


tarefas da Igreja com respeito às palavras do Senhor: ‘Sejam minhas testemunhas até os extremos da terra’ (At 1,8)” (DA nº 236). Com isto vemos que mesmo aqueles que diretamente não estão unidos à Igreja, podem ser salvos pela graça e misericórdia de Cristo. Não podemos restringir a salvação somente a Igreja Católica – embora creiamos que é esta a Igreja de Cristo, onde Ele opera e É – mas podemos afirmar que a Igreja é o viés por onde os fiéis podem também obtê-la. De certo que a Igreja, sacramento universal da salvação (cf. LG 4), constitui-se como aqueles que, congregados no Cristo, propõem-se a viver o Seu Evangelho e a doar-se completamente pela causa do Reino. Na segunda leitura da carta aos Gálatas (5, 16-25), própria do ano B, gostaria de ressaltar um aspecto ainda relacionado à primeira leitura: a liberdade do Espírito. Aqui somos convocados a pensar naquilo que não se apreende apenas no âmbito cristão, mas também no âmbito filosófico: a execução dos instintos enquanto barreira para a felicidade. Aristóteles, que melhor tratará disso, dirá que o bem supremo, isto é, a felicidade, consiste em aperfeiçoar-se enquanto homem, em procurar não apenas viver visto que até os vegetais vivem, mas é um buscar viver corretamente, com ética e consciência de filhos de Deus. Assim, Paulo traz consigo uma mensagem de incômodo às estruturas atuais que forjam os seres humanos, mas também trás uma palavra de conforto e de esperança. “Procedei segundo o Espírito. Assim, não executeis os desejos do instinto. Pois o instinto tem desejos contrários aos do Espírito, e o Espírito tem desejos contrários aos do instinto; e tão oposto que não fazeis o que quereis” (v. 16).Vem-me à mente a passagem da primeira carta aos Coríntios: “O Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor existe liberdade” (3,17). Reforça-se aqui o que havia dito mais acima. O Espírito de Deus não é para aprisionar, escravizar, mas para libertar; uma liberdade sã, que tem sentido quando o homem encontra a si mesmo em Deus e encontra Deus em si mesmo. Somos impulsionados a usar a liberdade para o amor. Assim, quem procede segundo o Espírito, quem não executa os desejos que hão de lhe escravizar, mas vive segundo a verdadeira Liberdade, pode haurir forças para lutar contra os instintos e volúpias. O relato começa e termina com a mesma exortação: “Deixai-vos conduzir pelo Espírito” (v. 25). Por descrever Espírito maiúsculo, podemos entender que Paulo não fala de outro, senão da terceira Pessoa da Santíssima Trindade. No entanto, o texto encontra algumas ambiguidades pelo In Guardia - Junho - 24

jogo de maiúsculas e minúsculas, talvez propositalmente, aludindo ao “espírito” que Deus outorgara ao homem pela santidade. Assim, chegamos ao Evangelho (Jo 15,

Por conseguinte, a Igreja católica não é uma federação de Igrejas, mas uma única realidade: a prioridade ontológica cabe à Igreja universal. Uma comunidade que, neste sentido, não fosse católica não seria nem sequer Igreja” (Papa Bento XVI, Homilia de Pentecostes, 2008) 26-27;16,12-15). “Quando vier o Paráclito que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim; e também vós dareis testemunho, porque estivestes comigo desde o princípio”. Vemos que Jesus firma o Espírito como sua testemunha. Ele é o acompanhante do futuro, aquele que se usa dos apóstolos para que possam dar testemunho dos seus feitos e espalhar seu nome pela terra. Para os apóstolos, que estiveram presentes com Jesus na sua vida pública, findada a missão terrena do Mestre, inicia-se as suas missões terrenas.

“Quando ele vier, o Espírito da verdade vos guiará para a verdade plena” (Jo 16,13). Não que o Espírito trará novas verdades, mas Ele vai conduzir os discípulos para que, no interior da revelação do Cristo, possam compreendê-la e desvelala gradualmente. A Igreja, transmissora desta “verdade”, é também chamada a testemunhá-la antes de transmiti-la com palavras, deve ela redescobrir o valor e a beleza intrínseca a este testemunho que a configura a Cristo, que a faz portadora por excelência do Espírito. Somente quando portamos o Espírito da verdade, o Espírito que vivifica, o Espírito de Amor, podem os outros ver em nós, templos vivos, a grandeza e fragilidade do amor de Deus. E queremos, por fim, rezar a este Espírito, como rezou o Papa Bento XVI com os Bispos italianos (24/05/12): “Espírito de Vida, que em princípio pairava sobre o abismo, ajude a humanidade do nosso tempo a compreender que a exclusão de Deus leva a passagem no deserto do mundo, e que somente onde entra a fé florescem a dignidade e a liberdade e a toda sociedade se edifica na justiça. Espírito de Pentecostes, que faz da Igreja um só Corpo, restitui nós, batizados, a uma autentica experiência de comunhão; torna-nos sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo, comunidade de santos que vivem a serviço da caridade. Espírito Santo, que habita na missão, concede-nos reconhecer que, também no nosso tempo, tantas pessoas estão em busca da verdade sobre sua existência e sobre o mundo. Faça-nos colaboradores da alegria deles com o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, grão de trigo de Deus, que torna bom o terreno da vida e assegura a abundancia da colheita. Amém”.


Igson Mendes da Silva

Agostinho e a Cidade de Deus Grande ret贸rico, grande fil贸sofo e grande santo da Igreja Cat贸lica. Sua obra, ao mesmo tempo vasta e profunda, exerceu e continua exercendo muita influ锚ncia em toda a cultura ocidental


A

urelius Augustos, mais conhecido como Santo Agostinho, nasceu no ano 354, em Tagaste, hoje Numídia, região da África. Seu pai, Patrício, era pagão e veio a converter-se próximo do leito de morte. Sua mãe, Mônica, foi uma cristã fervorosa e de grande piedade, que deu a Agostinho os rudimentos da fé. Durante a juventude, ele resolve afastar-se da fé cristã e viver de forma dissoluta, entregue aos prazeres carnais. Porém, após ler a obra de Cícero, sentiu-se menos atraído por uma vida sensual e mais comprometido com a busca da Verdade. Busca essa que o fez percorrer muitos “ambientes”. Depois de um longo esforço para encontrar a chave da inquietação que o devorava tornou-se maniqueu, depois platônico, finalmente convertido, num célebre momento que ele mesmo contou com um gênio inimitável, na obra Confissões. Grande retórico, grande filósofo e grande santo da Igreja Católica. Sua obra, ao mesmo tempo vasta e profunda, exerceu e continua exercendo muita influência em toda a cultura ocidental. A sua mais famosa, Confissões (399) foi redigida em treze livros, e trata da releitura da sua própria vida à luz da sua conversão. A Trindade (399-419), composta em quinze livros, foi um de seus registros mais significativos. No aspecto das controvérsias e combate às heresias, os Tratados sobre a Graça mereceram-lhe da Igreja o título de Doutor da Graça. Já na perspectiva apologética o destaque vai para A Cidade de Deus (416-427), consignada em vinte e dois tomos. Quanto ao pensamento filosófico, a referência obrigatória permanece sendo: O Livre-Arbítrio (388), em três tomos e também A Verdadeira Religião (389-390) é uma indicação neste campo. Dentre as obras descritas, o objeto deste artigo será ”A Cidade de Deus”. A referida obra representa o maior monumento da antiguidade cristã e, certamente, a uma das obras primas do Bispo de Hipona. Composta por vinte e dois livros, foi escrita num espaço de dez anos, limiar da queda de Roma, após o saque dos visigodos, em 410. A temática da obra volta-se à defesa do cristianismo diante das acusações dos romanos pela ruína do Império. Segundo eles, o Deus de amor dos cristãos tinha-se mostrado incapaz de proteger o Império. Tinha-se em mente que a destruição de Roma deveu-se a um castigo pelo fato de os romanos terem abandonado os deuses da sua religião por causa do Deus dos cristãos. Então, Santo Agostinho, que neste tempo já era Bispo de Hipona, faz uma longa defesa da fé cristã diante dos ataques vindos do paganismo da época, compondo uma obra que será um elogio em defesa da religião In Guardia - Junho - 26

cristã. Foi assim que nasceu o De Civitate Dei. Conteúdo da Obra Tem com fundamento uma interpretação do mundo à luz da fé cristã. Trata-se, principalmente, de uma teologia e uma filosofia da história em face de uma apologética cristã. Visando refutar as acusações advindas dos romanos, Agostinho se utiliza da história como conteúdo de argumentação. Para isso, o Bispo de Hipona distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. A primeira concerne à história de duas cidades após o pecado original, que ficaram confundidas em um único caos humano. A confusão chega até a época de Abraão, na qual começou a separação das duas cidades. A segunda descreve a história da cidade de Deus, recolhida e configurada em Israel, de Abraão até Cristo. Na terceira, retoma, em separado, a narrativa do ponto em que começa cada cidade. Visando, assim, mostrar que a cidade dos homens culmina no Império Romano. Esta história, onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino, só passa a ter um sentido quando vista sob o olhar da fé que tudo principia e tudo conduz, possuindo, portanto, uma ordem transcendente. Pode-se dizer que existe uma teleologia metafísica fundante na montagem dos fatos históricos, isto é, os fatos são organizados em um mecanismo de causalidade, cuja finalidade última está no Sumo Bem, que é o Deus cristão, revelado na pessoa de Jesus Cristo. Depois de Cristo, cessa a divi-

são política entre as duas cidades, que se confundem como nos primeiros tempos da humanidade, com a diferença de que já não é mais união caótica, mas configurada na unidade da Igreja, que não é limitada por nenhuma divisão política, mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. Esta concepção metafísica dos fatos produz uma absolutização do Cristianismo que é transferida para a sociedade criando a visão teocêntrica do Estado-Igreja – universitas - , que perpassará toda a Idade Média. Conforme Agostinho, a origem das duas cidades, remonta à queda dos anjos. Contudo, o que as funda, de fato, são dois amores: o amor de si levado ao desprezo de Deus, que funda a cidade terrena; e, o amor a Deus que leva ao desprezo de si, que funda a cidade celestial. Hoje, estas duas cidades – a de Deus e a do Demônio – encontram-se misturadas nas cidades terrenas, pois elas só serão separadas, e seus habitantes distinguidos, no Juízo Final. Assim, enquanto o cristão estiver nesta terra, a sua paz consistirá em, pela graça e através da razão, dominar as paixões infames; quando, porém, estiver na paz final, ou seja, na visão clara de Deus, não será necessário a razão mandar nas paixões, pois já não existirão. Entretanto, para os que não pertencem à Cidade de Deus, ao Juízo Final sucederá a guerra final, isto é, uma batalha eterna entre as paixões que se opõem à vontade e a vontade que se opõe às paixões. A teologia


da história agostiniana, desenvolvida na De Civitate Dei, não é senão a tentativa de compreender, à luz da fé cristã – máxime a partir do seu movimento escatológico – todos os momentos da história humana. Cabe salientar, ainda, uma última questão. As duas cidades se distinguem também pela doutrina. Enquanto na cidade dos homens é permitido que a verdade conviva com o erro, na Cidade de Deus (neste ponto Agostinho parece identificá-la com a própria Igreja), aqueles que pregam o erro devem ser corrigidos, e, caso persistam em suas perversidades, tornam-se hereges e devem ser excluídos da comunhão eclesial, passando a serem vistos como inimigos. Divisão da Obra A obra se divide em vinte e dois livros, composta de duas partes: Parte I - Cidade de Deus: I – Em defesa da religião cristã; II – Os deuses e a degradação de Roma; III – Os deuses e os males físicos em Roma; IV – A grandeza de Roma como dom divino; V – O destino e a Providência; VI – A teologia mítica segundo Varrão; VII – A teologia civil e seus deuses; VIII – Teologia natural e filosofia; IX – Cristo, Mediador; X – O culto ao verdadeiro Deus. Parte II - A Cidade de Deus: Contra os pagãos: XI – Origem das duas cidades; XII – Os anjos e a criação do homem; XIII – A morte como pena do pecado; XIV – O pecado e as paixões; XV – As duas cidades da terra; XVI – De Noé aos profetas; XVII – Dos profetas a Cristo; XVIII – Paralelismo

entre as duas cidades; XIX – Fim das duas cidades; XX – O juízo final; XXI – O inferno, fim da cidade terrena; XXII – O céu, fim da cidade de Deus. Na primeira parte, Agostinho tenta mostrar como o culto aos deuses não proporciona nem a felicidade temporal, nem, tampouco, a felicidade eterna. Mostra como as “funções” dos deuses são truncadas sendo que um pode ser confundido facilmente com outro, concluindo que só podem ser demônios. Trata dos males morais imposto pelos deuses e vivido pelos pagãos, como os jogos cênicos, relata inúmeras guerras, lutas, violências, barbaridades ocorridas em Roma desde Rômulo até César Augusto, sendo sob seu império que Jesus nasceu; e conclui que se tais horrores tivessem acontecido no tempo de Jesus, da religião cristã, atribuiriam a Ele tais males, sendo que não faziam isso nem mesmo a seus deuses. No final, chama a atenção dos cristãos para o dever de cultuar o verdadeiro e único Deus. Na segunda parte da obra, que compreende todos os livros restantes (XIXXII), é que Agostinho desenvolve a sua chamada teoria das duas cidades. Nela trata tanto da origem (XI-XIV) e desenvolvimento (XV-XVIII) das duas cidades, quanto de seus respectivos fins (XIX- XXII). Agostinho trabalha com o Novo Testamento, mostrando os diversos mistérios da vida humana baseado no juízo atual de Deus que é inescrutável e incompreensível; fala da existência do Juízo Final onde os mortos serão ressuscitados segundo a

carne; do destino dos maus e dos bons; Afirma que a dor é algo privativo da alma, pois o corpo não sente dor sem ser animado; que a primeira morte tira a alma do corpo contra a sua vontade, a segunda a mantém no corpo contra a sua vontade, pois no inferno a pessoa, alma e corpo, sentirá a dor que o fogo lhe causará por toda a eternidade; Trabalha sobre a eterna felicidade da Cidade de Deus, baseado nas promessas divinas; Confessa que nem os anjos sabem como será nossa vida nesta santa cidade, só se sabe que veremos a Deus em tudo e em todos, que não haverá mais pecado, que haverá no céu diferentes graus de glória, que se terá consciência de toda miséria passada e as misérias dos condenados e que nós estaremos num sabatismo eterno. Conclusão da Obra A obra é considerada um marco na literatura Cristã. Nela, Agostinho tenta convencer os cristãos e os pagãos que a destruição do Império Romano fazia parte da vontade divina. Um verdadeiro discurso filosófico que é encontrado em todo o desenrolar da obra Cidade de Deus. Através uma leitura atenta, é possível enfocar o desfecho das duas cidades que se divergem e se entrelaçam em si mesmas: a Babilônia, o lugar do Cativeiro, do presídio, do afastamento de Deus, e a Jerusalém, o lugar da vida em abundância, da libertação. A “missão” de Agostinho ao escrever a Cidade de Deus, tem a real intenção retórica para humanizar e salvar os homens. In Guardia - Junho - 27


Pedro Brasilino

A história de Irmã Catherine Holum “S

e alguém tem o dom do serviço o exerça como dom dado por Deus”. (1Pd 4, 11b) É com essa citação bíblica que a Arquidiocese do Rio de Janeiro começa o convite feito aos jovens do mundo inteiro para que se inscrevam como voluntários na Jornada do Rio, em 2013. Afinal, muito do sucesso na realização das Jornadas Mundiais da Juventude está na adesão voluntária de jovens, que assim trabalham devotamente para o bom andamento do evento. Com certeza, dizer que os jovens são a força transformadora da Igreja é um erro, pois essa força transformadora é sem dúvida o Espírito Santo de Deus. Entretanto, reside no coração de cada pessoa, mas, sobretudo no coração do jovem, a vontade e esperança de colaborar com as realidades que necessitam de mudança. A esperança e a motivação para realizar o que é bom são vocações humanas, e que no jovem estão mais bem preservadas pelo curto tempo de vida. É sempre bom lembrar que os dias de uma Jornada Mundial são espaços de tempo favoráveis para um encontro pessoal com a Pessoa de Jesus Cristo. Desse modo, favorecendo, também, para a escuta da vocação particular de cada participante. Em particular para aqueles que desde suas inscrições colocam-se a disposição da Igreja, no auxílio dos demais, e confirmam o chamado do Senhor podendo fazer uma experiência que certamente fará diferença em suas vidas. A experiência com Jesus Cristo provoca no sentido da vocação particular, assim como aconteceu com Catherine Holum, que de patinadora olímpica de velocidade tornou-se irmã religiosa. Esse era o plano de carreira incomum de uma irmã norte-americana franciscana. Essa é, certamente, uma história inspiradora em como na sua vida veio a discernir a vocação religiosa. Kristin Holum, como é seu nome de batismo, deveria competir nas olimpíadas de inverno em Vancouver. Patinadora na modalidade de velocidade, Kristin era uma promissora atleta. Com apenas 17 anos, participou brilhantemente em 1998 nos jogos realizados em Nagano, no Japão. É de referir que neste esporte atinge-se a maturidade por volta dos 30 anos. Kristin tem agora 29. Estes seriam os “seus” jogos. Mas ela decidiu de outra forma. Hoje, vive em Leeds, Inglaterra, e responde pelo nome de Irmã Catherine. Sim, consagrou-se a Deus! “A patinagem de velocidade era uma imensa parte da minha vida. Encantava-me o desporto, porém tive este chamamento incrivelmente forte que me dizia que era tempo de seguir por outro caminho na vida”. In Guardia - Junho - 28

Irmã Catherine Holum decidiu abandonar sua carreira brilhante como campeã mundial de patinação de velocidade e abraçar a vocação religiosa. Irmã Catherine diz que seu primeiro indício da vocação religiosa ela pôde discernir durante uma peregrinação aos 16 anos de idade para o Santuário de Fátima em Portugal: “Tive uma experiência muito poderosa de ouvir o Senhor falarme em oração, chamando-me para ser uma irmã.” Quando isso aconteceu Irmã Catherine não tomou imediatamente o chamado e continuou com sua carreira como patinadora, e que ela diz que realmente decolou depois de ter rezado para Nossa Senhora naquela ocasião. “Senti que era a graça de Deus que me ajudou a me destacar a partir daquele momento. Ela explica que o verdadeiro ponto de mudança veio depois que se formou na faculdade e conheceu um grupo de jovens fazendo uma peregrinação por toda a América e que terminou com eles assistindo a Jornada Mundial da Juventude, em Toronto. Quando questionada sobre o que sentia serem os maiores sacrifícios de ser uma religiosa, Irmã Catherine disse: “a parte mais difícil para mim, foi deixar minha família e meus amigos”. Acrescentou ainda que as recompensas eram muitas: “meu coração está completamente preenchido nesta vocação” e ....”nada é desperdiçado a partir de nossas experiências passadas. Como ex-atleta acredito que os esportes têm muito a ensinar sobre a fé e algumas lições de vida: disciplina, trabalho duro, sacrifício, estabelecer metas, trabalhar em equipe”. O exemplo da Irmã Catherine revela o suave e inspirador chamado do Senhor que se apóia na oração e na devoção a Sua Mãe. Catherine tendo feito a experiência de uma JMJ em Toronto decidiu-se pela vocação que havia escutado aos 16 anos. Uma atleta com várias possibilidades de vida e que acabou por escolher exercer o dom do serviço, segundo o plano de Deus e encontrando-se totalmente preenchida em sua vocação. No site da JMJ do rio: rio2013.com, mostra o passo a passo de como fazer a inscrição de voluntário. Se alguém tem o dom de falar, fale como se fossem palavras de Deus. Se alguém tem o dom do serviço, exerça-o como capacidade proporcionada por Deus, a fim de que, em todas as coisas, Deus seja glorificado, por Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o poder, pelos séculos dos séculos. Amém. (1Pd 4, 11)


Procissões Eucarísticas O aspecto público da liturgia propõe a realização de atos de fé que extrapolam os lugares dedicados ao culto, isto é, as igrejas, capelas, catedrais, afluindo com a multidão dos fiéis para as ruas e praças. Como diz o salmo: “Vi a água saindo do lado direito do Templo”, assim também os fiéis são chamados a tomar parte nas ações litúrgicas que fluem para fora dos lugares sagrados.

Por Kairo Neves


Tais celebrações, fundadas sobre o sólido alicerce da tradição da Igreja e da piedade do povo, possuem em seu ponto mais alto as procissões. E essas, segundo a riqueza do Rito Romano, podem ser de vários tipos: procissões de enterro, procissão de ramos, procissões penitenciais da quaresma, as belíssimas procissões da Semana Santa. De todas essas, porém, destacamos um tipo singular de procissão; aquela em que não apenas o povo de Deus caminha, mas aquela em que o próprio Jesus sacramentado caminha com seu povo. Essas procissões, ditas eucarísticas, possuem todo um cerimonial próprio que condiz perfeitamente com o respeito e adoração que a Igreja Militante presta a seu maior tesouro – a eucaristia. De maneira particular, essa procissão tem lugar em ocasiões especiais da vida da Igreja. Em Corpus Christi aparece de maneira singular, mas não apenas nessa data; também é costume realizar procissão eucarística, nalguns lugares, no Domingo de Páscoa, nos congressos eucarísticos, e em outras grandes festas do ano, embora nessas datas não apareçam os elementos populares da festa do Corpo de Cristo de que falaremos mais adiante. É costume que a procissão se realize junto com a Santa Missa, dado que é a fonte do Mistério Eucarístico. Nesse caso, terá início logo após o fim da oração depois da comunhão e será levada na procissão uma hóstia consagrada na própria celebração. O celebrante pode retirar a casula e vestir o pluvial (capa própria das procissões), embora possa manter-se revestido com a primeira por sua íntima ligação com a eucaristia, sendo tida dentro dos paramentos como “a veste eucarística”. Antes da procissão, o celebrante e todos os presentes se ajoelham diante do Santíssimo exposto. O celebrante coloca incenso no turíbulo e incensa-O com três ductos, sempre de joelhos, como manda a lei da igreja. Sobre o pluvial, ou a casula, o celebrante usa o véu umeral. Um véu quadrado, posto sobre os ombros, é usado para o sacerdote não tocar diretamente o recipiente com a eucaristia, um símbolo de respeito. Esse véu também é usado para outros objetos tidos como muito sagrados como as relíquias dos santos e as da Santa Cruz; também as insígnias do Bispo se seguram com um véu semelhante. O Santíssimo Sacramento é posto no ostensório, um recipiente próprio para expor o pão eucaristizado à adoração. Sobre a eucaristia, que o padre porta, quatro ou seis fiéis seguram o pálio, que é um amplo baldaquino de tecido ricamente enfeitado e com franjas amplas dos quatro lados. De um lado e de outro do pálio, outros fiéis In Guardia - Junho - 30

portam seis tochas. Em Roma, um tipo especial de sédia gestatória (cadeira elevada na qual é carregado o Papa) era usado nesse dia. Nela o Papa ia ajoelhado e o ostensório era posto à sua frente. Tal uso foi convenientemente adaptado ao papamóvel que faz a procissão todos os anos da Catedral do Latrão para a Arquibasílica de Santa Maria Maior. Além disso, para a procissão solene, o turíbulo que usualmente é levado à frente da cruz processional é deslocado. A cruz segue ladeada por duas velas, à frente da procissão, como é costume; o turíbulo, porém, é levado imediatamente à frente daqueles que carregam o pálio para estar mais próximo do Santíssimo Sacramento. É permitido ainda (obrigatório para a procissão do Bispo) o uso de dois turíbulos, ambos junto do pálio. De acordo com o uso local, pode-se tocar a campainha da consagração ao longo da procissão e os sinos de onde saiu a procissão e os da igreja para onde ela se dirige, caso não seja a mesma. A piedade popular do Brasil acrescenta ainda outros piedosos elementos de devoção. O primeiro, e creio que mais conhecido, sejam os tapetes de Corpus Christi. Verdadeiras obras de arte de vida efêmera são criadas todos os anos a partir de materiais simples como serragem, pipoca, fubá, tampinha de garrafa. Alguns lugares usam de materiais ainda mais regionais como o já tradicional tapete de bordados de Ibitinga-SP e, por muitos anos, também os

recicláveis tapetes de bagaço de cana-deaçúcar coloridos em alguns lugares próximos a usinas de Cana-de-açúcar. Outro elemento, talvez mais em desuso, é a confecção de “altares” ao longo da via na qual se realiza a procissão, onde ela parava, o Santíssimo ali ficava alguns instantes e o celebrante dava aos presentes a bênção eucarística. Se parecer menos oportuno realizar a bênção do Santíssimo várias vezes, reservando-a para o final da procissão, pode-se manter a tradição dos “altares” parando-se um momento na procissão apenas para incensar o santíssimo e rezar um momento em silêncio. Ao fim da procissão chega a uma outra igreja ou, na sua falta, retorna-se à igreja de onde se partiu. Num ou noutro caso, é extremamente conveniente que se cante o hino Tão Sublime Sacramente (Tatum Ergo) e se dê a bênção eucarística, conforme o Ritual Romano. Não é difícil notar que a Igreja cercou a Santíssima Eucaristia, em particular em seu culto público, solene e exterior, com inúmeros símbolos de sacralidade. Não apenas o Sagrado Magistério, mas também os fiéis, e os mais simples deles, souberam instituir e consagrar esses gestos de devoção. É uma forma de mostrar àqueles que estão fora e também lembrar àqueles que estão dentro, a cada dia, a magnitude do tesouro que foi dado à Igreja portar nesta terra rumo ao céu. Saibamos valorizar a atmosfera adorante dessas lindas procissões.


Pe. Mateus Maria

D

iante do cenário político no qual nos encontramos e tendo como ponto de partida as eleições, gostaria de meditar convosco a figura e o papel do “Rei”, símbolo político de guia e defensor de um povo, de uma nação. No Primeiro Testamento a figura do rei é também a figura do pastor que apascenta, conduz e cuida de suas ovelhas, de seu povo. Deus é apresentado como o grande e supremo pastor, figura esta que é assumida pelo próprio Jesus no Evangelho para designar a sua presença, o seu cuidado com as ovelhas que o Pai lhe deu. Para meditarmos mais sobre a figura do rei e pastor, quero entrar convosco no Evangelho de são João, mais especificamente na narração da Paixão, quando a crucificação se torna o cerimonial da coroação de um rei, o qual não exerce o poder do mundo, que escraviza, mata e domina, mas o poder do amor, da humildade, do serviço feito sagrado. O desenrolar da Paixão ocupa um terço do texto do Evangelho e, uma das partes que recebe grande destaque é justamente o colóquio entre Jesus com Pilatos, que era o representante do imperador naquela região. O imperador Cesar, para os romanos, era como deus e deveria ser reverenciado. Jesus, como sabemos, é o verdadeiro Rei, porém, como ele mesmo diz: ‘o meu reino não é deste mundo’. “Pilatos, chamou Jesus e perguntoulhe: ‘Tu és o rei dos judeus?’ Jesus respondeu: ‘Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?’, e por fim, Jesus diz: “Tu o dizes”. Os sumos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas.

Pilatos perguntou-lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam! Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos ficou admirado. Ora, costumava ele soltar-lhes em cada festa qualquer dos presos que pedissem. Havia na prisão um homem chamado Barrabás, que fora preso com seus cúmplices, o qual na sedição perpetrara um homicídio”. (Jo 15,1-8) E, como sabemos, Pilatos pergunta ao povo: ‘quereis que vos solte o rei dos judeus?’, os sumos sacerdotes instigaram o povo para que pedissem que lhes soltasse Barrabás. Pilatos, a figura do homem e do político que não quer se comprometer com a verdade e a vida, fala-lhes outra vez: ‘E que quereis que eu faça daquele a quem chamais o rei dos judeus?’ O povo grita: “Crucifica-o”! Pilatos, querendo satisfazer o povo, solta Barrabás e entrega Jesus, depois de mandá-lo açoitar, para que fosse crucificado. Esta cena não é diferente daquela que acompanhamos na mídia quando o Supremo Tribunal Federal, como Pilatos, lavou as mãos e condenou à morte os inocentes, ao legalizar o aborto em caso de anencefalia o que, na verdade significa o assassinato de tantos meninos Jesus, que serão trucidados e mortos no seio de suas mães, para a comodidade e bem estar de seus assassinos. A pergunta central é a de Pilatos a Jesus: ‘Tu és o rei dos judeus?’ Jesus respondeu: ‘Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?’, e por fim, Jesus diz: “Tu o dizes”. Porque não é evidente, reconhecer Jesus é um ato de fé, no qual é necessária a minha confiança, o meu crer.

Pilatos percebe que estava diante de um rei, que tinha o seu reinado em outro mundo, mas o condena e solta Barrabás (o fato interessante é que este nome é enigmático, pois traduzindo-o do hebraico, significa ‘filho do pai’ e, em lugar deste assassino, Jesus é entregue, Ele que é o verdadeiro filho do Pai, sendo entregue, morre também por ele. Este homem que era filho de um pai não identificado, é liberto e pela morte de Jesus, também é assumido como filho adotivo do Pai – que mistério de amor). Jesus é flagelado e, de forma irônica, é feito para Ele todo o ritual da cerimônia de posse de um imperador, é coroado, mas com a coroa de espinhos, é vestido com o manto vermelho, mas manchado de sangue, recebe um cajado, como cedro de poder. Diante dele, os homens, os soldados ironizam, prestando-lhe um falso culto de adoração, cuspindo-lhe a face e o esbofeteando. João diz: “Então Jesus veio para fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos disse-lhes: “eis ecce homo”, Eis o homem!”. Pilatos sem saber com esta frase profetiza, pois é a humanidade assumida de modo total, profundo e verdadeiro, em Jesus, o verdadeiro homem, o homem tão humano que só podia ser Deus. Jesus escolhe se humilhar, sendo Deus, não busca vantagens, mas trilha o caminho da humilhação e isto levanta um questionamento: Jesus não busca a glória humana, vinda de homens, mas aceita a glória que o Pai lhe oferece, a cruz, e com a sua doação, a sua paixão, nos ensina que o verdadeiro amor é doar-se a si mesmo, dar a In Guardia - Junho - 31


vida, a própria vida... Amar e não querer privilégios, ditar leis de morte, dominar e manipular ao seu bel prazer. Comparando o Rei Jesus com os reis deste mundo vemos um grande contraste, pois os reis deste mundo proclamam e infundem a ditadura de morte, querem implantar o aborto, a eutanásia, a promiscuidade, enfim, querem tirar a vida dos outros para garantir a sua própria vida, o seu status e a sua popularidade diante daqueles que pensam como eles e se deixam arrastar pela filosofia de morte ditada por satanás e por seus seguidores, pois possuem um fim: destruir o verdadeiro ‘Rei Jesus’, destruindo a Igreja, a vida não somente no seio materno, mas também aparentemente improdutiva e sem valor diante do mundo, em nome do progresso e do desenvolvimento. O ‘Rei Jesus’, ao contrário dos ‘reis deste mundo’ que servem ao demônio, não quer popularidade, não quer agradar nem a movimentos gays, nem a lésbicas e menos ainda as feministas que lutam pelo direito de matar a vida que trazem em seu seio. Não, o ‘Rei Jesus’ quer reinar no coração do homem e da mulher, quer lhes dar vida plena, a liberdade diante do pecado e da morte e ensinar que servi-lo não é uma imposição, é uma escolha, é um ato de amor. Aquele que opta por servi-lo, este sim, deve morrer a si mesmo, deve renunciar

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as suas vontades, deve tomar a sua cruz, se configurar a Ele, tornando-se como Ele, para que Ele viva e para que seja possível construir o seu reino neste mundo. Podemos claramente perceber e dividir em duas esferas o universo politico, juntamente com os seus representantes: a esfera daqueles que realmente querem servir ao ‘Rei Jesus’ e a esfera daqueles que querem servir aos ‘reis deste mundo’ e a si mesmos. Pe. Gabriel Amorth, em várias de suas entrevistas para a ‘Radio Maria Italiana’ dizia: “hoje o demônio tenta se infiltrar na política, ocupando altos postos para disseminar a política de morte!”. Como isto é verdade! Basta olhar ao nosso redor, basta escutar os pronunciamentos de políticos, até mesmo daqueles que se dizem católicos, mas que, em muitos casos, não passam de lobos vestidos em pele de cordeiros, que sorriem muito, tem voz mansa, e apóiam candidatos abortistas e simpatizantes do LGBT e feministas. Como cristãos, nós, que servimos ao único e verdadeiro ‘Rei’, não podemos nos calar e sermos omissos. Devemos bradar com a vida, com as palavras e com as ações, que somos de Deus e estamos do lado da Vida. Irmãos, cada dia que passa sinto e percebo a ação do ‘anti-cristo’ que quer reinar neste mundo, prometendo um reino de

paz, de harmonia, de unidade e prosperidade e para isto, está disposto a eliminar todos aqueles que não pensam como ele, criando um governo único, global, como também uma religião única e universal, fundada no próprio homem, dizendo que não existe nem céu e nem inferno, nem Deus e nem o diabo, mas o que existe realmente é o homem, e este sim deve ser exaltado e idolatrado, porque este sim existe. É certo que a vida existe e que é um grande dom, mas ela não termina neste mundo, é certo também que a vida não deve ser vivida como uma ‘paixão Inútil’, mas como ‘Graça’ e não como competição na qual vence o mais forte, não importando os meios; por isto não podemos viver como se o inferno fossem os outros, como disse Sartre. Não podemos viver em função da lógica mundana demoníaca, utilitária e hedonista. O Senhor Jesus nos pede a maturidade no dom de si mesmo oferecido, para gerar vida e para construir o seu reino de amor. Termino esta meditação dizendo que devemos estar muito atentos para realmente estarmos sob a bandeira do único e verdadeiro rei, Nosso Senhor Jesus Cristo, sabendo que seremos odiados por todos por causa do nome de Jesus, mas se “perseverarmos até o fim seremos salvos” (Cf Mt 10,22).


Pe. Inácio José do Vale

O Fundamentalismo é mortal

Ninguém que viveu o 11 de Setembro de 2001 é capaz de esquecer a ensolarada manhã transformada em horror e cinzas no centro financeiro de Nova York, em parte do Pentágono e num campo aberto da Pensilvânia. O seqüestro de quatro aviões resultou em três ataques concretizados e na queda de uma das aeronaves, imprimindo para sempre a marca do terror na memória coletiva e quase três mil mortes

“A

prendemos a voar como pássaros, e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”. (Dr. Martin Luther King, Líder Pacifista Americano) Ninguém que viveu o 11 de Setembro de 2001 é capaz de esquecer a ensolarada manhã transformada em horror e cinzas no centro financeiro de Nova York, em parte do Pentágono e num campo aberto da Pensilvânia. O seqüestro de quatro aviões resultou em três ataques concretizados e na queda de uma das aeronaves, imprimindo para sempre a marca do terror na memória coletiva e quase três mil mortes. Dez anos depois, 35 mil suspeitos de terrorismo foram condenados no mundo. Osama Bin Laden, o arquiteto do maior atentado da história, está morto, e a al-qaeda, enfraquecida. Mas, a um custo de US$ 4 trilhões – o dobro do PIB do Brasil em 2010

-, os EUA ainda estão atolados em duas guerras, no Afeganistão e no Iraque, e enfrentam a ameaça de um ambíguo aliado, o Paquistão. Passado o momento inicial de união em torno da tragédia, a resposta ao terror deflagrou mais terror, trouxe medo e incerteza, deixando um rastro de 225 mil mortes. E feriu a reputação da democracia americana em seus valores mais básicos, inserindo tortura, Abu Ghraib, vôos clandestinos e a malfadada prisão militar em Guantánamo no glossário da década. Em nome da segurança, os limites á privacidade do cidadão comum foram testados diariamente em rigorosas revistas nos aeroportos. A guerra ao terror dividiu aliados e isolou os EUA. “O país amarga o peso do endividamento e do alto desemprego, tornando recorrente para os americanos o uso do termo “década perdida” para definir o período que se seguiu ao 11 de Setembro”, escreve a renomada jornalista

Sandra Cohen (*). CAMPO FERTIL “Mas não há como não se assustar com o poder crescente em nossas vidas do fundamentalismo, que é a religião no seu estado impermeável” (#). (Luís Fernando Verissimo, Escritor Brasileiro) O veterano diretor tcheco Milos Forman duas vezes premiado com o Oscar (“Um Estranho no Ninho” e “Amadeus”), afirma: “que o ser humano está condenado a repetir os erros do passado. Mesmo em pleno século XXI, perseguições ideológicas voltam a ocorrer, sob novas bandeiras, em diferentes partes do mundo” (1). O ex-comandante da Policia Nacional e agente do serviço secreto francês, especializado no islamismo e autor do livro “Muçulmanos na França” e consultor para o Ministério do Interior, Bernard Godard vê por trás da burca uma ameaça maior: In Guardia - Junho - 33


“A conversão de jovens franceses ao fundamentalismo islâmico. Não é um fenômeno que vai e passa: era marginal há seis anos, agora, a cada ano aumenta. É inquietante” (2). Na insegurança, na incerteza, na superficialidade, na virtualidade e na infernalidade o ser humano se agarra cegamente ao fundamentalismo. A fuga para o fundamentalismo é que tem de mais terrível numa mente insana. A falta de amor, negação da razão, a troca da justiça pela falsa ideologia de superioridade de qualquer dimensão humana, leva a pessoa a ser manipulada ao extremismo, radicalismo, fanatismo, racismo, intolerância, totalitarismo, fundamentalismo e terrorismo. Para tudo isso o fundamentalismo é a mente dominada, pela ganância e o egoísmo alimentados por promessas grandiosas e o ensino tremendamente enganoso sobre Deus e o paraíso. No desejo descontrolado, a pessoa pode fazer de tudo para alcançar o seu objetivo. O seu interior perturbado e instigado por doutrinação de glória terrena e celestial é peremptório o fundamentalismo para realizar qualquer coisa. Hoje mais do que nunca, pelo poder da mídia, do consumismo, dos problemas mentais e de ideologia religiosa e capitalista, o campo está fértil para loucuras do fundamentalismo e congêneres. Chega a tempo, de forma magistral a exortação do psicanalista brasileiro Rubem Alves: “O fundamentalismo é, talvez, a grande tentação que nos assalta. Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal, disse a serpente ao homem. Qual é a pessoa que não anseia por trocar seus palpites por visões da realidade, suas dúvidas por certezas, sua provisoriedade por eternidade, suas inquietações e incompletudes por paz e realização? A solução fundamentalista nos liberta do doloroso conforto com uma realidade sempre inacabada, sempre em mutação, sempre perturbadora, sempre questionadora” (3). FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO “O fundamentalismo convida, sem o dizer, a uma forma de suicídio do pensamento” (4). (Dr. Zwinglio M. Dias, Professor de Ciência da Religião da UFJF) De toda forma de fundamentalismo, o mais cruel e o de vertente religiosa. A maldade do religioso no contexto fundamentalista é sem limites. Isso é bem patente, nas heresias, nos cismas, nas perseguições e nas guerras. O modo de trucidar os inimigos supera os outros sistemas. O ódio é tão grande que perdura nas divisões e na disputa de poder sem fim. No sistema religioso, tudo se torna In Guardia - Junho - 34

Ativistas muçulmanos queimam imagens do Papa Bento XVI mais e mais difícil para a concordata. Até dentro do próprio grupo que vive a mesma fé, a unidade e a comunhão não são vividas. Toma conta da mentalidade fundamentalista da “sua” verdade, absoluta, inquestionável, inegociável, intransigente e inflexível. Tudo está a serviço do seu comando – até o próprio Deus – para “bem de todos”, a sua lei é a melhor, a sua doutrina é santa, a sua religião é a única verdadeira e o seu paraíso é para quem fizer parte de sua crença. Daí, o seu império fundamentalista. Em tudo pode haver mudanças e renovações para cultura da vida, menos no fundamentalismo religioso. Podem até usarem a ciência e a tecnologia como façanhas para dissimularem o seu fundamentalismo, no entanto, o veneno do mal está presente e atuante. Aminata Toure, diretora do Departamento de Gênero, Direitos Humanos e Cultura do Fundo de População da ONU, afirma: “As crenças culturais não muda-

ram, não acompanharam os avanços da tecnologia ou do crescimento econômico. Temos sociedades com acessos á tecnologia, e algumas delas até mesmo produzindo tecnologia, mas a mentalidade não evolui na mesma rapidez” (5). A mentalidade dominada pela tradição religiosa fundamentalista não muda a cultura de morte, nem mesmo com todo avanço da ciência e do progresso tecnológico. Na verdade, o fundamentalismo fecha as portas para vida plena, para bem comum e para Declarações do felicidade eterna. sobre Maomé e O cérebro fundamentalista é como diretor de cinema e a ira dos muçul o corpo como protagonista, o filme é tão somente terrorismo e homembomba. As questões religiosas vão fazer parte


o Papa Bento XVI em 2006 despertaram lmanos tremendamente em nossa era pós-moderna. Segundo o escritor anglo-indiano Salman Rushie: “O hábito de invocar a autoridade divina para legitimar precon-

ceitos, perseguições e atrocidades são muito antigas, mas ressurgiu com força total nos últimos tempos. A meu ver, é o problema central do mundo contemporâneo” (6). Nos últimos anos, estudos encontram indícios de que o discurso extremista prolifera cerca de 100 mil estudantes muçulmanos nas instituições de ensino superior do Reino Unido. Uma pesquisa divulgada em 2005 também chamou a atenção nas universidades por governos e instituições muçulmanos. Outro trabalho, preparado pelo Centro para a Coesão Social em 2008, revelou que a circulação de literatura radical é comum

e levantou estatísticas preocupantes numa pesquisa de opinião entre alunos muçulmanos: 33% dos entrevistados disseram crer que matar em nome da religião era justificável. Entre os filiados a uniões estudantis islâmicas a proporção subiu para 60%. “Encontramos outros tipos de respostas preocupantes. Pelo menos 40% dos entrevistados disseram apoiar a introdução da Sharia (lei islâmica) no Reino Unido, e 58% do filiados a uniões estudantis defenderam a criação de um califado islâmico. Uma pena que as autoridades reagiram da forma errada, culpando os mensageiros – diz Douglas Murray, um dos coordenadores dos estudos” (7). Daniel Benjamin e Steven Simon escreveram o seguinte sobre motivações religiosas em seu livro The Age of Sacred Terror (A Era do Terror Sagrado): “Num mundo cada vez mais religioso, mais adeptos das grandes religiões e dos novos e crescentes cultos estão colocando a violência no centro de suas crenças”. O sono da razão gera monstros, diz aquela retumbante frase numa gravura do Goya. O suicídio da razão está cada vez mais forte em nossa era. FUNDAMENTALISMO CIENTÍFICO Os estudiosos Martin Marty e Scott Appleby (ZANDRA, 2004, p. 124-148) alertam sobre outros fundamentalismos presentes na cultura, na política, na religião e no saber. A partir daí, sugerem perceber em que medida estão latentes nas relações e práticas sociais. Assim, o fundamentalismo científico se refere á relação entre verdade e a ciência, na qual as imposições de certos procedimentos constituíram-se na única forma de conhecimento da realidade, desterrando a possibilidade de integrar outros modos de apreender que não fossem só meios da racionalidade, da calculabilidade. O conhecido Positivismo converteu-se quase que na religião da ciência. Nele os métodos de experimentação seriam a única palavra sobre o fazer científico. Na ciência pela ciência, a imolação da subjetividade, em nome do exclusivo avanço tecnológico, levou a condenar como superstição magia outras formas de saberes, ao mesmo tempo em que ciência e religião passaram a se excluir mutuamente. Já o fundamentalismo cultural responde por uma maneira unidirecional de interpretar os valores de convivência social, de uma nação ou grupo étnico, impondoos pela força física e/ou simbólica ao resto da sociedade. Feita por uma minoria com poder, a interpretação dos costumes e das tradições normalmente tende a selecionar da memória histórica expressões culturais ou a impressão de serem negadas propicia In Guardia - Junho - 35


a emergência de grupos separatistas com o ETA (Espanha), ou na Chechênia (Rússia). “A utilização do poder do Estado para impor modelos culturais é outra forma de fundamentalismo cultural, que dois acontecimentos históricos recentes ilustram: a Revolução Cultural Chinesa (1966-1976) e a Revolução Islâmica (1979) escreve Brenda Carranza, doutora em Ciências Sociais, professora-pesquisadora da PUC – Campinas” (8). Não é de admirar que a religião – com suas resistências ao progresso científico, horríveis antecedentes, hipocrisia e crueldade – tenha sido rejeitadas por muitos homens de ciência. O inglês John Postgate, professor de microbiologia, diz: “A religião… foi responsável pelos horrores dos sacríficos humanos, pelas cruzadas, pelos pogroms e pelas inquisições. No mundo moderno, esse lado sombrio da religião se tornou uma ameaça, porque, diferentemente da ciência, a religião não é neutra”. Comparando isso com a suposta racionalidade, objetividade e disciplina da ciência, Postgate diz que “a ciência passou a ser o paradigma da moral”. Será que a ciência é de fato o paradigma da moral? A resposta é não. O próprio Postgate admite que “as comunidades científicas não estão isentas de ciúmes, ganância, preconceito e inveja”. Ele acrescenta que “alguns foram capazes de assassinar em nome da pesquisa científica, como ocorreu na Alemanha nazista e nos campos de prisioneiros dos japoneses”. E quando a revista National Geographic incumbiu o repórter de investigar como foi a fraude de um fóssil chegou ás paginas da própria revista como fato científico, descoIn Guardia - Junho - 36

briu-se uma história de sigilo e confiança mal direcionados, competição de egos, autopromoção, racionalização de desejo, ingenuidade, erro humano, teimosia, manipulação de dados, intrigas, mentiras [e] corrupção”. E convém lembrar, é a ciência que produz os terríveis instrumentos de guerra e de destruição de massa, como armas biológicas, gás venenoso, mísseis, bombas inteligentes e bombas nucleares. O erro crucial do fundamentalismo científico é a negação meramente maliciosa da epistemologia transcendental. Parte a priori da mentalidade de cientistas fundamentalistas. Não é só o fundamentalismo científico, outros sistemas ideológicos perniciosos que por pura intolerância rejeitam a sapiência espiritual da alma e da metafísica pós-cérebro. Por trás de tudo isso existe o controle e o esquema para maior posse do poder econômico. Num artigo do The New York Times de 2010, O Dr. Jerome Kassirer, ex-editor da revista The New England Journal of Medicine, explicou: “Quando grande parte da renda dos pesquisadores é paga por empresas [farmacêuticas], há uma forte tendência de eles produzirem resultados que favoreçam a empresa”. ATEISMO FUNDAMENTALISTA Um poderoso grupo de novos ateus surgiu na sociedade com uma campanha avassaladora. Chamados de “novos ateus”, eles não se contentam em guardar para si mesmos seus conceitos. Numa cruzada “ativa, furiosa e intensa, eles tentam convencer os religiosos a pensar como eles”, escreveu o escritor, jornalista e colunista americano Richard Bernstein. Até os ag-

nósticos estão na mira deles, pois para esses novos ateus: Deus não existe e ponto final. “O mundo precisa despertar do longo pesadelo da crença religiosa”, disse o americano Steven Weinberg, ganhador do premio Nobel de Física. Disse ele: “Tudo o que nós cientistas pudermos fazer para enfraquecer a influência religiosa deve ser feito, e essa talvez venha ser a nossa maior contribuição á civilização.” Um meio usado para isso é a palavra escrita, que pelo visto tem despertado bastante interesse, pois alguns dos livros dos novos ateus se tornaram bestsellers. Ironicamente, a religião tem ajudado o movimento ateísta, pois as pessoas estão cansadas do fanatismo, terrorismo e conflitos religiosos que afligem o mundo. “A religião envenena tudo”, disse Salman Rushdie, autor do badalado livro Versos Satânicos. E muitos dizem que esse veneno inclui as crenças religiosas em geral, não apenas os conceitos extremistas. Os novos ateus dizem que os dogmas devem ser desmascarados, abandonados e substituídos pela lógica e razão. Afirmam que as pessoas precisam perder o medo de falar abertamente sobre o que o filósofo americano e ateu Sam Harris chamou de “montanhas de absurdos [contidos na Bíblia e no Alcorão] que levam á destruição da vida”. Ele acrescentou: “Nós não podemos mais nos dar ao luxo de sermos politicamente corretos”. Embora os novos ateus condenem a religião, eles veneram a ciência, e alguns até mesmo afirmam que ela prova a inexistência de Deus. Mas será que consegue provar mesmo? Harris disse: “Com o decorrer do tempo, um dos dois lados vai realmente vencer essa discussão, e o outro lado realmente sairá derrotado”. Os donos do poder, a elite dominante mundial, têm projetado novos ataques abertamente contra a existência do Criador. Grupos e Associações ateístas tem se mostrado militante com atitudes infelizes em defesa de suas ideologias. O relativismo, a indiferença, o menosprezo e a perseguição contra a crença e a doutrina cristã são praticados de forma organizada e financiada por organizações que trabalham para destruição da cultura da tradição da fé religiosa. A FÉ VENCE TUDO Por 50 anos, o filósofo britânico Antony Flew foi um ateu muito respeitado por seus colegas. Seu ensaio Theology and Falsification (Teologia e Falsificação), de 1950, tornou-se a publicação filosófica, mas reimpressa do… século XX”. Em 1986, Flew foi chamado de o mais influente dos críticos contemporâneos do teísmo” (crença em


Deus). Assim, muitas pessoas ficaram chocadas quando Flew anunciou em 2004 que tinha mudado seu modo de pensar. O que levou Flew a mudar de idéia? Em poucas palavras: a própria ciência. Ele ficou convencido de que o Universo, as leis da natureza e a própria vida não poderiam ter surgido por mero acaso. Faz sentido essa conclusão? COMO SURGIRAM AS LEIS DA NATUREZA? O físico e escritor britânico Paul Davies afirma que a ciência consegue explicar muito bem os fenômenos naturais, como chuva. Mas ele diz: “Quando se trata de… perguntas como ‘Por que as leis da natureza existem?’, a situação é mais complicada. As descobertas científicas não ajudam muitos a esclarecer esse tipo de dúvida. Muitas das perguntas mais importantes continuam sem resposta desde o início da civilização e ainda nos perturbam”. Em 2007, Flew escreveu: “O mais importante não é o fato de haver regularidades na natureza, mas sim que elas são matematicamente precisas, universais e interligadas. O cientista alemão Albert Einstein referiu-se a elas como a ‘razão encarnada’. O que devemos perguntar é o que fez a natureza surgir do jeito que é. Essa, sem dúvida, é a pergunta que os cientistas, do cientista britânico Isaac Newton a Einstein e ao físico alemão Werner Heisenberg, fizeram e para a qual encontram a resposta. Essa resposta foi: a Mente de Deus”. De fato, muitos cientistas renomados não acham que é anticientífico acreditar numa Causa Primaria Inteligente. Por ou-

tro lado, dizer que o Universo, suas leis e a vida simplesmente surgiram por acaso não é intelectualmente satisfatório. Por exemplo, quando pensamos nas coisas que usamos no dia a dia, em especial aquelas que possuem um projeto complexo e sofisticado ficam claro que foi preciso alguém para projetá-las. Os novos ateus defendem a idéia de

“Tudo o que nós cientistas pudermos fazer para enfraquecer a influência religiosa deve ser feito, e essa talvez venha ser a nossa maior contribuição á civilização”, Steven Weinberg, ganhador do premio Nobel de Física que “toda fé religiosa é cega”, escreveu John Lennox, professor de matemática na Universidade de Oxford, Inglaterra, mas ele acrescentou: Precisamos deixar bem claro que quem pensa assim está errado. Então fica a pergunta: que fé resiste à lógica – a dos ateus ou a dos religiosos? Analise, por exemplo, a origem da vida. Os evolucionistas admitem prontamente que a origem da vida ainda é um mistério

– apesar de existirem muitas teorias conflitantes. O biólogo inglês Richard Dawkins, um dos novos ateus mais influentes, afirma que por causa da grande quantidade de planetas que deve existir no Universo é óbvio que surgiria vida em algum lugar. Mas muitos cientistas respeitados não tem tanta certeza. John Barrow, professor em Cambridge, disse que a crença na evolução da vida e da mente acaba num beco sem saída em todos seus estágios. “Existem tantos fatores que impedem a vida de evoluir num ambiente complexo e inóspito que seria pura arrogância sugerir que tudo é possível com a quantidade suficiente de carbono e de tempo.” Lembre-se também que a vida não e apenas um conjunto de elementos químicos. Na verdade ela é baseada num tipo extremamente sofisticado de informações que estão codificadas no DNA. Assim, quando falamos da origem da vida, estamos falando também sobre informações biológicas. Qual e a única fonte de informações que conhecemos? Numa palavra: inteligência. Será então que uma série de acidentes produziria informações complexas, como um programa de computador, uma equação algébrica, uma enciclopédia ou mesmo uma receita de bolo? É claro que não! Muito menos as informações armazenadas no código genético dos organismos vivos, que são bem mais sofisticadas e eficientes. Segundo os ateus, “o Universo é assim mesmo, cheio de mistérios e por coincidência possibilita a vida”, explica Paul Davies. “Se não fosse assim”, dizem os ateus, “nem estaríamos aqui para debater esse

Richard Dawnkins, inimigo número 1 da religião. Em 2010, durante um discurso contra a presença do Papa na Inglaterra, disse: “Joseph Ratzinger é o inimigo da humanidade”

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assunto. O Universo pode ou não ter uma complexa harmonia subjacente, mas não existe nenhum projeto, objetivo ou significado – pelo menos nenhum que faça sentido para nós”. “a vantagem dessa postura observa Davies, é que é fácil de ser assumida – tão fácil que serve de pretexto”, ou seja, um modo conveniente de fugir do assunto. Em seu livro Evolution: A Teory in Crisis (Evolução: Uma Teoria em Crise), o britânico-australiano e renomado biólogo molecular Michael Denton concluiu que a teoria da evolução “parece mais um princípio de astrologia medieval do que uma teoria científica séria”. Ele também se referiu á revolução darwinista como um dos maiores mitos de nossos tempos. O professor Lennox escreveu: quanto mais aprendemos sobre o nosso Universo, mais credibilidade ganha à hipótese de que existe um Deus Criador – que projetou o Universo com um objetivo – como a melhor explicação do porquê estamos aqui. O professo Frantisek Vyskocil, da Universidade Charles, em Praga é conhecido internacionalmente por suas pesquisas em neurofisiologia. Antes ateu, hoje ele está convencido de que Deus existe. Tudo pelo estudo da ciência e de pesquisas gerais: Bibliologia, Teologia, História, Arqueologia e Filosofia. São João Apóstolo afirma com categoria: “E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé” (Jo 5,4). O verdadeiro conhecimento do ser humano é Deus (Jo 17,3). A verdadeira sabedoria para o bem de todos procede do

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Deus que é amor (Tg 1,5; Jo 4,8). CONCLUSÃO O respeito pela dignidade da pessoa humana está em conceber para ela toda formade liberdade, de justiça, de amor e paz. Temos a missão de proclamar a Boa Nova de Jesus de Nazaré como forma total de libertação do fundamentalismo. É inaceitável que em pleno século XXI com toda a sua riqueza científica e tecnológica haja intolerância e incompatibilidade de convivência fraterna, principalmente na dimensão religiosa. O fundamentalismo para os líderes religiosos é uma farsa, no entanto, para seus seguidores é uma realidade que se paga com a própria vida. O fundamentalismo é usado como ferramenta de domínio por aqueles que detêm o poder. Os líderes não acreditam nos dogmas que pregam – fingem acreditar – eles manobram o sistema religioso em prol de seus luxos e vantagens. Impõe pelo medo e por repetidas doutrinação a crença de forma fundamentalista ao povo, e este a recebe por ignorância e pela fé cega. Os fiéis acreditam em seus líderes, daí, o erro é fatal. O fundamentalismo é cemitério com sepulturas abertas e profundas. Infelizmente, vamos conviver com o fundamentalismo versus racionalismo, individualismo versus cooperativismo, materialismo versus espiritualidade, solidarismo versus clientelismo, cristianismo versus relativismo, equilíbrio versus fanatismo, ecumenismo versus divisionismo e comunitarismo versus separatismo. É salutar afirmar que acreditamos na

Providência Divina como o Senhor da História, da Verdade, da Esperança e do Futuro Glorioso. Notas: (*) O Globo – O dia que marcou a década, 11/09/2011, p. 1. (#) O Estado de S. Paulo, 12/01/2012, p. D8. (1) Valor, 21-25/12/2007, p.26. (2) O Globo, 18/04/2010, p.32 (3) Rubem Alves. O enigma da religião, Petrópolis – RJ: Vozes, 1979, p.117. (4) Zwínglio M. Dias (org.). Os vários rostos do fundamentalismo. Fórum Ecumênico Brasil. São Leopoldo – RS: CEBI, 2009, p. 37. (5) O Globo, 02/10/2011, p. 47. (6) Veja, 14/05/2003, p.14. (7) O Globo, 10/01/2010, p.27. (8) Os vários rostos do fundamentalismo, pp. 41 e 42. Bibliografia Zandra, Dario. Comunione e Liberazione: a fundamentalist Idea Power. In: A ccounting for fundamentalisms: the dynamic character of movements. The fundamentalism Projetc, v. 4, Marty E. Martin; Scott Appleby, R. (org.) Chicago: University of Chicago Press, Ltd, London 2004. Amstrong, Karen. Em nome de Deus: fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. Boff, Leonardo. Fundamentalismo: a globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.


O Catecismo - Carlos Ramalhete

“Estudai o catecismo! Esse é o meu desejo, de coração.” – Bento XVI

A Revelação de Deus T

odo homem, como vimos nos artigos anteriores desta série sobre o Catecismo, é capaz de saber que Deus existe, e é capaz de busca-l’O. A este movimento do homem em busca de Deus, contudo, há uma resposta ainda maior da Sua parte. Quando subimos ao alto de uma montanha ou, num lugar distante da civilização e de suas luzes ofuscantes, olhamos para o céu estrelado, temos uma pequena noção do quanto somos pequenos. Somos seres minúsculos, presos à superfície da terra. Olhamos para cima e vemos os pássaros, que dela podem se afastar um pouco, e as estrelas, brilhando distantes. Estamos presos pela gravidade à superfície de um planeta que, como se pode discernir olhando para um céu estrelado, está cercado de um espaço incomensurável, semeado de estrelas, de sóis, luas e planetas. Estamos, também, presos no tempo. Antes que meu pai e minha mãe me concebessem, eu simplesmente não existia. Minha vida na terra já se arrasta há algumas décadas, desde o seu início, e terá fim um dia. Quando comparamos a extensão da vida humana na terra à extensão da

vida de algumas árvores, por exemplo, que chegam a atingir mil anos de idade, percebemos ainda mais fortemente o quanto a nossa presença é efêmera. Vivemos no tempo, e nele estamos presos. As descobertas de física moderna nos mostraram de forma matemática o que já fora intuído por São Tomás de Aquino: o tempo é uma dimensão do espaço, e nele andamos como que em trilhos. Não podemos voltar no tempo, não podemos parar o tempo, não podemos, como num caminho, desviar-se daquele curso inexorável. Deus, contudo, está fora dele. Foi Deus que criou o tempo. Neste espaço inesgotável da Criação, o homem conseguiu, a duras penas, penetrar parcialmente, enviando sondas que vagam pelo espaço como testemunhas mudas da ambição humana de ir além, da busca humana do Infinito. Mas o Infinito real é Deus; foi Ele quem criou o espaço, e Ele é maior que o espaço. Subindo, assim, ao alto de uma montanha, percebemos uma vasta extensão de terra abaixo de nós, e uma vastíssima extensão de céus acima de nós. Percebemos o quanto somos minúsculos. É neste

momento que podemos ter a percepção de o quanto Deus, que criou a tudo isso e perto de Quem tudo isso é menos que um grão de poeira para nós, é imenso. Naquilo que provavelmente é o maior Mistério, percebemos e sabemos pela Fé que Ele nos ama. Não se trata de sentimentalismo água-com-açúcar, de emoções baratas ou de frasezinhas criadas para suprir a carência afetiva de mocinhas em busca de namorado. “Amor de verdade dói”, dizia Madre Teresa, e o amor de Deus por nós é pleno e verdadeiro. Deus, que é Eterno e fora do tempo, penetrou no tempo. Deus, que é Infinito e além do espaço, penetrou no espaço. Deus Se revelou ao homem, àquela criatura que Ele mesmo criou por amor, àquela criatura criada para amá-l’O e glorifica-l’O. Esta revelação divina, de que trataremos ao longo dos próximos artigos, não é, como querem alguns, um recadinho feito à moda muçulmana, em que um deus distante dita uma cartinha aos homens. Ela tampouco é uma revelação emocional ou subjetiva, em que simplesmente “sentiríamos” Deus. É, ao contrário, uma revelação progressiva e objetiva, em que Deus foi Se In Guardia - Junho - 39


fazendo perceber e Se comunicando com o homem que d’Ele se afastou pelo pecado de Adão. Esta revelação tem várias etapas, que podemos dizer pedagógicas. Ela foi feita de maneira objetiva, diante de testemunhas, foi comprovada repetidas vezes por milagres – que nada mais são que intervenções diretas do Criador na criação – e foi assim, aos poucos, apontando, preparando os homens para que pudéssemos aceitar o que seria de outro modo inaceitável, o que seria de outra maneira inconcebível: a Encarnação do Verbo. Nada há ou poderia haver de mais grandioso que a Encarnação do Verbo, ocorrida na plenitude dos tempos: é o Autor do Tempo que adentra sua criação, é o Autor do Mundo que se faz presente no espaço. É o infinito que penetra o finito, que Se faz contido no tempo, no espaço, na sociedade, e, no maior de todos os atos de amor – que, lembro novamente, quando é verdadeiro dói – Se entrega por nós. A revelação divina, assim, ocorreu de modo a preparar-nos para que pudésse-

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mos perceber e aceitar algo tão inconcebível. Ela ocorreu gradualmente, sendo a própria percepção natural de Deus, de que tratamos nos artigos anteriores, apenas o seu primeiro passo. Este chamado à Eternidade, a ir além do tempo e além do espaço, que temos na nossa natureza nos urge a procurar Aquele que nos criou. É por isso que todos os homens, mesmo distantes da Revelação, manifestam um sentimento religioso, e é por isso que todas as culturas reconhecem a existência de um Criador. É por isso que todos nós temos, em algum momento, uma percepção maior ou menor de que há algo a mais, algo além da luta por comida e abrigo. Deus nos fez, assim, já prontos para busca-l’O, como nos fez prontos para comer, pensar ou nos reproduzir. Faz parte da natureza humana a busca de Deus. E é este componente da nossa natureza que foi empregado por Deus na Sua amorosa preparação. Foram alianças sucessivas, momen-

tos decisivos na história da humanidade em que Deus objetivamente revelou-Se e mostrou-Se, primeiro a um ou a outro, depois a um povo inteiro, separando-o para Seu serviço e para que nele pudesse vir o próprio Deus feito homem. Esta revelação, inicialmente, poderia parecer até mesmo injusta; afinal, argumentariam alguns, por que cargas d’água Deus não apareceu nos Céus, triunfante, tornando Seu trono permanentemente visível entre as nuvens? Por que é que Ele escolheu a um, depois a outro, depois a um povo, ao invés de simplesmente surgir, calando todas as vozes e resplandecendo mais do que o Sol, esta pequena brasa que Ele mesmo criou? A resposta é simples: por amor. O amor de Deus não quer calar todas as vozes, mas dar claridade a todas elas; ele não vem contra a nossa natureza, não elimina ou sequer diminui a nossa capacidade de escolha. Ao contrário, ele a amplia e fomenta, orientando-a e purificando-a. Ele é Bom.


Ana Maria Bueno Cunha “Fala em línguas quem está repleto do Espírito Santo. As diversas línguas são o testemunho que devemos dar em favor de Cristo, a saber, humildade, pobreza, paciência e obediência. Quando os outros virem em nós estas virtudes, estaremos nós falando a eles. Nossa linguagem é penetrante quando é nosso agir que fala. Eu vos conjuro, pois, deixai vossa boca emudecerse e vossas ações falar! Nossa vida está tão cheia de belas palavras e tão vazia de boas obras”. (Santo Antônio de Pádua. Sermões sobre São Mateus 23,1-12 comentado pelo Santo Doutor)

Santo Antônio de Pádua, presbítero e doutor S

anto Antônio é conhecido como o Santo de Lisboa. Nascido em Lisboa, Portugal em 1195, de família guerreira, seu nome de registro é Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo. Apesar de ter pais exemplares, o mesmo não ocorria no ambiente social da nobreza: a futilidade e o desperdício invadiam palácios e castelos. Decepcionado e desprezando aquela vida, Fernando dobrava o seu tempo de oração e pedia a Nossa Senhora que o iluminasse. Depois, decidido, renun-

ciou à herança paterna e aos títulos de nobreza e ingressou na comunidade dos cônegos regulares de Santo Agostinho, no mosteiro de São Vicente de Fora, localizado nos arredores de Lisboa, onde permaneceu por dois anos. Fernando acabava de completar 16 anos. Em razão da proximidade do mosteiro com a capital, Fernando recebia muitas visitas dos parentes e amigos, que perturbavam a paz que ele havia escolhido. Por este motivo decidiu abandonar aquele local e transferir-se para o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, sem trocar de ordem religiosa, onde permaneceu durante nove anos. Nesse mosteiro de Coimbra, hospedaram-se os frades Franciscanos do convento de Santo Antônio dos Olivais, quando viajavam para converter os muçulmanos no Marrocos, na África. Pouco tempo depois, os restos mortais desses frades - martirizados no Marrocos - voltaram a Portugal, para o sepultamento. Nessa ocasião, Santo Antônio -, sentiu grande desejo de evangelizar Marrocos e imitar os mártires. Por isso, no verão de 1220, entrou para a Ordem dos Franciscanos de Santo Antônio de Coimbra, mudou seu nome para Antônio, que era o titular do convento franciscano dos Olivais e foi mandado para lá.

No início de novembro de 1220, Santo Antônio desembarcou em Marrocos, mas terrível enfermidade o reteve na cama todo o inverno e resolveram devolvê-lo para Portugal. Por pura providência divina, o navio de volta a Portugal foi levado pelos ventos para a Itália. Desembarcou na Sicília e se dirigiu para Assis, onde se encontrou pela primeira vez com São Francisco. Então, participou de um Capítulo Geral da Ordem, que começou a 20 de maio de 1221, em Assis. Inteligente, estudioso, carismático, humilde e um imitador inigualável de Cristo, Santo Antônio tinha um dom extraordinário para pregar o Evangelho. Amante da pobreza e dos pobres, defendia os deserdados e explorados, amava a natureza e a solidão, talvez por influência de São Francisco da qual era discípulo. Passava muitos dias em meditação e oração em lugares afastados, longe do barulho e da agitação das cidades. Viveu como eremita no convento e foi incumbido das humildes funções de cozinheiro vivendo na obscuridade até que seus superiores perceberam seus extraordinários dons de pregador. Em setembro de 1221, fazendo o sermão em Forli, na ordenação sacerdotal de franciscanos e dominicanos, surpreendeu o Provincial e todos ficaram maravilhados. Por conta disso, o Provincial o encarregou da ação apostólica contra os hereges na região da Romagna e no norte da Itália, quando se tornou extraordinário pregador popular. Em Rimini, os hereges impediam o povo de ir aos seus sermões, então, apelou para o milagre. Foi à costa do Adriático In Guardia - Junho - 41


e começou pregar aos peixes, que acorreram em multidão, mostrando a cabeça fora da água. Este milagre invadiu a cidade com entusiasmo e os hereges ficaram envergonhados. Após alguns anos de frade itinerante foi nomeado, por carta, por São Francisco, o primeiro ‘Leitor de Teologia’ da Ordem. Mas, este magistério de teologia para os franciscanos de Bolonha demorou pouco porque o Papa mobilizou todos os pregadores dominicanos e franciscanos para combater a heresia albigense na França. Passou três anos lecionando, pregando e fazendo milagres no sul da França – Montpellier, Toulouse, Lê Puy, Bourges, Arles e Limoges. Como ocupava o cargo de custódio do convento de Limoges, foi para Assis participar do Capítulo Geral da Ordem, convocado por Frei Elias, a 30 de maio de 1227. Nesse Capítulo, foi eleito Provincial da Romagna, cargo que ocupou com êxito até 1230. Na solidão do claustro, Santo Antônio entregou-se com empenho à oração e ao estudo. Aprofundou-se na doutrina do grande doutor da igreja, santo Agostinho, e começou a saborear a doçura e a suavidade do Senhor. Dedicou sua aguda inteligência a conhecer mais profundamente as Sagradas Escrituras. Vale destacar que, na leitura dos Santos Padres da Igreja, guardava na memória tudo o que lia, levantando a admiração dos monges que o cercavam. Os anos que permaneceu em Coimbra foram determinantes para o conhecimento das ciências sagradas. Entretanto, esses progressos eram mais frutos da graça de Deus e de seu esforço pessoal do que do ambiente monacal e do trabalho dos mestres competentes, pois naqueles anos os monges do mosteiro estavam envolvidos nas intrigas políticas de seu país, muito nefastas e cruéis. Foi chamado “arca do Testamento” pelo Papa Gregório IX e Tomás de Vercelli, por causa de seu método de exegese e também de “martelo dos hereges.” Foi considerado exímio teólogo, perito exegeta e perfeito frade menor, porque num tempo de grave crise da Ordem, fez da pregação como que uma cátedra itinerante, considerando-a como uma lição de teologia. Passava muitos dias em meditação e oração e enquanto rezava em um desses eremitérios recebeu a visita do Menino Jesus. Em razão dessa aparição, Santo Antônio é representado carregando o Menino Jesus nos braços. O lírio que aparece nos braços ou nos pés é o símbolo da pureza. Em 1231 quando sua pregação atingiu o vértice, Santo Antônio retirou-se para uma localidade perto da cidade de Pádua. Com a saúde debilitada pelo excesso de In Guardia - Junho - 42

Milagre que Deus fez quando Santo Antônio, estando em Rimini, pregou aos peixes do mar

trabalho apostólico, pelo jejum e pela penitência, recolheu-se no convento de Arcela dos frades franciscanos, em Camposampiero, perto do castelo de um amigo nobre e conde. Havia perto ao castelo um bosque com uma grande árvore onde Santo Antonio obteve do amigo uma pequena cela construída sobre sua copa, onde passava horas em contemplação. Ali escreveu uma série de sermões para domingos e dias santificados, alguns dos quais seriam reunidos e publicados entre 1895 e 1913. Dentro da Ordem Franciscana, Santo Antônio liderou um grupo que se insurgiu contra os abrandamentos introduzidos na regra pelo superior Elias. Um dia, enquanto fazia a refeição no convento de Argela foi acometido por um forte mal-estar, que paralisou todos os membros do seu corpo. Os frades o levantaram e deitaram sobre um leito de palhas. Santo Antônio foi piorando progressivamente. Pediu a presença de um religioso para se confessar, que lhe ministrou também o sacramento da unção dos enfermos e depois de ter comungado, entoou seu hino predileto dedicado a Nossa Senhora, a quem sempre demonstrara grande devoção: (“Ó Senhora gloriosa excelsa sobre as estrelas”). Depois com um sorriso e uma expressão de paz imensa, disse aos que o cercava: “Vejo o meu Senhor”, e entregou a alma a Deus, o que aconteceu em 13 de junho de 1231. Tantos foram seus milagres e tal sua popularidade, que foi canonizado no ano seguinte, 1232, pelo Papa Gregório IX. É chamado de “doutor do Evangelho”, pela grandeza com que soube pregá-lo. A profundidade dos textos doutrinários de San-

to Antônio fez com que em 1946 o Papa Pio XII o declarasse Doutor da Igreja. Apesar de sua erudição, o monge franciscano conhecido tem sido, ao longo dos séculos, objeto de grande devoção popular. Brasil e Portugal o veneram de forma mais intensa, sendo muito amado pelo reconhecimento de sua cultura, de sua nobreza espiritual e pelo seu amor aos pobres. Santo Antônio é invocado também para o encontro de objetos perdidos. Sobre seu túmulo, em Pádua, foi construída a basílica a ele dedicada. Quando o corpo foi desenterrado sua língua foi encontrada intacta e é venerada há mais de 700 anos. Tal foi seu amor ao Filho de Deus feito homem, que a pregação sobre o mistério da Encarnação de Verbo era o ponto mais excelente.

Claudio Coello, A visão de Santo Antonio de Pádua, 1663


”Ele veio a ti, para poderes ir a Ele”

”Quem ama não conhece nada que seja difícil”

“Se alguém se retira do mundo inquieto para a solidão e aí descansa a este aparece o Senhor”

“Desde o sacrifício de Cristo, está aberto o portão para o reino de Deus”

”A face do Pai é o Filho” “Santo Antonio de Pádua: Rogai por nós!

Responsório de Santo Antonio: Se milagres desejais, Recorrei a Santo Antônio, Vereis fugir o demônio, E as tentações infernais

Ensinamentos de Santo Antonio

Recupera-se o perdido, Rompe-se a dura prisão E no auge do furacão Cede o mar embravecido.

“Onde há excesso de riqueza e de prazeres, aí se instala a lepra dos vícios”

Todos os males humanos Se moderam, se retiram, Digam-no aqueles que o viram, E digam-no os paduanos.

“A vida do corpo é a alma, a vida da alma é Deus”

Recupera-se o perdido, Rompe-se a dura prisão E no auge do furacão Cede o mar embravecido.

“O amor a nós O prendeu tão intimamente à nossa natureza que o fez descer até nossa miséria, como se no céu já não pudesse permanecer sem nós”

Pela sua intercessão Foge a peste, o erro, a morte, O fraco torna-se forte E torna-se o enfermo, são. Recupera-se o perdido, Rompe-se a dura prisão E no auge do furacão Cede o mar embravecido. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Recupera-se o perdido, Rompe-se a dura prisão E no auge do furacão Cede o mar embravecido. V.: Rogai por nós, bem-aventurado Santo Antônio. R.: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo, Amém!

“A criatura carregou no seio seu Criador e a pobre Virgem o Filho de Deus. Tu és ao mesmo tempo o mais alto e o mais humilde. Senhor dos Anjos e súdito dos homens! O Criador do mundo obedece a um carpinteiro, o Deus de eterna majestade se submete a uma Virgem” “A confissão é semelhante a uma travessia, pois o homem atravessa pela confissão da margem do pecado para a margem da reparação”

“O pregador fala com dois lábios, com sua vida e com sua boa fama”


Santo Antônio e seus Milagres C

ontarei 5 dos muitos milagres intercedidos por Santo Antônio: O poder da Eucaristia Num dia qualquer do ano de 1227, como de costume, Fernando Martins de Bulhões, mais conhecido com Santo Antônio, pregava em Toulouse, sul da França. O tema era sobre a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. No meio de uma grande multidão, levantou-se um senhor dizendo ser mentira tudo aquilo que o santo dizia. Além de caluniá-lo, o homem o desfiou: - O Senhor pode discursar durante horas, mas a verdade é que os fatos reais estão contra seus argumentos. É impossível que Cristo esteja presente na Hóstia Consagrada. Se Cristo está presente nesta Hóstia, sua presença deveria ser sentida por todas as criaturas viventes. Lanço-lhe, portanto, um desafio: na próxima missa trarei a minha mula. Estaremos aqui diante da Hóstia e, se a mula se ajoelhar, acreditarei no senhor e na sua fé. Santo Antônio confiando em sua fé aceitou o desafio, pois sabia que Deus não o abandonaria e lhe daria como presente um milagre para provar a presença do Jesus Cristo na Hóstia consagrada. O homem saiu rindo e zombando de Antônio porque tinha a plena certeza que aquilo que havia proposto nunca aconteceria. In Guardia - Junho - 44

O homem que fez o desafio ao futuro santo deixou sua mula isolada dos outros animais e amarrada sem água e sem comida durante 3 dias. No dia combinado, o animal estava muito violento por conta do isolamento e da fome. Mesmo assim, foi com o dono para a missa. Apareceram muitas pessoas na praça, algumas foram pela missa e outras apenas para conferir se a mula iria ou não ajoelhar-se diante da Eucaristia. O Santo chegou com o Santíssimo Sacramento, todos se ajoelharam. O homem e sua mula foram levados diante Dele, então, santo Antônio levantou a Hóstia no mais alto diante da mula e ao mesmo tempo seu dono colocou uma vasilha com comida e água na frente do animal, milagrosamente a mula que estava agitada se acalmou, não deu importância para a comida e ajoelhou-se diante de Jesus Cristo Eucarístico. Todos ficaram espantados e admirados, foram ouvidos gritos, choros, cantos e rezas. Muitos incrédulos como o dono do animal, se converteram ao catolicismo. O homem imediatamente se ajoelhou pedindo perdão e a conversão. Pregando aos peixes Na cidade de Rimini, conhecida por ter muitos moradores hereges, apareceu frei Antônio com a intenção de fazer prega-

Lizandra Danielle

ções. O frei subiu ao púlpito da cidade e começou a chamar as pessoas para o escutarem, mas, como já era previsto quase ninguém parou para escutá-lo. Os que deram atenção a Antônio foram tocados pelas palavras do frei que estava coberto da inspiração Divina. Frei Antônio, não muito satisfeito saiu para fazer oração pedindo a Deus a conversão de todos os habitantes daquela cidade. Dirigiu-se para as praias do mar Adriático e clamou aos peixes que louvassem seu Criador. De uma forma fantástica e milagrosa, começaram a aparecer peixes de todos os tamanhos que colocavam a cabeça para fora da água para escutar a pregação do frei Antônio. As pessoas que estavam ao redor ficaram maravilhadas e assustadas. A notícia logo se espalhou pela cidade e muitos hereges se converteram. O Dom da Bilocação Frei Antônio foi convidado para entoar a Aleluia na missa da Igreja do convento franciscano no domingo de Páscoa. Com muitas ocupações, no dia da Páscoa o frei se esqueceu do convite que havia recebido. No mesmo horário ele estava celebrando na catedral da cidade, e no meio de sua pregação, lembrou do compromisso que tinha assumido com o convento franciscano. Então, parou por um momento, como se fosse uma estátua, todos ficaram olhan-


do e se perguntando, o que ele estava fazendo. Depois de um breve tempo voltou a pregar. Até ai tudo bem. Mas um dia depois começaram a comentar na cidade que ele teria estado no convento na mesma hora em que estava celebrando a missa. Um fato extraordinário como muitos outros, que só aumentavam sua fama de santidade. Controlando o Tempo Noutro dia, Frei Antônio pediu licença para pregar na igreja da cidade de Limoges. Como já era muito conhecido por aquela região apareceram muitos fieis, quantidade que nem sequer caberia na igreja. Foram então todos para a praça. Estava chegando a hora da pregação. Centenas de pessoas aglomeraram-se ansiosas para escutar as palavras de salvação Frei Antônio, famoso por sua eloquência. De repente, o céu começou a escurecer, muitas nuvens pesadas, muitos trovões e raios, a multidão já estava se aprontando para ir embora, mas o Frei pediu atenção a todos e disse que não era para ninguém se preocupar com a chuva e que ele garantia que a pregação seria feita normalmente. Horas depois a pregação acabou e no momento em que todos estavam saindo da praça, perceberam que tudo estava muito molhado apenas a praça estava seca. Salvando o pai de um julgamento errado. Na cidade onde o pai de Frei Antônio, Martinho de Bulhões morava, aconteceu um assassinato perto de sua casa. Para esconder o corpo e não deixar pistas, os assassinos enterraram o corpo no quintal de Martinho enquanto ele estava fora. Tempos depois o corpo foi descoberto pela Justiça, para a surpresa tanto do proprietário quanto de todos os vizinhos e familiares. Martinho foi preso por assassinato durante 15 meses. No julgamento estava previsto que ele seria condenado à morte. Frei Antônio sabendo desse perigo que o pai corria logo se preparou para ir defender o pai no julgamento. No dia do julgamento, Frei Antônio saiu do convento em Pádua e misteriosamente apareceu no tribunal em Lisboa e tomou a defesa do pai. As pessoas estranharam a presença do Frei em uma cidade tão longe de seu convento. Frei Antônio defendeu seu pai como advogado, falou muito bem como em suas pregações, mas infelizmente não convenceu o juiz, as provas contra Martinho eram muitas. Não desistindo de salvar o

pai o frei pediu ao juiz que fosse ao cemitério com ele, visitar o túmulo da vítima para que o cadáver fosse interrogado. Todos os presentes começaram a rir, mas, por curiosidade o juiz atendeu ao pedido do frei achando que ele não seguiria em frente com esse plano impossível de “interrogar a vítima”. O túmulo foi aberto e do morto restavam apenas os ossos. Frei Antônio manda que ele [o morto] se levante em nome de Deus e diga se seu pai era o culpado por sua morte. Milagrosamente o cadáver se levantou e disse em alto e bom som que Martinho de Bulhões não estava manchado com seu sangue e que era inocente. No instante seguinte, o cadáver se deitou na posição que estava. Logo depois Frei Antônio se despediu do pai e sumiu do mesmo modo que apareceu. Santo Antônio de Pádua, um incorrupto? No dia 8 de abril em 1263, as autoridades do Vaticano, depois da canonização de Santo Antônio, foram fazer o reconhecimento de seus restos mortais. A maior parte do corpo do santo já tinha se decomposto, restavam os ossos, mas, para surpresa geral, todo o aparelho vocal do santo estava intacto: a língua, parte do queixo e as cordas vocais. Assim continuam até hoje.

Juntamente com essas partes do corpo, restos da túnica que ele usava e também uma caixa pequena onde se guardava panos da época estavam no túmulo em ótimo estado séculos depois. E por que Deus teria escolhido o aparelho vocal de Santo Antônio? Pelo simples fato de que ele usou a voz que Deus lhe deu, para fazer nascerem bons frutos em solos que antes eram apenas areia. Ele conseguiu converter multidões apenas com suas palavras. Esse dom que lhe foi dado, por ele não foi desperdiçado. E você? Está usando bem os dons que Deus lhe deu? Língua de Santo Antônio. FONTES: •http://www.cancaonova.com/portal/ canais/formacao/internas.php?id&e=4003 •http://reporterdecristo.com/milagres-de-santo-antonio •http://www.santoantoniodf.com/padroeiro/milagres-de-santo-antonio/ •http://pt.scribd.com/doc/66518664/ A-Verdadeira-Esposa-de-Jesus-Cristo-Vol-I-Sto-Afonso-de-Ligorio?in_ collection=3200735 In Guardia - Junho - 45


Pense como os santos

Santo Inácio de Loyola

“Como se me afigura vil o mundo quando olho para o céu”. “Muita sabedoria unida a pouca santidade é preferível a muita santidade unida a pouca sabedoria”. “ A vitória mais bela que se pode alcançar é vencer a si mesmo.” “Ninguém sabe o que Deus faria de nós, se não opuséssemos tantos obstáculos à sua graça”. “Para aqueles que crêem, nenhuma explicação é necessária; e para aqueles que não crêem, nenhuma explicação é possível.” “Não é o muito saber que satisfaz a alma Mas sim o muito sentir e saborear as coisas de Deus” “ A vitória mais bela que se pode alcançar é vencer a si mesmo” “Se eles(os santos) puderam fazer grandes coisas por Deus, por que eu não poderei também?” “Que fiz, que faço e o que farei por Cristo?” “Rezar, como se tudo dependesse de Deus. E agir, como se tudo dependesse de nós” “Sobre os escombros, que o ódio e a violência plantam, devemos construir a civilização do coração de Jesus”


Por Emanuel Jr.

In Guardia entrevista: Percival Puggina In Guardia: Pouco tempo atrás tivemos um dos muitos julgamentos históricos do STF. Na decisão sobre a possibilidade de aborto de anencéfalos, aborto que eles chamam de antecipação de parto, o voto do Relator Ministro Marco Aurélio Melo teve dezenas de páginas fazendo um relato, de unilateralidade histórica ímpar, sobre o Estado laico. Em sua opinião, esse é o caminho mais fácil de simplesmente eliminar a religião dos caminhos de discussão dos temas, sejam eles quais forem? Percival Puggina: Senti-me pessoalmente ofendido com o voto do ministro Marco Aurélio Mello. Infelizmente, por desinformação, a imensa maioria da sociedade não sabe o que aconteceu nem tem consciência do fato de estar em curso um processo de natureza jurídica e cultural que pretende suprimir aos cristãos o direito de opinar, organizar correntes de opinião e influenciar o Direito Positivo sobre temas em que a Moral e o Direito se encontram. O ministro foi bem claro e usou um sofisma. Primeiro afirmou que dogmas religiosos não podem determinar as ações do Estado (o que é uma obviedade) e em seguida encostou nessa obviedade um disparate, equiparando a moral cristã a dogma religioso. Convenhamos! Que Direito teremos se a moral não puder influenciar o Direito e se só os sem convicções morais puderem influenciá-lo? In Guardia: Ainda na questão do aborto de anencéfalos, quais as consequências e a amplitude que o Sr. pensa que essa decisão pode tomar?

Percival Puggina: Creio que o único efeito pretendido pela ADPF 54 foi o de levar para dentro do STF o tema do aborto. Os tribunais já vinham autorizando. Como era de se esperar, num colegiado que tem o senhor Marco Aurélio Mello como o primus inter pares, restou decidido que aquele que vai morrer pode ser morto antes do término natural de sua vida. É uma norma que nos sentencia e condena a todos... In Guardia: Poderíamos dizer que se trata de uma nova eugenia, só que dessa vez “legal” apesar de imoral? Percival Puggina: Sim, e elevando à condição de princípio uma assertiva perigosíssima: o que vai morrer pode ser morto. In Guardia: Nos dias do julgamento do STF o Sr. defendeu que a pauta, verdadeiramente, não era a anencefalia, mas uma certa preparação para a liberação do aborto de uma forma geral. Isso pôde ser visto claramente nas sustentações orais e nos votos. O Sr. acha que a liberação do aborto é uma questão de tempo, uma vez que vem sendo preparada já há vários anos? Percival Puggina: É um fenômeno que está em curso numa escala mundial, num deliberado jogo de braço com a moral de base cristã. A liberação do aborto é a “menina dos olhos” do relativismo, do materialismo, do hedonismo e do ateísmo militantes. A liberação do aborto e o cumprimento da agenda gay representam a vitória contra a civilização cristã e a principal semeadura da nova ordem mundial. In Guardia: Ainda sobre essa questão

de Estado laico, como tem sido a recepção da decisão do TJ-RS sobre a retirada dos crucifixos dos Fóruns e do Tribunal a pretexto desse Estado laico? Percival Puggina: Junto à opinião pública, a retirada dos crucifixos não encontra uma ressonância superior a 23% da população. Participei de programas em que o tema foi debatido e esse foi o melhor resultado que os defensores da retirada dos crucifixos alcançaram. O que a mim surpreende é saber que a maior parte desses (como pude perceber por e-mails que recebi) são católicos servindo como inocentes úteis a manobras sorrateiras que não conseguem discernir. Em virtude dos artigos que escrevi a respeito, recebi manifestações de ateus e de judeus que reprovam a decisão do Conselho de Magistratura do TJ/RS, qualificada como “faniquito anticlerical” pelo ministro Gilmar Mendes. In Guardia: Quais as suas críticas com relação a essa decisão do TJ-RS? Percival Puggina: Sob o ponto de vista meramente material, contraria decisão do próprio CNJ que já se manifestou reiteradamente sobre o assunto. Como o CNJ, em questões relativas à administração dos tribunais, exerce autoridade sobre eles, a decisão afronta o que já foi decidido em instância superior. Sob o ponto de vista jurídico, trata-se de um verdadeiro “ninho de éguas” como se diz aqui no sul para referir o achado de algo que não existe. É inadmissível que sucessivas gerações de magistrados, em todo o país, desde a primeira consIn Guardia - Junho - 47


tituição republicana em 1891, não tenham atinado para o fato de que a separação entre Igreja e Estado fosse incompatível com a presença dos crucifixos nos espaços públicos. Sucessivas gerações de magistrados - isto sim - tiveram discernimento para perceber o elevadíssimo sentido social, cultural e simbólico dos crucifixos nos tribunais e de outras manifestações de religiosidade nas muitas intersecções da vida social com o Direito e com a Política. Não haviam bebido nas águas turvas do secularismo. Além dos óbvios motivos culturais e históricos relacionados à identidade nacional; além da notória contradição entre a decisão e a realidade de tantas outras manifestações da religiosidade do povo brasileiro, consolidadas ao longo dos séculos (representadas por nomes de lugares públicos e pela presença de símbolos religiosos em toda parte); além da contradição com os feriados religiosos, com o repouso dominical, com o “Deus seja louvado” inscrito em nossas cédulas monetárias e por aí afora, a ordem de retirada dos crucifixos é uma rematada grosseria praticada contra a fé cristã de 90% da sociedade brasileira. Paradoxalmente, dias após haver determinado a retirada dos crucifixos, o presidente do TJ/RS assinou ordem de serviço estabelecendo o cumprimento de apenas meio-expediente, das 9h às 13h, na QuintaFeira Santa. In Guardia: Segundo informações, por muito tempo o Sr. defendeu a tese do seu amigo pessoal, o Dr. Cezar Saldanha de Souza Júnior, em relação à necessidade, não de uma reforma política que vise a mera modificação da seara eleitoral, mas de uma modificação que separe do presidente as três figuras (de Estado, governo e administração) que tornam hoje o Executivo uma espécie de superpoder. Por que o senhor acha necessária essa separação? Como ela ocorreria? Percival Puggina: Defendi e prossigo defendendo, junto com o Prof. Cézar, essa mesma tese, mesmo reconhecendo as dificuldades existentes para que se efetive tal separação. Os que a ela se opõem são os grandes beneficiários da concentração de poderes que determina. São adversários poderosíssimos, portanto. Não é razoável atribuir à mesma pessoa e a seu partido político o comando simultâneo de coisas tão distintas quanto Estado, governo e administração. O Estado é de todos e não pode ter partido. A chefia do Estado corresponde a uma última instância da ordem política, neutra, onde se preservam e são representados os valores nacionais. O governo deve ser partidário, ideológico e, por isso mesmo, transitório. E a administração, por seu turno, neutra, técnica, profissional. Quando se entrega tudo isso In Guardia - Junho - 48

a uma mesma pessoa e a seu partido, temse um aparelhamento de toda a máquina pública - dezenas de milhares de cargos uma ideologização das relações exteriores e uma concentração de poder contraditória com o próprio regime democrático e uma infinidade de portas se abrem, tanto para a corrupção quanto para a perpetuação de uma indesejável hegemonia política. Acrescente-se a isso a possibilidade de reeleição e o modo como são providas as vagas nos tribunais superiores para que o mesmo aparelhamento se estenda ao próprio Poder Judiciário em suas instâncias decisivas finais. A matriz da corrupção brasileira e da impunidade radica-se nesse feixe de poderes e de recursos financeiros que está matando a Federação, transformando as unidades federadas em colônias da metrópole brasiliense e longe do qual larápio algum gostaria de ficar. E não fica.

Se levarmos em conta o despreparo político do brasileiro médio, creio que a mera condição de eleitor do PT não pode ser vista como culpa pessoal. É muito mais culpa de quem, eventualmente, tendo podido prestar todo o esclarecimento, informação e orientação necessária, não o fez. In Guardia: O Sr. é um crítico do regime cubano justamente por tê-lo examinado com os próprios olhos, no que resultou no seu livro “A Tragédia da Utopia”. Recentemente o senhor visitou o país, que vive ainda sob um regime comunista. Quais foram as diferenças que o senhor pôde verificar entre a Cuba que gerou o seu livro da Cuba de hoje? Percival Puggina: Aumentou o desalento da população. O povo cubano perdeu a esperança. Sabe que as tênues medidas que hoje lhes permitem abrir uma barbearia ou um estande para vender picolés são insuficientes para gerar desenvolvimento econômico sem o qual não há desenvolvimento social. E o povo cubano, ademais, teme pela vida de Chávez, um desastre que reproduzirá a situação vivida quando os russos foram embora. Naquela ocasião, 1991, Cuba perdeu a mesada soviética e

entrou numa década de crise que ficou conhecida pelo nome oficial de “período especial”. Especialmente miserável. Se o companheiro Chávez vier a falecer, estará perdida a mesada venezuelana e um novo período especial certamente advirá. In Guardia: Ainda sobre Cuba, houve recente visita do Papa Bento XVI àquele país. O Sr. Raul Castro decretou feriado na sexta-feira da paixão, dizem, a pedido do Papa. O Sr. vê essa posição como uma possível abertura ou pelo menos relaxamento para a liberdade religiosa ou trata apenas de jogo político puro e simples? Percival Puggina: Bento XVI visitou a ilha em missão diplomática. Ele sabe que está lidando com marxistas-leninistas empedernidos. Adotou a linha da prudência porque a menor imprudência poderia determinar problemas para os católicos cubanos. Foi um jogo político pelos dois lados. In Guardia: Um dos seus artigos, intitulado “Montanhas ao Mar” acusa um fato não muito conhecido de que Dom Paulo Evaristo Arns, em 1989, teria enviado uma carta ao seu “queridíssimo Fidel”, por ocasião dos 30 anos da Revolução Cubana, e que tal atitude foi duramente respondida por bispos alemães que haviam estado em Cuba, na revista “30 Giorni”, de janeiro de 1989, na qual eles também afirmam que os sacerdotes e religiosos teriam sido reduzidos a 15% do que antes haviam sido. Vimos que as missas celebradas pelo Santo Padre na nação socialista, mesmo em face a esses dados, tiveram grande público. Qual é a sua análise pessoal? Essa aparente propaganda religiosa tem quais objetivos? Percival Puggina: O artigo que você refere quis trazer a luz algo que não pode ser esquecido. D. Paulo Evaristo Arns, com seu esquerdismo, fez grande mal à Igreja no Brasil e, não satisfeito, foi abençoar um regime transgressor de direitos humanos e que tanto padecimento, restrição de direitos civis, prisão e morte impôs aos católicos da Ilha. Eu escrevi um artigo para o jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, à época do fato (comemoração dos 30 anos da revolução cubana em 1989) que ensejou a carta do cardeal. O título desse meu artigo era “A epístola de Paulo, o Evaristo”. O que relatei era tão incrível quanto verdadeiro. Na carta que mandou a Fidel, D. Paulo entre outros disparates, saiu-se com este: “ A fé cristã descobre, nas conquistas da Revolução, os sinais do Reino de Deus, que se manifesta em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da convivência política uma obra de amor”. É inacreditável, mas absolutamente textual. O cardeal escreveu isso e enviou a Fidel Castro. O povo cubano é religioso. Há muito sincretismo, também, com a santeria, um


tipo de religiosidade e culto oriundo da África Oriental, onde foram tomados como escravos os Yorubans levados para a região do Caribe no século 16 e seguintes. Grandes concentrações populares são comuns em Havana quando acontece algo importante. A visita do Papa deve ter sido uma dessas coisas extraordinárias, mas certamente nem todos os que estavam lá são católicos. In Guardia: Tendo o Sr. visitado Cuba, um paraíso na opinião da esquerda, quais as impressões levantadas sobre os pontos mais exaltados pela esquerda: educação e saúde? Do ponto de vista histórico, houve ou está havendo melhora? Percival Puggina: Não existe saúde de qualidade sem recursos, coisa que a economia cubana não tem condições de gerar. É uma obviedade que prescinde de comprovação o fato de que a medicina moderna exige equipamentos, exames, medicamentos e tratamentos de que Cuba não dispõe. Veja-se o caso Chávez. O venezuelano foi para lá porque desejava manter sigilo sobre sua situação e os médicos cubanos que o atenderam, segundo alguns colegas brasileiros, erraram no tratamento. Teria sido melhor atendido no Brasil. O que eles tem é um atendimento básico preventivo, de medicina familiar, disponibilizado em larga escala, que assegura um indicador de saúde médio um pouco superior ao brasileiro atual. Mas nada além disso. Em casos de enfermidade, como não têm bons recursos para diagnóstico, as consultas me foram descritas assim por uma senhora com quem falei: “Te míran y te prescriben”. Quanto à educação, ela é extensiva (como costuma ser em países comunistas), mas não se converte em conhecimento nem em qualidade de vida. De um lado porque o sistema não o proporciona. E de outro porque a educação tem uma finalidade ideológica. Trata-se, principalmente, de criar desde cedo o cidadão para a sociedade comunista e não para o pleno exercício de sua dignidade e de sua liberdade. Ou seja, educa, mas não serve para quase nada. In Guardia: O senhor foi um grande crítico da massa de esquerda que se infiltrou como assessores na CNBB nos anos 60 e remanesceu até os dias de hoje, o que lhe rendeu muitos inimigos da chamada Teologia da Libertação. Este ano, vimos que a Campanha da Fraternidade tem sido menos política e um pouco mais espiritual, ao contrário da ocorrida no ano passado e anos anteriores. Na sua opinião, a Teologia da Libertação está com seus dias vencidos em face à Conferência Episcopal Brasileira? Não, não creio. O que aconteceu com a CF deste ano fugiu da regra, talvez porque o tema Saúde não proporcionasse muita ide-

ologização. Por outro lado, saúde pública é pauta da esfera do governo e a única forma de politizar uma abordagem do assunto seria com severas críticas ao governo. Ora, o governo está cumprindo o 10º ano de uma gestão sem solução de continuidade e não pode mais ser absolvido de responsabilidades perante a situação calamitosa da saúde pública no país. Então foi escolhida uma abordagem soft do tema da CF. Em outras palavras, deixando a ingenuidade de lado: o tema não foi politizado porque, por motivos políticos, não convinha politizar. Isso tampouco elide o problema principal, que é a própria Campanha da Fraternidade, promoção que há quase meio século vem impedindo que se viva adequadamente o espírito da Quaresma como tempo de exame de consciência, de conversão, de reconciliação, de confissão e preparação da Páscoa da Ressurreição. O resultado, depois de meio século, se mede em confessionários vazios e extensas filas para comunhão! Será que ninguém percebe isso? In Guardia: No mesmo sentido da última pergunta, qual a sua opinião em relação aos novos sacerdotes frutos da “geração catecismo” em relação aos da “geração revolução”? Percival Puggina: Vejo como sinais do Espírito Santo! Que Deus os conserve na fé e na virtude. In Guardia: Voltando a nossa realidade mais próxima, o Sr. é de um Estado cujo governo atual é do PT. Sendo o Sr. conhecedor profundo da Doutrina Social da Igreja e sem perder essa de vista, é possível ser militante ou eleitor do PT sem atingir frontalmente a DSI? Percival Puggina: Se levarmos em conta o despreparo político do brasileiro médio, creio que a mera condição de eleitor do PT não pode ser vista como culpa pessoal. É muito mais culpa de quem, eventualmente, tendo podido prestar todo o esclarecimento, informação e orientação necessária, não o fez. É aí que a TL, as CEBs e um grande número de bispos têm parcela de responsabilidade. Sua indisfarçada conexão com um partido em que se originam propostas (vide o PNDH-3) que afrontam a moral cristã em temas fundamentais relacionados à vida, à família, ao ensino religioso, etc. não pode transitar acriticamente. In Guardia: Ainda sobre a DSI, o Sr, considera possível dentro do contexto atual, falar em aplicação do princípio da subsidiariedade no Brasil? Em quais conjunturas? Percival Puggina: Falar sim, anunciar o princípio, sim. É mais do que necessário. É urgente! Estamos na contramão dele graças à brutal concentração de poderes em Brasília a que me referi antes.

In Guardia: Muitos manifestam que nos dias atuais o Brasil não tem direita. Trata-se, pelo visto, de um contexto histórico não só brasileiro, mas de toda a América Latina. O Sr. concorda com essa afirmação? Percival Puggina: Não, não concordo. Eu mostro isso num livro que publiquei em fins de 2010, com o título de “Pombas e gaviões”, no qual transcrevo o que revelam pesquisas de opinião sobre temas que podem ser adotados para evidenciar a posição ideológica do entrevistado: família, aborto, posse de armas, maioridade penal, função das penas, respeito à propriedade privada, religião, costumes, ordem pública e assim por diante. O que temos neste período da história e que pode ser entendido como inexistência de uma direita democrática é o produto cruzado de vários fatores: a longa semeadura que resultou no aparelhamento das organizações de base da sociedade pela esquerda; o igualmente meticuloso trabalho de organização de grupos sociais minoritários para a militância; a chegada da esquerda ao poder; e o aparelhamento do Estado brasileiro, favorecido pelo feixe de poderes nas mãos de quem vence a eleição presidencial. A sociedade foi tomada por baixo e por cima. Tal concentração de poderes torna irrelevante a oposição. Quem quiser, hoje, saber o que a oposição pensa tem que sintonizar um canal de tevê da Câmara ou do Senado e esperar que algum parlamentar de oposição ocupe a tribuna. Ou não? In Guardia: O Brasil não tendo direita, como fazer para impedir uma revolução cultural socialista? Percival Puggina: No presente cenário, isso parece muito difícil. Mas eu creio no Espírito Santo. Embora ele tenha problemas com muitos dos seus bispos, saberá orientar o povo de Deus pelos caminhos da História da Salvação. In Guardia: Em sua análise pessoal, o que leva alguns Estados brasileiros, inclusive o Rio Grande do Sul, a serem mais ou menos pendentes a ideologia socialista seja pelo plano gramsciano seja por outras formas ideológicas que pretendem chegar ao socialismo/comunismo? Percival Puggina: No caso do Rio Grande do Sul, temos uma tradição autoritária, positivista. O gaúcho é apreciador do Estado forte, provedor. E isso o faz sensível à demagogia, às promessas assistencialistas e à própria ideia de que todas as dificuldades podem ser superadas por uma coisa tão etérea quanto a tal “vontade política” que a esquerda, quando na oposição, ostenta com uma vitalidade que impressiona os ingênuos. In Guardia - Junho - 49


Sobre a importância de juízos e palavras N

Paulo Cremonese

o Novo Testamento, Carta de Santiago, o apóstolo é mártir para saciar nossas próprias misérias espirituais. é duro ao afirmar mais ou menos com as seguintes palaA bem da verdade, a má língua e as palavras ruins têm como vras: “quem não repreende a língua, a fé é vã” e “a língua é um base de tudo a inveja. mundo de iniquidade”. Inveja que não passa do refúgio dos infecundos. Não satisfeito, Santiago ainda afirma “a língua inflama o nosSe quisermos transformar nossas vidas também nesse sentiso viver”. do precisamos dos remédios adequados: oração, fomentação do Por que o apóstolo fez uso de afirmações, palavras, tão du- bem e sacrifício. ras? Ao homem de má língua falta vida interior, a boa solidão, os Eu, particularmente, sinto-me à vontade para tratar do as- momentos de deserto, os meios necessários para o diálogo com sunto, pois um dos maiores problemas que enfrento na minha Deus, a busca da intimidade com Deus. vida cotidiana é exatamente o controle da língua. No silêncio encontramos Deus e não na mediocridade. A língua já me fez pecar muitas vezes, palavras infelizes feTemos que ter em conta que somos pecadores que se elevam, riram pessoas queridas e muitas complicações foram causadas lutando contra os afetos desordenados, incluindo os da língua. pelo uso inadequado, pouco cristão, da língua. E a cada elevação, nós nos transformamos nos caminhos da O fato é que nossas palasantidade. No silêncio encontramos Deus e não na vras nos prendem aos nossos Não podemos nos esquecer mediocridade. mundos interiores. que o modo de pensar de Deus Não raro, falamos aquilo é diferente do nosso modo de Temos que ter em conta que somos pecadores que carregamos no coração, da pensar, razão pela qual deveque se elevam, lutando contra os afetos mesma forma que somos aquimos carregar como uma mádesordenados, incluindo os da língua lo que contemplamos. xima de vida, um postulado Nosso mundo interior pode a seguinte frase: ATRAVÉS DA nos aproximar ou nos afastar de Deus. CRUZ, CHEGA-SE À LUZ. O amor de Deus (e o amor por Deus, consequentemente) exiJesus compreendia o íntimo das pessoas, por isso estava ge um modo de viver impregnado de amor. Esse modo pode ser aberto a cada uma delas, compreendendo-as. destruído pela língua, porque ela expõe ao mundo o que está no Cada um de nós deve imitar Jesus e procurar compreender as interior do nosso coração. pessoas com quem vivemos ou nos relacionamos. Muitos são os malefícios da má língua e suas raízes são inteIsso não significa aceitar erros reiterados (exatamente para riores e profundas. isso existe a correção fraterna), mas colocar o amor em primeiro Quando falamos mal de alguém, sendo ou não verdade, fur- lugar. tamos a dignidade espiritual da pessoa. Nosso juízo alheio só será reto se o objetivo for o de melhoAo que parece, existe um prazer mórbido em cada um de nós rar, elevar a pessoa. em revelar os defeitos de outra pessoa. Conhecendo os pontos fracos de uma pessoa, podemos enEsquecemos, com assustadora frequência, que ao rotular ne- tendê-la melhor e fazer uso da compaixão, para que as palavras gativamente uma pessoa, ao lhe dar má fama, inibimos à prática de sabedoria brotem de nossos lábios e nossa língua não seja do bem e até mesmo um eventual processo de conversão. causa de perdição, mas de salvação, Claro, às vezes, precisamos expor alguns fatos em nome da Terá boa língua e saberá fazer com uso das palavras quem verdade e da justiça, mas o devemos fazer com intenção reta cultivar coisas boas no coração, sempre com o desejo de elevar e juízo cristão. Quando se trata de defender o bem próprio, de uma pessoa, mesmo que em meio a uma dada correção fraterterceiro ou público, é perfeitamente bom e justo revelar o erro na. alheio, mas sempre em bom juízo e para o bem comum. Mas, para animar os outros, é preciso que nós mesmos esteIsso requer bom senso, espírito de justiça e equidade, coisas jamos animados, transformando em nossas vidas o veneno em que se desenvolvem por meio da vida religiosa. remédio. Não podemos emitir juízos temerários sobre os outros, porQuem se cala nunca erra, quem fala demais, sem ser para que normalmente eles são feitos sem fundamentos e apenas maior glória de Deus, tem grande chance de errar. In Guardia - Junho - 50


Diego Silva

Padre Jonh O’Connor e o Padre Brown de Chesterton S

e existe algo que a todos agrada é o bom humor e o carinho que Chesterton tinha para com seus amigos e leitores. As explicações deterministas de que a vida é um mero suceder de leis frias e imutáveis não preenchia aquele coração sedento de sentido. Chesterton não suportava a prisão obscura em que o materialismo e o cientificismo aprisionavam o espírito. Não lhe fazia sentido que o mundo fosse desprovido de um sentido, que as coisas fossem fortuitas e um mero acaso. Ele não compreendia que, como autor, podia dar vida aos personagens, mas não poderia existir um autor que lhe desse a vida - “havia algo de muito pessoal no mundo, como se fosse uma obra de arte”, escreveu Chesterton. Sincero e inteligente como ele era, não fechou seu coração aos mais belos mistérios. Chesterton sabia que os homens são simples errantes em um momento e dado lugar na história da Humanidade. São seres espirituais que estão em contato um com outro e não podem esquecer de que todos são, em certo sentido, responsáveis pela salvação mútua. São seres de corpo e alma que vivem no mesmo mundo, sofrem as mesmas dificuldades e vivenciam, em parte, também a mesmas alegrias. Um gênero que marcou e garantiu Chesterton na cadeira dos escritores universais foi o gênero detetivesco. A priori, muitas vezes escrevia seus contos, pois lhe faltava dinheiro; no

entanto, suas motivações não desmerecem a grandeza da sua criação. Chesterton não criou um personagem por acaso. Seu famoso Padre Brown nasceu do seu marcante e inesquecível encontro com o Padre John O’connor que aconteceu em uma noite de tempestade de neve em que Chesterton foi dar uma conferência em Yorkshire. “Fiz a minha conferência, Deus sabe a respeito de quê”, escreveu em sua Autobiografia. Este encontro marcou profundamente Chesterton. Jonh O’Connor e ele manteriam uma profunda amizade que, segundo Maise Ward, biógrafa de Chesterton, era “talvez a amizade mais íntima da vida de Gilbert.” Que destino providencial teria possibilitado esta grande amizade? Seria este que depois “quinze anos eu faria àquele mesmo padre minha confissão geral, para ser recebido na Igreja que ele servia”. Em sua Autobiografia, Chesterton escreveu: “o padre O’Connor esteve realmente muito na origem da ideia que serviu de base e

ponto de partida para todas aquelas histórias: e, sobretudo, na base de outras coisas que tem muito peso.” Tudo se deu quando Chesterton e o padre encontraram dois estudantes de Cambridge “muito simpáticos e de boa aparência, que tinham ido de passeio, a pé ou de bicicleta, à maneira austera e vigorosa como os ingleses.” Os jovens começaram a discutir música e pintura paisagística com o Padre. Chesterton ficou admirado, pois “nunca conheci ninguém que pudesse saltar de um assunto com mais agilidade, que tivesse mais recurso, mais reservas imprevistas de conhecimentos...”. “A conversa ganhou logo profundidade no terreno da filosofia e da moral; e quando o padre saiu, os dois jovens deixaram explodir generosamente a sua admiração...”. Apesar de admirados, os jovens em seguida se questionaram entre si, apesar de toda aquela versatilidade, eles duvidavam que o pequeno padre com cara de gnomo, por estar “fechado numa espécie de claustro”,

Chesterton não suportava a prisão obscura em que o materialismo e o cientificismo aprisionavam o espírito. Não lhe fazia sentido que o mundo fosse desprovido de um sentido, que as coisas fossem fortuitas e um mero acaso In Guardia - Junho - 51


não conhecia o Mal verdadeiro que vai pelo mundo. Abalado com aquela afirmação dos dois jovens ficou Chesterton, a quem o padre havia contado algumas perversões da alma humana, e que ele apesar de sua juventude sombria guardava certa inocência. “Padre O’Connor me tinha posto em guarda, aqueles comentários caíram como uma ironia tão extraordinária, tão esmagadora, que eu tive de fazer um grande esforço para não me escangalhar a rir no meio da sala. Porque eu sabia muito bem que, quanto a todo aquele sórdido satanismo que o padre conhecia, e contra o qual passava a vida a lutar, os dois jovens de Cambridge (felizmente para eles) sabiam tanto como dois bebês no mesmo carrinho.” Depois deste episodio tragicômico, Chesterton criou o personagem Padre Brown que, justamente pelo fato de ser padre e conhecer a natureza humana saberia “muito mais a respeito do crime do que o próprio criminoso.” De fato, este será o segredo do Padre Brown - que depois seria revelado: era o de conhecer a natureza humana e ser um “homem, e, por isso mesmo, tenho todos os demônios do mundo no meu coração”. O primeiro conto publicado foi “A cruz azul” (1911), junto com outros contos no In Guardia - Junho - 52

livro “A inocência do Padre quele, a obra “Father Brown: on ChesterBrown”. Nesse conto, Ches- ton”, a quem dedicou a sua amiga Frances terton surpreendentemente Blogg, viúva de Chesterton. relata que o sacerdote-dete“Elas são maravilhosamente bem feitive desvenda o crime depois tas, e essa é minha sensação após uma sedo criminoso, Flambeau, ter gunda leitura. Inicialmente, eu achei seu atacado a razão. modo de expressão estranho - há frequenDale Ahlquist, presidente temente uma falta de doçura em seus noda American Chesterton So- mes próprios, e suas circunstâncias maciety, em sua resenha sobre o teriais são introduzidas de modo muito livro, diz que o Padre resolvia repentino tão logo eu pensava nelas, mas os crimes por dois motivos: agora eu estou menos obstinado.” “Em primeiro lugar, ele Outras aventuras do Padre Brown podia resolver os crimes por- foram escritas: “A sabedoria do padre que ele conseguia adentrar Brown” (1914); “A incredulidade do Panão apenas na mente do cri- dre Brown” (1926); “O segredo do Padre minoso, mas também em seu Brown” (1927) e “O Escândalo do padre coração. Em segundo lugar, os Brown” (1935). Poucos sabem disso, mas criminosos (e todas as outras um dos motivos para Chesterton escrever pessoas) não suspeitariam que essas aventuras era a dificuldade finanele suspeitasse delas porque ceira que a família passava. Quando os ele parecia tão comum e ingê- ‘Chestertons’ estavam sem dinheiro, a senuo. Em outras palavras, sua cretária da família, Dorothy, dizia: “só nos dupla força eram a sabedoria restam 100 libras no banco”, para o qual e a inocência.”Padre Brown Chesterton respondia: “Está bem, vamos se diferencia dos detetives C. escrever outra história do Padre Brown”. Auguste Dupin, de Allan Poe E ele o fazia na velocidade de um raio, a e Sherlock Holmes, de Arthur partir de umas poucas notas que escrevia Conan Doyle, Hercule Poi- num envelope e terminava um ou dois rot, de Agatha Christie, pelo dias depois.” simples fato de ele conhecer Grande marco imprimiu Chesterton na melhor do que os outros o co- literatura universal. Seu título de ‘Defensor ração humano. “Ele conhece Fidei’ oferecido pelo Papa Pio XI é o maior o mal. Conhece-o como um reconhecimento de que este homem gemistério, e como uma herança. Antes de neroso e humilde contribuiu devotamente perseguir ladrões e assassinamos cá fora, para o bem da Igreja e da humanidade. já os perseguira nas almas dos penitentes, e na sua própria”, já escreveu Gustavo CHESTERTON, G.K. Autobiografia. TraCorção. dução de Luís de Souza Costa. Lisboa: Diel, Ao longo dos contos, Chesterton apre- 2012 senta as características do Padre Brown: CHESTERTON, G.K. A Inocência do Pa“O pequenino Padre não era interessan- dre Brown. Beatriz Viégas-Faria (org). Porte de ser contemplado: tinha a cabeleira to Alegre: LPM, 2011. castanha arrepiada e o rosto arredondado e sem expressão,” era o “O padre Brown é o sacerdote “feioso padre de Cristo”; “silenciocatólico que através de so, era um homenzinho curiosarefinadas experiências mente simpático”. psicológicas fornecidas pelas Antônio Gramsci (1891 - 1937), confissões e pela trabalhada comunista italiano, escreveu certa casuística moral dos padres, vez uma de suas cartas na qual embora sem menosprezar a elogia o Padre Brown em compaciência e a experiência, mas ração com Sherlock Holmes: baseando-se especialmente na “O padre Brown é o sacerdote dedução e na introspecção.” católico que através de refinadas (Antônio Gramsci) experiências psicológicas fornecidas pelas confissões e pela trabalhada casuística moral dos padres, embora sem menosprezar a ciência e a experiência, mas baseando-se especialmente na dedução e na introspecção.” Em homenagem a Chesterton, Padre John O’Connor publicou em 1937, um ano depois da morte da-


Ivanaldo Santos

O futuro é de quem tiver filhos N

o dia 02 de maio de 2012, uma quarta-feira, a grande mídia no Brasil (jornais, TVs etc.) fez uma série de matérias apresentando, de forma otimista, os dados do senso realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), no ano 2000, sobre, entre outros temas, o crescimento e a natalidade do povo brasileiro. De acordo com o senso de 2000, a taxa de natalidade do povo brasileiro é de 1,9%, logo está abaixo da taxa de reposição da população, a qual deve variar entre 2,1% e 2,2%, ou seja, para que a população de um país ou região possa ser reposta, sem exatamente existir crescimento populacional é preciso que cada mulher tenha, em potencial, entre dois e três filhos. O problema é que o Brasil está atualmente abaixo da taxa de reposição. Se não houver nenhuma mudança e a taxa de natalidade do povo brasileiro continuar entre 1.9% e com índices até mesmo inferiores a essa taxa, esse fato trará, a médio e longo prazo, grandes problemas para o povo, a sociedade e o Estado brasileiro. Se esse índice de natalidade persistir – ou

até mesmo uma taxa inferior a 1,9% - o país viverá um processo crescente de envelhecimento da população e de diminuição do índice de população jovem, a chamada janela populacional. As consequências para esse fenômeno são terríveis. Inicialmente, a indústria e o mercado de trabalho terão dificuldades em contratar mão-de-obra, muitas escolas, universidades, centros sociais e culturais terão que fechar, pois faltará jovens para ocupá-los, o Estado terá sérias dificuldades para pagar a pensão e os gastos com saúde de uma população idosa que não para de crescer, os partidos políticos, sindicatos e outras organizações civis terão grandes dificuldades para conseguir militantes e eleitores, pois grande parte da população será idosa e, a princípio, não terá interesse por temas políticos ou semelhantes. O problema é se o envelhecimento da população brasileira e a taxa de crescimento de apenas 1,9%, ou um índice ainda menor, persistir. Se isso acontecer então o problema será pior. Ao invés de termos a janela populacional, ou seja, uma massa de

população jovem capaz de movimentar a economia, de criar novos produtos e coisas semelhantes, teremos o vazio demográfico ou o deserto populacional. Isso acontece quando a população de um país é tão envelhecida, com baixa taxa de natalidade, que as cidades começam a ficar desertas, com pouca ou quase nenhum morador. No deserto populacional, a população, por motivos pessoais ou ideológicos, não deseja mais ter filhos e seu patrimônio, quando da morte dos proprietários, fica para o Estado ou alguma entidade indicada pelos proprietários em testamento. O fato é que todo esse movimento gera cidades com poucos jovens, quase nenhuma criança, casas fechadas sem perspectivas de serem ocupadas, pois não há pessoas que queiram se casar e ter filhos, grave crise na economia e na democracia. Se as consequências de um crescimento populacional abaixo de 2,2% são tão ruins, então por que, no Brasil, a grande mídia apresentou a taxa de fecundidade de 1,9% de forma tão otimista? Essa é uma pergunta difícil de ser respondia, mas vaIn Guardia - Junho - 53


mos discutir o problema por meio de dois argumentos. Primeiro, no Brasil são praticamente desconhecidas às consequências negativas de uma taxa de crescimento populacional abaixo de 2,1% ou 2,2%. Muitos países da Europa (França, Inglaterra, Bélgica, Holanda etc.) e de outras regiões do mundo (Canadá, Japão etc.) passam hoje pelo preocupante processo de envelhecimento da população, com taxas de natalidade abaixo de 2,0%, e até mesmo do deserto populacional. Essas regiões do planeta já enfrentam problemas de contratação de mãode-obra, tendo que recorrer, na maioria das vezes, à mão-de-obra imigrante, para ocupar as vagas nas escolas, universidades e centros culturais, de falta de população para ocupar as casas e outros males causados pela redução da taxa de natalidade. O problema é que o Brasil e muitos outros países do terceiro mundo ainda olham para o chamado primeiro mundo com admiração e pensa que as políticas e ações que vem das regiões desenvolvidas são boas e devem, por conseguinte, serem copiadas. É claro que o mundo desenvolvido deu ao planeta grandes avanços técnicos e científicos, mas, no tocante à taxa de natalidade deu um péssimo exemplo. A postura de um país, como o Brasil, ao copiar a baixa taxa de natalidade, é errada, ingênua e preocupante. O Brasil poderá, em pouco tempo, viver os mesmos dramas vividos hoje pelos países desenvolvidos. Segundo, no Brasil há uma série de grupos que são dominados e orientados pela que se chama de revolução cultural, ideologia pós-cristã e cultura de morte. Entre esses grupos é possível citar, por exemplo, grande parte da mídia, setores das elites científicas e intelectuais, de grupos de feministas, de grupos que defendem o aborto, alguns astros da TV e do cinema. Desde o final da década de 1940 que a revolução cultural ou a ideologia pós-cristã faz muito sucesso nos países do primeiro mundo. É uma ideologia que prega abertamente o fim do casamento, visto, muitas vezes, como uma instituição machista superada, a não procriação ou então que as mulheres tenham apenas um filho, relações sexuais livres e sem vínculos familiares, o fim da família, a liberação e ampla prática do aborto e do homossexualismo. É um tipo de ideologia que, em última instância, incentiva, de forma exagerada, o individualismo e aos cidadãos não constituírem famílias e não terem filhos. Trata-se, por conseguinte, de uma ideologia que, ao invés de incentivar a natalidade e a vida, incentiva a morte. É a manifestação de uma cultura de morte. O problema é que essa cultura de morte foi apresenta a população jovem dos países desenvolvidos, entre as décadas de In Guardia - Junho - 54

1950 a 1980, como sendo uma cultura secular, leiga, não religiosa, moderna, revolucionária, libertadora e liberal. Desavisada a população desses países mergulharam, de coração aberto, na ideologia pós-cristã. A consequência desse mergulho é que hoje esses países amargam baixíssimas taxas de natalidade e precisam recorrer aos imigrantes para poder resolver seus problemas internos. Nesses países a janela populacional quase não existe mais. O problema é que o Brasil é o país que está sendo tardiamente alcançado pela revolução cultural e pela ideologia pós-cristã. Essa ideologia chega às terras brasileiras por meio de setores midiáticos, artísticos e intelectuais. São setores que desejam, a qualquer custo, serem reconhecidos como modernos e libertários. Por isso, abraçam, muitas vezes sem crítica, essa ideologia. Além disso, fazem dessa ideologia sua religião e passam a propagá-la em toda parte. Com isso, tornou-se frequente ver nos programas de TV artistas e intelectuais que

não se casaram, não tem filhos ou apenas um único filho, que criticam o casamento, fazem apologia de técnicas anti-natalidade como o aborto e o homossexualismo. O governo nacional faz constantes propagandas de como é bom ter apenas um filho. Todo esse testemunho anti-natalidade passa para a juventude com a imagem de moderno e liberal. Dessa forma o Brasil está trilhando, nas primeiras décadas do século XXI, o triste caminho que foi trilhado pelos países desenvolvidos. Dentro desse complexo movimento emerge uma questão, em uma sociedade marcada pela revolução cultural e pela cultura de morte, onde há tanto incentivo ao aborto e ao homossexualismo, como vai ficar a democracia? Essa pergunta é importante porque a democracia é fundada na maioria eleitoral e, por isso, está atrelada, de alguma forma, a taxa de natalidade. Na Europa e em outras regiões do planeta marcadas pela revolução cultural esse problema já é bem visível. Nessas loca-


lidades os grupos sociais que tem filhos, com uma taxa de natalidade de 2,2% ou superior, começam a ganhar sucessivas eleições. Geralmente são grupos não alinhados com a revolução cultural e a ideologia pós-cristã. Grupos que defendem a natalidade, a família, o casamento e outros valores considerados superados. Por causa disso, esses grupos são geralmente acusados de serem conservadores e atrasados, sofrem grande boicote da mídia e do Estado. Apesar de sofrerem tantas críticas e de boicotes, esses grupos estão ganhando sucessivas eleições. Por quê? Porque são os grupos que tem filhos e, por isso, possuem massa eleitoral. Os grupos ligados à revolução cultural, fiéis à ideologia do filho único, não conseguem ter massa eleitoral. Por causa disso a Europa e outras regiões do planeta, apesar de todo o problema do envelhecimento da população, lentamente passam por um processo de renúncia aos valores anti-natalidade pregados pela revolução cultural. Os grupos que têm

filhos estão conseguindo cadeiras no Parlamento, elegendo prefeitos e até mesmo presidentes e primeiros-ministros. Por conseguinte, a democracia está sendo a porta que os grupos que tem filhos encontraram para superar os impasses e entraves da cultua de morte. Diante desse fenômeno os grupos sociais ligados à revolução cultural têm dois caminhos: ou aceitam o jogo democrático e, com isso, respeitam a decisão que a maioria que vota tomou, ou seja, de rever os valores e padrões sociais impostos pela revolução cultural ou então acabam com a democracia e implantam, na sociedade, uma violenta ditatura que impeça que grupos sociais que têm filhos possam participar da vida social e política. O impasse está lançado. Em todo caso o futuro da democracia, da liberdade e dos valores fundamentais do Ocidente passam hoje pelos grupos que têm filhos, grupos sociais que tem uma taxa de natalidade de 2,2% ou superior. São es-

ses grupos que são e serão os responsáveis pelo crescimento econômico, pelas matrículas nas escolas e universidades, pelo avanço da técnica e da ciência, pela renovação da arte etc.. O futuro é de quem tiver filhos. O futuro está nas mãos dos grupos sociais que tiverem filhos. Não é por acaso que o grande grupo humano que assusta a Europa são os mulçumanos, pois esse grupo social chega ao espantoso índice de seis filhos por mulher. Enquanto isso a Europa, mergulhada na ideologia pós-cristã e na cultura neo-pagã, tem uma taxa de um filho para cada quatro mulheres. Com isso, não é exagero dizer que o futuro da Europa é o Islã, com toda sua cultura autoritária e tribal. Se a Europa e o Brasil não quiserem ser islamizados - ou coisa pior - terão que renegar a revolução cultural e voltar a defender a família, o casamento e a saldável cultura da natalidade. Ter filhos é a solução de muitos problemas econômicos, educacionais e culturais. Por isso não é absurdo dizer que o futuro é de quem tiver filhos. In Guardia - Junho - 55


Rafael Brodbeck

Carlos d’Áustria. Quem tem medo do beato? P

ressionado por Napoleão, o Imperador Francisco II de Habsburgo abdicou do trono do Sacro Império Romano Germânico, o que fez surgir os Estados alemães setentrionais independentes, logo reagrupados na Confederação do Reno e, mais tarde, no Império Alemão, o II Reich do Kaiser e de Bismarck. A Áustria, terra natal da Casa de Habsburgo, converteu-se, com o apoio do sul da Alemanha e das possessões italianas e balcânicas do antigo Sacro Império, na sucessora deste. O novel Império Austríaco erigia-se em continuador da história e das tradições daquele que o laicismo napoleônico pretendia destruir. Como do Império de Carlos Magno broto o de Otão I – governado, a partir de 1438, pelos austríacos Habsburgo –, do último, fragmentado, nasceu o que viria a encarnar, como os precedentes, os valores cristãos e humanistas, e, apesar dos percalços, dos absolutismos, e dos erros comuns a qualquer agrupamento social, o passado de glórias medievais. O Sacro Império e o Império Austríaco, ambos sob os Habsburgo, seriam símbolos da ordem celeste no campo secular. Exatamente por isso, as mesmas forças revolucionárias – Napoleão foi o responsável pela internacionalização do laicismo francês de 1789 – que destruíram o Sacro Império, mancomunaram-se, finda a I Grande Guerra, para a supressão do Império Austríaco, que lhe tomou o lugar. O ódio à Áustria tradicional era herdeiro da aversão ao I Reich inaugurado por Otão. Na realidade, o combate mais profundo se travava contra a Fé Católica, protegida primeiro pelo Sacro Império, depois, com a queda deste, pelo Austríaco. Aproveitaram-se os laicistas das culpas do governo (não do Estado) contra as minorias eslavas para decretar o fim de uma dinastia. Ressaltando o papel do último Imperador da Áustria, João Paulo II o beatificou em 2004. Carlos I de Habsburgo, católico fidelíssimo ao Papa, de vigorosa vida de oração e senso de apostolado, não só cultivou heroicamente as virtudes em um tempo dos mais confusos e decisivos para a Cristandade – em que ruíram, além do católico Império Austríaco, o protestante Império Alemão (sucessor da Alemanha desunida por ocasião da queda do Sacro Império), e o ortodoxo Império Russo dos czares –, como se impôs contra os desmandos e abusos de seus ministros. Estes, interessados em continuar a aliança com a Alemanha e a guerra contra o restante do Ocidente para alargar seu sufocante despotismo sobre a Europa, isolaram Carlos, seu

monarca, por influência de Bento XV, Papa da época, desejava cessar os combates. Percebeu o Imperador que os motivos da luta não eram justos e sua consciência cristã, formada aos pés do Santíssimo Sacramento, tencionou, de um modo que, ao mesmo, não sacrificasse sua soberania e fosse o mais prudente possível, acabar com a I Guerra Mundial. Na prática, os opositores, que ocupavam o governo de seu próprio país, o apeariam do trono, aliando-se aos liberais, que não toleravam uma Áustria sacral, pujante e militantemente católica. O fim do Império dos Habsburgo tornou-se, assim, um duro golpe nos direitos da Igreja e da paz, e um decisivo passo para, abatida a fiel casa dinástica, popularizar-se a cartilha iluminista na Europa do pós-guerra. Os que forçaram a queda do Sacro Império e explodiram a Áustria monárquica são hoje os adversários da futura canonização de Carlos I, inventando legendas negras e atribuindo-lhe a pecha de belicista, autoritário e culpado pela deflagração mundial. Nada mais equivocado – é o que afirmam historiadores sérios e descomprometidos com as ideologias da moda, como Giuseppe Dalla Torre, reitor da Universidade Maria Ssma. Assunta, de Roma, que atribui à opinião pública anticlerical a orquestração contra a santidade do Imperador: “uma opinião pública”, acrescenta, “que foi substancialmente a mesma que impediu Carlos de levar a cabo seus projetos de paz do exterior e de reformas dentro do império austro-húngaro, e que o conduziu à perda do trono.” (Zenit, 7/1/05) A oposição à beatificação de Carlos I é resultado do ódio à fé e à Europa profunda, da ação laicista e anticristã contra o Estado católico por excelência que era a Áustria, o qual é urgente que seja restaurado (pela evangelização da sociedade e recuperação dos valores próprios e naturais de seu povo). A santidade também pode ser alcançada pelos soberanos, e os Estados, se desejam representar, com legitimidade, as sociedades que neles se inserem, não devem se furtar à benéfica influência da fé popular. É a isso que os inimigos dos Habsburgo e do Beato Carlos, ontem como hoje, tanto se opõem.

“A oposição à beatificação de Carlos I é resultado do ódio à fé e à Europa...”

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Sexo, Amor, Pornografia A

sexualidade é um componente fundamental da personalidade, é um modo próprio do ser, de manifestar, expressar e comunicar o amor humano, tornando-se impossível desvincular a sexualidade do amor. “O amor abraça também o corpo humano e o corpo torna-se participante do amor espiritual”1, ou seja, o amor humano abrange a unidade corpóreo-espiritual, é total e integral. A prática sexual não pode ser reduzida a mero conhecimento intelectual ou vínculo afetivo, ela é também corporal. No livro do Genesis o autor relata que o homem e a mulher se conheceram, Adão conheceu Eva, sua esposa, este conhecimento tratase da condição humana integral do outro enquanto cônjuge. No ato sexual se reconhece o valor da pessoa em sua totalidade, corporal, emocional, racional e espiritual. Os corpos dos esposos na sua nudez manifestam-se como um dom2, do mesmo modo a complementariedade sexual, o impulso sexual físico e a gratificação imediata do mesmo. “Os corpos dos esposos na sua nudez é entendido como manifestação da pessoa e como o seu dom, ou seja sinal de confiança e de doação à outra pessoa...” 3. Desfrutar no matrimônio a vivência sexual não é pecado, desde que não se exclua dele deliberadamente o fim divino. A doação total dos esposos em todas as suas dimensões tem sua realização última na união sexual, proporcionando o conhecimento mútuo, alegria, compreensão, proximidade emocional, intimidade e prazer compartilhado. Sendo assim, é natural o desejo de uma vivência sexual plena e feliz no casamento. O problema é que a ignorância do verdadeiro significado do dom do corpo, acrescido da mentalidade de satisfação pessoal a todo custo, tem gerado sérios problemas

de ordem moral na vida conjugal. Em busca de uma realização sexual distorcida, o casal ou somente um dos cônjuges, é persuadido a usar de meios que ferem a dignidade humana. Práticas como assistir filmes pornográficos e o uso de vídeo ou chat de

O uso da pornografia, se não for combatido, leva à ruína a vida da alma e do amor conjugal, pois é uma inclinação ao mal, fruto do pecado original e dos pecados pessoais e, principalmente, é uma ofensa grave a Deus sexo online, estão induzindo casais ao erro com argumentos ilusórios de serem inofensivas e capazes de estimular e melhorar a vida sexual matrimonial. Porém, ao contrário do que se deseja, a mera relação sexual desvinculada do amor profundo, não só não aumenta o amor entre os envolvidos, como impede que se estabeleça uma relação efetivamente amorosa após a relação sexual

Karen Mortean

Um estudo publicado na revista Family Research Council, realizado por Patrick F. Fagan* descreve os efeitos sociais e psicológicos da pornografia 4, demonstrando o impacto do seu consumo no matrimônio. Ele faz referência às evidências clínicas, que demonstram como a pornografia distorce de modo significativo as atitudes e percepções sobre a natureza da sexualidade. As consequências negativas no matrimônio são inúmeras, gerando sofrimentos psicológicos profundos nas esposas de homens consumidores regulares de pornografia e estes, por sua vez, acabam por diminuir sua entrega emocional nas relações sexuais. Os danos psicológicos mais comuns nas esposas dos consumidores de pornografia são sensações de traição, perda e desconfiança, diminuição da auto-estima, perda da confiança do seu poder de atração e de seu desempenho sexual e em casos mais graves esses sofrimentos podem desencadear quadros depressivos. Já nos maridos consumidores de pornografia, os problemas mais comuns são diminuição do desejo por suas esposas, diminuição da

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com as pessoas no convívio social. Um outro estudo preliminar, revela que 40% dos viciados em sexo perdem suas esposas. Um levantamento de dados a partir de relatos de advogados de divórcio indicam que em 68% dos casos de divórcios ocasionados por uma das partes ter se envolvido em interesses amorosos na internet, em 56% dos casos este tinha um interesse obsessivo nas páginas pornográficas da web. Para agravar ainda mais a situação, semelhante estudo realizado por Fagan, revela que a pornografia exibe uma grande quantidade de conteúdo violento. “Um estudo dos diferentes meios pornográficos encontrou violência em quase 1/4 das cenas de revistas e mais de 1/4 nas cenas de vídeos, além de mais de 40% na pornografia online.”5 Os estudos sugerem que há uma conexão entre a exposição da pornografia e as agressões sexuais. O consumo de pornografia não-violenta, estimula o homem a perder com maior facilidade o auto-controle, ficando mais propício a forçar sua esposa a ter relações sexuais quando esta não consente. De modo geral, as distorções mais comuns criadas pela pornografia são três: 1. As relações sexuais na natureza são algo recreativo. 2. Os homens são em geral sexualmente dominantes. 3. As mulheres são objetos ou bens

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sexuais. Na relação sexual na qual o casal consente o uso de estímulo sexual fora da intimidade a dois, é uma união falsa. É um ato degradante que foge completamente do desejo do Criador, é incompatível com a dignidade de um filho de Deus. Outra prática ilusória e sem sentido, do verdadeiro significado da união sexual verdadeira é o hábito de imaginar que ao unir-se sexualmente com seu cônjuge, está possuindo outra pessoa. Alegar que um acordo entre as partes isenta o erro do uso da pornografia é uma mentira sem fundamento, consequência de uma mentalidade relativista. O uso da pornografia, se não for combatido, leva à ruína a vida da alma e do amor conjugal, pois é uma inclinação ao mal, fruto do pecado original e dos pecados pessoais e, principalmente, é uma ofensa grave a Deus. Reconhecer esta desordem interna deve primeiro nos impulsionar a rezar, pedindo a misericórdia de Deus que tudo perdoa e tudo pode mudar. Nesta luta contra os pecados internos é de fundamental importância, fazer uma boa confissão, recorrer frequentemente aos sacramentos, rezar as práticas de piedade mariana, apegar-se à oração e à mortificação. Exercitar a sinceridade diante de Deus e diante de si, e, se possível, procurar um diretor espiritual6. Na luta contra os maus hábitos cotidianos é necessário ter uma conversa sincera

com o cônjuge, conter a curiosidade, não assistir ou ler histórias sensuais, distrair-se com passeios, esforçar-se em fomentar o afeto entre o casal ( elogios, flores, carícias). A grande chave de ouro é reconhecerse humilde diante de Deus. A humildade que nos permite reconhecer nossas misérias sem desesperar por nossos erros6. “Porquanto, é esta a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos aparteis da luxúria, que cada qual saiba tratar sua própria esposa com santidade e respeito, sem se deixar levar pelas paixões, como os gentios que não conhecem a Deus”7. 1- Exortação Apostólica Familiaris Consórtio 2- Gen 2, 25 3- Papa João Paulo II. 4- The Effects of Pornography on Individuals, Marriage, Family and Community 5- http://www.zenit.org/article-24113?l=portuguese 6http://www.opusdei.org.br/art. php?p=48544&rs=m 7- 1 Tes 4,6 8- 270 perguntas e resposta sobre Sexo e Amor - Rafael Llano Cifuentes 9- Sereis uma só carne - Prof. Felipe Aquino 10- Amor e Casamento - Cormac Burke * Patrick F. Fagan, membro e diretor do Centro de Investigação sobre o Matrimônio e a Religião.


Top 10 Ecclesiae

1) Consagração à Nossa Senhora Autor: Pe. Paulo Ricardo Editora: Ecclesiae Neste DVD Duplo, o Pe. Paulo Ricardo fala da importância da consagração à Nossa Senhora, esclarecendo dúvidas comuns das pessoas a respeito do significado desse ato. Vários assuntos são abordados como: Maria no projeto de Deus, a verdadeira devoção à Virgem Maria, o que significa se consagrar à Nossa Senhora, preparação para consagração e vida do consagrado. É interessante que a pessoa que adquira os DVDs, tenha em mãos o Tratado da Verdadeira Devoção de São Luís Maria Grignion de Monfort, para acompanhar as explicações e meditar sobre as passagens citadas pelo Pe. Paulo Ricardo. Link: http://www.ecclesiae.com.br/ECCLESIAE/ Consagra%C3%A7%C3%A3o-a-Nossa-Senhora-Ecclesiae/flypage. tpl.html 2) Batismo Autor: Pe. Paulo Ricardo Editora: Ecclesiae Este é o primeiro DVD/MP3 da coleção sacramentos da Editora Ecclesiae. Por ser a primeira aula, o Pe. Paulo Ricardo faz uma introdução geral aos sacramentos na primeira parte, para em seguida, explicar o significado do Batismo para a Igreja Católica. O conteúdo é In Guardia - Junho - 59

muito interessante, para não dizer supreendente, apresentando dimensões deste sacramento um tanto esquecidas como o fato de que é um exorcismo, uma libertação do demônio. Também são abordados aspectos da prática do batismo, a respeito do quando é válido e de como deve ser realizado. Link: http://www.ecclesiae.com.br/Espiritualidade/BatismoCole%C3%A7%C3%A3o-Sacramentos/flypage.tpl.html 3) As Virtudes Morais Autor: São Tomás de Aquino Tradutores: Dr. Paulo Faitanin e Bernardo Veiga Editora: Ecclesiae Traduzido diretamente do Latim essa magna obra de Santo Tomás de Aquino traz algumas das Questões Disputadas a respeito das Virtudes (questões 1 e 5) que tratam fundamentalmente das virtudes em geral e também daquelas chamadas de cardeais: justiça, prudência, fortaleza (coragem) e temperança. Nelas estão os fundamentos da ética natural de Santo Tomás. Os tradutores são o Dr. Paulo Faitanin e Bernardo Veiga do Instituto Aquinate. Link: http://www.ecclesiae.com.br/Escol%C3%A1stica/As-Virtudes-Morais/flypage.tpl.html 4) O Inferno Autor: Monsenhor Louis Gaston de Ségur Tradução: Diogo Chiuso Editora: Ecclesiae “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento pleno da verdade.” (1 TM 2,3) Louis Gaston de Ségur nasceu em Paris a 15 de abril de 1820. Descendente de uma família nobre, era filho do marquês Eugène


de Ségur e da célebre condessa de Ségur, conhecida escritora de livros infantis. Zeloso nos estudos, logo que se formou em Direito foi enviado como adido à Embaixada Francesa em Roma, junto a Santa Sé (18421843). Perto dos Apóstolos Pedro e Paulo, sentiu o chamado para o sacerdócio, e, ao retornas a Paris, ingressou no Seminário de Santo Súplico, sendo ordenado sacerdote em dezembro de 1847. Dedicou-se a evangelização de crianças, pobres e soldados prisioneiros de guerra. Mas devido a um problema na visão que o levaria à cegueira, passou a ditar livros explicando – e defendendo com fervor – a doutrina católica em linguagem popular. Até o momento de sua morte, em 1881, seus livros somavam 700 mil cópias vendidas na França e na Bélgica, sem contar as edições em italiano, espanhol, alemão, inglês e até mesmo na língua hindu. O Inferno foi publicado em 1876, e a idéia inicial, segundo o autor, partiu do que dizia o Papa Pio IX: “nada é mais capaz de fazer os pobres pecadores refletirem e, conseqüentemente, fazê-los retornar a Deus, do que as verdades do inferno”. Para Ségur, “o grande missionário do céu é o inferno”, pois no momento em que alguém se dá conta de que se trata de algo real, não apenas um símbolo, passa a compreender perfeitamente que, como diz o salmista, “a sabedoria começa com o temor a Deus” (Sl 111,10). Enfim, o inferno realmente existe! Essa é a crença de todos os povos de todos os tempos. http://www.ecclesiae.com.br/Dem%C3%B4nio-e-Exorcismo/OInferno/flypage.tpl.html 5) Tratado da Verdadeira Devoção Autor: São Luís Maria Grignion de Monfort Editora: Arca de Maria Descrição: “Este é um livro precioso, escrito por um santo, meditado pelos santos, e que tem a bela missão de formar os santos de Deus.” Link: http://www.ecclesiae.com. br/Maria-Sant%C3%ADssima/ Tratado-da-VerdadeiraDevo%C3%A7%C3%A3o%C3%A0-Sant%C3%ADssimaVirgem-Maria/flypage.tpl.html 6) São Paulo: Catequeses Paulinas Autor: Bento XVI Editora: Ecclesiae Descrição: São Paulo é uma das figuras mais importantes do Cristianismo. Antes de sua conversão, Saulo de Tarso perseguiu fervorosamente os cristãos e colaborou com a morte de Estevão, o primeiro mártir da Igreja. Seu encontro com Jesus Ressuscitado na estrada de Damasco mudou a vida de Paulo, a Igreja Cristã e os rumos da história. Na Igreja primitiva, foi ele quem percebeu

a natureza universal da mensagem cristã e por isso se tornou o Apóstolo dos Gentios e Doutor das Nações. Como autor de metade dos livros do Novo Testamento, São Paulo é uma figura que não pode ser ignorada por quem pretende entender Jesus Cristo e o Cristianismo. “O apóstolo Paulo, figura excelsa e quase inimitável, mas de qualquer maneira estimulante, está diante de nós como exemplo de total dedicação ao senhor e à sua igreja, bem como se grande abertura à humanidade e às suas culturas” (Bento XVI) http://www.ecclesiae.com.br/CRISTIANISMO/S%C3%A3o-PauloCatequeses-Paulinas/flypage.tpl.html 7) YouCat: Catecismo Jovem da Igreja Católica Editora: Paulus Chamado também de Youcat (abreviação de Youth Catechism), o Catecismo Jovem da Igreja Católica chega às mãos dos leitores brasileiros. A obra tem a mesma proposta do “Catecismo da Igreja Católica”, sendo a linguagem e o projeto gráfico seu maior diferencial. Estruturado em perguntas e respostas, o livro é dividido em quatro partes (“Em que Cremos”, “Como Celebramos?”, “A Vida em Cristo” e “Como Devemos Orar”) e foi desenvolvido por um número considerável de padres, teólogos e professores de religião para apresentar a mensagem e a doutrina da Igreja em linguagem jovem e acessível. O Youcat vem atender a vontade dos muitos jovens que, inspirados e entusiasmados pela dinâmica das Jornadas Mundiais da Juventude, pediram um Catecismo que lhes falasse diretamente. http://www.ecclesiae.com.br/Catecismos/Youcat-CatecismoJovem-da-Igreja-Cat%C3%B3lica/flypage.tpl.html 8) Autobiografia Autor: São Gregório de Nazianzo Tradutor: Diogo Chiuso Editora: Ecclesiae http://www.ecclesiae.com.br/ECCLESIAE/AutobiografiaS%C3%A3o-Greg%C3%B3rio-de-Nazianzo/flypage.tpl.html 9) Todos os Caminhos vão dar a Roma Autor: Scott Hahn Editora: Diel (Portugal) http://www.ecclesiae.com.br/Apolog%C3%A9tica/Todos-osCaminhos-V%C3%A3o-Dar-a-Roma/flypage.tpl.html 10) A Psicologia do Sentido da Vida Autor: Dra. Izar Aparecida Xausa Editora: VIDE Editorial http://www.ecclesiae.com.br/Logoterapia/A-Psicologia-do-Sentido-da-Vida/flypage.tpl.html?keyword=A+psicologia+do+sentido +da+vida In Guardia - Junho - 60


http://www.inguardia.blogspot.com

Indicaçþes e dicas www.salvemaliturgia.com

www.paraclitus.com.br http://www.reinodemaria.com/

http://www.movimentoliturgico.com.br http://www.http://sociedadecatolica.com.br

http://www.reinodavirgem.com.br/

http://www.chestertonbrasil.org

http://www.vatican.va/phome_po.htm

http://www.zelusdomustuae.com

http://www.gazetadopovo.com.br/blog/tubodeensaio

http://blogdoemanueljr.blogspot.com

Revista In Guardia.6ª Edição  

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