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Lost in the Darkness – Vol. I – O Destino de um Vampiro

Ingryd Novaes

CAPÍTULO 01

Infância “Porque a morte é uma boca faminta e você é a maçã.” Branca de Neve e o Caçador – Lily Blake, Evan Daugherty, John Lee Hancock & Hossein Amini AMÉRICA – CIDADE DA DECADÊNCIA – SETEMBRO DE 2002

ra tudo muito branco e limpo. Tanto que doeu na vista da pequena Sônia que caminhava por um longo e vazio corredor de mãos dadas com sua mãe, Lídia. A pequena garotinha usava um lindo vestido branco com flores amarelas que sua mãe a mandara colocar. Seus olhinhos assutados percorriam todo o local sem saber como nem porque fora parar ali. A moça na recepção parecia muito sorridente. Sorridente demais para seu gosto. Tudo isso era muito suspeito e mesmo uma menina de oito anos como ela conseguia ver isso. Do outro lado de Lídia, Kelly, até então com sete anos, parecia estar alheia ao fato de que estavam dentro de um recinto estranho e muito silencioso, tendo acabado de sair do calor de sua casa, à noite, e justamente na semana em que Marco Hussett estava fazendo uma viagem de negócios e só retornaria no dia seguinte. Sônia encolheu-se ao lado a mãe. — Eu quero ir pra casa, mamãe... — disse ela com aquela vozinha de criança amedrontada. — Calma, filha — sussurrou Lídia com a voz pacificadora. — Só vamos ver o doutor e logo estaremos retornando ao nosso lar. Não se preocupe. — Onde nós estamos? — No hospital. — Por que se eu não tô doente? Lídia engoliu em seco e nesse momento, sua voz saiu esganiçada de preocupação. — Veremos, meu bem. Veremos. Sônia gemeu baixinho. http://ingrydnovaes.blogspot.com


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— Eu não gosto daqui... Lídia parou em frente a uma porta de consultório em que tinha uma placa prateada com letras gravadas em que se lia: Dr. Humberto Carneiro Psiquiatra e Psicanalista Ela bateu duas vezes e uma voz grossa falou do outro lado da porta: — Pode entrar. Lídia girou a maçaneta e abriu espaço para que as duas crianças passassem. Em seguida ela entrou e fechou a única saída atrás de si. Sônia sentiu-se claustrofóbica, embora ainda não soubesse o que a palavra significava. — Kelly, sente-se ali por favor — pediu Lídia apontando para um sofá no canto extremo da sala enquanto levava Sônia a uma cadeira mais próxima a mesa do médico e sentava-se na outra. — Muito obrigada por nos atender, Dr. Humberto. Sou Lídia Hussett — eles deram um aperto de mão. — Muito prazer. E esta pequena deve ser a jovem Sônia de quem me falou. Confesso que esperava alguém um pouco mais malcriado do que este pequeno anjo sem asas a minha frente — o Dr. Humberto sorriu simpaticamente. Tinha óculos quadrados, queixo quadrado e testa retangular. Parecia jovem com seus cabelos pretos e seu olhos à lá Sherlock Homes. E claro, aquela bata branca com seu nome gravado em azul o deixava charmoso. — Qual a situação? Sônia se encolheu na cadeira e agarrou seus pezinhos com as mãos pequeninas. Os olhos pareciam maiores do que o normal. — Bom, minha filha tem tido terrores noturnos, doutor. Sonhos estranhos em que ela acorda gritando, muito assutada — disse Lídia. Baixou a voz e inclinou-se sobre a mesa para que apenas o médico a ouvisse. — Acredita que está sendo perseguida por vampiros. Ele recostou-se na cadeira. — Algo mais? — Humberto parecia muito interessado. — Ela disse que vê pessoas no quarto dela à noite, escuta-os falando com ela! Pessoas que ficam a vigiando, querendo seu sangue. Estou muito aterrorizada, doutor. Minha filha já chegou a cortar a si mesma com a faca da cozinha para oferecer o próprio sangue em troca de paz! Temo por sua vida. Tomo cuidado para não deixa-la muito tempo sozinha... — Lídia continuou com algumas lágrimas não derramadas queimando seus olhos. Se ele ficou assombrado com tal declaração, não demonstrou. Assumiu seu papel de agente da saúde. — Como é a convivência dela na escola? http://ingrydnovaes.blogspot.com


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Lídia franziu a testa. — Ela é... muito quietinha, muito na dela. Poucos amigos, não gosta de conversar sobre o que está sentindo... Sempre a levo no parque para conhecer outras crianças e isso a tem ajudado um pouco. — Faz bem em tentar socializá-la — aprovou Humberto, pegando um prontuário em branco e começando a escrever em letra de forma. — Pelo que me contou, Sônia vem tendo delírios, alucinações, desanimo... E como não gosta de falar sobre si mesma com ninguém, receio que desconfiança excessiva também a afete — disse lastimado. — E o que o senhor acha que pode ser? — perguntou Lídia cheia de preocupação. Humberto, como que para esticar seu sofrimento, levantou-se da cadeira e caminhou até uma das estantes de aço no fundo da sala onde haviam vários livros. Apanhou um de capa verde e começou a folheá-lo. — De acordo com os sintomas que a senhora me informou, creio que este seja um caso de esquizofrenia, um tipo de psicose. Lídia respirou fundo, assimilando as informações com cuidado a partir de então. — E o que isso significa? — Psicose é uma designação comum a doenças mentais. Esquizofrenia é um quadro psicótico em que o doente perde contato com a realidade e passa a viver em um mundo imaginário. É uma doença crônica que se manifesta na adolescência ou início da idade adulta. Sônia é muito nova para apresentar tal quadro clínico e isso muito me surpreende. Lídia olhou para a filha que escutava tudo com atenção e pouco entendia. Viu Sônia abraçar a si mesma, com medo, e passar o olhar de um lado para o outro como se temesse ser atacada a qualquer instante. Humberto sentou-se e continuou: — Não se sabe quais são as causas da esquizofrenia. Dizem que a hereditariedade é algo a ser levado em consideração. Sabe-se que parentes de primeiro grau de um esquizofrênico tem chance maior de desenvolver a doença. Há algum caso como o de Sônia em sua família? — perguntou, pragmático. — Não que eu saiba. Nunca houvi falar de tal doença. — Sônia precisa fazer alguns exames imediatamente. O médico se levantou e abriu a porta do consultório para as três damas. Lídia pegou a mão de Sônia e chamou Kelly que estava agarrada a seu ursinho de pelúcia. Sônia queria ter alguém a que se agarrar.

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Enquanto ele as guiava pelo corredor, disse ainda de costas: — Devo avisá-la que não há exame laboratorial que diagnostique a doença. Vou solicitar um eletroencefalograma e um raio-x completo do crânio, mas isso apenas para descartar outras doenças. O melhor a se fazer seria um check-up em sua filha. — Hmm... — foi tudo o que o Lídia murmurou após entrar em uma sala ainda mais estranha. Sônia tremeu diante de tantos aparelhos que não sabia nomear. — Como se trata a... esquizofrenia? — Remédios antipsicóticos e acompanhamento médico constante. Temos que reinserir Sônia na sociedade, fazê-la ver que o que ela acredita que exite nada tem a ver com a realidade. Que ela pode viver em paz... Como eu disse, não há meios de curá-la, por tanto, a possibilidade de haver recaídas futuras após uma melhora em seu quadro clínico existe — tratou de avisá-la. Foi a vez de Lídia se encolher ao ver Humberto manejar a aparelhagem do raio-x e pedir que Sônia se deitasse sobre a tábua de metal. Sônia imediatamente negou-se a fazê-lo e logo apresentou veemência ao manter sua postura. Humberto ficou chocado com a força que a pequena garotinha tinha ao afastar-se de suas mãos que tentavam pegá-la a todo custo. Quando ela começou a chutar os equipamentos e quebrar frascos de medicamentos, chamou reforço. Aquele era apenas o começo de uma longa noite... Às dez horas, elas deixaram o hospital. Lídia tinha certeza de que Sônia apresentava tal doença, embora Humberto não tivesse dado o diagnóstico definitivo. Após presenciar a horrenda cena na sala de raio-x, convenceu-se de que sua garotinha estava muito doente e que faria de tudo para protegê-la contra o preconceito do mundo que viesse a cair sobre ela. Lídia estacionou o Kia na garagem de casa e Sônia foi a primeira a descer do carro, correndo para a porta de casa, gritando: — Eu nunca mais quero ir àquele lugar horroroso! Abrindo a porta espalhafatosamente, ela por fim conseguiu entrar e deu de cara com seu pai. Desajeitada, caiu para trás. Marco pegou a filha nos braços e acariciou seus cachos negros e macios que ele tanto adorava. Ela chorou em seu ombro, agarrando-se a ele em seu colo. — Hey, anjinho. Por que está chorando? — ele perguntou com a voz calma. Lídia vinha logo atrás com Kelly e foi pega de surpresa ao ver Marco em casa. — Querido, eu achei que só voltaria amanhã... — disse arfadamente. — Consegui terminar o trabalho mais cedo do que esperava. Então, aonde estavam até tão tarde? Já passou da hora dessas duas princesinhas irem dormir... — ele brincou, agachando-se para dar um abração em Kelly, sua pequena loirinha. — Temos que conversar. Sobre Sônia — Lídia franziu o cenho com seriedade. Marco, de repente, perdeu o sorriso. http://ingrydnovaes.blogspot.com


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— O que tem ela? — murmurou. — Aonde esteve, Lídia? — a voz tremulou. Ela fechou os olhos, como se sentisse mais cansada do realmente estava. Era o peso sobre seus ombros; tantos problemas, tantas preocupações... — Kelly, Sônia, vão para seus quartos. Agora. Tomem banho e depois direto para cama — ordenou. — Mas eu quero ficar com papai — protestou Sônia na mesma hora. Agora que estava nos braços de seu herói, sentia-se segura. — É melhor você ir, meu bem. Depois eu passo lá para cobrir você, okay? — ele beijou sua testa. Com esta promessa feita por Marco, Sônia saiu de seu colo sem mais protestos. Sentindo-se melhor, Sônia subiu as escadas e foi para seu quarto — o primeiro a direita — enquanto Kelly entrava no próximo. Ignorando a ordem da mãe, Sônia apenas tirou as sapatilhas e enfiou-se de baixo do cobertor. Não demorou muito até que o véu da inconsciência chegasse e a mergulhasse na escuridão. O sonho veio em preto e branco. Mais preto do que branco. Sônia estava sentada, sozinha, no vazio negro do nada, como se ela estivesse dentro de uma caixa e seu vestido de cor clara fosse o único ponto visível. E então uma luz forte como a de um farol cegou seus olhos. Imediatamente, ela os fechou. E voltou a abrir quando luminosidade parou de atingir suas pálpebras, deixando-as avermelhadas. Já mais a costumada ao escuro ela conseguiu ver que lá em cima, no invisível teto, tinha algo parecido com um refletor que fazia movimentos de rotação, girando ao redor do próprio eixo. A luz que irradiava circundava o local, formando um círculo completo e perfeito. E quando a luz iluminou o ponto metros a frente de Sônia, lá no outro extremo, ela soltou o grito. Tudo o que conseguiu ver foi dois afiados caninos na boca de um demônio sorridente que a olhava diabolicamente com os olhos vermelhos. — Eu irei te buscar — disse o demônio e a luz se foi, iluminando uma última vez o canto da boca do vampiro, ainda manchada de algo líquido e vermelho. Rápido assim. A exposição da criatura à luz não durou mais de dois segundos. Apenas o tempo de um feixe iluminar seu corpo e então fazêlo se misturar às sombras outra vez. Como um farol. Sônia acordou, suada e ofegante. Ela debilmente tentou chamar sua mãe, mas a voz não saia de sua boca. Engoliu o bolo que trancava sua respiração e desceu da cama. Do lado de fora, ela ouviu sua mãe sussurrar no corredor: — Você enlouqueceu, Marco? Sônia precisa de um médico! Ela não está bem! — Eu não acho isso, Lídia — esse era seu pai falando, sua voz calma, controlada. Sônia encostou o ouvido na porta para escutar mais. http://ingrydnovaes.blogspot.com


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— Não seja tinhoso. Nossa filha precisa de tratamento! Ela está doente, acreditando em coisas que não existem! E não venha me dizer que isso é coisa de criança porque não é! Crianças acreditam em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, não em seres sobrenaturais que querem persegui-la até a morte! — Já parou pra pensar que o que ela sonha pode ser verdade? Eu já te expliquei que... — Mas eu não quero acreditar! O coração de Sônia parou de bater apenas para voltar com um ritmo mais forte. Balançando em sua cabeça em negativa e repetindo “não” várias vezes com uma voz que não se pode chamar de audível, ela recuou e correu para o banheiro, trancando-se lá dentro. Pegou um banquinho de madeira para alcançar o seu armário de remédios. Abriu-o sem olhar para seu reflexo assutado no espelho. Pálida, apanhou uma lâmina que ela surrupiara do banheiro de seu pai e sentou-se no chão, cruzando as pernas que sumiram sob a barra de seu vestido. E começou o doloroso processo de se cortar. De lábios e mãos trêmulas, Sônia segurou o estilete com toda a firmeza que uma criança de oito anos conseguia, ignorando o quão terrível a superfície gélida parecia. Seus olhos, janelas do desespero, estavam arregalados. Lágrimas eram como fogo em sua pele sem calor. Piscou, tentando livrar-se de grande parte da umidade que deixava sua visão turva. Precisava se concentrar, focar em seu sacrifício; uma troca de vida pela paz. Primeiro um corte transversal em seu braço, muito perto do pulso... Em seguida nos ante-braços, perto da clavícula, na palma das mãos... Ela soluçava, forçando seu choro de angustiante dor a ficar preso na garganta, a não berrar por ajuda, a não produzir qualquer ruído. O doce e pungente líquido escorreu pelas feridas recém-abertas, quente e viscoso. Sônia respirava apenas superficialmente e quando ficou fraca demais para sustentar o peso de seu tronco, decidiu deitar sua cabeça no piso frio do banheiro. O vestido branco como as asas de um anjo agora estava tingido de vermelho, manchado por seu sangue. Ela fechou os olhos para a doce tranquilidade de um sono sem sonhos. Ela sorriu para a morte bem-vinda. Ela perdeu a consciência.

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Cap 1  

Leia o capítulo 01 do primeiro livro da série Lost in the Darkness.

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