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Sumário

Ano I, nº 05, Abril de 2012 Revista Bimestral Edição: Emanuel de Oliveira Costa Jr. Diagramação Renan da Silva Cunha Revisão Silvia Elisabeth Design e Logos: Ellen Jordana Portilho Mendes Colaboradores Colunistas dessa Edição: Ana Maria Bueno Cunha Bruno de Castro Carlos Ramalhete Diego Silva Evelyn Mayer de Alemeida Ives Gandra Igson Mendes da Silva Ian Farias Jorge Ferraz Kairo Neves Lizandra Danielle Márcio Antônio Campos Pe. Inácio José do Vale Pedro Brasilino Prof Ivanaldo Pe. Mateus Maria Rafael Brodbeck Rafael de Mesquita Diehl

Contato:

revistainguardia@gmail.com

Sessão Carta do Leitor

Opiniões, sugestões ou comentários podem ser encaminhados para www.binguardia.blogspot. com ou para o e-mail: revistainguardia@gmail. com. Os artigos aqui publicados podem ser reproduzidos desde que citada a fonte.

Página no Facebook https://www.facebook.com/InGuardia Os artigos dessa revista poderão ser reproduzidos desde que se indicada a fonte. O conteúdo das matérias assinadas é da responsabilidade dos respectivos autores. Essa revista tem o cunho essencialmente católico apostólico romano, não devendo ser entendido sob outro prisma ou filosofia. 02 - Ed. 5 - 2012

Apresentação - 03 Nossa Equipe - 04 Nossa Capa - 06 Os 12 apóstolos Teologia da Cruz com Pedro Brasilino - 07 A cruz sagrada seja minha luz Santa Páscoa com Paulo Cremoneze - 08 A esperança nascida da Santa Páscoa Fé e conversão com Igson Mendes - 10 As três vias e as três conversões\ Fé e vida pública com Jorge Ferraz - 11 Fé: virtude pública Ateísmo militante com Evelyn Almeida - 14 A angústia do professor frente ao ateísmo militante Entrevista In Guardia - 15 Nivaldo Cordeiro Cristianismo e democracia com Ivanaldo Santos - 17 O cristianismo e a morte da democracia Obama e Catolicismo com Bruno de Castro - 19 A afronta de Obama à liberdade religiosa americana Preconceito e racismo com Ives Gandra - 20 Ocê é branco? Que pena, hein! O catecismo com Carlos Ramalhete - 21 O Catecismo da Igreja Católica Entrevista In Guardia - 23 Dom Keller Pense como os Santos - 27 Santa Catarina de Sena Homilia do Papa - 28 Discurso de Paulo VI Seitas com Pe Inácio do Vale - 30 Seita: uma grande mentira Igreja e testemunho com Rafael Brodbeck - 32 A Igreja não é refúgio de Carolas Igreja na Idade Média com Rafael de Mesquita - 34 Igreja e Cultura Chesterton e economia com Diego Silva - 36 Chesterbelloc e o distributismo Santa Páscoa com Pe Mateus Maria - 38 Em preparação para a Santa Páscoa Ciência e Fé com Márcio Campos - 41 Latidos de Buldogue São Padre Pio com Lizandra Danielle - 43 Estigmatizado no sec XX Liturgia com Kairo Neves - 45 Ofício das trevas Apóstolos com Ana Maria Cunha - 48 São João Cristologia com Ian Farias - 50 O amor serviçal de Cristo


Apresentação Nesta edição, não diferente das demais, tivemos um empenho especial, embora um tanto diferente. Obviamente que estaremos focando a semana santa com textos de estudo do Ofício das Trevas, liturgia um pouco esquecida por nossas Dioceses e paróquias; falaremos um pouco sobre cada celebração desse tríduo pascal e estaremos refletindo sobre o Apóstolo João, o mais amado por Cristo. Trataremos também de temas polêmicos como o artigo do Dr. Ives Gandra Martins sobre um tipo de discriminação crescente nos dias atuais: a do homem branco de classe média e católico. Evelyn Mayer falará sobre a angústia do professor religioso/ católico e consciente frente um ateísmo militante e cada vez mais impositivo nas escolas públicas e também particulares. Partindo para um panorama internacional Bruno de Castro traçará um panorama sobre as eleições nos EUA e sobre um candidato considerado de extrema direita: Rick Santorum. É bom entender um pouco o que se passa por lá e o que isso tem a ver com nossa religião católica. A Revista traz ainda outras novidades: Começamos por anunciar que um novo colunista estará conosco a partir dessa edição. Trata-se de Paulo Henrique Cremoneze, jurista e católico fervoroso, muito tem a nos ensinar nesse nosso pequeno, mas proveitoso convívio de leitura.

Outra novidade é a inserção de duas colunas de entrevista. Uma se dirigirá sempre a temas políticos de atualidade e se chamará Exclusiva Política. A outra se dedicará a uma franca conversa com alguns clérigos que, falarão sobre as questões relativas à Igreja, os problemas por ela enfrentados na atualidade, mas também sobre os frutos que dela emanam, de um jeito que todo leigo sempre quis ser respondido, será a Exclusiva. Nessa edição temos a satisfação de fazer a Exclusiva Política com José Nivaldo Cordeiro, que é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), hoje empresário em São Paulo. José Nivaldo Cordeiro sabe discutir e tem desenvoltura para abordar diversos temas dentro da política nacional. Uma entrevista imperdível. Na Exclusiva temos a honra de trazer aos nossos leitores: Dom Antônio Carlos Rossi Keller, mais conhecido como Dom Keller, Bispo da Diocese de Frederico Westphalen-RS. Uma bela entrevista na qual o Bispo fala de rito extraordinário (missa tridentina) aborto, homossexualismo, política e outros tantos temas. Assim sendo, aguardamos sua leitura, críticas e sugestões para sempre estar fazendo da Revista In Guardia uma revista de qualidade, gratuita e online cada vez melhor. Boa leitura! Pág. 3 - Ed. 5 - 2012


Nossa Equipe

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Emanuel de Oliveira Costa Jr. - Editor Católico, casado, coordenador do Grupo de Coroinhas e Acólitos da Paróquia do Imaculado Coração de Maria em Goiânia/GO, advogado militante, professor, autor de artigos científicos publicados em revistas impressas e virtuais. Mantém o Blog do Emanuel Jr: www.blogdoemanueljr.blogspot.com Twitter: http://twitter. com/emanuelocjr Facebook: Emanuel Jr.

Rafael Vitola Brodbeck - Colunista Católico, casado, é Delegado de Polícia em Sta Vitória do Palmar, RS, coordena o site “Salvem a Liturgia”. Colunista da “Catequese Litúrgica”, na revista mensal “O Mensageiro de Santo Antônio”, dos Frades Menores Conventuais, membro da Sociedade Internacional Santo Tomás de Aquino (SITA/ Roma), e da Academia Marial de Aparecida. É incorporado ao Regnum Christi (1998). Palestrante de Liturgia e doutrina. rafael@salvemaliturgia.com Twitter: http://twitter. com/rafael_brodbeck Márcio Antônio Campos - Colunista Católico, formado em Jornalismo pela USP e passou pelo Curso Estado de Jornalismo. Jornalista do Jornal Gazeta do Povo. Desde setembro de 2010 é editor de Economia da Gazeta do Povo, e também mantém o blog Tubo de Ensaio, sobre ciência e religião. Kairo Rosa Neves de Oliveira - Colunista Católico, solteiro, estudante universitário, cursa Engenharia Civil na UNESP de Ilha Solteira - SP. Colaborador do site “Salvem a Liturgia”, na coluna de paramentos litúrgicos e dando dicas para solenizar a celebração. Atua no site Movimento Liturgico, responde dúvidas litúrgicas. Mantém, ainda, um blog de imagens litúrgicas, o Zelus. E-mail: kairo@salvemaliturgia.com

Evelyn Mayer de Almeida Colunista Uma filha de Deus, católica, esposa e mãe desejosa em cumprir a doce missão que o Senhor a deu. Professora de Língua Portuguesa, é também dona do blog Fazei o que Ele vos disser e colaboradora do site Rainha dos Apóstolos. Já foi coordenadora da Missão Kerigma Christi. Interessa por Filosofia, Educação, Política e Humanidades. Twitter: @evelynsmalmeida Facebook: Evelyn Mayer de Almeida Ives Gandra da Silva Martins Colunista. Católico. Dispensa maiores apresentações. Ganhador de diversos prêmios, professor em diversas faculdades. Professor Emérito e honoris causa em várias universidades. Doctor Honoris Causa da Universidade de Craiova – Romênia. Um dos mais conceituados tributaristas brasileiros. Supernumerário da Opus Dei. Colar de mérito judiciário em diversos Tribunais do país, bem como medalhas e comendas de mérito cultural. Pedro Brasilino Peres Netto Colunista Solteiro, Católico, estudante de Biomedicina na Universidade Federal de Goiás - UFG, coordenar da Pastoral da Juventude na Paróquia do Imaculado Coração de Maria em Goiânia. Facebook: Pedro Brasilino. Lenise Garcia - Colunista Católica, graduada em Farmácia e Bioquímica pela Universidade de São Paulo, mestrada em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo e doutorada em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo. Atualmente é professora adjunta da Universidade de Brasília, no departamento de Biologia Celular. Numerária do Opus Dei. Presidente do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida – Brasil Sem Aborto


Nossa Equipe

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Pe. Inácio José do Vale - Colunista É sacerdote católico e Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo em Resende/RJ, é especialista em Ciência Social da religião pesquisador de seitas e conferencista, é Professor de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia de Volta Redonda/RJ. E-mail: pe.inaciojose.osbm@hotmail.com Rafael de Mesquita Diehl - Colunista Historiador e Professor formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atualmente mestrando em História na mesma instituição. Estuda História Medieval e participa dos apostolados virtuais Reino da Virgem Mãe de Deus (www.reinodavirgem.com.br) e Salvem a Liturgia! (www.salvemaliturgia.com). Também é catequista e ministra formações na área de História da Igreja e Arte sacra. Carlos Ramalhete— Colunista Casado, pai de dois filhos adolescentes, e licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Petrópolis. Trabalha como professor de filosofia e sociologia, além de manter uma coluna no jornal Gazeta do Povo (Curitiba) e o apostolado A Hora de São Jerônimo, o apostolado de apologética católica mais antigo da internet brasileira (www.hsjonline.com). Bruno Dornelles de Castro - Colunista Católico, solteiro, formado em Direito. Dá formações de Doutrina Social da Igreja. Mantém um blog onde escreve sobre política e filosofia (brunodornellesdecastro. blogspot.com). É incorporado ao Regnum Christi. Facebook: Bruno Dornelles de Castro

Ivanaldo Santos - Colunista. Ivanaldo Santos é filósofo, doutor em estudos da linguagem, professor do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERN. Possui vários livros publicados, entre os quais destacamse: Teologia da Libertação: ensaios e reflexões e Linguagem e epistemologia em Tomás de Aquino. E-mail: ivanaldosantos@yahoo.com.br. Karen Mortean - Colunista Esposa, mãe, enfermeira, especializada na área da educação, instrutora do Método Billings da Ovulação p e lo WOOMB/Cenplafam-BR. Igson Mendes da Silva - Colunista Leigo Católico, Solteiro, Analista de Sistemas do Tribunal de Contas do Amazonas, graduando em Teologia, membro da Paróquia de Santa Luzia, palestrante sobre doutrina, ética aplicada aos meios de comunicações sociais; formador, colabora com movimentos eclesiais ligados a Igreja Católica, Dirige o Apostolado Spiritus Paraclitus que se dedica em promover a fé católica. E-mail: igson. mendes@gmail.com Silvia Elizabeth - Revisora Formada em Letras pela Universidade Estadual de Londrina e aluna de Especialização em Literatura Brasileira pela mesma Universidade. Atualmente trabalha no site Christo Nihil Praeponere como redatora e presta serviços para a Editora Ecclesiae como revisora.

Lizandra Danielle Araújo da Silva - Colunista. Católica, solteira, estudante de Controle Ambiental Renan da Silva Cunha no Instituto Federal de Diagramador Goiás. Coroinha há 6 anos Graduando do 3 º ano de Jornalismo na Paróquia do Imaculado pela Universidade Estadual de Coração de Maria em GoiLondrina ânia. Twitter: _lizdaniele

Ian Farias de Carvalho Almeida - Colunista Solteiro, católico, Seminarista do Seminário Papa João Paulo II, Diocese de Jequié-BA, cursa Filosofia na Instituto de Teologia de Ilhéus. http://beinbetter.wordpress.com/ ou : http://www. reflexoesfranciscanas.com.br/ Twitter: @ianfariasca Skype: ianfarias


Nossa Capa

Os 12 apóstolos

Nossa edição está sendo publicada em plena segunda-feira santa, o que significa que nada melhor para ilustrar nossa capa que Cristo e aqueles que conviveram com Ele participando, inclusive, de um momento crucial para nossa Igreja: a instituição da Eucaristia. Interessante fazer uma breve reflexão do que foram os 12 apóstolos e o que são os seus sucessores nos dias atuais, afinal, os apóstolos constam no nome “oficial” da Igreja: Igreja Católica Apostólica Romana. Jesus Cristo escolheu homens simples e que fizeram parte da sociedade da sua época. Não escolheu tão somente doutores, muito menos homens que se dedicavam ao pecado de forma extremada. Apenas homens, homens de seu tempo, homens médios. Escolheu 12, um número emblemático até para os da época já que os discípulos de qualquer mestre não passavam de um ou dois, no máximo três, mas isso já era um exagero. Como um homem se digna a ter 12 discípulos? Os 12, sabemos hoje, foi uma vontade clara de Deus de demonstrar a totalidade do povo. As doze tribos de Israel formavam a totalidade do povo de Israel (Gn 35, 22-26). O número dos eleitos era 144 mil, sendo doze mil de cada uma das tribos de Israel (Ap.7,4-8). O ano é formado

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por 12 meses e assim por diante. Jesus escolheu os 12 justamente para fazer essa referência à totalidade do povo. Nada mais claro. É claro também que cada apóstolo tinha um defeito, um pecado. Pedro negou Cristo três vezes. Tomé era muito cético. Mateus um cobrador de impostos, pecador e espécie de sanguessuga da época. Judas Iscariotes fez o que fez e por aí podemos caminhar. Os seus sucessores não seriam diferentes. Hoje temos Bispos de todos os jeitos, com todos os defeitos e até traidores. Jesus, ao escolher os apóstolos, criou em um microambiente o que aconteceria no macroambiente. Todos somos pecadores, mas todos devemos respeitar os que estão acima hierarquicamente. Não compactue com os erros, denuncie-os de forma correta, mas respeite a posição dos sucessores dos apóstolos. Assim somos nós, os católicos. Todos somos pecadores, inclusive os apóstolos e seus sucessores, a grande vantagem está em superar esse estado de pecado; em ser mais forte; em fazer como Pedro que negou Cristo, mas se arrependeu e confessou aos seus irmãos apóstolos (Bispos), que tinham o poder de perdoar os pecados. Que sejamos assim e não como Judas Iscariotes que igualmente pecou, mas não se arrependeu e fez uma enorme besteira suicidando-se. Conclui-se, então, que a Igreja fundada por Cristo tem de ser uma Igreja apostólica, ou seja, tem de possuir os poderes espirituais que Cristo confiou aos seus Apóstolos; tem de ensinar todas as verdades que os Apóstolos pregaram. Historicamente, só existe uma Igreja dotada de todas as credenciais necessárias para garantir-lhe a apostolicidade: a Igreja Católica Apostólica Romana.


Coluna - Pedro Brasilino

A Cruz sagrada seja minha Luz "Crux Sacra Sit Mihi Lux" Recordando da oração de são Bento, um dos pedidos é que a Cruz de Jesus Cristo nos ilumine. Um dos maiores símbolos do Cristianismo é a Cruz. Contudo, antes de Jesus e, também alguns anos depois d’Ele, a Cruz teve significado e função de morte. Em Jesus Cristo a Cruz toma novo e eterno significado, pois, realizouse nela a remissão da humanidade. Por essa razão, a Cruz para os cristãos é um símbolo de vida eterna. Essa significação vem desde os primeiros cristãos, que fizeram com que permanecesse viva nesse símbolo a realização do maior ato do Amor de Deus por meio de seu Filho Amado. O tempo litúrgico da Quaresma é um momento que convida à reflexão. Jesus Cristo, consciente e amorosamente, transformou um instrumento de morte e tortura em instrumento de salvação. Por isso, a doutrina da Igreja traz o mistério da Cruz como um caminho de esperança. O caminho da Cruz deve nos encher de esperança, uma vez que com Cristo vencemos a morte e, também, com Ele queremos nos encontrar ressuscitados. Contudo, num tempo difícil para que os cristãos possam mostrar abertamente seus símbolos e que, concomitantemente, os órgãos públicos pretendem retirar os crucifixos de seus espaços a Igreja convida, ou melhor, convoca seus jovens a carregarem sem medo a Cruz e a peregrinar por todo o mundo. Convoca, assim, aos jovens a darem testemunho do Amor de Jesus Cristo que remiu o mundo. O Beato João Paulo ainda no início de seu pontificado no ano de 1983 estabeleceu o ano como Ano Santo da Redenção e com o lema: “Abri as portas ao Redentor”. O símbolo desse evento deveria ser uma grande cruz, e que pudesse ser vista de longe. Assim, o símbolo foi confeccionado com 3,8 metros de altura e ficando conhecida com Cruz do Jubileu ou Cruz do Ano Santo. Ao lado da Basílica de São Pedro há um Centro da Juventude, chamado São Lourenço, que o próprio Beato João Paulo II criou para acolher os jovens peregrinos que visitavam Roma, ou mesmo outros jovens que precisassem de ajuda. Foi nessa ocasião que o Papa confiou a Cruz do Ano Santo aos jovens. O Papa se dirigiu aos jovens com essas palavras: “Meus queridos jovens, ao concluir este Ano Santo, confio-vos o símbolo deste Ano Jubilar: a Cruz de Cristo! Levai-a pelo mundo fora como um símbolo do amor de Cristo pela humanidade, e anunciai a todos que só na morte e ressurreição de Cristo é que poderemos encontrar salvação e redenção” (Roma, 22 Abril 1984). Os jovens responderam ao apelo do Santo Padre. Levaram a Cruz para o Centro Juvenil de São Lourenço ao lado da Praça de S. Pedro o qual seria a sua residência permanente quando não estivesse em peregrinação pelo mundo. A primeira peregrinação da Cruz do Ano Santo (como era então conhecida) foi em julho a Munique, na Alemanha, para o “Katholikentag” (Dias Católicos). Era apenas uma simples cruz de madeira, portanto, inicialmente, as pessoas não a viam como algo de especial. Aos poucos, foram percebendo que ela se encontrava lá no cumprimento de uma

missão por vontade expressa do Santo Padre. Na Celebração Eucarística final no Estádio da cidade com 120 mil pessoas presentes, encontrava-se ao lado do altar para que todos a vissem. Em 1985, tinha sido proclamado Ano Internacional dos Jovens pelas Nações Unidas. João Paulo II disse que a ONU proclamou o Ano da Juventude, mas, de fato, quem o realizou foi a Igreja. No domingo de Ramos desse ano, 300 mil jovens reuniram-se com o Papa, na praça de São Pedro, em Roma, e lá estava a Cruz dos Jovens. No final desse Ano Internacional da Juventude, o Papa anunciou que iria realizar anualmente em Dia Mundial da Juventude sempre no Domingo de Ramos. Contudo, foi mesmo em Buenos Aires que em abril de 1987 realizou-se o primeiro desses eventos realmente internacionais, ou seja, fora da Europa. Em 1991, a Cruz acompanhou os jovens até a Jornada Mundial da Juventude que nesse ano se realizou na Czestechowa, na Polônia. De novo o Santo Padre chamou a atenção dos jovens para a Cruz: “Nesta nossa vigília, a Cruz está presente entre nós. Vocês trouxeram para cá esta cruz e colocaram-na aqui no centro da nossa assembleia… A Cruz, símbolo do amor inefável de Deus, sinal que revela que ‘Deus é amor’”. Em agosto de 2011, a grande Cruz da Juventude, após percorrer as dioceses da Espanha e Portugal, esteve em Madri para a abertura da 24ª JMJ que se realizou de 16 a 21 de agosto. E então, agora chega a vez do Brasil para receber e levar em peregrinação por suas (arqui)diocese a Cruz da JMJ até o dia da Jornada Mundial da Juventude em 2013 – na cidade no Rio de Janeiro. Algumas nações visitadas pela Cruz do Dia Mundial da Juventude entre 1984 e 2011: Argentina, Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Bósnia Herzegovina, Canadá, Checoslováquia (Rep. Checa e Eslováquia), Coréia, Croácia, Dinamarca, Escócia, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos da América, Filipinas, França, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Lituânia, Luxemburgo, Malta, México, Mônaco, Noruega, Polônia, Portugal, Reunião (Oceano Indico), Romênia, Suécia, Suíça, Tchetchênia. Um dos jovens do Canadá quis dizer, OU DISSE? isto: “Esta Cruz tem exercido um impacto tremendo sobre todas as nações onde ela tem estado. Para mim, isto se evidenciou no decorrer das cerimônias nas quais recebemos a Cruz dos Italianos. Estavam extremamente emocionados, chorando lágrimas de profunda tristeza porque não se queriam separar dela. Por outro lado, nós chorávamos lágrimas de alegria por estarmos a receber um símbolo poderoso que iria ter impacto sobre a nossa nação.” “Ave Crux, spes unica ! Te prestamos continência, Ó Santa Cruz ! Trazes-nos Aquele que, em Jerusalém há vinte séculos passados, foi aclamado por outros jovens e outra multidão: Bendito é o que vem em nome do Senhor… Bendito sejas Tu, Ò Cristo, porque também vens ao nosso encontro com a tua mensagem de amor e vida. Bendita é a tua Cruz Santa da qual provém a salvação do Mundo ontem, hoje e para sempre. Ave Crux !” São Bento, rogai por nós! Beato João Paulo II, rogai por nós! Pág 7 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Paulo Cremoneze

A Esperança nascida da Santa Páscoa Considerando a PROXIMIDADE da SEMANA SANTA e da festa da PÁSCOA, entendo conveniente tratar do assunto, enfatizando a força da esperança e o fim da quaresma. A Páscoa vai além da esperança, pois traduz uma certeza: Cristo ressuscitou e venceu a morte. Mas há na Páscoa também a presença da esperança. Ouso dizer que a Páscoa, a festa mais importante da Cristandade, é a esperança concretizada, a esperança materializada. Páscoa é acima de tudo vitória! E a vitória é aquilo que motiva a esperança. Por isso, homenageando todos meus amigos, resolvi tratar novamente sobre a força da esperança, ligando-a a Páscoa. Pois bem: A civilização ocidental, por conta de suas tradições de fé, preponderantemente construídas em meio a uma cultura hebraico-cristã, tem na esperança, ladeada pela fé e pelo amor, importante virtude cardeal. Longe de ser um fator de alienação, a esperança é aquilo que essencialmente move, impulsiona e motiva o ser – humano, mesmo que inconscientemente. Toda grande conquista humana foi imantada pela esperança. A esperança não aliena, não tolhe, não põe o homem em estado de letargia, aguardando benefícios de ordem sobrenatural. Não, pelo contrário. A esperança, quando fundada em Deus, é o elemento psíquico-espiritual que multiplica as forças humanas em prol da conquista de objetivos diversos, todos com as faces voltadas para o Bem. Tão importante é a esperança que, depois de tratar do amor de Deus na sua primeira encíclica, o Papa Bento XVI dedicou fascinante estudo e exortação a respeito dela na sua segunda encíclica, fortalecendo a fé de milhões de pessoas em todo o mundo. Não só a Igreja Católica, mas as religiões sérias e comprometidas com o bem dos seus fiéis têm na esperança um dos seus esteios doutrinais. A história mostra quão importante é a esperança para o homem. A esperança, co-irmã da fé, foi o que motivou e uniu o povo Pág 8 - Ed. 5 - 2012

de Israel em torno de um objetivo comum. A esperança fortaleceu a fé do povo em Deus e na santa aliança, fazendo-o aguentar os sofrimentos da fuga do Egito, a perambulação pelo deserto e as agruras até a conquista da terra prometida. Foi a esperança que fez com que esse corajoso e destemido povo aguentasse ao longo de sua história, incluindo a recente, as mais atrozes e covardes perseguições, nela inserido o abominável e inesquecível holocausto, flagelo da humanidade. Para os irmãos judeus, a esperança sempre foi a confiança inabalável em Deus, o único Deus, o Deus de Israel. Em cores menos dramáticas, mas igualmente comoventes, a esperança se fez presente nos milhões de imigrantes europeus, antepassados de muitos de nós outros, que vieram às Américas, especialmente Estados Unidos, Argentina e Brasil, com vistas a um futuro melhor. Tudo aguentarem e suportaram confiantes numa vida melhor, mais próspera e mais digna. Ah, doce e bela esperança, presente de Deus aos homens, que vive e reina nos nossos corações, nos nossos sonhos mais íntimos e nas nossas mais grandiosas aspirações, sejam elas coletivas ou individuais. Diz a sabedoria popular, nunca desprezível, que a “esperança é a última que morre”. E é verdade, pois enquanto houver esperança, haverá forças para lutar, para acreditar, para transformar uma situação adversa em positiva. E a PÁSCOA é um tempo forte para se acalentar a esperança e nutri-la com tudo aquilo que o engenho humano é capaz. Em verdade, a esperança, liturgicamente falando, é vivida e experimentada pela Igreja ao longo das semanas que formam o tempo comum, o período mais longo, sob o manto da cor verde. Mas, como mencionado, a festa da Páscoa, a glória das glórias, tem na esperança uma de suas personagens principais. Porém, a consistência da esperança depende da razão de quem a alimenta.


Tudo o que ocorreu ao longo do ano anterior e que separa uma festa da Páscoa de outra deve ser pensado e meditado, erros e acertos, momentos difíceis e momentos felizes, para que uma nova postura de vida seja edificada aos olhos da fé e da razão, elementos inseparáveis daqueles que aspiram à Sabedoria, fonte de vida e vida digna, em abundância. Por isso, ouso deixar um recado aos amigos: mais importante do que as comemorações, o espírito de esperança, informado pela reflexão de vida, é o que deve ser efetivamente abraçado na FESTA DA PÁSCOA e, em especial, antes dela durante o tríduo Pascal, pois é isso que fará a diferença na vida, sendo todo o resto bom e agradável, mas inegavelmente periférico. Vale lembrar o exemplo dos DISCÍPULOS DE EMAÚS. Eles, após a morte do Senhor, perderam a esperança e no caminho de Jerusalém a Emaús lamentavam dolorosamente. Eis que o próprio Senhor se põe em meio deles e começa a conversar sobre as Sagradas Escrituras mostrando que a paixão e morte do Messias eram necessárias para a manifestação da glória de Deus por meio da ressurreição. Os discípulos começam a receber uma poderosa injeção de ânimo e quando próximos de sua casa dizem ao caminhante que até então não reconheceram como Jesus: FICA CONOSCO, SENHOR. Essa bela frase deve ser repetida por nós outros todos os dias FICA CONOSCO, SENHOR. Aí Jesus aceita o convite e parte o pão, fazendo com que os discípulos O reconhecessem. A cegueira causada pela falta de esperança é deixada de lado e a luz volta aos corações deles. A esperança foi recuperada e eles retornam imediatamente a Jerusalém para comunicar que o SENHOR ESTAVA VIVO. A recuperação da esperança, em última instância, é a recuperação da vida. E, claro, o mesmo conceito vale, com mais razão, para os festejos da Páscoa. Tempo especial, a Páscoa, ao menos para o universo cristão, não pode ser perigosamente reduzida a uma festa bonita, um evento transmissor de mensagens boas e positivas como paz e alegria. Pior do que isso é diminuir o santificado signo da Páscoa a apenas uma festividade, esquadrinhada por valores que mais lembram o antigo paganismo do que o princípio fundamental que é o próprio Cristo Jesus. Infelizmente, o mundo contemporâneo, dominado e contaminado pelos muitos “ismos” (hedonismo, egoísmo, individualismo, consumismo etc.), não mais compreende e vive o verdadeiro espírito da Páscoa, porque em nome sabe-se lá de quais interesses resolveu mutilar o conteúdo da data santa, praticamente sepultando de seu derradeiro sentido. A Páscoa foi transformada numa festa rica em adornos, enfeites e comes e bebes, mas vazia em significado e importância. De forma inacreditável e ao mesmo tempo absurda, a imagem do menino-Deus que nasce para a salvação dos homens é substituída por outras, despidas de substancial importância e apenas voltadas ao consumismo desavergonhado, como o coelhinho e os ovos de chocolate. Maior festa da Cristandade, a Páscoa significa, acima de tudo, a esperança de uma vida redimida, abençoada, repleta da graça de Deus. Celebrar a Páscoa é colocar-se em oração, prestar reverência a Deus e louvar todo o Seu amor pelos homens, a ponto de fazer-se também homem. Lembrar que a GLÓRIA DA RESSURREIÇÃO PASSA PELO PATÍBULO ANGUSTIANTE E DOLOROSO DA CRUZ.

Páscoa é, em poucas palavras, o magnífico mistério de fé do Deus que se fez homem na pessoa do menino Jesus e depois se deixou morrer na cruz para nossa salvação. É o Verbo Divino transformado em carne, para ensinar aos homens como agir com o coração de Deus e esse coração manso e humilde aceita as bofetadas do mundo, o desprezo, o flagelo, a cruz, tudo por amor, tudo, absolutamente tudo por amor. Evidentemente que só a fé é capaz de explicar esse profundo mistério, naturalmente assombroso, de um Deus que por excesso de amor, renega num dado momento da história da salvação sua condição divina e se faz homem para o bem e a salvação de todos. A natureza hipostática de Deus, revelada em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é algo que não pode ser esquecido jamais, sobretudo na Páscoa, tradicionalmente considerado tempo forte no mundo da fé. Essa é a verdadeira, única mensagem da Páscoa: o amor de Deus pelo homem! Festas, presentes, ovos de chocolate, união de familiares e amigos, votos de paz e de felicidade, enfim, todos os símbolos secundários e encantos das festas em geral e da própria Páscoa, são bons e agradáveis, mas tornam-se estéreis e sem sentido se o foco de tudo não for exatamente a crença, a consciência e a celebração do Deus que se fez homem por amor ao homem, morreu porque quis na cruz e ressuscitou mostrando a via da vida eterna. A cruz e não qualquer outra coisa é que deve centrar e reinar absoluta na Páscoa. A consciência de ser amado por Deus e de saber que Deus se importa com cada pessoa, a ponto de fazer-se homem, enviando ao mundo seu Filho amado, é o alimento da autêntica esperança e esta mesma esperança, por sua vez, num ciclo místico e eterno, é o substancial alimento de nossas vidas. Por isso, desejamos aos amigos todos, santa e abençoada PÁSCOA, abençoado em todos os sentidos, tendo-se por cerne a SANTA CRUZ DO SENHOR, digna de adoração, porque ela está intimamente ligada ao Senhor da esperança, do amor, da luz e da paz. Que o santo exemplo da Sagrada Família, Jesus, Maria e José, inspire constantemente nossas vidas e derrame o amor de Deus sobre nossas famílias, para que todos sejam sempre abençoados e felizes, fortes nos momentos de tribulação e gratos e humildes nos momentos de consolação, prosperidade e alegria. ÓTIMA SEMANA SANTA E FELIZ PÁSCOA…. CRISTO, NOSSA PÁSCOA RESSUSCITOU, ALELUIA…

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Coluna - Igson Mendes da Silva

As três vias e as três conversões Escrito pelo Padre Garrigou Lagrange “As 3 vias e as três conversões” faz parte do rol de livros que relatam sobre a relação com Nosso Senhor. Escrito de forma acessível o livro poderá ser mais bem compreendido se houver a leitura anterior da obra “Perfection chrétienne et contemplation” (Liguge, 1923) pois ambos seguem os princípios de São João da Cruz: amar a Deus e ao teu próximo como a ti mesmo . Além dos mistérios da fé e da Santíssima Trindade. Dividido em três capítulos que explicam cada conversão e suas peculiaridades. O autor fala sobre os três estados da vida do espírito e que cada conversão é o início de cada uma delas. O primeiro capítulo explica o valor da primeira conversão, sendo este momento uma graça divina, mas, posteriormente, necessárias as outras fases de conversão para o amadurecimento na vida do espírito. Posteriormente, o autor apresenta as características de cada fase de conversão. A segunda conversão, chamada de a entrada na via iluminativa, segue-se ao renascimento que faz surgir um novo homem. Segundo São João da Cruz, a segunda conversão é um momento de purificação dos sentidos, assim como a terceira conversão também, porém de forma mais profunda a fim de atingir a vida unitiva com Deus e a transformação da alma. Vale ressaltar que o capítulo IV do livro na edição trabalhada foi omitido, pois é de cunho teológico profundo e com linguagem não acessível a todos, contudo o capítulo V aborda o tema do capítulo que foi suprimido. Santo Tomás (II-II, q.24/a.9) propõe uma analogia entre as três conversões e as três idades da vida corporal, são elas a infância, adolescência e a idade adulta. No primeiro momento, na infância ainda somos totalmente dependentes de nossos pais, comparando-se com a primeira conversão como uma graça divina em que Deus nos ama primeiro e esse amor é que converte. Entretanto o autor nos exorta de que é necessário um amadurecimento para não haver o retrocesso. “Aqui fica claríssima a analogia com a vida espiritual: veremos que o iniciante que não progride como deveria vira-se para o mal ou permanece com a alma retardada, amortecida, como um anão espiritual” p. 37. A segunda conversão, segundo Santa Catarina Sena, é um momento de amadurecimento no qual tomamos consciência da nossa miséria e das nossas imperfeições. Esse momento é necessário para tomarmos consciência de nossos erros, reconhecê-los e de decidirmos caminhar no caminho reto. Este que Pág 10 - Ed. 5 - 2012

é estreito e que não devemos nos desviar nem para a esquerda, nem para a direita. Servimos a Deus procurando o caminho estreito e reto, o largo é para qualquer um. Contudo, o amadurecimento, a conversão necessita de um auxílio, pois sozinhos não somos nada. A terceira conversão é justamente o momento de purificação, posterior a ciência de suas faltas. O momento de inteira comunhão com Jesus. “Vimos que a transformação dos Apóstolos, no dia de Pentecostes representou para eles como uma terceira conversão. Na vida do Cristão deve haver algo semelhante, para que ele passe da idade dos avançados à dos perfeitos”p. 65. Todos são chamados a conversão em busca de viver uma vida unitiva com Deus. O livro é uma ótima indicação para quem deseja aprofundar seus estudos acerca de uma vida mística, de forma acessível, mas não superficial, pois explica cada conversão, suas peculiaridades com embasamento teológico e apoiado por diversos pensadores da Igreja Católica a fim de nos auxiliar e nos chamarmos a uma vida em comunhão com os mistérios da fé. O processo de conversão é como uma forma de crescimento que passa por fases até chegar à fase da perfeição, este tem o pensamento sempre em Deus e não vive o para si, de forma egoísta. A fase da perfeição é o buscar amar a Deus em toda sua plenitude, como afirma São Tomás “(...) Aderindo a Ele, fruindo d’Ele. E isto é próprio dos perfeitos, que desejam partir para estar sempre com Cristo.” Assim, o amor a Deus em sua plenitude e a vontade de viver em Cristo não é algo que acontece de forma instantânea, mas passa por um processo de conversão demorado que leva uma longa jornada de experiências e decisões baseadas no amor a Deus e o anular-se e entregar-se integralmente a Cristo. O livro é um chamado a santidade e a busca por uma vida em comunhão profunda com Deus. Reflexões de santos místicos como Santa Catarina Sena e São João da Cruz são bastantes presentes nas páginas a fim da busca da maturidade espiritual. Uma leitura agradável que explica de forma clara e contundente acerca do crescimento espiritual, indicada a todos os que se interessem em aprofundar seus conhecimentos acerca das experiências místicas. Há quem possa achar fanatismo ou um grau inalcançável o processo das três conversões em busca de uma vida cristã plena, contudo não se pode esquecer que fomos batizados e que temos um grande auxiliador, que mantém a chama de Deus viva em nós, o Espírito Santo.


Coluna - Jorge Ferraz

Fé: virtude pública Negar aos católicos o exercício público de sua Fé equivale a negar-lhes o próprio direito de ter Fé Já passou a primeira leva de ataque dos anti-clericais modernos à Igreja de Nosso Senhor. A tentativa de se provar racionalmente a falsidade da Fé foi vergonhosamente malograda por (pelo menos) dois grandes motivos. O primeiro deles é que a Fé é uma virtude racional; como dois milênios de Cristianismo demonstram de maneira inequívoca, todos os cristãos (de todos os tempos e de todas as classes sociais) sempre estiveram perfeitamente convictos da harmoniosa complementaridade entre Fé e Razão, estas que são - nas palavras do Bem-Aventurado João Paulo II - “as duas asas com as quais o espírito humano se eleva à contemplação da Verdade” (Fides et Ratio). O segundo motivo é que os “argumentos” com os quais os anti-clericais pretendiam acabar com a religião têm a curiosa e divertida característica de serem perfeitamente aplicáveis aos próprio anti-clericais. A existência de Deus não pode ser empiricamente demonstrada? Tampouco a Sua inexistência. Não existe nenhuma evidência científica conclusiva a favor de Deus? Tampouco há conclusividade contra Ele. Se a afirmação definitiva de que Deus existe não é suportada pelas “provas científicas” das quais dispomos, tampouco o é a declaração peremptória de que Ele não existe. E assim, feridos de morte por seu próprio veneno, os inimigos de Deus foram obrigados a

aceitar que esta querela, em última instância, leva no máximo a um empate técnico. [Claro, isto dentro dos pressupostos adotados pelos anticlericais que não são, absolutamente, os mesmos adotados pelos cristãos. Enquanto os primeiros têm a obrigação moral de, por coerência, ater-se àquilo que é de ordem sensível e passível de experimentação em laboratório, à falseabilidade popperiana etc., os cristãos podem tranquilamente recorrer à argumentação metafísica e, por meio dela, demonstrar a existência de Deus. O fato de os modernos materialistas não aceitarem argumentos metafísicos não depõe contra a metafísica mais do que um aluno da oitava série não aceitar que “0,999... = 1” depõe contra a convergência das séries geométricas.] Incapazes, assim, de vencerem o Cristianismo no âmbito dos princípios, tentaram lançar-se contra ele na esfera das realidades práticas. Passaram a dizer que até aceitam que cada um acredite naquilo que bem entender, contanto que esta pessoa tenha consciência de que a sua Fé é algo subjetivo e individual que, portanto, não é admissível haver manifestações públicas destas crenças. E, principalmente, é inadmissível que a religião interfira, de qualquer maneira, na organização civil da vida em sociedade. Em uma palavra, permitem alegremente que sejamos cristãos contanto que Ateus fazem provocações aos católicos durante JMJ 2011 nos comportemos bem nas novas Catacumbas Sociais onde querem nos confinar. Ora, tal pretensão é impossível, é irrazoável e equivale, na prática, a negar aos cristãos o direito mesmo de serem cristãos. Senão vejamos: é natural que as pessoas ajam de acordo com um conjunto de valores que tomam por verdadeiros. Assim, uma pessoa defende - p.ex. - o direito ao sufrágio universal porque está imbuída de luminosos princípios igualitários a lhe dizerem que todas as pessoas - ou, melhor dizendo, todos os cidadãos - são absolutamente iguais e que, por isso, todos têm o inalienável direito (quiçá um sagrado dever) de contribuírem equitativamente no processo de escolha do Chefe de Estado. Não faria nenhum sentido Pág 11 - Ed. 5 - 2012


- e isto qualquer pessoa é capaz de reconhecer - dizer a estes cidadãos iluminados que eles podem perfeitamente acreditar no igualitarismo político que desejarem, contanto que se abstenham de toda ação política motivada por estes seus ideais (chamemo-los assim) democráticos. De fato, seria impossível que as coisas acontecessem desta maneira; se os valores nos quais as pessoas acreditam não guiassem as suas ações, eles não seriam verdadeiros valores. Afinal de contas, o que pretendem os anti-clericais? Que as pessoas tenham valores pelos quais não se pautem? Tal pretensão não faz o menor sentido. Se as pessoas não agissem em conformidade com os valores que possuem, elas agiriam de acordo com o quê? Separar as coisas nas quais as pessoas acreditam da maneira segundo a qual elas agem pode ser uma coisa muito bonita no mundo de faz-de-conta de quem está acostumado a confundir os próprios modelos reducionistas com as realidades por eles modeladas; mas no dia-a-dia concreto que nós temos diante dos nossos olhos é uma ideia totalmente impossível e sem o menor cabimento. Aliás, exigir tão estranho comportamento somente dos cristãos seria - se fosse possível - uma coisa totalmente irrazoável e injusta. Os valores morais de um homem são, como já apontamos, os princípios que lhe oferecem os indicativos de como agir ou deixar de agir de acordo com cada situação concreta perante a qual se encontre. Para efeitos de compreensão moderna de princípios: “todo poder emana do povo” é no mínimo equivalente a “todo poder vem de Deus”, e achar que o Estado deve privilegiar igualmente uma união sexual-afetiva formada por duas pessoas do mesmo sexo e o casamento entre um homem e uma mulher tem pelo menos o mesmo valor de acreditar que o Sagrado Matrimônio merece uma especial proteção dos poderes públicos. É (no mínimo) uma tremenda incoerência afirmar que os primeiros podem ser publicamente defendidos e os últimos não. Ora, se é bastante óbvio - para voltar ao nosso exemplo anterior - que os valores democráticos de um conjunto de pessoas vão necessariamente condicionar a sua

atuação política na sociedade, por qual motivo causa estranheza que os valores morais de um outro conjunto de pessoas vá influenciar a sua maneira de se comportar na política? Por que os primeiros deveriam ser incentivados e, os segundos, tolhidos? Na verdade, trata-se tão somente de um grande preconceito, de uma arbitrária censura prévia, de uma mal disfarçada ditadura. Diz-se (sem o dizer explicitamente) que alguns princípios merecem cidadania e outros não; afirma-se (sem o afirmar com todas as letras) que algumas ideias têm voz na política e outras devem ser silenciadas. Preconceito, sim, na conotação mais negativa que a palavra tem, uma vez que esta atitude promove uma discriminação totalmente injusta e arbitrária entre os valores que podem nortear a vida política e aqueles aos quais não é concedido semelhante direito. Afirmar que valores religiosos não podem ser defendidos em público pelo simples fato de serem religiosos (independente de serem coerentes e razoáveis, ou dos argumentos de ordem natural apresentados em seu favor) é simplesmente um preconceito estúpido, uma discriminação sem sentido que não deveria encontrar guarida em uma democracia e, não obstante, é com frequência apresentada como se fosse um dos pré-requisitos para a manutenção do Estado Democrático de Direito. Censura prévia, sim, porque categorizar os argumentos entre “laicos” e “religiosos” e definir a priori que os religiosos não têm lugar no debate público é proibi-los previamente de serem empregados na vida política de um país, de serem apresentados e avaliados não de acordo com a sua (alegada) origem, e sim com a força da sua coerência e razoabilidade. É das formas mais arbitrárias de censura, porque sequer investiga o conteúdo do discurso (como faziam os antigos censores que, ao menos, davam-se ao trabalho de ler o texto original na íntegra): censura-se em bloco,

Categorizar os argumentos entre “laicos” e “religiosos” e definir a priori que os religiosos não têm lugar no debate público é proibi-los previamente de serem empregados na vida política de um país, de serem apresentados e avaliados não de acordo com a sua (alegada) origem, e sim com a força da sua coerência e razoabilidade

Mulher fala contra o aborto no Senado brasileiro

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automaticamente, até o dia de Sua volta gloriosa. É parte indissociável do Cristiaindependente do nismo a crença de que existe uma ordem no Universo, de tal conteúdo. É uma maneira que todas as instâncias inferiores (das leis da matéria das mais estranhas bruta à ordem social que rege os indivíduos e suas relações em incoerências dos sociedade) precisam se integrar harmonicamente à Ordem Sutempos modernos perior, à ratio divina que é a razão de ser de tudo o que existe haver, lado a lado, e o fim último ao qual todas as coisas devem estar ordenadas. um desejo quase lú- Saber que é imperativo agir visando a esta harmonia é parte brico por “liberdade constitutiva da Fé, sem a qual ela não é verdadeira Fé. de expressão” e, ao Todos os cristãos sabem, portanto, que o Estado não é uma mesmo tempo, o coisa autossuficiente, e que as relações entre os diversos cibanimento de edi- dadãos não podem ser arbitrária e ilimitadamente definidas fícios intelectuais pelo simples consenso entre os (supostos) detentores do pointeiros do cenário der civil. Todos os cristãos sabem que existem intransponíveis político por meio de limites morais, dentro dos quais - e somente dentro dos quais um simples rótulo - as autoridades públicas legítimas mantém a sua legitimidade. (tornado) odioso Todos os cristãos sabem que as leis positivas humanas não poque lhes é lançado dem contradizer a Lei Natural, e que tudo isto independe comna fachada: “esta pletamente das questões referentes à (inegável) liberdade que Provocação de gays durante a JMJ 2011 posição é religiosa! cada ser humano possui para abraçar a Fé cristã, a fé ateia ou O Estado é Laico!” qualquer outra. Se ele não sabe disso - ou se ele por princípio Ora, isto não é um argumento. É, ao contrário, a recusa por não age de acordo com isso - então ele não tem Fé. Se o Estado princípio à argumentação. É coisa da qual se envergonhar, e o impede de acreditar nisso, então o Estado o impede de ser não a enaltecer. É atraso e não progresso. cristão. Nesta matéria, negar aos católicos o exercício público E ditadura, sim, porque uma das formas mais cômodas de da Fé é o perfeito equivalente de negar-lhes o direito de ter subjugar um povo (e uma das características mais universais Fé, uma vez que a Doutrina Católica inclui diretrizes muito clade qualquer ditadura na história) é a imposição de um con- ras de comportamento público que devem ser abraçadas por junto único de crenças e valores, unida à proscrição das ma- quem quer ser católico. E a Fé Católica sem um pedaço dela nifestações culturais destoantes. Impedir um povo de pensar deixa de ser Fé Católica. para além dos limites estabelecidos pelos detentores do poder As exigências dos “livres-pensadores” modernos são, poré uma eficiente maneira de se perpetuar no poder. A partir do tanto, impossíveis; se fossem possíveis, seria injusto impô-las momento em que os responsáveis pela vida em sociedade exi- de modo arbitrário apenas sobre um subconjunto da populalam (arbitrária e incoerentemente) as opiniões contraditórias e ção. E, ainda que tais exigências fossem possíveis e justas, elas produzem uma artificial hegemonia de pensamento - nascida equivaleriam a negar aos homens o direito de abraçarem a Fé não de um verdadeiro consenso entre as forças políticas do Católica. Donde sobressaem com clareza as razões pelas quais país, mas do simples banimento das posições dissonantes -, es- é urgente defender em público a Doutrina da Igreja, a despeito tão a se portar como déspotas e não como legítimos responsá- do que esbravejem os inimigos do gênero humano! A ninguém veis pela custódia do bem comum. São verdadeiros ditadores, é permitido furtar-se a tão grave dever. Se você julga ser possíainda que se apresentem com aparências de legalidade. vel separar a sua Fé interior da sua atuação na sociedade, tome Ainda, por fim, que não houvesse arbitrariedade nestas cuidado. Provavelmente você já perdeu a Fé e não sabe. atitudes; ainda que fosse possível aos homens conservarem para si Passeata contra o aborto reúne milhares de pessoas próprios um conjunto de valores nos Estados Unidos sem pautar por eles a sua vida pública, e ainda que houvesse algum sentido em exigir semelhante comportamento só de um conjunto de cidadãos e não de outros; ainda que as coisas fossem assim, tal medida seria equivalente a invadir o interior dos homens e deturpar-lhes a Fé. Tal medida violaria a liberdade de abraçar a Fé Cristã com toda a radicalidade que ela exige e sem a qual não se pode chamar de Fé Verdadeira. Tal medida significaria a proibição da Fé. Porque faz parte da Fé Cristã a consciência de que todos são filhos de um mesmo Deus que é Senhor de todas as coisas, e que colocou os homens neste mundo para que o guardassem em conformidade com os Seus desígnios Pág 13 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Evelyn Mayer de Almeida

A angústia do professor frente ao ateísmo militante Nos dias atuais, encontramos uma sociedade em que os valores estão em constante transformação. Levados pelo pensamento Marxista e Niilista, os homens e as mulheres de nossos dias não sabem mais distinguir o certo do errado. Entenderam – após diversas vezes terem ouvido que a verdade é relativa – que a verdade é apenas um ponto de vista; afirmar que a verdade existe e que se chama Cristo Jesus é ser arbitrário com a própria verdade. Quando o homem se esquiva da verdade, passa a nascer nele o desejo de ocupar o lugar de Deus. E, ocupando o lugar que é de Deus por direito, o homem se perde em seus devaneios, confunde-se em suas vaidades e esquece que ele mesmo não é o centro do Universo. Precisamente a partir daí é que as coisas começam a desandar... No universo escolar, esta realidade é perceptível e da vivência diária entre professores e alunos. Permeados pelo imediatismo, os alunos não suportam um pensamento que lhes oriente ao silêncio, à paciência e a oração; eles precisam de algo “pra ontem”. Ofuscados pela vida frenética dos pais, os alunos cobram do professor a atenção perdida em casa; sobem em carteiras, não fazem as atividades, xingam os mestres, batem nos colegas... tudo para ter a atenção que não têm em casa. Neste ínterim, o professor se vê angustiado, às vezes, até mesmo d e s e s p e ra do, pois, não reconhece em seus alunos o aluno que ele mesmo foi; não entende como um aluno de hoje pode

ser tão desrespeitoso se comparado ao aluno de ontem. Nota que os alunos não têm estímulo para as atividades, sentem-se pesados com a quantidade de atividades a fazer, dentro ou fora da escola; não conseguem se comunicar sem ser aos berros. Tanta ociosidade, melancolia e anarquia em um só ser! Além desta avaliação sobre o seu aluno, outro fator que o professor encontra que dificulta seu processo de ensinoaprendizado é a ausência de Deus que seus alunos demonstram. Debocham quando falam sobre Ele, mal sabem o que será comemorado na Páscoa que se aproxima. Se perguntado se rezam em casa, respondem que mal conversam, quiçá rezar. Como agir em uma realidade destas? Como não sucumbir a fé nestas condições? Penso que, primeiramente, o professor deve ter em mente que seu trabalho é uma vocação. Ele não está ali apenas para ganhar dinheiro, mas para dar àquela criança a liberdade emocional e interacional de que precisa. E esta liberdade só será possível se este professor compreender que liberdade é viver conforme a vontade de Deus. Por mais que o aluno seja de uma escola pública e que impere lá o pensamento laicista atual, aquele professor não precisa viver desta forma. Basta agir com clareza, mostrando ao seu aluno que é possível ser inteligente e cristão ao mesmo tempo. Também é importante que este professor testemunhe com sua vida as maravilhas que é pertencer a Deus. Suas atitudes, vestimentas, sua postura frente à vida contarão e muito para despertar do aluno aquilo que maldosamente lhe tiraram. No entanto, para que tudo isso ocorra, o professor precisa lembrar-se que sem oração é impossível agir conforme a vontade de Deus e vencer os paradigmas de nosso tempo. Com orações diárias, ele saberá entregar ao Senhor sua inteligência, conseguirá agir com sabedoria e obterá todo o entendimento necessário para todas as situações.

O professor precisa lembrar-se que sem oração é impossível agir conforme a vontade de Deus e vencer os paradigmas de nosso tempo. Com orações diárias, ele saberá entregar ao Senhor sua inteligência, conseguirá agir com sabedoria e obterá todo o entendimento necessário para todas as situações

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Em Cristo, Evelyn.


Entrevista In Guardia - Nivaldo Cordeiro

In Guardia: Sobre a prefeitura de São Paulo, o Sr. considera que Haddad pode ser o túmulo do PT naquela cidade ou será, na verdade a salvação da colheita? A manutenção da candidatura do Haddad é bastante irracional por parte do PT. É neófito e desconhecido. Seu nome é puro capricho de Lula, em caciquismo arrogante, comparável ao que fez com Dilma Rousseff. Acontece que o eleitorado de São Paulo é outro, muito pouco atraído pelo discurso de Lula. Para complicar, Lula está muito doente e talvez não venha a participar de forma ativa da campanha. Um nome como o de Marta Suplicy seria mais natural e mais competitivo. Fernando Haddad poderá sequer ir ao segundo turno. In Guardia: A seu ver, qual o impacto que a posição abortista e pró-kit-gay pode ter na candidatura de Haddad? Essas duas abominações cortaram os laços do PT e do candidato com os conservadores. Aqui não há o que consertar. Não há como negar que o candidato defende convictamente essas coisas abjetas. Certamente contribuirão para a sua derrota, se seu nome for mantido. In Guardia: José Serra concorrendo com Haddad pode ser visto como um rebaixamento na carreira política de Serra? De forma alguma. Bem vimos como José Serra relutou em assumir a candidatura, que é natural e forte e capaz de unir o PSDB e seus aliados. Penso que o “sim” de José Serra foi um gesto de grandeza, de estadista. O Brasil precisava de um nome forte para impedir a eventual vitória do PT em São Paulo, fato que alimentaria enormemente suas pretensões hegemônicas. José Serra fez a escolha certa, pensado menos em si e mais no Brasil. In Guardia: Muitos comentam que Serra costuma deixar seus mandatos de lado sempre que uma nova eleição aponta. Se Serra chegar a ganhar em São Paulo, qual a possibilidade de ele querer sair para uma nova disputa presidencial? Essa possibilidade existe? Essa é uma falsa questão, de cunho meramente eleitoral. O político tem que tomar decisões de acordo com a conjuntura. Vimos que Serra não queria ser candidato e acabou sendo, pois a realidade o exigiu. É preciso esperar o tempo de decisão de candidaturas para ver se ele continua, ou não, prefeito, se eventualmente for eleito. Ficar ou não ficar é questão menor, para isso existem os vices.

In Guardia: Em sua opinião o que Serra ainda tem a dar para São Paulo? Sim. Além de acumular larga experiência política e administrativa José Serra é o único nome capaz de unir a oposição contra o PT e marchar para a vitória. In Guardia: Saindo um pouco do âmbito local da disputa em São Paulo, vamos ao âmbito federal. Porque Dilma tem tanta dificuldade em manter seus “aliados” dentro do cabresto como o PT gostaria? O PT tomou todas a lições de história que pode, especialmente estudou o governo de João Goulart, evitando os erros cometidos. Tomou decisões lentas, para não assustar os brasileiros nas suas inovações, sempre à esquerda. E construiu um arco de aliança que lhe deu maioria no parlamento. Esta maioria é vital para a manutenção do poder, como vimos com a saída de Collor de Mello. Este caiu porque não se articulou no Parlamento e apenas por isso. Então essa maioria garante a manutenção do poder e as decisões que dependem do Congresso Nacional. Mas não garante todas as decisões, como vimos na derrota da CPMF e do terceiro mandato de Lula, que sequer foi apresentado em face da derrota certa. As esquerdas aprenderam a não espantar a caça. In Guardia: Aécio Neves parece estar usando um tom mais firme quanto a falta de posicionamento federalista do governo

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Federal. Essa concentração de poder vem acontecendo por um desenvolvimento histórico natural ou provocado? E se provocado, por quais interesses? Aécio fez esse discurso em artigo pensando mais em obter facilidade fiscal para Minas Gerais do que mesmo por uma convicção federalista. O artigo publicado na Folha de São Paulo decepciona por isso, por não ser uma expressão de convicção íntima, mas um mero artifício para obter facilidades. In Guardia: Temos um emaranhado de partidos no Brasil que mais parece uma massa de bolo, ou seja, em concreto são coisas diferentes, mas o objetivo quando misturados é o mesmo, o bolo (busca do esquerdismo socialista). A que o Sr. atribui o Brasil ter, nos dias atuais, apenas partidos com ideologia de esquerda? Os diferentes e numerosos partidos existem como sublegendas e do que poderíamos chamar de Partidão. Todos herdeiros do antigo PCB. A direita sumiu por força da revolução gramsciana, que está em pleno curso e no seu auge entre nós. A esquerda tem articulações internacionais (a revolução gramsciana é mundial), que lhe dá suporte, enquanto a direita não tem um centro aliado no exterior. Os EUA e a Europa são centros de irradiação do esquerdismo. A eventual vitória do Partido Republicano pode significar a recriação do apoio internacional perdido pela direita. A propaganda maciça da esquerda estigmatizou as teses da direita, a ponto de direitistas notórios renegarem suas convicções. In Guardia: A Igreja Católica dá especial atenção a temas como o aborto. Os atos do governo federal vislumbram certa obsessão pela legalização dessa prática criminosa. É assim que o Sr. também vê? Sim. A Igreja Católica, assim como as denominações protestantes, têm seus princípios desde sempre e esse é um ponto inflexível. Já o PT está engajado com a revolução cultural, que tem nesse tema uma de suas teses mais firmes. Obviamente há aqui uma incompatibilidade abissal. O Sr. considera que o caminho para a legalização do aborto no Brasil é o que vem sendo trilhado? É só questão de tempo? A esquerda revolucionária está tentando de todas as formas moldar o sistema jurídico às suas teses. A questão do aborto só não foi instituída por causa da forte reação das igrejas de denominação cristã. Aqui é o divisor de águas e penso que as esquerdas serão derrotadas todas as vezes que tentarem. Da mesma forma, outro tema que é perseguido pela esquerda, especialmente o PT, é a questão homossexual. O que o Sr. pensa sobre os projetos de lei que querem criar o crime chamado homofobia? Um evidente absurdo. Não se pode submeter a maioria aos preconceitos da minoria.

In Guardia: A aprovação dessa lei tem reflexo político? Não creio que será aprovada, mas se, hipoteticamente o for, irá por na clandestinidade os padres e pastores e os bons cristãos. Seria um absurdo atroz. Em um artigo de sua autoria publicado no site “Mídia sem máscara”, intitulado “ A direita e o conservadorismo”, o Sr. argumenta que a esquerda pretende um mundo melhor através do aperfeiçoamento da alma humana. Isso não seria algo bom e instigante para nossa busca? A esquerda conquista o poder com esse discurso de aperfeiçoar o mundo e a alma humana. Mas é uma evidente mentira. A alma é sempre a mesma e a perfectibilização do mundo é aventura grotesca, incapaz de se manter. In Guardia: Diametralmente oposto a isso, a Direita parecer saber que tornar a alma humana mais perfeita é algo muito difícil e tem consciência disso. O meio escolhido pela esquerda para tornar essa tarefa possível é sempre uma revolução, seja cultural, seja armada. As armadas causaram o caos na ex-URSS, China, Cuba e outros. A revolução cultural é o meio mais usado pelos comunistas/socialistas de hoje? Sim. Os tempos de golpes de Estado acabaram. Então as esquerdas tentam conquistar o poder de dentro para fora, pela tomada dos chamados aparelhos de Estado. O fim último é o golpe de Estado, mas enquanto as forças democráticas prevalecerem a esquerda não conseguirá o poder total, seu alvo. In Guardia: E o Brasil? Está na rota dessa revolução cultural esquerdista ou essa afirmação se trata apenas de teoria da conspiração? O Brasil está, sim. Esse enfrentamento em torno do aborto ilustra bem. In Guardia: No mesmo artigo supracitado, o Sr. argumenta que o adjetivo “conservador” está posicionado no dicionário popular como sinônimo de “estúpido”. Esse posicionamento se dá pela movimentação da palavra na sociedade ou no âmago do que a palavra quer traduzir? É novilingua da revolução gramsciana. A primeira coisa que a contra-revolução conservadora tem a fazer é resgatar o sentido histórico dos vocábulos. In Guardia: Por fim, como o Sr. vê o futuro político do Brasil nas próximas décadas quanto ao posicionamento político? Penderá cada vez mais para a esquerda ou tende a buscar um equilíbrio atualmente inexistente? Sou otimista. Especialmente se o Partido Republicano recuperar o poder nos EUA poderemos ter o renascimento do conservadorismo enquanto força política capaz de fazer o presidente da República entre nós. Sinto que, no meio da juventude, as teses conservadores têm sido crescentemente aceitas. Vamos aguardar.

esquerda conquista o poder com esse discurso de aperfeiçoar o mundo e a alma humana. Mas é uma evidente mentira. A alma é sempre a mesma e a perfectibilização do mundo é aventura grotesca, incapaz de se manter

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Coluna - Ivanaldo Santos

O cristianismo e a morte da democracia

Desde quando a democracia moderna foi instalada no Oci- das eleições, da população. dente, no século XVIII, produto, em grande medida, da indepenSegundo exemplo, em dezembro de 2011, por ocasião das dência dos EUA e da revolução francesa, a própria democracia comemorações do Dia Internacional dos Direitos Humanos, a sempre passou por graves crises e até mesmo enfrentou o pe- secretária de Estado americano, Hillary Clinton, disse que as obrigo da extinção. No entanto, nos momentos de crises e de pe- jeções religiosas à homossexualidade não devem servir de obsrigos institucionais sempre houve vozes e grupos sociais que se táculo para as ações enérgicas da ONU para promover a agenda levantaram para defendê-la. O grande exemplo desse processo homossexual. Segundo ela, nenhuma prática ou tradição religioé a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) quando as forças tota- sa é mais importante do que os direitos humanos. A secretária litárias do nazismo e do socialismo quiseram sufocar e derrotar de Estado americano acrescentou que todos os países precisam definitivamente a democracia e, com isso, acabar com a liber- aprovar leis de direitos civis para os indivíduos LGBT, mesmo dade individual e, em seu lugar, colocar o poder autoritário do quando essas leis ofendem a maioria dos cidadãos de um país. Estado e das ideologias políticas. Esse discurso de Hillary Clinton é fundamentado pela política Atualmente vivemos uma do presidente americano Barak O surpreendente da agenda do governo Obama, o qual fez da aceitação nova e grave tentativa de sufocar e até mesmo de destruir a do homossexualismo o americano para promover a cultura e a mundial democracia. Entretanto, o que aspecto central de sua política mais assusta é que essa tenta- agenda homossexual, expressa de forma externa na ONU e no mundo intiva vem sendo patrocinada e Em um documento intitulapidar pela secretária de Estado Hillary teiro. incentivada pelos países e grulado “Iniciativas Internacionais pos sociais que historicamente Clinton, é que não há qualquer respeito para Avançar os Direitos Humadefendem a democracia. de Lésbicas, Gays, Bissexupelos valores religiosos e culturais dos nos Vejamos dois ilustrativos ais e Transgêneros”, o governo diversos povos que estão espalhados exemplos para entender melhor americano prometeu fazer uma o problema. na presença internapelo mundo. O que importa é legitimar a reforma Primeiro exemplo, Mário cional dos Estados Unidos em agenda homossexual Monti, famoso economista itafavor da agenda gay. Com isso, liano e ex-responsável pelos comprometeu-se a garantir que assuntos de concorrência da Comissão Europeia, foi nomeado as autoridades do governo serão treinadas especialmente para deputado vitalício, no dia 13/11/2011, pelo presidente da Itália, ajudar homossexuais e combaterão a “intolerância” em países Giorgio Napolitano e, logo em seguida, o Parlamento italiano estrangeiros ajudando a normalizar a orientação e atividade seelegeu-o como primeiro ministro do país. O problema é que xual homossexual. Esse documento indica que essa defesa poMário Monti, apesar da grande competência como economista, deria incluir de tudo, desde financiar ativistas políticos homosnunca concorreu a uma eleição, nunca deve um único voto da sexuais em outros países que fazem campanhas contra leis que população. No entanto, ele é o primeiro ministro da Itália. Esse definem o casamento como a união entre um homem e uma ato profundamente antidemocrático aconteceu sem que ne- mulher até a organização de paradas do orgulho gay e shows da nhum país, organização internacional, como a ONU, protestas- cantora Lady Gaga em países remotos. se. É como se fosse normal alguém se tornar primeiro-ministro O surpreendente da agenda do governo americano para de um país sem nunca ter recebido qualquer apoio, por meio promover a cultura e a agenda homossexual, expressa de forma lapidar pela secretária de Estado Hillary Clinton, é que não Marcia Cruz há qualquer respeito pelos valores religiosos e culturais dos diversos povos que estão espalhados pelo mundo. O que importa é legitimar a agenda homossexual. Apenas isso. Todo o resto não tem valor e deve ser simplesmente ignorado. Essa postura é profundamente antidemocrática. O mais surpreendente é que essa postura foi adotada pelo governo dos EUA, na gestão de Barak Obama, o qual se elegeu presidente americano afirmando ser um defensor da democracia. Parece que, no governo Obama, a democracia é privilégio da minoria homossexual. Protesto contra Os dois exemplos que foram apresena PL 122 - lei da tados mostram como, em nossos dias, a mordaça gay - em democracia é sumariamente ignorada. A junho de 2011, em Brasília

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economia e a agenda homossexual são mais importantes que qualquer valor democrático. A consequência disso é que as populações do mundo estão sem proteção legal e institucional. Os valores religiosos e culturais são ignorados, vistos como atrasados e conservadores. Com isso, o mundo passa a ser administrado por uma elite composta por membros de partidos políticos e funcionários públicos. Uma elite que segue, de forma radical, as ideologias oriundas do liberalismo materialista e do marxismo cultural. Tudo isso acontece sem que quase ninguém ou organização internacional reclame ou proteste. Atualmente quase não há uma única voz que se levanta para defender os valores religiosos e culturais dos povos do mundo. A ONU está calada, líderes democráticos e até mesmo da esquerda internacional, como, por exemplo, Hugo Cháves e o ex-presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, nada dizem. A grande exceção é a Igreja Católica e o Papa. O pontífice tem feito reiterados pronunciamentos alertando para o perigo da morte da democracia e, por conseguinte, de ser imposta uma agenda, para as nações, que fere gravemente seus valores religiosos e culturais. Para o pontífice a democracia pressupõe o respeito aos valores e as demandas populares. Se, por exemplo, uma nação de maioria cristã, como é o caso do Brasil, não deseja a legalização do aborto e da união homossexual, então o governo dessa nação deve respeitar a decisão livre e democrática do povo. Impor práticas contrárias (aborto, união homossexual etc.) a vontade soberana do povo é abalar e até mesmo destruir a democracia. Quem mais sofre com o abandono ou a morte da democracia é o cristianismo. O motivo é que essa religião é a mais perseguida em todo o mundo. Todos os dias vários cristãos são presos, torturados e até mesmo mortos por causa de sua fé. No entanto, quase não há protestos contra essa violência. O motivo disso é que os líderes mundiais, orientados pelas ideologias oriundas do liberalismo materialista e do marxismo cultural, estão preocupados com a economia e em promover

Para o pontífice a democracia pressupõe o respeito aos valores e as demandas populares. Se, por exemplo, uma nação de maioria cristã, como é o caso do Brasil, não deseja a legalização do aborto e da união homossexual, então o governo dessa nação deve respeitar a decisão livre e democrática do povo Impor práticas contrárias (aborto, união homossexual etc.) a vontade soberana do povo é abalar e até mesmo destruir a democracia. Pág 18 - Ed. 5 - 2012

a agenda homossexual. Com isso, a vida dos cristãos passa a não ter valor. Sem contar que a nova política do governo americano, representado pela administração Barak Obama, ou seja, de promover, a nível internacional, a agenda homossexual, na prática representa que o governo americano está em guerra contra o cristianismo. Pode não ser uma guerra militar, com armas de fogo, mas é uma guerra cultural e simbólica. Para a administração Barak Obama o cristianismo é um mal que deve ser combatido. Isso acontece porque o cristianismo é a grande força que internacionalmente se opõe a agenda da chamada revolução cultural, que, entre outras coisas, deseja, em escala mundial, legalizar o aborto, a prostituição, as drogas e a união homossexual. Passado mais de 2.000 anos o cristianismo continua sendo perseguido e a mensagem salvadora de Jesus Cristo continua sendo reprimida. Assim como no tempo do império romano, atualmente os cristãos não encontram lugar no Estado e nas políticas públicas. Sua posição continua sendo marginalizada. E por que o cristianismo é tão perseguido pelo Estado, pela elite mundial e sua revolução cultural? Por que a Igreja Católica é demonizada pela grande mídia? Por que a mensagem do Papa é apresentada como conservadora, reacionária e fundamentalista? Muita coisa pode ser dita para tentar responder a essas perguntas, mas o fato concreto é que o cristianismo, especialmente a Igreja Católica, é a única grande força que se opõe aos projetos autoritários da elite materialista e marxista que deseja impor ao mundo sua ideologia. A fidelidade do cristão ao princípio da separação entre a política e os valores religiosos, sintetizado na máxima de Jesus Cristo de “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21; Mr 12, 17; Lc 20, 25), e a busca do verdadeiro reino de justiça fora da pura vida material, baseada no pronunciamento de Cristo que disse que “meu reino não é desse mundo” (Jo 18, 36), são a grande ameaça ao projeto de instalar um governo puramente materialista, baseado nas ideologias oriundas do liberalismo e do marxismo cultural, e, com isso, criar a justiça terrena identificada com os direitos humanos. O problema é que os direitos humanos pressupõem o respeito aos valores religiosos e culturais. E esses valores estão sendo sumariamente negados e até mesmo perseguidos. O atual papel do cristianismo, especialmente da Igreja Católica, é “anunciar a justiça” (Sl 50, 6) e, por conseguinte, desmascarar as ideologias que desejam acabar com a democracia e criar um mundo totalitário, autoritário onde só terão direitos os problemas técnicoeconômicos e ligados à revolução cultural, como, por exemplo, o aborto e a união homossexual.


Coluna - Bruno de Castro

A afronta de Obama à liberdade religiosa americana e o fenômeno de Rick Santorum Há poucos dias, o presidente americano Barack Obama anunciou uma série de medidas de execução do seu plano de saúde pública, apelidado pela sociedade estadunidense de Obamacare. Dentre as medidas do plano, a obrigação de todos os hospitais católicos de colocarem à disposição dos segurados do Obamacare a integralidade do plano, adicionando-se assim o oferecimento de contraceptivos e a possibilidade de a mulher abortar no local, se for seu desejo. A sociedade conservadora americana recebeu esta atitude como uma grande afronta, daquelas de se afirmar que os valores americanos como os conhecemos estão sendo destruídos pelo atual presidente. O governador do Arkansas, Mick Huckabee, em discurso na Conservative Political Action Conference (CPAC) afirmou que jamais viu algo parecido na história americana, e agradeceu a Obama, pois nada havia unido tanto os republicanos como este ato de afronta à liberdade religiosa, historicamente prezada e respeitada pelos presidentes estadunidenses. Talvez não por acaso, Rick Santorum, candidato republicano à presidência e católico praticante, que antes estava sem nenhuma possibilidade de vencer a Mitt Romney e nem ao coadjuvante Newt Gingrich, literalmente abocanhou, nas prévias republicanas, três estados americanos ao mesmo tempo, e desde então não para de crescer em todo o país. Independentemente dos delegados que conquistou ou dos estados que venceu, já possui 38% da preferência republicana contra 22% de Mitt Romney. Obviamente, e talvez por um preconceito histórico, os americanos preferem que um católico praticante defenda a liberdade religiosa, e não um mórmon que já mudou dezenas de vezes sua posição em relação ao aborto. Porém, se de um lado a puritana e conservadora sociedade americana estava indignada e se sentindo ameaçada em sua liberdade religiosa, não se pode dizer, infelizmente, o mesmo AP/Charlie Riedel

Rick Santorum

dos católicos. Apenas 65% dos bispos americanos - e aqui apenas é expressão em não ser a integralidade episcopal americana - se afirmaram contra a disposição de aborto e contraceptivos em hospitais católicos. Para piorar, segundo a Fox News, 52% das mulheres católicas americanas afirmaram que gostariam de dispor de tais procedimentos e instrumentos esterilizantes. Há um outro dado infeliz em tudo isso: 75% das mulheres católicas americanas estariam usando de contraceptivos, mesmo estando contra o ensinamento católico da encíclica papal Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, com conteúdo firmemente consolidado durante os anos e reproduzido ao Catecismo. Em outras palavras, mesmo sendo uma luta católica, quem está de fato lutando são, novamente, os irmãos protestantes e evangélicos! Não é por acaso: se eles sabem que a liberdade religiosa americana se torna intocável para um grupo religioso, ela também poder se tornar intocável para todos. Assim, Rick Santorum entrou no páreo. Mostrou sua linda família, fruto da sua espiritualidade verdadeiramente católica, e deu confiança aos americanos em combater qualquer violação à liberdade religiosa por parte de Obama e seus grupos de esquerda, invocando para isso a Constituição Americana, a Declaração de Independência e seus founding fathers. Desde então, é o candidato mais forte para enfrentar o atual presidente. Mais do que ter crescido eleitoralmente, é, de longe, o candidato mais identificável com a realidade do american being atual, aquele que nega qualquer ideologia em prol do estado natural da pessoa, como também demonstra simplicidade como alguém não-favorecido, bem ao contrário de Mitt Romney. Por fim, Obama abriu mão do aborto e da esterilização, mas não dos contraceptivos, razão pela qual a batalha continua, fato declarado pelos próprios republicanos e o seu forte movimento, o Tea Party. Claro que para os jovens, os mesmos que promoveram um forte ativismo contra o PIPA/SOPA e o seu autor, o congressista republicano Lamar Smith, ainda possuem uma grande admiração por Barack. E quando essas mentes mais ingênuas perceberem que a lei de Smith sequer está em tramitação no Congresso Americano e a censura de conteúdo virtual em nome de Hollywood, executada pelo FBI, tem como cabeça e responsável o próprio presidente Obama? Uma coisa é certa: quanto mais Obama tenta se sobrepor à autonomia dos estados americanos e mais tenta colocar ideologias acima de garantias fundamentais para a pessoa humana, mais Santorum e os republicanos crescem para vencê-lo e manter o establishment do que é de fato a sociedade americana: negadora de qualquer ideologia, protetora da liberdade religiosa, da liberdade de expressão e do federalismo e subsidiariedade plena de seus estados, condados e municípios. Pág 19 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Ives Gandra da Silva Martins

Ocê é branco? Que azar, hein! Hoje, tenho eu a impressão de que o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afrodescendentes, homossexuais ou se autodeclarem. Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior. Os índios que, pela Constituição (art. 231), só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado. Menos de meio milhão de índios brasileiros não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios, que pretendem ser beneficiados também - passaram a ser donos de 15% do território nacional, enquanto os outros 185 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados. Aos “quilombolas”, que deveriam ser apenas os descendentes dos participantes de quilombos, e não os afrodescendentes em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição permite (art.

68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito. Os homossexuais obtiveram do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef o direito de ter um congresso financiado por dinheiro público, para realçar as suas tendências (algo que um cidadão comum jamais conseguiria!) Os invasores de terras, que violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que o governo considera, mais que legítima, meritória a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem esse “privilégio”, porque cumpre a lei. Desertores, assaltantes de bancos e assassinos que, no passado participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para “ressarcir” aqueles que resolveram pegar em armas contra o governo ou se disseram perseguidos. E são tantas as discriminações, que é de perguntar: de que vale o inciso IV do art. 3º da Lei Suprema? Como modesto advogado, cidadão comum e branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios.

Os invasores de terras, que violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que o governo considera, mais que legítima, meritória a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum

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O Catecismo da Igreja Católica - Carlos Ramalhete

O conhecimento de Deus na Filosofia e na Revelação Continuando esta série sobre o Catecismo, trataremos agora do conhecimento de Deus na Filosofia e na Revelação. São dois conhecimentos de naturezas absolutamente diversas, ainda que ambos apontem, em última instância, para o mesmo Deus. Diz a sabedoria popular que um tatu no alto de uma árvore foi posto lá por alguém. Em outras palavras: se vemos um tatu no alto de uma árvore, em boas condições de saúde, sabemos que alguém passou por aquele lugar há pouco tempo. O tatu não sobe sozinho nem desce sozinho. Se ele está lá, podemos deduzir que alguém lá o colocou; pelo seu estado de saúde podemos saber se está lá há pouco tempo ou se a fome e a sede já colocaram sua vida em risco. O conhecimento de Deus que se pode ter pela filosofia é semelhante, em muitos aspectos, ao conhecimento do colocador-de-tatu desconhecido. Sabe-se que ele existe, sabe-se que ele age, sabe-se que ele se move. Mas não se pode saber muito mais. Pela razão, apenas, é possível afirmar com certeza a existência de Deus, mas não Sua Encarnação, não ser Ele Uno e Trino, não ser Ele o Deus amoroso e justo que na Revelação nos é dado contemplar. Não existe mudança que não tenha uma causa: tudo o que ocorre pode ser percebido como decorrência de algo que ocorreu antes. O que ocorreu antes, por sua vez, decorre de algo ainda anterior. Esta regressão não pode, contudo, ir ao infinito; é necessário que haja algo (ou Alguém) que não muda, mas que muda as outras coisas: este Alguém é Deus. A este Deus, que pode ser discernido pela razão, São Paulo chamou de

“Deus desconhecido” ao ver um altar com esta inscrição em meio aos altares dedicados aos deuses pagãos. Do mesmo modo, podemos perceber que uma Lei nos é natural, que uma certa ordem existe todo o universo. As leis da física continuam sempre as mesmas, e sabemos que todos os dias nascerá o sol. Sabemos, também, e reconhecemos em nossas vidas, que há uma Providência Divina, há um meio pelo qual Alguém muito acima de tudo o que vemos coordena sincronicamente os acontecimentos. Esta percepção já nos leva a reconhecer que o Deus desconhecido dos filósofos é um Deus pessoal, não um mero argumento retórico. É esta percepção que nos prepara para que possamos aceitar a Sua Revelação. Deus, tendo-nos preparado para aceitá-l’O e reconhecê-l’O, revelouSe progressivamente aos homens, d’Ele esquecidos devido ao pecado de nossos primeiros pais. Fez Ele aliança com Noé, e por Noé com todos os homens, deixando-nos o arco-íris como sinal. Fez Ele, em seguida, aliança com Abraão e sua descendência física, o povo hebreu. Este povo foi por Ele conduzido e separado, servindo como testemunha por seus atos e por sua presença da existência e da força do único Deus verdadeiro. Na descendência de Abraão segundo a carne, na plenitude dos tempos, a Revelação se completou, ao fazer-Se carne o Verbo de Deus. Ou seja: Deus correspondeu plenamente ao anseio dos homens por conhecê-l’O, fazendo perfeito uso das capacidades por Ele criadas no homem, dos desejos do Infinito que marcam cada um de nós. Assim se tornou possível, pela primeira vez, um conhecimento de Deus que

Pela Revelação, sabemos que Deus é Uno e é Trino. Pela Revelação, sabemos a que somos chamados, a que leva, auxiliada pela graça, esta natural “capacidade de Deus” que o homem tem

Santo Tomás de Aquino, autor da Suma Teológica

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O conhecimento de Deus pela Revelação – que nos é transmitida pela Igreja e na Igreja – completa o conhecimento obtido apenas pela razão, e nos dá meios para que entendamos, sem mistura de erro e com certeza, as Verdades que podem nos levar à Salvação


vai muito além do conhecimento que apenas a Razão pode nos dar. O conhecimento de Deus pela Revelação – que nos é transmitida pela Igreja e na Igreja – completa o conhecimento obtido apenas pela razão, e nos dá meios para que entendamos, sem mistura de erro e com certeza, as Verdades que podem nos levar à Salvação. Pela Revelação, sabemos que Deus é Uno e é Trino. Pela Revelação, sabemos a que somos chamados, a que leva, auxiliada pela graça, esta natural “capacidade de Deus” que o homem tem. Sem ela, o homem não tem como encontrar perfeitamente o seu destino. Sem ela, o homem é como uma ferramenta ignorada, cujo objetivo não pode ser discernido. É por isso que quem a ignora, no mais das vezes, torna-se escravo dos próprios sentidos. Sem a Revelação, é fácil convencer-se que o prazer vale mais que a justiça, que o orgulho vale mais que a retidão e a verdade. Com ela, contudo, temos como levar a cabo o nosso fim último, o objetivo de nossa criação. Fomos criados por Deus para glorificá-l’O, o que fazemos sendo santos, sendo plenamente e totalmente quem Deus nos criou para ser. Deus nos criou diferentes, deu-nos talentos diversos e vocações variadas. E cada um de nós é chamado a fazer com que estes talentos prosperem, que estas vocações sejam ouvidas e atendidas, que as diferenças entre os homens sejam causa não de discórdia, mas de harmonia.

Com o que nos é dado saber pela Revelação – expressa na Tradição Oral e Escrita e definida pelo Magistério da Igreja – podemos encontrar, assim, o caminho para algo que vai muito além do mero reconhecimento da existência de Deus. Com ela, podemos perceber o sentido de todos aqueles sinais que nos apontam para Deus, e elevar a Ele não só nosso olhar, mas nosso próprio ser. Pela Revelação, nos é dado ser plenamente, ou seja, ser em Deus. Conhecer Deus, amá-l’O e glorificá-l’O por nossas próprias vidas, sendo, assim, aquilo que somos chamados a ser. A Igreja, que nos dá acesso a este tesouro maravilhoso, expressa-se em palavras humanas, e nos fornece, na Pessoa d’Aquele que é Deus verdadeiro e homem verdadeiro, o caminho para alcançar a Deus. Da Criação, podemos, assim, discernir que Há Deus. Na Revelação de Deus a nós, podemos ir muito além disso, podemos discernir o homem e toda a Criação à luz de Deus, identificando o caminho a seguir para que possa ser efetuada esta re-ligio, esta “re-ligação”, ou “religião”, que finalmente nos pode unir a nosso Criador. Ele, fazendo-Se homem, veio ao nosso encontro. Nós, acolhendo-O no Seu Corpo Místico, que é a Igreja, podemos, finalmente, responder a este chamado, saciando plenamente o anseio que todo homem sempre teve de sair do finito para a eternidade, do imanente para o transcendente, do mesquinho ao Sumo Bem.

Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica - Santo Agostinho Pág 22 - Ed. 5 - 2012


Entrevista In Guardia - Dom Antônio Keller In Guardia: O Sr. pode nos falar um pouco sobre como reconheceu sua vocação para o sacerdócio? Minha vocação aconteceu por caminhos normais. Percebi o chamado de Deus muito criança, já antes mesmo de ter entrado para o Grupo de Coroinhas de minha Paróquia. Lá, aprendi a servir a Santa Missa. Meu pai foi o primeiro fator preponderante em meu caminho de fé: era um católico fervoroso, Congregado Mariano, piedoso no sentido autêntico desta expressão, ou seja, piedade forjada na oração simples, no compromisso com o trabalho bem feito, no amor e na dedicação à família. Depois do falecimento dele, sua irmã, minha tia paterna, assumiu a responsabilidade pela educação minha e de minha irmã. Estudamos em bons colégios religiosos, eu com os padres agostinianos, minha irmã com as irmãs salesianas. Minha mãe, inicialmente, não era assiduamente praticante. Mas com o tempo, aproximou-se da Igreja e dos sacramentos. Assim viveu e assim morreu. Portanto, minha vocação manifestou-se, cresceu e consolidouse neste ambiente de normalidade, sem dramas, sem acontecimentos extraordinários. Desde que me lembre, sempre quis ser padre... In Guardia: Em 2008 o Sr. teve sua ordenação episcopal. Mudou alguma coisa na espiritualidade quando o Padre Antônio Keller se tornou Dom Keller? Costumo dizer que em minha vida, depois deste fato, ou seja, depois de minha eleição e consagração episcopal, “mudou tudo e não mudou nada”. Explico o paradoxo... A nomeação e ordenação como Bispo representou um deixar tudo, especialmente os antecedentes 22 anos como pároco em uma única paróquia, o encargo de diretor espiritual no Seminário de Filosofia da Arquidiocese de São Paulo, as aulas de teologia, os apostolados desenvolvidos através da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, pertencente ao Opus Dei, da qual sou membro. Tive que deixar tudo isto em questão de dois meses. Sem dizer, naturalmente, do convívio familiar... Fui viver há mais de 1.000 km da casa de minha mãe, já anciã. Tudo isto custou-me muito. Tenho um caráter muito “caseiro”. As viagens e movimentações decorrentes delas incomodam-me bastante. Em São Paulo, nos finais de semana, percorria 2 a 3 km... Hoje, dificilmente passo um final de semana sem percorrer mais de 400 km. Vim para cá sem conhecer a ninguém, a não ser o Bispo Emérito, Dom Bruno Maldaner (conheci-o quando era criança, em São Paulo). Uma nova realidade, mundo essencialmente rural, fora de São Paulo (onde sempre vivi, excetuando os 5 anos que vivi em Roma e os 6 do Seminário Menor...), enfim, uma realidade totalmente diversa. Mas, por outro lado, a essência de minha vida, o princípio nor-

teador não mudou, continua o mesmo: servir a Cristo, a Igreja e aos irmãos. Minha espiritualidade alimenta-se das mesmas fontes, e enraíza-se no mesmo chão... In Guardia: Ao se tornar Bispos o Sr. se tornou membro da CNBB. Como o Sr. vê e como sua Diocese trata a Campanha da Fraternidade encampada pelo CNBB todo ano no tempo da quaresma? A Campanha da Fraternidade, a meu ver é um bem em si, no sentido que pode ajudar os fiéis católicos a concretizarem de forma organizada, na sociedade civil, a caridade fraterna que marca este tempo santo. A CF pode servir, portanto, como um indicador, para concentrar forças no exercício organizado da caridade fraterna. O que é inaceitável é que, no contexto da CF, sejam utilizados métodos de análise, orientações de reflexão para a tomada de consciência dos problemas, propostas de soluções etc. não condizentes com o pensamento do Magistério da Igreja, especialmente no que se refere à Doutrina Social. Infelizmente, muitas vezes, na leitura de textos de fundamentação da CF, bem como em certas indicações de ação, ainda é possível encontrar princípios ideológicos não condizentes com a Doutrina Social da Igreja. In Guardia: Alguns católicos entendem que a Campanha da Fraternidade poderia ser muito conveniente se tratasse de temas mais ligados á salvação da alma e fosse em um tempo diferente da quaresma. Qual sua opinião? Discordo desta opinião. A meu ver, a grande questão é a da excessiva marca que se dá aos temas da CF, em detrimento daquilo que é o “normal” da Quaresma: a conversão, a penitência, o jejum, a intensificação da oração, a caridade fraterna, o sacramento da Reconciliação e da Penitência. Cabe aos pastores locais (Bispos, párocos etc.) a orientação da comunidade católica em relação ao justo equilíbrio. A meu ver, a CF proporciona a possibilidade de se efetuar um aspecto concreto da conversão Pág 23 - Ed. 5 - 2012


quaresmal, sem detrimento dos tradicionais “exercícios quaresmais”. Ou seja, o movimento interno de conversão, fruto da ação da Graça e da resposta humana, deve necessariamente concretizar-se em atos de conversão externos, expressões “sociais” da conversão quaresmal. Portanto, vejo a possibilidade de uma integração entre estes dois aspectos da conversão. In Guardia: Conforme o site “O Catequista”, a presença do senhor na web destaca-se não somente por “estar na rede”, mas por interagir com ela. Comenta ainda que o senhor foi o único Bispo a participar do twittaço contra o deputado Jean Wyllys, no qual várias pessoas na internet exigiam que o mesmo se retratasse por desqualificar o Santo Padre após afirmar que a Igreja é contra o casamento homossexual. Em um dos seus twittes, o senhor disse que “Se a CNBB fosse mais.... Católica... talvez a coisa andasse” (vide http://ocatequista.com.br/?p=3824). Partindo desta afirmação do senhor, pergunto: o que falta à CNBB para tornar-se mais católica? Minha participação nas redes sociais tem um único e definitivo objetivo: o apostolado. Acredito que, através desta presença atuante, possa ampliar os limites de minha ação apostólica. A expressão que utilizei, em referência à CNBB, referia-se diretamente à omissão, a meu ver injustificável, das lideranças da CNBB e de outros irmãos bispos, naquele momento específico e em tantos outros, nos quais, de alguma forma, a Igreja Católica, ou o Santo Padre, ou outros legítimos pastores da Igreja, ou outras instituições eclesiais são vilipendiados, ofendidos, atacados e não se faz ouvir nenhuma voz oficial da Igreja Católica no Brasil. Não espero uma reação fundamentada em um espírito corporativista, de simples defesa humana, mas sim, a defesa da verdade. A meu ver, o silêncio de quem deveria fazer-se escutar, nestes momentos, é injustificável. In Guardia: No dia 08 de dezembro de 2011, o senhor convocou os católicos a pressionarem o Congresso contra a lei de homofobia (vide http://www.rainhamaria.com.br/Pagina/11263/ Dom-Antonio-Rossi-Keller-convoca-catolicos-a-pressionar-oCongresso-Nacional). Como bispo, o que o senhor acredita que possa vir a acontecer com os católicos se esta lei for aprovada? A questão, a meu ver, não está nas consequências que eventualmente, nós católicos poderíamos sofrer, no caso de aprovação deste e de outros projetos de lei. Já escrevi uma vez que os ossos dos mártires de todos os tempos (dos mártires autênticos do cristianismo) se revolveriam nos túmulos se nós, católicos de hoje, temêssemos a perseguição e a incompreensão do mundo. A questão é que, desprovidos de qualquer espírito de clericalismo, temos, como cidadãos (somos católicos, e pelo fato de sermos católicos não deixamos de ser cidadãos, com os mesmos direitos e deveres daqueles que não são católicos) o direito de exigir que escutem nossa voz e reflitam sobre nossos argumentos. Assim como os demais tem o direito de expressar suas opiniões, nós também o temos. E segundo o que cremos, temos o direito, e dele não podemos fugir, de defender a vida, os princípios morais elementares da humanidade, entre eles, aqueles que se referem à família, ao casamento etc. Estas questões não interessam somente àqueles que têm a graça da fé católica, mas a toda a sociedade, que, minando os pilares elementares de um sadio humanismo, embarca pelos tortuosos meandros da barbárie. In Guardia: No Brasil existe um certo afastamento dos fiéis em geral e de muitos clérigos quanto a realidade de martírio que os cristãos tem vivido em algumas partes do mundo, incluindo China e alguns países do Oriente Médio. A que o Sr. responsabiliza por esse desinteresse na divulgação dessas informações? As razões do escasso interesse, a meu ver, são diversas. Em primeiro lugar, não se pode negar a profunda crise que o Ocidente cristão vive. Nossa civilização ocidental, que vive um procesPág 24 - Ed. 5 - 2012

so de desintegração, acabou por envergonhar-se de suas raízes cristãs. O reflexo desta crise, que chamo de “crise de identidade original” (identidade das próprias origens) esta no desinteresse em tudo o que se refere a questões da fé. Ou seja, um espírito laicista, que não é o positivo espírito laico que deve predominar em uma sociedade pluralista como a nossa, domina os meios de comunicação, e consequentemente, a sociedade em geral. Falar da fé e, portanto, falar das perseguições aos que tem fé, significa, na mentalidade de hoje, uma expressão do chamado fundamentalismo. Por outro lado, um cristianismo amolecido, sem desafios, acomodado, viciado pelo espírito do mundo (mundano) também penetrou na própria Igreja. A ideia dominante entre a maioria dos católicos reflete a absorção dos valores do mundo: busca do bem estar, consumismo desenfreado, descomprometimento religioso, tudo isto ligado a uma profunda ignorância em relação ao que é elementar na fé católica produz o devastador efeito do desinteresse. Já entre os grupos protestantes, especialmente entre aqueles de cunho pentecostal, o “cristão corrente” preocupa-se muito mais com a própria prosperidade do que com as dificuldades dos demais... Ou seja, vivemos tempos difíceis. In Guardia: Há muitos grupos na Igreja e na internet que defendem o pensamento de que os grandes males atuais da Igreja se deram graças ao Concílio Vaticano II. O senhor concorda com eles? O que diria a eles sobre este assunto? Não concordo em termos absolutos em atribuir a culpabilidade dos males da Igreja de hoje ao Concílio Vaticano II. Penso ser esta uma visão demasiadamente simplista em relação aos desafios para a Igreja, inserida em uma realidade que sofreu profundas mudanças, bem como uma visão excessivamente saudosista em relação a um passado considerado ideal e que certamente não voltará. A meu ver, o Concílio Vaticano II aconteceu em um momento emblemático de mudanças sociais, econômicas, culturais e religiosas. Vejo também que, de certa forma, o Concílio expresse uma visão eivada de um certo otimismo ingênuo, marca daqueles tempos dominados pela mentalidade de que o “progresso” traria uma nova era para a humanidade, uma era de entendimento, de colaboração, de superação dos graves problemas humanos, sociais etc. Os documentos do Concílio Vaticano II, em alguns aspectos, retratam esta visão talvez otimista demais em relação a mudanças no mundo. A questão, em termos bem simples é que o mundo mudou e, o ser humano inserido em um mundo em mudança, mudou também. Passou-se de um quadro de princípios e valores para outro. E naturalmente, a Igreja, realidade divina e humana, na sua humanidade, sofreu e sofre com toda esta instabilidade. A responsabilidade absoluta foi do Concílio? Foi o Concílio responsável pelo início da mudança de época, ou o Concílio, de certa forma, reflete esta realidade? Outra coisa, a meu ver, também é necessário esclarecer: acos-


tumada com palavras mais claras, mais precisas, mais definidas, parece-me que a opção do Concílio Vaticano II foi a de uma linguagem mais de indicações etc... Naturalmente, supunha-se uma leitura e uma interpretação segundo um espírito até então fortemente presente na Igreja, um “espírito bom” de leitura, afinado com a Igreja. O que se viu, no período pós conciliar foi a introdução de um “espírito mau”, desvinculado da Tradição, propondo uma quebra de continuidade, uma desvinculação com o passado, com a verdade, com a disciplina etc.. In Guardia: Diametralmente oposta a essa posição, temos aqueles que consideram que todas as bênçãos vieram após o Concílio Vaticano II, que a Igreja não só ganha um novo Concílio, mas praticamente se torna uma nova Igreja. Até que ponto esse tipo de pensamento pode atrapalhar os trabalhos pastorais? Este tipo de pensamento, que infelizmente predominou e ainda predomina em muitos ambientes eclesiais trouxe um grande mal à Igreja: uma Igreja que de certa forma, “renega” seu passado, sua História, sua Doutrina Sagrada, sua Liturgia etc. Pretendese uma Igreja sem raízes, ainda pior, híbrida, ou seja, amálgama de tradições estranhas à fé cristã, eivada de gnosticismo, de mundanismo...: uma monstruosidade, portanto. Uma Igreja assim, não teria nada a dizer ao mundo, não tem verdade a ser pregada: é uma Igreja de profetismo e ideais simplesmente humanos. Ou seja, já não é mais a Igreja de Cristo, a Una, Santa, Católica e Apostólica... Pode-se, portanto, avaliar o mal que isto produziu e ainda produz na Igreja. Infelizmente, ainda temos muito fortemente, em alguns ambientes, a presença desta visão de uma Igreja imanentista, do simples “estar junto” e sem nada a dizer de Cristo e de seu Evangelho, mas dominada por correntes ideológicas, muitas delas, materialistas. In Guardia: Como definir a Teologia da Libertação, então? A meu ver, existem duas “teologias da libertação”. A primeira é aquela que a Igreja sempre anunciou: a libertação do pecado, através da ação fundamental e purificadora da Graça, unida ao sempre insuficiente esforço humano. Esta libertação que nasce da iniciativa divina de salvar, se efetiva na realidade de um coração que se converte a Deus, ao irmão, a si mesmo e ao mundo. Esta TL pura, limpa, reta tem sua expressão bíblica alicerçada, principalmente, nas bem aventuranças do Evangelho, entre tantos outros textos da Sagrada Escritura. Para se entender esta Teologia da Libertação que antes de tudo, exprime o primado do sobrenatural na vida e na ação pastoral da Igreja, penso que exista uma “chave de compreensão”. Há um “documento base” para a leitura e a compreensão desta autêntica TL: o Discurso do bem aventurado Papa João Paulo II, pronunciado no Morro do Vidigal, durante sua primeira visita ao Brasil, em 1980. Aí está expressa, com clareza meridiana, a prioridade da doutrina da Graça, das virtudes e dos dons. Pinço uma única frase do Bem aventurado João Paulo II: “Os pobres em espírito são aqueles que são mais abertos a Deus e às maravilhas de Deus (Atos 2,11). Pobre em espírito não significa

exatamente o homem aberto aos outros, isto é, a Deus e ao próximo? Pobres em espírito – aqueles que vivem na consciência de ter recebido tudo das mãos de Deus como um dom gratuito e que dão valor a cada bem recebido. Constantemente agradecidos, repetem sem cessar: “Tudo é Graça!”, “Demos graças ao Senhor nosso Deus”. Vale a pena “desenterrar” este Discurso do bem aventurado João Paulo II... A meu ver, foi este o discurso programático de toda a Visita ao Brasil. As palavras do Papa revelam a autêntica TL, aquela verdadeira. A segunda TL é aquela falsa, mentirosa, ideologizada, fundada nas palavras de Leonardo Boff, em um artigo no Jornal do Brasil, também em 1980, alguns meses antes da visita do Papa João Paulo II: “O que propomos (com a TL) não é a teologia dentro do marxismo, mas o marxismo dentro da teologia”. Esta TL falsa, indigna da tradição teológica milenar da Igreja, prega não as bem aventuranças, mas a mudança das estruturas econômicas, sociais, políticas e eclesiais. Propugna, por exemplo, em relação à Igreja, a chamada “eclesiogênese”, termo proposto pelo já citado Leonardo Boff. As palavras de seu criador manifestam a ideia de que a Igreja deve fazer-se a partir do “lugar social” ocupado pelo povo: “Precisamos fazer a Igreja que nasce do povo... Essa é a grande virada da Igreja hoje. Igreja que parte de baixo, do povo, e não a Igreja Institucional, que venha de cima. É a eclesiogênese.” Ou seja, a falsa TL pretende que o homem, que na visão de Marx tem estrutura antropológica imanente, materialista e ateia, possa ser ao mesmo tempo, cristão. E que, como cristão (o que é impossível...), mude o mundo, a sociedade, as estruturas e a própria Igreja... Assim, a TL mentirosa, não conta com a Graça, com a ação transformadora interna e sobrenatural de Deus em nós. Para a TL falsa, Deus é... ninguém. Deus é só uma ideia, um mito que serve como ponto de referência para animar a “praxis” do oprimido, a luta contra o explorador. Deus é a justificativa racional para a luta pela libertação, reduzida à simples questão material. Lê-se, por exemplo, a História da Salvação tão somente sob a ótica da necessidade da luta do oprimido contra o opressor, do fraco contra o forte, do dominado contra o dominador. E o Deus da Bíblia, na visão da falsa TL, é aquele que justifica a violência. Ou seja, não há o que definir, em termos de teologia, a falsa TL... In Guardia: Com relação à Liturgia da Santa Missa, como o Sr. vê a formação dentro dos seminários brasileiros para que os seminaristas tenham uma boa instrução sobre o que é a missa e como celebrá-la com dignidade? Em geral, a formação é deficiente. Estuda-se a teologia litúrgica, muitas vezes a partir de autores que não tem uma visão da liturgia suficientemente católica. Nos estudos sobre a liturgia, predomina a opinião pessoal de determinado liturgista, muitas vezes, opinião que contradiz aquilo que a Igreja ensina e determina, especialmente nos últimos Documentos que são normativos, em relação à Sagrada Liturgia. Além disso, falta nos estudos litúrgicos, a meu ver, a “alma” da Liturgia. Uma liturgia sem espiritualidade, sem a consciência de que, antes de tudo, liturgia é oração, acaba caindo no mesmo ritualismo que tantos modernos liturgistas criticam do passado: só que é o ritualismo do inventar, da novidade, que também não tem alma. A meu ver, a formação litúrgica dos seminaristas e também aquela dos padres, deve centrar-se nestes dois eixos: a fidelidade às Normas litúrgicas vigentes e a preocupação constante de fazer da liturgia oração. In Guardia: Como o Sr. vê as reformas litúrgicas promovidas pelo Papa Bento XVI? Não diria que o Santo Padre, o Papa Bento XVI esteja promovendo propriamente uma “reforma litúrgica”. A meu ver, a grande lição do Santo Padre é aquela de nos ensinar a celebrar no rito ordinário, explorando todas as possibilidades que o rito permite, Pág 25 - Ed. 5 - 2012


sem invencionices estéreis, mas na fidelidade às Normas estabelecidas. Vejo no Santo Padre um profundo amor à liturgia da Igreja, sempre acompanhando a retidão de obediência às Normas com uma atitude de oração, de interiorização dos Sagrados Mistérios. In Guardia: Com relação ao documento intitulado Summorum Pontificum, qual o caminho para colocá-lo em prática da melhor forma? Em minha Igreja Diocesana, a grande questão é, antes de tudo, prática. Meus padres não tem a menor noção do latim. Esta é a realidade. Somos tão somente dois os que celebramos em latim, semanalmente, na Forma Ordinária. Estamos preparando nossos seminaristas também no estudo fundamental da língua latina. Penso que seja necessário, antes de tudo, uma boa formação litúrgica, incluindo o estudo do latim, para que o Motu Proprio Summorum Pontificum possa ser aplicado de forma mais generosa e abrangente. In Guardia: Muitos fiéis se assustam e até se armam contra a celebração no rito Extraordinário atacando-o por vários meios: língua latina, afastamento entre o sacerdote e o povo, desanimação e tantos outros. O que o Sr. diria a esses fiéis? Diria que a Forma Extraordinária é um patrimônio sagrado da Igreja. Durante séculos a Igreja utilizou esta maneira de celebrar a Santa Missa. Multidões de santos alimentaram seu amor a Deus e sua vida cristã através deste Rito santo. Ninguém tem o direito de desprezálo. A meu ver, o segredo para bem celebrar e participar da Santa Missa, na Forma Ordinária, está em conhecer em profundidade a Forma Extraordinária. In Guardia: Tendo em vista seu empenho em ter uma liturgia dignamente celebrada, bem como em atender aos fiéis que pretendem a celebração no rito litúrgico extraordinário, chegou-nos a informação de que o Bispo da diocese de Chur, Suíça, Dom Vitus Huonder, criou duas paróquias para celebração exclusiva da missa no rito extraordinário. O que o Sr. acha dessa possibilidade? Necessidades pastorais devem ser respondidas com ações efetivas e não com palavreado... Sua Excelência, D. Huonder agiu, em primeiro lugar respeitando um direito dos fiéis daquela Diocese, que pediam uma atenção pastoral especial. E em segundo lugar, agiu também com sabedoria pastoral, oferecendo esta possibilidade a um grupo de específico, sensível à Forma Extraordinária. Ou seja, na Diocese de Chur, todos os fiéis católicos são atendidos... In Guardia: Pessoalmente considero que a formação doutrinária é o melhor caminho para qualquer católico, afinal: só se ama aquilo que se conhece. De toda a sorte, como o Sr. vê a falta de formação dos féis e clérigos da Igreja no Brasil quanto a espiritualidade individual? A Formação doutrinal é uma questão vital para o “ser cristão” hoje. A meu ver, a Igreja e os cristãos serão, cada vez mais, Igreja e cristãos do testemunho. Ora, como testemunhar a fé se não se tem um conhecimento profundo da sua riqueza e profundidade,

de suas implicações no dia a dia? Como responder aos desafios da fidelidade a Deus, sem as noções elementares da Doutrina, da Moral, da Disciplina etc.? Como guiar e orientar, no caso dos pastores da Igreja, os fiéis se não se tem a Luz da fé iluminando, com clareza, os próprios olhos? A ignorância em questões vitais da fé cristã é a razão da falta de qualidade espiritual de tantos católicos de hoje, sem dúvida. In Guardia: Sob o mesmo contexto, como o Sr. vê a falta de formação dos féis e clérigos da Igreja no Brasil quanto a temas ligados à Doutrina Social da Igreja - DSI? A falta de compreensão dos princípios e da abrangência da DSI levou e continua levando hoje muitos clérigos a apoiarem-se, em suas intervenções teóricas e em sua ação pastoral social em ideologias, algumas das quais já claramente condenadas pela Igreja. Infelizmente, para muita gente, a palavra de qualquer filósofo ou sociólogo tem mais valor do que a sabedoria da Igreja... In Guardia: Sua Diocese está territorialmente localizada em um Estado da Federação governado pelo PT. O Sr. considera isso bom ou ruim para o desenvolvimento e melhor aplicação da DSI? Penso que a Igreja tem uma missão em relação à Doutrina Social, que pode ser aplicada em qualquer situação política. Desde que exista retidão de objetivos por parte das instâncias políticas, no sentido de buscar o autêntico bem social da população, aí teremos um patamar de possibilidade de diálogo, compreensão e ajuda. Cabe à Igreja iluminar, com a riqueza de sua Doutrina Social, a realidade social. Até o momento não tenho encontrado nenhum tipo de dificuldade em relação a esta questão. Pelo contrário, em nosso Estado, a DSI é bem vista e bem acolhida. Temos uma longa tradição de presença da Igreja na realidade da transformação social que visa o bem da população. Muitas iniciativas sociais, entre elas o cooperativismo, tem as suas origens em ambientes da Igreja. In Guardia: Falando em DSI, como o Sr. vê o equilíbrio partidário e as atuais posturas dos partidos brasileiros? Vejo com muita preocupação a atual conjuntura partidária brasileira. No sentido de que, a grande maioria dos atuais partidos não tem fundamentos ideológicos claros e nem propostas programáticas concretas para a solução dos problemas gravíssimos que afetam a população deste país. A meu ver, os partidos presentes no universo político do Brasil são simplesmente “hotéis” de hospedagem política (em determinados casos, hotéis de curta permanência...). Ou seja, os partidos, em geral abrigam aqueles que, na verdade, só e tão somente pretendem ingressar na “carreira política”, ou seja, profissionalizarem-se na política, tendo isto como objetivo primário. Posteriormente, bem posteriormente, poderá acontecer uma preocupação com os problemas da sociedade etc. Infelizmente, não sou muito otimista em relação à atual conjuntura política brasileira. O que existe mesmo de ideário político hoje, defendido com unhas e dentes, em geral é aquele marxista. O resto é puro fisiologismo e oportunismo...

A Formação doutrinal é uma questão vital para o “ser cristão” hoje. A meu ver, a Igreja e os cristãos serão, cada vez mais, Igreja e cristãos do testemunho. Ora, como testemunhar a fé se não se tem um conhecimento profundo da sua riqueza e profundidade, de suas implicações no dia a dia? A ignorância em questões vitais da fé cristã é a razão da falta de qualidade espiritual de tantos católicos de hoje, sem dúvida.

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Santa Catarina de Sena

Coluna - Pense como os santos

“Considero feito a Mim o que fazeis para os homens” “Conhecendo-te, tu te humilharás ao perceber que, por ti mesma, nada és”

“É obrigação de todos edificar os demais com uma vida boa, santa e honesta” “Os males desta existência não são punições, mas correção a filho que ofende”

“Só tu és o Amor, somente digno de ser amado!” “A Eucaristia é o meio mais apto para a união do homem com Deus e maior conhecimento da Verdade” “Jovens, se fores aquilo que Deus quer colocareis fogo no mundo.” “Pelo amor, o homem se torna um outro Cristo. É pelo amor que o homem se une a Deus”

“Querendo progredir é preciso que tenhais sede”

“O demônio é fraco e nada pode além daquilo que Eu lhe permita”

“A providência divina jamais falta ao homem em nada, sob a condição de que ele a aceite.” “Devemos suportar tudo, porque o sofrimento é pequeno e a recompensa é grande”

“O orgulho é a raiz de todos os vícios”

“Nesta vida ninguém vive sem cruz”

“O caminho para atingir o conhecimento verdadeiro e a experiência de Deus é este: nunca abandonar o auto-conhecimento”

“Por amor Deus os criou, sem amor não podeis viver” “Nada mais desejo que a vossa santificação”

“Ninguém deve desejar satisfações e visões espirituais, aspire somente a virtude” “O amor por Deus e pelo próximo são uma só coisa.”

“Foi no seio da Igreja hierárquica que o Senhor depositou o seu mais precioso tesouro.” “A amizade, cuja fonte é Deus, não se esgota nunca.” Pág 27 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Homilia de Pedro

Homilia do Papa Paulo VI na clausura do Concílio Vaticano II Solenidade da Imaculada Conceição 8 de Dezembro de 1965 Senhores Cardeais, veneráveis Irmãos, representantes dos povos, senhores da cidade de Roma, autoridades e cidadãos de todas as partes do mundo, Observadores pertencentes a tantas diversas denominações cristãs, fiéis e filhos aqui presentes, e todos os que vos encontrais espalhados pela terra e unidos connosco na fé e na caridade. Dentro de pouco, quando terminar esta santa missa, ouvireis a leitura de algumas mensagens que o Concílio Ecuménico, ao concluir os seus trabalhos, dirige a várias categorias de pessoas com a intenção de considerar nelas as inumeráveis formas em que a vida humana se exprime; e escutareis, além disso, a leitura do Nosso decreto oficial, com o qual declaramos terminado e encerrado o Concílio Ecuménico Vaticano II. Este é, portanto, o momento — um breve momento — das saudações. Depois, a Nossa voz emudecerá. O Concílio está totalmente terminado; esta imensa e extraordinária assembleia dissolve-se. Por isso, a saudação que Nós vos dirigimos adquire um significado particular, que Nos permitimos enunciar apenas, não para vos distrair da oração, mas para melhor centrar a vossa atenção na presente celebração. Esta saudação é, antes de mais, universal. Dirige-se a todos vós, que assistis e participais neste sagrado rito; a vós, venerados Irmãos no Episcopado, a vós, Pessoas representativas, a vós, Povo de Deus; e estende-se, alarga-se a todos, ao mundo inteiro. Como poderia ser doutra maneira, se este Concílio se definiu e foi ecuménico, isto é, universal? Como o som dos sinos se difunPág 28 - Ed. 5 - 2012

de pelo céu e chega a todos e a cada um no raio de expansão das suas ondas sonoras, assim a nossa saudação, neste momento, se dirige a todos e a cada um. Aqueles que a acolhem, e àqueles que não a acolhem; ressoa e insiste ao ouvido de todos os homens. Desde este centro católico romano não há ninguém, em princípio, que não seja atingível; em linha de princípio, todos podem e devem ser atingidos. Para a Igreja Católica, não há ninguém que seja estranho, ninguém que seja excluído, ninguém que esteja longe. Cada uma das pessoas a quem é dirigida a Nossa saudação é um chamado, é um convidado; é, em certo sentido, um presente. Digo-o o coração de quem ama: o amado está sempre presente. E Nós, especialmente neste momento, em virtude do nosso universal mandato pastoral e apostólico, amamos a todos, a todos. Por isso, Nos dirigimos a vós, almas boas e fiéis, que ausentes em pessoa desta praça dos crentes e das gentes, estais aqui presentes com o vosso espírito, com a vossa oração: o.Papa pensa também em vós, e convosco celebra este momento sublime de comunhão universal. Dizemos isto a vós os que sofreis, prisioneiros da vossa enfermidade; se vos faltasse a consolação da Nossa saudação, sentiríeis redobrar a vossa dor pela solidão espiritual. Isto diremos particularmente a vós, Irmãos no Episcopado, que não por culpas vossa faltastes ao Concílio e agora deixais nas fileiras dos vossos irmãos, e mais ainda no seu coração e no Nosso, um vácuo que tanto nos faz sofrer, e que denuncia o erro que vos priva da vossa liberdade; e oxalá tivesse sido só essa a que vos faltou para vir ao nosso Concílio! Saudação para vós, Irmãos ainda injustamente encerrados no silêncio, na opressão e na privação dos legítimos e sagrados direitos devidos a todo o homem honesto, e muito mais a vós, que mais do que ninguém


fazeis o bem, a piedade e a paz! A Igreja, ó Irmãos impedidos e humilhados, está convosco! está com os vossos fiéis e com todos quantos vos estão associados na vossa penosa condição! que esteja também convosco a consciência civil do mundo! Esta saudação universal, dirigimo-la também, finalmente, a vós os homens que não Nos conheceis; homens que não Nos compreendeis; homens que não Nos considerais úteis, necessários e amigos; e também a vós os homens que, talvez pensando proceder bem, estais contra Nós! Uma saudação sincera, uma saudação discreta, mas cheia de esperança; e hoje, acreditai, cheia de estima e de amor. Esta é a Nossa saudação. Mas, prestai atenção todos vós que Nos escutais. Pedimo-vos que considereis como, ao contrário do que sucede com as saudações das relações profanas, que servem para pôr termo a um contacto de vizinhança, ou de discurso, a Nossa saudação tende a reforçar, a produzir, se for necessário, a relação espiritual de que tira o seu sentido e a sua voz. A nossa saudação não é de despedida que separa, mas de amizade que permanece, e que, em todo o caso, quer nascer agora. Mais ainda: exactamente na sua formulação extrema, a Nossa saudação quereria, por um lado, chegar ao coração de cada um, entrar nele como um hóspede cordial e dizer no silêncio interior dos vossos espíritos a palavra, conhecida e inefável, do Senhor: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz, mas não como o mundo vo-la dá» (1). (Cristo tem um modo único e original de falar no segredo dos corações); por outro lado, a Nossa saudação tende a uma relação superior, porque não é apenas uma troca bilateral de palavras entre nós, gente desta terra, mas faz apelo a um outro Presente, o próprio Senhor, invisível, sim, mas operante no tecido das relações humanas; e pede-lhe que suscite, naquele que saúda e naquele que é saudado, novos bens, entre os quais o primeiro e o maior é a caridade. É esta, pois, a Nossa saudação: oxalá possa acender essa nova chispa da caridade divina em nossos corações; uma chispa que pode chegar o fogo aos princípios, às doutrinas e aos propósitos que o Concílio predispôs, e que assim inflamados de caridade,

possam de facto operar na Igreja e no mundo aquela renovação de pensamentos, de actividades, de costumes, e de força moral e de alegria e de esperança, que foi o fim do Concílio. A Nossa saudação é, assim, ideal. Será sonho? Será poesia? Será hipérbole convencional e vazia, como sucede frequentemente nas nossas habituais efusões augurais? Não. É ideal, mas não irreal. Mais um instante da vossa atenção. Quando nós os homens orientamos os nossos pensamentos e os nossos desejos para uma concepção ideal da vida, logo nos encontramos ou na utopia, ou na caricatura retórica, ou na ilusão, ou na desilusão. O homem conserva a aspiração inextinguível pela perfeição ideal e total, mas não chega por si a alcançá-la, nem conceptualmente nem muito menos com a experiência e a realidade. Sabemo-lo muito bem; é o drama do homem, do rei destronado. Mas reparai no que sucede esta manhã: enquanto encerramos o Concílio Ecuménico, nós festejamos Maria Santíssima, mãe de Deus e, por isso, como outra vez dissemos, Mãe de Deus e nossa mãe espiritual. Maria Santíssima, a imaculada, isto é, a inocente, a estupenda, a perfeita; isto é, a Mulher, a verdadeira Mulher ideal e real ao mesmo tempo; a criatura na qual a imagem de Deus se espelha com limpidez absoluta, sem nenhuma turbação, como sucede, pelo contrário, em todas as criaturas humanas. Não é verdade que é fixando o nosso olhar nesta mulher humilde, nossa irmã e ao mesmo tempo celeste mãe e rainha nossa, espelho nítido e sagrado de beleza infinita, que pode terminar a nossa espiritual ascensão conciliar e esta saudação final? e que pode começar o nosso trabalho após o Concílio? Esta beleza de Maria Imaculada não será para nós um modelo inspirador? uma esperança reconfortante? Nós, ó Irmãos e Filhos e Senhores, que Nos escutais, assim o pensamos, para Nós e para vós: e esta é a Nossa saudação mais alta, e, queira Deus, a mais eficaz (2)! Notas 1. Jo. 14, 27. 2. AAS 58 (1986), p. 5-8.

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Coluna - Pe. Inácio José do vale

Seita: uma Grande Mentira “Os homens são tão simplórios, e tão dominados por suas necessidades imediatas, que um mentiroso sempre encontrará muitos prontos para serem enganados”. Nicolau Maquiavel (1469-1527) - Político e Historiador Italiano Não bastassem o colapso do sistema imobiliário, o naufrágio da indústria automobilística e o mergulho na recessão, os americanos estão agora às voltas com uma vigarice monumental. Bernard Madoff, um figurão de Wall Strett, sumiu com 50 bilhões de dólares de seus clientes. Na delegacia para onde foi levado na semana passada e da qual saiu sob fiança, ele admitiu ter montado um gigantesco esquema tipo pirâmide – o mais manjado dos golpes financeiros. Consiste em remunerar os clientes mais antigos com o dinheiro dos novos investidores, sem produzir rendimentos reais. Madoff, que foi presidente da Nasdaq, a bolsa das empresas de tecnologia, oferecia retornos estáveis de 10% e 12% ao ano para o capital investido, independentemente dos altos e baixos do mercado. Nem mesmo a crise econômica havia batido às suas portas: seus investimentos cresceram 5,6% até novembro, enquanto o valor de mercado das empresas nas quais ele supostamente investia tinha encolhido 37,7%. O esquema veio abaixo, como um castelo de cartas, quando clientes, de caixa baixa devido à crise, quiseram retirar 7 bilhões de dólares no começo deste mês. O próprio Madoff avisou os filhos de que tudo não passava de “uma grande mentira”. (1). O grande intelectual inglês, autor da obra clássiPág 30 - Ed. 5 - 2012

ca Ortodoxia G. K. Chesterton (1874-1936), escreveu: “Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote (1750-1814). Ela se dizia virgem e grávida do novo Messias, e chegou a ter muitos seguidores”. O fundador da Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade (Soust), Inri Cristo que garante ser nada menos que a reencarnação de Jesus e prega sua mensagem conforme o figurino bíblico: túnica branca, manto vermelho, sandálias de couro e coroa de espinhos. Há quem pensa que tudo não passa de um grande teatro, escreve o jornalista Bernardo Mello Franco, mas, segundo o teólogo Edson Martins, que defendeu tese de doutorado sobre os seguidores de Inri na Universidade Metodista de São Paulo, garante que a devoção é real e afirma: “O movimento dele pode parecer bizarro, mas a fé dos seguidores não difere muito das outras religiões. Eles acreditam mesmo”. (2) A grande mentira pregada por muitas seitas é a salvação das pessoas no profetismo do líder e de seus ensinos. Fora da sua seita não há salvação e nem felicidade. Autoritarismo, exclusivismo e detentor de ‘toda verdade’ são características fundamentais das seitas. Ninguém vos engane No discurso escatológico de nosso Senhor Jesus Cristo, os discípulos perguntam: “Qual o sinal da tua vinda e da consumação dos tempos? Jesus respondeu: “Atenção para que ninguém vos engane”. “Pois muitos virão em meu nome, dizendo: o Cristo sou eu, e ENGANARÃO A MUITOS”. “Pois hão de


surgir falsos Cristos e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possíveis, até mesmo os eleitos”. Eis que eu vo-lo predisse” (Mt 24,1-24). A arte de enganar vem desde o princípio da humanidade, tendo como autor o diabo, o pai da mentira (Gn 3,13; Jo 8,44). A mentira como fundamento para toda arte do inimigo, só encontra valia na conexão com a ganância, ambição, idolatria e todo tipo de poder pecaminoso. Três terríveis pecados pretendem dominar completamente o ser humano: a ganância de possuir muito dinheiro, o prazer desenfreado da luxúria e o desejo ardente de ser adorado como um deus. Tudo isso pode conseguir criando uma seita. É muito fácil enganar o povo em nome de Deus. Uma seita ‘pode’ esconder todo tipo de crimes. Os líderes sectários sabem que não existe da parte do governo: municipal, estadual e federal uma fiscalização a rigor e permanente de suas atividades. São sabedores dos fins obscuros das seitas poucos intelectuais, estudiosos da matéria e algumas autoridades competentes. A nossa missão é esclarecer o povo sobre o perigo de certas seitas e conclamar as autoridades para uma maior atenção e averiguação dessas facções religiosas. Diante de tantas seitas, não podemos ser ingênuos! Muita gente é usada e abusada de sua fé por seitas que vêem as pessoas como mercadorias. São Paulo Apóstolo sabia e nos alerta, ainda hoje, sobre esses movimentos religiosos e suas táticas proselitistas: “Sabe, porém, o seguinte: nos últimos dias sobrevirão momentos difíceis. Os homens serão egoístas, gananciosos, jactanciosos, soberbos, blasfemos, rebeldes com os pais, sem afeto, mentirosos, incontinentes, cruéis, traidores, mais amigos dos prazeres do que de Deus; guardarão as aparências de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Afasta-te também destes”. “Entre estes se encontram os que se introduzem nas casas e conseguem cativar mulherzinhas carregadas de pecados, possuídas de toda sorte de desejos, sempre aprendendo, mas sem jamais poder atingir o conhecimento da verdade. Do mesmo modo como Janes e Jambres se opuseram á Moises, assim também estas se opõem à verdade; são homens de espírito corrupto, de fé inconsistente. Mas eles não irão muito adiante, pois a sua loucura será manifesta a todos, como o foi daqueles” (2 Tm 3,1-9). Conclusão Há um grande favorecimento para o crescimento da mentira sectária. A propaganda é violenta pela televisão, rádio, cinema, internet, revistas, livros, jornais, lojas, templos suntuosos e partido político. Tudo isso facilita chegar ao povo o engano da falsa doutrina cristã, a falsa prosperidade, promessas de curas, milagres, exorcismos, solução para todos os problemas e o céu mediante os dízimos e ofertas. Cresce junto com o avanço da ciência e da tecnologia todo tipo de crises e a tamanha ignorância das pessoas. Vivemos o mundo dos paradoxos e da estupidez. As seitas não só trabalham pela via da lavagem cerebral como também pela mente esturricada. Cabe aos profissionais sérios e de boa vontade ajudar as pes-

soas em seu momento de crises – principalmente afetiva – encontrarem caminhos, ferramentas, alívio, consolo, equilíbrio e segurança na sua potencialidade em Jesus Cristo e na medicina. É nosso dever mostrar o Cristo verdadeiro, o Cristo Filho de Deus, de Maria, o crucificado e ressuscitado, amigo dos apóstolos, amigo de Maria Madalena, da família de Lázaro, companheiros das nossas dores e curas, das nossas tristezas e alegrias, daqueles que ganham e dos que perdem, dos que vão e dos que ficam. Infelizmente, o povo conhece o Cristo da propaganda, sectário e da auto-ajuda. Por incrível que pareça ainda hoje muita gente precisa conhecer e ter um encontro definitivo com o Cristo dos Santos Evangelhos. Notas e Bibliografia (1) Veja, 24/12/2008, p.74. (2) Revista O Globo, 30/11/2008, p.32. VARELA, Cláudio. O Livro de Ouro da Sabedoria, São Paulo: Sapienza Editora, 2005. CHESTERTON, G. K. Ortodoxia, São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

“Entre estes se encontram os que se introduzem nas casas e conseguem cativar mulherzinhas carregadas de pecados, possuídas de toda sorte de desejos, sempre aprendendo, mas sem jamais poder atingir o conhecimento da verdade. Do mesmo modo como Janes e Jambres se opuseram á Moises, assim também estas se opõem à verdade; são homens de espírito corrupto, de fé inconsistente. Mas eles não irão muito adiante, pois a sua loucura será manifesta a todos, como o foi daqueles” (2 Tm 3,1-9) Pág 31 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Rafael Brodbeck

A Igreja não é refúgio de carolas Retiro a expressão que dá título a este artigo do equivalente assinado pelo senador Gilberto Amado, sob o título “O Brasil e a renascença católica”, publicado em 1930. Na ocasião, o ilustre político, que já exaltara as qualidades intelectuais de outros católicos, como o leigo Carlos de Laet e o Cardeal Arcoverde, punha-se a tecer a elegia de Alceu de Amoroso Lima, o “Tristão de Ataíde”. De fato, ao contrário do que propugnam os anticlericais – tomada a palavra em sua pior acepção –, nunca se opôs a Igreja ao fomento da cultura, da ciência e das artes. Não são seus templos redutos exclusivos de beatas, senhoras piedosas, e homens iletrados. É católica a Igreja, i.e., universal, acolhendo todas as almas, das mais variadas colorações sociais, étnicas e circunstanciais. Desde seu surgimento, justificou, como pedira o apóstolo São Pedro, as razões de sua esperança. Explicou-se aos romanos perseguidores, desfez os equívocos da heresia – “a verdade que enlouqueceu”, no dizer de Chesterton –, alcançou os simples e os poetas, os analfabetos e os filósofos. Deu-nos gigantes

da têmpera de um Jerônimo, de um Irineu, de um Crisóstomo, de um Atanásio e de um Agostinho. Forjou, em Santo Tomás de Aquino, o diálogo perfeito entre as letras clássicas, sobretudo de Aristóteles, e o Evangelho. E legou-nos, dos escombros do Império dilacerado pelos bárbaros – que ela converterá depois, começando pelos francos de Clóvis e Clotilde –, a civilização que não se envergonhou de chamar-se “Cristandade”. Quando se dá conta dessa verdade, o laicista enfurece. Nem todos os Richard Dawkins juntos poderão negar a evidência de que a Igreja de Cristo não só não se opôs ao desenvolvimento humano, científico e literário, como o incentivou positivamente. Mais do que isso: o pensamento cristão é, como direi, uma causa do método científico. Ao conceber um Deus Criador que rege o mundo por leis imutáveis dispostas em sua sabedoria, e não pelo mito ou pelo acaso, põe-se o pensador impregnado de cristianismo a perscrutar essas leis. Daí a física, a biologia, a química, vindas, é claro, do legado helênico – não por acaso, o menos mitológico e o mais próximo, entre os filósofos, da ideia cristã de divindade -, porém elevadas a um patamar talvez impossível sem a fé. O Deus cristão assume a natureza humana, encarna-se, e suas leis passam a ser objeto de estudo. A própria moralidade do bem supremo que é Deus converte-se em paradigma de um novo Direito, que mescla a cientificidade do latino

O incremento das modernas técnicas agronômicas coube aos monges beneditinos e cistercienses, que transformaram lodos e pântanos em locais de pastagem e agricultura, criando mosteiros sustentáveis. As noções de liberdade e moral em economia são fruto dos neoescolásticos de Salamanca

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com a humanidade evangélica. O incremento das modernas técnicas agronômicas coube aos monges beneditinos e cistercienses, que transformaram lodos e pântanos em locais de pastagem e agricultura, criando mosteiros sustentáveis. As noções de liberdade e moral em economia são fruto dos neoescolásticos de Salamanca. E o Direito Internacional é cria de padres católicos: Francisco Suárez, Francisco de Vitória, Bartolomeu de las Casas. Contra isso, o laicista se levanta. Pode tolerar a senhora, com seu véu negro, desfiando as contas de seu rosário na igreja à meia-luz. Rasga suas vestes de pavor, entretanto, ao deparar-se com o já citado Chesterton, ou a descobrir que Pascal era cristão – embora jansenista. Quando percebe que Pasteur era católico e devoto, sua ira se intensifica. É-lhe impossível reconhecer, sem rubor ou violência, a profunda fé de inúmeros responsáveis pelo incremento da ciência – além dos referidos Pascal e Pasteur, Mendel, Copérnico, Jerôme Lejeune, descobridor da origem genética da Síndrome de Down e que está em processo de beatificação, Georges Lemâitre, padre que propôs o que viria a ser a Teoria do Big Bang (provando que ciência e relato bíblico não são excludentes), Pierre Pérignon (sim, o inventor do espumante era monge), Landell de Moura, padre gaúcho que inventou o rádio. Descobrindo o catolicismo de intelectuais do calibre do historiador Christopher Dawson, do escritor J.R.R. Tolkien, autor da mo-

numental saga de “O Senhor dos Anéis”, do economista Thomas Woods, do arquiteto Gaudí (que logo será beatificado), da medievalista francesa Régine Pernoud, ou dos grandes pensadores convertidos Cardeal Newman, Marcel de Corte, Dietrich von Hildebrand, Hilaire Belloc, Paul Claudel, Jacques e Raíssa Maritain, Santa Edith Stein, ou um cineasta de sucesso como Mel Gibson, não pode o inimigo da religião ficar impune em seu erro. O Brasil não foge a tão robusta tradição. Herdou de Camões, o pai da última flor do lácio, que insculpiu em seus Lusíadas, a mais varonil fé católica e uma impactante devoção à Cruz e ao Cristo, a formação cristã de seus intelectuais. Daí que nos honremos da fibra de Dom Vital, mártir branco no regime do padroado, a pena polêmica e sagaz de Laet, Arcoverde, Eduardo Prado, Joaquim Nabuco (o patriarca da abolição), Felício dos Santos, João Gualberto (que refutou magistralmente as tresloucadas teses criminológicas lombrosianas), Júlio Maria, Dom Macedo Costa. Daí o orgulho por Jackson de Figueiredo, por Amoroso Lima, por Leonel Franca, pelo gênio Gustavo Corção, por Maurílio Teixeira-Leite Penido, o grande comentador de Pio XII. Daí a figura ímpar, ainda que por muitos incompreendida, de Plínio Corrêa de Oliveira. Daí a liderança do Cardeal Leme. Leigos e padres não se furtaram a dar sua contribuição à humanidade. Espiritual e temporal. Tal qual o homem, que não é alma penada, tampouco um cadáver ambulante.

J.R.R. Tolkien

Cardeal Newman

G.K. Chesterton

Gustavo Corção

Thomas E. Woods Pág 33 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Rafael de Mesquita Diehl

Igreja e Cultura na Alta Idade Média – O Renascimento Carolíngio “Uma nova Atenas será criada na Francia por nós. Uma Carlos Magno unificou o reino franco após a morte de seu irmão Atenas mais bela do que a antiga, enobrecida pelos ensinamentos em 771. Criou um sistema de divisão do reino em diversos senhode Cristo, superará a sabedoria da Academia. Os antigos só têm rios (ducados, condados, marcas) conduzidos por nobres e que as disciplinas de Platão como mestre, e eles ainda resplandecem respondiam ao rei. Para fiscalizá-los, o rei instituiu funcionários itiinspirados pelas sete artes liberais, mas os nossos serão mais do nerantes no reino, chamados missi dominici. Carlos Magno envolque enriquecidos sete vezes com a plenitude do Espírito Santo e veu-se no conflito entre o reino Lombardo e o Papado, apoiando o deixarão na sombra toda a dignidade da sabedoria mundana dos Papa. Com os lombardos ameaçando os territórios pontifícios no centro da Itália (Roma incluso), Carlos cruzou os Alpes italianos antigos” (Alcuíno de York em carta a Carlos Magno) subjugando-os e proclamando-se seu novo rei cingindo a Dos reinos bárbaros formados na Europa após a queda do Imcoroa de ferro usada pelos reis lombardos. Assim, Carlos pério Romano do Ocidente, um dos mais notáveis foi o reino dos estreitou ainda mais seus laços com a Sé Apostólica. O Francos. Esse povo de origem germânica havia se estabelecido rei franco tomou parte em outras guerras, expandindo na Gália (atual França) após derrotar tropas romanas as fronteiras de seu reino e dominando outros povos. na região, no século V. Em virtude de um favor A Corte de Carlos Magno almejava restaurar a grandedivino recebido através de uma vitória em uma za do antigo Império Romano do Oriente, anseio que batalha contra os alamanos, um povo vizinho, acabou sendo potencializado quando no Natal do ano o rei franco Clóvis I, juntamente com um gran800, enquanto rezava junto ao túmulo do Apóstolo de número de seus guerreiros, abraçou a Fé São Pedro, o rei dos Francos fosse coroado pelo Católica em 496. A linhagem régia de Clóvis, Papa Leão III. O ritual de coroação era utilizado chamada Merovíngia, reinou entre os francos pelos bizantinos, que se consideravam os ledurante a Antiguidade Tardia. Com o tempo, os gítimos herdeiros do Império Romano, o que reis merovíngios passaram a delegar a maior partorna o gesto da coroação ainda mais signifite dos assuntos de governo ao maiordomus, o cativo. Depois desse fato, os selos e moedas principal funcionário do palácio. Além disso, de Carlos Magno frequentemente traziam a o reino dos francos permanecia dividido, sendivisa Renovatio Romanii Imperii (Renovado costume os reis dividirem o território régio ção do Império Romano). A dinastia carolínentre seus filhos, tornando a situação polítigia (de Carlos Magno), contudo, passou por ca muito fragmentária. Com o crescimento um período do prestígio do majordomus Carlos Martel de fragapós vencer os invasores muçulmanos que Estátua eqüestre de Carlos Magno m e nta çã o tentavam cruzar os Pirineus na Batalha de em bronze, século IX no reinado Tours (também conhecida como Batalha de de seu filho Poitiers) em 732, a situação tornou-se ainda mais crítica. Carlos Martel na prática governava como se fosse o Luís I, o Piedoso, que enfrentou a Príncipe dos Francos. Seu filho, Pepino, o Breve, conseguiu o apoio revolta de seus filhos que dispudo Papado para consolidar sua linhagem como a nova dinastia real tavam o poder. Após a morte de entre os francos. O Papa considerava que a dignidade régia devia Luís, seus três filhos acabaram dipertencer a quem exercesse o governo de fato. Nesse momen- vidindo o Império territorialmente to, foi introduzido na realeza franca o rito da unção, já praticado entre si com o Tratado de Verdun nos reinos anglo-saxões da Inglaterra, que remetia a prática dos em 843. Apesar da divisão territoreis hebreus do Antigo Testamento serem ungidos pelos profetas rial aparentemente ter resolvido o e sacerdotes. A unção confirmava o rei como eleito de Deus para confronto, os três reis e seus sucessores continuaram disputando Rábano Mauro e Alcuíno de governar o povo cristão. Com a morte de Pepino em 768, o reino dos francos ficou nova- o título e a coroa imperial. York dedicando um livro ao O fato de o título imperial con- arcebispo Otgar de Mayenmente dividido entre seus dois filhos, Carlos Magno e Carlomano. Pág 34 - Ed. 5 - 2012

ce. Iluminura de um manuscrito de Fulda, c. 830-840


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tinuar sendo disputado mesmo após o de Verdun resolver os con- a renovação artística. Criou-se a minúscula carolíngia, tornando flitos territoriais mostra que a ambição da corte e da linhagem a escrita mais prática e legível, bem como desenvolveu-se a arte carolíngia de renovar o Império Romano do Ocidente não era um da Iluminura nos manuscritos. Igualmente a arte da escultura, desejo apenas no aspecto político, mas também na dimensão cul- da ourivesaria e do trabalho em marfim embelezou os relicários, tural. E é nessa dimensão cultural que a presença da Igreja terá Evangeliários, Saltérios e Bíblias utilizados nas Igrejas e Palácios um papel de suma importância. Esta renovação cultural foi cha- por todo o Império Carolíngio. A arquitetura floresceu inspiranmada pelos historiadores de “Renascimento Carolíngio”. A Corte do-se no estilo bizantino. Talvez o símbolo que melhor sintetize a de Carlos Magno ambicionava fazer do reino franco uma “Nova renovação cultural iniciada pela dinastia carolíngia seja o Palácio Atenas” e uma “Nova Roma”. Carlos Magno atraiu para sua cor- que Carlos Magno ampliou em Aix-la-Chapelle (atual Aachen, Alete grandes sábios de seu tempo, entre os quais estavam os gra- manha) onde ainda restam alguns elementos da suntuosa Capela máticos Alcuíno de York e Pedro de Pisa, bem como palatina aonde o Imperador e sua corte assistiam a os historiadores Eginhardo e Paulo Diácono. Missa e aos demais Ofícios Litúrgicos. Uma das preocupações centrais de CarO Renascimento Carolíngio é possilos Magno era a formação do Clero, velmente um dos maiores legados para isso, tomou várias medidas de Carlos Magno para a Crisjunto aos bispos para melhotandade ocidental. A presenrar a instrução e erudição dos ça de grandes membros do clérigos, tanto na língua latina Clero nessa renovação cultu(haja vista a maior parte dos ral nos mostra claramente a textos serem escritos em laimportância dada pela Igreja tim) quanto nas línguas vernánaquela época à Cultura, às culas (nos sínodos sempre se reArtes e ao Saber. cordava a necessidade de pregar em SAIBA MAIS: uma língua que o povo compreendesse). BRAGANÇA JÚNIOR, Álvaro Alfredo; Carlos também estabeleceu esSANTOS, Maria Beatris D.C. Dos. Reconstituição do Palácio de Carlos colas palatinas (junto aos paláConsiderações a respeito do RenasMagno em Aix-la-Chapelle cios), tendo ele mesmo tomado cimento Carolíngio. Encontro Reparte nas aulas em seu Palácio, gional da ABREM, 1, Rio de Janeiro, haja vista que ele como a maioria da nobreza franca eram pratica- 08 a 10 de novembro de 2006. Digitalizado em: http://www.pem. mente analfabetos naqueles tempos. ifcs.ufrj.br/RenascimentoCarolingio.pdf Houve também uma ligação com a tradição romana no âmbito FAVIER, Jean. Carlos Magno. São Paulo: Estação Liberdade, da Liturgia. Carlos Magno empenhou-se em introduzir a Liturgia 2004. romana nos territórios de seu Império. Dessas medidas brotou KNOWLES, David; OBOLESNKY, Dimitri. Nova História da Igreja. uma rica mescla de elementos litúrgicos galicanos e romanos, dos Vol. 2: A Idade Média. Petrópolis: Vozes, 1974. quais um exemplo notável é adoração da Cruz na Sexta-Feira Santa, característica do Rito Galicano. Esse impulso litúrgico atingiu igualmente a música, sendo os séculos VIII-X o período de auge do chamado Canto Gregoriano. Relata-se que o próprio Carlos MagCapa do Evangeliário de Lorsch, com baixono cantava acompanhando os coros nas celebrações litúrgicas de relevos em marfim, c. 800 sua capela. Destacam-se também os escritos de espiritualidade e de saberes em geral, especialmente os tratados dos monges Alcuíno de York e do Bem-aventurado Rábano Mauro, bem como a Vida de Carlos Magno, escrita pelo monge Eginhardo, na qual o autor descreve a vida do Imperador Carlos buscando inspiração na estilística da Vida dos Doze Césares (uma descrição da vida de Júlio César e dos 11 primeiros Imperadores romanos) escrita pelo romano Suetônio por volta do século II. Importante, por fim, mencionar-se Pág 35 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Diego Silva

Chesterbelloc e o Distributismo Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) era versado na arte das letras. Além de jornalista, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta, polemista, apologista, biógrafo, cartunista e filósofo (e pensarem que esgotamos seus dons, ainda não), Chesterton também trilhou pelo campo da economia. Motivado pela Encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas), do Papa Leão XIII, publicada em 1891, que marcou o pensamento da época e foi inspirando a Doutrina Social da Igreja, que apesar de sempre presente no catolicismo ainda não estava sistematizada, Chesterton, desiludido com as falsas esperanças propostas pelo capitalismo e socialismo, juntamente com seu amigo Hilaire Belloc (1870-1953), autor do livro Estado Servil (1912), Chesterton escreveu a respeito: “quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata.” , e também com o apoio do Pe. Vincent Joseph McNabb, desenvolveram uma filosofia econômica conhecida como Distributismo, visto como ‘terceira’ via ao invés do capitalismo e socialismo. Pois, segundo a máxima de Chesterton: “Capitalismo demais não significa capitalistas demais, mas capitalistas de menos.” Chesterton e Belloc, ou “ChestertonBelloc”, como Bernard Shaw os chamavam, verão de perto as transformações tecnológicas e industriais que a Inglaterra vivenciou ao final do século XIX e início do século XX. As rápidas mudanças do estilo de vida, a poluição, ganância, pobreza e a desestabilidade da família ocasionada pela pobreza, exploração dos menores não deixaram de chamar a atenção de Chesterton, tão zeloso e amoroso com o tema ‘lar’, que remete a família. Ele não se esqueceu que economia também significa ‘administração doméstica’, ‘administração do lar’. Tinha presente que a economia não é uma ciência exata e fria reduzida a dados quantitativos, mas sim humana, pois está atrelada diretamente as nossas relações humanas, devendo, portanto, ser pautada no respeito à dignidade da pessoa humana e em vista ao bem comum. Afinal, o princípio e fim de tudo estão na transcendência. Para Chesterton tudo começa na família, no lar. Fantástico mundo da criança, primeiro contato dela com a realidade. Ele via claramente o perigo da sociedade capitalista monopolista: “Um inimigo ainda mais feroz da família é a fábrica. Entre estas coisas mecânicas modernas a instituição natural antiga não está sendo reformada, modificada ou mesmo podada: ela está sendo dilacerada. E ela não está sendo dilacerada no sentido de uma metáfora verdadeira, como a de um ser vivo preso em uma engrenagem medonha de uma máquina. Ela está sendo, literalmente, rasgada ao meio, como quando o marido vai para uma fábrica, a esposa para outra, e a criança para uma terceira.

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Cada um deles se torna o servo de um grupo financeiro diferente, que cada vez mais ganha o poder político de um grupo feudal. Mas enquanto o feudalismo recebia a lealdade das famílias, os senhores do novo estado servil recebem apenas a lealdade de indivíduos, ou seja, de homens solitários e até mesmo de crianças perdidas.” O sistema capitalista monopolista afronta e embrutece o homem tornando-o escravo do materialismo. O socialismo, pelo contrário, também materialista, com seu falso messianismo, propõe a felicidade ao homem aqui na terra com a simples mudança do sistema econômico e sua ‘distribuição’. Isso, na verdade, é a posse por parte do Estado - que, diga-se de passagem, não é uma entidade sobrenatural – da propriedade privada, não oferecendo soluções concretas para o problema da má distribuição da propriedade e o bem comum. Chesterton via claramente os dois sistemas e seus respectivos erros. Dócil ao ensinamento do Magistério da Igreja, responde Chesterton e Belloc ao momento conjuntural complexo da Inglaterra com a teoria distributivista. Teoria essa que rapidamente começou a ganhar admiradores. Chesterton e Belloc criaram então a Liga Distributivista. O objetivo da Liga era “restaurar a propriedade”, segundo pronunciou Chesterton no discurso inaugural. Chesterton foi eleito o primeiro presidente da Liga. Ele escreveu uma série de artigos sobre sua teoria no G.K.’s Weekly, os quais foram compilados no livro The Outline of Sanity (1926).” Podemos ver claramente a influência das ideias distributivistas na obra O Senhor dos Anéis (escrito entre 1937 e 1949), de J.R.R. Tolkien, segundo Matthew P. Akers: “Tolkien inclui soluções distributivistas para os problemas associados com o desenvolvimento econômico em sua trilogia. O Condado, lar dos

Cena do Filme o Senhor dos Anéis. A obra de J.R.R. Tolkien apresenta princípios do distributismo de G.K. Chesterton e Belloc


Hobbits, sofre muitos dos problemas de nossa sociedade moderna, em particular uma crise econômica, a destruição de seu meio ambiente e a tentação do imperialismo. Examinemos, pois, como os Hobbits do Condado aplicam os princípios distributivistas a esses problemas para ver como poderíamos tratar esses mesmo problema em nossa sociedade”. Infelizmente o filme dirigido por Peter Jackson não reproduz muito bem essas passagens da obra. O Distributismo, basicamente, possui como bases três fundamentos presentes na Doutrina Social da Igreja: Propriedade Privada, princípio da Solidariedade e princípio da Subsidiariedade. Explicamos cada um deles: O primeiro e mais importante princípio do distributismo é o da Propriedade Privada. Para Chesterton a propriedade privada era sagrada. No universo de uma propriedade, pois a propriedade é “um território circunscrito em que ele [o homem] é rei”. Pois assim Chesterton defendia que “a propriedade privada deve ser distribuída com suficiente e decente igualdade”. Pois, como nos é lembrado por Leão XII, a propriedade “é de direito natural para o homem: o exercício deste direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente necessária” (12), afinal “não é das leis humanas, mas da natureza, que emana o direito de propriedade individual” (28). Todos os homens possuem, portanto, direito a uma propriedade. Isso é imprescindível para sua dignidade como pessoa, afinal, Deus deu a terra para que o homem a dominasse e não para que os homens a dominassem, no extremo oposto ao sentido de dominar cristão, uns aos outros. O tema propriedade privada terá tanta importância para Chesterton que em diversos artigos encontramos comentário a respeito do tema. Em um capítulo do livro The Well and the Shallows (1935) intitulado Sex and Property, Chesterton nos alerta para o risco de não usufruirmos bem da propriedade “a noção de reduzir a propriedade ao mero fruir do dinheiro é idêntica à noção de reduzir o amor ao simples gozo do sexo.” O segundo fundamento é o Princípio da Solidariedade que propõe, segundo Don Pedro Jiménez, em seu artigo, Sobre el distributismo , que aqui “não nos referimos a solidariedade vã e falsa, mas sim, uma muito profunda, que seria melhor chamada de caridade.” Pois, “o Estado deve trabalhar de maneira subsidiaria para o bem comum de cada comunidade. Não importa se perde eficiência em muitas coisas, o importante é trabalhar para e pelo bem comum, ou seja, tomar aquelas medidas que promovam a

virtude entre as pessoas e dessa maneira a sua felicidade.”[5] Por fim, o terceiro pilar da teoria é o Princípio da Subsidiariedade que propõe, também segundo Don Pedro Jiménez, “dito de uma maneira simples, que o que possa fazer uma entidade pequena não faça uma entidade grande. A entidade menor é o indivíduo, assim é que aquelas coisas que possam fazer o indivíduo não o faça as grandes empresas. O princípio de subsidiariedade deveria reger tanto na face econômica quanto política. Este princípio é básico e fundamental para o funcionamento de um sistema distributivista.” Ultrapassa minhas limitadas capacidades aprofundar mais sobre o Distributismo. Fica o convite para que conheçamos mais profundamente no estudo e aplicação da Doutrina Social da Igreja. Fica, também, o convite de Chesterton para conhecermos mais sobre o Distributismo. Concluo com um trecho do excelente (e recomendado) artigo do Padre Ian Boyd, uma das (eu creio que A) maiores autoridades sobre Chesterton no mundo, El distributismo y la crisis cultural, disponível no site The Distributism Review, a respeito do pensamento social de Chesterton: “O pensamento social de Chesterton está baseado na convicção de que Deus, que é a realidade última, está presente na sociedade e história do homem. LEÃO XII. Carta Encíclica Rerum Novarum. Sobre a Condição dos Operários. Publicada em 1891. Confira aqui: http://www. vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l-xiii_ enc_15051891_rerum-novarum_po.html CARTA ENCÍCLICA Chesterton G. K. Capítulo Why I am a Catholic, disponível na obra Twelve Modern Apostles and Their Creeds (1926). Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo. Leia mais: http://chestertonbrasil.blogspot.com/search/label/Por%20que%20sou%20 cat%C3%B3lico#ixzz1nJZy3H79 CHESTERTON, G.K. The Superstition of Divorce. Capítulo A história da família. Tradução: Carlos Ramalhete. Confira aqui: http:// chestertonbrasil.blogspot.com/2012/02/v-historia-da-familia. html#ixzz1nJh3Lg2a Matthew P. Akers. Publicado na revista Distributims Review. El Distributismo en la Comarca. Tradução : Alfonso Díaz Vera. http://distributistreview.com/mag/2011/03/el-distributismoen-la-comarca/ Don Pedro Jiménez de León. Sobre el Distributismo, artigo publicado na Distributism Review. Confira aqui: - http://distributistreview.com/mag/2010/06/sobre-el-distributismo/

O Distributismo, basicamente, possui como bases três fundamentos presentes na Doutrina Social da Igreja: Propriedade Privada, princípio da Solidariedade e princípio da Subsidiariedade

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Coluna - Pe. Mateus Maria

Em Preparação para a Páscoa do Senhor Quero meditar convosco uma bela passagem do Evangelho, com um olhar pascal, dando uma ênfase especial sobre o tema: “Coragem! Não tenhais medo! Eu estou à vossa frente!”. Vivemos hoje em uma sociedade medrosa, em que muitas pessoas, ou até mesmo muitos de nós, vivem escravos do medo, medo da morte, medo da violência, medo do futuro, medo das pessoas, medo de Deus, medo do diabo, medos e mais medos, que levam a uma angústia e uma depressão profundas. Diante destes medos, sinto a moção do Espírito Santo, para lhes transmitir nesta Páscoa, uma palavra de vida, de amor, uma palavra de ânimo, de esperança e esta palavra está em Marcos 16,1-17, uma palavra vivificante, que nos convida a olhar a nossa vida com o olhar de Deus, a buscar viver como ressuscitados. No Evangelho que iremos meditar, enfatizarei o modo como olhamos para os problemas, mostrando que devemos olhar tudo com o olhar do Ressuscitado. Este texto nos dá a chave de interpretação para enfrentarmos os problemas com a força de Deus, para vivermos sem medo, para vivemos já a vida de ressuscitados, pois, se não amamos, se temos medo, vivemos a morte, sinal que ainda não ressuscitamos, e esta é a chave também para entendermos toda a Sagrada Escritura. Neste Evangelho, desceremos para a vida concreta e analisaremos a figura das mulheres, das santas mulheres, as quais no Evangelho não fazem o papelão como os apóstolos, mas amam e descobrem o caminho da ressurreição seguindo a voz do amor que fala ao coração. Nesta passagem, contemplaremos a experiência das santas mulheres, podemos dizer, a experiência do discípulo, que passa da visão negativa da morte, da desgraça e do fracasso, a ressurreição do Senhor em seu coração, e passam a ver a vida com um olhar novo, com o olhar do ressuscitado, que caminha à frente deles, que lhes abre o caminho e os precede e diz: “Coragem, não tenhas medo! Eu estou a vossa frente!” Vamos ler juntos o texto de Marcos, cap. 16, 1-8: 1.Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir o corpo de Jesus. 2. E no primeiro dia da semana, foram muito cedo ao sepulcro, o sol não havia despontado. 3. E diziam entre si: Quem nos removerá a pedra da entrada do sepulcro? 4. Levantando os olhos, elas viram removida a pedra, que era muito grande. 5. Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. 6. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram. 7. Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro, que ele vos precede na Galiléia. Lá o vereis como vos disse. 8.Elas, em tremor e fora de si, saíram e Pág 38 - Ed. 5 - 2012

fugiram do túmulo. E não disseram nada a ninguém, pois estavam com temor. Que bela narração, que belo sentir as palavras divina: “Ele (Jesus) vos precede na Galiléia”. É o mesmo que escutarmos da boca de Jesus “Eu vos precedo, Eu estou à tua frente, em cada situação do teu cotidiano, da tua vida, eu estou lhe abrindo o caminho, caminhe nesta fé, caminhe, pois eu caminho à tua frente e te espero”. Ele que é o Caminho, a Verdade, a Vida, o Vivente, a Ressurreição, aquele que precede o nosso caminho, caminha diante de nós, à nossa frente, e se caminhamos seguindo-o, caminhamos na paz e é este o anuncio que devemos dar, pois, se Jesus é ressuscitado e nos precede, ele já caminha à nossa frente, e nos ajuda a vencer, e é ele que lutará por nós, a nosso favor, pois, com ele, já possuímos a vitória, então, seguindo Jesus, enfrentaremos os problemas de forma já ressuscitada, com a sua, força com a sua dimanes (com sua potência – palavra grega), com o seu olhar. Agora vamos fazer a Lectio Divina Cursiva do Evangelho? 16,1. Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir o corpo de Jesus. Aos pés da cruz, vemos estas três mulheres que se confrontam com a morte e que, diante do sepulcro, encontram não um Deus morto, mas um jovem, símbolo da vida nova que brota da Cruz, da morte Igreja, que anuncia o Evangelho e, de fato, elas anunciaram o Evangelho até para os apóstolos. E como seria bom que hoje muitos leigos pudessem se levantar e anunciar o Evangelho à Igreja, que em parte não o vive mais, por causa da desunião, do poder, do orgulho, da prepotência, da troca da verdade pelo silêncio comprado pelo dinheiro. 16,2. E no primeiro dia da semana, foram muito cedo ao sepulcro, o sol não havia despontado. Elas amavam tanto o Senhor que saíram de madrugada de suas casas, compraram os aromas, as essências, para ungirem o corpo do Senhor. Fizeram isto porque possuíam uma veneração ao Senhor, gastaram tempo, dinheiro, mas, o problema é que não tiveram o discernimento de constatar que era Domingo, o terceiro dia, o dia da ressurreição e interpretaram os sinais de vida, como sinais de morte. Quantas vezes nós interpretamos os acontecimentos da nossa vida como coisas negativas e não vemos a mão do Senhor que guia tudo! 3. E diziam entre si: Quem nos removerá a pedra da entrada do sepulcro? Elas tinham muita boa vontade, mas pouco raciocínio, pois quem, ou como, tirariam a pedra do sepulcro? Força masculina e meios para mover a pedra que fechava o sepulcro elas não tinham, mas tinham amor, e muito desejo de se encontrarem no-


vamente com o Senhor (dão um show de bola nos apóstolos!). Vemos que o problema para elas não era a pedra, mas o sepulcro, e nele está a imagem da terra que sepulta a nossa vida, sepulcro este que para uns é o fim do caminho e para nós que cremos na ressurreição na vida, o inicio da verdadeira vida. 4. Levantando os olhos, elas viram removida a pedra, que era muito grande. Olhando elas percebem que esta grande pedra não estava ali, não existia mais, esta pedra é o símbolo espiritual, daquilo que separa a morte da vida, atrás desta pedra nós vemos a morte, o nosso destino, a nossa angústia, que diante da ressurreição não existe mais, mas não basta elas permanecerem fora, elas entram, e o que encontram no sepulcro? 5. Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Esperavam encontrar um morto e encontram um jovem, símbolo da vida nova, sentado do lado direito que significa a destra de Deus, o poder de Deus que age em sua plena potência de amor, que dá vida e em vez de encontrarem um homem nu, envolvido em alguns panos, encontram um jovem vestido de branco, como vencedor, e se assustaram porque esperavam encontrar sinais de morte, porém, ficaram surpresas porque encontraram o que não esperavam: encontraram uma vida que não conheciam. E, quem será este jovem? 6. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram. O jovem lhes falou: “Não tenhais medo!” Ele sabia que o coração delas diante do inesperado tremia, elas estavam sem chão e, por outro lado, o Jovem tenta acalmá-las e diz que Jesus de Nazaré não está ali. Esta informação é muito importante, pois se Ele estivesse ali, não haveria o Evangelho. Se Jesus estivesse ali com o seu corpo morto, ele seria mais um bom exemplo como Sócrates, Buda, Gandhi e tantos outros. A vida não seria renovada, mudando assim toda a história da humanidade e a nossa história pessoal. Se Ele não ressuscitasse, o sepulcro seria o fim último do homem. Mas a palavra definitiva da vida humana não é o sepulcro, é a ressurreição, a vida nova, e aqui está a nossa esperança para atravessarmos este vale de lágrimas que vivemos. O sepulcro está vazio ainda hoje. Este é o sentido de muitos irem à Jerusalém em peregrinação e lá dizer em comunhão com toda a cristandade: “Ele não está aqui!”. Ao sepulcro iremos todos nós, mas apenas Cristo venceu a morte e este sinal vemos por meio do sepulcro vazio. Devemos então entrar no sepulcro vazio, para viver uma vida livre, ressuscitada, entrar no sepulcro vazio do nosso coração e lá encontrarmos a ressurreição, lá nos libertarmos com a luz de Cristo de tudo o que nos acorrenta e lá den-

tro escutar a voz do Senhor que nos diz: “Coragem não tenhais medo eu vos precedo!”. Escutar a voz do Senhor que nos chama ao abandono em suas mãos, a confiar. Sabemos que não basta dizer que o sepulcro está vazio, é necessário fazer a experiência da ressurreição e do Ressuscitado em nossa vida, é necessário fazer o caminho para encontrá-lo. Mas o encontro com o Ressuscitado não é algo difícil, se assim fosse, o Senhor não teria nos deixado esta possibilidade porque ele por primeiro sabe que nós somos especialistas em complicar as coisas. Encontrar com o Ressuscitado quer dizer ressuscitar também, ver a vida com outros olhos, com positividade, com amor, como um dom, para ser bem vivido. Se você se encontra com uma tocha de fogo, você se queima, se você se encontra em um rio de água, você se molha, se você se encontra com Cristo, você deve também ressuscitar para uma nova vida porque você recebe o dom do Espírito. Neste tempo forte da Páscoa, somos convidados a fazermos a experiência da ressurreição de Cristo na nossa vida, para nos transfigurar Nele já nesta vida, para sermos o sorriso de Deus a todos que encontrarmos, a vivermos já com Ele, para termos a esperança no nosso coração, sabendo que tudo está nas mãos de Deus, por isso é mister entender a paixão e a cruz é o meio para entendermos a ressurreição e mergulharmos nela, pois sem cruz, não há ressurreição, sendo que ela é a próprio potência de Deus, a força que já pode nos fazer ressuscitar e abrir-nos a uma nova vida, uma nova esperança. A pergunta que devemos nos fazer é: Qual é a nossa esperança? Estamos vivendo com um olhar de morte ou de vida? Como se encontra o nosso coração? Cheio de Deus ou vazio? O nosso coração está vazio? E por falar em vazio... O sepulcro está vazio até hoje, mas, o sepulcro vazio que nos narra o Evangelho nos aponta a esperança da ressurreição, ou seja, ele deve ser entendido como o quarto nupcial onde a terra acolhe o esposo, metáfora do seio que acolhe o verbo de Deus, e neste seio, se nota o silêncio da dor, a aparente vitória do Mal, contudo, neste misterioso silêncio noturno da passagem das trevas da noite para a aurora do novo dia, surge a ressurreição, fato que ninguém presenciou, mas que marcou a história de toda a humanidade, ou melhor, constitui-se agora uma nova humanidade gerada para uma nova esperança, a ressurreição, a qual somos convidados a anunciar. 7. Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro, que ele vos precede na Galiléia. Lá o vereis como vos disse. É interessante que o final do Evangelho de Marcos nos manda novamente a Galiléia, a vida cotidiana, ali onde começou o Evangelho, o chamado dos primeiros discípulos, e o Jovem, que é a própria figura do Cristo, as envia a anunciar a Pedro, dizendo que Jesus lhes precede lá na Galiléia. Isto para dizer que este jovem, que é o próprio Jesus que anuncia o Evangelho, os convida a converterem-se ao Evangelho voltando para a sua própria Galiléia, a sua própria vida, lá onde tudo começou, mas agora de um modo diferente, seguindo Jesus em todo o seu Evangelho. O Evangelho é, então, o encontro como Senhor! Um encontro feito não de sabedoria, não de estudo, mas de vivência, de partilha, de vida que gera vida. É necessário então tocar o ressuscitado e experimentar a força da sua ressurreição. 8. Elas, em tremor e fora de si, saíram e fugiram do túmulo. E não disseram nada a ninguém, pois estavam com temor. Um dado interessante é que o Evangelho termina com este versículo dizendo que as mulheres se calaram e não disseram nada a ninguém. Acho que este é o grande milagre do Evangelho... risos.. Estou brincando, voltemos à seriedade... Pág 39 - Ed. 5 - 2012


Jesus dizia para elas não temerem e elas plenas de temor! Jesus dizia para elas anunciarem e elas fogem e se calam! A primeira reação delas é a nossa diante das manifestações de Deus, diante das situações concretas de nossas vidas, nas quais nós não entendemos os porquês e os para quê, dos acontecimentos. A primeira reação que elas têm é a de medo, porém, deveriam ter tido fé; o comportamento é de fuga, em vez do seguimento e a atitude é do silêncio em vez do anúncio. E a Ressurreição será para elas, como é também para nós hoje (se fazemos a experiência do encontro pessoal com Jesus), a passagem do medo para a coragem, da fuga para o seguimento e do silêncio para a palavra que anunciarei. Assim a vida de cada um não permanecerá no sepulcro e na depressão, mas na vida nova dada por Jesus. Assim termina o Evangelho em Marcos, para dizer que o Evangelho não termina ali no sepulcro, mas na vida nova, na vida do Senhor que nos amou e nos deu a sua própria vida. Muitas vezes somos assolados por tantos medos, nos sentimos sozinhos; pode até ser que você que está lendo este artigo sinta-se abandonado por Deus, fraco, sem vontade de viver ou até mesmo com vontade de tirar a sua própria vida, sem forças para caminhar, sentindo-se morto espiritualmente, porém, eu te digo, o senhor ressuscitou e quer te ressuscitar! Todos os nossos sentimentos negativos interiores trazem uma grande frustração e depressão, nos bloqueiam, nos fazer ter medo, nos tiram a coragem até para recomeçar um novo caminho, como se tudo estivesse perdido, mas a última palavra é a de Deus em nossas vidas, embora muitas vezes estamos presos e fechados em nós mesmos e para o mundo, mas o Senhor da mesma forma que veio para os seus discípulos amedrontados, hoje vem para nós dizendo: A paz esteja convosco! Irmãos, não quero fazer tanta reflexão teológico sobre o medo e a esperança da ressurreição, porque não sou capaz para isso, mas quero apenas terminar esta reflexão dizendo que se desejamos viver a vida de ressuscitados, o caminho é apenas um: “amar”, a Deus para amar os irmãos. A vida nova é amar os irmãos, pois quem ama, vive já a vida da ressurreição, pois o amor arranca do coração todo o temor. Termino esta carta de augúrio de uma Feliz Páscoa em nome de todos os irmãos e irmãs de nosso Mosteiro, com as lindas palavras do Papa Montini, ainda quando era cardeal, pronunciadas em duas homilias, 26/06/1955 e 26/09/1958: “Sim, irmãos, A Igreja, Nosso Senhor vos envia fracos, em meio aos fortes, desarmados, entre os armados, vos envia como arautos do amor, em um campo de ódio e morte, vos envia como profetas do espírito em um mundo, e em um mercado da matéria, vos envia como anunciadores do futuro prometido, com a riqueza de uma tradição, em um mundo sem esperança, sem um ontem e sem um amanhã, em um mundo baseado na conquista do sucesso presente. A Igreja não vos garante a tranquilidade ou imunidade, mas lhes diz com Cristo: ‘Nolite Temere!’ Não tenhas Medo! Hoje a Igreja, tem necessidade de uma fidelidade maior, pois o perigo na luta que ela enfrente, exige um amor maior a Ela e a Cristo, um amor sem medos, um amor maior, porque muitos filhos não Pág 40 - Ed. 5 - 2012

a amam mais. ‘Nolite Temere!’ Não tenhas Medo! A vida com Cristo é grandiosa, maravilhosa, mas ao mesmo tempo é um risco, não é feita para os oportunistas, mas é feita de amor e sacrifício, de risco e confiança. Devemos saber que estamos em uma trincheira, onde nós devemos estar bem armados, pois se não estamos armados, e não somos capazes de combater, estamos já derrotados. Pode ser que na dura luta não resistiremos, mas o Senhor está conosco e não temos o que temer. Posso até dizer que a Providencia, quer que nós a sua Igreja, sejamos militantes, e ainda mais, nós que fizemos um juramento a Cristo, um voto, uma promessa no altar, nos oferecemos como sacrifício, e neste mundo moderno, devemos testemunhar o evangelho, devemos sofrer as suas consequências, sem medo.” O Senhor não quer aplainar as estradas, não quer tornar fácil o nosso caminho, o nosso ministério, não quer tornar a sua Igreja triunfante, mas nos quer sofredores, lutadores, que deem o testemunho com perseverança, dom fadiga, com suor, e se a ele agradar, também testemunhar com o sangue, sangrando de fidelidade e amor a Cristo. Ousemos irmãos, ‘Nolite Temere!’ Esta expressão retorna sempre no evangelho, Não tenhas Medo! Mostremos ao Senhor que o queremos bem. Sejamos dispostos a superar os medos, a ignorar também os insucessos, sejamos dispostos a sacrificar-nos, e a fazer as coisas para o Senhor, para a Igreja, para os irmãos de modo sério, pois se tivermos esta psicologia de querer enfrentar e afrontar os problemas, o mundo, e aquilo que a providência nos colocar a diante no caminho, enfrentando com o Senhor, já somos mais que vencedores! Ousemos! Por fim, eu não tenho mais o que dizer e a oferecer-vos, além destas palavras: Nolite Temere!’ Não tenhas Medo! E recordolhes que Jesus é nosso guia, o mestre, ele é o Senhor vivo na vossa alma, é a vossa coragem, e deseja dar-vos uma grande recompensa, e vos promete: “Gaudete autem, quod nomina vestra scripta Sun in caelis” LC 10,20 “Os Vossos nomes estarão escritos no céu!”. Feliz Páscoa!!!! O Senhor Ressuscitado está a nossa frente! Nolite Temere! Pe. Mateus Maria, FMDJ grupodeoracao@mosteiroreginapacis.org.br http://nossasenhorademedjugorje.blogspot.com/


Coluna - Márcio Antônio Campos

Latidos de buldogue O naturalista britânico Thomas Henry Huxley se descreveu uma vez como “o buldogue de Darwin”, por sua atuação em defesa da teoria da evolução e de seu formulador. Ele também foi o responsável por cunhar o termo “agnóstico” para designar aqueles que dizem não haver elementos para afirmar ou negar de forma irrefutável a existência de Deus (esse modo de pensar, obviamente, é bem mais antigo; o crédito de Huxley foi ter criado a palavra). Especialmente conhecido por seu debate com o anglicano Samuel Wilberforce em 1860, Huxley escreveu sobre ciência e religião e três de seus textos foram publicados pela Editora Unesp sob o título Escritos sobre ciência e religião (R$ 25). É um livro curtinho, para ler em um dia. Um fio que liga os três textos apresentados é a defesa das ciências naturais, com a qual ninguém pode deixar de concordar. Mas não posso considerar válidas todas as suas conclusões, como a apologia ao cientificismo e a ideia de que a ciência é inimiga do sobrenatural. Depois de uma breve introdução sobre a vida e as ideias de Huxley, o livro começa com Sobre a conveniência de se aperfeiçoar o conhecimento natural, uma conferência apresentada em 1866. O ano marcava o bicentenário de um grande incêndio que devastou Londres; um ano antes do fogo, a peste havia aterrorizado os londrinos. Huxley compara as atitudes das pessoas diante das duas tragédias: resignação diante da doença, vista como um castigo divino; e revolta com o incêndio, com a procura incessante por culpados. Nos dois séculos seguintes, nenhuma das duas calamidades se repetiu, mas não porque os londrinos estivessem rezando mais ou porque os grupos subversivos tinham sido derrotados, e sim graças ao avanço das ciências, personificado na Royal Society, fundada algumas décadas antes dos dois desastres. Então, o que faz o mundo avançar é o desenvolvimento da ciência, e não as inutilidades dos escolásticos, diz Huxley; ele critica os detratores da ciência, que, segundo o autor, a veem não como a “verdadeira mãe da humanidade”, mas como uma fada-madri-

nha cuja única tarefa é propiciar confortos e avanços supérfluos. Para Huxley, o conhecimento natural, ao procurar erigir as leis do bem-estar, foi levado à descoberta de leis de conduta e a estabelecer os fundamentos de uma nova moralidade (p. 44). A seguir, o autor diz que os rudimentos das ciências foram lançados assim que o homem passou a usar sua inteligência para perceber algumas coisas básicas. Da consciência de sua limitação, surgiu o sentimento religioso, afirma Huxley. A busca por inovações tecnológicas (descobrir a melhor época para plantar, ou como trazer água de um lugar para outro) impulsionou o conhecimento científico; astrônomos e biólogos mostraram o lugar da Terra e do homem dentro do universo. A religião também passou por mudanças: se a religião do presente difere da do passado, isso se deve ao fato de que a teologia do presente tornouse mais científica que a do passado, diz Huxley. Quanto à “nova moralidade”, o autor afirma que ela se baseia na rejeição da submissão à autoridade, na “justificação pela verificação”. Huxley prevê que, à medida que essas ideias se espalharem, a humanidade descobrirá que não há senão um tipo de conhecimento e não mais que um método para adquiri-lo. Estamos diante de uma defesa pura e simples do cientificismo, e aí me vejo obrigado a lembrar a aula que tive com Ian Hutchinson em Cambridge, em julho do ano passado, quando ouvi dele uma refutação ao cientificismo. Também é impossível não lembrar do debate entre Lennox e Dawkins e a famosa pergunta sobre o “comprovação científica” do amor da esposa. O natural e o sobrenatural é o mais longo dos textos do livro e foi extraído da obra Questões controversas, de 1892. Huxley começa dizendo que o homem assumiu como certa a existência de um mundo “natural”, sujeito a leis, e um “sobrenatural”, independente dessas leis, com entidades superiores e poderosas; e que, se alguma dessas esferas precisa ser negligenciada por algum motivo, seria a da natureza. Mas esse comportamento, diz Huxley, não compensa, porque o homem sempre lucrou ao dar atenção à natureza, especialmente com o desenvolvimento das artes e das ciências; enquanto isso, a atenção ao sobrenatural levou a um Pág 41- Ed. 5 - 2012


sem número de religiões. Para o autor, existe uma competição entre essas duas realidades, e quanto mais voltamos no tempo, mais percebemos uma preponderância do sobrenatural, que vem minguando e dando espaço ao natural. Se isso indica progresso ou decadência da humanidade, Huxley se abstém de dizer; mas faz questão de mostrar que a diferença existe. A “questão controversa” de seu tempo, afirma, é até onde vai esse processo. O que me parece é que Huxley simplesmente associa “religião” à superstição; concordo plenamente que o avanço da ciência reduz a superstição (essa foi uma das primeiras coisas que apareceram no blog); mas a religião em si não participa de um jogo de soma zero com a ciência, em que um precisa se retrair para que o outro avance. A seguir, Huxley gasta algumas páginas em uma crítica especial ao protestantismo, que, na sua opinião, se propunha a “libertar a razão”, mas não fez mais que substituir os mestres. O autor também aponta as contradições do princípio da Sola Scriptura, afirmando que ele não tem mais sustentação que o da infalibilidade papal (definida pelo Concílio Vaticano I duas décadas antes do texto de Huxley), e contrapõe as atitudes dos primeiros reformadores à de Erasmo de Rotterdam, que o autor considera um “Voltaire ecumênico”. Huxley segue descrevendo uma “insurreição cética” na primeira metade do século 17 e uma reação sobrenaturalista, caracterizada principalmente por uma adesão irrestrita a uma interpretação totalmente literal da Bíblia; Huxley cita não apenas os sermões que ouvia na infância como também uma declaração assinada por 38 clérigos anglicanos em 1891, defendendo a literalidade completa; ele diz acreditar que o documento seja, em parte, uma reação a um avanço do naturalismo dentro do próprio clero anglicano, que já não creem em uma criação em seis dias de 24 horas ou em um dilúvio universal. Huxley critica, e acertadamente na minha opinião, a associação entre aceitação do sentido literal de toda a Bíblia e fé no sobrenatural, como se a segunda exigisse a primeira; cita santo Agostinho, que tinha sua própria interpretação da criação (e isso é um dos fatores que abala o argumento de “apelo à Antiguidade” dos 38 clérigos anglicanos). Mas Huxley também afirma que “as forças remanescentes de sobrenaturalismo” (todas elas, literalistas ou não) enfrentam “um inimigo cujos poderes apenas começam a se manifestar e cujas forças, ganhando alento ano a ano, cercam-nas por todos os lados”: a ciência, que estaria estendendo seu método às alegações relativas ao mundo sobrenatural. No entanto, Huxley não faz muito mais que alegar que a ciência comprova a impossibilidade de um dilúvio universal e mostra que o processo de surgimento do mundo levou muito mais que seis dias de 24 horas; ora, com isso muitas pessoas religiosas (a maioria, diria eu) concordam, e Huxley parece ver nisso mera manipulação de “reconciliadores modernos”. É verdade que existe o argumento segundo o qual se as afirmações x e y das Escrituras são incorretas, por que as demais não seriam? Argumento que obviamente ignora toda a análise literária dos gêneros usados na Bíblia.

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“A fraseologia do sobrenaturalismo pode continuar nos lábios dos homens, mas na prática eles são naturalistas”, alega Huxley, citando exemplos, uns mais esdrúxulos que outros, como se o conhecimento científico atual excluísse totalmente o recurso à oração. Mas ele atesta pelo menos uma limitação da ciência em relação ao sobrenatural: ela não leva à negação da existência de qualquer sobrenatureza, mas simplesmente à negação da validade de evidência aduzida em favor desta ou daquela forma existente de sobrenaturalismo. A ciência não tem como comprovar a inexistência da divindade, e por isso Huxley defende a “confissão agnóstica” como a única posição possível para pessoas que se recusam a dizer que sabem aquilo que estão bem cientes de que não sabem. É certamente uma posição bem diferente do ateísmo que afirma explicitamente e categoricamente não haver Deus. O terceiro texto, Ciência e cultura, é o que menos tem a ver com o nosso tema: um discurso proferido em 1880, na inauguração de uma faculdade que hoje é parte da Universidade de Birmingham. Huxley faz a defesa do ensino das ciências no ambiente universitário, contra aqueles para quem o ensino superior deveria se dedicar exclusivamente a uma formação clássica (quando muito, incluindo a literatura moderna). Huxley não chega a dizer que os estudos clássicos ou a literatura em inglês, francês ou alemão sejam inúteis, mas que a importância dada a eles, na comparação com a prioridade dada às ciências, é exagerada. Neste discurso, a religião só entra em cena quando Huxley faz um histórico da educação. Referindo-se ao que parece ser a Alta Idade Média, afirma que nossos ancestrais aprendiam que toda a existência material não seria senão uma grosseira e insignificante mancha na bela face do mundo espiritual, e que a natureza era, para todos os propósitos e para todas as intenções, local de recreio do demônio; aprendiam que a Terra era o centro do universo visível e o homem, o cerne das coisas terrestres; e mais especialmente inculcado era que o curso da natureza não tinha ordem fixa, mas que poderia ser, e constantemente foi, alterado pela agência de inumeráveis seres espirituais, bons e maus, conforme acionados pelos feitos e pelas preces dos homens. (p. 127) Nada mais falso. Algumas frases se aplicam, no máximo, a maniqueus e cátaros; de resto, como lembra Thomas Woods em sua série de vídeos, devemos especialmente ao Cristianismo a noção de um universo ordenado, com leis que podem ser conhecidas e descritas pelo homem. O trecho citado inclusive parece contradizer o que o próprio Huxley disse no discurso de 1866: Duvido que o mais grosseiro dos adoradores de fetiches tenha jamais imaginado que uma pedra contivesse um deus que a fizesse cair, ou que uma fruta contivesse um deus que a levasse a ter um sabor doce. Em relação a questões como essas, não se pode questionar que a humanidade, desde o início, assumiu posições estritamente positivas e científicas (p. 47). O Cristianismo não suprimiu essa percepção; ele a reforçou. Uma pena que, para exaltar a ciência, Huxley tenha resolvido pintar um quadro distorcido dos demais tipos de conhecimento.


Coluna - Lizandra Danielle

Estigmatizado no século XX Francesco Forgione mais conhecido como Padre Pio de Pietrelcina, nasceu no dia 25 de maio em 1887, em Pietrelcina. Desde criança foi um bom religioso, grande devoto de Maria Santíssima e de Jesus Cristo. Tão grande devoção lhe trouxe a intimidade para conversar com Nossa Senhora e com seu anjo da guarda, inclusive, era tão natural conversar com ambos (Maria Santíssima e o Anjo da guarda) que Francesco ficou assustadíssimo quando soube, tempos depois, que as outras pessoas não os viam e nem conversavam com eles. Quando entrou no noviciado com 15 anos, em Morcone, adotou o nome de frei Pio. No dia 10 de agosto de 1910 foi ordenado padre em Duomo de Benevento. Padre Pio adquiriu grande veneração popular pelos seus supostos milagres de cura. Veneração repudiada por ele. Curou muitas pessoas pedindo para si as doenças. Muitos desses milagres, não são seguros ou até mesmo inexistentes. Não há nenhum parecer médico, sendo assim difícil chegar a alguma conclusão, por isso a questão permanece aberta. Ele dedicou toda a sua vida ao Ministério da Confissão, buscava redimir todos os pecadores e protegê-los das artimanhas do demônio, quem lhe odiava e torturava até mesmo fisicamente. Permanecia a maior parte do tempo no confessionário e não se alimentava direito. Habitualmente não comia pela manhã, almoçava frugalmente e fazia longos jejuns. Um relato muito interessante contado pelos companheiros do convento: houve uma época em que Padre Pio permaneceu quarenta dias em jejum, sustentado apenas pela Eucaristia que tomava todos os dias. Trata-se de um relato crível, porém não há nenhuma confirmação oficial. Fisionomia A fisionomia de Padre Pio foi descrita pelo inquisidor Dom Rafaello Carlos Rossi. Segundo ele, Padre Pio possuía uma cor pálida, com aspecto enfermo e sofredor, porte flácido, os olhos castanhos possuíam um olhar vivo, doce e, por vezes vago, mas sempre com uma expressão de bondade e de sinceridade. Seus companheiros do convento lhe apresentaram como um homem muito agradável, extrovertido, sereno e brincalhão, característica confirmada por Dom Rossi, que lhe fez uma visita apostólica, para investigar todos os acontecimentos que serão narrados a seguir. Um grande milagre Era 20 de setembro de 1918, em uma manhã igual a qualquer outra, Padre Pio estava no coro fazendo a ação de graças, logo depois de ter celebrado a Santa Missa quando, de repente, apoderou-se dele um grande tremor seguido de uma grande calmaria, à

sua frente lhe apareceu a imagem de Nosso Senhor em atitude de quem está numa cruz, mas a cruz era imperceptível. Jesus crucificado se lamenta pela ingratidão das pessoas, especialmente das consagradas a Ele e por Ele mais favorecidas. Padre Pio percebia que Ele sofria amargamente e que desejava associar almas à sua Paixão. Então ele recebe um convite inesperado e desafiador do próprio Deus, para que compenetre das suas dores, a meditá-las e ao mesmo tempo ocupar-se da salvação dos irmãos, missão que o próprio padre sempre desejou. Sentindo compaixão pelas dores do Senhor, perguntou-lhe o que podia fazer e o Crucificado lhe dirigiu essas palavras: “Associo-te à minha Paixão”. Depois disso a visão desapareceu, Padre Pio caiu em si e viu os sinais da Paixão em seu próprio corpo, no qual gotejavam sangue. Esse acontecimento extraordinário e chocante foi relatado pelo próprio Padre Pio ao inquisidor Dom Rossi: o momento em que ele passou a fazer parte do sacrifício de Cristo. A admiração e a fama de santidade que ele já tinha na região só aumentaram em decorrência de tal fato. A partir daí, muitos médicos, professores e cientistas se interessaram pelo caso de Padre Pio. No início dos estigmas, as dores apareciam na quinta à noite e desapareciam no sábado de manhã, exatamente no mesmo período em que Jesus morreu na cruz. Mas tempos depois, as dores passaram a ser contínuas. Quando Padre Pio celebrava a Santa Missa, seus estigmas sangravam e, para não pingar sangue no altar, ele usava meias-luvas de lã nas mãos. Nos interrogatórios feitos pelo inquisidor, Padre Pio afirma que sente dores continuamente, sente as mãos adormecidas com dores agudas no centro e internamente, dores que em alguns momentos chegavam a ser insuportáveis, tanto nas palmas quanto nas costas das mãos. Eram feridas que não apresentavam inflamação, não supuravam e nem se curavam. Aspecto dos estigmas Os estigmas das mãos não eram idênticos, cada um possuía uma característica única. A mão direita apresentava uma mancha circular Pág 43 - Ed. 5 - 2012


com aproximadamente 5 cm de diâmetro. A mão esquerda era uma mancha de aproximadamente 2 cm. Não havia nas mãos nenhuma lesão que explicasse o sangue, ou seja, não havia nem um corte, nem um arranhão. Nada. A conclusão é de que o sangue afluía por “transudação”. Os estigmas dos pés eram semelhantes a dois botões. Mas eram bem diferentes dos estigmas das mãos. Em algumas épocas quase desapareciam, mas reapareciam. Tinham o aspecto de feridas, sem a presença de sangue e possuíam cor esbranquiçada. O próprio Padre Pio relatou que a maioria dos exames feitos por vários médicos, possui descrições diferentes, pelo fato de que os estigmas nunca permanecem em um mesmo formato ou intensidade. Por fim, o estigma do peito, o mais problemático, porque sempre assumia formas diferentes a cada vez que era observado. Em maio de 1919, o doutor Romanelli examinou os estigmas do peito de Padre Pio e observou que era uma ferida lacerada com a aparência de um corte de 7 cm de comprimento que acompanhava a direção de uma costela. Em julho de 1919, dois meses depois do primeiro exame, o professor Bignami observou que a chaga do peito tinha mudado para uma figura semelhante a uma cruz, uma ferida sem aprofundamento. O Padre Paolino de Casacalenda relata que a chaga tem a forma de um X, e é profunda. Em 1025, o doutor Festa examina a chaga do peito e relata que é possui uma forma de cruz e que misteriosamente emite pequenas radiações luminosas nas bordas. Já Dom Rossi descreve a chaga do peito, de uma forma totalmente diferente das outras: diz que quando ele observou o peito de Padre Pio, tinha uma mancha triangular acompanhada de outras 6 pequenas manchinhas e acima, mais uma mancha maior, finalizando em 8 marcas. Mas será mesmo verdade? Poderia ser uma fraude? Ao ler todas essas afirmações, você pode ter pensado em algumas hipóteses de fraude dos estigmas, como por exemplo, a hipótese de uma autoestigmatização, por uma sugestão ou aplicação voluntária de meios artificiais. Algumas pessoas acusaram Padre Pio de uso de produtos químicos para abrir feridas nos locais das chagas de Jesus, pelo fato de que ácido fênico puro foi requisitado pelo padre, para a desinfecção de seringas e injeções. Outro produto suspeito foi a veratrina, produto que foi utilizado por um confrade no convento, para fazer uma brincadeira com seus companheiros, colocando o pó em um tabaco e oferecendo-o aos colegas. Era um veneno Pág 44 - Ed. 5 - 2012

desconhecido para Padre Pio e, para repetir a brincadeira no recreio, e rir-se de alguns confrades, ele solicitou 4 gramas do pó. Além desses dois produtos, o Estigmatizado também usava alguns medicamentos para supostamente desinfetar as feridas e estancar os sangramentos. A tintura de iodo usada para esterilizar as chagas, poderia dar origem ao ácido iodídrico, conservando mais os estigmas. Foram coletados vários depoimentos dos jurados. Alguns disseram que o padre usava a tintura de iodo não para esterilizar, pois seria estranho esterilizar algo que ele dizia ser miraculoso, mas sim, para estancar o sangue que quase sempre estava jorrando. Também usava vaselina e glicerolato de amido, indicação de várias pessoas, para quando as chagas formassem crostas. Algum tempo depois, um médico o proibiu de usar a tintura do iodo para evitar uma irritação maior nos tecidos cutâneos. A partir daí, Padre Pio interrompeu o uso de qualquer tipo de medicamento nas chagas e, mesmo assim, depois de anos, as feridas continuaram intactas. Exclui-se, assim, a hipótese de autoestigmatizaçao. Outra hipótese é a de que poderia ser uma autosugestão, de causa psicológica. Será mesmo que alguém aguentaria permanecer em um estado do sofrimento contínuo por dor durante anos? Alimentando o psicológico durante quase a metade da vida, para sentir o mesmo que Jesus sentiu na cruz? Não poderia ser possível. Além do que, Padre Pio nunca apresentou nenhum quadro clínico de doenças nervosas, histeria ou algo do tipo. Mas, os estigmas poderiam ser de origem diabólica? Padre Pio sempre foi um exemplo de pessoa, de cristão católico e de padre. Por mais que o demônio o combata até mesmo fisicamente - possivelmente pela sua grande santidade reconhecida até pelo inimigo – as virtudes e a piedade do padre não permitiriam que o demônio tivesse tanto poder sobre ele a ponto de se submeter aos fins diabólicos. Portanto, resta a hipótese de uma origem divina somente. Curiosidades sobre Padre Pio e seus estigmas • Todas as pessoas que conviviam com Padre Pio, afirmaram que quando estavam perto dele sentiam um cheiro muito forte e agradável que remetia a flores, principalmente a violeta. Quem já estava acostumado com esse aroma floral dizia que, se originava dos estigmas do padre que esse aroma nem mesmo ele sentia. Padre Pio não usava nenhum tipo de produto que tivesse algum cheiro, o único utilizado por ele, para a higienização era um sabonete sem cheiro. Dom Rossi confirma essas afirmações durante a investigação dos supostos acontecimentos sobrenaturais de Padre Pio. • Outro acontecimento extraordinário que acontecia com o Estigmatizado, é que quando sentia mal moralmente se remetendo a Deus, se sentia em uma fornalha, ele começava a ter febre que chegava a 48 graus Celsius, temperatura medida com termômetros de cavalo, pois os nor-


mais quebravam ao chegarem à temperatura máxima. É uma temperatura que humano nenhum aguentaria, e Padre Pio continuava fazendo seus trabalhos e deveres sem nenhum problema. • Padre Pio tinha o costume de receber cartas de Padre Agostinho de San Marco, de in Lamis. Até aqui nenhum problema, mas as cartas eram em francês, e às vezes em grego, ambas as línguas desconhecidas de Padre Pio. Quando interrogado sobre o assunto, atribuiu o conhecimento ao seu anjo da guarda que era seu fiel companheiro, com quem mantinha conversas e visões. • Durante as conversas que o inquisidor teve com o investigado, chegou-se a uma matéria delicada: os acontecimentos de natureza mística. Ele falou que tinha “visões más em figuras externa, ora em figuras humanas, ora de animais”, às vezes acompanhado de ruídos. Outras visões que ele tinha frequentemente, eram as aparições do Senhor, de Nossa Senhora e de São Francisco (o primeiro estigmatizado), declara ainda que essas aparições tinham por objetivo, receber exortações e até mesmo censuras a respeito de si mesmo e também de outros.( interrogatório feito no dia 15 de junho de 1021 - um dia depois da chegada do inquisidor Dom Rossi no convento) • Alguns fatos extraordinários aconteceram em volta do padre, relatado pelos companheiros do convento e confirmado pelo próprio. Barulhos estranhos eram ouvidos no convento de Foggia, enquanto a comunidade estava no refeitório e o Padre Pio na cela - doente- aconteciam aparições de animais que atacavam o padre fisicamente e amofinações diabólicas. Dons sobrenaturais Padre Pio possuía dons que são realmente difíceis de acreditar: -os escrutínios do coração; Durante as confissões, Padre Pio lembrava aos penitentes pecados esquecidos ou deixados de lado intencionalmente. Ele podia ver o coração dos penitentes e os instava a fazer confissões completas. Caso o coração estivesse endurecido, não ministrava o perdão. -as bilocações. Padre Pio possuía o dom de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Fenômeno que nem mesmo o padre sabe como acontece. Dizia que percebia a presença de esta ou aquela pessoa, este ou aquele lugar. Não sabia explicar se sua mente era transportada ou, tal representação lhe era apresentada, sem saber se seu corpo estava ou não presente. Em um dos depoimentos feitos para o inquisidor, Padre Pio expõem alguns fatos particulares: Disse que em uma noite, encontrou-se junto a um leito de hospital, onde se encontrava uma enferma: senhora Maria de San Giovanni Rotondo; enquanto estava no convento fazendo oração. Então, dirigiu palavras confortantes para a enferma, e ela lhe pedia que orasse pela sua cura. Em outro caso, ele afirma que um homem lhe foi apresentado em Torre Maggiore, enquanto estava no convento, e o padre fez censuras aos vícios daquele homem, pedindo para ele se convertesse, e algum tempo depois o homem apareceu no convento pedindo a confissão. Outro fato extraordinário em relação

ás bilocações, contado pelo superior de Padre Pio. Também em Torre Maggiore um forneiro que por não conseguir acender o forno, começou a praguejar contra o suposto “novo santo”- Padre Pio - de repente o padre lhe aparece e o forno se acende. Padre Pio podia aparecer em sonhos de pessoas desconhecidas e curá-las. Santo Era madrugada do dia 23 de setembro de 1968, enquanto Padre Pio estava com um terço na mão dizendo o nome de Jesus e Maria, foi levado para a casa eterna, depois de tanto sofrer na vida, sua morte foi suave e tranquila. Foi o dia em que ele iria cumprir a seguinte vontade: “Ficarei na porta do Paraíso até o último dos meus filhos entrar”. O processo de canonização iniciou-se no dia 29 de novembro de 1982. João Paulo II o proclama beato no ano de 1999 e no dia 16 do junho de 2002 Padre Pio é proclamado santo. E mais um milagre acontece! No dia 20 de abril de 2008, o corpo de Padre Pio foi exumado e uma surpresa! O corpo está incorrupto, nada mudou, depois de décadas. E esta exposto na igreja Santa Maria das Graças em San Giovanni Rotondo. Padre Pio mais um personagem que literalmente ofereceu sua vida para fazer parte do sacrifício no Calvário, junto ao Filho do Homem. Frases de Padre Pio - “Dirás tu o mais belo dos credos quando houver noite em redor de ti, na hora do sacrifício, na dor, no supremo esforço duma vontade inquebrantável para o bem. Este credo é como um relâmpago que rasga a escuridão de teu espírito e no seu brilho te eleva a Deus”. - “Menosprezai vossas tentações e não vos demoreis nelas. Imaginai estar na presença de Jesus. O crucificado se lança em vossos braços e mora no vosso coração. Beijai-Lhe a chaga do lado, dizendo: ‘Aqui está minha esperança; a fonte viva da minha felicidade. Seguro-vos, ó Jesus, e não me aparto de vós, até que me tenhais posto a salvo’”. - “O amor é a rainha das virtudes. Como as pérolas se ligam por um fio, assim as virtudes, pelo amor. Fogem as pérolas quando se rompe o fio. Assim também as virtudes se desfazem afastando-se o amor”. - “O santo silêncio nos permite ouvir mais claramente a voz de Deus”. - “Quando te encontrares diante de Deus, na oração considera-te banhado na luz da verdade, fala-lhe se puderes, deixa simplesmente que te veja e não tenhas preocupação alguma”. - “Quanto mais te deixares enraizar na santa humildade, tanto mais íntima será a comunicação da tua alma com Deus”. -“As almas não são oferecidas como dom; compram-se. Vós ignorais quanto custaram a Jesus. É sempre com a mesma moeda que é preciso pagá-las”. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA UTILIZADA. Livro: “Padre Pio sob investigaçao” de Francesco Castelli, Editora Paulinas, 2009, 2ª edição. Site: http://portalcot.com/br/blog/ as-frases-de-pe-pio/ Pág 45 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Kairo Neves

Tenebrae : O o

Podemos dizer que o referido ofício cuidava de levar os fiéis a uma vivência espiritual dos últimos momentos do Senhor, cuja alma vai sendo abandonada por todos aqueles que o cercavam até o momento de sua morte redentora

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*Sicut erat in principio A Semana Santa, ao longo dos séculos, desenvolveu belíssimas celebrações ao redor da Eucaristia, como a procissão de ramos, o lava-pés, a consagração do Crisma, além de todos os ritos próprios da Vigília Pascal. Outra celebração peculiar se fixou, porém, junto ao ofício divino: Ofício das Trevas. Esse ofício tinha seu lugar nas noites de quarta, quinta e sexta-feira santas. Embora fosse uma liturgia noturna, constituía-se da união entre a liturgia das vigílias e a liturgia da manhã: Laudes. Tal ofício faz jus ao nome, pois, possuía uma atmosfera revestida de dor e escuridão. O espaço sagrado permanecia imerso em trevas tendo como fonte de luz o grande candelabro de 15 velas, 14 das quais de cera crua e amareladas que representavam os 11 apóstolos (excluindo-se Judas) e as três Marias. Essas velas iam sendo lentamente apagados ao longo do canto dos nove salmos que compõem a liturgia. Ao fim do ato litúrgico restava apenas a vela branca do centro: o Cristo, que era levada para trás do altar-mor. Após os ritos finais, tinha-se um grande barulho, o streptus, feito com peças de madeira ou mesmo batendo os breviários nos bancos da igreja. Esse barulho representa o grande tremor de terra que houve quando da morte de Nosso Senhor. Podemos dizer que o referido ofício cuidava de levar os fiéis a uma vivência espiritual dos últimos momentos do Senhor, cuja alma vai sendo abandonada por todos aqueles que o cercavam até o momento de sua morte redentora. *Et nunc et semper Engana-se, porém, quem pensa que essa bela celebração é hoje peça de museu. Embora por causa das reformas muitas celebrações matutinas da semana santa tenham sido postas em horas mais tardias (diga-se de passagem, seus lugares de origem), as celebrações das trevas se mantiveram. A instrução Paschalis Sollemnitatis cita a celebração pública do ofício divino na manhã da Sexta-feira e do Sábado a fim de que os fiéis possam “contemplar em piedosa meditação a paixão, morte e sepultura do Senhor, à espera do anúncio da sua ressurreição”. O Cerimonial dos Bispos ressalta a importância desse ofício e pede que seja celebrado na medida do possível com a presidência do Bispo diocesano. Mons. Peter Elliott, bispo


ofício das trevas auxiliar de Melbourne, Austrália, dedica toda uma parte de seu Cerimonies of the Modern Roman Rite a falar sobre esse rito, bem como das várias formas de celebração. De acordo com todas as fontes, essa celebração passa a ser matutina, como convém às horas que a compõem (Ofício das leituras e Laudes). Para se conservar o seu principal aspecto, isto é, as trevas, é conveniente que tal celebração se realize antes do nascer do Sol. Os dias, como citamos acima, parecem terem se resumido à Sexta Feira e ao Sábado, o que é de se estranhar uma vez que, na forma extraordinária do rito, tem-se tal celebração na quarta, quinta e sexta antecipando quinta, sexta e sábado, respectivamente. A estrutura da celebração na forma ordinária compõe-se da união entre as duas horas canônicas que a compõem segundo as instruções contidas na Introdução Geral da Liturgia das Horas. Tendo como espinha dorsal duas grandes salmodias; preenchidas com leituras, antífonas, responsórios etc. Algumas particularidades advindas da forma antiga prevalecem: não se usam estolas ou pluviais, mas apenas vestes corais; não se usa cruz ou velas na procissão, tampouco incenso. O candelabro com 15 velas é aceso antes do início da celebração. Para ir apagando-se as velas pode-se proceder da seguinte forma: ao fim de cada salmo apagam-se duas velas (as mais extremas). Ao responsório depois de cada uma das leituras longas, uma vela. Restará apenas a vela central, que deve queimar até o fim do ofício. Cada uma das seis velas do altar são apagadas durante os seis últimos versos do cântico “Benedictus”, juntamente com as luzes da igreja que não estejam apagadas desde o início do ofício. Os últimos ritos se fazem na escuridão completa. O streptus finaliza o rito. Essa celebração tão antiga e tão bela deve ser, segundo o desejo da Sé Apostólica, mantida. Tenha-se em conta que não se trata de um ritual melodramático, mas sim de uma sublime maneira de recordar a Paixão e a Morte de Cristo por meio de sua própria liturgia, rezando os salmos, aqueles mesmos que o próprio Jesus rezou junto de sua Santa Ceia ou mesmo do alto da Cruz. *Et in saecula saeculorum. Amen.

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Coluna - Ana Maria Bueno Cunha

São João Apóstolo e Evangelista

“Atrevo-me a dizer que a flor das Escrituras são os Evangelhos e a flor dos Evangelhos é o de São João. Mas ninguém saberá compreender o seu sentido se não repousou no peito de Jesus e recebeu Maria como Mãe. Para ser João, é preciso poder, como ele, ser mostrado por Jesus como outro Jesus. Com efeito, se Maria não teve outros filhos além de Jesus, e Jesus diz a Sua Mãe: ‘Eis aí teu filho’, e não ‘eis aí outro filho’, então é como se Ele dissesse: ‘Aí tens Jesus, a quem tu deste a vida’. Efetivamente, qualquer pessoa que se identificou com Cristo já não vive para si, mas Cristo vive nele (cfr Gal 2,20), e visto que nele vive Cristo, dele diz Jesus a Maria: ‘Eis aí o teu filho: Cristo’” (Orígenes - In Ioann. Comm. 19,26-27 - Bíblia de Navarra pag 1113) Se existe um apóstolo de Nosso Senhor que nos leva a amar os tempos apostólicos e reconhecer o valor de um testemunho, este é São João Evangelista. Como uma águia, ele percorre os mistérios divinos para nos revelar Jesus Messias, o Filho de Deus, que vem a este mundo, encarnado no seio da Virgem, para nos obter a vida eterna. São João com maestria, guiado pelo Divino Espírito de Deus, nos leva ao cume da divindade de Cristo, vislumbra a Verdade e a devolve para nós, os agora seguidores de Cristo, fazendo-nos crer e desejar ser também testemunhas fiéis e perseverantes deste Filho amado de Deus. Foi o apóstolo que mais captou a essência de Deus e ao dizer: “Deus é amor”, revelou um Deus que ama, que é misericórdia e que age na história dos homens, justamente porque o ama. Mostra-nos um Deus efetivo porque “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único”. João revela o amor concreto de Deus: Jesus Cristo, o Verbo que se faz carne e salva o homem decaído pelo pecado. Sim, Jesus nos amou e amou até o fim e nos convida a amar a todos “como Ele nos amou”. Aqui se mostra - e João o faz muito bem - , a essência do Cristianismo: O pai que é amor, o Filho que corresponde a Ele se entregando como vítima de expiação e nós, que recebemos a graça, haveremos de responder também amando. Sua pequena idade, seu amor a Jesus, sua intimidade com Ele e com sua Santíssima Mãe, - porque coube a ele leva-la para casa, quando Nosso Senhor foi crucificado -, a visita ao túmulo vazio, a visão do Ressuscitado, sua presença na transfiguração e o fato de ele mesmo se chamar de o “discípulo amado”, fazem deste apóstolo uma inspiração para nós e motivo de louvores a Deus por dar tão grande graça a um Pág 48 - Ed. 5 - 2012

homem, além de fazer dele um dos principais discípulos do Senhor e sua testemunha fiel. São João era natural de Betsaida, cidade da Galileia, nas margens do famoso lago de Tiberíades. Era pescador, filho de Zebedeu e Salomé e tinha como irmão, Tiago, o Maior. João teve a graça de ter uma família envolvida com Cristo - disposta a servi-lo e amá-lo, tanto que o Evangelho de São Marcos mostra sua mãe prestando grande ajuda a Nosso Senhor, chegando com Ele até o Calvário. (Mc 15, 40-41). O exemplo dos pais, o ter sido discípulo de São João Batista e o coração de jovem, disposto a amar, aliado à graça de Deus, eram ingredientes fortes o suficiente para seu sim a Cristo e quando chamado por Ele não teve dúvidas: deixou tudo e O seguiu. Seguiu com ardor de menino, ardor de jovem, errando às vezes, mas manifestando ardentemente seu amor e desejo de mudança, tanto que teve afetos e aconchegos que a nenhum outro foi dado. A sua pequena idade lhe rendeu alguns contratempos com Nosso Senhor, mas nada que sua bondade e misericórdia não pudessem colocar no lugar tamanha petulância, afinal, foi por conta de seus arroubos de bravura, como querer mandar fogo do céu ou em não permitir que alguém que não andasse com eles falassem em nome do Senhor, que foi apelidado por Cristo, juntamente com seu irmão - como Boanarges - filhos do trovão.


Mas sua docilidade no ouvir e em efetivamente crescer, tanto que vemos lendo seus escritos, a grandeza espiritual com que ele foi cumulado, fez de São João o apóstolo mais espiritual que nos mostra os santos Evangelhos e que finalmente teve a honra de em suas visões contemplar a Deus. Jesus, Nosso Senhor, deu a ele muitos motivos de verdadeira amizade e confiança, afinal, o próprio São João se designa o discípulo amado que se deitou em seus ombros, esteve com Ele em momentos especiais e, por último, o fato de ter recebido a graça especialíssima de levar A Virgem Santíssima para casa. Tal como Cristo, conviveu intimamente com sua mãe, e com certeza, esta intimidade fez de São João este apóstolo tão amado, tão sensível aos mistérios divinos e em consequência, cresceu em santidade perseverando até o fim. As Escrituras nos mostram que São João teve uma relação muito íntima com São Pedro, tanto que já o conhecia mesmo antes do chamado de Nosso Senhor. A preparação da Ceia Pascal lhes foi confiada (LC 22,8), e na noite da paixão, diz a Tradição que provavelmente é São João que introduz Pedro na casa do Sumo Sacerdote e são eles, que juntos vão ao sepulcro na manhã da Páscoa. Não podemos nos esquecer também que São João, num gesto de docilidade e reconhecimento de autoridade, quem permitiu que São Pedro testemunhasse primeiro a Ressurreição do Senhor ao ver o sepulcro vazio. E foi São João, a reconhecer Jesus, na beira do lago, quando este já ressuscitado vem para o meio deles. Estar ao lado do chefe dos apóstolos, foi primordial para seu crescimento e para a condução de sua vida e de seus ensinamentos. São João é descrito por São Paulo como uma das colunas da Igreja de Jerusalém, onde teve papel importante na condução do primeiro grupo de cristãos. Juntamente com São Pedro, percorreu cidades, foi ao Sinédrio para defender o poder e a veracidade de seu testemunho; esteve com ele também muitas vezes no Templo para rezar. São João foi usado por Deus não para fundar comunidades, mas para levá-lo aos homens, “um verdadeiro comunicador da fé”, como nos diz o Santo Padre Papa Bento XVI em uma de suas audiências (5 de julho de 2006) A Igreja Oriental o chama de “o Teólogo”, justamente por sua capacidade de mostrar de forma visível o invisível, de trazer ao homem de uma forma acessível, o belo, o santo, as coisas divinas. A devoção a ele se consolidou a partir da cidade de Éfeso, onde lá trabalhou. Teve construída em sua homenagem, pelo

imperador Justiniano, uma basílica onde é muito venerado. É representado já em idade avançada em ato de profunda contemplação, como se convidasse a todos ao silêncio onde é possível se aproximar do mistério de Deus. O amor é o grande tema desenvolvido por São João, justamente porque viveu ao lado dele e soube ver e compreender, pela graça de Deus, seu poder e manifestação real. São João em todos os seus escritos nos convida a todos a desejar a Deus, não O temer e ter total confiança de receber o perdão caso pequemos, afinal, foi ele mesmo que nos disse que se pecarmos, é bom que saibamos que temos um justo, um intercessor, um redentor, que nos perdoa sempre e que nos leva a Deus, pela sua bondade e misericórdia. Impossível ler São João e não desejar ver a Deus. Nosso Senhor ainda lhe dá uma graça especialíssima, ser o autor de um dos livros mais instigantes da Bíblia - o Apocalipse e ele, ao contrário do Evangelho e de suas cartas, leva seu nome. Atesta sua fidelidade para podermos acreditar em sua verdade porque narrou coisas inimagináveis, mas reais, porque são inspiradas pelo próprio Deus. São João estava em Patmos, ilha do mar Egeu, deportado “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus (Ap 1,9), e fala às sete Igrejas da Ásia, que enfrentavam perseguições e dificuldades internas. Como um pai fala a elas com um zelo pastoral impressionante, solidificando sua fé e levando a todas a buscarem o bem, a justiça, a fidelidade a toda prova. A figura impressionante que São João nos faz ver em Apocalipse é Jesus como Cordeiro de pé, como que imolado, diante do trono onde Deus está sentado. Esta figura nos mostra Jesus vencedor, porque já está ao lado do trono e tem todo poder em suas mãos, pois venceu a morte, violenta é certo, mas a venceu pela sua Ressurreição. Por isso apesar de imolado, está em pé e viverá para sempre porque todo poder lhe pertence. Esta imagem não é um convite para que as comunidades e os homens resistam firmes na fé? Afinal, Cristo pela Cruz, pelo sofrimento, pela ressurreição vence a morte, e os seus, se fieis forem, vencerão também. São João mostra também a Mulher vestida de Sol e perseguida, figura da Igreja e de Maria, ambas perseguidas pelo mundo e pelo demônio porque trazem Deus ao mundo. Eles os rejeitam para destrui-los, mas o poder e a mão de Deus está sobre ambos que, apesar de toda luta, vencerão ao final de todas as coisas. São João é o verdadeiro apóstolo da esperança na luta, porque viu a vitória e nos convida a dizer como ele “Vem! Senhor Jesus! São João Evangelista - Rogai por nós! Pág 49 - Ed. 5 - 2012


Coluna - Ian Farias

O Amor serviçal de Cristo Transcorridos os quarenta dias do Tempo da Quaresma a Santa Igreja nos convida a celebrar com grande espírito de contrição, de piedade e de centralidade no mistério cristológico, o Tríduo Pascal. Dentre as várias solenidades que a Igreja nos oferece durante esse período, gostaria de debruçar-me na Missa Vespertina in Coena Domini (na Ceia do Senhor), na qual se celebra a Instituição da Eucaristia e do novo mandamento, o mandamento do amor. A celebração da Ceia do Senhor transmite-nos uma riquíssima mensagem, profunda já nos seus gestos. A primeira leitura apresentar-nos-á a narração pascal da história do povo hebreu. Ali ocorre a prefiguração da Páscoa cristã. A centralidade da temática pascal desenrola-se em torno da mesma palavra que foi sempre o centro de todo o projeto salvífico: Amor. O amor de Deus não é uma piedosa ficção. Ele não abandona o homem a si mesmo, ainda que este por vezes tente afastar-se d´Ele. Tal é o Amor que não se contenta em criar o homem, mas vem até Ele, habita em seu meio e doa-lhe a salvação. Por isso dirá o grande Doutor, Santo Tomás de Aquino: “Se Deus produziu as criaturas não é porque delas necessite, nem por nenhuma outra causa exterior, mas por amor de sua bondade” (Suma Teológica I, q. 32, a.1). Já o livro do Êxodo evoca esta intervenção de Deus na história humana. Ele não é um ser distante, mas está perto; sempre que O invocamos Ele escuta; sempre que d’Ele necessitamos está pronto a atender-nos. Antes da Festa Pascal acredita-se que ocorria uma festa primaveril de pastores nômades e com a libertação do povo do cativeiro do Egito esta comemoração ganhou novo significado: Não é mais um sacrifício de passagem (Páscoa) dos períodos invernais à primavera, mas é o sacrifício comemorativo à libertação. Este “sacrifício comemorativo” é a atualização do rito, do aconteci-

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mento salvífico. Diríamos aqui que já é uma prefiguração da Eucaristia. O próprio Deus manda que se perpetue esta festa pelos séculos: “Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações, como instituição perpétua” (Ex 12, 14). No centro, como prato-principal, está o cordeiro, imolado para que pudesse ser comido com ervas amargas e o seu sangue deveria marcar as portas das casas pelas quais não passaria o anjo da morte (cf. Ex 12, 8. 13). Devemos ressaltar também que o cordeiro representa a inocência e a falta de proteção ou ajuda. Mas se usam os hebreus o sangue de um cordeiro para que pudessem ser salvos da morte, Deus dá o Seu Filho Único, novo e autêntico Cordeiro, que dá a vida em favor dos homens e por amor deles. Ele é “o cordeiro que não abriu a boca, o cordeiro imolado, nascido de Maria, a bela ovelhinha; retirado do rebanho foi levado ao matadouro, imolado à tarde e sepultado à noite; ao ser crucificado, não lhe quebraram osso algum, e ao ser sepultado, mão experimentou a corrupção; mas ressuscitando dos mortos, ressuscitou também a humanidade das profundezas do sepulcro” (Da Homilia sobre a


Páscoa, de Melitão de Sardes, Bispo, LH vol. II p. 400). Na segunda leitura São Paulo faz uma relembrança da instituição da Eucaristia. Esse relato feito por Paulo é o mais antigo dentro da tradição literária do Novo Testamento, datado do ano 56. A fórmula, que provavelmente é datada dos anos 40, já deveria ser utilizada num contexto litúrgico-cultural. Mas aqui nos cabe uma pergunta: O que é Eucaristia? Eucaristia significa ação de graças. O termo não aparece no Novo Testamento, uma vez que só é encontrado pela primeira vez na Didaché. No Novo Testamento encontramos a expressão ceia do Senhor (cf. 1Cor 11, 20), fração do pão (cf. At 2, 42.46), para se referir ao rito. Vemos ainda um outro sinônimo ágape (Jd 12). Mas como podem relacionar-se a εὐχαριστία (eucharistia) e o αγάπη (ágape)? Já sabemos que a Eucaristia é ação de graças, reconhecimento; quanto ao ágape poderíamos, segundo a descrição paulina, apresentá-lo em três vertentes: A primeira é o amor de Deus e de Cristo ao homem, motivo da nossa salvação. A doação do Seu Filho, a encarnação, o batismo, o anúncio do Reino, a paixão, a morte e a ressurreição dão-nos a garantia de que Deus não desiste de nós; Ele sempre está disposto a acolher-nos e o Seu amor não é merecimento nosso, mas bondade d’Ele. O amor vem a nós na Pessoa do Filho, pois diz São João: “Deus caritas est – Deus é amor” (1Jo 4, 8). Ele Se humilha e ensina aos homens que o nosso dever não é buscar carreirismo. A missão da Igreja não é lutar por soberania e poder, mas servir a todos os povos, e de nenhum outro lugar, senão dessa força serviçal, que emana de Cristo, ela encontrará o verdadeiro poder, um poder superior, que não deriva de suas forças, mas do Espírito Santo. A segunda refere-se ao amor do homem a Deus e a Cristo. Deus ama sem esperar nada em troca, no entanto o homem – reconhecendo este amor capaz que doa o próprio Filho – deve ser capaz de firmar um amor recíproco, um laço indestrutível, que se preciso for leve ao derramamento do próprio sangue. Quem não ama a Deus antes de tudo, quem não entra nesta “escola do amor”, não amará também o próximo, pois de Deus nunca virá o abandono, Ele é fiel, os homens, entretanto, são passíveis de falhas; podem abandonar, podem mentir e, se não for Deus a fonte do nosso amor, perder-se-á o sentido da vida. Aquele que não vê em Deus a razão do seu existir é seco e ainda que tenha vida, é morto, não produz e nem pode permitir que outros produzam nele: “Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3, 14). Desta forma, recordemos as parábolas de Jesus sobre os banquetes e ver-se-á que sempre Ele ressalta um fator importante: seja na relação de reciprocidade para com Deus, para com o irmão ou na imprudência de estar sem as vestes devidas. “São Gregório Magno, numa das suas homilias, perguntavase: Que gênero de pessoas são aquelas que vêm sem hábito nupcial? Em que consiste este hábito e como se pode adquiri-lo? Eis a sua resposta: Aqueles que foram chamados e vêm, de alguma maneira têm fé. É a fé que lhes abre a porta; mas falta-lhes o hábito nupcial do amor. Quem não vive a fé como amor, não está preparado para as núpcias e é expulso. A comunhão eucarística exige a fé, mas a fé exige o amor; caso contrário, está morta, inPag. 52 - Ed 5 - 2012

clusive como fé” (Homilia do Papa Bento XVI na Santa Missa In Coena Domini, 2011). A terceira vertente refere-se ao amor recíproco dos homens uns aos outros. A Eucaristia tem como objetivo a nossa transformação com Cristo e com os irmãos. O homem velho deve dar lugar ao homem novo, já não mais marcado por uma vida sem objetivo e sem sentido, mas radicada no coração de Cristo. Se acima eu disse que não se pode amar ao irmão sem amar a Deus, por outro lado é bem verdade que não se pode amar a Deus sem amar o irmão, pois como diz o apóstolo: “Se alguém diz que ama a Deus, mas odeia o seu irmão, mente; pois se não ama o irmão seu a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê” (1Jo 4, 20). Estas definições não estão longe uma das outras. Todas elas têm um mesmo fio condutor; todas elas dirigem nossos olhares para um lugar: o céu. Nestes três aspectos concretiza-se a ação eucarística, a ação de graças. Deus doa, o homem reconhece e alegres celebram unidos. Retornemos à


exegese paulina. “Na noite em que era entregue, tomou o pão, dando graças o partiu, e disse: Isto é o meu corpo que se entrega por vós. Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11, 23-24). Não irei adentrar em aspectos como o horário da ceia e o seu dia, mas desejo debruçar-me nas palavras de Cristo e no mistério que as envolve. Estas palavras, proferidas também pelo sacerdote na atualização do sacrifício redentor, constituem a garantia do mandato de Cristo para que também a Igreja perpetuasse o mistério por Ele concretizado. Que noite era aquela? Não era uma noite qualquer, que passaria despercebida. Aquela noite é a noite da salvação; aquela noite é a noite do amor e do serviço; aquela noite, início dos sofrimentos de Cristo, é também a noite que iniciaria a Sua glorificação. “Tomou o pão, dando graças o partiu...”. Os pães eram sem fermento, chamados de ázimos e conservados ainda hoje nos atos eucarísticos. A ação de graças dita por Paulo é a clássica, chamada beraká judaica. O Senhor Jesus, oferecendo-se a Si mesmo, dá graças a Deus pela doação do pão, mas agradece pelo oferecimento de Si mesmo. “Isto é o meu corpo que se entrega por vós. Fazei isto em memória de mim”. Com estas palavras Jesus deixa aos discípulos a responsabilidade para atualizar o sacrifício Por Ele oferecido. “Em memória”: O termo grego usado anámnesis é memória que atualiza o fato, comemoração festiva. “Por vós”: significa o valor redentor do sacrifício de Cristo. A morte de Cristo não é desprovida de um objetivo, não é causada por uma revolução social, mas tem um objetivo: libertar-nos da morte eterna, libertar-nos da opressão do pecado. “Fazei”: Este é o preceito deixado por Nosso Senhor à Igreja, atualizar o Sacrifício e este é o preceito que a Igreja tem buscado devotamente fazê-lo durante este bimilenário.

A Eucaristia é também um olhar para o futuro, para a Parusia de Nosso Senhor, por isso dirá Paulo: “Sempre que comeis este pão e bebeis esta taça, anunciais a morte do Senhor, até que volte” (v. 26). A memória projeta-se de igual forma como esperança. Aquele que come o corpo do Senhor deve ser também o mesmo que leva esperança aos demais, que por seu exemplo é capaz de atrair muitos para que se encontrem com o Senhor e, participando do Santo Banquete, sejam um só com Ele. Chegamos aqui ao Evangelho joanino, na narração do lava-pés, sobre a qual tratarei de algumas partes. João narra-nos de forma solene o momento chegado: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegava a hora de passar deste mundo ao Pai” (Jo 13, 1). A ceia, de que fala João, diferente dos evangelhos sinóticos que a apresentam como a Ceia Pascal, ocorre aqui numa data divergente de um dia. Mas não irei ater-me à cronologia, uma vez que aqui devemos centrar-nos na mística do acontecimento. Agora é chegada a “hora” de Jesus, que foi o objetivo de toda a sua atividade desde a encarnação. Duas palavras dão sentido a esta Sua “hora”: a hora da passagem (metabaínein – metábasis), isto é, uma transformação. Ele leva consigo seu carne, o ser humano, não sendo assim somente uma “morte”, por assim dizer, de Sua divindade, mas é também a sua humanidade que padece; a segunda é a hora do amor (ágape), já definido acima. Aqui nos cabe uma pergunta: O que significa a afirmação do evangelista: “Depois de ter amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1)? Alguns comentaristas afirmam que Ele teria amado até a hora da morte, mas esta interpretação me parece restringir o amor de Cristo a um determinado tempo. Algumas traduções bíblicas afirmam que Ele teria amado até o extremo. Sim, o Senhor leva o Seu amor pelos homens até as ultimas consequências. Ele ama até o extremo, até o fim. O fim, porém, não termina na cruz para nós que hoje podemos experimentar de forma revigorada a ação salvífica de Cristo na humanidade. A certeza da morte do Senhor dirige o pensamento do homem também para a certeza da ressurreição: dor e alegria conjugam-se como necessárias para a certeza de que o amor de Deus não se finda na cruz, mas, também chega aos extremos por nós e pelos homens todos de nossos dias. Num plano mais profundo as palavras de Jesus “Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus” (v. 2). Desta forma, João deixa evidente que a traição de Judas não partiria apenas dele, mas era também uma intervenção do mal. Santo Agostinho se refere sobre isso dizendo: “Judas tinha decidido em seu coração ceder às sugestões diabólicas e trair um Mestre em quem não aprendera a conhecer a Deus. Viera ao banPag. 53 - Ed 5 - 2012


quete já com essa disposição, como explorador do Pastor, como armador de insídias ao Salvador, como vendedor do Redentor” (In Evangelium Ioannis, tr. 55, 4). A afirmação de Santo Agostinho é perturbadora. Também nós somos, sobretudo na hodierna sociedade, passíveis de cairmos nas sugestões diabólicas e trairmos a Jesus, que de nós sempre espera uma atitude de amor recíproco. Quando o exemplo de Cristo deixa de ser o modelo ideal de vivência; quando Deus é deixado em ultimo último lugar em nossa vida e no destino de nações; quando lutamos por ideologias ou ideais que abraçam o mal, assim então, Jesus é novamente traído. O cristão deve ser sempre movido pela certeza do amor de Deus, e mais ainda, a certeza da clemência e do perdão, o mesmo perdão que o Senhor concedera a Pedro e a mesma que clemência que teve para com Judas, lavando os seus pés, nos reconforta na constante busca da salvação e da certeza da reconciliação com Deus. Há também hoje aqueles que se comportam como “exploradores do Pastor”, sobretudo vemolos naqueles que desonram o ministério a eles confiado; aqueles que, em nome de uma falsa paz, uma paz opressora e injusta, silenciam. Muitos se fazem de Pastor – e isto alertara já Nosso Senhor! – mas, na verdade, agem como lobos. Se o Pastor por excelência deu a vida por suas ovelhas, sacrificou-Se a Si mesmo pela salvação dos homens, também os pastores de hoje são chamados a agir como o Senhor, a estarem de corpo e alma no Senhor, atirando-se em suas mãos e confiando em sua bondade e amparo. “Jesus, sabendo que o Pai tinha posto tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando com a toalha com que estava cingido” (v. 3). Era comum, naquele tempo, os servos ou discípulos lavarem os pés dos convidados com água, perfumes e unguentos, nos banquetes e jantares solenes, nunca, porém ,o anfitrião. Jesus surpreende a todos quando Ele o realiza. Não irei estender-me muito neste versículo, mas recordo as palavras de Santo Agostinho: “Tirou Seu manto Aquele que, sendo Deus, aniquilou-Se a Si mesmo; cingiuSe com uma toalha Aquele que recebeu a forma de servo; derramou água numa bacia para lavar os pés de Seus discípulos Aquele que verteu Seu Sangue para com ele lavar as manchas do pecado”

(Santo Agostinho, apud Santo Tomás de Aquino. Catena áurea). Os discípulos escandalizaram-se com o que estava o Mestre a fazer e Pedro trava um diálogo com o Senhor. Após muito resistir Pedro cede, antes de mais nada por ter escutado a dura palavra de Cristo: “Se Eu não te lavar, não terás parte comigo” (v. 8). Sim, se quisermos, como Pedro, ter parte com Cristo é preciso que permitamos que Ele realize em nós um “lava-pés” para a purificação dos nossos pecados.. A partir desta purificação teremos acesso ao banquete celestial, o eterno convívio com Ele. Na pessoa de Pedro, o Senhor fala a todo o gênero humano: Não coloqueis resistência à Graça que hoje vos ofereço. Permitais que eu lave hoje os vossos pés e que possais ser sinal do meu amor no mundo! Após ter lavado os pés dos discípulos e ter sentado à mesa novamente, o Senhor diz aos Seus: “Se Eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (v. 14). Antes de mais nada vale recordar que Jesus não tencionava fazer do gesto do lava-pés um rito obrigatório, mas Seu objetivo era dar o exemplo e fazer com que os discípulos pudessem imitá-lO. “Em que consiste “lavar os pés uns aos outros”? Que significa concretamente? Eis que, qualquer obra de bondade pelo outro especialmente por quem sofre e por quantos são pouco estimados é um serviço de lava-pés. Para isto nos chama o Senhor: descer, aprender a humildade e a coragem da bondade e também a disponibilidade de aceitar a recusa e, contudo, confiar na bondade e perseverar nela. Mas existe ainda uma dimensão mais profunda. O Senhor nos limpa da nossa indignidade com a força purificadora da sua bondade. Lavar os pés uns aos outros significa, sobretudo, perdoar-nos incansavelmente uns aos outros, recomeçar sempre de novo juntos, mesmo que possa parecer inútil. Significa purificar-nos uns aos outros suportando-nos mutuamente e aceitando ser suportados pelos outros; purificar-nos uns aos outros doando-nos reciprocamente a força santificadora da Palavra de Deus e introduzindo-nos no Sacramento do amor divino” (Papa Bento XVI, Homilia na Quinta-feira Santa, 2006). Peçamos ao Senhor que nos dê o dom da humildade, que não nos deixemos vencer pela arrogância e pela soberba, mas que ao fim da vida possamos dizer, com a consciência de termos cumprido o nosso dever: “Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17, 10).

“Em que consiste “lavar os pés uns aos outros”? Que significa concretamente? Eis que, qualquer obra de bondade pelo outro especialmente por quem sofre e por quantos são pouco estimados é um serviço de lava-pés. Para isto nos chama o Senhor: descer, aprender a humildade e a coragem da bondade e também a disponibilidade de aceitar a recusa e, contudo, confiar na bondade e perseverar nela”

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